sexta-feira, março 06, 2015

O que a Coreia fez e o Brasil não - JOSÉ PIO MARTINS

GAZETA DO POVO - PR - 06/03

O Brasil não se libertou da cultura bacharelesca, do apego subserviente ao Estado e da aceitação envergonhada da economia de mercado

Um dos mais extraordinários exemplos de crescimento econômico e superação da pobreza no pós-guerra é a Coreia do Sul. Há 70 anos, o país era pobre. Em 1945, foi dividido em dois: a Coreia do Norte, que permanece uma ditadura comunista miserável e atrasada até hoje; e a Coreia do Sul, que assombrou o mundo com seu desenvolvimento e continua a dar lições de como crescer e progredir.

Com 50 milhões de habitantes, a Coreia tem renda per capita de US$ 30 mil, contra US$ 11 mil do Brasil. É um dos países mais desenvolvidos do mundo, que se destaca por sua moderna indústria nacional, altas tecnologias e elevado nível de bem-estar social. Com população quatro vezes maior, o Brasil não tem uma única marca de veículos genuinamente nacional, e somos compradores dos produtos das coreanas Hyundai e Kia, além de outras gigantes como Samsung e LG.

Para começar, após o fim da guerra contra a vizinha do norte, a Coreia do Sul abraçou o capitalismo sem pruridos ideológicos, enquanto o Brasil nunca foi verdadeiramente capitalista e sempre viu a economia de mercado com certa desconfiança. O governo coreano definiu que seu escopo seria a fixação da estratégia de crescimento econômico e a criação de condições para a modernização capitalista. As reformas que vieram a seguir tiveram essas duas diretrizes como base e o país teve um surpreendente surto de desenvolvimento a partir dos anos 70.

O êxito coreano se deve, entre outros, a cinco fatores: a reforma agrária implantada no pós-guerra, que diminuiu sensivelmente a pobreza rural; o programa educacional, com maciços investimentos na educação de base sem a cultura bacharelesca latino-americana; a adoção do planejamento familiar; a abertura para o exterior e priorização de indústrias voltadas à exportação; investimentos pesados em infraestrutura de transportes, comunicações e tecnologias de ponta.

A Coreia entendeu que o motor do crescimento econômico é a empresa, não o Estado, e que a figura central da criação de riqueza é o empreendedor, não o burocrata estatal. Curiosamente, a Coreia demorou para estabilizar seu sistema de governo, após titubear sob governantes autoritários e tumultos políticos. No ranking internacional, o país é considerado o mais inovador do mundo, o que somente é possível pelo respeito reverencial ao pesquisador, ao inventor, ao empreendedor e ao educador.

Já o Brasil não se libertou da cultura bacharelesca (que valoriza mais as letras que a tecnologia), do apego subserviente ao Estado (que desconhece a expressão “satisfação do cliente”, mesmo vivendo à custa deste) e da aceitação envergonhada da economia de mercado. Nosso país tem uma relação esquizofrênica com o capitalismo. Adotamos o sistema, mas tratamos mal seu principal ator – o empresário –, não conseguimos entender a lei da oferta e da procura e seguimos acreditando, ingenuamente, que para cada problema individual há sempre uma solução estatal.

Mas a grande revolução coreana foi na educação. Ao dar ênfase à educação das mulheres, uma legião de trabalhadoras qualificadas foi formada e a explosão populacional foi contida. Ao priorizar a educação de base, o analfabetismo foi vencido e a competência técnica foi adquirida. Ao concentrar os recursos (sempre escassos) no ensino tecnológico e no domínio das matemáticas, uma multidão de trabalhadores tecnicamente preparados lançou o país ao sucesso econômico.

Bem, não é preciso ir longe para entender o que a Coreia fez e o Brasil não...
José Pio Martins, economista, é reitor da Universidade Positivo.

O petrolão e os acordos de leniência - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR 06/03

O interesse em aliviar a situação das empreiteiras é uma reedição do discurso das empresas “grandes demais para punir”


“As pessoas que foram culpadas é que têm de ser punidas, não as empresas”, disse a presidente Dilma Rousseff no fim de janeiro, em discurso feito durante reunião ministerial na Granja do Torto. Mudança notável de posição para quem sancionou a Lei Anticorrupção, em agosto de 2013, louvada justamente por colocar no ordenamento jurídico brasileiro a responsabilização de pessoas jurídicas cujos funcionários são flagrados em atos de corrupção. A reviravolta se explica: as empresas que “não têm de ser punidas”, para usar as palavras de Dilma, são as grandes empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato e que são acusadas de, entre outros ilícitos, terem pago “pedágio” ao PT e a outros partidos para conseguir contratos da estatal.

Por causa desse desejo de Dilma, a Controladoria-Geral da União (CGU) e a Advocacia-Geral da União (AGU) entraram em rota de colisão com o Ministério Público Federal (MPF) e a oposição no Congresso Nacional. O motivo é a possibilidade de o governo celebrar acordos de leniência com as empreiteiras investigadas. No acordo de leniência, a empresa admite que cometeu ilegalidades e se compromete a ressarcir os cofres públicos pelos danos causados. Ao fazer isso, recebe multas menores e, o mais importante, escapa da declaração de inidoneidade, ou seja, fica livre para celebrar novos contratos com o governo. A CGU já foi procurada por empreiteiras interessadas em assinar acordos de leniência.

O interesse em aliviar a situação das empreiteiras é uma reedição do discurso das empresas “grandes demais para punir” – ou pelo menos grandes demais para punir com rigor. Segundo esse raciocínio, se a lei for aplicada como se deve, “o Brasil vai parar”, pois as empresas são responsáveis por várias das principais obras de infraestrutura do país. “Esse não é um ponto que a gente avalia”, disse o ministro Valdir Simão, da CGU, sobre impactos econômicos de punições (ou de sua ausência) às empreiteiras. Mas faltou combinar com o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, que se reuniu na segunda-feira com deputados petistas para orientá-los a defender os acordos de leniência usando justamente o argumento das consequências econômicas. “Estamos falando de emprego, investidores, sistema financeiro. Estamos falando de um conjunto afetado por uma situação”, justificou Adams. Os deputados José Guimarães, líder do governo, e Sibá Machado, líder do PT, entenderam o recado e repetiram o discurso.

Não está em jogo aqui a competência da CGU para celebrar os acordos de leniência, nem o fato de que, mesmo com os acordos, ainda pode haver punições. O problema aparece quando o governo coloca seu peso, por meio da AGU, para acelerar esse processo sem que ainda esteja completamente estabelecido o papel de cada empreiteira em um esquema tão grave quanto o do petrolão – o MPF acabou de aprovar a prorrogação da Lava Jato por mais seis meses, e ainda existe a possibilidade de novos acordos de delação premiada envolvendo executivos presos. O próprio Valdir Simão admite que a assinatura de um acordo de leniência pode levar um juiz a ser mais brando na hora de definir punições às empreiteiras na esfera cível.

Se prosperar o plano de livrar as empreiteiras de punições mais rigorosas por meio de acordos de leniência celebrados antes mesmo do fim das investigações da Lava Jato, o Brasil terá perdido uma oportunidade inigualável de passar o país a limpo e erradicar a corrupção na raiz. Dilma tem razão quando diz que as pessoas precisam ser punidas, mas o acerto de sua frase termina aí. Comprovada a participação de cada uma das empreiteiras – que, como dissemos na quinta-feira, não fizeram sozinhas o petrolão; o país aguarda a divulgação oficial dos nomes dos políticos que serão investigados pelo escândalo –, aplicar-lhes penas leves é encorajar futuros atos ilícitos.

A fome de Dilma - NELSON MOTTA

O GLOBO - 06/03

É um apetite que nunca passa, que justifica as explosões de fúria dos mais serenos e multiplica a ira dos enfezados



Na mentira, o que mais ofende e enfurece é o mentiroso achar que somos idiotas para acreditar nela. E quando a maioria da população acredita que a presidente é mentirosa, não há campanha publicitária que restaure a confiança perdida.

Mas omissões podem ser piores do que mentiras, quando reveladas. Quem pode acreditar que a presidente do conselho que mandou na Petrobras durante tanto tempo nunca desconfiou de nada errado? Como uma economista formada não percebeu a deterioração das contas públicas e foi enganada durante quatro anos pela contabilidade criativa do secretário do Tesouro, Arno Augustin? Ou pior: ele cumpria ordens dela?

Eles não imaginaram as consequências? Quando os acionistas americanos lesados pela Petrobras ganharem suas indenizações na Justiça dos Estados Unidos, vão acusá-los de ataque à nossa soberania.

Enquanto isso, os acionistas brasileiros da Petrobras não vão ser indenizados em nada, embora vítimas da mesma incompetência e corrupção que fizeram o valor da empresa desabar. E nem serão: se forem, a empresa quebra. Aí vão dizer que é uma conspiração para sucatear a Petrobras e vendê-la a preço de banana para os gringos.

No Rio de Janeiro, Dilma parecia grogue num córner, dizendo frases desconexas... O destino da cidade é ligar o morro ao litoral... Eduardo Paes é o melhor prefeito das galáxias... e inventando uma canção em que o Centro histórico se desdobra para dentro do mar. Talvez fosse a fome.

Todo mundo sabe que poucas abstinências, depois do tabaco e do álcool, irritam mais do que passar fome numa dieta severa, meses a fio. Não há humor que resista, é uma fome que nunca passa, uma inveja mortal dos que comem, que justifica as explosões de fúria dos mais serenos, e multiplica a ira dos enfezados.

Mas uma pessoa tomar decisões graves, arbitrar disputas complexas e dialogar com interesses conflitantes, em busca de soluções urgentes, nesse estado, é uma temeridade. OK, Dilma quer ficar mais saudável e bonita, mas o melhor para o país é que ela volte a comer. O dulce de leche de Montevidéu deve ter adoçado seu café da manhã com o PMDB. Come, Dilma !

quarta-feira, março 04, 2015

Petrobrás à venda - ELIANE CANTANHÊDE

O Estado de S. Paulo - 04/03

Quem é mesmo que anunciou que a Petrobrás está sendo fatiada e vendida? O governo do PT?!!! Isso só pode ser brincadeira, quem sabe uma "barriga" (informação errada) da imprensa.

Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff usaram e abusaram, durante as campanhas de 2006 e de 2010, da versão de que o PSDB privatizaria a Petrobrás. Até engenheiros da própria companhia acreditaram, ou quiseram acreditar, na balela.

E quem não se lembra de Lula metido num macacão cor de abóbora da Petrobrás, com a mão manchada de petróleo, passando a imagem subliminar de que ele próprio, qual um deus das profundezas do oceano, havia criado o pré-sal? Ambos, macacão e presidente, tão fotogênicos, a dias das eleições.

O mundo realmente dá voltas. Hoje, é a Petrobrás de Dilma, Lula e PT que, exaurida, machucada e vilipendiada, anuncia a venda de R$ 39 bilhões em ativos para tentar amortizar uma dívida que vai crescendo e se tornando impagável.

A venda tem, assim, um viés político e outro econômico. O político é que, tal como Dilma disse que não mexeria nos direitos trabalhistas nem que "a vaca 'tussisse'", as campanhas petistas trataram da privatização da Petrobrás como algo absurdo, nefasto, coisa do demônio. E tanto a vaca "tussiu" quanto o governo do PT se converteu à crença do mal.

Ah!, sim, privatização é uma coisa, venda de ativos é outra. Ou melhor: privatização de adversários é privatização, mas privatização "cumpanheira" é só "venda de ativos"?

É assim que o PT, um dos maiores e mais importantes partidos da redemocratização, vai perdendo o encanto, as bandeiras, os líderes e até a credibilidade. Se, sistematicamente, diz uma coisa na campanha e faz outra depois de eleito, resta pouco para acreditar. A magia do marqueteiro João Santana está se esgotando.

Quanto ao viés econômico: o sindicalista José Sérgio Gabrielli deixou a Petrobrás com um buraco imenso e sua sucessora Graça Foster não melhorou muito as coisas. Assumiu a presidência com uma dívida de R$ 181 bilhões. Foi para a casa deixando uma de R$ 332 bilhões. A Petrobrás é a empresa mais endividada do mundo!

Faz todo o sentido - para o mercado, para quem é do ramo e para quem consegue enxergar além da ideologia - passar adiante áreas que não são essenciais ao objetivo fim da Petrobrás. Exemplo: as fábricas de fertilizantes.

Mas a grande dúvida é se vender R$ 39 bilhões em ativos (o Brasil e no exterior) e cancelar investimentos de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões neste ano vão resolver o problema. Façam as contas...

E, espreme daqui, espreme dali, não sobra muito para sair vendendo. A lista já inclui termelétricas, gasodutos, refinarias, dutos, rede de postos de gasolina e... campos de petróleo e gás. Daqui a pouco, vão querer vender o pré-sal e até o macacão cor de abóbora do Lula.

Por um desses detalhes cruéis da história, o anúncio da venda de ativos da Petrobrás passou praticamente em branco no mundo político, distraído com uma lista muito diferente da lista de ativos à venda na Petrobrás: a lista dos políticos enrolados na Operação Lava Jato. Mas uma coisa está diretamente vinculada à outra.

A Petrobrás só chegou no fundo do poço e o PT só teve de engolir a venda de ativos goela abaixo porque, nos governos Lula e Dilma, o PT se sentiu dono da maior empresa do País e fez dela gato e sapato. Não apenas participou dos esquemas de desvios como represou tarifas politicamente e escamoteou informações devidas à opinião pública. Chegamos aonde chegamos. Ou melhor, chegaram aonde chegaram.

E, por falar em lista de políticos enrolados: depois de comer o pão que o diabo amassou com Eduardo Cunha na Câmara, Dilma vai ter que digerir um Renan Calheiros cheio de espinhos no Senado, rejeitando a medida provisória que aumentaria os impostos das empresas e reduziria as dívidas do governo.

Mas a gente já sabe como é: a culpa não é de Lula, Dilma, Cunha e Renan; é do ministro da Fazenda, Joaquim Levy!

País dissolvente - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 04/03

RIO DE JANEIRO - Já não basta o aumento das tarifas. A última conta de luz recebida por uma amiga trazia a ameaça: "Aviso de corte. Até o dia [espaço em branco] não constava em nossos registros o pagamento de conta(s) de energia no total de R$ [espaço em branco], o que implicará no corte de fornecimento, cobrança de multa e inclusão no Serasa e similares. Detalhes ao lado". Mas, no dito ao lado, outro espaço em branco. Só que a conta de minha amiga está há anos no débito automático e em dia, como ela informou à empresa. Esta reexaminou seus arquivos e levou horas, mas concluiu que não constava nenhum débito e mandou desconsiderar o aviso.

Na mesma semana, mãe, filha e genro tiveram seus cartões de crédito clonados. Com o da filha, foi feita uma despesa de R$ 2.000; com o do genro, de R$ 13 mil. Apesar dos valores incompatíveis com o histórico dos cartões, nenhum dos dois foi bloqueado. Já o da mãe, cuja despesa era de quatro dólares, foi.

Eu próprio tenho sido vítima desse samba do cibernauta doido. Uma operadora está me cobrando há meses por duas linhas de telefonia móvel que não pedi para ter, não tenho, não uso e não pretendo usar. Por causa disso, recebo telefonemas vociferantes vindos de sujeitos em cidades como Belo Horizonte e Fortaleza, mas nenhum me assegura que, se eu pagar as contas fantasmas, conseguirei cancelar essas linhas idem.

E há os Correios, batendo seus próprios recordes de ineficiência. Encomendas que recebo de ou envio para EUA, México ou Portugal têm levado até quatro meses para chegar. Junte a isto a falta d'água, os voos cancelados nos aeroportos, as cidades intransitáveis. Os serviços no Brasil estão se dissolvendo.

Bem, eles nunca foram grande coisa, mesmo. O problema será se as instituições –firmes há 30 anos– também estiverem correndo risco de dissolução.

Remédio e conflito - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 04/03

Ajuste fiscal chegou no meio de um conflito político. O Congresso se rebelou contra o ajuste fiscal com o qual a presidente Dilma II pretende corrigir os erros da presidente Dilma I. As primeiras medidas não foram aceitas pela base, e o presidente do Senado devolveu ao executivo a MP das desonerações. Isso obrigou o governo a enviar de novo, em forma de Projeto de Lei, com urgência constitucional. No meio de tudo isso, o BC hoje vai subir juros para combater a inflação.

Apesar de a Selic já estar em 12,25% e a economia estar caída, o Banco Central deve aumentar os juros de novo hoje. Não há remédio sem efeito colateral, e o BC enfrentará um dilema para tomar a decisão. A confusão é a seguinte: se a inflação está bem acima da meta, o remédio é subir juros. Se a economia está indo para a recessão, o remédio é baixar juros. Se o déficit nominal está alto, a elevação das taxas piora as contas. Se a inflação subiu, em parte pelo descontrole fiscal, o aperto monetário é um remédio.

O dólar ontem fechou em R$ 2,92, no patamar mais alto desde setembro de 2004, depois de uma atuação mais fraca do Banco Central no mercado de câmbio. Também refletiu a desconfiança maior do mercado no ajuste fiscal, que encontra resistência cada vez maior no Congresso, principalmente da base do governo. E isso terá efeitos na economia, porque o dólar mais forte pressiona ainda mais os preços. Sua vantagem é incentivar exportações, mas até agora isso não aconteceu. As vendas externas caíram 15% em relação a fevereiro do ano passado. Em dois meses, o déficit do comércio externo é de US$ 6 bilhões.

A questão é: quem colocou o país numa situação tão difícil? A equipe anterior e as ideias econômicas adotadas no primeiro mandato. Aquela equipe tentou forçar o crescimento, com gastos, e arruinou as contas públicas. Tentou segurar a inflação, segurando preços, e criou uma inflação reprimida. A lambança feita na energia alimentou uma pressão inflacionária que estoura no pior momento.

Os erros na condução da economia no ano eleitoral de 2014 estão cobrando um preço altíssimo agora. O Banco Central começou a subir juros três dias depois do segundo turno. O governo ignorou a inflação, escondeu a piora das contas públicas, subestimou o risco energético. O BC tentou segurar o câmbio, apesar do forte déficit em conta-corrente. A correção abrupta desses quatro erros neste início de 2015 está tendo um efeito devastador na economia. O que piora o quadro é a incerteza criada pela corrupção na Petrobras.

A Fenabrave, entidade que reúne as concessionárias de veículos, divulgou ontem que as vendas de automóveis em fevereiro caíram 27% sobre o mesmo mês do ano passado. No acumulado do ano, a queda é de 22%. As vendas de ônibus e caminhões despencaram 35%. A associação revisou sua projeção para 2015, de uma queda de 0,5% nas vendas para um tombo de 10%.

Esse exemplo mostra que dificilmente o país escapará de uma recessão este ano. O número de 2014 já pode ter sido negativo. O resultado oficial só será divulgado pelo IBGE em março. Esse é o maior problema: os ajustes fiscal e monetário acontecem sobre um nível de atividade que está em contração.

O aumento dos preços tira renda dos consumidores e diminui o horizonte de previsibilidade dos empresários. Eles ficam inseguros e congelam projetos de investir. Por isso, em uma conjuntura como a atual, ela precisa ser combatida para se começar a criar confiança.

As projeções para a inflação de 2015 estão em 7,47%, quase um ponto acima do teto de tolerância. Há estimativas que chegam a 8%. Isso é efeito do tarifaço da energia elétrica, do reajuste da gasolina, da recomposição de impostos para reequilibrar as finanças públicas e do aumento do dólar. Quanto a isso, há pouco que o Banco Central possa fazer.

A autoridade monetária precisa olhar além, para 2016. É sobre as expectativas do ano que vem que o aumento de juros agora tem efeito mais imediato. A boa notícia é que o mercado estima alta de 5,5% nos preços, ou seja, menor do que espera para o IPCA deste ano. Isso quer dizer que o descontrole inflacionário não está no radar dos economistas; apenas acredita-se em um ano de correção dos erros do passado. Com a crise política, no entanto, é mais difícil prever o que acontecerá com as decisões na economia. As contas chegaram todas de uma vez e no meio de um conflito político.

Saudade do Itamaraty prudente - MARCELO DE PAIVA ABREU

O ESTADO DE S.PAULO - 04/03

A política externa do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff tem sido criticada quase sempre com base na pretensa excelência da política externa entre 2003 e 2010. Trata-se de juízo equivocado: a medíocre política exterior pós-2010, que agora enfrenta momento de crise aguda, foi decorrência natural das políticas adotadas no governo Lula.

A eficácia da diplomacia de um país depende de grande número de fatores. Quanto mais peso econômico, comercial ou financeiro tiver, maior será a sua capacidade de influir. Países com poderio militar têm maior capacidade de influir globalmente, especialmente se dispuserem de artefatos nucleares e de tecnologias que assegurem o seu uso eficaz. A sua diplomacia será mais eficaz se adotar políticas que assegurem estabilidade econômica. Sempre haverá oportunidade para que um país exerça posição de liderança numa coalizão que reúna parceiros de peso individual modesto no cenário internacional. A competência de seus diplomatas, tal como espelhada no retrospecto de sua ação ao longo do tempo, também tem relevância para explicar a capacidade de influir na definição de políticas globais.

A ação diplomática eficaz do Brasil antes de meados dos 1990 foi tolhida pela ausência de muitos dos fatores mencionados acima. Modesto peso econômico e financeiro, fraco poderio militar, importância marginal da América do Sul no quadro da guerra fria, limitações dos líderes políticos brasileiros, escassa capacidade de orquestrar uma coalizão continental. Tudo isto somado ao longo período ditatorial pós-1964 e ao péssimo desempenho econômico caracterizado por estagnação e inflação alta após 1980. A boa qualidade dos quadros diplomáticos brasileiros assegurou, aqui e ali, a obtenção de resultados importantes. No plano multilateral, o Brasil sempre teve muito mais influência, por exemplo no Gatt, do que poderia ser explicado por sua modestíssima participação no comércio mundial. Em Angola, a posição brasileira acertadamente contrariou a posição dos EUA. Mas houve, também, fracassos retumbantes como o acordo nuclear com a Alemanha.

Na década de 1990 houve reversão deste quadro. A política externa, especialmente a econômica, refletiu o aumento de credibilidade do País com a volta da democracia e a superação da inflação alta. E tornou-se mais ativa com a criação do Mercosul e a participação na Rodada Uruguai, que culminou com o Brasil consolidando a sua tarifa industrial em 35%. Já no governo Cardoso, entretanto, as dificuldades entre Brasil e EUA quanto à concessão recíproca indicavam que a integração hemisférica teria de esperar melhor momento.

A política externa sob Lula desperdiçou a oportunidade de explorar o bom momento econômico para celebrar acordos relevantes. Ao final do seu governo, a participação do Brasil nas exportações globais ainda era menor do que a de 1928. Os critérios de seleção dos parceiros prioritários geraram uma lista penosa: Venezuela, Argentina, Cuba... A almejada liderança até mesmo na América do Sul foi comprometida pela aproximação entre Chile, Colômbia e México em contraposição ao bloco crítico do neoliberalismo que incluía Brasília, Buenos Aires e Caracas. O Brasil tornou-se freguês de episódios semirrocambolescos do tipo hondurenho e iraniano. Houve confusão lamentável entre diplomacia presidencialista e diplomacia personalista.

Com a deterioração da situação econômica e o contágio de práticas corruptas afetando os partidos da coalizão governista, é difícil de imaginar que o Brasil seja levado a sério por seus parceiros até que arrume a casa. O Itamaraty, no entretempo, deve dedicar-se com afinco à cautelosa reconstrução de sua imagem de prudência sem improvisações. Um começo seria convencer a presidente a superar a sua pirraça e recompor as relações com a Indonésia.

A lista de Janot - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 04/03

Renan e Cunha estão convencidos de ação da PF contra eles. As atitudes hostis do presidente do Senado, Renan Calheiros, em direção ao Palácio do Planalto são reflexos diretos da certeza de que seu nome está na lista de Janot de políticos envolvidos na Operação Lava-Jato. Renan, e também Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, estão convencidos de que houve o dedo do governo, com a atuação do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, através da Polícia Federal, para incriminá-los com o objetivo de fragilizar o Congresso e dividir as atenções neste momento de crise que o país atravessa.

Como as investigações devem prosseguir até o fim do ano, pelo menos, teremos um Congresso em ebulição pressionando por uma solução política para um caso policial. Mas é um engano imaginar que o fato de o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pedir investigações sobre os políticos envolvidos na Operação Lava-Jato, em vez de já fazer denúncias, como no mensalão, significa um retrocesso ou é sinal de que se arma uma grande pizza no STF.

Acontece que no mensalão as investigações foram feitas durante as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), e o então procurador-geral Antonio Fernando de Souza apresentou denúncias ao Supremo com base nelas. No petrolão, apesar da série de delações premiadas, as investigações se aprofundarão agora, quando o relator do processo, ministro Teori Zavascki, autorizá-las, provavelmente a partir desta sexta-feira, ao mesmo tempo em que liberará o sigilo para que a lista seja revelada.

Ao contrário do que a maioria imaginava, inclusive eu, o fato de a delação premiada ser homologada pelo STF não significa que o delator forneceu provas de que está dizendo a verdade. A homologação apenas atesta que os ritos legais foram atendidos no processo de delação premiada, mas será durante as investigações que as informações dadas serão checadas, cruzadas com outros fatos, eventuais planilhas ou documentos fornecidos pelos delatores - que serão analisados -, para que se forme um quadro conclusivo.

A delação, por si só, não pode servir de prova contra ninguém, mas deve indicar o caminho das investigações. E nesse caso do petrolão, graças às diversas delações premiadas, pode ser possível seguir o rastro do dinheiro, como preconiza o juiz Sérgio Moro na investigação sobre políticos corruptos.

A preocupação do Ministério Público será, a partir da próxima semana, arranjar as provas que permitam denunciar os investigados e condená-los no decorrer do processo. No mensalão, havia até mesmo recibos assinados do dinheiro a que cada um teve direito, o que facilitou muito a formação de provas.

No caso atual, o difícil será conseguir provar que o dinheiro doado por empreiteiras por meio de mecanismos legais e registrado no Tribunal Superior Eleitoral ( TSE) tem origem ilegal, desviado das obras da Petrobras. Mesmo que se prove esse desvio com o cruzamento de planilhas, descobrindo-se o caminho do dinheiro, será preciso provar que o político que recebeu aquela doação sabia que era dinheiro ilegal.

Até mesmo o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, o mais exposto de todos, pode alegar que não sabia que o dinheiro era desviado de obras, embora haja várias delações premiadas dando conta dos acertos financeiros entre eles, os diretores da Petrobras e os empreiteiros. Juntar essas pontas com provas é que será o trabalho dos investigadores a partir de agora.

Provavelmente haverá um sentimento de frustração na opinião pública quando constatar que até mesmo os empreiteiros hoje presos serão soltos brevemente, e que os políticos da já famosa lista do procurador Janot continuarão nas suas atividades dentro do Congresso enquanto as investigações estiverem ocorrendo, mas esse é o ritmo do processo no STF, que deve ser apressado pela decisão de entregar a uma das turmas o julgamento do caso, e não ao plenário do STF, como foi feito no julgamento do mensalão.

O julgamento dos empreiteiros e outros envolvidos na Operação Lava-Jato na primeira instância, pelo juiz Sérgio Moro, em Curitiba, deve ser mais rápido do que o processo do STF, mas em compensação os réus terão mais instâncias recursais.

O Ministério Público poderá também fazer uso de "provas emprestadas" para fundamentar sua acusação contra os políticos, isto é, provas levantadas nas investigações sobre as empreiteiras, ou delações premiadas que tenham conexão com as investigações sobre os políticos, poderão ser requisitadas para o outro processo no STF.

A dupla Dilma-Levy - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 04/03

Se os dois não se acertarem (e ainda não se acertaram), quem pagará a conta serão 200 milhões de brasileiros


O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, ri demais e fala demais. A doutora Dilma zanga-se demais e fala de menos. Levy ainda não completou 90 dias no cargo e já se viu na constrangedora situação de reverter uma afirmação depois de ser publicamente repreendido pela chefe. O pior é que ambos tinham razão: a amplitude das desonerações tributárias foi uma “brincadeira” e sua expressão foi “infeliz”. Noutra ocasião Levy foi levado a uma acrobacia semântica, esclarecendo que a economia não sofrerá uma “recessão”, mas uma “contração”. (Em qualquer época, o Planalto tem horror a essa palavra. Em 1974 a censura baixou uma ordem tornando “terminantemente proibidas” quaisquer referências “relativas a recessão econômica, ainda que hipotéticas”). Até hoje se pode ouvir a gargalhada de Mário Henrique Simonsen ao saber dessa proibição.

As situações em que Levy se atrapalhou são despiciendas porque ainda não refletem grandes diferenças de fundo. Se a doutora quiser que ele cante tangos numa Unidade de Terapia Intensiva, quem pagará a conta serão os brasileiros. Nos últimos 50 anos, presidentes e ministros da Economia dançaram a mesma música em apenas quatro ocasiões, com as duplas Lula-Palocci, FH-Malan, Médici-Delfim e Castello Branco-Roberto Campos. O preço dos desarranjos e dos ministros-fantasmas foi a maior crise econômica da história do país.

Se o comissariado e o doutor Levy ficarem num jogo de gato e rato, ambos perderão. Entre as atribuições do ministro da Fazenda está a de animador de auditório. Alguns titulares, como Guido Mantega, tiveram desempenhos patéticos. Outros, como Pedro Malan, funcionaram como maestros, regendo charangas de sábios. Levy mostrou que é um mau animador. Ora exagera no economês, ora escorrega num coloquialismo de banqueiro bem-humorado.

Tudo isso não tem grande importância diante das dificuldades das contas nacionais e do esforço que será necessário para recolocá-las nos trilhos. Enquanto Lula deu mão forte a Antonio Palocci, seu governo teve rumo na economia. A situação de Levy é outra. O compromisso da doutora com sua agenda é uma dúvida. O do comissariado petista é quase uma certeza negativa.

Apesar de tudo, o ministro da Fazenda já conseguiu impedir que a conta das concessionárias de energia fosse para o Tesouro, avançou na brincadeira das desonerações e está fechando o cofre. Ainda falta muito. O repórter Vinicius Nader informa que as grandes empresas metidas na Lava-Jato estão solicitando empréstimos de US$ 10 bilhões do BNDES. (Cerca de US$ 3 bilhões para a Sete Brasil.) São os ectoplasmas dos “campeões nacionais”. Os interesses que alavancam esses pedidos supõem que o doutor Luciano Coutinho, presidente do banco, seja aparentado com a Casa de Saud. O rei Salman, cujas contas vão melhor que as da doutora, comemorou sua ascensão ao trono distribuindo algo como US$ 32 bilhões aos súditos sauditas. Fez isso de acordo com a metáfora do economista Ricardo Paes de Barros, jogando o dinheiro de helicóptero. O problema de Levy é que o chamaram para tomar dinheiro dos contribuintes, com o propósito de cobrir buracos criados pela banda saudita do governo.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Se fosse parlamentarismo, o governo Dilma já teria caído”
Governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, sobre as crises no governo federal


INDONÉSIA AINDA ESPERA AS DESCULPAS DE DILMA

A Indonésia não indicará novo representante diplomático enquanto o governo Dilma não pedir desculpas pela grosseria de se recusar a receber credenciais do embaixador Toto Riyanto, em 20 de fevereiro. Nos dias seguintes à desfeita, Dilma mandou telefonar à embaixada indonésia para dizer que a cerimônia apenas foi “adiada”. Mas era tarde: humilhado, Riyanto já havia retornado a Jacarta com a família.

VERGONHA

Riyanto foi convidado a apresentar credenciais e um carro do Itamaraty o pegou em casa. Ele já estava no Planalto quando foi desconvidado.

CAIU DE PATAMAR

A Indonésia será representado apenas por encarregado de negócios, enquanto reavalia a manutenção de uma embaixada em Brasília.

CESTA DO LIXO

Além de criar clima de desconfiança nos demais embaixadores, a descortesia jogou no lixo 60 anos de relações Brasil-Indonésia.

SAIU CARO

A grosseria de Dilma pode custar R$435 milhões à Embraer: o governo da Indonésia reavalia sua encomenda de oito aviões Super Tucano.

GABRIELLI DEVE PERDER SUA RICA BOQUINHA NA GALP

Sergio Gabrielli, um dos mais lastimáveis presidentes da história da Petrobras, será demitido do conselho de administração da estatal portuguesa Galp Energia, caso não peça para sair. Em razão de parcerias entre as empresas, ele ganhou assento no conselho da Galp, do qual deveria ter saído ao ser demitido da Petrobras, no início de 2012. Mas ficou agarrado à boquinha, constrangendo os portugueses.

DINHEIRO MOLE

Sérgio Gabrielli, como todo petista, adora uma boquinha, e o conselho da Galp lhe garante remuneração fixa, não revelada, 14 vezes ao ano.

LESA-PÁTRIA

Gabrielli era o presidente quando a Petrobras pagou US$ 1,3 bilhão na refinaria de Pasadena, avaliada um pouco antes por US$ 42,5 milhões.

CONSTRANGIMENTO

Impressionados com o assalto à Petrobras, os portugueses se sentem constrangidos com a presença de Sérgio Gabrielli no conselho da Galp.

MOSTRANDO BÍCEPS

Renan Calheiros mostrou que política é para profissionais. Boicotou o jantar de Dilma e devolveu a MP que reduzia a desoneração da fola. Fez Dilma perceber, antigo aliado, não pode ficar fora da interlocução com o PMDB, e ainda dividiu o noticiário sobre seu nome na Lava Jato.

CARA FECHADA

Caciques do PMDB debocharam do jantar oferecido por Dilma no Alvorada. A anfitriã mal disfarçava o desconforto com os visitantes e ainda estava aborrecida com a ausência do senador Renan Calheiros.

NOVA DERROTA

Pela cara do líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), o Planalto se prepara para mais uma derrota na Câmara, na votação da PEC da Bengala, prevista para esta quarta-feira.

AINDA TEM MAIS

Para políticos com rabo preso, que imaginavam o pesadelo no fim, a Operação Lava Jato foi prorrogada por mais seis meses. Suficientes para a abrir a caixa preta (e ainda mais pútrida) do setor elétrico.

AJUDA AO RELATOR

O presidente da CPI da Petrobras, deputado Hugo Motta, nega a intenção de enfraquecer o PT, ao criar quatro subrelatorias. Diz que, ao contrario: são ajuda ao trabalho do relator Luiz Sérgio (PT-RJ).

ATÉ O MINISTRO

O Planalto enviou os ministros Pepe Vargas (Relações Institucionais), Manoel Dias (Trabalho) e Carlos Gabas (Previdência) para pedir ao PP aprovação das MPs 664 e 665. Vargas nem se empenhou. Ficou dez minutos na reunião com a bancada e se mandou.

SEM RESTRIÇÕES

O embaixador espanhol Manuel de la Camara informou ontem que a escolha do futuro embaixador em Madri é atribuição exclusiva do Brasil, e que o governo da Espanha não pontuou quaisquer restrições.

COMBOIO MISTERIOSO

Misterioso comboio de seis caminhões-baú, do Exército, ontem, na rodovia MG-262, deixou inquietos habitantes da região de Caratinga. O Exército não explicou o que tal aparato transportava. Balas de festim?

PENSANDO BEM...

...Dilma e ministros que participaram da decisão de aumentar água, luz e combustível, têm algo em comum: quem paga essas contas para ele somos nós, contribuintes otários.


PODER SEM PUDOR

É DURO SER SECRETÁRIO...

O atual ministro José Múcio, do Tribunal de Contas da União, foi secretário do governador de Pernambuco, Roberto Magalhães. Certa vez, no Programa Geraldo Freire, da Rádio Jornal, Magalhães pediu seu testemunho para uma afirmação:

- Meu governo já fez mais de 12 mil quilômetros de eletrificação rural!

José Múcio não deixaria o governador mentindo sozinho:

- É verdade, foram mais de 12 mil quilômetros...

- É mentira! - exclamou Magalhães, desistindo da lorota - Não posso mentir ao povo. Na verdade, foram só 8 mil!

segunda-feira, março 02, 2015

De esperança à ameaça - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 02/03

O que leva Dilma, aos 67 anos de idade, a ser tão rude com seus subordinados? A pedido de quem me contou, não revelarei a fonte da história que segue. No ano passado, ao ouvir do presidente de uma entidade financeira estatal algo que a contrariou, Dilma elevou o tom da voz e disse: "Cale a boca. Cale a boca agora. Você tem 50 milhões de votos? Eu tenho. Quando você tiver poderá ocupar o meu lugar".

DILMA GOZA da fama de mal-educada. Lula, da fama de amoroso. Não é bem assim. Lula é tão grosseiro quanto ela. Tão arrogante quanto. Eleito presidente pela primeira vez, reunido em um hotel de São Paulo com os futuros ministros José Dirceu, Gilberto Carvalho e Luís Gushiken, entre outros, Lula os advertiu: "Só quem teve voto aqui fui eu e José Alencar, meu vice. Não se esqueçam disso".

EM MEADOS de junho de 2011, quando Dilma sequer completara seis meses como presidente da República, ouvi de Eduardo Campos, então governador de Pernambuco, um diagnóstico que se revelou certeiro. "Dilma tem ideias, cultura política. Mas seu temperamento é seu principal problema", disse ele. "Outro problema: a falta de experiência. E mais um: tem horror à pequena política. Horror".

NA ÉPOCA, Eduardo era aliado de Dilma. Nem por isso deixava de enxergar seus defeitos. "Dilma montou um governo onde a maioria dos ministros é fraca", observou. "Todos morrem de medo dela. No governo de Lula, não.ministro era ministro. Agora, é serviçal obediente e temeroso. Lula não pode fingir que nada tem a ver com isso. Foi ele que inventou Dilma".

LULA NÃO perdoa Dilma por ela não ter lhe cedido a vez como candidato no ano passado. Mas não é por isso que opera para enfraquecê-la sempre que pode. Procede assim por defeito de caráter. Com Dilma e com qualquer um que possa causar-lhe embaraço. Se precisar, Lula deixa os amigos pelo meio do caminho. Como deixou José Dirceu, por exemplo. E Antonio Palocci.

POIS FOI com o discurso belicoso de sempre que Lula participou de um ato no Rio em favor da Petrobras. Pediu que seus colegas de partido defendessem a empresa e se defendessem da acusação de que a saquearam. E, por fim, acenou com a possibilidade de chamar "o exército" de João Pedro Stédile, líder do MST, para sair às ruas e enfrentar os desafetos do PT e do governo.

WASHINGTON QUAQUÁ, presidente do PT do Rio, atendeu de imediato ao apelo de Lula. Escreveu em sua página no Facebook: "Contra o fascismo, a porrada. Não podemos engolir esses fascistas burgue-sinhos de merda. Está na hora de responder a esses filhos da puta que roubam e querem achincalhar o partido que melhorou a vida de milhões de brasileiros. Agrediu, damos porrada".

PARA O BEM ou para o mal, este país carregará a marca de um ex-retirante miserável, agora um milionário lobista de empreiteiras, que disputou cinco eleições presidenciais, ganhou duas vezes e duas vezes elegeu uma pessoa sem voto e sem preparo para governar. Lula já foi uma estrela que brilhava. Foi também a esperança que venceu o medo. Está se tornando uma ameaça à democracia.

O quebra-cabeças - VERA MAGALHÃES

FOLHA DE SP - 02/03

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deve dividir em "núcleos fáticos" o pedido de abertura de inquéritos contra políticos com foro privilegiado citados na Operação Lava Jato. Até a semana passada, a equipe que o auxilia no processo trabalhava com cerca de 40 núcleos. Cada um diz respeito a um fato específico, citado por um ou mais delatores dos desvios na Petrobras. Os mesmos políticos podem aparecer simultaneamente em mais de uma investigação.


Monumento 
Cada pedido deve dar origem a um inquérito. Há dúvidas entre advogados se Teori Zavascki relatará todos eles ou se haverá uma redistribuição no STF.

Para lembrar 
No mensalão, depois da denúncia já apresentada --fase posterior à que o petrolão deve começar--, foram dois anos até a abertura da ação penal e mais cinco até o julgamento.

Magoei 
A bancada do PSDB na Câmara não ficou satisfeita por ter sido excluída do encontro do alto escalão tucano que traçou a estratégia para as manifestações de 15 de março. O líder dos deputados, Carlos Sampaio (SP), não foi convidado.

Pivô 
Sampaio brigará pela indicação do tucano Antonio Imbassahy (BA) para uma das sub-relatorias, caso a descentralização dos trabalhos seja aprovada pelo comando da CPI da Petrobras.

Biotônico 
O PSC anuncia nesta terça que seus 13 deputados passarão a integrar o bloco de oposição na Câmara

Caravana 
Cerca de 60 dirigentes de centrais sindicais desembarcam em Brasília na terça. Por três dias, se reunirão com líderes de partido para tentar reverter mudanças nos benefícios trabalhistas.

Desapega 
Móveis do gabinete do senador José Serra (PSDB-SP) continuam com etiquetas de identificação de Eduardo Suplicy (PT-SP), que passou 24 anos na Casa.

Foice 
A briga nos bastidores pela indicação para a cadeira de Joaquim Barbosa no Supremo ficou mais acirrada devido à percepção geral de que a PEC da Bengala será mesmo aprovada, adiando a abertura de novas vagas.

Mácula 1 
Há no STF a avaliação de que a demora de Dilma em nomear o novo ministro prejudica a presidência de Ricardo Lewandowski.

Mácula 2 
O presidente da corte tem deixado de pautar os principais julgamentos pendentes para evitar que o quórum de dez magistrados leve a empates.

Menos dois 
No Tribunal Superior Eleitoral, a indecisão de Dilma também se faz sentir. O mandato de Luciana Lóssio acabou na semana passada, e agora são dois titulares a menos na corte.

Tóxico 
O Cratod, centro do governo paulista que gerencia as internações de viciados em drogas, recebeu em dezembro os primeiros casos de heroína. Três sul-africanos foram encaminhados para se desintoxicar por 45 dias num centro parceiro.

É minha 
Três deputadas estão "se matando" pela indicação tucana à primeira vice-presidência da Assembleia Legislativa paulista, nas palavras de um colega.

Eu também 
Analice Fernandes e Maria Lúcia Amary teriam ambas recebido apoio de Fernando Capez, o nome do partido para a presidência da Casa. Célia Leão, ao saber, manifestou interesse.

E ela? 
Na reunião com o MTST após protesto contra crise hídrica, o governo Alckmin tentou jogar a bomba no colo de Dilma. Questionou o movimento sobre promessa do Planalto de desonerar empresas de saneamento.

com BRUNO BOGHOSSIAN e PAULO GAMA

TIROTEIO

"Ou Joaquim Levy se curva e deixa de falar das irresponsabilidades da presidente Dilma ou não demora muito na cadeira."

DE ROBERTO FREIRE, presidente do PPS, sobre a reprimenda que a presidente Dilma Rousseff deu em seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

CONTRAPONTO

Bem-casado

No casamento do secretário paulista Edson Aparecido (Casa Civil), a fama de muquirana do noivo era um dos assuntos preferidos nas rodas de conversa. A festança aconteceu no sábado (28), no antigo hospital Matarazzo, com presença maciça de políticos.

O presidente do PSDB em São Paulo, Duarte Nogueira, elogiava a produção do amigo:

--Para quem tem escorpião na carteira...

O deputado Silvio Torres brincou com o noivo:

--Ele finalmente conseguiu descontar o cheque do banco Bamerindus que guardava na carteira até hoje...

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

PROJETO DE MERCADANTE É SUCEDER DILMA EM 2018
O chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, articula para ser o candidato petista à sucessão de Dilma, em 2018, segundo acredita o grupo lulista do PT que abriu guerra contra ele. A pretensão é tão evidente que recentemente, para não cair em desgraça com ele, o ministro Jaques Wagner (Defesa) telefonou-lhe logo cedo, sofregamente, para desmentir notícia de que pretendesse disputar a sucessão de Dilma.

SÓ PENSAM NAQUILO
Jaques Wagner jurou a Mercadante que não quer ser candidato a presidente. Mas, como Mercadante, não pensa em outra coisa.

MINISTRO DE SI PRÓPRIO
Lula e seus liderados dizem que Dilma só perceberá quando for tarde que a prioridade de Mercadante não é o governo, mas ele próprio.

OPÇÃO MINEIRA
Responsável pela vitória mais importante do PT, o governador mineiro Fernando Pimentel seria o predileto de Dilma à própria sucessão.

EX É PARA SEMPRE
O principal candidato à sucessão de Dilma é o próprio ex-presidente Lula, considerado o único “tiro certo” para o pleito de 2018.

EMPREITEIRA PODERÁ SOFRER INTERVENÇÃO COMO BANCO
O governo cogita mudar a lei para permitir intervenção federal em empresas construtoras, nos moldes das intervenções eventualmente decretadas pelo Banco Central em instituições financeiras. A ideia foi inclusive defendida pelo presidente da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, em conversa com o ministro Luiz Inácio Adams, chefe da Advocacia-Geral da União.

ITEM DO ACORDO
A intervenção federal pode até ser prevista nos acordos de leniência que estão sendo negociados com empreiteiras enroladas na Lava Jato.

SOB CONTROLE
O governo pretende impor nos acordos de leniência a obrigatoriedade da publicação de balanços e auditoria federal permanente por 5 anos.

DIFICULDADE
Difícil, no acordo de leniência, é convencer a população que “é bom para o País” salvar empresas que fraudam, superfaturam e subornam.

SEM SIGILO
Há grande torcida para que o ministro Luís Felipe Salomão, relator da Lava Jato no Superior Tribunal de Justiça (STJ), retire o sigilo do caso. Afinal, são agentes públicos acusados de roubar o nosso dinheiro.

JÁ ERA
O presidente do Senado, Renan Calheiros, fez chegar a Dilma que dificilmente o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, seria aprovado para a vaga de Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal.

EXPLICA AÍ
O banqueiro André Esteves, do BTG, gasta um tempão explicando os problemas com investimentos na BR Pharma, Sete Brasil, enrolada na Lava Jato, Rede D’Or, empréstimo para Eneva (ex-Eike). “Parou por aqui ou ainda vem mais? Seria bom avisar logo”, indagam no mercado.

DOIS MILHÕES
No site de petições Avaaz, que no Brasil é controlado por gente ligada ao PT, o pedido de impeachment de Dilma Rousseff continua ganhando apoio. Faltam pouco mais de 60 mil para chegar a 2 milhões de adesões.

COM PEC OU SEM PEC
Se for aprovada a PEC da Bengala, que aumenta a idade-limite para pendurar a toga, o ministro Celso de Mello solicitará imediatamente sua aposentadoria. Deve deixar o STF em novembro, quando faz 70 anos.

HOLOFOTES
O deputado estadual paulista Adriano Diogo (PT), que não se reelegeu, tenta prolongar holofotes. Preparou “relatório parcial” na CPI dos trotes violentos, antes do documento oficial do relator, propondo a extinção de sete centros acadêmicos e associações atléticas universitárias.

MAR DE ROSAS
O contribuinte está bancando “flores nobres, tropicais e do campo” para enfeitar a Presidência da República. Os arranjos comprados em uma única licitação vão nos custar mais de R$ 285 mil.

PRIORIDADES
Sem dinheiro para reabastecer hospitais públicos com remédios, o governo de Rodrigo Rollemberg no DF gasta R$ 100 mil para bancar projetos como “Disque amizade; ou a arte do encontro às escondidas”.

PENSANDO BEM...
...a relação de enrolados no roubo à Petrobras, fisgados na Operação Lava Jato, até parece lista de chamada da Papuda.

domingo, março 01, 2015

Crença - FÁBIO PORCHAT

O Estado de S. Paulo - 01/03


Atendente

Boa tarde, posso ajudar?

Cliente

Eu tava querendo uma religião.

Atendente

Ah, bem legal. Tá procurando alguma coisa específica?

Cliente

Não, é mais pra distrair mesmo.

Atendente

Bom, se é para distrair, a gente vai ter uma religião católica aqui que pode ser bem interessante.

Cliente

Será? Não sei. Tô achando meio batida.

Atendente

Bom, a mais da moda é o islamismo mesmo.

Cliente

Mas daí é muito empenho, eu queria uma coisa mais pra usar em casa, uma coisa mais levezinha.

Atendente

Temos o budismo que é bem em conta e tá saindo muito.

Cliente

É uma, hein?

Atendente

É bem relaxante essa.

Cliente

Essa aqui é qual?

Atendente

Essa é a cientologia.

Cliente

Como é que é essa aí?

Atendente

Ah, o espiritismo. Hoje o espiritismo está na promoção, tá? E se você quiser levar um espiritismo, paga apenas 50% em qualquer umbanda dessas daqui. Candomblé também.

Cliente

Aceita cartão?

Atendente

Todas as bandeiras. A evangélica é que tem muita gente usando. Mas daí custa um pouco mais caro.

Cliente

E o judaísmo, hein?

Atendente

Tem que pedir no estoque e ver se eles autorizam.

Cliente

Tá.

Atendente

Se quiser uma coisa um pouco mais radical temos uma mórmon aqui que pode ser a sua pedida. Até a Testemunha de Jeová também é uma opção...

Cliente

Não sei, acho que eu vou dar mais uma olhada.

Atendente

Se você quiser, a gente pode aqui preparar uma mistura pra você com um pouquinho de tudo. Funciona bem também. O brasileiro adora. É um pacotão completo: Você passa a acreditar em Deus, acha que vai pro céu, mas também acende uma velinha, vê espírito, medita, pula sete ondinhas e lê a Bíblia.

Cliente

Ah, gostei dessa.

Atendente

Todo mundo gosta.

Cliente

Mas coloca aí nesse pacote as 70 virgens.

Atendente

Quer que embrulhe?

A alma penada de Dilma Rousseff - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 01/03

O que deve sentir ou pensar a presidente ao ver o enterro de indigente de seus planos econômicos?


"UM NEGÓCIO QUE era muito grosseiro;" "brincadeira que nos custa R$ 25 bilhões por ano". Foi com esse discurso de réquiem que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, enterrou o defunto que fora um dos planos mais estimados da primeira encarnação da presidente Dilma Rousseff: a redução de impostos que empresas pagam ao INSS.

O que a presidente sente ou pensa quando assiste à morte ingló- ria e ao enterro infame do seu programa econômico? O que diz a seus botões, durante a noite escura da alma, na solidão esplêndida do Alvorada?

Ela acredita nas fantasias mal escritas de seus discursos, que atribui a ruína que provocou a conjurações dos azares da economia do mundo?

Acredita, tal como algumas seitas de seus adeptos restantes, que foi vítima de conjurações de elites, "mídia" ou outro demônio? Vítima dessas elites a quem o governo paga e pagará juros aberrantes pela dívida que fez a fim de financiar uma fantasia caricata e transitória de progresso social, em vez de ao menos tentar cobrar-lhes mais impostos?

As elites, que tanto amaram o dinheiro de seu governo enquanto durou, que recebiam grana grossa para financiar a criação de oligopólios, ainda engolem meio trilhão de reais a juro quase zero, o "nacional-empresismo", outro programa que morre pelas mãos de tesoura de Levy.

Parece agora claro que Dilma não compreendia as consequências das encrencas enormes que criava, tal como endividar demais e levar à pindaíba o Tesouro Nacional e a Petrobras, para ficar nas mais rudimentares e estarrecedoras. Parecia mesmo convicta da eficácia de aplicar ao país uma versão decrépita, colegial e amadora do que imagina ter sido o desenvolvimentismo original, em si mesmo um "equívoco bem-sucedido", responsável por vários dos nossos horrores, como desigualdade, cidades monstruosas, ignorância de massa e elitismo disfarçado de "nacional e popular".

A presidente teria agora dúvidas? Ou balança a cabeça e tenta afastar a lembrança da lambança, tal como fazemos quando mentimos para nós mesmos a respeito dos nossos pecados? A julgar por biografias, histórias e exemplos vivos de poderosos vistos mais de perto, é provável que as perguntas sejam tão ingênuas quanto as ideias de Dilma.

Um político que chegou ao ápice do poder é quase tão oco quanto o tronco comido por cupins das árvores que desabam nas ventanias de São Paulo. Nesse quase vácuo há menos resistência para torcer seja lá o que tenha restado de ideias ou convicção. Até líderes maiores e melhores foram assim. Roosevelt tomou posse com um programa, começou a governar com outro e ainda mudou de ideia, com o que fez fama e história.

A alma de Dilma decerto não explica este quadriênio de perversões brasileiras, embora a presidente tenha se valido das oportunidades do governo imperial do país como poucos, encarnando a caricatura da Rainha de Copas. Mas o que explica ao menos o movimento dos seus humores? Dilma ora parece se debater furiosa dentro de uma bolha isolada mesmo das versões da realidade menos antipáticas a sua figura e a seu governo. Seria a fúria de alguém inquieta e ansiosa para voltar a sua vida passada, Dilma 1? Ou de uma alma penada sem rumo?

Dois meses que duraram séculos - LUIZ WERNECK VIANNA

O ESTADO DE S.PAULO - 01/03

No tempo curto de dois meses, um abismo separa o que foi o primeiro governo Dilma deste que tarda em começar, ainda prisioneiro de práticas e concepções das quais não será fácil desembaraçar-se. Na política, como nos transatlânticos, mudanças inesperadas de rota são de operação complexa e demandam convicções firmes dos seus timoneiros. Eles devem, se desejarem evitar movimentos de amotinados, ser capazes de apresentar suas razões e demonstrar autenticidade e determinação na opção pela mudança de rumos.

Pois é de tal grave natureza uma das ameaças que rondam o mandato presidencial, qual seja o de perder o apoio do seu partido, do sindicalismo da CUT, de movimentos sociais, inclusive dos difusos como os que somente se fazem visíveis nas redes da internet, adversos à política que adotou em favor do ajuste fiscal, contrariando o que alardeou em alto e bom som no curso da campanha presidencial. A categoria dos intelectuais, a esta altura, parece irrecuperável, apesar das cambalhotas dialéticas com que alguns se eximem da crítica e da autocrítica.

Decerto que tais riscos têm sua origem em escolhas feitas pela presidente, ao insistir, em sua campanha eleitoral, em caminhos já exauridos pela macroeconomia de sua lavra e do seu ministro da Fazenda. Verdade que um eventual reconhecimento prévio de um diagnóstico desse tipo, que não era estranho ao círculo do poder (Lula incluído) - evidente na opção, feita nas primeiras horas após a vitória eleitoral, pela descontinuidade da sua política econômica com a indicação de um nome antípoda à sua tribo doutrinária para a pasta da Fazenda -, ter-lhe-ia custado a reeleição.

Assim, se no terreno da economia foi a mudança de cenário o que importou para a guinada de rumos em favor do ajuste fiscal, brusca mudança de rota a marcar a passagem do primeiro mandato presidencial para o segundo, no caso da política esse marcador tem origem nas ações da própria presidente.

De um lado, por ter recusado manter-se alinhada às práticas tradicionais em seu partido, que tanto serviram a ela e ao seu antecessor, suportadas, no fundamental, pelo eixo PT-PMDB, ao apresentar uma candidatura de um quadro do seu partido, na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados, contra o peemedebista Eduardo Cunha, um franco favorito, segundo avaliação então corrente. Como se sabe, sua derrota eleitoral destravou uma inédita rebelião parlamentar contra a interferência do Executivo no Poder Legislativo.

De outro, ao compor seu governo com quadros vinculados a alas minoritárias do seu próprio partido, a presidente contrariou suas lideranças mais influentes, e a solidão política que se estabeleceu em torno dela tem trazido de volta o velho espantalho do impeachment, sempre a rondar presidentes sem apoio congressual e em orfandade partidária. Em breves dois meses, seu mandato assemelha-se ao de presidentes malsucedidos que aguardam, com amargura, a hora da passagem do bastão de comando a seu sucessor.

Agora, passado o carnaval, diante desse horizonte aziago que está aberto diante de nós, a rota inevitável é a de enfrentar mar alto em águas turbulentas, em que o timoneiro precisa estar atento a todos os sinais, e não apenas aos que lhe vêm dos seus impulsos e convicções íntimas. Boa será a reforma política que vier do Parlamento e que venha a ser referendada, onde couber, pela cidadania. Esse pode ser um começo para uma navegação menos arriscada.

Se há previsões fundamentadas de mau tempo, em particular com os desdobramentos dos escândalos da Petrobrás, ainda em fase de apuração por parte do Ministério Público e do Poder Judiciário, de desenlace imprevisível quando os malfeitos e os responsáveis por eles vierem a público com a formalização de um processo criminal, não se podem ignorar os bons augúrios que nos vêm tanto da afirmação da autonomia do Legislativo, que nos faltava - fato de importância capital nas Repúblicas democráticas -, como a do Judiciário, a esta altura solidamente escorada pela intensa vida corporativa das inúmeras associações de magistrados.

Não há motivos, pois, para surtos paranoicos quanto ao destino da nossa democracia política, embora seja certo que os próximos quatro anos nos reservem turbulências e nova disposição nas peças sobre o tabuleiro político. Os primeiros movimentos nessa direção já se iniciaram com a elevação do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, um estranho no ninho do PT, às funções de primeiro-ministro, a quem se encarregou de liderar as negociações com lideranças parlamentares a fim de aprovar o ajuste fiscal no Legislativo, operação já iniciada com as bênçãos do PMDB. Na sequência, devem ceder as resistências do Executivo a Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, que já deu fortes demonstrações de expertise no jogo da política parlamentar e parece imune a ações de cooptação pelo governo.

Outro elemento de imprevisibilidade que nos ronda são as ruas, aqui uma protagonista nos idos de 2013 e, por toda parte, uma nova e incontornável presença na vida política e social neste início de século. No Brasil, até no carnaval paulistano. Elas deverão retornar, mas com outra demografia e outros temas, diversos dos daqueles estudantes e da agenda tópica de políticas públicas de dois anos atrás. Já estão nelas os sem-teto e o sindicalismo operário, como na ocupação da Ponte Rio-Niterói por parte dos petroleiros, entre tantas manifestações recentes de metalúrgicos paulistas, e, agora, perigosamente, os caminhoneiros. A agenda desses recém-chegados às ruas, com uma economia retraída, não recomenda ao boxeador ficar agarrado às cordas. Ele precisa se reinventar, abandonando o tipo de jogo que o está levando à derrota, e reiniciar a luta, mesmo que com um estilo com o qual não esteja habituado. Se quiser evitar o risco de beijar a lona.

Crise do fim do mundo - ELIANE CANTANHÊDE

O Estado de S. Paulo - 01/03

O 15 de março vem aí, com péssimas condições de tempo e temperatura, o governo fazendo barbeiragens e a oposição instigando as manifestações, mas desautorizando o "Fora, Dilma". E ironizando o "Foi o FHC".

Na economia, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, acerta ao entregar um superávit de R$ 21 bilhões em janeiro, mas erra feio ao criticar e chamar de "brincadeira" as desonerações feitas pela chefe Dilma Rousseff no primeiro mandato. Não se cutuca a onça com vara curta.

E... o aumento de até 150% nos impostos da indústria vem numa hora de pânico do setor produtivo e não é nada promissor para crescimento, inflação e empregos, que já começam a tremelicar.

Na política, as ameaças ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Entraram na casa dele e isso virou justificativa para seu encontro com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, um mês depois, justamente às vésperas do anúncio da lista de políticos do PT e do PMDB na Lava Jato. Pior: em 48 horas, o procurador desiste da denúncia de políticos e segue pelo desvio de abrir inquérito. Leia-se: jogar tudo para as calendas.

Janot pode estar enveredando pelo pior dos caminhos: aquele que estanca um basta na corrupção sistêmica, dá na impunidade dos responsáveis pela maior roubalheira descoberta na República e, atenção, pode respingar na sua própria biografia.

Já o ministro da Justiça se encontra com o advogado da UTC, por acaso, ali na porta ao lado do seu gabinete, diz "Oi!, como está você?" e vira as costas. Também recebe a turma da Odebrecht e registra em ata que vai ver direitinho como foi o pedido de dados na Suíça, o que pode resultar em anulação de provas contra as empreiteiras. Depois se reúne com o procurador à noite, numa semana decisiva, para discutir um arrombamento desses que ocorrem às centenas, ou milhares, por dia.

Enquanto a política econômica dá um cavalo de pau, as versões do governo para sua ação na Lava Jato parecem sem pé nem cabeça e a sociedade se move, as investigações do esquemão na Petrobrás avançam. Só não se sabe para onde.

Já eram esperadas as delações premiadas de dois executivos da Camargo Corrêa, o presidente, Dalton Avancini, e o vice, Eduardo Leite (em choque com a própria companhia), que devem reforçar a tese de cartel contra a de esquema político para eternizar o PT no poder.

É o que o governo quer, mas não o que interessa à Odebrecht, onde habitam os maiores amigos de Lula e Dilma no setor. A empresa é a única que não tem nenhum executivo na cadeia e ficou fora da lista que vai pagar multa de R$ 4,5 bilhões, porque seus meandros de financiamento de campanha são muito mais complexos, não se encaixam nas investigações. Mas, se prevalecer a confissão conjunta de "cartel", ela entra na dança.

É mais um choque de interesses, mas o foco continua sendo no grande personagem das investigações: Ricardo Pessoa, o homem bomba da UTC. Tudo depende agora do fator emocional. Digamos que é uma questão de tempo.

Tem-se, assim, que a economia está como está, os ajustes são amargos num momento já de tanta amargura, o PMDB acaba de ir à TV se descolando do governo, cresce a sensação de que o procurador-geral está nas mãos de Dilma e Cardozo e o desfecho da Lava Jato é incerto, depois de tantas revelações escabrosas.

Pois é... e o 15 de março vem aí. Fernando Henrique Cardoso reuniu seus generais na sexta e o recado é: manifestações, sim; incitar o impeachment, não. Lula também reuniu sua tropa e avisou: se necessário, põe nas ruas a "tropa do Stédile" (ou seja, MST e movimentos sociais).

O que talvez os dos dois lados não estejam entendendo é que, desta vez, não se trata de PT versus PSDB. O momento é grave, a situação é complexa e a dinâmica é a de junho de 2013. As manifestações não são de partidos, de governo ou de oposição. São principalmente contra Dilma, mas contra todos eles.

Com o pé na porta - JOÃO BOSCO RABELLO

O Estado de S. Paulo - 01/03

A maratona do ex-presidente Lula nos últimos dias, ao tempo em que indica claramente sua intenção de candidatar-se em 2018, expõe a indigência da coordenação política do governo, incapaz de atuar com eficiência mínima para o reequilíbrio das relações com o Congresso Nacional.

Lula em campo significa a extrema-unção da articulação do PT no Planalto. Ele cumpre roteiro claro de aprovar o ajuste fiscal para evitar o pior para Dilma. Mas o PMDB não aceita assumir o ônus das medidas, enquanto o PT as contesta publicamente.

A manifestação do líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), confirma a acusação do PMDB. Diz ele que as críticas do partido ao ajuste fiscal são apenas para "marcar posição com o eleitor".

Quando for a hora de votar para valer, acrescenta, ninguém faltará ao governo. É o mesmo princípio que orientou a campanha da reeleição de Dilma: dizer uma coisa para a plateia e, conquistado o objetivo eleitoral, agir em sentido contrário. Só que agora o âmbito é o Congresso, onde no jargão político, "o mais bobo ali voa".

Lula é o que resta de confiabilidade no PT - não para efeito público, mas no contexto das negociações com os demais partidos da base aliada. O que o torna uma espécie de primeiro-ministro no cenário político. Opera para si próprio, mas precisa reconstruir as pontes com os partidos aliados, principalmente o PMDB, para uma candidatura do partido à sucessão de Dilma.

De preferência com ele, Lula. Nas conversas em Brasília com as reais lideranças influentes no Congresso, condicionou sua candidatura - e o sucesso de qualquer outra governista - ao êxito do plano de ajuste do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Mas o próprio Lula foi atingido pelo desgaste do PT e sua ação em favor de Dilma Rousseff reconhece que é dele a responsabilidade pela sua eleição e também pelos resultados de seu governo. Não só para o público interno, mas para os eleitores que apostaram na sua afilhada pela segunda vez e já mostram arrependimento.

Sua incursão ostensiva em terreno da coordenação política, com críticas ao trabalho do ministro Aloizio Mercadante, - em quem vê não só insuficiência para o posto, mas também um aspirante à presidência da República -, faz parte da cruzada a que se dispôs, que tem como efeito colateral a exposição dos erros da equipe palaciana até aqui.

Nesse contexto, o coordenador político Mercadante perde espaço para aquele de quem Dilma precisa mais - e que entrou em cena com o pé na porta.

O neoliberalismo e a tributação do povo - SACHA CALMON

CORREIO BRAZILIENSE - 01/03

Em nossa trincheira, a advocacia, temos nos empenhado em prol dos contribuintes. O feito é como o voto, instrumento da cidadania. Além de jornalista e articulista, sou professor universitário. Formei em Minas uns 30 mestres e doutores em direito tributário. E fui juiz federal por sete anos. Exerci e exerço a cidadania. Não me venham detratar como neoliberal, como se a palavra fosse aberrante.

Temos defendido teses do interesse dos contribuintes e consumidores. Somos como deputados no PoderJudiciário. Dou exemplos. 1) Dedução do ICMS e ISS da base de cálculo do PIS/Cofins. Temos uma decisão do STF. Mas, para valer para todos, é preciso julgar com Repercussão Geral. O STF o fará brevemente. A comunidade dos negócios já não aguenta mais tanta delonga. 2) Não incidência do PIS, da Cofins importação sobre pagamento de royalties, que é uma despesa. O próprio Cosit, órgão do governo, já reconheceu a não incidência (diminuição do custo Brasil). 3) Dedução no imposto de renda e na contribuição sobre o lucro líquido, por ser despesa, dos gastos com a alimentação dos funcionários (PAT). 4) Não incidência de tributos sobre aviso prévio indenizado. O STF e o STJ têm dito que indenizações não se sujeitam ao imposto de renda. Ademais, a verba é eventual, não se coaduna com o conceito periódico de salário. 5) O mesmo temos defendido em relação ao salário-maternidade, adicional de 1/3 de férias não gozadas, auxílio-doença e auxílio-acidente. O problema é que o Fisco federal acha que toda despesa em prol do assalariado é salário e vem em cima do empregador, tributando-o. 6) Abono único incentivatório. Aqui é a própria Lei nº 8.212/91, art. 28, item 7 da alínea "e" do § 9º que prevê a não incidência. 7) Estamos já com decisão favorável no STJ (1ª Turma) afastando a equiparação do IOF das corretoras de seguros. Elas não são iguais às instituições financeiras, mais tributadas. 8) Não incidência do IOF sobre mútuos entres empresas sem intermediação de operadoras financeiras.

A lista é meramente exemplificativa, para mostrar quão conturbado é o nosso ambiente de negócios e como somos atores políticos fundamentais no exercício da advocacia (tributo é custo)

Eu encheria páginas inteiras com as doenças tributárias de nossa clínica fiscal. Há casos risíveis (e, por isso, reconheço que ser empresário no Brasil é profissão de alto risco). Agora mesmo o Supremo decidiu que nenhuma multa, nos três níveis de governo, pode superar a 100% do tributo a pagar. Às vezes, elas chegam a 250%. Restam problemas com as "multas isoladas" (tipo: não escriturar a NF de saída no prazo "x"). É tanta informação que as empresas contratam pessoas só para informar os senhores fiscais do Estado rapinante e parasita. Vejam um exemplo de caso risível: A manutenção de créditos de ICMS pela aquisição de ativo imobilizado de bens de uso e consumo na proporção das exportações. A tese, cujaRepercussão Geral foi reconhecida pelo STF (RE 704815), pugna pelo direito de o contribuinte aproveitar créditos relativos ao ICMS decorrente da aquisição de bens de uso e consumo utilizados na cadeia produtiva de mercadorias destinadas à exportação. O artigo 155, § 2º, inciso X, alínea "a", da Carta da República, inserida pela Emenda Constitucional nº 42/03 (manutenção e aproveitamento do imposto cobrado nas operações antecedentes à exportação) não contempla somente a imunidade nas vendas para o exterior, garante o direito à compensação do crédito das operações anteriores. Não é incentivo fiscal, é de próprio mecanismo do imposto na CF/88. Há também o caso - agora agudo - da incidência de ICMS sobre demanda contratada de energia elétrica. O STJ tem dito: "O ICMS incide sobre a tarifa de energia elétrica correspondente à demanda de potência efetivamente utilizada". O Fisco quer cobrar sobre o valor total do contrato, haja ou não consumo. Ora o imposto é sobre circulação de bens e serviços e não sobre instrumentos contratuais como era o imposto do selo.

"E la nave va", à matroca. O Fisco tributando com sua metralhadora giratória e nós na trincheira, resistindo... Não daremos tréguas. Jamais! É o povo consumidor que acaba pagando. Sou neoliberal: Estado mínimo, imposto menor.

Com tanta injustiça fiscal, espanta a submissão do brasileiro e a inércia legislativa. Basta um exemplo. No imposto sobre ganhos de capital, os bens adquiridos entram pelo valor histórico. Quando alienados pelo valor de mercado. O imposto é de 15% sobre o diferencial. Dois pesos e duas medidas, o contrário do que predica o conceito mínimo de justiça: Todos são iguais perante a lei. Se o governo corrige tudo pela Selic, deveria acrescentar ao valor histórico do bem a valorização exclusivamente decorrente da desvalorização da moeda ou seja da inflação.

A derrocada da Petrobrás - SUELY CALDAS

O ESTADO DE S.PAULO - 01/03

O rebaixamento da nota de risco da Petrobrás foi um trágico ponto fora da curva para os planos da equipe de Joaquim Levy. A reação, em seguida, com medidas de cortes drásticos nas despesas do governo e aumento de impostos sobre salário, tem uma direção: provar aqui e no exterior que o Brasil fará o que for preciso para não perder sua classificação de grau de investimento, crucial para reconquistar a credibilidade, reconstruir o que foi destruído nos últimos quatro anos, facilitar o acesso a crédito externo e retomar o caminho do crescimento com novos investimentos.

Outras ações nessa direção estão na mira de Levy, mas ele se esqueceu de uma de poder limitado para a economia de gastos, mas com força política de frear a voracidade por cargos públicos de partidos políticos que ocupam ministérios, estatais e órgãos do governo: suspender contratações de assessores comissionados - os chamados DAS -, os fisiológicos parentes, amigos e cabos eleitorais trazidos de fora, que inflacionam a folha de pagamento, incham o serviço público e ocupam lugar dos funcionários de carreira. O momento é agora, em início de gestão, quando ocorrem essas contratações.

Embora tenha assinado os decretos de cortes, continua a dúvida sobre o real compromisso de Dilma Rousseff com as ações de Levy para corrigir os erros que ela própria cometeu no primeiro mandato. Sua reação ao rebaixamento da Petrobrás foi covarde: fugiu dos fatos e o atribuiu a um simples "desconhecimento do que está acontecendo na empresa". Com o País mergulhado no atoleiro político e econômico, ela saiu da encolha, foi ao palanque, prometeu mais programas sociais - como se estivesse em campanha eleitoral -, mas nenhuma palavra sobre o que fará para tirar o País do atoleiro.

Em 60 anos de história, a Petrobrás nunca foi tão esmagada, triturada, humilhada, tratada não como a maior e mais respeitada empresa do País, mas como reles instrumento político nas mãos de Lula-Dilma e caixa sem fundo de assaltos e roubalheiras de partidos políticos, funcionários desonestos e empreiteiras corruptoras.

A Petrobrás conseguiu a classificação grau de investimento em outubro de 2005 (pela mesma Moody's, que agora a rebaixa), quase três anos antes de o Brasil conseguir a mesma classificação, tal era a confiança de que ela desfrutava aqui e lá fora. Agora é o País que luta para fugir do contágio da empresa. Quando ela perdeu o monopólio do petróleo, em 1997, os descrentes apostavam que seria engolida na concorrência com as gigantes estrangeiras. A dedicação e competência de seus funcionários e um plano estratégico liderado pelo então presidente Henri Philippe Reichstul, focado em sua internacionalização, fizeram ruir a aposta dos descrentes. Foi quando passou a disparar seu valor patrimonial e de mercado.

No governo Lula o modelo de negócios da Petrobrás não mudou e até avançou, mas começaram as indicações de partidos políticos para cargos de direção e de sindicalistas para 2.º e 3.º escalões. Os ocupantes não eram mais pessoas de fora da empresa, como no passado, mas funcionários de carreira cooptados, que se defendiam argumentando que sem padrinho político nunca seriam promovidos. Virou rotina. Quem resistia era demitido e substituído pelos cooptados, que recebiam a missão de subtrair dinheiro da empresa para partidos políticos, sobretudo PT, PMDB e PP. É o que a Operação Lava Jato tem desvendado.

Dilma Rousseff tentou se livrar dos corruptos e autorizou a ex-presidente Graça Foster a substituir toda a diretoria. Mas foi com Dilma que ocorreram os mais graves erros de gestão, decorrentes do uso político da empresa. Além do longo congelamento dos preços dos combustíveis, que esvaziou o caixa, Dilma exigiu que a Petrobrás atuasse como única operadora e entrasse com um mínimo de 30% do dinheiro investido em cada poço do pré-sal. Era a ultrapassada visão intervencionista e estatizante de juventude que Dilma impôs à Petrobrás e a levou a um nível de endividamento insuportável, maior responsável pelo seu rebaixamento na classificação de risco.

A Camargo Corrêa pode virar uma Siemens - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 01/03

Depois de ter distribuído dinheiro pelo mundo afora, a empresa alemã virou exemplo de lisura


A decisão do presidente e de um dos vice-presidentes da Camargo Corrêa de colaborar com a Viúva pode significar o início de um novo tempo nas relações de grandes empresas com o Estado. Se a empresa aderir, poderá se transformar numa Siemens.

Nada garante que isso vá acontecer, mas a multinacional alemã foi do inferno ao paraíso em poucos anos. Com 400 mil empregados em 190 países, ela corria o risco de ser declarada inidônea nos Estados Unidos e na Alemanha. Resolveu corrigir-se. Reconheceu que distribuiu US$ 1,4 bilhão em 65 países e abriu uma investigação interna. Foram analisados 127 milhões de documentos e descobertos novos malfeitos. A Siemens contratou Theo Waigel, ex-ministro da Economia da Alemanha, para uma posição de superombudsman. Ele visitou 20 países, reuniu-se com cerca de 1.500 pessoas e ficou com pouco tempo para outras atividades. De seu trabalho resultou que a empresa tem um novo lema: "A Siemens só faz negócios limpos". A faxina foi geral. No primeiro ano, o ombudsman fez mais de 100 recomendações, todas aceitas. No segundo, 40. No terceiro, apenas 10. Criou uma sistema de controle de denúncias. Para garanti-lo, apresentavam-se falsas reclamações, para ver se elas eram varridas para baixo do tapete.

Waigel concluiu seu trabalho garantindo que "não há risco sistêmico" quando se faz uma faxina. No Brasil, por exemplo, a Siemens colabora com as autoridades nas investigações sobre o cartel metroferroviário que operou em governos do tucanato paulista. Infelizmente, as autoridades ainda não colaboraram o suficiente para que o caso desse em alguma coisa.

FRITURA

A doutora Dilma encarregou o ministro Joaquim Levy de negociar com a agência Moody's para que a nota de crédito da Petrobras não fosse rebaixada. Ele tentou durante o Carnaval, quando esteve em Nova York, e novamente na segunda-feira passada. Deu água.

Negociações como essa são comuns. Às vezes dão certo, às vezes fracassam. Valem pelo segredo em que são mantidas, seja qual for o desfecho. Se Levy fosse bem-sucedido, o sigilo evitaria que a Moody's parecesse ter sido pressionada.

Rebaixada a Petrobras, o governo (mas não a Fazenda) revelou a gestão malsucedida.

Pode ter sido pura incompetência, ou um lance de fritura de Levy.

PERIGO

Se fossem poucos os problemas do comissariado, apareceu um novo. A possibilidade de que surjam novos fatos documentados sobre as petrorroubalheiras, vindos dos Estados Unidos, onde pelo menos duas agências investigam a Petrobras.

Se isso acontecer, é certo que renascerá a tese dos "inimigos externos". Será falsa; o governo americano zela pela saúde de seu mercado de ações, onde papéis da empresa são negociadas na Bolsa.

Funcionários da Securities and Exchange Commission já estiveram no Brasil.

Em Pindorama, essa função é da Comissão de Valores Mobiliários, com quem diretores da Petrobras fizeram pelo menos sete acordos. Como diria o comissário Luís Inácio Adams, essa é um "especificidade" do Brasil.

SUGESTÃO

A CPI da Petrobras poderia funcionar em Curitiba.

Lá ela ficaria mais perto das duas pontas da questão: do juiz Sergio Moro e da carceragem.

COTA DO PMDB

Na roda de fogo para segurar a votação da PEC da Bengala, chegou a um comissário do Planalto uma estranha proposta.

Aprovada, a emenda bloquearia a nomeação de cinco ministros do Supremo Tribunal Federal que irão para as vagas dos titulares que completarão 70 anos durante o mandato da doutora. O PMDB seguraria a PEC se ganhasse uma cota, influenciando a escolha de dois dos novos ministros.

O JUIZ DO PORCHE

O juiz Flávio Roberto de Souza foi afastado do caso de Eike Batista.

O Ministério Público bem que poderia sugerir uma medida que desse alegria à cidade. Deveriam obrigá-lo a circular durante uma semana, pela orla, no Porsche do ex-bilionário.

Se bater em cachorro pode levar uma pessoa a correr o risco de ter que limpar canis a pedido da Promotoria, isso não seria absurdo.

URUCUBACA

O repórter Lauro Jardim informa: O doutor Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, tinha seu conforto garantido pelo bloqueio de um elevador do prédio da empresa sempre que fosse usá-lo.

Durante 11 anos ele dirigiu a poderosa subsidiária da Petrobras e caiu na rede das petrorroubalheiras. Ele pode até ser um santo, mas chamou uma urucubaca.

É dura a vida de magnata que bloqueia elevador.

Eike Batista está no chão. Edemar Cid Ferreira, Angelo Calmon de Sá e Theodoro Quartim Barbosa quebraram seus bancos e Richard Fuld destruiu a Lehman Brothers. Paulo Skaf valeu-se do mesmo privilégio como presidente da Fiesp apenas por algum tempo. Tomou uma surra na última eleição para o governo de São Paulo.

A TORTURA E O DOUTOR WADIH DAMOUS

Têm sido muitas as linhas de defesa do pessoal metido nas petrorroubalheiras. Uma delas revela o tamanho do cartel de mistificações que se pretende construir. Os presos de Curitiba estariam sendo submetidos a um tratamento humilhante e, o que é pior, a uma tortura. Muita gente boa gosta desse argumento. Nas palavras do doutor Wadih Damous, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil:

"Delação premiada não é pau de arara, mas é tortura."

Não é. Primeiro porque a tortura é crime, e a colaboração com a Viúva é um instrumento legal. Aceitando-se a essência retórica do doutor, prender uma pessoa para obter dela uma confissão seria uma forma de torturá-la. Nessa transposição, até o barulho da televisão do vizinho pode ser uma tortura. O uso da palavra com essa conotação adjetiva faria sentido na Suécia. No Brasil, país governado por uma senhora que na juventude passou pela experiência da tortura, a prestidigitação é ofensiva.

Uma observação de Dilma Rousseff a respeito da sua experiência deveria levar o doutor Wadih Damous a refletir:

"A pior coisa que tem na tortura é esperar. Esperar para apanhar."

Palmatórias, socos, pau de arara são sofrimentos terríveis, porém episódicos. Terminado o suplício, o preso volta para a cela e lá ele tem que esperar que o chamem de volta, "esperar para apanhar".

Os presos de Curitiba estão encarcerados e vivem numa situação de constrangimento legal. Chegaram a essa situação porque são acusados, com provas, de terem delinquido. Os que estão colaborando com a Viúva reconhecem isso.

São dois os tipos de pessoas que se incomodam com a colaboração dos acusados. Um grupo, pequeno, é composto por cidadãos que para isso são remunerados. Eles defendem as empreiteiras, todas as suas obras e todas as suas pompas. Outro grupo, bem maior, defende o comissariado petista. Numa trapaça da história, nele estão pessoas que sabem perfeitamente o que é tortura.

A miséria da política - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

O ESTADO DE S. PAULO - 01/03

Por que a presidente Dilma se deu ao ridículo de atribuir a mim a culpa do petrolão?


Otimista por temperamento, com os necessários freios que o realismo impõe, raramente me deixo abater pelo desalento. Confesso que hoje, no entanto, quase desanimei: que dizer, que recado dar diante (valham-me os clássicos) de tanto horror perante os céus?

Na procura de alento, pensei em escrever sobre situações de outros países. Passei o carnaval em Cuba, país que visitava pela terceira vez. A primeira, na década de 1980, quando era sena-dor-fui jurado num Prêmio Casa de las Américas. Voltei à ilha como presidente da República. Vi menos do povo e dos costumes do que na vez anterior: o circuito oficial é bom para conhecer outras realidades, não as da sociedade. Agora visitei Cuba como cidadão comum, sem seguranças nem salamaleques oficiais. Fui para descansar e para admirar Havana, antes que o novo momento econômico de relações com os Estado Unidos a modifique muito.

Não fui, portanto, para avaliar a situação política (nem sequer possível em sete dias) ou para me espantar com o já sabido, de bom e de mau, que lá existe. Não caberia, portanto, regressar e fazer críticas ao que não olhei com maior profundidade. Os únicos contatos mais formais que tive foram com Roberto Retamar (poeta e diretor da referida Casa de las Américas) , com o jornalista Ciro Bianchi e com o conhecido romancista Leonardo Padura. Seu livro El Hombre que Amaba a los Petros - sobre a perseguição a Trotski em seu exílio da União Soviética - é uma admirável novela histórica. Rigorosa nos detalhes, aguda nas críticas, pode ser lida como um livro policial, especialidade do autor, que, no caso, reconstitui as desventuras do líder revolucionário e o monstruoso assassinato feito a mando de Stalin.

Jantei com os três cubanos e suas companheiras. Por que ressalto o fato, de resto trivial? Porque, embora ocupando posições distintas no espectro político da ilha, mantiveram uma conversa cordial sobre os temas políticos e sociais que iam surgindo. A diversidade de posições políticas não tornava o diálogo impossível. Eles próprios não se classificavam, suponho, em termos de "nós" e "eles", os bons e os maus. Por outra parte, ainda que o cotidiano dos cubanos seja de restrições econômicas que limitam as possibilidades de bem-estar, em todos os populares com quem conversei senti esperanças de que no futuro estarão melhor: o fim eventual do embargo, o fluxo de turistas, a liberdade maior de ire vir, as remessas aumentadas de dinheiro dos cubanos da diáspora, tudo isso criou um horizonte mais desanuviado.

É certo que nem em todos os contatos mais recentes que tive com pessoas de nossa região senti o mesmo ânimo. Antes de viajar recebi ligação telefônica da mãe de Leopoldo López, oposicionista venezuelano que cumpriu um ano de cadeia no dia 18 de fevereiro. Ponderada e firme, a senhora me pediu que os brasileiros façamos algo para evitar a continuidade do arbítrio. Ainda mantém esperanças de que, ademais dos protestos no Congresso e na mídia, alguém do governo entenda nosso papel histórico e grite pela liberdade e pela democracia.

Na semana passada foi a vez de Henrique Capriles me telefonar para pedir solidariedade diante de novos atos de arbítrio e truculência em seu país: o prefeito Antonio Ledezma, eleito para o governo do Distrito Metropolitano de Caracas pelo voto popular, havia sido preso dias antes em pleno exercício de suas funções. Não bastasse, em seguida houve a invasão de vários diretórios de um partido oposicionista. Note-se, como me disse Capriles, que Ledezma não é um político exaltado, que faz propostas tresloucadas: ele, como muitos, deseja apenas manter viva a chama democrática e mudar pela pressão popular, não pelas armas, o nefasto governo de Nicolás Maduro. Esperamos todos que o desrespeito aos direitos humanos provoque reações de repúdio ao que acontece na Venezuela.

Até mesmo os colombianos, depois de meio século de luta armada, vão construindo veredas para a pacificação. As Farc e o governo vêm há meses, lenta, penosa, mas esperançadamente, abrindo frestas por onde possa passar um futuro melhor. Amanhã, segunda-feira, 2 de março, o presidente Juan Manuel Santos e outras personalidades, entre as quais Felipe González, estarão reunidos em Madri num encontro promovido por El País (ao qual não comparecerei por motivos de força maior) para reafirmar a fé na paz colombiana.

Enquanto isso, nós que estamos longe de sofrer as restrições econômicas que maltratam o povo cubano ou os arbítrios de poder que machucam os venezuelanos, eles também submetidos à escassez de muitos produtos e serviços, nos afogamos em copo d"água.

Por que isso, diante de uma situação infinitamente menos complexa? Porque Lula,em lugar de se erguer ao patamar que a História requer, insiste em esbravejar, como fez ao final de fevereiro, dizendo que colocará nas ruas as hostes do MST (pior, ele falou nos "exércitos"...) para defender o que ninguém ataca, a democracia, e -incrível - para salvar a Petrobrás de uma privatização que tucano algum deseja? Por que a presidente Dilma se deu ao ridículo de fazer declarações atribuindo a mim a culpa do petrolão? Não sabem ambos que quem está arruinando a Petrobrás (espero que passageiramente) é o PT, que no afã de manter o poder criou tubulações entre os cofres da estatal e sua tesouraria? Será que a lógica do marquetismo eleitoral continuará a guiar os passos da presidente e de seu partido? Não percebem que a situação nacional requer novos consensos, que não significam adesão ao governo, mas viabilidade para o Brasil não perder suas oportunidades históricas?

Confesso que tenho dúvidas se o sentimento nacional, o interesse popular serão suficientes para dar maior têmpera e grandeza a tais líderes, mesmo diante das circunstâncias potencialmente dramáticas de que nos aproximamos. Num momento que exigiria grandeza, o que se vê é a miséria da política.

De que adianta votar? - CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SP - 01/03

No Brasil, faz-se estelionato eleitoral; na Grécia, os sócios europeus exigem que se traia rudemente o eleitor


Votar está se tornando inútil como instrumento para determinar que políticas o grupo eleito deverá seguir. É triste, mas abundam exemplos.

O do Brasil é particularmente escandaloso: Dilma Rousseff nem esperou iniciar o segundo mandato para praticar cenas explícitas de estelionato eleitoral.

Pior ainda é o caso da Grécia, em que o desacato ao eleitor foi imposto de fora para dentro.

Recordemos: o Syriza (Coligação de Esquerda Radical) foi eleito com base em uma campanha clara contra o "austericídio" imposto ao país pela chamada "troika" (União Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu).

O que o eleitorado grego aprovou os interventores externos desaprovaram: sob ameaça de sufocar de uma vez o país já esfrangalhado, exigiram que Alexis Tsipras, o novo primeiro-ministro, pedisse água, na forma de uma prorrogação do esquema de resgate, exatamente aquele que o eleitorado rejeitara.

Ante a fuga de depósitos que ameaçava afundar o sistema bancário grego e, consequentemente, gerar uma depressão apocalíptica, Tsipras cedeu.

Cedeu menos do que parece pela leitura dos jornais e pelas críticas da própria esquerda do Syriza ao acordo, mas cedeu.

O que é ainda mais cruel nessa história é que acabou passando a impressão de que a esquerda vitoriosa é a responsável pela crise grega, uma grossa inverdade.

Seus líderes, antes mesmo de constituírem uma aliança em 2004, sempre criticaram os governos dos partidos conservador e socialista.

Foram esses partidos, com sua irresponsabilidade, política de compadrio, corrupção e relaxamento na cobrança de impostos dos mais ricos, que levaram a Grécia à beira do abismo, o que se tornou evidente quando estourou a crise de 2008.

Foram esses mesmos partidos que, em seguida, empurraram o país para o abismo definitivo, ao aceitarem o "austericídio", que provocou uma contração de 25% da economia grega em cinco anos.

Na carta às "instituições" (nome agora dado à odiada "troika"), o Syriza tratou superficialmente das medidas prometidas na campanha para amenizar a catástrofe social.

E assim mesmo com a garantia de que "a luta contra a crise humanitária não terá efeitos negativos no plano fiscal". Ou seja, garante o sacrossanto superávit primário (receitas menos despesas, excluídos juros da dívida), faltando apenas pôr os números exatos que ele terá.

Mas, na carta, há um dado que até o conservador jornal alemão "Die Zeit" considera esperançoso: "O novo governo quer reconstruir o que foi minado na base: um Estado que funcione realmente".

Ou seja, um Estado que de fato cobre impostos, que modernize o fisco e que, conforme prometido, transforme "a luta contra a corrupção em prioridade nacional".

Reconstruir o Estado é a única maneira de a Grécia de fato se reerguer, o que deveria ser recebido com entusiasmo pela Europa, em vez das críticas que se seguiram.

Depois se queixam de que os eleitores estão dando as costas aos partidos tradicionais.

Deixa isso pra lá - VERA MAGALHÃES

FOLHA DE SSP - 01/03

O núcleo político do governo Dilma Rousseff vai adotar uma pauta "neutra" e engavetar projetos mais identificados com o PT, como a regulamentação da mídia, nos próximos meses para evitar embates ideológicos no Congresso. Ministros avaliam que o perfil atual da Câmara e do Senado é refratário a esse tipo de assunto e que a melhor maneira de recompor a base aliada é priorizar uma pauta menos política e mais econômica, voltada para o setor produtivo, empresários e trabalhadores.

Alô, Janot 

A pressão sobre Rodrigo Janot por conta da lista dos implicados na Lava Jato não vem de hoje. Em novembro passado, José Eduardo Cardozo (Justiça) pediu que o procurador-geral da República recebesse diretores do Banco do Brasil para discutir as investigações.

Risco... 

Janot e outros procuradores se reuniram em 24 de novembro com representantes da área jurídica e analistas econômicos do banco, que foram expor graves consequências econômicas caso empresas envolvidas nos desvios da Petrobras fossem severamente punidas.

... sistêmico 
Munidos de relatórios expostos aos procuradores em PowerPoint, descreveram um cenário alarmista, em que, a depender do valor das sanções financeiras aplicadas às empreiteiras, o país teria o crescimento afetado e o efeito se alastraria para vários outros setores.

Instável 
Amigos do procurador-geral da República dizem que ele demonstra abatimento e ansiedade nos últimos dias com a pressão a que está submetido.

Acuado 1 
Outro que passou o final da última semana tenso com o desfecho iminente da lista da Lava Jato foi o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Acuado 2 
Antes confiante de que ficaria fora do rol, o peemedebista disse a aliados ter recebido sinais de que seu nome poderá ser incluído. Diante da hipótese, Cunha se mostrou colérico e disposto a se vingar do governo.

Pedra cantada 
Por mais que Dilma tenha mostrado indignação com a decisão da Moody's de rebaixar a nota da Petrobras, ela já havia sido alertada por Graça Foster de que a medida era inevitável.

Boa... 
Empenhado em ter Eduardo Cunha como aliado na negociação do ajuste fiscal, Joaquim Levy está aberto a discutir com ele as considerações que o presidente da Câmara fez sobre a MP que reduz o subsídio para as empresas que não pagam contribuição patronal, por causa da desoneração da folha.

... vizinhança 
O ministro tem dito que acha importante todos estarem bem informados para se posicionar. Por isso a Fazenda já tem prontos estudos sobre o assunto.

Luz do dia 1 
Além de apresentar requerimento para a criação de três sub-relatorias na CPI da Petrobras, o PSDB incluirá o mesmo pedido entre as sugestões que o relator, Luiz Sérgio (PT-RJ), solicitou aos deputados.

Luz do dia 2 
O partido espera que o petista recuse a ideia, mas quer aproveitar o fato para reunir munição e dizer que o relator está travando o andamento das investigações já no início.

Reserva 
Parte da oposição chegou a articular a candidatura de Onyx Lorenzoni (DEM-RS) à presidência da CPI. O PSDB e o próprio DEM atuaram para demovê-lo da ideia para não se indispor com o estratégico PMDB.

Vai ter bolo 
De um parlamentar do PSB sobre a possibilidade de entrada de Marta Suplicy no partido: "Ela faz aniversário em março. A lista da festa vai dizer se o coração dela virou socialista ou se ainda continua petista".com BRUNO BOGHOSSIAN e PAULO GAMA

TIROTEIO

"Não sabia que a Ravenna prescrevia cortar PAC, Fies, Minha Casa Melhor, Pronatec... Só que quem emagrece é o PIB, não a presidente."

DE RODRIGO MAIA (DEM-RJ), deputado federal, ironizando a dieta seguida por Dilma Rousseff, que determinou novos cortes para atingir a meta fiscal.

CONTRAPONTO

Vela para são Pedro

Em sessão na Câmara paulistana, na quinta-feira, o presidente do PT, vereador Paulo Fiorilo, mostrou vídeo de uma comissão extraordinária da Casa em que o engenheiro Nelson Luiz Nucci, ex-diretor de Planejamento da Sabesp, comentou a crise hídrica de 2007.

Segundo o engenheiro, disse Fiorilo, a estatal criou três grupos de trabalho para lidar com o problema: o de comunicação, outro técnico e um "de oração", comandado por Gesner Oliveira, então presidente da estatal.

--E, segundo o próprio professor, o grupo que deu certo foi o de oração! --concluiu o petista.