O Estado de S.Paulo - 24/12
Além da eliminação de fronteiras na circulação dos fluxos financeiros e da multiplicação de rotas dos fluxos comerciais, a economia contemporânea se caracteriza pela circulação cada vez mais livre, maciça e veloz dos fluxos de informação. Sucessivas revoluções logísticas e nas comunicações dão suporte a novos e transformadores modos de relacionamento econômico e social.
A disseminação e o aprofundamento dos fluxos de informação potencializaram o peso da formação das expectativas na formulação e condução de políticas econômicas. Com base na circulação desimpedida e detalhada de dados, os agentes econômicos antecipam decisões de governos e precificam com antecedência os impactos nos ativos de medidas que ainda não foram tomadas.
Foi exatamente nesse campo da formação das expectativas que, na área econômica, o governo da presidente Dilma Rousseff mais tropeçou em 2013. Disputou várias batalhas e perdeu quase todas por falhas às vezes gritantes de comunicação.
Quando se analisar, mais à frente, os sobressaltos e as idas e vindas na economia, em 2013, o modo desastrado como a presidente e sua equipe econômica tentaram conduzir as expectativas tem tudo para aparecer como origem importante dos resultados insatisfatórios alcançados na maior parte dos grandes departamentos da economia.
O problema maior não residiu apenas na insistência em bancar projeções e políticas claramente demolidas pela realidade. Martelar que a economia cresceria 4% quando já eram nítidas as dificuldades, principalmente na indústria, para chegar até mesmo aos 3%, ou reforçar estímulos ao consumo e, sobretudo, à venda de veículos, no momento em que as grandes cidades explodiam em manifestações de rua diante do colapso da mobilidade urbana ajudou muito na formação do descrédito no qual caiu o discurso oficial. Mas não foi aí que a coisa de fato pegou.
O que se revelou muito mais eficaz para rebaixar a credibilidade dos condutores da política econômica foi apelar para a "administração" dos índices econômicos, distorcendo resultados, na tentativa de ganhar no grito a batalha das expectativas. A prática conseguiu a proeza de produzir um duplo efeito negativo: aumentou a desconfiança na ação do governo e levou os analistas a criar filtros para interpretar indicadores não mais transparentes ou substituí-los por outros - caso da dívida líquida do setor público, que cedeu o posto de índice referencial de solvência da economia para a dívida bruta.
Quando se observa o cenário da conjuntura econômica em que a estratégia do governo teve curso, menos se consegue entender o que o teria levado a adotá-la. Apesar da insistência da equipe econômica nos estímulos ao consumo, ganhou consenso, ao longo do ano, a ideia de que os gargalos ao crescimento se localizavam, prioritariamente, no lado da oferta - ou seja, a abertura de novos espaços ao crescimento passara a depender, de forma crucial, dos investimentos.
São vários os elementos propulsionadores dos investimentos e sobre alguns deles não há concordâncias tácitas entre os economistas. Mas não haverá uma única voz dissonante da convicção de que, sem expectativas positivas e confiança no futuro da economia, o investimento será capaz de deslanchar.
Há poucos dias, no encontro de fim de ano com jornalistas, a presidente Dilma defendeu a ideia de que os governantes devem seguir como norma cultivar visão otimista e criticou os que sempre enxergam os resultados alcançados pelo governo como um copo meio vazio. Ela tem razão - nos dois casos. Só não pode, sob o risco de perda de credibilidade e da disseminação da desconfiança, brigar com a realidade. Os votos para o novo ano são de que, como têm demonstrado em alguns episódios mais recentes, a presidente e sua equipe econômica tenham, mesmo sem confessar, aprendido a lição.
terça-feira, dezembro 24, 2013
Brasileiro é otário? - RODRIGO CONSTANTINO
O GLOBO - 24/12
Americanos são bobos, egoístas, uns capitalistas insensíveis. Mas vejam que coisa: os serviços básicos funcionam, as estradas são boas, quase todos possuem carros decentes
Sempre que vou aos Estados Unidos retorno com essa questão: somos um povo otário? Afinal, adoramos nos vangloriar de nossa “malandragem”, de nosso “jeitinho”, mas vivemos imersos em um mar de ineficiência, corrupção, carestia e criminalidade. Há malandro demais para otário de menos por aqui.
Os americanos são bobos, egoístas, uns capitalistas insensíveis. Mas vejam que coisa: os serviços básicos funcionam, as estradas são boas, quase todos possuem carros decentes, pelos quais pagaram um terço do valor que nós pagamos, e podem andar com vidros abertos e ter casas sem muros. Que otários!
Ainda bem que somos diferentes, desconfiamos do lucro, dos empresários, e delegamos ao papai Estado todo nosso destino. Temos agora até universidade marxista voltada exclusivamente para o trabalhador, para não deixá-lo “alienado”, e sim um camarada “politizado”, engajado na luta pela justiça social. Somos muito melhores!
Temos um governo metido nos piores escândalos de corrupção, mas ainda favorito para mais um mandato em 2014. A economia não cresce, paramos de gerar empregos, a inflação continua alta demais, cada vez mais gente depende de esmolas estatais, a carga tributária sobe sem parar, mas ninguém parece se importar. A Copa vem aí, e somos a pátria de chuteiras.
Após oito anos, os mensaleiros finalmente foram presos, mas ainda tentam vender a imagem de injustiçados. Um deles recebe amplo apoio dos artistas e “intelectuais” da esquerda caviar, pois teria um currículo louvável (comunista por acaso pode ter passado digno de aplausos?) e não teria roubado para si próprio. O outro se compara a Mandela.
E o PT faz evento oficial para defender os bandidos presos e atacar o STF, ao lado de uma presidente da República conivente, passiva, cúmplice. Alguém pode imaginar isso nos Estados Unidos? Claro que não. Eles não são tão compreensivos e cordiais como nós.
Estive em Miami e Orlando. Só brasileiro, nem preciso falar. Estamos por toda parte, comprando e comprando. “Consumistas burgueses”, diria um típico comuna. “Classe média fascista”, diria Marilena Chauí. Mas que mal há em desejar pagar um terço do preço que se paga no Brasil pelos mesmos produtos? Compram em Miami os que não são ricos a ponto de poder comprar no Brasil.
“Ah, mas é preciso financiar a justiça social”, alegam os esquerdistas. Ora, o governo americano é a polícia do mundo (felizmente), e nós precisamos de um governo ainda maior em termos relativos? Haja esmola, para pobre e para rico (BNDES).
Sem falar que, no Brasil, reina o culto do pobrismo. As esquerdas amam a miséria, não os pobres. E odeiam os ricos mais do que “amam” os necessitados. Não existem abutres sem carniça, não é mesmo?
O Brasil realmente testa nossa paciência. A impressão digital do governo inchado está em todas as cenas do crime, mas eis que boa parte da população pede, como solução para nossos males, mais governo! Seria cômico, não fosse trágico.
Mas é véspera de Natal, e não quero estragar a ocasião. Quero até aproveitar a oportunidade e fazer meus pedidos a Papai Noel. É verdade que ele tem toda pinta de marxista: usa roupa vermelha, distribui presentes pagos por terceiros, e coloca outros para fazer o trabalho pesado enquanto fica com a fama de bondoso. Não importa. Faço minha lista, na esperança de ser atendido:
1. Que o povo brasileiro possa acordar em 2014 e ter o bom senso de evitar um destino trágico como o da Argentina ou da Venezuela para nosso lindo país.
2. Que o funk não seja mais visto como “apenas” uma forma artística diferente, tão boa quanto música clássica ou ópera.
3. Que a doutrinação marxista nas nossas universidades chegue ao fim e que cada vez mais alunos e professores tenham a coragem de se rebelar contra tal covardia.
4. Que a hegemonia de esquerda na política nacional seja finalmente vencida e que algo NOVO possa surgir como alternativa.
5. Que esses ecochatos e politicamente corretos arrumem algum passatempo individual e nos deixem em paz para vivermos de acordo com nossas preferências pessoais.
6. Que todos aqueles que conseguem defender a ditadura cubana em pleno século 21 resolvam abandonar a hipocrisia e comprar uma passagem só de ida para a ilha-presídio caribenha.
7. Que os brasileiros passem a ler mais, de preferência bons livros.
8. Que todos aqueles que querem “salvar o mundo” antes arrumem o próprio quarto.
9. Que todos lembrem de que solidariedade é algo voluntário, não compulsório, via impostos dos outros.
10. Que nosso povo seja menos “malandro”, como os americanos.
Feliz Natal.
Americanos são bobos, egoístas, uns capitalistas insensíveis. Mas vejam que coisa: os serviços básicos funcionam, as estradas são boas, quase todos possuem carros decentes
Sempre que vou aos Estados Unidos retorno com essa questão: somos um povo otário? Afinal, adoramos nos vangloriar de nossa “malandragem”, de nosso “jeitinho”, mas vivemos imersos em um mar de ineficiência, corrupção, carestia e criminalidade. Há malandro demais para otário de menos por aqui.
Os americanos são bobos, egoístas, uns capitalistas insensíveis. Mas vejam que coisa: os serviços básicos funcionam, as estradas são boas, quase todos possuem carros decentes, pelos quais pagaram um terço do valor que nós pagamos, e podem andar com vidros abertos e ter casas sem muros. Que otários!
Ainda bem que somos diferentes, desconfiamos do lucro, dos empresários, e delegamos ao papai Estado todo nosso destino. Temos agora até universidade marxista voltada exclusivamente para o trabalhador, para não deixá-lo “alienado”, e sim um camarada “politizado”, engajado na luta pela justiça social. Somos muito melhores!
Temos um governo metido nos piores escândalos de corrupção, mas ainda favorito para mais um mandato em 2014. A economia não cresce, paramos de gerar empregos, a inflação continua alta demais, cada vez mais gente depende de esmolas estatais, a carga tributária sobe sem parar, mas ninguém parece se importar. A Copa vem aí, e somos a pátria de chuteiras.
Após oito anos, os mensaleiros finalmente foram presos, mas ainda tentam vender a imagem de injustiçados. Um deles recebe amplo apoio dos artistas e “intelectuais” da esquerda caviar, pois teria um currículo louvável (comunista por acaso pode ter passado digno de aplausos?) e não teria roubado para si próprio. O outro se compara a Mandela.
E o PT faz evento oficial para defender os bandidos presos e atacar o STF, ao lado de uma presidente da República conivente, passiva, cúmplice. Alguém pode imaginar isso nos Estados Unidos? Claro que não. Eles não são tão compreensivos e cordiais como nós.
Estive em Miami e Orlando. Só brasileiro, nem preciso falar. Estamos por toda parte, comprando e comprando. “Consumistas burgueses”, diria um típico comuna. “Classe média fascista”, diria Marilena Chauí. Mas que mal há em desejar pagar um terço do preço que se paga no Brasil pelos mesmos produtos? Compram em Miami os que não são ricos a ponto de poder comprar no Brasil.
“Ah, mas é preciso financiar a justiça social”, alegam os esquerdistas. Ora, o governo americano é a polícia do mundo (felizmente), e nós precisamos de um governo ainda maior em termos relativos? Haja esmola, para pobre e para rico (BNDES).
Sem falar que, no Brasil, reina o culto do pobrismo. As esquerdas amam a miséria, não os pobres. E odeiam os ricos mais do que “amam” os necessitados. Não existem abutres sem carniça, não é mesmo?
O Brasil realmente testa nossa paciência. A impressão digital do governo inchado está em todas as cenas do crime, mas eis que boa parte da população pede, como solução para nossos males, mais governo! Seria cômico, não fosse trágico.
Mas é véspera de Natal, e não quero estragar a ocasião. Quero até aproveitar a oportunidade e fazer meus pedidos a Papai Noel. É verdade que ele tem toda pinta de marxista: usa roupa vermelha, distribui presentes pagos por terceiros, e coloca outros para fazer o trabalho pesado enquanto fica com a fama de bondoso. Não importa. Faço minha lista, na esperança de ser atendido:
1. Que o povo brasileiro possa acordar em 2014 e ter o bom senso de evitar um destino trágico como o da Argentina ou da Venezuela para nosso lindo país.
2. Que o funk não seja mais visto como “apenas” uma forma artística diferente, tão boa quanto música clássica ou ópera.
3. Que a doutrinação marxista nas nossas universidades chegue ao fim e que cada vez mais alunos e professores tenham a coragem de se rebelar contra tal covardia.
4. Que a hegemonia de esquerda na política nacional seja finalmente vencida e que algo NOVO possa surgir como alternativa.
5. Que esses ecochatos e politicamente corretos arrumem algum passatempo individual e nos deixem em paz para vivermos de acordo com nossas preferências pessoais.
6. Que todos aqueles que conseguem defender a ditadura cubana em pleno século 21 resolvam abandonar a hipocrisia e comprar uma passagem só de ida para a ilha-presídio caribenha.
7. Que os brasileiros passem a ler mais, de preferência bons livros.
8. Que todos aqueles que querem “salvar o mundo” antes arrumem o próprio quarto.
9. Que todos lembrem de que solidariedade é algo voluntário, não compulsório, via impostos dos outros.
10. Que nosso povo seja menos “malandro”, como os americanos.
Feliz Natal.
Os postes de Lula - GUSTAVO PATU
FOLHA DE SP - 24/12
BRASÍLIA - Em comum, Dilma Rousseff e Fernando Haddad gostam de exibir cifras grandiloquentes, na casa das dezenas de bilhões, forjadas à base de somas heterodoxas e previsões generosas.
Talvez por isso tenham caído nas graças de Lula, outro amante dos números bombásticos, que escolheu uma e outro para improváveis candidatos vitoriosos do partido, respectivamente, ao Palácio do Planalto e ao comando da maior cidade brasileira.
Entre as diferenças, Dilma colecionou recordes de popularidade e, mesmo após algumas avarias, ainda ostenta 41% de aprovação, segundo o Datafolha --enquanto Haddad encerra seu primeiro ano de mandato considerado bom ou ótimo por apenas 18% dos paulistanos.
Ainda que as pretensões de opulência econômica tenham escorrido entre seus dedos, a presidente dispõe de um legado a preservar, cultivado nos tempos das vacas gordas. Anos de fartura de dólares em exportações e de reais em impostos permitiram tornar o país mais resistente às intempéries internacionais, menos pobre e menos desigual.
O prefeito precisa formar seu capital político a partir do zero, em tempos de dinheiro escasso. Com o ruidoso fracasso de seu aumento do IPTU, resta contar com os cofres aliados do governo federal --aposta arriscada, uma vez que Dilma mal tem dado conta de suas próprias obras.
Já o terceiro poste de Lula, Alexandre Padilha, disputará o governo paulista contra um legado de duas décadas. Graças ao providencial socorro financeiro do governo FHC nos anos 90, os tucanos equacionaram as contas do Estado e puderam vender a imagem de gestores responsáveis. Sem ser associado a feitos emocionantes, Geraldo Alckmin tem hoje a mesma aprovação de Dilma.
Não por acaso, prepara-se uma renegociação da impagável dívida da prefeitura paulistana com a União. Haddad, contudo, prometeu gastos bilionários, não austeridade.
BRASÍLIA - Em comum, Dilma Rousseff e Fernando Haddad gostam de exibir cifras grandiloquentes, na casa das dezenas de bilhões, forjadas à base de somas heterodoxas e previsões generosas.
Talvez por isso tenham caído nas graças de Lula, outro amante dos números bombásticos, que escolheu uma e outro para improváveis candidatos vitoriosos do partido, respectivamente, ao Palácio do Planalto e ao comando da maior cidade brasileira.
Entre as diferenças, Dilma colecionou recordes de popularidade e, mesmo após algumas avarias, ainda ostenta 41% de aprovação, segundo o Datafolha --enquanto Haddad encerra seu primeiro ano de mandato considerado bom ou ótimo por apenas 18% dos paulistanos.
Ainda que as pretensões de opulência econômica tenham escorrido entre seus dedos, a presidente dispõe de um legado a preservar, cultivado nos tempos das vacas gordas. Anos de fartura de dólares em exportações e de reais em impostos permitiram tornar o país mais resistente às intempéries internacionais, menos pobre e menos desigual.
O prefeito precisa formar seu capital político a partir do zero, em tempos de dinheiro escasso. Com o ruidoso fracasso de seu aumento do IPTU, resta contar com os cofres aliados do governo federal --aposta arriscada, uma vez que Dilma mal tem dado conta de suas próprias obras.
Já o terceiro poste de Lula, Alexandre Padilha, disputará o governo paulista contra um legado de duas décadas. Graças ao providencial socorro financeiro do governo FHC nos anos 90, os tucanos equacionaram as contas do Estado e puderam vender a imagem de gestores responsáveis. Sem ser associado a feitos emocionantes, Geraldo Alckmin tem hoje a mesma aprovação de Dilma.
Não por acaso, prepara-se uma renegociação da impagável dívida da prefeitura paulistana com a União. Haddad, contudo, prometeu gastos bilionários, não austeridade.
Natal da saudade - XICO GRAZIANO
O ESTADO DE S. PAULO - 24/12
Recordo-me, nesta véspera do Natal, quando minha família, acompanhando a maioria dos brasileiros, deixava o campo rumo à cidade. Começava há 50 anos a modernização da sociedade brasileira. Menino ainda, em Araras (SP), ansiosamente aguardava pela chegada do Papai Noel. Não havia, como agora, uma festança. O evento natalino tinha caráter mais religioso, a ceia era secundária. Obrigatório era assistir, quase adormecido, à Missa do Galo, rezada em Roma, pelo papa, à meia-noite. Inesquecível reza do padre-nosso.
Minha curiosidade infantil se atiçava dentre os festejos cristãos. Eu não entendia, nem nunca alguém me explicou, o que o galo tinha que ver com o Natal. Muito tempo depois, estudando o folclore caipira, descobri as várias versões dessa celebração do nascimento de Jesus. Dizem uns que o cantar do cocori-có, anunciando o amanhecer, se assemelha à chegada do Cristo, qual sol nascente iluminando a escuridão pagà. Outros afirmam que, instituída no séculc V, a missa deve-se ao forte cantar de um galo na celebração da Eucaristia, comemorando a vinda do Messias. Vai saber.
Cenário meio em desuse atualmente, encantava-me c presépio. Naquela época, passávamos horas montando e curtindo aquelas peças, consideradas abençoadas, centralizadas em tomo do menino Jesus deitado na manjedoura de palha tendo ao lado seus pais, a Virgem Maria e José. Filhos e netos de agricultores, nós nos identificávamos com a família sagrada postada no celeiro, perto do curral, junto do burrico, o boi e as ovelhas, sob o olhar zeloso dos pastores e seus cajados. O presépio de Natal dava liga com nosso mundo rural.
Ninguém sabia, ou não se dizia, que o primeiro presépio surgiu na floresta de Greccio, na Itália de 1223, com o objetivo de explicar às pessoas mais simples o significado do nascimento de Jesus Cristo. Grande ideia pedagógica de São Francisco de Assis. Fascinava-me, no casarão colonial de minha avó Anai-tis, bem ali no centro da cidade, observar os anjos anunciadores rodeando aquele cenário sacro iluminado pela grande estrela de Belém, sempre colocada em destaque, ao alto, indicando o caminho aos três reis magos, figuras de que nunca lembrávamos os nomes (Melchior, Baltazar e Gaspar). A representação da simplicidade do nascimento de Jesus, carregada por tantos simbolismos, formava um quadro teatral por onde nós, crianças, viajávamos ao beijar cuidadosamente, com reverência, tantos personagens de uma verdadeira fábula. Isso era Natal.
São recentes a comilança e a bebedeira que agora caracterizam a ceia natalina. Antigamente, o jantar se fazia mais simples e a leitoa assada, ou seu quarto traseiro, não o peru, dominava normalmente o cardápio principal. Mas para meu avò Chico, calabrês de origem, a data ímpar exigia ademais um cabrito ensopado na mesa. Além - típico nas famílias de descendência italiana - do vinho servido junto com o pão. Na ceia de meus parentes havia ainda uma particularidade: costumava-se cortar pedaços de pêssego, importado, pois por aqui ainda não se produziam frutas temperadas, colocando-os dentro da taça para perfumar a bebida, o que arroxeava a polpa da fruta. Supimpa.
Inexistia panetone, tal como o conhecemos atualmente. O pão de Natal, feito em casa, era especialmente trançado, recheado algumas vezes com frutas e nozes, mas não tinha esse formato próprio dos panetones modernos. Enquanto os adultos conversavam, a molecada aguardava ansiosa a hora de receber presentes, os maiores liberados para tomar a sangria, vinho diluído em água que nos fazia sentir gente grande. Imaginem, outrora, adulto receber oferendas do Papai Noel. Nem pensar. Os mimos somente cabiam às crianças. Por essa razão, ganhávamos presentes de toda a parentada, saindo abarrotados para ir dormir felizes. Com olhos abertos, eu sonhava com a neve do trenó.
Quase tudo mudou no Natal.
Com a urbanização crescente, a industrialização e o fortalecimento do comércio, os costumes e as práticas foram se alterando. Começa que os presentes se estenderam para todos, independentemente da idade. Em decorrência, decerto para economizar, inventou-se essa brincadeira do "amigo secreto", equiparando no agrado as crianças com os adultos. Influenciada principalmente pelo modo de ser norte-americano, dominante no mundo ocidental, a sociedade brasileira começou a adotar, também no Natal, manias do estrangeiro. Apareceu o peru.
Sempre foi costume, na América do Norte, comer o grande galináceo no Dia de Ação de Graças, quando por lá, historicamente, eles comemoram o sucesso das suas colheitas e o brilho de seus negócios. Introduzido no Natal brasileiro, o peru desbancou a leitoa caipira abusando do argumento culinário de ser uma came mais saudável que o gorduroso porquinho criado no sítio. Ainda jovem me lembro de meus parentes mais velhos, embora fascinados com a visão charmosa do peru esticado com as pemas para cima sobre a assadeira, reclamando do gosto insosso de sua came de peito branca. Bom mesmo, afirmavam, era o couro pururuca da leitoa, assada no forno à lenha. Delícia.
Depois, em meados dos anos 1980, chegou o chester, que muitos imaginam ser cruzamento do peru com o frango, mas, na verdade, trata-se do nome comercial de uma linhagem melhorada de aves grandes, origem escocesa. Pernas pequenas, peitoral enorme, macia carne, bom e barato, o bicho vingou. Como a lichia, fruta chinesa. Exóticas novidades passaram a compor a ceia de Natal, apetitosos importados invadiram a mesa, misturando-se com os quitutes tradicionais. O gosto da fartura se diluiu. A religiosidade quase desapareceu.
Nem melhor nem pior. Apenas diferente.
Feliz Natal e bom ano-novo!
Minha curiosidade infantil se atiçava dentre os festejos cristãos. Eu não entendia, nem nunca alguém me explicou, o que o galo tinha que ver com o Natal. Muito tempo depois, estudando o folclore caipira, descobri as várias versões dessa celebração do nascimento de Jesus. Dizem uns que o cantar do cocori-có, anunciando o amanhecer, se assemelha à chegada do Cristo, qual sol nascente iluminando a escuridão pagà. Outros afirmam que, instituída no séculc V, a missa deve-se ao forte cantar de um galo na celebração da Eucaristia, comemorando a vinda do Messias. Vai saber.
Cenário meio em desuse atualmente, encantava-me c presépio. Naquela época, passávamos horas montando e curtindo aquelas peças, consideradas abençoadas, centralizadas em tomo do menino Jesus deitado na manjedoura de palha tendo ao lado seus pais, a Virgem Maria e José. Filhos e netos de agricultores, nós nos identificávamos com a família sagrada postada no celeiro, perto do curral, junto do burrico, o boi e as ovelhas, sob o olhar zeloso dos pastores e seus cajados. O presépio de Natal dava liga com nosso mundo rural.
Ninguém sabia, ou não se dizia, que o primeiro presépio surgiu na floresta de Greccio, na Itália de 1223, com o objetivo de explicar às pessoas mais simples o significado do nascimento de Jesus Cristo. Grande ideia pedagógica de São Francisco de Assis. Fascinava-me, no casarão colonial de minha avó Anai-tis, bem ali no centro da cidade, observar os anjos anunciadores rodeando aquele cenário sacro iluminado pela grande estrela de Belém, sempre colocada em destaque, ao alto, indicando o caminho aos três reis magos, figuras de que nunca lembrávamos os nomes (Melchior, Baltazar e Gaspar). A representação da simplicidade do nascimento de Jesus, carregada por tantos simbolismos, formava um quadro teatral por onde nós, crianças, viajávamos ao beijar cuidadosamente, com reverência, tantos personagens de uma verdadeira fábula. Isso era Natal.
São recentes a comilança e a bebedeira que agora caracterizam a ceia natalina. Antigamente, o jantar se fazia mais simples e a leitoa assada, ou seu quarto traseiro, não o peru, dominava normalmente o cardápio principal. Mas para meu avò Chico, calabrês de origem, a data ímpar exigia ademais um cabrito ensopado na mesa. Além - típico nas famílias de descendência italiana - do vinho servido junto com o pão. Na ceia de meus parentes havia ainda uma particularidade: costumava-se cortar pedaços de pêssego, importado, pois por aqui ainda não se produziam frutas temperadas, colocando-os dentro da taça para perfumar a bebida, o que arroxeava a polpa da fruta. Supimpa.
Inexistia panetone, tal como o conhecemos atualmente. O pão de Natal, feito em casa, era especialmente trançado, recheado algumas vezes com frutas e nozes, mas não tinha esse formato próprio dos panetones modernos. Enquanto os adultos conversavam, a molecada aguardava ansiosa a hora de receber presentes, os maiores liberados para tomar a sangria, vinho diluído em água que nos fazia sentir gente grande. Imaginem, outrora, adulto receber oferendas do Papai Noel. Nem pensar. Os mimos somente cabiam às crianças. Por essa razão, ganhávamos presentes de toda a parentada, saindo abarrotados para ir dormir felizes. Com olhos abertos, eu sonhava com a neve do trenó.
Quase tudo mudou no Natal.
Com a urbanização crescente, a industrialização e o fortalecimento do comércio, os costumes e as práticas foram se alterando. Começa que os presentes se estenderam para todos, independentemente da idade. Em decorrência, decerto para economizar, inventou-se essa brincadeira do "amigo secreto", equiparando no agrado as crianças com os adultos. Influenciada principalmente pelo modo de ser norte-americano, dominante no mundo ocidental, a sociedade brasileira começou a adotar, também no Natal, manias do estrangeiro. Apareceu o peru.
Sempre foi costume, na América do Norte, comer o grande galináceo no Dia de Ação de Graças, quando por lá, historicamente, eles comemoram o sucesso das suas colheitas e o brilho de seus negócios. Introduzido no Natal brasileiro, o peru desbancou a leitoa caipira abusando do argumento culinário de ser uma came mais saudável que o gorduroso porquinho criado no sítio. Ainda jovem me lembro de meus parentes mais velhos, embora fascinados com a visão charmosa do peru esticado com as pemas para cima sobre a assadeira, reclamando do gosto insosso de sua came de peito branca. Bom mesmo, afirmavam, era o couro pururuca da leitoa, assada no forno à lenha. Delícia.
Depois, em meados dos anos 1980, chegou o chester, que muitos imaginam ser cruzamento do peru com o frango, mas, na verdade, trata-se do nome comercial de uma linhagem melhorada de aves grandes, origem escocesa. Pernas pequenas, peitoral enorme, macia carne, bom e barato, o bicho vingou. Como a lichia, fruta chinesa. Exóticas novidades passaram a compor a ceia de Natal, apetitosos importados invadiram a mesa, misturando-se com os quitutes tradicionais. O gosto da fartura se diluiu. A religiosidade quase desapareceu.
Nem melhor nem pior. Apenas diferente.
Feliz Natal e bom ano-novo!
Órfãos do Judiciário - JOSÉ CASADO
O GLOBO - 24/12
As mordomias no Judiciário proliferam, mas em velocidade menor que a insatisfação do público pagante
O Tribunal de Justiça do Paraná acaba de renovar sua frota de automóveis. Comprou 80 novos para os juízes. Enquanto isso o fórum de Curitiba, frequentado pelo público, continua sendo um local insalubre - na definição da Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça.
No tribunal de Goiás, cada desembargador possui 13 servidores públicos à disposição. O fórum tem metade disso, embora o volume de processos seja oito vezes maior.
Em Minas Gerais, construiu-se um palácio para a Justiça estadual, em L , com torres de 11 andares e seis subsolos, 1.597 vagas de estacionamento, 16 plenários, lojas, salão para eventos e quatro auditórios - além de um exclusivo para os 25 desembargadores. Quando questionados, os magistrados responderam: Considerando a área total a ser construída (de 138.164,61 metros quadrados), temos um valor de R$ 2.600 por metro quadrado. O custo do prédio do Tribunal Superior Eleitoral (em Brasília) é de R$ 2.800 por metro quadrado.
Desde os anos 90, os juízes dos tribunais superiores e estaduais parecem empenhados numa espécie de competição imobiliária: a cada novo prédio que mandam construir, suas salas de trabalho ficam mais amplas. O projeto do Conselho da Justiça Federal, em Brasília, chegou a prever gabinete de 650 metros quadrados.
As mordomias no Judiciário proliferam, mas em velocidade menor que a insatisfação do público pagante. Basta olhar para os juizados de primeiro grau, onde estão oito em cada dez processos: 2013 vai terminar com 70% deles parados, sem resolução, segundo informa o Conselho Nacional de Justiça. Seriam necessários cinco anos para solucioná-los, desde que os fóruns não recebessem um único novo processo.
O Brasil avança na consolidação de um Judiciário confinado em palácios, recheados de cargos adornados por mordomias, e a cada ano mais distanciado da maioria da sociedade, que permanece sem o direito de acesso à Justiça.
É um país com 770 mil advogados, mas apenas 5.500 defensores públicos. São 311 advogados para cada 100 mil habitantes e apenas 3,9 defensores no mesmo universo. Os poucos defensores existentes atendem 90% da população.
Na prática, o Estado capturou a máquina judicial e a transformou em instrumento de ação contra a sociedade. É nos tribunais que União, estados e municípios fazem seu efetivo controle de caixa sobre as principais despesas - aposentadorias e precatórios, entre outras contas. Ágeis na percepção das mutações nas instituições, as empresas privadas há muito tempo saíram desse circuito e optaram pela solução de controvérsias em tribunais informais, os da mediação.
Órfãos ficaram oito em cada dez brasileiros que sobrevivem com até três salários mínimos mensais. Não têm quem os defenda - principalmente, contra o Estado. Quando encontram um defensor público, geralmente sobrecarregado, precisam entrar na fila e contar os dias no calendário da burocracia, que gasta 15 dias para adicionar uma petição a um processo.
Com sorte, talvez levem apenas dez anos frequentando as estatísticas de congestionamento do Judiciário. Mas podem atravessar uma vida inteira, se o processo for contra o Estado brasileiro por causa de um crédito judicialmente reconhecido como válido, mas com pagamento protelado por sucessivos governos - os provedores das verbas que sustentam as mordomias nos palácios.
No tribunal de Goiás, cada desembargador possui 13 servidores públicos à disposição. O fórum tem metade disso, embora o volume de processos seja oito vezes maior.
Em Minas Gerais, construiu-se um palácio para a Justiça estadual, em L , com torres de 11 andares e seis subsolos, 1.597 vagas de estacionamento, 16 plenários, lojas, salão para eventos e quatro auditórios - além de um exclusivo para os 25 desembargadores. Quando questionados, os magistrados responderam: Considerando a área total a ser construída (de 138.164,61 metros quadrados), temos um valor de R$ 2.600 por metro quadrado. O custo do prédio do Tribunal Superior Eleitoral (em Brasília) é de R$ 2.800 por metro quadrado.
Desde os anos 90, os juízes dos tribunais superiores e estaduais parecem empenhados numa espécie de competição imobiliária: a cada novo prédio que mandam construir, suas salas de trabalho ficam mais amplas. O projeto do Conselho da Justiça Federal, em Brasília, chegou a prever gabinete de 650 metros quadrados.
As mordomias no Judiciário proliferam, mas em velocidade menor que a insatisfação do público pagante. Basta olhar para os juizados de primeiro grau, onde estão oito em cada dez processos: 2013 vai terminar com 70% deles parados, sem resolução, segundo informa o Conselho Nacional de Justiça. Seriam necessários cinco anos para solucioná-los, desde que os fóruns não recebessem um único novo processo.
O Brasil avança na consolidação de um Judiciário confinado em palácios, recheados de cargos adornados por mordomias, e a cada ano mais distanciado da maioria da sociedade, que permanece sem o direito de acesso à Justiça.
É um país com 770 mil advogados, mas apenas 5.500 defensores públicos. São 311 advogados para cada 100 mil habitantes e apenas 3,9 defensores no mesmo universo. Os poucos defensores existentes atendem 90% da população.
Na prática, o Estado capturou a máquina judicial e a transformou em instrumento de ação contra a sociedade. É nos tribunais que União, estados e municípios fazem seu efetivo controle de caixa sobre as principais despesas - aposentadorias e precatórios, entre outras contas. Ágeis na percepção das mutações nas instituições, as empresas privadas há muito tempo saíram desse circuito e optaram pela solução de controvérsias em tribunais informais, os da mediação.
Órfãos ficaram oito em cada dez brasileiros que sobrevivem com até três salários mínimos mensais. Não têm quem os defenda - principalmente, contra o Estado. Quando encontram um defensor público, geralmente sobrecarregado, precisam entrar na fila e contar os dias no calendário da burocracia, que gasta 15 dias para adicionar uma petição a um processo.
Com sorte, talvez levem apenas dez anos frequentando as estatísticas de congestionamento do Judiciário. Mas podem atravessar uma vida inteira, se o processo for contra o Estado brasileiro por causa de um crédito judicialmente reconhecido como válido, mas com pagamento protelado por sucessivos governos - os provedores das verbas que sustentam as mordomias nos palácios.
O porquê da ineficiência - PAULO SILVA PINTO
CORREIO BRAZILIENSE - 24/12
O Correio conclui hoje série de reportagens sobre as dificuldades que enfrentam os brasileiros que usam serviços públicos, resultado de cuidadoso trabalho do repórter Diego Amorim. Mas o assunto está longe de ser encerrado. Terá certamente presença marcante nas campanhas eleitorais de 2014. Não há como escapar.
Algo indispensável na discussão é tentar compreender o porquê da ineficiência. Não se pode esperar uma única resposta óbvia. Como em toda questão complexa, a análise deve ser abrangente. Isso não significa ignorar problemas que são muito simples.
A presidente Dilma Rousseff comentou o tema ontem, segundo dia da série de reportagens, tocando em algo essencial: a responsabilidade de quem trabalha com o dinheiro do contribuinte. "As vozes dos que foram às ruas querem melhores serviços públicos", disse ela por meio do Twitter. Em seguida, outra mensagem: "Cabe a nós, servidores públicos, responder a essas vozes".
Dilma tomou o cuidado, em outras mensagens, de registrar elogios aos servidores, pela "dedicação" e pelo "trabalho árduo". O problema - duvido que a presidente não perceba - é a dificuldade de exigir de todos tal nível de empenho e comprometimento. Muitos concursado, aliás, têm clareza da importância desse entrave. Sobretudo os que compõem a elite do funcionalismo, que se concentra, como não poderia deixar de ser, na capital da República.
A legislação determina que os trabalhadores do setor público passem por avaliações periódicas de desempenho. E que os casos de insuficiência sejam solucionados de algum modo. Se não houver outro, por meio da "demissão a bem do serviço público".
Implementar o que está escrito, porém, é outra história. Em vários casos, o que se vê são avaliações que fazem vista grossa para a incompetência. Quem acaba punido por esse descaso são os cidadãos e também os muitos servidores que, porque querem, trabalham com afinco e paixão.
Governantes devem entender, porém, que, como detentores de mandatos, são os chefes do serviço público. E que, se não enfrentarem as resistências para garantir a qualidade, recairá sobre eles e elas a responsabilidade pelo problema.
Algo indispensável na discussão é tentar compreender o porquê da ineficiência. Não se pode esperar uma única resposta óbvia. Como em toda questão complexa, a análise deve ser abrangente. Isso não significa ignorar problemas que são muito simples.
A presidente Dilma Rousseff comentou o tema ontem, segundo dia da série de reportagens, tocando em algo essencial: a responsabilidade de quem trabalha com o dinheiro do contribuinte. "As vozes dos que foram às ruas querem melhores serviços públicos", disse ela por meio do Twitter. Em seguida, outra mensagem: "Cabe a nós, servidores públicos, responder a essas vozes".
Dilma tomou o cuidado, em outras mensagens, de registrar elogios aos servidores, pela "dedicação" e pelo "trabalho árduo". O problema - duvido que a presidente não perceba - é a dificuldade de exigir de todos tal nível de empenho e comprometimento. Muitos concursado, aliás, têm clareza da importância desse entrave. Sobretudo os que compõem a elite do funcionalismo, que se concentra, como não poderia deixar de ser, na capital da República.
A legislação determina que os trabalhadores do setor público passem por avaliações periódicas de desempenho. E que os casos de insuficiência sejam solucionados de algum modo. Se não houver outro, por meio da "demissão a bem do serviço público".
Implementar o que está escrito, porém, é outra história. Em vários casos, o que se vê são avaliações que fazem vista grossa para a incompetência. Quem acaba punido por esse descaso são os cidadãos e também os muitos servidores que, porque querem, trabalham com afinco e paixão.
Governantes devem entender, porém, que, como detentores de mandatos, são os chefes do serviço público. E que, se não enfrentarem as resistências para garantir a qualidade, recairá sobre eles e elas a responsabilidade pelo problema.
O peso destes dias - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 24/12
A menina quis saber se era por causa do Natal. Não, o Natal estava longe. Os dois saíram correndo, aos pulos
Crônicas de Natal, se repassadas dos jornais brasileiros para livros, comporiam toda uma biblioteca. Não custa reforçar, por isso, a diferença entre qualidade e quantidade. Como não contribuí para a primeira, deixei de engrossar a segunda. Mas, na verdade, menos por esse motivo --ou teria de estendê-lo aos artigos que socorrem o orçamento familiar-- do que por precaução.
A última crônica natalina que escrevi era, claro, para o Natal. Mas não foi. Contava o caso real de duas crianças que dividiam o tempo, na calçada perto da sucursal carioca da Folha, entre chutar alguma coisa à maneira de bola e pedir uns trocadinhos sempre raros e ralos. Mas não descalças, como é comum. Calçavam o que tinha sido um par de tênis. O menininho com um pé, a irmã, pouco maior, com o outro. Levados a uma sapataria, para cada um escolher o seu par de tênis, a menina quis saber se era por causa do Natal. Não, o Natal estava longe. Os dois saíram correndo, aos pulos.
Depois de alguma divagação, sobre o peso que os anos de lembranças dão a esta época, o ponto final natalino: "As crianças e seus presentes, os adultos e seus ausentes". Algumas pessoas, entre elas meu amigo Pasquale Cipro Neto com um telefonema especial, me falaram da crônica. Parece que mais pela frase final. Soube que professores também usaram o texto em vestibulares. Mas nenhum deles o leu no Natal. A crônica não foi publicada.
Os da minha geração no jornalismo têm motivos para indagar-se logo, em situações assim, o que haveria de tão inaceitável no texto a ponto de vetá-lo. Não precisei perguntar. "Esquecemos da sua coluna, mas publicamos amanhã". Havia só mais de 20 anos que a coluna saía seis vezes por semana. A imprensa ainda não era tão requentada, ainda assim achei que a ocasião havia passado. Diante da insistência, pedi que se pusesse, ao final da crônica, um fio de separação e a frase informando que o texto não saíra na véspera por "falha técnica".
Foi assim que a crônica cresceu com mais uma frase, um novo fecho. O aviso foi posto, mas o traço de separação foi esquecido. Por precaução, nunca mais escrevi para o Natal.
A ideia daquela crônica me deu vontade de procurar as duas crianças, tão miseráveis, sujinhas de rua e de abandono, e tão suavemente simpáticas, como tantas crianças miseráveis, sujinhas de rua e de abandono, e tão suavemente simpáticas, neste país tão cheio de riquezas prepotentes e avaras. Irmão e irmã estariam precisando de tênis maiores. E agora poderiam ouvir que, sim, eram presentes de Natal.
Voltei às redondezas da antiga sucursal. Crianças da pobreza costumavam vender os seus chicletes e pastilhas em pontos constantes, como suas lojas ao ar livre, até que as autoridades competentes as reprimiram. Bati as ruas e quadras por lá. Nada. Ou já não pude reconhecer os dois. Hoje me lembrei outra vez daquela pergunta: "É por causa do Natal?" E percebi que o peso dado às minhas lembranças, por esta época, tem duas ausências a mais e diferentes das outras.
A menina quis saber se era por causa do Natal. Não, o Natal estava longe. Os dois saíram correndo, aos pulos
Crônicas de Natal, se repassadas dos jornais brasileiros para livros, comporiam toda uma biblioteca. Não custa reforçar, por isso, a diferença entre qualidade e quantidade. Como não contribuí para a primeira, deixei de engrossar a segunda. Mas, na verdade, menos por esse motivo --ou teria de estendê-lo aos artigos que socorrem o orçamento familiar-- do que por precaução.
A última crônica natalina que escrevi era, claro, para o Natal. Mas não foi. Contava o caso real de duas crianças que dividiam o tempo, na calçada perto da sucursal carioca da Folha, entre chutar alguma coisa à maneira de bola e pedir uns trocadinhos sempre raros e ralos. Mas não descalças, como é comum. Calçavam o que tinha sido um par de tênis. O menininho com um pé, a irmã, pouco maior, com o outro. Levados a uma sapataria, para cada um escolher o seu par de tênis, a menina quis saber se era por causa do Natal. Não, o Natal estava longe. Os dois saíram correndo, aos pulos.
Depois de alguma divagação, sobre o peso que os anos de lembranças dão a esta época, o ponto final natalino: "As crianças e seus presentes, os adultos e seus ausentes". Algumas pessoas, entre elas meu amigo Pasquale Cipro Neto com um telefonema especial, me falaram da crônica. Parece que mais pela frase final. Soube que professores também usaram o texto em vestibulares. Mas nenhum deles o leu no Natal. A crônica não foi publicada.
Os da minha geração no jornalismo têm motivos para indagar-se logo, em situações assim, o que haveria de tão inaceitável no texto a ponto de vetá-lo. Não precisei perguntar. "Esquecemos da sua coluna, mas publicamos amanhã". Havia só mais de 20 anos que a coluna saía seis vezes por semana. A imprensa ainda não era tão requentada, ainda assim achei que a ocasião havia passado. Diante da insistência, pedi que se pusesse, ao final da crônica, um fio de separação e a frase informando que o texto não saíra na véspera por "falha técnica".
Foi assim que a crônica cresceu com mais uma frase, um novo fecho. O aviso foi posto, mas o traço de separação foi esquecido. Por precaução, nunca mais escrevi para o Natal.
A ideia daquela crônica me deu vontade de procurar as duas crianças, tão miseráveis, sujinhas de rua e de abandono, e tão suavemente simpáticas, como tantas crianças miseráveis, sujinhas de rua e de abandono, e tão suavemente simpáticas, neste país tão cheio de riquezas prepotentes e avaras. Irmão e irmã estariam precisando de tênis maiores. E agora poderiam ouvir que, sim, eram presentes de Natal.
Voltei às redondezas da antiga sucursal. Crianças da pobreza costumavam vender os seus chicletes e pastilhas em pontos constantes, como suas lojas ao ar livre, até que as autoridades competentes as reprimiram. Bati as ruas e quadras por lá. Nada. Ou já não pude reconhecer os dois. Hoje me lembrei outra vez daquela pergunta: "É por causa do Natal?" E percebi que o peso dado às minhas lembranças, por esta época, tem duas ausências a mais e diferentes das outras.
A luta de classes de Haddad - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 24/12
O prefeito Fernando Haddad está colhendo o que plantou no caso do aumento exorbitante do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), mas, em vez de reconhecer os erros que cometeu - seria demais esperar que o fizesse -, preferiu partir para o ataque. E ainda assim escolhendo o pior caminho possível. Alega ele que as derrotas do aumento na Justiça - à qual recorreram alguns dos que se julgaram prejudicados por ele - é consequência da luta de classes, vencida pelos ricos, que com isso vão pagar menos, e perdida pelos pobres, que teriam redução ou isenção do tributo.
Como o argumento é tosco, primário, Haddad achou por bem dar-lhe uma tintura sociológica, apelando para o título do clássico de Gilberto Freyre sobre a formação do Brasil - Casa Grande e Senzala. Logo depois da decisão do presidente do Supremo tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, que manteve liminar do Tribunal de Justiça de São Paulo que suspendeu o aumento do IPTU, o prefeito fez dura crítica ao presidente da Federação das Indústrias de São.Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, um dos autores da ação, identificado com a elite, com a "Casa Grande".
"A "Casa Grande" não deixa a desigualdade ser reduzida na cidade. Em 2014, manteremos o quadro atual. Infelizmente, não conseguimos transferir renda dos mais ricos para os mais pobres", afirmou Haddad. Ele desistiu do aumento pretendido de até 20% para os imóveis residenciais e de até 35% para os comerciais -, embora a decisão da Justiça não seja definitiva, e o reajuste do IPTU será pela inflação de 2013, estimada em 5,6%. Pior do que o ridículo dessa comparação, que tem tudo de demagogia e nada de verdade, é a irresponsabilidade de atiçar e manejar o ódio de classe como método de governo.
Como se isso não bastasse, e tomado de estudada fúria, o prefeito foi desenterrar o fim da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), apoiado pela Fiesp, e que "tirou R$ 60 bilhões da saúde", para fazer uma comparação com o IPTU. Segundo Haddad, "a Fiesp está tentando fazer agora a mesma coisa com a cidade de São Paulo". Ora, é mais do que sabido que, em vez de ajudar a saúde, finalidade para a qual foi criada, a CPMF servia mesmo era para engordar o caixa geral do governo. Para a saúde sobrava pouco. Além do que, se foi extinta, isso não se deve apenas aos que tinham todo o direito de ser contra ela - um imposto de má qualidade -, mas principalmente por culpa do próprio governo, que tem folgada maioria no Congresso.
Quanto à decisão do ministro Barbosa, que levou o prefeito a desistir do aumento e partir para a fanfarronada da luta de classes, ela prima pela sensatez. Argumentou Barbosa que o contribuinte seria prejudicado se o imposto fosse cobrado com aquele aumento e futuramente o Tribunal de Justiça, no julgamento do mérito, considerasse o reajuste ilegal. De acordo com ele, "uma vez recolhido o valor do tributo, sua restituição é demorada e custosa, no melhor dos mundos possíveis, consideradas as vicissitudes bastante conhecidas do precatório".
O principal erro do prefeito, que acabou conduzindo a esse resultado, foi ter ir ido com muita sede ao pote do IPTU. Ninguém se opõe a uma revisão periódica da Planta Genérica de Valores (PGV), base de cálculo para o IPTU. Principalmente tendo em vista que a última revisão foi feita em 2009. Haddad se perdeu pela gula. A primeira versão de seu projeto previa aumento de até 35% para os imóveis residenciais e de até 45% para os comerciais, valores que foram reduzidos para, respectivamente, 20% e 35%, como consequência da forte reação negativa à proposta, mas que mesmo assim continuaram altos demais. Gomo se isso não bastasse, os que o contestam alegam também que houve irregularidades na tramitação do projeto.
Uma das razões que levaram o prefeito ar exagerar na dose foi a necessidade de recursos para cobrir o aumento do subsídio aos ônibus que, com o congelamento da tarifa em R$ 3, como resultado das manifestações de junho, chegou a R$ 1,6 bilhão. Se Haddad não misturasse coisas que não devem ser misturadas, e propusesse um aumento razoável, com base na revisão da PGV, não teria perdido tudo.
Como o argumento é tosco, primário, Haddad achou por bem dar-lhe uma tintura sociológica, apelando para o título do clássico de Gilberto Freyre sobre a formação do Brasil - Casa Grande e Senzala. Logo depois da decisão do presidente do Supremo tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, que manteve liminar do Tribunal de Justiça de São Paulo que suspendeu o aumento do IPTU, o prefeito fez dura crítica ao presidente da Federação das Indústrias de São.Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, um dos autores da ação, identificado com a elite, com a "Casa Grande".
"A "Casa Grande" não deixa a desigualdade ser reduzida na cidade. Em 2014, manteremos o quadro atual. Infelizmente, não conseguimos transferir renda dos mais ricos para os mais pobres", afirmou Haddad. Ele desistiu do aumento pretendido de até 20% para os imóveis residenciais e de até 35% para os comerciais -, embora a decisão da Justiça não seja definitiva, e o reajuste do IPTU será pela inflação de 2013, estimada em 5,6%. Pior do que o ridículo dessa comparação, que tem tudo de demagogia e nada de verdade, é a irresponsabilidade de atiçar e manejar o ódio de classe como método de governo.
Como se isso não bastasse, e tomado de estudada fúria, o prefeito foi desenterrar o fim da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), apoiado pela Fiesp, e que "tirou R$ 60 bilhões da saúde", para fazer uma comparação com o IPTU. Segundo Haddad, "a Fiesp está tentando fazer agora a mesma coisa com a cidade de São Paulo". Ora, é mais do que sabido que, em vez de ajudar a saúde, finalidade para a qual foi criada, a CPMF servia mesmo era para engordar o caixa geral do governo. Para a saúde sobrava pouco. Além do que, se foi extinta, isso não se deve apenas aos que tinham todo o direito de ser contra ela - um imposto de má qualidade -, mas principalmente por culpa do próprio governo, que tem folgada maioria no Congresso.
Quanto à decisão do ministro Barbosa, que levou o prefeito a desistir do aumento e partir para a fanfarronada da luta de classes, ela prima pela sensatez. Argumentou Barbosa que o contribuinte seria prejudicado se o imposto fosse cobrado com aquele aumento e futuramente o Tribunal de Justiça, no julgamento do mérito, considerasse o reajuste ilegal. De acordo com ele, "uma vez recolhido o valor do tributo, sua restituição é demorada e custosa, no melhor dos mundos possíveis, consideradas as vicissitudes bastante conhecidas do precatório".
O principal erro do prefeito, que acabou conduzindo a esse resultado, foi ter ir ido com muita sede ao pote do IPTU. Ninguém se opõe a uma revisão periódica da Planta Genérica de Valores (PGV), base de cálculo para o IPTU. Principalmente tendo em vista que a última revisão foi feita em 2009. Haddad se perdeu pela gula. A primeira versão de seu projeto previa aumento de até 35% para os imóveis residenciais e de até 45% para os comerciais, valores que foram reduzidos para, respectivamente, 20% e 35%, como consequência da forte reação negativa à proposta, mas que mesmo assim continuaram altos demais. Gomo se isso não bastasse, os que o contestam alegam também que houve irregularidades na tramitação do projeto.
Uma das razões que levaram o prefeito ar exagerar na dose foi a necessidade de recursos para cobrir o aumento do subsídio aos ônibus que, com o congelamento da tarifa em R$ 3, como resultado das manifestações de junho, chegou a R$ 1,6 bilhão. Se Haddad não misturasse coisas que não devem ser misturadas, e propusesse um aumento razoável, com base na revisão da PGV, não teria perdido tudo.
Esperança no vaticano de francisco - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 24/12
O Papa já mostrou ter a missão de aproximar a Igreja das pessoas. E, feita a reforma da Cúria, ele deverá ter condições de atuar mais como pastor neste mundo conturbado
Alguns mais crédulos expressaram esperança em um mundo de paz, tão logo, no final da década de 1980, o Leste da Europa passou a se abrir a ventos democráticos, depois da implosão do socialismo real soviético. Mais uma frustração. O choque global entre os dois sistemas, comunista e capitalista, vencido por este, cedeu espaço, não para um ciclo histórico sem violência, mas para conflitos regionais graves - geopolíticos, étnicos, religiosos.
Chegou a ser interpretado como um choque de civilizações , entre Ocidente e Oriente. Tratava-se de um reducionismo. Era mais complexo. No caso do Oriente Médio, na usina irradiadora da insensatez sectária que se retroalimenta entre árabes e judeus, também entre persas (iranianos) e grupos árabes, há outra força-motriz: o conflito entre xiitas e sunitas, uma divisão secular entre muçulmanos capaz de plasmar guerras civis localizadas - no Iraque, na Síria, no Líbano etc. - e que parece compor, numa colcha de retalhos, um sério e extenso embate sangrento, ninho da serpente do terrorismo que atinge indiscriminadamente a todos, muçulmanos e não muçulmanos.
É dentro desta moldura que o líder da maior religião monoteísta do planeta passa seu primeiro Natal no Vaticano. O Papa Francisco, com menos de um ano de pontificado, já demonstrou ter como missão aproximar a Igreja das pessoas, fieis ou não, das praças - tem atraído públicos recordes à São Pedro. Sem discriminar homossexuais, divorciados etc.
Francisco também precisa combater na frente interna do Vaticano, da Cúria, a ser arejada para não tutelar o Papa. E o caminho para isso, esboçado por ele, parece ser o da atenuação de um certo modelo decisório monárquico, torná-lo algo mais compartilhado - preservados os devidos dogmas da Igreja. Um equilíbrio talvez instável, mas que precisa ser tentado.
Eu seu primeiro documento papal, Evangelii Gaudium , ou A alegria do Evangelho , divulgado no final de novembro, Bergoglio é coerente com a visão da Igreja dos pobres, da pessoa comum, numa projeção da vida daquele de que resgatou o nome, Francisco (de Assis), para substituir Bento XVI. O Papa tratou, ainda, do diálogo entre religiões e da evangelização.
Está posto o enorme desafio de estender o espírito do Natal para todo o ano. Já estabelecido que Francisco deseja voltar a Igreja também para a vida real - sem que isso signifique qualquer crítica a antecessores -, o ideal é que consiga avançar na reforma do Vaticano para que, apaziguada esta frente, possa, com sua autoridade moral, atuar neste mundo muito longe da estabilidade e da paz imaginadas na parte final do século passado.
A História, entendida como um ciclo de conflitos, não havia acabado com a vitória do modelo democrático de formação social, como foi entendido por alguns na queda do Muro de Berlim. Um Vaticano mais atuante neste contexto será uma novidade a ser comemorada.
Chegou a ser interpretado como um choque de civilizações , entre Ocidente e Oriente. Tratava-se de um reducionismo. Era mais complexo. No caso do Oriente Médio, na usina irradiadora da insensatez sectária que se retroalimenta entre árabes e judeus, também entre persas (iranianos) e grupos árabes, há outra força-motriz: o conflito entre xiitas e sunitas, uma divisão secular entre muçulmanos capaz de plasmar guerras civis localizadas - no Iraque, na Síria, no Líbano etc. - e que parece compor, numa colcha de retalhos, um sério e extenso embate sangrento, ninho da serpente do terrorismo que atinge indiscriminadamente a todos, muçulmanos e não muçulmanos.
É dentro desta moldura que o líder da maior religião monoteísta do planeta passa seu primeiro Natal no Vaticano. O Papa Francisco, com menos de um ano de pontificado, já demonstrou ter como missão aproximar a Igreja das pessoas, fieis ou não, das praças - tem atraído públicos recordes à São Pedro. Sem discriminar homossexuais, divorciados etc.
Francisco também precisa combater na frente interna do Vaticano, da Cúria, a ser arejada para não tutelar o Papa. E o caminho para isso, esboçado por ele, parece ser o da atenuação de um certo modelo decisório monárquico, torná-lo algo mais compartilhado - preservados os devidos dogmas da Igreja. Um equilíbrio talvez instável, mas que precisa ser tentado.
Eu seu primeiro documento papal, Evangelii Gaudium , ou A alegria do Evangelho , divulgado no final de novembro, Bergoglio é coerente com a visão da Igreja dos pobres, da pessoa comum, numa projeção da vida daquele de que resgatou o nome, Francisco (de Assis), para substituir Bento XVI. O Papa tratou, ainda, do diálogo entre religiões e da evangelização.
Está posto o enorme desafio de estender o espírito do Natal para todo o ano. Já estabelecido que Francisco deseja voltar a Igreja também para a vida real - sem que isso signifique qualquer crítica a antecessores -, o ideal é que consiga avançar na reforma do Vaticano para que, apaziguada esta frente, possa, com sua autoridade moral, atuar neste mundo muito longe da estabilidade e da paz imaginadas na parte final do século passado.
A História, entendida como um ciclo de conflitos, não havia acabado com a vitória do modelo democrático de formação social, como foi entendido por alguns na queda do Muro de Berlim. Um Vaticano mais atuante neste contexto será uma novidade a ser comemorada.
Mistério e fiasco - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP- 24/12
Resultou em pouquíssima coisa o evento mais comentado deste início de verão no Rio de Janeiro.
Contando com cerca de 8.000 adesões nas redes sociais e muito destaque na imprensa local, o "toplessaço" que se programara para a manhã do último sábado, na praia de Ipanema, reuniu no máximo 200 pessoas.
O contingente se dividiu entre as raras mulheres que se dispuseram a tirar a parte de cima do biquíni e um grupo mais robusto de curiosos em volta das manifestantes.
A qualificação de "manifestantes" não é descabida no contexto. O propósito das organizadoras era protestar contra a atitude da Polícia Militar do Rio, que no mês passado coagiu uma atriz a vestir a parte de cima do biquíni. Cristina Flores fazia uma sessão de fotos com os seios descobertos, a fim de divulgar um espetáculo teatral.
O movimento de revolta acabou em fiasco, mas factoides desse tipo não deixam de ter sua significação. Para um país que orgulha-se de sua tolerância e liberalidade (e cujas contribuições ao universo da moda incluem a criação do famoso modelo fio dental), chega a ser um mistério a restrição que, de forma quase unânime, se aplica ao topless --prática há muito adotada em diversas praias europeias.
Talvez seja tudo questão de linguagem, ou, mais propriamente, de estrutura cultural. É como se, a cada regra que se flexibiliza, outra tenha de reforçar-se com maior rigor, de modo que o equilíbrio entre ordem e ruptura se preserve.
Ao mesmo tempo, é possível que o "toplessaço" tenha infringido outra norma implícita da cultura brasileira. Sua mensagem é semelhante à da Marcha das Vadias: trata-se de confrontar, pela exibição do corpo, o machismo dos que veem nisso um convite à grosseria, ao abuso, ao ataque brutal.
Mas a Marcha das Vadias tinha um componente celebratório e carnavalesco que provavelmente facilitou a adesão. Em tempos de tolerância zero, o "toplessaço" centrou-se na crítica à repressão policial, revestindo-se de uma pugnacidade militante porventura excessiva para a proposta apresentada.
Também marcou mais uma vez a diferença entre apoiar uma causa pela internet e passar ao ativismo no mundo real.
De resto, o sucesso ou o fracasso de mobilizações desse gênero haverá de ter sempre sua parte de enigma, de mistério; e, numa época em que tudo se espiona e se revela, o intransparente e o encoberto por vezes se impõem com mais força.
Resultou em pouquíssima coisa o evento mais comentado deste início de verão no Rio de Janeiro.
Contando com cerca de 8.000 adesões nas redes sociais e muito destaque na imprensa local, o "toplessaço" que se programara para a manhã do último sábado, na praia de Ipanema, reuniu no máximo 200 pessoas.
O contingente se dividiu entre as raras mulheres que se dispuseram a tirar a parte de cima do biquíni e um grupo mais robusto de curiosos em volta das manifestantes.
A qualificação de "manifestantes" não é descabida no contexto. O propósito das organizadoras era protestar contra a atitude da Polícia Militar do Rio, que no mês passado coagiu uma atriz a vestir a parte de cima do biquíni. Cristina Flores fazia uma sessão de fotos com os seios descobertos, a fim de divulgar um espetáculo teatral.
O movimento de revolta acabou em fiasco, mas factoides desse tipo não deixam de ter sua significação. Para um país que orgulha-se de sua tolerância e liberalidade (e cujas contribuições ao universo da moda incluem a criação do famoso modelo fio dental), chega a ser um mistério a restrição que, de forma quase unânime, se aplica ao topless --prática há muito adotada em diversas praias europeias.
Talvez seja tudo questão de linguagem, ou, mais propriamente, de estrutura cultural. É como se, a cada regra que se flexibiliza, outra tenha de reforçar-se com maior rigor, de modo que o equilíbrio entre ordem e ruptura se preserve.
Ao mesmo tempo, é possível que o "toplessaço" tenha infringido outra norma implícita da cultura brasileira. Sua mensagem é semelhante à da Marcha das Vadias: trata-se de confrontar, pela exibição do corpo, o machismo dos que veem nisso um convite à grosseria, ao abuso, ao ataque brutal.
Mas a Marcha das Vadias tinha um componente celebratório e carnavalesco que provavelmente facilitou a adesão. Em tempos de tolerância zero, o "toplessaço" centrou-se na crítica à repressão policial, revestindo-se de uma pugnacidade militante porventura excessiva para a proposta apresentada.
Também marcou mais uma vez a diferença entre apoiar uma causa pela internet e passar ao ativismo no mundo real.
De resto, o sucesso ou o fracasso de mobilizações desse gênero haverá de ter sempre sua parte de enigma, de mistério; e, numa época em que tudo se espiona e se revela, o intransparente e o encoberto por vezes se impõem com mais força.
Desemprego e microcrédito - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 24/12
No momento em que o governo dos Estados Unidos reduziu de US$ 85 bilhões para US$ 75 bilhões a ajuda mensal à economia norte-americana, com possíveis reflexos no Brasil - em especial no câmbio e na inflação -, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga que a taxa de desemprego do país caiu ao índice mais baixo, passando de 5,2% em outubro para 4,6% em novembro, o menor da série histórica iniciada em março de 2002, comparável apenas ao apurado em dezembro de 2012. O resultado serve para minimizar o cenário de preocupações para 2014 e também para calçar ações e providências na condução da política econômica.
Sem dúvida, o fato de o país ter preservado o nível de emprego, mesmo com um desempenho tímido do Produto Interno Bruto (PIB), e apesar da persistência de forte instabilidade externa nos últimos meses, é positivo. Por sua vez, aumenta a responsabilidade do governo brasileiro diante da decisão do Federal Reserve (FED) de retirar progressivamente os incentivos à retomada da economia dos Estados Unidos. As Nações Unidas (ONU) estimam uma forte retomada da atividade global a partir de 2014, em consequência justamente da expansão norte-americana. E há risco de o Brasil se mostrar mais vulnerável à iniciativa e enfrentar maior dificuldade para cobrir o deficit, pois cresce possibilidade de investidores transferirem recursos para os EUA.
A marca histórica de 4,6% na taxa de desemprego deve ser vista como estímulo para o Brasil continuar mantendo as condições que garantem a estabilidade. Além de ter caído na média, a taxa ficou menor também em grupos nos quais costuma ser mais elevada: entre negros, pardos e jovens, quase sempre os mais prejudicados. Quando a pior fase da instabilidade econômica em âmbito global dá mostra de que está passando, Brasília deve aproveitar para pôr em prática medidas que sustentam um crescimento eficaz, como a manutenção da confiança dos investidores com base em compromisso claro de austeridade, um dos pilares para assegurar a continuidade da oferta de emprego e de recuperação da renda dos trabalhadores.
Por trás da taxa de desemprego baixa, há fatores que precisam ser evidenciados, como a expansão do microcrédito em ritmo intenso, embora ainda longe de alcançar todos os pequenos empreendedores que precisam de acesso a empréstimos. Em novembro, houve o saldo recorde de R$ 4,8 bilhões, com crescimento de 26,7% sobre igual período de 2012 (R$ 3,5 bilhões), na série histórica do Banco Central, iniciada em 2007. No mês passado, os bancos emprestaram R$ 1,1 bilhão a microempreendedores. Segundo dados do Centro de Estudos em Microfinanças da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV), apenas 25% dos 10 milhões de clientes potenciais já conseguiram microcrédito, que tem juros menores. Afinal, se a taxa de desemprego é baixa, muito se deve aos microempreendedores.
Sem dúvida, o fato de o país ter preservado o nível de emprego, mesmo com um desempenho tímido do Produto Interno Bruto (PIB), e apesar da persistência de forte instabilidade externa nos últimos meses, é positivo. Por sua vez, aumenta a responsabilidade do governo brasileiro diante da decisão do Federal Reserve (FED) de retirar progressivamente os incentivos à retomada da economia dos Estados Unidos. As Nações Unidas (ONU) estimam uma forte retomada da atividade global a partir de 2014, em consequência justamente da expansão norte-americana. E há risco de o Brasil se mostrar mais vulnerável à iniciativa e enfrentar maior dificuldade para cobrir o deficit, pois cresce possibilidade de investidores transferirem recursos para os EUA.
A marca histórica de 4,6% na taxa de desemprego deve ser vista como estímulo para o Brasil continuar mantendo as condições que garantem a estabilidade. Além de ter caído na média, a taxa ficou menor também em grupos nos quais costuma ser mais elevada: entre negros, pardos e jovens, quase sempre os mais prejudicados. Quando a pior fase da instabilidade econômica em âmbito global dá mostra de que está passando, Brasília deve aproveitar para pôr em prática medidas que sustentam um crescimento eficaz, como a manutenção da confiança dos investidores com base em compromisso claro de austeridade, um dos pilares para assegurar a continuidade da oferta de emprego e de recuperação da renda dos trabalhadores.
Por trás da taxa de desemprego baixa, há fatores que precisam ser evidenciados, como a expansão do microcrédito em ritmo intenso, embora ainda longe de alcançar todos os pequenos empreendedores que precisam de acesso a empréstimos. Em novembro, houve o saldo recorde de R$ 4,8 bilhões, com crescimento de 26,7% sobre igual período de 2012 (R$ 3,5 bilhões), na série histórica do Banco Central, iniciada em 2007. No mês passado, os bancos emprestaram R$ 1,1 bilhão a microempreendedores. Segundo dados do Centro de Estudos em Microfinanças da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV), apenas 25% dos 10 milhões de clientes potenciais já conseguiram microcrédito, que tem juros menores. Afinal, se a taxa de desemprego é baixa, muito se deve aos microempreendedores.
A legalização da maconha - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 24/12
Há diversas razões para duvidar do acerto da medida aprovada pelos parlamentares uruguaios. Sua eficácia no combate ao tráfico, por exemplo, é bem questionável
No primeiro semestre de 2014, deve entrar em vigor o sistema de venda legalizada da maconha no Uruguai – a legalização foi aprovada pelo Senado do país em 11 de dezembro, e a sanção do presidente José Mujica é praticamente certa, apesar da oposição da maioria da população uruguaia e das críticas da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife), da ONU. A medida é louvada por setores ditos “progressistas” como um grande avanço. No entanto, há diversas razões para questionar o acerto da legalização da maconha.
Segundo a legislação, cada uruguaio ou estrangeiro residente no país, maior de 18 anos, terá de se registrar para adquirir em farmácias um máximo de 40 gramas mensais da droga (o equivalente a oito cigarros de maconha). Além disso, cada pessoa poderá plantar seis pés de cannabis em casa, para uso próprio. O restante da produção terá controle estatal, por meio do Instituto de Regulação e Controle da Cannabis, órgão vinculado ao Ministério da Saúde Pública.
Os danos causados pela maconha no organismo, bem como seu poder viciante, estão fartamente documentados e não é preciso recordá-los neste espaço – ontem mesmo, na Gazeta do Povo, o articulista Carlos Alberto Di Franco recordou algumas das consequências do uso desta droga, que até pode não ser tão nociva quanto outros entorpecentes, mas nem por isso deixa de ter efeitos deletérios no corpo humano. A própria legislação uruguaia reconhece implicitamente esses danos ao limitar a quantidade que uma pessoa pode adquirir nas farmácias. Se a maconha fosse um produto como outro qualquer, seria preciso estabelecer limites legais? A droga degrada o ser humano; ao permitir que seus cidadãos a usem com amparo legal, o governo uruguaio está sendo, no mínimo, irresponsável.
Mesmo de um ponto de vista puramente pragmático, a legislação tem tudo para se mostrar um fracasso. Um dos objetivos alegados pelos defensores da lei é o de coibir o tráfico e a violência ligada a ele. No entanto, a quem o uruguaio recorrerá se quiser consumir mais que os 40 gramas mensais previstos pela lei? Ou se quiser usar qualquer outra droga? O tráfico seguirá existindo para suprir essa demanda, e com ele continuará a haver violência. A única maneira de, pragmaticamente, eliminar o tráfico seria a legalização de todas as drogas com direito a consumo ilimitado, o que, como se pode imaginar, causaria gravíssimos danos sociais.
Além disso, outro argumento de teor pragmático, o de que é inevitável que as pessoas consumam drogas, e por isso seria melhor que elas a adquirissem do Estado em vez de comprar dos traficantes, também não se sustenta. Pensar desta forma significa dar um aval, ainda que inconsciente, a diversos outros comportamentos degradantes – ou mesmo criminosos – que a lei ou o aparato policial não sejam capazes de conter. Frequentemente se diz que “a guerra contra as drogas está falhando” como argumento pela legalização das drogas – o que, em outras palavras, é um apelo à rendição vergonhosa.
Parte substancial da legislação de qualquer país tem a função imprescindível de traçar uma linha entre os comportamentos que garantem uma vida sadia em sociedade – pensemos, por exemplo, nas leis penais, nos textos que regulam o funcionamento das instituições democráticas e nos mecanismos de resolução de conflitos – e os comportamentos que têm consequências graves não só para a sociedade, mas também para o indivíduo. Ao legalizar o consumo de maconha, como está fazendo agora o Uruguai e se quer fazer em tantos outros países, indiretamente o Estado envia a mensagem de que esse comportamento é aceitável (ou, em última consequência, bom). Os resultados podem não aparecer no curto prazo, mas no longo prazo esta é uma receita certa para uma sociedade em apuros.
Há diversas razões para duvidar do acerto da medida aprovada pelos parlamentares uruguaios. Sua eficácia no combate ao tráfico, por exemplo, é bem questionável
No primeiro semestre de 2014, deve entrar em vigor o sistema de venda legalizada da maconha no Uruguai – a legalização foi aprovada pelo Senado do país em 11 de dezembro, e a sanção do presidente José Mujica é praticamente certa, apesar da oposição da maioria da população uruguaia e das críticas da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife), da ONU. A medida é louvada por setores ditos “progressistas” como um grande avanço. No entanto, há diversas razões para questionar o acerto da legalização da maconha.
Segundo a legislação, cada uruguaio ou estrangeiro residente no país, maior de 18 anos, terá de se registrar para adquirir em farmácias um máximo de 40 gramas mensais da droga (o equivalente a oito cigarros de maconha). Além disso, cada pessoa poderá plantar seis pés de cannabis em casa, para uso próprio. O restante da produção terá controle estatal, por meio do Instituto de Regulação e Controle da Cannabis, órgão vinculado ao Ministério da Saúde Pública.
Os danos causados pela maconha no organismo, bem como seu poder viciante, estão fartamente documentados e não é preciso recordá-los neste espaço – ontem mesmo, na Gazeta do Povo, o articulista Carlos Alberto Di Franco recordou algumas das consequências do uso desta droga, que até pode não ser tão nociva quanto outros entorpecentes, mas nem por isso deixa de ter efeitos deletérios no corpo humano. A própria legislação uruguaia reconhece implicitamente esses danos ao limitar a quantidade que uma pessoa pode adquirir nas farmácias. Se a maconha fosse um produto como outro qualquer, seria preciso estabelecer limites legais? A droga degrada o ser humano; ao permitir que seus cidadãos a usem com amparo legal, o governo uruguaio está sendo, no mínimo, irresponsável.
Mesmo de um ponto de vista puramente pragmático, a legislação tem tudo para se mostrar um fracasso. Um dos objetivos alegados pelos defensores da lei é o de coibir o tráfico e a violência ligada a ele. No entanto, a quem o uruguaio recorrerá se quiser consumir mais que os 40 gramas mensais previstos pela lei? Ou se quiser usar qualquer outra droga? O tráfico seguirá existindo para suprir essa demanda, e com ele continuará a haver violência. A única maneira de, pragmaticamente, eliminar o tráfico seria a legalização de todas as drogas com direito a consumo ilimitado, o que, como se pode imaginar, causaria gravíssimos danos sociais.
Além disso, outro argumento de teor pragmático, o de que é inevitável que as pessoas consumam drogas, e por isso seria melhor que elas a adquirissem do Estado em vez de comprar dos traficantes, também não se sustenta. Pensar desta forma significa dar um aval, ainda que inconsciente, a diversos outros comportamentos degradantes – ou mesmo criminosos – que a lei ou o aparato policial não sejam capazes de conter. Frequentemente se diz que “a guerra contra as drogas está falhando” como argumento pela legalização das drogas – o que, em outras palavras, é um apelo à rendição vergonhosa.
Parte substancial da legislação de qualquer país tem a função imprescindível de traçar uma linha entre os comportamentos que garantem uma vida sadia em sociedade – pensemos, por exemplo, nas leis penais, nos textos que regulam o funcionamento das instituições democráticas e nos mecanismos de resolução de conflitos – e os comportamentos que têm consequências graves não só para a sociedade, mas também para o indivíduo. Ao legalizar o consumo de maconha, como está fazendo agora o Uruguai e se quer fazer em tantos outros países, indiretamente o Estado envia a mensagem de que esse comportamento é aceitável (ou, em última consequência, bom). Os resultados podem não aparecer no curto prazo, mas no longo prazo esta é uma receita certa para uma sociedade em apuros.
Ameaça ao futuro de milhões - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 24/12
Má gestão e fraudes nas aplicações dos recursos ameaçam o futuro de cerca de 7,5 milhões de funcionários ativos, inativos e pensionistas vinculados a pouco mais de 2 mil fundos de pensão de Estados e municípios. Ações policiais - como a Operação Miqueias, desencadeada pela Polícia Federal em setembro e com atuação concentrada em 15 municípios - revelam parte do problema, que pode resultar em perdas bilionárias para esses fundos, o que traria sérios riscos à sua sustentação financeira e à sua capacidade de pagar os benefícios esperados por seus participantes.
Os fundos de pensão dos Estados e municípios foram criados para garantir a aposentadoria dos funcionários por meio do regime de contribui cão definida, em substituição ao anterior, que assegurava aos servidores aposentadoria integral. Na área federal, o novo regime passou a vigorar em fevereiro de 2013, com o início das operações do Fundo de Previdência Complementar do Servidor Público Federal (Funpresp).
O objetivo da criação desses fundos, que compõem o Regime Próprio de Previdência dos Servidores (RPPS) - o dos demais trabalhadores é o Regime Geral de Previdência Social (RGPS) -, é assegurar que, ao longo do tempo, ele alcance o equilíbrio atuarial, eliminando a necessidade de aporte de recursos dos Tesouros federal, estaduais e municipais. Isso levará muito tempo. As projeções indicam que, no caso do regime federal, esse equilíbrio será alcançado em prazo muito longo. As estimativas mais otimistas apontam que o déficit do RPPS federal só começará a diminuir dentro de 15 anos. Nas contas do governo, o déficit estará zerado entre 2045 e 2050. Projeções menos otimistas preveem o fim do déficit em 2100.
Boas práticas de gestão, aplicações prudentes, observância das normas regulamentadoras desses fundos, entre outros procedimentos adequados de seus administradores, poderiam, se não reduzir esse prazo, pelo menos contribuir para que ele não seja estendido e também assegurar o pagamento dos benefícios esperados.
Auditorias do Ministério da Previdência e operações policiais têm revelado, no entanto, que esses fundos, cujo patrimônio alcança cerca de R$ 180 bilhões, estão sujeitos a má gestão e fraudes que sangram seus recursos. Recente levantamento do Ministério da Previdência constatou que práticas que contrariam as regras do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central e a ação de esquemas criminosos provocaram perdas de R$ 528 milhões em aplicações feitas entre 2009 e 2013.
Entre os atos ilícitos identificados nessas ações estão apropriação indébita, pagamento indevido de benefícios, falsidade ideológica, utilização indevida de recursos e improbidade administrativa.
Operações policiais têm identificado a existência de organizações criminosas especializadas em desviar -com a conivência dos gestores - as aplicações para fundos sem qualificações técnicas para recebê-las. Quadrilheiros e servidores são beneficiados por esses esquemas.
Há dias o jornal O Globo noticiou que dinheiro de servidores estaduais e municipais foi aplicado em fundos de investimento privados compostos por títulos sem valor real de mercado, pois foram emitidos por empresas sem rentabilidade, falidas ou em processo de recuperação judicial ou de liquidação.
De acordo com o jornal, as fraudes envolveram recursos de R$ 2 bilhões pertencentes a 117 fundos de pensão. Na maioria dos casos, as aplicações foram gerenciadas por empresas apontadas como responsáveis por lavagem de dinheiro para políticos envolvidos no caso do mensalão. Num dos casos, uma aplicação de R$ 335 milhões perdeu R$ 51 milhões de seu valor em apenas dois meses.
Há também casos de favorecimento, com a concentração das aplicações numa determinada empresa - o que é proibido pelas normas do RPPS - ou em títulos de empresas à beira da insolvência.
A grande disponibilidade de recursos dos fundos de pensão dos servidores alimenta a cobiça de criminosos e exige, como resposta, uma fiscalização mais intensa, tanto do governo como do Tribunal de Contas da União.
Os fundos de pensão dos Estados e municípios foram criados para garantir a aposentadoria dos funcionários por meio do regime de contribui cão definida, em substituição ao anterior, que assegurava aos servidores aposentadoria integral. Na área federal, o novo regime passou a vigorar em fevereiro de 2013, com o início das operações do Fundo de Previdência Complementar do Servidor Público Federal (Funpresp).
O objetivo da criação desses fundos, que compõem o Regime Próprio de Previdência dos Servidores (RPPS) - o dos demais trabalhadores é o Regime Geral de Previdência Social (RGPS) -, é assegurar que, ao longo do tempo, ele alcance o equilíbrio atuarial, eliminando a necessidade de aporte de recursos dos Tesouros federal, estaduais e municipais. Isso levará muito tempo. As projeções indicam que, no caso do regime federal, esse equilíbrio será alcançado em prazo muito longo. As estimativas mais otimistas apontam que o déficit do RPPS federal só começará a diminuir dentro de 15 anos. Nas contas do governo, o déficit estará zerado entre 2045 e 2050. Projeções menos otimistas preveem o fim do déficit em 2100.
Boas práticas de gestão, aplicações prudentes, observância das normas regulamentadoras desses fundos, entre outros procedimentos adequados de seus administradores, poderiam, se não reduzir esse prazo, pelo menos contribuir para que ele não seja estendido e também assegurar o pagamento dos benefícios esperados.
Auditorias do Ministério da Previdência e operações policiais têm revelado, no entanto, que esses fundos, cujo patrimônio alcança cerca de R$ 180 bilhões, estão sujeitos a má gestão e fraudes que sangram seus recursos. Recente levantamento do Ministério da Previdência constatou que práticas que contrariam as regras do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central e a ação de esquemas criminosos provocaram perdas de R$ 528 milhões em aplicações feitas entre 2009 e 2013.
Entre os atos ilícitos identificados nessas ações estão apropriação indébita, pagamento indevido de benefícios, falsidade ideológica, utilização indevida de recursos e improbidade administrativa.
Operações policiais têm identificado a existência de organizações criminosas especializadas em desviar -com a conivência dos gestores - as aplicações para fundos sem qualificações técnicas para recebê-las. Quadrilheiros e servidores são beneficiados por esses esquemas.
Há dias o jornal O Globo noticiou que dinheiro de servidores estaduais e municipais foi aplicado em fundos de investimento privados compostos por títulos sem valor real de mercado, pois foram emitidos por empresas sem rentabilidade, falidas ou em processo de recuperação judicial ou de liquidação.
De acordo com o jornal, as fraudes envolveram recursos de R$ 2 bilhões pertencentes a 117 fundos de pensão. Na maioria dos casos, as aplicações foram gerenciadas por empresas apontadas como responsáveis por lavagem de dinheiro para políticos envolvidos no caso do mensalão. Num dos casos, uma aplicação de R$ 335 milhões perdeu R$ 51 milhões de seu valor em apenas dois meses.
Há também casos de favorecimento, com a concentração das aplicações numa determinada empresa - o que é proibido pelas normas do RPPS - ou em títulos de empresas à beira da insolvência.
A grande disponibilidade de recursos dos fundos de pensão dos servidores alimenta a cobiça de criminosos e exige, como resposta, uma fiscalização mais intensa, tanto do governo como do Tribunal de Contas da União.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Essas extravagâncias expõem o Congresso ao ridículo”
Ronaldo Caiado (DEM-GO) sobre o uso abusivo de jato da FAB por Renan Calheiros
ATAQUE DE FALCÃO A SARNEY AMEAÇA APOIO A DILMA
O ataque do presidente do PT, Rui Falcão, ao senador José Sarney ameaça o apoio do PMDB à reeleição da presidente Dilma Rousseff, adverte um importante senador da cúpula do partido do vice-presidente Michel Temer. Falcão admitiu apoio do PT a Flávio Dino (PCdoB), inimigo de Sarney, ao governo do Maranhão. “Se até o Sarney tratam assim, imagine Brasil afora”, diz o senador, sobre a relação dos dois partidos nos estados.
LÁ VEM BRONCA
Com habilidade política de um hipopótamo em loja de cristais, Rui Falcão já foi chamado pelo ex-presidente Lula para ser “enquadrado”.
GRATIDÃO
Lula é muito grato a Sarney e até atribui ao apoio do veterano senador, em 2002, a viabilização de sua primeira vitória na disputa pelo Planalto.
TIRO NO PÉ
A trapalhada de Rui Falcão no Maranhão ajudou apenas a candidata de Eduardo Campos (PSB) ao governo estadual: Eliziane Gama (PPS).
ESTRELA QUE SOBE
O radar de José Sarney já indica que a deputada estadual Eliziane Gama é liderança que chegará ao topo, na política do Maranhão.
FORA DE ÓRBITA, SUPLICY QUIS DISCURSAR NO RECESSO
Senadores já não têm dúvidas de que o colega Eduardo Suplicy (PT-SP) anda mesmo “fora da casinha”. Neste domingo, ele incomodou vários senadores, especialmente os que se encontram em Brasília, convidando-os a assistir ao discurso que ele pretendia fazer nesta segunda-feira (23), mesmo com o Senado em recesso. “Suplicy parecia fora de órbita”, contou um dos senadores a esta coluna, intrigado.
NADA BOBO
Suplicy sempre suscitou desconfiança sobre seu jeito abilolado de ser. Muita gente acha que o estilo “maluco beleza” é para ganhar simpatia.
PRESEPADAS
O senador Suplicy canta no plenário, já vestiu cueca vermelha sobre a calça, para posar de “Super-Homem”, e outras presepadas do gênero.
GROUCHO?
Amigos contam que, jovem, Suplicy ficou nu no aeroporto de Zurique, dizendo ser ora Jesus ora Marx. É o que falta no Senado: ficar pelado.
BOICOTE
Romeu Tuma Jr. levantou a suspeita na entrevista na internet ao músico Lobão, domingo (22): pagam o dobro por seu livro Assassinato de Reputações, para que desapareça de algumas livrarias.
COVARDIA
A cúpula do PMDB lamenta a “falta de coragem” do prefeito do Rio, Eduardo Paes, que poderia ser uma alternativa para o entrave entre o PT e PMDB, mas se recusa a disputar o governo fluminense em 2014.
VAI VENDO
O ditador Raúl Castro garantiu que a primeira fase do porto de Mariel, financiado com R$ 640 milhões do BNDES, será inaugurada no final de janeiro com Dilma em Cuba, sede da próxima conferência da Celac.
MARCHA DA INSENSATEZ
Relatório da ONG Cuba Archive, integrante do Free Society Project, em Washington, revela que a ditadura castrista matou mais que o dobro do regime anterior, 1184, contra 3211, de 1958 até dezembro de 2013.
DESCONTO LEGAL
O Tribunal Superior do Trabalho considerou legal o desconto nos salários de funcionários da Caixa que fizeram greve de um mês, em 2008. A rapaziada queria transformar greve em férias remuneradas.
VIDA, LEVA EU
Na reunião do conselho político, Dilma disse que seu lema é “deixa a vida levar”. “Ela adotou o lema do Zeca Pagodinho para ilustrar bem o seu comportamento”, ironizou o senador Alvaro Dias (PSDB-PR).
AINDA TEM APOIO
Primeiro-secretário da Força Sindical, Sérgio Leite acredita que, apesar da resistência ao governo Dilma, 60% do segmento químico apoiam Dilma e Lula, 20% Aécio Neves, e os outros 20%, Eduardo Campos.
1001 UTILIDADES
Dirigentes do PROS garantem que, após ter sido candidato à Presidência, Ciro Gomes (CE) está apto para qualquer cargo no governo Dilma, desde Integração e Saúde até Cidades.
PENSANDO BEM...
...especialista em prospectar negócios mundo afora, José Dirceu bem que poderia trabalhar de picareta numa pedreira.
PODER SEM PUDOR
AH, NÃO!
Sempre que visitava o marechal Castelo Branco - um tampinha sem pescoço, primeiro presidente do regime militar - o governador da Paraíba, João Agripino, ouvia a mesma pergunta:
- Como vai o deputado Soares Madruga?
Um dia, intrigado, Agripino perguntou a Castelo por que tanta preocupação com o deputado. Consta que o marechal respondeu:
- Ele me impressiona: é baixinho e não tem pescoço, mas ninguém o chama de anão.
Ronaldo Caiado (DEM-GO) sobre o uso abusivo de jato da FAB por Renan Calheiros
ATAQUE DE FALCÃO A SARNEY AMEAÇA APOIO A DILMA
O ataque do presidente do PT, Rui Falcão, ao senador José Sarney ameaça o apoio do PMDB à reeleição da presidente Dilma Rousseff, adverte um importante senador da cúpula do partido do vice-presidente Michel Temer. Falcão admitiu apoio do PT a Flávio Dino (PCdoB), inimigo de Sarney, ao governo do Maranhão. “Se até o Sarney tratam assim, imagine Brasil afora”, diz o senador, sobre a relação dos dois partidos nos estados.
LÁ VEM BRONCA
Com habilidade política de um hipopótamo em loja de cristais, Rui Falcão já foi chamado pelo ex-presidente Lula para ser “enquadrado”.
GRATIDÃO
Lula é muito grato a Sarney e até atribui ao apoio do veterano senador, em 2002, a viabilização de sua primeira vitória na disputa pelo Planalto.
TIRO NO PÉ
A trapalhada de Rui Falcão no Maranhão ajudou apenas a candidata de Eduardo Campos (PSB) ao governo estadual: Eliziane Gama (PPS).
ESTRELA QUE SOBE
O radar de José Sarney já indica que a deputada estadual Eliziane Gama é liderança que chegará ao topo, na política do Maranhão.
FORA DE ÓRBITA, SUPLICY QUIS DISCURSAR NO RECESSO
Senadores já não têm dúvidas de que o colega Eduardo Suplicy (PT-SP) anda mesmo “fora da casinha”. Neste domingo, ele incomodou vários senadores, especialmente os que se encontram em Brasília, convidando-os a assistir ao discurso que ele pretendia fazer nesta segunda-feira (23), mesmo com o Senado em recesso. “Suplicy parecia fora de órbita”, contou um dos senadores a esta coluna, intrigado.
NADA BOBO
Suplicy sempre suscitou desconfiança sobre seu jeito abilolado de ser. Muita gente acha que o estilo “maluco beleza” é para ganhar simpatia.
PRESEPADAS
O senador Suplicy canta no plenário, já vestiu cueca vermelha sobre a calça, para posar de “Super-Homem”, e outras presepadas do gênero.
GROUCHO?
Amigos contam que, jovem, Suplicy ficou nu no aeroporto de Zurique, dizendo ser ora Jesus ora Marx. É o que falta no Senado: ficar pelado.
BOICOTE
Romeu Tuma Jr. levantou a suspeita na entrevista na internet ao músico Lobão, domingo (22): pagam o dobro por seu livro Assassinato de Reputações, para que desapareça de algumas livrarias.
COVARDIA
A cúpula do PMDB lamenta a “falta de coragem” do prefeito do Rio, Eduardo Paes, que poderia ser uma alternativa para o entrave entre o PT e PMDB, mas se recusa a disputar o governo fluminense em 2014.
VAI VENDO
O ditador Raúl Castro garantiu que a primeira fase do porto de Mariel, financiado com R$ 640 milhões do BNDES, será inaugurada no final de janeiro com Dilma em Cuba, sede da próxima conferência da Celac.
MARCHA DA INSENSATEZ
Relatório da ONG Cuba Archive, integrante do Free Society Project, em Washington, revela que a ditadura castrista matou mais que o dobro do regime anterior, 1184, contra 3211, de 1958 até dezembro de 2013.
DESCONTO LEGAL
O Tribunal Superior do Trabalho considerou legal o desconto nos salários de funcionários da Caixa que fizeram greve de um mês, em 2008. A rapaziada queria transformar greve em férias remuneradas.
VIDA, LEVA EU
Na reunião do conselho político, Dilma disse que seu lema é “deixa a vida levar”. “Ela adotou o lema do Zeca Pagodinho para ilustrar bem o seu comportamento”, ironizou o senador Alvaro Dias (PSDB-PR).
AINDA TEM APOIO
Primeiro-secretário da Força Sindical, Sérgio Leite acredita que, apesar da resistência ao governo Dilma, 60% do segmento químico apoiam Dilma e Lula, 20% Aécio Neves, e os outros 20%, Eduardo Campos.
1001 UTILIDADES
Dirigentes do PROS garantem que, após ter sido candidato à Presidência, Ciro Gomes (CE) está apto para qualquer cargo no governo Dilma, desde Integração e Saúde até Cidades.
PENSANDO BEM...
...especialista em prospectar negócios mundo afora, José Dirceu bem que poderia trabalhar de picareta numa pedreira.
PODER SEM PUDOR
AH, NÃO!
Sempre que visitava o marechal Castelo Branco - um tampinha sem pescoço, primeiro presidente do regime militar - o governador da Paraíba, João Agripino, ouvia a mesma pergunta:
- Como vai o deputado Soares Madruga?
Um dia, intrigado, Agripino perguntou a Castelo por que tanta preocupação com o deputado. Consta que o marechal respondeu:
- Ele me impressiona: é baixinho e não tem pescoço, mas ninguém o chama de anão.
TERÇA NOS JORNAIS
- Globo: Temporais deixam 46 mil sem casas no ES
- Folha: Após privatização, Galeão tem 61% de controle estatal
- Estadão: BR-040 atrai 8 grupos; governo já analisa novas concessões
- Correio: Um Natal feito de trabalho, sonhos e plugado na rede
- Jornal do Commercio: Festa de fé e solidariedade
- Zero Hora: Emprego em alta leva a recolocação mais rápida
- Estado de Minas: Desemprego e o microcrédito
segunda-feira, dezembro 23, 2013
A ópera do Satanás - LUIZ FELIPE PONDÉ
FOLHA DE SP - 23/12
Como cético que sou, estou seguro de que se deve desconfiar de pessoas com bons sentimentos
Sei que a esta altura do ano nada mais se quer além de esperar que, no calor de nosso verão, se vá este ano velho e surrado. Mas, como filósofo que sou, mesmo na preguiça, penso, senão, não existo. E levo você, meu companheiro de leitura, comigo às profundezas dessa filosofia de fim dos tempos.
Quando quero falar a sério com meus alunos --agora em férias-- sobre nosso tempo contemporâneo, digo a eles que imaginem do que rirão nossos descendentes em mil anos. Não conheço ciência profética mais científica do que pensar o ridículo que encontrarão em nossas seriedades contemporâneas.
Sou homem sem causa, como sabe bem meu ilustre leitor, e, mais, duvido de todos que alguma causa defendam. Espero que recuperem a capacidade de serem canalhas honestos, e não como nós, que travestimos nossas vaidades em causas pela humanidade.
Pouco sei com segurança, depois de alguns anos e alguns poucos livros, mas, com certeza, como cético que sou, estou seguro de que se deve desconfiar de pessoas com bons sentimentos.
Rimos de nossos antepassados. Se, antes, nossos avós os consideravam dignos de reverência, agora, nós, contemporâneos, os julgamos ridículos por terem vivido antes dos tablets e do direito ao voto.
Rimos de suas crenças em deuses cabeludos, em apocalipses vindouros, em mundos imateriais. Mas, temo, rirão mais ainda de nós, esses nossos descendentes.
Rirão de nossa inútil obsessão pelo povo e sua soberania. Rirão de nossa ciência política e sua consciência histórica. Rirão de nossa certeza sobre o aquecimento dos polos e voltarão à astrologia por ser ela uma ciência mais modesta do que a do clima.
Para eles, nossos descendentes, ideias como as nossas soarão como hoje nos soa alguém crer que trovões seriam os deuses arrastando suas pedras no infinito.
Rirão de nossa obsessão em buscar pureza em civilizações mais pobres como as dos índios, que seriam mais honestos simplesmente porque nunca tiveram opção de sofisticar suas mentiras, como nós temos.
Quando pensarem em nós, esquecerão nossa tecnologia neolítica e farão seus alunos lerem livros sobre como éramos covardes e infantis. E sentirão vergonha, preferindo os gregos e os romanos, por serem mais lúcidos sobre a cegueira do destino.
Tentarão inutilmente acessar a razoabilidade de crermos que inventamos a nós mesmos e de que exista algo como "construção social do sujeito", ideia interessante, se não engraçada, mas que sustenta outra ainda mais engraçada, que é aquela que afirma a existência de uma construção social planejada de novos sujeitos.
Tendo passado por sofrimentos atrozes que os esperam, sofrimentos esses criados por nós e nossas manias de luxo, saúde, direitos e democracia dos idiotas, os coitados dos nossos descendentes serão forçados a redescobrir que a vida tem dono, e que não somos nós os donos, mas sim algum espírito que, no fundo, não nos tem em alta conta, por isso, quando muito, revela sua indiferença preguiçosa para com nossa dor.
Reescreverão passagens bíblicas, porque chegarão à conclusão de que são mais certeiras do que nossa vã sociologia de macacos sem pelos.
Sua cosmologia e antropologia serão mais parecidas com aquela que afirma ser a vida uma ópera.
Sim, uma ópera, cujo libreto foi escrito por Deus e a música pelo Satanás, segundo o que nos diz Dom Casmurro, personagem atormentado pela incapacidade de determinar a verdade última acerca da fidelidade de sua mulher (talvez um dos problemas filosóficos mais sérios, muito mais do que o suicídio).
O Satanás, atormentado pela inveja de seus colegas Gabriel, Miguel e Rafael, se revoltou. Deus deixou, por preguiça, que ele levasse consigo, às profundezas do inferno, seu libreto.
Lá, tendo composto a música, criou a ópera. Voltou ao Pai Eterno, como criança escrava neurótica de seu senhor, e pediu a Deus que a executasse em seu conservatório.
Tendo negado inúmeras vezes o pedido de seu anjo angustiado, Deus acaba por autorizar a execução, mas o proíbe de fazê-lo nos céus.
Para esta tarefa, cria nosso mundo, e o dá ao nosso triste maestro.
Como cético que sou, estou seguro de que se deve desconfiar de pessoas com bons sentimentos
Sei que a esta altura do ano nada mais se quer além de esperar que, no calor de nosso verão, se vá este ano velho e surrado. Mas, como filósofo que sou, mesmo na preguiça, penso, senão, não existo. E levo você, meu companheiro de leitura, comigo às profundezas dessa filosofia de fim dos tempos.
Quando quero falar a sério com meus alunos --agora em férias-- sobre nosso tempo contemporâneo, digo a eles que imaginem do que rirão nossos descendentes em mil anos. Não conheço ciência profética mais científica do que pensar o ridículo que encontrarão em nossas seriedades contemporâneas.
Sou homem sem causa, como sabe bem meu ilustre leitor, e, mais, duvido de todos que alguma causa defendam. Espero que recuperem a capacidade de serem canalhas honestos, e não como nós, que travestimos nossas vaidades em causas pela humanidade.
Pouco sei com segurança, depois de alguns anos e alguns poucos livros, mas, com certeza, como cético que sou, estou seguro de que se deve desconfiar de pessoas com bons sentimentos.
Rimos de nossos antepassados. Se, antes, nossos avós os consideravam dignos de reverência, agora, nós, contemporâneos, os julgamos ridículos por terem vivido antes dos tablets e do direito ao voto.
Rimos de suas crenças em deuses cabeludos, em apocalipses vindouros, em mundos imateriais. Mas, temo, rirão mais ainda de nós, esses nossos descendentes.
Rirão de nossa inútil obsessão pelo povo e sua soberania. Rirão de nossa ciência política e sua consciência histórica. Rirão de nossa certeza sobre o aquecimento dos polos e voltarão à astrologia por ser ela uma ciência mais modesta do que a do clima.
Para eles, nossos descendentes, ideias como as nossas soarão como hoje nos soa alguém crer que trovões seriam os deuses arrastando suas pedras no infinito.
Rirão de nossa obsessão em buscar pureza em civilizações mais pobres como as dos índios, que seriam mais honestos simplesmente porque nunca tiveram opção de sofisticar suas mentiras, como nós temos.
Quando pensarem em nós, esquecerão nossa tecnologia neolítica e farão seus alunos lerem livros sobre como éramos covardes e infantis. E sentirão vergonha, preferindo os gregos e os romanos, por serem mais lúcidos sobre a cegueira do destino.
Tentarão inutilmente acessar a razoabilidade de crermos que inventamos a nós mesmos e de que exista algo como "construção social do sujeito", ideia interessante, se não engraçada, mas que sustenta outra ainda mais engraçada, que é aquela que afirma a existência de uma construção social planejada de novos sujeitos.
Tendo passado por sofrimentos atrozes que os esperam, sofrimentos esses criados por nós e nossas manias de luxo, saúde, direitos e democracia dos idiotas, os coitados dos nossos descendentes serão forçados a redescobrir que a vida tem dono, e que não somos nós os donos, mas sim algum espírito que, no fundo, não nos tem em alta conta, por isso, quando muito, revela sua indiferença preguiçosa para com nossa dor.
Reescreverão passagens bíblicas, porque chegarão à conclusão de que são mais certeiras do que nossa vã sociologia de macacos sem pelos.
Sua cosmologia e antropologia serão mais parecidas com aquela que afirma ser a vida uma ópera.
Sim, uma ópera, cujo libreto foi escrito por Deus e a música pelo Satanás, segundo o que nos diz Dom Casmurro, personagem atormentado pela incapacidade de determinar a verdade última acerca da fidelidade de sua mulher (talvez um dos problemas filosóficos mais sérios, muito mais do que o suicídio).
O Satanás, atormentado pela inveja de seus colegas Gabriel, Miguel e Rafael, se revoltou. Deus deixou, por preguiça, que ele levasse consigo, às profundezas do inferno, seu libreto.
Lá, tendo composto a música, criou a ópera. Voltou ao Pai Eterno, como criança escrava neurótica de seu senhor, e pediu a Deus que a executasse em seu conservatório.
Tendo negado inúmeras vezes o pedido de seu anjo angustiado, Deus acaba por autorizar a execução, mas o proíbe de fazê-lo nos céus.
Para esta tarefa, cria nosso mundo, e o dá ao nosso triste maestro.
Desinventando a imprensa - RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 23/12
RIO DE JANEIRO - Pesquisa científica divulgada há dias revela que foram os chineses, há 5.500 anos, que domesticaram os gatos --1.500 anos antes dos egípcios, a quem se creditava essa maravilha. Quando um país está com a bola branca, como a China, não apenas seu presente chama a atenção --até seu passado fica iluminado. E, se alguns ainda se espantam com o ímpeto com que ela ocupa hoje todo tipo de espaço, só me intriga que não tenha acontecido antes.
A história nos ensina que, com sua criatividade, os chineses já mudaram o mundo pelo menos duas vezes. Uma foi quando inventaram a pólvora --de que resultaram o canhão, o mosquete, o arcabuz e muita gente morta. A outra foi quando criaram o papel e, daí a séculos, os tipos móveis, de argila --do que, 400 anos antes de Gutenberg, nasceu a imprensa.
Essas foram as suas grandes contribuições no atacado. No varejo, é aos chineses que devemos o macarrão e, deste, o talharim, o espaguete e a língua de pato. Eles nos deram também a seda, a porcelana, a bússola, o sismógrafo, o moinho hidráulico e até a pipa --esta, para pescar sem barco. Sem falar no palito de fósforo, nos fogos de artifício e na tinta --não por acaso, nanquim.
Mas isso foi lá atrás. A China moderna são os bilhões de cacarecos e cafonices que assolam o mercado mundial, empesteiam o planeta e levarão séculos para ser digeridos pelo ambiente. E ela vem agora com uma novidade ainda mais revolucionária: a desinvenção da imprensa. Seus jornalistas, se quiserem manter a licença de trabalho, terão de devorar um manual de 700 páginas para fazer uma prova sobre os princípios do marxismo e se submeter a 18 horas de treinamento para se condicionar a não contrariar o Partido.
No Brasil, havia gente no governo que queria nos impor essa medida. Mas isso foi antes da Papuda.
RIO DE JANEIRO - Pesquisa científica divulgada há dias revela que foram os chineses, há 5.500 anos, que domesticaram os gatos --1.500 anos antes dos egípcios, a quem se creditava essa maravilha. Quando um país está com a bola branca, como a China, não apenas seu presente chama a atenção --até seu passado fica iluminado. E, se alguns ainda se espantam com o ímpeto com que ela ocupa hoje todo tipo de espaço, só me intriga que não tenha acontecido antes.
A história nos ensina que, com sua criatividade, os chineses já mudaram o mundo pelo menos duas vezes. Uma foi quando inventaram a pólvora --de que resultaram o canhão, o mosquete, o arcabuz e muita gente morta. A outra foi quando criaram o papel e, daí a séculos, os tipos móveis, de argila --do que, 400 anos antes de Gutenberg, nasceu a imprensa.
Essas foram as suas grandes contribuições no atacado. No varejo, é aos chineses que devemos o macarrão e, deste, o talharim, o espaguete e a língua de pato. Eles nos deram também a seda, a porcelana, a bússola, o sismógrafo, o moinho hidráulico e até a pipa --esta, para pescar sem barco. Sem falar no palito de fósforo, nos fogos de artifício e na tinta --não por acaso, nanquim.
Mas isso foi lá atrás. A China moderna são os bilhões de cacarecos e cafonices que assolam o mercado mundial, empesteiam o planeta e levarão séculos para ser digeridos pelo ambiente. E ela vem agora com uma novidade ainda mais revolucionária: a desinvenção da imprensa. Seus jornalistas, se quiserem manter a licença de trabalho, terão de devorar um manual de 700 páginas para fazer uma prova sobre os princípios do marxismo e se submeter a 18 horas de treinamento para se condicionar a não contrariar o Partido.
No Brasil, havia gente no governo que queria nos impor essa medida. Mas isso foi antes da Papuda.
Ponto de virada - LÚCIA GUIMARÃES
O Estado de S.Paulo - 23/12
As palavras não têm culpa do uso que fazemos delas. O ano de 2013 passou uma flanela na palavra que era associada a esquerdismo infantil nos Estados Unidos: desigualdade. Os Estados Unidos hoje têm a mais alta disparidade de renda entre os países desenvolvidos.
Nova York se tornou o laboratório do diálogo, impulsionado pela campanha improvável do homem que toma posse na prefeitura no dia 1o de janeiro. O tabu quebrado por Bill de Blasio está se espalhando, de eleições municipais a discursos presidenciais. A nova prefeita da cidade de Rochester se elegeu plagiando o refrão de campanha do nova-iorquino, o Conto das Duas Cidades, que, por sua vez toma emprestado o título homônimo de Charles Dickens. Progressistas começam a sair do armário e a debater distribuição de renda.
Recebi uma carta-convocação da atriz Cinthia Nixon, de, ó ironia, Sex and the City. Ela não propõe que todos os nova-iorquinos possam comprar sapatos Manolo Blahnik. Está pedindo adesões à iniciativa UPK, a plataforma que ajudou a eleger de Blasio, para estender acesso à educação pré-escolar a todas as crianças de Nova York. O programa precisa ser financiado com um aumento de 4% no imposto de quem ganha mais de meio milhão de dólares por ano e, há uma década, teria sido ridicularizado por estas bandas.
Barack Obama escolheu o tema desigualdade para o seu mais importante discurso de fim de ano. Mas 30 anos de estigma do termo tratado como bastardo ainda se fazem sentir. Dois autores, auto-investidos com a tarefa de manter o Partido Democrata difícil de distinguir da oposição republicana, publicaram um manifesto no Wall Street Journal alertando que o debate sobre a desigualdade será um beco sem saída para o futuro político do partido.
Bill de Blasio é acusado de ingênuo e seus críticos lembram que, na economia globalizada, uma cidade, ainda que seja Nova York, não pode combater a disparidade social. É difícil imaginar que ele seja obtuso a ponto de pensar que pode fazer desta metrópole uma bolha na contramão da economia internacional.
Mas a economia, global ou local, é produto de um conjunto de regras e regulamentos, do salário mínimo regional aos impostos sobre ganhos de capital. Um argumento favorito da direita é de que combater a desigualdade é populismo, promoção de igualdade de resultados. Mas o debate é sobre a diferença de oportunidades. Ninguém há de contestar que uma família americana pobre ou de classe média baixa hoje tem muito mais chances de colocar seus filhos numa dilapidada escola pública e assim selar a sorte deles num futuro radicalmente transformado pela tecnologia.
Um novo documentário, Inequality for All (Desigualdade para Todos), que recomendo e vai estar disponível em DVD no começo de janeiro, traça a marcha da tendência com a clareza típica de seu narrador, o renomado economista Robert Reich, ex-Secretário do Trabalho do governo de Bill Clinton e professor da Universidade da California, em Berkeley. Reich é autor de 13 livros. O título do último, Beyond Outrage (Além da Indignação) não deixa dúvidas sobre o que pensa do fato de que a disparidade de renda nos Estados Unidos chegou ao auge em duas datas historicamente relacionadas: 1928 e 2007, vésperas das duas maiores recessões do último século.
O documentário dirigido por Jacob Kornbluth não é uma cantilena de vítimas e demonização. Argumenta que as duas origens mais citadas da desigualdade, a globalização e a tecnologia, não precisam ser uma sentença de morte para a classe média. Sem classe média, não teria havido a prosperidade americana do pós-guerra da qual o mundo também se beneficiou. Reich diz que a elite americana cruzou os braços e passou a se concentrar em evitar perdas com a globalização, o que facilitou a emergência da indústria financeira fora de controle.
A mídia aqui saiu da torcida incondicional e passou a divulgar com mais frequência fatos como este: nos três anos em que os Estados Unidos começaram a sair da grande recessão, 95% dos ganhos de renda foram para 1% da população.
Se o caro leitor estiver em Manhattan comprando uma camiseta de US $ 5 neste Natal, faça uma pausa para pensar o seguinte: o salário do vendedor, que continua a cair, apesar do aumento de sua produtividade, é subsidiado por esta colunista. O imposto que pagamos é gasto com vales refeição do governo federal e assistência médica na emergência de hospitais sustentados pela prefeitura. As corporações reduziram de tal forma o salário e os benefícios que o governo precisa ajudar a manter os trabalhadores alimentados e de pé para vender a camiseta.
O prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz publicou ontem um artigo no New York Times argumentando que a desigualdade gera desconfiança no sistema, enfraquece a economia e acaba por erodir a democracia.
Vista a sua camiseta mas não deixe de vestir também a ideia de que algo pode mudar.
As palavras não têm culpa do uso que fazemos delas. O ano de 2013 passou uma flanela na palavra que era associada a esquerdismo infantil nos Estados Unidos: desigualdade. Os Estados Unidos hoje têm a mais alta disparidade de renda entre os países desenvolvidos.
Nova York se tornou o laboratório do diálogo, impulsionado pela campanha improvável do homem que toma posse na prefeitura no dia 1o de janeiro. O tabu quebrado por Bill de Blasio está se espalhando, de eleições municipais a discursos presidenciais. A nova prefeita da cidade de Rochester se elegeu plagiando o refrão de campanha do nova-iorquino, o Conto das Duas Cidades, que, por sua vez toma emprestado o título homônimo de Charles Dickens. Progressistas começam a sair do armário e a debater distribuição de renda.
Recebi uma carta-convocação da atriz Cinthia Nixon, de, ó ironia, Sex and the City. Ela não propõe que todos os nova-iorquinos possam comprar sapatos Manolo Blahnik. Está pedindo adesões à iniciativa UPK, a plataforma que ajudou a eleger de Blasio, para estender acesso à educação pré-escolar a todas as crianças de Nova York. O programa precisa ser financiado com um aumento de 4% no imposto de quem ganha mais de meio milhão de dólares por ano e, há uma década, teria sido ridicularizado por estas bandas.
Barack Obama escolheu o tema desigualdade para o seu mais importante discurso de fim de ano. Mas 30 anos de estigma do termo tratado como bastardo ainda se fazem sentir. Dois autores, auto-investidos com a tarefa de manter o Partido Democrata difícil de distinguir da oposição republicana, publicaram um manifesto no Wall Street Journal alertando que o debate sobre a desigualdade será um beco sem saída para o futuro político do partido.
Bill de Blasio é acusado de ingênuo e seus críticos lembram que, na economia globalizada, uma cidade, ainda que seja Nova York, não pode combater a disparidade social. É difícil imaginar que ele seja obtuso a ponto de pensar que pode fazer desta metrópole uma bolha na contramão da economia internacional.
Mas a economia, global ou local, é produto de um conjunto de regras e regulamentos, do salário mínimo regional aos impostos sobre ganhos de capital. Um argumento favorito da direita é de que combater a desigualdade é populismo, promoção de igualdade de resultados. Mas o debate é sobre a diferença de oportunidades. Ninguém há de contestar que uma família americana pobre ou de classe média baixa hoje tem muito mais chances de colocar seus filhos numa dilapidada escola pública e assim selar a sorte deles num futuro radicalmente transformado pela tecnologia.
Um novo documentário, Inequality for All (Desigualdade para Todos), que recomendo e vai estar disponível em DVD no começo de janeiro, traça a marcha da tendência com a clareza típica de seu narrador, o renomado economista Robert Reich, ex-Secretário do Trabalho do governo de Bill Clinton e professor da Universidade da California, em Berkeley. Reich é autor de 13 livros. O título do último, Beyond Outrage (Além da Indignação) não deixa dúvidas sobre o que pensa do fato de que a disparidade de renda nos Estados Unidos chegou ao auge em duas datas historicamente relacionadas: 1928 e 2007, vésperas das duas maiores recessões do último século.
O documentário dirigido por Jacob Kornbluth não é uma cantilena de vítimas e demonização. Argumenta que as duas origens mais citadas da desigualdade, a globalização e a tecnologia, não precisam ser uma sentença de morte para a classe média. Sem classe média, não teria havido a prosperidade americana do pós-guerra da qual o mundo também se beneficiou. Reich diz que a elite americana cruzou os braços e passou a se concentrar em evitar perdas com a globalização, o que facilitou a emergência da indústria financeira fora de controle.
A mídia aqui saiu da torcida incondicional e passou a divulgar com mais frequência fatos como este: nos três anos em que os Estados Unidos começaram a sair da grande recessão, 95% dos ganhos de renda foram para 1% da população.
Se o caro leitor estiver em Manhattan comprando uma camiseta de US $ 5 neste Natal, faça uma pausa para pensar o seguinte: o salário do vendedor, que continua a cair, apesar do aumento de sua produtividade, é subsidiado por esta colunista. O imposto que pagamos é gasto com vales refeição do governo federal e assistência médica na emergência de hospitais sustentados pela prefeitura. As corporações reduziram de tal forma o salário e os benefícios que o governo precisa ajudar a manter os trabalhadores alimentados e de pé para vender a camiseta.
O prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz publicou ontem um artigo no New York Times argumentando que a desigualdade gera desconfiança no sistema, enfraquece a economia e acaba por erodir a democracia.
Vista a sua camiseta mas não deixe de vestir também a ideia de que algo pode mudar.
A festa cristã - PAULO GUEDES
O GLOBO - 23/12
A Igreja Católica denuncia a amoralidade e o materialismo pelo vazio espiritual da moderna civilização. A decomposição das famílias, a violência, a corrupção, as drogas, a dissolução dos costumes e a falta de solidariedade com os menos afortunados seriam sintomas de um mundo sem fé.
"Ao lado do racionalismo grego, nada influenciou tanto a história do Ocidente quanto o cristianismo", registra o filósofo Karl Popper. "O cristianismo foi o principal ingrediente do pensamento europeu. Mesmo sob ataque, manteve seus críticos em sua órbita. São ainda condenados a esgrimir com a ética e a mentalidade cristã até mesmo os ateus", observa o historiador Fernand Braudel. Humanistas prisioneiros de métodos científicos, desamparados pela fé, celebram também com o Papa Francisco "o Natal como anúncio de alegria, esperança e ternura".
O historiador Paul Johnson argumenta que "a ascensão cristã não foi acidental, mas sim o atendimento de uma ampla, urgente e mal formulada necessidade de um culto monoteísta no mundo greco-romano. As divindades tribais não forneciam mais explicações satisfatórias para uma sociedade cosmopolita em expansão, com crescentes padrões de vida e pretensões intelectuais". Era a versão mediterrânea da globalização derrubando deuses locais.
O mesmo pode ser dito da contaminação viral das ideias socialistas. A "morte" de Deus e o "desencantamento" do mundo exigiram uma nova religião secular e universal. O marxismo e suas pretensas bases científicas revelaram-se não apenas um formidável equívoco intelectual mas também um trágico experimento político, social e econômico. Mas disseminaram-se por seu apelo a nossos ancestrais instintos de solidariedade e altruísmo, heranças da moralidade dos pequenos bandos e das grandes religiões.
Pois, afinal, "a predisposição à crença religiosa é a mais complexa, poderosa e provavelmente irremovível força da natureza humana", considera o biólogo Edward Wilson.
Por outro lado, apesar de criticados por sua impessoalidade e incompreendidos pelas massas, os mercados globais formam uma extensa rede de cooperação social abrangendo bilhões de indivíduos.
"Nossas dificuldades resultam de que precisamos ajustar nossas vidas, pensamentos e emoções a esses dois mundos diferentes", diagnostica o economista Friedrich von Hayek.
"Ao lado do racionalismo grego, nada influenciou tanto a história do Ocidente quanto o cristianismo", registra o filósofo Karl Popper. "O cristianismo foi o principal ingrediente do pensamento europeu. Mesmo sob ataque, manteve seus críticos em sua órbita. São ainda condenados a esgrimir com a ética e a mentalidade cristã até mesmo os ateus", observa o historiador Fernand Braudel. Humanistas prisioneiros de métodos científicos, desamparados pela fé, celebram também com o Papa Francisco "o Natal como anúncio de alegria, esperança e ternura".
O historiador Paul Johnson argumenta que "a ascensão cristã não foi acidental, mas sim o atendimento de uma ampla, urgente e mal formulada necessidade de um culto monoteísta no mundo greco-romano. As divindades tribais não forneciam mais explicações satisfatórias para uma sociedade cosmopolita em expansão, com crescentes padrões de vida e pretensões intelectuais". Era a versão mediterrânea da globalização derrubando deuses locais.
O mesmo pode ser dito da contaminação viral das ideias socialistas. A "morte" de Deus e o "desencantamento" do mundo exigiram uma nova religião secular e universal. O marxismo e suas pretensas bases científicas revelaram-se não apenas um formidável equívoco intelectual mas também um trágico experimento político, social e econômico. Mas disseminaram-se por seu apelo a nossos ancestrais instintos de solidariedade e altruísmo, heranças da moralidade dos pequenos bandos e das grandes religiões.
Pois, afinal, "a predisposição à crença religiosa é a mais complexa, poderosa e provavelmente irremovível força da natureza humana", considera o biólogo Edward Wilson.
Por outro lado, apesar de criticados por sua impessoalidade e incompreendidos pelas massas, os mercados globais formam uma extensa rede de cooperação social abrangendo bilhões de indivíduos.
"Nossas dificuldades resultam de que precisamos ajustar nossas vidas, pensamentos e emoções a esses dois mundos diferentes", diagnostica o economista Friedrich von Hayek.
DNA de criminosos - SERGIO FERNANDO MORO
FOLHA DE SP - 23/12
Da indignação da presidente Dilma com estupros poderia decorrer uma ação enérgica para a formação do banco de dados genéticos de criminosos
A partir da década de 90, aprofundou-se a utilização de testes genéticos na investigação criminal. Resíduos biológicos encontrados nas cenas dos crimes passaram a ser recolhidos e examinados, deles extraindo-se o perfil genético do titular, com o propósito de comparação com os dos suspeitos, servindo tanto para exonerar os inocentes como para descobrir os culpados.
Principalmente nos Estados Unidos e no Reino Unido, os perfis genéticos passaram a compor bancos de dados de caráter amplo e que puderam, em novos casos, ser acessados por investigadores para o cruzamento com o perfil genético do material identificado no local do crime, propiciando a identificação de autores de delitos de difícil elucidação.
Investigações encerradas sem culpados puderam ser reabertas, muitas vezes levando à identificação do criminoso pela localização do perfil no banco de dados.
Um subproduto interessante dessa prática consistiu na revisão de penas antigas, com exoneração de pessoas condenadas por erro judiciário. O "projeto inocência" desenvolvido nos Estados Unidos a partir de 1992 por organização não governamental levou à exoneração de cerca de 300 pessoas condenadas erroneamente, 18 das quais encontravam-se no corredor da morte.
No Brasil, ainda não há nada semelhante nessa escala. A recente lei nº 12.654/2012 permitiu a colheita do perfil genético de criminosos condenados e de suspeitos para a formação de bancos de dados.
Apesar da autorização legislativa, faz-se necessária, como foi feito nos países anglo-saxões, a adoção de uma prática jurídica e de política pública ampla para a colheita do perfil genético. Para tanto, iniciativas individuais são bem-vindas.
Em processos envolvendo crimes violentos ou sexuais, deve a autoridade policial providenciar a conservação do resíduo biológico encontrado no local do crime e requerer, em conjunto com o Ministério Público, ao juiz que autorize a extração de material biológico do suspeito. Identificados os respectivos perfis genéticos, devem eles ser comparados e, independentemente do caso individual, integrados aos bancos de dados estadual ou nacional.
Nas Varas de Execuções Penais, pode o juiz, provocado pela administração penitenciária ou pelo Ministério Público, autorizar a extração do perfil genético de pessoas condenadas por crimes violentos ou sexuais, para integração ao banco de dados estadual ou nacional.
A lei nº 12.654/2012 já permite tais práticas. Ilustrativamente, o autor deste artigo tem determinado, em processos envolvendo crimes de pedofilia, a extração do perfil genético do suspeito para integração ao banco de dados nacional.
Para a formação de bancos de dados abrangentes, faz-se necessário, porém, colher os perfis genéticos em ampla escala, especialmente dos condenados por crimes violentos ou sexuais. Há custos consideráveis e seria oportuno que iniciativa da espécie transcendesse aos casos individuais e fosse proveniente do Poder Executivo --por exemplo, das Secretarias de Segurança Pública ou do Ministério da Justiça.
Recentemente, a presidente da República indignou-se, com razão, com o aumento dos crimes de estupro. Da indignação poderia decorrer uma ação enérgica do Executivo para a formação do banco de dados, já que ele é uma ferramenta efetiva contra essa espécie de crime.
O Conselho Nacional de Justiça e o Conselho Nacional do Ministério Público também poderiam atuar como agentes provocadores dessa política de segurança pública.
Práticas ou políticas da espécie, desde que generalizadas, levariam à formação de bancos de dados de perfis genéticos abrangentes, aumentando o índice de solução dos casos criminais, diminuindo a impunidade e as chances de erros judiciários. Não pode o Brasil perder essa oportunidade para a modernização da investigação criminal.
Da indignação da presidente Dilma com estupros poderia decorrer uma ação enérgica para a formação do banco de dados genéticos de criminosos
A partir da década de 90, aprofundou-se a utilização de testes genéticos na investigação criminal. Resíduos biológicos encontrados nas cenas dos crimes passaram a ser recolhidos e examinados, deles extraindo-se o perfil genético do titular, com o propósito de comparação com os dos suspeitos, servindo tanto para exonerar os inocentes como para descobrir os culpados.
Principalmente nos Estados Unidos e no Reino Unido, os perfis genéticos passaram a compor bancos de dados de caráter amplo e que puderam, em novos casos, ser acessados por investigadores para o cruzamento com o perfil genético do material identificado no local do crime, propiciando a identificação de autores de delitos de difícil elucidação.
Investigações encerradas sem culpados puderam ser reabertas, muitas vezes levando à identificação do criminoso pela localização do perfil no banco de dados.
Um subproduto interessante dessa prática consistiu na revisão de penas antigas, com exoneração de pessoas condenadas por erro judiciário. O "projeto inocência" desenvolvido nos Estados Unidos a partir de 1992 por organização não governamental levou à exoneração de cerca de 300 pessoas condenadas erroneamente, 18 das quais encontravam-se no corredor da morte.
No Brasil, ainda não há nada semelhante nessa escala. A recente lei nº 12.654/2012 permitiu a colheita do perfil genético de criminosos condenados e de suspeitos para a formação de bancos de dados.
Apesar da autorização legislativa, faz-se necessária, como foi feito nos países anglo-saxões, a adoção de uma prática jurídica e de política pública ampla para a colheita do perfil genético. Para tanto, iniciativas individuais são bem-vindas.
Em processos envolvendo crimes violentos ou sexuais, deve a autoridade policial providenciar a conservação do resíduo biológico encontrado no local do crime e requerer, em conjunto com o Ministério Público, ao juiz que autorize a extração de material biológico do suspeito. Identificados os respectivos perfis genéticos, devem eles ser comparados e, independentemente do caso individual, integrados aos bancos de dados estadual ou nacional.
Nas Varas de Execuções Penais, pode o juiz, provocado pela administração penitenciária ou pelo Ministério Público, autorizar a extração do perfil genético de pessoas condenadas por crimes violentos ou sexuais, para integração ao banco de dados estadual ou nacional.
A lei nº 12.654/2012 já permite tais práticas. Ilustrativamente, o autor deste artigo tem determinado, em processos envolvendo crimes de pedofilia, a extração do perfil genético do suspeito para integração ao banco de dados nacional.
Para a formação de bancos de dados abrangentes, faz-se necessário, porém, colher os perfis genéticos em ampla escala, especialmente dos condenados por crimes violentos ou sexuais. Há custos consideráveis e seria oportuno que iniciativa da espécie transcendesse aos casos individuais e fosse proveniente do Poder Executivo --por exemplo, das Secretarias de Segurança Pública ou do Ministério da Justiça.
Recentemente, a presidente da República indignou-se, com razão, com o aumento dos crimes de estupro. Da indignação poderia decorrer uma ação enérgica do Executivo para a formação do banco de dados, já que ele é uma ferramenta efetiva contra essa espécie de crime.
O Conselho Nacional de Justiça e o Conselho Nacional do Ministério Público também poderiam atuar como agentes provocadores dessa política de segurança pública.
Práticas ou políticas da espécie, desde que generalizadas, levariam à formação de bancos de dados de perfis genéticos abrangentes, aumentando o índice de solução dos casos criminais, diminuindo a impunidade e as chances de erros judiciários. Não pode o Brasil perder essa oportunidade para a modernização da investigação criminal.
Os bastidores de Bali - MAURO LAVIOLA E JOSEFINA GUEDES
O GLOBO - 23/12
Fato especialmente marcante foi a completa ausência da Argentina nas discussões e proposições das principais decisões adotadas
Uma visão pragmática e factual dos meandros ocorridos na reunião realizada na Indonésia mostra peripécias negociadoras e posturas diferenciadas entre os 160 participantes do evento. O primeiro fato relevante que deve ser destacado foi a estratégia do diretor-geral da OMC de levar a Bali um rascunho básico, adrede preparado em Genebra, especialmente no tema sobre facilitação de comércio. Tal providência foi vital para facilitar a tarefa de as partes fazerem os ajustes necessários à conclusão e firma do documento final.
É importante destacar que, desde o encerramento da Rodada Uruguai, a OMC não lograva obter uma decisão por consenso. Mas é bom frisar, também, que o cumprimento dos dispositivos aprovados podem ser implementados sob velocidades diferenciadas segundo o grau de desenvolvimento dos países membros, o que mostra certa flexibilização no conceito de nação mais favorecida — parâmetro básico do organismo. Quem sabe essa postura tenha sido inspirada no roseiral de acordos parciais que inundou os registros do organismo, sob o amparo do artigo XXIV do Gatt (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) e que minou, nos últimos anos, a crença de que as negociações multilaterais estavam esgotadas. A tal ponto que diversos países importantes, como o México, por exemplo, levaram a Bali minúsculas delegações simplesmente para fazer presença.
Especial destaque deve ser dado à postura da delegação americana que, junto à brasileira em fina sintonia construtiva, desempenhou papel de destaque na formalização do documento final e, portanto, à sobrevivência da OMC. A atuação brasileira foi especialmente decisiva, também, na demoção da postura bolivariana da Venezuela contra o documento final e na exigência cubana de os EUA sinalizarem o fim do embargo comercial à ilha.
Fato especialmente marcante foi a completa ausência da Argentina nas discussões e proposições das principais decisões adotadas, acenando perigoso afastamento do país dos dispositivos de maior ordenamento das transações globais, o que tende a repercutir mais negativamente nas já suas combalidas transações no Mercosul.
Por outro lado, é importante assinalar a postura propositalmente inerte da China, principalmente nas discussões sobre a segurança alimentar postuladas pela Índia e atendidas no documento, com a salvaguarda de não afetar o comércio internacional de commodities.
Na questão das quotas agropastoris, os avanços foram modestos, apenas ordenando mais racionalmente a redistribuição dos lotes não aproveitados por países provedores.
Deve-se assinalar o comportamento judicioso da União Europeia, decorrente da não inclusão da questão dos subsídios às exportações agrícolas e a ausência de menções aos regulamentos sanitários e fitossanitários largamente aplicados pela comunidade. Esses temas, possivelmente, poderão constar da elaboração, em 2014, da agenda visando à retomada das negociações da Rodada Doha.
Os países de menor desenvolvimento relativo aparentemente contentaram-se com o tratamento diferenciado reiterado no documento sobre o programa denominado duty free — quota free, sujeito, no entanto, a regras próprias que evitem ou punam práticas comerciais desleais ou predatórias.
Em resumo, os bastidores do encontro de Bali mostraram uma disposição incomum da maioria dos países em buscar alguma solução viável de preservação da multilateralidade nas transações universais em convívio com os mega-acordos interregionais em vigor, além de diversos outros em negociação. Até onde essas ações são compatíveis ou não veremos com o tempo. Mas o Brasil que trate de arranjar fórmulas para estar presente em ambos os bailes.
Fato especialmente marcante foi a completa ausência da Argentina nas discussões e proposições das principais decisões adotadas
Uma visão pragmática e factual dos meandros ocorridos na reunião realizada na Indonésia mostra peripécias negociadoras e posturas diferenciadas entre os 160 participantes do evento. O primeiro fato relevante que deve ser destacado foi a estratégia do diretor-geral da OMC de levar a Bali um rascunho básico, adrede preparado em Genebra, especialmente no tema sobre facilitação de comércio. Tal providência foi vital para facilitar a tarefa de as partes fazerem os ajustes necessários à conclusão e firma do documento final.
É importante destacar que, desde o encerramento da Rodada Uruguai, a OMC não lograva obter uma decisão por consenso. Mas é bom frisar, também, que o cumprimento dos dispositivos aprovados podem ser implementados sob velocidades diferenciadas segundo o grau de desenvolvimento dos países membros, o que mostra certa flexibilização no conceito de nação mais favorecida — parâmetro básico do organismo. Quem sabe essa postura tenha sido inspirada no roseiral de acordos parciais que inundou os registros do organismo, sob o amparo do artigo XXIV do Gatt (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) e que minou, nos últimos anos, a crença de que as negociações multilaterais estavam esgotadas. A tal ponto que diversos países importantes, como o México, por exemplo, levaram a Bali minúsculas delegações simplesmente para fazer presença.
Especial destaque deve ser dado à postura da delegação americana que, junto à brasileira em fina sintonia construtiva, desempenhou papel de destaque na formalização do documento final e, portanto, à sobrevivência da OMC. A atuação brasileira foi especialmente decisiva, também, na demoção da postura bolivariana da Venezuela contra o documento final e na exigência cubana de os EUA sinalizarem o fim do embargo comercial à ilha.
Fato especialmente marcante foi a completa ausência da Argentina nas discussões e proposições das principais decisões adotadas, acenando perigoso afastamento do país dos dispositivos de maior ordenamento das transações globais, o que tende a repercutir mais negativamente nas já suas combalidas transações no Mercosul.
Por outro lado, é importante assinalar a postura propositalmente inerte da China, principalmente nas discussões sobre a segurança alimentar postuladas pela Índia e atendidas no documento, com a salvaguarda de não afetar o comércio internacional de commodities.
Na questão das quotas agropastoris, os avanços foram modestos, apenas ordenando mais racionalmente a redistribuição dos lotes não aproveitados por países provedores.
Deve-se assinalar o comportamento judicioso da União Europeia, decorrente da não inclusão da questão dos subsídios às exportações agrícolas e a ausência de menções aos regulamentos sanitários e fitossanitários largamente aplicados pela comunidade. Esses temas, possivelmente, poderão constar da elaboração, em 2014, da agenda visando à retomada das negociações da Rodada Doha.
Os países de menor desenvolvimento relativo aparentemente contentaram-se com o tratamento diferenciado reiterado no documento sobre o programa denominado duty free — quota free, sujeito, no entanto, a regras próprias que evitem ou punam práticas comerciais desleais ou predatórias.
Em resumo, os bastidores do encontro de Bali mostraram uma disposição incomum da maioria dos países em buscar alguma solução viável de preservação da multilateralidade nas transações universais em convívio com os mega-acordos interregionais em vigor, além de diversos outros em negociação. Até onde essas ações são compatíveis ou não veremos com o tempo. Mas o Brasil que trate de arranjar fórmulas para estar presente em ambos os bailes.
Europa e a Defesa comum - GILLES LAPOUGE
O Estado de S.Paulo - 23/12
A pergunta é: onde estão todos os soldados que os países europeus deveriam enviar à Republica Centro-Africana para apoiar os 1,6 mil dos franceses que tentam restabelecer a ordem em meio ao caos e a razão em meio ao delírio? Esquadrinhamos mares e ares com grandes lunetas, mas nada, não vimos nada no horizonte.
E não foi por falta dos regimentos europeus serem anunciados. Na terça-feira o chanceler francês, Laurent Fabius, deu a boa notícia. No dia seguinte, o ministro dos Assuntos Europeus forneceu detalhes: alemães e britânicos enviariam tropas à República Centro-Africana. O que foi retificado por outro ministro. Não. Seriam soldados poloneses e belgas.
E o que restou desse vasto Exército europeu? Nada. Um Exército de fantasmas. E os militares franceses continuarão a combater sozinhos.
Podemos multiplicar as explicações: egoísmo dos Estados, efeitos da crise, recusa obstinada da Grã-Bretanha a qualquer embrião de Defesa comum europeia. No fundo, observamos um movimento: a Europa, que durante séculos foi o continente da guerra, está farta. E uma estranha mudança ocorre: enquanto o mundo se rearma, a Europa, tranquilamente, se desarma.
Dois países ainda dispõem de uma força militar vigorosa: França e Grã-Bretanha. Mas, mesmo nestes países, os Exércitos se contraem. Depois da atuação medíocre no Iraque e no Afeganistão, os britânicos reduziram seu orçamento militar em 8% para 2013.
A França ainda mantém boa imagem. Seu Exército brilhou no Mali e mostra-se exemplar na República Centro-Africana, mas não tenhamos ilusões. Ela possui alguns regimentos muito ágeis, mas o resto é vazio. A cada ano o Exército perde subsídios, homens e material. Corre uma piada que diz que o Exército francês inteiro pode ser alojado num estádio de futebol.
A Alemanha continua resolutamente pacifista. O chefe do Estado Maior da Suécia acabou de declarar que, em caso de guerra, seu Exército poderá resistir por uma semana, mas não duas.
O contraste é espetacular com outros continentes. Nem é preciso lembrar a força em termos de material e homens dos americanos. A China tem um Exército enorme e vem modernizando suas forças armadas.
A Rússia rearma um Exército a serviço de uma diplomacia cada vez mais intransigente. O Paquistão vem reforçando sua força nuclear. Índia e Indonésia se armam.
Claro que a Europa tem a vantagem (ou o inconveniente) de ser apoiada militarmente pelos EUA desde o fim da 2ª Guerra. Sabemos que Obama recompôs os destinos do mundo sobre um novo mapa: na sua cabeça, a Europa não está mais no centro. A Ásia expulsou-a.
Tudo se passa como se a Europa, cansada de lutar, enojada com os rios de sangue que derramou, preferisse depor armas e conservar seu posto, mas em outras bases que não a militar. Um desejo que podemos compreender, mas é ilusório. A força econômica, a força política e a militar caminham juntas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
A pergunta é: onde estão todos os soldados que os países europeus deveriam enviar à Republica Centro-Africana para apoiar os 1,6 mil dos franceses que tentam restabelecer a ordem em meio ao caos e a razão em meio ao delírio? Esquadrinhamos mares e ares com grandes lunetas, mas nada, não vimos nada no horizonte.
E não foi por falta dos regimentos europeus serem anunciados. Na terça-feira o chanceler francês, Laurent Fabius, deu a boa notícia. No dia seguinte, o ministro dos Assuntos Europeus forneceu detalhes: alemães e britânicos enviariam tropas à República Centro-Africana. O que foi retificado por outro ministro. Não. Seriam soldados poloneses e belgas.
E o que restou desse vasto Exército europeu? Nada. Um Exército de fantasmas. E os militares franceses continuarão a combater sozinhos.
Podemos multiplicar as explicações: egoísmo dos Estados, efeitos da crise, recusa obstinada da Grã-Bretanha a qualquer embrião de Defesa comum europeia. No fundo, observamos um movimento: a Europa, que durante séculos foi o continente da guerra, está farta. E uma estranha mudança ocorre: enquanto o mundo se rearma, a Europa, tranquilamente, se desarma.
Dois países ainda dispõem de uma força militar vigorosa: França e Grã-Bretanha. Mas, mesmo nestes países, os Exércitos se contraem. Depois da atuação medíocre no Iraque e no Afeganistão, os britânicos reduziram seu orçamento militar em 8% para 2013.
A França ainda mantém boa imagem. Seu Exército brilhou no Mali e mostra-se exemplar na República Centro-Africana, mas não tenhamos ilusões. Ela possui alguns regimentos muito ágeis, mas o resto é vazio. A cada ano o Exército perde subsídios, homens e material. Corre uma piada que diz que o Exército francês inteiro pode ser alojado num estádio de futebol.
A Alemanha continua resolutamente pacifista. O chefe do Estado Maior da Suécia acabou de declarar que, em caso de guerra, seu Exército poderá resistir por uma semana, mas não duas.
O contraste é espetacular com outros continentes. Nem é preciso lembrar a força em termos de material e homens dos americanos. A China tem um Exército enorme e vem modernizando suas forças armadas.
A Rússia rearma um Exército a serviço de uma diplomacia cada vez mais intransigente. O Paquistão vem reforçando sua força nuclear. Índia e Indonésia se armam.
Claro que a Europa tem a vantagem (ou o inconveniente) de ser apoiada militarmente pelos EUA desde o fim da 2ª Guerra. Sabemos que Obama recompôs os destinos do mundo sobre um novo mapa: na sua cabeça, a Europa não está mais no centro. A Ásia expulsou-a.
Tudo se passa como se a Europa, cansada de lutar, enojada com os rios de sangue que derramou, preferisse depor armas e conservar seu posto, mas em outras bases que não a militar. Um desejo que podemos compreender, mas é ilusório. A força econômica, a força política e a militar caminham juntas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
União Europeia testa diplomacia do Brasil - SERGIO LEO
Valor Econômico - 23/12
A decisão da União Europeia de questionar na Organização Mundial do Comércio (OMC) os programas brasileiro de apoio à indústria instalada no país só prejudicará as negociações de livre comércio entre o bloco europeu e o Mercosul se o governo brasileiro quiser.
As críticas dos europeus aos programas do Brasil, especialmente ao Inovar-Auto, são antigas e nunca foram mencionadas pelos diplomatas da União Europeia na mesa de negociação comercial, até porque seria o local errado para isso. Se decidir retaliar abrindo uma guerra comercial contra os europeus, o Brasil estará dando uma indesejável demonstração de imaturidade.
Em 2004, antes do impasse nas negociações UE-Mercosul - por outros motivos -, foi a União Europeia que sofreu questionamento na OMC, pelo Brasil, por seus subsídios ao açúcar e pelas barreiras indevidas ao frango salgado. Os europeus trataram o litígio como uma disputa técnica, que nada tinha a ver com a negociação de liberalização comercial.
É, de fato, estranho o timing, desta vez, que faz coincidir a disputa na OMC com a demora europeia em se engajar na discussão de livre comércio. Mas uma reação emocional da parte brasileira só interessa a quem não quer o acordo. E o Brasil quer.
O mais estranho no questionamento ao Inovar-Auto é que o atual regime automotivo favorece empresas europeias instaladas no Brasil, protegidas pelo programa contra importados mais baratos, especialmente os chineses. Ficaram de fora apenas algumas montadoras.
As de carros de luxo, como a Audi, foram as que mais se queixaram; e o governo imaginou ter comprado o apoio dos descontentes criando cotas de importação e facilitando a instalação de fábricas estilo CKD, de montagem de autos, com prazos mais flexíveis de nacionalização das linhas de montagem.
O fato é que, pelas regras da OMC, uma vez pago o imposto de importação, o produto importado não pode ser discriminado na hora de pagar imposto. Ponto. Cobrar alíquotas de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) diferentes para um carro importado ou um que cumpra etapas de fabricação no Brasil viola essas regras, e os diplomatas brasileiros terão trabalho duro pela frente para mostrar que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Mas fica a dúvida: se foram acomodados os interesses europeus, e se os blocos europeu e sul-americano estão buscando aproximação, por que sair, agora, com essa queixa na OMC?
Uma explicação, levantada em Genebra, para a atitude europeia, é o efeito-demonstração . Ilegal ou não, o Inovar-Auto mostrou ser bastante bem-sucedido em seu objetivo de contornar a extrema falta de competitividade da produção industrial no Brasil. A produção, de janeiro a novembro de 2013, chegou ao recorde de 3,5 milhões de veículos, 12% acima do mesmo período em 2013; e a exportação, impulsionada pelos argentinos buscando opções de investimento, aumentou quase 30%. A previsão de investimentos do setor passa de sonoros R$ 75 bilhões até 2017. Há temor, na Europa, que outros emergentes, como Indonésia, Turquia, Índia, resolvam seguir o exemplo.
Soma-se a isso o fato de que as medidas para assegurar conteúdo local por meio de discriminação tarifária não se restringiram ao setor automobilístico e se estendem para os cobiçados setores de telecomunicações e petróleo, por exemplo. Está explicado o mau humor com a política industrial no Brasil, um dos mercados promissores para a manufatura europeia.
Uma segunda explicação para a disputa aberta pelos europeus é a de que o bloco agiu preventivamente, para assegurar que não haverá extensão de prazos para o Inovar-Auto e outros programas. O programa de estímulo às montadoras, que sobretaxa com o IPI automóveis que não cumpram requisitos de produção no país, por lei deve acabar em 2017.
As regras da OMC preveem a possibilidade de apoio às indústrias nacionais, como os subsídios para as fábricas instaladas no país. Mecanismos como o Reintegra, que devolve aos exportadores em dinheiro ou crédito tributário uma parcela do que teoricamente pagaram em impostos indiretos, também são aceitos pela organização. O Reintegra, porém, está marcado para acabar em 2014, e o governo rejeitou modelos mais complexos de apoio à indústria em favor de regras como as previstas no Inovar-Auto, que são mais fáceis de aplicar, mas revelam uma discriminação tributária entre importados e nacionais.
Partir para abertura de casos contra os europeus, em retaliação, na OMC, ou deixar que a disputa sobre a política industrial contamine as negociações entre Mercosul e União Europeia são atitudes que certamente não melhoram as perspectivas do acordo comercial desejado tanto pelo setor rural quanto pela indústria no Brasil. E pouco ajudaria o país a reverter a decisão europeia de contestar o modelo escolhido pelo governo federal para estimular a indústria.
A queixa à OMC é uma opção técnica, muito usada pelo Brasil, que sempre procurou despolitizar o recurso a esse mecanismo (como fez no caso recentemente vencido contra os subsídios ao algodão nos EUA). Comprometer a negociação do acordo com a UE por essa queixa seria trazer para o campo brasileiro uma bola que está, por enquanto, de forma constrangedora estacionada no campo europeu. Foi a União Europeia que adiou para janeiro a troca de propostas de livre comércio, que estava prevista para novembro, alegando não estar pronta para negociar.
Melhor será aproveitar a disputa com os europeus e reavaliar os métodos escolhidos para estimular investimentos na indústria e na pesquisa e tecnologia nacionais. É uma chance de identificar mecanismos de apoio à produção local menos ofensivos ao sistema multilateral de comércio, que o próprio Brasil luta para fortalecer.
As críticas dos europeus aos programas do Brasil, especialmente ao Inovar-Auto, são antigas e nunca foram mencionadas pelos diplomatas da União Europeia na mesa de negociação comercial, até porque seria o local errado para isso. Se decidir retaliar abrindo uma guerra comercial contra os europeus, o Brasil estará dando uma indesejável demonstração de imaturidade.
Em 2004, antes do impasse nas negociações UE-Mercosul - por outros motivos -, foi a União Europeia que sofreu questionamento na OMC, pelo Brasil, por seus subsídios ao açúcar e pelas barreiras indevidas ao frango salgado. Os europeus trataram o litígio como uma disputa técnica, que nada tinha a ver com a negociação de liberalização comercial.
É, de fato, estranho o timing, desta vez, que faz coincidir a disputa na OMC com a demora europeia em se engajar na discussão de livre comércio. Mas uma reação emocional da parte brasileira só interessa a quem não quer o acordo. E o Brasil quer.
O mais estranho no questionamento ao Inovar-Auto é que o atual regime automotivo favorece empresas europeias instaladas no Brasil, protegidas pelo programa contra importados mais baratos, especialmente os chineses. Ficaram de fora apenas algumas montadoras.
As de carros de luxo, como a Audi, foram as que mais se queixaram; e o governo imaginou ter comprado o apoio dos descontentes criando cotas de importação e facilitando a instalação de fábricas estilo CKD, de montagem de autos, com prazos mais flexíveis de nacionalização das linhas de montagem.
O fato é que, pelas regras da OMC, uma vez pago o imposto de importação, o produto importado não pode ser discriminado na hora de pagar imposto. Ponto. Cobrar alíquotas de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) diferentes para um carro importado ou um que cumpra etapas de fabricação no Brasil viola essas regras, e os diplomatas brasileiros terão trabalho duro pela frente para mostrar que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Mas fica a dúvida: se foram acomodados os interesses europeus, e se os blocos europeu e sul-americano estão buscando aproximação, por que sair, agora, com essa queixa na OMC?
Uma explicação, levantada em Genebra, para a atitude europeia, é o efeito-demonstração . Ilegal ou não, o Inovar-Auto mostrou ser bastante bem-sucedido em seu objetivo de contornar a extrema falta de competitividade da produção industrial no Brasil. A produção, de janeiro a novembro de 2013, chegou ao recorde de 3,5 milhões de veículos, 12% acima do mesmo período em 2013; e a exportação, impulsionada pelos argentinos buscando opções de investimento, aumentou quase 30%. A previsão de investimentos do setor passa de sonoros R$ 75 bilhões até 2017. Há temor, na Europa, que outros emergentes, como Indonésia, Turquia, Índia, resolvam seguir o exemplo.
Soma-se a isso o fato de que as medidas para assegurar conteúdo local por meio de discriminação tarifária não se restringiram ao setor automobilístico e se estendem para os cobiçados setores de telecomunicações e petróleo, por exemplo. Está explicado o mau humor com a política industrial no Brasil, um dos mercados promissores para a manufatura europeia.
Uma segunda explicação para a disputa aberta pelos europeus é a de que o bloco agiu preventivamente, para assegurar que não haverá extensão de prazos para o Inovar-Auto e outros programas. O programa de estímulo às montadoras, que sobretaxa com o IPI automóveis que não cumpram requisitos de produção no país, por lei deve acabar em 2017.
As regras da OMC preveem a possibilidade de apoio às indústrias nacionais, como os subsídios para as fábricas instaladas no país. Mecanismos como o Reintegra, que devolve aos exportadores em dinheiro ou crédito tributário uma parcela do que teoricamente pagaram em impostos indiretos, também são aceitos pela organização. O Reintegra, porém, está marcado para acabar em 2014, e o governo rejeitou modelos mais complexos de apoio à indústria em favor de regras como as previstas no Inovar-Auto, que são mais fáceis de aplicar, mas revelam uma discriminação tributária entre importados e nacionais.
Partir para abertura de casos contra os europeus, em retaliação, na OMC, ou deixar que a disputa sobre a política industrial contamine as negociações entre Mercosul e União Europeia são atitudes que certamente não melhoram as perspectivas do acordo comercial desejado tanto pelo setor rural quanto pela indústria no Brasil. E pouco ajudaria o país a reverter a decisão europeia de contestar o modelo escolhido pelo governo federal para estimular a indústria.
A queixa à OMC é uma opção técnica, muito usada pelo Brasil, que sempre procurou despolitizar o recurso a esse mecanismo (como fez no caso recentemente vencido contra os subsídios ao algodão nos EUA). Comprometer a negociação do acordo com a UE por essa queixa seria trazer para o campo brasileiro uma bola que está, por enquanto, de forma constrangedora estacionada no campo europeu. Foi a União Europeia que adiou para janeiro a troca de propostas de livre comércio, que estava prevista para novembro, alegando não estar pronta para negociar.
Melhor será aproveitar a disputa com os europeus e reavaliar os métodos escolhidos para estimular investimentos na indústria e na pesquisa e tecnologia nacionais. É uma chance de identificar mecanismos de apoio à produção local menos ofensivos ao sistema multilateral de comércio, que o próprio Brasil luta para fortalecer.
DA GEMA - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 23/12
A modelo sul-africana Candice Swanepoel tem um verdadeiro caso de amor com o Brasil. Comprou uma casa no Espírito Santo, torce para um time de futebol brasileiro e participa de um projeto social de moda na praia de Itapuã, em Salvador (BA).
Ela decidiu passar o Réveillon em Trancoso. Lugar que escolheu para ser fotografada para a "Vogue Brasil" de janeiro. "Viajei o mundo inteiro, mas é quando estou aqui [Trancoso] que me sinto em casa. A Bahia se tornou meu lugar favorito no mundo", diz a top.
MERCADO NACIONAL
A empreiteira Delta, do empresário Fernando Cavendish, estuda vender a Técnica, subsidiária criada para participar de licitações depois que a companhia "mãe" entrou em recuperação judicial.
SÓ NO PAPEL
De acordo com plano firmado com os credores da Delta, todo o lucro da Técnica seria revertido para o pagamento de suas dívidas. As dificuldades que ela tem encontrado para firmar contratos com o poder público, no entanto, estão tornando a sua existência inútil.
ILUSTRE DESCONHECIDO
Um grupo árabe chegou a negociar a aquisição da empresa. O desconhecimento sobre o Brasil, no entanto, esfriou o ânimo dos potenciais investidores.
SUSPIRO
Na semana passada, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) deu uma esperança para os donos da Delta: o tribunal suspendeu, por meio de liminar, a eficácia de decisão proferida pela CGU (Controladoria-Geral da União) que declarava a empreiteira inidônea para contratar com a administração pública. Como a decisão é provisória, as dificuldades permanecem.
LÍNGUA SOLTA
O idioma não está entre as principais dificuldades listadas pelos estudantes estrangeiros em São Paulo. Aparece em quarto lugar --citada por 11% dos entrevistados em pesquisa da SPTuris (empresa de turismo municipal) com alunos da USP na capital e em outras seis cidades--, atrás de problemas com documentação e burocracia (28%), transporte (25%) e custo de vida (21%).
LÍNGUA SOLTA 2
Foram entrevistadas 1.386 pessoas em cursos de graduação e pós, em novembro. França (15%) e Colômbia (13%) são os países que mais enviam estudantes, cenário semelhante ao verificado no estudo feito no primeiro semestre.
Entre os pontos turísticos mais visitados por eles, estão o Ibirapuera (citado como o grande atrativo da cidade por 71% dos alunos), avenida Paulista (41%), Masp (31%) e Vila Madalena (19%).
MEMÓRIA PERDIDA
A artista plástica Leda Senise perdeu toda a sua produção de desenhos dos últimos dez anos. Ela esqueceu uma pasta com os originais e um disco rígido do seu computador em um táxi que a transportou da avenida Nove de Julho para a Vila Madalena, em SP, em 14 de dezembro. Brasileira radicada em Londres, Senise retornou para a Inglaterra sem o material. "O carro era um Chevrolet Spin branco e o motorista, um senhor de óculos de uns 50 anos, do Brás", diz.
MEMÓRIA 2
Senise enviou alerta para todas as empresas de táxi de SP. Ainda tem esperança que o motorista faça contato.
CEGONHA DE NATAL
Michelle Alves deu à luz o quarto filho no dia 16. A top entrou no hospital, em Los Angeles, às 11h30. Uma hora depois nascia o garoto, com 3,8 kg, de parto normal sem anestesia. À noite, ela voltava para casa, onde vive com as crianças e o marido, Guy Oseary, empresário de Madonna. Que tem mais um motivo para comemorar: acabou de fechar contrato para empresariar também o U2.
ESTANTE ESTRELADA
João Antonio, secretário de Relações Governamentais, lançou o livro "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", na Livraria Martins Fontes da Paulista. Rui Falcão, presidente do PT, Lurian da Silva, filha de Lula, os secretários municipais Luciana Temer (Assistência Social), Cesar Callegari (Educação) e Jilmar Tatto (Transportes) foram ao evento. O prefeito Fernando Haddad, os vereadores Antonio Donato e José Américo e o senador Eduardo Suplicy também levaram o seu exemplar.
CURTO-CIRCUITO
Termina hoje bazar de Natal mais exposição de obras inéditas do ilustrador Flavio del Carlo. Na rua Alagoas, 356, em Higienópolis.
O livro "Oficina 50+ Labirinto da Criação", de Mariano Mattos Martins, será lançado hoje, às 20h, no Teatro Oficina.
A instalação "Balanços Sobra", de Zanini de Zanine, teve a visitação prorrogada até 30 de janeiro, no Museu da Casa Brasileira, nos Jardins.
A modelo sul-africana Candice Swanepoel tem um verdadeiro caso de amor com o Brasil. Comprou uma casa no Espírito Santo, torce para um time de futebol brasileiro e participa de um projeto social de moda na praia de Itapuã, em Salvador (BA).
Ela decidiu passar o Réveillon em Trancoso. Lugar que escolheu para ser fotografada para a "Vogue Brasil" de janeiro. "Viajei o mundo inteiro, mas é quando estou aqui [Trancoso] que me sinto em casa. A Bahia se tornou meu lugar favorito no mundo", diz a top.
MERCADO NACIONAL
A empreiteira Delta, do empresário Fernando Cavendish, estuda vender a Técnica, subsidiária criada para participar de licitações depois que a companhia "mãe" entrou em recuperação judicial.
SÓ NO PAPEL
De acordo com plano firmado com os credores da Delta, todo o lucro da Técnica seria revertido para o pagamento de suas dívidas. As dificuldades que ela tem encontrado para firmar contratos com o poder público, no entanto, estão tornando a sua existência inútil.
ILUSTRE DESCONHECIDO
Um grupo árabe chegou a negociar a aquisição da empresa. O desconhecimento sobre o Brasil, no entanto, esfriou o ânimo dos potenciais investidores.
SUSPIRO
Na semana passada, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) deu uma esperança para os donos da Delta: o tribunal suspendeu, por meio de liminar, a eficácia de decisão proferida pela CGU (Controladoria-Geral da União) que declarava a empreiteira inidônea para contratar com a administração pública. Como a decisão é provisória, as dificuldades permanecem.
LÍNGUA SOLTA
O idioma não está entre as principais dificuldades listadas pelos estudantes estrangeiros em São Paulo. Aparece em quarto lugar --citada por 11% dos entrevistados em pesquisa da SPTuris (empresa de turismo municipal) com alunos da USP na capital e em outras seis cidades--, atrás de problemas com documentação e burocracia (28%), transporte (25%) e custo de vida (21%).
LÍNGUA SOLTA 2
Foram entrevistadas 1.386 pessoas em cursos de graduação e pós, em novembro. França (15%) e Colômbia (13%) são os países que mais enviam estudantes, cenário semelhante ao verificado no estudo feito no primeiro semestre.
Entre os pontos turísticos mais visitados por eles, estão o Ibirapuera (citado como o grande atrativo da cidade por 71% dos alunos), avenida Paulista (41%), Masp (31%) e Vila Madalena (19%).
MEMÓRIA PERDIDA
A artista plástica Leda Senise perdeu toda a sua produção de desenhos dos últimos dez anos. Ela esqueceu uma pasta com os originais e um disco rígido do seu computador em um táxi que a transportou da avenida Nove de Julho para a Vila Madalena, em SP, em 14 de dezembro. Brasileira radicada em Londres, Senise retornou para a Inglaterra sem o material. "O carro era um Chevrolet Spin branco e o motorista, um senhor de óculos de uns 50 anos, do Brás", diz.
MEMÓRIA 2
Senise enviou alerta para todas as empresas de táxi de SP. Ainda tem esperança que o motorista faça contato.
CEGONHA DE NATAL
Michelle Alves deu à luz o quarto filho no dia 16. A top entrou no hospital, em Los Angeles, às 11h30. Uma hora depois nascia o garoto, com 3,8 kg, de parto normal sem anestesia. À noite, ela voltava para casa, onde vive com as crianças e o marido, Guy Oseary, empresário de Madonna. Que tem mais um motivo para comemorar: acabou de fechar contrato para empresariar também o U2.
ESTANTE ESTRELADA
João Antonio, secretário de Relações Governamentais, lançou o livro "A Democracia e a Democracia em Norberto Bobbio", na Livraria Martins Fontes da Paulista. Rui Falcão, presidente do PT, Lurian da Silva, filha de Lula, os secretários municipais Luciana Temer (Assistência Social), Cesar Callegari (Educação) e Jilmar Tatto (Transportes) foram ao evento. O prefeito Fernando Haddad, os vereadores Antonio Donato e José Américo e o senador Eduardo Suplicy também levaram o seu exemplar.
CURTO-CIRCUITO
Termina hoje bazar de Natal mais exposição de obras inéditas do ilustrador Flavio del Carlo. Na rua Alagoas, 356, em Higienópolis.
O livro "Oficina 50+ Labirinto da Criação", de Mariano Mattos Martins, será lançado hoje, às 20h, no Teatro Oficina.
A instalação "Balanços Sobra", de Zanini de Zanine, teve a visitação prorrogada até 30 de janeiro, no Museu da Casa Brasileira, nos Jardins.
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