FOLHA DE SP - 09/12
Nestes dias, milhares de textos estão sendo escritos, em diversas partes do mun- do, celebrando Nelson Mandela. O amplo reconhecimento e a reverência a ele não ocorrem sem razão.
Mandela tornou-se um dos mais expressivos líderes do nosso tempo, um símbolo à democracia e à igualdade de direitos, ao se dedicar à construção de uma obra política excepcional, que colocou fim ao "nós e eles" que caracterizava a violenta e injusta organização social da África do Sul.
Assim como alguns outros líderes da história, ele teve a consciência de que o ódio e a hostilidade, transformados em instrumento de luta política, aprofundam a intolerância e a perpetuam, impedindo que a nação floresça e se realize em sua integridade e significado.
O impressionante na obra de Mandela não é apenas o que ele foi capaz de fazer, mas como o fez. Foi surpreendente e exemplar a sua posição pacificadora, superando ressentimentos naturalmente existentes sobre um regime que roubou parte importante da sua vida, encarcerando-o injustamente por quase três décadas, e dominou o seu país, dividindo-o em privilégios e castas, opressores e oprimidos, brancos e negros, ricos e pobres, mantendo milhares subjugados pelo execrável apartheid.
Em sua saga, ele ultrapassou os limites do seu país e ensinou ao mundo. Ninguém pôde ficar indiferente à sua incomparável generosidade. Diante dela tombaram adversários incrédulos e aliados de toda vida, movidos, naquele primeiro momento de ascensão, por um estéril --embora compreensível-- revanchismo.
Por isso, o significado de Mandela é ainda maior.
É absolutamente admirável o sentido que ele soube dar ao exercício da política, libertando-a da conflagração tradicional que alimenta o dissenso e também das suas obviedades e mesquinharias.
Seu amplo olhar ultrapassava o curto horizonte das circunstâncias. Cerziu, pacientemente, naquele cubículo sob grades, durante anos a fio, uma consciência clara acerca do futuro. Ele sabia que o seu país só seria capaz de abrigar igualmente todos os seus concidadãos se fossem rompidas poderosas amarras e superadas divisões abismais que fraturaram durante tanto tempo a alma sul-africana. Ele conseguiu. E nos deixou o mais importante legado: a política a serviço do bem comum, a que o mundo inteiro se curva agora.
São especialmente comoventes as celebrações que ocorrem nas ruas da África do Sul. Elas reavivam em cada um de nós uma rara confiança na política, como instrumento transformador da sociedade e habilitador da plena cidadania.
Num mundo em que ainda há espaço para a tirania, onde rotineiramente a conveniência se sobrepõe a valores, o exemplo de Mandela é a exceção que enobrece a humanidade.
segunda-feira, dezembro 09, 2013
Pensando em 2022 - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 09/12
Lula prevê que o PT ainda estará no poder em 2022, na comemoração do segundo centenário da Independência. Como se sabe, o ex-presidente que imagina ter transformado o Brasil num país maravilhoso é extremamente confiante em seu poder de encantar as massas, habilidade da qual já deu provas suficientes. Mesmo assim, considerando que as perspectivas de curto e médio prazos na área da economia não são entusiasmantes e colocam em risco a possibilidade de sustentar por muito tempo o sentimento de prosperidade que bem ou mal ainda perdura e resulta na ampla aprovação popular ao governo petista, fica no ar a pergunta: afinal, o que Lula tem em mente quando está "pensando no Brasil de 2022", como declarou na semana passada, na presença de Dilma Rousseff, ao receber seu 26.º título de doutor honoris causa, na Universidade Federal do ABC?
Populista competente e estritamente pragmático, como na verdade sempre foi, desde os tempos de sua militância sindical, Lula sabe muito bem que é preciso dizer o que o povo quer ouvir. Bolsa Família e promoção de 40 milhões de brasileiros à classe média já não são mais novidade. Ao contrário, são conquistas a esta altura com toda razão consideradas direito adquirido. O brasileiro quer mais. Mas quer, sobretudo, garantir o que já conquistou. E ninguém, nem o mais otimista manipulador de índices econômicos ou formulador de contabilidade criativa põe a mão no fogo pelo que se pode esperar mais à frente.
Nas voltas que o mundo dá, a surpreendente e ruidosa mudança de comportamento de Lula e do PT a respeito do mensalão pode fornecer uma pista sobre o que ele tem na cabeça quando pensa no futuro.
Apesar de arreganhos esporádicos e isolados durante todo o longo processo de julgamento do mensalão e o ano inteiro que precedeu à decretação das primeiras prisões e o encarceramento de José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares (os demais para eles não interessam), Lula e seu partido (incluindo, principalmente, a equipe do governo Dilma), mantiveram uma atitude rigorosamente discreta a respeito do processo. Era um comportamento que parecia se justificar pela suposição de que, às vésperas do próximo pleito presidencial, era mais prudente fingir que nada estava acontecendo, varrer o lixo para debaixo do tapete, de modo a não contaminar a campanha pela reeleição de Dilma. Afinal, o povo tem memória curta e quanto mais cedo parar de falar de mensalão, melhor.
Mas, a partir de 15 de novembro, quando a trinca de líderes petistas foi colocada atrás das grades, tudo mudou. Talvez contrariando o que Lula e o comando partidário deles esperavam, Dirceu e Genoino, declarando-se "presos políticos", promoveram uma ruidosa espetacularização política do episódio, em que não faltaram a exibição de punhos revolucionariamente cerrados, além da exploração das condições de saúde de Genoino. Foi o que bastou para botar fogo na militância, que explodiu nas redes sociais em manifestações de indignados protestos contra a "injustiça" cometida por uma Suprema Corte em que 8 de seus 11 integrantes foram nomeados pelos governos petistas.
Até então, o assunto mensalão estava oficialmente interditado no PT. Agora, virou tema do 5.º Congresso do partido que se reunirá a partir do dia 12 em Brasília. Com a participação de Lula, haverá um "ato de desagravo" aos "companheiros injustiçados". Será o partido no poder declarando guerra a um dos Poderes do Estado.
A guerra, contudo, terá um objetivo mais amplo e difuso, um inimigo mais "poderoso", normalmente referido como "eles" ou a "elite", onde se enquadram a "mídia de direita" os "detentores do poder econômico" (exceto, é claro, os empresários amigos escolhidos pelo governo para se tornarem "campeões") e todos aqueles que não são petistas.
Esses são o inimigo. E essa gente má pode muito mais do que condenar injustamente companheiros amigos do povo. Pode sabotar a economia, acabar com o Bolsa Família e fazer muitas outras malvadezas. Contra essa gente má é que Lula está pensando em 2022. É mais do mesmo, claro. Mas, até agora, funcionou.
Lula prevê que o PT ainda estará no poder em 2022, na comemoração do segundo centenário da Independência. Como se sabe, o ex-presidente que imagina ter transformado o Brasil num país maravilhoso é extremamente confiante em seu poder de encantar as massas, habilidade da qual já deu provas suficientes. Mesmo assim, considerando que as perspectivas de curto e médio prazos na área da economia não são entusiasmantes e colocam em risco a possibilidade de sustentar por muito tempo o sentimento de prosperidade que bem ou mal ainda perdura e resulta na ampla aprovação popular ao governo petista, fica no ar a pergunta: afinal, o que Lula tem em mente quando está "pensando no Brasil de 2022", como declarou na semana passada, na presença de Dilma Rousseff, ao receber seu 26.º título de doutor honoris causa, na Universidade Federal do ABC?
Populista competente e estritamente pragmático, como na verdade sempre foi, desde os tempos de sua militância sindical, Lula sabe muito bem que é preciso dizer o que o povo quer ouvir. Bolsa Família e promoção de 40 milhões de brasileiros à classe média já não são mais novidade. Ao contrário, são conquistas a esta altura com toda razão consideradas direito adquirido. O brasileiro quer mais. Mas quer, sobretudo, garantir o que já conquistou. E ninguém, nem o mais otimista manipulador de índices econômicos ou formulador de contabilidade criativa põe a mão no fogo pelo que se pode esperar mais à frente.
Nas voltas que o mundo dá, a surpreendente e ruidosa mudança de comportamento de Lula e do PT a respeito do mensalão pode fornecer uma pista sobre o que ele tem na cabeça quando pensa no futuro.
Apesar de arreganhos esporádicos e isolados durante todo o longo processo de julgamento do mensalão e o ano inteiro que precedeu à decretação das primeiras prisões e o encarceramento de José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares (os demais para eles não interessam), Lula e seu partido (incluindo, principalmente, a equipe do governo Dilma), mantiveram uma atitude rigorosamente discreta a respeito do processo. Era um comportamento que parecia se justificar pela suposição de que, às vésperas do próximo pleito presidencial, era mais prudente fingir que nada estava acontecendo, varrer o lixo para debaixo do tapete, de modo a não contaminar a campanha pela reeleição de Dilma. Afinal, o povo tem memória curta e quanto mais cedo parar de falar de mensalão, melhor.
Mas, a partir de 15 de novembro, quando a trinca de líderes petistas foi colocada atrás das grades, tudo mudou. Talvez contrariando o que Lula e o comando partidário deles esperavam, Dirceu e Genoino, declarando-se "presos políticos", promoveram uma ruidosa espetacularização política do episódio, em que não faltaram a exibição de punhos revolucionariamente cerrados, além da exploração das condições de saúde de Genoino. Foi o que bastou para botar fogo na militância, que explodiu nas redes sociais em manifestações de indignados protestos contra a "injustiça" cometida por uma Suprema Corte em que 8 de seus 11 integrantes foram nomeados pelos governos petistas.
Até então, o assunto mensalão estava oficialmente interditado no PT. Agora, virou tema do 5.º Congresso do partido que se reunirá a partir do dia 12 em Brasília. Com a participação de Lula, haverá um "ato de desagravo" aos "companheiros injustiçados". Será o partido no poder declarando guerra a um dos Poderes do Estado.
A guerra, contudo, terá um objetivo mais amplo e difuso, um inimigo mais "poderoso", normalmente referido como "eles" ou a "elite", onde se enquadram a "mídia de direita" os "detentores do poder econômico" (exceto, é claro, os empresários amigos escolhidos pelo governo para se tornarem "campeões") e todos aqueles que não são petistas.
Esses são o inimigo. E essa gente má pode muito mais do que condenar injustamente companheiros amigos do povo. Pode sabotar a economia, acabar com o Bolsa Família e fazer muitas outras malvadezas. Contra essa gente má é que Lula está pensando em 2022. É mais do mesmo, claro. Mas, até agora, funcionou.
Menos medo no câmbio EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 09/12
O Banco Central (BC), desde que conseguiu se desgarrar, pelo menos parcialmente, das orientações de política monetária (criativas, porém perigosas) do governo, tem tomado decisões corretas e oportunamente anunciadas. Da autoridade monetária, o mínimo que se espera é a capacidade de leitura dos cenários interno e externo para a tomada de decisões. Mais do que isso, é fundamental que convença a todos de que tomou a decisão certa e tem o controle da situação.
O que explica a quase desesperada tentativa dos que atuam no mercado financeiro de traduzir projeções do BC para o futuro próximo são as operações do mercado de juros de médio e longo prazos. Contratos de milhões são firmados agora para valer por um ano ou mais. O cálculo menos avisado das taxas de juros pode representar perdas enormes. E esse é só um exemplo do que se passa no mercado de crédito, um dos principais motores do mundo dos negócios.
O bom funcionamento desse setor está na base do crescimento da economia e da geração de empregos, embora isso nem sempre seja percebido por certos economistas e políticos eventualmente escolhidos para cargos de comando da economia. O problema é que, se fosse fácil ler com precisão os cenários em todas as circunstâncias, nem seria preciso contar com economistas bem preparados e experientes.
É o caso dos perigos do câmbio, que, muitas vezes, exigem mais cautela do que pressa. É mais do que sabido - e os últimos dados do PIB e do desemprego nos EUA atestam - que a maior economia do planeta não apenas não acabou como está em recuperação. E isso tem o lado perigoso de levar o banco central de lá a suspender o programa de irrigação monetária, que resulta na compra mensal de US$ 85 bilhões de títulos em poder do mercado, criado para ajudar o país a sair mais depressa da crise. É alteração que vai, de repente, valorizar o dólar, aumentar os juros pagos pelos bônus e atrair para o Tesouro norte-americano capitais do mundo inteiro.
O impacto dessa mudança sobre a inflação no Brasil é evidente, não só pelo aumento do custo e da eventual escassez do crédito externo, como pelo encarecimento das importações de produtos e insumos. Quando isso vai começar? Essa é a pergunta de US$ 1 milhão, para a qual nosso BC tem tido a prudência de reconhecer que desconhece a resposta. Mas os mercados de crédito e de câmbio brasileiros, ou de qualquer país, não podem se dar ao luxo de esperar que esse cenário se configure. Nessa hora, a incerteza, que nesses mercados se traduz por risco, aumenta e antecipa indesejáveis altas de preços e de juros.
Por isso mesmo, é acertada a decisão anunciada na semana passada pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de manter em 2014 o esquema de proteção cambial acionado desde o fim de agosto. Trata-se da garantia de rações diárias de dólares, por meio de leilões diários de swaps cambiais, que passaram a ser realizados de segunda a quinta-feira. E, às sextas-feiras, o BC promove uma injeção no mercado à vista, com ofertas públicas de US$ 500 milhões em cada leilão. Já na quinta-feira, o mercado se acalmou, quebrando uma sequência de sete altas do dólar. Só comprova que, se é impossível evitar decisões soberanas do exterior, seria inaceitável não se antecipar a elas.
O que explica a quase desesperada tentativa dos que atuam no mercado financeiro de traduzir projeções do BC para o futuro próximo são as operações do mercado de juros de médio e longo prazos. Contratos de milhões são firmados agora para valer por um ano ou mais. O cálculo menos avisado das taxas de juros pode representar perdas enormes. E esse é só um exemplo do que se passa no mercado de crédito, um dos principais motores do mundo dos negócios.
O bom funcionamento desse setor está na base do crescimento da economia e da geração de empregos, embora isso nem sempre seja percebido por certos economistas e políticos eventualmente escolhidos para cargos de comando da economia. O problema é que, se fosse fácil ler com precisão os cenários em todas as circunstâncias, nem seria preciso contar com economistas bem preparados e experientes.
É o caso dos perigos do câmbio, que, muitas vezes, exigem mais cautela do que pressa. É mais do que sabido - e os últimos dados do PIB e do desemprego nos EUA atestam - que a maior economia do planeta não apenas não acabou como está em recuperação. E isso tem o lado perigoso de levar o banco central de lá a suspender o programa de irrigação monetária, que resulta na compra mensal de US$ 85 bilhões de títulos em poder do mercado, criado para ajudar o país a sair mais depressa da crise. É alteração que vai, de repente, valorizar o dólar, aumentar os juros pagos pelos bônus e atrair para o Tesouro norte-americano capitais do mundo inteiro.
O impacto dessa mudança sobre a inflação no Brasil é evidente, não só pelo aumento do custo e da eventual escassez do crédito externo, como pelo encarecimento das importações de produtos e insumos. Quando isso vai começar? Essa é a pergunta de US$ 1 milhão, para a qual nosso BC tem tido a prudência de reconhecer que desconhece a resposta. Mas os mercados de crédito e de câmbio brasileiros, ou de qualquer país, não podem se dar ao luxo de esperar que esse cenário se configure. Nessa hora, a incerteza, que nesses mercados se traduz por risco, aumenta e antecipa indesejáveis altas de preços e de juros.
Por isso mesmo, é acertada a decisão anunciada na semana passada pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de manter em 2014 o esquema de proteção cambial acionado desde o fim de agosto. Trata-se da garantia de rações diárias de dólares, por meio de leilões diários de swaps cambiais, que passaram a ser realizados de segunda a quinta-feira. E, às sextas-feiras, o BC promove uma injeção no mercado à vista, com ofertas públicas de US$ 500 milhões em cada leilão. Já na quinta-feira, o mercado se acalmou, quebrando uma sequência de sete altas do dólar. Só comprova que, se é impossível evitar decisões soberanas do exterior, seria inaceitável não se antecipar a elas.
Selvageria nos estádios - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 09/12
A briga de torcidas, ontem, em Joinville não foi a primeira; o que é preciso fazer para que ela seja a última?
Mais um episódio que envergonha profundamente o futebol brasileiro ocorreu na tarde de ontem, quando uma briga entre torcedores do Atlético Paranaense e do Vasco da Gama, em Joinville (SC), resultou em três torcedores gravemente feridos. O que deveria deixar todo brasileiro perplexo é o fato de confrontos em larga escala como o observado ontem não serem novidade, e nem exclusividade de estado algum, e de tão pouco ter sido feito para eliminar essa chaga do país que já está sob o olhar de todo o mundo esportivo por causa da Copa do Mundo.
O que é considerada a primeira morte ligada ao futebol no país ocorreu em 1988. De lá para cá o problema só piorou, e o Paraná não foi poupado. O caso mais recente no estado ocorreu em julho de 2012: Diego Goncieiro, 16 anos, membro da Fúria Independente, torcida organizada do Paraná Clube, morreu com um tiro no rosto, disparado supostamente por membros da torcida Os Fanáticos, do Atlético Paranaense.
A tragédia de ontem foi facilitada por um entendimento entre a Polícia Militar e o Ministério Público catarinenses, segundo o qual a partida era um evento particular e, por isso, a segurança deveria ser feita por forças privadas. No entanto, ainda que houvesse a presença policial costumeira, sabe-se que muitas vezes ela não é suficiente para inibir os brigões, que além disso passaram a adotar a estratégia de marcar brigas em locais distantes dos estádios e do aparato policial que costuma estar mobilizado para as partidas. Foi assim que os palmeirenses André Lezo e Guilherme Moreira morreram, em 2012, em um confronto entre as organizadas Mancha Alviverde e Gaviões da Fiel na zona norte de São Paulo, muito longe do Pacaembu, onde o Corinthians jogaria naquele dia.
Um traço comum em praticamente todos os casos de brigas de torcedores é a presença das torcidas organizadas. Há muito se sabe que esses grupos servem de abrigo para pessoas muito mais interessadas em criar confusão e agredir torcedores rivais que em apoiar seu time do coração. La Doce, livro do repórter argentino Gustavo Grabia, mostra a que ponto uma torcida organizada pode chegar. O nome da obra remete à principal organizada do Boca Juniors e refaz a história do grupo, que hoje se tornou praticamente uma máfia envolvida inclusive com o tráfico de drogas. Aliás, o modelo argentino dos barras bravas, verdadeiras milícias disfarçadas de torcidas organizadas, está lentamente sendo importado para o Brasil, como mostraram jornalistas da Rádio Gaúcha, de Porto Alegre, que revelaram os bastidores de torcidas de Grêmio e Internacional.
Essa irracionalidade precisa parar. Mas, por mais que o primeiro impulso seja pedir a dissolução pura e simples das organizadas, essa solução não nos parece a melhor, pois desrespeitaria o direito à associação. As organizadas não precisam ser extintas, mas precisam passar por uma limpeza geral e urgente. É um processo que deveria começar pelas próprias torcidas. Não basta expulsar os membros desordeiros (nas poucas ocasiões em que isso acontece), é preciso entregá-los à polícia. Mas, quando se observa que muitas das brigas contam com a participação da própria diretoria das torcidas, diminuem as esperanças de uma renovação interna.
Também é imprescindível repensar a relação íntima que existe entre essas torcidas e suas diretorias, que prestigiam as organizadas por piores que sejam os atos praticados por elas. Apesar de situações esporádicas em que os cartolas falam grosso com as organizadas, o histórico dos clubes paranaenses é de ampla camaradagem entre diretoria e torcidas. Mas os clubes precisam escolher: querem privilegiar desordeiros uniformizados ou as famílias que hoje fogem dos estádios?”
Por último, é preciso colocar em prática o Estatuto do Torcedor, que, em seu artigo 39, determina punições às torcidas organizadas cujos membros causarem tumultos, e, em seu artigo 41-B, pune torcedores desordeiros com a proibição de ir aos estádios, com a obrigatoriedade de se apresentar à polícia ou à Justiça durante a realização de partidas. No entanto, não apenas o número de torcedores suspensos é infinitamente inferior à quantidade de envolvidos em tumultos, como também a desobediência a decisões judiciais é generalizada e admitida até por federações estaduais de futebol. Na era das câmeras e das mídias sociais, em que a identificação dos desordeiros é mais fácil que nunca, isso é inaceitável e revela uma falha gritante do poder público.
A selvageria nos estádios mancha uma paixão nacional e afasta aqueles que só desejam incentivar seu time, em um círculo vicioso que atingirá seu ápice quando as arquibancadas forem totalmente dominadas pelos desordeiros. Os torcedores sinceros são o elo mais fraco deste processo de barbarização dos estádios. Sem ação firme dos clubes e do poder público, só podemos esperar a próxima tragédia.
A briga de torcidas, ontem, em Joinville não foi a primeira; o que é preciso fazer para que ela seja a última?
Mais um episódio que envergonha profundamente o futebol brasileiro ocorreu na tarde de ontem, quando uma briga entre torcedores do Atlético Paranaense e do Vasco da Gama, em Joinville (SC), resultou em três torcedores gravemente feridos. O que deveria deixar todo brasileiro perplexo é o fato de confrontos em larga escala como o observado ontem não serem novidade, e nem exclusividade de estado algum, e de tão pouco ter sido feito para eliminar essa chaga do país que já está sob o olhar de todo o mundo esportivo por causa da Copa do Mundo.
O que é considerada a primeira morte ligada ao futebol no país ocorreu em 1988. De lá para cá o problema só piorou, e o Paraná não foi poupado. O caso mais recente no estado ocorreu em julho de 2012: Diego Goncieiro, 16 anos, membro da Fúria Independente, torcida organizada do Paraná Clube, morreu com um tiro no rosto, disparado supostamente por membros da torcida Os Fanáticos, do Atlético Paranaense.
A tragédia de ontem foi facilitada por um entendimento entre a Polícia Militar e o Ministério Público catarinenses, segundo o qual a partida era um evento particular e, por isso, a segurança deveria ser feita por forças privadas. No entanto, ainda que houvesse a presença policial costumeira, sabe-se que muitas vezes ela não é suficiente para inibir os brigões, que além disso passaram a adotar a estratégia de marcar brigas em locais distantes dos estádios e do aparato policial que costuma estar mobilizado para as partidas. Foi assim que os palmeirenses André Lezo e Guilherme Moreira morreram, em 2012, em um confronto entre as organizadas Mancha Alviverde e Gaviões da Fiel na zona norte de São Paulo, muito longe do Pacaembu, onde o Corinthians jogaria naquele dia.
Um traço comum em praticamente todos os casos de brigas de torcedores é a presença das torcidas organizadas. Há muito se sabe que esses grupos servem de abrigo para pessoas muito mais interessadas em criar confusão e agredir torcedores rivais que em apoiar seu time do coração. La Doce, livro do repórter argentino Gustavo Grabia, mostra a que ponto uma torcida organizada pode chegar. O nome da obra remete à principal organizada do Boca Juniors e refaz a história do grupo, que hoje se tornou praticamente uma máfia envolvida inclusive com o tráfico de drogas. Aliás, o modelo argentino dos barras bravas, verdadeiras milícias disfarçadas de torcidas organizadas, está lentamente sendo importado para o Brasil, como mostraram jornalistas da Rádio Gaúcha, de Porto Alegre, que revelaram os bastidores de torcidas de Grêmio e Internacional.
Essa irracionalidade precisa parar. Mas, por mais que o primeiro impulso seja pedir a dissolução pura e simples das organizadas, essa solução não nos parece a melhor, pois desrespeitaria o direito à associação. As organizadas não precisam ser extintas, mas precisam passar por uma limpeza geral e urgente. É um processo que deveria começar pelas próprias torcidas. Não basta expulsar os membros desordeiros (nas poucas ocasiões em que isso acontece), é preciso entregá-los à polícia. Mas, quando se observa que muitas das brigas contam com a participação da própria diretoria das torcidas, diminuem as esperanças de uma renovação interna.
Também é imprescindível repensar a relação íntima que existe entre essas torcidas e suas diretorias, que prestigiam as organizadas por piores que sejam os atos praticados por elas. Apesar de situações esporádicas em que os cartolas falam grosso com as organizadas, o histórico dos clubes paranaenses é de ampla camaradagem entre diretoria e torcidas. Mas os clubes precisam escolher: querem privilegiar desordeiros uniformizados ou as famílias que hoje fogem dos estádios?”
Por último, é preciso colocar em prática o Estatuto do Torcedor, que, em seu artigo 39, determina punições às torcidas organizadas cujos membros causarem tumultos, e, em seu artigo 41-B, pune torcedores desordeiros com a proibição de ir aos estádios, com a obrigatoriedade de se apresentar à polícia ou à Justiça durante a realização de partidas. No entanto, não apenas o número de torcedores suspensos é infinitamente inferior à quantidade de envolvidos em tumultos, como também a desobediência a decisões judiciais é generalizada e admitida até por federações estaduais de futebol. Na era das câmeras e das mídias sociais, em que a identificação dos desordeiros é mais fácil que nunca, isso é inaceitável e revela uma falha gritante do poder público.
A selvageria nos estádios mancha uma paixão nacional e afasta aqueles que só desejam incentivar seu time, em um círculo vicioso que atingirá seu ápice quando as arquibancadas forem totalmente dominadas pelos desordeiros. Os torcedores sinceros são o elo mais fraco deste processo de barbarização dos estádios. Sem ação firme dos clubes e do poder público, só podemos esperar a próxima tragédia.
A lei está sendo cumprida - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 09/12
São marcados pela normalidade os desdobramentos da execução das penas do mensalão e outros fatos relacionados, como as renúncias dos deputados José Genoino e Valdemar Costa Neto. Pressionados pelo desgaste de um processo de cassação, os parlamentares preferiram desistir dos mandatos. Prevê-se que outros políticos sigam o mesmo caminho, desfrutando a seguir de aposentadorias precoces. É previsível que a remuneração permanente de condenados provoque reações. Os ganhos de cidadãos comuns, que trabalham normalmente até cumprir os prazos legais para se aposentar, estão longe dos valores que os ex-deputados receberão. Mas é preciso admitir que também nesses casos cumpre-se o que a lei determina, apesar de excessos, como a manutenção de planos de saúde fartamente subsidiados pelos cofres públicos, inclusive para dependentes.
Renúncias são parte da estratégia dos atingidos pelo julgamento. O importante é que a delicada etapa da execução penal e seus efeitos paralelos têm evoluído sem maiores sobressaltos. Mesmo que as iniciativas de alguns réus ainda provoquem questionamentos, como os pedidos inusitados de trabalho externo, devem ser respeitadas as tentativas dos prisioneiros de reduzir o impacto das restrições em suas vidas. Ressalte-se, em relação às polêmicas criadas em torno de pedidos encaminhados à Justiça, que o regime semiaberto não é a garantia compulsória e imediata de que os detentos cumprirão parte da penas em liberdade.
Dissipam-se igualmente no momento, passado o primeiro impacto das condenações, as dúvidas iniciais sobre a necessidade de recolher os réus à prisão, considerando-se um argumento recorrente de que tal medida representaria um rigor do qual o Supremo poderia abster-se. Também nesse caso, o STF sujeitou-se estritamente à legalidade e demonstrou à sociedade que os condenados não terão tratamento privilegiado. As penas, definidas a partir do julgamento da maioria dos ministros, são proporcionais aos delitos cometidos. Se preveem prisão, que tal determinação seja cumprida pelo juiz encarregado de executar a sentença.
As decisões dos presos que abandonaram seus cargos interessam aos próprios renunciantes e a todo o Congresso, que deve aprender com os gestos. É um bom sinal que a atividade parlamentar sob suspeita seja interrompida pela deliberação voluntária dos acusados, como ocorreu agora. Mas é preciso mais. É dever do Legislativo aperfeiçoar os mecanismos de controle, para que a depuração da política se faça pela prevenção e não só pelas renúncias de políticos acossados.
São marcados pela normalidade os desdobramentos da execução das penas do mensalão e outros fatos relacionados, como as renúncias dos deputados José Genoino e Valdemar Costa Neto. Pressionados pelo desgaste de um processo de cassação, os parlamentares preferiram desistir dos mandatos. Prevê-se que outros políticos sigam o mesmo caminho, desfrutando a seguir de aposentadorias precoces. É previsível que a remuneração permanente de condenados provoque reações. Os ganhos de cidadãos comuns, que trabalham normalmente até cumprir os prazos legais para se aposentar, estão longe dos valores que os ex-deputados receberão. Mas é preciso admitir que também nesses casos cumpre-se o que a lei determina, apesar de excessos, como a manutenção de planos de saúde fartamente subsidiados pelos cofres públicos, inclusive para dependentes.
Renúncias são parte da estratégia dos atingidos pelo julgamento. O importante é que a delicada etapa da execução penal e seus efeitos paralelos têm evoluído sem maiores sobressaltos. Mesmo que as iniciativas de alguns réus ainda provoquem questionamentos, como os pedidos inusitados de trabalho externo, devem ser respeitadas as tentativas dos prisioneiros de reduzir o impacto das restrições em suas vidas. Ressalte-se, em relação às polêmicas criadas em torno de pedidos encaminhados à Justiça, que o regime semiaberto não é a garantia compulsória e imediata de que os detentos cumprirão parte da penas em liberdade.
Dissipam-se igualmente no momento, passado o primeiro impacto das condenações, as dúvidas iniciais sobre a necessidade de recolher os réus à prisão, considerando-se um argumento recorrente de que tal medida representaria um rigor do qual o Supremo poderia abster-se. Também nesse caso, o STF sujeitou-se estritamente à legalidade e demonstrou à sociedade que os condenados não terão tratamento privilegiado. As penas, definidas a partir do julgamento da maioria dos ministros, são proporcionais aos delitos cometidos. Se preveem prisão, que tal determinação seja cumprida pelo juiz encarregado de executar a sentença.
As decisões dos presos que abandonaram seus cargos interessam aos próprios renunciantes e a todo o Congresso, que deve aprender com os gestos. É um bom sinal que a atividade parlamentar sob suspeita seja interrompida pela deliberação voluntária dos acusados, como ocorreu agora. Mas é preciso mais. É dever do Legislativo aperfeiçoar os mecanismos de controle, para que a depuração da política se faça pela prevenção e não só pelas renúncias de políticos acossados.
Overdose de estímulos - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 09/12
A economia sempre ocupa lugar de destaque na agenda das campanhas eleitorais. Em 2002, à medida que a candidatura de Lula se fortalecia nas pesquisas, os mercados reagiram negativamente, o dólar passou a subir e a pressionar a inflação. O candidato do PT, então, foi forçado a se comprometer, por meio da Carta ao Povo Brasileiro, a manter as bases da política econômica de FH — tripé responsabilidade fiscal, metas de inflação e câmbio flutuante, e, além disso, respeito aos contratos. Deu certo, porque a dupla Antonio Palocci (Fazenda) e Henrique Meirelles (Banco Central) pôde aplicar o receituário clássico de estabilização da economia: controle de gastos e elevação dos juros.
O tema da economia voltaria com força na campanha de 2010, na esteira do esforço para que o impacto interno da crise mundial deflagrada em 2008 a partir de Wall Street fosse o mínimo possível. O assunto retornou ao debate de maneira favorável à eleição da candidata do PT à sucessão de Lula, a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff. Os impactos da crise foram compensados por uma política de ampliação de gastos, como devia ser, e as turbulências terminaram sendo em parte contidas. A economia reagiu, o PIB naquele ano cresceu 7,5%, e Dilma foi eleita.
Em 2014, o assunto voltará ao debate político-eleitoral. Na verdade, como a campanha foi antecipada pelo próprio PT, já se trava acesa discussão sobre a economia. E desta vez o tema é ingrato para o projeto petista de reeleição de Dilma, favorita a ganhar em outubro. Isso porque, escudada no pretexto do combate à crise — “política anticíclica”—, a presidente Dilma, coerente com sua visão “desenvolvimentista” de mundo, manteve elevados os gastos públicos e ainda fez disparar a dívida pública, pelo constante lançamento de títulos do Tesouro, para injetar dinheiro em bancos públicos (BNDES, Banco do Brasil, Caixa). Esta política, se ministrada com os devidos cuidados, evitaria maiores pressões inflacionárias e outros efeitos colaterais. Tornada permanente, no entanto, injetou uma overdose de estímulos, e os resultados negativos estão aí, visíveis.
Como foram excessivos os incentivos ao crédito, somados a aumentos salariais acima da produtividade, tudo junto elevou a pressão sobre a inflação, quase que engessada pouco abaixo dos 6%, distante da meta de 4,5%. Não houve alternativa a não ser o Banco Central voltar a elevar os juros.
Faliu, portanto, o projeto de retomada do crescimento — que continua anêmico, abaixo dos 2,5% — pela via do consumo. A presidente se convenceu, ao menos, da necessidade de atrair o setor privado, para ativar os investimentos na precária infraestrutura do país. Ela e o PT esperam que os primeiros resultados já venham na campanha do ano que vem.
Mas a herança maldita do voluntarismo está posta: desequilíbrio externo, superávit primário muito baixo, contas públicas sob desconfiança, dadas as mágicas da “contabilidade criativa” para embonecar os números, e o consequente perigo de rebaixamento do Brasil pelas agências internacionais de avaliação de risco. São assuntos indigestos para a candidata.
A economia sempre ocupa lugar de destaque na agenda das campanhas eleitorais. Em 2002, à medida que a candidatura de Lula se fortalecia nas pesquisas, os mercados reagiram negativamente, o dólar passou a subir e a pressionar a inflação. O candidato do PT, então, foi forçado a se comprometer, por meio da Carta ao Povo Brasileiro, a manter as bases da política econômica de FH — tripé responsabilidade fiscal, metas de inflação e câmbio flutuante, e, além disso, respeito aos contratos. Deu certo, porque a dupla Antonio Palocci (Fazenda) e Henrique Meirelles (Banco Central) pôde aplicar o receituário clássico de estabilização da economia: controle de gastos e elevação dos juros.
O tema da economia voltaria com força na campanha de 2010, na esteira do esforço para que o impacto interno da crise mundial deflagrada em 2008 a partir de Wall Street fosse o mínimo possível. O assunto retornou ao debate de maneira favorável à eleição da candidata do PT à sucessão de Lula, a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff. Os impactos da crise foram compensados por uma política de ampliação de gastos, como devia ser, e as turbulências terminaram sendo em parte contidas. A economia reagiu, o PIB naquele ano cresceu 7,5%, e Dilma foi eleita.
Em 2014, o assunto voltará ao debate político-eleitoral. Na verdade, como a campanha foi antecipada pelo próprio PT, já se trava acesa discussão sobre a economia. E desta vez o tema é ingrato para o projeto petista de reeleição de Dilma, favorita a ganhar em outubro. Isso porque, escudada no pretexto do combate à crise — “política anticíclica”—, a presidente Dilma, coerente com sua visão “desenvolvimentista” de mundo, manteve elevados os gastos públicos e ainda fez disparar a dívida pública, pelo constante lançamento de títulos do Tesouro, para injetar dinheiro em bancos públicos (BNDES, Banco do Brasil, Caixa). Esta política, se ministrada com os devidos cuidados, evitaria maiores pressões inflacionárias e outros efeitos colaterais. Tornada permanente, no entanto, injetou uma overdose de estímulos, e os resultados negativos estão aí, visíveis.
Como foram excessivos os incentivos ao crédito, somados a aumentos salariais acima da produtividade, tudo junto elevou a pressão sobre a inflação, quase que engessada pouco abaixo dos 6%, distante da meta de 4,5%. Não houve alternativa a não ser o Banco Central voltar a elevar os juros.
Faliu, portanto, o projeto de retomada do crescimento — que continua anêmico, abaixo dos 2,5% — pela via do consumo. A presidente se convenceu, ao menos, da necessidade de atrair o setor privado, para ativar os investimentos na precária infraestrutura do país. Ela e o PT esperam que os primeiros resultados já venham na campanha do ano que vem.
Mas a herança maldita do voluntarismo está posta: desequilíbrio externo, superávit primário muito baixo, contas públicas sob desconfiança, dadas as mágicas da “contabilidade criativa” para embonecar os números, e o consequente perigo de rebaixamento do Brasil pelas agências internacionais de avaliação de risco. São assuntos indigestos para a candidata.
Solidariedade enganosa - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 09/12
Os critérios da pesquisa não são nada complicados. Pergunta-se ao entrevistado se, durante o mês anterior, fez alguma doação para instituições de caridade, dedicou tempo livre a ações de voluntariado ou ajudou algum desconhecido.
O Brasil vem caindo seguidamente nessa classificação de solidariedade internacional, realizado pela ONG britânica CAF (Charities Aid Foundation), em parceria com o instituto Gallup. Tendo já se situado na 54ª posição, caiu sucessivamente para 76º e 85º lugares, ficando agora em 91º, dentre os 135 países pesquisados.
O dado não condiz, evidentemente, com a imagem de calor humano e generosidade que os brasileiros construíram a respeito de si mesmos --e que se anaboliza com a proximidade da Copa do Mundo.
Na América Latina, o Brasil é o país com a pior colocação, ao lado da Venezuela. Talvez existam bons motivos para o fenômeno. Com menos pessoas vivendo na pobreza, diz a diretora-executiva do Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social), diminui a sensação de que o auxílio financeiro seja imperioso.
Vale lembrar, ademais, as frequentes notícias envolvendo políticos de vários matizes, mentores de instituições que de filantrópicas têm apenas o nome.
Considerações dessa ordem não justificam um fenômeno que exigiria pesquisas para ser esclarecido. De resto, não só a economia ou os governos interferem no resultado.
Se, no geral, os EUA lideram esse "ranking da solidariedade", no item das contribuições em dinheiro o primeiro lugar cabe a Mianmar. No item da ajuda a estranhos, Qatar, Líbia, Colômbia e Senegal estão nas primeiras posições, logo atrás dos EUA. Em matéria de tempo dedicado ao voluntariado, surge no topo o Turcomenistão.
Fatores religiosos e culturais podem influir tanto o comportamento dos entrevistados quanto o modo de interpretar a pergunta. Comunidades isoladas podem ser solidárias ao extremo sem que a ajuda a desconhecidos ocorra. Nas grandes cidades, insegurança, mobilidade e jornada de trabalho podem frustrar as melhores intenções.
Como em toda estatística, o significado da pesquisa dilui-se à medida que se ramifica para cada realidade particular. Embora mereça exame mais detalhado, o caso brasileiro sem dúvida impõe a necessidade de virtudes --humildade e autocrítica-- nem sempre praticadas em tempos de ufanismo.
Os critérios da pesquisa não são nada complicados. Pergunta-se ao entrevistado se, durante o mês anterior, fez alguma doação para instituições de caridade, dedicou tempo livre a ações de voluntariado ou ajudou algum desconhecido.
O Brasil vem caindo seguidamente nessa classificação de solidariedade internacional, realizado pela ONG britânica CAF (Charities Aid Foundation), em parceria com o instituto Gallup. Tendo já se situado na 54ª posição, caiu sucessivamente para 76º e 85º lugares, ficando agora em 91º, dentre os 135 países pesquisados.
O dado não condiz, evidentemente, com a imagem de calor humano e generosidade que os brasileiros construíram a respeito de si mesmos --e que se anaboliza com a proximidade da Copa do Mundo.
Na América Latina, o Brasil é o país com a pior colocação, ao lado da Venezuela. Talvez existam bons motivos para o fenômeno. Com menos pessoas vivendo na pobreza, diz a diretora-executiva do Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social), diminui a sensação de que o auxílio financeiro seja imperioso.
Vale lembrar, ademais, as frequentes notícias envolvendo políticos de vários matizes, mentores de instituições que de filantrópicas têm apenas o nome.
Considerações dessa ordem não justificam um fenômeno que exigiria pesquisas para ser esclarecido. De resto, não só a economia ou os governos interferem no resultado.
Se, no geral, os EUA lideram esse "ranking da solidariedade", no item das contribuições em dinheiro o primeiro lugar cabe a Mianmar. No item da ajuda a estranhos, Qatar, Líbia, Colômbia e Senegal estão nas primeiras posições, logo atrás dos EUA. Em matéria de tempo dedicado ao voluntariado, surge no topo o Turcomenistão.
Fatores religiosos e culturais podem influir tanto o comportamento dos entrevistados quanto o modo de interpretar a pergunta. Comunidades isoladas podem ser solidárias ao extremo sem que a ajuda a desconhecidos ocorra. Nas grandes cidades, insegurança, mobilidade e jornada de trabalho podem frustrar as melhores intenções.
Como em toda estatística, o significado da pesquisa dilui-se à medida que se ramifica para cada realidade particular. Embora mereça exame mais detalhado, o caso brasileiro sem dúvida impõe a necessidade de virtudes --humildade e autocrítica-- nem sempre praticadas em tempos de ufanismo.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
GENERAL SE ESQUIVA DE CASSAR MEDALHA DE GENOINO
Ainda bem que o Brasil não vai à guerra: o comandante do Exército, general Enzo Peri, coitado, foge como o diabo da cruz da obrigação de confiscar a Medalha do Pacificador, entregue em 2003 a José Genoino, mensaleiro do PT-SP, hoje presidiário. O artigo 10 do decreto 4.207/02, que regulamenta a comenda, determina sua cassação em caso de condenação judicial por “crime ou atentado contra o erário”. É o caso.
É OBRIGAÇÃO
Segundo o decreto 4.207, a cassação da Medalha do Pacificador “será feita ex officio (por obrigação) em ato do comandante do Exército”.
ME ERREM
Há duas semanas o general Enzo Peri se esquiva de responder se cumprirá o que determina o decreto, cassando a medalha de Genoino.
MEDO INDEVIDO
Fonte do Palácio do Planalto garante que o medo do general Enzo Peri não procede: Dilma não o proibiu de retirar a medalha de Genoino.
LAÇOS DE FAMÍLIA
Dizendo-se preocupado, o deputado José Guimarães (CE), líder do PT, visita o presidiário José Genoino praticamente todos os dias.
PT PODE PRETERIR LINDBERGH E APOIAR CRIVELLA NO RIO
Sem querer desagradar seu amigo Sérgio Cabral (PMDB), que veta a candidatura do senador Lindbergh Farias (PT) ao governo do Rio de Janeiro, o ex-presidente Lula cogita apoiar uma terceira via que, segundo a cúpula do PT, poderia ser o próprio ministro Marcelo Crivella (PRB), favorito nas pesquisas. A sigla avalia que, além de ser da base aliada, Crivella menor tem índice de rejeição que Lindbergh.
MUITO JOVEM
Pesa ainda contra candidatura de Lindbergh críticas de ala mais conservadora de que ele não teria bagagem para governar o Rio.
ENTRE A CRUZ…
Lula deverá se reunir esta semana com o senador Lindbergh Farias, em São Paulo, para tentar fazê-lo desistir da candidatura.
…E A ESPADA
O PMDB bate o pé sobre a candidatura de Luiz Fernando Pezão, que aparece em 6º lugar nas pesquisas, e com 60% de rejeição.
TRANSPARÊNCIA
A fim de diminuir o tempo de tramitação dos processos, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, quer implantar até o início de janeiro sistema de transparência que mostrará todas as ações, por procurador.
ÍRIS FAVORITO
Se o veterano Íris Rezende (PMDB) quiser disputar o governo de Goiás, em 2014, não tem para ninguém. Ele lidera todas as pesquisas. Em seu partido, a comparação com o rival Júnior Friboi é um massacre.
REABERTURA
Liminar do Superior Tribunal de Justiça autorizou a reabertura da fábrica de cigarros Phoenix, em São Paulo, lacrada pela Receita Federal. O temor é que se amplie a dívida de R$ 300 milhões ao fisco.
EM CAMPANHA
De olho no governo paulista, o ministro Alexandre Padilha (Saúde) enviou a toda a bancada, incluindo deputados da oposição, sua agenda aos dias 13 e 14 em SP, com direito à entrega de UPA e Mais Médicos.
PRIORIDADE
Em cabo de guerra com o ministro Marcelo Crivella (PRB), Anthony Garotinho (PR) estabeleceu como prioridade número um, dentre as ações para eleição ao governo do Rio, alcançar o eleitor evangélico.
ALTO LÁ
O deputado Marcos Rogério (PDT-RO) critica os elogios de Henrique Alves a José Genoino: “Se ele quer defender condenados, precisa deixar a Presidência e ir à tribuna, não falar em nome do Parlamento”.
MALTRATOU A LÍNGUA
O deputado Ronaldo Fonseca (PROS-DF) chamou de “jogo de sena no Senado” (sic) votação “da PLC” nº122, que tipifica crime de homofobia. O post foi excluído assim que os seguidores começaram a corrigi-lo.
RELANÇAMENTO
A paixão pelo futebol e a literatura unirão nesta segunda (9), no Museu do Futebol, em São Paulo, figuras em campos opostos do espectro político: Nelson Rodrigues, autor de A Pátria das Chuteiras, que será relançado, e Aldo Rebelo (Esporte), que escreveu a apresentação.
PERGUNTA NO SUPREMO
Se Dilma convidá-lo para o funeral de Nelson Mandela, o ministro do Supremo Joaquim Barbosa dividirá quarto com o ex-presidente Lula?
Ainda bem que o Brasil não vai à guerra: o comandante do Exército, general Enzo Peri, coitado, foge como o diabo da cruz da obrigação de confiscar a Medalha do Pacificador, entregue em 2003 a José Genoino, mensaleiro do PT-SP, hoje presidiário. O artigo 10 do decreto 4.207/02, que regulamenta a comenda, determina sua cassação em caso de condenação judicial por “crime ou atentado contra o erário”. É o caso.
É OBRIGAÇÃO
Segundo o decreto 4.207, a cassação da Medalha do Pacificador “será feita ex officio (por obrigação) em ato do comandante do Exército”.
ME ERREM
Há duas semanas o general Enzo Peri se esquiva de responder se cumprirá o que determina o decreto, cassando a medalha de Genoino.
MEDO INDEVIDO
Fonte do Palácio do Planalto garante que o medo do general Enzo Peri não procede: Dilma não o proibiu de retirar a medalha de Genoino.
LAÇOS DE FAMÍLIA
Dizendo-se preocupado, o deputado José Guimarães (CE), líder do PT, visita o presidiário José Genoino praticamente todos os dias.
PT PODE PRETERIR LINDBERGH E APOIAR CRIVELLA NO RIO
Sem querer desagradar seu amigo Sérgio Cabral (PMDB), que veta a candidatura do senador Lindbergh Farias (PT) ao governo do Rio de Janeiro, o ex-presidente Lula cogita apoiar uma terceira via que, segundo a cúpula do PT, poderia ser o próprio ministro Marcelo Crivella (PRB), favorito nas pesquisas. A sigla avalia que, além de ser da base aliada, Crivella menor tem índice de rejeição que Lindbergh.
MUITO JOVEM
Pesa ainda contra candidatura de Lindbergh críticas de ala mais conservadora de que ele não teria bagagem para governar o Rio.
ENTRE A CRUZ…
Lula deverá se reunir esta semana com o senador Lindbergh Farias, em São Paulo, para tentar fazê-lo desistir da candidatura.
…E A ESPADA
O PMDB bate o pé sobre a candidatura de Luiz Fernando Pezão, que aparece em 6º lugar nas pesquisas, e com 60% de rejeição.
TRANSPARÊNCIA
A fim de diminuir o tempo de tramitação dos processos, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, quer implantar até o início de janeiro sistema de transparência que mostrará todas as ações, por procurador.
ÍRIS FAVORITO
Se o veterano Íris Rezende (PMDB) quiser disputar o governo de Goiás, em 2014, não tem para ninguém. Ele lidera todas as pesquisas. Em seu partido, a comparação com o rival Júnior Friboi é um massacre.
REABERTURA
Liminar do Superior Tribunal de Justiça autorizou a reabertura da fábrica de cigarros Phoenix, em São Paulo, lacrada pela Receita Federal. O temor é que se amplie a dívida de R$ 300 milhões ao fisco.
EM CAMPANHA
De olho no governo paulista, o ministro Alexandre Padilha (Saúde) enviou a toda a bancada, incluindo deputados da oposição, sua agenda aos dias 13 e 14 em SP, com direito à entrega de UPA e Mais Médicos.
PRIORIDADE
Em cabo de guerra com o ministro Marcelo Crivella (PRB), Anthony Garotinho (PR) estabeleceu como prioridade número um, dentre as ações para eleição ao governo do Rio, alcançar o eleitor evangélico.
ALTO LÁ
O deputado Marcos Rogério (PDT-RO) critica os elogios de Henrique Alves a José Genoino: “Se ele quer defender condenados, precisa deixar a Presidência e ir à tribuna, não falar em nome do Parlamento”.
MALTRATOU A LÍNGUA
O deputado Ronaldo Fonseca (PROS-DF) chamou de “jogo de sena no Senado” (sic) votação “da PLC” nº122, que tipifica crime de homofobia. O post foi excluído assim que os seguidores começaram a corrigi-lo.
RELANÇAMENTO
A paixão pelo futebol e a literatura unirão nesta segunda (9), no Museu do Futebol, em São Paulo, figuras em campos opostos do espectro político: Nelson Rodrigues, autor de A Pátria das Chuteiras, que será relançado, e Aldo Rebelo (Esporte), que escreveu a apresentação.
PERGUNTA NO SUPREMO
Se Dilma convidá-lo para o funeral de Nelson Mandela, o ministro do Supremo Joaquim Barbosa dividirá quarto com o ex-presidente Lula?
SEGUNDA NOS JORNAIS
- Globo: Vigilância – Clinton critica espionagem à Petrobras
- Folha: Ineficiência marca gestão do SUS, diz Banco Mundial
- Estadão: Órgão regulador quer limite a aposentadoria de executivos do BB
- Correio: Dia de vergonha no país da Copa
- Estado de Minas: Ônibus fora da lei
- Jornal do Commercio: No país da Copa
- Zero Hora: Programa Mais Médicos no RS – Eles são poucos, mas têm apoio da população
- Brasil Econômico: “Brasil tem uma oposição muito fraca”
domingo, dezembro 08, 2013
O Livro bomba - ROBSON BONIN
As impressionantes afirmações do ex-secretário nacional de Justiça Romeu Tuma Junior sobre a fábrica de dossiês dos petistas contra os adversários, o assassinato do prefeito Celso Daniel, o mensalão e o passado do ex-presidente Lula
A Secretaria Nacional de Justiça é um posto estratégico no organograma de poder em Brasília. Os arquivos do órgão guardam informações confidenciais de outros países, listas de contas bancárias de investigados e documentos protegidos por rigorosos acordos internacionais. Cercado por poderosos interesses, esse universo de informações confere ao seu controlador acesso aos mais restritos gabinetes de ministros e a responsabilidade sobre assuntos caros ao próprio presidente da República. Durante três anos, o delegado de polícia Romeu Tuma Junior conviveu diariamente com as pressões de comandar essa estrutura, cuja mais delicada tarefa era coordenar as equipes para rastrear e recuperar no exterior dinheiro desviado por políticos e empresários corruptos. Pela natureza de suas atividades, Tuma ouviu confidências e teve contato com alguns dos segredos mais bem guardados do país, mas também experimentou um outro lado do poder - um lado sem escrúpulos, sem lei, no qual o governo é usado para proteger os amigos e triturar aqueles que são considerados inimigos. Entre 2007 e 2010, período em que comandou a secretaria, o delegado testemunhou o funcionamento desse aparelho clandestino que usava as engrenagens oficiais do Estado paia fustigar os adversários.
As revelações de Tuma sobre esse lado escuro do governo estão reunidas no livro Assassinato de Reputações - Um Crime de Estado (Topbooks: 557 páginas; 69,90 reais), que chega às livrarias nesta semana. Lançado no momento em que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, enfrenta acusações de ter usado a estrutura da pasta para vazar detalhes de uma investigação que comprometeria líderes da oposição, o livro mostra que esse procedimento, mais que uma coincidência, é um método dos petistas para perseguir e difamar desafetos do governo. Segundo o ex-secretário, a máquina de moer reputações seguia um padrão. O Ministério da Justiça recebia um documento apócrifo, um dossiê ou um informe qualquer sobre a existência de conta secreta no exterior em nome do inimigo a ser destruído. A ordem era abrir imediatamente uma investigação oficial. Depois, alguém dava uma dica sobre o caso a um jornalista. A divulgação se encarregava de cumprir o resto da missão. Instado a se explicar, o ministério confirmava que, de fato, a investigação existia, mas dizia que ela era sigilosa e ele não poderia fornecer os detalhes. O "investigado", é claro, negava tudo. Em situações assim, culpados e inocentes sempre agem da mesma forma. O estrago, porém, já estará feito.
No livro, o autor apresenta documentos inéditos de alguns casos emblemáticos desse modus operandi que ele reuniu para comprovar a existência de uma "fábrica de dossiês" no coração do Ministério da Justiça. Uma das primeiras vítimas dessa engrenagem foi o governador de Goiás. Marconi Perillo (PSDB). Senador à época dos fatos, Perillo entrou na mira do petismo quando revelou à imprensa que tinha avisado Lula da existência do mensalão. O autor conta que em 2010 o então ministro da Justiça Luiz Paulo Barreto entregou em suas mãos um dossiê apócrifo sobre contas no exterior do tucano. As ordens eram expressas: Tuma deveria abrir uma investigação formal. O trabalho contra Perillo, revela o autor, havia sido encomendado por Gilberto Carvalho, então chefe de gabinete do presidente Lula. Contrariado, Tuma Junior refutou a "missão" e ainda denunciou o caso ao Senado. Esse ato, diz o livro, foi o primeiro passo do autor para o cadafalso no governo, mas não impediu novas investidas. A fábrica de dossiês voltou então a sua artilharia contra o então senador Tasso Jereissati (PSDB), severo opositor de Lula no Congresso. A fórmula era a mesma. Tuma Junior relata que foi chamado ao Congresso para uma conversa com o então senador Aloizio Mercadante (PT). No encontro, recebeu dele um pen drive e um pedido para que investigasse Jereissati. O autor abriu o dispositivo e constatou que se tratava de outro dossiê apócrifo. O livro conta que até o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), também chefiado por Tuma Junior, chegou a ser usado clandestinamente na tentativa de obter informações desabonadoras sobre despesas sigilosas da ex-primeira-dama Ruth Cardoso.
Assassinato de Reputações é um livro cujas revelações não podem simplesmente ser varridas para debaixo do tapete. Seu autor afirma relatar apenas fatos e situações vividas por ele próprio. E é rigoroso. Não se vale de depoimentos de terceiros nem passa adiante boatos ou insinuações. "Eu conto aquilo que vi", disse Tuma Junior a VEJA. Ele viu muita coisa. Seu livro traz documentos que deixam o governo Lula em péssima luz. Alguns deles mostram que o governo agiu para engavetar uma investigação que identificara uma suposta conta do mensalâo no exterior. O ex-secretário revela que todos os ministros do Supremo tribunal Federal foram grampeados ilegalmente pela Polícia Federal e pela Abin em 2007. Um dos capítulos é dedicado ao ainda misterioso assassinato do prefeito petista Celso Daniel, em 2002. Tuma Junior reproduz um diálogo entre ele e Gilberto Carvalho no qual o ministro confessa que entregava o dinheiro desviado da prefeitura de Santo André nas mãos do mensaleiro José Dirceu. O autor se convenceu de que Celso Daniel foi mono em uma operação de queima de arquivo.
Idealizado inicialmente para desconstruir a campanha de difamação de que o autor foi vítima (Tuma foi demitido do governo sob a acusação de manter relações com contrabandistas), o livro, escrito em parceria com o jornalista Cláudio Tognolli, professor de duas universidades em São Paulo, pescou mais fundo das memórias do autor: "Entrevistei Tuma Junior seis dias por semana durante dois anos. Ele queria uma obra baseada na revelação de fatos, queria que a publicação do livro o levasse ao Congresso para depor nas comissões, onde ele poderia mostrar documentos que não tiveram lugar no livro na sua inteireza". Fica a sugestão.
"HAVIA UMA FÁBRICA DE DOSSIÊS NO GOVERNO"
Por que Assassinato de Reputações?
Durante todo o tempo em que estive na Secretaria Nacional de Justiça, recebi ordens para produzir e esquentar dossiês contra uma lista inteira de adversários do governo. 0 PT do Lula age assim. Persegue seus inimigos da maneira mais sórdida. Mas sempre me recusei. Tentaram me usar para esquentar um dossiê contra o governador de Goiás, Marconi Perillo, só porque ele avisou o Lula da existência do mensalão. Depois, quiseram incriminar o ex-senador Tasso Jereissati servindo-se do meu departamento para forjar uma investigação sobre contas no exterior. Havia uma fábrica de dossiês no governo. Sempre refutei essa prática e mandei apurar a origem de todos os dossiês fajutos que chegaram até mim. Por causa disso, virei vítima dessa mesma máquina de difamação. Assassinaram minha reputação. Mas eu sempre digo: não se vira uma página em branco na vida. Meu bem mais valioso é a minha honra.
De onde vinham as ordens para atacar os adversários do PT?
Do Palácio do Planalto, da Casa Civil, do próprio Ministério da Justiça... No livro, conto tudo isso em detalhes, com nomes, datas e documentos. Recebi dossiês de parlamentares, de ministros e assessores petistas que hoje são figuras importantes no atual governo. Conto isso para revelar o motivo de terem me tirado da função, por meio de ataque cerrado à minha reputação, o que foi feito de forma sórdida.Tudo apenas porque não concordei com o modus operandi petista e mandei apurar o que de irregular e ilegal encontrei.
O senhor queria denunciar a fábrica de dossiês do PT ou atingir o próprio partido quando escreveu o livro?
Tem muita gente do PT que eu respeito. Não escrevi este livro para atacar o PT. 0 maior problema do PT está nas facções do partido. Muitas vezes por disputas internas é que surgem os dossiês. As disputas são legítimas, mas fazer dossiê é incompatível com qualquer prática republicana. Levantar falso testemunho contra alguém é uma prática violenta que enoja. 0 pior é que as coisas continuam exatamente iguais. Se você trocar os personagens do livro, vai ver que os fatos continuam ocorrendo da mesma forma. É só olhar o que está acontecendo com o Cade nesse escândalo do metrô de São Paulo.
O Cade era um dos instrumentos da fábrica de dossiês?
Conto isso no livro em detalhes. Desde 2008, o PT queria que eu vazasse os documentos enviados pela Suíça para atingir os tucanos na eleição municipal. 0 ministro da Justiça, Tarso Genro, me pressionava pessoalmente para deixar isso vazar para a imprensa. Deputados petistas também queriam ver os dados na mídia. Não dei os nomes no livro porque quero ver se eles vão ter coragem de negar.
O senhor é afirmativo quando fala do caso Celso Daniel. Diz que militantes do partido estão envolvidos no crime.
Aquilo foi um crime de encomenda. Não tenho nenhuma dúvida. Os empresários que pagavam propina ao PT em Santo André não queriam matar, mas assumiram claramente esse risco. Era para ser um sequestro, mas virou homicídio.
Por que o senhor sabe tanto sobre a morte de Celso Daniel?
Eu era o delegado da área onde o crime aconteceu. Fui o primeiro a chegar ao local quando o corpo foi encontrado. Tanto que fui eu que reconheci oficialmente que era o Celso Daniel e mandei abrir a investigação para apurar a morte. Só que, naquela época, nem o PSDB nem o PT quiseram prolongar o caso por causa das eleições. Fui afastado das investigações, mas apurei tudo. Eu encontrei o carro e fotografei os cabelos que, depois, os peritos disseram que eram pelos de cachorro. Mas eu sei que não eram. Só que nunca quiseram apurar a fundo. Ponho no livro o que descobri e não foi considerado.
O ministro Gilberto Carvalho disse ao senhor que havia um esquema de cobrança de propina na prefeitura?
Foi num momento de emoção, quando eu estava sob fogo cruzado na imprensa e fui falar com o Gilberto Carvalho. Desabafei, chorei e ele começou a chorar comigo. Aí ele falou: "Veja, Tuma, quanto fui injustiçado no caso Celso Daniel. Quando saiu aquela história de que havia desvios na prefeitura, eu, na maior boa-fé, procurei a família dele para levar um conforto. Fui dizer que o Celso nunca desviou um centavo para o bolso dele, e que todo recurso que arrecadávamos eu levava para o Zé Dirceu, pois era para ajudar o partido nas eleições". Fiquei paralisado quando isso aconteceu. Pensei comigo: estou ouvindo uma confissão mesmo?
Com que convicção o senhor afirma que todos os ministros do STF foram grampeados?
Minha convicção está em tudo o que vivi e descobri conversando com alguns personagens dentro do governo na época. Eu não tenho dúvida de que os ministros foram grampeados. Se isso for investigado a fundo, com seriedade, será provado facilmente.
O senhor também diz no livro que descobriu a conta do mensalão no exterior.
Eu descobri a conta do mensalão nas Ilhas Cayman, mas o governo e a Polícia Federal não quiseram investigar. Quando entrei no DRCI, encontrei engavetado um pedido de cooperação internacional do governo brasileiro às Ilhas Cayman para apurar a existência de uma conta do José Dirceu no Caribe. Nesse pedido, o governo solicitava informações sobre a conta não para investigar o mensalão, mas para provar que o Dirceu tinha sido vítima de calúnia, porque a VEJA tinha publicado uma lista do Daniel Dantas com contas dos petistas no exterior. O que o governo não esperava é que Cayman respondesse confirmando a possibilidade de existência da conta. Quer dizer: a autoridade de Cayman fala que está disposta a cooperar e aí o governo brasileiro recua? É um absurdo.
Quem engavetou a investigação?
Eu levei o processo para o Tarso Genro e disse: olha, tem de apurar isso. Mas, quando veio essa resposta de Cayman, os caras pararam tudo. Isso foi para a gaveta da Polícia Federal e do ministro Tarso Genro. Estou esperando até hoje o retorno. Eu tenho certeza de que era a conta do mensalão. Eu publico no livro o documento para dizer isto: o governo não deixou investigar isso em 2007.
No livro, o senhor escreve que um dos réus confirmou que essa era a conta do mensalão.
Não posso revelar o nome, mas, quando ele soube, disse-me: "Você matou na mosca. Ainda bem que você não estava investigando isso". Seis meses depois da minha demissão, esse personagem me disse que eu tinha caído por mandar investigar a conta do mensalão, a conta que pagava as viagens para Portugal. Eu falei para ele: os caras vão mandar me matar.
Como surgiu a ideia de fazer o livro?
Quando a imprensa publicou todos aqueles fatos inverídicos sobre o meu envolvimento com uma suposta máfia chinesa, busquei toda as instâncias para me defender, mas não consegui contar a minha versão. Fui defenestrado do governo por fatos baseados numa investigação arquivada na qual eu não tinha sido denunciado nem processado. Quando aconteceu tudo aquilo comigo na Secretaria Nacional de Justiça, percebi que não teria espaço para me defender em nenhuma instância, muito menos no governo ou na própria Justiça. Conversando com dois jornalistas, meus conhecidos e amigos, resolvi escrever o livro para contar a minha história sobre os fatos que vi em três anos de governo, para explicar por que isso aconteceu comigo, por que tentaram me defenestrar, por que acabaram tentando assassinar a minha reputação.
É uma espécie de vingança pessoal?
De forma alguma. Quem ler o livro vai perceber que o que escrevo são fatos. Eu precisava explicar por que cheguei ao governo, por que havia a confiança do presidente Lula em mim. Só dá para fazer isso contando as histórias que vivi com as pessoas, os fatos, e como a minha reputação foi construída para depois ser destruída. 0 livro é uma prestação de contas às pessoas que me querem bem, que sempre me honraram com sua confiança. É a forma que encontrei de tornar pública a minha história para aqueles que têm o interesse de conhecer esse retrato da minha vida profissional. Para que eles possam compreender o motivo pelo qual virei alvo do governo do PT.
As pessoas podem interpretar como vingança ou ressentimento, não?
É lógico que tem a mágoa. Eu vi meu pai, o senador Romeu Tuma, morrer por causa do que fizeram comigo no governo. Mas isso é diferente de vingança. Eu descrevo fatos no livro, conto a minha história, exponho a minha vida e até corro riscos. Vingança não se faz assim. Eu não seria burro de praticar uma vingança dessa forma. As colocações podem ser fortes, mas é o meu jeito. Não tem nada ali que seja leviandade. São fatos verdadeiros.
Por que o senhor decidiu fazer essas revelações só agora?
De tudo que vivi em três anos de governo, não há nada relatado no livro que eu não tenha denunciado imediatamente aos órgãos adequados. O livro só vai ser publicado agora porque demorei a escrever e porque precisei me aposentar da carreira de Estado para ter liberdade de tornar públicos os fatos sem ser acusado de oportunismo político ou eleitoral. Eu sei que neste momento vão querer me atacar, dizer que estou a serviço de interesses escusos. Mas não sou de me prestar a servir ninguém. Quem me conhece sabe que falo o que penso e presto contas do que faço.
O senhor afirma no livro que o ex-presidente Lula foi informante da ditadura. É uma acusação muito grave.
Não considero uma acusação. Quero deixar isso bem claro. O que conto no livro é o que vivi no Dops. Eu era investigador subordinado ao meu pai e vivi tudo isso. Eu e o Lula vivemos juntos esse momento. Ninguém me contou. Eu vi o Lula dormir no sofá da sala do meu pai. Presenciei tudo. Conto esses fatos agora até para demonstrar que a confiança que o presidente tinha em mim no governo, quando me nomeou secretário nacional de Justiça, não vinha do nada. Era de muito tempo. O Lula era informante do meu pai no Dops (veja o quadro ao lado).
O senhor tem provas disso?
Não excluo a possibilidade de algum relatório do Dops da época registrar informações atribuídas a um certo informante de codinome Barba. Era esse o codinome dele. Os relatos do Lula motivaram inúmeras operações e fundamentaram vários relatórios de inteligência para evitar confusões maiores com os movimentos na época. Ademais, o livro por si só é uma prova. Existe na área policial prova documental e prova testemunhal. Eu sou uma testemunha viva. Não tem nada contado no livro que eu não tenha vivido. Ninguém me contou aquilo. Eu vivi e agora estou relatando. E digo mais: como informante do meu pai no Dops, o Lula prestou um grande serviço naquele período. Eu quero deixar isso muito claro. Graças às informações que o Lula prestava ao meu pai, muitos relatórios foram produzidos, muitas operações foram realizadas.
Uma afirmação dessas certamente vai gerar protestos e processos. É
uma forma de interpretação, mas eu não acho. Acho que o Lula prestou um grande serviço ao país. Por se portar dessa forma, ele chegou aonde chegou. Sabe essa violência nas manifestações de hoje com black blocs? Se fosse no tempo do Dops com o Lula, não se criava. O Lula combinava tudo com o Tumão (Romeu Tuma, ex-chefe do Dops e ex-senador). Quando fazia as manifestações dos metalúrgicos, era tudo tranquilo. O Lula conseguia manter a manifestação sob o controle dele.
Além do senhor e do próprio Lula, quem mais sabe dessa história? Meu pai está morto. Então, só eu e ele. Talvez alguma pessoa próxima a ele saiba. Digo e repito isso em público, pessoalmente e até no Estádio do Pacaembu. Quero que o Lula se sente na minha frente e diga que é mentira. Tenho fotos com ele desde a época do Dops. Ele e o meu pai tinham uma relação muito sigilosa. Se isso vazasse, os dois estariam mortos.
O CARTEL DOS TRENS
"Desde 2008 o PT queria que eu vazasse isso para atingir os tucanos na eleição municipal, e eu me negava por dois motivos: primeiro, por discordar do modus operandi; e, segundo, porque eu dizia que se aquilo vazasse nunca se chegaria ao final da investigação, à verdade dos fatos e a todos os envolvidos. 0 tempo mostrou que eu tinha razão, mas o PT nunca desistiu da tática. 0 ministro da Justiça, Tarso Genro, estava me pressionando pessoalmente, vinha à minha orelha como um grilo falante. Aliás, vinham também os deputados petistas, esperneantes, e com noções jurídicas e éticas muito vagas, estrilando que era para deixar sair essa história toda na mídia."
RUTH CARDOSO
"O PT usava o meu laboratório para fazer dossiês. A ex-ministra Erenice Guerra foi inocentada, em 2012, desse tipo de acusação. Mas eu sustento, com o nome que herdei do meu pai: havia, sim, uma fábrica de dossiês em via de ser normatizada, que inviabilizei com a mudança do laboratório para a estrutura da secretaria. Estavam usando o meu laboratório para fazer um dossiê contra a finada Ruth Cardoso, mulher do ex-presidente FHC, e obviamente contra o governo de seu marido."
DOSSIÊ TASSO JEREISSATI
"Em janeiro de 2009, fui chamado à liderança do governo no Senado, onde encontrei o senador Aloizio Mercadante e um deputado federal, para tratar de projeto de interesse do governo e do ministério. Lá me entregaram um pen drive com "seriíssimas denúncias" contra um adversário do governo. Pensei: "Outro dossiê para destruir um novo "alvo" do governo". Dessa feita, o alvo era o ex-governador do Ceará Tasso Jereissati, naquele momento um dos senadores líderes da oposição. A exigência era que eu plantasse uma investigação em cima do Jereissati. Disseram-me que naquele pen drive havia um dossiê".
FULMINE 0 PERILLO
"Um dos mais escandalosos pedidos para fulminar alguém me foi feito pelo ex-ministro da Justiça Luiz Paulo Barreto. Um dia, ele me chamou ao seu gabinete e. um tanto lívido, disse: "Isso aqui veio de cima, lá do Planalto, do Gilberto Carvalho, secretário particular do presidente Lula. Ele quer que você atenda a um pedido do Lula e mande para o DRCI investigar isso aqui". 0 "isso aqui" do ministro da Justiça era um envelope numa pastinha que ele me entregou, com um dossiê contra Marconi Perillo."
GRAMPO STF
"Segue a verdade do caso: não só Gilmar Mendes foi grampeado como também todos os outros ministros do STF. 0 grampo foi feito com uma maleta francesa, empregada para rastrear celulares em presídios.
Todos os ministros do Supremo foram monitorados, quer através de escuta dos telefones móveis com a utilização da maleta móvel, quer por via da implantação física, em seus computadores, de aparelhos de escuta ambiental.Todo o aparato foi tocado com a participação de arapongas, que prestavam serviços de segurança e limpeza aos próprios gabinetes dos ministros e estavam vinculados aos agentes que operavam a Satiagraha."
MENSALÂO
"Em maio de 2006, VEJA publicou que José Dirceu, entre outros, teria conta em paraíso fiscal das Ilhas Cayman. Eu, como secretário Nacional de Justiça, já investigava casos engavetados, relativos ao Opportunity. Mas, nesse esforço, recebo um retorno diverso: Daniel Dantas aparecia como denunciante, e não como réu. Embora tivesse cargo executivo no governo petista, eu suspeitava da existência de tal conta. E mais: que essa conta era a lavanderia do mensalão no exterior. (...) Mandei cópia para o ministro Tarso Genro apurar isso, e espero a resposta até hoje... Será que fui defenestrado por ter chegado à conta caribenha do mensalâo?"
O CASO CELSO DANIEL
""Ministro, vou dizer ao senhor o que aconteceu no caso Celso Daniel até onde pude apurar. A priori, seus amigos de Santo André não queriam matá-lo, mas assumiram claramente esse risco. Planejaram e mandaram executar o sequestro de Celso Daniel para lhe dar um susto. Sentiram-se ameaçados pela voracidade do partido." O todo-poderoso Gilberto Carvalho começa a chorar junto comigo, sua voz trôpega atropela minha fala e as próprias sílabas: "Eu te entendo. Veja, Tuma, quanto fui injustiçado no caso Celso Daniel. Não aceito essa injustiça até hoje. Imagina você que eu era o braço-direito do Celso, seu homem de confiança. Quando saiu aquela história de que havia desvios na prefeitura, eu, na maior boa-fé, procurei a família dele para levar um conforto. Fui dizer a eles que o Celso nunca desviou um centavo para o bolso dele, e que todo o recurso que arrecadávamos eu levava para o Zé Dirceu, pois era para ajudar o partido nas eleições"."
Informações úteis
O sindicalismo de resultados de Lula desembocou no pragmatismo político que o levou à Presidência da República e na governabilidade pela compra de apoio no Congresso com o uso de diversos tipos de moeda. A tilintante resultou na condenação e prisão de seu ministro-chefe da Casa Civil, do presidente e do tesoureiro de seu partido, o PT, que cumprem pena pelo escândalo do mensalão na penitenciária da Papuda, em Brasília. Lula escapou do mesmo destino por conveniência dos políticos de oposição e pelo silêncio, entre outros, de José Dirceu e do publicitário Marcos Valério, cujas visitas à Granja do Torto, embora registradas na agenda presidencial, ainda não vieram a público. O uso de outras moedas, por exemplo o relativismo moral que deu sobrevida a inimigos históricos que ele chamava de corruptos, como Paulo Maluf e José Sarney, teve um custo menor - pequenas retiradas do imenso tesouro de popularidade de Lula. Mesmo sabendo que Lula subordina a seus objetivos todas as demais considerações, são de estarrecer, se tomadas pelo valor de face, as afirmações de Romeu Tuma Junior, ex-secretário nacional de Justiça. Tuminha diz que Lula foi informante do Dops, órgão que seu pai, Romeu Tuma, dirigia em São Paulo e no qual ele próprio trabalhava. Importante: ele não acusa Lula de ter traído sua causa ou seus companheiros. Diz que Lula dava informações que ajudavam a evitar choques violentos com a polícia. Isso é prática comum hoje e, como diz Tuminha, se os black blocs fizessem o que Lula fez, haveria menos violência. Seria de alto interesse histórico um encontro público entre Lula e Tuminha para compararem as lembranças pessoais que cada um tem daqueles tempos duros.
As revelações de Tuma sobre esse lado escuro do governo estão reunidas no livro Assassinato de Reputações - Um Crime de Estado (Topbooks: 557 páginas; 69,90 reais), que chega às livrarias nesta semana. Lançado no momento em que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, enfrenta acusações de ter usado a estrutura da pasta para vazar detalhes de uma investigação que comprometeria líderes da oposição, o livro mostra que esse procedimento, mais que uma coincidência, é um método dos petistas para perseguir e difamar desafetos do governo. Segundo o ex-secretário, a máquina de moer reputações seguia um padrão. O Ministério da Justiça recebia um documento apócrifo, um dossiê ou um informe qualquer sobre a existência de conta secreta no exterior em nome do inimigo a ser destruído. A ordem era abrir imediatamente uma investigação oficial. Depois, alguém dava uma dica sobre o caso a um jornalista. A divulgação se encarregava de cumprir o resto da missão. Instado a se explicar, o ministério confirmava que, de fato, a investigação existia, mas dizia que ela era sigilosa e ele não poderia fornecer os detalhes. O "investigado", é claro, negava tudo. Em situações assim, culpados e inocentes sempre agem da mesma forma. O estrago, porém, já estará feito.
No livro, o autor apresenta documentos inéditos de alguns casos emblemáticos desse modus operandi que ele reuniu para comprovar a existência de uma "fábrica de dossiês" no coração do Ministério da Justiça. Uma das primeiras vítimas dessa engrenagem foi o governador de Goiás. Marconi Perillo (PSDB). Senador à época dos fatos, Perillo entrou na mira do petismo quando revelou à imprensa que tinha avisado Lula da existência do mensalão. O autor conta que em 2010 o então ministro da Justiça Luiz Paulo Barreto entregou em suas mãos um dossiê apócrifo sobre contas no exterior do tucano. As ordens eram expressas: Tuma deveria abrir uma investigação formal. O trabalho contra Perillo, revela o autor, havia sido encomendado por Gilberto Carvalho, então chefe de gabinete do presidente Lula. Contrariado, Tuma Junior refutou a "missão" e ainda denunciou o caso ao Senado. Esse ato, diz o livro, foi o primeiro passo do autor para o cadafalso no governo, mas não impediu novas investidas. A fábrica de dossiês voltou então a sua artilharia contra o então senador Tasso Jereissati (PSDB), severo opositor de Lula no Congresso. A fórmula era a mesma. Tuma Junior relata que foi chamado ao Congresso para uma conversa com o então senador Aloizio Mercadante (PT). No encontro, recebeu dele um pen drive e um pedido para que investigasse Jereissati. O autor abriu o dispositivo e constatou que se tratava de outro dossiê apócrifo. O livro conta que até o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), também chefiado por Tuma Junior, chegou a ser usado clandestinamente na tentativa de obter informações desabonadoras sobre despesas sigilosas da ex-primeira-dama Ruth Cardoso.
Assassinato de Reputações é um livro cujas revelações não podem simplesmente ser varridas para debaixo do tapete. Seu autor afirma relatar apenas fatos e situações vividas por ele próprio. E é rigoroso. Não se vale de depoimentos de terceiros nem passa adiante boatos ou insinuações. "Eu conto aquilo que vi", disse Tuma Junior a VEJA. Ele viu muita coisa. Seu livro traz documentos que deixam o governo Lula em péssima luz. Alguns deles mostram que o governo agiu para engavetar uma investigação que identificara uma suposta conta do mensalâo no exterior. O ex-secretário revela que todos os ministros do Supremo tribunal Federal foram grampeados ilegalmente pela Polícia Federal e pela Abin em 2007. Um dos capítulos é dedicado ao ainda misterioso assassinato do prefeito petista Celso Daniel, em 2002. Tuma Junior reproduz um diálogo entre ele e Gilberto Carvalho no qual o ministro confessa que entregava o dinheiro desviado da prefeitura de Santo André nas mãos do mensaleiro José Dirceu. O autor se convenceu de que Celso Daniel foi mono em uma operação de queima de arquivo.
Idealizado inicialmente para desconstruir a campanha de difamação de que o autor foi vítima (Tuma foi demitido do governo sob a acusação de manter relações com contrabandistas), o livro, escrito em parceria com o jornalista Cláudio Tognolli, professor de duas universidades em São Paulo, pescou mais fundo das memórias do autor: "Entrevistei Tuma Junior seis dias por semana durante dois anos. Ele queria uma obra baseada na revelação de fatos, queria que a publicação do livro o levasse ao Congresso para depor nas comissões, onde ele poderia mostrar documentos que não tiveram lugar no livro na sua inteireza". Fica a sugestão.
"HAVIA UMA FÁBRICA DE DOSSIÊS NO GOVERNO"
Por que Assassinato de Reputações?
Durante todo o tempo em que estive na Secretaria Nacional de Justiça, recebi ordens para produzir e esquentar dossiês contra uma lista inteira de adversários do governo. 0 PT do Lula age assim. Persegue seus inimigos da maneira mais sórdida. Mas sempre me recusei. Tentaram me usar para esquentar um dossiê contra o governador de Goiás, Marconi Perillo, só porque ele avisou o Lula da existência do mensalão. Depois, quiseram incriminar o ex-senador Tasso Jereissati servindo-se do meu departamento para forjar uma investigação sobre contas no exterior. Havia uma fábrica de dossiês no governo. Sempre refutei essa prática e mandei apurar a origem de todos os dossiês fajutos que chegaram até mim. Por causa disso, virei vítima dessa mesma máquina de difamação. Assassinaram minha reputação. Mas eu sempre digo: não se vira uma página em branco na vida. Meu bem mais valioso é a minha honra.
De onde vinham as ordens para atacar os adversários do PT?
Do Palácio do Planalto, da Casa Civil, do próprio Ministério da Justiça... No livro, conto tudo isso em detalhes, com nomes, datas e documentos. Recebi dossiês de parlamentares, de ministros e assessores petistas que hoje são figuras importantes no atual governo. Conto isso para revelar o motivo de terem me tirado da função, por meio de ataque cerrado à minha reputação, o que foi feito de forma sórdida.Tudo apenas porque não concordei com o modus operandi petista e mandei apurar o que de irregular e ilegal encontrei.
O senhor queria denunciar a fábrica de dossiês do PT ou atingir o próprio partido quando escreveu o livro?
Tem muita gente do PT que eu respeito. Não escrevi este livro para atacar o PT. 0 maior problema do PT está nas facções do partido. Muitas vezes por disputas internas é que surgem os dossiês. As disputas são legítimas, mas fazer dossiê é incompatível com qualquer prática republicana. Levantar falso testemunho contra alguém é uma prática violenta que enoja. 0 pior é que as coisas continuam exatamente iguais. Se você trocar os personagens do livro, vai ver que os fatos continuam ocorrendo da mesma forma. É só olhar o que está acontecendo com o Cade nesse escândalo do metrô de São Paulo.
O Cade era um dos instrumentos da fábrica de dossiês?
Conto isso no livro em detalhes. Desde 2008, o PT queria que eu vazasse os documentos enviados pela Suíça para atingir os tucanos na eleição municipal. 0 ministro da Justiça, Tarso Genro, me pressionava pessoalmente para deixar isso vazar para a imprensa. Deputados petistas também queriam ver os dados na mídia. Não dei os nomes no livro porque quero ver se eles vão ter coragem de negar.
O senhor é afirmativo quando fala do caso Celso Daniel. Diz que militantes do partido estão envolvidos no crime.
Aquilo foi um crime de encomenda. Não tenho nenhuma dúvida. Os empresários que pagavam propina ao PT em Santo André não queriam matar, mas assumiram claramente esse risco. Era para ser um sequestro, mas virou homicídio.
Por que o senhor sabe tanto sobre a morte de Celso Daniel?
Eu era o delegado da área onde o crime aconteceu. Fui o primeiro a chegar ao local quando o corpo foi encontrado. Tanto que fui eu que reconheci oficialmente que era o Celso Daniel e mandei abrir a investigação para apurar a morte. Só que, naquela época, nem o PSDB nem o PT quiseram prolongar o caso por causa das eleições. Fui afastado das investigações, mas apurei tudo. Eu encontrei o carro e fotografei os cabelos que, depois, os peritos disseram que eram pelos de cachorro. Mas eu sei que não eram. Só que nunca quiseram apurar a fundo. Ponho no livro o que descobri e não foi considerado.
O ministro Gilberto Carvalho disse ao senhor que havia um esquema de cobrança de propina na prefeitura?
Foi num momento de emoção, quando eu estava sob fogo cruzado na imprensa e fui falar com o Gilberto Carvalho. Desabafei, chorei e ele começou a chorar comigo. Aí ele falou: "Veja, Tuma, quanto fui injustiçado no caso Celso Daniel. Quando saiu aquela história de que havia desvios na prefeitura, eu, na maior boa-fé, procurei a família dele para levar um conforto. Fui dizer que o Celso nunca desviou um centavo para o bolso dele, e que todo recurso que arrecadávamos eu levava para o Zé Dirceu, pois era para ajudar o partido nas eleições". Fiquei paralisado quando isso aconteceu. Pensei comigo: estou ouvindo uma confissão mesmo?
Com que convicção o senhor afirma que todos os ministros do STF foram grampeados?
Minha convicção está em tudo o que vivi e descobri conversando com alguns personagens dentro do governo na época. Eu não tenho dúvida de que os ministros foram grampeados. Se isso for investigado a fundo, com seriedade, será provado facilmente.
O senhor também diz no livro que descobriu a conta do mensalão no exterior.
Eu descobri a conta do mensalão nas Ilhas Cayman, mas o governo e a Polícia Federal não quiseram investigar. Quando entrei no DRCI, encontrei engavetado um pedido de cooperação internacional do governo brasileiro às Ilhas Cayman para apurar a existência de uma conta do José Dirceu no Caribe. Nesse pedido, o governo solicitava informações sobre a conta não para investigar o mensalão, mas para provar que o Dirceu tinha sido vítima de calúnia, porque a VEJA tinha publicado uma lista do Daniel Dantas com contas dos petistas no exterior. O que o governo não esperava é que Cayman respondesse confirmando a possibilidade de existência da conta. Quer dizer: a autoridade de Cayman fala que está disposta a cooperar e aí o governo brasileiro recua? É um absurdo.
Quem engavetou a investigação?
Eu levei o processo para o Tarso Genro e disse: olha, tem de apurar isso. Mas, quando veio essa resposta de Cayman, os caras pararam tudo. Isso foi para a gaveta da Polícia Federal e do ministro Tarso Genro. Estou esperando até hoje o retorno. Eu tenho certeza de que era a conta do mensalão. Eu publico no livro o documento para dizer isto: o governo não deixou investigar isso em 2007.
No livro, o senhor escreve que um dos réus confirmou que essa era a conta do mensalão.
Não posso revelar o nome, mas, quando ele soube, disse-me: "Você matou na mosca. Ainda bem que você não estava investigando isso". Seis meses depois da minha demissão, esse personagem me disse que eu tinha caído por mandar investigar a conta do mensalão, a conta que pagava as viagens para Portugal. Eu falei para ele: os caras vão mandar me matar.
Como surgiu a ideia de fazer o livro?
Quando a imprensa publicou todos aqueles fatos inverídicos sobre o meu envolvimento com uma suposta máfia chinesa, busquei toda as instâncias para me defender, mas não consegui contar a minha versão. Fui defenestrado do governo por fatos baseados numa investigação arquivada na qual eu não tinha sido denunciado nem processado. Quando aconteceu tudo aquilo comigo na Secretaria Nacional de Justiça, percebi que não teria espaço para me defender em nenhuma instância, muito menos no governo ou na própria Justiça. Conversando com dois jornalistas, meus conhecidos e amigos, resolvi escrever o livro para contar a minha história sobre os fatos que vi em três anos de governo, para explicar por que isso aconteceu comigo, por que tentaram me defenestrar, por que acabaram tentando assassinar a minha reputação.
É uma espécie de vingança pessoal?
De forma alguma. Quem ler o livro vai perceber que o que escrevo são fatos. Eu precisava explicar por que cheguei ao governo, por que havia a confiança do presidente Lula em mim. Só dá para fazer isso contando as histórias que vivi com as pessoas, os fatos, e como a minha reputação foi construída para depois ser destruída. 0 livro é uma prestação de contas às pessoas que me querem bem, que sempre me honraram com sua confiança. É a forma que encontrei de tornar pública a minha história para aqueles que têm o interesse de conhecer esse retrato da minha vida profissional. Para que eles possam compreender o motivo pelo qual virei alvo do governo do PT.
As pessoas podem interpretar como vingança ou ressentimento, não?
É lógico que tem a mágoa. Eu vi meu pai, o senador Romeu Tuma, morrer por causa do que fizeram comigo no governo. Mas isso é diferente de vingança. Eu descrevo fatos no livro, conto a minha história, exponho a minha vida e até corro riscos. Vingança não se faz assim. Eu não seria burro de praticar uma vingança dessa forma. As colocações podem ser fortes, mas é o meu jeito. Não tem nada ali que seja leviandade. São fatos verdadeiros.
Por que o senhor decidiu fazer essas revelações só agora?
De tudo que vivi em três anos de governo, não há nada relatado no livro que eu não tenha denunciado imediatamente aos órgãos adequados. O livro só vai ser publicado agora porque demorei a escrever e porque precisei me aposentar da carreira de Estado para ter liberdade de tornar públicos os fatos sem ser acusado de oportunismo político ou eleitoral. Eu sei que neste momento vão querer me atacar, dizer que estou a serviço de interesses escusos. Mas não sou de me prestar a servir ninguém. Quem me conhece sabe que falo o que penso e presto contas do que faço.
O senhor afirma no livro que o ex-presidente Lula foi informante da ditadura. É uma acusação muito grave.
Não considero uma acusação. Quero deixar isso bem claro. O que conto no livro é o que vivi no Dops. Eu era investigador subordinado ao meu pai e vivi tudo isso. Eu e o Lula vivemos juntos esse momento. Ninguém me contou. Eu vi o Lula dormir no sofá da sala do meu pai. Presenciei tudo. Conto esses fatos agora até para demonstrar que a confiança que o presidente tinha em mim no governo, quando me nomeou secretário nacional de Justiça, não vinha do nada. Era de muito tempo. O Lula era informante do meu pai no Dops (veja o quadro ao lado).
O senhor tem provas disso?
Não excluo a possibilidade de algum relatório do Dops da época registrar informações atribuídas a um certo informante de codinome Barba. Era esse o codinome dele. Os relatos do Lula motivaram inúmeras operações e fundamentaram vários relatórios de inteligência para evitar confusões maiores com os movimentos na época. Ademais, o livro por si só é uma prova. Existe na área policial prova documental e prova testemunhal. Eu sou uma testemunha viva. Não tem nada contado no livro que eu não tenha vivido. Ninguém me contou aquilo. Eu vivi e agora estou relatando. E digo mais: como informante do meu pai no Dops, o Lula prestou um grande serviço naquele período. Eu quero deixar isso muito claro. Graças às informações que o Lula prestava ao meu pai, muitos relatórios foram produzidos, muitas operações foram realizadas.
Uma afirmação dessas certamente vai gerar protestos e processos. É
uma forma de interpretação, mas eu não acho. Acho que o Lula prestou um grande serviço ao país. Por se portar dessa forma, ele chegou aonde chegou. Sabe essa violência nas manifestações de hoje com black blocs? Se fosse no tempo do Dops com o Lula, não se criava. O Lula combinava tudo com o Tumão (Romeu Tuma, ex-chefe do Dops e ex-senador). Quando fazia as manifestações dos metalúrgicos, era tudo tranquilo. O Lula conseguia manter a manifestação sob o controle dele.
Além do senhor e do próprio Lula, quem mais sabe dessa história? Meu pai está morto. Então, só eu e ele. Talvez alguma pessoa próxima a ele saiba. Digo e repito isso em público, pessoalmente e até no Estádio do Pacaembu. Quero que o Lula se sente na minha frente e diga que é mentira. Tenho fotos com ele desde a época do Dops. Ele e o meu pai tinham uma relação muito sigilosa. Se isso vazasse, os dois estariam mortos.
O CARTEL DOS TRENS
"Desde 2008 o PT queria que eu vazasse isso para atingir os tucanos na eleição municipal, e eu me negava por dois motivos: primeiro, por discordar do modus operandi; e, segundo, porque eu dizia que se aquilo vazasse nunca se chegaria ao final da investigação, à verdade dos fatos e a todos os envolvidos. 0 tempo mostrou que eu tinha razão, mas o PT nunca desistiu da tática. 0 ministro da Justiça, Tarso Genro, estava me pressionando pessoalmente, vinha à minha orelha como um grilo falante. Aliás, vinham também os deputados petistas, esperneantes, e com noções jurídicas e éticas muito vagas, estrilando que era para deixar sair essa história toda na mídia."
RUTH CARDOSO
"O PT usava o meu laboratório para fazer dossiês. A ex-ministra Erenice Guerra foi inocentada, em 2012, desse tipo de acusação. Mas eu sustento, com o nome que herdei do meu pai: havia, sim, uma fábrica de dossiês em via de ser normatizada, que inviabilizei com a mudança do laboratório para a estrutura da secretaria. Estavam usando o meu laboratório para fazer um dossiê contra a finada Ruth Cardoso, mulher do ex-presidente FHC, e obviamente contra o governo de seu marido."
DOSSIÊ TASSO JEREISSATI
"Em janeiro de 2009, fui chamado à liderança do governo no Senado, onde encontrei o senador Aloizio Mercadante e um deputado federal, para tratar de projeto de interesse do governo e do ministério. Lá me entregaram um pen drive com "seriíssimas denúncias" contra um adversário do governo. Pensei: "Outro dossiê para destruir um novo "alvo" do governo". Dessa feita, o alvo era o ex-governador do Ceará Tasso Jereissati, naquele momento um dos senadores líderes da oposição. A exigência era que eu plantasse uma investigação em cima do Jereissati. Disseram-me que naquele pen drive havia um dossiê".
FULMINE 0 PERILLO
"Um dos mais escandalosos pedidos para fulminar alguém me foi feito pelo ex-ministro da Justiça Luiz Paulo Barreto. Um dia, ele me chamou ao seu gabinete e. um tanto lívido, disse: "Isso aqui veio de cima, lá do Planalto, do Gilberto Carvalho, secretário particular do presidente Lula. Ele quer que você atenda a um pedido do Lula e mande para o DRCI investigar isso aqui". 0 "isso aqui" do ministro da Justiça era um envelope numa pastinha que ele me entregou, com um dossiê contra Marconi Perillo."
GRAMPO STF
"Segue a verdade do caso: não só Gilmar Mendes foi grampeado como também todos os outros ministros do STF. 0 grampo foi feito com uma maleta francesa, empregada para rastrear celulares em presídios.
Todos os ministros do Supremo foram monitorados, quer através de escuta dos telefones móveis com a utilização da maleta móvel, quer por via da implantação física, em seus computadores, de aparelhos de escuta ambiental.Todo o aparato foi tocado com a participação de arapongas, que prestavam serviços de segurança e limpeza aos próprios gabinetes dos ministros e estavam vinculados aos agentes que operavam a Satiagraha."
MENSALÂO
"Em maio de 2006, VEJA publicou que José Dirceu, entre outros, teria conta em paraíso fiscal das Ilhas Cayman. Eu, como secretário Nacional de Justiça, já investigava casos engavetados, relativos ao Opportunity. Mas, nesse esforço, recebo um retorno diverso: Daniel Dantas aparecia como denunciante, e não como réu. Embora tivesse cargo executivo no governo petista, eu suspeitava da existência de tal conta. E mais: que essa conta era a lavanderia do mensalão no exterior. (...) Mandei cópia para o ministro Tarso Genro apurar isso, e espero a resposta até hoje... Será que fui defenestrado por ter chegado à conta caribenha do mensalâo?"
O CASO CELSO DANIEL
""Ministro, vou dizer ao senhor o que aconteceu no caso Celso Daniel até onde pude apurar. A priori, seus amigos de Santo André não queriam matá-lo, mas assumiram claramente esse risco. Planejaram e mandaram executar o sequestro de Celso Daniel para lhe dar um susto. Sentiram-se ameaçados pela voracidade do partido." O todo-poderoso Gilberto Carvalho começa a chorar junto comigo, sua voz trôpega atropela minha fala e as próprias sílabas: "Eu te entendo. Veja, Tuma, quanto fui injustiçado no caso Celso Daniel. Não aceito essa injustiça até hoje. Imagina você que eu era o braço-direito do Celso, seu homem de confiança. Quando saiu aquela história de que havia desvios na prefeitura, eu, na maior boa-fé, procurei a família dele para levar um conforto. Fui dizer a eles que o Celso nunca desviou um centavo para o bolso dele, e que todo o recurso que arrecadávamos eu levava para o Zé Dirceu, pois era para ajudar o partido nas eleições"."
Informações úteis
O sindicalismo de resultados de Lula desembocou no pragmatismo político que o levou à Presidência da República e na governabilidade pela compra de apoio no Congresso com o uso de diversos tipos de moeda. A tilintante resultou na condenação e prisão de seu ministro-chefe da Casa Civil, do presidente e do tesoureiro de seu partido, o PT, que cumprem pena pelo escândalo do mensalão na penitenciária da Papuda, em Brasília. Lula escapou do mesmo destino por conveniência dos políticos de oposição e pelo silêncio, entre outros, de José Dirceu e do publicitário Marcos Valério, cujas visitas à Granja do Torto, embora registradas na agenda presidencial, ainda não vieram a público. O uso de outras moedas, por exemplo o relativismo moral que deu sobrevida a inimigos históricos que ele chamava de corruptos, como Paulo Maluf e José Sarney, teve um custo menor - pequenas retiradas do imenso tesouro de popularidade de Lula. Mesmo sabendo que Lula subordina a seus objetivos todas as demais considerações, são de estarrecer, se tomadas pelo valor de face, as afirmações de Romeu Tuma Junior, ex-secretário nacional de Justiça. Tuminha diz que Lula foi informante do Dops, órgão que seu pai, Romeu Tuma, dirigia em São Paulo e no qual ele próprio trabalhava. Importante: ele não acusa Lula de ter traído sua causa ou seus companheiros. Diz que Lula dava informações que ajudavam a evitar choques violentos com a polícia. Isso é prática comum hoje e, como diz Tuminha, se os black blocs fizessem o que Lula fez, haveria menos violência. Seria de alto interesse histórico um encontro público entre Lula e Tuminha para compararem as lembranças pessoais que cada um tem daqueles tempos duros.
Um ano sem sair do lugar - J. R. GUZZO
REVISTA EXAME
Mais um ano está terminando. E, na economia, chegamos a dezembro na mesma situação que havia em janeiro. Ou seja, sem que o governo saiba o que vai fazer para resolver os problemas críticos do país. que continuam a ser os mesmos
O ANO DE 2013, PARA A COSTUMEIRA SURPRESA QUE quase todo mundo sente quando a folhinha chega a esta zona de fronteira entre novembro e dezembro. está acabando - e, como sempre, a sensação é que o tempo passou voando. Voou mais depressa ainda, ao que parece, para a economia brasileira. A impressão é que tudo está tão parecido com o que estava em janeiro, mas tão parecido que não dá para ver bem o que aconteceu de lá para cá. ou mesmo se aconteceu realmente alguma coisa. Os problemas críticos a resolver são os mesmos. A falta de ideias coerentes para lidar com eles é a mesma. O tempo desperdiçado com discussões inúteis é o mesmo. A simulação de atividade por parte do governo e sua convicção de que a melhor maneira de resolver dificuldades é criar algum truque de marketing ("minha panela, minha vida" ou coisas assim) são as mesmas. São precisamente as mesmas, enfim. a ausência de perspectivas racionais para calcular com razoável segurança variantes-chave, como crescimento. juros, consumo, câmbio, investimento, política monetária, gasto público, e. acima de qualquer outra coisa, a real disposição do governo para cumprir seus compromissos e manter-se fiel á sua palavra.
Para 2014 ser diferente de 2013, teriam de acontecer fatos realmente relevantes, transformadores e estratégicos na política econômica - e não há nada disso á vista. A tendência é o governo continuar administrando sua quitanda nas miudezas do dia a dia. Não consegue pensar em nada de mais ambicioso para o dia de amanhã porque não tem. simplesmente não tem. nenhuma ideia coerente a respeito do que fazer, ou como fazer, no dia de hoje. Dois exemplos:
1) Em janeiro deste ano já estava mais do que claro que havia um problema master com os preços dos combustíveis. Com a política de segurar esses preços, o governo procurava atender às necessidades de resistir ã inflação: ao mesmo tempo, provocava graves problemas financeiros para a Petrobras. maior empresa do Brasil, cuja administração é controlada diretamente pelo Palácio do Planalto. A Petrobras é uma empresa pública, que tem contas a prestar ao público - acionistas ou não - e precisa ser gerida de maneira a apresentar um balanço no azul; quanto mais azul. melhor. Mas é ao mesmo tempo uma repartição do governo, sujeita a decisões políticas e obrigada a tomar medidas que vão contra sua natureza empresarial. Entende-se. é claro, a complexidade do problema que a Presidência da República, onde essas coisas são realmente decididas, está tendo de enfrentar - não pode arruinar a saúde financeira da Petrobras ou comprometer seu futuro como empresa mas também não pode soltar os preços para remunerar de forma adequada a companhia, pois não quer e não pode atiçar a inflação. A questão é difícil, sem dúvida - mas o problema, para ilustrar o ambiente de inação descrito há pouco, é que chegamos a dezembro na mesma situação que existia em janeiro, ou seja, sem que o governo saiba o que vai fazer. Andamos um ano para ficar no mesmo lugar.
2) Foi concluído com sucesso, enfim, um leilão importante para a privatização de atividades que o poder público comprovadamente, há décadas, não consegue administrar - o dos aeroportos do Galeão e de Confins. Poderia ter sido feito dez anos atrás, e as obras, a esta altura, já estariam dez anos adiantadas. Sim. chamar a iniciativa privada para investir na área pública era um pecado mortal para o PT; hoje, ao que parece, continua sendo um pecado, mas a presidente Dilma Rousseff resolveu oferecer uma indulgência plenária a ele. Se era para ser assim um dia, como estava na cara que teria de ser. por que não se fez logo no começo, então? Ao que parece, o governo continua descontente, envergonhado e hesitante diante das privatizações que tanto poderiam melhorar seu desempenho. Tudo o que a presidente conseguiu dizer de notável, no dia do leilão, é que foi uma derrota para os que torciam contra ele. Quem torcia? O PT, que continua a condenar as privatizações?
Mais um ano está terminando. E, na economia, chegamos a dezembro na mesma situação que havia em janeiro. Ou seja, sem que o governo saiba o que vai fazer para resolver os problemas críticos do país. que continuam a ser os mesmos
O ANO DE 2013, PARA A COSTUMEIRA SURPRESA QUE quase todo mundo sente quando a folhinha chega a esta zona de fronteira entre novembro e dezembro. está acabando - e, como sempre, a sensação é que o tempo passou voando. Voou mais depressa ainda, ao que parece, para a economia brasileira. A impressão é que tudo está tão parecido com o que estava em janeiro, mas tão parecido que não dá para ver bem o que aconteceu de lá para cá. ou mesmo se aconteceu realmente alguma coisa. Os problemas críticos a resolver são os mesmos. A falta de ideias coerentes para lidar com eles é a mesma. O tempo desperdiçado com discussões inúteis é o mesmo. A simulação de atividade por parte do governo e sua convicção de que a melhor maneira de resolver dificuldades é criar algum truque de marketing ("minha panela, minha vida" ou coisas assim) são as mesmas. São precisamente as mesmas, enfim. a ausência de perspectivas racionais para calcular com razoável segurança variantes-chave, como crescimento. juros, consumo, câmbio, investimento, política monetária, gasto público, e. acima de qualquer outra coisa, a real disposição do governo para cumprir seus compromissos e manter-se fiel á sua palavra.
Para 2014 ser diferente de 2013, teriam de acontecer fatos realmente relevantes, transformadores e estratégicos na política econômica - e não há nada disso á vista. A tendência é o governo continuar administrando sua quitanda nas miudezas do dia a dia. Não consegue pensar em nada de mais ambicioso para o dia de amanhã porque não tem. simplesmente não tem. nenhuma ideia coerente a respeito do que fazer, ou como fazer, no dia de hoje. Dois exemplos:
1) Em janeiro deste ano já estava mais do que claro que havia um problema master com os preços dos combustíveis. Com a política de segurar esses preços, o governo procurava atender às necessidades de resistir ã inflação: ao mesmo tempo, provocava graves problemas financeiros para a Petrobras. maior empresa do Brasil, cuja administração é controlada diretamente pelo Palácio do Planalto. A Petrobras é uma empresa pública, que tem contas a prestar ao público - acionistas ou não - e precisa ser gerida de maneira a apresentar um balanço no azul; quanto mais azul. melhor. Mas é ao mesmo tempo uma repartição do governo, sujeita a decisões políticas e obrigada a tomar medidas que vão contra sua natureza empresarial. Entende-se. é claro, a complexidade do problema que a Presidência da República, onde essas coisas são realmente decididas, está tendo de enfrentar - não pode arruinar a saúde financeira da Petrobras ou comprometer seu futuro como empresa mas também não pode soltar os preços para remunerar de forma adequada a companhia, pois não quer e não pode atiçar a inflação. A questão é difícil, sem dúvida - mas o problema, para ilustrar o ambiente de inação descrito há pouco, é que chegamos a dezembro na mesma situação que existia em janeiro, ou seja, sem que o governo saiba o que vai fazer. Andamos um ano para ficar no mesmo lugar.
2) Foi concluído com sucesso, enfim, um leilão importante para a privatização de atividades que o poder público comprovadamente, há décadas, não consegue administrar - o dos aeroportos do Galeão e de Confins. Poderia ter sido feito dez anos atrás, e as obras, a esta altura, já estariam dez anos adiantadas. Sim. chamar a iniciativa privada para investir na área pública era um pecado mortal para o PT; hoje, ao que parece, continua sendo um pecado, mas a presidente Dilma Rousseff resolveu oferecer uma indulgência plenária a ele. Se era para ser assim um dia, como estava na cara que teria de ser. por que não se fez logo no começo, então? Ao que parece, o governo continua descontente, envergonhado e hesitante diante das privatizações que tanto poderiam melhorar seu desempenho. Tudo o que a presidente conseguiu dizer de notável, no dia do leilão, é que foi uma derrota para os que torciam contra ele. Quem torcia? O PT, que continua a condenar as privatizações?
Lembra de mim? - FÁBIO PORCHAT
O Estado de S.Paulo - 08/12
Aconteceram três coisas curiosas comigo, tudo nessa mesma semana e que se relacionam entre si. Recebi uma mensagem no meu telefone: "Fabio, vou assistir ao seu show no sábado! Quanto tempo, né? Vai ser legal matar as saudades. Depois quero uma foto. Beijos, Camila C." Você sabe quem é Camila C, caro leitor? Pois é, eu também não. Respondi prontamente animado dizendo: "que maravilha! Te espero lá.".
Terminado o show do sábado, quem me aparece para tirar foto? Sim, ela. Que, quando eu bati o olho, lembrei. Camila era uma amiga de uma minha amiga, que, na ESPM, em 2001, estudou no mesmo período que eu, mas cursando Publicidade e eu Administração. Fazia 11 anos que eu não a via, mas ela continua com a mesma aparência e muito simpática! Comentei com ela, rindo, que não sabia quem era quando recebi a mensagem, mas que ali, ao vivo, me caiu a ficha. Ela ficou um pouco sentida e falou brincando, mas a sério: "depois que ficou famoso, ficou assim. Não se lembra de mais ninguém."
No mesmo sábado, depois da peça (foi o último dia da temporada no Teatro Frei Caneca - muito obrigado ao Sérgio d'Antino e à Betânia pelo carinho), fui pra casa do meu pai comemorar com os amigos. Lá chegando, a moça que organizou o buffet veio sorridente e mandou o já tradicional e temido: lembra de mim? E eu não lembrava. Ela, espantada com minha negativa, tentou reavivar a minha memória: eu organizei o buffet da sua festa de 18 anos, lembra? Eu falei que já tinham se passado 12 anos e que não me lembrava. Ela ficou triste. "Poxa, como a gente esquece daquelas pessoas que fizeram parte do nosso passado."
No aeroporto Santos Dumont (que a mulher que anuncia nos microfones de Congonhas cisma em dizer: aeroporto DO Santos Dumont. Não é dele o aeroporto!!!!), um fã pediu para tirar uma foto e disse que eu conhecia a mulher dele. Eu, ingenuamente, perguntei quem era e ele muito tranquilo me respondeu que ela, um dia, em 2009, no Galeão, tirou uma foto comigo e disse que era minha fã. Lembra? Eu ri, achando que era uma brincadeira e disse que não, que fazia muito tempo. Ele insistiu que ela era muito fã e era morena, ela pediu uma foto. Lembra? Eu falei que não lembrava e ele: "não vou nem falar pra ela isso que ela vai ficar chateada."
Agora, de verdade, me digam se eu estou maluco por não me lembrar, depois de 12 anos, da senhora que preparou a comida da minha festa em que provavelmente eu estava mais preocupado em encher a cara e pegar mulher. Eu nem lembrava que eu tinha dado uma festa de 18 anos. Muito menos que se contratou um buffet. Será que eu sou um babaca que não me lembro de como se chama uma pessoa que não conviveu comigo nem 20 horas somando todos os nossos encontros e era amiga de uma amiga, ou se eu sou uma estrela sem noção de não saber quem era uma fã do longínquo 2009 que era morena? O que me deixou mais impressionado foi o fato de elas se sentirem ofendidas pela "não lembrança". Como se eu fosse um sem noção. É que nós queremos sempre nos sentir especiais e únicos, para justificar a nossa própria existência nos dando muita importância e relevância na relação com o outro. Ou de repente eu só tenho Alzheimer.
Aconteceram três coisas curiosas comigo, tudo nessa mesma semana e que se relacionam entre si. Recebi uma mensagem no meu telefone: "Fabio, vou assistir ao seu show no sábado! Quanto tempo, né? Vai ser legal matar as saudades. Depois quero uma foto. Beijos, Camila C." Você sabe quem é Camila C, caro leitor? Pois é, eu também não. Respondi prontamente animado dizendo: "que maravilha! Te espero lá.".
Terminado o show do sábado, quem me aparece para tirar foto? Sim, ela. Que, quando eu bati o olho, lembrei. Camila era uma amiga de uma minha amiga, que, na ESPM, em 2001, estudou no mesmo período que eu, mas cursando Publicidade e eu Administração. Fazia 11 anos que eu não a via, mas ela continua com a mesma aparência e muito simpática! Comentei com ela, rindo, que não sabia quem era quando recebi a mensagem, mas que ali, ao vivo, me caiu a ficha. Ela ficou um pouco sentida e falou brincando, mas a sério: "depois que ficou famoso, ficou assim. Não se lembra de mais ninguém."
No mesmo sábado, depois da peça (foi o último dia da temporada no Teatro Frei Caneca - muito obrigado ao Sérgio d'Antino e à Betânia pelo carinho), fui pra casa do meu pai comemorar com os amigos. Lá chegando, a moça que organizou o buffet veio sorridente e mandou o já tradicional e temido: lembra de mim? E eu não lembrava. Ela, espantada com minha negativa, tentou reavivar a minha memória: eu organizei o buffet da sua festa de 18 anos, lembra? Eu falei que já tinham se passado 12 anos e que não me lembrava. Ela ficou triste. "Poxa, como a gente esquece daquelas pessoas que fizeram parte do nosso passado."
No aeroporto Santos Dumont (que a mulher que anuncia nos microfones de Congonhas cisma em dizer: aeroporto DO Santos Dumont. Não é dele o aeroporto!!!!), um fã pediu para tirar uma foto e disse que eu conhecia a mulher dele. Eu, ingenuamente, perguntei quem era e ele muito tranquilo me respondeu que ela, um dia, em 2009, no Galeão, tirou uma foto comigo e disse que era minha fã. Lembra? Eu ri, achando que era uma brincadeira e disse que não, que fazia muito tempo. Ele insistiu que ela era muito fã e era morena, ela pediu uma foto. Lembra? Eu falei que não lembrava e ele: "não vou nem falar pra ela isso que ela vai ficar chateada."
Agora, de verdade, me digam se eu estou maluco por não me lembrar, depois de 12 anos, da senhora que preparou a comida da minha festa em que provavelmente eu estava mais preocupado em encher a cara e pegar mulher. Eu nem lembrava que eu tinha dado uma festa de 18 anos. Muito menos que se contratou um buffet. Será que eu sou um babaca que não me lembro de como se chama uma pessoa que não conviveu comigo nem 20 horas somando todos os nossos encontros e era amiga de uma amiga, ou se eu sou uma estrela sem noção de não saber quem era uma fã do longínquo 2009 que era morena? O que me deixou mais impressionado foi o fato de elas se sentirem ofendidas pela "não lembrança". Como se eu fosse um sem noção. É que nós queremos sempre nos sentir especiais e únicos, para justificar a nossa própria existência nos dando muita importância e relevância na relação com o outro. Ou de repente eu só tenho Alzheimer.
A bolsa e a vida - FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SP - 08/12
A coisa se complica ainda mais quando se tornam necessários exames de laboratório, raio-X etc
Os planos de saúde tornaram-se um grave problema para milhões de brasileiros, que os pagam mensalmente. Como o SUS não dá conta do atendimento à vasta maioria dos brasileiros mais pobres, quem pode, ainda que apertando as despesas, contrata um plano de saúde, confiando em que, quando necessitar, será atendido. A verdade, porém, é que, a cada dia que passa, isso se torna mais difícil.
Uma das explicações para essa dificuldade --além do número crescente dos que fogem do SUS-- seria que as empresas dos planos de saúde, embora cobrem caro aos assinantes, pagam mal aos médicos. Em face disso, eles dão preferência aos pacientes que não têm plano de saúde e dos quais, em geral, cobram caro.
A coisa se complica ainda mais quando se tornam necessários exames de laboratório, chapas de raio-X etc. O número de pacientes que solicitam esses exames é cada dia maior, já que hoje todo diagnóstico necessita desses exames.
A verdade é que há que ter muita paciência para conseguir realizar esses exames, para entregar a solicitação e, mais ainda, para receber o resultado. Se se tratar de um caso grave, que exige urgência, o desastre torna-se quase inevitável. Os mais prejudicados são os idosos, que pagam muito mais caro que os demais, têm necessidade de recorrer aos planos com mais frequência e nem sempre são atendidos em tempo.
Um exemplo disso é o caso que vou contar agora, cujo personagem é idoso. Vamos chamá-lo de Pedro. Já com seus 80 anos, mas saudável, e por isso quase nunca se valendo do plano de saúde, Pedro se deu conta de que seus pés tinham ficado dormentes. No começo, não deu importância ao fato, mas quando alguém lhe disse que aquilo poderia ser consequência de má circulação do sangue nos pés, decidiu procurar um angiologista, especialista no assunto.
Com dificuldade, conseguiu marcar a consulta, foi examinado e o resultado é que não havia qualquer problema de circulação em seus pés. "Isso é nervo, deve ser problema da coluna vertebral. Procure um ortopedista", disse-lhe o médico.
Foi de novo uma dificuldade para marcar a consulta, mas conseguiu agendá-la. "Isso é medula", afirmou o ortopedista e solicitou um raio-X panorâmico de sua coluna vertebral. Aí começou o drama.
Pedro telefonou para várias clínicas a fim de marcar a radiografia solicitada pelo ortopedista. Falar com as clínicas é um desespero: você liga, atende uma gravação que lhe apresenta uma série de opções.
Você escolhe a que lhe interessa, digita o número e fica esperando, enquanto começa a tocar uma música e uma voz lhe diz que é uma honra atendê-lo, e que isso se fará dentro em pouco. Você fica ali ouvindo a música e a promessa de ser atendido, mas nada acontece.
Pedro já estava a ponto de desistir quando finalmente o atenderam. Ele disse o que desejava e recebeu a seguinte informação: não se marca hora, a pessoa é atendida por ordem de chegada; quem chega primeiro é atendido primeiro. Perguntou então quando começava o atendimento e a telefonista lhe disse que era a partir das oito da manhã. Mal conseguiu dormir, preocupado em chegar cedo à clínica.
Acordou, tomou um gole de café e se tocou para lá. Chegou 20 para as oito e já tinha três pessoas em sua frente. Menos mal. Sucede que às 8h ainda não havia chegado o pessoal do raio-X e às 8h20 ninguém ainda havia sido atendido.
Quarenta minutos depois, a atendente, que examinara a guia médica, lhe disse que ali não se fazia raio-X panorâmico. Pedro voltou para casa desapontado. Sem outra alternativa, passou a ligar para diversas clínicas disposto a encontrar uma que o atendesse. Nenhuma delas fazia raio-X panorâmico.
Sem saber o que fazer, ligou para o ortopedista, que o aconselhou a perguntar para o plano de saúde qual clínica fazia o tal raio-X panorâmico. Recebeu da atendente o telefone de cinco clínicas.
Ligou para a primeira, que disse que não fazia esse tipo de raio-X; a segunda respondeu a mesma coisa, e assim também a terceira e a quarta. Apenas a quinta clínica admitiu que fazia, mas só poderia atendê-lo dali a um mês e meio. E Pedro paga R$ 1.700 por mês por seu plano de saúde.
A coisa se complica ainda mais quando se tornam necessários exames de laboratório, raio-X etc
Os planos de saúde tornaram-se um grave problema para milhões de brasileiros, que os pagam mensalmente. Como o SUS não dá conta do atendimento à vasta maioria dos brasileiros mais pobres, quem pode, ainda que apertando as despesas, contrata um plano de saúde, confiando em que, quando necessitar, será atendido. A verdade, porém, é que, a cada dia que passa, isso se torna mais difícil.
Uma das explicações para essa dificuldade --além do número crescente dos que fogem do SUS-- seria que as empresas dos planos de saúde, embora cobrem caro aos assinantes, pagam mal aos médicos. Em face disso, eles dão preferência aos pacientes que não têm plano de saúde e dos quais, em geral, cobram caro.
A coisa se complica ainda mais quando se tornam necessários exames de laboratório, chapas de raio-X etc. O número de pacientes que solicitam esses exames é cada dia maior, já que hoje todo diagnóstico necessita desses exames.
A verdade é que há que ter muita paciência para conseguir realizar esses exames, para entregar a solicitação e, mais ainda, para receber o resultado. Se se tratar de um caso grave, que exige urgência, o desastre torna-se quase inevitável. Os mais prejudicados são os idosos, que pagam muito mais caro que os demais, têm necessidade de recorrer aos planos com mais frequência e nem sempre são atendidos em tempo.
Um exemplo disso é o caso que vou contar agora, cujo personagem é idoso. Vamos chamá-lo de Pedro. Já com seus 80 anos, mas saudável, e por isso quase nunca se valendo do plano de saúde, Pedro se deu conta de que seus pés tinham ficado dormentes. No começo, não deu importância ao fato, mas quando alguém lhe disse que aquilo poderia ser consequência de má circulação do sangue nos pés, decidiu procurar um angiologista, especialista no assunto.
Com dificuldade, conseguiu marcar a consulta, foi examinado e o resultado é que não havia qualquer problema de circulação em seus pés. "Isso é nervo, deve ser problema da coluna vertebral. Procure um ortopedista", disse-lhe o médico.
Foi de novo uma dificuldade para marcar a consulta, mas conseguiu agendá-la. "Isso é medula", afirmou o ortopedista e solicitou um raio-X panorâmico de sua coluna vertebral. Aí começou o drama.
Pedro telefonou para várias clínicas a fim de marcar a radiografia solicitada pelo ortopedista. Falar com as clínicas é um desespero: você liga, atende uma gravação que lhe apresenta uma série de opções.
Você escolhe a que lhe interessa, digita o número e fica esperando, enquanto começa a tocar uma música e uma voz lhe diz que é uma honra atendê-lo, e que isso se fará dentro em pouco. Você fica ali ouvindo a música e a promessa de ser atendido, mas nada acontece.
Pedro já estava a ponto de desistir quando finalmente o atenderam. Ele disse o que desejava e recebeu a seguinte informação: não se marca hora, a pessoa é atendida por ordem de chegada; quem chega primeiro é atendido primeiro. Perguntou então quando começava o atendimento e a telefonista lhe disse que era a partir das oito da manhã. Mal conseguiu dormir, preocupado em chegar cedo à clínica.
Acordou, tomou um gole de café e se tocou para lá. Chegou 20 para as oito e já tinha três pessoas em sua frente. Menos mal. Sucede que às 8h ainda não havia chegado o pessoal do raio-X e às 8h20 ninguém ainda havia sido atendido.
Quarenta minutos depois, a atendente, que examinara a guia médica, lhe disse que ali não se fazia raio-X panorâmico. Pedro voltou para casa desapontado. Sem outra alternativa, passou a ligar para diversas clínicas disposto a encontrar uma que o atendesse. Nenhuma delas fazia raio-X panorâmico.
Sem saber o que fazer, ligou para o ortopedista, que o aconselhou a perguntar para o plano de saúde qual clínica fazia o tal raio-X panorâmico. Recebeu da atendente o telefone de cinco clínicas.
Ligou para a primeira, que disse que não fazia esse tipo de raio-X; a segunda respondeu a mesma coisa, e assim também a terceira e a quarta. Apenas a quinta clínica admitiu que fazia, mas só poderia atendê-lo dali a um mês e meio. E Pedro paga R$ 1.700 por mês por seu plano de saúde.
De volta ao armário - HUMBERTO WERNECK
O Estado de S.Paulo - 08/12
Você nunca sabe o que está para vir quando abre na memória algum armário há muito chaveado. Foi o que fiz aqui, na semana passada, ao me bater saudade dos guardados de meu pai, nos quais, menino, eu adorava bisbilhotar, ao ponto de acabar merecendo o apelido de "quati", mamífero, como se sabe, dado a fuçar onde não deve. Entre outros achados, a arqueologia sentimental me devolveu um frasco de colônia inglesa, barras de chocolate amargo e uma pistola velha porém virgem, tudo empapado de evocações poderosíssimas.
O que eu não esperava é que o relato da investida fosse abrir, entre os que me leram, um punhado de outros armários. Tudo indica que há por aí uma fartura de quatis. A Eliane, por exemplo, que bem antes de entregar-se a investigações acadêmicas afiou esse talento em mergulhos no guarda-roupa dos pais, onde veio a descobrir que eles gastavam os tubos - tubos metálicos de lança-perfume Rodouro.
O não menos enxerido Ralf ficou sabendo que, ao largo de esposa & prole, o virtuoso chefe da família chafurdava na Playboy. A Maria Elizabeth confessou que não resistia aos encantos e mistérios do armário materno, de onde, para começar, emanava um cheiro capaz ainda hoje de inebriá-la.
"Para não deixar rastros", rememora esse quati fêmea, "eu abria a porta e ficava um tempão olhando o leiaute, meio que tomando coragem ou, sei lá, definindo a estratégia". Em seguida, "caía matando na mexeção: vestia luvas, punha o véu prata (que hoje está comigo), abria a caixinha de música, cheirava os perfumes, punha as bolsas de festa..."
Aquilo, resume a Maria Elizabeth, era "uma viagem" - com certeza mais bem sucedida do que a bad trip experimentada na infância por outro xereta, o Bernardo. Mais velho de três irmãos, ele teve um choque ao dar de cara com um sortimento de camisinhas. Foi tirar satisfação com os usuários: "Quer dizer que vocês transaram mais de três vezes?!" Até parece que o Bernardo andou lendo Amor e Paz, guia de orientação sexual que achei atrás dos compêndios de odontologia do papai, e em cujas páginas, sofregamente folheadas, não encontrei a mais remota referência às delícias que podem advir da fricção entre dois corpos desejantes.
Na família, a leitura da crônica da semana passada levou à constatação de que meu pai, homem sem vaidades, não foi o único no clã a recorrer aos serviços do Clodoaldo, boa pessoa e péssimo alfaiate. Praticamente toda a banda masculina recorria a esse predador de finas casimiras. Até mesmo eu, entregou meu irmão Rodrigo. Não, não é possível, já teria aparecido na minha terapia!
O mesmo Rodrigo lembrou que num armário do andar de cima, entre uma chuteira aposentada e vidros com visgo para pegar passarinho, nosso pai guardava um chapéu de Dr. Livingstone, que nunca o vimos usar - lembrança em cuja esteira me veio também a de um capacete militar, relíquia talvez da Revolução de 30, que costumávamos mandar aos ares com bombas cabeça de negro (caixas cranianas de indivíduos afrodescendentes, se você preferir).
No meu próprio armário, não tenho notícia de que alguém tenha fuçado, o que não deixa de ser espantoso numa casa que abrigava dois adultos, dez filhos e um primo. No final dos anos 50, teria sido possível encontrar ali, escondida numa pilha de cuecas samba-canção, uma engenhosa cola para exames de geometria. E eis que agora me cai uma tardia ficha: é provável, é quase certo que a minha mãe, quati com boa causa, tenha achado aquela carretilha, provida de uma fita de papel na qual transcrevi os teoremas que levariam o vagabundo à quarta série do ginasial. Por que outro motivo teria ela vindo me dizer, assim do nada, no dia do exame: "nem me passa pela cabeça a ideia de que você possa colar"? Preferia, prosseguiu mamãe, "ver um filho reprovado do que promovido graças a expedientes desonestos!"
Impressionado, não delinqui. E já me encaminhava para a reprovação definitiva na repescagem, dois meses depois, quando me lembrei da carretilha salvadora. Dela fiz bom uso. Sem o menor peso na consciência. Só me faltou dizer, como o santo e pecador Jayme Ovalle: fazei-me virtuoso, Senhor, depois de amanhã!
Você nunca sabe o que está para vir quando abre na memória algum armário há muito chaveado. Foi o que fiz aqui, na semana passada, ao me bater saudade dos guardados de meu pai, nos quais, menino, eu adorava bisbilhotar, ao ponto de acabar merecendo o apelido de "quati", mamífero, como se sabe, dado a fuçar onde não deve. Entre outros achados, a arqueologia sentimental me devolveu um frasco de colônia inglesa, barras de chocolate amargo e uma pistola velha porém virgem, tudo empapado de evocações poderosíssimas.
O que eu não esperava é que o relato da investida fosse abrir, entre os que me leram, um punhado de outros armários. Tudo indica que há por aí uma fartura de quatis. A Eliane, por exemplo, que bem antes de entregar-se a investigações acadêmicas afiou esse talento em mergulhos no guarda-roupa dos pais, onde veio a descobrir que eles gastavam os tubos - tubos metálicos de lança-perfume Rodouro.
O não menos enxerido Ralf ficou sabendo que, ao largo de esposa & prole, o virtuoso chefe da família chafurdava na Playboy. A Maria Elizabeth confessou que não resistia aos encantos e mistérios do armário materno, de onde, para começar, emanava um cheiro capaz ainda hoje de inebriá-la.
"Para não deixar rastros", rememora esse quati fêmea, "eu abria a porta e ficava um tempão olhando o leiaute, meio que tomando coragem ou, sei lá, definindo a estratégia". Em seguida, "caía matando na mexeção: vestia luvas, punha o véu prata (que hoje está comigo), abria a caixinha de música, cheirava os perfumes, punha as bolsas de festa..."
Aquilo, resume a Maria Elizabeth, era "uma viagem" - com certeza mais bem sucedida do que a bad trip experimentada na infância por outro xereta, o Bernardo. Mais velho de três irmãos, ele teve um choque ao dar de cara com um sortimento de camisinhas. Foi tirar satisfação com os usuários: "Quer dizer que vocês transaram mais de três vezes?!" Até parece que o Bernardo andou lendo Amor e Paz, guia de orientação sexual que achei atrás dos compêndios de odontologia do papai, e em cujas páginas, sofregamente folheadas, não encontrei a mais remota referência às delícias que podem advir da fricção entre dois corpos desejantes.
Na família, a leitura da crônica da semana passada levou à constatação de que meu pai, homem sem vaidades, não foi o único no clã a recorrer aos serviços do Clodoaldo, boa pessoa e péssimo alfaiate. Praticamente toda a banda masculina recorria a esse predador de finas casimiras. Até mesmo eu, entregou meu irmão Rodrigo. Não, não é possível, já teria aparecido na minha terapia!
O mesmo Rodrigo lembrou que num armário do andar de cima, entre uma chuteira aposentada e vidros com visgo para pegar passarinho, nosso pai guardava um chapéu de Dr. Livingstone, que nunca o vimos usar - lembrança em cuja esteira me veio também a de um capacete militar, relíquia talvez da Revolução de 30, que costumávamos mandar aos ares com bombas cabeça de negro (caixas cranianas de indivíduos afrodescendentes, se você preferir).
No meu próprio armário, não tenho notícia de que alguém tenha fuçado, o que não deixa de ser espantoso numa casa que abrigava dois adultos, dez filhos e um primo. No final dos anos 50, teria sido possível encontrar ali, escondida numa pilha de cuecas samba-canção, uma engenhosa cola para exames de geometria. E eis que agora me cai uma tardia ficha: é provável, é quase certo que a minha mãe, quati com boa causa, tenha achado aquela carretilha, provida de uma fita de papel na qual transcrevi os teoremas que levariam o vagabundo à quarta série do ginasial. Por que outro motivo teria ela vindo me dizer, assim do nada, no dia do exame: "nem me passa pela cabeça a ideia de que você possa colar"? Preferia, prosseguiu mamãe, "ver um filho reprovado do que promovido graças a expedientes desonestos!"
Impressionado, não delinqui. E já me encaminhava para a reprovação definitiva na repescagem, dois meses depois, quando me lembrei da carretilha salvadora. Dela fiz bom uso. Sem o menor peso na consciência. Só me faltou dizer, como o santo e pecador Jayme Ovalle: fazei-me virtuoso, Senhor, depois de amanhã!
Menos inovação - RENATO CRUZ
O Estado de S.Paulo - 08/12
O Brasil está menos inovador. Um estudo do IBGE, divulgado semana passada, mostrou queda no porcentual de indústrias que inovam. A taxa de inovação passou de 38,1% no triênio 2006-2008 para 35,7% no período 2009-2011. Na prática, isso significa perda de competitividade.
O Brasil está menos inovador. Um estudo do IBGE, divulgado semana passada, mostrou queda no porcentual de indústrias que inovam. A taxa de inovação passou de 38,1% no triênio 2006-2008 para 35,7% no período 2009-2011. Na prática, isso significa perda de competitividade.
Uma empresa inova se consegue fazer dinheiro com processos e produtos novos. Normalmente, isso ocorre quando consegue cobrar mais por seu produto, que se diferencia da concorrência, ou, mesmo oferecendo um produto igual aos outros, melhora sua margem, usando a tecnologia para reduzir prazos e custos.
Não é por acaso que os resultados da balança comercial brasileira vêm se deteriorando. O saldo comercial, que havia sido de R$ 46,4 bilhões em 2006, chegou a R$ 19,4 bilhões no ano passado. Neste ano, até outubro, o comércio exterior brasileiro acumulava déficit de R$ 1,8 bilhão. Isso mostra a dificuldade das empresas brasileiras em conquistar mercado, e até mesmo em competir com os produtos importados no próprio mercando nacional.
Você pode dizer que essa falta de competitividade não está relacionada à inovação, mas aos componentes do chamado custo Brasil, como a infraestrutura logística precária. Mas acontece que vários desses componentes também são barreiras à inovação.
Um exemplo é a falta de mão de obra qualificada. A Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec), do IBGE, apresentou, pela primeira vez, essa deficiência como uma das principais barreiras à inovação. A formação inadequada do trabalhador ficou atrás somente dos custos elevados entre as principais preocupações das empresas quando o assunto é inovação.
Outro componente que emperra a inovação brasileira é a burocracia. É muito difícil abrir uma empresa por aqui e ainda mais difícil fechá-la. E não existe inovação sem a possibilidade de fracasso. Não pode ser complicado tentar de novo, porque o empreendedor perde a oportunidade de aprender com os próprios erros.
No Vale do Silício, berço de algumas das principais empresas de tecnologia americanas, se o fracasso não foi motivado por alguma ilegalidade ou comportamento muito estúpido, o empresário costuma ter nova chance.
Se um investidor coloca dinheiro numa startup americana e a empresa quebra, ele perde o que investiu. Aqui, se a startup deixar dívidas, ele é obrigado a assumir os débitos deixados pela empresa. Por causa de diferenças desse tipo, o apetite por risco costuma ser bem menor no Brasil.
Todo mundo já cansou de ouvir que brasileiro é criativo. Talvez esteja na hora de parar com essa conversa condescendente. Se alguém tem uma ideia e não consegue colocá-la em prática, não ganha nada com isso. Ideia todo mundo tem. O que faz diferença é a execução.
Não é por acaso que os resultados da balança comercial brasileira vêm se deteriorando. O saldo comercial, que havia sido de R$ 46,4 bilhões em 2006, chegou a R$ 19,4 bilhões no ano passado. Neste ano, até outubro, o comércio exterior brasileiro acumulava déficit de R$ 1,8 bilhão. Isso mostra a dificuldade das empresas brasileiras em conquistar mercado, e até mesmo em competir com os produtos importados no próprio mercando nacional.
Você pode dizer que essa falta de competitividade não está relacionada à inovação, mas aos componentes do chamado custo Brasil, como a infraestrutura logística precária. Mas acontece que vários desses componentes também são barreiras à inovação.
Um exemplo é a falta de mão de obra qualificada. A Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec), do IBGE, apresentou, pela primeira vez, essa deficiência como uma das principais barreiras à inovação. A formação inadequada do trabalhador ficou atrás somente dos custos elevados entre as principais preocupações das empresas quando o assunto é inovação.
Outro componente que emperra a inovação brasileira é a burocracia. É muito difícil abrir uma empresa por aqui e ainda mais difícil fechá-la. E não existe inovação sem a possibilidade de fracasso. Não pode ser complicado tentar de novo, porque o empreendedor perde a oportunidade de aprender com os próprios erros.
No Vale do Silício, berço de algumas das principais empresas de tecnologia americanas, se o fracasso não foi motivado por alguma ilegalidade ou comportamento muito estúpido, o empresário costuma ter nova chance.
Se um investidor coloca dinheiro numa startup americana e a empresa quebra, ele perde o que investiu. Aqui, se a startup deixar dívidas, ele é obrigado a assumir os débitos deixados pela empresa. Por causa de diferenças desse tipo, o apetite por risco costuma ser bem menor no Brasil.
Todo mundo já cansou de ouvir que brasileiro é criativo. Talvez esteja na hora de parar com essa conversa condescendente. Se alguém tem uma ideia e não consegue colocá-la em prática, não ganha nada com isso. Ideia todo mundo tem. O que faz diferença é a execução.
Fofoca turbinada - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 08/12
SÃO PAULO - Muito se fala nos apps Lulu, Tubby e no "revenge porn", que estariam inaugurando uma nova modalidade de violência sexual. É claro que esse tipo de exposição pode provocar vítimas, mas receio que o fenômeno não seja novo nem passível de controle por leis. Estamos, afinal, diante da versão tecnológica e indelével da boa e velha fofoca, que é um universal humano.
Vemos a futrica com desconfiança. Ela fica em algum ponto entre a informação não confiável e a intriga. Já o hábito de mexericar é descrito como vício moral. Tudo isso é verdade, mas há um lado positivo nas indiscrições que raramente é destacado.
Para começar, a fofoca é o mais antigo e, provavelmente, mais eficiente dos mecanismos de controle social. Muito antes de haver polícia, as pessoas puniam o membro do grupo que se desviasse da norma falando mal dele. Numa comunidade de algumas dezenas de pessoas, ser objeto de comentários e olhares tortos tende a ser mais do que suficiente para restaurar o bom comportamento. Medidas mais extremas, como banimento e execução, são eventos relativamente raros nas sociedades de caçadores-coletores que ainda sobrevivem.
O antropólogo Christopher Boehm, em seu fascinante "Moral Origins", vai além e afirma que foi a fofoca que permitiu a nossos ancestrais chegarem aos consensos sociais --como o incentivo à generosidade e à cooperação-- que constituem a base de nossos códigos morais.
No plano individual, somos atraídos pelo diz que diz porque ele nos inunda com informações potencialmente úteis sobre nossos semelhantes. É assim que ficamos sabendo se fulano é confiável para retribuir um favor e se beltrana é boa de cama. A informação nem precisa ser exata. Basta que a central de boatos não erre sempre para que seja preservada.
Isso produz injustiças e até tragédias, mas me parece improvável que se possa banir da rede um traço tão caracteristicamente humano.
SÃO PAULO - Muito se fala nos apps Lulu, Tubby e no "revenge porn", que estariam inaugurando uma nova modalidade de violência sexual. É claro que esse tipo de exposição pode provocar vítimas, mas receio que o fenômeno não seja novo nem passível de controle por leis. Estamos, afinal, diante da versão tecnológica e indelével da boa e velha fofoca, que é um universal humano.
Vemos a futrica com desconfiança. Ela fica em algum ponto entre a informação não confiável e a intriga. Já o hábito de mexericar é descrito como vício moral. Tudo isso é verdade, mas há um lado positivo nas indiscrições que raramente é destacado.
Para começar, a fofoca é o mais antigo e, provavelmente, mais eficiente dos mecanismos de controle social. Muito antes de haver polícia, as pessoas puniam o membro do grupo que se desviasse da norma falando mal dele. Numa comunidade de algumas dezenas de pessoas, ser objeto de comentários e olhares tortos tende a ser mais do que suficiente para restaurar o bom comportamento. Medidas mais extremas, como banimento e execução, são eventos relativamente raros nas sociedades de caçadores-coletores que ainda sobrevivem.
O antropólogo Christopher Boehm, em seu fascinante "Moral Origins", vai além e afirma que foi a fofoca que permitiu a nossos ancestrais chegarem aos consensos sociais --como o incentivo à generosidade e à cooperação-- que constituem a base de nossos códigos morais.
No plano individual, somos atraídos pelo diz que diz porque ele nos inunda com informações potencialmente úteis sobre nossos semelhantes. É assim que ficamos sabendo se fulano é confiável para retribuir um favor e se beltrana é boa de cama. A informação nem precisa ser exata. Basta que a central de boatos não erre sempre para que seja preservada.
Isso produz injustiças e até tragédias, mas me parece improvável que se possa banir da rede um traço tão caracteristicamente humano.
Biografias: entre o certo e o certo - CARLOS AYRES BRITTO
ZERO HORA - 08/12
Biografar não é descrição de vida futura. É relato de vida já acontecida ou de desfrute já exaurido do direito à intimidade
Em linguagem dicionarizada, “bio” é termo designativo de vida, assim como “grafar” é termo designativo de escrever. Sendo que biografar é escrever a vida de outrem. Mais precisamente, biografar é conhecer a trajetória de vida de uma terceira pessoa para o fim de relato e divulgação. Vida do biografado: a) em isolamento ou consigo mesmo (intimidade); b) vida em interação com pessoas mais próximas em afeto e confiança (privacidade); c) vida com os seres humanos em geral (vida social genérica).
Acresça-se: biografar é atividade que implica pesquisa, entrevistas, análise, relato metódico ou descrição esquematizada, publicação. Atividade intelectual, na medida em que exigente de um tipo de elaboração mental que o povo bem denomina de queima de pestanas ou emprego de massa cinzenta. A demandar do biógrafo “acesso à informação” e respectivo repasse, “manifestação do pensamento” e, naturalmente, “expressão da atividade intelectual (…) e de comunicação”. Que são direitos constitucionalmente adjetivados de “Fundamentais” e de pronto qualificados como conteúdos do princípio da “liberdade”. Liberdade, além do mais, expressamente concedida sob a cláusula da inviolabilidade.
Ocorre que também sob a marca registrada da fundamentalidade e da inviolabilidade foi que a nossa Constituição conferiu o direito subjetivo à “intimidade”, “vida privada”, “honra” e “imagem” das pessoas. Com o que se tem um confronto de direitos que obriga o intérprete a conhecer a forma pela qual a própria Constituição conciliou as duas categorias de dispositivos. Espécie de opção entre o certo e o certo, no pressuposto de que ela, Constituição, se deseja aplicada em todos os seus comandos. Mas aplicada por modo a sacrificar a amplitude desse ou daquele direito que, sem tal redução de conteúdo, terminaria por nulificar a aplicabilidade do outro, ou até de muitos outros. É o caso da censura prévia ou da antecipada autorização de quem se veja como alvo de empreitada biográfica, pela óbvia razão de que: a) censura prévia é trancafiar numa só masmorra o pensamento, a informação e toda forma de expressão intelectual, científica, artística e de comunicação; b) autorização prévia para se deixar biografar é mal disfarçada autobiografia ou exógena imposição de rumos ao biógrafo. Pelo que, para a devida conciliação das coisas, o conceito de intimidade e vida privada somente pode traduzir o direito a um livre desfrute. Não mais que isto. Mas livre desfrute, no sentido de não embaraçado, não interrompido, não obstruído no curso mesmo de sua efetivação.
Ora, biografar não é descrição de vida futura. É relato de vida já acontecida ou de desfrute já exaurido do direito à intimidade, vida privada e vida social genérica. É apenas um retrato falado do modo pelo qual o direito ao desfrute já se consumou. Modo a que o biógrafo teve acesso. Nada tem a ver com interceptação de escuta telefônica, uso de teleobjetiva em recintos privados, enfiar-se por debaixo de camas alheias, esconder-se em armários de terceiros ou qualquer outra forma de interrupção, perturbação ou obstrução do desfrute em causa. Contudo, se o biógrafo descamba para o campo da invencionice, ou então da coleta de dados tão maliciosamente distorcidos a ponto de ofender a honra do biografado, além de causar a este prejuízos de ordem “material, moral ou à imagem”, o que pode ocorrer em termos jurídicos? Bem, o que pode ocorrer não é senão a aplicabilidade das normas constitucionais que falam do direito de resposta e de indenização. De parelha com aquelas que legitimam o código penal a criminalizar condutas caluniosas, difamatórias, ou injuriosas.
Fora deste visual jurídico, penso que resultaria frustrado o modo pelo qual a Constituição se desejou conciliadamente aplicada em temas tão sensíveis.
Biografar não é descrição de vida futura. É relato de vida já acontecida ou de desfrute já exaurido do direito à intimidade
Em linguagem dicionarizada, “bio” é termo designativo de vida, assim como “grafar” é termo designativo de escrever. Sendo que biografar é escrever a vida de outrem. Mais precisamente, biografar é conhecer a trajetória de vida de uma terceira pessoa para o fim de relato e divulgação. Vida do biografado: a) em isolamento ou consigo mesmo (intimidade); b) vida em interação com pessoas mais próximas em afeto e confiança (privacidade); c) vida com os seres humanos em geral (vida social genérica).
Acresça-se: biografar é atividade que implica pesquisa, entrevistas, análise, relato metódico ou descrição esquematizada, publicação. Atividade intelectual, na medida em que exigente de um tipo de elaboração mental que o povo bem denomina de queima de pestanas ou emprego de massa cinzenta. A demandar do biógrafo “acesso à informação” e respectivo repasse, “manifestação do pensamento” e, naturalmente, “expressão da atividade intelectual (…) e de comunicação”. Que são direitos constitucionalmente adjetivados de “Fundamentais” e de pronto qualificados como conteúdos do princípio da “liberdade”. Liberdade, além do mais, expressamente concedida sob a cláusula da inviolabilidade.
Ocorre que também sob a marca registrada da fundamentalidade e da inviolabilidade foi que a nossa Constituição conferiu o direito subjetivo à “intimidade”, “vida privada”, “honra” e “imagem” das pessoas. Com o que se tem um confronto de direitos que obriga o intérprete a conhecer a forma pela qual a própria Constituição conciliou as duas categorias de dispositivos. Espécie de opção entre o certo e o certo, no pressuposto de que ela, Constituição, se deseja aplicada em todos os seus comandos. Mas aplicada por modo a sacrificar a amplitude desse ou daquele direito que, sem tal redução de conteúdo, terminaria por nulificar a aplicabilidade do outro, ou até de muitos outros. É o caso da censura prévia ou da antecipada autorização de quem se veja como alvo de empreitada biográfica, pela óbvia razão de que: a) censura prévia é trancafiar numa só masmorra o pensamento, a informação e toda forma de expressão intelectual, científica, artística e de comunicação; b) autorização prévia para se deixar biografar é mal disfarçada autobiografia ou exógena imposição de rumos ao biógrafo. Pelo que, para a devida conciliação das coisas, o conceito de intimidade e vida privada somente pode traduzir o direito a um livre desfrute. Não mais que isto. Mas livre desfrute, no sentido de não embaraçado, não interrompido, não obstruído no curso mesmo de sua efetivação.
Ora, biografar não é descrição de vida futura. É relato de vida já acontecida ou de desfrute já exaurido do direito à intimidade, vida privada e vida social genérica. É apenas um retrato falado do modo pelo qual o direito ao desfrute já se consumou. Modo a que o biógrafo teve acesso. Nada tem a ver com interceptação de escuta telefônica, uso de teleobjetiva em recintos privados, enfiar-se por debaixo de camas alheias, esconder-se em armários de terceiros ou qualquer outra forma de interrupção, perturbação ou obstrução do desfrute em causa. Contudo, se o biógrafo descamba para o campo da invencionice, ou então da coleta de dados tão maliciosamente distorcidos a ponto de ofender a honra do biografado, além de causar a este prejuízos de ordem “material, moral ou à imagem”, o que pode ocorrer em termos jurídicos? Bem, o que pode ocorrer não é senão a aplicabilidade das normas constitucionais que falam do direito de resposta e de indenização. De parelha com aquelas que legitimam o código penal a criminalizar condutas caluniosas, difamatórias, ou injuriosas.
Fora deste visual jurídico, penso que resultaria frustrado o modo pelo qual a Constituição se desejou conciliadamente aplicada em temas tão sensíveis.
Conversa vencida J. R. GUZZO
REVISTA VEJA
Muito pouca gente deve lembrar de alguma ocasião em que se falou tanto de dois internos do sistema penitenciário nacional como se fala agora de José Dirceu e José Genoino. Os dois magnatas estavam abaixo só de Deus, no PT - é natural, assim, que sua condenação no STF por crime de corrupção tenha rendido uma montanha de assuntos par^ a imprensa, os cidadãos que se manifestam pela internet e todo brasileiro que tem, ou acha que tem, algo a comentar sobre política. Genoino teve ou não um começo de infarto na prisão da Papuda, em Brasília, em razão do qual foi removido para um hospital? Aliás, existe mesmo isso - "começo de infarto"? O que José Dirceu tem no currículo profissional que justificasse sua contratação por 20 000 reais por mês para gerir um hotel quatro-estrelas de Brasília - emprego do qual acabou desistindo? Haveria alguma relação entre o convite, necessário para que Dirceu possa cumprir sua pena em regime semiaberto, e o dono do hotel, um íntimo amigo do governo petista e próspero beneficiário de concessões de rádio? Por que o PT chama Genoino e Dirceu de "presos políticos", mas não diz uma palavra sobre á condenação da banqueira Kátia Rabello ou de Marcos Valério, por exemplo, que receberam penas de prisão muito mais pesadas? A presidente Dilma Rousseff ficou contrariada, mesmo, com o tratamento diferenciado que os dois têm recebido na Papuda? Se Genoino é um homem inocente, por que renunciou, na semana passada, a seu mandato de deputado - estava achando que iria ser cassado pelo plenário?
Muita conversa, como se vê. Mas será que valeria mesmo a pena falar tanto assim desse assunto? Parece, num exame um pouco mais atento, que se está queimando muita vela para pouco santo. Começando por Genoino, por exemplo, logo se vê que a viga mestra do debate é o fato de que ele não se beneficiou financeiramente em nada com as traficâncias do mensalão - é um homem honrado e não enriqueceu no governo. Estaria provada, já aí, a injustiça da sua condenação. Mas os psuários desse tipo de argumento se recusam a aceitar uma realidade óbvia: nunca esteve em julgamento, em sete anos de processo, a integridade pessoal de Genoino. O que se julgou foi outra coisa: se ele violou ou não os artigos 288 e 333 do Código Penal brasileiro, que punem os crimes de formação de quadrilha e de corrupção ativa. Da mesma forma, os movimentos pró-Genoino - e ele próprio, ao levantar o punho esquerdo para os fotógrafos no momento da prisão, como se estivesse liderando um ato político - passaram a sustentar que o ex-líder está preso só porque foi presidente do PT. É o contrário dos fatos: Genoino está preso porque assinou cheques que serviram de base para uma vasta operação de fraude bancária. É a sua assinatura, e de ninguém mais, que está lá.
Gasta-se muito latim, também, com lembranças sobre o passado do chefe petista, como se ele fosse um herói da história brasileira recente. Mas, quando se sai da biografia e se vai ver a obra, o que aparece? Na vida como ela é aparece um cidadão que achou possível derrubar o governo do Brasil sem combinar nada com os 90 milhões de brasileiros da época, reunindo meia dúzia de seguidores mal armados, mal treinados e mal comandados num dos cantos mais remotos do território nacional - o fundão do Araguaia, onde se limitou, o tempo todo, a ficar fugindo da tropa, até seu grupo ser liquidado e ele próprio ser preso. O objetivo do seu movimento, para completar, era criar uma ditadura no Brasil, em substituição ao regime militar; nada mais distante da realidade do que a fantasia espalhada hoje segundo a qual Genoino foi um combatente da democracia e da liberdade no Brasil.
Dirceu, que também é discutido como um homem importantíssimo, não tem valor maior. Com 67 anos de idade e uns 45 de militância, passou a vida inteira fazendo tudo para chegar ao poder, por qualquer meio que fosse - e quando enfim chegou lá, com a vitória de Lula na eleição presidencial de 2002, mal conseguiu ficar dois anos no governo. Que gênio político é esse? Pior: na vida real, ninguém prejudicou tanto a Dirceu quanto o homem que ele tem servido há décadas: o ex-presidente Lula, que o demitiu do seu ministério já em 2005 e sepultou a sua carreira, sem jamais ter dito uma palavra para explicar por que fez isso. Não foi o ministro Joaquim Barbosa nem a "direita" que botaram Dirceu na rua - foi Lula. Se o mensalão não existiu e Dirceu não fez nada de errado, por que o ex-presidente lhe deu esse tiro na testa? Mistério.
Já venceu, para Genoino e Dirceu, o prazo de validade.
Genoino está preso porque assinou cheques que serviram de base para uma vasta operação de fraude bancária.
É a sua assinatura, e de ninguém mais, que está lá
Muita conversa, como se vê. Mas será que valeria mesmo a pena falar tanto assim desse assunto? Parece, num exame um pouco mais atento, que se está queimando muita vela para pouco santo. Começando por Genoino, por exemplo, logo se vê que a viga mestra do debate é o fato de que ele não se beneficiou financeiramente em nada com as traficâncias do mensalão - é um homem honrado e não enriqueceu no governo. Estaria provada, já aí, a injustiça da sua condenação. Mas os psuários desse tipo de argumento se recusam a aceitar uma realidade óbvia: nunca esteve em julgamento, em sete anos de processo, a integridade pessoal de Genoino. O que se julgou foi outra coisa: se ele violou ou não os artigos 288 e 333 do Código Penal brasileiro, que punem os crimes de formação de quadrilha e de corrupção ativa. Da mesma forma, os movimentos pró-Genoino - e ele próprio, ao levantar o punho esquerdo para os fotógrafos no momento da prisão, como se estivesse liderando um ato político - passaram a sustentar que o ex-líder está preso só porque foi presidente do PT. É o contrário dos fatos: Genoino está preso porque assinou cheques que serviram de base para uma vasta operação de fraude bancária. É a sua assinatura, e de ninguém mais, que está lá.
Gasta-se muito latim, também, com lembranças sobre o passado do chefe petista, como se ele fosse um herói da história brasileira recente. Mas, quando se sai da biografia e se vai ver a obra, o que aparece? Na vida como ela é aparece um cidadão que achou possível derrubar o governo do Brasil sem combinar nada com os 90 milhões de brasileiros da época, reunindo meia dúzia de seguidores mal armados, mal treinados e mal comandados num dos cantos mais remotos do território nacional - o fundão do Araguaia, onde se limitou, o tempo todo, a ficar fugindo da tropa, até seu grupo ser liquidado e ele próprio ser preso. O objetivo do seu movimento, para completar, era criar uma ditadura no Brasil, em substituição ao regime militar; nada mais distante da realidade do que a fantasia espalhada hoje segundo a qual Genoino foi um combatente da democracia e da liberdade no Brasil.
Dirceu, que também é discutido como um homem importantíssimo, não tem valor maior. Com 67 anos de idade e uns 45 de militância, passou a vida inteira fazendo tudo para chegar ao poder, por qualquer meio que fosse - e quando enfim chegou lá, com a vitória de Lula na eleição presidencial de 2002, mal conseguiu ficar dois anos no governo. Que gênio político é esse? Pior: na vida real, ninguém prejudicou tanto a Dirceu quanto o homem que ele tem servido há décadas: o ex-presidente Lula, que o demitiu do seu ministério já em 2005 e sepultou a sua carreira, sem jamais ter dito uma palavra para explicar por que fez isso. Não foi o ministro Joaquim Barbosa nem a "direita" que botaram Dirceu na rua - foi Lula. Se o mensalão não existiu e Dirceu não fez nada de errado, por que o ex-presidente lhe deu esse tiro na testa? Mistério.
Já venceu, para Genoino e Dirceu, o prazo de validade.
Genoino está preso porque assinou cheques que serviram de base para uma vasta operação de fraude bancária.
É a sua assinatura, e de ninguém mais, que está lá
A cantada - LUIS FERNANDO VERISSIMO
O Estado de S.Paulo - 08/12
Quero ir para a cama com você.
- O que?!
- No momento em que vi você entrando no bar, pensei: quero ir para a cama com essa mulher.
- Olha aqui, não sei quem você pensa que eu sou, mas...
- Por favor, não se ofenda. Talvez não aconteça, nós irmos juntos para a cama. Provavelmente não vai acontecer. Mas achei que você deveria saber o sentimento que despertou em mim, no momento em que a vi. Eu sei, você deve estar pensando quem é esse maluco que sai da mesa dele e vem até a minha me dizer que quer ir para a cama comigo? Que nem sabe o meu nome ou qualquer outra coisa a meu respeito, que nem liga para o homem que está comigo e daqui a pouco vai se levantar e pedir satisfações. Mas acredite, eu não sou um louco. Minhas intenções são as mais puras, eu...
- Puras?! Você vem aqui dizer na minha cara e na cara do meu namorado que quer fazer sexo comigo e...
- Espera aí. Quem falou em sexo? Eu não falei em sexo.
- Como?
- Cama não é só para sexo.
- Não entendi...
- Eu disse que queria ir para a cama com você. Não fazer sexo.
- Você quer dormir comigo, é isso? Dormir mesmo. Só dormir.
- Não. Só dormir, não. Tudo que vem antes, durante e depois de dormir. Tudo que um casal faz junto, quando está casado há tempo. Os velhos hábitos. Quem dorme de que lado, quem fica lendo até tarde e o outro reclama. Quem tem pés frios e faz questão de encostá-los nos pés do outro. As conversas de cama. Como foi o seu dia? Como está á sua lombalgia? Quando será que os netos vêm nos visitar? Nos imaginei acordando na mesma cama, os dois meio emburrados pelo sono. A decisão de todos os dias: quem vai ao banheiro primeiro? O que os dois fazem no banheiro? As escovas de dente dos dois, lado a lado. Existe coisa mais comovente do que duas escovas de dente lado a lado num banheiro? Me imaginei de pijama amarrotado, e você de camisola de flanela. Quando você entrou no bar, tive uma visão: você de camisola de flanela.
- Mas tudo isso só vem depois de muitos anos de casados.
- Claro.
- E de sexo.
- Bom, se você quiser pensar assim... Mas o sexo seria apenas uma etapa.
Quero ir para a cama com você.
- O que?!
- No momento em que vi você entrando no bar, pensei: quero ir para a cama com essa mulher.
- Olha aqui, não sei quem você pensa que eu sou, mas...
- Por favor, não se ofenda. Talvez não aconteça, nós irmos juntos para a cama. Provavelmente não vai acontecer. Mas achei que você deveria saber o sentimento que despertou em mim, no momento em que a vi. Eu sei, você deve estar pensando quem é esse maluco que sai da mesa dele e vem até a minha me dizer que quer ir para a cama comigo? Que nem sabe o meu nome ou qualquer outra coisa a meu respeito, que nem liga para o homem que está comigo e daqui a pouco vai se levantar e pedir satisfações. Mas acredite, eu não sou um louco. Minhas intenções são as mais puras, eu...
- Puras?! Você vem aqui dizer na minha cara e na cara do meu namorado que quer fazer sexo comigo e...
- Espera aí. Quem falou em sexo? Eu não falei em sexo.
- Como?
- Cama não é só para sexo.
- Não entendi...
- Eu disse que queria ir para a cama com você. Não fazer sexo.
- Você quer dormir comigo, é isso? Dormir mesmo. Só dormir.
- Não. Só dormir, não. Tudo que vem antes, durante e depois de dormir. Tudo que um casal faz junto, quando está casado há tempo. Os velhos hábitos. Quem dorme de que lado, quem fica lendo até tarde e o outro reclama. Quem tem pés frios e faz questão de encostá-los nos pés do outro. As conversas de cama. Como foi o seu dia? Como está á sua lombalgia? Quando será que os netos vêm nos visitar? Nos imaginei acordando na mesma cama, os dois meio emburrados pelo sono. A decisão de todos os dias: quem vai ao banheiro primeiro? O que os dois fazem no banheiro? As escovas de dente dos dois, lado a lado. Existe coisa mais comovente do que duas escovas de dente lado a lado num banheiro? Me imaginei de pijama amarrotado, e você de camisola de flanela. Quando você entrou no bar, tive uma visão: você de camisola de flanela.
- Mas tudo isso só vem depois de muitos anos de casados.
- Claro.
- E de sexo.
- Bom, se você quiser pensar assim... Mas o sexo seria apenas uma etapa.
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