O Estado de S.Paulo - 15/01
O livro Assassinato de Reputações (Topbooks, 2013), do policial e advogado Romeu Tuma Júnior, faz revelações de alto teor explosivo sobre a atuação do mais popular político brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o autor, Lula foi o informante chamado Barba do pai dele, Romeu Tuma, delegado que chefiou o setor de informações da polícia política na ditadura militar, dirigiu a Polícia Federal (PF) e foi senador da República. A obra contesta a versão oficial da polícia estadual paulista, comandada por tucanos, e da direção do partido de Lula, o PT, sobre o assassínio de seu companheiro e prefeito de Santo André Celso Daniel, quando este coordenava o programa de governo na primeira campanha vitoriosa do petista-mor à Presidência. Como indica o título, ele relata minuciosamente o uso de dossiês falsos montados contra adversários em época de eleições. Tuma assegura ainda ter provas de que ministros do Supremo Tribunal Federal tiveram seus telefones grampeados. E registra a atuação ilícita de arapongas da Agência Brasileira de Inteligência em operações da PF, caso da Satiagraha.
Tuminha, como o próprio autor do livro se autodenomina para se distinguir do pai, Tumão, teve o cuidado de esclarecer que o agente Barba não delatou nem prejudicou ninguém. Ao contrário, em sua opinião, ele teria prestado benignos serviços ao País e à democracia permitindo que o Estado (então sob controle dos militares) acompanhasse o movimento operário de dentro. Delatores nunca são benquistos nem benditos, mas Lula pode ser a primeira exceção a essa regra consensual que vige nos presídios, nos palácios, nas ruas, nas casas e em quaisquer outros locais, aqui como em outros países, e sob democracias ou ditaduras. No entanto, não há notícia de que nenhuma das Comissões da Verdade criadas pelo governo federal do PT e do PMDB e por administrações estaduais ou municipais tenha aberto alguma investigação a respeito da atuação de um dirigente político e gestor público importante como ele.
No livro O que Sei de Lula, de 2011, revelo que houve uma reunião em São Paulo do então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema com o major Gilberto Zenkner, subordinado do chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), general Octávio Aguiar de Medeiros. Este travava intensa luta pelo poder contra o chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, que enviara o presidente do partido do governo em São Paulo, o ex-governador Cláudio Lembo, para pedir ao líder dos metalúrgicos em greve apoio público à volta e reintegração dos exilados com a abertura e a anistia. O líder negou-o, Medeiros duvidou da informação dada a Figueiredo, mandou conferir e Lula reafirmou a negativa.
Justiça seja feita, Lula sempre confirmou em público ter mantido excelentes relações com o mais célebre xerife na transição da ditadura para a democracia. E chegou mesmo a gravar carinhosa mensagem usada por Tumão na sua propaganda política em campanha para o Senado. Quer dizer: ninguém pode afirmar que haja provas de que ele tenha sido delator, mas também ninguém apareceu para desmentir a versão de Tuminha nem a reunião com o emissário de Medeiros.
Tuminha faz no livro um relato de razoável verossimilhança do sequestro e assassinato de Celso Daniel com a autoridade de quem era, à época, o delegado de Taboão da Serra, onde o prefeito foi executado. O governador de então (e hoje), o tucano Geraldo Alckmin, afastou o policial do caso e transferiu a investigação para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, alegando que o funcionário poderia aproveitar-se da exposição na mídia para se eleger deputado estadual. O inquérito feito pela cúpula da polícia paulista, apoiado e aplaudido pelo comando petista, é contestado pela família da vítima e a sequência de fatos que o autor reproduz na obra sugere que o crime está longe de ter sido elucidado.
Tuma Júnior nunca foi oposicionista nem adversário de Lula. Ao contrário, foi nomeado por este para comandar a Secretaria Nacional de Justiça, ocasião em que muitas vezes, segundo afirma, foi procurado por figurões de alto coturno do governo e do PT para produzir inquéritos contra adversários. Novidade não é: o falso dossiê contra José Serra na campanha para o governo paulista é tão público e notório que, contrariando o seu hábito de nunca ver, nunca ouvir, nunca saber, Lula apelidou de "aloprados" os seus desastrados autores. Nenhum destes, contudo, foi investigado e punido. E seu eventual beneficiário, o candidato petista derrotado por Serra na eleição, Aloizio Mercadante Oliva, é ministro da Educação e tido e havido como um dos principais espíritos santos de orelha da chefe e correligionária Dilma Rousseff. Mas os fatos lembrados no livro de Tuminha impressionam pela quantidade e pela desfaçatez das descaradas tentativas de usar o aparelho policial do Estado Democrático de Direito para assassinar reputações de adversários eleitorais, tratados como inimigos do povo.
O policial denuncia delitos de supina gravidade na obra. No entanto, desde que o livro foi lançado e evidentemente recebido com retumbante sucesso de vendas, não assomou à cena nenhum agente público ou mesmo um membro da tíbia oposição que resolvesse ou desmascarar as possíveis patranhas do autor ou investigar as informações dadas por ele e que seriam passíveis de desmentido ou confirmação. Pois o protagonista das denúncias do delegado continua sendo o eleitor mais importante do Brasil e se prepara para consagrar seu poste Dilma Rousseff, reelegendo-a. Pelo simples fato de que não há eleitores preocupados com as aventuras do agente Barba na ditadura, com a punição dos assassinos de Celso Daniel ou com os inimigos dos poderosos do momento contra os quais foram fabricados falsos dossiês. Há algo de podre no Reino da Dinamarca, mas, como se sabe, a pátria de Hamlet fica longe daqui.
quarta-feira, janeiro 15, 2014
Oficial e paralelo - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 15/01
No oficial o que se diz no PSB é que a aliança com Marina Silva vai muito bem. Os vetos impostos por ela a potenciais aliados que a desagradam são contornáveis e que na realidade há muito menos divergências entre os parceiros do que relatam versões disseminadas alegadamente por interesse dos adversários.
No paralelo não é bem assim. O próprio governador de Pernambuco já deu a impressão a mais de um interlocutor de que a convivência com a ex-senadora não é desprovida de conflitos e desconfortos.
Na avaliação de gente que acompanha de perto o andar dessa carruagem, se tivesse pensado um pouco naquela madrugada do dia 4 para 5 de outubro do ano passado, não teria dito um entusiasmado sim à proposta de Marina de se abrigar no PSB até que a Rede Sustentabilidade obtenha o registro na Justiça Eleitoral.
Seja qual for o cenário mais próximo da verdade, fato é que os empecilhos até agora apontados não têm nada de extraordinário. Por isso mesmo, tampouco a movimentação pré-eleitoral dá qualquer sinal de que, juntos, Marina Silva e Eduardo Campos dão exemplo de como se faz a "nova política".
Por ora, tudo tem transcorrido nos moldes habituais: incorporação de novos aliados (PSDB) ao governo de Pernambuco, defesa dos interesses de cada um dos integrantes da aliança na formação de coalizões estaduais, pressão por candidaturas próprias, tudo o que nesta altura acontece nos demais partidos.
Inclusive gestos aparentemente inexplicáveis, comuns nessa fase em que ninguém ainda quer abrir totalmente o jogo.
Um mistério apenas ronda a união que causou frisson na política: o anúncio da decisão do governador Eduardo Campos de abrir mão do apoio aos tucanos em São Paulo em troca de Marina Silva aceitar ser candidata a vice. Ora, não era isso que estava combinado desde o início, não foi nesses termos que os dois se acertaram?
Pois então, qual o impasse a ser resolvido? Pela lógica inexiste a hipótese de a ex-senadora não compor a chapa. Se fosse para não ser candidata, ela não teria se filiado ao PSB. Ficaria sem partido e seu apoio seria cobiçado da mesma forma.
Empurra. Para atender a Lula, o PT do Rio já adiou três vezes a data do desembarque dos cargos que ocupa no governo Sérgio Cabral, tema que seria discutido ontem pelo partido.
A prática de "segurar" gente que quer se desgarrar é usual. Recentemente aconteceu com Geddel Vieira Lima. Ele levou quase três meses para conseguir a exoneração de uma das vice-presidências da Caixa Econômica Federal a fim de se "liberar" para fazer oposição ao PT como candidato ao governo da Bahia pelo PMDB.
O pedido de demissão foi enviado no dia 1.º de outubro. Sem resposta. No dia 23 de dezembro, depois de várias tentativas, Vieira Lima disse ao vice-presidente, Michel Temer, que não viraria o ano sem deixar a CEF.
Temer pediu então que fosse enviada nova carta com data de dezembro. Assim foi feito, mas com a inclusão da expressão "reitero meu pedido" no início do texto.
Puro-sangue. Assim como o senador Aécio Neves prefere escolher alguém do PSDB para vice na chapa presidencial, o governador Geraldo Alckmin também quer a companhia de um tucano na disputa à reeleição ao governo de São Paulo.
Os motivos são diferentes. Aécio acha que o critério regional vale mais que o partidário. Por exemplo, ganharia mais votos escolhendo um vice de São Paulo do que reeditando a aliança com o DEM. Já Alckmin, se ganhar, em 2018 precisará sair do governo em abril para concorrer a outro cargo - provavelmente o Senado - e não quer deixar o Palácio dos Bandeirantes nas mãos de um partido que não o PSDB.
No oficial o que se diz no PSB é que a aliança com Marina Silva vai muito bem. Os vetos impostos por ela a potenciais aliados que a desagradam são contornáveis e que na realidade há muito menos divergências entre os parceiros do que relatam versões disseminadas alegadamente por interesse dos adversários.
No paralelo não é bem assim. O próprio governador de Pernambuco já deu a impressão a mais de um interlocutor de que a convivência com a ex-senadora não é desprovida de conflitos e desconfortos.
Na avaliação de gente que acompanha de perto o andar dessa carruagem, se tivesse pensado um pouco naquela madrugada do dia 4 para 5 de outubro do ano passado, não teria dito um entusiasmado sim à proposta de Marina de se abrigar no PSB até que a Rede Sustentabilidade obtenha o registro na Justiça Eleitoral.
Seja qual for o cenário mais próximo da verdade, fato é que os empecilhos até agora apontados não têm nada de extraordinário. Por isso mesmo, tampouco a movimentação pré-eleitoral dá qualquer sinal de que, juntos, Marina Silva e Eduardo Campos dão exemplo de como se faz a "nova política".
Por ora, tudo tem transcorrido nos moldes habituais: incorporação de novos aliados (PSDB) ao governo de Pernambuco, defesa dos interesses de cada um dos integrantes da aliança na formação de coalizões estaduais, pressão por candidaturas próprias, tudo o que nesta altura acontece nos demais partidos.
Inclusive gestos aparentemente inexplicáveis, comuns nessa fase em que ninguém ainda quer abrir totalmente o jogo.
Um mistério apenas ronda a união que causou frisson na política: o anúncio da decisão do governador Eduardo Campos de abrir mão do apoio aos tucanos em São Paulo em troca de Marina Silva aceitar ser candidata a vice. Ora, não era isso que estava combinado desde o início, não foi nesses termos que os dois se acertaram?
Pois então, qual o impasse a ser resolvido? Pela lógica inexiste a hipótese de a ex-senadora não compor a chapa. Se fosse para não ser candidata, ela não teria se filiado ao PSB. Ficaria sem partido e seu apoio seria cobiçado da mesma forma.
Empurra. Para atender a Lula, o PT do Rio já adiou três vezes a data do desembarque dos cargos que ocupa no governo Sérgio Cabral, tema que seria discutido ontem pelo partido.
A prática de "segurar" gente que quer se desgarrar é usual. Recentemente aconteceu com Geddel Vieira Lima. Ele levou quase três meses para conseguir a exoneração de uma das vice-presidências da Caixa Econômica Federal a fim de se "liberar" para fazer oposição ao PT como candidato ao governo da Bahia pelo PMDB.
O pedido de demissão foi enviado no dia 1.º de outubro. Sem resposta. No dia 23 de dezembro, depois de várias tentativas, Vieira Lima disse ao vice-presidente, Michel Temer, que não viraria o ano sem deixar a CEF.
Temer pediu então que fosse enviada nova carta com data de dezembro. Assim foi feito, mas com a inclusão da expressão "reitero meu pedido" no início do texto.
Puro-sangue. Assim como o senador Aécio Neves prefere escolher alguém do PSDB para vice na chapa presidencial, o governador Geraldo Alckmin também quer a companhia de um tucano na disputa à reeleição ao governo de São Paulo.
Os motivos são diferentes. Aécio acha que o critério regional vale mais que o partidário. Por exemplo, ganharia mais votos escolhendo um vice de São Paulo do que reeditando a aliança com o DEM. Já Alckmin, se ganhar, em 2018 precisará sair do governo em abril para concorrer a outro cargo - provavelmente o Senado - e não quer deixar o Palácio dos Bandeirantes nas mãos de um partido que não o PSDB.
Um comentário e dois fatos - ROBERTO DAMATTA
O GLOBO - 15/01
Nenhuma pessoa pode ser presa duas vezes: uma pelo sistema legal e outra pelos poderes que agem dentro dos presídios
Na medida em que fico mais velho e, como o diabo, vou conhecendo melhor a ingratidão e a maldade humanas, observo que os jornais — que a cada semana noticiam cada vez mais infâmias e desgraças — comprovam meus piores palpites.
Como entender a rede simultânea de negócios pessoais e de estado da governadora do Maranhão, por exemplo, cujas prisões são explodidas à barbárie, forçando uma intervenção branca de Brasília numa medida tomada a pulso, pois que ela indicia o sistema prisional brasileiro como um todo?
Como ter prisões padrão Fifa para os mensaleiros e padrão nacional para os criminosos comuns? Esses presos que não são ninguém, porque a eles faltam advogados sofisticados, amigos poderosos e compadres no governo? Ou, eis o ponto cego do sistema, sem filiação a alguma “facção” que controla por dentro e por fora o estabelecimento? E como ficar surpreso com a ausência de prisão e com a tal impunidade que queremos liquidar se o nosso sistema legal é explicitamente desenhado para impedir que um alguém — um famoso — seja preso?
Como prender se as prisões continuam a ser lugares para “indivíduos” — para os sem laços com o mundo? Não há como ter um sistema democrático sem uma polícia e prisões decentes. Nenhuma pessoa pode ser presa duas vezes: uma pelo sistema legal e outra pelos poderes que agem dentro dos presídios.
Eu fazia esse comentário quando o professor Richard Moneygrand me interrompeu e perguntou:
— Você viu as duas notícias mais intrigantes da semana?
— Sem dúvida. Elas não falam do que acabo de dizer?
— Sim e não — respondeu Moneygrand, que, se hospedando comigo em Niterói, abandonara a sua amada Zona Sul carioca, onde tem tantos amigos famosos e importantes. — A primeira grande notícia é a do fugitivo americano que preferiu voltar às grades a enfrentar em liberdade o frio extremado que varre o meu país. Coisa que nenhum de vocês, brasileiros sem advogado, bons amigos e padrinhos no governo, seriam capazes de fazer. Aliás, o calor de certo modo impede algo semelhante porque seria impensável para o espirito reacionário brasileiro ter celas com ar-condicionado.
— E a segunda novidade? — questionei um tanto irritado com meu amigo.
— Bem — disse ele, segurando com carinho a mão de sua sétima ou oitava esposa, a Jean Morris, uma ruiva alta e arredondada, especialista em genocídio e holocausto, de mais ou menos 35 anos.
Dick Moneygrand, amigos, passou dos 80 e tantos, mas insiste em dizer que namora, fica apaixonado e escreve poesias para as suas Julietas, como ele diz em tom cretino. Afinal, inteligência nem sempre corresponde a bom discernimento.
— A segunda novidade — continuou meu amigo. — é que Lady Gaga salvou do suicídio um jovem gay brasileiro falando pessoalmente com ele pela internet. Esses novidades libertam-me das infâmias políticas do vosso nobre país, obrigando-me a refletir sobre a arte e a vida.
— Devo continuar? — indagou meu velho mentor com aquele seu jeitão tranquilo e superior que eu tanto invejo.
— Claro! — respondi, aproveitando para renovar a dose do meu calado e invencível faixa-preta escocês.
Quando eu leio que um prisioneiro se entrega para fugir do frio eu entendo que não há nenhuma brecha entre vida e arte. A vida nos engloba; a ficção é apenas uma outra faceta da própria vida. O fato a ser visto é que nós acabamos para a vida, enquanto a vida, quando narrada num conto, romance ou filme, faz o oposto: é ela que acaba para nós como uma história, um livro a ser posto numa estante. Por isso, precisamos tão desesperadamente das narrativas. Elas, como os rituais, têm principio, meio e fim. A vida não tem. E nós, um dia, viramos histórias ou simples notícia, como dizia aquele poema do vosso Drummond.
— O escritor americano O. Henry — prosseguiu Moneygrand. — que foi por alguns anos presidiário em Ohio, escreveu um conto chamado “O policial e o hino” (publicado em 1904) no qual (veja como o mundo se repete) um vagabundo tenta ser preso (como sempre fazia) para escapar do inverno de Manhattan. Na prisão, como também mostra Chaplin, inspirado nas mesmas contradições da democracia igualitária e do capitalismo industrial, em “Tempos modernos” (exibido em 1936), o vagabundo consciente, cínico e profissional de O. Henry transforma-se num involuntário desempregado e teria cama, comida e agasalho. Melhor a prisão do que o inverno num parque.
Parece fácil ir para prisão, mas O. Henry mostra que não é. Seu herói malandro tenta um bocado de truques para ser enjaulado. Do rotineiro comer e não pagar num restaurante; de bancar o maluco, gritando e pulando na rua, até o gesto violento de atirar uma pedra na vitrine de uma loja de luxo. No truque de comer sem pagar ele é impedido pelos garçons; no fingimento da loucura, o policial pensa que ele é um estudante comemorando a vitória do time da sua universidade; nem quando é mais violento ele é preso, pois quem jogaria uma pedra numa vitrine e ficaria esperando pela polícia? O guarda vai atrás de um sujeito que corria atrás de um táxi. Ele tenta, então, roubar sem disfarce o guarda-chuva de um homem no balcão de um bar. Discutem, um policial se aproxima, o vagabundo profissional pensa que vai conseguir, mas o homem confessa que ele próprio havia encontrado o guarda-chuva por engano e concorda em deixá-lo com o nosso herói. Desesperado porque não conseguia ser preso, o malandro decide assediar uma jovem mulher. Mas logo descobre que a jovem é uma prostituta que lhe oferece um programa. (Continua na próxima quarta-feira)
Nenhuma pessoa pode ser presa duas vezes: uma pelo sistema legal e outra pelos poderes que agem dentro dos presídios
Na medida em que fico mais velho e, como o diabo, vou conhecendo melhor a ingratidão e a maldade humanas, observo que os jornais — que a cada semana noticiam cada vez mais infâmias e desgraças — comprovam meus piores palpites.
Como entender a rede simultânea de negócios pessoais e de estado da governadora do Maranhão, por exemplo, cujas prisões são explodidas à barbárie, forçando uma intervenção branca de Brasília numa medida tomada a pulso, pois que ela indicia o sistema prisional brasileiro como um todo?
Como ter prisões padrão Fifa para os mensaleiros e padrão nacional para os criminosos comuns? Esses presos que não são ninguém, porque a eles faltam advogados sofisticados, amigos poderosos e compadres no governo? Ou, eis o ponto cego do sistema, sem filiação a alguma “facção” que controla por dentro e por fora o estabelecimento? E como ficar surpreso com a ausência de prisão e com a tal impunidade que queremos liquidar se o nosso sistema legal é explicitamente desenhado para impedir que um alguém — um famoso — seja preso?
Como prender se as prisões continuam a ser lugares para “indivíduos” — para os sem laços com o mundo? Não há como ter um sistema democrático sem uma polícia e prisões decentes. Nenhuma pessoa pode ser presa duas vezes: uma pelo sistema legal e outra pelos poderes que agem dentro dos presídios.
Eu fazia esse comentário quando o professor Richard Moneygrand me interrompeu e perguntou:
— Você viu as duas notícias mais intrigantes da semana?
— Sem dúvida. Elas não falam do que acabo de dizer?
— Sim e não — respondeu Moneygrand, que, se hospedando comigo em Niterói, abandonara a sua amada Zona Sul carioca, onde tem tantos amigos famosos e importantes. — A primeira grande notícia é a do fugitivo americano que preferiu voltar às grades a enfrentar em liberdade o frio extremado que varre o meu país. Coisa que nenhum de vocês, brasileiros sem advogado, bons amigos e padrinhos no governo, seriam capazes de fazer. Aliás, o calor de certo modo impede algo semelhante porque seria impensável para o espirito reacionário brasileiro ter celas com ar-condicionado.
— E a segunda novidade? — questionei um tanto irritado com meu amigo.
— Bem — disse ele, segurando com carinho a mão de sua sétima ou oitava esposa, a Jean Morris, uma ruiva alta e arredondada, especialista em genocídio e holocausto, de mais ou menos 35 anos.
Dick Moneygrand, amigos, passou dos 80 e tantos, mas insiste em dizer que namora, fica apaixonado e escreve poesias para as suas Julietas, como ele diz em tom cretino. Afinal, inteligência nem sempre corresponde a bom discernimento.
— A segunda novidade — continuou meu amigo. — é que Lady Gaga salvou do suicídio um jovem gay brasileiro falando pessoalmente com ele pela internet. Esses novidades libertam-me das infâmias políticas do vosso nobre país, obrigando-me a refletir sobre a arte e a vida.
— Devo continuar? — indagou meu velho mentor com aquele seu jeitão tranquilo e superior que eu tanto invejo.
— Claro! — respondi, aproveitando para renovar a dose do meu calado e invencível faixa-preta escocês.
Quando eu leio que um prisioneiro se entrega para fugir do frio eu entendo que não há nenhuma brecha entre vida e arte. A vida nos engloba; a ficção é apenas uma outra faceta da própria vida. O fato a ser visto é que nós acabamos para a vida, enquanto a vida, quando narrada num conto, romance ou filme, faz o oposto: é ela que acaba para nós como uma história, um livro a ser posto numa estante. Por isso, precisamos tão desesperadamente das narrativas. Elas, como os rituais, têm principio, meio e fim. A vida não tem. E nós, um dia, viramos histórias ou simples notícia, como dizia aquele poema do vosso Drummond.
— O escritor americano O. Henry — prosseguiu Moneygrand. — que foi por alguns anos presidiário em Ohio, escreveu um conto chamado “O policial e o hino” (publicado em 1904) no qual (veja como o mundo se repete) um vagabundo tenta ser preso (como sempre fazia) para escapar do inverno de Manhattan. Na prisão, como também mostra Chaplin, inspirado nas mesmas contradições da democracia igualitária e do capitalismo industrial, em “Tempos modernos” (exibido em 1936), o vagabundo consciente, cínico e profissional de O. Henry transforma-se num involuntário desempregado e teria cama, comida e agasalho. Melhor a prisão do que o inverno num parque.
Parece fácil ir para prisão, mas O. Henry mostra que não é. Seu herói malandro tenta um bocado de truques para ser enjaulado. Do rotineiro comer e não pagar num restaurante; de bancar o maluco, gritando e pulando na rua, até o gesto violento de atirar uma pedra na vitrine de uma loja de luxo. No truque de comer sem pagar ele é impedido pelos garçons; no fingimento da loucura, o policial pensa que ele é um estudante comemorando a vitória do time da sua universidade; nem quando é mais violento ele é preso, pois quem jogaria uma pedra numa vitrine e ficaria esperando pela polícia? O guarda vai atrás de um sujeito que corria atrás de um táxi. Ele tenta, então, roubar sem disfarce o guarda-chuva de um homem no balcão de um bar. Discutem, um policial se aproxima, o vagabundo profissional pensa que vai conseguir, mas o homem confessa que ele próprio havia encontrado o guarda-chuva por engano e concorda em deixá-lo com o nosso herói. Desesperado porque não conseguia ser preso, o malandro decide assediar uma jovem mulher. Mas logo descobre que a jovem é uma prostituta que lhe oferece um programa. (Continua na próxima quarta-feira)
Termômetro quebrado - RAQUEL LANDIM
FOLHA DE SP - 15/01
SÃO PAULO - Se o governo Dilma não tivesse atuado para "administrar" a inflação, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) teria fechado 2013 em mais de 7% --bem acima dos 5,9% registrados oficialmente e da margem de tolerância da meta de inflação (6,5%).
A estimativa expurga a redução forçada da energia elétrica, o congelamento das tarifas de ônibus e a defasagem do preço da gasolina em relação ao mercado externo, que tanto castiga a Petrobras.
Cálculos como esse pipocam nas consultorias e nos departamentos econômicos dos bancos do país. O objetivo dos técnicos é tirar os efeitos da contenção dos preços administrados, da contabilidade criativa nas contas públicas ou até de registros atípicos da balança comercial.
Na área fiscal, na qual está o principal problema, os repórteres se empenham para desvendar qual é a manobra da vez do governo, que inevitavelmente aparece.
A lista do que já foi feito é longa: gordos dividendos das estatais, triangulação de receitas entre os órgãos públicos, mudanças nas regras que estabelecem a própria meta fiscal e, agora, postergação de pagamentos a fornecedores, Estados e municípios.
O problema é que vai se criando um clima de desconfiança no país em relação aos indicadores econômicos. Felizmente ainda estamos longe da Argentina, que partiu para a pura e simples falsificação dos números.
Mas é uma estrada tortuosa, porque os indicadores são vitais para o planejamento das empresas e do próprio governo. Já é visível no país o desânimo para investir e esse pode ser um dos motivos.
O que mais assusta é que o governo acredita nos números que "fabrica". Se ignoram os sintomas e insistem que somos um país com inflação controlada, contas públicas em ordem e balança superavitária, como acertar o diagnóstico e o remédio?
Quando o paciente está com febre, não adianta quebrar o termômetro.
SÃO PAULO - Se o governo Dilma não tivesse atuado para "administrar" a inflação, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) teria fechado 2013 em mais de 7% --bem acima dos 5,9% registrados oficialmente e da margem de tolerância da meta de inflação (6,5%).
A estimativa expurga a redução forçada da energia elétrica, o congelamento das tarifas de ônibus e a defasagem do preço da gasolina em relação ao mercado externo, que tanto castiga a Petrobras.
Cálculos como esse pipocam nas consultorias e nos departamentos econômicos dos bancos do país. O objetivo dos técnicos é tirar os efeitos da contenção dos preços administrados, da contabilidade criativa nas contas públicas ou até de registros atípicos da balança comercial.
Na área fiscal, na qual está o principal problema, os repórteres se empenham para desvendar qual é a manobra da vez do governo, que inevitavelmente aparece.
A lista do que já foi feito é longa: gordos dividendos das estatais, triangulação de receitas entre os órgãos públicos, mudanças nas regras que estabelecem a própria meta fiscal e, agora, postergação de pagamentos a fornecedores, Estados e municípios.
O problema é que vai se criando um clima de desconfiança no país em relação aos indicadores econômicos. Felizmente ainda estamos longe da Argentina, que partiu para a pura e simples falsificação dos números.
Mas é uma estrada tortuosa, porque os indicadores são vitais para o planejamento das empresas e do próprio governo. Já é visível no país o desânimo para investir e esse pode ser um dos motivos.
O que mais assusta é que o governo acredita nos números que "fabrica". Se ignoram os sintomas e insistem que somos um país com inflação controlada, contas públicas em ordem e balança superavitária, como acertar o diagnóstico e o remédio?
Quando o paciente está com febre, não adianta quebrar o termômetro.
Em busca de nós - RODRIGO CRAVEIRO
CORREIO BRAZILIENSE - 15/01
A humanidade precisa se reencontrar, recuperar um pouco da dignidade perdida pela ganância de poder, pela força do dinheiro, pela hipocrisia e pela ditadura da intolerância. Buscar a paz, reduzida a arroubo de sonhadores e em uma quase utopia. "Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda", já dizia Carl Gustav Jung, o pai da psicologia analítica. Talvez o que nos falte é olhar para nosso interior, à procura da essência humana. Fazer com que esse despertar seja a força motriz para mover o mundo em direção oposta aos nossos egos e às nossas ganâncias. Somos vilões de nós mesmos. De nossos impulsos, nossas falhas, nossos medos e desejos.
Ofertamos carinho e amor a nossos filhos, mas fazemos vista grossa ao genocídio de milhares de crianças na Síria e na África. Defendemos o combate à corrupção, mas não pensamos duas vezes antes de furar a fila ou de burlar leis básicas de convivência social. Exigimos educação e respeito, mas nos negamos a oferecer, à gestante ou ao idoso, o assento preferencial no metrô ou no ônibus lotado. Escravos do relógio, ignoramos as vagas de estacionamento para pessoas com deficiência. Também pouco nos importa se, atrás das grades, homens decapitam homens e ordenam queimar inocentes dentro de ônibus. Ali do lado, nossas autoridades se empanturram de lagosta e de salmão.
Sonhamos com um mundo pacífico. Ficamos chocados com torcedores se matando nas arquibancadas, mas urramos de êxtase ao ver pessoas se arrebentando sobre um ringue. A nossa Constituição apregoa que temos direito à saúde, mas o governo nos deixa morrer à míngua, em uma fila de hospital, numa retribuição aos impostos pagos em dia. Somos, na teoria, iguais perante a lei, mas os menos favorecidos muitas vezes são considerados à margem dela, pela polícia e pelo próprio sistema. Desesperados, sedentos por respostas e por um alento ao sofrimento, muitas vezes acabamos vítimas de líderes religiosos que usam o nome de Deus para amealhar riquezas. E de políticos que cospem promessas vazias e, quando conquistam o poder, vilipendiam os sonhos e as necessidades dos eleitores. Perdidos, procuramos o mínimo de sensatez em um mundo cada vez mais insensato.
Tudo errado - IGOR GIELOW
FOLHA DE SP - 15/01
BRASÍLIA - À primeira vista, parece aquela reprise de filme ruim que intercepta irresistivelmente sua ida para a cama. Falo do "rolezinho".
Em junho de 2013, vimos também um movimento ganhar corpo e ser alimentado pela reação assustadiça do poder público e da mídia, só para degenerar em oportunismos e na anarquia manipulável dos "black blocs". Há diferenças, a começar pela escala indefinida hoje. A surpresa no ar pode ser mero exagero.
Mas o "rolezinho" não é, como querem os profetas progressistas da Vila Madalena (ou do Leblon, ou de setores do governo), a expressão máxima do oprimido. É uma molecagem que, com boa vontade, poderia ser vista como saudável na origem, mas está fadada a se perder.
É batata. A "Kulturkampf" de rede social instalada no país, alimentada pela prática de poder do PT e pela "intelectualidade" à esquerda, sempre transforma qualquer incidente em episódio épico de uma luta de classes na qual só há um lado certo.
É óbvio que a liminar instalando triagem social e a truculência de PMs são atos complementares de reatividade estúpida ao fenômeno. Repressão desmedida gera radicalização.
Mas também é líquido que shoppings são opções quase únicas de espaço aberto nas nossas cidades. Você gostaria de encarar com seu filho grupos desenfreados num corredor estreito? É inseguro, e nem falo da inevitável infiltração que o fenômeno terá de bandidos espertalhões.
Multidão é multidão, seja na área VIP de boate, em estádio de futebol ou no "rolezinho". É preciso regras de convivência para todos.
O embate do "rolezinho" pode servir de denúncia social, mas só se for da falência civilizacional do Brasil. O fato de a rua ter sido substituída pelo shopping, numa medíocre parceria público-privada para vender segurança ilusória, é sintoma disso.
Ao menos é democrático. Garotada, donos de shopping, PMs, ricos e pobres: estão todos errados.
BRASÍLIA - À primeira vista, parece aquela reprise de filme ruim que intercepta irresistivelmente sua ida para a cama. Falo do "rolezinho".
Em junho de 2013, vimos também um movimento ganhar corpo e ser alimentado pela reação assustadiça do poder público e da mídia, só para degenerar em oportunismos e na anarquia manipulável dos "black blocs". Há diferenças, a começar pela escala indefinida hoje. A surpresa no ar pode ser mero exagero.
Mas o "rolezinho" não é, como querem os profetas progressistas da Vila Madalena (ou do Leblon, ou de setores do governo), a expressão máxima do oprimido. É uma molecagem que, com boa vontade, poderia ser vista como saudável na origem, mas está fadada a se perder.
É batata. A "Kulturkampf" de rede social instalada no país, alimentada pela prática de poder do PT e pela "intelectualidade" à esquerda, sempre transforma qualquer incidente em episódio épico de uma luta de classes na qual só há um lado certo.
É óbvio que a liminar instalando triagem social e a truculência de PMs são atos complementares de reatividade estúpida ao fenômeno. Repressão desmedida gera radicalização.
Mas também é líquido que shoppings são opções quase únicas de espaço aberto nas nossas cidades. Você gostaria de encarar com seu filho grupos desenfreados num corredor estreito? É inseguro, e nem falo da inevitável infiltração que o fenômeno terá de bandidos espertalhões.
Multidão é multidão, seja na área VIP de boate, em estádio de futebol ou no "rolezinho". É preciso regras de convivência para todos.
O embate do "rolezinho" pode servir de denúncia social, mas só se for da falência civilizacional do Brasil. O fato de a rua ter sido substituída pelo shopping, numa medíocre parceria público-privada para vender segurança ilusória, é sintoma disso.
Ao menos é democrático. Garotada, donos de shopping, PMs, ricos e pobres: estão todos errados.
Robert Pastor, um atrevido campeão - ELIO GASPARI
O GLOBO - 15/01
Uma praga persegue os americanos: quando estão do lado certo, ninguém se lembra do que fizeram
Morreu há poucos dias o professor americano Robert Pastor. Tinha 66 anos e chegou à Casa Branca aos 29, como assessor do presidente Jimmy Carter para assuntos latino-americanos. Era miúdo, atrevido e tenaz. Quando as pessoas se acabam, é comum que delas falem os amigos. De Pastor deve falar um adversário, o general Carlos de Meira Mattos, destacado chefe militar da ditadura. Combateu na Itália com a FEB, ocupou militarmente o governo de Goiás em 1964, chefiou a brigada que ocupou a República Dominicana em 1965 e comandou o cerco e fechamento do Congresso brasileiro no ano seguinte. Autor de diversos livros sobre geopolítica, em 1976 estava em Washington, na Junta Interamericana de Defesa. Nessa época, Rosalynn, a mulher do presidente Jimmy Carter visitou o Brasil e, surpreendentemente, entrevistou-se com dois missionários americanos que viviam com mendigos e foram metidos numa enxovia pela polícia pernambucana. A cena foi para a primeira página dos jornais brasileiros e americanos.
Meira Mattos escreveu ao seu chefe:
"Após a desastrosa repercussão na imprensa norte-americana da viagem da Sra. Carter, estou convencido de que tudo foi preparado com antecedência." (Tinha razão.) "Quem está dirigindo a política particular de Carter é um grupo de jovens instalados na Casa Branca. (...) Sob o pretexto de política de direitos humanos, todos os esforços estão sendo feitos por esse grupo para afastar cada vez mais os EUA dos países governados por militares." (Tinha razão, de novo.)
Entre os jovens, estava "Robert Pastor na Secretaria de Segurança Nacional, que funciona no próprio edifício da Casa Branca, o sr. Pastor acumula suas funções com as de assessor particular do presidente para assuntos latino-americanos". Põe acumula nisso. Entrava no Salão Oval (vazio) às oito da noite, sem pedir licença a ninguém. Foi ele quem costurou o acordo que devolveu ao Panamá a soberania sobre o canal que liga os oceanos Atlântico e Pacífico.
Houve o dedo de Pastor no oferecimento de asilo territorial a Leonel Brizola em 1977, quando a ditadura uruguaia expulsou-o. (Nesses dias o governo brasileiro achava que, sem ter para onde ir, ele acabaria confinado no seu país. Mal sabiam que os generais uruguaios haviam reinventado Brizola.)
Visto assim, o professor Pastor seria um esquerdista, confirmando a opinião do general Meira Mattos. Contudo, sua atuação na Casa Branca tinha menos militância do que faria supor a vã filosofia. Pastor defendia os interesses dos Estados Unidos, desastrosamente associados a regimes repressivos. Cinco meses depois da cena de Rosalynn em Recife, ele preparava a visita de Carter ao Brasil e advertia: "O Brasil não é o Chile ou a Argentina". Entendida essa nuance que diferenciava as ditaduras, o presidente americano cumpriu um programa frio, sem hostilizar o governo. Marcou sua posição encontrando-se com representantes da sociedade civil no Rio de Janeiro (depois de ter deixado Brasília) e oferecendo uma carona ao cardeal de S. Paulo, D. Paulo Evaristo Arns. Coisa de campeão: não ficaria bem encontrar um símbolo da defesa dos direitos humanos a sós, mas ficou a sós com ele no percurso da Gávea Pequena ao Galeão. Afinal, carona não é encontro.
Uma praga persegue os americanos: quando estão do lado certo, ninguém se lembra do que fizeram
Morreu há poucos dias o professor americano Robert Pastor. Tinha 66 anos e chegou à Casa Branca aos 29, como assessor do presidente Jimmy Carter para assuntos latino-americanos. Era miúdo, atrevido e tenaz. Quando as pessoas se acabam, é comum que delas falem os amigos. De Pastor deve falar um adversário, o general Carlos de Meira Mattos, destacado chefe militar da ditadura. Combateu na Itália com a FEB, ocupou militarmente o governo de Goiás em 1964, chefiou a brigada que ocupou a República Dominicana em 1965 e comandou o cerco e fechamento do Congresso brasileiro no ano seguinte. Autor de diversos livros sobre geopolítica, em 1976 estava em Washington, na Junta Interamericana de Defesa. Nessa época, Rosalynn, a mulher do presidente Jimmy Carter visitou o Brasil e, surpreendentemente, entrevistou-se com dois missionários americanos que viviam com mendigos e foram metidos numa enxovia pela polícia pernambucana. A cena foi para a primeira página dos jornais brasileiros e americanos.
Meira Mattos escreveu ao seu chefe:
"Após a desastrosa repercussão na imprensa norte-americana da viagem da Sra. Carter, estou convencido de que tudo foi preparado com antecedência." (Tinha razão.) "Quem está dirigindo a política particular de Carter é um grupo de jovens instalados na Casa Branca. (...) Sob o pretexto de política de direitos humanos, todos os esforços estão sendo feitos por esse grupo para afastar cada vez mais os EUA dos países governados por militares." (Tinha razão, de novo.)
Entre os jovens, estava "Robert Pastor na Secretaria de Segurança Nacional, que funciona no próprio edifício da Casa Branca, o sr. Pastor acumula suas funções com as de assessor particular do presidente para assuntos latino-americanos". Põe acumula nisso. Entrava no Salão Oval (vazio) às oito da noite, sem pedir licença a ninguém. Foi ele quem costurou o acordo que devolveu ao Panamá a soberania sobre o canal que liga os oceanos Atlântico e Pacífico.
Houve o dedo de Pastor no oferecimento de asilo territorial a Leonel Brizola em 1977, quando a ditadura uruguaia expulsou-o. (Nesses dias o governo brasileiro achava que, sem ter para onde ir, ele acabaria confinado no seu país. Mal sabiam que os generais uruguaios haviam reinventado Brizola.)
Visto assim, o professor Pastor seria um esquerdista, confirmando a opinião do general Meira Mattos. Contudo, sua atuação na Casa Branca tinha menos militância do que faria supor a vã filosofia. Pastor defendia os interesses dos Estados Unidos, desastrosamente associados a regimes repressivos. Cinco meses depois da cena de Rosalynn em Recife, ele preparava a visita de Carter ao Brasil e advertia: "O Brasil não é o Chile ou a Argentina". Entendida essa nuance que diferenciava as ditaduras, o presidente americano cumpriu um programa frio, sem hostilizar o governo. Marcou sua posição encontrando-se com representantes da sociedade civil no Rio de Janeiro (depois de ter deixado Brasília) e oferecendo uma carona ao cardeal de S. Paulo, D. Paulo Evaristo Arns. Coisa de campeão: não ficaria bem encontrar um símbolo da defesa dos direitos humanos a sós, mas ficou a sós com ele no percurso da Gávea Pequena ao Galeão. Afinal, carona não é encontro.
Métodos do MST são aplicados em cidades - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 15/01
Minha Casa Minha Vida tem beneficiado o movimento dos chamados trabalhadores sem-teto, o que funciona como incentivo à invasão de terrenos urbanos
É direito da presidente Dilma usar na campanha da reeleição programas do governo que considere positivos. Entre eles, está o Minha Casa Minha Vida, de habitação popular, listado como uma de suas peças de propaganda eleitoral.
O MCMV tem relevância evidente, diante não apenas do déficit habitacional em si, mas também da necessidade de remoção de famílias de áreas de risco e da formalização da moradia da família de baixa renda em todo o país. Há, ainda, o aspecto positivo de o programa ativar a construção civil, bastante empregadora de mão de obra.
É do compreensível interesse do Planalto, então, ativar ao máximo repasses para a casa popular. Mas, conforme O GLOBO revelou no domingo, uma perniciosa ligação, indireta, entre o Movimento de Trabalhadores Sem Teto (MTST), braço urbano do MST, e o programa tem funcionado como fonte de alimentação de tensões em cidades, principalmente São Paulo, com a ampliação de invasões de terrenos.
Os métodos do Movimento dos Tralhadores Sem Terra foram transpostos para o ambiente urbano. Como o MTST é uma organização informal, não tem qualquer registro, igual ao MST, são criadas entidades para receber recursos do Minha Casa Minha Vida.
Calcula-se que os sem-teto já foram beneficiados, desta forma, por transferências de R$ 89 milhões do MCMV, para a edificação de 1.600 imóveis nos estados de São Paulo, Pernambuco e Goiás. As invasões, assim, passaram a ser mais atrativas, pela possibilidade, agora concreta, de os invasores entrarem no MCMV.
Ou seja, dinheiro de origem pública passa a, de alguma maneira, estimular o ataque ao direto constitucional à propriedade privada nas cidades. Segundo o próprio movimento, já são 40 mil famílias arregimentadas no Brasil, metade delas apenas na Grande São Paulo.
Também neste aspecto há semelhanças com o MST, bastante ajudado pela transferência de verbas públicas pelo Incra/Ministério do Desenvolvimento Agrário, principalmente nos dois governos Lula, quando houve um profundo aparelhamento político-ideológico deste setor do governo. Há notícias de recursos liberados para supostas cooperativas ligadas ao MST, cuja prestação de contas levanta muitas suspeitas.
Na sexta-feira, em São Paulo, uma manifestação dos chamados sem-teto, com seis mil pessoas, tomou a Marginal do Pinheiros — via essencial da cidade —, para pressionar o prefeito Fernando Haddad a desapropriar uma área já reservada para um parque. Ele resiste.
O Ministério das Cidades avisa que não financia projetos em terrenos irregulares. Mas eles podem ser desapropriados. Vai depender dos interesses políticos em ano eleitoral.
Demorou, mas as tensões agrárias, sempre acompanhadas do atropelamento das leis, podem ter desembarcado nas cidades a bordo das eleições.
Minha Casa Minha Vida tem beneficiado o movimento dos chamados trabalhadores sem-teto, o que funciona como incentivo à invasão de terrenos urbanos
É direito da presidente Dilma usar na campanha da reeleição programas do governo que considere positivos. Entre eles, está o Minha Casa Minha Vida, de habitação popular, listado como uma de suas peças de propaganda eleitoral.
O MCMV tem relevância evidente, diante não apenas do déficit habitacional em si, mas também da necessidade de remoção de famílias de áreas de risco e da formalização da moradia da família de baixa renda em todo o país. Há, ainda, o aspecto positivo de o programa ativar a construção civil, bastante empregadora de mão de obra.
É do compreensível interesse do Planalto, então, ativar ao máximo repasses para a casa popular. Mas, conforme O GLOBO revelou no domingo, uma perniciosa ligação, indireta, entre o Movimento de Trabalhadores Sem Teto (MTST), braço urbano do MST, e o programa tem funcionado como fonte de alimentação de tensões em cidades, principalmente São Paulo, com a ampliação de invasões de terrenos.
Os métodos do Movimento dos Tralhadores Sem Terra foram transpostos para o ambiente urbano. Como o MTST é uma organização informal, não tem qualquer registro, igual ao MST, são criadas entidades para receber recursos do Minha Casa Minha Vida.
Calcula-se que os sem-teto já foram beneficiados, desta forma, por transferências de R$ 89 milhões do MCMV, para a edificação de 1.600 imóveis nos estados de São Paulo, Pernambuco e Goiás. As invasões, assim, passaram a ser mais atrativas, pela possibilidade, agora concreta, de os invasores entrarem no MCMV.
Ou seja, dinheiro de origem pública passa a, de alguma maneira, estimular o ataque ao direto constitucional à propriedade privada nas cidades. Segundo o próprio movimento, já são 40 mil famílias arregimentadas no Brasil, metade delas apenas na Grande São Paulo.
Também neste aspecto há semelhanças com o MST, bastante ajudado pela transferência de verbas públicas pelo Incra/Ministério do Desenvolvimento Agrário, principalmente nos dois governos Lula, quando houve um profundo aparelhamento político-ideológico deste setor do governo. Há notícias de recursos liberados para supostas cooperativas ligadas ao MST, cuja prestação de contas levanta muitas suspeitas.
Na sexta-feira, em São Paulo, uma manifestação dos chamados sem-teto, com seis mil pessoas, tomou a Marginal do Pinheiros — via essencial da cidade —, para pressionar o prefeito Fernando Haddad a desapropriar uma área já reservada para um parque. Ele resiste.
O Ministério das Cidades avisa que não financia projetos em terrenos irregulares. Mas eles podem ser desapropriados. Vai depender dos interesses políticos em ano eleitoral.
Demorou, mas as tensões agrárias, sempre acompanhadas do atropelamento das leis, podem ter desembarcado nas cidades a bordo das eleições.
Aposentado paga a conta - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 15/01
Incapaz de manter a taxa básica de juros (Selic) em níveis civilizados por tempo que mereça comemoração, já que o Banco Central vem sendo obrigado pela ameaça da inflação a devolvê-la aos dois dígitos, o governo acaba de fazer mais uma vítima de sua necessidade de repor os prejuízos do dever de casa não cumprido.
Não faltaram avisos, nos últimos anos, de que a não realização de reformas estruturais nos tempos das vacas gordas cobraria, mais tarde, o preço político do controle mais severo dos gastos públicos, sob pena de o governo passar o vexame de não cumprir as metas de superavit primário, único remédio viável para reduzir a dívida pública e evitar que ela crescesse.
Os tempos de aperto vieram com a crise financeira mundial de 2008, que tornaram tudo mais difícil e, mesmo com os animadores sinais de retomada na maior economia do planeta (a dos Estados Unidos), ninguém de juízo se arrisca a definir a velocidade das melhoras.
Esse cenário já era conhecido no fim de 2012 e aconselhava a adoção de política fiscal mais apertada em 2013, para chegar ao fim do exercício demandando criatividade para fechar as contas e, mais grave, para não pressionar a demanda e, com ela, os preços internos.
O resultado da não obediência a esse caderno primário da política econômica foram os arranhões na credibilidade do país por causa dos arranjos contábeis para fechar o ano fiscal e a retomada dos aumentos da taxa de juros, para impedir que a inflação escapasse para muito longe da meta de 4,5%.
Como não fez o dever de casa do controle do gasto em 2013, o governo terminou o ano e inaugurou 2014 em desabalada carreira para não começar tão mal o ano das eleições. Nessa corrida para produzir dinheiro, o risco de fazer cortes imperfeitos e a vítimas injustificáveis aumenta.
O primeiro a ser atingido foi o turista brasileiro, surpreendido com as malas prontas pelo aumento de R$ 0,38 para R$ 6,38 no imposto sobre os cartões de débito pré-pagos. Agora, a punição de inocentes pela má administração fiscal pegou o mais indefeso e sacrificado dos consumidores: o aposentado ou pensionista que ainda ganha acima de um salário mínimo.
Impossibilitados de fazer greve e sem quem os defenda sem demagogia e sonhos irrealizáveis, esses 9,5 milhões de brasileiros acabam de sofrer mais um golpe do governo. Terão o poder de compra de suas aposentadorias um pouco mais diminuído, já que, em vez da inflação oficial de 2013, de 5,91%, terão reajuste de 5,56%.
Este ano, alguém pode pensar que foi menos ruim do que dar apenas os 4,5% do centro da meta de inflação. Mas esse é o falso alívio da ida e da volta do chicote. Serve apenas para acelerar a chegada do dia em que todas essas pessoas receberão apenas um salário mínimo. Aos que argumentam que a diferença no índice de correção foi de "apenas" 0,35 ponto percentual, pergunta-se: se é tão pequena, por que negá-la?
O certo é que, com a repetição de pequenas mordidas como essa, o governo empobrece e humilha milhões de brasileiros que cometeram o "crime" de trabalhar honestamente no setor privado, ajudando a manter os privilégios de inativos do serviço público federal. Injusta no presente, essa política é cega quanto ao futuro de um país que envelhece rapidamente. A questão é que, para o governo, o futuro só virá depois das eleições.
Incapaz de manter a taxa básica de juros (Selic) em níveis civilizados por tempo que mereça comemoração, já que o Banco Central vem sendo obrigado pela ameaça da inflação a devolvê-la aos dois dígitos, o governo acaba de fazer mais uma vítima de sua necessidade de repor os prejuízos do dever de casa não cumprido.
Não faltaram avisos, nos últimos anos, de que a não realização de reformas estruturais nos tempos das vacas gordas cobraria, mais tarde, o preço político do controle mais severo dos gastos públicos, sob pena de o governo passar o vexame de não cumprir as metas de superavit primário, único remédio viável para reduzir a dívida pública e evitar que ela crescesse.
Os tempos de aperto vieram com a crise financeira mundial de 2008, que tornaram tudo mais difícil e, mesmo com os animadores sinais de retomada na maior economia do planeta (a dos Estados Unidos), ninguém de juízo se arrisca a definir a velocidade das melhoras.
Esse cenário já era conhecido no fim de 2012 e aconselhava a adoção de política fiscal mais apertada em 2013, para chegar ao fim do exercício demandando criatividade para fechar as contas e, mais grave, para não pressionar a demanda e, com ela, os preços internos.
O resultado da não obediência a esse caderno primário da política econômica foram os arranhões na credibilidade do país por causa dos arranjos contábeis para fechar o ano fiscal e a retomada dos aumentos da taxa de juros, para impedir que a inflação escapasse para muito longe da meta de 4,5%.
Como não fez o dever de casa do controle do gasto em 2013, o governo terminou o ano e inaugurou 2014 em desabalada carreira para não começar tão mal o ano das eleições. Nessa corrida para produzir dinheiro, o risco de fazer cortes imperfeitos e a vítimas injustificáveis aumenta.
O primeiro a ser atingido foi o turista brasileiro, surpreendido com as malas prontas pelo aumento de R$ 0,38 para R$ 6,38 no imposto sobre os cartões de débito pré-pagos. Agora, a punição de inocentes pela má administração fiscal pegou o mais indefeso e sacrificado dos consumidores: o aposentado ou pensionista que ainda ganha acima de um salário mínimo.
Impossibilitados de fazer greve e sem quem os defenda sem demagogia e sonhos irrealizáveis, esses 9,5 milhões de brasileiros acabam de sofrer mais um golpe do governo. Terão o poder de compra de suas aposentadorias um pouco mais diminuído, já que, em vez da inflação oficial de 2013, de 5,91%, terão reajuste de 5,56%.
Este ano, alguém pode pensar que foi menos ruim do que dar apenas os 4,5% do centro da meta de inflação. Mas esse é o falso alívio da ida e da volta do chicote. Serve apenas para acelerar a chegada do dia em que todas essas pessoas receberão apenas um salário mínimo. Aos que argumentam que a diferença no índice de correção foi de "apenas" 0,35 ponto percentual, pergunta-se: se é tão pequena, por que negá-la?
O certo é que, com a repetição de pequenas mordidas como essa, o governo empobrece e humilha milhões de brasileiros que cometeram o "crime" de trabalhar honestamente no setor privado, ajudando a manter os privilégios de inativos do serviço público federal. Injusta no presente, essa política é cega quanto ao futuro de um país que envelhece rapidamente. A questão é que, para o governo, o futuro só virá depois das eleições.
O rombo da indústria - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 15/01
Com um buraco de US$ 105 bilhões na conta de manufaturados, o comércio exterior foi mais uma vez desastroso para a indústria brasileira, em 2013. Atribuir o mau resultado à crise internacional e ao câmbio, como têm feito autoridades federais, é tentar disfarçar o indisfarçável. Mesmo com o ambiente externo desfavorável e a queda de preços de vários produtos, o agronegócio faturou US$ 99,97 bilhões no ano passado, 4,3% mais que em 2012, e fechou o balanço com um superávit acumulado de US$ 82,91 bilhões, 4,4% maior que o do período anterior. Uma palavra explica a diferença entre os dois desempenhos: competitividade. Apesar dos problemas logísticos e de uma porção de outras dificuldades, o campo e a indústria diretamente ligada à agropecuária têm mantido um padrão de eficiência respeitado internacionalmente. A maior parte do setor manufatureiro tem sido muito mais afetada pelos entraves à produção e à comercialização - a própria logística, o alto custo da energia, a escassez de mão de obra qualificada e até qualificável, a tributação irracional e, naturalmente, os erros da política econômica.
A indústria exportou em 2013 manufaturados no valor de US$ 93,09 bilhões, valor 1,8% maior que o de 2012, pela média dos dias úteis. Mas esse resultado inclui US$ 7,74 bilhões obtidos com a exportação meramente contábil de sete plataformas de exploração de petróleo e gás. Sem sair do País, esses equipamentos foram vendidos para a obtenção de benefícios fiscais e alugados para uso no Brasil.
São operações legais, permitidas há mais de dez anos, mas seu volume e seu valor têm crescido a ponto de se tornarem essas plataformas o item principal da pauta de manufaturados. Isso obviamente distorce os números, porque exportação de plataformas significa, de fato, algo muito diferente de exportação de soja, café, aviões, automóveis, peças, tratores, biquínis, açúcar e minério.
Expurgadas as contas do ano passado e de 2012, as vendas de manufaturados de fato encolhem, passando de US$ 89,25 bilhões para US$ 85,35 bilhões. Com esse desconto, o déficit do setor sobe de US$ 105 bilhões para US$ 112,75 bilhões. Não se trata de um déficit qualquer, facilmente assimilável e causado por algum fator conjuntural. O quadro fica mais feio quando a atenção se volta para um detalhe. Não se trata somente de importação maior que exportação. O próprio déficit, o resultado da subtração, é muito maior que o valor exportado, seja o oficial (US$ 93,09 bilhões) ou o expurgado (US$ 85,35 bilhões).
Com ou sem plataformas, pode-se falar de uma desindustrialização das exportações brasileiras. As vendas de manufaturados garantiram mais de 50% da receita comercial durante os anos 90 e em boa parte da última década. Em 2007 ainda proporcionaram 52,25% do valor vendido ao exterior. No ano seguinte a proporção caiu para 46,82%. A queda prosseguiu nos anos seguintes, até 38,4% em 2013. Somada a parcela dos semimanufaturados, obtém-se a participação total dos industrializados, 51% do total vendido ao exterior. Em 2007, a soma dos dois itens ainda rendeu 65,82%, praticamente dois terços da receita comercial.
O mau desempenho comercial do setor de transformação tem como contrapartida o baixo crescimento do produto industrial nos últimos anos. Os dois fenômenos estão associados. Por um evidente erro de diagnóstico, o governo vem estimulando há anos a demanda de consumo, sem remover de fato os muitos entraves à produção.
A indústria tem sido incapaz de responder à demanda crescente e de enfrentar a concorrência estrangeira, no exterior e no mercado interno. Apesar disso, as empresas do setor conseguiram durante anos manter o pessoal. Evitaram os altos custos de demissão e os problemas de recomposição de quadros num mercado de mão de obra de baixa qualidade. Esse esforço parece ter chegado ao limite. O emprego na indústria ficou estável em novembro, em nível 1,7% inferior ao de um ano antes, e diminuiu 1,1% em 12 meses. Cada vez mais, a sustentação do emprego tem dependido de vagas em atividades pouco produtivas, principalmente em serviços. Um Bric digno desse nome tem de fazer muito mais.
Com um buraco de US$ 105 bilhões na conta de manufaturados, o comércio exterior foi mais uma vez desastroso para a indústria brasileira, em 2013. Atribuir o mau resultado à crise internacional e ao câmbio, como têm feito autoridades federais, é tentar disfarçar o indisfarçável. Mesmo com o ambiente externo desfavorável e a queda de preços de vários produtos, o agronegócio faturou US$ 99,97 bilhões no ano passado, 4,3% mais que em 2012, e fechou o balanço com um superávit acumulado de US$ 82,91 bilhões, 4,4% maior que o do período anterior. Uma palavra explica a diferença entre os dois desempenhos: competitividade. Apesar dos problemas logísticos e de uma porção de outras dificuldades, o campo e a indústria diretamente ligada à agropecuária têm mantido um padrão de eficiência respeitado internacionalmente. A maior parte do setor manufatureiro tem sido muito mais afetada pelos entraves à produção e à comercialização - a própria logística, o alto custo da energia, a escassez de mão de obra qualificada e até qualificável, a tributação irracional e, naturalmente, os erros da política econômica.
A indústria exportou em 2013 manufaturados no valor de US$ 93,09 bilhões, valor 1,8% maior que o de 2012, pela média dos dias úteis. Mas esse resultado inclui US$ 7,74 bilhões obtidos com a exportação meramente contábil de sete plataformas de exploração de petróleo e gás. Sem sair do País, esses equipamentos foram vendidos para a obtenção de benefícios fiscais e alugados para uso no Brasil.
São operações legais, permitidas há mais de dez anos, mas seu volume e seu valor têm crescido a ponto de se tornarem essas plataformas o item principal da pauta de manufaturados. Isso obviamente distorce os números, porque exportação de plataformas significa, de fato, algo muito diferente de exportação de soja, café, aviões, automóveis, peças, tratores, biquínis, açúcar e minério.
Expurgadas as contas do ano passado e de 2012, as vendas de manufaturados de fato encolhem, passando de US$ 89,25 bilhões para US$ 85,35 bilhões. Com esse desconto, o déficit do setor sobe de US$ 105 bilhões para US$ 112,75 bilhões. Não se trata de um déficit qualquer, facilmente assimilável e causado por algum fator conjuntural. O quadro fica mais feio quando a atenção se volta para um detalhe. Não se trata somente de importação maior que exportação. O próprio déficit, o resultado da subtração, é muito maior que o valor exportado, seja o oficial (US$ 93,09 bilhões) ou o expurgado (US$ 85,35 bilhões).
Com ou sem plataformas, pode-se falar de uma desindustrialização das exportações brasileiras. As vendas de manufaturados garantiram mais de 50% da receita comercial durante os anos 90 e em boa parte da última década. Em 2007 ainda proporcionaram 52,25% do valor vendido ao exterior. No ano seguinte a proporção caiu para 46,82%. A queda prosseguiu nos anos seguintes, até 38,4% em 2013. Somada a parcela dos semimanufaturados, obtém-se a participação total dos industrializados, 51% do total vendido ao exterior. Em 2007, a soma dos dois itens ainda rendeu 65,82%, praticamente dois terços da receita comercial.
O mau desempenho comercial do setor de transformação tem como contrapartida o baixo crescimento do produto industrial nos últimos anos. Os dois fenômenos estão associados. Por um evidente erro de diagnóstico, o governo vem estimulando há anos a demanda de consumo, sem remover de fato os muitos entraves à produção.
A indústria tem sido incapaz de responder à demanda crescente e de enfrentar a concorrência estrangeira, no exterior e no mercado interno. Apesar disso, as empresas do setor conseguiram durante anos manter o pessoal. Evitaram os altos custos de demissão e os problemas de recomposição de quadros num mercado de mão de obra de baixa qualidade. Esse esforço parece ter chegado ao limite. O emprego na indústria ficou estável em novembro, em nível 1,7% inferior ao de um ano antes, e diminuiu 1,1% em 12 meses. Cada vez mais, a sustentação do emprego tem dependido de vagas em atividades pouco produtivas, principalmente em serviços. Um Bric digno desse nome tem de fazer muito mais.
O legado encolheu - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 15/01
Há quatro anos, ao discursar na África do Sul a respeito da Copa do Mundo no Brasil, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva insistiu na ideia de que o evento propiciaria investimentos importantes em infraestrutura e "deixaria um legado de melhoria nas condições de vida do nosso povo".
Hoje, a cinco meses da abertura do Mundial, o balanço das obras de mobilidade urbana revela uma realidade bem menos rósea do que aquela desenhada por Lula.
Dos 56 projetos previstos em 2010, com investimentos de R$ 15,4 bilhões (corrigidos pela inflação), restaram 39, orçados em R$ 7,9 bilhões. Atrasos nas licitações, planejamento equivocado e erros técnicos, além de injunções políticas e econômicas, conspiraram para cancelar ou postergar obras anunciadas como cruciais em algumas cidades-sede.
Manaus, por exemplo, que entregaria um monotrilho e um corredor de ônibus, não terá nenhuma obra concluída a tempo, com a provável exceção de seu estádio.
Porto Alegre, que também planejava corredores e terminais de ônibus, não irá além da pavimentação em torno do estádio Beira-Rio e de vias que dão acesso ao local.
Em São Paulo, a conclusão da esperada linha 17-ouro, o monotrilho que ligará o aeroporto de Congonhas à rede de metrô, foi adiada para depois do evento. De concreto, dentro da questionável tradição de privilegiar o automóvel, prevê-se um complexo viário no entorno do chamado Itaquerão, que receberá a partida de abertura.
Problemas análogos repetem-se em praticamente todas as sedes, conforme evidenciou reportagem publicada por esta Folha.
O encolhimento do legado de infraestrutura seria compensado, segundo o governo federal, pela inclusão dos projetos não realizados na agenda do PAC Mobilidade --o que, dadas as dificuldades enfrentadas por este programa, está longe de ser uma garantia.
Não bastassem os cancelamentos e atrasos, muitas das obras têm sido objeto de desvios e irregularidades. A fiscalização preventiva do Tribunal de Contas da União (TCU) evitou o desperdício de cerca de R$ 600 milhões, de acordo com relatório divulgado pelo órgão.
Em que pesem os benefícios que ainda poderá trazer ao país em termos de fluxo turístico, movimentação econômica, modernização de estádios e divulgação no exterior, está patente que a Copa ficará muito aquém das promessas propagandísticas alardeadas nos últimos anos pelo governo federal.
Há quatro anos, ao discursar na África do Sul a respeito da Copa do Mundo no Brasil, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva insistiu na ideia de que o evento propiciaria investimentos importantes em infraestrutura e "deixaria um legado de melhoria nas condições de vida do nosso povo".
Hoje, a cinco meses da abertura do Mundial, o balanço das obras de mobilidade urbana revela uma realidade bem menos rósea do que aquela desenhada por Lula.
Dos 56 projetos previstos em 2010, com investimentos de R$ 15,4 bilhões (corrigidos pela inflação), restaram 39, orçados em R$ 7,9 bilhões. Atrasos nas licitações, planejamento equivocado e erros técnicos, além de injunções políticas e econômicas, conspiraram para cancelar ou postergar obras anunciadas como cruciais em algumas cidades-sede.
Manaus, por exemplo, que entregaria um monotrilho e um corredor de ônibus, não terá nenhuma obra concluída a tempo, com a provável exceção de seu estádio.
Porto Alegre, que também planejava corredores e terminais de ônibus, não irá além da pavimentação em torno do estádio Beira-Rio e de vias que dão acesso ao local.
Em São Paulo, a conclusão da esperada linha 17-ouro, o monotrilho que ligará o aeroporto de Congonhas à rede de metrô, foi adiada para depois do evento. De concreto, dentro da questionável tradição de privilegiar o automóvel, prevê-se um complexo viário no entorno do chamado Itaquerão, que receberá a partida de abertura.
Problemas análogos repetem-se em praticamente todas as sedes, conforme evidenciou reportagem publicada por esta Folha.
O encolhimento do legado de infraestrutura seria compensado, segundo o governo federal, pela inclusão dos projetos não realizados na agenda do PAC Mobilidade --o que, dadas as dificuldades enfrentadas por este programa, está longe de ser uma garantia.
Não bastassem os cancelamentos e atrasos, muitas das obras têm sido objeto de desvios e irregularidades. A fiscalização preventiva do Tribunal de Contas da União (TCU) evitou o desperdício de cerca de R$ 600 milhões, de acordo com relatório divulgado pelo órgão.
Em que pesem os benefícios que ainda poderá trazer ao país em termos de fluxo turístico, movimentação econômica, modernização de estádios e divulgação no exterior, está patente que a Copa ficará muito aquém das promessas propagandísticas alardeadas nos últimos anos pelo governo federal.
A política de achatamento da aposentadoria do INSS - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 15/01
O reajuste de 5,56% das aposentadorias de valor superior ao salário mínimo anunciado segunda-feira pela presidente Dilma Rousseff mantém, no governo do Partido dos Trabalhadores, as práticas anteriores. O resultado é um achatamento das aposentadorias mais altas, enquanto são beneficiados os aposentados que percebem o mínimo. A mesma política não é praticada nos regimes próprios do funcionalismo, em que os aposentados têm reajustes de proventos iguais aos dos servidores que estão na ativa.
Em dezembro, segundo a Previdência, 30,3 milhões de pessoas receberam benefícios do Regime Geral da Previdência Social (RGPS), dos quais dois terços passarão a receber, a partir deste mês, o mínimo de R$ 724,00, corrigido em 6,78% - ou seja, 1,22 ponto porcentual mais do que a correção de 5,56% que será paga também a partir deste mês aos aposentados que percebem acima do mínimo.
Não sendo uma política nova, ela foi mantida pelo PT porque facilita a administração das contas previdenciárias. Há 11 anos no poder, o PT não quis mudar as regras, mesmo tendo maioria no Congresso.
A política de dois pesos e duas medidas para os aposentados que ganham um salário mínimo e os demais achatou as rendas dos aposentados que ganham mais do que o piso. Nos últimos 15 anos o mínimo passou de R$ 151,00 para R$ 724,00 (aumento nominal de 379%). No mesmo período, o IPCA subiu 233%, ou seja, o salário mínimo teve um aumento de 146 pontos porcentuais acima da inflação.
Também no mesmo período as aposentadorias superiores ao mínimo foram, em geral, corrigidas pelo INPC, cuja variação foi de 240%.
O aumento real do salário mínimo é considerado como uma política de redistribuição de renda. Mas a maioria absoluta dos trabalhadores não recebe reajustes da mesma magnitude. O aumento real do salário mínimo é, ainda, uma das políticas que pressionam o desequilíbrio previdenciário, de R$ 55,3 bilhões entre janeiro e novembro de 2013.
Os aposentados que percebem acima do piso reclamam - com razão - do achatamento dos seus benefícios (em 2014, a correção de 5,56% é inferior à do IPCA, de 5,91%, repetindo a regra de 2013). Estes aposentados sofrem um espécie de redistribuição de renda ao contrário. E o governo deveria enfrentar esse problema com coragem, em vez de apenas afirmar que o reajuste elevará o custo em R$ 8,7 bilhões, neste ano.
O reajuste de 5,56% das aposentadorias de valor superior ao salário mínimo anunciado segunda-feira pela presidente Dilma Rousseff mantém, no governo do Partido dos Trabalhadores, as práticas anteriores. O resultado é um achatamento das aposentadorias mais altas, enquanto são beneficiados os aposentados que percebem o mínimo. A mesma política não é praticada nos regimes próprios do funcionalismo, em que os aposentados têm reajustes de proventos iguais aos dos servidores que estão na ativa.
Em dezembro, segundo a Previdência, 30,3 milhões de pessoas receberam benefícios do Regime Geral da Previdência Social (RGPS), dos quais dois terços passarão a receber, a partir deste mês, o mínimo de R$ 724,00, corrigido em 6,78% - ou seja, 1,22 ponto porcentual mais do que a correção de 5,56% que será paga também a partir deste mês aos aposentados que percebem acima do mínimo.
Não sendo uma política nova, ela foi mantida pelo PT porque facilita a administração das contas previdenciárias. Há 11 anos no poder, o PT não quis mudar as regras, mesmo tendo maioria no Congresso.
A política de dois pesos e duas medidas para os aposentados que ganham um salário mínimo e os demais achatou as rendas dos aposentados que ganham mais do que o piso. Nos últimos 15 anos o mínimo passou de R$ 151,00 para R$ 724,00 (aumento nominal de 379%). No mesmo período, o IPCA subiu 233%, ou seja, o salário mínimo teve um aumento de 146 pontos porcentuais acima da inflação.
Também no mesmo período as aposentadorias superiores ao mínimo foram, em geral, corrigidas pelo INPC, cuja variação foi de 240%.
O aumento real do salário mínimo é considerado como uma política de redistribuição de renda. Mas a maioria absoluta dos trabalhadores não recebe reajustes da mesma magnitude. O aumento real do salário mínimo é, ainda, uma das políticas que pressionam o desequilíbrio previdenciário, de R$ 55,3 bilhões entre janeiro e novembro de 2013.
Os aposentados que percebem acima do piso reclamam - com razão - do achatamento dos seus benefícios (em 2014, a correção de 5,56% é inferior à do IPCA, de 5,91%, repetindo a regra de 2013). Estes aposentados sofrem um espécie de redistribuição de renda ao contrário. E o governo deveria enfrentar esse problema com coragem, em vez de apenas afirmar que o reajuste elevará o custo em R$ 8,7 bilhões, neste ano.
Omissão sobre presídios - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 15/01
A repercussão do caso do complexo penitenciário de Pedrinhas já foi suficiente para que os brasileiros estejam informados do quadro geral de degradação das cadeias do país. A conclusão mais constrangedora é a de que todos os poderes, de todas as instâncias da federação, além do conjunto da sociedade, têm sua parcela de responsabilidade na situação explosiva dos presídios. O caso do Maranhão, pela exacerbação da violência, serve de alerta para situações semelhantes. Tanto que 197 detentos foram assassinados no ano passado nas prisões, sendo que 69 deles no Estado traumatizado por imagens de degolas.
Admita-se que governos, órgãos fiscalizadores, Ministério Público e Justiça têm falhado. O Congresso, que tem responsabilidade direta pela quase totalidade da legislação penal e processual, também vem se omitindo claramente em relação ao tema. Há quatro anos, por exemplo, a mais importante recomendação da CPI do Sistema Carcerário, da Câmara, foi a criação do Estatuto Penitenciário Nacional.
A iniciativa estabelecia, entre outras providências, normas de separação dos presos por tipo de delito e pena e exigia inspeções mensais pelas autoridades. Todas as sugestões foram arquivadas em 2011. Com a convivência de todo tipo de condenado, os mais de 500 mil detentos do país misturam-se nas cadeias como se fizessem parte de um grupo homogêneo. Celas abarrotadas juntam assassinos reincidentes e integrantes do crime organizado a delinquentes comuns e até aos que já deveriam estar em liberdade pelo cumprimento das penas.
A superlotação, sem a discriminação da periculosidade e outras particularidades de cada preso, é uma distorção visível. Outras, muitas vezes encobertas, mascaram o que o presídio maranhense acabou por explicitar. As autoridades sabem, por exemplo, que a tensão nas cadeias é camuflada pela gestão das penitenciárias pelos próprios apenados, que assumem uma tarefa do Estado e assim conseguem até mesmo evitar motins e conflitos mais graves.
Some-se a tudo isso o baixo investimento em novas unidades, que também contraria recomendações da CPI, por conta, muitas vezes, da pouca disposição dos governantes em enfrentar as resistências das comunidades a ter presídios na vizinhança. Mesmo num ano eleitoral, que dificulta e politiza ações entre aliados nas instâncias federal e estadual, o país não pode perder a oportunidade de enfrentar de vez essa chaga nacional, que tem no caso de Pedrinhas seu exemplo mais perturbador.
A repercussão do caso do complexo penitenciário de Pedrinhas já foi suficiente para que os brasileiros estejam informados do quadro geral de degradação das cadeias do país. A conclusão mais constrangedora é a de que todos os poderes, de todas as instâncias da federação, além do conjunto da sociedade, têm sua parcela de responsabilidade na situação explosiva dos presídios. O caso do Maranhão, pela exacerbação da violência, serve de alerta para situações semelhantes. Tanto que 197 detentos foram assassinados no ano passado nas prisões, sendo que 69 deles no Estado traumatizado por imagens de degolas.
Admita-se que governos, órgãos fiscalizadores, Ministério Público e Justiça têm falhado. O Congresso, que tem responsabilidade direta pela quase totalidade da legislação penal e processual, também vem se omitindo claramente em relação ao tema. Há quatro anos, por exemplo, a mais importante recomendação da CPI do Sistema Carcerário, da Câmara, foi a criação do Estatuto Penitenciário Nacional.
A iniciativa estabelecia, entre outras providências, normas de separação dos presos por tipo de delito e pena e exigia inspeções mensais pelas autoridades. Todas as sugestões foram arquivadas em 2011. Com a convivência de todo tipo de condenado, os mais de 500 mil detentos do país misturam-se nas cadeias como se fizessem parte de um grupo homogêneo. Celas abarrotadas juntam assassinos reincidentes e integrantes do crime organizado a delinquentes comuns e até aos que já deveriam estar em liberdade pelo cumprimento das penas.
A superlotação, sem a discriminação da periculosidade e outras particularidades de cada preso, é uma distorção visível. Outras, muitas vezes encobertas, mascaram o que o presídio maranhense acabou por explicitar. As autoridades sabem, por exemplo, que a tensão nas cadeias é camuflada pela gestão das penitenciárias pelos próprios apenados, que assumem uma tarefa do Estado e assim conseguem até mesmo evitar motins e conflitos mais graves.
Some-se a tudo isso o baixo investimento em novas unidades, que também contraria recomendações da CPI, por conta, muitas vezes, da pouca disposição dos governantes em enfrentar as resistências das comunidades a ter presídios na vizinhança. Mesmo num ano eleitoral, que dificulta e politiza ações entre aliados nas instâncias federal e estadual, o país não pode perder a oportunidade de enfrentar de vez essa chaga nacional, que tem no caso de Pedrinhas seu exemplo mais perturbador.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Seria um prazer estar ao lado de Eduardo”
Aécio Neves (PSDB), para quem “não é natural” Marina Silva vetar alianças do PSB
DILMA DEVE ENTREGAR PORTOS A ALIADO DE MENSALEIRO
A presidente Dilma revelou ao vice Michel Temer que deverá acomodar na Secretaria de Portos o presidente do PTB, Benito Gama, ligadíssimo ao mensaleiro Roberto Jefferson. A vaga foi aberta após o rompimento do PSB com o PT. Preterido na reforma ministerial, o PMDB também quer: dispõe-se a trocar o Turismo pela Secretaria de Portos, “mais empresarial que político”. Um cargo que “fura poço”, por assim dizer.
OLHA O NOME DELE
Vice-presidente de Governo no Banco do Brasil, o presidente interino do PTB é chamado jocosamente pelos petistas de “Benito Grana”.
VENDEM-SE
Na tentativa de segurar apoio à reeleição, Dilma quer manter o PP no Ministério das Cidades, e o PROS dos irmãos Gomes na Integração.
JÁ QUE É ASSIM...
Os diretórios do PMDB no Rio, Paraíba e Bahia iniciaram movimento pela entrega dos cargos. Michel Temer tenta colocar panos quentes.
TUITEIRA-FANTASMA
De @margaretthatcher: aviso aos argentinos, que detesto, e aos brasileiros, amigos deles, que o dinheiro dos outros está acabando...
LUCRO MAROTO GARANTIU ATÉ 15º SALÁRIO NA CAIXA
Acusada de se apropriar de R$ 719 milhões de 525 mil poupadores, somando-os ao seu lucro de 2012, a Caixa Econômica Federal usou esse desempenho fictício para distribuir R$ 950 milhões em “participação de resultado” a funcionários, inclusive aos responsáveis pela manobra contábil. O “lucro líquido” da Caixa em 2012 chegou a R$ 6,4 bilhões. Isso garantiu 14º e até de 15º salários aos funcionários.
OUVIDOS MOUCOS
A Caixa não respondeu se os funcionários devolverão os cerca de R$ 105 milhões de poupadores distribuídos como “participação dos lucros”.
A REGRA
A participação dos lucros e resultados (PLR) corresponde a 90% do salário, acrescido de R$ 1,6 mil, sendo limitado a R$ 9.087,49.
A EXCEÇÃO
Acordo coletivo permite que a participação dos lucros seja calculada por até dois salários (extras) do empregado, limitada a R$ 19.992,46.
DE BRAÇADA
A história da despoluição da Guanabara ganha novo ingrediente: com apenas 36% do esgoto tratado, deverá surgir nova competição nas Olimpíadas de 2016: nado sincronizado com lixo.
PIOR NÃO FICA
Em time que está embromando não se mexe em ano eleitoral, sugere a decisão de Dilma de manter o presidente da Caixa, Jorge Hereda, que substituiu Jorge Mattoso após invasão da conta do caseiro Francenildo.
PIROTECNIA RIDÍCULA
A mais recente presepada do governador cearense Cid Gomes (PSD), adorador de mordomias, é contratar uma empresa para promover ruidoso foguetório sempre que ele aparecer em eventos públicos.
CAUSA ESTRANHA
O procurador-geral Rodrigo Janot não deveria mexer em time vitorioso, a menos que pretenda enfiá-lo na vala comum dos perdedores. Ele quer proibir que colégios militares, casos raros de excelência na educação, cobrem mensalidades que são essenciais para financiar essa qualidade.
TIROS NO PÉ
Presidente do PT, Rui Falcão disse ao deputado João Paulo (PE) que Lula quer o partido apoiando Armando Monteiro (PTB) ao governo de Pernambuco. Mas o PT-PE quer candidatura própria, com João Paulo.
DEBOCHE DE GIGANTES
Mesmo depois de denúncias de preços abusivos durante a Copa do Mundo, TAM e GOL nem se coçaram depois da estratégia de Azul e Avianca de criar teto de R$ 999 para suas passagens no período.
MEA CULPA
A revista Brasileiros dedica 20 páginas da edição de janeiro à análise “Por que os generais não imitam a Rede Globo”. Nela, o jornalista Luiz Claudio Cunha, Prêmio Esso de Jornalismo, mostra por que militares se recusam a fazer mea culpa pelos crimes da ditadura, como a Globo.
HISTÓRIA DA CAROCHINHA
A Caixa quer fazer acreditar que abriu 525 mil poupanças “irregulares”, que ela mesma estimula, sem supostamente comprovar residência exigida pelo Banco Central, nem a validade do CPF...
PENSANDO BEM...
...a Caixa deu um “rolezinho” nas poupanças.
PODER SEM PUDOR
PAI DOS BURROS
Tancredo Neves era favorito para o Senado, em Minas, e foi vítima de uma molecagem do folclórico Zezinho Bonifácio, que "anunciou" a transferência dele para o PDS, partido da ditadura. Tancredo ficou furioso e quis chamar Zezinho de "gagá", mas pensou melhor e chamou um assessor:
- Aqui! Mande isso para a imprensa: "Essa declaração é pura protérvia do deputado José Bonifácio, e certamente decorreu de sua senectude".
- Perdão, dr. Tancredo, ninguém vai entender isso...
- Eu sei, eu sei. Mas vou ter a alegria de obrigar o Zezinho a inaugurar o dicionário, para saber se me xinga ou agradece.
Aécio Neves (PSDB), para quem “não é natural” Marina Silva vetar alianças do PSB
DILMA DEVE ENTREGAR PORTOS A ALIADO DE MENSALEIRO
A presidente Dilma revelou ao vice Michel Temer que deverá acomodar na Secretaria de Portos o presidente do PTB, Benito Gama, ligadíssimo ao mensaleiro Roberto Jefferson. A vaga foi aberta após o rompimento do PSB com o PT. Preterido na reforma ministerial, o PMDB também quer: dispõe-se a trocar o Turismo pela Secretaria de Portos, “mais empresarial que político”. Um cargo que “fura poço”, por assim dizer.
OLHA O NOME DELE
Vice-presidente de Governo no Banco do Brasil, o presidente interino do PTB é chamado jocosamente pelos petistas de “Benito Grana”.
VENDEM-SE
Na tentativa de segurar apoio à reeleição, Dilma quer manter o PP no Ministério das Cidades, e o PROS dos irmãos Gomes na Integração.
JÁ QUE É ASSIM...
Os diretórios do PMDB no Rio, Paraíba e Bahia iniciaram movimento pela entrega dos cargos. Michel Temer tenta colocar panos quentes.
TUITEIRA-FANTASMA
De @margaretthatcher: aviso aos argentinos, que detesto, e aos brasileiros, amigos deles, que o dinheiro dos outros está acabando...
LUCRO MAROTO GARANTIU ATÉ 15º SALÁRIO NA CAIXA
Acusada de se apropriar de R$ 719 milhões de 525 mil poupadores, somando-os ao seu lucro de 2012, a Caixa Econômica Federal usou esse desempenho fictício para distribuir R$ 950 milhões em “participação de resultado” a funcionários, inclusive aos responsáveis pela manobra contábil. O “lucro líquido” da Caixa em 2012 chegou a R$ 6,4 bilhões. Isso garantiu 14º e até de 15º salários aos funcionários.
OUVIDOS MOUCOS
A Caixa não respondeu se os funcionários devolverão os cerca de R$ 105 milhões de poupadores distribuídos como “participação dos lucros”.
A REGRA
A participação dos lucros e resultados (PLR) corresponde a 90% do salário, acrescido de R$ 1,6 mil, sendo limitado a R$ 9.087,49.
A EXCEÇÃO
Acordo coletivo permite que a participação dos lucros seja calculada por até dois salários (extras) do empregado, limitada a R$ 19.992,46.
DE BRAÇADA
A história da despoluição da Guanabara ganha novo ingrediente: com apenas 36% do esgoto tratado, deverá surgir nova competição nas Olimpíadas de 2016: nado sincronizado com lixo.
PIOR NÃO FICA
Em time que está embromando não se mexe em ano eleitoral, sugere a decisão de Dilma de manter o presidente da Caixa, Jorge Hereda, que substituiu Jorge Mattoso após invasão da conta do caseiro Francenildo.
PIROTECNIA RIDÍCULA
A mais recente presepada do governador cearense Cid Gomes (PSD), adorador de mordomias, é contratar uma empresa para promover ruidoso foguetório sempre que ele aparecer em eventos públicos.
CAUSA ESTRANHA
O procurador-geral Rodrigo Janot não deveria mexer em time vitorioso, a menos que pretenda enfiá-lo na vala comum dos perdedores. Ele quer proibir que colégios militares, casos raros de excelência na educação, cobrem mensalidades que são essenciais para financiar essa qualidade.
TIROS NO PÉ
Presidente do PT, Rui Falcão disse ao deputado João Paulo (PE) que Lula quer o partido apoiando Armando Monteiro (PTB) ao governo de Pernambuco. Mas o PT-PE quer candidatura própria, com João Paulo.
DEBOCHE DE GIGANTES
Mesmo depois de denúncias de preços abusivos durante a Copa do Mundo, TAM e GOL nem se coçaram depois da estratégia de Azul e Avianca de criar teto de R$ 999 para suas passagens no período.
MEA CULPA
A revista Brasileiros dedica 20 páginas da edição de janeiro à análise “Por que os generais não imitam a Rede Globo”. Nela, o jornalista Luiz Claudio Cunha, Prêmio Esso de Jornalismo, mostra por que militares se recusam a fazer mea culpa pelos crimes da ditadura, como a Globo.
HISTÓRIA DA CAROCHINHA
A Caixa quer fazer acreditar que abriu 525 mil poupanças “irregulares”, que ela mesma estimula, sem supostamente comprovar residência exigida pelo Banco Central, nem a validade do CPF...
PENSANDO BEM...
...a Caixa deu um “rolezinho” nas poupanças.
PODER SEM PUDOR
PAI DOS BURROS
Tancredo Neves era favorito para o Senado, em Minas, e foi vítima de uma molecagem do folclórico Zezinho Bonifácio, que "anunciou" a transferência dele para o PDS, partido da ditadura. Tancredo ficou furioso e quis chamar Zezinho de "gagá", mas pensou melhor e chamou um assessor:
- Aqui! Mande isso para a imprensa: "Essa declaração é pura protérvia do deputado José Bonifácio, e certamente decorreu de sua senectude".
- Perdão, dr. Tancredo, ninguém vai entender isso...
- Eu sei, eu sei. Mas vou ter a alegria de obrigar o Zezinho a inaugurar o dicionário, para saber se me xinga ou agradece.
QUARTA NOS JORNAIS
O Globo: MP recorre contra restrição a investigação em eleições
Folha de SP:Governo e shoppings se preparam para onda de 'rolezinhos'
O Estado de S. Paulo: PMDB recorre a Lula para melhorar relação com Dilma
Correio Braziliense: Anuidade de cartão de crédito sobe até 937%
Estado de Minas: Novas rotas da morte
Jornal do Commercio: 741 onde só cabem 74
Zero Hora: Presídio Central recolhe seis celulares a cada dia
Brasil Econômico: Menos tolerância a ‘apaguinhos’
Valor Econômico: "Operação conta de luz" custou R$ 22 bi
terça-feira, janeiro 14, 2014
Por que não falar a verdade, ministro? - GUSTAVO IOSCHPE
REVISTA VEJA
Em dezembro, foram divulgados os resultados do Pisa, o mais importante teste de qualidade da educação do mundo, realizado a cada três anos com alunos de 15 anos. Como vem ocorrendo desde a primeira edição, no ano 2000, os resultados do Brasil foram péssimos. Ficamos em 58º lugar em matemática, 59º em ciências e 55º em leitura, entre os 65 países que participaram. Caímos no ranking nas três áreas, em relação à prova anterior. Como já havia acontecido em edições passadas, nem nossa elite se salvou: os 25% mais ricos entre os alunos brasileiros tiveram desempenho pior que os 25% mais pobres dos países desenvolvidos (437 pontosversus 452 pontos em matemática).
A Alemanha, assim como o Brasil, também participa do Pisa desde 2000. Quando os resultados daquele ano foram divulgados, os alemães descobriram que o país de Goethe, Hegel e Weber tinha ficado em 21º lugar entre os 31 participantes daquela edição, abaixo da média dos países da OCDE. Os dados caíram como uma bomba. A presidente da Comissão de Educação do Parlamento alemão disse que os resultados eram uma “tragédia para a educação alemã”. A Der Spiegel, a mais importante revista do país, refletiu a tragédia com a seguinte manchete na capa: “Os alunos alemães são burros?”. O alvoroço levou inclusive à criação de um game show na TV alemã.
No dia do anúncio dos resultados da última edição do Pisa, a reação brasileira foi bem diferente. Nosso ministro da Educação, Aloizio Mercadante, convocou uma coletiva de imprensa para declarar que o Pisa era uma “grande vitória” da educação brasileira e um sinal de que “estamos no caminho certo” (rumo ao fundo do poço?). Recorreu à mesma cantilena de seu antecessor, Fernando Haddad: “A foto é ruim, mas o filme é muito bom”. Ou seja, a situação atual ainda não é boa, mas o que importa é a evolução dos resultados. E nesse quesito Mercadante fez um corte bastante particular dos resultados (focando apenas matemática, e só de 2003 para cá) para afirmar que o Brasil era “o primeiro aluno da sala”, o país que mais havia evoluído. Sem mencionar, é claro, que evoluímos tanto porque partimos de uma base baixíssima. Quando se parte de quase nada, qualquer pitoco é um salto enorme.
Essas reações são tão previsíveis que escrevi um artigo, disponível em Veja.com, um dia antes da fala do ministro, não só prevendo o teor da resposta como até o recurso à sétima arte (todos os links disponíveis em twitter.com/gioschpe). Mas, apesar de esperada, a resposta do ministro me causa perplexidade e espanto. Ela é muito negativa para o futuro da educação brasileira.
Eis o motivo da minha perplexidade: Mercadante e seu MEC não administram as escolas em que estudam nossos alunos de 15 anos. Dos mais de 50 milhões de estudantes da nossa educação básica, mero 0,5% está na rede federal. No Brasil, a responsabilidade por alunos do ensino médio é fundamentalmente de estados (85% da matrícula) e da iniciativa privada (13%). O MEC administra as universidades federais e cria alguns balizamentos para a educação básica, além de pilotar programas de reforço orçamentário para questões como transporte e merenda escolar, entre outras funções. A tarefa de construir as escolas, contratar e treinar os professores e estruturar o sistema é dos estados. No ensino fundamental, dos municípios. Portanto, os resultados do Pisa não representam um atestado de incompetência do Ministério da Educação. A maior parte da responsabilidade está certamente com estados e municípios. Além do mais, a tolerância do brasileiro para indicadores medíocres na área educacional é sabida e, ao contrário da Alemanha em 2000, não havia nenhuma expectativa de que tivéssemos um desempenho estelar no Pisa. Por que, então, o ministro não pode vir a público e dizer a verdade: que nossa situação é desastrosa, e que enquanto não melhorarmos a qualidade do nosso ensino continuaremos a chafurdar no pântano do subdesenvolvimento e da desigualdade? Não haveria custo político para Mercadante nem para o PT, já que o problema da nossa educação vem de antes da era lulista, e estados administrados por partidos de oposição tiveram resultados tão ruins quanto os da situação. Até entendo que seu antecessor se valesse dessa patacoada, pois teve uma gestão sofrível e era um neófito político em busca de divulgação, mas Mercadante já é um político consagrado e está fazendo uma boa gestão, a melhor da era petista; não precisa disso.
Antes que os patrulheiros venham com suas pedras, eu me adianto: o ministro não mentiu em suas declarações, apenas tapou o sol com a peneira. Fez uma seleção de dados destinada a conferir uma pátina brilhante a um cenário que na verdade é calamitoso. E esse malabarismo político, longe de ser apenas mera questão de conveniência pessoal, é muito ruim para o país.
Vocês que me leem há algum tempo sabem que estou convencido de que o grande entrave para a melhoria da qualidade educacional brasileira é o fato de que nossa população está satisfeita com nossa escola (em pesquisa do Inep com amostra representativa de pais de alunos da escola pública, a qualidade do ensino da escola do filho teve uma inacreditável nota média de 8,6. Realidade africana, percepção coreana...). Enquanto a população não demanda nem apoia mudanças, os governantes não têm capital político para encarar a força obstrucionista dos sindicatos de professores e funcionários (um contingente absurdamente inchado de 5 milhões de pessoas). Excetuando VEJA, este colunista e mais meia dúzia de quixotes, toda a discussão nacional sobre o tema é dominada por mantenedores do status quo. Canais de TV buscam sempre alguma história de superação individual, para dar um contorno feliz a uma história triste. Rádios estão preocupadas com debates inflamados, a despeito da veracidade do que é discutido, quer o assunto seja educação, política ou futebol. Jornais acham que aprofundar um assunto é dar os dois lados da moeda, como se educação fosse questão de opinião, não de pesquisa. Empresários não querem falar nada que gere conflito; a maioria dos intelectuais é também professor e tem interesses pecuniários; políticos em geral querem se tornar prefeitos ou governadores. Nesse cenário, quem é que vai falar para o brasileiro aquilo que ele não quer ouvir? O candidato natural é o ministro da Educação. Imaginem que fantástico seria se Mercadante tivesse vindo a público para dizer: “O Brasil foi muito mal no Pisa. Nossos alunos não estão aprendendo o que precisam. Está na hora de encararmos essa realidade. Temos uma enorme crise educacional — o que, na Era do Conhecimento, significa que enfrentamos um gravíssimo problema. Para vencê-lo, todos teremos de arregaçar as mangas e trabalhar mais. Este ministério não administra nossas escolas, mas estamos à disposição de todos os prefeitos, governadores e secretários de Educação que querem melhorar”.
Essas palavras poderiam marcar o início de uma nova era. E isso não traria custo político ao ministro. Acho até que geraria benefícios. São palavras de um estadista, de alguém que se preocupa com o futuro dos milhões de alunos que hoje estão sendo massacrados por um sistema educacional inepto.
P.S.: Depois da comoção de 2000, a Alemanha deu um salto. Neste último Pisa, ficou bem acima da média obtida pelos países da OCDE, abocanhando o 12º lugar em ciências, o 16º em matemática e o 19º em leitura.
Em dezembro, foram divulgados os resultados do Pisa, o mais importante teste de qualidade da educação do mundo, realizado a cada três anos com alunos de 15 anos. Como vem ocorrendo desde a primeira edição, no ano 2000, os resultados do Brasil foram péssimos. Ficamos em 58º lugar em matemática, 59º em ciências e 55º em leitura, entre os 65 países que participaram. Caímos no ranking nas três áreas, em relação à prova anterior. Como já havia acontecido em edições passadas, nem nossa elite se salvou: os 25% mais ricos entre os alunos brasileiros tiveram desempenho pior que os 25% mais pobres dos países desenvolvidos (437 pontosversus 452 pontos em matemática).
A Alemanha, assim como o Brasil, também participa do Pisa desde 2000. Quando os resultados daquele ano foram divulgados, os alemães descobriram que o país de Goethe, Hegel e Weber tinha ficado em 21º lugar entre os 31 participantes daquela edição, abaixo da média dos países da OCDE. Os dados caíram como uma bomba. A presidente da Comissão de Educação do Parlamento alemão disse que os resultados eram uma “tragédia para a educação alemã”. A Der Spiegel, a mais importante revista do país, refletiu a tragédia com a seguinte manchete na capa: “Os alunos alemães são burros?”. O alvoroço levou inclusive à criação de um game show na TV alemã.
No dia do anúncio dos resultados da última edição do Pisa, a reação brasileira foi bem diferente. Nosso ministro da Educação, Aloizio Mercadante, convocou uma coletiva de imprensa para declarar que o Pisa era uma “grande vitória” da educação brasileira e um sinal de que “estamos no caminho certo” (rumo ao fundo do poço?). Recorreu à mesma cantilena de seu antecessor, Fernando Haddad: “A foto é ruim, mas o filme é muito bom”. Ou seja, a situação atual ainda não é boa, mas o que importa é a evolução dos resultados. E nesse quesito Mercadante fez um corte bastante particular dos resultados (focando apenas matemática, e só de 2003 para cá) para afirmar que o Brasil era “o primeiro aluno da sala”, o país que mais havia evoluído. Sem mencionar, é claro, que evoluímos tanto porque partimos de uma base baixíssima. Quando se parte de quase nada, qualquer pitoco é um salto enorme.
Essas reações são tão previsíveis que escrevi um artigo, disponível em Veja.com, um dia antes da fala do ministro, não só prevendo o teor da resposta como até o recurso à sétima arte (todos os links disponíveis em twitter.com/gioschpe). Mas, apesar de esperada, a resposta do ministro me causa perplexidade e espanto. Ela é muito negativa para o futuro da educação brasileira.
Eis o motivo da minha perplexidade: Mercadante e seu MEC não administram as escolas em que estudam nossos alunos de 15 anos. Dos mais de 50 milhões de estudantes da nossa educação básica, mero 0,5% está na rede federal. No Brasil, a responsabilidade por alunos do ensino médio é fundamentalmente de estados (85% da matrícula) e da iniciativa privada (13%). O MEC administra as universidades federais e cria alguns balizamentos para a educação básica, além de pilotar programas de reforço orçamentário para questões como transporte e merenda escolar, entre outras funções. A tarefa de construir as escolas, contratar e treinar os professores e estruturar o sistema é dos estados. No ensino fundamental, dos municípios. Portanto, os resultados do Pisa não representam um atestado de incompetência do Ministério da Educação. A maior parte da responsabilidade está certamente com estados e municípios. Além do mais, a tolerância do brasileiro para indicadores medíocres na área educacional é sabida e, ao contrário da Alemanha em 2000, não havia nenhuma expectativa de que tivéssemos um desempenho estelar no Pisa. Por que, então, o ministro não pode vir a público e dizer a verdade: que nossa situação é desastrosa, e que enquanto não melhorarmos a qualidade do nosso ensino continuaremos a chafurdar no pântano do subdesenvolvimento e da desigualdade? Não haveria custo político para Mercadante nem para o PT, já que o problema da nossa educação vem de antes da era lulista, e estados administrados por partidos de oposição tiveram resultados tão ruins quanto os da situação. Até entendo que seu antecessor se valesse dessa patacoada, pois teve uma gestão sofrível e era um neófito político em busca de divulgação, mas Mercadante já é um político consagrado e está fazendo uma boa gestão, a melhor da era petista; não precisa disso.
Antes que os patrulheiros venham com suas pedras, eu me adianto: o ministro não mentiu em suas declarações, apenas tapou o sol com a peneira. Fez uma seleção de dados destinada a conferir uma pátina brilhante a um cenário que na verdade é calamitoso. E esse malabarismo político, longe de ser apenas mera questão de conveniência pessoal, é muito ruim para o país.
Vocês que me leem há algum tempo sabem que estou convencido de que o grande entrave para a melhoria da qualidade educacional brasileira é o fato de que nossa população está satisfeita com nossa escola (em pesquisa do Inep com amostra representativa de pais de alunos da escola pública, a qualidade do ensino da escola do filho teve uma inacreditável nota média de 8,6. Realidade africana, percepção coreana...). Enquanto a população não demanda nem apoia mudanças, os governantes não têm capital político para encarar a força obstrucionista dos sindicatos de professores e funcionários (um contingente absurdamente inchado de 5 milhões de pessoas). Excetuando VEJA, este colunista e mais meia dúzia de quixotes, toda a discussão nacional sobre o tema é dominada por mantenedores do status quo. Canais de TV buscam sempre alguma história de superação individual, para dar um contorno feliz a uma história triste. Rádios estão preocupadas com debates inflamados, a despeito da veracidade do que é discutido, quer o assunto seja educação, política ou futebol. Jornais acham que aprofundar um assunto é dar os dois lados da moeda, como se educação fosse questão de opinião, não de pesquisa. Empresários não querem falar nada que gere conflito; a maioria dos intelectuais é também professor e tem interesses pecuniários; políticos em geral querem se tornar prefeitos ou governadores. Nesse cenário, quem é que vai falar para o brasileiro aquilo que ele não quer ouvir? O candidato natural é o ministro da Educação. Imaginem que fantástico seria se Mercadante tivesse vindo a público para dizer: “O Brasil foi muito mal no Pisa. Nossos alunos não estão aprendendo o que precisam. Está na hora de encararmos essa realidade. Temos uma enorme crise educacional — o que, na Era do Conhecimento, significa que enfrentamos um gravíssimo problema. Para vencê-lo, todos teremos de arregaçar as mangas e trabalhar mais. Este ministério não administra nossas escolas, mas estamos à disposição de todos os prefeitos, governadores e secretários de Educação que querem melhorar”.
Essas palavras poderiam marcar o início de uma nova era. E isso não traria custo político ao ministro. Acho até que geraria benefícios. São palavras de um estadista, de alguém que se preocupa com o futuro dos milhões de alunos que hoje estão sendo massacrados por um sistema educacional inepto.
P.S.: Depois da comoção de 2000, a Alemanha deu um salto. Neste último Pisa, ficou bem acima da média obtida pelos países da OCDE, abocanhando o 12º lugar em ciências, o 16º em matemática e o 19º em leitura.
A lição de Ariel Sharon - JOÃO PEREIRA COUTINHO
FOLHA DE SP - 14/01
Nenhum outro premiê israelense fez na Faixa de Gaza exatamente aquilo que os palestinos reclamavam
Morre Ariel Sharon. Há festejos na Faixa de Gaza. Fato: não esperava que os palestinos chorassem a morte de um homem que fez da segurança de Israel a sua eterna paixão.
Primeiro, combatendo nas principais guerras que o país travou desde 1948. E, depois, elegendo a Organização para a Libertação da Palestina (e Arafat) como inimigo número um --um ódio pessoal que o levou à invasão do Líbano em 1982 e aos massacres nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. Sharon não ordenou essas matanças de palestinos?
Novo fato. Mas não é preciso ser um gênio militar para perceber que, depois do assassinato de Bashir Gemayel, o líder dos cristãos do Líbano, haveria vingança pesada dos Falangistas sobre os palestinos que eles consideravam responsáveis pelo homicídio. Fechar os olhos a essas atrocidades é também uma forma de cumplicidade lamentável.
Acontece que os festejos em Gaza soam estranho quando nenhum outro premiê israelense fez no território exatamente aquilo que os palestinos reclamavam: retirada unilateral do exército de Israel.
Hoje, quando se fala dos "territórios ocupados", a Cisjordânia e os Montes Golã (na Síria) fazem parte do pacote. Mas a Faixa de Gaza, desde 2005, pertence aos palestinos porque Ariel Sharon decidiu terminar com uma ocupação de quase 40 anos, desmantelando milhares de colonos judeus na região.
Os motivos não foram beneméritos. A ocupação representava um desgaste internacional para Israel. Mas a principal razão era pragmática: Sharon entendeu que o "processo de paz" chegara ao fim.
Cinco anos antes, em Camp David, Israel estava disposto a concessões históricas impensáveis: o reconhecimento de um Estado palestino independente em Gaza e na Cisjordânia; a divisão de Jerusalém como capital dos dois Estados; e até o retorno de uma parcela de refugiados palestinos a Israel e compensações financeiras para os restantes (que viveriam, logicamente, no futuro Estado palestino).
Arafat, em gesto dificilmente classificável, exigiu o retorno de todos os refugiados a Israel (4 milhões), uma forma elegante de convidar o estado judaico a suicidar-se demograficamente (Israel tem uma população de 8 milhões, com 6 milhões de judeus e 1,5 milhões de árabes).
Depois do fracasso de Camp David, seguiu-se Ariel Sharon --uma escolha democrática que representa bem a desilusão da sociedade israelense com as negociações de paz.
E Sharon limitou-se a seguir a velha recomendação do general Yigal Alon, que depois da Guerra dos Seis Dias de 1967 alertara para os perigos de uma ocupação sem fim em Gaza e na Cisjordânia. Melhor seria controlar os territórios (de fora) sem governar milhões de palestinos hostis (por dentro). Ninguém o escutou. Só Sharon, 40 anos depois.
Dito e feito: Israel se retira de Gaza em 2005 e, no ano seguinte, o Hamas vence as eleições no território. Na imprensa "mainstream", o Hamas é apresentado como um grupo que luta contra a ocupação israelense. É uma forma de ver as coisas.
Outra é dizer simplesmente que se trata de um grupo terrorista que nega a existência da "entidade sionista"; que passou a usar Gaza como rampa de lançamento de "rockets" para o interior de Israel a partir de 2005; e que, também a partir desse ano, elegeu a Autoridade Palestina da Cisjordânia como "inimiga" fraternal. Tudo por causa da "traição" de Mahmoud Abbas em dialogar com Israel.
Hoje, não existe mais uma Palestina. Existem, pelo menos, duas: uma em Gaza, outra na Cisjordânia. Falar de um Estado palestino independente é uma piada de mau gosto quando os próprios palestinos não se entendem entre si.
Contas feitas, o que fica na morte de Sharon? Sim, um legado militar com páginas notáveis (lembrar a campanha do Sinai em 1967 contra o Egito) e as páginas negras (os massacres de Sabra e Shatila).
Mas, depois da retirada unilateral de Gaza, Sharon mostrou ao mundo que o conflito israelense-palestino não é territorial; é puramente ideológico. E que é inútil trocar terra por paz quando o interlocutor nem sequer reconhece o nosso direito à existência.
Os festejos de Gaza expressam isso mesmo: os palestinianos já têm um território autônomo, que poderia ser a base de um futuro Estado palestino. Mas o problema central continua o mesmo: o fato de os judeus também terem o seu Estado ali ao lado.
Nenhum outro premiê israelense fez na Faixa de Gaza exatamente aquilo que os palestinos reclamavam
Morre Ariel Sharon. Há festejos na Faixa de Gaza. Fato: não esperava que os palestinos chorassem a morte de um homem que fez da segurança de Israel a sua eterna paixão.
Primeiro, combatendo nas principais guerras que o país travou desde 1948. E, depois, elegendo a Organização para a Libertação da Palestina (e Arafat) como inimigo número um --um ódio pessoal que o levou à invasão do Líbano em 1982 e aos massacres nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. Sharon não ordenou essas matanças de palestinos?
Novo fato. Mas não é preciso ser um gênio militar para perceber que, depois do assassinato de Bashir Gemayel, o líder dos cristãos do Líbano, haveria vingança pesada dos Falangistas sobre os palestinos que eles consideravam responsáveis pelo homicídio. Fechar os olhos a essas atrocidades é também uma forma de cumplicidade lamentável.
Acontece que os festejos em Gaza soam estranho quando nenhum outro premiê israelense fez no território exatamente aquilo que os palestinos reclamavam: retirada unilateral do exército de Israel.
Hoje, quando se fala dos "territórios ocupados", a Cisjordânia e os Montes Golã (na Síria) fazem parte do pacote. Mas a Faixa de Gaza, desde 2005, pertence aos palestinos porque Ariel Sharon decidiu terminar com uma ocupação de quase 40 anos, desmantelando milhares de colonos judeus na região.
Os motivos não foram beneméritos. A ocupação representava um desgaste internacional para Israel. Mas a principal razão era pragmática: Sharon entendeu que o "processo de paz" chegara ao fim.
Cinco anos antes, em Camp David, Israel estava disposto a concessões históricas impensáveis: o reconhecimento de um Estado palestino independente em Gaza e na Cisjordânia; a divisão de Jerusalém como capital dos dois Estados; e até o retorno de uma parcela de refugiados palestinos a Israel e compensações financeiras para os restantes (que viveriam, logicamente, no futuro Estado palestino).
Arafat, em gesto dificilmente classificável, exigiu o retorno de todos os refugiados a Israel (4 milhões), uma forma elegante de convidar o estado judaico a suicidar-se demograficamente (Israel tem uma população de 8 milhões, com 6 milhões de judeus e 1,5 milhões de árabes).
Depois do fracasso de Camp David, seguiu-se Ariel Sharon --uma escolha democrática que representa bem a desilusão da sociedade israelense com as negociações de paz.
E Sharon limitou-se a seguir a velha recomendação do general Yigal Alon, que depois da Guerra dos Seis Dias de 1967 alertara para os perigos de uma ocupação sem fim em Gaza e na Cisjordânia. Melhor seria controlar os territórios (de fora) sem governar milhões de palestinos hostis (por dentro). Ninguém o escutou. Só Sharon, 40 anos depois.
Dito e feito: Israel se retira de Gaza em 2005 e, no ano seguinte, o Hamas vence as eleições no território. Na imprensa "mainstream", o Hamas é apresentado como um grupo que luta contra a ocupação israelense. É uma forma de ver as coisas.
Outra é dizer simplesmente que se trata de um grupo terrorista que nega a existência da "entidade sionista"; que passou a usar Gaza como rampa de lançamento de "rockets" para o interior de Israel a partir de 2005; e que, também a partir desse ano, elegeu a Autoridade Palestina da Cisjordânia como "inimiga" fraternal. Tudo por causa da "traição" de Mahmoud Abbas em dialogar com Israel.
Hoje, não existe mais uma Palestina. Existem, pelo menos, duas: uma em Gaza, outra na Cisjordânia. Falar de um Estado palestino independente é uma piada de mau gosto quando os próprios palestinos não se entendem entre si.
Contas feitas, o que fica na morte de Sharon? Sim, um legado militar com páginas notáveis (lembrar a campanha do Sinai em 1967 contra o Egito) e as páginas negras (os massacres de Sabra e Shatila).
Mas, depois da retirada unilateral de Gaza, Sharon mostrou ao mundo que o conflito israelense-palestino não é territorial; é puramente ideológico. E que é inútil trocar terra por paz quando o interlocutor nem sequer reconhece o nosso direito à existência.
Os festejos de Gaza expressam isso mesmo: os palestinianos já têm um território autônomo, que poderia ser a base de um futuro Estado palestino. Mas o problema central continua o mesmo: o fato de os judeus também terem o seu Estado ali ao lado.
Ano novo, vida nova? - ARNALDO JABOR
O Estado de S.Paulo - 14/01
Vivemos um momento histórico em que tudo parece desabar, o que pode nos levar ao chamado "delírio de ruína", como chamam os psiquiatras. No entanto, 2013 foi um ano didático e creio que as deficiências seculares de nossa formação estão vindo à tona. Assim, estamos evoluindo de costas, aprendendo com os horrores. Dos porões do atraso já surgem luzes, em nossa 'jornada de imbecis até o entendimento'. Isso. O título de uma peça de Plínio Marcos serve bem para descrever o caminho que trilhamos em 2013. Temos razões até para um desconfiado otimismo. Qual será a lista de nossas esperanças?
Por exemplo, finalmente a família Sarney está servindo para alguma coisa: o horror do Estado (que possuem há 50 anos) está vindo a furo, como um tumor. O povo do Maranhão está menos iludido em sua desgraça. A prisão dos mensaleiros já tinha alertado sobre o estado de nossas penitenciárias. O medo máximo dos 'dirceus' era cair perto da 'boca do boi', nas celas que matam milhares de desespero e de faca, estilete, decapitação.
Em seguida, estourou Pedrinhas, abrindo finalmente as cortinas de gente intocável, aliada com sua 'cordialidade' criminosa. Sarney sumiu e Dilma também, pois não pode perder o aliado para a reeleição. Mas, já sabemos mais sobre isso. Didático: Sarney pauta a Dilma. Será que ela vai ficar ofendida?
Aprendemos que detalhes explicam muito. Já sabemos que os cardápios de Roseana e Cid Gomes são parecidos. Cid gosta de escargot, caviar, salmão e outras iguarias, custando 3 milhões para o Ceará; Roseana já prefere grandes quantidades: 850 quilos de filé 'mignon', duas toneladas e meia de camarão, 200 quilos de salmão e 80 de lagostas. Dois menus que são uma aula de ciência política brasileira.
Já aprendemos que, além de 'esquerda' e 'direita', temos de pensar na qualidade da vida e do interesse público. Como dizia Marco Aurélio (não o Garcia nem o de Mello, claro, mas o imperador): "O que é bom para a abelha tem de ser bom para a colmeia".
Muitos já entendem que o Estado não é a 'solução', mas é o 'problema'. Já sabem que um Estado gigante suga como um vampiro a sociedade e não devolve em serviços e reformas o que nós emprestamos a ele. Já sabemos que a sociedade acordou, apesar de amedrontada pelos fascistas dos black blocs, como vimos em junho de 2013.
Entrou em nosso entendimento (ao menos para os que sabem ler e não são o 'estrume' das oligarquias) que a corrupção não é um pecado moral, mas uma forma de governo. Já aprendemos que não há um contrato sem aditamento superfaturado, já sabemos que ladrões e bolcheviques se unem por um mesmo fim: pilhar o Estado, em nome de uma ideologia oportunista.
Alguns (ou muitos?) intelectuais com má consciência já devem ter entendido que substituir o possível pelo imaginário, o presente por um 'futuro', o singular pelo geral destroem a administração da vida real. Somos um país sob anestesia, mas sem cirurgia, como dizia Simonsen.
Hoje, temos de aceitar a impossibilidade de uma harmonia final. Não há solução -, mas, 'processo'. Nunca teremos um país perfeito, resolvido, nunca chegaremos "lá". Devemos abandonar uma política "central, geral, total", como nos planos quinquenais da URSS ou nos "saltos para a frente" da China de Mao. Somente uma política econômica indutiva, imaginosa, descentrada e pragmática pode ir formando um tecido de parcialidades que acabem por mudar o conjunto.
Ao menos estamos mais no presente. A importância da internet, dos celulares, a interdependência com o vasto planeta nos livrou um pouco da alma de tupiniquim, de vira-latas paranoicos.
Já começamos também a entender a diferença entre causas e consequências. Miséria é consequência. A injustiça é endêmica e de tal modo paralisante que inviabilizou até agora uma real 'luta de classes'. Os excluídos já nasceram derrotados "desde Cabral".
Como dizem as avós: "Há males que vêm para o bem" - a ditadura nos trouxe a "fome de democracia"; a piração oligárquica e corrupta de Collor nos trouxe uma "fome de República", de modernização do País. O julgamento do STF e a dificuldade de sua realização durante oito anos nos mostrou a evidência de que o Judiciário tem de ser reformado urgentemente.
A falência fiscal do Estado nos deu uma espécie de "orfandade" diante do gigante quebrado, mas criou mais autonomia nos empreendedores.
Deixou claro que o Estado tem de existir para a sociedade e não o contrário, como ainda é hoje.
Aprendemos que a tal "mão invisível do mercado" pode nos dar bananas, claro. No entanto, o conceito de "mercado" dinamiza a autorregulação da vida social e econômica do País, sim. Mercado é um termômetro, um sensor dos desejos sociais, mercado relativiza certezas burras e poderes autoritários. Talvez já tenhamos aprendido que a culpa de nosso atraso não é de imperialistas e canalhas de fora. Mudar o País tem de ser uma luta contra os canalhas de dentro. Não precisamos de invasores e inimigos, com esta multidão de saúvas que nos corroem.
Infelizmente, muita gente hoje ainda acredita que um governo de estatizações e tardio desenvolvimentismo, governo que ainda trabalha em cima de categorias velhas como 'democracia burguesa', 'moralidade pequeno-burguesa', 'patrimônio nacional' e o novo sujo "bolivarianismo" esteja no caminho certo. Não conseguem aceitar o óbvio: o Brasil estava preparado pelo Plano Real e o governo de FHC para decolar. Veio o Lula e jogou tudo para trás, aliado principal de Sarney e até do Severino, lembram? Ele levava macarrão como propina no restaurante do Congresso. A continuar assim (se a Dilma vencer), teremos uma brutal recessão em 2014/15, e o aparelhamento descarado do Estado talvez impeça um retorno à racionalidade perdida. Aí, 2014 será um "ano interessante", como dizem os chineses: um ano de desgraças, erros crassos e teimosia burra.
E estará provada a maldição, a famosa praga chinesa: "Tomara que você viva em tempos interessantes". Só nos resta desejar ano novo, vida nova.
Mas, que vida?
Vivemos um momento histórico em que tudo parece desabar, o que pode nos levar ao chamado "delírio de ruína", como chamam os psiquiatras. No entanto, 2013 foi um ano didático e creio que as deficiências seculares de nossa formação estão vindo à tona. Assim, estamos evoluindo de costas, aprendendo com os horrores. Dos porões do atraso já surgem luzes, em nossa 'jornada de imbecis até o entendimento'. Isso. O título de uma peça de Plínio Marcos serve bem para descrever o caminho que trilhamos em 2013. Temos razões até para um desconfiado otimismo. Qual será a lista de nossas esperanças?
Por exemplo, finalmente a família Sarney está servindo para alguma coisa: o horror do Estado (que possuem há 50 anos) está vindo a furo, como um tumor. O povo do Maranhão está menos iludido em sua desgraça. A prisão dos mensaleiros já tinha alertado sobre o estado de nossas penitenciárias. O medo máximo dos 'dirceus' era cair perto da 'boca do boi', nas celas que matam milhares de desespero e de faca, estilete, decapitação.
Em seguida, estourou Pedrinhas, abrindo finalmente as cortinas de gente intocável, aliada com sua 'cordialidade' criminosa. Sarney sumiu e Dilma também, pois não pode perder o aliado para a reeleição. Mas, já sabemos mais sobre isso. Didático: Sarney pauta a Dilma. Será que ela vai ficar ofendida?
Aprendemos que detalhes explicam muito. Já sabemos que os cardápios de Roseana e Cid Gomes são parecidos. Cid gosta de escargot, caviar, salmão e outras iguarias, custando 3 milhões para o Ceará; Roseana já prefere grandes quantidades: 850 quilos de filé 'mignon', duas toneladas e meia de camarão, 200 quilos de salmão e 80 de lagostas. Dois menus que são uma aula de ciência política brasileira.
Já aprendemos que, além de 'esquerda' e 'direita', temos de pensar na qualidade da vida e do interesse público. Como dizia Marco Aurélio (não o Garcia nem o de Mello, claro, mas o imperador): "O que é bom para a abelha tem de ser bom para a colmeia".
Muitos já entendem que o Estado não é a 'solução', mas é o 'problema'. Já sabem que um Estado gigante suga como um vampiro a sociedade e não devolve em serviços e reformas o que nós emprestamos a ele. Já sabemos que a sociedade acordou, apesar de amedrontada pelos fascistas dos black blocs, como vimos em junho de 2013.
Entrou em nosso entendimento (ao menos para os que sabem ler e não são o 'estrume' das oligarquias) que a corrupção não é um pecado moral, mas uma forma de governo. Já aprendemos que não há um contrato sem aditamento superfaturado, já sabemos que ladrões e bolcheviques se unem por um mesmo fim: pilhar o Estado, em nome de uma ideologia oportunista.
Alguns (ou muitos?) intelectuais com má consciência já devem ter entendido que substituir o possível pelo imaginário, o presente por um 'futuro', o singular pelo geral destroem a administração da vida real. Somos um país sob anestesia, mas sem cirurgia, como dizia Simonsen.
Hoje, temos de aceitar a impossibilidade de uma harmonia final. Não há solução -, mas, 'processo'. Nunca teremos um país perfeito, resolvido, nunca chegaremos "lá". Devemos abandonar uma política "central, geral, total", como nos planos quinquenais da URSS ou nos "saltos para a frente" da China de Mao. Somente uma política econômica indutiva, imaginosa, descentrada e pragmática pode ir formando um tecido de parcialidades que acabem por mudar o conjunto.
Ao menos estamos mais no presente. A importância da internet, dos celulares, a interdependência com o vasto planeta nos livrou um pouco da alma de tupiniquim, de vira-latas paranoicos.
Já começamos também a entender a diferença entre causas e consequências. Miséria é consequência. A injustiça é endêmica e de tal modo paralisante que inviabilizou até agora uma real 'luta de classes'. Os excluídos já nasceram derrotados "desde Cabral".
Como dizem as avós: "Há males que vêm para o bem" - a ditadura nos trouxe a "fome de democracia"; a piração oligárquica e corrupta de Collor nos trouxe uma "fome de República", de modernização do País. O julgamento do STF e a dificuldade de sua realização durante oito anos nos mostrou a evidência de que o Judiciário tem de ser reformado urgentemente.
A falência fiscal do Estado nos deu uma espécie de "orfandade" diante do gigante quebrado, mas criou mais autonomia nos empreendedores.
Deixou claro que o Estado tem de existir para a sociedade e não o contrário, como ainda é hoje.
Aprendemos que a tal "mão invisível do mercado" pode nos dar bananas, claro. No entanto, o conceito de "mercado" dinamiza a autorregulação da vida social e econômica do País, sim. Mercado é um termômetro, um sensor dos desejos sociais, mercado relativiza certezas burras e poderes autoritários. Talvez já tenhamos aprendido que a culpa de nosso atraso não é de imperialistas e canalhas de fora. Mudar o País tem de ser uma luta contra os canalhas de dentro. Não precisamos de invasores e inimigos, com esta multidão de saúvas que nos corroem.
Infelizmente, muita gente hoje ainda acredita que um governo de estatizações e tardio desenvolvimentismo, governo que ainda trabalha em cima de categorias velhas como 'democracia burguesa', 'moralidade pequeno-burguesa', 'patrimônio nacional' e o novo sujo "bolivarianismo" esteja no caminho certo. Não conseguem aceitar o óbvio: o Brasil estava preparado pelo Plano Real e o governo de FHC para decolar. Veio o Lula e jogou tudo para trás, aliado principal de Sarney e até do Severino, lembram? Ele levava macarrão como propina no restaurante do Congresso. A continuar assim (se a Dilma vencer), teremos uma brutal recessão em 2014/15, e o aparelhamento descarado do Estado talvez impeça um retorno à racionalidade perdida. Aí, 2014 será um "ano interessante", como dizem os chineses: um ano de desgraças, erros crassos e teimosia burra.
E estará provada a maldição, a famosa praga chinesa: "Tomara que você viva em tempos interessantes". Só nos resta desejar ano novo, vida nova.
Mas, que vida?
Ueba! Cauã em Amores Pelados! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 14/01
E o Tufão é corno de novo?! O Murilo Benício devia mudar de nome pra MUGIDO Benício! Rarará!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E o rolezinho? Como diz o tuiteiro webtoc: "Quando for ao shopping JK nunca diga que vai comprar um rolexzinho". Aliás, em shopping algum. Seria pânico geral! Causa mais pânico que uma invasão de baratas carnívoras dilaceradoras de vísceras! Rarará!
E eu tô adorando a minissérie "Amores Roubados"! Ops, Amores Pelados! A história de um comelão! O Cauã Reymond é o sucessor do Zé Mayer! E o site noveludo traz o resumo de "Amores Roubados". É a foto do Cauã gritando: "EU VÔ TI CUMÊ!". Pronto, esse é o resumo da minissérie: "EU VÔ TI COMÊ!" E a mulherada: "PÓ COMÊ!".
Primeiro capítulo: "Eu vô ti come, pó comê!". Segundo capítulo: "Eu vô ti comê, pó comê!". Terceiro capítulo: "Eu vô ti comê", e a Cassia Kis: "Mas eu sou a sua mãe!". Rarará!
E sabe por que a minissérie tem intervalo? Pro pinto do Cauã esfriar! E o Tufão é corno de novo?! O Murilo Benício devia mudar de nome pra MUGIDO Benício! MÚUUUUgido Benício! Rarará! Estão todos INTERTREPANDO muito bem. E a fotografia é linda. E Patrícia Pillar e Dira Paes, sensacionais!
E atenção! Maranhão Urgente! Manchete do Piauí Herald: "Roseana Sarney manda beijinho no ombro para os recalcados". E a foto dela vestida de Valesca Popozuda? O tigre do clipe tem um bigodão! Rarará! E continuo fascinado pela quentinha da Roseana: lagosta, champanhe, uísque e caviar. Maranhão vira Lagostão! Rarará!
E a charge do Samuca: "E aí, filhona, apurando os crimes?". "Primeiro me passa o caviar." Rarará! E o Sarney: "Tudo culpa do meu antecessor". "Quem?" "Dom Pedro 2º." Ops, Pedro Álvares Cabral. O antecessor do Sarney foi Pedro Álvares Cabral, quando gritou: "Sarney à vista". Outros acham que o antecessor do Sarney foi Tupã!
E na França, em 1890, teve uma epidemia chamada Epidemia do Bigode. E aí nasceu a família Sarney. Família Sarney: os moribundos de fogo! Rarará! Donos do MYranhão!
É mole? É mole, mas sobe!
O Brasil é Lúdico! Olha esse cartaz no poste: "Sumo com a pessoa amada durante o Carnaval. Devolvo na quarta-feira de cinzas. Ligue já!". E um amigo ficou numa pousada no Nordeste com a seguinte placa: "Quem quiser café na cama que vá dormir na cozinha". Rarará.
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
E o Tufão é corno de novo?! O Murilo Benício devia mudar de nome pra MUGIDO Benício! Rarará!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E o rolezinho? Como diz o tuiteiro webtoc: "Quando for ao shopping JK nunca diga que vai comprar um rolexzinho". Aliás, em shopping algum. Seria pânico geral! Causa mais pânico que uma invasão de baratas carnívoras dilaceradoras de vísceras! Rarará!
E eu tô adorando a minissérie "Amores Roubados"! Ops, Amores Pelados! A história de um comelão! O Cauã Reymond é o sucessor do Zé Mayer! E o site noveludo traz o resumo de "Amores Roubados". É a foto do Cauã gritando: "EU VÔ TI CUMÊ!". Pronto, esse é o resumo da minissérie: "EU VÔ TI COMÊ!" E a mulherada: "PÓ COMÊ!".
Primeiro capítulo: "Eu vô ti come, pó comê!". Segundo capítulo: "Eu vô ti comê, pó comê!". Terceiro capítulo: "Eu vô ti comê", e a Cassia Kis: "Mas eu sou a sua mãe!". Rarará!
E sabe por que a minissérie tem intervalo? Pro pinto do Cauã esfriar! E o Tufão é corno de novo?! O Murilo Benício devia mudar de nome pra MUGIDO Benício! MÚUUUUgido Benício! Rarará! Estão todos INTERTREPANDO muito bem. E a fotografia é linda. E Patrícia Pillar e Dira Paes, sensacionais!
E atenção! Maranhão Urgente! Manchete do Piauí Herald: "Roseana Sarney manda beijinho no ombro para os recalcados". E a foto dela vestida de Valesca Popozuda? O tigre do clipe tem um bigodão! Rarará! E continuo fascinado pela quentinha da Roseana: lagosta, champanhe, uísque e caviar. Maranhão vira Lagostão! Rarará!
E a charge do Samuca: "E aí, filhona, apurando os crimes?". "Primeiro me passa o caviar." Rarará! E o Sarney: "Tudo culpa do meu antecessor". "Quem?" "Dom Pedro 2º." Ops, Pedro Álvares Cabral. O antecessor do Sarney foi Pedro Álvares Cabral, quando gritou: "Sarney à vista". Outros acham que o antecessor do Sarney foi Tupã!
E na França, em 1890, teve uma epidemia chamada Epidemia do Bigode. E aí nasceu a família Sarney. Família Sarney: os moribundos de fogo! Rarará! Donos do MYranhão!
É mole? É mole, mas sobe!
O Brasil é Lúdico! Olha esse cartaz no poste: "Sumo com a pessoa amada durante o Carnaval. Devolvo na quarta-feira de cinzas. Ligue já!". E um amigo ficou numa pousada no Nordeste com a seguinte placa: "Quem quiser café na cama que vá dormir na cozinha". Rarará.
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Fator Diego Costa - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 14/01
Lembra o caso do sergipano Diego Costa, do Atlético de Madrid, que optou jogar pela seleção da Espanha?
A CBF descobriu que, como ele, há pelo menos 35 jogadores que saíram do Brasil muito cedo e jogam no exterior em times de ponta. Deste total, sete são até selecionáveis.
Segue...
A CBF vai acompanhar mais de perto esses atletas.
Lei Rouanet
A juíza Aline Alves Miranda Araújo, da 7ª Vara Federal do Rio, anulou a assembleia de dezembro de 2012 que renovou o Conselho Nacional de Política Cultural, do MinC.
A ação foi proposta pelos advogados Flávio Mattos de Oliveira e Raul Teixeira, que apontaram irregularidades na escolha.
Esse conselho escolhe os projetos com direito a captar recursos via Lei Rouanet, dinheiro meu, seu, nosso.
Mas...
O que se diz na Rádio Corredor é que a formação atual do Conselho favoreceu o PCdoB.
Mãos ao alto!
A Operação Lapa Presente, do governo do Rio, deu fim a um “engana gringo” de anos.
Uma turma começava a tocar debaixo dos Arcos, e, quando os gringos chegavam para assistir, os assaltantes vinham e faziam a limpa.
Acabou em samba
Joaquim Barbosa acabou no bloco carioca Spanta Neném. O enredo este ano é “Brasil mostra sua cara”. Um trecho do samba:
“No país da bola/onde a impunidade deita e rola/na poesia vou pegar você/Sou seu Joaquim Barbosa/Vou te julgar/Vou te prender.”
Faz sentido.
Tradição e propriedade
A Montfort, de orientação católica ultraconservadora, saudou ontem a escolha de Dom Orani como novo cardeal.
No texto, a entidade fundada por Orlando Fedeli, falecido em 2010, lembra que o novo cardeal foi “o primeiro prelado brasileiro a haver concedido uma paróquia para o rito tridentino” (missa à moda antiga em latim).
Só que...
Em junho de 2007, Fedeli, que atuou por mais de 30 anos na TFP, escreveu que Dom Orani, na época em Belém, tentou impedir que ele fizesse palestras na capital do Pará.
No mais...
Viva Dom Orani!
Drible na Europa
“O drible”, de Sérgio Rodrigues, foi vendido para a França, numa negociação comandada por Lucia Riff. Vai ser publicado em março pelas Éditons du Seuil, com lançamento no Salão do Livro de Paris, em homenagem ao Brasil.
Em junho, o romance será lançado na Espanha e na América Latina pela Editora Anagrama.
Viva Candeia!
O Timoneiros da Viola, bloco de Madureira, vai homenagear Candeia no carnaval. A camisa, assinada pelo designer Ricardo Galhardo, tem, na parte de trás, um leopardo, animal que foi pintado na parede da Escola de Samba Quilombo, fundada por Candeia, nos anos 1970.
Down no soçaite
O caso está da 15ª DP (Gávea). Uma carioca, com os filhos e a babá, sábado, no Clube dos Macacos, no Horto, perguntou a uma mulher, deitada numa espreguiçadeira, se a cadeira ao lado estava vazia, e ouviu:
— Não. Tô usando para apoiar minha lata (de refrigerante).
Ela tentou argumentar, disse que era egoísmo. Mas o marido da outra chegou soltando palavrões. A babá pediu calma, e ele disparou: “Cala a boca, macaca!”
Deus castiga
A Igreja N. Sª. de Fátima, no Centro de Caxias, na Baixada Fluminense, foi assaltada pela quarta vez em dez dias.
A última foi na madrugada de domingo. Os ladrões, que entraram pelo telhado, levaram o sacrário, onde são guardados os objetos sagrados, como o cálice.
Melhor assim
O bueiro na Rua do Catete, mostrado aqui ontem, não oferece mais perigo.
A Cedae conta que a manutenção é responsabilidade do prédio em frente, mas colocou uma nova tampa no buraco.
Sem pança
De uma vovó, sábado, no intervalo de “Elis, a musical”, sobre o ator José Wilker, na plateia do Oi Casa Grande:
— Televisão engorda muito. Na TV, parece que ele tem uma pança enorme.
A CBF descobriu que, como ele, há pelo menos 35 jogadores que saíram do Brasil muito cedo e jogam no exterior em times de ponta. Deste total, sete são até selecionáveis.
Segue...
A CBF vai acompanhar mais de perto esses atletas.
Lei Rouanet
A juíza Aline Alves Miranda Araújo, da 7ª Vara Federal do Rio, anulou a assembleia de dezembro de 2012 que renovou o Conselho Nacional de Política Cultural, do MinC.
A ação foi proposta pelos advogados Flávio Mattos de Oliveira e Raul Teixeira, que apontaram irregularidades na escolha.
Esse conselho escolhe os projetos com direito a captar recursos via Lei Rouanet, dinheiro meu, seu, nosso.
Mas...
O que se diz na Rádio Corredor é que a formação atual do Conselho favoreceu o PCdoB.
Mãos ao alto!
A Operação Lapa Presente, do governo do Rio, deu fim a um “engana gringo” de anos.
Uma turma começava a tocar debaixo dos Arcos, e, quando os gringos chegavam para assistir, os assaltantes vinham e faziam a limpa.
Acabou em samba
Joaquim Barbosa acabou no bloco carioca Spanta Neném. O enredo este ano é “Brasil mostra sua cara”. Um trecho do samba:
“No país da bola/onde a impunidade deita e rola/na poesia vou pegar você/Sou seu Joaquim Barbosa/Vou te julgar/Vou te prender.”
Faz sentido.
Tradição e propriedade
A Montfort, de orientação católica ultraconservadora, saudou ontem a escolha de Dom Orani como novo cardeal.
No texto, a entidade fundada por Orlando Fedeli, falecido em 2010, lembra que o novo cardeal foi “o primeiro prelado brasileiro a haver concedido uma paróquia para o rito tridentino” (missa à moda antiga em latim).
Só que...
Em junho de 2007, Fedeli, que atuou por mais de 30 anos na TFP, escreveu que Dom Orani, na época em Belém, tentou impedir que ele fizesse palestras na capital do Pará.
No mais...
Viva Dom Orani!
Drible na Europa
“O drible”, de Sérgio Rodrigues, foi vendido para a França, numa negociação comandada por Lucia Riff. Vai ser publicado em março pelas Éditons du Seuil, com lançamento no Salão do Livro de Paris, em homenagem ao Brasil.
Em junho, o romance será lançado na Espanha e na América Latina pela Editora Anagrama.
Viva Candeia!
O Timoneiros da Viola, bloco de Madureira, vai homenagear Candeia no carnaval. A camisa, assinada pelo designer Ricardo Galhardo, tem, na parte de trás, um leopardo, animal que foi pintado na parede da Escola de Samba Quilombo, fundada por Candeia, nos anos 1970.
Down no soçaite
O caso está da 15ª DP (Gávea). Uma carioca, com os filhos e a babá, sábado, no Clube dos Macacos, no Horto, perguntou a uma mulher, deitada numa espreguiçadeira, se a cadeira ao lado estava vazia, e ouviu:
— Não. Tô usando para apoiar minha lata (de refrigerante).
Ela tentou argumentar, disse que era egoísmo. Mas o marido da outra chegou soltando palavrões. A babá pediu calma, e ele disparou: “Cala a boca, macaca!”
Deus castiga
A Igreja N. Sª. de Fátima, no Centro de Caxias, na Baixada Fluminense, foi assaltada pela quarta vez em dez dias.
A última foi na madrugada de domingo. Os ladrões, que entraram pelo telhado, levaram o sacrário, onde são guardados os objetos sagrados, como o cálice.
Melhor assim
O bueiro na Rua do Catete, mostrado aqui ontem, não oferece mais perigo.
A Cedae conta que a manutenção é responsabilidade do prédio em frente, mas colocou uma nova tampa no buraco.
Sem pança
De uma vovó, sábado, no intervalo de “Elis, a musical”, sobre o ator José Wilker, na plateia do Oi Casa Grande:
— Televisão engorda muito. Na TV, parece que ele tem uma pança enorme.
SÓ DÁ COROA NO VERÃO - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 14/01
Desde o Réveillon, o modismo foi desfilado por mulheres de todas as idades e estilos, entre elas a empresária Cristiana Arcangeli, a socialite Ana Paula Junqueira e a modelo Caroline Bittencourt.
"Minha tia fez a minha", diz a blogueira Thássia Naves, que começou a prestar atenção nas coroas quando visitou a Tailândia. "Lá, elas são naturais. É bem chamativo mesmo, a pessoa tem que se sentir bem usando."
A blogueira mineira aderiu a um modelo com flores maiores que a média. Ganhou muitos comentários positivos e negativos entre os seus 828 mil seguidores no Instagram.
A cantora americana Lana Del Rey foi uma das precursoras do uso do acessório. E levou um grande número de meninas vestidas a caráter para seu show no festival Planeta Terra, realizado em São Paulo, em novembro.
Democráticas, as coroas pode ser encontradas em shoppings de luxo e no varejo popular da rua 25 de Março, com preços que vão de R$ 15 a R$ 100. Ainda há blogs que ensinam como fazer o adereço gastando pouco.
Do pescoço para baixo, o crochê e a renda são os outros hits do verão. "Desde as mais magras até as mais cheinhas estão usando", constata Luis Fiod, stylist de famosas como a apresentadora Eliana.
Vestidos da estilista Martha Medeiros, especialista em renda, que vão de R$ 3.980 a R$ 28.980, foram onipresentes no Instagram de quem dita moda. O modelo usado por Thássia no Ano-Novo, por exemplo, sai por R$ 14.980. A modelo Cassia Avila também circulou por Trancoso com longo da marca Lilly Sarti de R$ 3.896. Todas fazendo a linha "hippie chique".
DEPOIS DE AMARILDO
A OAB-RJ tenta obter há três meses informações oficiais sobre número de desaparecidos e de autos de resistência (mortes em confronto) no Estado do Rio. A entidade ainda não recebeu os registros da Polícia Civil e do Tribunal de Justiça, essenciais para montar um banco de dados sobre violência policial. "É uma verdadeira caixa-preta", diz o presidente da Ordem, Felipe Santa Cruz.
AMARILDO 2
A mobilização da OAB-RJ em torno do tema começou em agosto, com o projeto Desaparecidos da Democracia --criado após a morte do pedreiro Amarildo. Segundo Cruz, conhecer o problema em detalhes é importante para entendê-lo e combatê-lo. "Todo dia recebo e-mail de alguém dizendo que conhece um novo caso Amarildo."
AMARILDO 3
A Polícia Civil informa, em nota, que o pedido da Ordem está em análise na assessoria jurídica, por causa do "caráter sigiloso dos dados", e uma resposta deve sair nos próximos dias. O Tribunal de Justiça declara ter solicitado critérios específicos para a consulta, "tendo em vista a abrangência e complexidade do pedido". As informações enviadas pelo Ministério Público, único órgão que atendeu à solicitação, estão sendo avaliadas pela OAB.
LANTERNA
A baixa produtividade da mão de obra na indústria deixa o Brasil entre os menos competitivos na comparação entre 14 países. Segundo o estudo Competitividade Brasil 2013, da CNI (Confederação Nacional da Indústria), o Brasil está em 12º lugar, com PIB de US$ 31 mil por pessoa ocupada. O valor é metade da riqueza gerada pelo trabalhador do Chile e México (ambos com US$ 62 mil) e um quarto da Austrália, campeã em produtividade, com US$ 127 mil.
NO MUNDO
A produtora Coração da Selva fechou com a The Match Factory a distribuição mundial de "Praia do Futuro", primeiro filme internacional de Karim Aïnouz. A coprodução Brasil-Alemanha, rodada em Fortaleza e Berlim e estrelada por Wagner Moura, Jesuíta Barbosa e o alemão Clemens Schick, tem estreia prevista para este semestre. A distribuidora é a mesma dos filmes de Jim Jarmusch.
RIRI IN RIO
Rihanna trouxe ao Brasil dez pessoas, incluindo assistente pessoal, chef de cozinha, personal trainer, dois seguranças e agente. A cantora posa para ensaio da revista "Vogue Brasil" na casa da estilista Francesca Romana, em Angra dos Reis. RiRi --como é chamada pelos fãs-- pediu que o cenário do editorial fosse rústico e disse que queria posar como uma legítima brasileira, em um estilo "very sexy" (bem sensual).
NOVO CEP
Um dos primeiros a apostar no Meatpacking District, Carlos Miele pretende mudar o endereço de sua loja em Nova York em 2015. "Estou procurando um ponto na Madison", diz o estilista brasileiro, referindo-se à avenida que concentra lojas de grife na cidade. Vai se unir à debandada de marcas de luxo do antigo local de corte de carnes que virou point. "O perfil da área está mudando e atraindo marcas mais comerciais."
ELOGIO DA FEIURA
O ator Otávio Müller e a autora Claudia Trajes receberam convidados na estreia da peça "A Vida Sexual da Mulher Feia", na sexta, no Teatro Folha. Os atores Taumaturgo Ferreira, Vera Holtz e Odara Carvalho assistiram ao espetáculo, assim como o escritor Marcelo Rubens Paiva.
CURTO-CIRCUITO
O Inspiramais (Salão de Design e Inovação de Componentes) começa hoje, no shopping Frei Caneca. A ministra Marta Suplicy fará discurso na abertura.
As vitrines do restaurante Ritz da alameda Franca recebem obra dos artistas Rejane Cantoni e Leonardo Crescenti a partir de hoje.
O prazo para inscrições no 5º Prêmio Lundbeck de Incentivo à Pesquisa termina amanhã.
Agora é Lula - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 14/01
O vice Michel Temer recebeu a missão ontem de tirar a candidatura do PT do caminho do vice do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB). O governador Sérgio Cabral foi taxativo: a presidente Dilma está abaixo de sua média nacional no estado e precisa da unidade dos aliados. O próximo passo de Temer será tratar da sucessão no Rio com o padrinho de Lindbergh Farias, o ex-presidente Lula.
Pego no contrapé
O candidato do PSDB, Aécio Neves, foi pego de surpresa com as declarações de Bernardinho. O esportista afirmou que não se vê concorrendo ao governo do Rio. Ontem, segundo um tucano, Aécio limitou-se a dizer que “não tenho novidade, o Bernardinho não falou comigo”. Pode ser que ele seja o último a ser informado? Mas os tucanos continuam apostando nele e vão aguardar mais tempo antes de procurar uma nova alternativa. O deputado Otávio Leite garante que o partido tem uma outra carta na manga e cita a ex-presidente do STF Ellen Gracie, filiada. Leite diz que ela tanto poderia concorrer ao Senado quanto ao governo. O DEM continua na fila de espera.
“Cada um dos ministros envolvidos com ações voltadas para Copa está fazendo um pente-fino para evitar transtornos”
Aguinaldo Ribeiro
Ministro das Cidades, que acompanha obras de mobilidade urbana e drenagem
Conspiração
A ala majoritária do PT quer assumir a liderança do governo na Câmara. A função está sendo exercida pelo deputado Arlindo Chinaglia (SP), integrante do Movimento PT. Os dois grupos são aliados no comando nacional do partido.
Ação preventiva
Para evitar o pior, o governador Jaques Wagner (BA) criou um Centro de Gestão de Emergências. Com carnaval, lavagem do Bonfim e Copa pela frente, foram adquiridas 400 câmeras de vídeo para monitoramento e aparelhos de comunicação para reforçar a segurança. A localização de todos os veículos da polícia ficará registrada.
Previsão do tempo
Os líderes da base aliada já detectaram a “bomba” do primeiro semestre. Trata-se de uma MP, editada em novembro, que faz uma verdadeira reforma tributária. A MP 627 altera o IR de pessoa jurídica e nas legislações de PIS-Pasep e Cofins.
Em pé de guerra
A bancada do PP na Câmara já avisou ao ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, que não aceita a indicação do secretário-executivo Carlos Vieira para assumir o comando da pasta. Ela está irritada com o comportamento do ministro na liberação de emendas no fim do ano, deixando de empenhar várias emendas do PP.
Mercadante tem a força
Dados do Siafi sobre os desembolsos dos restos a pagar, nos primeiros dias de 2014, mostram que o Ministério da Educação conseguiu a liberação de R$ 2,1 bilhões. Só perdeu para a Previdência, que paga os aposentados e benefícios assistenciais.
Caducou
Os advogados do deputado Romário (PSB-RJ) não foram ontem ao TRE para a sessão que trataria do pedido de afastamento do prefeito de Duque de Caxias, Alexandre Cardoso, que saiu do PSB por ser contra a candidatura socialista ao Planalto.
O PSB pretende vender seu candidato ao governo de Pernambuco como “o terceiro mandato do governador Eduardo Campos”.
O vice Michel Temer recebeu a missão ontem de tirar a candidatura do PT do caminho do vice do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB). O governador Sérgio Cabral foi taxativo: a presidente Dilma está abaixo de sua média nacional no estado e precisa da unidade dos aliados. O próximo passo de Temer será tratar da sucessão no Rio com o padrinho de Lindbergh Farias, o ex-presidente Lula.
Pego no contrapé
O candidato do PSDB, Aécio Neves, foi pego de surpresa com as declarações de Bernardinho. O esportista afirmou que não se vê concorrendo ao governo do Rio. Ontem, segundo um tucano, Aécio limitou-se a dizer que “não tenho novidade, o Bernardinho não falou comigo”. Pode ser que ele seja o último a ser informado? Mas os tucanos continuam apostando nele e vão aguardar mais tempo antes de procurar uma nova alternativa. O deputado Otávio Leite garante que o partido tem uma outra carta na manga e cita a ex-presidente do STF Ellen Gracie, filiada. Leite diz que ela tanto poderia concorrer ao Senado quanto ao governo. O DEM continua na fila de espera.
“Cada um dos ministros envolvidos com ações voltadas para Copa está fazendo um pente-fino para evitar transtornos”
Aguinaldo Ribeiro
Ministro das Cidades, que acompanha obras de mobilidade urbana e drenagem
Conspiração
A ala majoritária do PT quer assumir a liderança do governo na Câmara. A função está sendo exercida pelo deputado Arlindo Chinaglia (SP), integrante do Movimento PT. Os dois grupos são aliados no comando nacional do partido.
Ação preventiva
Para evitar o pior, o governador Jaques Wagner (BA) criou um Centro de Gestão de Emergências. Com carnaval, lavagem do Bonfim e Copa pela frente, foram adquiridas 400 câmeras de vídeo para monitoramento e aparelhos de comunicação para reforçar a segurança. A localização de todos os veículos da polícia ficará registrada.
Previsão do tempo
Os líderes da base aliada já detectaram a “bomba” do primeiro semestre. Trata-se de uma MP, editada em novembro, que faz uma verdadeira reforma tributária. A MP 627 altera o IR de pessoa jurídica e nas legislações de PIS-Pasep e Cofins.
Em pé de guerra
A bancada do PP na Câmara já avisou ao ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, que não aceita a indicação do secretário-executivo Carlos Vieira para assumir o comando da pasta. Ela está irritada com o comportamento do ministro na liberação de emendas no fim do ano, deixando de empenhar várias emendas do PP.
Mercadante tem a força
Dados do Siafi sobre os desembolsos dos restos a pagar, nos primeiros dias de 2014, mostram que o Ministério da Educação conseguiu a liberação de R$ 2,1 bilhões. Só perdeu para a Previdência, que paga os aposentados e benefícios assistenciais.
Caducou
Os advogados do deputado Romário (PSB-RJ) não foram ontem ao TRE para a sessão que trataria do pedido de afastamento do prefeito de Duque de Caxias, Alexandre Cardoso, que saiu do PSB por ser contra a candidatura socialista ao Planalto.
O PSB pretende vender seu candidato ao governo de Pernambuco como “o terceiro mandato do governador Eduardo Campos”.
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