terça-feira, junho 23, 2020

Não há paixão mais letal do que a que sentimos pela nossa virtude - JOÃO PEREIRA COUTINHO

FOLHA DE SP - 23/06

É a mensagem de '1984': a tirania sobre o mundo começa sempre pela guerra à linguagem


1. Soube através desta Folha que o ônibus não está mais lá. Falo do ônibus que fez sucesso no filme “Na Natureza Selvagem”, uma obra-prima inesperada dirigida por Sean Penn. O ano era 2007 e foi uma das melhores introduções ao pensamento utópico que tive na vida.

Então encontramos Chris McCandless (um notável Emile Hirsch) que está cansado da civilização. Tudo é uma mentira aos seus olhos: os pais, a escola, os amigos. O capitalismo. O mundo.

Ele, que procura uma forma laica de santidade, decide partir, abandonar o carro algures. E avançar para o Alasca, onde encontrará a solidão mais radical.

O ônibus aparece nas sequências finais, quando Chris passa a habitá-lo, a dormir nele, a comer, a ler.

Mas o corpo, macilento e frágil, começa a não suportar os rigores do estado da natureza. Nem o corpo nem a alma, sobretudo quando Chris, lendo Tosltói, encontra a frase mais luminosa e mais terrível: “A felicidade só é real quando é partilhada”.

Confrontado com esse pensamento, o rosto de Chris é consumido por um esgar de dor —física e metafísica. Na sua busca de uma pureza imaginária, ele acreditou na sua autossuficiência narcísica e foi sempre cego à presença e à generosidade dos outros. Mas agora é tarde, não há retorno.

Depois do filme, o ônibus converteu-se em atração turística e vários imitadores de Chris procuraram alcançar esse nirvana no Alasca. Alguns morreram.

De duas, uma: ou não entenderam a mensagem do filme e o seu terrível final; ou entenderam, mas o apelo do martírio falou mais alto. Não há paixão mais funesta do que a paixão que sentimos pela nossa própria virtude.

Que o digam os novos zelotes do momento, que pretendem submeter a história, a arte, o pensamento e todas as opiniões heterodoxas ao julgamento inquisitorial do presente.

Tal como Chris McCandless, eles são imunes à ambiguidade, à complexidade ou à compaixão. Querem começar do zero, transformando o presente no Alasca.

Nesse sentido, o filósofo John Gray tem razão quando, recentemente, em artigo para o site UnHerd, desautorizou qualquer comparação entre a violência dos “wokes” e a violência clássica dos bolcheviques.

Para Lênin, a violência era só um meio para atingir um fim —a famosa sociedade sem classes da teologia marxista.

Para os “wokes”, a violência é um fim em si —um momento terapêutico, ou catártico, que tem como objetivo libertar o mundo do pecado.

Se existe uma comparação válida, acrescenta Gray, é entre os “wokes” e os milenaristas medievais, que aterrorizaram a Europa com o mesmo tipo de infalibilidade moral.

A grande diferença é que os milenaristas congregavam os pobres e ofendidos que habitavam a miséria rural ou o “bas-fond” das cidades da Baixa Idade Média.

Os milenaristas de hoje provêm da burguesia urbana, letrada e afluente. Exatamente como o personagem do filme, Chris McCandless, para quem o privilégio e o conforto eram as marcas do demônio.

2. Leio na imprensa que Minnesota removeu das suas escolas “O Sol É para Todos”, de Harper Lee, e “As Aventuras de Huckleberry Finn”, de Mark Twain. Pelas razões conhecidas: existem expressões racistas nessas obras de ficção —e quanto mais depressa elas forem expurgadas do espaço público, mais depressa o racismo propriamente dito acabará por desaparecer.

A lógica é totalmente orwelliana, porque essa é a mensagem de “1984”, um romance que, sintomaticamente, virou best-seller no mundo inteiro, Brasil incluso: a tirania sobre o mundo começa sempre pela guerra à linguagem. Controlando certas palavras e abolindo outras, será possível refundar a natureza humana.

Como afirma um dos personagens mais sinistros de “1984”, o inesquecível Syme, o assalto à linguagem tem como objetivo “restringir o campo do pensamento”. E acrescenta, deliciado: “Ano após ano, [haverá] cada vez menos palavras, e o alcance da consciência [será] cada vez mais limitado”.

Sem termos acesso à linguagem do passado, viveremos literalmente na inconsciência. Até acordarmos um dia e, como o personagem Winston, sentirmos apenas a memória difusa e ancestral de que houve um tempo de liberdade em que as coisas eram diferentes.

João Pereira Coutinho
Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

Contrato fabuloso da ex de Wassef com gestão Bolsonaro ecoa poema Quadrilha - REINALDO AZEVEDO

UOL - 23/06




A vida é uma festa: Wassef e Ana Cristina, agora ex-mulher, andando de moto aquática no lago Paranoá, em Brasília. A empresa da ex tem contratos com o governo que chegam a R$ 250 milhões. Ela já foi condenada por improbidade e responde a processo por corrupção ativaImagem: Reprodução


Frederick Wassef, íntimo de Jair Bolsonaro e oportuno ex-advogado de Flávio — só foi destituído da função neste domingo — pode ter adquirido uma imprudência muito típica dos que pertencem ao círculo de influência dos poderosos, mas não é burro. Ele sabe que que mal nenhum lhe advirá por ter acoitado Fabrício Queiroz em uma propriedade sua em Atibaia. De fato, não havia ordem nenhuma de prisão contra o amigão dos Bolsonaros e das milícias. Ele não era um foragido. Nem réu é ainda. Não há crime nenhum em abrigá-lo. O problema não está aí, mas no que parece ser um círculo de amizades que pode ser chamado de explosivo. O UOL chegou primeiro ao que pode ser o paiol de pólvora da turma.

Reportagem publicada no domingo informa que Maria Cristina Boner Leo, ex-mulher de Wassef, sua amiga ainda hoje — os dois são sócios em outro empreendimento —, é dona de uma empresa que já faturou, neste ano e meio de governo Bolsonaro, em contratos com a administração federal e com estatais, a bolada de R$ 41,6 milhões. A Global Outsourcing trabalha há tempos com o governo federal. Na gestão anterior, Dilma-Temer, levou quatro anos para atingir valor parecido: R$ 42 milhões.

Segundo a apuração do Ministério Público de Contas, o valor pago na gestão Bolsonaro é, na verdade, maior: R$ 26.085.973,18 no exercício de 2019 e R$ 20.014.583,61 em 2020, totalizando R$ 46.100.556,79.

O total dos contratos chega a R$ 250 milhões. A desculpa de que as relações são antigas não cola. Contratos foram renovados no governo Bolsonaro com aditivos que somam R$ 165 milhões. E outros novos foram celebrados no valor de R$ 53 milhões. Um espetáculo!

Dado notável: a Global Outsourcing não está mais em nome de Maria Cristina. Quem responde agora pela empresa é Bruna Boner Leo Silva, sua filha, junto com sócios da empresária em outros empreendimentos. Ela já foi condenada por improbidade administrativa em primeira instância, mas recorreu da decisão.

Também é ré por corrupção ativa em processo que corre na 7ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal relativo ao chamado mensalão do DEM — o escândalo que derrubou José Roberto Arruda, ex-governador do Distrito Federal. O MPF a acusa de 168 atos de corrupção e pede pena de 15 anos e dez meses de prisão, além de ressarcimento de R$ 43 milhões aos cofres públicos.

Maria Cristina e Wassef estão oficialmente separados, mas são muito próximos. No dia da prisão de Fabrício, por exemplo, o advogado estava em sua casa. A Global Outsourcing, claro!, repudia qualquer insinuação de privilégio.

AFINIDADES ELETIVAS
Já escrevi aqui sobre as afinidades eletivas da turma. Em 2015, o então deputado Jair Bolsonaro comprou uma Land Rover preta, blindada, modelo 2010, por anunciados R$ 50 mil, embora o valor de mercado, à época, fosse de R$ 77 mil. Quem vendeu? Uma empresa chamada a Compusoftware, que pertencia a Maria Cristina. O veículo foi posto à venda em abril do ano passado.

Bruna, a filha, tem o mesmo sangue empreendedor da mãe. É dona de uma outra empresa, a Dinamo Networks, que também conseguiu faturar um contrato com um órgão público — no caso, o Banco Central — no valor de R$ 1 milhão.

O enredo das afinidades não para por aí. Paulo Emílio Catta Preta, ex-advogado do miliciano Adriano Magalhães e que agora tem Fabrício em sua carteira de clientes, é amigo de Maria Cristina e a representa em dois de seus processos.

Lembra aquele poema de Carlos Drummond chamado Quadrilha: "João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili..."

No caso, o enredo é mais complexo: Bolsonaro comprou um carro de Maria Cristina, que era mulher de Wassef, que era advogado de Flávio, que empregava Fabrício, que contratou Catta Preta, que advogava para o miliciano Adriano, que tinha mãe e mulher lotadas no gabinete de Flávio, que tinha como advogado Wassef, que abrigava Fabrício, que é amigo de Bolsonaro.

Para continuar com Drummond, agora apareceu no meio do caminho dessa quadrilha junina uma montanha de dinheiro: R$ 46,1 milhões já desembolsados pelo governo e por estatais e um montante em contratos fabuloso: um quarto de bilhão de reais. Que se faça o levantamento: poucas empresas, creio, sozinhas, mantêm vínculos tão profícuos com o governo federal.

O subprocurador geral Lucas Rocha Furtado, do Ministério Público de Contas, entrou com uma representação junto ao Tribunal de Contas da União pedindo que se apure se Wassef teve alguma interferência na relação entre a Global Outsourcing e o governo. Na representação, ele discrimina a penca de contratos em vigência.

No "Quadrilha" de Drummond, um elemento chega de fora e desestrutura a cadeia de relações. Vamos ver nesse caso.

Paciência - ANA CARLA ABRÃO

ESTADÃO - 23/06

Na ausência de planejamento, a recuperação no Brasil deverá frustrar as expectativas


O mundo parou, o Brasil parou. A atividade econômica foi desligada pela pandemia e agora começa a ser religada – de forma mais ou menos organizada, a depender da existência ou não de um plano estruturado de gestão das medidas de isolamento.

Nesse processo de volta, várias pesquisas estão sendo feitas com o objetivo de se entender o que mudou no comportamento das pessoas e qual será a intensidade da retomada econômica. Há algo de boa notícia em boa parte delas. Assim como há uma clara alteração nos padrões de comportamento das pessoas. Essas alterações deverão afetar de forma relevante as decisões econômicas dos agentes.

Pelo lado da boa notícia, há alguns sinais de recuperação da confiança. Eles estão presentes, por exemplo, no Observatório da Febraban, um tracking nacional realizado entre 1.º e 3 de junho, com uma amostra de 1.000 entrevistados que visa a representar a população adulta brasileira bancarizada. Os resultados não deixam de surpreender positivamente ao sugerirem que 49% dos entrevistados acreditam que suas finanças voltarão ao que eram antes da pandemia no prazo de até 1 ano. Desses, 21% acham que isso acontecerá ainda este ano. Quando a pergunta se volta para o Brasil, percebe-se um otimismo menor, mas algo positivo se considerarmos que 24% acreditam numa recuperação da economia brasileira em até 1 ano e outros 43% em 2 anos, ou seja, até 2022. Homens e jovens se mostram mais otimistas nas duas dimensões. Certamente porque também foram menos impactados pela crise que reforçou as desigualdades sociais, em particular as de gênero.

O Observatório segue com outras informações onde também surgem sinais de que há uma demanda que os meses de isolamento não fez sumir. Dentre os entrevistados, 14% afirmam que seu volume de compras vai crescer e 15% pretendem buscar financiamento para adquirir um imóvel residencial. Outros 14% declararam intenção de comprar um carro ou uma moto financiados. O crédito consignado aparece como a linha de desejo para 15% dos entrevistados. Desejo que certamente deixará de ser atendido se prosperar o Projeto de Lei 1.328/2020 de autoria do senador Otto Alencar (PSD-BA) e aprovado no Senado Federal na última semana. Assim como serão afetados todos os demais que indicaram a intenção de buscar linhas de financiamento e os outros 16% que demonstram intenção de recorrer a empréstimos bancários. Sim, o populismo sai muito caro e prejudica a população.

Na dimensão comportamental, segue o Observatório, 46% da população bancarizada tende a priorizar as soluções digitais, ante apenas 14% que vão se manter fiéis ao atendimento presencial. No consumo, as respostas apontam na direção de manutenção ou aumento de hábitos, como as idas ao supermercado (78%), a salões de beleza (66%) ou a comércios de rua (55%). O resultado é contudo ambíguo quando a pergunta se volta a bares e restaurantes ou shoppings, com parcelas quase iguais das pessoas entrevistadas afirmando que vão manter/aumentar ou diminuir sua frequência nesses serviços.

Há outras pesquisas circulando, todas com algum grau de otimismo e sinalizando mudanças comportamentais relevantes. A pesquisa feita pela revista Fortune, com presidentes das 500 maiores empresas mostra uma expectativa de recuperação um pouco mais lenta, iniciando-se em 2021, mas se concentrando no início de 2022. Ali também, há claras indicações de mudanças comportamentais, em particular no que tange a volta ao local de trabalho, à retomada das viagens a trabalho e à aceleração digital, todos fatores que continuarão impondo desafios às companhias do mundo todo e com grandes impactos em alguns setores econômicos.

Os desafios são muitos aqui e lá fora. Mas na ausência de planejamento, a recuperação no Brasil deverá frustrar as expectativas daqui e ficar aquém da realidade de lá. A mesma paciência que tem nos mantido em isolamento social e tantas vidas já salvou deveria se reverter em impaciência com a ausência de uma coordenação, pelo Executivo, das agendas nos diversos níveis federativos e entre os três Poderes constituídos.

Uma crise dessa magnitude exige que o Executivo defina e apresente à sociedade com clareza quais são suas prioridades no Parlamento e quais serão as ações nas áreas social, econômica e de crédito para tirar o País da crise. No campo federativo, há que se discutir como Estados e municípios poderão sair da crise fiscal que já os assolava e que agora se agravou. Não há como contar só com o otimismo do mercado e as expectativas positivas da população como motores de recuperação. À economia que já vinha frágil, juntou-se o agravamento das condições sociais e o tombo que jogou produtividade e crescimento para o campo negativo. A continuar esse quadro, nem as expectativas terão paciência.

ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN

Começam as baixas na caserna - ANDREA JUBÉ

Valor Econômico - 23/06

Prisão de Queiroz amplia desconforto no Exército


Apesar de esforços de vários atores em várias frentes para arejar a cena política, a prisão de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), aumentou a tensão em todos os ambientes, inclusive em uma das bases mais caras de Jair Bolsonaro: as esposas dos oficiais militares.

Uma evidência do derretimento da popularidade do presidente é a progressiva perda de apoio nesse segmento, refletida nos vários grupos de WhatsApp em que as mulheres dos oficiais da ativa e da reserva trocam impressões sobre os fatos políticos. A prisão de Queiroz e as circunstâncias que a envolveram provocaram uma debandada nesse grupo, inclusive de defensoras obstinadas do presidente.

Nem a saída do ex-juiz Sergio Moro do governo nem a postura negacionista de Bolsonaro sobre a pandemia - e a indiferença diante das mais de 50 mil vítimas fatais da covid-19 - haviam espantado essas apoiadoras.

Mas o esconderijo no escritório do advogado Frederick Wassef, que não saía dos dois palácios, Planalto e Alvorada, é visto como um detalhe estarrecedor. Ainda que Wassef tenha deixado a defesa do senador, até ontem suas digitais estavam lá, próximas da família, e suas declarações para tentar blindar o presidente são consideradas artificiais.

Outra convicção do grupo de mensagens das esposas é de que mais do que um auxiliar, Queiroz era um personagem do entorno do presidente, frequentador de churrascos e pescarias da família. Em um dos primeiros episódios em que se viu obrigado a esclarecer esses laços, Bolsonaro teve de responder por que Queiroz depositou um cheque de R$ 24 mil na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Um general que viu algumas das mensagens trocadas entre elas assegura que até “o grupo mais radical sumiu”. Os grupos de mensagens das esposas dos oficiais antecipam tendências, diz este general.

É uma análise sem dúvida empírica. Mas em 2018, antes dos institutos de pesquisas e dos analistas políticos, as trocas de mensagens nesses grupos já indicavam a vitória de Bolsonaro.
Se o presidente amarga as primeiras baixas no estrato feminino da caserna, generais da ativa afirmam que a prisão de Queiroz acentuou o desconforto da cúpula com a persistente vinculação do governo ao Exército.

A imagem mais clara desse vínculo para o grupo do comandante Edson Leal Pujol é a permanência de dois generais da ativa no primeiro escalão: os ministros Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, e Eduardo Pazuello, da Saúde.

É com esse pano de fundo que a cúpula militar espera que nesta semana, em que o Alto Comando do Exército está reunido para definir promoções e analisar a conjuntura, o ministro Ramos finalmente anuncie a sua transferência para a reserva.

Há 15 dias, Ramos anunciou a aposentadoria, mas não falou em data. Na próxima semana ele completará um ano como general da ativa em um cargo civil, para desassossego de Pujol.

Quanto o general Braga Netto, ainda na ativa, tomou posse como ministro-chefe da Casa Civil, para assumir a gerência do governo, em menos de um mês formalizou sua transferência para a reserva.
Aposentando a farda, entretanto, Ramos perde a oportunidade de ser indicado para a próxima vaga para o Superior Tribunal Militar (STM), que será aberta no segundo semestre de 2022, com a aposentadoria compulsória do ministro Luís Carlos Gomes Mattos.

A cúpula da caserna, entretanto, distingue a situação de Ramos e Pazuello. Ambos ainda têm um ano e meio na ativa para galgar outros postos na carreira. Mas há uma leitura de que como general de Exército, Ramos atingiu o topo da carreira - acima, só o posto de Pujol.

Enquanto Pazuello, oficial de intendência (especializado em tarefas administrativas ou logísticas), teria a prerrogativa de buscar outras colocações porque como ministro interino da Saúde estaria cumprindo missão das mais espinhosas, sem chance de deserção.

Mas se há o desconforto com o vínculo direto do governo Bolsonaro com o Exército, a cúpula militar também não está satisfeita com as recorrentes insinuações de que tentariam um golpe militar, tampouco com o que classificam como excessos de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Foi por esse motivo que o ministro do STF Gilmar Mendes pediu a audiência com o comandante do Exército na semana passada. A reunião foi salutar, mas a conversa nem de longe foi conclusiva.
Os generais reconhecem os excessos de Bolsonaro, mas da mesma forma enumeram episódios em que a seu ver, os ministros do STF teriam extrapolado.

O episódio mais recente que irritou os generais foi a declaração do ministro do STF e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, de que a nomeação de militares para vários cargos era a “chavização” do governo. “Ele praticamente nos chamou de bandidos”, indignou-se um general da ativa.

Outro gesto considerado desrespeitoso é atribuído ao decano do STF, Celso de Mello. ele incluiu no mandado para ouvir Ramos e o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, a advertência de que se não comparecessem na data agendada para a oitiva, estariam sujeitos “como qualquer cidadão à condução coercitiva ou debaixo de vara”. Eles seriam ouvidos sobre a acusação de Moro da suposta interferência política de Bolsonaro na Polícia Federal.

“Bolsonaro tem excessos, mas o Supremo está fora da casinha, o tribunal está politizado há muito mais tempo”, ressaltou um general.
A cúpula do Exército avalizou a declaração de Ramos à revista “Veja” de que os militares não cogitam nenhum golpe, mas a oposição não pode esticar a corda. O entendimento na cúpula da caserna é de que as instituições devem ser preservadas: o Judiciário, o Legislativo e o Executivo.

Investigações e processos que mirem o presidente e algum de seus familiares devem seguir o curso normal, sem açodamentos nem ardis. A reiteração do que a cúpula classifica como excessos será compreendida como cutucar a onça com vara curta. E a onça está dormindo com um olho aberto.

Entre parentes e milicianos - JOSÉ CASADO

O GLOBO - 23/06

Vínculos a Queiroz e ao falecido capitão do Bope Adriano da Nóbrega levaram o clã Bolsonaro a introduzir o submundo das milícias na rotina do Planalto e do Congresso


Resumir o atual governo talvez não venha a ser difícil para historiadores. Há 20 meses a prioridade de Jair Bolsonaro tem sido a mesma de três décadas na política, proteger a parentela, nutrida no orçamento público. “Defendemos a família”, escreveu no domingo 7 de outubro de 2018, no epílogo da primeira etapa da campanha. “Tratamos criminosos como tais e não nos envolvemos em esquemas de corrupção.”

Lá se foram 80 semanas, e o presidente continua refém da agenda que aprisionava o candidato.

Ela começa no uso do erário para acolher parentes e amigos. Vício antigo. Nos últimos 28 anos, ele e seus filhos parlamentares abrigaram mais de uma centena de pessoas com parentesco ou relação familiar.

Somaram a afinidade com lobbies de armas e de cassinos, neste caso refletindo a disputa entre grupos americanos, como o de Sheldon Adelson, e asiáticos, como o Shun Tak. Na campanha Bolsonaro se reuniu com Adelson, financiador do Partido Republicano. Entrou no hotel pela cozinha.

Até agora, o governo só conseguiu acenar ao país sob pandemia com um futuro baseado na abertura de cassinos e no comércio de armas, com isenção de rastreamento.

A retrospectiva mostra o presidente concentrado na guarida ao filho senador e ao antigo companheiro paraquedista Fabrício Queiroz, hoje em Bangu 8. Vínculos a Queiroz e ao falecido capitão do Bope Adriano da Nóbrega levaram o clã Bolsonaro a introduzir o submundo das milícias na rotina do Planalto e do Congresso.

As iniciativas presidenciais desses 20 meses foram balizadas pela proteção à parentela e amigos. Daí o repentino silêncio sobre o fim da prisão para condenados em segunda instância, a remoção do Coaf da Justiça, os acordos para bloqueio da CPI da Lava-Toga, o rompimento com o governador Wilson Witzel e a crise da demissão do ex-ministro Sergio Moro.

Na raiz está uma peculiar visão de Estado, sintetizada pelo filho Flávio numa homenagem a milicianos: “Não podemos generalizar, dizendo que esses policiais, que estão tomando conta de algumas comunidades, estão vindo para o lado do mal. Não estão.”

Anjo do anjo - CARLOS ANDREAZZA

O GLOBO - 23/06

Será Wassef o Queiroz do futuro?


Quem ouvir o senador Flávio Bolsonaro terá de repente a impressão de que nunca foi deputado estadual e de que o gabinete na Alerj era de Fabrício Queiroz. Não era; isto embora — justiça seja feita — fosse mesmo o ex-policial quem trabalhasse à vera ali. Nada a ver com a atividade parlamentar.

Quem ouvir, nos próximos dias, a família Bolsonaro terá de repente a impressão de que o destituído Frederik Wassef nunca foi advogado de Flávio e Jair Bolsonaro, e de que sua presença nos palácios onde mora e trabalha o presidente da República jamais houve. Houve; isto embora — justiça seja feita — nada de errado haja em cliente se reunir com defensor, tanto mais sendo este um amigo daquele.

Junta-se o útil ao agradável; assim se ergueu o patrimonialismo neste país.

O destino já uniu Queiroz e Wassef, o novo ex. Tudo a ver com o fato de este ter escondido aquele. Será Wassef o Queiroz do futuro? E quem seria, no caso, o Wassef de Wassef? Wassef deseja saber. Como Queiroz no passado, o advogado manda recados. Não quer ser abandonado. Teria até celular exclusivo para contatos com a família. Verbaliza mesmo a fé — pura mensagem — de que armariam contra ele para atingir o presidente. A acusação de armadilha é gentileza para com Bolsonaro; mas não turva a clareza da missiva: “eu sou você”.

Funcionou com Queiroz — logo lhe apareceu o anjo. Quem será o anjo de um anjo falador que — debatendo-se contra o fado — não parece ter vocação para Queiroz?

Seria mesmo Wassef o anjo de Queiroz?

Queiroz não foi descoberta de Flávio; uma aquisição sua para a gestão, em dinheiro vivo, do gabinete. Não. Queiroz, amigo de Jair desde que 01 era guri, foi designado pelo pai — que sempre dispôs dos mandatos dos filhos como extensões do seu. Queiroz é tanto Jair Bolsonaro quanto Flávio é Jair Bolsonaro.

Wassef tampouco foi descoberta de Flávio; uma revelação sua para a defesa judicial da família. Não. Wassef foi designado pelo pai para a defesa do clã — e ora reivindica ser Jair tanto quanto Queiroz é Jair. Intui que será investigado. A fotografia captura flagrante comprometedor: o então advogado de Flávio guardando em casa, homiziado, um outro investigado no inquérito, cuja detenção preventiva impôs-se por estar ele, desde o covil, movendo-se para obstruir a Justiça.

Isto mesmo: Wassef, defensor de Flávio até ontem, abrigava Queiroz — operador num esquema de corrupção no gabinete de seu cliente — enquanto o abrigado cuidava de interferir para dirigir testemunhas; nenhuma delas maior do que a mãe do miliciano Adriano da Nóbrega.

A senhora Raimunda Veras Magalhães esteve — longamente, assim como a nora — na folha de pagamento do gabinete; e sua movimentação em espécie é capítulo à parte. É quando entra na equação a mulher de Queiroz, Márcia Oliveira de Aguiar, ora foragida, talvez a principal agente no esforço para lesar as investigações, possivelmente incumbida de comandar o silêncio dos que compunham a vertente miliciana em que também se investiria o dinheiro amealhado por aquele modelo de rachadinha.

Lembremos. No único depoimento que deu ao MP, em fevereiro de 2019, Queiroz admitiu que o sistema de rachadinha era regra no escritório de Flávio. Apresentou, porém, ressalva que supunha atenuante: os recursos colhidos ali não iriam para o bolso do chefe, mas para um caixa paralelo destinado a ampliar, informalmente, o número de colaboradores do mandato. Ao serem contratados, os assessores eram informados de que teriam de dar parte da remuneração para sustentar aquela expansão. Tudo pago por fora — num exercício que chamou de “desconcentração de remuneração” e que seria desconhecida pelo deputado.

Com Queiroz preso, será natural que os investigadores lhe cobrem a lista desses auxiliares informais — e quanto ganhavam. Isto porque, em face do volume girado no esquema, ainda que gabinete estendido houvesse, seria algo marginal; e o MP tem como norte que esse programa de rachadinha alimentaria — aí, sim — uma indústria de lavagem de dinheiro por meio sobretudo de operações imobiliárias, entre as quais estariam contidos investimentos no ramo empreiteiro das milícias.

Exatamente: o dinheiro daquele caixa paralelo seria destinado também a financiar construções ilegais de prédios em localidades como a Muzema — ali onde dois edifícios irregulares caíram em 2019.

Rachadinha é recurso delinquente comum em legislativos Brasil adentro — já dizem os passapanistas para relativizar o crime. A prática, no entanto, agrava-se quando se questiona com que frequência terá servido para financiar a atividade econômica de milícias. Essa é, aliás, a razão por que sou cético acerca da possibilidade de Queiroz delatar. Para quê? Qual vantagem teria? Ou não será o delator aquele que entrega outrem em busca de se safar? E que alívio teria em liberdade aquele que delata uma organização criminosa conhecida por ter mui eficiente esquadrão da morte?

Haja anjo.

Medo e barbeiragem - ELIANE CANTANHÊDE

ESTADÃO - 23/06

De erro em erro, Bolsonaros embolam Queiroz, Adriano, Wassef e demonstram medo


Nesse oceano de pessoas e fatos inacreditáveis, destacam-se as barbeiragens da família Bolsonaro ao tratar do amigão Fabrício Queiroz e de todas as questões nebulosas, e sob investigação do Ministério Público, que envolvem o agora senador Flávio Bolsonaro e resvalam perigosamente para o próprio presidente Jair Bolsonaro.

Tudo começa com a rachadinha operada por Queiroz no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, chega a funcionários fantasmas ali e também no gabinete de Jair na Câmara em Brasília, evolui para suspeita de lavagem de dinheiro e traz à tona as ligações de Jair, Flávio e Queiroz com um líder da milícia fluminense, o capitão Adriano, morto pela polícia. Engrossa esse novelo Frederick Wassef, falastrão, exibicionista e longe de ser um criminalista com dimensão para representar um senador, quanto mais o presidente.

Não bastasse a barbeiragem de abrir as portas dos palácios da Alvorada e do Planalto a Wassef, que tal permitir (ou pedir?) que ele escondesse Queiroz na sua casa de Atibaia? Não foi Queiroz que se meteu lá. Logo, meteram o Queiroz justamente na casa do advogado do presidente da República e do seu filho senador. Equivale a jogar Queiroz definitivamente no colo de Bolsonaro e Flávio. Coisa de gênio.

A barbeiragem seguinte vem com as reações de ambos. Numa live para tentar dizer que não tem nada com Queiroz, Jair põe-se a defendê-lo. A prisão foi “espetaculosa”, o amigo não estava foragido e não havia mandado de prisão contra ele, mas “pareciam estar prendendo o maior bandido do mundo”. Bolsonaro está solidário com o amigo que quebrava os maiores galhos do filho? Ou não pode atirá-lo às feras porque Queiroz tem muito revelar?

Segundo depoimentos, Queiroz chegou chorando e muito abalado à prisão no Rio, o que é uma péssima notícia para Jair e Flávio Bolsonaro. Nada pior do que um potencial homem bomba imprevisível e desestruturado emocionalmente, inclusive porque sua mulher, Márcia, fugiu e pode entrar para a lista de procurados da Interpol. Aliás, ela própria tem muito o que contar, se contar.

Outra barbeiragem é o advogado de Queiroz. Nada contra ele, mas contra a simbologia. Paulo Emílio Catta Preta era advogado do miliciano Adriano. Aprofundar os elos entre Queiroz, Adriano, Flávio e Jair Bolsonaro? Depois de Flávio condecorar o líder da milícia, Jair elogiá-lo publicamente e a família empregar a mãe e a mulher dele em seus gabinetes?

A primeira família tem de se preocupar também com Wassef, que está em evidência – e adorando. Se usufruía da intimidade dos Bolsonaro a ponto de abrigar Queiroz em casa, ele sabe de muita coisa. E não tem cara de guardar segredos, nem de dar a vida por alguém. Daí porque enxotaram Wassef dos casos de Flávio, mas o senador fez rasgados elogios ao enxotado em redes sociais: “A lealdade e competência do advogado Frederick Wassef são ímpares e insubstituíveis”. A cobrança de “lealdade” e o adjetivo “insubstituível” para quem está sendo substituído têm um sinônimo: medo.

E aí vem a última barbeiragem - até agora. O substituto do insubstituível Wassef é respeitável, mas foi advogado de Sérgio Cabral e de militares acusados de “excessos” na ditadura. Cabral é um dos maiores símbolos de corrupção. E a sensação de que generais sugeriram advogado para o caso Flávio-Queiroz vai na contramão do desejável: que eles fiquem (ficassem) a léguas dessa lambança toda.

É hora de todos desconfiarem de todos e de todos quererem se livrar de todos – presidente, Flávio, militares, Queiroz, Márcia, Wassef, advogados, a mãe e a mulher de Adriano -, mas quanto mais barbeiragens vão fazendo, mais eles se embolam perigosamente. O clima é de medo. E isso tudo ainda vai muito longe.

Uma retumbante banana ao STF e ao Brasil - CRISTINA SERRA

FOLHA DE SP - 23/06

Esse foi o último ato de Abraham Weintraub ao escafeder-se na calada da noite


Em um ano e quatro meses na cadeira de ministro da Educação, o que fez Abraham Weintraub? Boneco de ventríloquo de um astrólogo de araque, dedicou-se a atacar os pilares da universidade genuinamente democrática: a inclusão, a diversidade e a autonomia de gestão. Cortou verbas, programas, bolsas de pesquisa. Tentou nomear interventores, iniciativa felizmente anulada.

Antes de escafeder-se na calada da noite, revogou portaria que reservava cotas para negros, índios e portadores de deficiência em cursos de pós-graduação. E deixou no Congresso o mal formulado projeto de lei “Future-se”, que muda a forma de financiamento do ensino superior. Por vício de origem, tal “legado” merece apenas um destino: a lata do lixo.

Weintraub semeou desvarios ideológicos e distorções históricas, como a infame referência à “noite dos cristais”, na Alemanha nazista. De sua boca suja porejaram ofensas, conforme registrado no vídeo da indecorosa reunião do dia 22 de abril: “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia, começando no STF”. Como é próprio dos covardes, fugiu para não ter que responder a dois inquéritos na corte.

Weintraub e educação não combinam na mesma frase. Que isso tenha acontecido, nesse desvão da história em que estamos atolados, é uma desonra à memória de gente como Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e Paulo Freire, pensadores da educação como forma de emancipação civilizatória.

Em janeiro de 1989, o Brasil parou para assistir ao último capítulo da novela Vale Tudo. Na última cena, um executivo mau caráter fugia do Brasil num jatinho, dando uma banana para o país. A cena me ocorreu quando soube da fuga de Abraham Weintraub para Miami, usando indevidamente a condição de ainda ministro para burlar a proibição da entrada de brasileiros nos EUA. Ao que tudo indica, Weintraub cometeu mais um crime, segundo ele mesmo, com a ajuda de “dezenas” de pessoas. Seus cúmplices. Em seu último ato, Abraham Weintraub deu uma retumbante banana ao STF e ao Brasil.

Os tuítes de Weintraub



Cristina Serra
Cristina Serra é jornalista.

'Eu não sabia' tornou-se um código da desfaçatez - JOSIAS DE SOUZA

UOL - 22/06


A coreografia executada na troca do defensor de Flávio Bolsonaro acentua a degradação da situação política do clã presidencial. No momento, o principal álibi dos Bolsonaro no caso da rachadinha é o cinismo. A exemplo de Lula, que "não sabia" da existência do mensalão; ou de Dilma, que não sabia que o PT e seus aliados plantavam bananeira dentro dos cofres da Petrobras; Flávio e Jair Bolsonaro, que nunca souberam das estripulias financeiras de Fabrício Queiroz, também não sabiam que o faz-tudo estava guardado num simulacro de escritório que o advogado da família, Frederick Wassef, mantinha em Atibaia.

A prisão de Queiroz, na semana passada, deixou Fred, como o agora ex-advogado dos Bolsonaro é chamado na intimidade do Alvorada, mais próximo da condição de investigado do que da posição de defensor. A troca de advogado tornou-se inevitável. Fred ainda não explicou como Queiroz foi parar no seu imóvel. Mas ele matou a encrenca no peito. Assumiu toda a responsabilidade pela irresponsabilidade ainda pendente de explicação.

Ironicamente, a lambança foi elogiada por Flávio Bolsonaro, que enalteceu "a lealdade e a competência do advogado Frederick Wassef". E lamentou que, contra a sua vontade, o doutor tenha deixado a causa. Os elogios do Zero Um são tão sinceros quanto o medo de que o agora ex-defensor se torne um detrator, jogando segredos no ventilador. O novo advogado de Flávio, Rodrigo Roca, atuará em parceria com a colega Luciana Pires, que já auxiliava a defesa do filho do presidente.

A dupla requereu ao Ministério Público do Rio de Janeiro que Flávio seja ouvido. Trata-se de uma mudança de estratégia. Até aqui, o primogênito fugia dos depoimentos. Agora, quer acomodar nos autos do processo a versão segundo a qual seu patrimônio é compatível com a renda e que não tinha conhecimento do que Queiroz fazia no seu gabinete na época em que era deputado estadual.

Nesse ritmo, o "eu não sabia" passará à história como uma espécie de código da desfaçatez. Sempre que a expressão é mencionada, a plateia já sabe que aqueles políticos que se apresentavam como exemplos de retidão pedem para ser vistos como cegos abobalhados, incapazes de enxergar o que acontece ao seu redor.

Confundindo as coisas - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 23/06

Talvez não passe pela cabeça do presidente que os problemas que ele e os bolsonaristas enfrentam na Justiça sejam fruto de suspeitas de malfeitos diversos


O presidente Jair Bolsonaro enviou três representantes graduados para conversar com o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes na sexta-feira passada. Consta que foi um gesto político de Bolsonaro para tentar construir um canal de diálogo com o Supremo, depois de sucessivos reveses judiciais de bolsonaristas, do próprio presidente e de seus familiares.

Bolsonaro parece, mais uma vez, confundir as coisas. Talvez imagine que seus dissabores no Judiciário tenham sido motivados por ressentimento dos magistrados diante dos constantes reptos que há tempos lança contra o Supremo – inspirando inclusive seus seguidores e até um ministro de Estado a defender explicitamente o fechamento da Corte e a prisão de seus ministros.

Talvez não passe pela cabeça do presidente que os problemas que ele e os bolsonaristas enfrentam na Justiça sejam na verdade fruto de consistentes suspeitas de malfeitos diversos, que devem ser devidamente investigadas. Bolsonaro parece julgar que um gesto seu de apaziguamento seria suficiente para interromper esses processos, que os bolsonaristas entendem ser “políticos”.

Nesse sentido, a escolha do ministro Alexandre de Moraes para receber a visita dos emissários de Bolsonaro tinha o objetivo específico de afagar aquele que hoje concentra alguns dos mais espinhosos casos envolvendo bolsonaristas no Supremo. Não se sabe se o ministro Alexandre de Moraes se deixou comover pela atitude de Bolsonaro, mas é improvável que a embaixada bolsonarista tenha o efeito desejado pelo presidente.

Tampouco há notícias de que o ministro pretenda mudar o curso dos processos que preside depois que Bolsonaro, como suposta prova de disposição ao diálogo, sacrificou seu ministro mais bolsonarista, Abraham Weintraub, porque este havia ofendido os integrantes do Supremo.

O Supremo já deixou claro, em diversas oportunidades, que não se dobra nem às ameaças nem às artimanhas de Bolsonaro. Há hoje na Corte clara disposição de seguir adiante com as investigações que podem comprometer os camisas pardas bolsonaristas, alguns dos parlamentares mais fiéis ao presidente e um punhado de empresários acusados de financiar a máquina de destruição de reputações a serviço do bolsonarismo. Um dos processos, inclusive, pode levar a questionamentos a respeito da lisura da campanha que elegeu Bolsonaro em 2018.

A esta altura, é preciso ser muito ingênuo para acreditar que o presidente queira realmente distender sua relação com o Supremo, especialmente depois de ter dito, quase sempre aos gritos, que era preciso impor “limites” àquela Corte, que não cumpriria ordens judiciais “absurdas” e que “está chegando a hora de tudo ser colocado no seu devido lugar”. E ingenuidade não parece ser um traço encontradiço entre os ministros do Supremo.

Bolsonaro não está, como nunca esteve, interessado em “harmonia” com os demais Poderes, pois essa palavra não consta do léxico de um movimento que surgiu com o objetivo explícito de desmoralizar as instituições democráticas que se interpuserem em seu caminho. É o confronto permanente que justifica e alimenta esse movimento liberticida, razão pela qual todo recuo é apenas tático, quando não simplesmente um embuste para enganar incautos.

O aceno do presidente ao Supremo é, assim, somente uma encenação de maus atores, incapazes sequer de fingir que aceitam a democracia. Um presidente que espera que a mais alta Corte do País se submeta a seus caprichos só porque mandou ministros para uma visita de cortesia ou porque demitiu um ministro inconveniente é um presidente que não entendeu nem seu papel institucional nem a Constituição do País que governa.

Confiar na disposição de Bolsonaro para buscar uma “trégua” é o mesmo que crer em sua capacidade de se tornar o estadista que ele jamais foi. O único propósito do presidente é atrair o Supremo para seu pantanoso território, em que os interesses privados de sua encrencada família são confundidos com os mais altos interesses públicos.

Espera-se que o Supremo resista a mais essa tentativa do presidente de envolvê-lo em politicagem rasteira e, estritamente conforme a lei, determine diligentemente a punição dos que cometeram crimes, sejam eles quem forem.

Um golpe que passa do delírio à farsa - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 23/06

Com a descoberta de Queiroz, devem ganhar nitidez ligações perigosas do clã Bolsonaro com o submundo das milícias


Os delírios golpistas do bolsonarismo que surgiram com ares de tragédia se aproximam da farsa. O fraseado do ex-capitão, modulado nos 28 anos de baixo clero na Câmara, em favor de torturadores do ciclo de chumbo da ditadura militar, as ameaças ao Supremo, as palavras de ordem de pequenos grupos por um novo regime de exceção verde-oliva gritadas em manifestações bolsonaristas, mantendo o ex-capitão no Planalto, prenunciavam um impossível retorno ao início dos anos 1960, sem Guerra Fria e sem comunistas escondidos em todos os lugares, mas prontos para conseguir o que não foi possível no levante fracassado de 35, a Intentona.

Ainda houve tentativas de criá-los usando redes sociais e seus robôs. Sem sucesso, porque não há mais União Soviética e nem existe o comunismo. A verdade é que não se sustenta algum discurso pretensamente civilizado para justificar o estrangulamento da democracia. Uma das virtudes inalcançáveis deste regime é que ele pode ser aperfeiçoado sem cataclismos políticos, econômicos, sociais, humanitários. No Brasil, o golpe bolsonarista, se fosse possível, implicaria um regime de força, truculento, isolado no mundo, com uma economia já conectada a mercados globais, em um país com mais de 200 milhões de habitantes, repleto de desníveis sociais, mas com todas as condições de reduzi-los dentro das liberdades constitucionais.

Bolsonaro sempre foi transparente ao pregar inconstitucionalidades. Não deveria surpreender. Na crise da saída de Moro, afirmou que desejava fazer trocas na sua “segurança” — era na Polícia Federal, nunca se teve dúvida —, porque queria “interagir” com o comando da PF, a diretoria-geral e a superintendência do Rio, área sensível para o presidente e família — sabe-se cada vez mais por quê —, sempre preocupado com que investigações e denúncias pudessem ser feitas contra “amigos” e filhos.

Porém, amigos e um filho já haviam entrado no radar de instituições que coíbem crimes, o que explica a sensibilidade presidencial ao tema. Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz são investigados pelo Ministério Público do Rio, e Fabrício desde o final de 2018. O noticiário sobre o roubo de dinheiro público por meio do esquema na Assembleia Legislativa fluminense batizado de forma singela como “rachadinha” concorreu por espaço na imprensa com a formação do governo e a posse do presidente.

Não deixaram de ser veiculadas informações sobre o caso, mas o novo governo era insuperável como fator de atração das atenções. O caso da “rachadinha” criou tensões no Supremo, depois da decisão monocrática do presidente da Corte, ministro Dias Toffoli, tomada a pedido da defesa de Flávio, de paralisar todas as investigações iniciadas com base em relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), sobre movimentações bancárias atípicas que não houvessem tido autorização da Justiça em todas as suas etapas de elaboração.

Muitos inquéritos sobre lavagem de dinheiro ficaram em suspenso junto com os de Flávio e Queiroz, já então desaparecido. O Brasil chegou a ser ameaçado com a saída de acordos multilaterais que facilitam a troca de informações entre os Estados nacionais, para coibir crimes financeiros, crescentemente globais, cometidos para esconder grandes volumes de dinheiro gerados na corrupção, no tráfico de drogas e armas, em todo tipo de operação gerenciada pelo crime organizado. O plenário da Corte reviu aquela decisão, e o próprio Toffoli recuou no julgamento final.

O processamento das informações sobre as traficâncias financeiras de Flávio Bolsonaro, com a ajuda de Fabrício, terminou sendo retomado no MP do Rio de Janeiro, e parte das descobertas foi conhecida com o resgate de Queiroz, que se escondia numa casa em Atibaia, próximo a São Paulo, de propriedade de Frederick Wassef, advogado do presidente da República. O imóvel parecia receber uma maquiagem para parecer um escritório de advocacia do novo frequentador assíduo do Alvorada e do Planalto, e dessa forma se beneficiar da inviolabilidade legal do espaço de trabalho dos advogados. Mas a polícia chegou antes, na quinta-feira.

O PM aposentado, amigo de Jair Bolsonaro e depois dos filhos, comprovadamente pagou despesas de Flávio e família com dinheiro de origem desconhecida. Todas as evidências indicam que veio do desfalque nos cofres públicos dado com a subtração de parte dos salários dos assessores do ainda deputado estadual Flávio, muitos deles da família de Queiroz e de Bolsonaro. Este tem de ser um negócio em família, literalmente.

Junto com a descoberta de Queiroz sob proteção do advogado presidencial devem ganhar nitidez ligações no mínimo arriscadas do clã Bolsonaro com o submundo das milícias cariocas. O próprio Queiroz explorava transporte de vans em Rio das Pedras, Zona Oeste do Rio, QG de uma quadrilha de bandidos fardados — da ativa ou da reserva. É preciso muita intimidade com os homens fortes do pedaço para entrar nesses negócios.

O bolsonarismo entra agora em nova fase, pelo menos em um primeiro momento menos voluntariosa. Diante do que já se sabe e do que está por vir, é natural que todos se perguntem — incluindo militares que emprestam a honorabilidade da instituição ao governo — qual mesmo o objetivo do golpe de que tanto se fala. Ou pelo menos se falou. Se não há comunistas, e o país demonstra ter instituições que garantem a governabilidade, resta a suposição muito plausível de que tudo é mesmo para proteger família e amigos, num puro estilo caudilhesco. Esta é a farsa.

segunda-feira, junho 22, 2020

Os quatro cavaleiros do terror - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 22/06

Só a destruição em massa de populações e instituições altera a desigualdade


Uma expressão que me causa especial desgosto é “o novo normal”. Não porque não ocorram mudanças decorrentes de epidemias, maiores ou menores, mas porque no mundo de hoje, no qual o marketing é a ciência fundamental, tudo fica ridículo quando a intenção primeira é a venda de uma visão de mundo açucarada para deixar as pessoas ainda mais infantilizadas do que já estão.

Hoje vou indicar um dos antídotos que temos à mão: um livro. O autor, o historiador Walter Scheidel tem uma hipótese muito consistente, chamada de “os quatro cavaleiros da igualdade social”, contra o montante de bobagens que anda circulando por aí, confundindo, como de costume, pensamento público com marketing de ideias.

Ele foi recentemente entrevistado nesta Folha, por ocasião do lançamento, no Brasil, do seu “The Great Leveler”, lançado pela Princeton University Press em 2018 e que aqui ganhou o título de “Violência e a História da Desigualdade – Da Idade da Pedra ao Século 21”.

Segundo o autor, a normalidade social por longos períodos sempre tende a acumular riqueza nas mãos dos mais ricos e a aumentar a desigualdade social. Só grandes devastações em larguíssima escala alteram a desigualdade —e, mesmo assim, após a normalização que se segue, a desigualdade retoma seu curso.

Para quem não lembra o que é desigualdade social ou pobreza em larga escala (sei da diferença conceitual entre as duas, mas não vou dar atenção a isso por aqui porque não é necessário), eu lembro: desigualdade social é o que faz com que políticas sanitárias na América Latina conhecidas como “lockdown” sejam, basicamente, cercar bairros periféricos ou favelas com alto índice de transmissão da Covid-19 e impedir que seus moradores circulem pela cidade, fazendo com que, assim, não contaminem o resto da população, inclusive parte da inteligência pública alienada.

Sei que belas almas entendem esse processo de maneira diferente, pois sempre confundem o Brasil com a Dinamarca, mas nada temos a fazer em relação a isso. Aliás, no mínimo dois países na América Latina colocaram esse tipo de política em prática, cercando seus bairros pobres.

Voltemos aos quatro cavaleiros da igualdade social. Segundo Scheidel, a desigualdade caminha passo a passo com a normalidade social. Os fatores dessa desigualdade surgiram já desde o Neolítico e se acentuaram com o tempo.

A sorte biológica (que se materializa em mais saúde e em boa hereditariedade tanto em relação a sua origem quanto em relação a sua descendência), as leis que normatizam a transmissão de riquezas materiais e imateriais (fator essencial para a tal segurança jurídica e comercial), as vantagens geográficas, a capacidade técnica de colher, cuidar e assegurar a riqueza acumulada, os governos e as religiões (instituições que trazem exatamente essa segurança), tudo isso são elementos da normalidade social e histórica.

A interrupção desse curso normal das coisas, contudo, só ocorre quando quatro fenômenos acontecem.

O primeiro são as guerras profundas, capilarizadas, amplas, industrializadas, duradouras —caso das duas guerras mundiais, das guerras napoleônicas e da Guerra Civil Americana, por exemplo. São conflitos com capacidade de matar pessoas em um nível gigantesco e de destruir a estrutura social, política e econômica existente.

O segundo fator são as revoluções, como a soviética e a chinesa, que mataram pessoas aos milhões e geraram uma guerra civil de capacidade devastadora.

O terceiro, a falência absoluta do Estado em uma determinada sociedade, levando ao caos social, político e econômico e debilitando a sociedade ao ponto de quase extinção.

O quarto? Pandemias. Porém, não esta pela qual estamos passando, que, até onde vemos, não terá nenhum efeito devastador se comparada a outras tantas. Trocando em miúdos, uma epidemia só consegue mudar alguma coisa de fato se matar milhões e milhões de pessoas, destruindo a sociedade de forma a ela não conseguir se retomada do ponto em que se encontrava.

Sim, apenas a destruição em massa de populações inteiras, instituições, redes de circulação de produtos e infraestrutura produtiva pode alterar a desigualdade social —e, mesmo assim, após a normalidade retomada a duras penas, a desigualdade tende a voltar.

Portanto, você e seu narcisismo brincando de home office não vão alterar nada na ordem desigual em que vivemos. Aliás, pelo contrário: deve piorar.

Estantes no vídeo - RUY CASTRO

Folha de S. Paulo - 22/06

Ninguém dá entrevistas online na frente da geladeira ou do armário das panelas


Aldir Blanc, uma das grandes perdas impostas pela Covid, não podia ver uma foto em jornal de alguém diante de uma estante. Saía de lupa a ampliar a foto para ler os títulos nas lombadas dos livros. Aldir queria saber o que aquela pessoa gostava de ler e se tinha livros que ele ainda não tivesse e talvez precisasse ter. Lia dia e noite, sem parar. As fotos o mostravam em seu apartamento, na Muda da Tijuca, quase soterrado por eles. Se Aldir não tivesse sucumbido ao coronavírus, estaria hoje dando entrevistas online cercado por seu mundo de livros. Não seria exibicionismo e nem ele teria escolha. Eles tomavam os aposentos.

Transmissões online abundam agora na programação, e todo mundo aparece com uma estante ao fundo razoavelmente suprida de livros. Ou as pessoas lêem mais do que imaginávamos ou descobriu-se que a estante é o móvel mais nobre da casa, donde ser o cenário ideal. Não vi até agora ninguém se postar na frente da geladeira ou do armário das panelas. Não que não sejam também móveis da maior dignidade --- mas talvez uma parede com caçarolas não tenha o mesmo appeal de uma prateleira de livros.

Devido à alta incidência de estantes no vídeo, eu próprio passei a tentar decifrar os títulos nas lombadas e, pelo que já vi, cada entrevistado está bem servido de livros sobre sua especialidade. Os comentaristas políticos têm biografias de políticos; os esportivos têm histórias sobre futebol; os economistas, teorias econômicas.

Com uma exceção. Sempre que vejo o ministro da Economia Paulo Guedes na TV, ele está, sim, diante de uma estante, mas tristemente vazia exceto por alguns bibelôs e objetos não identificados. Zero livros.

Como o ministro se gaba de conhecer todas as teorias econômicas --- “no original”, frisou ---, imagino que tenha feito isso por correspondência. O que sua prática no ministério de Jair Bolsonaro, por sinal, demonstra.


Acreditem, caros! Devemos ser gratos por Bolsonaro e Queiroz serem quem são - REINALDO AZEVEDO

UOL - 22/06


Acabou a farra. Devemos, e peço que atentem para a ironia, ser de algum modo gratos a Fabrício Queiroz por continuar, mesmo escondido, a ser quem era. Imaginem se Jair Bolsonaro fosse mesmo um homem reto, fanaticamente apegado àqueles valores que ele solta da boca para fora, cercado de amigos de moralismo não menos severo, apegados a uma vida espartana, vocacionados para a moralização do processo político. A esta altura, só o chicote nos contemplaria, não é mesmo?

Até quarta-feira da semana passada, bastava que Bolsonaro se zangasse um pouco — e ele tende a se zangar por qualquer coisa —, e logo se falava em golpe. Como ele se expressa mal em português, com alguma frequência, a gente nem sabia o motivo da braveza.

Carlos, por seu turno, dizia coisas que nem pareciam deste mundo nas redes sociais, mas sempre convocando a voz das trevas. E Eduardo, o intelectual da família — para o padrão do clã, é claro —, soltava seus borborigmos filosóficos sobre ruptura institucional, ao mesmo tempo em que fazia lobby em favor de uma empresa de armas, tentando arrastar o Exército para o, digamos assim, negócio. E pronto!

Lá íamos nós, da imprensa, a fazer, sim, a nossa parte, mas ecoando, de algum modo, as ameaças imundas, ajudando a criar o caldo em que se cultivavam, além de coronavírus, outros patógenos — estes a ameaçar a democracia.

Lá íamos nós, da imprensa, a ouvir militares em off a anunciar que, com efeito, parte dos fardados andava mesmo insatisfeita com o STF, que estaria invadindo a competência do Executivo.

Lá íamos nós a interpretar sinais da caserna, ora porque os fardados falavam em excesso — os do governo —, ora porque silenciavam: os da ativa.

Eis que vem à luz o decreto de prisão de Fabrício Queiroz na quinta-feira. E, então se assiste a uma espécie de conversão rápida de Bolsonaro à democracia, ainda que pela via do silêncio. Pronto! Acabou a vontade de falar em golpe. Imagino a melancolia de alguns fardados, com ou sem pijama, quando ficaram sabendo de detalhes do despacho do juiz Flávio Itabaiana de Oliveira Nicolau.

Fabrício estava homiziado numa casa de Frederick Wassef, em Atibaia, advogado de Flávio Bolsonaro (consta que não mais desde este domingo) e, jurava ele, também do presidente, de quem é amigo e interlocutor habitual, sendo frequentador do Palácio. A família o chama "Anjo".

Apresentou-se de pronto para defender Fabrício o advogado Paulo Emílio Catta Preta, um defensor dos caros, que também advogava para miliciano já morto Adriano Magalhães da Nóbrega, chefão do tal Escritório do Crime.

Ficamos sabendo que a mulher de Fabrício, Márcia Oliveira de Aguiar, igualmente com prisão decretada, mas foragida, estivera em Minas com Raimunda, mãe de Adriano, para planejar, segundo o Ministério Público, a fuga de Queiroz. Participou da reunião Luís Gustavo Botto Maia, advogado de Flávio em causas eleitorais e um de seus homens de confiança.

Coloquem aí na conta: tanto a mulher de Adriano como Raimunda constavam da folha de pagamentos do gabinete de Flávio quando deputado estadual. O miliciano fez repasses para a conta de Fabrício no valor de R$ 400 mil.

O despacho de prisão traz a imagem de Fabrício pagando em dinheiro vivo mensalidades escolares das filhas de Flávio. Entre 2013 e 2018, 53 boletos passaram pelo mesmo expediente, totalizando R$ 153.237,65. O mesmo se deu com plano de saúde: 63 boletos em grana viva, num total de R$ 108.407,98.

Mesmo escondido em Atibaia — de onde saiu algumas vezes —, Fabrício procurava mexer seus pauzinhos. Ao receber uma mensagem de voz da própria mulher relatando dificuldades que um amigo do casal tivera com milicianos no Rio, ele promete intervir, deixando claro que tem acesso à cúpula da bandidagem. Instava, segundo conversas captadas, os envolvidos na rachadinha a não depor e coordenou, ao menos em um caso, o esforço para fraudar provas, tentando forjar assinaturas retroativas do ponto na Alerj para simular vida real de funcionários fantasmas.

O passado arrombou a fantasia golpista de Bolsonaro, o suposto moralista que teria vindo para acabar com os males do mundo. Golpe? Então o partido verde-oliva botaria suas armas a serviço do crime organizado, para entronizar o poder paralelo das milícias e para, em nome da pátria, oficializar o banditismo no poder?

Acho que não! Em matéria de desonra, ainda que indiretamente, as Forças Armadas já chegaram ao fundo do poço. É hora de bater em retirada, voltando às funções estritas que lhes reserva a Constituição. Fabrício é um problema de Bolsonaro, não do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. E quem se encarrega da questão, numa face, são o Ministério Público, a Polícia e a Justiça; na outra, é a política.

Todo golpe na democracia é uma desonra. Mas é preciso haver ao menos uma desculpa verossímil. Nesse caso, seria qual? A defesa da hora das forças paramilitares de Rio das Pedras?

Por que o Zoom cansa tanto? - RONALDO LEMOS

FOLHA DE SP - 22/07

Por mais que a imagem tente nos enganar, o fato é que não estamos olhando para ninguém


Circulou pela rede nos últimos dias um vídeo do ministro Gilmar Mendes que captura o momento após ele participar de videoconferência por Zoom. Nos segundos finais da reunião, o ministro está ainda sorridente e cordial. Tão logo a reunião termina, sem saber que a câmera e o áudio estavam ativos, o ministro bufa alto e solta um sonoro palavrão.

Acredito que a maioria das pessoas irá se identificar com essa exasperação. O fim de uma videoconferência é realmente um momento singular, que mistura sentimentos como raiva, cansaço, estresse e alívio.

Surgiu até uma expressão em inglês para definir esse momento: “Zoom fatigue” (fadiga de Zoom), em referência à cada vez mais popular plataforma. A origem dessa fadiga tem razões que merecem análise. Fazer uma videoconferência longa com câmera ligada envolve um esforço de comunicação que não é nada natural.

Por mais que a imagem queira nos enganar que estamos olhando e interagindo com pessoas, a verdade é que não estamos olhando para ninguém, mas sim para uma tela.

Nas relações pessoais físicas, a interação em “tempo real” permite construir confiança mútua pela leitura de sinais como expressões faciais, postura corporal e o fato de os envolvidos estarem vivendo uma mesma experiência de tempo e espaço.

Já a convivência em uma videoconferência é sempre dissociativa. O tempo até pode ser o mesmo. Mas o espaço e as experiências compartilhadas são radicalmente diferentes. Uma pessoa pode estar fazendo a reunião da cozinha de casa, outra do escritório, outra do carro e assim por diante, cada uma em um contexto social e emocional totalmente distinto.

Além disso, é impossível ler com precisão os sinais de quem está do outro lado. O emissor não sabe como o receptor reage à sua mensagem. Ao mesmo tempo, todos ficam prisioneiros de um quadrado virtual fixo, determinado pela câmera.

Para piorar, há o problema de para onde olhar. Se o participante olha para a câmera, isso produz um efeito positivo no receptor, que fica com a sensação de estar sendo olhado “nos olhos”. No entanto, gera um efeito contrário no emissor, que se desconecta da expressão facial da pessoa e passa a focar não um olho humano, mas sim o minúsculo e perturbador buraco negro da câmera, posicionada no topo da tela.

Se a decisão é olhar para o rosto da pessoa, ela pode estar posicionada no canto inferior esquerdo da tela. O ouvinte se conecta aos olhos dela, mas, para quem está falando, fica parecendo que a pessoa está com o olhar enviesado. Um desencontro total. O resultado de tudo isso é o cansaço, o estresse, a raiva e a frustração causados pela artificialidade das reuniões virtuais.

Ficam aqui duas singelas sugestões para mitigar o problema. Para os designers das plataformas, quando alguém falar, coloque o quadradinho da pessoa exatamente ao lado de onde a câmera estiver, e nunca em lugar oposto a ela.

Já para todos nós, que tal combinarmos o seguinte: é totalmente aceitável fazer uma videoconferência sem ligar a câmera. Isso reduz a dissociação entre tempo e espaço, o estresse e o desencontro entre os participantes. O ministro Gilmar Mendes e eu agradecemos.

READER

Já era Achar que assinaturas digitais são um tema de menor importância

Já é
 Modelo de assinaturas digitais no Brasil que depende do “Certificado Digital”

Já vem
 Medida provisória que pode levar a lei que melhora as assinaturas digitais no país

Ronaldo Lemos
Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

O governo Bolsonaro esfarela - LEANDRO COLON

Folha de S. Paulo - 22/06

Vendo o precipício se aproximando, o presidente se segura no centrão


O governo de Jair Bolsonaro acelera cada vez mais o passo para um esgotamento político irreversível. Fica a questão sobre até quando o país suportará essa sangria.

Sem ministros efetivos na Educação e na Saúde, o governo é negligente e omisso no combate a uma pandemia que já matou 50 mil e atingiu 1 milhão de pessoas em três meses.

O presidente foi encurralado pelo escândalo do ex-assessor do filho, o agora senador investigado no esquema de desvio de salário de assessores nos tempos de Assembleia no Rio.

Empresários e políticos aliados do Planalto são personagens principais dos inquéritos no STF que apuram atos antidemocráticos e disseminação de notícias falsas, as fake news.

Acuado, o governo lança mão de subterfúgios diplomáticos para facilitar a saída do país de um ministro demissionário para os Estados Unidos.

O presidente é alvo de investigação no Supremo pelas acusações de interferências no comando da Polícia Federal para atender a interesses pessoais e familiares.

Nem a economia salva. Afinal, por onde anda o natimorto Pró-Brasil, anunciado com pompa na escandalosa reunião de 22 de abril? Assim como não sabia onde estava Queiroz, Bolsonaro também não deve ter ideia do destino do programa.

Vendo o precipício se aproximando, o presidente se pendura no centrão. O mesmo centrão que fingiu prometer apoiar Dilma Roussef na véspera da votação que abriu seu processo de afastamento em 2016.

Bolsonaro emite escassos sinais de fôlego e tem exibido um semblante abatido, como ocorreu na quinta-feira (18) no vídeo da demissão de Abraham Weintraub e na live semanal.

Enfim, o Brasil vai aguentar mais dois anos e meio de um governo esfarelado?

As ações de cassação de chapa que correm no TSE são lentas e dependem de novos fatos, sobretudo do caso das fake news no STF. Outro processo impeachment certamente seria doloroso e desgastante para o país, mas Bolsonaro parece buscá-lo diariamente.

Modos sobrevivência e governabilidade - DENIS LERRER ROSENFIELD

ESTADÃO - 22/06

O presidente não foi eleito para cuidar dos filhos, mas para orientar um projeto nacional


O presidente Bolsonaro entrou no modo sobrevivência, que deve ser distinguido do modo governabilidade. Conforme o primeiro, ele orienta todas as suas ações para se manter no poder, sem nenhuma preocupação com o Brasil, procurando apenas conservar o mandato. Pelo segundo, ele teria de ter projetos, ideias e meios de execução, o que implicaria um governo moderado, sem conflitos e provocações, voltado para a articulação política.

A parceria com o Centrão, por exemplo, se faz sob o modo sobrevivência, mediante a distribuição de cargos em órgãos e empresas estatais, em flagrante contradição, aliás, com sua própria narrativa. Não importa, visto que necessita em torno de 200 deputados para evitar o processo de impeachment e sempre pode haver desfalques. Entre o mandato e a narrativa, o presidente já fez a sua opção, com evidentes prejuízos perante a sua rede de apoiadores digitais.

Daí não se segue, porém, que ele adquira governabilidade, pois isso significaria a capacidade de aprovar projetos de lei e emendas constitucionais, tendo, por sua vez, como condição a existência de ideias a serem apresentadas. Até agora, só tivemos ideias ao léu. E não se recorra à pandemia como justificativa, pois a inércia governamental é anterior a ela. O projeto de privatização e concessões apresentado com grande fanfarra mostrou-se raquítico. Também não foi apresentado nenhum projeto de reforma tributária, administrativa ou política. De novo, só falas e mais falas sem consequência, senão a demagógica.

O presidente encontra-se numa encruzilhada. Se permanecer orientado pelo confronto incessante, produzindo inimigos reais e imaginários, desgastará ainda mais o seu prestígio, pondo o modo sobrevivência em risco. O modo governabilidade, por seu lado, nem seria levado em consideração. Conseguiu ele até mesmo um prodígio: uniu o Supremo Tribunal em nome da defesa da Constituição! Até então quase tínhamos 11 Supremos, como se cada um fosse uma ilha de decisões monocráticas. Agora surge um coletivo. Nesse sentido, não tem por que o presidente reclamar da consequência de suas ações.

Seu risco aumenta ainda mais se sua erosão continuar se propagando pela opinião pública, atingindo até mesmo a sua rede de apoiadores. Muitos se sentem já abandonados, acionando, neles também, o modo sobrevivência. Se até pessoas próximas do presidente, como o ex-policial Fabrício Queiroz, são presas, o que podem esperar os demais? Se apoiadores importantes sofrem mandados de busca e apreensão ou quebras de sigilo bancário, onde fica a tão apregoada proteção presidencial ou de seu clã familiar? E se esses vierem a ser ainda mais atingidos? Até o modo sobrevivência naufragaria, pois o próprio apoio do Centrão tampouco é incondicional e perene, depende das circunstâncias. Nenhum partido ou parlamentar comete suicídio político.

Isso significa que o presidente deveria adotar o modo governabilidade. Considerando a sua família e a sua personalidade, as suas chances são pequenas, porém não desprezíveis. Ou seja, a moderação e a prática democráticas deveriam ser o seu norte, abrindo-se ao diálogo e à articulação política. Não poderia o presidente permanecer refém de sua linha ideológica, com ministros utilizando constantemente a polarização amigo/inimigo, como se o Brasil fosse uma mera preocupação lateral. O presidente deveria, nesse sentido, fazer uma reforma ministerial baseada em critérios técnicos, voltados para o progresso, abandonando suas posições anticientíficas e o confronto com os governadores. O Brasil acumula cadáveres e o presidente finge que nada é com ele, num menosprezo indizível pelo outro, pelos que sofrem e morrem aos milhares pelo País afora.

O presidente deveria olhar menos para a sua família e mais para o Brasil. Não foi eleito para ser pai e cuidar dos filhos, mas para orientar o Brasil num projeto nacional. Muitas esperanças foram nele depositadas e muitas foram as desilusões causadas. Jair Bolsonaro está cada vez mais isolado - isolado do Supremo, isolado da Câmara dos Deputados e do Senado, isolado da grande imprensa, isolado em parte dos outros grandes meios de comunicação, isolado progressivamente da sociedade em geral.

Sob o modo defesa, diz falar pelo povo, como se ele mesmo fosse o povo, ou a Constituição, numa espécie de delírio totalitário. Ou, ainda, confundindo os seus apoiadores digitais ou as pequenas aglomerações na saída do Palácio da Alvorada com expressões “populares”. O arremedo de participação, tendo como coadjuvante a mera demagogia, cobra o seu preço na insensatez crescente.

Urge que o presidente entre no modo governabilidade, pois apenas o modo sobrevivência não lhe permite aguentar mais dois anos e meio. Não aguenta porque o Brasil não aguenta. Desemprego aumentando, renda caindo e o PIB não se recuperando são fatores que podem terminar tornando viável o impeachment. A moderação e o abandono do conflito podem tornar-se, assim, condições da preservação mesma de seu mandato. Hoje está a perigo!

Do tamanho de um cometa - FERNANDO GABEIRA

O GLOBO - 22/06

A gigantesca tarefa de evitar um golpe é, infelizmente, apenas uma. Há ainda a tarefa de solidariedade


Ironicamente, um governo machista que cultua armas pode descrever seu maior abalo com um poético símbolo fálico: um pênis do tamanho de um cometa. Foi assim que Fabrício Queiroz descrevia o futuro que esperava o grupo em torno de Bolsonaro.

Ironicamente, Fabrício se escondeu no sítio de um amigo em Atibaia. E a operação que o encontrou foi denominada Operação Anjo, em homenagem ao advogado da família Bolsonaro, acusado, no passado, de bruxaria.

O Brasil é um desafio para os romancistas. A tempestade perfeita acabou se abatendo sobre Bolsonaro: inquéritos sobre fake news e manifestações ilegais, militantes presos, deputados com sigilo bancário quebrado.

E, finalmente, a prisão de Queiroz. Não era o homem mais procurado do país. Mas era o mais solicitado. De todos os cantos brotava a pergunta: onde está Queiroz? Queiroz estava escondido na casa do advogado da família Bolsonaro. Para uma operação no nível de segredo de Estado, é de um amadorismo comovente.

A exposição dessas operações suspeitas de Bolsonaro talvez o enfraqueça nas Forças Armadas, bicho-papão com que ele nos ameaça a cada momento. Os militares têm aceitado tudo. Desde os ataques à República até a necropolítica de Bolsonaro na pandemia de coronavírus. Nos ataques à Proclamação da República pelo menos ficaram calados, não os endossaram. Mas a política de Bolsonaro é executada por um general da ativa que quer nos entupir de cloroquina porque seu líder assim o determinou.

A sorte é que nem sempre acertará no alvo. Confunde hemisférios e coloca o Nordeste acima da linha do Equador, e chama Rio Branco de estado. Sua imprecisa pontaria geográfica talvez nos ajude a sobreviver.

Também entre os que esperavam um combate à corrupção, Bolsonaro vai se enfraquecer. Aliás já estava se enfraquecendo com a queda do Moro. Caiu nos braços do centrão e agora vem à tona o esquema de Queiroz e seus milicianos.

Não creio, entretanto, que a situação ficou menos tensa. Ao contrário. Quem se sente encurralado tem mais chances de buscar ações desesperadas.

Antes da queda de Queiroz, comecei a escrever um artigo partindo de uma frase de Skakespeare em Hamlet: “Ai ai de mim por ver o que vejo.”

Era um artigo para lembrar que falhamos na pandemia, apesar do tempo de preparação. Perdemos mais gente, empregos e tempo por causa de nossa incapacidade nacional.

Estamos às vésperas de um novo desafio: uma profunda crise econômica e social. Onde Paulo Guedes vê um futuro brilhante, vejo suor e lágrimas, mais suor do que lágrimas, adaptando a famosa frase de Churchill aos trópicos.

A gigantesca tarefa de evitar um golpe é, infelizmente, apenas uma. Há ainda a tarefa de solidariedade e construção da mínima rede social num país que se dissolve.

Costumo dar como exemplo Paraisópolis. Imagino que sejam contra Bolsonaro, pois estive lá e vi como sofreram com a violência policial. Agora na crise, conseguiram uma ambulância, médicos, lugares para isolamento, criaram um sistema defensivo. Eles sabem que são tarefas do Estado, mas não podem esperar.

Uso esse pequeno exemplo para mostrar que em escala nacional não basta a grande batalha para derrotar o projeto autoritário de Bolsonaro. É uma luta que tomará tempo e, enquanto isso, o país continuará sangrando.

Tenho andado pouco pelas ruas. Mas percebo um número maior de gente em dificuldade. Conheço muitos moradores de rua do meu bairro. Alguns documento com fotos ao longo dos anos.

Nas poucas saídas, percebi que mudou a população de rua. Procuro alguns que conhecia e suspeito que morreram. Ao mesmo tempo, surgiram muitos novos, famílias inteiras.

A pandemia ainda nem acabou, e estamos diante de uma situação em que não podemos perder de novo. A imagem no exterior se evaporou. Nosso soft power — cultura, simpatia, natureza — foi para o espaço. O Brasil se isolou.

Mas ainda não desapareceu. Dai a histórica dimensão da tarefa. O único consolo é acreditar que a história não coloca problemas que as pessoas não possam resolver.

domingo, junho 21, 2020

Aquilo que me nutre - LEANDRO KARNAL

ESTADÃO - 21/06

Se fosse possível oferecer um menu a Dolly, ela latiria feliz com os xaropes para tosse


Dona Yeda chegara aos 83 anos viúva. A situação financeira era confortável. O marido a deixara bem. Os filhos a visitavam regularmente e, apesar da empregada durante o dia, ela insistia em morar sozinha. “Já cuidei de muita gente, agora eu quero paz”, repetia a senhora diante da insistência familiar por uma acompanhante noturna. Sua companheira de velhice era uma cadelinha maltês que a seguia como uma sombra. Dolly tinha chegado semanas antes do falecimento do dr. Samuel. A empatia entre as duas tinha sido imediata.

Mulher de hábitos pétreos, a senhora acostumara-se a fazer sempre do jeito dela. “Personalidade decidida”, dizia sua simpática funcionária da casa – “Teimosa como uma mula”, garantia o filho do meio. Exemplo? Havia muitos remédios diários para os males da idade. Eram sete pela manhã e quatro antes de dormir. Ela colocara todos em uma caixa de papelão na cozinha e, duas vezes ao dia, ficava retirando cada medicamento da sua embalagem para tomar. A primogênita comprou um separador. Dona Yeda elogiou como era prática a invenção: bastava abrir a tampinha e colocar todos na mão! Não era necessário pegar os óculos e examinar cada caixa. “Que bom, minha filha”, ela disse beijando a testa de Ana. Sim, era bom e era diferente; e a mudança de rotina era o grão de areia que a ostra de Yeda jamais transformaria em pérola. Quando a jovem virava as costas, ela retomava o hábito de separar uma a uma cada drágea, relendo as receitas de uma imensa junta médica, que ia do cardiologista, passava pelo reumatologista, até chegar ao geriatra. O processo era demorado e demandava uma ordem de memória e organização que já tinham desaparecido sob os belos cabelos brancos daquela senhora.

Remédios e idade são coisas triviais. Havia algo original. Nem sempre firme com as mãos, olhos se adaptando às lentes multifocais que o oftalmologista prescrevera, a matriarca deixava rolar pelo balcão da cozinha algum comprimido, quando não derrubava toda a embalagem ao chão. Mal caía algo colorido ou branco do céu, a cadela, na terra, devorava com rapidez e gula. Sim, aos pés de dona Yeda, Dolly ficava atenta, aguardando. Era o desespero dos filhos e a alegria do animal.

O veterinário tinha profetizado o fim precoce de Dolly ao constatar o fato por exames. Os filhos compravam novos e belíssimos estojos separadores de remédio. Ignorando-os, as duas, Yeda e Dolly, firmes e constantes, locupletavam-se de delícias químicas. Ainda que a veneranda senhora reclamasse da voracidade da pequena fêmea com a farmacopeia, era, reconheça-se, uma espécie de comunhão. Elas dormiam juntas, comiam juntas, assistiam horas intermináveis de TV lado a lado e, claro, tomavam juntas seus remédios. Conheciam-se pelo olhar. Amavam-se. Na saúde e nos remédios, na alegria e no antidepressivo: ambas sabiam que o casamento era pleno. Havia desconfiança de que, no fundo, Dona Yeda fosse como o rei Sardanapalo da lenda pintada por Delacroix: queria partir levando tudo o que amava em vida. Se o mundo prescrevia um amplo leque químico de produtos contra os desgastes do tempo, ambas seriam salvas ou envenenadas lado a lado. “Quanto tempo terei ainda de vida?”, perguntava a senhora para a cadela. O olhar do bichinho parecia dizer: “Pouco... como eu”. A brevidade da existência consolava ambas.

Dolly continuava firme e bem abastecida com aspirina cardíaca e remédio contra o lúpus. O comprimido mais apreciado era a ampla e gelatinosa cápsula de ômega três, a panaceia que garantia vida eterna e com saúde. Ela mastigava o metotrexato da artrite reumatoide da dona com um pouco mais de resignação. Talvez já estivesse desenvolvendo um senso gourmet para os fármacos. Porém, se fosse possível oferecer um menu ao animalzinho sobre suas preferências de mezinhas, ela latiria feliz com os xaropes para tosse. Eram a crème de la crème das beberagens. Bastava a mão trêmula de Yeda pegar da colher e a cadelinha lambia os lábios feliz. Algo pingava sempre e, em mostras da eficácia do remédio contra reumatismo, ela saltava no ar para alcançar a chuva.

Aos 90 anos bem vividos e felizes, Dona Yeda cerrou seus olhos diante da família chorosa. Dolly foi levada ao velório e ficou ao lado do caixão, talvez esperando que, uma última vez, algo caísse para ela poder saciar sua fome interminável de progressos farmacêuticos. Debalde!

Levada para a casa da filha Ana, sem remédios, o animal definhou rapidamente. O veterinário não conseguia identificar o mal. Tristeza? Talvez. Vinte e sete dias após o caixão da dona ter sido baixado ao solo, os filhos da matriarca entregavam o corpo de Dolly ao cemitério de animais. A falta de remédios e a melancolia combinaram-se de forma fatal. A mais velha lembrou de uma frase latina que vira tatuada em uma foto de Angelina Jolie: quod me nutrit, me destruit. Sim: o que me nutre me destrói, o que desejo me desgasta, o que mais quero me mata. Boa semana para todos.

Ativismo legislativo - SAMUEL PESSÔA

FOLHA DE SP - 21/06

Com Executivo sem liderança, Congresso fica sensível a interesses particulares


O Senado, na quinta-feira (18), aprovou o projeto de lei 1.328, que posterga o pagamento das parcelas do crédito consignado por 120 dias.

Segundo o texto, "ficam excepcionalmente suspensos, durante 120 dias, inclusive nos contratos firmados na vigência do estado de calamidade pública, os pagamentos das obrigações de operações de créditos consignados em benefícios previdenciários, bem como para servidores e empregados públicos e do setor privado, ativos e inativos".

O que chama a atenção é a elegibilidade da suspensão a trabalhadores ativos e pensionistas que não tiveram nenhuma perda de renda em razão do estado de calamidade pública.

A justificação da emenda que estabeleceu o texto acima assevera que os pensionistas e os trabalhadores ativos "se transformaram na única fonte de renda e esteio de um número considerável de famílias, sendo os responsáveis por dar apoio financeiro e sustento aos filhos, netos e familiares que tiveram sua renda reduzida ou vieram a perder seus postos de trabalho em razão da crise instalada e do momento caótico vivenciado no país".

Entende-se a preocupação social dos senadores, mas me parece que houve aqui ativismo legislativo. Não houve perda de renda diretamente para o pensionista ou para o trabalhador.

Há a possibilidade de que pessoas próximas a ele tenham perdido renda. Mas há também a possibilidade de que essas pessoas tenham alguma compensação, afinal o governo tem gasto muitos recursos em programas de sustentação de renda das pessoas mais desfavorecidas.

Há inúmeros trabalhos acadêmicos que mostram que a criação do crédito em consignação reduziu muito o risco para a instituição financeira e, consequentemente, reduziu muito a taxa de juros cobrada do tomador de empréstimo.

A decisão do Senado reduz a qualidade da renda do salário como colateral para o empréstimo. Com o tempo, se medidas como essa se tornarem corriqueiras, o custo para o tomador se elevará.

Uma das dificuldades que temos tido no enfrentamento da epidemia e no desenho das políticas públicas é a falta de liderança da Presidência da República.

Ao não exercer essa liderança, o Executivo deixa muita responsabilidade ao Congresso Nacional, que, de forma descentralizada, vai tomando decisões sem olhar as políticas públicas de enfrentamento do estado de calamidade social de forma integrada. Há duplicação de esforços, e o custo para a sociedade do enfrentamento da epidemia pode ser maior.

Os dados indicam que o custo para o Tesouro Nacional com a epidemia tem sido maior do que o gasto de nossos pares latino-americanos. Já éramos o país com a maior dívida pública. A discussão do Orçamento de 2021 não será fácil.

O presidencialismo brasileiro requer que o presidente lidere. Não é do perfil de Bolsonaro exercer essa liderança. Nossa experiência é que, nesses momentos, o Congresso fica muito sensível às pautas que atendem aos interesses de grupos da sociedade, os interesses particulares.

Por exemplo, é de suma importância que o novo marco regulatório do saneamento básico seja aprovado e que haja espaço para a maior participação do setor privado no setor. A pressão dos sindicatos do funcionários das empresas estatais dificulta que essa pauta ande.

Ocorreu assim na Assembleia Constituinte de 1988. Um presidente que era mais fraco do que os governadores –que haviam sido eleitos– acabou por gerar um Constituição Federal fortemente influenciada pelos interesses particulares e corporativistas.

Por caminhos diferentes estamos cometendo o mesmo erro.

Samuel Pessôa
Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV) e sócio da consultoria Reliance. É doutor em economia pela USP.

Crítica descabida - MARCOS LISBOA

FOLHA DE SP - 21/06

Banalizando a banalidade do mal


Em 1999, o prefeito de Nova York tentou impedir o Museu do Brooklyn de realizar exposição com obras polêmicas, incluindo uma que ofendia a sensibilidade religiosa de cristãos.

O museu não cedeu, e o prefeito cortou as verbas concedidas pelo município. Floyd Abrams liderou a defesa do museu perante a corte federal. O resultado foi uma vitória acachapante.

O governo não tem o direito de censurar trabalhos que considere moralmente impróprios ou que agridam à religiosidade. Nenhuma autoridade pode determinar o que seria aceitável em temas de opinião. As verbas para o museu deveriam ser integralmente preservadas.

Tão importante quanto a defesa feita por Abrams foi o que ele se recusou a fazer. Antes do julgamento, ele tomou conhecimento de um trecho do diário de Goebbels, que assumira a gestão da cultura em razão de uma exposição que desagradara a Hitler:

"Caso os vienenses contestem, todos os subsídios do Reich serão cortados. Isso, claro, significa a morte da vida cultural de Viena".

Abrams pensou mencioná-lo como exemplo de censura exercida pelo autoritário de plantão. Concluiu, porém, que a analogia com o prefeito seria obviamente falsa em razão das circunstâncias e prejudicaria a defesa do museu.

Na última semana, Mansueto Almeida anunciou sua saída da Secretaria do Tesouro. Alguns aproveitaram para criticá-lo por ter aceitado trabalhar neste governo e resgataram uma expressão de Hannah Arendt: a banalidade do mal.

Arendt, porém, utilizou-a ao escrever sobre o julgamento de Eichmann, o burocrata anódino que organizara o transporte de judeus para campos de concentração.

Podemos repudiar as manifestações do presidente, mas não a democracia que o elegeu. Muitos de nós jamais cogitariam trabalhar neste governo. Outros agem de forma diferente para cuidar da coisa pública. Tema de opinião, não de legalidade.

Mansueto é um servidor público cioso do seu ofício e aberto ao contraditório. Sua serenidade e meticulosidade têm sido essenciais para o debate sobre os dilemas da economia.

Impecavelmente, ele consegue relevar as críticas virulentas e sempre convida ao diálogo, explicando com cuidado os dados e as opções de política pública, mesmo que na contramão do discurso oficial.

O Tesouro Nacional tem alertado sobre problemas que outros prefeririam ignorar. Não há notícia de artifícios contábeis que escondam da sociedade a gravidade das contas públicas, ao contrário do que ocorreu em gestão passada. A cada um o seu quinhão pelos atos que pratica.

A liberdade de expressão deve proteger até mesmo a crítica descabida. O único risco é tornar seus porta-vozes comparáveis ao governo que desprezam.

Quando a plateia atua - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 21/06


"Amor, ganhamos convite para a estreia da peça do...". "Não vou." "Posso terminar de falar? É de um ator amigo nosso."

"Agora é que não vou mesmo." "Mas..." "Se você fizer muita questão, iremos outro dia, comprando nós mesmos nossos ingressos, sem que ele saiba que estamos na plateia. Se a gente não gostar da peça, sai de fininho."

Fui testemunha desse diálogo meses atrás, quando éramos felizes e não sabíamos: os teatros estavam abertos e pulsantes. Agora, impedidos de frequentá-los, restam apenas as histórias de coxia.

Vai-se ao camarim, depois de um espetáculo, para confraternizar, mas, dependendo da apresentação, pode acabar em saia-justa. Se você detestou a peça, o que vai dizer quando for cumprimentar o elenco? Inversão de papéis: a plateia é que precisa atuar quando as cortinas se fecham e encerram um vexame cênico.

Um conhecido meu, ator carioca, recebe convite para a estreia de todos os espetáculos em cartaz. Não vai de jeito nenhum. É um crítico feroz de quase tudo o que assiste e não tem jogo de cintura para rapapés. Sabe que seria falta de educação receber um convite de cortesia e emudecer sobre o que viu, desaparecer sem dar nenhum feedback, então ele prefere comprar o próprio ingresso e ir na segunda ou terceira semana da temporada, quando ninguém percebe que ele está no escurinho do teatro. Se gostar da peça, aí sim, vira um lorde, não economiza nos elogios.

Eu vou bastante ao teatro e quase sempre gosto muito do que vejo, mas já aconteceu de eu ter que fazer um "teatrinho" na saída, dizendo que adorei o que não adorei tanto assim. Por isso, prefiro ir ao camarim desejar "merda" aos amigos antes da função começar. Não é o ideal, por diversas razões. O elenco está se vestindo. Se maquiando. Se concentrando. Você pode flagrar alguém pelado. Mas ao menos o entusiasmo é genuíno, você não precisa interpretar um personagem canastrão. Jamais esqueci a vez em que vi um sujeito invadir um camarim distribuindo comentários magníficos, quando todos o haviam flagrado roncando durante dois terços da peça.

Por ora, este problema está contornado. Vem aí o projeto Teatro Já. Espetáculos online transmitidos ao vivo. Peças de talentos como Ana Beatriz Nogueira, Paulo Betti, Emilio Orciollo e Marcelo Serrado, com ingressos a apenas R$ 10 (informe-se no site teatropetragold.com.br). Você assiste em casa, tomando um vinho, sem que ninguém repare caso você durma no meio da sessão. Melhor que isso, só quando voltarmos ao prazer supremo de assistir, frente a frente, grandes atores em cima de um palco - com direito a uma passadinha no camarim depois, para cumprimentá-los com toda sinceridade.


Investir com os recursos das reservas? - AFFONSO CELSO PASTORE

ESTADÃO - 21/06

Suponhamos que fosse possível contornar a regra do teto de gastos e usar um valor em torno de 5% do PIB das reservas internacionais para financiar investimentos em infraestrutura. Defensores da ideia diriam que estaríamos apenas trocando um ativo com um baixo retorno social, as reservas, por outro ativo com um elevado retorno social, uma melhor infraestrutura.


Como as reservas seriam “excessivas”, pois devido à recessão estamos caminhando para um superávit nas contas correntes, não teríamos de nos preocupar em reduzi-las. Nunca, em toda a minha carreira de economista, com mais de 45 anos como professor, vi tantos erros em um único argumento.

Erro #1: Do ponto de vista contábil, o déficit nas contas correntes é o excesso das importações de bens e serviços (mercadorias, fretes, seguros, viagens internacionais) sobre as exportações, mas, do ponto de vista econômico, ela é o excesso da absorção doméstica (consumo das famílias, mais investimentos em capital fixo, mais o consumo do governo) sobre o PIB. Se destinarmos 5% do PIB para os investimentos em capital fixo (é isto que são os investimentos em infraestrutura), elevaremos a absorção em 5 pontos de porcentagem do PIB, o que significa que, se as contas correntes estivessem em equilíbrio, chegaríamos a um déficit de 5% do PIB.

Como nesta recessão caminhamos para um pequeno superávit nas contas correntes, com esta medida chegaríamos a um déficit um pouco menor do que 5% do PIB.

Erro #2: O que interessa não é apenas o saldo em contas correntes, e sim o do balanço de pagamentos como um todo, que inclui a conta financeira e de capitais. Toda a acumulação de reservas realizada pelo Brasil foi exclusivamente devida aos superávits nas contas financeira e de capitais, com contribuições importantes dos investimentos estrangeiros diretos e dos investimentos em carteira. O maior supridor de investimentos estrangeiros diretos no Brasil é a Europa Ocidental, cuja recessão é mais profunda e será mais longa do que a dos EUA, limitando o apetite (e a capacidade) de suas empresas investirem nas subsidiárias brasileiras.

Estas, por seu turno, diante da recessão, veem seus lucros no Brasil desabarem, o que as impede de contribuir através do reinvestimento de lucros e dividendos no País, que historicamente respondem por 20% dos investimentos diretos. Para dar uma ideia de qual pode ser a queda total basta comparar a média dos últimos cinco anos, de US$ 60 bilhões por ano, com o ingresso de apenas US$ 25 bilhões durante a crise menos profunda de 2008/09.

Erro #3: O argumento ignora os investimentos em carteira, que contribuem com mais de um terço dos ingressos na conta financeira e de capitais. Contrariamente aos investimentos diretos, estes são voláteis e sensíveis à percepção de risco por parte de investidores não residentes. Sempre tivemos ingressos líquidos, que em alguns anos atingiram US$ 60 bilhões e em outros perto de US$ 80 bilhões, mas a partir da perda do grau de investimento passamos a enfrentar saídas, que nos últimos 12 meses chegaram a US$ 60 bilhões, com grande aceleração após o início da pandemia e a piora da situação fiscal. A soma de investimentos diretos e em carteira já tornou a conta financeira e de capitais deficitária, e esse déficit deve aumentar.

Erro #4: O argumento ignora o efeito combinado nas contas correntes e de capitais. Com o retorno do déficit nas contas correntes e com o aumento da percepção do risco fiscal que eleva as saídas dos investimentos em carteira, há um aumento do déficit na balança de pagamentos que acentua a queda de reservas e deprecia o real. Em vez de limitar os gastos de reservas a 5% do PIB – o plano original de investimentos –, teremos uma perda adicional de reservas vinda do aumento do déficit no balanço de pagamentos.

Erro #5: Superávits no balanço de pagamentos levam à valorização cambial, enquanto déficits levam à depreciação. Ou seja, quanto mais ambicioso for o “programa de investimentos baseado em reservas”, maior será o déficit no balanço de pagamentos e mais intensa a depreciação cambial. Para estancar este movimento, o Banco Central seria condenado a elevar a taxa de juros em meio a uma recessão profunda.

Erro #6: Vender reservas para gastar em infraestrutura é igual a emitir moeda para o mesmo propósito, o que somente não seria um erro para os adeptos da MMT.

Em conclusão, é melhor abandonar essa ideia estapafúrdia, que não faz o menor sentido.

EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL E SÓCIO DA A.C. PASTORE & ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

Aposta do fracasso - LUIZ CARLOS AZEDO

Correio Braziliense - 21/06

“Houve uma mudança de contexto, ao qual Bolsonaro não se adaptou, em razão de um projeto de poder em bases ideológicas incompatíveis com a realidade”


O governo Jair Bolsonaro pode ter chegado a um ponto de inflexão, em razão da estratégia adotada pelo presidente para impor suas vontades aos demais Poderes e entes federados. As ameaças ao Supremo Tribunal Federal (STF), os desentendimentos com o Congresso e as frequentes retaliações a governadores e prefeitos, a partir de uma concepção de poder centralizado e vertical, incompatível com a Constituição de 1988, são fatores de instabilidade político-institucional. Ainda mais num ambiente dramático, de crise sanitária e econômica, agravado pelo negacionismo da política de isolamento social para combater a pandemia de coronavírus e pelo colapso do projeto de reformas ultraliberais, diante da recessão econômica.

Houve uma grande mudança de contexto político, econômico e social, ao qual o presidente da República não se adaptou, em razão de um projeto de poder em bases ideológicas incompatíveis com a realidade brasileira e nossas relações com o mundo. Esse projeto sempre foi minoritário na sociedade, mas parecia se impor pela audácia e virulência com que Bolsonaro mobilizou seus apoiadores mais radicais e militarizou seu governo. Tornara-se uma ameaça ao Estado de direito democrático e à coesão nacional, além de um fator de isolamento e desmoralização do Brasil perante as demais nações, sobretudo do Ocidente.

A aposta num governo de viés bonapartista, vanguardeado por setores de extrema direita, como forma de intimidar e se impor aos demais Poderes e entes federados, aproveitando-se da desmobilização da sociedade em razão da pandemia, parece que bateu no teto. As afrontas aos fundamentos do Estado de direito democrático, ao atribuir ao Executivo um predomínio exorbitante em relação aos demais Poderes e personificá-lo na figura do presidente República, acabaram provocando ampla e forte reação da sociedade, que transcende em muito os partidos de oposição. Como num passe de mágica, a sociedade civil passou a defender o Congresso e o Supremo, dos quais havia se distanciado. Deu-se conta dos verdadeiros riscos da situação.

À margem do grupo de generais que formam o Estado-Maior de Bolsonaro — Luiz Eduardo Ramos, na Secretaria de Governo; Braga Neto, na Casa Civil; Fernando Azevedo, na Defesa; e Augusto Heleno, no Gabinete Segurança Institucional (GSI) —, havia um “subgoverno”, que opera contra as instituições democráticas e aposta na ruptura institucional, com métodos de atuação incompatíveis com a ordem democrática. Esse “subgoverno”, comandado pelos filhos do presidente Jair Bolsonaro, está sendo desnudado pelas investigações conduzidas pelo ministro Alexandre de Moraes, com endosso de todo o Supremo Tribunal Federal (STF), sobre as chamadas fake news e as ameaças às autoridades do Legislativo e do próprio Judiciário.

O escândalo
Entretanto, nada é mais comprometedor do que o envolvimento de Bolsonaro e seus filhos com o amigo e “faz tudo” da família, o policial militar reformado Fabrício Queiroz, preso na quinta-feira em Atibaia (SP), por determinação da Justiça fluminense, no inquérito das rachadinhas da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Por mais que o presidente da República tente se desvincular do caso e seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro, diretamente envolvido no escândalo, jure inocência, o fato abalou o esquema de poder de Bolsonaro, porque exuma velhas e perigosas relações com milicianos do Rio.

O potencial catalisador do caso Queiroz alterou a correlação de forças políticas não só fora como dentro do governo. Os militares que ocupam o Palácio do Planalto e a Esplanada dos Ministérios, em número muito maior do que os de qualquer governo do regime militar, não têm como endossar as desculpas do presidente da República sem arrastar as Forças Armadas para o pântano político. Os sinais de que isso estava começando a acontecer foram dados pelas negociações com o chamado Centrão, que reúne os partidos mais fisiológicos do Congresso, uma estratégia de sobrevivência e blindagem política de Bolsonaro que envolve o loteamento de cargos na Esplanada e a distribuição de verbas públicas.

Ao longo da história, até 1985, os militares sempre ocuparam o centro das crises políticas, condicionando seus desfechos. Submeteram-se administrativamente aos governos, como instrumento do Estado, mas, em termos políticos, ocorria exatamente o contrário: os políticos é que dependiam deles para se manterem. Foram um fator de preservação da integridade territorial e da construção do Estado nacional, mas plasmaram um modo de pensar a nação, a sociedade, a política e gestão que não é apenas um repertório de glórias e vitórias. Coleciona, também, muitas escolhas equivocadas e ações condenáveis. Historicamente, eis o drama do “partido fardado”, formado pelos militares com gosto pela política: sempre fracassa, por se colocar acima da sociedade e das instituições, inclusive as suas, que se baseiam na lei e na ordem, na hierarquia e na disciplina.