sábado, maio 03, 2014

Ponto morto - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 03/05

Não há uma crise no setor automobilístico. Aconteceu o previsto. A redução de impostos provocou antecipação de compras e agora as montadoras estão tendo um ano mais fraco. Além disso, a queda é principalmente nas exportações, e dar garantias para que um país em crise cambial importe carros do Brasil é uma insensatez. A decisão sobre isso está suspensa, por enquanto.

O governo já deixou claro que dará benefício às empresas e pressiona os bancos a liberarem mais crédito. Mas a inadimplência dobrou quando as vendas podiam ser feitas em 60 meses sem entrada.

No quarto ano seguido de PIB fraco, o governo está preocupado com o desempenho do setor automobilístico, principalmente porque é ano eleitoral. As vendas caíram 1,68% no primeiro trimestre e a produção recuou 8%, pela perda de fôlego da demanda interna e pelos problemas da Argentina. Com isso, outros setores da economia sentem os efeitos indiretos, como as siderúrgicas, que produzem aço, e os fabricantes de vidro e borracha.

Estimular novamente as vendas, para criar um novo ciclo de crescimento, vai trazer de volta velhos problemas. Não faz muito tempo, a inadimplência da carteira de veículos disparou. Subiu de 3,6%, em março de 2011 (início da nova série do Banco Central), para 7,23%, em junho de 2012. Os bancos e as próprias financeiras ligadas às montadoras se assustaram e fecharam a torneira do crédito. Foi exigido uma entrada maior para a compra do automóvel, e o prazo para o pagamento, que chegou a 60 meses, foi reduzido. As medidas deram resultados e a inadimplência recuou para 5,04%. Ainda alta, mas em queda em relação ao pico.

A pressão do governo para que os bancos aumentem a oferta de crédito não chega em boa hora. Os atrasos de até 90 dias nos pagamentos de veículos deram um salto em março. Subiram de 7,4% para 8,5%. Esse é um indicador antecedente da inadimplência, que passa a ser registrada quando o atraso ultrapassa três meses. Ou seja, mesmo com as regras mais rígidas, há risco de um novo repique à frente.

Os financiamentos de automóveis triplicaram nos últimos cinco anos. O saldo total de crédito concedido com esse objetivo saiu de R$ 60 bilhões, em 2007, para 193 bilhões em 2012. Uma alta de 221%. De lá para cá, entrou em estagnação e caiu para R$ 189 bilhões em março. O que tem incomodado as montadoras é que os novos financiamentos caíram 15% no primeiro trimestre deste ano em relação ao quatro do ano passado. O número foi 8% maior que o do mesmo período de 2013.

As vendas externas de carros caíram 32% no primeiro trimestre deste ano, segundo dados da Anfavea. Em dólares, a redução foi de 15%, com uma redução de receita de US$ 3,4 bilhões para US$ 2,9 bilhões, incluindo veículos e máquinas agrícolas. Com isso, os estoques subiram de 37 dias para 48, o que levou muitas montadoras a darem férias coletivas e adotarem programas de demissão voluntária. O problema é a crise cambial na Argentina e quanto a isso o Brasil nada pode fazer. Até mesmo executivos do setor são céticos de que as negociações entre os dois governos vão resolver o problema. A crise no país vizinho tem raízes profundas.

O número de carros nas ruas subiu muito, nos últimos anos. A venda anual de veículos saltou de 1,3 milhão, em 2002, para 3,6 milhões, em 2013. Quase triplicou. Poucas foram as obras de infraestrutura, nesse período, para melhorar as condições de tráfego e estacionamentos.

O governo já fez amplos pacotes de apoio às montadoras. Aumentou barreiras de importação, reduziu IPI e subsidiou o preço do combustível, por meio da Petrobras. A cada número negativo, a indústria vai a Brasília. Fazer novos pacotes não resolverá o problema do setor nem do baixo crescimento do país.


A diplomacia fantástica e a política da estagnação - ROLF KUNTZ

O Estado de S.Paulo - 03/05

O governo estuda um novo pacote de ajuda às montadoras - mais um de uma longa série. Na Venezuela persiste a escassez de alimentos e até de papel higiênico. Prolonga-se o impasse nas negociações comerciais entre o Mercosul e a União Europeia. Mais do que nunca o Brasil depende da exportação de matérias-primas para o mercado chinês, numa relação semicolonial. A economia brasileira deve crescer entre 2,3% e 2,5% este ano, segundo o governo, ou nem 2%, segundo outras fontes, perdendo o bonde da recuperação global. Todos esses fatos estão estreitamente relacionados. São aspectos e consequências da opção do governo brasileiro, a partir de 2003, pela diplomacia da mediocridade, pelo caminho fácil do mais chinfrim populismo e pelo desfrute político e pessoal da administração pública. A decadência da Petrobrás, rebaixada de empresa a instrumento das fantasias, caprichos e interesses políticos da Presidência da República, também é parte desse filme.

A exportação rendeu às montadoras US$ 2,9 bilhões no primeiro trimestre deste ano, 15,3% menos que de janeiro a março de 2013. Os números foram publicados pela associação das indústrias. A produção de autoveículos foi 8,4% menor que a de um ano antes. Os empresários atribuem os problemas em parte à retração do mercado interno e em parte às dificuldades de embarques para a Argentina, destino de cerca de 80% da exportações brasileiras de veículos.

Há algo obviamente errado nessa dependência. O Brasil importa carros tanto de países avançados quanto de economias emergentes e de industrialização recente, como Coreia, China e Índia. Nenhum desses parceiros emergentes era mais industrializado que o Brasil nos anos 70, mas todos, hoje, produzem marcas próprias, vendem para todo o mundo e até investem por aqui. Sempre muito protegida, a indústria automobilística brasileira ainda se acomodou nos estreitos padrões da diplomacia comercial petista, concentrando suas exportações na vizinhança. Com isso, aceitou uma dependência excessiva do mercado argentino e, portanto, de um dos governos mais incompetentes, mais populistas e menos confiáveis do mundo.

A diplomacia da mediocridade amarrou o Brasil a um Mercosul estagnado, entravado por barreiras comerciais até no interior do bloco, e deu prioridade, na região, a relações com países comandados por governos autoritários. Num desses países, o governo realizou o quase milagre de converter uma das maiores potências petrolíferas numa economia com gravíssimos problemas de abastecimento, inflação acima de 50% ao ano e escassez de dólares.

Sem reservas cambiais, o governo venezuelano recentemente reteve US$ 3,9 bilhões de companhias aéreas estrangeiras. Sem matéria-prima, a indústria Alimentos Polar suspendeu a produção de duas marcas de massas em uma de suas fábricas, segundo informou nesta semana o boletim colombiano Notas Confidenciales, especializado em notícias regionais.

A crise do papel higiênico, um escândalo no ano passado, nunca foi inteiramente superada. Uma estatal desse país, a PDVSA, deveria ter sido parceira da Petrobrás na construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Mais uma vez a fantasia diplomática do presidente Luiz Inácio Lula da Silva resultou em custoso fracasso, perfeitamente compatível com os atrasos de pagamentos a exportadores brasileiros.

Ainda fiel a esse terceiro-mundismo de circo, a presidente Dilma Rousseff seguiu a companheira Cristina Kirchner, em junho de 2012, na manobra para suspender o Paraguai do Mercosul e facilitar o ingresso da Venezuela.

A opção pelo realismo fantástico da diplomacia Sul-Sul, subproduto de um esquerdismo infantil, produziu o primeiro resultado em 2003-2004, quando os presidentes Lula e Kirchner decidiram liquidar o projeto da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Essa decisão condenou o Mercosul a perder o bonde da integração no mercado global, enquanto outros países sul-americanos negociavam acordos com os Estados Unidos e outros mercados desenvolvidos.

Lula e seus grandes conselheiros diplomáticos selecionaram como parceiros estratégicos alguns dos maiores emergentes - China, Rússia, Índia e África do Sul. Os governos desses países jamais incluíram o Brasil entre seus parceiros prioritários. Tinham outros objetivos e sempre se esforçaram muito mais para ampliar o comércio com as maiores economias capitalistas. Sem acesso preferencial ao mundo rico - até porque a Argentina sempre dificultou o acordo com a União Europeia -, o Brasil perdeu espaço no mercado internacional de manufaturados. Passou a depender muito mais do que antes da exportação de produtos primários e facilmente se converteu em fornecedor de matérias-primas para a economia chinesa.

Não há nada errado em exportar matérias-primas. Mas é um erro enorme tornar-se muito dependente desse tipo de exportação enquanto a indústria nacional perde dinamismo, competitividade e participação até em seus principais mercados, como a América do Sul.

A política interna, marcada por uma combinação de populismo, gastança federal, baixo investimento, desleixo com a educação, protecionismo, aparelhamento e loteamento do governo e de suas empresas, tolerância à inflação e desprezo à produtividade, levou a indústria à estagnação e erodiu as contas externas. A economia cresceu em média 2% ao ano entre 2011 e 2013 e talvez nem isso seja alcançado em 2014.

A presidente Dilma Rousseff é apenas parcialmente responsável pelo descalabro. A destruição começou no governo de seu antecessor. A prosperidade internacional puxava o Brasil, ainda restava boa parte dos fundamentos criados nos anos 90 e a demolição era menos visível, mas estava em marcha. Subdesenvolvimento, escreveu Nelson Rodrigues, não se improvisa.

O verde que escraviza - KÁTIA ABREU

FOLHA DE SP - 03/05

A liberdade é inarredável; um paraíso verde, cheio de escravos, é pesadelo com o qual não queremos sonhar 

Todos reconhecem que o Greenpeace é uma das mais ativas organizações políticas do movimento ambientalista internacional. Seu diretor-executivo, o ativista sul-africano Kumi Naidoo, participou recentemente do Global Agribusiness Forum, promovido por entidades do agronegócio do Brasil. 

Seu pensamento, exposto ali e em uma entrevista concedida ao jornal "Valor Econômico", despertou-me reflexões preocupantes. Ele representa o que pensa a comunidade verde na maior parte do mundo. Afinal, a variedade de pontos de vista não é a regra entre os seus devotos. 

Minha preocupação decorre de dois aspectos do discurso do sr. Naidoo. O primeiro é a abordagem do problema da mudança climática. Todos sabemos que, por meio do IPCC --Painel Intergovernamental de Mudanças Climática--, a ONU patrocina amplo esforço científico para avaliar as possíveis mudanças do clima, suas causas e modos para mitigá-las. 

Esse painel reúne milhares de cientistas de todo o mundo e emite relatórios periódicos para fundamentar os debates entre os governos nas Conferências do Clima. 

Questionado sobre esses relatórios, o sr. Naidoo não usou meias palavras. Disse que "o IPCC é fundamentalmente uma organização conservadora" e completou: 

"Os cenários que coloca sobre a mesa não são os piores possíveis. Ou seja, qualquer coisa que o IPCC disser é preciso multiplicar por quatro, para ter um quadro genuíno das ameaças climáticas". 

Os milhares de cientistas integrantes do IPCC, depois de analisarem cerca de 40 mil documentos científicos, têm, portanto, menos autoridade que o sr. Naidoo, que, com a simplificação tão própria da política radical, determina que se multipliquem por quatro todas as conclusões. E com que propósito? Semear o terror e vetar, de vez, a intervenção da razão e da ciência independente

O terror sempre foi a mais perversa das ferramentas políticas. Nesse caso, é também contraproducente, pois acaba impedindo a formação de consensos nas conferências governamentais. A cenografia ambientalista dá mais uma prova de que seu movimento é um fim em si mesmo e não busca soluções. Ruim para todos nós. 

O pior vem em seguida. Mirando o agronegócio brasileiro, ele disse que "as grandes fazendas industriais são menos resistentes aos impactos do clima do que as pequenas culturas ecológicas; que grandes terras tomadas por monoculturas e dependentes de fertilizantes e agrotóxicos não são sustentáveis e que é preciso mudanças radicais e urgentes". 

Mais adiante, o sr. Naidoo afirmou que "a abordagem do setor costuma ser a da monocultura voltada ao mercado de commodities e ao consumo animal" e prosseguiu: "O mal está no tamanho da propriedade, que deve ser pequeno, na especialização produtiva, no uso de adubos e de remédios contra as doenças e pragas e na produção de plantas para consumo de animais". 

Em sua visão peculiar de paraíso agrícola, não existem grandes áreas de produção. Em cada pedaço de terra, planta-se a maior variedade possível e não se produz ração para alimentar bovinos, suínos ou aves, que devem viver ao redor da casa, comendo ervas e insetos. Aliás, era isso o que existia há 50 ou 100 anos, no Brasil e em boa parte do mundo. Comia-se pouco e mal. Será esse o futuro que queremos?

 Se for essa a escolha, como fazer a transformação? O Estado tomaria as terras de seus proprietários para distribuí-las a quem se comprometesse a ser pequeno e não vender sua produção? O Estado decidiria o que produzir, com que sementes e com quais técnicas? 

Pois bem, estou convicta de que pessoas livres para escolher não fariam nada disso. Simplesmente repetiriam o que os agricultores de hoje fazem. 

Na utopia passadista do sr. Naidoo, não há lugar para a liberdade e para o indivíduo. O Estado, em nome da natureza, tudo dirige e controla. É assim que vamos tornar as pessoas mais felizes e o mundo melhor? Liberdade é valor inarredável. 

Um paraíso verde, cheio de escravos, é pesadelo com o qual não queremos sonhar.

Sinal dos tempos - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 03/04
O que ocorreu na comemoração organizada pela CUT no Dia do Trabalho em São Paulo é um sinal dos tempos. Não apenas o braço sindical do PT atraiu menos gente do que a outra comemoração, organizada pela Força Sindical, a central adversária, como os representantes petistas simplesmente foram impedidos de discursar em seu próprio território político.
Mas a rejeição aos petistas não foi fato isolado nos últimos dias. O ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, responsável pelo relacionamento com a sociedade civil, tem sofrido na pele essa rejeição nos encontros que vem mantendo para tentar desmobilizar as manifestações previstas contra a realização da Copa do Mundo.

Em todo lugar a que vai, invariavelmente surge uma faixa com os dizeres Não vai ter Copa para ser pendurada como pano de fundo dos debates. Na sede do Sindicato dos Bancários do Rio, etapa carioca dos Diálogos Governo - Sociedade Civil Copa 2014 , dias atrás, mais uma vez Carvalho sofreu para poder levar aos participantes a palavra do governo.

Foi vaiado, xingado, tentou convencer os jovens revolucionários da plateia de que seu passado também revolucionário faz dele um aliado, e não um adversário, mas não houve jeito. Uma militante fez um gesto com as mãos significando dinheiro que atingiu Carvalho mais do que os berros e apupos. Voz embargada, disse para a militante que tinha patrimônio de R$ 400 mil, e que já havia morado em favelas para ajudar o próximo. Não houve jeito.

Tudo parece dar seguimento às manifestações de junho passado, quando estourou nas ruas, surpreendentemente, um protesto espontâneo contra todos os políticos e governantes, fossem de que origem fossem. Como descrevi na época, os movimentos sociais que se consideravam controladores das manifestações populares, como sindicatos e partidos, surpreenderam-se com o caráter espontâneo daqueles protestos e tentaram retomar o controle das ruas.

Foram tentativas malsucedidas, na medida em que rechaçadas por quem não se considerava representado por eles, e suas passeatas ficaram muito aquém das manifestações espontâneas. Mas a violência dos grupos paramilitares infiltrados e dos black blocs acabou dominando as ruas, expulsando delas a classe média que havia explicitado o descontentamento com os serviços públicos mal prestados, o desperdício do dinheiro público em obras suntuosas e desnecessárias como os estádios padrão Fifa , o combate à corrupção e o descaso governamental com Saúde e Educação, prioridades da cidadania que os manifestantes espontâneos levaram para as ruas sem precisarem de partidos ou organizações para guiá-los.

Esses cidadãos, em boa parte, continuam descontentes, sentindo-se sub-representados, pois nada de concreto foi feito para rever prioridades do governo, a não ser medidas paliativas como vinda de cubanos para solucionar carência de médicos no interior do país, ou aprovação de leis no Congresso que ainda precisam ser confirmadas em novas votações longe da pressão popular.

A situação está tão radicalizada que até mesmo o ex-presidente Lula recentemente se viu obrigado a criticar as manifestações contra a Copa, e o fez com o travo de um velho líder sindical que já não consegue controlar os atos contra uma realização de seu governo, montada para ser o coroamento da campanha de reeleição de Dilma e que se transformou num obstáculo.

Como sempre, fez uma releitura da situação completamente fora da realidade: Vocês imaginam, nesta altura do campeonato, com 68 anos, dos quais 38 fazendo protesto, eu vou ter medo de protesto? A Dilma, com 20 anos a bichinha estava presa, foi torturada, tomou choque para tudo quanto é lado por protestar. Agora ela vai ter medo de protesto? Quem quiser protestar, que proteste , disse o ex-presidente, dando por perdido o controle da situação.

Dessa vez ele tem que ficar do lado da Fifa, e contra os que criticam a falta do padrão Fifa nos serviços públicos. Se a perspectiva para a seleção brasileira na Copa continua sendo boa, apesar da ascensão do futebol da Espanha nos mais recentes torneios internacionais, o mesmo não se pode dizer da organização dos jogos.

Os atrasos nos estádios e as reformas a meia boca nos aeroportos confirmam nossa incapacidade de organização, mesmo o governo tendo tido nada menos que sete anos entre o anúncio da escolha e a realização do evento.

Conexão direta - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 03/05

BRASÍLIA - No seu pronunciamento de 12 minutos sobre o Dia do Trabalho, Dilma Rousseff, flertou com uma possível conexão direta entre o governo e os eleitores, prescindindo do Congresso. Foi já no final de sua fala, ao mencionar a reforma política. Ela lembrou aos brasileiros que havia encaminhado a demanda ao Legislativo no ano passado.

"Sem uma reforma política profunda, que modifique as práticas políticas no nosso país, não teremos condições de construir a sociedade do futuro que todos almejamos. Estou fazendo e farei tudo que estiver ao meu alcance para tornar isso uma realidade", disse Dilma.

Aí ela resvalou numa espécie de bonapartismo oblíquo. "Sem a participação popular não teremos a reforma política que o Brasil exige. Por isso, além da ajuda do Congresso e do Judiciário, preciso do apoio de cada um de vocês". Em resumo, pressionem o Congresso. Até aí, tudo bem. Nada mais positivo do que os cidadãos cobrando o Legislativo.

Mas havia no pronunciamento um tom de "se deputados e senadores não fazem a reforma política, vamos fazê-la nós mesmos". Não é à toa que Dilma concluiu assim: "Temos o principal: coragem e vontade política. E temos um lado: o lado do povo. E quem está ao lado do povo pode até perder algumas batalhas, mas sabe que no final colherá a vitória".

O atraso civilizatório brasileiro fica sempre evidente quando um governante insinua haver atalhos por fora das instituições. Este é um ano eleitoral. Se a reforma política é tão relevante, a presidente e seus aliados podem concentrar parte substancial de suas propagandas na TV sobre o tema. Não farão isso, claro.

A reforma política surgiu na fala de Dilma como uma muleta retórica. Propagou a ideia regressiva segundo a qual "a política e os políticos não prestam" e "quando alguém propõe mudanças, eles não se mexem". Como se o Congresso fosse a fonte de todos os males do país.

"Volta, Lula", o golpe - PLÁCIDO FERNANDES VIEIRA

CORREIO BRAZILIENSE - 03/05
O Brasil vive momento crítico. Com medo de perder a disputa pelo Planalto, um grupo expressivo do PT, da elite econômico-financeira e de políticos da base governista conspira para derrubar a candidatura de Dilma à reeleição. No lugar, querem impor Lula, mais confiável e imbatível, pelo menos no imaginário dessa gente. O que tentam fazer com ela tem nome: é golpe. E esse movimento golpista ganha força e se intensifica à medida que pesquisas se sucedem, apontando recuo nas intenções de voto da presidente.
Sem o traquejo político do sapo barbudo, mas dura na queda, Dilma já avisou: queiram ou não, os insatisfeitos do PT e da base aliada terão que a engolir. Afinal, nas ruas, os sinais indicam que o desencanto popular vai muito além da presidente. Em junho passado, antes de a violência de policiais e de black blocs afastarem o povo comum das manifestações, o que se via era um descontentamento generalizado contra a corrupção e os políticos. Militantes reais ou de aluguel, com bandeiras de qualquer partido, não foram bem-recebidos nos protestos.

Nesta semana, porém, o recado aos petistas foi mais direto e até inimaginável. Em evento da CUT, em São Paulo, trabalhadores não apenas vaiaram, como atiraram latas de cerveja e refrigerante em Haddad, Padilha e Suplicy. Eles deixaram o palanque e foram embora sem conseguir sequer discursar. Quem em sã consciência poderia imaginar um ato dessa natureza em ano eleitoral e em pleno berço petista? São sinais inquietantes para o partido que nasceu e se criou dentro dos sindicatos.

Antes de chegar ao Planalto, o PT só tinha votos entre os trabalhadores mais politizados e a camada mais esclarecida da população. Hoje, a esperança de se manter no poder está ancorada sobretudo no voto dos grotões. Anos atrás, esse eleitorado da parte mais baixa e menos instruída da pirâmide era curral de caciques da direita. Votava em troca de tijolos, cestas básicas, dentaduras e outros mimos distribuídos em tempos de eleição. Com a consolidação da bolsa família, trocou de lado. No mínimo, apostam governistas, esse voto já garante a ida ao segundo turno. Mas a reeleição - mesmo sem Marina como candidata a presidente - já não parece assim tão certa.

Adoção federal - CRISTOVAM BUARQUE

 O GLOBO - 03/05

Quando um município não tem condições de oferecer boa escola, União fecha os olhos


Quando um banco entra em crise, o Banco Central intervém para evitar a falência; quando a segurança de uma cidade entra em crise, o governo federal aciona a Guarda Nacional; quando a saúde fica catastrófica, importam-se médicos; quando uma estrada é destruída por chuva, o governo federal auxilia o estado; mas quando um município não tem condições de oferecer boa escola a suas crianças, o governo federal fecha os olhos, porque isso não é responsabilidade da União. Limita-se a distribuir, por meio do Fundeb, R$ 10,3 bilhões por ano, equivalente a R$ 205 por criança ou R$ 2 a cada dia letivo.

A boa educação de uma criança, assumindo um bom salário para atrair os melhores alunos das universidades para o magistério, em boas e bem equipadas novas escolas, todas em horário integral, custaria R$ 9.500 por ano, por aluno. Das 5.564 cidades brasileiras, a receita orçamentária total não chega a R$ 9.500 por criança em idade escolar. Se considerarmos os gastos fixos e custeios da administração municipal, nenhuma de nossas cidades teria condições de oferecer educação de qualidade a suas crianças.

Para mudar tal panorama, o país tem dois caminhos: deixar que o futuro de nossas crianças dependa de alta renda de sua família ou responsabilizar a União pela educação dos filhos do Brasil.

As cidades que não têm condições de oferecer uma boa educação para seus filhos apelariam ao governo federal e este adotaria as escolas dessas cidades, respeitando todos os acordos federativos, todos os direitos dos municípios, mas também os direitos de todas as crianças do Brasil, independentemente da cidade onde moram.

Antes mesmo de uma Lei de Adoção Federal ser aprovada, quem sabe um ou outro prefeito não toma a iniciativa de ir ao governo federal e dizer: “Presidente, não tenho condições de oferecer a educação que minhas crianças merecem como qualquer criança brasileira. Por isso, peço que o governo federal adote as escolas da minha cidade”.

Para isso, o caminho é uma carreira nacional com elevados salários e elevadas responsabilidades, com estabilidade submetida a avaliações periódicas, em edificações bonitas e confortáveis com os mais modernos equipamentos, em horário integral.

Lamentavelmente nem todos os prefeitos teriam este gesto de responsabilidade para com suas crianças. Muitos vão preferir continuar sem condições de pagar bons salários, enfrentando greves periódicas que terminam com mínimos aumentos de salários e imensas perdas pedagógicas. Mas, se de repente, muitos despertassem e colocassem os interesses de suas crianças acima de tudo, o governo federal poderia definir critérios para selecionar aos poucos as cidades que seriam adotadas.

Na medida em que este caminho fosse dando certo, em 20 ou 30 anos veríamos todas as crianças brasileiras serem tratadas como brasileiras, em vez de municipais, como hoje. O país teria um sistema de qualidade e com qualidade igual na educação de suas crianças, quebrando o muro do atraso e o muro da desigualdade que nos caracterizam.

O populismo eleitoreiro entra em ação - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 03/05

Presidente e PT demonstram que farão tudo para reverter clima de mau humor no país de que as vaias de militantes da CUT a lideranças do partido são um sintoma


Este foi um 1º de Maio de dissabores para o PT, algo impensável não muito tempo atrás. Nunca se poderia profetizar, em sã consciência, que, em um comício da CUT, braço sindical do partido, no Dia do Trabalho, lideranças petistas seriam vaiadas e impedidas de falar. O veto, digamos, popular atingiu o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, setorista de “movimentos sociais”, o novo ministro de Relações Institucionais, Ricardo Berzoini, o próprio prefeito Fernando Haddad e o pré-candidato ao Palácio dos Bandeirantes Alexandre Padilha.

O fato, ocorrido no Vale do Anhangabaú, na capital paulista, faz recordar algumas manifestações, em junho do ano passado, que mantiveram militantes de partidos à distância, entre eles os do PT, até então os “donos das ruas”.

Sinal de que há mesmo um clima de mau humor generalizado. A origem pode ser difusa — inflação, corrupção, escassas perspectivas de melhoria —, mas o alvo, ou um deles, são o governo Dilma e o PT.

O que aconteceu quinta-feira no comício da CUT é mais importante que a circunstância de a Força Sindical ter aberto palanque, também no Dia do Trabalho em São Paulo, para os candidatos de oposição Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). Afinal, o deputado Paulo Pereira da Silva (Solidariedade-SP), líder da central sindical, se notabiliza por cultivar alto senso de oportunidade diante de alterações nos ventos da política. Foi aliado de FH com a mesma fidelidade com que seguiu Lula e, até há pouco tempo, Dilma.

Prestes a completar 12 anos de poder em Brasília, o PT é acometido de algum tipo de fadiga de material que leva à irritação até mesmo militantes da CUT. No aspecto político-eleitoral, as duas manifestações sindicais no 1º de Maio foram um teste de popularidade negativo para o pacote de bondades populistas desembrulhado pela presidente na noite anterior, no pronunciamento à nação em rede nacional, por ocasião do Dia do Trabalho, indevidamente transformado em palanque da candidata à reeleição.

Se havia dúvidas de que Dilma e PT estariam dispostos a explorar o caminho do populismo para tentar uma reeleição a qualquer custo — mesmo o da desestabilização do início do seu segundo governo e até do final do atual mandato —, elas acabaram na noite de quarta-feira. Os anunciados reajustes do Bolsa Família (10%) e da tabela do Imposto de Renda da pessoa física (4,5%) somarão mais R$ 9 bilhões na conta dos gastos públicos até o final do ano que vem.

Em queda nas pesquisas eleitorais — mas ainda favorita —, a presidente Dilma luta em várias frentes. Inclusive, internas, pois também precisa esvaziar o movimento “Volta, Lula” dentro do PT e legendas aliadas.

Para isso, deverá contar com a ajuda do próprio Lula. Já quanto ao eleitorado, ela começou, infelizmente, a colocar o Tesouro Nacional a serviço da campanha, a fim de atraí-lo.

Contas maquiadas, de novo - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 03/05

Começou mais cedo neste ano a maquiagem das contas públicas, truque usado de forma cada vez mais escancarada pelas autoridades federais. Para fechar o balanço de março com superávit primário de R$ 3,12 bilhões, o governo central contabilizou R$ 2,99 bilhões de dividendos e R$ 10,5 milhões de receitas de concessões, além de R$ 2,4 bilhões da taxa de fiscalização da Anatel. Sem os dois primeiros componentes da maquiagem, o resultado primário - antes do pagamento de juros - teria sido praticamente nulo. Sem o terceiro, teria ficado no vermelho. O truque serviu também para tornar menos feios os números do primeiro trimestre, mas ainda foi insuficiente para ocultar a degradação das finanças federais.

As contas oficiais do governo central mostram um superávit primário de R$ 13,05 bilhões acumulado de janeiro a março. Esse resultado, 34,63% menor que o do primeiro trimestre do ano passado, já bastaria para mostrar o agravamento de um quadro fiscal já muito ruim em 2013. Mas o cenário real é ainda mais preocupante.

Isso fica evidente quando se eliminam do cálculo as receitas extraordinárias. Só de dividendos o Tesouro acumulou nos primeiros três meses R$ 5,89 bilhões. Esse valor é 667,6% maior que o registrado entre janeiro e março de 2013. Essa diferença basta para denunciar o truque. A receita de concessões, de R$ 765,3 milhões, foi 152,4% maior que a de igual período de 2013. A soma dos dois itens (R$ 6,65 bilhões) equivale a 51% do resultado primário contabilizado para o governo central - Tesouro, Previdência e Banco Central (BC).

A piora das contas federais ocorreu apesar do aumento da arrecadação. A receita total do trimestre, de R$ 305,94 bilhões, foi 11,8% superior à de um ano antes. A receita líquida - depois das transferências a Estados e municípios - chegou a R$ 248,33 bilhões e ficou 10,6% acima da contabilizada no trimestre inicial de 2013. Mas o aumento das despesas chegou a 15,1%. A folha de salários e encargos consumiu R$ 5,71 bilhões a mais que no ano anterior, com expansão de 12,3%. À Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) foram destinados R$ 2,77 bilhões, para cobertura parcial dos custos da desastrosa política de tarifas adotada pela presidente Dilma Rousseff. Nos primeiros três meses de 2013 nenhum centavo havia sido gasto com essa conta. O total aplicado no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), R$ 15,45 bilhões, foi 56,8% superior ao dos primeiros três meses do ano anterior. Mas a diferença, de R$ 5,6 bilhões, foi menor que o aumento da folha de pessoal.

As contas consolidadas do setor público, divulgadas pelo BC, também continuam em mau estado. O resultado primário do governo central, dos governos de Estados e municípios e das estatais chegou a R$ 25,63 bilhões no primeiro trimestre. O acumulado em 12 meses, de R$ 86,22 bilhões, correspondeu a 1,75% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado. A meta do ano é um superávit primário equivalente a 1,9% do PIB. Esse resultado, a julgar pelos números conhecidos até agora, dependerá de mais arranjos contábeis.

Os cálculos do BC, baseados nas necessidades de financiamento do setor público, produzem números ligeiramente diferentes daqueles divulgados pelo Tesouro. Pelos valores consolidados, o superávit primário do governo central, de R$ 12,32 bilhões, correspondeu a apenas 44% da meta fixada para o primeiro quadrimestre, de R$ 28 bilhões. Para atingir essa meta o governo central teria de conseguir só em abril um saldo primário de R$ 15,68 bilhões. O resultado consolidado do primeiro trimestre foi parcialmente salvo pelos governos estaduais e municipais, com superávit de R$ 13,19 bilhões, quase igual ao de um ano antes e superior, em 2014, ao do governo central.

O secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, prometeu um resultado bem melhor em abril. Mas números melhores num ou noutro mês fazem pouca diferença. Para deter a indisfarçável deterioração das contas públicas, o governo teria de mudar sua política, agir com responsabilidade e aumentar drasticamente sua eficiência. Para isso, teria de violar os padrões de governo consolidados em mais de uma década.

Social, não étnico - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 03/05
Cotas raciais perdem força nos Estados Unidos, mas ganham no Brasil, onde o problema no fundo é a má qualidade do ensino básico
Decisão recente da Suprema Corte americana validou o referendo no qual os eleitores de Michigan baniram, em 2006, o critério racial na admissão às universidades públicas daquele Estado.
Ganha ímpeto, assim, um processo de reversão histórica no próprio país onde as políticas de compensação racial surgiram, há meio século. Outros sete Estados também vedaram o critério racial, e a lista deve aumentar com a deliberação da Suprema Corte.

Nos Estados Unidos, a maioria branca expressa seu inconformismo com a contra-discriminação imposta pelas cotas raciais. No Brasil, a profunda miscigenação --um fato demográfico-- impõe objeções de outra ordem a essa política compensatória.

Pois seria difícil contestar a conveniência de alguma política compensatória, que acelere a correção da enorme distância competitiva numa sociedade tão desigual como a brasileira.

Mas tal exceção à prevalência do mérito deve ser provisória, enquanto não melhora a qualidade do ensino público oferecido a crianças e adolescentes. E deveria obedecer a critérios sociais, beneficiando egressos das escolas públicas ou alunos com menor renda familiar.

O critério racial introduz um fator politicamente explosivo, além de duvidoso em si, propício a estigmas e mistificações emocionais.

Ao contrário dos Estados Unidos, onde sua aplicação prática parece viável, num país como o Brasil, onde metade da população não é "branca" nem "negra", tal critério cria problemas, em vez de resolvê-los. Como coibir fraudes, por exemplo, se não estabelecendo odiosos tribunais raciais?

Desde 2012, vigora a Lei das Cotas, que estipula critérios mistos, sociais e raciais, para preencher metade das vagas oferecidas pelas universidades federais. Tramita no Senado projeto do governo que reserva 20% das vagas nos concursos federais a afrodescendentes. Leis semelhantes já vigem em diversos Estados e municípios.

A aspiração de mitigar a desigualdade de acesso a melhores condições de vida é legítima, como reconheceu o Supremo tribunal Federal quando decidiu que as cotas não violam o princípio constitucional da igualdade perante a lei.

Mas exceções ao princípio do mérito tendem a prejudicar o desempenho das instituições que as praticam. Implicam alguma injustiça; no caso das cotas raciais, "brancos" pobres são especialmente lesados.

Cotas sociais compensam os estratos étnicos discriminados, na medida em que eles se concentram nas faixas de renda menor. Mas são ações paliativas, enquanto não se enfrenta o problema maior, que é a má qualidade do ensino público fundamental.

Privilégios na Papuda - EDITORIAL GAZETA DO POVO

GAZETA DO POVO - 03/05

Não é justo que José Dirceu goze de regalias atípicas nas nossas prisões e os outros detentos não contem com o mesmo tratamento



É possível que o leitor já tenha visto imagens do interior de penitenciárias suecas, norueguesas ou dinamarquesas. E deve ter concluído que se assemelham a hotéis estrelados, tais os sinais de limpeza, ordem, conforto, segurança que se vê nos corredores de chão brilhante e nos confortos – fogão, geladeira, televisores – proporcionados aos presos confinados em celas individuais. Diante dessas imagens, torna-se chocante a comparação com o que vemos nos presídios brasileiros – depósitos fétidos onde os detentos são amontoados em número muito maior do que o espaço disponível e onde proliferam violência e doenças. São escolas de banditismo, alimentadas didaticamente pela revolta.

Não há dúvida de que as prisões dos evoluídos países escandinavos cumprem melhor sua função: respeitam os direitos humanos dos detentos, mas lhes suprimem a liberdade ao mesmo tempo em que protegem a sociedade do perigoso convívio com eles. Os índices de reincidência são insignificantes – muito ao contrário do que ocorre no Brasil, em que o retorno à vida livre invariavelmente significa a volta com métodos aprimorados à prática dos mesmos (ou mais sofisticados) crimes. Recorra-se ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo – cujo cargo lhe dá a responsabilidade de cuidar do sistema prisional – para lembrarmos que os presídios nacionais ainda se assemelham às masmorras medievais.

Tudo isso para falar da polêmica instalada no país há poucos dias quando se descobriu que o mensaleiro José Dirceu, confinado na Penitenciária da Papuda (DF) na companhia de colegas condenados pelo STF, goza de privilégios com que os demais habitantes compulsórios do complexo não contam. Sua cela, individual, está equipada com aparatos que os vizinhos não têm, como televisor de tela plana, forno de micro-ondas, cama mais confortável, chuveiro quente... Mais: recebe visitas em horários não estabelecidos pela disciplina interna e, segundo consta, tem acesso também a telefones celulares.

Claro, os privilégios concedidos a José Dirceu o diferenciam dos demais presos que, compreensivelmente, reclamam. A Justiça se preocupa e até mesmo uma comissão parlamentar pluripartidária foi à Papuda verificar se as denúncias eram verdadeiras. Alguns deputados não notaram anormalidade alguma, outros ficaram escandalizados com a diferença de tratamento.

É exatamente nessa diferença entre as opiniões manifestadas pelos ilustres visitantes que reside a grande questão: isonomia! É evidente que não é necessário impor a José Dirceu, a Genoino ou a Delúbio os sofrimentos medievais de que falou o ministro, mas também não é justo que os outros detentos não contem com o mesmo tratamento. Não pode haver, muito menos nas prisões, pessoas mais iguais que as outras.

O que desde logo nos leva a entender que os extremos devem ser combatidos. Assim como não é justo – por configurar privilégio concedido a um “mais igual” – que o mensaleiro José Dirceu goze de regalias atípicas nas nossas prisões enquanto outros sejam tratados de modos e formas que os situam muito abaixo da linha que divide o mundo entre humanos e animais. Requer-se um mínimo de isonomia e para alcançá-la é mais prioritário que se melhorem as condições gerais de todo o sistema prisional brasileiro

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Não consigo ver Eduardo como adversário”
Aécio Neves, presidenciável do PSDB, sobre o rival do PSB, Eduardo Campos



DILMA BARRA GILBERTO CARVALHO EM SEU GABINETE

A presidente Dilma meteu o ministro Gilberto Carvalho em seu frigobar: já não o recebe há exatos 17 dias. O “gelo” coincide com o crescimento do movimento “Volta, Lula”, e essa atitude não é represália ao secretário-geral do Planalto, mas a seu padrinho. É que Lula tem mandado Carvalho negar sua eventual candidatura este ano, e Dilma sempre achou que o próprio ex-presidente é quem deveria desmenti-la.

MINISTRO DE RECADOS

Indicado por Lula, Gilberto Carvalho tem o papel de repassar a Dilma os recados, os pedidos e as recomendações do ex-presidente.

MISSÃO DIFÍCIL

Na crise do “Volta, Lula”, Gilberto Carvalho virou “algodão entre cristais”, tentando preservar as relações entre Dilma e o ex-presidente.

VAIA HISTÓRICA

Não tem sido fácil a vida do ministro Gilberto Carvalho: hostilizado por Dilma, ele encarou a gigantesca vaia no 1º de Maio para defendê-la.

HOSTILIDADES

Outros muito próximos amigos de Lula, como o rico fazendeiro José Carlos Bumlai, seriam alvo de hostilidades do governo Dilma.

GAÚCHA PODE DELATAR NA SUÍÇA A MÁFIA NO BRASIL

A gaúcha Maria de Fátima Stocker da Silva, 41, presa há dias na Espanha e ex-“gerente financeira” da máfia italiana ‘Ndrangheta na Basiléia, na Suíça, poderá aceitar delação premiada para explicar o contrabando de duas toneladas mensais de cocaína em portos do Brasil. Em 2003, ela abriu uma empresa de fachada para lavar a grana em imóveis, e pagava “cash” aos chefões do tráfico no Peru e na Bolívia.

É A IDADE

Ao contrário de Delúbio Soares, que ri à toa, José Genoino, que foi magro, entrou na Papuda sem disfarçar proeminente barriguinha.

EFEITO CERVERÓ

Nelson Trad (PMDB) acha que tomou do senador Delcídio Amaral (PT) a condição de favorito, em Campo Grande.

NÃO ESTÁ AGRADANDO

No Fórum de Comandatuba, o empresariado parecia tão furioso com Dilma quanto a multidão de trabalhadores que a vaiou, no 1º de Maio.

DE NOVO, NÃO

Advogados de Alberto Youssef procuraram o deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), que prendeu o doleiro em 2001 e atuou em sua delação premiada, para pedir nova intermediação.

O comunista refutou.

PAPO PAPUDA

Com a prisão de Genoino, a ex-ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos) descobriu no Twitter que “parte” da população carcerária é discricionada” em seus direitos, como o ex-ministro José Dirceu.

PÉ NA BUNDA

A Fifa do secretário-geral Jerôme Valcke já faz por merecer um pé na bunda: é grande a aflição de estrangeiros, às vésperas de viajar ao Brasil, com a falta de informações oficiais no site da entidade.

ESPERNEANDO

O ex-senador Gerson Camata está indócil com a decisão de Paulo Hartung (PMDB-ES) de disputar o governo, o que inviabilizou sua candidatura como vice do governador Renato Casagrande (PSB).

SAIU DA TOCA

O governador Jaques Wagner (PT-BA) ficou visivelmente incomodado com a desenvoltura e as críticas de Aécio Neves no Fórum Empresarial de Comandatuba, na Bahia. Para aliados, ele “finalmente saiu da toca”.

MENSALEIRO FUJÃO

O processo de extradição do mensaleiro Henrique Pizzolato já tem data para ser julgado: 5 de junho. Também cidadão italiano, ele se mandou para escapar da pena de 12 anos e 7 meses pelo mensalão.

NA GAVETA HÁ 90 DIAS

Líder do PSD, Moreira Mendes (RO) exigirá que o presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB), designe os membros da CPI dos Precatórios no TRT de Rondônia. PSDB, DEM, PT, PR, PV e PSC até agora não indicaram nomes para a comissão começar a funcionar.

CALADO, ELE É UM POETA

Pelé, que ultimamente não dá uma dentro, minimizou o ato racista sofrido pelo jogador Daniel Alves. O “rei” considerou “banal” o fato de jogarem banana contra o atleta: “No meu tempo, jogavam jaca”.

PENSANDO BEM...

...foi emblemático o “desembarque” na Papuda do ex-presidente do Partido dos Trabalhadores, José Genoino, no Dia do Trabalho.


PODER SEM PUDOR

SÓ À VISTA

Recém-empossado prefeito de Juazeiro do Norte (CE), Mozart Cardoso interessou-se por um enorme terreno da diocese local. Foi ao Crato falar com dom Vicente de Araújo e garantiu que, quando recebesse a escritura, pagaria à vista. O bispo fechou a negociação na hora. O deputado Adauto Bezerra ficou alarmado e cochichou ao ouvido de Mozart:

- Pelo amor de Deus, prefeito, o senhor sabe que o município não tem dinheiro para pagar tudo isso à vista...

- Não se preocupe. Eu vou juntando, vou juntando, e assim que tiver com todo o dinheiro, eu pago à vista...

sexta-feira, maio 02, 2014

‘Vive la France’ - MONICA BAUMGARTEN DE BOLLE

O GLOBO - 02/04

Brasil enfrenta o estrangulamento econômico provocado por políticas desajustadas que soltaram as rédeas da inflação


Por que o livro de um jovem economista francês provocou tamanho rebuliço na imprensa e nos centros globais de poder? Como Thomas Piketty e seu “Capital no Século XXI” conseguiram seduzir Obama e a comunidade internacional, fazendo do livro um dos mais citados no Google, esgotando a tiragem da Amazon? Economistas laureados dos dois lados do espectro ideológico, gente da estatura do clássico Robert Solow e do keynesiano Paul Krugman, escreveram fartas e elogiosas resenhas sobre a obra de Piketty. De onde vem a inusitada exaltação, inimaginável no Brasil dividido que não enxerga mérito em argumentos contrários à visão de quem os contesta? O próprio autor fornece a resposta. Para os amantes da literatura do século XIX, para os leitores de Balzac e Zola, ficando apenas com os naturalistas franceses conterrâneos de Piketty, o interesse não é surpresa. Afinal, há tema mais engagé e empolgante, assunto que arrebata o leitor e que o arrasta pelas entranhas, do que o maniqueísmo atrelado a uma boa discussão sobre a desigualdade da riqueza?

A miséria dos trabalhadores das minas francesas retratada em “Germinal”, a luta ingrata do homem de classe média pela glória e pela fama, imortalizada no Lucien Chardon de “Ilusões perdidas”. O desespero de milhões de desempregados no mundo pós-crise, os jovens desalentados, aqueles que jamais tornar-se-ão os futuros Tim Cook da Apple. A desconstrução do american dream, minuciosamente documentada nos dados levantados por Piketty e seus coautores, eis a fórmula do sucesso, assim é que se faz um best-seller de economia. Um best-seller realista, na melhor tradição literária do século XIX, livro que fala do quadro de baixo crescimento global resultante da crise, quadro esse que conosco permanecerá. Obra que aborda sem rodeios o tema das grandes fortunas construídas no período de maior euforia dos mercados, estoque que não é desgastado pela economia global modorrenta, muito pelo contrário.

A tese central de Piketty é simples: quando a remuneração da riqueza (do “capital”) excede o crescimento econômico, a desigualdade aumenta, os ricos ficam mais ricos, a classe média e os menos abastados ficam para trás. Na melhor das hipóteses, permanecem estagnados. A descoberta parece óbvia e é isso que tanto a favorece. Como outras grandes descobertas, sua força reside precisamente em não ter sido vista antes, embora estivesse em ampla evidência. É a obviedade no melhor sentido do termo, aquela que tem profundidade. Infelizmente, aqui nas nossas bandas do Sul, a força do argumento foi ignorada pelos opinativos de sempre para que se pudesse desmantelá-lo de forma superficial. Não, a recomendação de instituir um imposto sobre o capital que a tantos deixou de cabelo em pé não é o ponto alto do livro, está longe de ser a maior contribuição da obra de Piketty.

Interessante mesmo é a regularidade empírica por ele desvelada, essa de que, quando as economias crescem pouco, os mais abastados é que se saem bem. Corolário disso é que, tudo mais constante, a remuneração da riqueza é tanto maior quanto menor for a inflação, quanto mais achatados forem os salários. Afinal, não há inflação sem pressão salarial, a conhecida espiral salários-preços. Quando há deflação, o efeito das quedas de preço sobre a riqueza é ainda mais forte. Pensem no Japão, cuja evolução do estoque de riqueza mais do que compensa a falta de crescimento das últimas décadas.

A deflação, ou a perspectiva de uma inflação persistentemente baixa, assombra o mundo. O debate macroeconômico nos EUA, na Europa, no Japão, no Reino Unido, está, em maior ou menor grau, influenciado por isso. A inflação é um bicho esquisito. Quando é baixa demais, aumenta a desigualdade num torvelinho vicioso; quando alta demais, também. Enquanto o mundo se engalfinha com o aumento da desigualdade associado à falta de crescimento e à estagnação dos salários, o Brasil enfrenta o estrangulamento econômico provocado por políticas desajustadas que soltaram as rédeas da inflação. O dilema brasileiro pode parecer o oposto do desafio mundial, mas leva ao mesmo lugar: o aumento da disparidade da renda — no caso, proveniente da corrosão dos rendimentos da classe média pela alta excessiva dos preços.

No Brasil, dizem que “a inflação é o âmago do debate”. Frase brilhante não fosse ela a expressão da mais rasteira obviedade. A inflação é sempre o âmago do debate, não só no Brasil. Os contornos do debate brasileiro são apenas diferentes, nem mais, nem menos importantes por isso. Que a inflação brasileira é resultado de políticas mal concebidas e de estratégias torpes não se discute. Ou melhor, discute-se à exaustão, o que dá no mesmo. Como debelá-la, salientando para a população em geral que esse é o desafio para reduzir a desigualdade e dar novo impulso ao processo de inclusão social, eis a tarefa dos presidenciáveis, esses que, até agora, preferem apenas apontar o dedo. O maniqueísmo é mais fácil, além de render boas manchetes para os jornais.

O livro instigante de Thomas Piketty prenuncia o advento de sociedades movidas, sobretudo, pelas fortunas herdadas, a débâcle da meritocracia. Escreve Balzac em “Ilusões perdidas”: "Por isso, quanto mais medíocre é alguém, mais depressa sobe; pode resignar-se a tudo, bajular as paixõezinhas baixas (...)”.

É o retrato desse Brasil brasileiro, tão século XIX.

O avestruz num mundo em transformação - PEDRO DA MOTTA VEIGA E SANDRA POLÓNIA RIOS

O Estado de S.Paulo - 02/05

As tendências que ganham força no quadro econômico e político internacional apontam para um cenário muito diverso da bonança que tanto beneficiou o Brasil na primeira década do século. Independentemente dos contornos precisos que o cenário global adquirirá nos próximos anos, as margens de manobra de um país com as características do Brasil serão, daqui até pelo menos o fim dos anos 10, muito mais estreitas do que as vigentes no período anterior à eclosão da crise.

Já há a percepção difusa da emergência de um mundo marcado por mais riscos do que oportunidades para o Brasil. As preocupações com o "isolamento" internacional da economia brasileira e as críticas ao atrelamento das posições brasileiras em negociações comerciais às preferências argentinas são expressões dessa percepção. Mas, em geral, a percepção de riscos e ameaças é genérica e com frequência "transborda" para visões quase apocalípticas do futuro que nos espera num mundo mais hostil.

Não é para tanto, mas o que vem por aí é, de fato, preocupante. Senão vejamos.

Não se esperem mais da China os bônus gerados por espantosas taxas de crescimento e pela disparada dos preços de commodities. A China em transição para um modelo de crescimento baseado mais no consumo doméstico do que em investimentos e exportações continuará a demandar as commodities exportadas pelo Brasil - provavelmente mais as agropecuárias que as minerais -, mas crescerá menos e não produzirá o choque externo positivo que nos proporcionou na primeira década do século.

Mesmo com taxas anuais que serão uma fração (minoritária) daquelas observadas há menos de dez anos, o crescimento da China continuará a ser uma estrela de primeira grandeza num mundo marcado pelo baixo crescimento. Este já está contratado para os próximos anos na União Europeia e seria irrealista esperar uma vigorosa recuperação dos EUA no curto prazo.

De seu lado, o vigoroso crescimento dos emergentes esbarrou em limites estruturais e em obstáculos políticos. Nesse processo, percebeu-se que o tal crescimento vigoroso dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) foi um fenômeno principalmente chinês. À exceção da China, o principal desafio dos Brics é a volta ao crescimento sustentado nos próximos anos, o que supõe o enfrentamento de uma agenda de reformas domésticas econômica e politicamente complicada. Difícil imaginar que esses países (exceção feita à China, mais uma vez) venham a dar, nos próximos anos, contribuição muito relevante para o crescimento global.

Não bastassem essas evoluções, as negociações comerciais preferenciais - quase um anátema para a política externa brasileira, quando não se trata de Mercosul e congêneres - voltaram à agenda dos principais atores da economia internacional. A China tece gradualmente sua rede de acordos, principalmente na Ásia e na América do Sul, mas a principal novidade, aqui, é a negociação dos acordos ditos megarregionais - o TPP, envolvendo os EUA e diversos países da Ásia-Pacífico; e o TTIP, envolvendo EUA e União Europeia.

Como o foco principal dessas negociações são regras e disciplinas aplicáveis a um grande número de temas, há a preocupação - não de todo injustificada, mas certamente exagerada - de que países que não participam das negociações estarão virtualmente excluídos dos grandes mercados do mundo.

Ainda que a conclusão desses acordos possa ser mais difícil do que fazem crer seus patrocinadores, há um forte movimento na direção da convergência de regras comerciais, que moldará crescentemente os fluxos de comércio de bens e serviços. Essa convergência tem motivações econômicas, mas também segue lógica geopolítica, que vem ganhando peso depois da intervenção russa na Ucrânia.

Diante dessas evoluções, o governo brasileiro tem adotado a postura do avestruz e torce para que alguma "força maior" detenha as mudanças em curso no mundo. O Brasil não aproveitou o período de bonança para se preparar para tempos mais difíceis. Ante o novo cenário, o País estará diante da alternativa de (mais uma vez) se proteger de um mundo pouco amigável com políticas de isolamento ou de adotar políticas ativas de revisão e modernização de suas relações econômicas internacionais.

China, uma nova corrida do ouro - LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

FOLHA DE S. PAULO - 02/05

A empresa que não obtiver participação importante no mercado chinês terá dificuldade para sobreviver


A China está entrando em nova fase em sua já longa marcha em direção a se tornar a maior economia do planeta Terra. Do ponto de vista meramente estatístico, isso deve ocorrer neste ano, se usarmos a metodologia do PPP para o cálculo do PIB, como estima projeto coordenado pelo Banco Mundial.

Mas ter o PIB maior do que o dos Estados Unidos não esconde o fato de que a China ainda é um país subdesenvolvido, para usar uma expressão que praticamente caiu em desuso.

O que mais surpreende nessa caminhada de um país paupérrimo --submetido ao regime político desumano e irracional sob o comando de Mao Tse-tung, apenas superado nesses quesitos pelos anos Stálin na Rússia-- em direção a um estágio superior de desenvolvimento econômico e social é a eficiência de seu planejamento estatal.

Nesses 30 anos de experiência de uma sociedade dirigida com mãos de ferro pelo Estado, mas com uma economia com tintas cada vez mais fortes de capitalismo, a vida do chinês comum mudou e mudou muito.

Sou testemunha ocular dessas mudanças, pois estive na China por duas vezes no início das reformas de Deng Xiaoping e voltei várias vezes nos últimos três anos.

Um exemplo incrível foi o desaparecimento das bicicletas das ruas de Pequim e sua substituição por modernos automóveis que circulam nos oito anéis, com mais de 800 quilômetros de extensão, que envol- vem a cidade.

Outra mostra visível --e que choca quem conheceu a velha China dos trajes azuis e iguais de algodão vagabundo de 30 anos atrás-- são os hábitos de consumo da juventude chinesa na parte do país que está integrada à economia de mercado. São 500 milhões de cidadãos que vivem hoje no que os economistas chamam de economia formal, com emprego e salários em expansão.

Em 2012, os salários cresceram em média 8% em termos reais e foram criados mais de 13 milhões de empregos formais, acelerando o caminho para criar o maior mercado consumidor do mundo por volta do fim desta década.

E é justamente esse fato que chamei, na abertura desta coluna, de a nova corrida do ouro para o capitalismo mundial. Nos próximos anos, a China será de longe o maior centro de consumo do mundo. Por volta de 2021, os números chineses vão moldar uma nova rodada da globalização da economia mundial.

Para ser verdadeiramente global, com todas as suas vantagens do ponto de vista da produtividade e rentabilidade, a empresa transnacional de hoje terá que ter uma participação importante na China. Aquelas que não conseguirem chegar a essa situação vão ter muitas dificuldades para sobreviver.

Dou um exemplo dessa afirmação: as montadoras de automóveis. Em 2021 o mercado chinês de veículos será no mínimo 70% maior do que o americano e quase o dobro do europeu. Nessa situação, sem uma parcela desse mercado, as empresas globais de automóveis terão que amortizar seus investimentos, em inovações e novos produtos, em um volume bem menor de produção.

Por uma simples conta de dividir, o leitor pode concluir que seus custos serão maiores do que seus competidores com acesso ao mercado chinês e, portanto, ficarão em situação mais frágil do ponto de vista econômico e financeiro.

Outro exemplo é o da indústria de telecomunicações e internet. Os gigantes Huawei e a Alibaba já dominam os mercados mundiais em termos de venda a valor adicionado.

Essa nova arma nas mãos dos planejadores chineses certamente vai ajudar nos próximos anos a transformar a China em um país extremamente poderoso. Certamente vamos assistir a mudanças importantes na forma como as multinacionais têm acesso ao mercado consumidor na China, em associação com capitais estatais ou privados chineses.

As restrições ao investimentos estrangeiro vão ser mais rígidas, e as empresas chinesas do setor automotivo vão passar por um violento processo de consolidação. Como resultado, vamos ter o aparecimento de ao menos dois ou três gigantes, com a produção anual de pelo menos 5 milhões de veículos.

Pelo menos para os analistas que, como eu, não acreditam no colapso do chamado modelo chinês na próxima década.

Um debate instigante - MONICA BAUMGARTEN DE BOLLE

O Estado de S.Paulo - 02/04

Não se trata do velho marxismo travestido de sei-lá-o-quê como acusam os opinativos de plantão, muitos dos quais nem sequer leram Capital no Século XXI de Thomas Piketty. O livro que explodiu na imprensa recebeu as mais formidáveis resenhas de gente renomada de vários matizes ideológicos - quando me refiro a gente renomada, falo de economistas vencedores do Nobel - e se tornou um dos maiores sucessos de venda na Amazon. Uma compilação extraordinária de dados, impostos sobre a riqueza que abrangem mais de três séculos. Compilação que desvelou regularidades empíricas capazes de transformar a maneira como pensamos sobre desigualdade e distribuição de renda.

A taxação sobre o capital sugerida por Piketty no final do livro, o foco enraivecido dos que não prestaram atenção na força dos argumentos contidos nos 75% restantes da obra, não é o principal. Sim, é uma proposta política atraente para certos líderes mundiais, suscita reações inflamadas dos conservadores de sempre. Mas não é o âmago do debate. A descoberta instigante, o ponto que pode transformar o modo como hoje se pensam as políticas públicas e o ensino de economia é a constatação tão rica, tão simples: quando as economias crescem pouco, os ricos, em particular, os mais abastados entre os mais abastados, são os que se saem bem. Tem mais: o mundo sempre foi assim, desde o século 18 e ao longo de todo o século 19 com uma breve interrupção durante a Grande Depressão no século 20 e outra mais longa no pós-guerra, no período compreendido entre 1945 e meados dos anos 1970.

A Grande Depressão e as duas guerras mundiais foram épocas de grande destruição de riqueza. Por isso, argumenta Piketty, passamos por um período em que, ao contrário dos séculos e décadas anteriores, a remuneração da riqueza não superou o crescimento econômico e, sim, o contrário. Ocorre que, hoje, com o aumento brutal do desemprego no mundo, o desalento dos jovens, o achatamento dos salários e a perspectiva de que o crescimento não volte a ser o que foi na primeira década do século 21. Estamos retornando ao padrão histórico em que os ricos ficam mais ricos e a classe média e os mais pobres vão ficando para trás. É o retorno do velho capitalismo patrimonial que inspirou o naturalismo francês, o retrato dos mineiros destituídos de Émile Zola em seu extraordinário Germinal, o sofrimento do homem de classe média encarnado pelo Lucien Chardon de Balzac em Ilusões Perdidas.

E não é só isso. As sementes da teoria econômica moderna, dos modelos de crescimento que se desenvolveram a partir dos trabalhos de Robert Solow à revolução das expectativas racionais de Robert Lucas, Thomas Sargent, Edmund Phelps, entre outros, nasceram no período do pós-guerra, o auge da ascensão da classe média nos EUA. Não é à toa que, por tanto tempo, a desigualdade e a distribuição de renda tornaram-se temas secundários no estudo de economia. Piketty acaba de nos mostrar o equívoco. O período do pós-guerra foi uma exceção; a regra não é o crescimento econômico superar a remuneração da riqueza e, sim, o contrário. O fato inquietante que a obra revela é que já estamos vivendo a inversão dessas variáveis: a remuneração da riqueza já voltou a subir mais rapidamente do que o crescimento, sobretudo nos países desenvolvidos. O resultado tem sido o aumento da desigualdade e o encolhimento da classe média, como é hoje nos EUA. Como crescimento baixo vem acompanhado de inflação baixa, o corolário disso é que salários e preços achatados perpetuam a dinâmica da desigualdade, que parece ter se reinstalado no mundo.

No Brasil, sabemos que inflação alta como a atual corrói a renda da classe média e dos mais pobres, contribuindo para o aumento da desigualdade. O que o livro de Piketty sugere é que uma inflação baixa demais tem o mesmo efeito nefasto sobre a disparidade de renda. Se isso não é digno de nota para alguns pensadores e formadores de opinião, difícil é saber o que mais seria.

Defeitos do discurso - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 02/05

A presidente Dilma, no discurso que fez para o 1º de maio, usou o espaço concedido a quem exerce o cargo para fazer campanha política. E sofismou. Disse que, se não tivesse baixado o preço energia, ele teria subido mais. É o oposto: porque ela reduziu as tarifas, quando o custo estava subindo, as empresas estão quebradas e sendo socorridas pelo Tesouro.

Dos defeitos do discurso, o mais constrangedor para o próprio governo é a repetição da estratégia usada pelos militares, de confundir crítica à sua administração com desamor ao Brasil; é investir contra quem pede apuração da corrupção na Petrobras com ataque à companhia, em si, fundada há 60 anos. A empresa não pertence ao PT. A história e a importância da petrolífera não estão em discussão. Esse deliberado contorcionismo dos fatos é que agrava o uso do horário disposto para a Presidência da República como se fosse um palanque.

Dilma disse que está sendo feito uso político da inflação. Quem está usando? Quem fala com preocupação do problema ou o governo, que represa preços que terão que ser corrigidos mais adiante? Ela disse que o país vive há 11 anos o mais longo período de inflação controlada. Ora, qualquer pessoa sabe no país que a hiperinflação foi vencida há 20 anos. Na entrada do governo Lula, o medo de perder a estabilidade elevou a taxa.

Apenas o recuo em relação à proposta econômica do PT é que manteve a inflação controlada. Ainda assim, os índices têm permanecido no governo Dilma no teto da meta.

O que ameaça a estabilidade é a insistência no uso da contabilidade criativa, que faz com que não se possa usar pelo valor de face vários números divulgados pelo Ministério da Fazenda. O problema avançou pela área de energia produzindo o esdrúxulo empréstimo à Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, usado para esconder o tamanho exato do socorro às empresas elétricas.

Ela sabe que há um problema com a dupla indexação do salário mínimo porque o debate se trava inclusive dentro da sua equipe econômica. A fórmula de correção é pela inflação e pelo crescimento de dois anos antes. Se a inflação estivesse baixa, e o crescimento, alto, seria uma correção mais sustentável; mas no governo da presidente Dilma ocorreu o oposto: a inflação é alta e o crescimento é baixo. O problema do salário mínimo subindo em termos reais num cenário assim não é das empresas, mas das contas públicas. Ele impacta principalmente a Previdência. Ela sabe disso, porque desse assunto se fala no governo, mas no discurso em cadeia nacional ela diz que há ataque ao trabalhador e aos seus ganhos salariais.

O debate eleitoral que vai se travar até as urnas vai, evidentemente, mostrar os problemas criados pelo governo. A candidata vai se defender e já se sabe agora com que malabarismos e estratégia. Não haverá uma conversa sincera. Se houvesse, a presidente diria que é preciso fazer um ajuste em várias áreas de seu governo, no qual há uma corrida para tapar os furos que estão fazendo água.

O governo não cumpre as metas fiscais, maquia os números; não garante o preço da energia mais baixo porque o anúncio da benesse foi uma falácia; nunca levou a inflação para o centro da meta; suas projeções de crescimento não se realizaram. Para cada problema que se agrava, arquiteta-se um truque para escondê-lo até as eleições.

A política de transferência de renda aos extremamente pobres tem o mérito no foco aos que mais precisam. Veio sendo construída e aperfeiçoada a cada administração. Deveria ser apresentada como um direito do cidadão, mas vira populista quando é apresentada como uma doação do seu governo. Como todo o dinheiro que distribui sai dos bolsos dos cidadãos, é a sociedade brasileira que tem escolhido combater a pobreza. Não é benemerência; é decisão do país e direito dos mais pobres.

Esperar que o governo reconheça seus erros, fraquezas e defeitos em período eleitoral é inútil. Portanto, o que a presidente Dilma tem feito em todos os seus pronunciamentos é apresentar a defesa — e o ataque como defesa — no discurso construído pelos marqueteiros. A torcida é para que a próxima administração, seja dela ou não, corrija os rumos o mais cedo possível.

Nau dos insensatos - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 02/05
As intervenções pontuais do governo em setores da economia têm provocado consequências maléficas em outros, como, por exemplo, na questão elétrica. Ou na redução forçada dos juros, que acabou sendo revertida pela realidade, e hoje temos juros mais altos do que antes, para tentar controlar a inflação crescente.
Querendo reduzir compulsoriamente a tarifa de energia, o governo praticamente obrigou as empresas a aceitar uma renovação de contratos em novas bases, provocando prejuízos e impedindo que investimentos necessários fossem feitos.

As tarifas acabaram não caindo como o prometido em um pronunciamento propagandístico na televisão, e o governo está com um problema para o Tesouro enfrentar, que pode chegar a R$ 50 bilhões segundo algumas estimativas. O desequilíbrio financeiro em consequência da Medida Provisória 579, de 2012, já obrigou o governo a colocar R$ 18 bilhões no setor, para financiar a redução arbitrária da tarifa, afetando as contas públicas.

O malabarismo para financiar outros R$ 11 bilhões está provocando uma crise na Câmara de Compensação de Energia Elétrica (CCEE), com diretores pedindo demissão por não concordarem com essa contabilidade criativa, o que pode obrigar o Tesouro a garantir de alguma maneira esse empréstimo, anulando a tentativa de não aumentar o rombo nas contas públicas.

Depois desse imbróglio todo, ainda restará para o próximo governo um tarifaço e o perigo de um apagão. Caminhamos para uma situação semelhantes à ocorrida em 1998, com sinais trocados. Naquele ano de reeleição, o governo Fernando Henrique Cardoso adiou o mais que pôde a desvalorização do Real, que acabou vindo em janeiro de 1999, no primeiro mês do segundo mandato.

Agora, o governo tenta adiar um programa de racionamento de energia para não sofrer eleitoralmente, mas todos os especialistas advertem que se nada for feito o racionamento virá, com mais força, já em novembro deste ano, um mês depois de fechadas as urnas, seja quem for o eleito.

Uma herança maldita que Dilma pode estar deixando para si mesma, assim como o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, retarda uma campanha de racionalização do uso da água em São Paulo, para não ter prejuízos nas urnas. Corremos o risco de ter, fechadas as urnas, apagão de energia e água.

Tudo isso para dizer que soluções atípicas, como as que a presidente Dilma anunciou em cadeia nacional de rádio e televisão na véspera do Dia do Trabalho, não significam medidas racionais para o bem da população, e acabam produzindo efeitos contrários.

Mesmo a carga positiva que essas medidas populistas possam trazer para uma candidatura em risco é duvidosa. O aumento de 10% para os integrantes do Bolsa Família não fará com que mais beneficiários do plano votem em Dilma, a grande maioria já deve estar com ela. Mas fortalece a percepção do restante da população de que o programa social é utilizado como arma eleitoral, e aumenta o rombo nas contas públicas.

Prometer que a tabela do Imposto de Renda será reajustada no próximo ano no mesmo dia em que terminava o prazo para a declaração do IR deste ano parece uma burla ao cidadão comum. Além de o reajuste anunciado ser inferior à inflação, não parece lógico que o governo tome uma decisão dessas em ano eleitoral, para valer em um mandato que pode não ser o seu.

A garantia de continuar, além de 2015, com uma política de reajuste do salário mínimo com ganhos reais é uma vantagem para a candidatura governista, que os oposicionistas só equipararão caso a campanha eleitoral entre numa corrida demagógica que vencerá aquele que prometer mais coisas impossíveis de cumprir. Essa política, aliás, está sendo questionada no Supremo tribunal Federal.

O que se desenha ao final é um quadro de irresponsabilidade fiscal que se agrava com o populismo eleitoral. Como as medidas anteriores, essas também terão consequências indiretas em vários outros setores, provocando a alta da inflação futura e a necessidade de aumentar os juros mais ainda, neutralizando os benefícios que porventura trouxessem aos trabalhadores do Brasil. E assim a nau dos insensatos navega em águas turbulentas.

Perna curta - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE S.P - 02/05

BRASÍLIA - O pronunciamento de Dilma Rousseff para o Primeiro de Maio, a dois dias da convenção de dilmistas e lulistas, que ocorre hoje em São Paulo, foi um risco político com requintes de crueldade.

A mesma Dilma que aumentou o IOF para viagens internacionais bem no início das férias agora anuncia a correção de 4,5% na tabela do IR na fonte no último dia para a entrega das declarações deste ano. O Leão lambia os beiços enquanto os brasileiros ouviam a presidente anunciar um saco de bondades --para o ano que vem e o próximo governo.

Alguém acredita que Dilma possa ganhar um só voto da classe média e da massa de contribuintes com essa jogada marqueteira?

Na outra ponta, a presidente anunciou um aumento de 10% no Bolsa Família, que atinge em torno de 36 milhões de pessoas de um universo de eleitores já naturalmente de Dilma, ou melhor, de Lula.

Alguém acredita que Dilma possa ganhar um só voto a mais dos beneficiários do programa a partir do pronunciamento na TV?

Bem, então o capital adorou o discurso, certo? Pelo contrário, só viu mais gastos e mais inflação.

Assessores palacianos julgam o pronunciamento capaz de estancar a queda na popularidade e nas intenções de voto, vendendo Dilma como "boazinha" diante de Aécio e Campos, "malvados" prontos para sacar medidas impopulares.

Parece pouca areia para o caminhão de críticas à presidente, ao seu governo e ao seu partido. E, além disso, o histórico de pronunciamentos de Dilma é meio constrangedor.

Num, ela meteu o dedo na cara dos bancos privados, jactando-se da queda dos juros. Mas... os juros voltaram a subir e já são maiores do que quando ela assumiu.

Noutro, capitalizou politicamente a redução na conta de luz. Mas... a conta já voltou a subir e vem aí aumento impostos para cobrir medidas estabanadas no setor elétrico.

Esperteza costuma ter perna curta.

Lula lá de novo? - JOÃO MELLÃO NETO

O Estado de S.Paulo - 02/05

Na Inglaterra, o Poder Judiciário não tem a força coercitiva que tem por aqui, no Brasil. Ele é exercido pela Câmara dos Lordes e sua autoridade é lastreada nos usos e costumes então em vigor. Dá certo, entre outros motivos, porque sempre deu certo. Existe, ali, um arranjo que, tal qual um cipreste, demandou centenas de anos para crescer e se desenvolver. Para derrubá-lo, não basta um vendaval ou mesmo uma ventania. E quanto à força dos usos e costumes, há de sempre ser lembrado que eles não cresceram ao léu. Pode-se afirmar, com total convicção, que é muita pretensão a nossa desejar virar o mundo do avesso, ignorando toda a experiência, os ajustes e o processo de tentativas e erros obtidos em milênios de civilização.

Na história humana, os grandes avanços sempre se deram pela evolução, nunca pela revolução. As grandes revoluções, como a francesa e a russa, sempre foram muito eficientes na derrubada das instituições que já existiam, mas nunca souberam como colocar outras, melhores, em seu lugar.

Sir Isaac Newton, quando indagado sobre como conseguira formular a Teoria da Física Mecânica, respondia que nada fizera demais, apenas ficara de pé sobre os ombros de gigantes. E quantos foram os gigantes que o precederam? Uma longa fila, a partir de Sócrates, Platão, Aristóteles, Arquimedes e tantos outros mais a perder de vista, cada um tendo contribuído com o seu quinhão.

Os usos e costumes, assim, prestam uma reverência ao passado. São o que Lord Dahrendorf, alemão de nascença, comparou a fios de alta tensão. Eles são, aparentemente, inofensivos. A ponto de os próprios pássaros neles pousarem. Mas basta que alguém se aventure a neles tocar para que eles descarreguem uma violenta carga de energia, no mais das vezes, fatal. No caso inglês de que tratamos agora, o Direito costumeiro tem se revelado de grande eficácia na distribuição de justiça, ao contrário do nosso Direito, de base positivista. O recente julgamento do "mensalão" pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em que poucos e raros foram os condenados, é um eloquente exemplo desse fenômeno.

Esta introdução toda, no entanto, é para comentar as recentes declarações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Rádio e Televisão de Portugal (RTP). Para quem não se recorda, ele disse, com todas as letras, que o julgamento do "mensalão" teve "praticamente 80% de decisão política e 20% de decisão jurídica". Nesse seu esforço para desqualificar o processo, louve-se nele a sua sempre sofrível tentativa de valer-se da aritmética. De mais a mais, com que régua o ex-presidente teria estabelecido tal resultado? Realmente, 80 + 20 = 100. Da mesma forma que 100 - 20 = 80.

Assim sendo, dada a exatidão dos cálculos, como foi que ele chegou lá? Não me consta que ele tenha tamanho conhecimento em aritmética. Tampouco conhecimento jurídico - vide as recorrentes afrontas à lei protagonizadas por aqueles que, por mais que ele jure de pés juntos que não, eram gente da sua confiança.

Lula, enquanto presidente, sempre divertiu a Nação com as suas impropriedades e enormidades. Tudo nele era perdoado em razão de seu passado humilde. Quem não se lembra da "épica" explicação dada por ele, num evento na África, de como a poluição produzida por um país afetava os demais países por causa do fato de a "Terra ser redonda e girar", fazendo com que todos fossem obrigados a passar por baixo daquela poluição?

Hoje, tudo isso não conta mais. Quando o seu nome desponta entre os mais cotados para vir a substituir Dilma Rousseff, porém, fica a pergunta: ele de novo?

Este "ele de novo" está eivado de significados. Um deles é o de prorrogar a permanência desta turma no poder por, no mínimo, mais quatro anos - isso está, evidentemente, acima da capacidade de resistência da Nação. Mais um "mensalão" ninguém aguenta. Fora todas as outras atrocidades que certamente continuariam a ser cometidas contra nosso bom senso e nossos bolsos. Uma mistura que inclui incompetência, letargia e escândalos de corrupção. A conta a ser quitada vai muito além das fronteiras de nossa imaginação. E certamente da habilidade aritmética do nosso ex-presidente.

A "mais valia" governista assustaria até os mais ferrenhos marxistas. Atualmente ela se encontra em quase 40% de todas as riquezas produzidas no País. Com mais quatro anos de governo "lulopetista", sabe lá Deus onde vai parar.

Mas a possibilidade de uma eventual troca de candidatura, da nossa atual presidente pela de Lula, é real. E será ainda mais se a sua "análise aritmética" concluir que as chances de Dilma Rousseff sair derrotada pelas urnas aumentaram. Lula certamente seria um candidato menos derrotável. Não creio que o PT morra de amores por Dilma, o problema maior seria como convencer a população de que fora, mais uma vez, "apunhalado pelas costas" por um de seus companheiros. Do contrário, por que haveria de substituí-la? Não tinha sido ela a grande "gerenta" responsável pelo suposto sucesso do seu governo?

Assim sendo, vamos, com todo respeito, propor a Lula um pacto de cavalheiros. Faltam ainda alguns meses para o sufrágio de outubro. A tendência apontada nas pesquisas é de que haverá um bolo geral. Ninguém pode apontar, desde já, quem se sairá melhor nesse enfrentamento.

A proposta é a seguinte: ele desiste de disputar o pleito e, em troca, nós lhe providenciaremos uma "super Bolsa Família". Não sei se seria o mais justo, mas certamente nos custaria bem menos do que a sua presença, e a de todos os seus aliados, no comando do País. Talvez se, na hora de escolher seus companheiros, tivesse ele invertido sua equação e feito um julgamento 80% jurídico e 20% político, seu fim pudesse ser um pouco mais digno...

Luz amarela - LUIZ GARCIA

O GLOBO - 02/05


Há crescente possibilidade de que a primeira mulher a presidir o país enfrente um segundo turno nas próximas eleições


Nos Estados Unidos, berço do sistema político que admiramos (pelo menos no que ele se propõe a ser: nem sempre no desempenho dos ocupantes do poder), a reeleição do inquilino da Casa Branca para um segundo mandato é certa, com raríssimas exceções.

Aqui, nem sempre. Como parece acontecer agora: a mais recente pesquisa de opinião mostra queda considerável no prestígio da presidente Dilma Rousseff. Pelo visto — melhor dizendo, pelo que ouviram os entrevistadores dos eleitores — há crescente possibilidade de que a primeira mulher a presidir o país enfrente um segundo turno nas próximas eleições presidenciais, em outubro. Entre fevereiro e abril, a intenção de voto em Dilma caiu de 43,7 para 37%. Não é veredicto definitivo. Apenas um sinal alarmante para os atuais ocupantes do poder.

Outras pesquisas serão necessárias para que se determine um dado essencial: foi queda momentânea — como pode acontecer, e há exemplos disso na história da República — ou estamos assistindo aos primeiros sinais de um desabamento sem retorno do prestígio popular da primeira mulher a comandar o país?

Se acontecer mesmo a transformação de uma possível desilusão eventual dos eleitores em queda fatal — e inédita — da confiança dos eleitores na eficiência de quem os governa, o PT tem pela frente decisão inédita: insiste numa recuperação do prestígio de Dilma ou parte para outra candidatura — que seria, inevitavelmente, do mais popular petista em seus quadros. Lula, é claro. O que não impede o que seria decisão tão dolorosa quanto arriscada: aos olhos de grande parte do eleitorado, Lula estaria, com todo o respeito, tapando um buraco cavado pelo próprio PT.

Se as pesquisas de opinião não mentem — ou refletem apenas um momento passageiro da reconhecidamente volúvel vontade da opinião pública — nunca se sabe ao certo. Pelo menos, até o momento em que as urnas dão o seu veredicto definitivo.

Mas como diz o jornal, acendeu-se uma luz amarela no caminho de Dilma e do PT. No trânsito, é uma recomendação de cautela. Na política, trata-se de uma advertência severa: cuidado, pessoal, vocês estão indo para o buraco!

País das maravilhas - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 02/04
Dilma usa pronunciamento oficial como palanque para anunciar gastos, negar críticas e "partir para cima" de adversários na campanha

A presidente da República usou parte do tempo de pronunciamento em cadeia nacional para tratar dos interesses de Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à Presidência.

A ocasião era a mensagem relativa ao Dia do Trabalho. É aceitável que o governante recorra a discursos oficiais para defender suas políticas, o que seria ainda mais compreensível se não despendesse tantos recursos públicos em propaganda. Mas a presidente engajou-se no debate eleitoral.

Dilma Rousseff atacou adversários com palavras e atos, por exemplo com promessas realizáveis apenas se reeleita. "Anuncio ainda que assumo o compromisso de continuar a política de valorização do salário mínimo", discursou. Tal assunto diz respeito ao próximo governo e ao próximo Congresso.

A presidente-candidata não se limitou a avançar no governo que ainda será escolhido. Ao recorrer ao passado para lembrar a criação de empregos por "nós", referia-se também, é claro, aos governos Lula e, portanto, ao PT, partidarizando ainda mais o pronunciamento.

Dilma Rousseff disse ter "força para continuar na luta por reformas", entre elas a da política, a dos serviços públicos ou aquelas que permitam conter a corrupção, de escasso progresso sob sua gestão.

Nos poucos meses que lhe restam, não será possível avanço maior. Além de fazer promessas eleitorais, a presidente reagia à torrente de críticas e más notícias que desprestigiam sua administração, da Petrobras à inflação.

Às palavras de propaganda a presidente juntou atos como o anúncio do reajuste do Bolsa Família. Alardeou o reajuste da tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física, o que na prática evitaria aumento maior da tributação. No entanto, se tal reajuste equivaler aos que vêm sendo adotados, abaixo da inflação, o IR voltará a subir. O anúncio não terá passado, então, de truque publicitário.

O conjunto da peça propagandística veicula mensagem clara, mesmo que inadvertida. Reeleita, Dilma Rousseff daria seguimento a programas que desarranjam as bases do crescimento da economia.

A presidente parece dizer que não há desacertos. Seu tom foi de desqualificação genérica de críticas, de reafirmação assoberbada de que há "crescimento com estabilidade, controle rigoroso da inflação e administração correta das contas públicas". Isso num país no qual o crescimento é o menor em década e meia, de inflação que incomoda dois terços dos brasileiros e de redução continuada da poupança do governo para investir.

Ao empregar de modo indevido um instrumento de comunicação oficial, e de modo agressivo, a presidente em nada colaborou para atenuar o acirramento de ânimos e partidarizou de maneira exacerbada o que deveria ser um meio de esclarecimento e debate públicos.

Continua uma opção - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 02/05


A matriz de energia elétrica brasileira é uma das mais limpas do mundo, pois as fontes renováveis respondem por mais de 80% da geração de eletricidade. E nessa matriz de fontes renováveis se destacam as hidrelétricas.


Para reduzir os investimentos com aproveitamento máximo da base hidráulica, o país conseguiu construir muitas hidrelétricas com reservatórios de acumulação de água nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Tais barragens têm múltiplas funções, pois ajudam a regularizar a vazão dos rios, evitando inundações nos períodos de cheia e garantindo o abastecimento de água em estiagens prolongadas. Dependendo das características dos rios, tais barragens tornam os rios navegáveis, podendo inclusive transformá-los em hidrovias interligadas a outros modais de transporte, com aumento de eficiência, redução de custos e menos impactos ambientais para diferentes cadeias produtivas. Mais recentemente, os reservatórios passaram a ser utilizados também para projetos de piscicultura. O Brasil é exportador de carnes bovina, suína e de frango, mas é importador líquido da proteína animal mais saudável de todas, que é a dos pescados. A produção vem crescendo com base principalmente na criação de peixes e frutos do mar, embora haja também alguma recuperação na captura por conta da repressão à pesca predatória.

Hidrelétricas com reservatórios também foram construídas nas regiões Norte e Nordeste, que têm regimes de chuva bem definidos durante o ano, o que torna a acumulação de água ainda mais necessária nessas regiões, pois usinas baseadas apenas na vazão natural dos rios tendem a gerar pouca energia no período de estiagem, obrigando a matriz elétrica a recorrer expressivamente a fontes substitutivas térmicas, mais poluentes e mais caras.

Com os reservatórios de acumulação de água reduzindo sua participação na matriz elétrica, o país passa a depender da transferência de energia entre as regiões, o que o leva a investir em longas linhas de transmissão, com perdas técnicas e riscos de acidentes. E a necessidade de fontes substitutas cresce a cada dia. Desse modo, a participação de fontes limpas e renováveis na matriz elétrica vai diminuindo. Economicamente, a necessidade de investimentos aumenta, gastando-se mais por cada megawatt adicionado à geração, com impacto negativo sobre toda a cadeia produtiva. Em vez de se produzir mais com menos, produz-se menos com mais.

Combater reservatórios de acumulação sob o pretexto de proteção ao ambiente é, portanto, uma contradição. O resultado final acaba sendo mais impacto ambiental e menos sustentabilidade. Sem dúvida que os aproveitamentos hídricos estão escasseando nas áreas em que o relevo favorece a formação de reservatórios sem que extensas áreas precisem ficar inundadas.

Na Amazônia, de fato, existe esse tipo de restrição. Porém, mesmo nessa região há lugares para futuras barragens com reservatórios. Tal possibilidade deveria ser avaliada seriamente.

Todos os brasileiros comprometidos - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 02/04

O pronunciamento feito pela presidente Dilma Rousseff na véspera do Dia do Trabalho deflagrou uma grande polêmica eleitoral, embora a campanha sequer tenha começado oficialmente. Ocorre que, ao convocar cadeia nacional de rádio e televisão para anunciar medidas esperadas e outras nem tanto, com benefícios para trabalhadores e também para o setor do eleitorado em que aparece mal nas pesquisas, a presidente acabou provocando reação indignada da oposição. Ontem mesmo, parlamentares oposicionistas anunciaram que denunciarão ao Tribunal Superior Eleitoral o que consideram campanha antecipada.

Os dois lados fazem o jogo eleitoreiro. O que a presidente Dilma Rousseff fez na quarta-feira foi apenas repetir o que todos os presidentes fazem historicamente na véspera do 1º de Maio. Anunciou o rotineiro reajuste gradativo do salário mínimo, o oportunista aumento do Bolsa Família e até a inesperada, mas sempre reclamada, correção da tabela do Imposto de Renda. É evidente que o anúncio foi preparado para atenuar a queda que a mandatária vem amargando nas pesquisas eleitorais, o que fica claro com o afago à classe média na questão do Imposto de Renda. Mas não chega a configurar um ilícito.

Mais preocupante foi a manifestação contraditória da presidente em relação ao episódio da Petrobras. Depois de se comprometer com uma apuração rigorosa dos malfeitos na estatal, disse que também não admitirá o que chama de campanha negativa de quem quer tirar proveito político, ferindo a imagem de uma empresa que o trabalhador brasileiro construiu com luta, suor e lágrimas. Ora, quem está prejudicando a imagem da Petrobras é exatamente o governo, que aparelhou politicamente a empresa e permitiu que gestores incompetentes ou mal-intencionados a empurrassem para maus negócios.

Recuperar a credibilidade da Petrobras é o desafio do governo. E isso certamente não será feito com ataques aos críticos, mas, sim, com correção das deformações e com a exposição transparente das práticas administrativas de quem comanda a maior estatal do país. Esse abacaxi não foi inventado pela oposição. Foi criado pelo próprio governo. Cabe-lhe, então, descascá-lo.

Como a presidente Dilma, todos os brasileiros comprometidos com o país querem ver a Petrobras forte, saudável e livre dos aproveitadores. Mas cabe a ela dar o exemplo, assumindo a responsabilidade no que lhe couber e sendo inflexível com eventuais malfeitores, para ficarmos na linguagem presidencial.

Não basta mudar de assunto. Nenhum pacote de bondades será suficiente para encobrir a corrupção.