sexta-feira, março 07, 2014

Presidente improvável - NELSON MOTTA

O GLOBO - 07/03

Dar clareza e nitidez à História e aos seus protagonistas é o grande valor, além da narrativa fluente, elegante e sincera, das memórias do ex presidente Fernando Henrique



Diante das constantes tentativas de reescrever a História de acordo com os interesses e as biografias de quem está no poder, o ex-ministro Pedro Malan já disse, cheio de razão e ironia, que no Brasil até o passado é incerto. Dar clareza e nitidez à História e aos seus protagonistas é o grande valor, além da narrativa fluente, elegante e sincera, das memórias do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em “O improvável presidente do Brasil”, escrito originalmente em inglês com a colaboração de Brian Winter e traduzido por Clovis Marques. Daria um filmaço.

Com sua vasta cultura, seu fino humor e sua capacidade de expressar suas ideias, o professor Cardoso conta, com notável poder de síntese e de análise, uma pequena grande história do Brasil moderno, através da surpreendente e acidentada trajetória de um príncipe da sociologia ao exílio e à Presidência da Republica, pontuada por quase inverossímeis lances de sorte, e por grandes desastres do acaso, num país tropical que supera a mais fantasiosa ficção.

Para um gringo que não conheça o Brasil, seu povo, seus políticos e sua cultura, além de uma aula de história contemporânea, narrada de um ponto de vista privilegiado, num tempo de grandes transformações, deve ser uma leitura tão eletrizante como um romance, tantas as peripécias, surpresas e viradas da história, além do charme e grandeza do protagonista e da vileza dos vilões. Para brasileiros também, mas por outros motivos.

O principal é restaurar, antes que seja tarde, a verdade histórica, na visão sociológica do que era o país antes do Plano Real e na narrativa de sua heroica implantação, enfrentando a resistência das elites que viviam da inflação e a sabotagem do PT e de seu ex-aliado Lula, que sentenciou: “Esse plano não é um sonho, é um pesadelo, que vai servir apenas para congelar a miséria no Brasil.”

Mas o sonho era real e nada foi melhor para os pobres — e para Lula e o PT — do que o plano que domou a inflação e nos deu, como nunca na história deste país, uma moeda de verdade, criando as condições para as conquistas econômicas e sociais dos governos seguintes.

Junto e misturado - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 07/03

A intenção dos idealizadores da fotografia da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, sorridentes e de mãos entrelaçadas na biblioteca do Palácio da Alvorada, era mostrar que não havia divergências entre os dois.

Os artífices das boas novas acabaram mostrando muito mais: a ausência de qualquer resquício de respeito às balizas da legalidade e da impessoalidade exigidas pela Constituição à administração pública.

Estava tudo errado naquela reunião. O tema, os participantes, o local, nada combinava com nada à luz do bom senso, da compostura e da normalidade institucional.

O encontro foi marcado no Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência, para discutir a crise do governo com o PMDB e suas variantes relacionadas às mudanças nos ministérios e às alianças eleitorais nos Estados.

Sentados à mesa, a presidente da República, seu antecessor, o chefe da Casa Civil, o chefe de gabinete da Presidência, o marqueteiro do governo e da campanha da reeleição, o presidente do PT e coordenador-geral da campanha, o ex-ministro de Comunicação e chefe da área de internet da campanha e o tesoureiro da campanha.

A condução da reforma ministerial é tarefa de governo, até onde a vista dos normais alcança. Com função governamental na mesa havia quatro pessoas, entre elas a presidente Dilma; as outras quatro, entre elas o ex-presidente Lula, têm atividades político-partidárias que, em tese, deveriam ser desenvolvidas a prudente distância do governo.

Se não é assim, isso quer dizer que a presidente reconhece que apenas adapta seu ministério às conveniências eleitorais. Seria seu dever. Mas, com boa vontade admitamos que seja um direito dela.

Nesse caso, seria uma obrigação que soubesse separar os assuntos de governo da agenda eleitoral e que não tratasse de tudo junto e muito misturado, deixando que as dependências do Palácio funcionem como um escritório de campanha.

Ao ponto de caracterizar um uso sem disfarce da máquina pública, numa foto em que todos riem, divertem-se e aparecem como se tivessem fazendo um grande lance, reunidos para combinar como lidar com as "chantagens" e malvadezas em geral do PMDB.

Ora, vamos com calma. Há o jogo de pressão dos pemedebistas. Mas isso não dá ao PT e muito menos ao governo uma salvaguarda para agir como bem entender ao arrepio de quaisquer normas. Escritas e não escritas. Ali na biblioteca do Palácio da Alvorada posaram todos como verdadeiros donos do pedaço.

Enquanto transcorria a reunião dos inimputáveis, a Justiça Eleitoral concedia liminar mandando tirar do ar uma página no Facebook sobre o governador Eduardo Campos por propaganda antecipada. O site tinha mesmo cunho eleitoral, o que é proibido antes de 5 de julho. Portanto, era o que tinha de ser feito.

Mas há coisas que deveriam e não estão sendo feitas. O uso da máquina pública é vedado pela lei a qualquer tempo. Esse dispositivo vem sendo permanentemente desrespeitado sem que o Ministério Público tome conhecimento.

Como não há freio, a infração se repete, os infratores ficam cada vez mais à vontade para agir como se não houvesse regras a obedecer.

E ainda há, no governo e na oposição, quem culpe o instituto da reeleição por esse tipo de atitude. Como se o fim da reeleição fosse capaz de impedir que o governante mal intencionado usasse a máquina para beneficiar o candidato à sucessão e seu grupo político.

O abuso patrimonialista, nunca é demais repetir, não nasceu no Brasil em 1997 quando foi aprovada a emenda da reeleição. Sabemos, é bastante anterior e, por isso, muito arraigado aos nossos costumes que não serão modificados mediante o retorno ao mandato único nem à reforma política que não reforma certos políticos.

Barbosa no tronco - REINALDO AZEVEDO

FOLHA DE SP - 07/03

Para os 'petralhas', o 'negro nomeado por Lula' seria a expressão do 'novo Brasil'. O príncipe virou um sapo


A discriminação racial assume muitas faces, mas três delas se destacam. Há o ódio desinformado, raivoso, agressivo. O sujeito não gosta do "outro" porque "diferente", o que, para ele, significa inferior. Há a discriminação caridosa, batizada de "racismo cordial". Olha-se esse "outro" como um destituído de certas qualidades, mas sem lhe atribuir culpa por essa falta; o "diferente" merece respeito e, se preciso, tutela. Uma vertente da cordialidade é ver a "comunidade" dos desiguais (iguais entre si) como variante antropológica. Com sorte, seus representantes acabam no "Esquenta", da Regina Casé, tocando algum instrumento de percussão --nunca de cordas!-- ou massacrando a rima num rap de protesto. E há uma terceira manifestação, especialmente perversa, que chamo de "racismo de segundo grau". Opera com mecanismos mais complexos e só pode ser exercida por mentalidades ditas progressistas. É justamente essa a turma que tenta mandar o negro Joaquim Barbosa, ministro do STF, para o tronco.

Os leitores da Folha que conhecem o meu blog sabem que, ao longo dos anos, mais critiquei Barbosa do que o elogiei. Antes ou depois do processo do mensalão. E os temas foram os mais variados --inclusive o mensalão. Ainda que a internet não servisse para mais nada, seria útil à memória. Os textos estão lá, em arquivo. Cheguei a ser alvo de uma patrulha racialista porque, dizia-se então, este branquelo não aceitava a altivez de um negro.

O ministro era saudado como herói por esquerdistas, "progressistas" e blogs financiados por dinheiro público --aqueles que se orgulham de ser chamados por aquilo que são: "sujos". Como esquecer os ataques nada edificantes de Barbosa a Gilmar Mendes, seu parceiro de tribunal, em 2009? Os "petralhas" consideravam Mendes o seu único inimigo na corte, e o "negro nomeado por Lula" seria a expressão do "novo Brasil". O príncipe virou um sapo.

Não entro, não agora, no mérito dos votos do ministro no caso do mensalão. Fato: não tomou nenhuma decisão discricionária --até porque, na corte, a discricionariedade, quando existe, atende pelo nome de "prerrogativa". Que a sua reputação esteja sob ataque, não a de Ricardo Lewandowski, eis a evidência da capacidade que a máquina petista tem de moer pessoas. Por que Lewandowski? O homem inocentou José Dirceu, Delúbio Soares e José Genoino até do crime de corrupção ativa, mas foi duro com Kátia Rabello e José Roberto Salgado, do Banco Rural. Para esse gigante da coerência, os crimes da "Ação Penal 470" (como ele gosta de chamar) poderiam ter sido cometidos sem a participação da trinca petista. É grotesco!

Mas o que é esse tal "racismo de segundo grau"? É aquele que tenta impor ao representante de uma "raça" (conceito estúpido e desinformado!) um conteúdo militante que independe da sua vontade, da sua consciência, da sua trajetória pessoal. Assim, por ser negro, Barbosa seria menos livre do que um branco porque obrigado a aderir a uma pauta e a fazer o discurso que os "donos das causas" consideram progressista. Ao nascer negro, portanto, já teria nascido escravo de uma agenda.

O mensaleiro João Paulo Cunha foi explícito a respeito: "[Barbosa] Chegou [ao Supremo] porque era compromisso nosso, do PT e do Lula, reparar um pedaço da injustiça histórica com os negros". O ministro não se pertencia; não tinha direito a um habeas corpus moral.

Afinal de contas, quantos votos Barbosa tem no tribunal? Notem que os movimentos negros --a maioria pendurada em prebendas estatais-- silenciou a respeito. Calaram-se também quando o jornalista Heraldo Pereira foi chamado de "preto de alma branca" por um desses delinquentes financiados por dinheiro público. Por que defender um negro que trai a causa? Por que defender um negro bem-sucedido da TV Globo?

Um preto só prova que é livre quando obrigado a carregar a bandeira "deles".

Lula queixa-se de quê? - JOÃO MELLÃO NETO

O Estado de S.Paulo - 07/03

Tive algumas poucas oportunidades de conhecer o Lula em pessoa, todas elas na década de 1970. Naquela ocasião houve eleições para o Senado - a de governadores ainda estava proibida - e para a Câmara dos Deputados e as Assembleias Legislativas (deputados federais e estaduais). Ainda estudante, decidi apoiar Fernando Henrique Cardoso, que, de longe, era o candidato ao Senado mais respeitável. O problema que existia dizia respeito à "popularidade" do meu candidato. Na época praticamente ninguém o conhecia. Nós mesmos, que o apoiávamos, o alcunhamos de "Fernando quem?". Pois bem, tivemos de engolir a nossa língua: poucos anos depois ele seria eleito presidente da República. Um excelente presidente, aliás.

Mas o tema deste artigo não é Fernando Henrique, e sim seu sucessor, o Lula. Espero que ele o leia, apesar de sua aversão à leitura.

Lula é um vitorioso em muitos sentidos. Só que há uma coisa que eu não entendo nele: quase todas as teses que defende se chocam frontalmente com a sua história. Por vezes ele combate a livre-iniciativa, rechaça o capital estrangeiro, vê com má vontade a nossa realidade fundiária e afirma que o Brasil, do jeito que é, não tem a menor viabilidade. Eu lanço os olhos ao seu passado e, paradoxalmente, a leitura que faço é exatamente a contrária.

Quando Lula nasceu, em 1945, todas as mazelas que atualmente ele atribui ao Brasil não existiam. A expectativa de vida ao nascer, lá, em Pernambuco, era de 35 anos e os poucos que sobreviviam ficavam raquíticos ou idiotizados. Lá, em Caetés, não havia capitães de indústria inescrupulosos e muito menos multinacionais para sangrar as veias dos trabalhadores. No sertão, ninguém discutia luta de classes, até porque lá nem havia classes, não havia socialismo pela falta de seu contraponto, o capitalismo e o nacionalismo eram desnecessários porque aquele fim de mundo, com a sua exuberante miséria, não despertava a cobiça de nenhuma empresa estrangeira.

Naquelas bandas, com exceção de dois ou três coronéis, o ideal de igualdade era exercido em toda a sua plenitude: todos eram igualmente pobres, identicamente desnutridos e homogeneamente desesperançados. Mas foi ali, no santuário ideológico de Caetés, que Luiz Inácio da Silva venceu a sua primeira prova: mudou-se com a família para São Paulo.

Aqui ingressou no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). A partir do momento em que conquistou seu primeiro diploma, sua vida começou a mudar: passou a trajar-se melhor, adquiriu sua casa e seu primeiro automóvel. Paralelamente, foi conseguindo prestígio na carreira de sindicalista, até se consagrar como o presidente do poderoso Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Em 1980 foi fundado o Partido dos Trabalhadores (PT) e ele era o candidato natural para presidi-lo.

A nota dissonante, nessa trajetória de vitórias, está nas opiniões amargas que Lula emite sobre o Brasil após a retumbante carreira que fez. E olhem que ele se elegeu presidente da República por duas vezes, carregou um poste (as palavras são dele mesmo) para lhe suceder e, agora, ameaça carregá-lo de novo caso a reeleição da sucessora corra algum risco.

O governo de sua sucessora tem-se mostrado abaixo da crítica, com políticas econômicas erráticas, o Brasil crescendo menos do que qualquer outro país na América Latina. Mesmo assim, eles continuam fortes e inabaláveis nas pesquisas de opinião. Alguma explicação para esse fenômeno? A única que me ocorre é a seguinte: crédito abundante e barato para os muito ricos, Bolsa Família para os muito pobres e nada para os setores de renda média. Afinal, o Tesouro Nacional não é a casa da mãe Joana...

A esse tipo pernicioso de política se dá o nome de populismo. Algo que devasta o nosso continente a cada 10 ou 15 anos. E demanda muito tempo para ir embora. Os populistas hoje dominam a Bolívia, a Venezuela, a Argentina, o Equador e ameaçam tomar o poder em numerosas nações da América Central. Em Cuba, a versão castrista já está no poder há 55 anos. E comportam-se todos como certos cães de pequeno porte: quanto menores são, mais rosnam e latem.

É uma tarefa árdua livrar-se deles, até porque sempre têm um discurso muito bem concatenado, que se inicia por um passado no qual seus países teriam sido cruelmente explorados e se estende até os dias atuais, em que continuariam a ser cruelmente explorados. A exploração sempre permanece, o que teria mudado são os exploradores. No passado eles eram vítimas dos espanhóis, hoje são vítimas dos Estados Unidos. E existem até os que se queixam de não serem vítimas de ninguém, como é o caso de Cuba em relação aos norte-americanos.

O fato é que todos têm de quem se queixar. É o caso, então, de perguntar: se é tudo tão difícil para eles, e levando em conta que a natureza sempre lhes foi pródiga, por que não se uniram aos norte-americanos para explorar o que têm de melhor, ou seja, a própria natureza? Mas não se deve fazer esse tipo de pergunta a eles, sob o risco de receber de volta um sonoro palavrão. É pena, mas eles preferem viver assim, cercados por uma exuberante floresta, mas todos perto de passar fome. E continuar a se queixar da insensibilidade dos "gringos", porque é isso que os mantém no poder.

Voltando ao Lula, havemos de convir que ele inovou no estilo. Ao menos não ficou se lamuriando, como tantos fizeram. Ao contrário, travestiu-se de "Brasil potência" e passou a vender uma imagem da Nação muito maior do que seus potenciais. Se, de um lado, isso restaurou a autoestima do povo, de outro, criou uma expectativa que jamais poderá ser satisfeita a contento.

Mas nada disso tem importância. O que vale é o enredo vitimista. E disso eles sabem cuidar de cor.

Tensão pré-eleitoral - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 07/03
Com o aumento da tensão na relação entre PT e PMDB, confirma-se a tendência: cada semana termina pior do que começou, e começa pior que a anterior. A semana fundamental é sempre a próxima. Há quem trate o caso com ironias, como se fosse uma simples tensão pré-eleitoral , mas desta vez há fatos concretos.
A presidente Dilma assumiu a decisão de enfrentar o Congresso, resultado do aconselhamento de sua equipe de marketing de campanha. Ela está convencida de que é bom politicamente enfrentar o fisiologismo do PMDB, retomando o flerte com a classe média.

A agenda da faxina ética, que tão bons resultados deu no início do governo, seria revivida nessa disputa contra a ganância do PMDB. As pesquisas mostram que quando Dilma enfrenta esse fisiologismo, a aprovação é muito grande. Há problemas, no entanto, para recuperar esse grupo de eleitores que ela havia adicionado aos eleitores petistas tradicionais.

Depois de fazer a tal faxina, Dilma teve de voltar atrás em praticamente tudo, e hoje enfrenta os mesmos problemas. No Ministério do Trabalho, por exemplo, um feudo do PDT, desde que assumiu o cargo em março de 2013, o ministro Manoel Dias, que substituiu o presidente do partido Carlos Lupi por problemas de corrupção, enfrenta novas denúncias de corrupção. Agora, a Comissão de Ética Pública da Presidência decidiu que suas explicações sobre o esquema de propina para aprovar a criação de sindicatos não foram suficientes, e abriu um processo disciplinar contra ele. Para não perder os minutos que o PDT tem na propaganda eleitoral - o PT tem apenas 4 minutos seus -, o governo trata a questão com a maior cautela, em vez de fazer gestos midiáticos como no início do mandato de Dilma.

O enfrentamento do PMDB, que hoje comanda um blocão formado por diversos partidos aliados igualmente insatisfeitos, é uma jogada de alto risco, porque o Congresso pode adotar uma agenda de estourar a conta pública aprovando projetos populistas como a criação de novos municípios ou o aumento de salários de bombeiros e policiais civis, transferindo o ônus para o governo federal. A presidente Dilma partiu para o enfrentamento com a seguinte lógica: terei o PMDB do Senado para barrar as radicalizações da Câmara, e assim não perco os minutos de televisão do partido. Mas é preciso lembrar que o líder do PMDB é o senador Eunício Oliveira, que quer ser candidato ao governo do Ceará e não consegue o apoio do Planalto, que prefere agradar ao grupo do governador Cid Gomes.

Foi como Lula lidou com o PMDB no primeiro mandato, recusando-se a colocar em seu primeiro ministério o mesmo Eunício de Oliveira, tática que entre outras coisas gerou o mensalão para construir a maioria da Câmara.

O líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha, é o protagonista desta disputa com o Planalto e está deixando mesmo alguns líderes da cúpula do PMDB assustados com sua desenvoltura, mas a previsão é que ele tenha que encontrar uma maneira de recuar nos próximos dias. Teria ido longe demais, avaliam setores importantes do partido.

A foto da reunião de Dilma com o ex-presidente Lula no Palácio da Alvorada mostra o presidente do PT, Rui Falcão, sentado ao lado da presidente, uma maneira de fortalecê-lo na disputa que está tendo com Cunha. A tese da presidente é que Cunha não partirá para a briga, mas os conhecedores dos bastidores do PMDB acham que se ele não fizer algum lance dramático na semana que vem estará desmoralizado.

Essa classe média que abandonou Dilma a partir das manifestações de junho será sensível a uma disputa da presidente com um deputado quase desconhecido como Eduardo Cunha? No Rio de Janeiro ele é conhecido, e pode ser um bom alvo da presidente na luta contra o fisiologismo, mas vale a pena brigar com ele e correr o risco de perder o PMDB em termos nacionais?

Uma das coisas que podem ser feitas é convocar antecipadamente a convenção nacional do partido para decidir o apoio à reeleição de Dilma. Nada indica que haja quorum hoje para conseguir maioria contra a aliança com o PT, mas estará criado um fato político negativo com a mera discussão do tema.

Hoje, sabe-se que mesmo com a formalização da aliança, o PMDB não seguirá unido na campanha presidencial. PT e PMDB se enfrentarão em pelo menos 11 estados: Acre, Roraima, Piauí, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio, Paraná e Rio Grande do Sul. Ou seja, na maioria do eleitorado brasileiro o PMDB estará apoiando Aécio Neves do PSDB ou Eduardo Campos do PSB. Mesmo que seja por baixo dos panos.

Profissionais em campo - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 07/03

BRASÍLIA - Enquanto o presidente do PT e o líder do PMDB na Câmara batem boca em público, vamos fazer uma outra comparação?

Na Folha de segunda-feira, o repórter Felipe Bächtold nos contou como o PSDB está recrutando e até pressionando azarões para tentar, a duras penas, montar palanques nos Estados para Aécio Neves.

Entre os desconhecidos, estão Paulo Bauer (SC), Luiz Pitiman (DF) e Guerino Balestrassi (ES). Entre os desiludidos, Tasso Jereissati (CE) e Cássio Cunha Lima (PB). E há Estados em que nem esses estão disponíveis. Ah! Sem falar em Bernardinho do vôlei, que é uma celebridade --e não cedeu aos apelos de Aécio para disputar o governo no Rio.

Já na Folha e nos outros jornais de ontem, a foto de Dilma Rousseff trocando juras de lealdade com Lula e cercada de um time da pesada: João Santana, marqueteiro número um do país, Franklin Martins, o bom de briga, e Rui Falcão, que toureia o segundo time do PMDB, enquanto Lula alisa o primeiro time e Dilma dorme tranquila sabendo que, dificilmente, o partido trocará a favorita pelos incertos e não sabidos.

A economia dá más notícias, a política externa esmaece, há um clima de insatisfação no ar, mas Dilma mantém as melhores armas: o cargo, a exposição, o maior cabo eleitoral do país e o tempo de TV.

Como munição, o favoritismo nas pesquisas, pesado financiamento de campanha e uma equipe tinindo. Aliás, duas: a do Planalto e a da campanha. Ganha um doce quem souber o limite entre as duas.

O tempo vai passando e as possibilidades, as equipes e a estrutura de Dilma estão consolidadas e são amplamente conhecidas, enquanto as de Aécio ainda não parecem definidas --quem é mesmo o marqueteiro, coração de uma campanha?

E as de Eduardo Campos, se estão, ninguém sabe, ninguém viu. Gente de ponta, com amplo conhecimento do mapa e das peculiaridades da política nacional, não deve ser.

País precisa racionalizar consumo de eletricidade - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 07/03

Reservatórios das hidrelétricas estão baixos, e a previsão do ONS é que as chuvas no atual período úmido não ultrapassem 67% da média histórica


Há previsão de chuvas para a maior parte das regiões do país nos próximos dias. Ainda assim, por força da longa estiagem que afetou o Sudeste e o Centro-Oeste, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) trabalha com uma estimativa de que no atual período úmido o volume de chuvas não ultrapasse 67% da média histórica nas áreas que abrigam os principais reservatórios das hidrelétricas.

No Sudeste, o volume de água acumulada nos reservatórios caiu para o mesmo patamar registrado em igual período em 2001 (34%), ano em que o país teve de recorrer a um programa de racionamento de eletricidade. Desde então muita coisa aconteceu para reduzir a necessidade um novo racionamento. Linhas de transmissão foram instaladas, aumentando a capacidade de transferência de eletricidade de uma região para outra (em 2001, de fato, a energia que sobrava no Sul ou no Norte não pôde ser transferida para o Sudeste e o Nordeste). O parque gerador também recebeu considerável reforço de usinas termoelétricas e há uma crescente contribuição da energia eólica, ainda que em termos relativos essa participação não ultrapasse 1% da eletricidade consumida.

Mas a verdade é que a oferta de energia depende agora dos humores de São Pedro. A hidreletricidade responde por mais de 70% da capacidade de geração, e praticamente todas as novas usinas hidráulicas operam a fio d’água, ou seja, dependem da vazão dos rios. Se estivessem concluídas, as usinas de Jirau e Santo Antônio, no Madeira, e Belo Monte, no Xingu, poderiam estar operando a plena capacidade em face da grande cheia dos rios que as abastecem.

Os reservatórios remanescentes não mais asseguram o suprimento de eletricidade do país por vários anos, mas sim por meses.

Em pleno período úmido, quando a ocorrência de chuvas abundantes ainda é possível, talvez não faça sentido a adoção já de um plano de racionamento de energia. Com a economia crescendo pouco, o racionamento precipitado poderia ter impacto negativo desnecessário sobre a produção, já debilitada por outros fatores. No entanto, como a situação dos reservatórios está em ponto crítico e a previsão de chuvas é incerta, o mínimo que se deveria esperar das autoridades seria um esforço em prol da racionalização do uso da energia, como primeira iniciativa. No passado, a população e os setores produtivos deram provas de que respondem com presteza aos estímulos à racionalização no consumo de eletricidade. E, se preciso for, todos estariam preparados para o racionamento, em um segundo momento.

O que não pode é o governo ficar de braços cruzados, por causa do ano eleitoral, fingindo que não há qualquer risco de desabastecimento. Por causa de seus interesses políticos, o governo não deveria jogar com a sorte e expor a população a uma situação com consequências muitos sérias se o país tiver de ser submetido, mais tarde, a um forte racionamento de energia.

A 'mediação' de Lula - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 07/03

É de autoria do deputado peemedebista gaúcho Osmar Terra a síntese perfeita do que o PMDB entende ser a sua serventia última para o projeto do segundo mandato da presidente petista Dilma Rousseff. "Somos só 6 minutos de propaganda eleitoral para eles", escreveu no Twitter. "Nada mais!" No entanto, vista a questão pelo ângulo da política como a capacidade de agregar interesses e construir maiorias, tem mais, sim.

As ambições hegemônicas do PT, agigantadas sob Dilma, e os métodos rombudos a que a sigla recorre desde sempre para satisfazê-las impedem que ceda ao aliado à beira de um ataque de nervos pelo menos um pouco do que ele quer pelos minutos de que dispõe. Os petistas, que tanto reverenciam o saber do povo, ignoram uma velha receita popular adequada às circunstâncias: "Não é com vinagre que se pegam moscas, mas com açúcar". No caso, com o doce sabor da ocupação de mais um Ministério aqui, outro acolá, e o rearranjo nas coligações eleitorais nos Estados.

Ao demonstrar inflexibilidade, a presidente e a direção do PT decerto partem da premissa de que o PMDB do vice Michel Temer pode falar o quanto queira em largar a base aliada no Congresso e a empreitada da reeleição, mas não tem para onde ir. Com o segundo mandato praticamente assegurado, quem sabe até no primeiro turno - hão de raciocinar olimpicamente -, e a visceral inaptidão peemedebista para fazer oposição seja lá a que governo, a sua sina seria exorcizar com queixas inconsequentes as mágoas da condição de sócio menor a que se sente relegado. Ao fim e ao cabo, pode ser isso mesmo. Mas pode também ser um autoengano, fruto da incurável soberba petista.

Nada, nada, o PMDB criou na Câmara um "blocão" de oito bancadas, uma delas, a do Solidariedade, pescada na oposição. Os seus 250 deputados representam perto da metade dos 513 membros da Casa. O blocão se propõe a assustar o Planalto com a perspectiva de levar à votação propostas perdulárias que sabotariam o programa de contenção de gastos anunciado pela Fazenda, a menos que o governo sacie os apetites do condutor do "cordão dos chantagistas", como se qualificou neste espaço (em 26/2) a nova frente dita independente.

O cordão ainda não apareceu na avenida, mas a situação está ficando "insustentável", no dizer do presidente em exercício do partido, Waldir Raupp, para quem a crise está chegando ao Senado que ele integra. E Raupp é dos que se opõem a uma ruptura com o PT. Foi nesse clima de Quarta-Feira de Cinzas que desembarcou nesse dia em Brasília o ex-presidente Lula para se reunir no Alvorada com a sucessora e o alto comando de sua campanha. No PMDB, onde deixou saudade, ele é visto como o mediador por excelência do confronto com Dilma, a quem vive recomendando ter mais jogo de cintura.

Resta saber - e não é pouco - o que significa isso na prática. Uma das principais demandas peemedebistas, por exemplo, é receber o suculento Ministério da Integração Regional, que ficou vago com a saída do pernambucano Fernando Bezerra Coelho, do PSB, quando o partido rompeu com o governo. O PMDB quer que a Pasta seja entregue ao senador paraibano Vital do Rêgo. Dilma insiste em oferecer a cadeira ao cearense Eunício Oliveira - só para tirá-lo da corrida pelo governo estadual, como querem os irmãos Cid e Ciro Gomes, que deixaram o PSB para ficar com o governo.

É, de fato, o que parece: um cabo de guerra fisiológico pelo poder, à revelia das populações que mais dependem do governo federal. Não é diferente quando os peemedebistas reclamam de ter apenas 5 Ministérios, ante os 17 do PT. Tampouco é diferente quando o PMDB o acusa de escanteá-lo nas disputas estaduais. Desde a virada do ano, caíram de 16 para 5 as possíveis coligações entre as duas legendas. A principal meta petista, além de tomar do PMDB o governo do Rio de Janeiro, com a candidatura do senador Lindbergh Farias, é ampliar a distância entre a sua majoritária bancada na Câmara e a do aliado nominal.

Tais são os limites impostos pela correlação de forças em Brasília à "mediação" que os peemedebistas esperam de Lula: ele pode aconselhar ou até pressionar Dilma, mas o seu compromisso de raiz é com ela.

Legado posto para escanteio - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 07/03

Às vésperas do Mundial, um dos motivos realmente importantes para o Brasil sediar a Copa perde espaço para apelos de ordem emocional



A passagem da data simbólica dos cem dias para o início da Copa do Mundo provoca dois tipos de contagem regressiva. Os fãs do futebol contam os dias para o pontapé inicial da partida entre Brasil e Croácia, seleções que abrem o Mundial em São Paulo. Mas gestores públicos e esportivos já há algum tempo trabalham com um olho nos canteiros de obras e outro no calendário, pois têm bem menos de cem dias para entregar estádios e obras que deveriam compor o tal “legado” da Copa. Em Curitiba não é diferente, e ainda está fresca na memória de todos as ameaças de exclusão da cidade, feitas pelo secretário-geral da Fifa, Jerôme Valcke, em janeiro, e retiradas em fevereiro.

Entre os poucos bons motivos para o Brasil sediar a Copa do Mundo estava o legado da competição, principalmente na forma de obras de infraestrutura e mobilidade. É claro que muito antes de 2007, quando o Brasil foi anunciado como país-sede, esses dois setores já estavam em uma situação tão desesperadora que estradas, rodoviárias e aeroportos (para ficar em apenas alguns exemplos) clamavam por reformas e ampliações independentemente de haver ou não grandes eventos esportivos. Seria um insulto condicionar tais obras à realização da Copa. Mas o Mundial de futebol pelo menos surgiu como uma espécie de prazo final para que as melhorias saíssem do plano das boas intenções e dos discursos, e finalmente virassem realidade. “Até a Copa estará pronto” virou mote e resposta pronta sempre que se apontava alguma necessidade urgente.

No entanto, boa parte dos sete anos de intervalo entre a confirmação do Brasil como sede e o início da Copa foi completamente desperdiçada. Mesmo antes da definição das cidades-sede, já era certo que as portas de entrada do país, os aeroportos, precisavam de modernização – não apenas por causa do evento, mas pelo natural aumento no fluxo de passageiros. No entanto, levou quatro anos para que o governo finalmente incluísse, em 2011, os aeroportos de Guarulhos (o maior do país), Viracopos (SP) e Brasília no programa de concessões, com o leilão ocorrendo em 2012. Outros dois aeroportos que recebem vários voos internacionais – Galeão (no Rio) e Confins (em Belo Horizonte) – tiveram seu leilão realizado só em novembro do ano passado. A Infraero, estatal que segue controlando os demais aeroportos do país, corre para reformar vários deles, incluindo o Afonso Pena, na Região Metropolitana de Curitiba. A primeira impressão que turistas-torcedores estrangeiros terão do Brasil muito provavelmente será a de um país que não se preparou a tempo para receber a atenção mundial.

A lentidão em nível federal foi replicada nos níveis estadual e municipal. Mesmo considerando que as cidades-sede foram definidas em 2009 (ou seja, dois anos depois da confirmação do Brasil como anfitrião), houve cinco anos para realizar as obras necessárias, mas pelo menos no caso curitibano a máxima de que brasileiro deixa tudo para a última hora também prevaleceu. A reforma da Rodoferroviária, por exemplo, só começou em junho de 2012; o bloco interestadual foi reaberto em setembro de 2013, e até agora funciona sem os pontos de comércio e alimentação, licitados no ano passado; o bloco estadual está sendo reformado, com a promessa de ficar pronto em maio. As obras da Avenida das Torres, com seu viaduto estaiado, também desafiam o cronograma; é difícil passar por ela hoje e acreditar que estará tudo pronto a tempo para receber os visitantes.

Mas, além do legado que talvez não fique pronto para a Copa, é preciso recordar o legado que nem existirá. É o caso do famoso trem-bala ligando o Rio, São Paulo e Campinas (SP). “Nosso projeto é que esteja integralmente pronto em 2014 ou pelo menos o trecho entre Rio e São Paulo” – a promessa, de junho de 2009, foi feita por Dilma Rousseff, então ministra-chefe da Casa Civil e hoje presidente da República. Também o plano curitibano apresentado à Fifa em 2009 como estratégia para conquistar o direito de sediar partidas prometia para 2014 o metrô, um anel ferroviário e renovações em avenidas importantes, como a Visconde de Guarapuava e a Cândido de Abreu. O metrô ficou para depois; o resto foi simplesmente descartado.

Como a Gazeta do Povo mostrou na terça-feira, tanto a Fifa quanto o governo federal já estão deixando de lado a questão do legado para tentar conquistar o brasileiro apelando ao patriotismo e à paixão pelo futebol. Não deixa de ser uma confissão implícita da incapacidade de usar o evento esportivo para promover as melhorias tão aguardadas. Que, no momento de avaliar se a Copa realmente valeu a pena, a população saiba ver muito além da festa e dos resultados dentro de campo.

Atraso em código - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 07/03

A disputa entre Executivo e Legislativo em torno da flexibilização do Código Florestal já se arrasta por década e meia. A última batalha, comandada pela presidente Dilma Rousseff desde 2012, não dá, porém, sinais de concluir-se.

A golpes de vetos, medidas provisórias e decretos, o Planalto logrou conter a ofensiva ruralista em limites razoáveis --apenas para ver o conflito transferir-se, agora, para o campo da regulamentação.

O novo código, definido no final de 2012, criou regras para a regularização de fazendas onde houvera desmatamento ilegal. A precondição para eliminar o passivo ambiental seria comprometer-se com a recuperação de áreas desmatadas e cadastrar a propriedade com imagens digitais num banco de dados, o que viria a facilitar o monitoramento da recomposição.

Pela nova norma, pequenos proprietários enfrentarão exigências mais brandas de recuperação (faixas mais estreitas de área de preservação permanente ao longo de cursos d'água, por exemplo).

Ruralistas defendem a opção de cadastrar terras separadamente, com base nas matrículas dos imóveis. Isso permitiria enquadrar parte das propriedades na categoria com menos obrigações.

Mais uma vez, as posições conflitantes encontram representação no seio do próprio governo federal. De um lado, o Ministério da Agricultura se alinha com os grandes proprietários na defesa do cadastramento a partir das matrículas. De outro, a pasta do Meio Ambiente se inclina pelo conceito de imóvel rural em sua totalidade, mesmo que nos cartórios esteja registrado com várias matrículas contíguas.

Fato é que o agronegócio já obteve vitórias importantes nas diversas escaramuças com o Executivo. O Código Florestal, hoje, mesmo que não seja o diploma dos sonhos dos produtores rurais, é uma lei bem mais compatível com a realidade do campo moderno e produtivo que fornece o lastro insubstituível para evitar o desequilíbrio da balança comercial, com seu superavit na casa de US$ 80 bilhões.

A proposta de desmembrar os imóveis rurais é uma clara tentativa casuística de livrar alguns poucos de obrigações legais e uma burla óbvia ao espírito do novo código. Cabe ao Planalto, e à vanguarda do agronegócio, rechaçar essa manobra em favor do atraso.

Serviços essenciais - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 07/03

O país não pode continuar refém de lideranças insensíveis e oportunistas, que se aproveitam de momentos de visibilidade para impor suas exigências.


A greve dos lixeiros no Rio de Janeiro, que deixou a cidade imunda exatamente no período do Carnaval, expõe mais uma vez o desemparo dos cidadãos brasileiros em relação a serviços essenciais. Assim como já ocorrera com o transporte público em Porto Alegre, os grevistas transformam os usuários em reféns de suas causas, muitas vezes sem sequer se submeterem aos riscos da atitude radical. Como os juízes e os tribunais tendem a ser condescendentes com os trabalhadores, as punições previstas quase sempre são perdoadas, negociadas e transformadas em condição para o retorno ao trabalho. Evidentemente, esta tem que ser a regra geral, até para evitar pressão do poder econômico e dos governantes sobre os trabalhadores. O problema é que algumas categorias se aproveitam dessa leniência e de situações especiais para chantagear. Na antevéspera da Copa do Mundo e das Olimpíadas, o país precisa encontrar antídotos para o grevismo.
Em primeiro lugar, é importante ressalvar que a greve é um direito dos trabalhadores, legítimo e até desejável para o bom funcionamento da democracia. Consiste na suspensão coletiva, temporária e pacífica, total ou parcial, de prestação pessoal de serviços a empregador, sendo ele privado ou público, com a diferença de que no âmbito do primeiro há uma regulamentação clara e no do segundo não. As greves no serviço público continuam desafiando todas as regras, principalmente a do bom senso.
Mas o que falta ao país não são mais leis. É a observância do ordenamento jurídico existente e a efetiva execução do que ele determina. Por exemplo: os grevistas têm o direito de utilizar meios pacíficos para persuadir outros trabalhadores a aderirem às paralisações, mas, em nenhuma hipótese, os meios adotados poderão violar ou constranger os direitos e garantias fundamentais dos outros. Os ônibus depredados em Porto Alegre e as agressões aos garis que desejam trabalhar no Rio escancaram o descumprimento da lei.
Diante de tal situação, potencializada pela manipulação política dos movimentos reivindicatórios num ano eleitoral, o mínimo que se espera das autoridades nesta antevéspera de Copa é a criação de planos de contingenciamento que possam compensar paralisações em serviços básicos, especialmente quando os grevistas descumprirem a exigência legal de evitar prejuízos irreparáveis à população. O Brasil não pode continuar sendo refém de lideranças insensíveis e oportunistas, que se aproveitam de momentos de grande visibilidade, como foi o Carnaval do Rio de Janeiro, para constranger autoridades e colocar suas demandas acima dos interesses coletivos.

Mazelas de uma aliança feita à base do fisiologismo - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 07/03

A eclética aliança montada pelo lulopetismo, da direita trevosa à esquerda delirante, só pode ser mantida pela perspectiva de perpetuação do toma lá, dá cá


O mal-estar entre PMDB e PT vem de longe, alimentado pelo choque entre a vocação petista à hegemonia e o cuidado peemedebista em sempre estar bem localizado nas proximidades dos cofres públicos, para manter a rede de influência estendida em estados e municípios. É por este motivo que o PMDB prescinde da Presidência da República, cargo que implica ônus específicos, desde que seja um aliado preferencial de quem a ocupe.

O bochicho protagonizado em camarotes da Marquês de Sapucaí pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão, e o presidente do PMDB fluminense, Jorge Picciani, da tropa de choque do governador Sérgio Cabral, apenas deu um tom de briga de rua ao velho conflito. Segundo o jornal “O Dia”, ao ser perguntado, no Sambódromo, sobre o que achava de Picciani ser favorável ao apoio ao tucano Aécio Neves nas eleições presidenciais, Falcão atingiu um nervo exposto do partido quando relacionou esta opinião ao fato de o presidente regional da legenda ser ligado ao deputado Eduardo Cunha, também do Rio de Janeiro, líder da bancada na Câmara, considerado cabeça do movimento por mais cargos na reforma ministerial em curso, executada para sedimentar apoios a Dilma nas urnas de outubro. (Registre-se que, de fato, o deputado é conhecido pela volúpia com que se lança a obter vantagens na máquina pública.)

Em resposta, Picciani chamou Rui Falcão de “vagabundo”. Pode ser que o presidente do PT tenha agido como passista de frevo em loja de cristais. Mas este conflito só tende a se agravar, à medida que a presidente Dilma resista a ceder um quinto ministério ao “aliado”, o da Integração Nacional, entre outros mimos. E se mantenha firme em só entregar a Pasta ao líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), para retirá-lo da disputa pelo governo do Ceará, uma ajuda ao aliado Cid Gomes (PROS). Há diferenças entre os dois partidos em vários Estados. Outro é o próprio Rio, em que o senador petista Lindberg Farias se lança ao Palácio Guanabara contra o candidato de Cabral, o vice Pezão, mais um motivo para peemedebistas fluminenses, Eduardo Cunha à frente, prometerem trabalhar pela saída do partido da base do governo e da aliança petista às eleições.

Na verdade, o lulopetismo colhe problemas do fisiologismo que semeou no campo fértil da eclética aliança partidária que articulou, da direita trevosa à esquerda delirante. Esta é uma obra de engenharia política mantida em pé só mesmo pelo toma lá dá cá do fisiologismo. E como político é, em geral, movido pela expectativa de poder, a perspectiva de o PT enfrentar a mais difícil das eleições presidenciais desde a de 2002, devido às dificuldades na economia, a tendência à traição é maior. A simples percepção de alguma viabilidade de candidatos de oposição excita aqueles peemedebistas e outros da base que jamais se preocuparam com projetos de governo, apenas com as benesses do poder. O PT os acostumou mal. Um dos problemas das alianças fisiológicas é que os aliados se mantêm unidos só nos bons momentos.

Vandalismo em escola aposta no atraso - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 07/03
Atos de vandalismo são inaceitáveis em todas as circunstâncias. Seja contra o patrimônio privado, seja contra o público, demonstram estágio de incivilidade incompatível com o século 21. Não faz diferença atacar agências bancárias da Avenida Paulista ou destruir telefones públicos no Entorno do Distrito Federal. São ambos delitos movidos pelo mesmo princípio e, por isso, passíveis de punição.
Investir contra escolas, porém, acrescenta ingrediente preocupante às demais selvagerias. A ação se cobre de caráter simbólico. Reflete o descaso com a educação e, em consequência, com o futuro do país. Se a agressão ocorre repetidas vezes sem que se veja empenho na repressão, o quadro ganha cores mais fortes porque chega às autoridades responsáveis.

É o que ocorre em Ceilândia. Durante os feriados de carnaval, o Centro de Ensino Fundamental 34 (CEF) sofreu violenta invasão. O saldo: segurança e patrimônio perdidos. Foi destruída parte das cerca de 8 mil obras que compõem o acervo da biblioteca. Entre elas, livros didáticos que seriam distribuídos aos estudantes. Cadeiras queimadas, lâmpadas em cacos, material pedagógico inutilizado, documentos espalhados pelo chão fazem parte do triste cenário descoberto na manhã de ontem.

Causa indignação descobrir que o ataque sofrido no carnaval foi o terceiro em três semanas. No primeiro, ladrões roubaram 10 computadores destinados às aulas de informática. No último sábado, atearam fogo na guarita e atacaram as lixeiras. Na quarta, finalmente, sentiram-se suficientemente protegidos para protagonizar mais um capítulo da novela. Dessa vez, com estragos maiores.

O CEF 34 conta com dois vigias. Um está de férias. O outro não pode estar a postos 24 horas por dia. Informada, a Secretaria de Educação não tomou providências. Certos da impunidade, os vândalos ganharam segurança e desenvoltura. Até hoje, os computadores roubados não foram repostos nem foram identificados os autores da barbárie. Os alunos - fim para o qual existem as escolas - vão somando perdas.

Além de aulas, perdem a oportunidade de avançar nos estudos de informática por as máquinas roubadas não terem prazo para serem repostas. Não só. Sabe-se que o medo é um dos responsáveis por evasões e baixo rendimento escolar. A violência que ronda as instituições de ensino, os funcionários e os corpos docente e discente cresce assustadoramente.

Professores sofrem ameaças de retaliação caso façam valer a autoridade, deem notas baixas ou reprovem estudantes. Pior: não há perspectiva de melhora. Faltam projetos aptos a tornar as escolas ambiente convidativo ao estudo e estimulante para o enfrentamento de desafios e a busca de inovação. É aposta no atraso.

A demagogia dos ônibus - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 07/03

O principal argumento utilizado pelo governo de Fernando Haddad para justificar a criação de mais de 300 km de faixas exclusivas de ônibus, que estão dificultando o trânsito em várias regiões da cidade - o de que é preciso dar prioridade ao transporte coletivo para que ele possa atrair paulistanos que se deslocam de carro -, só seria aceitável se a qualidade do serviço oferecida tivesse melhorado a ponto de favorecer essa migração. Mas isso tem sido sistematicamente desmentido pelos fatos, sendo o último deles o descaso do atual governo municipal com a observância de uma regra constante do contrato assinado com as empresas concessionárias, segundo a qual não podem circular ônibus com mais de dez anos.

Reportagem do Estado, com base em dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, mostra que em janeiro existiam na cidade 938 ônibus naquela situação. Segundo a SPTrans, a empresa que gerencia esse tipo de transporte, o número é menor, de 752 veículos, o que não muda nada. Primeiro, porque a proibição está sendo desrespeitada, não importa que eles sejam 938 ou 752. E, finalmente, porque não se pode alegar que nos dois casos os números são pequenos em relação ao total da frota, de 14,8 mil. A existência de apenas uma dezena já seria intolerável, porque demonstraria desleixo.

Se mesmo os ônibus mais novos já não são grande coisa, é fácil imaginar o desconforto causado aos passageiros pelos velhos, com mais de dez anos. Pessoas com dificuldades de se deslocar - por idade, doença ou uma deficiência qualquer - são particularmente prejudicadas, por falta de piso baixo e degraus de embarque muito altos. Em vez de tolerar a circulação irregular de ônibus nessa situação - a idade média dos ônibus é hoje de 5 anos e 8 meses, a mais elevada desde 2006 -, a Prefeitura deveria estar tomando providências para substituir toda a frota por veículos não apenas novos, mas de melhor qualidade.

O modelo de ônibus usado em São Paulo é um desrespeito aos usuários. Ele está mais para vagão de gado do que para transporte público. A falta de cuidado com a divisão interna faz com que os passageiros tenham muita dificuldade de se acomodar, mesmo de pé (sentar é um privilégio de poucos). A falta de transmissão automática, que ajuda a diminuir as frenagens e acelerações bruscas, submete os passageiros a solavancos, que tornam a viagem ainda mais penosa.

Mas não é só isso que impede que se leve a sério as insistentes declarações de Haddad e de seu secretário de Transporte, Jilmar Tatto, de que sua prioridade é o transporte coletivo. Os que andam de carros e se sentem incomodados com os transtornos causados pela multiplicação das faixas - costuma dizer Tatto -, que passem a usar os ônibus. A reorganização das linhas de ônibus, que os especialistas consideram essencial para melhorar o serviço, vem sendo feita timidamente, sem qualquer planejamento - onde estão os estudos técnicos que deveriam orientar as mudanças? - e, o que é pior, mais de acordo com os interesses das empresas que dos usuários. Não custa relembrar que causa estranheza o fato de as empresas, que nunca morreram de amores por essa reorganização, não terem reagido a elas.

Acrescente-se, ainda, que decreto baixado por Haddad, em maio do ano passado, para estabelecer as regras para a licitação do serviço - cujos contratos já vencidos deverão ser rediscutidos e renovados em breve -, permitiu um aumento da lotação dos ônibus, sem que tenham crescido na mesma proporção as dimensões estabelecidas para a maioria dos veículos. Ou seja, um número maior de passageiros terá de se acotovelar em ônibus que, mesmo quando novos, já são desconfortáveis. Somem-se a tudo isso as esperas intermináveis nos pontos, nos horários de pico, e tem-se uma ideia da qualidade do serviço para o qual Haddad quer atrair paulistanos que usam carro.

Não há como fugir à conclusão de que a prioridade ao transporte coletivo, nos termos em que a coloca o prefeito, não passa de demagogia. Os interesses dos passageiros de ônibus vêm em último lugar, e olhe lá.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Para esse [projeto], se justifica a urgência. Outros, não”
Deputado Henrique Alves e seu incomum empenho para aprovar o ‘marco de protestos’



TSE ADVERTE PARA PROPAGANDA ILEGAL NA INTERNET

O ministro Admar Gonzaga, do Tribunal Superior Eleitoral, mandou tirar do ar a página do presidenciável Eduardo Campos (PSB) no Facebook porque se convenceu de que não estava em “ambiente fechado”, como o Twitter, e fazia propaganda eleitoral deslavada. Em conversa com a coluna, ele lembrou que o Judiciário só atua mediante provocação, mas está atento e utilizará os mesmos critérios para examinar outros casos.

DIGITAIS PERNAMBUCANAS

O ministro Admar Gonzaga concluiu que o conteúdo do Facebook tinha como origem o próprio Eduardo Campos ou sua assessoria.

CONFISSÃO NA REDE

O PSB divulgou que Campos não sabia do Facebook, mas a página entrega a autoria: a atrapalhada equipe de mídias sociais do PSB.

PROPAGANDA BEM BOLADA

A oposição se articula para representar contra a página “Dilma Bolada”, que antes ironizava e agora se dedica a divulgar elogios à presidente.

SÓ NÃO VÊ QUEM NÃO QUER

Líder do PSB na Câmara, Beto Albuquerque (RS) espera que o MP examine Dilma Bolada: “Não precisa ser provocado para cumprir a lei”.

ESPERANÇA PARA AÉCIO E CAMPOS

Virtuais candidatos à Presidência, o senador Aécio Neves (PSDB) e o governador Eduardo Campos (PSB) veem na crise entre PT e PMDB uma chance de comprometer a reeleição da presidente Dilma. No mínimo, apostam que o alto grau de descontentamento pode levar o PMDB à mesma postura do PP em 2010, optando pela neutralidade no primeiro turno. Mas Aécio ainda sonha com o apoio formal do PMDB.

CONTRA HEGEMONIA

Diante da ação do PT para aumentar bancada, em detrimento do PMDB, só cresce no partido grupo contrário à aliança com Dilma.

LIBERA GERAL

Dentre patrocinadores do movimento “libera geral” no PMDB estão os diretórios de maior peso na convenção nacional: RJ, MG, RS, PR e CE.

CAMINHO SEM VOLTA

O próprio vice Michel Temer já admite a correligionários que está cada dia mais difícil conter a rebelião e manter a aliança nacional com o PT.

BOBEIRA TUCANA

Amigo do deputado Sergio Guerra, Aécio Neves só conseguiu divulgar nota de pesar 4 horas depois de confirmada a morte do seu antecessor na presidência do PSDB. E uma hora depois da presidente Dilma.

ACERVO VALIOSO

Sérgio Guerra deixou à família valiosa coleção de Cícero Dias, consagrado pernambucano que foi amigo e dividiu atelier com Picasso, em Paris. Em breve retorno ao Brasil, na ditadura, Cícero viveu por dois anos num imóvel de Guerra e pagou o aluguel com muitas telas.

DO ARCO DA VELHA

Se for verdade tudo o que se disse de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), na reunião de Dilma com Lula e agregados, na calada da noite, intriga como o deputado conseguiu escapar, até agora.

GARRAS DE FORA

Demitido do Ministério do Desenvolvimento por Fernando Pimentel e hoje desfrutando de uma boquinha no Planalto, Alessandro Teixeira não larga o osso. Faz lobby para emplacar um amigo, André Cordeiro, de limitada experiência, na diretoria da Apex-Brasil.

PREOCUPAÇÃO

Apesar dos desmentidos, os muitos amigos do ex-ministro do Esporte Orlando Silva se preocupam com supostas sequelas do problema de saúde do qual se recupera. Deveria reaparecer para tranquilizá-los.

PRÉVIA DA EXPLORAÇÃO

A 97 dias da Copa do Mundo, o carnaval já mostrou a prévia do que turistas vão enfrentar: botecos cariocas cobravam R$ 26 por um misto quente e um suco de laranja; R$ 70 por um prato feito com bife.

DEMAGOGIA RASTAQUERA

Maduro rompe com o Panamá “lacaio dos americanos”, mas não rompe com os EUA. Por quê? Compram petróleo da Venezuela e ainda permitem postos em todo o território americano. E pensar que o Brasil se associou a gente dessa laia...

MAU AGOURO

Foi uma sucessão de desastres na TV estatal venezuelana a visita do ditador substituto cubano: não só caiu do mastro a bandeira de Cuba, como apareceu na legenda “Raúl Castro presidente da Venezuela”.

PENSANDO BEM...

...é fácil obter uma trégua na Ucrânia: o senador Suplicy canta e Fidel Castro faz um de seus discursos.


PODER SEM PUDOR

CONVERSA ÀS CEGAS

Wilson Braga era adversário de Ronaldo Cunha Lima, na Paraíba, e tentava se aproximar do político-poeta. Pediu a um amigo comum que promovesse uma reunião dos dois, mas recomendou absoluto sigilo:

- Ninguém pode ver nada!

Cunha Lima não contou conversa:

- Não tem problema: vamos nos encontrar no Instituto dos Cegos!

A reunião não foi realizada e o poeta ganhou a eleição.

quinta-feira, março 06, 2014

Cabeças iluminadas - LUCAS MENDES

BBC Brasil - 06/03

Como é difícil concentrar no importante, pensar com clareza, evitar as banalidades e as chatices. Idade agrava o problema. Faço exercícios para pensar e reagir mais depressa, reforçar a memória, resolver problemas e associar ideias.


Funcionam, garantem os sábios da Universidade Stanford, um ninho de gênios em Palo Alto, na Califórnia. Lá, um grupo de professores criou este programa de exercícios chamado "lumosity".

A sacada é simples. No site Lumosity, há dezenas de exercícios provocantes, bonitos, engraçados e chatos, que medem com números exatos as forças e fraquezas da sua cabeça, progressos, regressos, e compara você com milhares de "lumositários".

Parece científico, simples, claro e preciso, mas tenho minhas dúvidas. Fiz progresso no números, mas todos os dias pergunto "como é mesmo o nome daquele cara"? E daquele filme? Daquele livro? E o pânico de não reconhecer a pessoa que te abraça, beija e convida para jantar?

Nas comparações com pessoas da minha idade, minha péssima memória é melhor do que a de 95% dos praticantes de "lumosity". Quando comparo com a turma de 20, 30 anos, caio para 65%. Números assombrosos.

Quando entrei no jogo, há pouco mais de um ano, "lumosity" era pouco conhecido. Agora brilha na internet. Há estudos pró e contra os efeitos dos exercícios, como há estudos que comprovam e desmentem que é possível exercitar a mente depois de certa idade.

Um outro gênio de Palo Alto, Michio Kaku, começou pela física. No curso secundário, montou na garagem dos pais um poderoso acelerador de partículas para gerar raios gama. Queria criar a antimatéria. Pouco depois, foi descoberto e recomendado por Edward Teller, pai da bomba de hidrogênio.

Michio se formou em primeiro lugar na turma de Física em Harvard, fez doutorado de Berkeley, escreveu livros, apresentou programas de televisão na BBC, tem mais de 70 artigos publicados, enfim, fez, faz e acontece. Mais: é um gênio para simplificar ciência para idiotas, como eu.

Ele é um homem da física quântica em busca da menor partícula do universo, um dos criadores da teoria das cordas. São filamentos parecidos com os da lâmpada incandescente, milhões - ou bilhões? - de vezes menores do que um átomo.

Ou, como ele explica: as partículas ou filamentos são como as notas musicais numa corda vibrante, a física é a harmonia destas cordas, a química é a melodia, o universo é uma sinfonia de cordas e a cabeça de Deus que Einstein tentou decifrar é a musica cósmica que ressona no espaço.

Sacou?

Se tem alguma dúvida, leia o livro dele, recém-lançado, The Future of the Mind, em que Michio Kaku nos conta que o cérebro é o maior mistério do universo e que, nos últimos dez, quinze anos, aprendemos mais sobre ele do que em toda a história. São capítulos com informações vibrantes, das mais metafísicas a aplicações práticas para nossas nossas doenças mentais - da memória fraca ao Alzheimer.

Com US$ 1 bilhão americano, outro bilhão europeu e milhões asiáticos, o cérebro está sendo mapeado, como foi feito com o genoma, mas é muitíssimo mais complicado.

O genoma tem mais ou menos 23 mil genes. O cérebro tem 100 bilhões de neurônios, cada um ligado a outros dez milhões.

Esquizofrenia, epilepsia e Asperger, são conexões defeituosas. O plano é limpar o cérebro de óleos e outras matérias e ter uma visão transparente da fiação com seus filamentos vibrantes e, aí sim, poderemos ver/ouvir a divina música cósmica.

Já é possível fazer um download do cérebro de um rato e a ressonância magnética de um cérebro humano durante um sonho. Num futuro não muito distante, daqui a uma ou duas décadas, vai ser possível fazer umdownload de todas as informações acumuladas num cérebro fragilizado ou ameaçado por doenças e reinseri-las para quando a memória começar a falhar.

Ou, mais assombroso, fazer um download de tudo o que está no nosso cérebro, inclusive voz, uma forma de vida eterna.

Quem está interessado no meu? Não tenho nenhum interesse de pegar o bonde da eternidade.

Meu sonho é um deletador de inutilidades e chatices e um download para achar os óculos e o chaveiro.

Medicina baseada em pessoas - FLAVIO JOSÉ KANTER

ZERO HORA - 06/03

Aos poucos firmei a ideia de não usar computador nos atendimentos


Tornou-se comum o uso do computador na área da saúde. Acessam-se protocolos baseados no conhecimento científico comprovado e atual, que sugerem como investigar e tratar pacientes. Há diretrizes para tratar e monitorar doenças crônicas. Praticamos medicina baseada em evidências, onde se decide apoiado no melhor conhecimento vigente. Há consensos que reúnem a informação disponível e recomendam as melhores práticas.
Prontuário eletrônico organiza e disponibiliza informação de forma ágil e eficiente. Decidi que não o usaria em meu consultório há anos. Um colega informatizou o consultório. É competente em sua área, temos vários pacientes em comum. Quando ele foi um dos primeiros a usar prontuário eletrônico, achei que deveria fazer o mesmo. Logo porém, um paciente que atendíamos contou que a consulta com o colega havia mudado: “…ele quase não me olhou, só olhava a tela e digitava no computador…” Essa observação gerou a dúvida. Aos poucos firmei a ideia de não usar computador nos atendimentos. Este instrumento entrou em nossa vida e trabalho. Em muitas ocasiões o utilizo para buscar informação, mesmo durante atendimentos. Mas não mudei, o foco da consulta é e tem que ser na pessoa. Se algo puder interferir na atenção, temos que evitar. Há quem utiliza prontuário eletrônico sem desviar o foco. Este não tem que mudar.
Há dias uma senhora sentiu-se tonta ao levantar, caiu, bateu a cabeça. Buscou atendimento no único hospital da cidade onde estava. Foi colocada no protocolo de infarto do miocárdio, embora faltassem muitos elementos para pensar em infarto. Após horas repetindo exames, já cansada e sentindo-se bem, retirou-se sob o protesto da equipe técnica, pois pelo protocolo faltava mais uma bateria de exames. Protocolos e computadores mal utilizados não ajudam, podem atrapalhar.
Atendimento médico é único e individual, não há dois iguais, cada pessoa é única, cada caso é peculiar. O encontro da pessoa com o médico não se repete nem padroniza. Se o foco for o meio (o registro) ao invés da finalidade (o atendimento), perde-se qualidade.
Pacientes perguntam por vezes se não vou aderir ao prontuário eletrônico. Conto-lhes a história do colega que deixou de olhar para os pacientes, e invariavelmente ouço situações vividas por eles que confirmam o desvio do foco. Isso acho inaceitável. O foco do médico continua e não pode deixar de ser na pessoa.

Quanto vale uma obra de arte? - CONTARDO CALLIGARIS

FOLHA DE SP - 06/03

Você acharia certo colocar vidas humanas em perigo para salvar tesouros culturais e artísticos?


Um jornalista perguntou a Marcel Duchamp: se você estivesse no museu do Louvre no meio de um incêndio e pudesse salvar só um quadro, qual obra você salvaria?

Duchamp tinha a (merecida) reputação de ser um provocador, e o jornalista talvez esperasse levá-lo a confessar algum amor envergonhado por uma obra clássica. Mas Duchamp respondeu à altura de sua reputação; ele disse, sem hesitar: "Salvaria o quadro que está mais próximo da saída".

Era também um jeito de dizer que nenhuma obra, para ele, justificaria que alguém se expusesse ao risco de perder a vida. Não é surpreendente, vindo de um artista que passou a segunda e maior parte de sua existência sem produzir obra alguma e tentando transformar sua própria vida numa obra de arte.

De qualquer forma, será que eu, se estivesse num hipotético incêndio, tentaria salvar um Duchamp? Pensei em duas obras que talvez valessem o esforço, "O Grande Vidro" e o "Nu Descendo a Escada". O "Nu", de 1912, é um quadro cubista, e eu não sou muito fã do cubismo (se fosse um Cézanne pré-cubista, já seria outra história).

"O Grande Vidro" tem o problema de ser, justamente, grande e de vidro --péssimo para transporte apressado em caso de incêndio. Os quadros que Duchamp pintou antes de 1912 são respeitáveis, mas só isso. E, quanto aos "ready-mades" (a roda de bicicleta, o urinol etc., que ele genialmente assinou e transformou em arte), o que importa é o ato, o conceito. Será que vou arriscar a vida por um urinol industrial, só porque ele foi assinado por Duchamp? Mesmo se o urinol fosse destruído, o ato de Duchamp não seria perdido; bastaria que alguém o relatasse e o interpretasse direito.

Nessa perspectiva, obras de arte conceitual ou de arte póvera, por exemplo, não valeriam o sacrifício de ninguém, nunca. Mas melhor não generalizar. (Nota. A pergunta é muito útil como quiz na hora de selecionar um casal: você encararia o incêndio para um Jackson Pollock? E para um Carpaccio?)

O filme "Caçadores de Obras-Primas", de George Clooney, é baseado em três livros de Robert M. Edsel, "Caçadores de Obras-Primas, Salvando a Arte Ocidental da Pilhagem Nazista" (Rocco) e também "Saving Italy" e "Rescuing Da Vinci" (com uma copiosa documentação fotográfica).

Edsel conta a história dos "Monuments Men", mais de 300 homens e mulheres de diferentes países que, durante a Segunda Guerra Mundial, no teatro de operações europeu, foram encarregados de salvar o patrimônio cultural da destruição e do saque. Eram diretores de museus, curadores, historiadores da arte etc.

A questão levantada pelo filme de Clooney não sai facilmente da cabeça: faz sentido colocar vidas humanas em perigo para salvar obras-primas?

Engraçado. Em geral, achamos aceitável morrer por dinheiro (muitos topariam correr riscos extremos numa grande caça ao tesouro). Também entendemos que alguém se sacrifique pelos princípios fundamentais nos quais ele acredita. E consideramos meritório morrer para salvar outras vidas. Mas para salvar uma obra de arte?

O filme de Clooney, que apresenta um verdadeiro dilema moral, responde mais ou menos assim: as obras de arte do passado (longínquo ou não) nos representam e nos definem. Sobreviver não é suficiente, é preciso preservar o patrimônio que nos lembra quem somos.

Concordo, mas a questão é complexa. As grandes obras do nosso passado, o políptico dos Van Eyck em Ghent ou a madona de Michelangelo em Bruges, são patrimônio de nossa cultura. Ora, somos todos filhos dessa mesma cultura, tanto nós, que nos identificamos com a cavalaria dos aliados, quanto os outros, que tentaram destinar a Europa à barbárie totalitária.

Os Van Eyck e Michelangelo são, em suma, antepassados de todos, de quem inventou os campos e de quem morreu neles: as obras são o passado de nossa civilização --e nossa civilização inclui nossa barbárie.

Outra complexidade vem do fato de que a ideia do valor insubstituível de cada vida humana é um achado recente. Até 200 anos atrás, havia pletora de coisas que pareciam valer mais do que a vida: a honra, a palavra dada, a fé... Por que não uma obra de arte?

Antes de negar com indignação, um teste. Você acha intolerável a troca de uma obra pela vida de um homem? Entendo. Mas imagine o pacto mágico seguinte: você poderia salvar da destruição "O Beijo", de Klimt, à condição de desejar que o pastor Feliciano contraia uma pneumonia grave. Sem hipocrisia, ok?

O sol negro da melancolia - MARIO SERGIO CONTI

O GLOBO - 06/03

‘A calma dos dias’, livro de Rodrigo Naves, mistura ensaios sobre a cena contemporânea — reality shows, Gisele Bündchen, Michael Jackson — com pequenas ficções, perfis e obituários de artistas e amigos, análises de obras e indagações filosóficas

Rodrigo Naves, ficcionista e crítico de artes plásticas, se perdeu ao andar de carro pela cidade de Santos. Buscou placas que o orientassem na barulhenta algaravia de seres, coisas e fumaça. Topou com uma que dizia: Lar das Moças Cegas. “Um retiro de paz e silêncio pousou sobre a tarde agitada”, escreveu ele a respeito da visão. As palavras obsoletas, o mundo de noite e calma ao qual a placa remetia, o tiraram de súbito do presente da cidade vibrante e confusa. Lares não há mais. Moças tampouco. E os cegos tornaram-se há tempos deficientes visuais.

O Lar das Moças Cegas não lhe inspirou pena. Imaginou que moravam ali jovens operosas. Elas recolheriam apostas na lotérica à direita da fachada. Organizariam as terapias ocupacionais anunciadas numa faixa de pano. Empenhadas no bem-estar de seus semelhantes, as ceguinhas viviam do seu trabalho. Nas horas de folga talvez conversassem, costurassem, ouvissem música. “Com a delicadeza de quem precisou aguçar os sentidos, cuidavam para não invadir territórios alheios”, prossegue Naves em “A calma dos dias”, que a Companhia dos Livros acaba de publicar.

O Lar existe, e a descrição no livro lhe é fiel. Quanto ao que se passa com as moças, é tudo imaginação de Naves, “devaneios, momentos em que a continuidade dos dias e dos hábitos se interrompe”. Perdidaço no presente nacional, Naves capta poesia densa, ainda que numa vírgula do cotidiano; deixa-se encantar pelas evocações; imagina dignidade num mundo obscuro. Não é pouco.

E é só o começo. As moças cegas o ajudam a pensar dimensões incômodas da vida contemporânea. O Lar delas é contraposto à transparência da Casa dos Artistas, do Big Brother Brasil e de tantas residências “que fazem a delícia do público televisivo mundial”. Nessas casas, nota o escritor, como tudo é devassado, os seus moradores são reduzidos a corpos, a bíceps e glúteos. E o que os corpos fazem o tempo todo é se tatearem, diminuir a distância que os separa. O excesso de tato com que as santistas anônimas compensam a cegueira corresponde ao tato excessivo dos devassados nos BBB.

Naves desdenha a explicação corriqueira para as intimidades hiperexpostas: busca de erotismo e índices de audiência. Nas casas de boneca da TV o mundo se torna doméstico e apreensível, ele diz, e quanto mais complexa a vida contemporânea, mais agradáveis se tornam as explicações caseiras. O fenômeno não se restringe à indústria cultural. Ele começou na cultura dita superior. A arquitetura pós-moderna recuperou a fachada, transformando edifícios em casinhas. As instalações imperam nas artes plásticas, e a maior parte delas não passa de ninhos. O romance, arte que buscava a vida social, foi atropelado por biografias que trombeteiam a intimidade de indivíduos tidos por excepcionais. A alta costura é vista como grande arte, o que domestica a criação artística para torná-la ponta de lança da indústria da moda.

“A calma dos dias” mistura ensaios sobre a cena contemporânea — reality shows, Gisele Bündchen, Michael Jackson — com pequenas ficções, perfis e obituários de artistas e amigos, análises de obras e indagações filosóficas. Nuns textos sobressai o ensaísta de “A forma difícil”, livro que consolidou a sua reputação de grande crítico. Noutros, brilha o ficcionista de “O filantropo”, um escafandrista das fissuras do cotidiano.

Em “A calma dos dias”, o crítico e o ficcionista estão banhados pelo sol negro da melancolia. As artes plásticas sucumbem ao mercado e ao dinheiro, quando não à teorização que oblitera obras e homens. A arte se torna tão rarefeita que o crítico perde o objeto, deixa de ter o que analisar. Já a vida passa cada vez mais rápido. Os achaques se sucedem. O álcool, as drogas, o estudo, o sexo, a amizade, a política, talvez até mesmo o amor, deixam de ter aquele gosto.

O mundo objetivo e a existência subjetiva, como se sabe, se confundem. Difícil é saber quando falta vento social para mover o moinho da arte. Ou então se não há mais obras e indivíduos que captem a mudança de vento. A metáfora do vento e do moinho é de Van Gogh, e serviu de título para o livro anterior de Naves. Em “A calma dos dias”, ela reaparece: “temo ser hoje quase inaudível o rumor que moveu tantos engenhos”. Continua a faltar algo, mas é preciso fazer alo, nem que seja arrumar a mesa.

“Há horas de lutar e horas de se entregar”, dizia Mira Schendel aos amigos pouco antes de morrer. “Ouvi várias vezes essa frase no último mês, e confesso que sem a menor cumplicidade e, talvez, sem a menor compreensão do sentido da decisão de Mira”, relata Naves no livro. O seu livro, obra de um inconformista conformado, é sobre isso: luta e entrega na calma dos dias de moinhos imóveis.

NOME E SOBRENOME - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 06/03

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais confirmou: José Alencar, ex-vice-presidente morto em 2011, é o pai da professora Rosemary Moraes. Os desembargadores endossaram o entendimento de que a recusa do político em fazer o teste de DNA gerava a presunção da paternidade.

ÚLTIMA ETAPA
O caso se arrastava há 13 anos. Em jogo, além do reconhecimento, está a possibilidade de Rosemary ser incluída na partilha de uma herança avaliada em alguns bilhões. Os advogados da família de Alencar ainda devem tentar reverter a decisão no STJ (Superior Tribunal de Justiça).

É ELE
Nelson Biondi será o marqueteiro da campanha de Geraldo Alckmin (PSDB-SP) à reeleição. Há meses ele participava de reuniões com o governador, mas sua contratação foi definida somente na semana passada.

TABULEIRO
O jornalista Marcio Aith, secretário de Comunicação de Alckmin, pode deixar o cargo para se incorporar à equipe de campanha. O governador estuda a ideia, mas ainda não bateu o martelo.

ENTRE NÓS
E o deputado federal Duarte Nogueira, presidente do PSDB, é a opção de Alckmin para ser candidato a vice em sua chapa na disputa por mais um mandato. Ele é de Ribeirão Preto e ligado ao agronegócio. Seu nome deve prevalecer caso a opção seja mesmo por uma chapa puro-sangue.

NA EQUIPE
Carente de nomes para indicar a vice, o DEM, no caso de ficar de fora da chapa de Alckmin, seria compensado com participação em secretarias em um eventual novo governo tucano.

GARFO
Ronaldo deve almoçar com ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) em Brasília até o fim do mês. Diz que a iniciativa partiu dele próprio. Em pauta, a Copa.

OLHO NO LANCE
Pela primeira vez, o homenageado do festival Risadaria não será um comediante: em ano de Copa do Mundo, o escolhido foi o locutor Silvio Luiz, por imprimir humor e irreverência às narrações esportivas e que completa 80 anos em 2014. O Risadaria ocorre entre 4 e 13 de abril em SP.

Nas edições anteriores foram homenageados os humoristas Chico Anysio, Jô Soares, Renato Aragão e Carlos Alberto de Nóbrega.

SEM PASSADO
A cineasta Tata Amaral está finalizando o longa "Trago Comigo", inspirado numa série exibida na TV Cultura. O filme, que será protagonizado por Carlos Alberto Ricelli, conta a história de um homem que perdeu todas as lembranças do período em que ficou preso na ditadura. A previsão de lançamento é para o ano que vem.

EU, HEIN?
O diretor Jayme Monjardim se diz perplexo por ter seu nome envolvido na polêmica dos anúncios de Roberto Carlos para a Friboi. "Eu só dirijo os shows dele, não tenho nada a ver com essa publicidade", afirma, desmentindo citações feitas em reportagens e redes sociais. Ele pensa até em pedir para a TV Globo divulgar uma nota esclarecendo o episódio.

DESCONHEÇO
O anúncio gerou polêmica já que Roberto Carlos se declarava vegetariano. Até o cineasta Fernando Meirelles meteu o garfo na confusão, dizendo que o cantor nem sequer tocou na carne quando gravou o comercial. "Eu nem sei se o Roberto come carne ou não", diz ainda Monjardim.


EU TAMBÉM QUERO BEIJAR

Antes da saída do bloco Me Beija que Eu Sou Cineasta, músicos e organizadores fizeram um mutirão de limpeza para recolher o lixo acumulado na praça Santos Dumont, na Gávea, na manhã de ontem. O último suspiro do Carnaval carioca atraiu logo cedo os atores Miguel Thiré e Humberto Carrão, primeiros foliões famosos a abrir o já tradicional cordão da Quarta-Feira de Cinzas.

FANTASIA DE CARNAVAL

A atriz Marina Ruy Barbosa foi tietada pelo namorado, o ator Klebber Toledo, na última noite de desfiles na Sapucaí. O diretor Jayme Monjardim também acompanhou a preparação da mulher, a cantora Tânia Mara, antes da entrada da Grande Rio na avenida. Cathy Guetta, mulher do DJ David Guetta, foi outra convidada que se produziu no camarote da escola.

CHEGUEI, RECIFE

As empresárias Carla Bensoussan e Flora Gil se associaram para levar o camarote Expresso 2222 ao Recife neste Carnaval. O casal de atores Cléo Pires e Rômulo Arantes Neto foram alguns dos convidados que passaram por lá. As atrizes Danielle Winits e Fernanda Paes Leme também estiveram no espaço, que teve sua primeira edição fora da Bahia.


CURTO-CIRCUITO

O músico Hermeto Pascoal faz ensaio aberto no Bourbon Street, no dia 18, às 21h30. 18 anos.

O espetáculo "Terça Insana" tem temporada no Teatro Folha até dia 29 de abril. 14 anos.

O cantor Sidney Magal se apresenta na casa noturna Rey Castro no dia 21, a partir das 22h. 18 anos.

Estranhas conexões - LUIS FERNANDO VERISSIMO

O Estado de S.Paulo - 06/03

Aquela teoria de que no máximo seis graus separam qualquer pessoa de qualquer outra pessoa no mundo, viva ou morta, pode levar a conexões surpreendentes. Quem se lembra de uma musica cantada pelo Sacha Distel num filme da Brigitte Bardot, se não me falham os neurônios, chamada Scoubidou ("Les pommes, les poires et les scoubidoubidou-ah"), não sonha que a origem da música é uma composição do americano Lewis Allan, Apples, Peaches and Cherries, maçãs, pêssegos e cerejas, popularizada pela cantora Peggy Lee, nem que Lewis Allan era o pseudônimo de Abel Meeropol, poeta comunista, autor de, entre outras coisas, um poema que ele mesmo transformou em música chamado Strange Fruit, que a Billie Holiday cantava chorando. As "estranhas frutas" pendendo de árvores no Sul dos Estados Unidos, no poema de Meeropol, são os corpos de negros linchados.

Billie Holiday insistia em cantar Strange Fruit apesar de protestos. Não era uma música adequada para o público branco que a ouvia, em lugares muitas vezes racialmente segregados, e sua insistência quase lhe custou a carreira. Era incomum, na época, artistas negros se manifestarem abertamente contra o racismo, ainda mais na forma pungente da composição de Meeropol. Alguém chegou a dizer que se a revolta contra o racismo no Sul americano um dia chegasse a crescer e se organizar, o movimento já tinha a sua Marseillaise. Mas enquanto isto não acontecia, quem manteve a música viva, de maneira quase clandestina, foi Billie Holiday. Que morreu sem ver a revista Time citar Strange Fruit como uma das músicas mais importantes do século 20.

Abel Meeropol foi um compositor de sucesso popular como "Lewis Allan" mas nunca deixou de ser um ativista político, chamado muitas vezes a explicar suas atividades - inclusive a autoria de Strange Fruit - diante da inquisição anticomunista. Foi ele quem adotou os filhos de Julius e Ethel Rosemberg, executados na cadeira elétrica como espiões soviéticos em 1953.

De Strange Fruit a Scoubidou, do casal Rosemberg ao casal Brigitte Bardot-Sacha Distel... Não sei quantos graus separam estes dois extremos, de gravidade e frivolidade. Certamente menos do que os seis da teoria. Como é mesmo aquela frase? O mundo dá muitas voltas. Às vezes, tonteia.

Ueba! Acabou o Lepo Lepo! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 06/03

As peladas do sambódromo estão mais costuradas que o Frankenstein. Se um peito explodisse, ia ter luta de gel


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! ACAAAABÔ! Acabou a Grande Festa da Esculhambação Nacional! Chega de bunda! Agora tem que encarar o Brasil de frente! Com ou sem tapa-sexo? Rarará!

E como eu digo todo ano: agora é rebolar pra pagar o cartão. Passa cinco dias rebolando nos blocos e um ano rebolando pra pagar o cartão! E hoje cedo um pernambucano levantou a placa: "Faltam 364 dias pro Carnaval!".

E adorei os blocos de Quarta-Feira de Cinzas. Direto do Rio: Bate Pra Mim Que Eu Tô Cansado. Cansado, nada. Exausto. Bate pra mim que eu tô exausto!

E direto de Jacarepaguá: Pau Com Cãibra. Efeito colateral do Carnaval: pau com cãibra! E este de Osasco: Dei Tanto Que Tô Até Rouco. E Quarta-Feira de Cinzas se chama Quarta-Feira de Cinzas porque o seu dinheiro virou cinzas.

E em São Paulo teve um bloco sem música: Bloco Sem Música! Bloco mudo! E em outro bloco apareceu um grupo de Fridas Kahlos. Todos fantasiados de Frida Kahlo. Só paulista se fantasia de Frida Kahlo no Carnaval!

E o Aécio Neves foi vaiado em Maceió e foi vaiado em Salvador. Carnavaia! E eu passei dois dias ouvindo a Valesca Popozuda cantando "Mamãe, Eu Quero". Carnatrash!

E as peladas apeladas? As peladas do sambódromo estão mais costuradas que o Frankenstein. E se um peito daquele explodisse, ia ter luta de gel na avenida! E aquela que saiu com um paetê na perereca e ainda elogiou o estilista. Estilista de perereca!

E o site "OCocoTaSeco" fez uma lista das coisas que se precisa recuperar depois do Carnaval: os pés, a carteira, o fígado, o juízo, o caráter e o bom gosto musical!

E esse bloco de psiquiatras: Quem Ri Por Último, RIVOTRIL! Como disse uma amiga: "Finalmente um bloco pra chamar de meu!". E em Pernambuco saiu o bloco Chupa e Faz Tudo. Deve ser o bloco do PMDB! Rarará!

E acabou o Lepo Lepo! Lepo Lepo agora só na Copa!

E adorei o Oscar. Só teve pizza e "selfie"! No próximo ano vai ter Oscar pra Melhor Pizza e Melhor "Selfie"! E o Oscar de Melhores Defeitos Especiais: os estádios da Copa! Oscar de Melhor Defeito Especial: Itaquerão. Rarará!

Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Embala que o filho é teu - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 06/03


Partidos da base, encabeçados pelo PMDB, apelam pela volta do ex-presidente Lula ao comando da articulação política eleitoral, como em 2010. Reclamam da falta de tato do presidente do PT, Rui Falcão, e da dificuldade em conversar com a presidente Dilma. Lula é o pai da ampla aliança que sustenta o governo e deve assumir as rédeas, dizem os aliados, que temem um desgaste irreversível.

Assim caminha a Humanidade
Por pouco não acontece uma tragédia durante o desfile do bloco Simpatia É Quase Amor, em Ipanema. Depois de furtar algumas pessoas, um menino foi interceptado por dois pitboys. Um deles deu um chute violento na cabeça do garoto, e ele voou até o meio-fio. Os dois começaram a gritar "bandido bom é bandido morto!" e começaram a espancá-lo, até ficar desacordado no chão. Passando pelo tumulto, a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) parou para ver o que estava acontecendo. Os pitboys só pararam porque ela ameaçou filmar e chamar a polícia. Jandira fez procedimentos de primeiros socorros até que o garoto acordou e acabou fugindo.



“As ruas ficaram imundas por causa da greve dos garis ou porque a maioria das pessoas joga lixo no chão, sem cerimônia?”
Ricardo Berzoini
Deputado federal (PT-SP)

Apagando o incêndio
Ex-líder do PT na Câmara, o deputado José Guimarães (CE) entrou em campo ontem propondo entendimento com os peemedebistas. Está conversando com deputados e dirigentes sugerindo trégua de ambas as partes.

Dona do tempo
Em reunião com líderes aliados, o ministro Aloizio Mercadante falava no tempo de TV da presidente Dilma à reeleição. "Ela tem 13 minutos, hegemonia e o governo", dizia, até ser interrompido por um deputado que atravessou: "Dilma não tem 13 minutos, tem quatro. Quem tem 13 minutos somos nós, o conjunto da base, e não o PT".

Discutindo a relação
O presidente do PSDB, Aécio Neves, ouviu do principal aliado, o DEM, reclamação de que o partido foi preterido em Minas Gerais, ficando fora da chapa majoritária. Os democratas esperam que o mesmo não ocorra na composição nacional.

Cães de caça
Certos de que a Câmara vai aprovar a criação de uma comissão externa para ir à Holanda investigar contratos da Petrobras, três deputados já se habilitaram em suas siglas para a tarefa: Fernando Francischini (SDD-PR), Carlos Sampaio (PSDB-SP) e Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), que renovou o passaporte às pressas para não perder a viagem.

Sarney na avenida
O senador José Sarney (PMDB-AP) virou tema da escola Embaixada de Samba Cidade de Macapá, com o enredo "Do Maranhão ao Amapá, a viagem de um poeta vencedor". Ele não foi ao desfile. A escola ficou em 2° lugar no Grupo de Acesso.

Deu a louca
Elevadores do Planalto passaram a ter mensagens de voz, invariavelmente, erradas. "Hoje é 20 de dezembro de 2012", disparou a gravação a um ministro e assessores. "Achei que fosse a máquina de voltar no tempo", brincou, às gargalhadas.

O SENADO BRASILEIRO sediará, dos dias 6 a 9 de agosto, o G-20 Parlamentar. Foram convidados Espanha e Colômbia, que não integram o grupo.

Pé na estrada - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 06/03

A menos de um mês de deixar o governo de Pernambuco para se dedicar à campanha presidencial, Eduardo Campos inicia hoje maratona de visitas a 18 microrregiões do Estado. O pré-candidato do PSB vai visitar mais de 70 empreendimentos, muitos ainda em fase de execução, principalmente nas áreas de transportes, recursos hídricos, educação e saúde. O objetivo é dar subsídios ao discurso, que será usado no pleito, de que seu governo tem mais a entregar que o de Dilma Rousseff.

Escudeiros Na caravana, Campos deverá estar sempre acompanhado da chapa majoritária do PSB pernambucano: o secretário de Fazenda, Paulo Câmara, candidato ao governo, e o ex-ministro Fernando Bezerra Coelho, postulante ao Senado.

Símbolo A escolha de Câmara para sucedê-lo teve também um componente de comparação com o PT: Campos quis sinalizar ao mercado que o sucessor é responsável pela saúde fiscal do Estado, no momento em que o governo federal é questionado nesse fundamento.

Procuração A reunião de ontem entre Dilma e Lula, da qual participou todo o comando da pré-campanha, teve por objetivo fortalecer o presidente do PT, Rui Falcão, para enfrentar o líder do PMDB e mentor do chamado "blocão" independente da Câmara, Eduardo Cunha (RJ).

Recreio Principal fiador da aliança PT-PMDB, o vice-presidente Michel Temer passou o Carnaval nos parques da Disney, em Orlando. Diante da crise entre as siglas e a rebelião peemedebista, um aliado brinca: "Melhor o Pateta original que os daqui".

Pós-folia Com o aval do presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), os líderes do "blocão" querem destrancar a pauta de votações na Casa a partir da semana que vem, para tentar reverter a marca de pior índice de produção em dez anos.

Piloto O primeiro projeto a testar a disposição legiferante dos deputados deve ser o marco civil da internet, que o governo quer ver aprovado, mas que conta com grande resistência de parcela dos deputados, capitaneada peplo próprio Cunha. Depois dessa, há várias matérias da chamada pauta-bomba fiscal.

Avant... Dilma receberá nessa semana uma cópia do filme "Corte seco", do cineasta Renato Tapajós. A presidente, ex-presa política, será a primeira a assistir ao longa-metragem, que conta a história de quatro militantes presos na Operação Bandeirante que foram torturados.

... première "Passei por isso", disse Tapajós à coluna. O filme custou R$ 1,2 milhão, teve patrocínio da Petrobras e traz cenas explícitas de tortura. Uma delas dura dez minutos, nos quais um personagem é submetido a sessões de pau de arara, choque e afogamento em água e sal grosso.

Torneira A ANA (Agência Nacional de Águas) determinou à Sabesp que limite a 27,9 m³ por segundo a retirada de água do sistema Cantareira. A média histórica é de 33 m³/s, e hoje esse volume está em 29 m³/s. Ainda assim, o governo de São Paulo descarta adotar rodízio de água.

Vem cá 1 Enquanto o STF (Supremo Tribunal Federal) não define de vez a regra para pagamento de precatórios, a Prefeitura de São Paulo vai convocar, a partir da semana que vem, os credores interessados em fazer acordo para receber esses títulos, desde que com 50% de deságio.

Vem cá 2 O estoque de precatórios é, juntamente com a dívida, o principal problema financeiro da capital. Depois de fechar o acordo com os credores, a prefeitura vai esperar a decisão do STF para fazer os pagamentos.

com BRUNO BOGHOSSIAN e PAULO GAMA

tiroteio
"As fichas dos equívocos do governo estão caindo. Agora, banco oficial não vai mais usar o Tesouro para subsidiar o crédito."

DE LUIZ PAULO VELLOZO LUCAS, ex-prefeito de Vitória e assessor econômico do PSDB, sobre o Tesouro não injetar mais recursos para empréstimo na Caixa.

contraponto


Questão de ponto de vista

O deputado Izalci Lucas (PSDB-DF) chegou ao plenário do Senado há algumas semanas animado após ver uma pesquisa recente sobre intenções de voto para presidente da República, realizada em Brasília, em que Aécio Neves (PSDB) aparecia com ligeira vantagem na liderança, à frente da presidente Dilma Rousseff.

--E aí? Já viu nosso presidente hoje? --perguntou o deputado ao chegar a uma roda de conversa.

--Não, hoje ainda não falei com Eduardo Campos --respondeu o senador Rodrigo Rollemberg, líder do PSB no Senado, que também é de Brasília.

Mais um capítulo da crise - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 06/03

Daqui a uma semana, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado pode votar o projeto que altera o indexador da dívida de estados e municípios. Originalmente, apoiado pelo Planalto, a ideia foi abortada pelo próprio Executivo Federal para não passar a imagem de irresponsabilidade fiscal.
Na semana passada, o ministro Aloizio Mercadante pediu ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), ao líder do governo na Casa, Eduardo Braga (PMDB -AM) e do PMDB, Eunício Oliveira (CE), que adiassem a análise do projeto, pois as agências de rating estarão no país para avaliar a saúde
financeira do país.
Mas a CCJ é presidida pelo senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), o ex-quase-futuro ministro de Dilma. E, além do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, também pressionam para aprovar o projeto o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro. A pressão será grande.

Uma coisa…
O PT sabe que terá dificuldades na campanha ao governo estadual em São Paulo. A luta, por enquanto, é levar a disputa para o segundo turno, algo que não acontece desde 2002, quando o mesmo Geraldo Alckmin derrotou Jose Genoino.

…de cada vez
Para isso, mesmo que Alexandre Padilha atinja os 30% de votos válidos que o PT tradicionalmente conquista, é preciso que haja outras candidaturas competitivas para drenar votos do PSDB. E elas seriam, pela ordem, Paulo Skaff (PMDB) e um nome apoiado pelo PSB/Rede.

Piloto automático
O PT também reconhece que enfrentará uma batalha no interior. “São Paulo talvez seja o estado em que a influência do governo seja menos perceptível. O paulista tradicional pede apenas que o governador não atrapalhe os negócios dele”, resumiu o presidente da Associação Brasileira dos Municípios, Eduardo Tadeu Pereira.

www.vaquinha.com
A Secretaria de Organização do PT distribuiu um e-mail ontem afirmando que os filiados e filiadas inadimplentes que não quitarem suas dívidas com o partido não poderão concorrer a nenhum cargo Executivo ou Legislativo.

Charminho
Novo cotado para assumir o Ministério do Turismo, o senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), que há seis meses está para ser chamado ao Executivo, e a nomeação nunca chega, admite que pode não aceitar a nova pasta que está sendo oferecida. A desculpa é que não quer comprar brigar com o PMDB na Câmara, que indicou o atual titular, Gastão Vieira (MA).

Samba…./ O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (foto) aproveitou o carnaval de domingo na Marquês de Sapucaí ao lado da nova esposa Patrícia Kundrát e o filho Paulo Henrique. Até arriscou uns passinhos de samba no pé. Quem viu, garante que ele dança melhor que o filho.

…do grande amor/ Mangueirense de coração, FHC não deu sorte à escola, que ficou apenas em 8º lugar na classificação geral. Mas Patrícia gostou do que viu, principalmente porque, segundo ela, a escola “trouxe à tona os protestos de junho”.

Longa data/ FHC e Patrícia começaram a namorar há cerca de dois anos, mas quem conhece a musa do tucano afirma que o “F” que ela tatuou no braço foi feito antes desta data, quando ela ainda era apenas secretária no Instituto Fernando Henrique Cardoso.