terça-feira, maio 05, 2020

Transformar restaurantes em meros lugares assépticos é um atentado - JOÃO PEREIRA COUTINHO

FOLHA DE SP - 05/05

Restrições são restrições, não formas de vida para todo o sempre


Já não tenho paciência para gente diversa que, dia e noite, garante por aí que a nossa vida nunca mais será a mesma. Como sabem?

Não sabem. Mas gostam de posar de profetas, mesmo que o novo corona seja a prova empírica de que as profecias não resistem à contingência.

Eles, que veem mais longe, não se limitam a explicar como será o mundo em sentido geopolítico.

Descem aos detalhes. Como serão nossas rotinas? Nossas profissões? Nossas relações? Nossa higiene diária?
Publicada neste terça-feira, 5 de maio de 2020 - Angelo Abul/Folhapress

Os restaurantes, então, são o palco principal dos seus delírios. Tenho lido bastante a respeito. Nunca mais iremos a um restaurante da mesma forma, avisam. Sério? Nunca mais?

Sério. Haverá mesas individuais, protegidas por um vidro, como o papamóvel, para evitar atentados sanitários. É comer e andar, rapidinho, como se fôssemos animais.

Um casal sueco, por exemplo, já vive nesse futuro: leio na imprensa que abriram um restaurante que só serve uma pessoa de cada vez. E sem empregados. O sujeito faz o pedido e uma máquina qualquer despeja a ração.

O sujeito come, paga o que quiser (Suécia, certo?) e dá lugar ao próximo. Faz lembrar aqueles filmes de guerra em que os soldados visitam a prostituta do regimento para aliviarem suas carências. Em fila.

Nada tenho contra almoçar ou jantar sozinho. Pratico o desporto muitas vezes.

Mais: um dos meus restaurantes favoritos, quando estou fora de Portugal, é o velhinho Rules, em Londres, que se especializou em refeições celibatárias. Uma pessoa chega, escolhe a mesa e até pode colocar o jornal numa espécie de estante de madeira, como se fosse uma pauta de música, para ir lendo enquanto devora o magnífico filé.

De igual forma, entendo que, temporariamente, haja restrições. Temporariamente, repito, enquanto o bicho andar por aí com ferocidade.

Mas restrições são restrições, não “formas de vida” que devemos abraçar para todo o sempre. Até porque a ideia de que o restaurante se confunde com uma manjedoura é uma regressão histórica imperdoável.

O restaurante moderno, com seu chef e seus empregados, com cardápios e toalhas de pano, aquele lugar aonde você vai para matar a fome (do corpo e do espírito), é uma das poucas consequências felizes da Revolução Francesa. Isso e a cabeça de Maximilien de Robespierre, é claro.

O crítico gastronômico William Sitwell tem um livro a respeito (intitulado, tão só, “The Restaurant”) em que explica essa dádiva acidental: com a destruição da aristocracia francesa, milhares de chefs e empregados ficaram sem trabalho.

Alguns, como Gabriel-Charles Doyen, chef privativo de Marie Antoinette, perderam mais que o trabalho: a cabeça, para ser específico, sobretudo quando exigiram dos jacobinos novas colocações de emprego.

Outros democratizaram a experiência gastronômica dos velhos palácios. Como? Abrindo restaurantes, ou seja, lugares de “restauro” onde, por uma soma qualquer, era possível provar certos pratos (e certas adegas) que anteriormente estavam reservados à fidalguia.

Transformar os restaurantes em meros lugares de pasto, utilitários e assépticos, é um atentado a esse patrimônio. Porque os restaurantes não servem apenas para mastigar.

Servem para conversar, namorar, conspirar, pensar, rir, chorar, escrever, ler, contemplar, dormitar —e pedir só mais uma fatia de bolo, ou um café, ou ambos, tudo isso antes daquele chá escocês que antecede as grandes confidências.

Além disso, o que seria da história da cultura, a começar pela história do cinema, sem esses locais de vagabundagem do palato?

Foi num restaurante que Michael Corleone vingou o seu pai Vito. Foi num restaurante que Samuel L. Jackson abandonou o caminho do crime e se entregou a uma vida de contemplação e errância. E foi num restaurante, convém lembrar, que Meg Ryan mostrou como os homens podem ser otários em matéria de orgasmos femininos.

Nunca mais fui o mesmo depois dessa cena —e passei anos a sujeitar as minhas parcas conquistas sentimentais a um interrogatório pós-coital que faria a inveja do KGB.

Estou disposto ao sacrifício: comer em casa, sim; usar máscara, sim; não cumprimentar os amigos com toques ou beijos, tudo bem.

Mas, repetindo as sábias palavras da rainha Elizabeth 2ª, voltaremos a nos encontrar. E, assim que o bicho estiver nocauteado, serei o primeiro a me instalar na mesa, a rasgar a máscara, a abraçar os ossos dos camaradas e a desprezar, como merecem, esses canibais da civilização.

João Pereira Coutinho
Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

Emergência e fricção - LUIZ CARLOS AZEDO

Correio Braziliense - 05/05

“Bolsonaro agrega à epidemia de coronavírus um ambiente político de conflitos desnecessários e estresse institucional, com crises criadas dentro do governo”


Nunca vivemos, desde a gripe espanhola de 1918, uma emergência sanitária como a que o mundo atravessa. O problema do novo coronavírus é que ainda há mais dúvidas do que certezas em relação à doença, exceto que se propaga muito rapidamente, é letal para um contingente significativo de suas vítimas e não se tem previsão de quando e se teremos uma vacina que o previna, nem um remédio realmente eficaz para combatê-lo. O que tem sido mais eficiente no combate à epidemia é o distanciamento social e um sistema público de saúde robusto, para tratar os casos graves e salvar vidas.

Ninguém estava preparado para enfrentar o coronavírus, essa é a verdade. Mas talvez nenhum outro governante no mundo tenha revelado tanto despreparo para lidar com a situaçao como o presidente Jair Bolsonaro. Até hoje, não se deu conta de que a volta à normalidade é impossível enquanto o vírus estiver se propagando numa velocidade maior do que a capacidade de atender as pessoas que necessitam de assistência médica, pois isso significa pôr em colapso o sistema de saúde e, consequentemente, toda a economia.

Os números revelados até ontem são eloquentes: 7.321 mortes e 107.780 casos confirmados, dos quais 32.187 em São Paulo, com 2.654 mortes. Com a subnotificação, calcula-se que o número de pessoas contaminadas no país pode se aproximar de 1 milhão. Uma conta simples, usando como base o índice otimista de que 3% necessitarão de internação, projeta uma demanda próxima de 30 mil vagas em leitos hospitalares nos próximos 30 dias. Essa é a bucha na mão de governadores e prefeitos de todo o país. Em Manaus, Recife, Fortaleza e Rio de Janeiro, já há gente morrendo por falta de vagas nas UTIs, o que pode se reproduzir nos demais estados, a começar por Santa Catarina, a bola da vez.

É inequívoco que o país está sofrendo as consequências do relaxamento da política de distanciamento social, que é estimulado sistematicamente pelo presidente Jair Bolsonaro, com eco no desespero da parcela da população que perdeu suas fontes de renda. Com o agravante de que os R$ 600 aprovados pelo Congresso ainda não chegaram à parcela considerável dos que têm direito ao benefício, por dificuldades operacionais da Caixa Econômica Federal, que centralizou, desnecessariamente, o cadastramento dos beneficiados e a distribuição dos recursos. O desespero nas filas das agências da Caixa revela a outra face do drama humano que estamos vivendo.

Entretanto, o custo econômico do colapso total do sistema de saúde, provocado pela volta atabalhoada às atividades do comércio e dos serviços, seria muito maior do que o da atual política de distanciamento social. Essa dimensão do problema o presidente Bolsonaro não quer aceitar, assim como a bolha de apoiadores fanatizados com a qual interage. Ninguém sabe como sairemos dessa crise. Com certeza, porém, teríamos perspectivas mais otimistas se não houvesse tanta fricção no combate à epidemia, principalmente política.

Protagonismo

Quem mais protagoniza essa fricção é o presidente da República, que parece sabotar os próprios esforços do governo para combater a epidemia e criar um ambiente de cooperação entre os Poderes e demais entes federados, para mitigar seus efeitos econômicos e sociais. Até mesmo as relações com os parceiros internacionais, dos quais dependemos para obter mais equipamentos e insumos, notadamente, a China, sofre os efeitos dessa fricção. Na cena internacional, o Brasil voltou a ser um país exótico e, agora, politicamente isolado. A construção de gerações de diplomatas do Itamaraty está sendo implodida pelo chanceler Ernesto Araújo.

Essa fricção agrega à epidemia de coronavírus um ambiente político de conflitos desnecessários e estresse institucional, deteriorado por crises criadas dentro do próprio governo, pelo presidente da República. Ontem, Bolsonaro nomeou a toque de caixa o novo diretor da Polícia Federal, delegado Rolando Alexandre de Souza, que decidiu trocar a chefia da superintendência do Rio de Janeiro. Carlos Henrique Oliveira, atual comandante do estado fluminense, foi convidado para ser o diretor executivo da Polícia Federal, deixando a Superintendência do Rio, cuja direção Bolsonaro sempre quis indicar. Por sua vez, o procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) que autorize novas diligências no inquérito que apura suposta interferência política do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal.

Relator do caso, cabe ao ministro Celso de Mello autorizar a oitiva de pessoas citadas por Moro em depoimento; a recuperação de áudio ou vídeo que comprove a suposta tentativa de interferência; e a perícia nas informações obtidas a partir do celular de Moro. Dez pessoas do alto escalão do governo serão ouvidas, entre as quais os ministros Luiz Eduardo Ramos (Governo); Augusto Heleno (GSI), Braga Netto (Casa Civil); a deputada Carla Zambelli (PSL-SP); o ex-diretor-geral da Polícia Federal Maurício Valeixo; e os delegados da PF Ricardo Saadi, Carlos Henrique de Oliveira Sousa, Alexandre Saraiva, Rodrigo Teixeira e Alexandre Ramagem Rodrigues. O que se investiga? “O eventual patrocínio, direto ou indireto, de interesses privados do Presidente da República perante o Departamento de Polícia Federal, visando ao provimento de cargos em comissão e a exoneração de seus ocupantes”. Mais fricção à vista.

O Bolsa Família do Jair - CARLOS ANDREAZZA

Globo - 05/05

Não me surpreenderá que, tendo surgido em caráter provisório, essa ajuda torne-se permanente



Se não fosse natimorto, o liberalismo bolsonarista — este oximoro perfeito — estaria morrendo em praça pública. Natimorto porque, afora a propaganda influente, nunca foram conciliáveis o fenômeno reacionário bolsonarista, com seu ímpeto permanente para o choque, para a imprevisibilidade e, pois, para a instabilidade, e um programa de reformas liberais do Estado, como aquele vendido por Paulo Guedes, que pressupõe que o solo sobre o qual se obrará seja firme e que haja algum horizonte de constância para a empreitada.

Nada disso jamais houve — jamais haverá — sob um governo de Jair Bolsonaro, a fábrica de crises ele próprio. A usina de conflitos eleita para governar um país em depressão política profunda, onde grassa a insegurança jurídica — e onde só um gringo louco e desinformado, com muito dinheiro para queimar, investiria. Esse tipo exótico que simplesmente... inexiste. Mas que, garante-se, logo estará despejando bilhões aqui.

Houve, no entanto, quem se enganasse. (Ou se deixasse enganar.) Houve também quem enganasse.Para esses foi preciso que a peste sobre nós se abatesse; a chaga inclemente que precipita a imposição da verdade, que estabelece nova convenção social sobre o papel do Estado e que oferece a Bolsonaro, que é Dilma em matéria econômica, a chance de ser Bolsonaro antes de o imaginado — o que se livra do natimorto como se o ofertasse, tal qual vivo fosse, ao sacrifício da morte em praça pública.

Morre em praça pública o juízo daquele que, ante o baixar da praga, supôs que o presidente pudesse se aprumar para liderar algo que não a aplicação radical de seus propósitos. A pandemia é janela de oportunidades. E o homem é Brasil Grande. Ustra nos costumes; Tarcísio na economia.

Recomponho a imagem a que tenho recorrido: Bolsonaro como um girassol publicitário cujo norte se orienta pelo calor — pelo pulso — das redes. Retomo, assim, a reflexão iniciada na coluna da semana passada. Sobre o presidente estar trocando de pele, deixando pelo caminho — ainda antes da metade do mandato — a carcaça narrativa, de matriz eleitoral e existência precária, que o trouxe até aqui; o lavajatismo encarnado em Sergio Moro, por exemplo, já foi. Mais irá.

Um movimento, consciente, que resulta em perda de apoio e que não seria jogado sem a perspectiva bolsonarista de controlar o prejuízo e reequilibrar o tabuleiro por meio de conquista territorial em outro chão. É o que parece estar em curso. Um movimento que, tomando risco, identifica e mede ensejo, e que só ocorre porque fiado na troca de base social. Vai-se parte do esteio na classe média; talvez algo do alicerce na elite. Vem — para balancear — o arrimo nas classes populares.

As últimas pesquisas todas — que, de resto, apontam que a demanda da sociedade se moveu para a quase unanimidade de que o Estado deva sustentar artificialmente a economia — indicam que a aposta do presidente pode estar correta. Mesmo perdendo suporte a partir das crises que desaguariam nas quedas de Mandetta e Moro, mantém-se com popularidade estável e em patamar competitivo. Troca de pele — e o faz enquanto muda também de solo onde funda futuro. É essa a projeção que torna o guedismo descartável.

Quando a peste se lastreou entre nós, Bolsonaro fez seu jogo — um jogo de ganha-ganha. Covarde, lance de sociopata, mas eficaz. Aquele, esculpido na forja populista, que opunha saúde pública e saúde econômica — estando ele ao lado da economia popular. Eis o fundamento falacioso da narrativa bolsonarista— expresso pelo próprio presidente — quando diante do impacto assassino da Covid-19: o de que, independentemente das medidas restritivas decretadas pelos governadores, as mortes viriam, que as ações seriam, portanto, inócuas para a preservação de vidas, mas decisivas para agravar o flagelo da economia, o desemprego, a pobreza.

Aquele discurso de Bolsonaro — o do governante aflito sobretudo com a situação das famílias mais pobres — foi percebido como de genuína preocupação com a subsistência dos que não tinham gordura para permanecer em casa sem passar fome. Isso foi captado como compondo anova popularidade do presidente. E então, para fortalecer essa posição, vieram as medidas de auxílio econômico emergencial; com o que o Bolsonaro viu nascer — alicerçado na licença para abrir o cofre — o Bolsa Família do Jair.

Gostou. Tomará gosto por gastar. De modo que não me surpreenderá que, tendo surgido em caráter provisório, essa ajuda excepcional — recebida pelos beneficiados como uma ajuda de Bolsonaro — torne-se permanente, engolfando a antiga base do Bolsa Família e ampliando o corpo de assistência do Estado aos pobres.

É espantosa — um país à parte — a quantidade das milhões de pessoas que inexistiam formalmente e que de repente vão mapeadas pelo governo de turno. Desses milhões, quantos milhões poderão sernovos milhões de títulos de eleitor? Já pensou?

Nova base social é isso.

Bolsonaro perde, de novo - JOSÉ CASADO

O Globo - 05/05

Ele quer envolver as Forças Armadas na sua campanha


Foi um longo fim de semana para Jair Bolsonaro. Imerso na realidade paralela, à distância do país devastado por um vírus que já abateu mais de sete mil vidas, entreteve-se no seu jogo predileto: envolver as Forças Armadas na sua campanha para reeleição em 2022. É raro caso de governante empenhado num pandemônio político em plena pandemia.

No sábado, no Palácio da Alvorada, extravasou sua ira com a suposta conspiração para impedi-lo de governar. Citou Sergio Moro, João Doria, Congresso, STF e governadores. Lula e PT estão fora da sua agenda. Bolsonaro, agora, racha a centro direita. Briga com o governador paulista, a quem vê como adversário eleitoral.

No domingo ensolarado comandou nova manifestação, financiada por empresários amigos, em produção esmerada com faixas de apelo à “intervenção militar com Bolsonaro”. A claque, outra vez, pedia aos generais um golpe em favor do ex-capitão, afastado do Exército por indisciplina, há quase quatro décadas.

O cenário verde-amarelo ficou relevante porque pesquisas mostram supremacia da imprensa sobre as redes sociais em credibilidade — efeito da pandemia. “Acabou a paciência”, disse. “As Forças Armadas também estão ao nosso lado... Chegamos no limite.”

Varou a madrugada de ontem com o plano de declarar desobediência ao Supremo. Renomearia Alexandre Ramagem para o comando da Polícia Federal. A indicação havia sido suspensa pelo STF, por conflito de interesses — é amigo de Bolsonaro, cujos filhos estão sob investigação federal. Aceitou deixar Ramagem indicar seu vice na Abin, Rolando de Souza.

Resignou-se, ainda, a manter o general Edson Pujol no comando do Exército. Queria trocá-lo por Luiz Eduardo Ramos, um general da ativa no Planalto. Provocaria uma cisão, alertaram, acelerando a erosão já perceptível no respaldo militar ao seu governo. Também se conformou com a nota da Defesa lembrando o papel constitucional das Forças Armadas. Foi a segunda em 15 dias.

Bolsonaro perdeu, de novo. Mas quem o viu nas últimas 72 horas acha que o presidente-candidato vai continuar apostando no arriscado jogo de atração dos quartéis à política.

O sonho da quartelada - RANIER BRAGON

Folha de S. Paulo - 05/05

Tanques não podem mais escrever a história política deste país


A paciência de Jair Bolsonaro acabou, ele está em seu limite, tem ao seu lado as Forças Armadas e fará cumprir, a qualquer preço, a sua interpretação da Constituição.

As palavras proferidas na mais recente algazarra golpista, no domingo (3), têm como objetivo intimidar não só Alexandre de Moraes, que dificultou sua intenção de interferir em investigações da PF, mas qualquer ministro do STF que possa lhe causar embaraços. Como Celso de Mello, que comanda a apuração das acusações do ex-ministro Sergio Moro.

Como suporte às bravatas, o presidente ameaça mover o sonho de toda uma vida de delinquência sem punição: uma quartelada a seu favor.

A ameaça de ruptura institucional foi coroada no domingo pela violência de covardes que se escoram na proteção dos bandos para atacar alvos pelas costas. Os presidentes do próprio Supremo, Dias Toffoli, e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), acoelharam-se, mudos.

Como informou a colunista Mônica Bergamo, Toffoli até se irritou, mas com a decisão dos colegas. Davi foi ao Planalto nesta segunda, mas apenas para exercitar a sua alma de eterno baixo-clero e lengalengar a necessidade de harmonia.

E de pusilanimidade em pusilanimidade a vergonha vai sendo escrita.

Qualquer ministro que se acovarde neste momento não merece a toga que veste. Ministros do STF não são deuses. Para conter eventuais erros e abusos, estão lá o colegiado, a reação abalizada da sociedade civil e, até, o impeachment. Jamais a intimidação ou a desobediência.

Qualquer militar também não merece a farda que veste se der suporte a ameaças de ruptura feitas por um descapacitado que demonstra não ter condições nem de ser síndico do Vivendas da Barra. Militares são agentes do Estado brasileiro, não atores políticos ou capachos de tiranetes. Honrem a história de gente como o marechal Henrique Teixeira Lott. Tanques não podem mais escrever a história política deste país, por mais que celerados assim o desejem.

Terraplanista volta para a Funarte, e Regina perde até o pum do palhaço - REINALDO AZEVEDO

UOL - 05/05
As coisas sempre podem piorar. Ouvimos ontem o silêncio vexaminoso de Regina Duarte, secretária da Cultura, diante das mortes de Aldir Blanc e Flávio Migliaccio. Não só. Foram antes Moraes Moreira, Rubem Fonseca, Luiz Alfredo Garcia Roza, Ricardo Brennand, Naomi Munakata, Martinho Lutero Galati, Daniel Azulay... Para a departamento comandado por aquela senhora, é como se nunca tivessem existido. Sob a sua gestão, nada vai nascer. E os que morrem, se dependessem do apreço oficial, desapareceriam na poeira do tempo.

Regina fazia parte da memória da TV Brasileira — e um tanto do teatro. Faz ainda, claro! Mas sua biografia está sendo corroída pela inação, pela covardia, pelo endosso àquilo que o poder de turno pode produzir de mais estúpido, obscurantista e reacionário. Erraram os poucos que apostaram que seria melhor uma Regina lá do que um doido bolsonarista qualquer. Pela simples e boa razão de que a ex-atriz é uma doida bolsonarista qualquer. A fama que conquistou na TV só serve para maquiar a sua adesão à estupidez.

Pois é... Vejam quem foi renomeado — acreditem! — para a Funarte: Dante Henrique Mantovani. É aquele rapaz que tinha sido demitido pela própria Regina. Ele volta a comandar Funarte (Fundação Nacional de Artes), que responde pelas políticas de fomento às artes visuais, à música, ao teatro, à dança e ao circo.

O rapaz tem algumas ideias muito próprias a respeito do mundo da cultura. Além de ser um fanático do terraplanismo, é capaz de estabelecer conexões que costumam escapar aos mortais comuns, o que não é o seu caso, claro... Segundo o valente, "o rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto. A indústria do aborto, por sua vez, alimenta uma coisa muito mais pesada, que é o satanismo. O próprio John Lennon disse abertamente, mais de uma vez, que ele fez um pacto com o diabo, com o satanás, para ter fama, sucesso".

Para arrumar um emprego, Mantovani só precisou fazer um pacto com o bolsonarismo. Cada um com o seu tamanho.

A secretária se negou a comentar a nomeação de quem ela já havia demitido. Sua assessoria afirmou que a indicação de nomes cabe ao Ministério do Turismo. Entenderam? A secretária de Cultura não responde pela nomeação daquele que vai ocupar um dos postos mais importantes da sua área. Essa é a "carta branca" que ela disse, no dia da posse, ter recebido de seu chefe. Não sobrou nem o pum do palhaço.

Bolsonaro teve de entregar a gestão do governo, economia à parte (por enquanto), aos militares. Nacos da administração vão parar no bolso da banda podre do Centrão — que também foi atacado na manifestação de domingo. É o preço para tentar evitar o impeachment.

Tudo indica que, para manter a sua militância acesa, haverá um recrudescimento do reacionarismo de matriz e matiz olavistas (Mantovani é um dos "alunos" de Olavo de Carvalho) nas áreas do governo que lidam com valores culturais, morais, ideológicos e estéticos. Podem esperar para breve novas barbaridades de Damares Alves. É uma aposta!

Na semana passada, às portas do Palácio da Alvorada, Bolsonaro endossou críticas que seus extremistas fazem ao "não trabalho" da Regina. Afirmou:

"Infelizmente, a Regina está em São Paulo. Está trabalhando pela Internet ali. E eu quero que ela esteja mais próxima. É uma excelente pessoa, um bom quadro. É também uma secretaria que era ministério. Muita gente de esquerda pregando ideologia de gênero. Essas coisas todas é que a sociedade, a massa da população, não admite. Ela tem dificuldade nesse sentido".

Não dá para saber exatamente o que Bolsonaro espera dela, mas a gente pode presumir.

Eis aí. O terraplanista que caça roqueiros, satanistas e abortistas está de volta à Funarte.

Sempre pode piorar.

Centrão é virtuoso e Moro é petista - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 05/05

O centrão, vale lembrar, é sinônimo da "velha política"


Eu tento ser uma pessoa boa, mas nem sempre consigo. Confesso que experimento um certo prazer —uma "Schadenfreude", diriam os sempre precisos alemães— ao ver bolsonaristas contorcendo seus neurônios para processar a nova aliança do mito com o centrão ou ao se verem obrigados a reclassificar o ex-herói Sergio Moro como um traidor.

O centrão, vale lembrar, é sinônimo da "velha política", que Bolsonaro jurou que não teria vez em sua administração. Circula na internet um vídeo impagável em que o general Heleno, o fiador verde-oliva do governo, arrisca acordes em que sugere que todos os parlamentares do centrão são ladrões. Agora, Bolsonaro ameaça demitir os ministros que resistirem em ceder cargos para esses políticos.

Já Moro, que até alguns dias atrás emprestava à administração sua imagem de campeão da luta contra a corrupção, deixou o governo acusando Bolsonaro de crimes graves. É Moro que mudou ou Bolsonaro que mentiu?

O meu prazer é, de um ponto de vista cristão ou kantiano, condenável, porque se baseia no sofrimento mental por que essas pessoas passam ao lidar com contradições óbvias demais para serem ignoradas --dissonâncias cognitivas no vocabulário da psicologia. E cristãos e kantianos não deveriam extrair prazer da dor alheia. Mas não sou tão kantiano assim e nada cristão. Já que os eleitores de Bolsonaro nos impingiram esse estrupício, é justo que sofram pelo menos um pouquinho também.

Nossa janela para regozijo, porém, é curta. Uma série de trabalhos inaugurados por Leon Festinger nos anos 50 mostra que, quando confrontados com dissonâncias cognitivas, nossos cérebros fazem de tudo para dissolver as contradições e eliminar o sofrimento mental, mesmo que isso signifique criar fabulações e acreditar em mentiras. Em mais alguns dias, os bolsonaristas de raiz jurarão que o centrão sempre esteve do lado do bem e que Moro sempre foi petista.

Hélio Schwartsman
Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…".

Reação bolsonarista é de quem está acuado - MARIA CRISTINA FERNANDES

Valor Econômico - 05/05

O presidente segue a rota traçada no início da pandemia de provocar o cerco institucional para tentar angariar apoio militar

O presidente Jair Bolsonaro segue a rota traçada no início da pandemia de provocar o cerco institucional para tentar angariar apoio junto às Forças Armadas. Com o Congresso recuado, valeu-se do protagonismo do Supremo Tribunal Federal na contestação a atos do Executivo para buscar uma saída que margeie a Constituição. Segue sem sucesso.

A nota do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, segmenta o posicionamento das Forças Armadas para cada uma das peças em jogo. Ao abrir pela importância da independência e da harmonia entre os Poderes para a governabilidade, o ministro coloca em foco o desagrado provocado entre militares pela suspensão da expulsão de diplomatas venezuelanos por liminar do ministro Luís Roberto Barroso, do STF.

Não que concordem com a decisão do chanceler Ernesto Araújo, mas os militares consideram Venezuela um tema sensível para a defesa nacional e sobre o qual o Supremo teria se excedido com sua ingerência. O vice-presidente Hamilton Mourão verbalizou ontem esse desagrado. O Exército acompanha com preocupação o conflito com o país vizinho. O regime de Nicolás Maduro abateu, no domingo, um barco, supostamente vindo da Colômbia, e matou oito integrantes de sua tripulação.

O veto do ministro Alexandre de Moraes à posse de Alexandre Ramagem, diretor-geral da Agência Brasileira de Informações, como diretor-geral da PF também atiçou militares. A liminar consternou até generais não bolsonaristas e gerou indignação, em grupos de WhatsApp, de militares que não haviam se manifestado de maneira semelhante quando o Supremo impediu a posse do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Casa Civil do governo Dilma Rousseff ou da ex-deputada Cristiane Brasil, filha do presidente do PTB, Roberto Jefferson, para o Ministério do Trabalho, no governo Michel Temer.

A consternação, no entanto, não foi suficiente para o presidente obter o apoio desejado para um conflito com o Supremo insistindo na nomeação de Ramagem. Daí a decisão de buscar Rolando Alexandre de Souza, braço direito do diretor da Abin. Ao assumir, Souza trocou o superintendente da PF no Rio. A decisão, porém, não pode ser considerada parte da operação abafa. Carlos Henrique Oliveira, colocado no Rio por decisão do ex-diretor-geral, Maurício Valeixo, caiu para cima. Tornou-se o número 2 de Souza na corporação.

A nomeação busca conter os danos futuros à investigação sobre o presidente mas não impediu que Moro fosse ouvido, no fim de semana, pela equipe da Polícia Federal designada por Disney Rossetti, nome da preferência do ex-ministro, que respondia interinamente pelo cargo. O ministro Celso de Mello se antecipou à nomeação de Bolsonaro determinando prazo de cinco dias para a PF tomar o depoimento de Moro.

Depois do cravo no Supremo, a nota da Defesa vai na ferradura da imprensa. Defende a liberdade de expressão, leia-se a exaltação bolsonarista, mas classifica de “inaceitável” o ataque a jornalistas. Em entrevista ontem à tarde, Braga Netto foi além: disse que qualquer tipo de agressão tem que ser apurada e é “inadmissível”.

A afirmação do presidente, neste domingo, de que Forças Armadas estão “ao lado do povo” é, por enquanto, mais um movimento defensivo do que de quem tem poder de fogo. O último parágrafo da nota de Fernando Azevedo e Silva, de que as Forças Armadas estarão sempre ao lado “da lei, da ordem, da democracia e da liberdade” sugere que o movimento do presidente não passou de um “balão de ensaio”.

Acontece num momento em que o presidente está acuado pela confluência da queda de popularidade e o avanço do Supremo nos inquéritos que investigam as acusações do ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, o envolvimento de sua família com a rede de divulgação de notícias falsas e grupos de milícia.

O cumprimento com o cotovelo do comandante do Exército, Edson Leal Pujol ao presidente, durante a posse do novo comandante militar do Sul, Gustavo Stumpf, em Porto Alegre na quinta-feira, fartamente explorado pela milícia digital bolsonarista, é interpretado por generais como sinal da preocupação de Pujol com a contaminação de sua tropa pela covid-19. “Ele não é um estrategista como o [Eduardo] Villas Bôas nem tem sua liderança, mas é legalista e incapaz de criar problema”, resume um general que foi seu professor na Escola do Alto Comando do Exército.

Sua substituição, noticiada pela “Folha de S.Paulo”, foi negada ontem com veemência pelo secretário de governo, Luiz Eduardo Ramos. Em entrevista, o ministro repetiu argumentos usados, ao longo do dia, nos grupos de WhatsApp de seus colegas de turma da Academia Militar das Agulhas Negras e que reportam lealdade aos valores de merecimento e antiguidade das Forças Armadas.

É fato de que há cinco generais que o precedem no Exército. Pela ordem, são eles: Claudio Moura (chefe do Departamento de Engenharia do Exército), Augusto Nardi (chefe de Assuntos Estratégicos do Ministério da Defesa), Artur Moura (chefe do Departamento Pessoal do Exército), Décio Shons (comandante do Departamento de Ciência e Tecnologia) e José Luiz Freitas (comandante de Operações Terrestres).

Isso, porém, não impede Ramos de assumir comando do Exército. A obediência ao princípio da antiguidade é uma tradição, não uma norma. Os generais Zenildo Zoroastro, Eduardo Villas Boas, Gleuber Vieira e Carlos Tinoco, para ficar em nomes pós-ditadura, assumiram o comando do Exército a despeito de não serem os mais antigos na Força.

O vazamento de que Pujol possa vir a ser substituído interessa à agenda bolsonarista por excelência de provocar inquietação e sublevação nos quartéis, mas não preocupa os generais do Alto Comando do Exército, especialmente aqueles generais que têm sob suas ordens os comandos regionais. Eles contam muito mais do que os chamados generais de escrivaninha, como alguns dos que precedem Ramos em antiguidade na Força.

É rara a substituição do comando do Exército durante o exercício do mandato. A primeira vez foi quando o general Artur da Costa e Silva deixou o cargo para assumir a Presidência da República em 1967. E a última, dez anos depois, quando o presidente Ernesto Geisel enfrentou o general Silvio Frota, de quem o atual ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, foi ajudante de ordens. Era um ou outro. Ficou Geisel e ganhou a abertura. A repetição do gesto, hoje, seria na mão inversa.

Crise sobre crise - ELIANE CANTANHÊDE

ESTADÃO - 05/05

A covid-19 avança, mas o tipo de crise de que Bolsonaro gosta é outro. Melhor não alimentá-lo

O objetivo não era esse, mas o ministro do Supremo Alexandre de Moraes pode ter salvo, ou ao menos aliviado, o presidente Jair Bolsonaro no processo em que é acusado pelo ex-ministro Sérgio Moro de investir contra a autonomia da Polícia Federal para obter informações sigilosas e interferir em processos autorizados pelo próprio Supremo.

Até onde se sabe, Moro acusa o presidente de “intenções”. Se o ministro Moraes não tivesse impedido a posse do delegado Alexandre Ramagem na direção-geral da PF, estariam criadas as circunstâncias para que essas “intenções” se transformassem em atos – ou não. Sem Ramagem e com o delegado Rolando Alexandre de Souza na PF, os cuidados serão naturalmente redobrados para não jogar álcool na fogueira.

Logo, Alexandre de Moraes pode ter obtido o efeito inverso ao pretendido, dando uma mão para Bolsonaro e evitando que ele saísse do mundo da vontade para o da execução, caso Ramagem já chegasse reunindo investigações sobre este ou aquele amigo, este ou aquele inimigo do presidente e enviando diretamente para o Planalto. A subjetividade teria adquirido materialidade.

Por ora, é a palavra de Moro contra a de Bolsonaro. Os generais Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos e Augusto Heleno, apontados pelo ex-colega como testemunhas, não podem nem mentir para a Justiça nem incriminar o chefe. Basta confirmar que Bolsonaro exigia, sim, trocar o diretor da PF e ameaçava, sim, demitir o ministro da Justiça. E daí? É atribuição do presidente nomear e demitir o outro.

Com Moro autorizando a divulgação de seu depoimento de oito horas à própria PF e ao Ministério Público, pode-se vir a saber e balancear o que ele entregou. Com 22 anos de magistratura, não seria ingênuo de fazer acusações pesadas, e justamente contra o presidente, sem provas. De outro lado, ele teria apagado as conversas pelo celular, preservando apenas as dos últimos 15 dias antes da queda.

Se for assim, o torpedo mais letal contra Bolsonaro é a mensagem, já divulgada pela Rede Globo, em que ele reclama de investigações sobre “dez a doze deputados do PSL” e termina com uma frase bastante comprometedora: “Mais um motivo para a troca (na PF)”. Mas será que Moro só tem isso?

Como as demonstrações de Bolsonaro contra o STF e o Congresso, houve um consenso contra ele e pró-Alexandre de Moraes. Porém, juristas, o presidente do Supremo, Dias Toffoli, e os militares do Planalto estão convencidos de que Moraes extrapolou. E, assim, deu pretexto para Bolsonaro ameaçar também extrapolar. O risco é crise institucional.

E assim vai-se vivendo, de manifestação em manifestação de inspiração golpista, embalada pelo presidente da República e pelos símbolos e cores nacionais e agora com ataques covardes a enfermeiros e a jornalistas, como os brilhantes fotógrafos Dida Sampaio, do Estado, e Orlando Brito, um veterano, e ao motorista Marcos Pereira.

A cada provocação de Bolsonaro e de bolsonaristas, o Ministério da Defesa tem de acertar o tom na defesa da democracia sem atacar Bolsonaro e pregar “a independência e a harmonia entre os Poderes”. Está virando rotina. O coronavírus atinge mais de cem mil brasileiros e mata mais de 7 mil, mas o presidente não está nem aí. O tipo de crise de que ele gosta é bem outro. Quanto menos se alimentar, melhor.

Equilibristas. Nos deixaram na segunda-feira, 4, além de Flávio Migliaccio, o iluminado Aldir Blanc, autor do hino informal da reabertura política, e o grande político Guilherme Palmeira, que liderou com Marco Maciel e Jorge Bornhausen a dissidência do regime que se revelou fundamental para enterrar a ditadura. A morte de ambos traz memórias e reflexões preciosas neste momento difícil, às vezes assustador.

Supremo poder - MERVAL PEREIRA

O GLOBO 05/05

Pela segunda vez em poucos dias, o ministro da Defesa, General Fernando Azevedo e Silva é obrigado pelas circunstâncias políticas provocadas pelo presidente Jair Bolsonaro a soltar uma nota oficial tentando retirar as Forças Armadas do protagonismo em que o presidente as coloca em manifestações antidemocráticas.

A frase dúbia dita por Bolsonaro durante manifestação de domingo sobre as Forças Armadas tem o propósito de colocá-las ao lado das atitudes ilegais e inconstitucionais que está cometendo.

As Forças Armadas teriam que se pronunciar, natural que não pudessem dizer claramente que o presidente está mentindo, ou usando-os como biombo para ações ilegais, mas coube uma nota oficial a respeito do entendimento sobre democracia, respeito às leis, ao Congresso e ao STF, para que não paire no ar nenhuma dúvida de que não estariam realmente ao lado de Bolsonaro quando ele quebra as regras da democracia.

Sublinhando que as Forças Armadas são “organismos de Estado”, já eximiram-se de uma atuação de Governo, como a de domingo em frente ao Palácio do Planalto, com um teor político explosivo. Bolsonaro, no entanto, ainda tem uma compreensão por parte de seus pares militares, que não entenderam ainda, ou não querem entender, que essas manifestações são claramente ilegais.

Ao dizer na nota oficial que a “liberdade de expressão é requisito fundamental de um país democrático”, os chefes militares trataram como normal manifestações que pregam ações ilegais por parte das Forças Armadas, o que não tem nada de normal.

Bolsonaro está diariamente transgredindo a lei, cometendo crimes de responsabilidade e crimes comuns, e vai chegar o momento em que retóricas dele e a dos que o combatem não serão mais suficientes. Nem notas oficiais do ministério da Defesa.

Bolsonaro está esticando a corda a tal ponto que parece querer o confronto para constranger o Supremo e o Congresso. É assim que acontecem os golpes modernos, que não necessitam que as Forças Armadas coloquem seus tanques nas ruas, apenas que sejam lenientes aos avanços antidemocráticos do chefe de governo da ocasião.

Ele cria situações constrangedoras, como a nomeação de um subordinado do delegado de Alexandre Ramagem para a Polícia Federal, numa tentativa de ludibriar o STF. É uma prova de que quer ter acesso a informações da Polícia Federal, o que confirma as acusações do ex-ministro Sergio Moro.

Ao acusar o Supremo e o Congresso de armarem um complô contra ele, Bolsonaro, além de instigar seus seguidores contra esses poderes da República, tenta rotular qualquer medida que o contrarie como parte desse complô imaginário.

Ontem, o ministro do Supremo Gilmar Mendes deu uma declaração esclarecedora, que tenta evitar que essa ação conspiratória atribuída ao STF não se torne verdade. Disse que as medidas liminares dos ministros Alexandre Moraes, impedindo a nomeação do diretor-geral da PF por desvio de finalidade, e Luis Roberto Barroso impedindo que os diplomatas venezuelanos sejam expulsos do país neste momento, por razões humanitárias, que irritaram especialmente Bolsonaro, são decisões pontuais que não podem ser entendidas como parte de uma ação conjunta contra o Executivo.

Também a proposta do ministro Marco Aurélio Mello de que atos do Poder Legislativo ou Executivo sejam tratados diretamente pelo plenário do Supremo, para evitar insinuações de que decisões monocráticas dos ministros tenham intenções políticas é “uma tentativa de resgatar a atuação do colegiado”, na definição de Marco Aurelio Mello, mas pode não ser factível, pois no mais das vezes as decisões liminares são tomadas devido à urgência do pedido, e não haveria tempo hábil para reunir o plenário.

O ministro Alexandre de Moraes, por exemplo, recebeu o pedido para sustar a posse de Ramagem na PF na véspera à noite, e teve que tomar a decisão na manhã da solenidade.

O Supremo Tribunal Federal (STF) é a única instituição que tem capacidade de anular atos do Legislativo e do Executivo, pela Constituição. Portanto, falar em independência e separação harmônica de poderes não pode significar retirar a função específica do Supremo que, como disse Rui Barbosa, “tem o poder de errar por último”.

O ex-presidente do STF Ayres Britto tem uma definição clara para essa situação: “Por que o Tribunal tem o nome de Supremo? Porque está acima de tudo, acima de todos, por ser o mais alto e extremo guardião da Constituição”

Na travessia da pandemia, o presente e o futuro - PAULO HARTUNG

ESTADÃO - 05/05

É impositivo reformar o Estado, em todos os níveis, tornando-o contemporâneo

Nesta dura travessia, para além da angústia das incertezas e do sofrimento dilacerante das perdas, há que exercitar a altivez do espírito e a grandeza da razão. Isso porque, se não há – e não há – sentido algum intrínseco a esta tragédia, que produzamos um sentido a partir do seu enfrentamento. Só esse duro desafio nos tornará aptos a concluir essa caminhada em pé, e não de joelhos, capacitados para a reconstrução e também para a prevenção de situações como a que nos abate.

Esse é um caminho possível, porque toda crise tem três forças: aprendizados, oportunidades e finitude. Além disso, as mais bem-sucedidas travessias de tempos trágicos, ou seja, as que implicaram menos perdas e possibilitaram uma reabilitação mais rápida e com uma sociedade mais preparada, tiveram o dom de dar prioridade às demandas do momento e ao olhar no pós-crise – mais que o olhar, o agir em prol do futuro.

Nesse sentido, sempre no espectro dos valores democrático-republicanos e humanísticos, o atual enfrentamento consolida certezas como a prioridade absoluta de salvar vidas, cuidar dos vulneráveis, preservar empregos, empresas e atividades econômicas. Há também a consciência de que devemos ter humildade diante deste obscuro mal, investindo nas melhores ferramentas da ciência e nas virtudes da prudência, da generosidade e da justiça.

No campo dos aprendizados e das oportunidades que a crise enseja, há pontos importantes. A pandemia escancarou a infâmia da desigualdade social no Brasil. Num país que ainda debate sobre a necessidade ou não de quarentena, há mais de 30 milhões de irmãos nossos sem acesso regular a água tratada. Não se trata de discutir distanciamento social, mas de não ter água dentro de casa para lavar as mãos. Mais: 100 milhões não estão conectados aos sistemas de coleta e de tratamento de esgoto. Assim, além do aspecto humanitário e sanitário, os investimentos em saneamento são uma oportunidade, seja para gerar ocupação e renda, seja para enfrentar um dos maiores desafios de nossa secular desigualdade socioeconômica.

A superação dessa desigualdade tem no investimento em educação básica o seu mais potente recurso. Uma educação qualificada promove a autonomia cidadã, é agente de prosperidade compartilhada. E nem é preciso reinventar a roda. Há experiências bem-sucedidas, como as de Ceará, Pernambuco e Espírito Santo, entre outras, assim como há exemplares movimentos da sociedade, como o Todos Pela Educação e os Institutos Unibanco, Ayrton Senna, Natura, ICE e Sonho Grande.

No enfrentamento emergencial da desigualdade, tão manifestamente exposta pela crise da covid-19 e sua gigantesca demanda por suporte e amparo aos mais carentes, resta evidente que é preciso unificar os programas sociais do País e criar um bem estruturado programa nacional de renda mínima, dando prioridade ao socorro aos mais empobrecidos.

A tragédia do saneamento insere-se na grave desorganização da infraestrutura no País, incluindo rodovias, ferrovias, aeroportos, energia, transmissão de dados e portos. Esse setor tem uma demanda urgente de atualização de marcos regulatórios, conferindo-lhe diretrizes modernas, segurança jurídica e atratividade para os investidores nacionais e estrangeiros. Aqui, além de incrementar as bases da produtividade e da competitividade, dinamizando a produção de riquezas, vale notar também a oportunidade de geração de emprego.

O coronavírus tem mostrado também o atoleiro analógico em que está imerso o Estado brasileiro. Revelando mais uma faceta de uma estrutura governativa cara e ineficiente, na hora de se conectar com os milhões de trabalhadores informais para a ajuda emergencial o governo simplesmente não tinha redes nem bancos de dados desse contingente que, apesar de pagar tributos, é desconhecido por esse implacável cobrador de impostos. Ou seja, é impositivo reformar o Estado, em todos os níveis, tornando-o contemporâneo do nosso tempo, incrementando sua interface com a digitalidade, libertando-o do cativeiro imposto por corporações e grupos de interesse, enfim, conferindo-lhe agilidade e eficácia.

Esta travessia, além de destruir riquezas, evidencia algumas tendências para o pós-crise, entre elas, o fortalecimento da ciência, o valor da cultura, o enfraquecimento do populismo autoritário e o incremento inédito da digitalidade em campos como trabalho, consumo, educação e medicina, entre outros. Esperamos que as questões climáticas também entrem de vez na pauta de todo o planeta.

Em meio a tanta dor e desolação, que, paralelamente à luta sem trégua, sejamos capazes de aprender e, assim, possamos sustentar nossa caminhada com o saber e a sabedoria das superações, as de hoje e as do ontem. Esse é o caminho para que possamos resistir com o menor sofrimento possível e para concluir essa travessia tormentosa com rumo, bússola, mapa e energia para investir cada vez mais na dignidade humana e no bem-estar coletivo, de modo socialmente inclusivo, economicamente sustentável e politicamente democrático.

ECONOMISTA, PRESIDENTE EXECUTIVO DA INDÚSTRIA BRASILEIRA DE ÁRVORES (IBÁ), MEMBRO DO CONSELHO DO TODOS PELA EDUCAÇÃO, EX-GOVERNADOR DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO (2003-2010 E 2015-2018)

Selvagens - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO 05/05

As cenas de selvageria protagonizadas por delinquentes travestidos de patriotas, ao agredir o repórter fotográfico do Estado Dida Sampaio e outros profissionais de imprensa, envergonham a Nação


Os camisas pardas do bolsonarismo vestem verde e amarelo. As cenas de selvageria protagonizadas por esses delinquentes travestidos de patriotas durante manifestação com o presidente Jair Bolsonaro em Brasília, ao agredir o repórter fotográfico do Estado Dida Sampaio e outros profissionais de imprensa, envergonham a Nação.

O Brasil civilizado demanda que as autoridades façam uma investigação independente, rigorosa e célere dos fatos, sem se deixarem constranger pela truculência e pelo despudor característicos dos bolsonaristas. O presidente Bolsonaro deveria ser o primeiro a exigir ampla apuração. Mas Bolsonaro quer fazer o País acreditar que ele nem sabe se houve alguma agressão, fartamente registrada: “Eu não vi nada. Recriminamos qualquer agressão que porventura tenha havido. Se houve agressão, é alguém que está infiltrado, algum maluco, deve ser punido”.

Mais uma vez, o sr. Jair Bolsonaro trata os brasileiros como tolos. Tenta minimizar os múltiplos crimes e transgressões cometidos em comício que ele próprio estimulou – a começar pela aglomeração em plena pandemia de covid-19, passando pelas palavras de ordem golpistas e culminando com a covarde agressão a jornalistas.

A esta altura, não é mais possível dissociar a violência bolsonarista daqueles que a inspiram. Mas só há um responsável direto pela espiral de afronta à democracia por parte dos desordeiros com camisas da seleção brasileira – este é o sr. Jair Bolsonaro, de quem se esperam desculpas não em privado, transmitidas por assessores, mas sim públicas, tal como foram as agressões, e essas desculpas devem ser dadas aos jornalistas atacados, a este jornal e ao País. Mas já não há mais esperança de que o presidente venha a desencorajar os boçais que agem em seu nome. Ao contrário: a julgar pelo que disse no domingo, Bolsonaro está disposto a dobrar a aposta contra a democracia, envolvendo agora as Forças Armadas – que, segundo ele, “estão ao nosso lado”.

Depois de sucessivas derrotas no Supremo Tribunal Federal (STF), Bolsonaro declarou que “chegamos no limite”, que “não tem mais conversa” e que “faremos cumprir a Constituição, ela será cumprida a qualquer preço” – referindo-se não à Constituição promulgada em 1988, mas a uma imaginária, que lhe dá poder absoluto.

O presidente, cujo apoio militar se resume a oficiais que ele levou para o governo e que são seus amigos dos tempos de quartel – relação que produz um tipo de lealdade que é pessoal, e não em torno de princípios –, claramente tenta enredar as Forças Armadas em sua ofensiva para desmoralizar o sistema constitucional de freios e contrapesos. “Esse é um fato que traz algum grau de preocupação, porque as Forças Armadas são instituições de Estado, subordinadas à Constituição, e portanto não estão vinculadas a governo nenhum”, reagiu o ministro do STF Luís Roberto Barroso, revelando uma inquietação que deveria ser de todos. Cabe aos chefes militares deixarem claro que nada têm a ver com a aventura bolsonarista e que, ao contrário, a repudiam.

Também se espera das forças vivas da Nação que manifestem não apenas sua repulsa, mas principalmente seu destemor diante de Bolsonaro e do bolsonarismo. “Cabe às instituições democráticas impor a ordem legal a esse grupo que confunde fazer política com tocar o terror”, disse o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. É preciso demonstrar que a Bandeira Nacional não pertence a essa minoria de desqualificados, que tentam sequestrar os símbolos pátrios para se apresentarem como os únicos brasileiros do País – os demais seriam “comunistas”, como foi chamado o ministro do STF Alexandre de Moraes, autor de decisões contrárias a Bolsonaro, numa intimidatória manifestação bolsonarista.

A escalada golpista coincide com o avanço de investigações sobre o clã Bolsonaro. E também coincide com a redução significativa do apoio popular ao presidente: a mais recente pesquisa da XP/Ipespe mostrou que em uma semana cresceu sete pontos porcentuais, para 49%, a fatia de brasileiros que consideram o governo Bolsonaro “ruim” ou “péssimo”. O recado a Bolsonaro vai ficando assim claríssimo: cada vez menos brasileiros toleram um presidente que, eleito para governar para todos, escolheu agir como condutor de pandilha.

A Polícia Federal está diante de incertezas - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 05/05

Novo diretor-geral da PF, ligado ao nome predileto de Bolsonaro, terá a gestão acompanhada de perto


A posse do novo diretor-geral da Polícia Federal, Rolando de Souza, a portas fechadas no Planalto, é parte da crise em que se encontra a instituição. A atmosfera de incertezas em torno da PF se torna ainda mais densa com a nomeação de Rolando, um delegado que trabalhou na Agência Brasileira de Informações (Abin), sob Alexandre Ramagem, que era o preferido do presidente Bolsonaro para o cargo. Impossibilitado por decisão liminar do ministro do Supremo Alexandre de Moraes de nomear Ramagem, Bolsonaro ficou com o seu subordinado. O presidente não pode reclamar de especulações de que a PF estará na verdade sob a sombra de Ramagem, também delegado de carreira.

A visível manobra, a ser desmentida apenas por fatos, é mais um lance na história das desavenças entre o ex-ministro da Justiça Sergio Moro e Bolsonaro sobre o desejo do presidente de tratar a PF como uma autarquia subordinada ao Planalto, um puxadinho do Palácio. Moro resistiu enquanto pôde. Chegou a substituir um superintendente do Rio de Janeiro, área de especial interesse do clã Bolsonaro, mas não conseguiu manter Maurício Valeixo no cargo que agora é de Rolando de Souza. Sob intensa pressão do presidente, saíram Valeixo e Moro, este fazendo um pronunciamento-delação sobre interesses presidenciais nada republicanos na PF, que fundamenta inquérito aberto no Supremo.

Rolando de Souza terá suas decisões acompanhadas de perto. Segundo Sergio Moro, Bolsonaro quer um diretor-geral e superintendentes da PF que lhe possam passar informações a tempo e a hora, como se o Brasil fosse uma republiqueta de bananas. Deseja converter a PF, um organismo de Estado, em um departamento do governo. Não há base legal para isso. Existem normas, protocolos. Tudo piora quando se sabe, por Moro, que Bolsonaro tem preocupação especial com inquéritos sobre a organização de manifestações antidemocráticas e a disseminação de fake news e ataques contra o Supremo e seus juízes, investigações presididas no STF por Alexandre de Moraes. As revelações de Moro levaram o ministro a atender à reclamação do PDT contra a ida de Ramagem, amigo da família Bolsonaro, para o posto mais elevado da PF. O ato esbarra nos preceitos constitucionais da “impessoalidade, da moralidade e do interesse público”.

O novo diretor-geral, em tese, será aquele para o qual Bolsonaro se sentirá à vontade para pedir favores. Mas é precipitado qualquer julgamento de Rolando de Souza. Bolsonaro, também de acordo com Moro, desejava trocar o superintendente do Rio, onde há investigações que envolvem o filho, senador Flávio Bolsonaro, no escândalo das “rachadinhas”, golpe dado na Alerj para desvio de dinheiro público. Ontem mesmo, Rolando de Souza convidou este superintendente, Carlos Henrique Oliveira, para ser seu segundo, cargo de peso, mas distante das investigações. Falta, para confirmar o que disse Moro, afastar o superintendente de Pernambuco. As atenções sobre Rolando de Souza aumentam. Se continuar assim, reforçará as denúncias de Moro.

Não é sério - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 05/05

Dano à imagem global do Brasil se agrava com a gestão da pandemia por Bolsonaro



No auge de uma hoje pitoresca Guerra da Lagosta, rinha diplomática travada entre brasileiros e franceses em torno da pesca do crustáceo em 1963, espalhou-se que Charles de Gaulle havia dito que “o Brasil não é um país sério”.

O mítico presidente francês nunca proferira a frase, assumida anos depois como um comentário privado do então embaixador brasileiro em Paris, Carlos Alves de Souza.

Ela ficou, contudo, no imaginário popular e na crônica política como prova de como somos malvistos por povos ditos mais civilizados.

Os anos se passaram e a relativa estabilidade institucional adquirida após a redemocratização, acompanhada pela maior racionalidade no trato da economia, pareciam ter colocado o Brasil em um clube de nações que, se não exprimem o que há de melhor em termos civilizatórios, se esforçam para tanto.

Até aqui, ao menos. Após passar um ano sendo alvo de críticas no exterior, ora por suas paixões autoritárias, ora pelo trato da Amazônia, Jair Bolsonaro virou o pária da vez —e levou consigo o país— devido à sua política errática de combate à pandemia.

Primeiro foi a imprensa, que o identificou junto ao punhado de líderes que preferiram minimizar o Sars-CoV-2, gente do quilate do autocrata bielo-russo Aleksandr Lukachenko —aquele que receita vodca e sauna contra o vírus.

Aos poucos, a percepção negativa se consolida entre chefes de Estado mundo afora, a começar pelos vizinhos regionais.

O argentino Alberto Fernandéz disse que não vê seriedade nas ações brasileiras. O mesmo foi relatado nos governos de Uruguai, Paraguai e Bolívia, todos preocupados com a extensa e porosa faixa de fronteira com o Brasil.

A China, ofendida pelas críticas à sua condução da crise feitas por Eduardo Bolsonaro e Abraham Weintraub, subirá o preço de negociações daqui para a frente. Outro golpe recente veio do ídolo de Bolsonaro, o presidente norte-americano Donald Trump.

Desde a semana passada, ele citou o problema da pandemia no Brasil em três ocasiões, cogitando até vetar voos do país aos EUA. Só sobrou um elogio genérico ao esforço de Bolsonaro, de resto numa cruzada semelhante à de Trump, para reabrir a economia apesar da tragédia imposta pela Covid-19.

Se já não gozava de muito respeito externo, Bolsonaro vai precisar fazer mais do que posar com bandeiras americana e israelense em atos antidemocráticos para tentar recuperar a imagem do país.

Não é detalhe. O impacto da falta de seriedade se espraia da diplomacia para a economia, com potenciais danos a investimentos futuros e perda de densidade em negociações políticas e comerciais.

segunda-feira, maio 04, 2020

O mercado da pandemia e o niilismo - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 04/05

A gourmetização da exploração será oferecida como nova tendência de negócios

Os últimos séculos nos legaram um hábito de controle: computadores, celulares, longevidade, vacinas, anticoncepcional. A contingência parecia acuada no seu canto como algo cafona.

Eis que ela volta à cena, na forma descrita pela literatura trágica: cruel, randômica e carregando no seu coração a cegueira não humana dos elementos indiferentes do universo. O vírus é niilista na sua estrutura cosmológica.

A fúria motivacional se constituiu, nos últimos anos, em paradigma do mundo corporativo, da educação e, logo, da filosofia e da teologia. O paradigma do coaching se fez cosmologia. E, com o mercado da pandemia, esse processo só se radicalizará porque as pessoas estão em pânico. Sob pânico, a exploração cresce exponencialmente.
Ricardo Cammarota

O mercado da pandemia faria Adam Smith (1723-1790) se perguntar de forma mais radical ainda quais seriam os danos causados pelo enriquecimento das nações aos sentimentos morais. Adam Smith era um filósofo da moral, como, aliás, a maioria dos iluministas britânicos dos séculos 18 e 19. O mercado da pandemia faria nosso filósofo enrubescer de vergonha.

Se a ganância, o egoísmo e o oportunismo sempre foram “paixões negativas” que produzem riqueza, fato não ignorado por Adam Smith, o mercado da pandemia comprovará seu temor original de forma mais radical.

O pânico das pessoas diante da visita cataclísmica da contingência, pondo em dúvida nossos avanços na vida social, econômica, política e global, já dá indícios de que o mundo pós-pandemia será mais hostil, controlador e explorador do que foi até aqui.

Purpurina e “gourmetização” da exploração serão oferecidos como novas tendências de negócios em todos os níveis. Aliás, a comparação feita pela primeira ministra alemã Angela Merkel entre o que vivemos e a Segunda Guerra Mundial se revela cada vez mais evidente.

Nas guerras, as virtudes se tornam raras, e não o contrário. Como já descrevera o grande Tolstói (1828 1910) no seu “Guerra e Paz”, romance que se passa nas guerras napoleônicas, as guerras e as batalhas são eventos em que imperam a covardia, a sorte e o azar como senhores do mundo.

Sua conhecida concepção de história, discutida a fundo pelo filósofo Isaiah Berlin (1909-1997) em seu livro “Pensadores Russos”, revela um Tolstói descrente em qualquer sentido histórico maior, uma espécie de anti-Hegel convicto.

Reduzidos ao medo e à precariedade moral, econômica e política, homens e mulheres perdem certas virtudes sociais construtivas e se lançam, como podem, à acomodação e à miséria ética. Foi essa a grande causa do colaboracionismo em escala monumental durante a ocupação nazista nos países da Europa.

Políticos, empresários, artistas, intelectuais, pais e mães de família, em grande maioria, em silêncio, atravessaram a ocupação nazista fazendo qualquer negócio em nome de refeições mínimas no seu dia a dia.

Já vemos os sinais: busca de fama às custas do medo das pessoas diante da pandemia, aumento do nível da exploração do trabalho em nome do marketing, redução de grande parte da população às esmolas dos Estados, defesa de “passaportes de imunidade” para as pessoas trabalharem e, no Brasil, irresponsabilidade na gestão política.

Se alguns acham que a ciência sairá fortalecida moralmente com a pandemia, suspeito que esse juízo não seja tão óbvio. À primeira vista, a espera desesperada pela vacina e por medicamentos nos faz crer nesse fortalecimento da visão social da ciência.

Todavia, ao olhar um pouco mais atento, a ciência tem demonstrado sua multiplicidade contraditória de comportamentos, que vão desde as virtudes de pesquisa que animam muitos dos melhores cientistas e instituições até a busca vaidosa pelas luzes da fama, além de sua vocação totalitária quando erguida ao pedestal da política.

Enfim, o vínculo entre o novo mercado da pandemia e o niilismo já se faz sentir aos olhos de quem sempre soube que esta profunda descrença no mundo nos espreita pela fresta da porta. Arriscaria dizer que um grande desafio espiritual pós-pandemia será não sucumbir ao niilismo mais uma vez.

Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

Um mundo sem bar - GILBERTO AMENDOLA


Crônica de SP: um mundo sem bar

Não tem nada a ver com porres, ressacas ou qualquer comportamento autodestrutivo; bar é a celebração da vida, do amor, da inteligência e do companheirismo
O Estado de S.Paulo - 04/05


Eu não quero viver em um mundo sem bar. Não sei qual vai ser o novo normal depois do fim da quarentena, mas, definitivamente, não quero viver em um mundo sem bar.

Não é pelo álcool, acreditem. Se fosse só por beber, ficaria em casa com meu estoque de garrafinhas. Não tem nada a ver com porres, ressacas ou qualquer comportamento autodestrutivo.

Ao contrário, amigos. Bar é a celebração da vida, do amor, da inteligência e do companheirismo. No final da linha evolutiva traçada por Darwin, podem apostar, o que se vê é um homem sentado no balcão de um bar, tomando sua cervejinha em paz.

Sem bar, o que nos resta é o meteoro (ou a pandemia).

Bar é igreja, startup, salão de beleza, consultório psiquiátrico, UTI, SUS, ONU, OMS... Bar é meio ambiente, Ministério da Cultura, Economia, Educação, Justiça e Direitos Humanos.

O bar é a arena das nossas maiores emoções. Bar é o consolo de quem perdeu. O pódio dos campeões. E o olimpo de quem não quer competir.

Sou um sujeito adaptável. Posso viver sem muitas coisas. Abro mão de quase tudo que possa resultar na aglomeração de seres humanos e, consequentemente, facilitar a disseminação da nojenta da covid-19. Ou seja, estádios de futebol, festivais de música e clubes de swing não mais contarão com a minha presença pelo tempo determinado pelas autoridades.

Mas um mundo sem bar é um mundo pior.

É um mundo sem happy hour, sem aquela olhadinha para o relógio perto do fim do expediente, sem a gravata frouxa e torta no pescoço, sem aquele suspiro de alívio ao se aboletar em um banco e encostar os cotovelos no balcão.

Um mundo sem balcão de bar é um mundo muito pior. É um mundo sem a nossa tábua de salvação, sem a lousa em que rabiscamos projetos, fugas e desastrados sonetos de (des)amor.

Eu não quero viver em um mundo sem bolovo, shot de Cynar, caipirinha, dry martini ou negroni. Não quero viver em um mundo sem amendoim, porção de azeitona ou pururuca. Eu não quero viver em um mundo sem saideira. Eu não quero viver em um mundo em que eu não possa desenhar no ar aquele gesto universal que, em qualquer idioma, significa “fecha a conta, por favor”.

Um mundo sem bar é um mundo sem as melhores pessoas. Como deve ser ruim um mundo em que nenhum garçom nos chame pelo nome, em que nenhum bartender saiba qual o nosso coquetel preferido, em que nenhuma musa nos lance um olhar de desprezo ao deixar o recinto com o cara errado.

Um mundo sem bar é um mundo sem empatia. É um mundo sem amor ao próximo. É um mundo de indiferença. Um mundo cheio de “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”.

Vai por mim! Mesmo que esse próximo esteja na mesa ao lado falando bobagens, contando mentiras ou piadas ruins, ele também será digno desse sublime amor de bar. Mesmo que seja um mala, um inconveniente, alguém exaustivamente alegre ou infeliz como um cactos, ele sempre será digno do infinito amor de bar.

No bar, todo desconhecido ganha um voto de confiança imediato. Todo estranho confirma Rousseau – e é bom por natureza.

O bar é a nossa maior invenção. É a nossa alma coletiva. Nosso colo de mãe. Bares funcionam como postos de abastecimento da humanidade.

– Enche aí meu coração com sua melhor gasolina aditivada de alma.

Um brinde, saúde!

Eu não quero viver em um mundo sem bar.

Quando tudo isso passar, vou sair de casa e ir direto para um balcão. Quem puder que me siga.

Surge uma criptomoeda governamental - RONALDO LEMOS

FOLHA DE SP - 04/05

e-RMB é vinculada à moeda chinesa e operada pelo banco central do país

No meio da crise da Covid-19 surge a primeira criptomoeda governamental, o e-renminbi (e-RMB). Havia muito tempo já se especulava se as moedas virtuais não seriam mais cedo ou mais tarde adotadas por Estados nacionais.

Esse momento chegou. A China lançou na semana passada e está expandindo testes com esse ativo virtual, vinculado à moeda chinesa e operado pelo banco central do país.

Cidades como Pequim, Chengdu e Shenzhen são algumas das primeiras a atuar no projeto. Por exemplo, funcionários públicos dessas cidades vão começar a receber salários na nova moeda virtual a partir de maio. Um aplicativo específico de carteira virtual é utilizado para fazer transações.

No entanto, a facilidade de uso é total. Isso ocorre porque na China a maioria dos pagamentos já é hoje digital. Tudo se paga pelo celular.

Moradores de rua, por exemplo, carregam placas com seu código QR, porque sabem que o celular é a única forma de receberem um auxílio (quase ninguém carrega dinheiro em papel). Só que esses pagamentos digitais ainda eram atrelados ao dinheiro convencional. A ideia é que agora possam funcionar também com base na nova moeda virtual.

Tudo isso contrasta fortemente com a situação do Brasil, país em que 1 de cada 3 adultos não tem sequer conta bancárias. As imagens de pessoas dormindo nas ruas em longas filas na porta de agências da Caixa para tentar receber o auxílio emergencial dão conta do tamanho da calamidade que a exclusão financeira provoca.

Países como a Índia e a China promoveram, nos últimos dez anos, um processo de bancarização gigantesco. O Brasil ignorou essa questão e agora paga um preço enorme por isso, cobrado em vidas.

Com a nova moeda virtual, a China aprofunda a digitalização da sua economia, com possíveis repercussões globais.

É curioso notar que o que acelerou a moeda virtual do país foi justamente a publicação pelo Facebook do seu projeto chamado Libra. No projeto, a empresa propunha criar uma moeda virtual global, que poderia servir de alternativa monetária ao dólar.

Lançado com grandes expectativas, o projeto do Facebook acabou paralisado. Produz agora um efeito concreto, de ter impulsionado a China a correr e tomar uma iniciativa similar, não em nome de uma empresa, mas sim de um país.

A medida é também um movimento preventivo contra a crescente politização do dólar. A moeda americana vem sendo progressivamente utilizada como instrumento de política externa. Em 2019, empresas europeias foram ameaçadas de exclusão do sistema de compensação internacional do dólar pela rede Swift por estarem vendendo para o Irã.

Para se precaver desse movimento, a expectativa é que o e-RMB seja um passo na criação de outro sistema de transações monetárias internacionais que não precise da rede Swift (criada em 1973) para serem completadas. Em vez dessa rede, adota-se estrutura baseada em blockchain, de aplicação global. Só que, em vez de atrelar-se à imprevisibilidade de várias criptomoedas, vincula-se a uma moeda fiduciária emitida por um Estado nacional.

Esse pequeno passo pode ser o bater de asas da borboleta capaz de influenciar o curso natural das coisas e provocar um furacão do outro lado do mundo.

READER
Já era Achar que criptomoeda é coisa de maluco

Já é Explosão de criptomoedas autônomas, como bitcoin, ether e lumen

Já vem A corrida das criptomoedas estatais, em que o vencedor leva tudo

Ronaldo Lemos
Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

Sem Moro e Guedes, circo de Ernesto Araújo perde sentido - MATHIAS ALENCASTRO

FOLHA DE SP - 04/05

Com demissão de um e desprestígio de outro, aliança animada por chanceler passa a depender de militares

Donald Trump virou as costas para Jair Bolsonaro. Numa tentativa de se livrar da fama de negacionista, o presidente americano passou a se referir ao Brasil como um exemplo de descontrole da pandemia do coronavírus. O aliado estratégico virou o homem doente da América Latina.

Mas o distanciamento de Trump não é unicamente imputável ao desgaste provocado pela crise sanitária.

Para a Casa Branca, as investidas de Eduardo Bolsonaro e Ernesto Araújo nunca passaram de uma reprise latino-americana de "Debi & Lóide", um filme amador dirigido por Steve Bannon. Na realidade, três outros atores sustentavam a diplomacia populista.
O presidente Jair Bolsonaro, acompanhado, entre outros, por Paulo Guedes (de gravata azul e cabelos brancos), Sergio Moro (com as mãos juntas) e Ernesto Araújo (de olhos fechados), em cerimônia em homenagem ao Dia da Bandeira, em Brasília - Pedro Ladeira - 19.nov.19/Folhapress

Personagem de importância subestimada na relação entre Brasil e Estados Unidos, Sergio Moro é respeitado em Washington por sua atuação na investigação da Odebrecht.

Foi graças à parceria entre a Polícia Federal e a Drug Enforcement Agency que Fuminho, número dois de Marcola, acabou detido em Moçambique recentemente.

Paulo Guedes é conhecidamente o fiador do bolsonarismo na Faria Lima e, por extensão, em Wall Street.

Por fim, o acordo de cooperação assinado na Flórida pelo Exército brasileiro consta como o único legado concreto da política externa bolsonarista.

O sucesso de Bolsonaro residia na criação de um circo, animado por Ernesto, para dissimular uma aliança tremendamente convencional de atores jurídicos, militares e financeiros na qual ele e seus familiares controlavam a narrativa, mas não apitavam quase nada.

Com a demissão de Moro e o desprestígio de Guedes, a aliança passou a depender da hierarquia militar, que já está sentindo a pressão.

Um ponto de tensão é o imbróglio em torno da Embraer, descartada pela Boeing e agora desejada por chineses, num negócio apoiado pelo vice-presidente Hamilton Mourão. A disputa de influência entre China e Estados Unidos será um dos fatores a ter em conta no caso de processo de impeachment.

A perda do monopólio da agenda americana pelo bolsonarismo explica o último surto de Ernesto. Ao atacar o embaixador Rubens Ricupero e outros ex-chanceleres, ele quis deixar claro que já não é ministro, tampouco diplomata, mas um fanático de um governo em declínio.

A sua odiosa analogia entre campos de concentração nazistas e isolamento social enfureceu influentes organizações judaicas brasileiras e americanas, o que deve obrigar Trump, atento às implicações eleitorais da sua diplomacia, a desmontar o circo de uma vez por todas.

Passados dois anos, a aliança do Brasil com os Estados Unidos continua deixando os analistas perplexos.

Eleito em parte pelo agronegócio, Bolsonaro poderia ter alinhado a diplomacia aos interesses do setor e feito do Centro-Oeste o equivalente brasileiro do Texas para a política americana —uma província rica em recursos naturais que garante o poder político de dinastias nacionais.

Em vez disso, acabou optando por uma subserviência desnecessária aos Estados Unidos, que arruinou a sua aliança com o agronegócio e trouxe pouco mais do que umas selfies e uns likes.

Caberá, no futuro, aos historiadores tentar entender essa bizarrice do bolsonarismo.

Mathias Alencastro
Pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e doutor em ciência política pela Universidade de Oxford (Inglaterra).

Cotovelo civilizador de Pujol e risco de um golpe sem golpe. Cuidado, STF! - REINALDO AZEVEDO

UOL - 04/05


O presidente Jair Bolsonaro sempre teve uma alma golpista. Desde quando estava no Exército, de onde foi chutado. Especulou explodir algumas bombas em quarteis e mandar para os ares o sistema de abastecimento de água do Rio para protestar contra baixos salários. É o que se chamava à época e se chama ainda hoje "subversão". Foi ser político. Nessa condição, foi um incansável pregador da... subversão da ordem.

Não é diferente como presidente. Consta que estaria descontente com o general Edson Leal Pujol, comandante do Exército. Até agora, este não emitiu sinas de dar bola para conversa mole do golpismo. As Forças Armadas, diga-se, também o Exército, sempre que isto não afetou seu serviço essencial, adeririam às medidas de distanciamento social.

Parece que Bolsonaro gostaria de substituir Pujol — é o velho gosto de mandar, a vã cobiça. Não buliria com Ilques Barbosa Junior, Comandante da Marinha, e Antônio Bermudez, Comandante da Aeronáutica. Se o fizer, ou conta com o apoio de Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa, ou, então, decide humilhá-lo. É verdade que o governo virou uma cornucópia, uma fonte de renda extra, para fardados da reserva. Pergunto: forças regulares do Estado brasileiro merecem esse tratamento?

Sim, senhores! Bolsonaro tem alma disruptiva. Ele quer o confronto. E, se vocês perguntarem por quê, não encontrarão a resposta. É mentira que o Congresso não o deixe governar. O Parlamento lhe deu o que nenhum antecessor teve: a reforma da Previdência. Vai lhe dar uma PEC do Orçamento de Guerra que lhe confere plenos e totais poderes para enfrentar a crise. O governo quer asfixiar os Estados por intermédio da reposição — menor do que deveria ser — do ICMS. Até isso deve conseguir com a ajuda de Davi Alcolumbre.

A dita sequência de derrotas sofridas no Supremo só aconteceu porque este é um governo que flerta com o absurdo, assim como seus aliados próximos. Lembro.

- Queria determinar por decreto a abertura da economia nos Estados. Pode? Não.

- Queria usar a crise para estuprar a lei de acesso à informação. Pode? Não.

- Queria dar um truque para prorrogar vigência de Medidas Provisórias. Pode? Não.

- Queria fazer uma campanha em favor da volta ao trabalho, contra política adotada pelo próprio Ministério da Saúde. Pode? Não.

- Queria suspender a CPI das Fake News. Pode? Não.

- Queria expulsão sumária de diplomatas venezuelanos. Pode? Não.

- Queria nomear um diretor-geral da PF depois de evidenciar que este tinha como tarefa atender a interesses não republicados. Pode? Não.

Como? O STF não deixa Bolsonaro governar, ou é Bolsonaro que pretende governar como se não houvesse leis?

De modo reiterado, como vemos, chama para o centro do debate as Forças Armadas e tenta fazer delas suas aliadas no esforço de emparedar os outros dois Poderes — como se, de fato, estes buscassem asfixiá-lo. Dá-se precisamente o contrário.

O problema de Bolsonaro é que ele trata as instituições, e isso inclui as Forças Armadas, como se fosse o fundo do seu quintal, a sua área de despejo.

COTOVELO

Na quinta-feira passada, assistimos a um lance meio patético, constrangedor. O presidente foi a Porto Alegre para participar da posse do novo general do Comando Militar do Sul. E, todo alegre, tentou dar a mão aos militares, como não se deve fazer. Pujol foi o primeiro a lhe oferecer o cotovelo, sendo seguido depois pelo general Geraldo Antônio Miotto.

A rigor, convenham, é questionável se a solenidade deveria ter acontecido nestes dias. Acontecendo, que se tomem os cuidados mínimos, segundo recomendação da ciência. Não com o presidente da República. Pujol teve de lembrar àquele que a Constituição define como chefe supremo das Forças Armadas qual é a regra do jogo.

Será que o presidente vai mesmo querer promover trocas no comando das Forças Armadas para que estas sejam mais leais à sua deslealdade à Constituição e às regras do jogo? É o que vamos ver.

CRISE INSTITUCIONAL

Depois que liminar do ministro Alexandre de Moraes impediu a posse de Alexandre Ramagem no comando da Polícia Federal, Bolsonaro chegou a dizer na sexta que "quase houve uma crise institucional". Ninguém entendeu o que quis dizer. Sim, acreditem: ele cogitou a possibilidade de não atender a uma determinação do Supremo. Afinal, como disse, "quem manda sou eu".

Seus incendiários recomendam que ele insista no nome do delegado. Em sua fala deste domingo, há uma clara ameaça ao Supremo. Destaque-se este trecho da fala:
"As Forças Armadas estão ao lado da lei e da ordem, da democracia e da liberdade, também estão do nosso lado. E Deu acima de tudo. Vamos tocar o barco. Peço a Deus que não temos (sic) problema nesta semana porque chegamos no limite. Não tem mais conversa. Daqui para a frente, não só exigiremos: faremos cumprir a Constituição".

Dito de outro modo: "Se eu for contrariado de novo, vou fazer cumprir a Constituição porque estou com as Forças Armadas". No caso, entenda-se por "cumprir a Constituição" exercitar o "quem manda sou eu". É mesmo? Será que vai dar um golpe? Fechar o Supremo? Cercar o Congresso? Censurar a imprensa?

Prestem atenção a uma coisa importante. Não creio que haja insensatez o suficiente entre os militares da ativa para apoiar um autogolpe. Penso que os militares do Alto Comando sabem o que isso significaria para um país cuja reputação, mundo afora, já não merece nem mais a lata do lixo.

Mas também não podemos viver com Poderes intimidados, acovardados, como se o golpe, na prática, tivesse sido dado. Por isso, sempre que o senhor Jair Bolsonaro resolver afrontar a Constituição, é preciso que seja tolhido e mantido nos limites da Carta.

A única crise séria em que o Judiciário pode meter o Brasil é não cumprir a lei.

Quanto aos militares, dizer o quê? Alguém como Bolsonaro só prospera em meio a divisões, conflitos e rasteiras. Gostamos de pensar que as Forças Armadas não cairão nessa armadilha. Ocorre que estamos experimentando o incômodo de vê-las crescentemente comprometidas com um governo que não tem apreço nenhum pela institucionalidade, pela ordem, pela regra do jogo. Ou os militares que convivem com ele e que o conhecem o têm como exemplo de disciplina?

No ato deste domingo, o presidente deu a senha: está à procura de um novo confronto com o Supremo. O primeiro magistrado que piscar na aplicação do marco constitucional estará dando a sua contribuição ao golpe sem golpe, a uma espécie de golpe branco.

E isso não pode acontecer.

O presidencialismo de coalizão voltou - CARLOS PEREIRA

O Estado de S.Paulo - 04/05

Ter ignorado o presidencialismo de coalizão pode custar a sobrevivência do governo



As relações entre instituições políticas, regras do jogo, e escolhas/preferências individuais são muito complexas. Em muitas ocasiões, as regras existentes podem deixar de fazer sentido para algumas pessoas ou mesmo para a própria sociedade. Nessas ocasiões em que as regras em vigor não mais conseguem oferecer os resultados esperados, mudanças institucionais têm maiores chances de acontecer.

O presidente Jair Bolsonaro foi eleito negando as virtudes do presidencialismo de coalizão. Propôs um rompimento com o que chamou de jogo da política tradicional e se comprometeu com a implantação de uma suposta “nova política”. Preencheu as expectativas de uma parcela do eleitorado de “limpeza” da política, construindo uma plataforma essencialmente antipartido, enfatizando a imagem de que todas as siglas e seus membros seriam iguais e fariam parte de uma mesma elite corrupta. Ao associar diretamente o estilo predatório de presidencialismo de coalizão praticado pelos governos do PT à corrupção, Bolsonaro alimentou no eleitorado uma espécie de aversão à própria política.

Uma vez eleito, Bolsonaro se comportou de forma consistente com o que havia prometido durante a campanha. Se negou a montar uma coalizão de governo, acreditando que poderia governar na condição de minoria. Adotou uma estratégia conhecida como presidencialismo plebiscitário, estabelecendo conexões diretas com seus eleitores e ao mesmo tempo negligenciando as instituições numa espécie de cruzada contra todos que lhe oferecessem resistência.

Se estava de fato insatisfeito com o presidencialismo de coalizão, deveria ter aproveitado a força do início de seu governo e ter proposto uma reforma no sistema político. Preferiu nadar individualmente contra a corrente ao invés de propor mudanças institucionais que viessem a reduzir os problemas governativos decorrentes da ausência de uma coalizão majoritária dentro do presidencialismo multipartidário.

Dois choques recentes fragilizaram profundamente o governo Bolsonaro, reduzindo drasticamente seu apoio junto à sociedade, colocando em xeque sua escolha de continuar governando sem uma coalizão: um exógeno, a subestimação dos impactos da pandemia do novo Coronavírus; e outro endógeno, a saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça.

Esses eventos obrigaram Bolsonaro a se voltar para a antes demonizada coalizão como forma de sobrevivência política. Busca apoio do conhecido “Centrão”, formado por partidos políticos heterogêneos, ideologicamente amorfos e não programáticos.

Ao corromper suas promessas de uma “nova política” junto ao seu eleitorado mais cativo, Bolsonaro realiza um dos maiores estelionatos eleitorais da história recente. Substitui legitimidade eleitoral por sobrevivência. Sua conversão tardia ao presidencialismo de coalizão pode ter se dado em condições muito mais adversas que as que teria encontrado se tivesse construído uma coalizão majoritária e estável desde o início do seu governo.

Ainda é cedo para vaticinar o futuro do presidencialismo de coalizão a la Bolsonaro. Afinal de contas, antes tarde do que nunca. Entretanto, será muito difícil que Bolsonaro consiga impedir que os seus novos aliados inflacionem o preço do apoio.

Como esse é um jogo de repetição, é esperado que o Centrão aja de forma estratégica e aumente o valor da contrapartida para o suporte político a cada novo sinal de vulnerabilidade. Afinal de contas, o céu é o limite quando se perceber que o que está a prêmio é a cabeça do presidente.

O paradoxo de Bolsonaro - DEMÉTRIO MAGNOLI

O GLOBO - 04/05

O cenário é sombrio para o presidente da ‘gripezinha’


Meio a meio, duas vezes. A pesquisa Datafolha realizada na esteira da demissão de Sergio Moro indicou 45% favoráveis à deflagração de processo de impeachment e 48% contrários. O instituto também registrou queda de apoio ao isolamento social, agora em 52%, contra 46% que querem a “volta ao trabalho”. Paradoxalmente, a mesma emergência sanitária que precipitou a crise do governo mantém Bolsonaro à tona — e não apenas porque impede manifestações públicas.

O cenário é sombrio para o presidente da “gripezinha”. O “estado de guerra”, como regra universal, dá coesão às sociedades em combate ao “inimigo comum”. Pelo mundo afora, os governos ganham popularidade na emergência do coronavírus. O Brasil, onde metade dos eleitores pede a adição de uma crise institucional à crise da pandemia, é a única saliente exceção.

Moro entrou em confrontação letal com Bolsonaro, cindindo a coalizão política e social de sustentação do governo. O ex-juiz, ex-ministro e sempre candidato leva ao campo de batalha o “Partido dos Procuradores”, duas legendas parlamentares (PSL e Podemos) e uma camada de eleitores incensados pela narrativa da luta contra a corrupção. Segundo o Datafolha, 52% avaliam que, no intercâmbio de acusações, a verdade está com Moro, contra escassos 20% de crentes na palavra presidencial.

Mas os números são caprichosos, solicitando leitura mais sofisticada. O governo mantém apoio de 33% dos eleitores, e o desempenho de Bolsonaro na crise sanitária tem o aplauso de 27% e uma resignada aceitação de outros 25%. Vitória na derrota: o presidente resiste, ainda sem ventilação mecânica. A solução do mistério encontra-se na dependência e nos sofrimentos impostos pela emergência sanitária, subestimados entre analistas que fazem quarentena com vista para o mar.

Dezenas de milhões começam a receber os esquálidos, mas vitais, R$ 600, que levam a assinatura oculta do presidente. Cinco milhões de trabalhadores formais já perderam seu empregos ou experimentam cortes salariais. Multidões de comerciantes assistem, impotentes, à destruição de negócios que garantem a renda familiar. Cumpre não confundir essa vasta parcela da população com o núcleo militante bolsonarista, que reage a estímulos ideológicos extremistas.

O apelo da “volta ao trabalho” cala fundo no Brasil que não pratica o nobre esporte do home office. Uma sondagem conduzida pelo cientista político Carlos Pereira e publicada no “Estado de S. Paulo (20/4) mostra nítida correlação positiva entre apoio às ações de Bolsonaro na pandemia e a vivência de prejuízo econômico pessoal. O medo de um vírus de consequências incertas atenua-se diante da certeza da perda de meios dignos de subsistência.

A cláusula de exceção, detectada pela sondagem, é o conhecimento direto de pessoa que faleceu sob a Covid. Dois terços dos óbitos no Brasil concentram-se em cinco regiões metropolitanas. Num país de 217 milhões de habitantes, quase ninguém conhece algum dos mais de 7 mil mortos, especialmente em milhares de cidades do interior.

Bolsonaro não perde eleitores, mas os substitui. Saem os admiradores incondicionais do xerife da Lava-Jato. Entram os órfãos da quarentena, espalhados social e geograficamente. Qualificá-los como ignorantes ou incultos nada revela sobre eles. Diz muito, porém, sobre a bolha de classe que delimita o olhar dos analistas.

“Não vão botar no meu colo uma conta que não é minha”, reclamou Bolsonaro, referindo-se à sinistra contabilidade das mortes. O presidente, que não se descolou de Trump tanto assim, cobra de outros a dívida do emprego mas recusa a fatura dos óbitos. Ele nem simula governar, operando como agitador de rua. De um lado, clama contra os governadores e provoca aglomerações. De outro, abstém-se de usar suas prerrogativas para reabrir escolas federais ou liberar acesso às praias e parques nacionais — e seu novo ministro da Saúde jura respeito às determinações estaduais de isolamento social.

A curva da Covid no Brasil tem a forma de um morro em meia-laranja. Já a curva de nossa epidemia política vai adquirindo as feições dramáticas de um Everest.

Louco à solta em Brasília - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 04/05

Se você acha que já leu esse diagnóstico em algum lugar, acertou

Suponha que Jair Bolsonaro, espumando e em camisa de força, seja submetido a um exame psiquiátrico. O resultado poderá ser Transtorno Delirante Persistente, síndrome que inclui alucinações, sensação de perseguição e desconexão com a realidade. O paciente rejeita medicamentos, não admite que está doente e diz que não precisa de ajuda.

Você identificou Bolsonaro em cada item desse diagnóstico. O Transtorno Delirante se manifesta nas alucinações em que ele se vê praticando um autogolpe, fechando o Congresso e o STF e se entronizando como um ditador sustentado pelos militares. O delírio o faz acreditar que a insignificante manada de apoiadores, reunida diante do Planalto para ofender seus adversários e os demais Poderes, representa "o povo brasileiro". Ao juntar-se a eles, Bolsonaro oficializa as ofensas e, ao invocar as Forças Armadas, torna-as cúmplices de suas alucinações.

Vejamos a sensação de perseguição. Bolsonaro vive em permanente estado de terror contra inimigos que só ele enxerga e que, se não existirem, precisam ser criados, até mesmo entre os aliados --porque é disso que ele se alimenta. Os agentes dessa perseguição são todos os que, ao seu lado, ousam ganhar um mínimo de luz própria ou deixam de servi-lo nos níveis inatingíveis que exige dos subordinados.

A desconexão com a realidade também é flagrante. Bolsonaro é o último pitecantropo vivo a enxergar comunistas em toda parte. Nem seu herói Donald Trump acredita mais nisso.

Se o primeiro parágrafo desta coluna lhe pareceu familiar —como se você já o tivesse lido em algum lugar—, acertou. Trata-se do diagnóstico dos dois laudos médicos oficiais das equipes que examinaram Adélio Bispo, o portador de insanidade mental que esfaqueou Bolsonaro em Juiz de Fora, em 2018. Adélio foi internado numa penitenciária federal em Campo Grande (MS). Mas Bolsonaro está à solta em Brasília.

Ruy Castro
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

E daí? A pulsão da morte - FERNANDO GABEIRA

O GLOBO - 04/05

No mesmo dia em que foi treinar tiro ao alvo, Bolsonaro disse sua frase histórica diante dos mortos na pandemia

‘Entre mortos e doentes/ No meio dessas bananas/ Os meus ódios e os meus medos? E daí?”

Essa poderia ser uma versão sinistra de Bolsonaro para a bela cancão de Milton Nascimento “E daí?”.

Sua reação diante dos mortos pelo coronavírus não me surpreende. Creio que posso entendê-la, pois, de certa forma, venho falando dela desde o princípio do governo. Eu a chamei nos meus artigos de namoro com a morte. Era uma forma de sistematizar minhas críticas.

Umberto Eco afirma com razão que por trás de um regime e sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis. É essa pulsão de morte que contesto na política de armas, na retirada dos radares das estradas, no afrouxamento das regras de transporte de crianças nos carros.

No mesmo dia em que foi treinar tiro ao alvo, Bolsonaro disse sua frase histórica diante dos mortos na pandemia. Creio que entendo o que há por trás disso. Ele acredita na tese da imunização do rebanho. Nela, a saída é a inevitável contaminação da maioria para que se resolva de uma vez o problema.

Muitos cientistas afirmam isso. Pode ser que tenham razão. No entanto, o isolamento social torna espaçada essa contaminação, permite que os sistemas de saúde não entrem em colapso: salva vidas.

Bolsonaro até que compreende essa tese. Mas responde com outra: necessidade do crescimento econômico.

A pandemia coloca hoje em discussão o crescimento pelo crescimento. Amsterdã prepara-se para buscar modelos sustentáveis, depois da crise, com o argumento de que o crescimento pelo crescimento é, na verdade, a filosofia da célula cancerosa.

Durante a pandemia, manifestantes contra o isolamento social fizeram buzinaços diante de hospitais em São Paulo. A mensagem que queriam passar era da volta ao trabalho. Assim como não importava o conforto dos doentes hospitalizados, também não importavam as mortes que viriam de uma suspensão prematura da quarentena.

Nesse clima nacional, uma influenciadora digital dá uma festa em plena quarentena e lança o grito: “foda-se a vida”, uma versão tupiniquim do “viva a morte”.

Trabalho com essas resistências no cotidiano. Outro dia, resenhei o artigo de um médico americano que falava do avanço silencioso da pneumonia em pessoas atacadas pelo vírus. Para evitar tantas mortes, ele sugeria que se usasse um oxímetro para medir constantemente o nível de oxigênio no organismo.

Uma leitora reagiu furiosa a esse texto. Nunca mais me leria pois, segundo ela, não compreendo como o Brasil é pobre e não tem condições de pensar nesses instrumentos.

O oxímetro custa em torno de R$ 100. O que ela queria dizer é que estamos condenados pelas circunstâncias a um grande número de mortes.

As pessoas que não se resignam diante das mortes com a pergunta “e daí?” são vistas como personagens trágicas que se rebelam contra o destino.

É nesse contexto de namoro com a morte que se dá também a petrificação do pensamento, a recusa à modernidade, a negação de fenômenos planetários que podem nos inviabilizar como espécie.

Insisto nesse ponto porque a história nunca estará completa se nos detemos apenas no aquecimento global e deixamos de lado os hábitos culturais e as pulsões que o nutrem.

Quando escrevermos a história da passagem dessa peste pelo Brasil, não poderemos esquecer que ela foi politizada, tratada como um vírus comunista, e uma nuvem de suspeição se ergueu contra os que queriam combatê-la de frente.

Com um tempo e alguma pesquisa, talvez possamos estabelecer um paralelo com a chegada dos colonizadores ao continente. Um conjunto de mitos impediu que fossem vistos na sua dimensão real. E isso precipitou a ruína das civilizações aqui existentes.

Ao longo do caminho, tenho enfatizado algumas ideias. Uma delas é a necessidade de uma ampla frente pela vida para se opor à política da morte.

A outra é a confiança de que as pessoas mudam, nem todas é verdade, mas mudam. Quantos não concluíram, depois de atingidos, que o coronavírus não é apenas uma gripe comum?

Outros, certamente, começarão a respeitar a ciência, podem chegar ao ponto de admitir que a Terra é redonda, que vacina garante a sobrevivência e que a humanidade está realmente ameaçada pela degradação ambiental.

Uma aliança pela vida pressupõe uma tática diferente da radicalização que produziu Bolsonaro.

Bolsonaro propaga o vírus da anarquia institucional - JOSIAS DE SOUZA

UOL - 04/05


Não é verdade que Jair Bolsonaro sofra de insanidade. Ele usufrui dela com extraordinário prazer. O problema não está no gozo que a falta de senso proporciona ao personagem. O insuportável é que, sendo o insano momentaneamente presidente, ele queira impor ao Brasil a sua loucura.

O país foi convertido em zona de guerra. Os brasileiros são torpedeados em duas frentes. Numa, o coronavírus mata em escala pandêmica. Noutra, o Brasil sofre ataques do seu próprio presidente. Bolsonaro diz "e daí?" para os milhares de mortos e propaga o vírus da anarquia institucional.

No exercício cotidiano do seu descaso sanitário, Bolsonaro tomou gosto pelas aglomerações, especialmente as de conteúdo golpista. É como se o presidente de 57,7 milhões de votos sonhasse com uma democracia sem Legislativo e sem Judiciário, na qual ele comandaria o governo civil mais militar que o país já conheceu.

Por sorte, Bolsonaro ainda não realizou o seu sonho. Ao contrário, conspira a favor da realização dos seus piores pesadelos. Há duas semanas, discursando para um ajuntamento de golpistas na frente do QG do Exército, Bolsonaro proclamou: "Não queremos negociar nada."

Neste domingo, Bolsonaro ornamentou outro ato antidemocrático. A pauta da manifestação sofreu dois acréscimos. Além das pauladas retóricas no Congresso e no Supremo, houve pancadaria contra jornalista e xingamento a Sergio Moro, o mais novo "comunista" dos devaneios bolsonaristas.

Dessa vez, Bolsonaro afirmou que não vai mais "admitir interferências" no seu governo. "Chegamos no limite", disse. "Acabou a paciência." Ele espera não ter problemas durante a semana. Do contrário, "não tem mais conversa". A Constituição "será cumprida a qualquer preço."

Bolsonaro esclareceu que não está só. Enxerga do seu lado "o povo", "as Forças Armadas" e "Deus". Quer dizer: a era bolsonarista transcorre em dois mundos: o de Bolsonaro e o real.

No mundo de Bolsonaro, uma aglomeração de adoradores se confunde com "o povo". Generais que fracassam na tentativa de presidir o presidente simbolizam o "apoio" dos quarteis. E o populismo místico do presidente estimula nas almas mais ingênuas a crença em uma aliança do governo com o plano celestial.

No mundo real, ouve-se nas janelas e nas varandas o som das panelas. Escuta-se ao fundo o silêncio constrangido dos comandantes militares. De resto, a conversão de personagens como Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto em heróis da resistência revela que Deus está acima de todos mas terceirizou ao Tinhoso as negociações com o centrão.

No mundo de Bolsonaro, o presidente "chegou no limite". No mundo real, Bolsonaro ultrapassou todos os limites. Contra o coronavírus não há outro remédio que não seja o isolamento social que Bolsonaro desrespeita. Por sorte, contra o vírus da anarquia institucional há vacina disponível. Chama-se Constituição.

Bolsonaro ainda não notou, mas o país vem se imunizando contra o vírus presidencial. A despeito dos seus arroubos, o presidente manda cada vez menos. Suas decisões são refeitas e desfeitas ora no Congresso, ora no Supremo. Cresce nos poderes vizinhos a impressão de que talvez seja necessário aumentar a dose da vacina.