quinta-feira, abril 04, 2019

Vivendo no risco - WILLIAM WAACK

O Estado de S.Paulo - 04/04

Parece que Bolsonaro não se importa com o risco, inclusive o do ridículo


Três meses depois de assumir, Jair Bolsonaro demonstra que gosta de viver na beiradinha do risco. O principal deles no momento é arriscar um capital político – aquele que conquistou nas eleições – numa perigosa aposta contra o tempo. A comparação com o que acontece em economia é elucidativa: até agora ele investiu esse capital em quê?

Alguns sinais de erosão desse capital são bem evidentes e só não enxerga quem não quer. Não são as pesquisas de opinião (na qual bolsonaristas, a risco próprio, não acreditam mesmo). Essa deterioração é perceptível em repetidas manifestações de impaciência com o ritmo (ou falta dele) que o governo imprimiu às reformas. Traduzidas em frases desse tipo, que se ouvem por toda parte: “Acredito e AINDA acho que vai”.

É interessante observar o que está acontecendo em setores nos quais se formou, muito antes da eleição, a onda que empurrou Bolsonaro até o Planalto. São pequenos empreendedores, profissionais liberais, nutridas camadas médias de cidades do interior. Que viram em Bolsonaro uma resposta a problemas imediatos como insegurança (real ou percebida, não importa), burocracia, impostos, regulação, insegurança jurídica (em especial questões fundiárias para o agronegócio) – além do clamor anticorrupção.

Nesses grupos a onda ainda não “virou” num sentido contrário, mas, à medida que o tempo avança e a economia não deslancha, a política parece continuar a mesma e as brigas entre os Poderes permanecem inescrutáveis, aquilo que antes era uma mistura de esperança e engajamento está se transformando hoje apenas em esperança. Para alguém, como Bolsonaro, que atribui seu êxito eleitoral em boa parte a essa influência “de baixo para cima” na formação de opiniões, o perigo adiante é evidente.

O presidente despreza os chamados “formadores clássicos” de opinião, especialmente os que se manifestam pela imprensa. Mas esse é um risco grande também, considerando que as vozes críticas “na mídia” começam a se aproximar de outros grupos influenciadores. Trata-se de outros “formadores de opinião” clássicos que não são profissionais de comunicação: figuras respeitadas no mundo de vários segmentos da economia, por exemplo. Era possível “sentir” que a vitória de Bolsonaro estava garantida quando esses últimos pularam para o barco também.

Hoje eles não falam em pular do barco, mas em dar um jeito de dirigi-lo. Nesses círculos, que abrangem o mundo financeiro, industrial, de serviços e empresarial, Bolsonaro está se arriscando a provocar uma irreversível estupefação negativa. São setores que já em boa medida cessaram de ver nele o homem “que resolve”, para enxergar nele o “errático”, insuportavelmente viciado em redes sociais e polêmicas inúteis, que precisa “ser levado” a resolver. Essas elites nem sempre conseguem andar adiante dos acontecimentos, mas é inegável seu grau de influência.

A credibilidade e a confiança tão essenciais para qualquer governo estão hoje se deslocando sensivelmente da figura do “mito” em direção aos núcleos militar, econômico e da Justiça, com poucas figuras realmente de peso no mundo da política que o governo possa chamar de suas. E episódios como a bagunça no MEC e as tiradas do chanceler, reiteradas pelo próprio presidente, produzem situações de ridículo, talvez o mais poderoso ácido corrosivo da imagem de quem precisa ser levado a sério para governar.

Agora que ficamos sabendo, por exemplo, que Joseph Goebbels foi um esquerdista, vale a pena então lembrar uma frase celebremente atribuída a ele, a de que uma mentira repetida mil vezes vira uma verdade. No caso de cretinices, como a de dizer que o nazismo foi um movimento esquerdista, é diferente. Uma cretinice repetida mil vezes só vira uma cretinice ainda maior.

Votar ou não votar - MERVAL PEREIRA

O Globo - 04/04

STF teme que ganhe a posição contrária à prisão em segunda instância, o que levaria Lula a ser solto


Mais do que uma solenidade autoelogiativa, o que aconteceu ontem no Supremo Tribunal Federal (STF) foi uma demonstração do estado de ânimo que domina seus membros, e também os políticos, diante da divisão do plenário que joga a opinião pública ora para um lado, ora para o outro, sempre com críticas agressivas, quando não criminosas.

Acontece também com os políticos, especialmente aqueles que têm cargo de liderança nas duas Casas do Congresso. O ambiente no Congresso é tão ebuliente que a promessa dos bolsonaristas de apresentar uma proposta de emenda constitucional (PEC) revogando a que aumentou para 75 anos a idade compulsória dos ministros pode provocar a reação de ampliá-la para 80 anos.

Isso porque a redução da idade permitiria ao presidente Bolsonaro nomear quatro ministros imediatamente. Como está, ele escolherá no final do próximo ano substitutos para os ministros Celso de Mello e Marco Aurélio Mello. Ao contrário, a ampliação da idade para 80 anos impediria que nomeasse ministros durante sua gestão.

A continuar esse ambiente de confrontação, é provável que as sabatinas dos futuros ministros no Senado sejam mais rigorosas do que o costume, e aumenta a chance de um indicado pelo Palácio do Planalto ser rejeitado. Tudo para evitar que o plenário do Supremo seja formado majoritariamente por ministros que criminalizem a política, como veem a ação do presidente Bolsonaro.

O caso acontecido na semana passada na Sala São Paulo, durante um concerto da Orquestra Sinfônica do Estado (Osesp), é exemplar dessa radicalização. Um homem parou a música aos gritos, criticando o Supremo, nomeadamente os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Os relatos são de que o presidente do Supremo está abalado com os ataques.

Seria por isso que ele tende a adiar o julgamento do mérito da legalidade da prisão em segunda instância, marcado para o dia 10. O pedido foi feito pelo novo presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, que admitiu ontem que não há clima para julgar processo tão delicado, que provoca ações de milícias digitais de ambos os lados, pois atinge não só um número ainda não calculado de presos, que seriam soltos, mas, especialmente, Lula. E fragiliza a Operação Lava-Jato.

O estranho é que o adiamento prejudica Lula, e o presidente da OAB sempre foi um crítico da Operação Lava-Jato e defensor da liberdade do ex-presidente. À primeira vista, houve a interpretação de que o grupo favorável ao ex-presidente estaria temendo perder a votação, que da última vez registrou o placar de 6 a 5 pela prisão em segunda instância.

Não era o que estava previsto, pois o ministro Gilmar Mendes mudou de posição publicamente, reduzindo a 5 os votos favoráveis à legalidade da medida, dando, portanto, maioria ao lado contrário.

Há, no entanto, dúvidas sobre a posição dos ministros Alexandre de Moraes e Rosa Weber. Moraes vota no lugar do falecido ministro Teori Zavascki, que era a favor da medida, e já se pronunciou, inclusive em um voto na sua Turma, também favorável. Mas estaria em dúvida. A situação mais delicada é a da ministra Rosa Weber.

Tendo votado contra a prisão em segunda instância, a ministra tem tido uma atuação impecável. Mesmo contrariando seu pensamento, ela vem votando de acordo com a posição da maioria. Considerou no ano passado que não havia razão para voltar ao assunto tão cedo, mas neste momento ninguém sabe como agirá.

Se votar a favor, o resultado continuaria sendo 6 a 5 pela prisão em segunda instância, mantendo a divisão do plenário, que reflete a do país. O resultado, porém, pode ser de 7 a 4 se tanto Rosa Weber quanto Moraes votarem contra prisão em segunda instância. A tendência, apesar das dúvidas, é que o plenário do STF mude a jurisprudência, favorecendo quem já está preso e impedindo que outros vão para a cadeia.

Tudo indica que o pedido de adiamento foi feito porque o STF está com receio de que ganhe a posição contrária à prisão em segunda instância, o que levaria Lula a ser solto. Os ministros que defendem essa posição estariam temerosos de provocar manifestações políticas contra o Supremo, agravando ainda mais a situação.

Quer dizer, o receio existe, de ganhar ou de perder. O que é ruim para a independência do Supremo e para a democracia.

"Para vivenciar momentos felizes com os filhos - JACIR VENTURI

Gazeta do Povo - PR - 04/04

Até que ponto não estamos impondo uma agenda de executivo para nossos filhos e, com isso, queimando etapas do seu desenvolvimento e comprometendo o seu equilíbrio emocional?


"Muitos momentos felizes e saudáveis da infância podem e devem ser de interação com amiguinhos ou familiares ao ar livre. Essa convivência propicia segurança afetiva, bem-estar psíquico, maior rendimento escolar e desenvolvimento de habilidades motoras. Os benfazejos raios solares metabolizam a vitamina D, (promove a absorção do cálcio, nutriente necessário para o crescimento dos ossos) e são terapêuticos contra a tristeza e depressão.

Custa pouco, quase nada, levar os pimpolhos aos parques da cidade ou chácaras para jogar bola, andar de bike ou a cavalo, churrasquear, empinar pipa, levar o bichinho de estimação para passear, interagir com os patos e peixes ou mesmo ler e contar histórias sob árvores frondosas junto ao aprazível verde da natureza. Considere um triunfo seu filho chegando em casa cansado, suado e com um pouco de vitamina S (S de sujeira), pois robustece o sistema imunológico.

A vida adulta é permeada de frustrações e adversidades, para as quais autoconfiança e autonomia são necessárias

Esses momentos também fazem parte da tarefa de educar os filhos – a mais nobre, porém a mais difícil das missões –, e aos poucos os pais devem se tornar dispensáveis à exceção dos vínculos afetivos. A vida adulta é permeada de frustrações e adversidades, para as quais autoconfiança e autonomia são necessárias. Para o desenvolvimento da autonomia, desde pequeno delegue tudo o que a criança tenha capacidade intelectual e física de fazer, incorporando em seu cotidiano tarefas domésticas consentâneas com a idade e estimulando a ser autossuficiente em relação aos seus hábitos de higiene.

E nós, pais e mães, estamos diante de conflitos, conscientes ou não, em relação aos nossos educandos: com muita dedicação ao trabalho para prover a família, comumente a ausência é “compensada” com bens materiais e conforto. Mas será que assim agindo não estamos criando filhos hedonistas e alheios aos problemas sociais? Além disso, o quanto se deve privá-los de pequenas frustrações e de ouvir alguns “nãos”, em vista das adversidades e negativas que fatalmente encontrarão na vida adulta?

A resposta é genérica – sem deixar de ser eficaz –, mas o que deve prevalecer é a medida equilibrada entre o afeto e os limites, dando a segurança do amor, porém mantendo o controle como duas paralelas que se alargam ou se estreitam para evitar que seu rebento cometa erros irreversíveis. Simultaneamente, é importante que seja propiciada uma boa escala de valores, construída pelas palavras e pelos exemplos. Ademais, bom senso caso a caso, pois os pais que têm dois filhos ou mais aceitam – digo isso em tom de blague – que antes de eles nascerem já combinaram de um ser diferente (ou oposto) do outro, portanto não há padrões universais para bem educar.

Esportes, idiomas, atividades extraclasse são recomendados, mas até que ponto não estamos impondo uma agenda de executivo (talvez para, novamente, compensar nossa ausência) e, com isso, queimam-se etapas do seu desenvolvimento e compromete-se o seu equilíbrio emocional? E como lidar com o excesso de dispositivos eletrônicos que comprometem o sono, estudos, leituras e até mesmo a compleição física? Uma boa medida provém da Academia Americana de Pediatria, que recomenda limites para a exposição diária a todo tipo de mídia: no máximo 1 hora dos 2 aos 5 anos; 2 horas entre 6 a 12 anos; e 3 horas a partir dos 13 anos.

Com ponderação e bom senso, educar é conviver com erros e acertos – e nos inspiremos ou nos confortemos com as palavras de Sigmund Freud: “educar é uma daquelas atividades que errar é inevitável”. Não nos martirizemos querendo ser perfeccionistas, mas busquemos sempre o melhor possível. Até porque uma família perfeita não faria bem aos filhos, pois deixaria de prepará-los para um mundo inevitavelmente imperfeito.

Jacir J. Venturi, coordenador na Universidade Positivo e membro do Conselho Estadual de Educação, é pai de três filhos e avô de três netos."

"A política é uma improvisada melodia - GUSTAVO NOGY

GAZETA DO POVO - PR - 04/04

"Ernesto Araújo disse mais uma vez que o nazismo é de esquerda. Jair Bolsonaro, homem de cultura política sem igual, subscreve a tese. Não sei bem por que, mas algo nessa prosa me traz à memória o desenho animado Pinky & Cérebro. Divago.

A bibliografia especializada situa o nazismo como movimento de extrema-direita, em alguns aspectos semelhante à esquerda, porém distinto noutros pontos bastante essenciais. Passo ao largo desse ocioso debate, até porque ninguém quer ser convencido da posição contrária. Mais do que discutir o conteúdo do que disseram Araújo e Bolsonaro, interessa notar a forma; mais do que o texto, o subtexto. E, enfim, o pretexto.

Antes, um preâmbulo.

Os termos direita e esquerda, que hoje servem para definir o cardápio do almoço de tanta gente, não são conceitos científicos em sentido estrito. São arranjos provisórios, fugidios, instáveis e referenciais; valem mais ou menos, explicam mais ou menos, em virtude de como, onde e quando são lidos, e a depender do centro de gravidade do poder em questão.

Surgiram nos calorosos debates na Assembleia Nacional francesa, em torno da Revolução que se avizinhava, pelos motivos mais prosaicos: os que sentavam à direita do rei queriam a permanência do regime; os que sentavam à esquerda queriam a revolução.

O que se segue é história, mas a história andou se repetindo como farsa por aí. É preciso reforçar: nossos termos tão queridos não são elaborações intelectivas, não são fórmulas químicas ou matemáticas, mas associações casuais, parentesco de circunstância.

Hoje tida como líquida e certa, a consonância entre liberalismo e conservadorismo é menos óbvia do que soa à primeira vista. Não por acaso, a Igreja Católica rejeita a cosmovisão liberal (basta ler os documentos, a doutrina e os apologistas). René Guénon, referência do chanceler, por outros motivos rejeita com ainda mais paixão.

Em suas raízes, o liberalismo é um conjunto de princípios “de esquerda”, aspas propositais para destacar semelhanças e diferenças ante o esquerdismo tout court: existe no liberalismo um elã de mudança, de instrumentalização do mundo, de instabilidade social e de afronta à aristocracia que sempre desagradou tradicionalistas, clérigos e demais críticos da modernidade.

Liberais gostam de mobilidade social, desprezam hierarquias rígidas, louvam o empreendimento, criticam os privilégios, promovem o lucro, cultivam o mérito do egoísmo, defendem liberdades políticas e sociais. Tudo o que monarquias históricas não aceitavam muito bem. A Igreja, por sua vez, aceita porções de liberalismo: comércio, empreendedorismo, propriedade privada; mas afasta outros princípios: a busca incessante do lucro, o desapreço à tradição, a tendência ao relativismo epistemológico e ético.

Dessa crítica feroz ao conservadorismo e às monarquias absolutistas, nascida na Revolução Francesa, os vários flancos do movimento liberal se estilhaçam e sofrem metamorfoses, ganham contornos específicos, assumem formas distintas, adotam táticas e estratégias diversas, absorvem princípios filosóficos particulares: em linhas gerais, o liberalismo reformador é aquele que hoje chamamos de liberalismo puro e simples, de inspiração anglo-saxã, herdeiro da Revolução Branca; já a matiz revolucionária do liberalismo, esta sim anarquista, socialista romântica ou marxista, desembocou no terror, na rejeição ao mercado, na utopia gnóstica de um Estado sem classes e na ditadura bolchevique.

Por aí se vê o quão problemático é dizer que isto é direita, e é bom; aquilo é esquerda, e é ruim. O que importa é perceber que o que hoje nos parece ter nascido prontinho, com olhinhos azuis, no primeiro dia da Criação do mundo, não é muito mais do que acidente histórico, posicionado no tempo, referente a um evento político específico. Esse caráter improvisado do nascimento dos termos direita e esquerda foi sendo aos poucos tido como fixo, imutável, indiscutível.

Então voltamos à heterodoxa afirmação de que o nazismo é movimento de esquerda. Suspeito que, mais do que estudos aprofundados e eruditos revisionismos, o que importa mesmo para o ministro é dividir com precisão os times para conseguir odiar melhor o time adversário. Ernesto Araújo e Jair Bolsonaro não parecem dispostos a governar um país, mas sim propensos a jogar com rivalidades.

Quando assumimos um lado, e acreditamos na realidade quase ontológica desse lado, podemos ignorar as dificuldades tremendas de lidar com os problemas da ciência política que escapem do emaranhado retórico.

Ao dizer que a direita é isso e a esquerda é aquilo, assim, preto-no-branco, desistimos de usar conceitos muito mais claros e férteis na discussão política, como poder, Estado, mercado, coerção, legitimidade, representatividade, autoritarismo, revolução, guerra justa, hierarquia, regicídio, impostos, regimes, sistemas, igualdade, liberdade. Enfim, tudo o que a filosofia e a ciência política discutiam antes de que tudo se resumisse em direita e esquerda, Palmeiras e Corinthians, Bolsonaro e Lula.

Determinados personagens desse governo, opostos simétricos aos personagens dos governos petistas, querem fomentar e gerenciar conflitos para se oferecer como advogados, acusadores e juízes, a um só tempo. Usar e abusar dos agrupamentos ideológicos, dos instintos quase tribais de quem se diz de direita ou esquerda, é truque velho de manipuladores. Lula sempre usou muito bem isso. Bolsonaro, bom aprendiz, também usa."

Perda de foco ou desinteresse? - ZEINA LATIF

O Estado de S.Paulo - 04/04

Não seria exagero afirmar que, com a crise prolongada, temos uma geração perdida



O presidente Bolsonaro perde o foco com facilidade. Em vez de discutir políticas públicas para promover o crescimento e atacar o desemprego elevado, ele voltou a criticar o IBGE pela metodologia de apuração da taxa de desemprego. Ele afirma que seria feita para “enganar a população”, sugerindo que o quadro é melhor do que o indicado.

Qualquer que seja o patamar “verdadeiro” do desemprego, o fato é que a sociedade sente na pele as dores de uma economia que pouco cresce. O medo do desemprego é elevado e os consumidores se mantêm pessimistas neste início de ano.

A taxa de desemprego é apenas uma métrica, e que atende às recomendações e aos padrões internacionais. Não se trata de ser verdadeira ou falsa. Como qualquer métrica, tem suas limitações. De fato, ela não permite uma visão completa do que ocorre no mercado de trabalho. Por isso especialistas analisam o desemprego sob vários ângulos. O time econômico certamente o faz. E o retrato não é nada bom.

A taxa de desemprego é a razão entre pessoas sem trabalho e procurando emprego em relação à força de trabalho. Se a pessoa não está trabalhando, mas também não está procurando trabalho, ela não entra na estatística.

Em períodos de mercado de trabalho ruim, com pouca oferta de vagas, observa-se que parcela dos trabalhadores deixa de procurar emprego, pois acredita que a probabilidade de encontrar algo é muito baixa. Não valeria a pena o esforço.

Conforme o mercado de trabalho começa a melhorar, esta probabilidade aumenta e o grupo de desalentados retorna ao mercado procurando emprego e pressionando a taxa de desemprego. Ou seja, mesmo com o aumento da oferta de vagas, o desemprego recua lentamente, pois há mais pessoas procurando trabalho. A chamada taxa de participação (parcela da população em idade ativa que está no mercado de trabalho, tanto ocupada, como desocupada) aumenta.

A taxa de participação está apenas ligeiramente acima da média histórica. Aliás, ela caiu desde o pico recente em outubro. Fazendo um cálculo alternativo da taxa de desemprego, assumindo a estabilidade da taxa de participação, observa-se números próximos ao da estatística oficial e até uma piora do indicador recentemente, segundo cálculos da AC Pastore & Associados. A bronca do presidente não se justifica.

Os resultados dos últimos meses indicam deterioração adicional do mercado de trabalho. A crença de muitos de que o fim da eleição iria contribuir para dar um “empurrão” na economia não se concretizou. O número de desalentados é significativo. São 4,9 milhões de pessoas ou 2,8% da população em idade ativa. Valor recorde na série iniciada em 2012.

Ainda, a Organização Internacional do Trabalho recomenda ampliar o grupo daqueles que deveriam ser considerados desempregados, considerando também os subocupados por insuficiência de horas trabalhadas. Neste caso, a taxa de desemprego estaria acima de 18,5%, e não na casa atual dos 12%.

Os jovens são bastante prejudicados. A taxa de desemprego dos indivíduos entre 18 e 24 anos está acima de 26%. A falta de perspectivas é veneno para esta faixa etária. Não seria exagero afirmar que, com a crise prolongada, temos uma geração perdida.

O desemprego da população adulta preocupa também, e muito. São arrimos de família. A perda de emprego do chefe de família afeta os demais membros. Os números são ruins. Ainda que a taxa de desemprego dos que têm entre 40 e 59 anos seja mais baixa, de 7,5%, o contingente é grande. Representa quase 23% dos desempregados.

O governo vai completar seus 100 dias. Não se identificam ações para suavizar o sofrimento dos desempregados no curto prazo ou agenda de longo prazo para geração de empregos. Será que teremos novidades adiante ou irá prevalecer o que hoje se vê no discurso oficial, que dá ênfase a temas irrelevantes ou secundários, sem a devida preocupação com o desemprego?

*Economista-chefe da XP Investimentos

Falta dinheiro, vai faltar paciência - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 04/04

Sem recursos, sem PIB, sem coordenação política, governo ainda incentiva raiva

O sururu entre os deputados e Paulo Guedes não vai dar em nada: é sintoma, não motivo. A fibrilação dos preços no mercado, que o pessoal da finança atribuiu ao arranca-rabo na audiência do ministro, também foi nada.

O ministro da Economia foi nesta quarta-feira (3) à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara falar sobre Previdência, na CCJ em que a reforma vai começar a tramitar. Guedes e deputados bateram boca e daí para baixo.

Juros e dólar subiram, a Bolsa caiu, “business as usual”.

Teria sido um desastre se a turumbamba fosse imprevista, se não fosse apenas um sintoma óbvio.

O circo estava armado para Guedes apanhar pelo motivo sabido: desgoverno, um governo sem tropas no Congresso e ânimos nacionais acirrados.

De resto, o ministro não é um mestre na arte de fazer amigos e influenciar pessoas, por assim dizer. Enfim, é conversa mole dizer que a audiência “evidenciou” as dificuldades que o governo terá para aprovar a reforma.

Para quem tem um tico de discernimento, prever tais dificuldades era fácil desde antes da posse de Jair Bolsonaro, quando o presidente eleito disse que desdenharia o Congresso e nomeava uma equipe sem capacidade de coordenação de governo e de atuação parlamentar. Mas basta de obviedades maiores.

De modo desordenado e amador, pelo menos por estes dias o governo tenta salvar o que sobrou do incêndio. Já não seria fácil mesmo com uma súbita boa vontade pragmática e com profissionais em campo. Ficou mais difícil porque em um trimestre houve degradação do ambiente.

Primeiro, o governo tem ainda menos dinheiro para gastar do que previa. Não tem como levar deputado para ao menos inaugurar obra. Como se escrevia aqui na semana passada, o corte do investimento faria a construção civil estrilar. Pois bem, começou. A bancada do boi quer perdão de dívidas previdenciárias.

Outras querem manter subsídios. Etc. Mas não há dinheiro. Pelo menos até meados do ano, não vai melhorar.

Segundo, empresários começam a dar sinais de impaciência ou irritação. Mesmo quando associações empresariais soltam manifestosde apoio à reforma da Previdência, dão a entender que estão vendo o gato subir no telhado.

Gente de empresa vaza notas para os jornais, “externando preocupação”, alguns francamente revoltados com a baderna. Quando as coisas vão bem, essas pessoas ficam quietas.

Terceiro, ainda que o ano não esteja perdido para a economia, o primeiro trimestre foi ruim, talvez de crescimento zerado, e o segundo é uma incógnita que vai se equilibrar sobre esse quase nada.

A confiança econômica baixou. As pessoas estão cansadas de frustração, com medo de um terceiro ano de quase estagnação depois de promessas de crescimento que vêm desde o final de 2016.

Para piorar, em outros assuntos o governo incentiva ódios e divisões ainda maiores no país, em vez de tentar disseminar esperança e calma, enquanto (possivelmente) as coisas se ajeitam.

Besteira sentimental? Não, não é. Quem observa e analisa séries de pesquisas de opinião, de confiança e dados de atividade econômica nota que, por vezes, um líder político esperto consegue levar no gogó uma situação materialmente difícil.

Promessas não pagam dívidas e conversa não enche barriga, mas um diálogo politicamente inteligente pode sustentar uma travessia do deserto.

Aconteceu com Lula da Silva, aconteceu com FHC. Não foi assim com Dilma Rousseff nem com Fernando Collor.

Vinicius Torres Freire

Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA)

"O Estado de bem-estar social” brasileiro não beneficia os mais pobres - LUAN SPERANDIO

Gazeta do Povo - PR - 04/04

"É comum que progressistas justifiquem sua posição ideológica com base na empatia com os mais desafortunados e defesa da igualdade. O apreço pela proteção dos mais pobres e a preocupação com a opressão sofrida por minorias são, de forma ordinária, os fundamentos para que sejam favoráveis ao chamado Estado de bem-estar social.

A ideia do Estado-assistencial trata-se justamente de ajudar os mais pobres. Com recursos obtidos por meio de impostos, o poder público deve sustentar uma rede de escolas, hospitais, moradia e previdência, entre outros serviços que podem variar de um país para outro. Nesse sentido, ao dispor sobre como será organizado o orçamento nas finanças do Estado brasileiro, a Constituição de 1988 estabelece que uma de suas funções é a redução das desigualdades sociais.

Atualmente 54,8 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza segundo o IBGE. Significa dizer que um a cada quatro habitantes não tem renda suficiente para atender suas necessidades básicas, como alimentação, habitação, transporte e vestuário. O percentual aumentou após a maior recessão da história brasileira, mas é bom lembrar que a proporção de brasileiros em situação de vulnerabilidade social no início do século era o dobro da atual.

Os defensores de um Estado de bem-estar social o justificam argumentando que a neutralidade estatal em face dos negócios privados agravou as diferenças econômicas a partir das revoluções do século XVIII. Assim, o Estado passou a agir como mediador das diferenças econômicas, suprindo necessidades a partir de programas governamentais e benefícios sociais.

No entanto, como o que importa não são as intenções das ações, mas sim suas consequências, defender a existência de um Estado provedor para amparar os mais pobres não significa que isso vai beneficiá-los. Mesmo que você considere que a abstenção do Estado apregoada pelos liberais do século XIX não seja o melhor caminho a ser seguido, é preciso reconhecer que nada garante que todas as medidas inseridas no aparato que compõe o Estado de bem-estar social priorizarão a ponta mais economicamente vulnerável da população, reduzindo, de fato, a desigualdade.

O que dizem os dados: Estado de bem-estar social para a classe média

Quando o Estado de bem-estar social começou a surgir na década de 1950, havia vozes críticas a ele. Uma delas, do jurista e economista francês Bertrand de Jouvenel, argumentava que, se algum grupo social eventualmente se beneficiasse com o inchaço do Estado, provavelmente seria a classe média, a despeito das políticas públicas serem vendidas como redistribuição de renda aos mais pobres.

É o que ocorre no caso brasileiro: em vez de ajudar verdadeiramente os mais pobres, nosso Estado contribui diretamente para uma grande fração da desigualdade — e quem reconhece isso é o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, uma fundação do próprio Governo Federal.

Isso ocorre porque toda essa estrutura precisa ser custeada, e, analisando os dados, verifica-se que no complexo sistema tributário nacional os 10% mais pobres pagam proporcionalmente 44,5% mais impostos do que os 10% de maior renda.

Ainda assim, grande parte das políticas sociais financiadas com esse dinheiro não beneficiam os brasileiros com menor renda: levantamento do Banco Mundial estimou que o Brasil gasta apenas 12,1% do PIB com os 40% mais pobres, havendo um benefício desproporcional aos mais ricos.

Dessa forma, há diversas ações patrocinadas pelo Estado brasileiro que, embora vendidas por burocratas como tendo finalidade “social”, dificilmente têm outro resultado que não o aumento da concentração de renda.

Abaixo selecionamos os principais exemplos de privilégios que beneficiam a parcela de maior renda dos brasileiros, mesmo sendo arcados principalmente pelos mais pobres.

Funcionalismo público

Cerca de metade da população brasileira vive sem acesso a coleta de esgoto. Estima-se que o custo para a universalização do saneamento básico no país é da ordem de R$ 440 bilhões. A média de investimento entre 2014 e 2016 ficou em R$ 13 bilhões, abaixo da meta do Plano Nacional de Saneamento Básico, que é de 20 bilhões até 2033. E, enquanto pessoas morrem por falta de tratamento adequado, a União despendeu, no ano de 2017, R$ 725 bilhões apenas com o pagamento de seus servidores ativos — cerca de 10% do PIB. Por que tamanho gasto?

Recente estudo de Naercio Menezes Filho e Gabriel Nemer Tenoury demonstrou que, entre 1995 e 2015, a diferença entre o salário por hora médio recebido pelos servidores federais e pelos trabalhadores do setor privado aumentou de 50% para 93%. Em toda a Administração Pública nacional, os servidores públicos respondem por pouco mais de 10% da força de trabalho, mas possuem 19% da renda total. Essa diferença é maior no Brasil que o verificado em outros países da OCDE.

O estudo concluiu ainda que a política salarial do funcionalismo apresentou na última década uma constante elevação dos salários públicos, independentemente se o momento era de bonança econômica ou recessão. Há, portanto, uma sobreremuneração da maior parte dos servidores públicos, o que contribui para 24% da desigualdade de renda nacional.

Uma explicação para isso, segundo o economista Marcos Lisboa, é o direito de greve do servidor público. Ele permite que funcionários públicos tenham um poder de barganha desproporcional ao dos demais setores, obtendo assim condições de trabalho e remunerações muito superiores às de ocupações equivalentes no setor privado. Boa parte dos servidores públicos federais possuem remuneração próxima aos 1% mais ricos do país.

Vale ressaltar que servidores públicos contam com um benefício ausente na iniciativa privada: a estabilidade. Assim, faria sentido eles até serem sub-remunerados em relação à iniciativa privada, mas essa lógica não vigora no Brasil.

Previdência Social: nem previdência, nem social

Mais da metade do orçamento da União é destinado à Previdência Social, mas a diferença entre as contribuições previdenciárias dos servidores ativos e a despesa com 980 mil aposentados e pensionistas da União somou quase 93 bilhões de reais. A despesa da União com a aposentadoria de menos de um milhão de servidores supera o valor de todos os benefícios pagos pelo INSS a quase 33 milhões de indivíduos.

Cada servidor público que se aposenta custa o triplo de um brasileiro que fez carreira na iniciativa privada. 

A PEC da reforma da previdência que tramita no Congresso tem servido para realizar um debate importante: regras de aposentadoria por tempo de contribuição beneficiam trabalhadores com maior salário e carteira assinada, em detrimento dos mais pobres que se aposentam por idade.

De acordo com o Nobel de economia Milton Friedman, a previdência social é um rótulo enganoso: "não é social e nem é previdência, é apenas um programa ruim que usa impostos para prover benefícios injustos.”

A reforma original proposta pelo governo Bolsonaro busca tornar mais equânime essa despesa, mas tem enfrentado forte resistência pelos grupos privilegiados.

Universidade pública é coisa de rico

As coisas não melhoram muito na educação. O Estado brasileiro escolheu por priorizar a educação superior, preterindo o ensino básico. Para se ter ideia, para cada estudante em uma universidade pública, em média, seria possível manter quatro estudantes de ensino médio ou fundamental na escola.

Essa priorização beneficia os mais ricos, pois quase metade das vagas das universidades públicas são ocupadas pela classe alta, o dobro de sua representação na sociedade. Apenas 8,4% das vagas são ocupadas pela classe baixa, dois terços subestimada nas universidades. Tudo isso com as cotas já em vigor.

Subsidiar a educação superior dos mais ricos enquanto os mais pobres sequer terminam o ensino médio resulta em transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos. É uma despesa socialmente regressiva.

Essa priorização do gasto público em educação no ensino superior contraria o trabalho de James Heckman, laureado prêmio Nobel em 2000. Ele demonstrou o benefício social do investimento em cada estágio da educação: para haver maior retorno social, deve-se investir em educação de base. Exatamente o oposto do que tem sido feito no Brasil.

Uma proposição para reverter esse quadro seria instituir mensalidades nas universidades públicas federais para aqueles que podem pagar, com bolsas condicionais à renda familiar per capita do estudante ingressante. Afinal, custear a educação de quem pode arcar com ela é uma política pública tola e injusta.

Outro exemplo dentro da esfera educacional de despesa socialmente regressiva foi o Ciências Sem Fronteiras, que custeava o intercâmbio de estudantes da graduação para universidades do exterior. A despesa para os cofres públicos com cada um dos 35 mil beneficiários em 2015 foi de R$ 105.714,29. Enquanto isso, o valor destinado com a alimentação de quase 40 milhões de alunos custou, individualmente, R$ 94,62. O impacto orçamentário de ambas as políticas públicas foi, naquele ano, de R$ 3,7 bilhões, mas enquanto o primeiro beneficiou os de maior renda, o segundo era destinado aos mais brasileiros pobres.

O Estado de bem-estar social não é falho apenas no Brasil

Essa discrepância entre o discurso prometido pelos defensores do Estado de Bem-Estar e os resultados práticos não é exclusividade do Brasil. 

O economista Dennis Mueller analisou as nações da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o resultado foi surpreendente: mesmo se tratando do grupo de países com as melhores instituições econômicas, foi constatado que as transferências fiscais destinadas ao quintil de maior renda são maiores do que as que chegam aos 20% mais pobres em países como França, Itália, Luxemburgo e Suécia. Ademais, na grande maioria dos países estudados, mais da metade da transferência fiscal vai para a classe média.

Essas evidências acabaram sedimentando a chamada “Lei de Director”, segundo a qual “os gastos públicos são feitos para beneficiar a classe média e são financiados com impostos bancados em grande parte pelos pobres e pelos ricos”. 

A regra, portanto, é a de que serviços públicos, gratuitos e universais frequentemente priorizam a classe média, e não os mais pobres. Trata-se do mito do “Governo Robin Hood“, aquela ideia de que o governo toma dinheiro dos mais ricos para beneficiar os pobres.

A explicação é a de que a classe média é a que possui maior poder de influência política entre todos os grupos de renda, não a camada mais pobre. Já que ela possui maior poder político, consegue formatar políticas públicas que beneficiem seu grupo.

90% dos brasileiros acredita estar na metade mais pobre da população, segundo o Datafolha. Isso torna particularmente mais difícil fazer reformas em políticas públicas, pois a percepção é a de que “os ricos são os outros, já que sou mais pobre, devo ser beneficiado pelo governo”. O economista francês Frédéric Bastiat dizia que “o Estado é a grande ficção por meio da qual todos tentam viver às custas de todos”. Em um mundo de recursos escassos, governar é fazer escolhas, e, ao possibilitar a instituição de alguns privilégios, abre-se a porta para demandar-se outros.

É bom salientar que há exemplos de boas políticas públicas focalizadas nessa camada mais pobre, como o Bolsa Família e o Prouni, mas ainda são exceções dentro de nosso orçamento. Decisões mais recentes, como o fim do Ciência Sem Fronteiras, as mudanças de regras no Fies e o fim da TJLP do BNDES são exemplos de avanços, no sentido de que eram políticas públicas que não beneficiavam os mais pobres.

Vale salientar que antes da ascensão do Estado de bem-estar não significa que as pessoas mais vulneráveis eram completamente desprovidas de cuidados. Ademais, países que possuem menores impostos possuem caridade maior, conforme se correlaciona no World Giving Index, elaborado pela Charities Aid Foundation. Quando há um aparato prestacional, há uma espécie de terceirização dos indivíduos para com o Estado na ajuda que se dá a quem precisa. É uma espécie de efeito crowding out, isto é, quando o aumento da participação do Estado em uma área afeta significativamente a demanda ou a oferta privada naquele mercado.

Todavia, criticar o modelo de Bem-Estar Social tradicional não precisa significar ser contra qualquer política redistributiva ou serviço gratuito, mas reconhecer que o atual modelo falha em atingir seus objetivos declarados. Esse é o primeiro passo para que reformas institucionais socialmente mais justas possam ser feitas. Mesmo que afetem determinados grupos de interesse, a sociedade como um todo será beneficiada ao final desse processo."

Risco de enterrar mais uma reforma - MÍRIAM LEITÃO

O Globo - 04/04

Paulo Guedes enfrentou dois problemas: o temperamento e a fraqueza da base. A oposição repetiu as demagogias de sempre


Eram cinco da tarde quando o ministro Paulo Guedes recebeu perguntas de deputados do PSL. Até então ele havia enfrentado apenas os 50 tons —e decibéis —de crítica ao projeto da Previdência. Isso é apenas uma amostra da falta de organização da base. O centrão, que já defendeu outros governos, e outras reformas, não jogou a favor. Guedes cometeu erros ao falar ontem na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). O principal foi cair em tantas provocações, o que acabou levando ao encerramento antecipado da sessão após bate-boca com um deputado. Mas Guedes está absolutamente certo no seu diagnóstico: o sistema de repartição está falido, a Previdência precisa mudar por ser deficitária e criadora de desigualdades.

A oposição não tem uma ideia nova, uma proposta. Não consegue explicar as próprias contradições. O PT fez também uma reforma da Previdência e se o fez é porque havia déficit. Agora nega o rombo, apesar de tê-lo aprofundado com suas desonerações. Mas é um equívoco o ministro achar que se um deputado grita ele deve gritar de volta. Esse estilo faz parte do show deles, mas nunca de um ministro da economia. Quem garante a palavra ao convidado é o presidente da Comissão e não a sua repetição de “eu tenho o direito de falar, pessoal?” A sorte de Paulo Guedes é Jair Bolsonaro não ser mais deputado. Ele era bem mais histriônico e agressivo do que os deputados que enfrentou ontem.

Um erro estratégico do ministro Guedes foi falar tanto em capitalização. Ele está convencido de que esta é a melhor proposta para o futuro. O problema é que a reforma da Previdência muda os parâmetros do atual sistema. O projeto de capitalização ficou para ser detalhado depois. O próprio Paulo Guedes afirmou que, dependendo “da potência fiscal” do que for aprovado, a capitalização nem será proposta.

Então esta é a hora de lutar pelo atual projeto e nele o ministro deveria ter se concentrado. Cairia em menos armadilhas. O ministro teve explosões bem típicas de seu temperamento, mas nada convenientes para o seu objetivo. Às oito da noite houve desentendimento em torno de ele ter dito que era preciso internar quem nega a necessidade da reforma. Ele costuma dizer que não é do meio político. Mas é fácil saber algumas regras. Ao responder, não dizia o nome do parlamentar, e sim “o primeiro a falar”, “o segundo”. O deputado Eduardo Bismarck (PDT-CE) avisou que ali eram todos iguais. “De primeiro escalão para primeiro escalão”. Ele então acatou a sugestão de anotar o nome.

Apesar de a CCJ não ser uma comissão de discussão de mérito, e sim de verificação da constitucionalidade, os deputados não respeitaram isso. E esse foi outro erro de estratégia. Paulo Guedes poderia ter levado sim uma apresentação mais estruturada com algumas ideias básicas e números. Isso evitaria a crítica de que ele fora genérico e não havia explicado a própria proposta. Aqueles minutos iniciais, com a imprensa transmitindo, seria uma boa oportunidade para explicar aos deputados e a quem acompanhasse os pontos centrais da reforma. Números importantes foram falados de forma vaga e sem informação visual.

As críticas que Paulo Guedes ouviu são conhecidas. Os que não querem fazer a reforma sempre explicarão a sua posição alegando que o projeto afeta os mais pobres. A realidade é que os mais pobres se aposentam mais tarde e recebendo menos. São 71% dos beneficiados. No caso da mulher, a média das que se aposentam hoje por idade já é 61,5 anos. Quem se aposenta com 54 anos está nos 29% do sistema do tempo de contribuição.

O governo deu um presente a quem quer argumentos demagógicos para se opor à reforma, quando propôs mudanças no Benefício de Prestação Continuada (BPC). É fácil para um político dizer que está ali defendendo os mais pobres. Difícil é assumir que defende as aposentadorias dos que ganham mais no sistema. Qualquer consulta aos dados mostra que os servidores públicos, dos três poderes, se aposentam mais cedo e ganhando muito mais, têm inúmeras vantagens que são negadas ao resto da população.

A reforma dos militares ter ido junto com uma alta nos soldos torna mais difícil a vida do governo. Mas, como disse Paulo Guedes, “você são os senhores desse destino”. O Congresso, com os erros do governo e a demagogia da oposição, tem o poder de enterrar mais uma reforma. Se o fizer, tornará o colapso mais iminente.

Um pacote útil, mas limitado - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 04/04

O pacote de simplificação prometido pelo governo tem aspectos positivos, mas é limitado e nem de longe caracteriza um plano de desenvolvimento


Fazer negócios no Brasil poderá ficar mais fácil e mais barato com o pacote de simplificação prometido pelo governo, mas serão necessárias medidas de outro tipo para desemperrar a economia no curto prazo e criar empregos. Para evitar enganos, decepções e perda de tempo, é bom distinguir os problemas e separá-los em pelo menos dois grupos. O mais urgente é movimentar a economia e tentar fazê-la crescer pelo menos na faixa de 2% a 2,5% neste ano. Isso poderá ocorrer mesmo sem grandes mudanças de caráter institucional. O outro grupo inclui os vários entraves associados à organização dos mercados, à operação do governo e à estrutura legal. Burocracia demais, impostos complicados e insegurança jurídica são exemplos desses entraves. Prejudicam a economia em qualquer fase, com crescimento de 5% ou 1,1% ao ano, taxa verificada em 2017 e 2018. Remover esse entulho tornará a atividade empresarial mais ágil e mais competitiva no médio e no longo prazos, mas o desafio imediato é de outra ordem.

Mesmo com todos aqueles problemas institucionais, a economia brasileira já foi muito mais dinâmica, avançou mais velozmente e foi mais ágil na criação de empregos. Consumidores e empresários tinham alguma segurança para suas decisões e a produção respondia à demanda – interna e externa. A ação do governo contribuía para a elevação da capacidade produtiva e ajudava a movimentar os negócios com os investimentos públicos. A má administração, a irresponsabilidade fiscal e a corrupção forçaram a interrupção desse papel e o início de uma fase de ajuste complexo, penoso e ainda incompleto.

Pelo menos dois fatores poderão contribuir para o retorno ao dinamismo. Recriar confiança deve ser a primeira providência. Um governo mais empenhado na reforma da Previdência, menos perdido em confusões internas e mais claro em seus propósitos dará aos empresários e consumidores maior segurança para suas decisões. Com um pouco mais de segurança, as empresas começarão pelo menos a engordar seus estoques, de insumos ou de produtos finais, e isso já será um ganho para os negócios.

Uma segunda providência será avançar mais velozmente no programa de concessões, mobilizando capitais privados para obras de infraestrutura, com efeitos a curto prazo pela geração de empregos e pela demanda de equipamentos e materiais. Efeitos de médio e de longo prazos aparecerão no ganho geral de eficiência.

O pacote em preparação no Ministério da Economia deverá, segundo reportagem do Estado, incluir quatro planos: Simplifica, Emprega Mais, Pró-mercados e Brasil 4.0. No caso do Simplifica, o primeiro na lista de lançamentos, o secretário de Produtividade, Emprego e Competitividade, Carlos da Costa, destaca a reformulação do eSocial, um sistema complexo de informação sobre relações trabalhistas. O Emprega Mais deverá implantar uma nova estratégia de qualificação profissional baseada no critério de empregabilidade, sustentada em parte com recursos do governo e em parte com dinheiro do Sistema S. Haverá licitação de empresas qualificadoras. O terceiro plano será destinado a aliviar a regulação e facilitar o funcionamento do mercado em vários setores. O quarto deverá proporcionar apoio à digitalização dos processos empresariais.

A curto prazo, o efeito dessas medidas na atividade e na geração de empregos deverá ser nulo ou muito pequeno. Benefícios deverão surgir a médio prazo, mas isso dependerá de alguns cuidados. Em alguns Estados o Sistema S tem sido eficiente na formação de mão de obra qualificada com base nos mais atualizados padrões tecnológicos. O governo estará preparado para mexer nesse esquema de qualificação? Pelos padrões atuais da política educacional, a resposta é indiscutivelmente negativa.

Ganhos de eficiência dependerão também de outros fatores. Muito importante será uma reforma tributária mais técnica e menos ideológica do que as mudanças indicadas pelo governo. Enfim, o pacote agora prometido tem aspectos positivos, mas é limitado e nem de longe caracteriza um plano de desenvolvimento.

Teoria do vácuo - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 04/04

Sinais de desgaste episódico de Bolsonaro estimulam a concorrência política


A espécie de corredor polonês em que se meteu, por seus próprios atos, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) nas últimas semanas redespertou um truísmo da sabedoria política: não existe vácuo no poder.

Quem não o exerce com a mínima eficácia logo atrai outros atores sequiosos por praticá-lo em seu lugar. Nesse sentido, a percepção de enfraquecimento episódico do presidente ensejou demonstrações de força do Congresso.

Elas ocorreram seja na votação surpreendente da proposta que engessa mais o Orçamento, seja em conversas menos explícitas sobre manejo autônomo da pauta de votações pelos parlamentares ou sobre reformas profundas para subtrair prerrogativas do Executivo.

O líder que vacila também estimula a concorrência direta. Figuras que cogitam disputar a Presidência da República em 2022 buscam contrastar-se com o incumbente.

Partidos de esquerda esboçam uma união, embora nada tenham dito de novo ou alvissareiro em suas manifestações. Quem esteve mais próximo da corrente que atropelou lideranças tradicionais em 2018 também percebe a oportunidade de dar seus vagidos emancipatórios em relação a Bolsonaro.

Este parece ser o caso do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que correu a declarar apoio entusiasmado ao postulante do PSL tão logo se definiu o segundo turno presidencial. Agora, em entrevista à Folha, dá a impressão de que começa a tomar certa distância do bolsonarismo governista.

Doria criticou a decisão de determinar a comemoração do golpe de 1964, bem como as tentativas de reescrever a história baseadas no infantilismo ideológico de um núcleo que influencia o Planalto. Também mitigou mensagens belicosas sobre emprego da força policial que difundiu na campanha.

Afirmou que nunca esteve colado a Bolsonaro e que, portanto, não estaria agora se descolando dele. A frase é boa, embora inexata.

Já na montagem de seu secretariado, com quadros de boa qualidade técnica e experiência na gestão pública, João Doria se diferenciava do método heterogêneo utilizado pelo presidente da República para definir os seus ministros.

O afastamento, entretanto, se mostra apenas relativo porque o governador paulista mantém-se alinhado à administração federal em temas centrais, como a reforma da Previdência e a agenda de liberalização econômica.

Afigura-se firme sua conexão com o ministro da Justiça, Sergio Moro, evidenciada na transferência de chefes de facções criminosas para presídios federais.

No conteúdo, Doria ensaia uma correção de rota para melhor. Fica a dúvida —que sempre vai acompanhá-lo após o abandono precoce da prefeitura paulistana— sobre se o faz por mero oportunismo.

quarta-feira, abril 03, 2019

O MÉTODO GURDJIEFF DE OLAVO DE CARVALHO E UM RECADO PARA SUA SEITA: NINGUÉM ESTÁ ACIMA DE CRÍTICAS! - RODRIGO CONSTANTINO

GAZETA DO POVO - PR - 03/04
Bolsonaro, em sua primeira fala como presidente eleito, ostentou o livro de Olavo de Carvalho numa seleta pilha de apenas 3 volumes. Seus filhos elogiam abertamente o filósofo com frequência. Alunos seus ocupam cargos importantes no governo, e o mais “brilhante” deles, Filipe G. Martins, anda colado no presidente e seus filhos.

Além disso, o “guru” está em campanha revolucionária aberta contra os militares no governo. Tem feito declarações pesadas que colocam o presidente numa situação delicadíssima: se nada fizer a respeito, mostra ou que concorda com seu “guru”, ou que é um banana incapaz de se livrar de “traidores” e “imprestáveis”, que ele mesmo escolheu como ministros.

Mas se você ousa criticar a postura de Olavo, claro que isso só pode ser por implicância, inveja, picuinha, falta do que fazer, birra pessoal, amargura ou “obsessão anal” (achei essa a projeção mais adequada para um típico olavete). O certo seria deixar o velho em paz, em sua cruzada jacobina.

Reagir ao mal que ele tem feito à direita e ao governo é inaceitável para seus seguidores fanáticos, coisa de quem tem “dor de cotovelo” ou “tara patológica”. Não importa que o próprio Olavo venha atacando tudo e todos, coloque apelidos depreciativos nos outros, xingue deus e o mundo. Se alguém responder, reagir, é um invejoso! E depois reclamam quando falamos em seita…

Um guru de seita lança mão exatamente dessa estratégia: cria a sensação em seus discípulos de que só ele enxergou “toda” a verdade, mas que ela é um tanto inacessível aos demais, e que toda crítica feita a ele é coisa de cegos burros ou invejosos. Como a roupa linda e invisível do rei, do conto de Hans Christian Andersen. Depois, alega que só ele conhece o caminho da salvação. Coloca-se como alguém desinteressado, acima dos interesses mundanos, e se alguém critica-lo, só pode ser por estupidez ou inveja.

O segredo está em afetar uma sabedoria ímpar e uma visão profética, enquanto estimula os discípulos com mensagens dialéticas e até contraditórias. Só assim o “desapegado” pensador consegue, ao mesmo tempo, gabar-se de indicar ministros e colocar alunos no governo. E ao mesmo tempo passa a criticar o governo de forma veemente. E se alguém aponta para contradições, é porque não foi capaz de ver o “big picture”. O guru tem sempre razão!

Olavo não é bobo. Ele sabe muito bem o que faz. Estudou, afinal, os métodos típicos de gurus de seita, e até os descreveu em O jardim das aflições. Eis um trecho interessante:

Com base nessa descoberta, Sargant fez mais uma, decisiva para o progresso dos meios de dominação psíquica: um paciente submetido a ab-reações repetidas desenvolvia uma dependência mórbida do terapeuta. Quanto mais ab-reações, mais forte o vínculo. Isto explicava muita coisa. Boa parte do fascínio escravizador exercido sobre seus discípulos pelo taumaturgo armênio Georges Ivanovich Gurdjieff, por exemplo, se devia tão-somente à “mágica” das ab-reações repetidas. De fato, Gurdjieff ora esmagava os coitados sob pilhas de exigências constrangedoras, ora os induzia a descargas aliviantes que lhe davam a impressão de plenitude e liberdade, só para depois serem repentinamente jogados de novo em provocações humilhantes. Repetida a operação algumas vezes, os discípulos se persuadiam de que Gurdjieff era mesmo um extraterrestre.

Gurdjieff manejava igualmente bem a estimulação contraditória. Raramente dizia alguma coisa com sentido identificável, mas deixava sempre no ar pelo menos meia dúzia de intenções possíveis, fazendo com que os discípulos se extenuassem em vãs ginásticas hermenêuticas. Prometia aos alunos uma exposição teórica que finalmente poria tudo em pratos limpos, e lhes dava um sistema cosmológico completo, que nas semanas seguintes era inteiramente substituído por outro, e por outro, até que a confusão mental crescesse à escala cósmica.

Troque Gurdjieff por Olavo e é algo muito parecido que vemos em sua seita. Mas se você falar desse assunto, então você é um “chato da porra”. Não importa, repito, que Olavo seja influente numa ala radical do governo, e que pela análise de muitos, inclusive na direita, esteja trabalhando contra o sucesso do mesmo governo. Falou dele, e não foi para bajular como um mestre sempre certo, então só pode ser porque é insuportável ou invejoso, um obcecado ressentido. Eis o mecanismo de defesa da turma fanática, para evitar a dissonância cognitiva do encontro com a realidade.

Nos grupos de direita, há crescente consenso de que Olavo tem feito muito mal para a própria direita, e que precisa ser combatido. O problema é que há interseção grande entre seguidores, e qualquer crítica ao “guru”, como sei bem, significa atrair uma horda de olavetes para te xingar ou tentar te intimidar. E isso cansa. Há perda inevitável também de alguns seguidores, ainda que sejam aqueles que nem deveriam te seguir, já que querem só confirmação de viés, não argumentos ou contrapontos.

Por essas e outras razões a direita conservadora se cala muitas vezes diante desse movimento reacionário, que fala em seu nome. Mas isso tem consequências terríveis para o futuro da direita no Brasil. Ser associada a essa seita fanática e jacobina é péssimo. É como confundir Burke com Maistre, ou Scruton com Bannon. Não faz o menor sentido. Chamar a todos de “conservadores” ou “direita” é ignorar que existe direita e direita, que há aquela de boa estirpe, e há os que defendem o nacional-populismo autoritário e antiliberal.

O “desinteressado” pensador, que ajudou a disseminar um ódio a todo o establishment e às instituições democráticas, por mais imperfeitas que sejam mesmo e por mais que mereçam críticas duras, o “desapegado” do poder que brinca de ser um Rasputin tupiniquim, o Osho da “direita” brasileira que demoniza toda a “extrema-imprensa”, ainda que apontar o viés ideológico da mídia seja saudável, esse mesmo personagem chamado Olavo de Carvalho concedeu entrevista, segundo O Antagonista, a Pedro Bial da, sim!, Rede Globo. Aparecer na “Globo golpista” tem lá o seu charme, como concluiu o site. Nada que vem da Globo presta? Pois é…

Tudo exala forte cheiro de embuste, de picaretagem, de engodo, com fortes pitadas fascistas (“esmagar poderes intermediários” para que o líder, “amado pelo povo”, possa governar diretamente incorporando a “vontade popular”). E isso é feito em nome dos conservadores! Como não reagir, mesmo ao custo pessoal de ataques chulos e perda de seguidores (que não querem pensar por conta própria)?

Raymond Aron, para dar um exemplo, foi firme contra marxistas e contra fascistas. Apanhou muito, mas o tempo mostrou quem tinha razão. Não é hora de se acovardar. Quem passou a vida toda lutando contra o petismo, o esquerdismo, o socialismo, não pode se curvar diante de uma seita autoritária que exige consentimento pleno. Para um liberal ou conservador, ninguém está acima de críticas. O liberalismo e o conservadorismo não possuem papas infalíveis. Quem quer colocar Olavo nesse lugar que o faça, mas por favor: longe do rótulo de conservador!

Rodrigo Constantino

Bolsonaro falsifica a realidade para enganar a população - BRUNO BOGHOSSIAN

Folha de S. Paulo - 03/04

Do nazismo ao desemprego, presidente adultera fatos para reduzir desgastes


Ao contestar números oficiais sobre o desemprego, Jair Bolsonaro conseguiu a façanha de ser desmentido por seu próprio governo. De Israel, o presidente distorceu dados do IBGE para tentar convencer o país de que o mercado de trabalho, na verdade, está bombando. “É uma coisa que não mede a realidade. Parecem índices que são feitos para enganar a população”, disparou.

O instituto havia calculado que o número de brasileiros desocupados subiu para 13,1 milhões em fevereiro. A conta segue padrões internacionais e leva em consideração pessoas que procuram emprego, mas não encontram. Bolsonaro não gostou.

O IBGE precisou divulgar uma nota de cinco parágrafos para explicar sua metodologia. Afirmou que adota regras semelhantes às de outros países e ainda negou a declaração do presidente de que beneficiários do Bolsa Família não são classificados como desempregados.

Bolsonaro produz falsificações que atropelam instituições consolidadas, critérios científicos, a história e o mínimo bom senso. O objetivo é adulterar a realidade a fim de reduzir desgastes e atacar opositores.

Para fustigar seus arquirrivais na política brasileira, o governo agora patrocina o delírio de que o nazismo era um regime de esquerda. O próprio Adolf Hitler deu uma entrevista em 1923 em que dissociava suas ideias do marxismo, mas Bolsonaro disse que “não há dúvida” de que o chanceler era vermelho, já que seu partido era o Nacional Socialista.

Dessa vez, quem desmentiu o presidente foi o vice Hamilton Mourão.“De esquerda é o comunismo. Não resta a mínima dúvida”, declarou.

A lógica estapafúrdia é a mesma que leva Bolsonaro a buscar um revisionismo rasteiro da ditadura militar. Ao argumentar que os fatos são deturpados por seus adversários e até por institutos oficiais, ele tenta moldar a verdade a seu gosto. Assim, nunca estará errado.

O presidente pode até contar suas histórias, mas quem olhar o passado ou as ruas do país verá quem está tentando “enganar a população”.

O IBGE sob novo ataque governista - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 03/04


O presidente Jair Bolsonaro revela mais do que ignorância quando critica o IBGE. É comum governantes não gostarem dos dados negativos, o que os diferencia é que os de mente autoritária querem desmoralizar o órgão que apura a estatística indesejada. Bolsonaro poderia afirmar que não é culpado pelo enorme desemprego do Brasil e que herdou o problema, afinal está no cargo há pouco mais de um trimestre. Em vez de dizer como enfrentará esse desafio, ele prefere brigar com o termômetro e ofender a inteligência alheia.

Em novembro, ele definiu como “farsa” o índice do desemprego. Agora, voltou à carga contra o instituto e, em entrevista à Rede Record, disse que os indicadores são feitos para “enganar a população”.

— O que acontece? Como é feita hoje em dia a taxa? Leva-se em conta só quem está procurando emprego. Quem não procura não é tido como desempregado — disse ele.

Se o presidente tivesse lido um pouco sobre o assunto saberia que os dois dados já são divulgados. O IBGE pergunta se a pessoa está procurando emprego. Se sim, ela entra na estatística dos desocupados, que deu 12,4%, ou 13,1 milhões de brasileiros, no trimestre encerrado em fevereiro. Se a pessoa gostaria de trabalhar, mas desistiu de procurar emprego, ela entra no índice dos desalentados, que registrou 4,9 milhões de pessoas. O IBGE divulga um terceiro dado que engloba tudo, chamado de subutilização da força de trabalho. Nele, entram os desempregados, os desalentados e os que estão subocupados. São ao todo 27,9 milhões de pessoas. O instituto brasileiro segue as melhores práticas internacionais.

Além de mostrar que desconhece o básico sobre as estatísticas do principal problema econômico e social do país, Bolsonaro diz mais uma coisa sem noção:

— Eu acho que é fácil você ter a metodologia precisa no tocante à taxa de desemprego, é você ver os dados bancários e os dados junto à Secretaria do Trabalho de quantos empregos você perde e gera por mês. É muito simples.

Ir aos bancos para saber quantos são os desempregados é uma ideia que não dá para qualificar mantendo a elegância. Sobre ir à Secretaria do Trabalho, esse dado já existe. É o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). Mede apenas o mercado de trabalho formal. As empresas formais informam ao antigo Ministério do Trabalho os trabalhadores com carteira que contrataram e demitiram. O dado é importante, mas parcial, porque o Brasil tem 37 milhões de trabalhadores informais.

Qual é o objetivo do presidente ao atacar o instituto oficial de estatísticas, que fornece ao país um sem-número de indicadores, em todas as áreas, há mais de 80 anos? Essa sempre foi a tendência de governantes autoritários. Foi o que os Kirchner fizeram com o Indec porque não gostavam da informação de que a inflação estava subindo mês a mês. A intervenção no instituto argentino chegou ao ponto de o governo exigir saber quais eram os locais de coleta da informação.

Pesquisar desemprego é difícil, mas o IBGE tem aperfeiçoado sua metodologia. Hoje ele divulga todo mês o desemprego numa média móvel trimestral. Os estudos para implantar a Pnad Contínua começaram em 2006, mas ela só começou, de forma experimental, em outubro de 2011, no primeiro ano do governo Dilma. As primeiras divulgações ocorreram em 2014, ano de eleição. Na época, houve reclamações de dirigentes petistas, porque a taxa de desemprego medida pela Pnad estava maior do que a do antigo índice, a PME (Pesquisa Mensal de Emprego), usado pelo IBGE desde os anos 80 e que captava oscilações no mercado de trabalho em seis regiões metropolitanas. A Pnad é uma pesquisa muito mais abrangente. Coleta dados em cerca de 210 mil domicílios em 3.500 municípios em todo o país. Na época, a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) pediu ao Ministério do Planejamento informações sobre a pesquisa, o que levantou suspeitas de uma possível interferência do governo no indicador. O IBGE tem sabido resistir às tentativas de intervenção.

Há outros temores. O pior perigo agora é que o governo imponha ao IBGE um Censo resumido, como foi sugerido pelo ministro Paulo Guedes recentemente. O Censo é a nave-mãe das estatísticas. Dele o país depende para saber, por exemplo, por que a reforma da Previdência é necessária ou como distribuir os recursos do Fundo de Participação dos Municípios. Se errar no Censo, o Brasil terá um prejuízo que vai durar dez anos.

Economia definha na desordem política - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 03/04

Indústria vai mal, governo segue sem rumo e Bolsonaro duvida das estatísticas nacionais


A indústria não cresce quase nada, soube-se nesta terça-feira (2) pelo IBGE.

No início da semana no Congresso, gente do governo tentava apagar os incêndios criados pelo próprio governo, mas o fazia com baldes d’água e à matroca.

A economia esfria, o que deve azedar os ânimos no país e, por tabela, no Congresso. Ânimos azedos no Congresso pioram o humor econômico.

A confiança de consumidores e empresas regride desde o início do ano. Virou fumaça a esperança que sempre se reaviva na eleição de um presidente.

O resultado da indústria foi ainda pior por causa dos efeitos econômicos da barbaridade de Brumadinho. Mas não convém dourar a pílula com lama assassina. A indústria extrativa (como minério de ferro) é responsável por 11% da produção industrial total. O restante é indústria de transformação.

A indústria de transformação cresceu apenas 0,4% neste primeiro bimestre, em relação aos primeiros dois meses de 2018. Em 12 meses, o crescimento foi de apenas 0,5%. O crescimento previsto para março da indústria em geral é próximo de zero.

O governo ainda apanha no Congresso. Até os líderes da bancada evangélica batem em Jair Bolsonaro.

Há racha no PSL e entre o PSL e o governo. Ouve-se revolta contra vários ministros relevantes e ameaças de aprovar restrição dura da capacidade do governo de baixar medidas provisórias.

O governo inventa mais moda. Debate o tal “pacto federativo”, em tese redistribuição de recursos e deveres entre União, Estados e municípios.

Ou o governo vai frustrar todo o mundo com essa história de divisão de dinheiro (não há dinheiro) ou, se bobear, vai levar um tombo, perder recursos e ficar com um buraco maior nas contas.

É possível. A desordem e a besteira estão grandes.

Lideranças do Congresso dizem que vai passar uma reforma da Previdência, mas sem cortes nos benefícios de idosos (BPC), de trabalhadores rurais e com alívio nas regras de aposentadorias de servidores, afora o veto ao sistema de capitalização e à desconstitucionalização das normas previdenciárias. Para começar.

BOLSONARO ATACA IBGE
Demagogos sinistros e autoritários em geral gostam da ideia ou da prática de falsificar estatísticas econômicas, dentre outras mentiras. No mínimo ou a princípio, assediam quem trabalha para produzir informações confiáveis, por meio das melhores técnicas conhecidas.

A falsificação de estatísticas é um desastre. Pode alterar o valor das coisas, violar a segurança de contratos, abater a confiança econômica. Enfim, é uma violência contra o debate democrático.

Tiranos como os chavistas e demagogos como os Kirchner destruíram o sistema de estatísticas de Venezuela e Argentina. Foi um dos meios pelos quais essa gente depauperou a economia e a vida inteligente de seus países.

Pela segunda vez, Jair Bolsonaro atacou sem fundamento as estatísticas de emprego do IBGE. Há quem se conforte com a ideia de que o presidente nada fez de concreto contra o instituto federal de estatísticas. Não é consolo. Se e quando o fizer, será tarde demais. O prejuízo da perda de credibilidade é imediato e leva anos para ser revertido.

“Ah, isso não vai acontecer.” A gente pode lembrar de fatos improváveis que aconteceram recentemente: pedaladas imensas, déficit público de mais de 10% do PIB (Produto Interno Bruto), tabelamento e manipulação de preços básicos da economia, decretação de mais sigilo sobre documentos de governo etc.

Vinicius Torres Freire

Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA

Ambiente conturbado - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 03/04
O presidente Bolsonaro vai encontrar na sua volta de Israel um ambiente político conturbado, com uma Câmara dos Deputados disposta a criar embaraços e limites à atuação do governo.

Tudo porque os deputados estão irritados com a reiterada posição do presidente de generalizar a acusação de que os representantes da “velha política” querem que abra um balcão de negócios para a aprovação da reforma da Previdência.

Resultado: os que realmente querem benesses em troca de votos se sentem expostos à opinião pública. Os que não se consideram da “velha política” se revoltam com a maneira leviana com que o presidente trata do assunto.

A percepção generalizada é que o presidente Bolsonaro, com suas atitudes e com os ataques pelas redes sociais aos políticos, procura pressionar o Congresso a aprovar o que interessa ao Executivo, e se prepara para jogar a culpa da eventual não aprovação das reformas sobre os parlamentares.

Mesmo que seja aprovada uma versão desidratada da reforma da Previdência, também o ônus das medidas impopulares recairia sobre o Congresso, pois o presidente não se empenha na articulação política para aprovar as reformas.

Não foi por distração nem sem razão que o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, garantiu ontem que as mudanças no Beneficio de Prestação Continuada (BPC) e a aposentadoria rural não serão aprovadas pelo Congresso.

E também descartou a capitalização integral da Previdência. São medidas impopulares que os parlamentares querem barrar para neutralizar eventuais críticas.

A decisão anunciada de conversar com lideranças do que chama “velha política”, como Kassab do PSD e Romero Jucá do PMDB, é vista com desconfiança pelos políticos, que não estão entendendo qual o motivo de uma mudança tão brusca em quem rejeitava esse tipo de conversa.

O temor é que aproveite esses encontros para qualificar de “toma-lá-dá-cá” os eventuais pedidos dos partidos em troca do apoio à reforma da Previdência.As pesquisas que mostram que a percepção da atuação do presidente Bolsonaro na Câmara piorou sinalizam preocupação, porque a aprovação da reforma depende da aproximação do governo com Congresso.

A situação é complicada, por isso Bolsonaro teria aceitado conversar com líderes de diversos partidos. Se não fizer este trabalho, não conseguirá nada. É provável que a reforma acabe sendo aprovada, até no primeiro semestre, mas muito desidratada devido à pressão das diversas corporações que se sentem prejudicadas.

Os deputados estão convencidos de que a reforma, embora possa beneficiar Bolsonaro com a retomada da economia, é pelo o bem do país, e não estamos em condições de levar a disputa política ao ponto de provocar o caos.

Mesmo os deputados que são a favor de derrotar o governo para dar uma demonstração de força estão sendo convencidos de que o caos econômico que se seguiria seria aproveitado por Bolsonaro.

O trilhão do ministro Paulo Guedes não vai acontecer. Pode-se chegar a um acordo até um valor de R$ 700 milhões, ou perto disso. A expectativa é que Bolsonaro tenha entendido que não pode ficar alheio a esta reforma, e começa a se mexer.

Os deputados hoje têm dois receios: de que Bolsonaro jogue para o Congresso a culpa da reforma impopular, e que, se aprovada, deixe de lado o Congresso e reforce a tentativa de governar diretamente com as redes sociais, criticando a “velha política”.

O ânimo geral é colocar travas à atuação do Executivo, retomando o Legislativo a prerrogativa de fazer as leis e dar os rumos da política. A proposta de emenda constitucional (PEC) aprovada na Câmara, restringindo o papel do Executivo no orçamento, vai ser amenizada no Senado, mas não a ponto de retirar o empoderamento que dá aos parlamentares e às bancadas, que terão emendas impositivas também.

A mudança negociada é que o valor das emendas, correspondente a 1% das receitas na proposta original, começará com 0,8%, chegando a 1% em 2021, um ano antes das eleições gerais. Há outras medidas no forno dos parlamentares para controlar o governo.

Além de uma PEC ressuscitada do ano 2000, de autoria do falecido senador Antonio Carlos Magalhães, que aumenta o poder do Congresso para vetar propostas do governo, inclusive o contingenciamento de verbas, há também a ideia de limitar ainda mais a capacidade do governo de editar medidas provisórias.

As mágoas do presidente - CRISTIANO ROMERO

Valor Econômico - 03/04

Paulo Guedes teve que admoestar Bolsonaro antes de acalmá-lo

O clima tenso das últimas duas semanas amainou em Brasília, mas os curiosos continuam interessados em saber por que o presidente da República decidiu comprar briga com o presidente da Câmara dos Deputados, um aliado do governo, no momento em que a proposta da mais difícil das reformas - a da Previdência - chegou ao Congresso Nacional. A explicação pode ser mais simples e muito menos sofisticada do que se imagina, mas o alarido, dada a gravidade da crise econômica vivida pelo país há meia década, será sempre grande.

Ao tentar desmoralizar publicamente o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), Jair Bolsonaro seguiu o caminho de Dilma Rousseff, afastada com menos de 15 meses do exercício do segundo mandato. A diferença é que, nada realista, a expresidente achou que impediria a eleição de Eduardo Cunha a presidente da Câmara, enquanto Bolsonaro, em nenhum momento, manifestou oposição à ascensão de Maia.

Bolsonaro é um presidente que assumiu o cargo com raiva. Não é, porém, o primeiro a tomar posse da Presidência da República magoado. Luiz Inácio Lula da Silva perdeu a disputa três vezes (1989, 1994 e 1998) antes de chegar lá, em 2002. Foi reeleito quatro anos depois e, contrariando a "maldição do segundo mandato", era tão popular no 8º ano de poder que escolheu e elegeu a sucessora, uma estreante em eleição.

O sucesso, porém, jamais aplacou profundas mágoas de Lula com jornalistas, que considerava preconceituosos, antigos aliados (o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, dos tempos da luta pela redemocratização, era um deles), empresários e banqueiros, a quem atribuiu o interesse em apeá-lo do poder durante o escândalo do mensalão (em 2005). "Fiz tudo o que esses caras pediram e agora eles querem me derrubar", desabafou o então presidente.

Em seus diários, FHC não poupa a imprensa. Em seus dois mandatos (1995-1998 e 1999-2002), teve amplo apoio das empresas de comunicação para a agenda de modernização da economia, que contemplou a quebra de monopólios estatais e a privatização de companhias como a Vale. Ainda assim, sentiu-se incompreendido e até perseguido por jornalistas e órgãos da mídia.

A amargura de Bolsonaro está apenas começando. Sua eleição não foi antecipada por nenhum dos principais analistas políticos. Para a maioria, senão para todos, o então candidato do desconhecido e "irrelevante" PSL derreteria nas pesquisas tão logo começasse oficialmente a campanha, em agosto do ano passado. Em setembro, ele foi esfaqueado durante ato da campanha e o ataque foi visto como o evento que o teria catapultado à vitória. Essa leitura irrita o presidente. Para ele, os analistas continuam sem enxergar o fenômeno eleitoral.

Bolsonaro considera que, durante os 28 anos em que esteve em Brasília como deputado, jamais foi respeitado pela imprensa. Ele sabe, porém, que numa democracia representativa como a brasileira só são reverenciados dois tipos: os que detêm poder real, como o presidente da República, o ministro da Economia e os presidente da Câmara e do Supremo Tribunal Federal; e aqueles que têm expectativa de poder, caso, por exemplo, de quem governa o Estado de São Paulo, dono do segundo orçamento público do país e cuja economia responde sozinha por mais 30% do PIB nacional.

Fora disso, grosso modo, resta muito pouco em Brasília. Talvez, esteja aí a beleza da democracia: um parlamentar pode chegar desconhecido ao centro do poder e, quatro anos depois, a depender do que realize, tornar-se uma referência, cotado para assumir cargos importantes no Congresso ou no governo.

Um exemplo: o ex-deputado Rogério Marinho, atual secretário de Previdência do Ministério da Economia, negociou em silêncio, na última legislatura, a reforma trabalhista; quando se tomou ciência do assunto, as mudanças foram aprovadas num átimo; na eleição, os potiguares negaram a Marinho um novo mandato - também pudera: sindicatos, inclusive de São Paulo, mandaram a Natal um batalhão de doutrinadores para fazer pregação contra o candidato que atuou como relator de mudanças na CLT -; a coragem e a consciência do ex-deputado quanto à relevância das duas reformas, além de sua habilidade comprovada para negociar temas considerados impopulares, fizeram o ministro Paulo Guedes convidá-lo a cuidar da reforma das reformas; se a proposta passar, Marinho subirá na hierarquia dos que têm expectativa de poder.

Durante sua carreira política, Bolsonaro não teve poder real nem expectativa de um dia vir a ter. Ninguém percebeu que ele se apresentou desde o início como o candidato anti-PT, o símbolo da luta contra a ruína econômica provocada por quase seis anos de gestão Dilma Rousseff. O desgaste do PT era evidente, mas os analistas presumiram que o voto antipetista desaguaria na candidatura do tucano Geraldo Alckmin. Estávamos todos enganados.

Do alto dos 57,8 milhões que obteve no segundo turno da eleição presidencial, Bolsonaro não perdoa essa "falha". Acha que ainda não há trégua e que, em quase cem dias de gestão, só apanha da imprensa. Teria vindo daí a disposição a bater em Rodrigo Maia. Fez isso uma vez, depois outra, levando o mercado, entusiasta da agenda liberal, a duvidar da fé cega no político que tirou o PT do poder depois de 16 anos.

Preocupado, Paulo Guedes procurou o presidente e, depois de uma conversa, convenceu-se de que o acalmara. Bolsonaro ignorou o apelo e bateu novamente em Maia. Foi quando o ministro da Economia decidiu ser mais enfático, mas por meio de nova estratégia. Na primeira oportunidade pública, declarou que não tinha apego ao cargo e que, se seu chefe e o Congresso não quisessem aprovar a reforma da Previdência, ele teria mais o que fazer. O chefe sentiu o golpe.

Admoestado por seu principal ministro, Bolsonaro teria dito o seguinte: "PG, todo mundo só bate em mim, não há folga. Eu só quis dar um peteleco no Rodrigo". PG explicou que a pancada não é conveniente, especialmente, neste momento, e ouviu de volta: "Fala para o Rodrigo que, quando eu retornar de Israel, vou dar um beijo na boca dele".

Bolsonaro precisa recuperar tempo perdido na reforma - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 03/04

Disposição de entrar na negociação com o Congresso sobre a Previdência é um alento diante dos obstáculos

Deixados para trás os dias de tensão no relacionamento entre o presidente e o Congresso, simbolizados pela troca de farpas protagonizada por Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o ambiente melhorou, com acenos de não beligerância de ambos. Não se trata aqui de qualquer questão pessoal, mas da necessidade institucional de haver um entendimento mínimo entre chefes de poderes, para que reformas sejam aprovadas no Congresso. Só assim o país poderá sair de uma crise que completará seis anos — iniciada com a petista Dilma Rousseff em 2014 —, e cujo principal indicador da sua gravidade é o desemprego de 13 milhões de pessoas, um milhão a mais do que na última pesquisa.

Ainda em Israel, Bolsonaro garantiu que reservará pelo menos meio dia da agenda cotidiana para atender deputados e senadores. Como em outras vezes, o presidente errou, mas teve alguma consciência do erro e voltou atrás. Bolsonaro se equivocara ao confundir fazer política com praticar a corrupção do fisiologismo. Deve ter ficado marcado pelo show de toma lá dá cá ocorrido no período lulopetista. Até o termo “presidencialismo de coalizão” foi amaldiçoado, quando, na verdade, não só é impossível governar o Brasil sem sustentação numa aliança partidária, devido à proliferação de legendas, como não é correto confundir negociação política legítima, em cima de projetos, com malfeitos.

E será desta ampla conversação, na qual a inclusão do presidente da República é imprescindível, que precisará sair o apoio necessário à reforma da Previdência, vital para o destino do país e, por tabela, do governo. Estão em jogo questões estratégicas, e delas os parlamentares precisam ser informados nos detalhes, para que não persistam dúvidas que costumam ser utilizadas de forma competente pela oposição.

Nela, existem forças poderosas, como de corporações do funcionalismo público, de que constam castas de privilegiados no sistema previdenciário, e que sempre defendem seus interesses em nome do “povo”. Disfarçam-se de espoliados, quando, apenas no caso de servidores da União, há aposentadorias e pensões na faixa de R$ 20 mil ou mais. Em estados e municípios, o quadro não é diferente. É preciso a ajuda do presidente em conversas que esclareçam deputados e senadores que a reforma, ao contrário do que propagam essas corporações, vai em favor da redução das desigualdades em geral, também entre os segurados do INSS, assalariados do setor privado.

Regras de transição e alíquotas progressivas de contribuição, em função dos salários, são coerentes com a busca de justiça social. Deve ficar translúcido que a Previdência brasileira é um instrumento concentrador de renda, em servidores públicos e certas faixas de assalariados. E que para a expectativa crescente de vida do brasileiro (mais de 80 anos para quem chega aos 65), passa-se pouco tempo contribuindo para o sistema, porque se aposenta cedo.

Não o pobre, usado como escudo pelas castas: sem emprego fixo, logo, sem contribuição regular ao INSS, ele recebe o benefício aos 65 anos, quando passa a ter direito a um salário mínimo. Trata-se de balela que eles serão prejudicados pela reforma. O governo e aliados devem acelerar o trabalho político. Os 100 dias perdidos entre incompreensões por parte do governo se refletem no aumento da resistência à reforma no Congresso, como demonstrado em pesquisas.

terça-feira, abril 02, 2019

"A culpa é do Paulo Freire" - GUSTAVO NOGY

GAZETA DO POVO - PR - 02/04


"Paulo Freire nasceu em 1921 e morreu em 1997. Teve tempo de sobra para destruir a educação brasileira; com a educação, a política.

Sua nefasta influência corroeu o ensino de duas, três gerações. Não aprendemos português ou matemática, geografia ou história, biologia ou química. Tudo culpa dele.

Aprendemos ideologia, ideologia, ideologia.

É preciso exorcizar Paulo Freire de uma vez por todas, jogá-lo ao mar, cravar nele uma estaca, atirar nele com uma bala de prata, antes que percamos de vez a capacidade de compreender conceitos básicos e de fazer distinções fundamentais, como ditadura e democracia, autoritarismo e liberdade, civilização e barbárie, imprensa e censura.

Vejam o Eduardo Bolsonaro, é um eloquente exemplo.

Eduardo Bolsonaro só pode mesmo ser resultado de uma calamidade educacional sem precedentes. Ele é vítima do contexto que tanto denuncia. Eduardo merece cota para participar da polis, porque o cursinho express de liberalismo parece não ter funcionado. Só isso explica sua incapacidade de entender o bê-á-bá da vida civilizada: ditadura é ditadura, democracia é democracia. Ditadura não se justifica enquanto tal; é um fenômeno que pode ser estudado e compreendido contextualmente, mas nunca aplaudido ou justificado em si mesmo.

Quais são as confiáveis fontes do excelentíssimo para dizer que “naquele tempo era bom”? Os avós e os pais da gente.

Nessa versão esquisita de resgate da alta cultura de um país, a ignorância dos nossos avós e pais se transformou em referência bibliográfica incontornável. Não importa se o seu avô estava distraído vendo a seleção de 70, ou se seu pai queria mesmo era emprego de funcionário do Banco do Brasil. Na nova era, todo vovô é um retroativo Simon Schama, todo papai é um George Steiner avant la lettre.

Os mesmos vovôs e papais que depois votaram no Maluf, no Collor, no Lula, na Dilma.

No Bolsonaro.

Qualquer revisionismo histórico pode ser feito, não deve ser impedido, desde que algumas premissas sejam aceitas. Você pode considerar que tal acontecimento político (por exemplo, o golpe de 64) era inevitável. Você pode avançar mais um pouco e ponderar que, mais do que inevitável, talvez fosse mesmo necessário (por exemplo, por causa do comunismo). No entanto, não pode redefinir o sentido das palavras e do que elas representam. O que se passou nos vinte e um anos depois daquele 31 de março não é motivo de louvor nem saudade, ponto.

Ponto não, dois pontos: pelo jeito, para o Bolsonaro é.

O presidente confirmou a autorização para que quarteis comemorassem a data e soprassem as velinhas e cantassem o hino nacional. Não duvido nada que muito militar de hoje tenha torcido o nariz para o despautério de ontem, mas ordens são ordens.

Que a esquerda usa o golpe como chantagem política ninguém pode negar. A tática é a seguinte: tudo o que lembra vagamente a direita, a esquerda acusa de fascismo. O problema é que a direita gostou do personagem e quer mesmo vestir a roupinha de Mussolini.

O resultado é que ambos, autoritários de direita e esquerda, retrógrados de direita e esquerda, ignorantes de direita e esquerda, preferem olhar no retrovisor e não na pista. Um acusa o outro de ser aquilo de que o outro se orgulha de ser, e todos ficam satisfeitos com os respectivos papéis. Clássico é clássico e vice-versa.

E quem luta de verdade por um país mais livre e menos rançoso? Entre os que mandam, quase ninguém.

A continuar assim, “o Brasil terá um longo passado pela frente”, como dizia o Millôr Fernandes.

Os comunistas são culpa do Paulo Freire. Os anticomunistas também."

Riscos e erros da política externa - MIRIAM LEITÃO

O Globo - 02/04

Bolsonaro improvisa na política externa, área em que todos os passos precisam ser muito bem calculados


O governo Bolsonaro não tem uma política externa. Não a formulou ainda. O filho do presidente faz sombra ao chanceler, que se ocupa com revisões delirantes da História. Nesse contexto, Bolsonaro vai viajando e improvisando pelo caminho numa área sensível e com ligação direta com a economia. Os militares e a ministra da Agricultura têm atuado como moderadores para evitar o pior, enquanto o ministro das Relações Exteriores se comporta como se estivesse numa cruzada mística na luta entre o bem e o mal.

Tomar decisões de política externa com base em ideologia, qualquer que ela seja, é o caminho mais curto para errar. Fiz esse mesmo tipo de crítica ao governo Lula em inúmeras colunas. Quando ele foi a Trípoli, em 2003, visitar o ditador Muamar Kadafi, eu escrevi neste espaço que era uma viagem sem propósito, pé e cabeça. O tempo provou que foi um equívoco. Os erros foram vários e aqui sempre criticados. Em alguns casos, deixaram contas para serem pagas pelo país. Agora o que se vê no governo Bolsonaro é a mesma insistência em fazer uma diplomacia ideológica.

No caso da viagem a Israel, Bolsonaro está conseguindo desagradar todos os lados e ainda entrar na disputa eleitoral, sendo usado pelo primeiro-ministro Bibi Netanyahu. Qual o sentido de uma viagem nove dias antes de uma disputa eleitoral? Se o premier israelense vencer, teria sido melhor ir depois. Se perder, Bolsonaro terá feito o mesmo que fez nos Estados Unidos, escolher um lado na política interna do país visitado. No caso dos Estados Unidos, é um erro com graves repercussões no cenário de um governo democrata em 2020.

Bolsonaro não abriu a embaixada em Jerusalém, como prometeu. Apenas um escritório, e assim decepcionou o anfitrião, que queria isso como trunfo eleitoral. O Brasil é um país grande. Até agora só a Guatemala seguiu a política americana de trocar a cidade da embaixada. Os palestinos reagiram a Bolsonaro, mas como houve decepção do seu anfitrião, ele voltou a prometer que a mudança virá no futuro. O que pode afetar o comércio com os árabes. O presidente improvisa em política externa, questão em que todos os passos têm que ser bem pensados.

As declarações pouco amistosas feitas em relação à China podem ter efeitos no comércio exterior. Os chineses falam pouco e mostram seu desagrado em ações concretas. O problema é que eles são grandes para nós. A China comprou 86% da soja que o Brasil exportou no ano passado e 50% de todas as vendas da Vale.

Na cruzada mística do chanceler, o Brasil tem que se unir aos Estados Unidos para “salvar a civilização cristã” de ameaças como a China. No mundo real, onde as coisas acontecem e negócios são feitos, a China é o maior parceiro dos Estados Unidos e nosso competidor em vários produtos.

— A gente pode ser surpreendido com impactos econômicos em relação à China. As declarações feitas pelo governo são meio gratuitas, e nelas não se consegue ver qual é o nosso interesse — disse um diplomata.

Na ida a Washington, o amadorismo fez o Brasil exagerar na retórica adesista e isso já provocou um episódio estranho. O secretário de Estado, Mike Pompeo, ao condenar a presença russa na Venezuela, na semana passada, disse que falava em nome dos aliados da América Latina. Um experiente diplomata, ainda na ativa, explicou o problema:

— A presença russa merecia ser criticada, mas nós não precisamos de que os Estados Unidos sejam o nosso porta-voz para tratar de questões na América Latina.

Não há até agora qualquer ideia do que seja a política externa em relação à região. Sabe-se que mudanças serão feitas no Mercosul, mas quais serão essas alterações não se sabe. Tudo o que o presidente fez até agora, que foi notado, foi a constrangedora defesa dos ditadores Alfredo Stroessner, no Paraguai, e Augusto Pinochet, no Chile.

Nos órgãos internacionais, o Brasil se isola e toma posições exóticas. No dia 22, em Nova York, na conferência sobre a mulher da ONU, o representante brasileiro fez ressalva a vários trechos do texto. O Brasil criticou, por exemplo, o ponto que dizia ser preciso “garantir à mulher acesso universal a serviços de saúde sexual e reprodutivos”, porque considerou que isso era uma alusão ao aborto. São ridículas as posições que o Brasil vem adotando em órgãos multilaterais. E isso sem falar nos delírios do ministro Ernesto Araújo com o tal “esquerdismo” de Hitler.