segunda-feira, janeiro 13, 2014

Quem é progressista? - DENIS LERRER ROSENFIELD

O GLOBO - 13/01

Somente o capitalismo foi capaz de erigir um sistema legal e constitucional baseado, no nível político, no equilíbrio de Poderes



Já se tornou um lugar comum considerar uma pessoa de esquerda como progressista, como se houvesse uma equivalência entre esses termos. Tais ideólogos se atribuem uma imagem que, esperam, será acatada por todos, como se os cidadãos fossem tolos a aceitar outro embuste.

Todos os que não aceitam esse dogma são considerados como de “direita”, “conservadores” e reacionários, como se compartilhar esse credo fosse uma premissa básica de qualquer discussão. Ou seja, os ditos progressistas exigem dos seus oponentes a submissão prévia à sua crença, a aceitação de sua religiosidade política. Qualquer contestação desses fundamentos conduz ao opróbio e à heresia.

Há uma espécie de reconforto moral que repousa na indigência intelectual. Basta a recusa do pensamento que se satisfaz com esse tipo de lugar comum, que se satisfaz com as invectivas contra o capitalismo e os seus males. Daí surgem todas as diatribes contra o lucro e o egoísmo.

Tomemos esse último termo para melhor percebermos a perversão ideológica. O que é, na verdade, o egoísmo senão um nome que significa a satisfação dos desejos de cada um, dos seus interesses particulares ou, mais genericamente, o amor que a pessoa tem de si. O que há de errado nisso? Pretendem que uma pessoa não realize o seu desejo? Que não satisfaça seus interesses particulares? Que se açoite para exibir-se contra o egoísmo?

Marx já dizia que a verdade de uma ideia é a sua realização prática, sem o que teríamos utopias vazias e, pior ainda, de concretização possível. Ora, só podemos julgar a validade do socialismo através de sua realização na história.

Se olharmos para a história, constataremos como realizações socialistas, “progressistas”, a aniquilação da liberdade de escolha como a maior de suas façanhas, passando por uma noção bizarra de cidadania que torna todos os indivíduos súditos do Estado. O interesse coletivo, do estatal, se impõe, então, como forma de correção do “egoísmo”, levando, como se sabe, aos campos de reeducação, na verdade, campos de eliminação dos que se recusavam a essa política liberticida.

São famosos os campos de reeducação de Pol Pot, no Camboja, que resultaram no assassinato coletivo de 50% da população daquele país sob a égide comunista. Campos deste tipo tornaram-se famosos no livro “Arquipélago Gulag”, de Alexandre Soljenitsin, o mesmo ocorrendo com os milhões mortos sob o maoísmo, com cálculos preliminares entre 60 e 70 milhões de pessoas mortas.

O mais curioso nisto tudo é que a realização das ideias de esquerda levou, inclusive, à proibição de sindicatos, pois, segundo o dogma socialista, os “trabalhadores” estariam no Poder, não precisando de ninguém para representá-los. Legislação e Justiça trabalhista tampouco seriam necessárias, pois não haveriam conflitos para serem equacionados. O caminho estava, assim, aberto ao arbítrio e à tirania do Estado.

Enquanto isto, a sociedade do egoísmo, do lucro e do livre mercado foi equacionando os seus conflitos e contradições, criando formas de proteção efetiva dos trabalhadores, conferindo-lhes direitos. O capitalismo que, no dizer dos “progressistas”, seria a fonte de todos os males, tornou-se, na história da humanidade, aquele regime que melhor soube recriar-se, emergindo sempre novo de suas crises. Nas palavras de Schumpeter, o capitalismo se caracteriza pela “destruição criadora”. Poderíamos acrescentar: o socialismo pela “destruição aniquiladora”.

O capitalismo é o regime que melhor soube extrair as potencialidades da natureza humana, tomada em suas imperfeições constitutivas. Parte do ser humano enquanto desejante e, por isto mesmo, estabelece formas de mediação de conflitos e de preservação dos direitos dos outros. Nascerão de todo esse trabalho de mediação as condições de preservação dos contratos e a criação de um Judiciário independente, capaz de fazer vigorar a universalidade e a impessoalidade das leis.

A satisfação do desejo de cada um, a realização do egoísmo e do amor próprio, deverá passar necessariamente pelo respeito dos desejos e do egoísmo alheios, dando lugar a todo um sistema de direitos, baseado na livre escolha de cada um. Somente o capitalismo foi capaz de erigir um sistema legal e constitucional baseado, no nível político, no equilíbrio de Poderes entres as instâncias do Executivo, do Legislativo e do Judiciário; e, no nível individual, em regras igualmente válidas para todos.

Eis por que, no capitalismo, foi erigido todo um conjunto de normas visando a assegurar a liberdade sindical e de organização partidária. Como ninguém encarna a verdade e o bem, não havendo um partido que se diga, no exercício do Poder, a personificação da virtude revolucionária, todos devem se acomodar a um jogo de pressão e de contrapressão no nível sindical e, no nível político, em propostas que tenham como finalidade captar o voto dos cidadãos em nome de uma certa representação do bem comum.

Considerando que, nas sociedades capitalistas, todos devem ter um mínimo assegurado, foram desenvolvidas formas de atendimento de saúde e de assistência social visando, precisamente, a assegurar esse mínimo. Em alguns países capitalistas desenvolvidos, foi a saúde pública a criação mais adequada, em outros, formas de contribuição individual a partir das disponibilidades de cada um, partindo do pressuposto do trabalho de todos.

Note-se que, nos países de saúde pública, esta é real, o que não é o caso da propaganda socialista, como em Cuba, cujos hospitais carecem até de antibióticos. A única exceção é constituída pelos hospitais dos camaradas comunistas, a nomenclatura, que usufrui de privilégios inacessíveis à população em geral.

Poderíamos seguir com o auxílio desemprego, limites de horas de trabalho e assim por diante. Os benefícios do capitalismo são socialmente palpáveis. Contudo, a esquerda tupiniquim segue vendendo ilusões. Lá onde elas foram compradas pelo valor de face, como no socialismo real, o cortejo de desgraças foi o seu resultado.

A foto e o filme - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

O Estado de S.Paulo - 13/01

Para 57% dos brasileiros, 2014 será melhor do que o ano passado - é a sétima maior taxa entre 65 países e está 50% acima da média mundial. No Brasil, praticamente a metade crê num 2014 de maior prosperidade econômica. Mais: 71% se dizem felizes, ante 60% no resto do planeta. Dá para ser melhor do que isso?

Não só dá como já foi melhor. Em 2012, todas essas taxas eram maiores. E em 2011 e em 2010. A foto na entrada do cinema mostra um belo cenário, mas o desenrolar do filme sugere um final menos feliz do que quando o espectador sentou na cadeira.

Mais importante do que o estado da opinião pública é a sua tendência, para onde ela está rumando. E a série histórica de pesquisas da rede WIN e do Ibope sugere que os brasileiros transitam de um estado de graça para uma situação ainda largamente feliz e otimista, mas mais realista.

Quais as implicações desse câmbio para as eleições deste ano?

Em 2012 as taxas de otimismo da população e de aprovação do governo se descolaram dos números da economia real. Pareciam flutuar num colchão de ar muito acima do que costumava ser a sua relação com a confiança do consumidor e a satisfação com a renda pessoal. O ajuste, quando veio, aconteceu de uma vez só, deflagrado pelos protestos de rua que marcaram junho de 2013.

Parecia o apocalipse para os governantes, mas não foi - não para todos. Após a mais abrupta queda de popularidade já sofrida por um presidente brasileiro, Dilma Rousseff engatou uma lenta recuperação. Não voltou ao patamar onírico pré-junho, mas mostrou mais resiliência do que se esperaria de um simples poste.

Já a oposição postou-se na defensiva, esperando para ver o rumo do vento. Esperou tanto que perdeu a chance de emplacar um discurso que aproveitasse o desejo de mudança da população.

Comparando a queda do otimismo do brasileiro na série anual da pesquisa WIN/Ibope com a recuperação de popularidade de Dilma na série mensal, há uma aparente contradição. Uma cai e a outra sobe. É questão de alinhar os fotogramas na sequência certa. Se a pesquisa WIN fosse feita em julho, e não em dezembro, provavelmente mostraria uma diminuição ainda maior do otimismo.

Isso quer dizer que Dilma já pode correr para o abraço? Não, por dois motivos. O principal é que dois a cada três eleitores insistem em que querem mudar muita coisa no governo. Isso mantém aberta a porta aos candidatos de oposição, se encontrarem um jeito de mostrar que são os mais aptos para promover a mudança.

O outro motivo é o mesmo que rege todas as eleições presidenciais brasileiras desde sempre: o bolso do eleitor. O Ibope acaba de fazer um estudo estatístico medindo a influência de fatores econômicos sobre a popularidade presidencial, desde Fernando Henrique Cardoso. E a conclusão é irrefutável.

Segundo a CEO do Ibope Inteligência, Marcia Cavallari, "a cada ponto de melhora na percepção de aumento da própria renda, há um aumento de cerca de 2 pontos porcentuais no nível de aprovação do presidente. Já no caso do endividamento, a cada ponto na percepção de diminuição do nível de endividamento, aumenta pouco mais de 2 pontos a aprovação do presidente em exercício".

Essa regra valeu para FHC e Lula. E para Dilma? Ainda mais.

Diz Marcia: "Para ela, a cada ponto de percepção de melhora no desemprego ou na atual situação financeira, a sua aprovação aumenta em mais de 2 pontos porcentuais. O endividamento também tem impacto, mas menor. O poder de explicação dessas variáveis para a aprovação do governo é de pouco mais de 50%".

A foto é boa para Dilma, mas o filme é uma incógnita. Os altos e baixos da trama prometem continuar até o fim da campanha. Embora outros fatores possam aloprar o resultado, o mais provável é que a renda e o emprego continuem ditando o destino da popularidade presidencial e, por tabela, suas chances de reeleição.

Voto obrigatório - PAULO BROSSARD

ZERO HORA - 13/01

A extinção do voto obrigatório não teria qualquer utilidade, em nada contribuiria para melhorar a eleição


Houve tempo em que o voto não era obrigatório, como em outros países. Quando passou a secreto, também passou a ser obrigatório, ou seja, quando, por instâncias de Assis Brasil, que se transformara no estrênuo defensor da Justiça Eleitoral com suas prévias e implícitas medidas, o voto secreto e obrigatório se tornou um dogma. Desde o Código Eleitoral de 1932 até ontem, ninguém se lembrou de bulir no voto obrigatório. Ocorre que, por último, uma alta autoridade, o presidente da Câmara dos Deputados, manifestou-se pela extinção do voto obrigatório, razão pela qual a questão ganhou outro relevo, e me pareceu útil alinhar algumas reflexões a respeito.
Começo por lembrar que, de 1932 ao advento da Constituição de 1988, o país passou por bons e maus momentos, quiçá mais maus do que bons; o longo período do Estado Novo e o ainda mais longo do império do AI-5, somados a outros menores, perfizeram mais de meio século e, a despeito de todas as anomalias consumadas, ninguém se lembrou de banir o voto obrigatório, ainda que o próprio voto tenha sido esquecido em um dos períodos.
Embora a própria Constituição fale em voto “obrigatório”, enquanto o voto for secreto ele não será nem poderá ser obrigatório, uma vez que não há meio de ser materializada a hipotética obrigação. Obrigatório será o comparecimento do eleitor à mesa eleitoral no dia da eleição e, secretamente, o eleitor poderá votar ou não votar, votar em um candidato e não votar em outros, em se tratando de mais de uma vaga a ser preenchida, ou votar em branco, que é uma maneira de não votar ou ainda anular o voto, hoje de modo mais limitado.
De qualquer sorte, o denominado voto obrigatório não tem a virtude de obrigar o eleitor que não queira votar, qualquer que seja a motivação de sua recusa. De resto, a extinção do voto obrigatório não teria qualquer utilidade, em nada contribuiria para melhorar a eleição e, por comodismo ou desinteresse do eleitor, o número de abstenções ainda poderia prejudicar o significado do ato eleitoral.
Fora de dúvida, o voto é um direito constitucional, mas dele também decorrem deveres de cidadania, os quais descumpridos geram encargos. Aliás, não é singularidade da espécie em causa, uma vez que outras se conhecem, por exemplo, o cidadão está sujeito ao serviço militar, bem como à Justiça, que deve servir na qualidade de jurado, de modo que, não é impor muito a lei exigir que a pessoa deva dedicar uma hora para comparecer a sua mesa eleitoral para votar ou não votar, segundo a sua discrição, de dois em dois anos.
Enfim, a sabedoria secular aconselha a secrecidade em determinadas situações. Lembro um caso que me parece ilustrativo. O deputado Carlos Lacerda, com seus variados talentos e reservas de combatividade, tinha admiradores extremados e desafetos radicais. Visando a sua cassação, foi iniciado um processo e o governo usou de todos os recursos para obter a excomunhão parlamentar do deputado que fustigava com a lâmina de sua palavra. A despeito de todo o esforço, o governo não conseguiu seu intento notório e ninguém deixou de creditar o resultado à circunstância de a votação ser secreta por disposição legal. Generalizar o voto descoberto em casos de perda do mandato pode ser extremamente perigoso pela possibilidade com que o voto pode ser manejado. Dir-se-á que pode levar a abusos e é óbvio que tal pode acontecer, mas isto me faz lembrar a sentença de um publicista, segundo a qual “o possível abuso de poder não é objeção válida à existência do poder”.

Poder e partidos - ALMIR PAZZIANOTTO PINTO

O Estado de S.Paulo - 13/01

O ano que se inicia não nos parece reservar surpresas. Como acontecimentos merecedores de referência teremos o carnaval, a Copa do Mundo, a eleição presidencial. Sobre o primeiro nada a ser dito, salvo o fato de que a vida, nas esferas públicas, se inicia com o encerramento do reinado de Momo. Quanto à Copa, o Brasil surge como favorito, mas não nos surpreenderemos se o resultado final, como em 1950, for outro. No tocante à eleição presidencial, entretanto, o inesperado acontecerá se Dilma Rousseff for derrotada.

Não se trata de ataque de pessimismo, mas de análise fria dos fatos, na medida do possível quando se trata de futurologia eleitoral.

Política deve ser encarada como coisa séria. Para tanto, porém, é necessário que o País também o seja. Pertence ao embaixador Carlos Alves de Souza Filho, representante do Brasil em Paris, junto ao governo De Gaulle, durante a falsa Guerra da Lagosta (1963), a declaração, enganosamente atribuída ao presidente francês, de que não somos um país sério. Os mais recentes fatos confirmam a frase, frequentemente repetida diante de algo insólito na administração pública.

Como decorrência da ausência de seriedade, os partidos políticos também não o são. A começar pelo número, 32, como se fosse possível a existência de tantas correntes de pensamento distintas e identificadas. Apesar de lhes faltar em seriedade o que lhes sobra em autoritarismo, fisiologismo e ganância, são indispensáveis ao Estado de Direito Democrático, circunstância que nos impõe, como eleitores obrigatórios, sair à procura dos melhores - ou menos piores -, de dois em dois anos, como representantes nos Poderes Legislativo e Executivo municipais, estaduais e federal.

Maurice Duverger, na obra clássica Os Partidos Políticos, adverte-nos: "Oficialmente, os dirigentes dos partidos são quase sempre eleitos pelos adeptos e investidos de um mandato assaz breve, segundo as regras democráticas". Praticamente, porém, afirma o autor, "o sistema democrático de eleição é substituído por técnicas de recrutamento autocrático, designação pelo centro, apresentação, etc. Estas são agravadas pelo fato de que os verdadeiros chefes do partido são diversos dos seus chefes aparentes" (Zahar, 1970, pág. 172). Para o cientista político, os princípios democráticos exigem dos partidos "a eleição de dirigentes em todos os escalões, sua renovação constante, seu caráter coletivo, sua fraca autoridade".

Não é isso, porém, o que se verifica. Se um deles se organiza "segundo um método autocrático e autoritário, os demais ficaram situados em posição de inferioridade". Talvez seja essa a justificativa para que os partidos, de maneira geral, proponham a democracia para o público externo, ao tempo em que agem de maneira ditatorial com o público interno.

Com efeito, o que menos se conhece entre nós é "mandato assaz breve, segundo as regras democráticas". Predomina antigo coronelismo, também conhecido como caciquismo ou caudilhismo. Como bens imóveis ou móveis, têm os partidos donos nacionais, estaduais, municipais e distritais, que se beneficiam da máquina azeitada com recursos do Fundo Partidário e de outros achegos, legais e ilegais, declarados e ocultos, para se manterem no domínio de legendas. Conservadas em situação de eternamente provisórias, direções municipais e estaduais sujeitam-se à intervenção do presidente do partido se ousarem contrariá-lo.

Ao receber título de doutor honoris causa outorgado por universidade de São Bernardo do Campo, o ex-presidente Lula admitiu que o PT pretende permanecer no poder até 2022. Isso significa vencer em 2014 com Dilma e com outro nome, que poderia ser o dele, em 2018.

A declaração não surpreende. Somente alguém indiferente à vida, e alheio aos fatos, poderia ignorar que a pretensão do PT atinge 2026, 2030, e assim sucessivamente. O êxito do projeto depende da força da oposição. A permanecer como hoje, carente de ousadia e firmeza, incapaz de atrair lideranças jovens, originárias de distintas camadas sociais, devemos temer pelo pior, com o Brasil caindo na órbita do atraso, liderados por Cuba, Bolívia, Venezuela.

O envelhecimento de dirigentes, resultado da falta de mecanismos de renovação, é fato tão conhecido na vida política como na sindical. Entre nós, porém, assume proporções assustadoras. É da ausência de renovação que nascem a estagnação e o retrocesso. Preocupa-me, ainda mais, a multiplicação de bolsões autoritários, com características neofascistas, entre pessoas que deveriam zelar pelo efetivo respeito dos poderes públicos e dos serviços de relevância pública aos direitos constitucionais.

O papel da oposição, no Brasil, não tem sido fácil, desde a República Velha. Em períodos autoritários, como durante o Estado Novo de Vargas e o regime militar, encontrou enormes barreiras para ser exercido, vendo-se obrigada a recorrer, em alguns momentos, à clandestinidade.

Sob a Constituição de 1988, todavia, inexistem motivos para que ela seja tímida, retraída, vacilante, diante de governo que envereda por caminhos propícios à instabilidade econômica e multiplica o endividamento público. Após receber o País em ordem, das mãos de Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, Armínio Fraga, o PT outra coisa não fez, nestes anos de poder, senão dilapidá-lo e desorganizá-lo.

Apesar de tudo, 2013 deixou saldo positivo. Graças ao ministro Joaquim Barbosa à frente do Supremo Tribunal Federal, pudemos conhecer o desfecho do processo do "mensalão", com aquilo que ninguém imaginava possível no país da impunidade: "mensaleiros" arrogantes e poderosos encerrados na Papuda. Quiçá sirva de lição a peculatários reincidentes e iniciantes.

Improviso - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 13/01

A questão prisional no Brasil é um dos centros de gravidade de nossa crise na segurança pública.


Condições subumanas e a crônica má gestão transformaram as prisões em verdadeiras antecâmaras do inferno, espaço para organizações criminosas surgirem e prosperarem.

Trata-se de um problema nacional e a atual crise no Maranhão ilustra a forma improvisada e puramente reativa com o que o governo central age. Não existe visão estratégica ou um plano de ação mais amplo sendo implementado. Basta dizer que quando apresentei proposta proibindo o contingenciamento dos recursos do Fundo Nacional de Segurança e do Fundo Penitenciário Nacional, devidos aos Estados, o governo simplesmente virou as costas. A verdade é que esse tema merece um grande esforço nacional capaz de criar soluções para impasses que permanecem.

O que queremos de nosso sistema de punições? Trata-se de recuperar, ressocializar ou simplesmente punir? Existe uma grande distância entre a legislação penal, bastante dura em muitos aspectos, a Lei de Execução Penal, com um sem número de recursos que abrem brechas a impunidades, e o sistema prisional. O resultado é que para um grande número de presos a principal culpa é a de serem pobres e contarem com uma defesa adequada de seus direitos.

O Brasil prende muito e prende mal. São 550 mil detentos em um sistema penitenciário falido. O número de encarcerados sem julgamento supera os 35% da população carcerária total. O enfrentamento da questão da segurança talvez seja o que mais exige coragem e inovação por parte dos governantes. Nesse sentido, duas experiências de Minas Gerais podem contribuir para o debate.

As APACs (Associações de Proteção e Assistência aos Condenados), desenvolvidas em parceria com o Poder Judiciário, são experiência diferenciada. Nela, os detentos trabalham, estudam e cuidam da vigilância dos presídios. O índice de reincidência dos egressos desses presídios é de 10% contra 80% entre os presos que passam pelo sistema prisional convencional.

A experiência da primeira PPP penitenciária no Brasil também é exitosa. No modelo, o custo do investimento na construção e montagem é do parceiro privado, cabendo ao Estado remunerá-lo a partir do funcionamento, em função dos resultados de cerca de 300 itens monitorados.

Os presos estudam, trabalham, têm acomodações decentes. Criar condições para a ressocialização de detentos ultrapassa o respeito aos direitos humanos: é também medida eficaz de defesa da própria população, pois rompe o ciclo vicioso das prisões que devolvem à sociedade novos criminosos.

A segurança é uma das áreas em que gestão e planejamento fazem mais falta ao país.

Mais produção, mais problemas - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S. Paulo - 13/01

O agronegócio brasileiro vive uma situação paradoxal. Por causa da incapacidade do governo de prover, na extensão e nos prazos devidos, a infraestrutura para o escoamento da produção, as boas notícias do campo estão se transformando não em motivo de comemoração, mas em fonte de preocupação cada vez maior de produtores e exportadores. A insuficiente infraestrutura logística - escancarada pelas imensas filas de caminhões carregados de soja que se formam na época da colheita nos acessos aos principais portos do País - impõe perdas e custos cada vez maiores, e não há nenhuma esperança de que o problema não se repita também na safra 2013/2014. Muito provavelmente, será pior do que nas safras anteriores.

Fruto do empenho e dos investimentos dos agricultores, o campo deve continuar a registrar recordes, como acaba de prever a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em sua quarta estimativa da safra 2013/2014, já em fase de colheita em algumas regiões. A produção de grãos deverá alcançar 196,67 milhões de toneladas, 5,2% mais do que a safra anterior, que foi de 186,9 milhões de toneladas. É possível, segundo o presidente da Conab, Rubens Rodrigues dos Santos, que a próxima estimativa já indique produção superior a 200 milhões de toneladas. A nova projeção está na dependência da análise da produtividade da soja - cuja produção está estimada em 90,3 milhões de toneladas - e da área plantada de milho.

Quanto à soja, o avanço da produção pode transformar o Brasil no maior produtor mundial, superando os Estados Unidos. O ministro da Agricultura, Antônio Andrade, acredita que a produção poderá superar a mais recente estimativa da Conab, alcançando 95 milhões de toneladas.

Mesmo que não se confirmem as projeções otimistas do ministro da Agricultura para a soja e do presidente da Conab para a safra de grãos nos levantamentos que a empresa divulgará nos próximos meses, a estimativa mais recente já indica que a produção será 9 milhões de toneladas maior do que a da safra anterior. Se fosse transportada totalmente por trem, com vagões com capacidade média de 80 toneladas cada, essa produção adicional encheria 112,5 mil vagões. Caso o transporte fosse feito por caminhões com capacidade para 32 toneladas cada, a movimentação dessa produção adicional exigiria 281,2 mil viagens.

A estrutura de logística, no entanto, não passou por nenhum acréscimo significativo desde o auge do escoamento da safra anterior. Se as filas de caminhões nos acessos aos Portos de Santos e de Paranaguá foram imensas no ano passado, parece bastante provável que serão ainda mais longas neste.

Com muito atraso em relação às necessidades do País o governo do PT conseguiu tirar do papel projetos importantes na área de infraestrutura - rodovias, ferrovias, aeroportos e portos -, na qual acabou por aceitar a presença do capital privado. Mas, das estradas transferidas para o setor privado nos últimos meses, os resultados dos investimentos - em recuperação, extensão, duplicação da pista e outras melhorias - não surgirão a tempo de atender à demanda da agricultura na safra 2013/2014.

Dos 10 mil quilômetros de ferrovias que deveriam ter sido licitados até o fim do ano passado, nada ainda foi transferido para o setor privado e o governo ainda debate regras para a entrada de capital particular no setor.

Na área de portos, o aumento da capacidade e eficiência operacional será vital para evitar a formação de longas filas de caminhões nos seus acessos, mas, nesse caso, como no das ferrovias, as primeiras medidas concretas só surgirão em 2014 e seus efeitos práticos demorarão ainda mais.

Sem o aumento da capacidade e sem melhoria notável na infraestrutura de rodovias, ferrovias e portos, o governo recorreu a mudanças operacionais para melhorar o escoamento da safra, como a adoção de um sistema de agendamento que procura sincronizar o atracamento de navios e a entrada de caminhões na área portuária. Isso pode reduzir as filas, mas não as eliminará. Obras como as de pátios de estacionamento no Porto de Santos nem começaram.

Hora de fazer opções - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 13/01

O mais amplo programa de assistência social da história brasileira, o Bolsa Família tende a ser um dos protagonistas dos debates eleitorais em 2014, como nos anteriores. Mas ninguém o criticará, tendo ficado evidente, a partir das urnas de 2006, o poder eleitoral do BF. Apesar de terem sido responsáveis, quando estiveram no poder, pela criação das primeiras linhas de transferência direta de renda, os tucanos não souberem defender este legado nos palanques, deixando os petistas identificá-los junto ao eleitorado mais pobre como “demófobos”, adversários do Bolsa Família — nome dado à junção daqueles programas, sob administração única.

O cuidado é tamanho que o candidato do PSDB, Aécio Neves, formaliza proposta de incluir o BF na Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS), para torná-lo política de Estado de fato, e assim se defender de ataques petistas.

Mas isso são coisas de campanha, em que valem mais as versões do que os fatos. Interessa para o país, independentemente de partidos, discutir não apenas o BF mas todo o aparato de assistência social do Estado, diante das carências que persistem na infraestrutura, na Educação etc.

O BF tem algo como 15 milhões de famílias cadastradas, o que significa, considerando os dependentes, algo como 50 milhões de pessoas ou 25% da população. O governo garante que as contrapartidas exigidas (crianças e jovens na escola, visitas periódicas a postos de saúde) têm sido auditadas. É o mínimo que se espera. Há informações, também, do bom rendimento escolar dos atendidos pelo programa. Que assim seja de fato, pois apenas pela Educação será possível o resgate consistente desta população da pobreza. Mas, infelizmente, segundo revelou reportagem do GLOBO, já é possível encontrar representantes da segunda geração de famílias dependentes do dinheiro do Estado.

No ano passado, o orçamento do BF foi de aproximadamente R$ 24 bilhões. Pouco dinheiro dentro do Orçamento, muito em comparação com outros gastos também necessários. Numa visão mais ampla, é imperioso discutir o peso não apenas do Bolsa Família nas despesas públicas, mas também de todo o conjunto de gastos que, de forma genérica, ficam sob a rubrica “social”. Aqui incluídas a Previdência e formas de benefícios que caem diretamente no Tesouro, caso das aposentadorias de pessoas idosas e de baixa renda, às quais é garantido um salário mínimo, sem a necessidade de qualquer contribuição anterior.

Calcula-se que cerca de 75% do Orçamento têm finalidades “sociais”. É muita coisa para um país com uma população ainda jovem. Entende-se, portanto, por que o Estado passou a investir tão pouco em infraestrutura. Pelo menos este problema pode ser resolvido com a participação do setor privado. Mas há outras atividades em que a dependência do Estado é visceral. Educação, por exemplo.

É preciso ter consciência da necessidade de se fazer opções na política de gastos, diante da impossibilidade de aumentos de uma carga tributária já excessiva.

Gestão temerária - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 13/01

Para cumprir meta fiscal, governo federal adiou pagamentos de despesas que deveriam ter ocorrido em 2013, prática preocupante


A última tentativa do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de mostrar austeridade nas contas públicas só evidenciou que os problemas são maiores que o esperado.

No dia 3 de janeiro, Mantega antecipou a divulgação dos resultados de 2013 para tentar acalmar os "nervosinhos" com o (mau) estado das finanças do governo. Soube-se então que o superavit primário (o saldo entre receitas e despesas antes do pagamento dos juros da dívida pública) foi de R$ 75 bilhões, R$ 2 bilhões acima da meta.

O calmante ministerial durou poucos dias. Primeiro, porque já se sabia que 45% dessa poupança decorreu de receitas atípicas oriundas do leilão do campo de petróleo de Libra e do pagamento de débitos tributários de empresas.

Em segundo lugar, e principalmente, pelo que se descobriu depois: que outro percentual, ainda incerto, derivou de adiamentos para 2014 de despesas que deveriam ter sido pagas em 2013, os chamados restos a pagar.

Estes podem ser de dois tipos: processados e não processados. Os primeiros são gastos com serviços já efetuados e reconhecidos pelo governo, restando apenas o desembolso do dinheiro. No outro caso, ainda não se reconheceu a entrega dos serviços e o valor pode até vir a ser cancelado.

Reportagem do jornal "Valor Econômico", baseada em dados da ONG Contas Abertas, mostrou que os restos a pagar processados teriam chegado a R$ 51 bilhões no ano passado, frente a R$ 26,2 bilhões ao final de 2012. A Fazenda apresentou outro número, R$ 33,5 bilhões, o que ainda representaria uma alta de 27% no ano.

O montante preciso só será conhecido com o fechamento das contas. Mas ao que parece houve manobras para superar a meta, como o adiamento de repasses a Estados e municípios no fim do ano.

Mais preocupantes que o resultado pontual são as tendências. Nos últimos tempos, os restos a pagar vêm crescendo de forma acelerada, atingindo em conjunto R$ 235,5 bilhões ao fim de 2013 (segundo a Contas Abertas) ou R$ 218,3 bilhões (conforme a Fazenda).

Diferenças à parte, tais cifras são tudo menos "restos". Representam verdadeiro orçamento paralelo, que o governo executa conforme conveniência, e evidenciam a perda de transparência das contas.

Especialistas alertam que bom pedaço do custo dos financiamentos subsidiados do BNDES e do Minha Casa Minha Vida ainda não apareceu, o que pode explicar parte do aumento dos restos a pagar.

Assim surgem os esqueletos no armário, que um dia sairão para assombrar os gestores encarregados de arrumar a bagunça.

O governo mina cada vez mais a credibilidade da política econômica. Não parece perceber que já não engana ninguém. A consequência dessa gestão temerária das contas públicas está à vista de todos --inflação e juros em alta.

Mantega e os “nervosinhos” - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 13/01

O ministro da Fazenda desprestigia a função e desperdiça os holofotes a sua disposição ao não usá-los para esclarecer, ensinar e melhorar o nível do debate


Mesmo que a economia estivesse em ordem e que o governo da presidente Dilma fosse um sucesso incontestável na gestão da política macroeconômica, o ministro da Fazenda não deveria fazer pouco caso e tratar com desdém os críticos e os analistas que não leem pela cartilha do PT. Da principal autoridade econômica do país, o mínimo que se espera é inteligência, liderança e capacidade didática para explicar as bases de sua política, a lógica de suas ações e a razão dos resultados, os bons e maus.

Todavia, o ministro Guido Mantega desprestigia a função e desperdiça os holofotes a sua disposição ao não usá-los para esclarecer, ensinar e melhorar o nível do debate. A cada vez que os microfones lhe são oferecidos, ele vem com pedras na mão, para atirá-las contra os que fazem previsões diferentes daquelas feitas pelo governo. No início deste ano, o ministro antecipou a divulgação do superávit primário de 2013 (receitas menos despesas antes de pagar os juros da dívida pública), porque o resultado do governo central (que inclui o Tesouro Nacional, o Banco Central e a Previdência Social) foi de R$ 75 bilhões, um pouco maior do que a meta de R$ 73 bilhões fixada pelo governo.

O ministro posou de vitorioso, disse que a antecipação da divulgação fora feita para baixar a ansiedade do mercado e afirmou: “Como havia analistas dizendo que a meta não seria cumprida, não seria bom sustentar essa expectativa negativa até o fim do mês, então antecipamos para acalmar os nervosinhos”. Se os estados e os municípios cumprirem sua parte, tendo o governo central feito um superávit de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma dos três níveis deverá chegar a 2,3% do PIB e, como afirmou o ministro, a meta estará cumprida.

Merece destaque – negativo – a ironia de Mantega, mais uma vez confirmando seu comportamento tradicional de reclamar muito e explicar pouco. Merece destaque, também, o fato de que a vitória não é assim tão expressiva. O superávit primário inicialmente previsto como sendo ideal a ser buscado era de 3,1% do PIB. A meta de 2013 só foi cumprida, conforme disse o ministro, porque ela foi reduzida pelo próprio governo quando não havia mais dúvida de que os 3,1% jamais seriam alcançados.

Seria mais útil se o ministro explicasse à nação por que o superávit primário é fundamental, que fatores entram em sua composição e os motivos pelos quais o país não consegue atingir os 3,1% do PIB. Também seria útil se o ministro explicasse quais as consequências para a economia nacional de haver superávit menor. Mantega deveria saber que para resistir às pressões por mais gastos públicos é necessário obter apoio da população, e isso requer que a sociedade conheça as razões do superávit, o tamanho da dívida pública e o total dos juros anuais a serem pagos pelo governo.

Se não houver superávit primário, o governo terá de tomar mais empréstimos, aumentar a dívida e elevar a conta de juros no futuro. Isso, mais cedo ou mais tarde, prejudica o crescimento. O volume de dinheiro disponível no sistema financeiro é limitado e, quanto mais empréstimos o governo toma, menor é o volume de dinheiro à disposição do setor produtivo, o que força a elevação da taxa de juros e dificulta o crescimento do PIB.

Não é preciso ser especialista para saber que um governo não pode gastar indefinidamente mais do que arrecada, sob pena de ir à falência financeira e levar de roldão toda a nação. Aí estão os exemplos da Grécia, da Irlanda, da Itália e muitos outros países que agiram assim e chegaram à beira do colapso econômico e social. Mas o ministro prefere usar o anúncio do superávit para, de novo, ironizar e desdenhar os críticos, como sempre insinuando que eles torcem contra o Brasil.

Os “nervosinhos” existem justamente por causa do comportamento das autoridades governamentais, do descuido com o tripé macroeconômico (metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante) e das pirotecnias contábeis feitas pelo próprio ministro para fechar as contas fiscais. Qualquer pessoa esclarecida sabe o quão difícil é gerir a economia de um país grande e complexo como o Brasil, razão pela qual as divergências são úteis e necessárias. As opiniões diferentes e eventuais críticas não têm caráter pessoal, coisa que certas autoridades têm dificuldade em entender.

Mudanças indispensáveis em outubro - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 13/01
A 10 meses das eleições de outubro, a página oficial do PT no Facebook tratou antigos aliados - agora concorrentes na disputa presidencial - como "tolo" e "ovo da serpente". O primeiro adjetivo foi dirigido ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), ironicamente um companheiro "preferencial" desde a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder, como registra a mesma nota. O segundo foi creditado à ex-senadora Marina Silva, ex-petista e até ministra do governo Lula, mas hoje empenhada em formar o próprio partido, o Rede Sustentatibilidade. A baixaria é um mau começo para a campanha sucessória.
Por menos memória que tenha o brasileiro, todos ainda se lembram das manifestações de junho, quando o povo foi às ruas - sem liderança e rejeitando apoios das legendas tradicionais - com tão grande quanto difusa lista de reivindicações. É para lá que devem olhar os partidos e candidatos, se querem fazer política séria. Ataques pessoais, gratuitos, descabidos e inverossímeis nada acrescentam à incipiente democracia brasileira. Desde o fim da ditadura militar e do resgate das eleições diretas, passando pela Assembleia Nacional Constituinte e a promulgação da Carta Cidadã, a sensação é de que nenhum outro passo significativo foi dado em prol da consolidação do novo regime.

Pratica-se a política rasteira. Nega-se ao país a reforma política capaz de aniquilar os velhos vícios de um tempo em que prevaleciam os conchavos, o favorecimento aos amigos dos poderosos, o toma lá dá cá, o domínio dos caciques. Nem a saudável alternância no poder encontra espaço desimpedido. Eventuais renovações nas casas legislativas preservam o modus operandi. Não raro, trocam-se os nomes, ficam os sobrenomes. A corrupção campeia, com mais instrumentos que a favoreçam do que a combatam. Descaradamente, faz-se vista grossa até para esforçadas tentativas populares de ruptura com o status quo, como a Lei da Ficha Limpa.

Um Estado que admite condenados no exercício de mandato parlamentar não merece ser reconhecido como democrático de direito. E não se iludam os manifestantes: educação, saúde, transporte, segurança, o que seja, jamais terá padrão de qualidade compatível com os impostos pagos, mantido o atual ambiente de desmandos. Mensalões continuarão a ser a moeda de pseudogovernabilidade, ainda que outra denúncia ponha um ou outro mensaleiro atrás das grades. Ações pontuais têm consequências pontuais. Assim é, inclusive, na área social, com os avanços contra a miséria empacados na ausência de políticas públicas que deem verdadeira cidadania aos resgatados.

Cabe ao eleitor encontrar estadistas dispostos à enorme tarefa de construção do Brasil de Primeiro Mundo, coadunável com a posição ocupada pelo país no ranking internacional de produção de riquezas, com PIB comparável ao dos grandes líderes globais. E cabe aos políticos que desejarem sobreviver nesta hora que impõe mudanças deixar de lado as picuinhas e responder ao desafio com propostas plausíveis.

Atitude propositiva é o que se espera deles. Basta de provincianismo. Do Maranhão, por vias transversas, acaba de ecoar estridente grito de chega! Afinal, permitir que bandidos contidos em penitenciárias determinem a eliminação de cidadãos livres - num país em que nem sequer ao Estado é autorizado decretar a morte de quem quer que seja - é retrato consumado do império da incompetência.

SEGUNDA NOS JORNAIS

O Globo: Nomeação de dom Orani reforça Igreja de Francisco

Folha de SP: Irã e potências fazem acordo nuclear

O Estado de S. Paulo: Xisto ajuda EUA a comprar menos petróleo do Brasil

Correio Braziliense: Distritais têm o pior desempenho desde a eleição

Estado de Minas: S.O.S. bibliotecas

Jornal do Commercio: Aposentado terá reajuste de 5,56%

Zero Hora: Um verão depois, piora a conexão 3G no Litoral

Brasil Econômico: "Se a oposição questionar o Bolsa Família, estará morta"

domingo, janeiro 12, 2014

Guerra psicológica, fraude real - GUILHERME FIUZA

REVISTA ÉPOCA 
A virada do ano mostrou que é uma injustiça manter os mensaleiros presos. Ao apagar de 2013 e ao raiar de 2014, o Brasil mostrou que aprova a picaretagem como forma de governo. Não é justo, portanto, em se legitimando os picaretas de hoje, manter os picaretas de ontem encarcerados, sendo todos correligionários. Basta de desigualdade. Liberdade para todos.
A picaretagem inaugural do governo popular em 2014 teve como porta-voz o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Como se sabe, o PT se especializou na arte de mentir para a coletividade - e depois descobriu que não precisava de especialização nenhuma, porque o Brasil engole qualquer mentira tosca. Por isso é que Lula diz que o mensalão era caixa dois de campanha e não se desmoraliza perante a opinião pública. Está provado que o mensalão foi roubo de dinheiro público cometido pelo PT, e está provado que mentir no Brasil não tem o menor problema. Com essa jurisprudência, o ministro da Fazenda não tem por que não se espalhar.

Guido Mantega anunciou, triunfante, que o governo cumpriu a meta de superavit primário em 2013.0 ministro disse que o resultado oficial sairia no fim de janeiro, mas ele decidira antecipar a divulgação para "acalmar os nervosinhos". Assim é o PT hoje: como as mentiras colam facilmente, elas passaram a vir acompanhadas de zombaria. O governo cumpriu a meta de superavit depois de reduzi-la em R$ 35 bilhões - de R$ 108 bilhões para R$ 73 bilhões. Se fizesse isso com pensão alimentar, o ministro estaria preso.

Como já foi dito neste espaço, o Brasil é mulher de malandro. É lesado pelo bando e continua votando nele. Devendo-se ressalvar que mesmo uma mulher de malandro não aceitaria este trato: o malandro paga só dois terços da pensão porque ele mesmo resolveu encolhê-la em um terço. É o tipo da malandragem que só cola no matrimônio petista com o eleitorado masoquista.

O superavit para acalmar os nervosinhos tem outros truques espertos. Mais alguns bilhões de reais em despesas de 2013 serão contabilizados pelo governo popular depois da virada do ano. Malandragem de playground. Fora a contabilidade criativa no Tesouro Nacional - hoje devidamente aparelhado pelos companheiros -, expediente picareta já notado e repudiado mundo afora, mas tolerado Brasil adentro. É com esse arsenal de trampolinagens que os companheiros desviam o dinheiro público para a propaganda política e a rede de facilitações populistas. Por que só os mensaleiros têm de pagar?

O anúncio esperto do ministro da Fazenda foi feito poucos dias depois de um pronunciamento da presidente da República em cadeia nacional - o pronunciamento "de fim de ano" de Dilma Rousseff. Como um país que se diz diferente da Venezuela chavista tolera um "pronunciamento de fim de ano" da presidente em rede obrigatória de rádio e TV? Onde está o senso crítico e a vergonha na cara dos brasileiros para repudiar essa praga do comício oficial em tudo quanto é data comemorativa? Onde estão os manifestantes nervosinhos, a oposição, a OAB, as ONGs da cidadania e todas essas vozes estridentes que vivem panfletando bondades cívicas por aí?

Pois bem: no comício oficial e obrigatório de Réveillon, Dilma Rousseff denunciou - eles continuam denunciando - a existência de uma "guerra psicológica" para afugentar investimentos e desestabilizar a economia nacional. É muita modéstia do PT achar que alguém pode desestabilizar a economia melhor do que eles.

Que repelente contra investidores poderia ser mais eficiente do que um governo que mente a céu aberto sobre suas contas? Que fabrica superavit e esconde dívida? Que atropela a meta de inflação e tenta mascará-la amarrando preços de tarifas, que ninguém sabe quando e como serão liberados? Que faz declarações ideológicas sobre a política monetária e cambial do Banco Central, ora baixando os juros no grito, ora jogando impostos na lua para tentar conter a fuga de dólares? Qualquer guerra psicológica dos inimigos da pátria seria brincadeira de criança perto da lambança real dos amigos da onça.

Não é justo que a turma do valerioduto assista a essa orgia de trás das grades. Pelo grau de tolerância do Brasil 2014, Dirceu, Delúbio, João Paulo Cunha (o Mandela brasileiro) e companhia são uns injustiçados.

Comédia e tragédia - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 12/01

Eu estava no banheiro do shopping quando escutei duas amigas conversando sobre o filme que haviam acabado de assistir. Uma disse: Li no jornal que era uma comédia e vim disposta a gargalhar muito. A outra: Também fui surpreendida, esperava outra coisa, não esse soco no estômago. Estava na cara que elas haviam assistido ao mesmo filme que eu, o impiedoso Álbum de Família, que no roteiro de cinema de Zero Hora está anunciado realmente como comédia, ainda que sejam 120 minutos de descontroles, rancores, humilhação, traição, sarcasmo, agressão física e maquiavelices.

É um filmaço, como quase sempre é quando o cinema presta reverência ao teatro: foi adaptado pelo dramaturgo Tracy Letts, autor da peça homônima, e o diretor John Wells manteve na tela a dramaticidade dos palcos. Em teatro, o exagero é natural, o tom costuma ser ligeiramente mais alto que o naturalismo de uma novela de tevê. Teatro é uma espécie de laboratório da vida e congrega todos os elementos que a ela pertencem.

Álbum de Família mostra o reencontro de três filhas com sua mãe, depois que essa fica viúva, e mais os agregados e parentes próximos que vieram para o funeral. Em poucos dias de convívio numa mansão decadente em Oklahoma, diversos traumas e mágoas eclodem: cada um dos visitantes possui várias dores entaladas na garganta, a ponto de, a certa altura, o espectador começar a achar graça daquele desfile inesgotável de fraturas emocionais.

Família é sempre um prato cheio – e agridoce. Amor e ódio, atração e rejeição, acolhimento e desprezo, idealizações e desilusões, carinho e perversidade: um cardápio sortido de emoções contraditórias distribuídas sobre a mesa. Em volta dela, nós, famintos por compreensão e tendo que ser diplomáticos e civilizados até que uma provocação nos faça perder as estribeiras.

A questão é que entre família não há divórcio. Não existe ex-pai, ex-mãe, ex-filho, mesmo que se suma do mapa, mesmo que peguemos a estrada para o mais longe possível. DNA é praga. Não tem rota de fuga. Nasceu, está danado. Então, melhor condescender do que se estressar.

Há famílias mais serenas do que outras, mais afetuosas do que cínicas, mais cinematográficas do que teatrais. Ainda assim, sempre haverá um papel para cada um de seus membros: o de vilão, o de vítima, o de playboy, o de trabalhador, o de folgado, o de frágil, o de problemático, todos apegados aos motivos que os levaram a ser como são.

E eles se acusarão a vida inteira, e se defenderão, e nunca haverá um consenso, e de nada adiantará tanto berro: de dramáticos passarão a patéticos, inevitavelmente. A classificação que o jornal deu ao filme não está tão errada como parece. Tragédia e comédia cedo ou tarde dão-se as mãos, elas que também são da mesma família.

Dos males, o menor - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 12/01

Na minha terra natal, quando menino, maconha se chamava diamba e não gozava do menor prestígio


Há coisas que tenho dificuldade de entender. Uma delas é a importância que adquiriu a maconha no mundo contemporâneo. Políticos de importância internacional, intelectuais de destaque e até presidente da República preocupam-se com ela, com seu consumo, com sua influência sobre a sociedade e sobre a juventude, principalmente.

Quem diria, digo a mim mesmo, já que, na minha terra natal --São Luís do Maranhão--, quando menino, maconha se chamava diamba e não gozava do menor prestígio: marginais e alguns rapazes do subúrbio fumavam diamba. Só soube disso porque, lá por meus 13 anos, jogava bilhar num botequim da praia do Caju e de lá fui levado a dar uns tragos num cigarro de maconha. Quase vomitei, tinha gosto de mato velho.

Depois, nunca mais ouvir falar dela. No Rio, onde cheguei em 1951, não ouvia falar de drogas e nem sabia de alguém que fumasse maconha. Isso mudou, mais de uma década depois, quando os Beatles e os Rolling Stones tornaram o consumo de drogas expressão de rebeldia.

A guitarra elétrica veio completar a onda de delírio que arrastou boa parte dos jovens daqueles anos, inclusive no Brasil. Juntas, essa dupla, guitarra e droga, transformaram os shows musicais em manifestações que contrapunham a barbárie à civilização burguesa bem comportada. Uma bravata que levou muitos desses rebeldes sem causa à morte precoce.

Apesar disso, passada essa fase heroica, as drogas mantiveram pelo menos parte do terreno conquistado. Nesse quadro, a maconha foi ganhando posição privilegiada, porque possibilitava o barato sem levar o usuário à destruição psíquica, como o fazem a cocaína, a heroína e o crack. Dos males, o menor.

É isso aí. Ignorar o efeito altamente destrutivo das drogas é impossível, mas, por outro lado, opor-se a elas é careta e velho, uma vez que, entre outras virtudes, as drogas se tornaram um sinal de juventude.

Não foram os jovens que as introduziram na sociedade contemporânea? E não foram os velhos babacas que as condenaram? Opor-se às drogas, hoje, pega mal; tolerá-las pega bem.

Isso da boca para fora. Ou seja, a teoria na prática é diferente. Por isso mesmo, a maconha é a solução: fumando-a o cara mostra-se avançado, sem se destruir rápida e inevitavelmente. Não falo dos que são psiquicamente dependentes e que, quase sempre, terminam aderindo às drogas pesadas.

Faz sentido, mas não explica tudo. Por exemplo, governantes de Estados norte-americanos a legalizaram sob o pretexto de que ela é inofensiva ou até mesmo medicinal. Ótimo calmante.

Sucede que existem muitos calmantes que se vendem nas farmácias e não são alucinógenos como a maconha. Devemos concluir que é exatamente por ser alucinógena que ela é legalizada? Tenho uma possível explicação para isso: muitas das pessoas que hoje têm poder de decisão na sociedade são os jovens daquela época, hoje com seus 50 a 60 anos de idade. As drogas fazem parte de sua história, ainda que já não as consumam. Tampouco as condenam para que não se pense que se tornaram iguais aos velhos babacas daquela época. Legalizar cocaína pega mal, mas a maconha dá pé.

Esse talvez não seja o caso de José Mujica, presidente do Uruguai, que não apenas propôs a legalização da marijuana como pretende ter o controle total da produção, venda e consumo dessa droga em seu país. Vai criar uma espécie de "Maconhabras".

No caso de Mujica, as intenções são as melhores possíveis, pois acredita que, assumindo o controle total da droga, anulará a ação dos traficantes. Seu projeto prevê que cada consumidor terá direito a fumar 40 cigarros de marijuana por mês, desde que se inscreva oficialmente como maconheiro.

Como chegou ele a esse número, não sei, mas pode ocorrer que o maconheiro não se contente com essa quantidade de baganas. Nada impede que uma legião de falsos consumidores se inscreva para ter direito a esses 40 cigarros, que se tornarão milhares (e no total milhões), obrigando assim o governo a aumentar incessantemente a produção de marijuana.

Em breve, o Uruguai se tornará o maior produtor mundial de maconha, para a felicidade e enriquecimento dos traficantes. Espero, sinceramente, estar enganado.

Répteis do Maranhão - MARCELO LEITE

FOLHA DE SP - 12/01

Grupos sob condições extremas, como nos nossos presídios, regridem a estágios morais inferiores?


A governadora Roseana Sarney (PMDB) considera inexplicáveis as decapitações na masmorra de Pedrinhas, em São Luís, capital do Maranhão. Problema dela.

No restante do país, a pergunta que perambulou pelos giros e sulcos dos córtices cerebrais foi: como se pode entender que um ser humano chegue a tal ponto de crueldade? De que servem as ciências naturais, se incapazes de oferecer explicações não triviais para o buraco negro que se instalou em Pedrinhas e ameaça sugar tudo à volta em São Luís?

O entusiasta da neurociência contemporânea talvez proteste que ela tem, sim, muitas explicações para fenômenos como esses. Afinal, ela tem explicação para tudo.

Do alicerce ilusório do livre-arbítrio e dos juízos éticos, sempre precedidos por decisões ou reflexos inconscientes, passando pelas razões evolucionistas para preservar no pool genético da espécie alguns genes de propensão para a agressividade e pela sobrevivência de estruturas cerebrais primitivas, até chegar à cumeeira do edifício neodarwinista com "os melhores anjos da nossa natureza" (título do livro de Steven Pinker) e o declínio da violência --nada na mente humana parece escapar à luz que emana da fusão de Darwin com a ressonância nuclear magnética funcional.

E Pedrinhas? Podem-se elucubrar duas vertentes de explicação.

Na primeira, que privilegiaria o plano individual, haveria que buscar na anatomia ou no perfil genético-neuroquímico disfuncionais de cada perpetrador as raízes do comportamento celerado. Esse programa lombrosiano de pesquisa deu poucos resultados até hoje, pela imensa dificuldade de provar nexos causais entre uma coisa e outra.

Na outra vertente sobressairia o plano coletivo, o da etologia. Grupos de pessoas submetidas a condições propícias, ou extremas (como sem dúvida são as dos presídios nacionais), regrediriam a estágios anteriores do comportamento moral. Uma vez confinados à lógica da violência e da sobrevivência, os prisioneiros ficariam sob o jugo do cérebro, digamos, reptiliano.

Ficou famoso, na história contemporânea da ciência, o Experimento da Prisão de Stanford (em inglês: www.prisonexp.org), capitaneado pelo polêmico Philip G. Zimbardo. Ainda que não tenham alcançado o paroxismo de Pedrinhas, estudantes universitários precisaram de apenas seis dias para se transformar em guardas sádicos, numa simulação da vida em cárcere.

Zimbardo interrompeu a experiência quando as coisas começaram a sair do controle, antes das duas semanas previstas. No Maranhão, 62 mortes não bastaram.

Não tenho dúvida de que há um réptil adormecido em todos nós. É a condição necessária para o que se passa em São Luís. Mas é também insuficiente, parece óbvio, para explicar o nível rastejante em que se encontram os costumes por lá.

Para isso, não há como escapar das ciências sociais e históricas. Pobreza não explica tudo, mas tampouco há de ser coincidência que o Estado do ex-presidente da República e do Congresso José Sarney tenha o segundo pior IDH do país (0,639). O pior de todos (0,631) está nas Alagoas de Renan Calheiros --o atual presidente do Congresso.

O que sofre o lavador de louça - FABRÍCIO CARPINEJAR

ZERO HORA - 12/01

Sou um lavador de louça contumaz: retiro manchas, elimino riscos nos copos, realizo milagres com o Limpol e o Sapólio. A esponja e o Bombril são extensões de minhas mãos. Não uso luvas ou água quente por uma questão de caráter; recuso qualquer elemento que seja entendido como uma vantagem.

Faz 30 anos que lavo por persuasão feminina, e já assimilei os sofrimentos do ofício.

O pior não é lavar a louça, é terminar o serviço e a esposa comentar que faltam as panelas. No campo de batalha do fogão, descobrir que resta o triunvirato formado pela panela com o arroz queimado, a frigideira com o molho de carne e a panela de pressão do feijão. Tudo o que lavou não corresponde nem à metade do que cabe ainda lavar.

A notícia aniquila com sua boa vontade. Ao assumir o comando da torneira e do detergente, o mínimo que deseja é visualizar o trabalho a ser feito. Pretende ter a consciência exata do seu esforço. Não quer sofrer nenhum contratempo. O surgimento de quinquilharias de última hora é o equivalente a ser trapaceado na contagem doméstica.

Eu me sinto roubado. Eu me sinto traído pela casa. Eu me percebo humilhado. Nada contra colaborar, o que me incomoda são os imprevistos.

Louça é para profissional. Requer planejamento. Não dá para mudar as regras no meio do jogo. Acabo irritado com o despreparo dos familiares, que nem se desculpam e soltam – com risinhos envergonhados – pires e peças retardatárias na pia.

O pior não é lavar a louça, é lavar antes de servir o doce e o café. Assim que decretar o descanso pousando a chaleira na toalha de crochê, aparecerão pratinhos e xícaras para o segundo turno eleitoral da espuma.

O pior não é lavar a louça, é estender o pano de prato no gancho e sua mulher decidir – porque é você que está com avental naquele dia! – desovar todos os potinhos da comida na geladeira. Precisará dar conta de um estoque completo da Tok&Stok.

O pior não é lavar a louça, é quando esfrega aquela fôrma do assado, debruçado nas frinchas, suando frio, e a família lhe chama sem parar na sala – você não escuta nada porque é impossível participar da conversa ao mesmo tempo noutro lugar.

Mas o pior, o pior mesmo, não é lavar a louça, é secar a louça. Coitado do secador, vice-prefeito da cozinha. Ninguém jamais lembra ou agradece essa tarefa que pode ser exercida pelo vento.

Feliz - CAETANO VELOSO

O GLOBO - 12/01

Boas leituras, de Elio Gaspari e Eichbauer


* Kennedy cogitando invadir o Brasil de Jango é “Reis e ratos” puro. Quem não viu ou não atentou para esse filme não tem a excitação de ler as novidades da futura edição do livro de Elio Gaspari sobre a ditadura. Mautner e eu temos. E, claro, Mauro Lima também.

*O ano de 2013 teria valido a pena se fosse só pelo romance de Fernanda Torres. Que beleza é ver um talento literário autêntico surgir assim tão nitidamente. Não que Nanda seja uma surpresa absoluta: quem lê suas crônicas sabe que ela é do ramo. Mas um romance é outra coisa — e no seu “Fim“ de estreia ela mostra que vai além de escrever bem. O tom é tão bem encontrado que eu gostei da primeira frase, maldizendo a calçada portuguesa, eu, que sou um eterno defensor das pedrinhas lusitanas e só gostaria de vê-las sempre bem repostas: ouve-se a voz interior de alguém que tem por que dizer aquilo daquele jeito. E assim vai até o Padre Graça (Nanda relembra Nando) ir ao encontro dos índios, virada descontínua que põe tudo o que tínhamos acabado de ler sobre caras de Copacabana, entre lágrimas e gargalhadas, sob uma inesperada perspectiva. Eu só perguntaria a Nanda se foi ela ou o revisor da editora quem corrigiu o português de Dolores Duran, evitando tanto o “lhe” original quanto o “te” opcional de quem canta como os cariocas falam: “Não deixe o mundo mau levá-lo outra vez”? Acho que isso pode ser descorrigido numa próxima impressão (com o merecido sucesso, impressões se sucederão e novas edições há de sempre haver).

* Tem uns erros de português (que me perdoem os linguistas o uso da palavra “erro”, para a qual eles devem ter substituta que não me ocorre) no livro maravilhosamente intitulado “Identidade Frota”, mas o livro é cheio da vitalidade e da franqueza de Alexandre, o Grande, figura importante em minha segunda (ou terceira) vida carioca. Os erros em geral são de flexão indevida dos verbos ter e haver. Como a maioria se dá nas falas entre aspas do biografado, pode ser apenas o modo de transcrever seu linguajar coloquial. Mas não sei não. Tem muito “fuder” e “fudido”, “viado” e “muleca”, esse velho hábito de escrever sem cuidado as palavras que se referem a coisas desrespeitáveis. Sempre achei esse costume chato e moralista no mau sentido. Já discuti com linguistas petistas no blog obraemprogresso que mantínhamos durante a feitura de “Zii e zie”. Seja como for, o livro sobre Frota é muito bom de ler. Muito quente e honesto, pelo menos por parte do protagonista.

* Mas esse é livro que leio em 2014, interrompendo mais uma vez o “Getúlio” (já não mais na fase gaúcha), que quero retomar logo. Em 2013 saiu “Cartas de marear” de Hélio Eichbauer, um livro de memórias que é ao mesmo tempo uma reflexão sobre os sentidos artísticos da atividade do seu autor. Hélio é uma personalidade muito especial e o livro traz isso pelas observações sobre cultura clássica e experimentações modernas. Um jovem de Copacabana — que poderia cruzar com os personagens de Nanda pelas calçadas de pedras portuguesas — amadurecendo sua sensibilidade num mundo em guerra (essa estendida guerra que atravessou as vidas das pessoas de minha geração) olhando para os clássicos, estudando com Svoboda e colaborando com Zé Celso. Muito bonito quando a gente não sabe se algumas conversas estão se dando entre deuses do Olimpo e semideuses das ruas de Atenas ou entre estudantes tensionados pela Guerra Fria. “Cartas de marear” é um livro civilizado e civilizador. Desejo a muitos a sorte de lê-lo.

* Talvez haja manifestações em junho outra vez. Alguns amigos me dizem que os grupos anarquistas estão se multiplicando e que, embora a polícia esteja agora mais avisada e preparada para conter os movimentos, os manifestantes também aprenderam muito com a experiência. Há muitos que dizem que não haverá Copa. É preciso saber se o grosso da população urbana brasileira aderirá a algo assim. Eu sou da classe média (não adianta os malucos da internet dizerem que sou rico: minha cabeça é classe média e, na real, não fiquei rico), tendo a reagir como pessoas da classe média. Sim, sou rebelde, na verdade um medalhão transviado, mas sou classe média (como a maior parte dos que precisam se manifestar de alguma forma nessa vida). Prefiro que haja Copa. Queria que a Fifa fosse respeitável e que o time brasileiro pudesse fazer jus à antiga fama do nosso futebol. Quero ser feliz. Afinal, foi o que todo mundo me dizia, na passagem do ano, para eu ser.

* Gostei de ler Francisco Bosco com jeito de quem está lendo Proust em Trancoso. Proust faz nossos neurônios se comportarem de acordo com o texto que ele vai destilando. Pegou Bosco. Há anos que não releio mas me lembro de tudo.

Meu regime fechado - HUMBERTO WERNECK

O Estado de S.Paulo - 12/01

A foto, na última página de O Diário, não é grande coisa, e a impressão, desbotada por quase meio século de arquivo, pior ainda - mas dá para ver um rapaz de roupa clara que um policial tem preso pela gola; à frente dele, imobilizado numa "gravata", outro moço se contorce, prestes a ser tragado pela goela de um camburão. "Dois guardas tentam levar o estudante preso e o outro presta atenção", descreve uma legenda que parece não fazer fé no poder de informação da fotografia.

É a primeira vez que vejo essa imagem - e eis que, num susto, reconheço o cara apanhado pela gola.

Para dizer como Roberto Carlos: esse cara sou eu.

Sou eu, e vou passar os próximos 17 dias numa cela que, sendo térrea, não posso chamar de "porão da ditadura". Vivemos ainda uma barra relativamente leve, pois o AI-5 só virá daqui a dois anos e pouco. Mesmo assim, a situação em que me encontro é mais aflitiva que a descrita aqui no último domingo, quando relatei as agruras de operário de fábrica que vivi aos 15 anos para purgar pecados de estudante fragorosamente reprovado.

Dureza aqueles despertares madrugais, aquelas horas de trabalho em pé. Mas era pena, em todo caso, a ser cumprida em regime semiaberto - menos amarga, portanto, do que essa que agora me espera, aos 21. De novo, tem bomba na história, mas de outra natureza: bombas de "efeito moral" que me fizeram correr, no Centro de Belo Horizonte, até de ser enlatado no camburão. Para mim, terminava a passeata estudantil contra a eleição indireta, naquele dia - 3 de outubro de 1966 -, do segundo presidente militar do regime de 64, o nada elevado Costa e Silva.

Não espere de mim um relato de heroísmos que não houve. Não estava ali de bobeira, é verdade, como um sacristão pascácio que também caiu e que ao sair da cana, muitos dias depois, ainda não tinha entendido bem o que lhe acontecera. Sem o talento de um condutor das massas, eu era apenas um a mais a berrar desaforos contra os milicos.

Sendo leve a barra, não sofri violência física, eu e os 12 companheiros de gaiola, distribuídos por duas celas. Em matéria de tortura, o máximo que me tocou foi o convívio com um escriba que, entre chuvas de perdigotos, nos submetia à audição de sua versalhada incendiária.

Fizemos camaradagem com um dos carcereiros, o Zé do Norte, que nos deixava esticar o banho de chuveiro. Um radinho de pilha nos fartou de Chris Montez, nas paradas com The More I See You, e, ai de nós, um grude musical chamado Pãozinho do Leblon, na voz de Rosa Maria: "Fico triste em pensar, pãozinho, / que não é meu seu coração". Se você não esteve em 1966, saiba que "pão" era homem bonito.

Com exceção da quentinha (nem tanto) do primeiro dia, o passadio era bom, pois a comida vinha de casa e as famílias caprichavam. Ganhei uma fartura de maços de cigarros, um deles levado pelo secretário da minha faculdade - gentileza protocolar de quem ainda não sabia, e eu tampouco, que anos mais tarde ele seria avô de meus filhos.

Não vou contar, uma vez mais, que na cela em frente tínhamos a simpática vizinhança do sociólogo Bolívar Lamounier, a décadas da tucania e ainda oxítono - Bolivar -, cujo calvário merecerá dedicatória e alusão ("...alguns amigos nas prisões padecem...") num poema de Affonso Romano de Sant'Anna.

Para defender-nos no Superior Tribunal Militar, tivemos ninguém menos que o grande Sobral Pinto, cujo escritório conseguiu, em 20 de outubro, um habeas corpus por 12 a zero, ainda hoje a maior goleada em minha vida. Para constrangimento nosso, o relator do processo foi o general Olímpio Mourão Filho - sim, aquele que em 31 de março desencadeou o golpe ao botar a tropa na estrada rumo ao Rio de Janeiro. "Os jovens são capazes de morrer por um ideal e não será a polícia que irá impedir esta luta", perorou o general ante seus pares.

Outro dia, passeando por Belo Horizonte, me bateu vontade de revisitar a cela 3. Não deu: o antigo prédio do Dops, na avenida Afonso Pena, virou albergue exclusivo para gente apanhada com o nariz na botija. Depois das políticas, são de outra ordem as aspirações que ali agora se reprimem.

O Avô da Lucinda - ADRIANA CALCANHOTTO

O GLOBO - 12/01

Luis Fernando Verissimo é aquele que hoje em dia é conhecido como o avô da Lucinda


Aprendi a amar Erico Verissimo antes mesmo de ler sua obra. Minha tia Istellita, professora de língua portuguesa, me preparou antes. Falava de sua escrita, do quanto era telúrico, simples, político, autêntico. Quando fui ler já sabia do homem simples que ele gostava de ser. Mergulhei na sua obra e me transportei inteira para o seu mundo (com um pouco mais de comedimento do que minha tia Istellita, anos antes, que se despedia das pessoas com “tchau, gente, vou embora que meu amante está na cama me esperando”. “Seu amante!? E quem é o seu amante?” “Erico Verissimo”, ela dizia, e saía em disparada para a cama, para a página marcada no livro.

Depois comecei a seguir o filho, Luis Fernando Verissimo, que escrevia para o jornal, que criou o analista de Bagé, que criou As cobras e outras maravilhas. E ainda desenhava, e não bastando fez a minha querida amiga Fernanda, a Mariana, o Pedro, mas aí com a amorosa ajuda da Lucia. Acho lindo, quando perguntado sobre quem é a mulher mais bonita do Brasil, ele sempre responde: “Lucia Verissimo”.

Uma vez fui visitá-lo em um grupo, e fomos para o seu escritório. Umas pilhas de livros sobre caixas de livros. Livros, mais uma pilha de livros. Mais livros em cima da mesa, livros, uma pilha de livros e … uma bandeirinha, do Internacional, sobre uma pilha de livros. Somos duas pessoas tímidas que preferem ouvir a falar, de modo que nossos encontros não costumam ser ruidosos, os dois ficam olhando para o chão, é uma mania nossa. Tendo aquela sensação de maravilhamento entre suas pilhas de livros me deparei com uma bandeirinha do Internacional. Ele torce para o Inter. Como minha tia Istellita. Eu sou gremista (e botafoguense). Toquei a bandeira de leve, com a ponta dos dedos, delicadamente, assim como quem não tem mais esperança de nada nesta vida, achei que ele não estivesse me observando, mas estava, e nós, em silêncio, olhando para o chão, nos dissemos mutuamente: “ninguém é perfeito”.

Algum tempo atrás tivemos uma conversa, publicada neste Segundo Caderno, e desta vez ele me recebeu na biblioteca, do pai. A biblioteca de Erico Verissimo. As lombadas, as lombadas, a energia que emana daqueles livros, lidos, manuseados pelo grande escritor, amigo de Clarice Lispector, amante da minha tia Istellita, o avô da Fernanda, pai do Luis Fernando. Luis Fernando Verissimo é aquele que hoje em dia é conhecido como o avô da Lucinda.

Pois bem, foi na condição de leitora, não do Erico, mas do avô da Lucinda, que li que o coitado tinha medo de monstros debaixo da cama, na hora de dormir. Sempre tive pena dele por isso. Lucinda então ganhou de presente da Partimpim uma canção para que ela cantasse à noite para o avô. Para ele dormir sossegado. Junto com os monstros. Porque, se tem realmente monstros debaixo da cama, Lucinda pode, cantando, botar logo esses monstros pra dormir em vez de ficar tentando convencer o avô de que debaixo da cama não tem monstro nenhum. Em seguida ele quase me mata do coração, foi parar no hospital, passou uma temporada lá, quase mata todo mundo do coração. Pedi notícias e a resposta foi um “voltou melhor ainda, agora fala”.

Aí, esse homem, o avô da Lucinda, imaginava eu, recuperado, dias atrás, na coluna aqui do jornal, levantou a possibilidade de uma possibilidade de a final da Copa “do mundo da Fifa” deste ano ser entre Brasil e Uruguai, no Maracanã, exatamente como em 1950. Desde que li isso uns monstros estão morando debaixo da minha cama. Não posso, como o avô da Lucinda sugere, fazer as contas e os cálculos das tabelas porque não sei matemática. Assim como não sei história mas conheço algumas coisas muito importantes sobre o Brasil. Que foi descoberto, da carta de Pero Vaz de Caminha, de muita coisa boa e muita coisa ruim, escravatura, até censura e ditadura tivemos, mas que o episódio mais negro e desolador, o que mais feriu a alma da nação no fundo de seu âmago, a enorme sombra escura sobre o orgulho dos milhões de brasileiros, foi a derrota para o Uruguai em 1950 no estádio do Maracanã. Sei que tem gente que nunca se recuperou daquilo. Daquele estádio em silêncio ensurdecedor, o país cabisbundo, um trauma eterno. Filmes foram feitos para modificar a triste realidade, em vão. A esta altura do campeonato já se sabe se existe ou não alguma chance de isso acontecer. “O time do Uruguai não está jogando mal”, engorda meus monstros o avô da Lucinda, na mesma coluna.

Vamos vencer a Copa, é claro, temos o Felipão, no comando de bons jogadores motivados por ele como uma “equipe”. Tabelas são tabelas, mas no jogo de futebol, como o nome diz, absolutamente nada é impossível. Qualquer coisa pode acontecer. A graça toda é essa. Não sei, mas acho que o avô da Lucinda vai ter que deixá-la vir me botar pra dormir até a final no Maracanã.

Programação intensa - JOÃO UBALDO RIBEIRO

O GLOBO - 12/01

Somos viciados em fazer uma porção de coisas e, mesmo quando se chega a uma altura da vida em que elas se mostram inúteis e trabalhosas, continuamos sem deixar de fazê-las



Como de costume, vou deixar em paz o generoso leitor e a amável leitora por quatro domingos, neste começo de ano, a partir de hoje. Se não erro aqui nas minhas contas, devo estar de volta em 16 de fevereiro. Também como de costume, vou passar o tempo que puder na minha terra, com os amigos de infância, que vêm escasseando num ritmo alarmante, o que os torna cada vez mais preciosos. Lá se foi, faz poucos meses, Ary de Almiro, que jogou bola comigo e, quando rapazinho, era discípulo de meu primo Walter Ubaldo, na Escola Filosófica do Sorriso de Desdém. “Mais eloquente que a pena do escritor, mais poderosa que a espada do soldado, a maior arma que o homem tem é o sorriso de desdém” — era o moto da escola e eles saíam pela rua, tacando o sorriso de desdém a torto e a direito.

Uma vez ficaram filosofando e bebendo cerveja no bar que hoje é de Espanha, mas na época era de Waldemar e, quando Waldemar trouxe a conta, todos lhe deram um sorriso de desdém como resposta e ninguém se coçou para pagar. Rendeu um certo bode, porque Waldemar não apreciou essa forma de pagamento e foi queixar-se ao coronel Ubaldo, avô de Walter (e meu). O coronel pagou, mas decretou a extinção da escola filosófica e disse que mandava cobrir de porrada o primeiro filósofo, desdenhoso ou não, que aparecesse em sua frente, com isso quase ferindo de morte o sempre fértil pensamento filosófico na ilha. Na última vez em que conversei com Ary, lembramos isto entre risos. Pois agora ele se foi, menos uma testemunha e participante de meu tempo e de minha história pessoal — e é por isso que se diz, com plena razão, que, quando morre um amigo, também nós morremos um pouco, é como se a vida não fosse mais inteira. Um por um, vão desaparecendo os que conheceram os filósofos do sorriso de desdém e daqui a pouco talvez também desapareça para sempre a sua lembrança.

Por essas e outras e cada vez mais ciente de que meu futuro é agora mesmo, vou cumprir uma extensa agenda itaparicana, para aproveitar de tudo o que posso, não só da companhia dos amigos, como das experiências que somente agora começo a valorizar direito. Não organizei nada, nem sequer mentalmente, resolvi deixar que as coisas ocorram de forma espontânea, ao acaso. Até porque um dos meus projetos mais importantes, talvez o mais importante, pode vir a anular todos os demais. Já falei aqui em Vavá Major, renomado peixeiro aposentado, amigo meu de longa data, que hoje não faz nada, nem de dia nem de noite. Pergunta-se: como assim, não faz nada? É isso mesmo, não faz nada, não joga dominó, não joga carteado, não discute futebol, não comenta mulher, não carrega nem pacote nem embrulho, não canta, não toca violão, não passeia, não cria nem galo nem passarinho, não joga no bicho, não faz absolutamente nada.

Quem nunca experimentou não fazer nada, não sabe a dificuldade. Somos viciados em fazer uma porção de coisas e, mesmo quando se chega a uma altura da vida em que elas se mostram inúteis e trabalhosas, continuamos sem deixar de fazê-las. Vavá me disse que exageram um pouco, nesse negócio de ele não fazer nada. Claro que faz, tem muitos pensamentos e faz outras coisas, de que assim no momento não recorda. Só não quer saber de nada que dê labuta e certos pensamentos dão labuta, de forma que estes ele evita, nada de contas, adivinhações e perguntas que puxem demais pela ideia. Por exemplo, aprecia uma bela história bem contada, mas, se puxar pela ideia, não tem negócio, assim como, se não tiver quem explique a novela tintim por tintim, ele é que não vai fazer força para compreender, cansa muito, quem quiser que goste de viver na canseira, ele não.

Já fiz algumas tentativas de aprender pelo menos um pouco da técnica de Vavá, porque da outra vez subestimei as dificuldades. Agora, em lugar de simplesmente ouvir conselhos e lições, vou pleitear um estágio, com o cuidado de que não renda nenhuma labuta para ele. Vou simplesmente acompanhá-lo e imitá-lo na medida do possível. Pretendo também conversar um pouco, mas tenho que caprichar numa conversa que tampouco renda labuta. Acho que, num mês de estágio, dá para pegar o fundamental.

E há outras opções, além do estágio com Vavá Major. Xepa diz que o amigo dele que fisga tatus na vara de pescar está disposto a pescar mais dois para eu ver, é só esperar uma maré boa para tatu, que deve ser depois dessa lua nova. Mas agora ele exige que passe tudo no Fantástico. Isto eu não posso prometer, mas vou levar uma câmera para filmar não somente este evento, como outros acontecimentos biológicos, quais sejam uma jararaca cruzando com um caramuru, que Sete Ratos me garantiu ter visto mais de uma vez e um galo de briga raceado com urubu, que meu primo Zé de Neco também me garantiu ter visto.

Finalmente, o setor social está mais que assegurado. Reabriu em alto estilo o Grande Hotel, todo reformado e cheio de estrelas. Aproveitando o ensejo, Gugu Galo Ruço, rico milionário que não tem mais onde socar dinheiro e dizem que outro dia, por causa de um aborrecimento no aeroporto, quis comprar La Paz à vista, arrendou o hotel para hospedar os convidados de uma festa de arromba que vai dar. Eu não devia contar, mas o primeiro dever do jornalista é para com a verdade e a verdade parece ser é que vão instalar um cassino durante os sete dias de festa, com Zecamunista jogando pôquer pela casa. E, se vocês aparecerem durante as festividades e quiserem me ver, eu sou aquele nativo de bermuda e chinelo, junto de uma barraquinha, trocando livros por fichas de roleta — o Brasil é um país de todos.


Olhos cor de âmbar - LUIS FERNANDO VERISSIMO

O ESTADÃO - 12/01

A decoração estava diferente. As toalhas eram de outra cor. Os quadros tinham desaparecido das paredes. E ele não reconhecia nenhum dos garçons.

— O que houve? — perguntou a um dos desconhecidos.

— Pardon, monsieur?

— O que houve com este lugar? Está tudo mudado.

— Não, não. Desde que eu trabalho aqui, nada mudou.

— E o Michel, que fim levou?

— Quem, monsieur?

— Michel, o garçom mais antigo daqui. Um que adora cachaça. Eu sempre trago uma cachaça para ele, do Brasil. Aliás, estou trazendo uma agora.

— Não conheço, monsieur.

— Não é possível. Será que ele se aposentou? Não tem ninguém que possa me dar notícias do Michel?

— Talvez o Gerard. Ele está aqui há mais tempo do que eu.

— Chame o Gerard, por favor.

Alívio! Ele reconheceu o Gerard. Já estava começando a pensar que tinha entrado no restaurante errado. E o Gerard o reconheceu. Ou pelo menos disse que sim, quando ele perguntou:

— Lembra que eu venho sempre aqui?

— Certamente, monsieur.

— E o Michel, se aposentou?

— Michel...

— Você tem que saber quem é. O velho Michel.

— Francamente, eu...

— E monsieur e a madame Geroux? Onde estão?

— Os dois morreram, monsieur.

— O quê?! E o restaurante ficou para a Lola?

Lola, a de olhos cor de âmbar. Filha do casal Geroux. Linda. Ele também sempre trazia um presente do Brasil para a Lola. Desta vez viera disposto a convidá-la a sentar-se com ele, talvez até saírem para passear na beira do Sena. Mas, segundo Gerard, Lola vendera o restaurante e fora morar em Grenoble com o marido. E já era avó.

De repente ele teve uma espécie de vertigem. A Lola, avó? Isso queria dizer que o tempo passara mais depressa do que ele pensava. Muito mais depressa. Queria dizer que ele estava delirando, sonhando ou talvez até morto. Seria isso? Voltara ao seu restaurante preferido depois de morto só para ter aquela revelação: nosso tempo não é nosso.

O tempo faz o que quer conosco e com a nossa memória, além de nos envelhecer e nos matar. Quando Gerard lhe ofereceu o menu, disse “o de sempre” e viu pelo rosto do garçom que ele não sabia o que era o de sempre. Pediu um Clos des Jacobins como costumava pedir e ouviu Gerard dizer que o restaurante nunca servira aquele vinho.

Na saída do restaurante, teve uma alucinação. A torre Eiffel estava pela metade. O topo da torre ruíra. Uma mensagem final do que o tempo pode fazer com o ferro, o que dirá conosco.

Bafo! Sensação garrafa térmica! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 12/01

E diz que a Dilma vai lançar o Bolsa Calor: todo brasileiro terá direito a uma piscininha de plástico!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Hoje a sensação térmica é de garrafa térmica! E com o Carnaval, Páscoa, Copa e eleições, 2014 só vai entrar em 2015! Bafos da semana: a morte do Nelson Ned e o presídio de Maranhão!

E com a morte do Nelson Ned, o único anão celebridade agora no Brasil é o PIB do Mantega! Ops, com a morte do Nelson Ned, o único anão celebridade agora no Brasil é o ACM Neto! ACMeio metro! Rarará! E a manchete do Piauí Herald: "Dilma decretou meio minuto de silêncio em homenagem ao Nelson Ned".

E atenção! Eu sei como acalmar os presídios no Maranhão! É só o Sarney ir lá e ameaçar ler um livro dele. Aí já é crueldade! Na Constituição de 88 tá escrito que é proibida a tortura no Brasil!

E tá todo mundo falando mal da Roseana porque ela licitou 80 kg de lagosta. Mas a Roseana é fofa: os 80 kg de lagosta eram pra botar nas quentinhas do presídio. Arroz cru, feijão azedo e por cima uma lagosta! Quentinha Roseana Gourmet!

E o nome do presídio: Pedrinhas. Esse Pedrinhas deve ser parente do Sarney. Presídio Pedrinhas Sarney!

Tudo no Maranhão leva o nome do Sarney. "Maranhão tem 26 maternidades com o nome Sarney." Também, pra nascer aquela parentada toda!

E sabe qual o apelido da família Sarney? Morimbundos de Fogo! E sabe como o Sarney chama o Maranhão? MYranhão! E a sigla do Maranhão, MA: Me Ajudem! Rarará!

E o calor? O bafo dos infernos? Sensação térmica: quero ficar pelado. Quero ir pra praia já! Test-drive pro inferno! Hoje dormi no freezer ligado no modo nevar. Tem gente filando ar-condicionado de banco! Vou levar uma cadeira de praia pra agência do Banco do Brasil!

E diz que a Dilma vai lançar o Bolsa Calor: todo brasileiro terá direito a uma piscininha de plástico!

E esse site de Campinas: "Frente frita derruba temperatura". O estagiário errou acertando. Tá tendo uma frente frita no Brasil. Chegou a frente frita! Rarará! E uma amiga dá tanto nesse verão que o apelido dela é Imigrantes: ninguém vai pro litoral sem passar por ela! Rarará! E com esse calor, a Miriam Leitão vai virar torresmo! Rarará!

E olha essa placa num portão: "Querida admiradora secreta: amei o vinho e as flores no portão, só não entendi a galinha e a farofa". Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Vamos alugar uns vídeos - FÁBIO PORCHAT

O Estado de S.Paulo - 12/01

Percebi que já faço parte de uma outra geração. Não em relação aos meus pais, em relação aos meus sobrinhos. Semana passada eu falei pra eles: Vamos sair pra alugar uns vídeos. Quê? Vídeo? Primeiro, tio, o que é vídeo? Segundo, pra que sair de casa e alugar um vídeo, se podemos fazer isso em casa pelo Netflix ou por qualquer canal On Demand da TV a cabo?

Realmente, alugar uns vídeos ficou puxado. É que na verdade, eu ainda não consigo sair pra pegar uns DVDs. É estranho. Não é natural pra mim ainda. Fora que já não é nem mais DVD, que agora é Blu-Ray. Aí fica mais difícil ainda de mudar. Mas, parando pra pensar, eu entendo pessoas de outras gerações que ainda falam "bater à máquina", "passar os ferrolhos", "tomar um Grapette". É que tem muito mais coisa por trás dessas frases do que três ou quatro palavras.

Na frase "sair pra alugar uns vídeos" está implícita muita coisa, talvez, toda a minha infância. Eu indo na videolocadora com os meus pais, escolhendo o que eu queria assistir, descobrindo quais eram os novos lançamentos, esperando um tempo na locadora enquanto meus pais iam comprar pão pra ver se devolviam o filme que eu queria e que já estava alugado, colocando a fita no vídeo de casa, descobrindo que tinha que rebobinar porque o cliente anterior devolveu a fita correndo, descobrindo que o cabeçote do videocassete estava sujo e que agora tinha uma linha cinza na tela, vendo minha mãe pegar um cotonete com álcool para limpar por dentro, tirando a fita e percebendo que ela enganchou lá dentro e tem que ter um MacGyver em casa (no caso minha mãe) para tirar sem arrebentar e enroscar a fita de novo, vendo os trailers para saber quais eram os próximos lançamentos, eu sentando a noite com pipoca e chocolate ao lado da minha mãe fazendo ponto e cruz sem olhar a tela porque ela entendia inglês e do meu pai sem camisa sentado na cadeira do papai acelerando o filme porque ele não tinha paciência pras cenas sem fala, e, de vez em quando, se a noite estivesse muito quente, e São Paulo quando é quente é quente, a gente colocando a TV, o vídeo e as cadeiras na varanda pra assistir do lado de fora no ventinho, mesmo cheio de mosquito, minha mãe usando o filme da cinderela para dar aula de inglês pra minha prima Adriana, tampando as legendas, eu gravando o TV Pirata para os meus pais que tinham saído à noite...

Então, realmente, pra eu deixar de falar "alugar uns vídeos" vai levar um tempo. Talvez toda a minha vida adulta. Até porque, quando eu for velhinho, eu aposto que, assim como o LP, o vídeo vai voltar com tudo.

O descaso - LUIS FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 12/01

As cenas da barbárie no Maranhão mostraram um grau de selvageria provocado pelos anos de indiferença que espantou o mundo



Esse horror na penitenciária do Maranhão é apenas um exemplo extremo do descaso com que são tratados os apenados no Brasil. Em geral as prisões brasileiras são sucursais do inferno, e tem sido sempre assim, não importa quem governe. O que leva a pensar se não existe, por trás da insensibilidade hereditária, outra razão para o horror. Verbas para o sistema penitenciário estão tradicionalmente entre as últimas prioridades do país, o aumento da criminalidade lota prisões inadequadas, esquecidas pelo poder público, mas não é só isso. Haveria outra lógica, inconsciente mas não menos culpada, justificando o descaso. Chamar as prisões de infernos, como é comum, nos dá uma pista do que seja essa outra lógica. De acordo com a cosmogonia cristã, o inferno é para onde vão os pecadores — para sempre. Pecadores não merecem perdão nem compaixão, seu sofrimento é contínuo e eterno. Existiria a convicção, nunca reconhecida mas prevalente, de que bandido tem que sofrer mesmo, que deveria ter pensado no que o esperava no inferno da prisão antes de cometer seu pecado, e que a sociedade não lhe deve a consideração que daria a um animal.

Qualquer discussão sobre direitos humanos sempre empaca na questão dos limites de consideração que merece um criminoso. É comum acusarem os que se preocupam com os direitos humanos de qualquer humano, mesmo os criminosos, de ignorarem os direitos humanos das suas vítimas. O que é um falso silogismo. Todo humano é humano antes de ser qualquer outra coisa, inclusive um monstro. Na questão de como castigar o criminoso é que seguidamente se sente, disfarçada ou não, a nostalgia da velha e boa, e acima de tudo simples, cosmogonia: o céu para os bons, o inferno e todas as suas agonias para os maus. Presos amontoados, matando-se uns aos outros — é pena, mas quem mandou serem maus?

Penitenciárias superlotadas e violentas não são vergonhas só brasileiras, claro. O problema de como alojar apenados, tratá-los como gente e se possível reabilitá-los é internacional. Mas as cenas da barbárie no Maranhão mostraram um grau de selvageria provocado pelos anos de indiferença que espantou o mundo. Chegamos a isto. Somos os campeões do descaso e das suas consequências.

Tema do garanhão - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 12/01

São do grupo britânico The XX (que nada tem a ver com Eike Batista) as duas músicas mais vendidas no iTunes, hoje em dia, no Brasil. Ambas estão na trilha sonora de "Amores roubados", da TV Globo.
Uma se chama "Angels", tema do garanhão Leandro, personagem de Cauã Reymond, e outra é "Intro", usada nas chamadas da minissérie.

Estilo Antônia...
Aliás, o topless na Praia de Ipanema não pegou, mas, sexta, veja só, três meninas passeavam pelo Posto 9, no mesmo estilo da personagem Antônia, que Ísis Valverde encarna em "Amores roubados".
As moças estavam de seios à mostra por baixo de uma bata transparente, finíssima.

Outra...
José Luis Villamarim, diretor de "Amores roubados", vai estrear no cinema.
Irá dirigir "Cataguases", baseado no romance "Inferno provisório", do escritor mineiro Luiz Ruffato.

Rádio Corredor
A Allianz, a gigante alemã do seguro, negocia uma parceria com o braço segurador do Itaú.
A sede da empresa é em Munique, onde detém os direitos do moderno estádio Allianz Arena, que recebeu o jogo de abertura da Copa de 2006.

Bolsa Miami
Na terça passada, 68% dos visitantes do Downtown Disney, centro de compras e restaurante em Orlando, nos EUA, eram brasileiros.
E olha que, há duas semanas, o governo elevou o imposto sobre cartões pré-pagos e de débito internacionais.


Humor no banco 
Tatá Werneck, a Valdirene de Amor à vida , e Rafael Infante, que faz sucesso com o Porta dos Fundos, são os novos garotos-propaganda do Banco do Brasil. 
Eles vão participar de pequenas esquetes de humor, que serão colocadas na internet a cada 15 dias. O primeiro vai ao ar esta semana. 

A flor da Márcia 
O carnaval já começou nos camelôs de Copacabana. A turma começou a vender acessórios para fantasias. 
O que tem vendido loucamente até agora são aquelas flores para se colocar no cabelo que Márcia (Elizabeth Savalla) usa em Amor à vida . 
Custa R$ 5. 

Torres na Romênia 
Essa terra , de Antonio Torres, vai ser lançado na Romênia, pela editora Universo. 
O negócio foi fechado pelo agente literário francês, Stéphane Chao. O romance já foi lançado em 11 países. 

Literatura fantástica 
A portuguesa Editora Saída de Emergência, recém-chegada ao Brasil, vai fazer, este ano, o prêmio Bang!. 
Trata-se do primeiro concurso internacional de literatura fantástica em língua portuguesa. 
O prêmio será de 3 mil euros.

Lei Roberto Carlos 
O Bloco do Barbas, que desfila em Botafogo, completa 30 anos neste carnaval com o tema Uma biografia não autorizada . 
A camiseta, veja ao lado, foi desenhada pelo cartunista e compositor Claudio Cartier. 

O exibido de Ipanema 
O assunto do momento nos escritórios do Ipanema Business, na Av. Visconde de Pirajá, é sobre um, digamos, vizinho exibido. 
O sujeito tem andado peladão na sala e sacada de uma das unidades de fundos do apart-hotel Tiffany´s Residence Service, no mesmo quarteirão do prédio comercial. 

Afogados da Barra
Um levantamento da Secretaria municipal de Saúde do Rio mostra que as praias da Barra e do Recreio têm mais vítimas graves de afogamento que as da Zona Sul. 
Em 2012 e 2013, o Hospital Lourenço Jorge, na Barra, recebeu 63 vítimas. Já o Miguel Couto, no Leblon, 58. 

Tradição ameaçada 
O quiosque Pôr do Sol, em Ipanema, bem em frente ao Hotel Fasano, não abre mais o coco, uma tradição carioca. 
Um funcionário diz que o patrão, após aumentar o preço para R$ 5, só voltará a abrir o fruto para os clientes quando o número de turistas na cidade diminuir. 

Imagina na Copa!
Um executivo do Citibank esteve, sexta, no Rio. No hotel, pediu um hambúrguer. Cobraram R$ 43.