domingo, julho 21, 2013

Novo mundo - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 21/07

Nunca mais a economia poderá ser pensada e planejada sem que a questão ambiental seja parte da equação; nunca mais o meio ambiente será apenas uma paisagem. E daqui para frente os debates sobre população terão sempre que ser feitos tendo como pano de fundo os cenários de mudança climática. Com essas certezas, desembarquei num debate semana passada.

Demógrafos da América Latina e Caribe reuniram-se no Rio para fazer o encontro regional preparatório dos 20 anos da Conferência das Nações Unidas Sobre População e Desenvolvimento, no Cairo. Foi no IBGE, e eu estive na mesa que unia os três temas - população, meio ambiente e desenvolvimento econômico. O cruzamento desses três olhares é instigante e ajuda a entender certos definitivos da vida.

No mesmo dia, nas minhas apurações para a coluna, consegui dados antecipados que mostram um avanço aterrador do desmatamento na Amazônia em junho, mês em que andei por lá e pude ver as toras mortas na beira das estradas em que trafegam, impunes, os madeireiros. Aquelas manchas dos sinais de satélites, capturados e processados por computadores em tempo real, não são uma abstração. Sei, de ver, que a derrubada da floresta continua.

Economista cético não entenderá os desafios econômicos dos próximos anos. Demógrafo que não entendeu os riscos humanos criados pela mudança climática será surpreendido pelos eventos extremos a que estará exposta a população.

A região conseguiu nas últimas décadas uma redução expressiva da pobreza. No Brasil, o núcleo mais duro da pobreza extrema está justamente no semiárido nordestino, local mais vulnerável aos efeitos da mudança climática. Há riscos de desertificação em outras áreas pobres da América Latina e Caribe. A longa seca do Nordeste este ano lembra que estão atrasadas as políticas de adaptação.

Na América Central e Caribe acumulam-se as evidências de que aumentarão as tempestades tropicais e outros eventos extremos determinados pelas mudanças climáticas. É preciso investir em prevenção de desastres.

O mundo precisará de água, biodiversidade, capacidade de produção de alimentos. A região tem tudo isso. Mas a América Latina não é um reservatório homogêneo de recursos naturais. Há os mais e os menos produtivos. O derretimento das geleiras do Peru e da Bolívia sustenta cenários de falta de água em Lima e La Paz, entre outras cidades. Os rios amazônicos passarão por volatilidades radicais. Já estão passando. Em 2010, houve a maior seca dos últimos 100 anos; em 2009, a maior enchente de que se tem notícia. Água demais e, depois, tempos de escassez exigirão entender melhor o novo regime hídrico. O princípio da precaução recomenda não encher a região de empreendimentos agressivos ao meio ambiente, nem aceitar o desmatamento.

A América Latina e o Caribe sofreram ao longo de sua história com um modelo de extração - em alguns casos, saques - das riquezas naturais, um projeto econômico deliberadamente concentrador de renda e um mal disfarçado racismo que opôs descendentes de europeus aos de origem indígena. No Brasil, entre brancos e negros. Tudo isso sempre foi imoral e hoje é disfuncional do ponto de vista econômico.

As mudanças demográficas - o número de filhos por mulher caiu de 6 para 2,1 em seis décadas - reduzirão os novos entrantes no mercado de trabalho. A desigualdade e a discriminação de qualquer natureza são um risco hoje até para as empresas e apequenam o mercado consumidor. Na economia do conhecimento, a educação não poderá mais ser relegada. O desenvolvimento econômico precisará da força dos cérebros. O modelo de saque desordenado das riquezas naturais e desprezo ao capital humano pode levar à perda de ativos que farão falta no novo mundo que se aproxima.

Claro que os países podem ignorar esses imperativos; os debates acadêmicos, perderem-se em questiúnculas; os administradores públicos, escolherem a insensatez, e os lobbies retrógrados, vencerem mais uma vez. Mas o preço a pagar pelos erros será maior agora.

Em 2004, quando o Brasil atingiu o segundo pior ano de desmatamento, 27 mil Km² (o primeiro foi 1995, com 29 mil Km²), começou uma ofensiva de defesa da floresta que derrubou essa taxa ano após ano. Mas, ainda assim, desmata-se todos os anos. Em 2012, foram 4,7 mil Km². Há o risco de voltar a piorar. Quem subestima esse risco, está desinformado.

Novo problema, novo remédio - HENRIQUE MEIRELLES

FOLHA DE SP - 21/07

Na economia, como na medicina, diagnóstico correto é o primeiro passo para tratamento correto. O segundo é que o remédio aplicado deve ser adequado ao problema.

Já mencionei aqui a reação da política econômica à crise de 2008 e relatórios do FMI e de outros órgãos considerando a ação brasileira como modelo de enfrentamento de crise de crédito. O mais importante é entender precisamente qual era o problema, o que (e como) foi feito e aprender com isso.

A quebra do banco Lehman Brothers, nos EUA, levou a um colapso das linhas de crédito internacionais, que eram cerca de 20% do total do crédito no Brasil. Isso gerou crise de liquidez em dólares e reais e dúvidas sobre a solvência de empresas e bancos. A resposta do Banco Central foi liberar liquidez em dólares, em reais e nos mercados futuros de forma rápida e decisiva.

A melhor definição que vi para uma crise de crédito é compará-la a um ataque cardíaco. Se a resposta for rápida, precisa e com equipamento adequado, o ataque pode deixar poucas sequelas ou nenhuma. Caso demore, mais problemas causará ao coração, às artérias e ao cérebro, gerando danos irreparáveis ao corpo.

O mesmo acontece na economia. Quanto mais dura for a crise, maiores os danos para toda a economia e, portanto, maior a dificuldade de resolver o problema.

No caso do Brasil, em 2008, a economia se recuperou rapidamente, e as empresas retomaram as vendas depois do tombo da produção industrial de 20% em dois meses e da queda anualizada do PIB de 13% no último trimestre. No início de 2010, a economia já estava normalizada, e o BC ajustou os níveis de liquidez.

A resposta com oferta de crédito naquele momento foi adequada, já que a prioridade era restaurá-lo, uma vez que sua contração era exatamente o problema. A resposta fiscal visando a retomada do consumo, em queda livre devido às restrições de crédito, também colaborou para restaurar o dinamismo.

Hoje, examinando o Brasil, é possível diagnosticar que o problema é de custos elevados e baixo investimento. Essa carência importante é acentuada pelas incertezas da economia brasileira e pelo momento global, no qual os EUA consolidam sua recuperação e atraem capitais investidos em outros países.

Portanto, o caminho do Brasil agora é transmitir confiança e credibilidade aos investidores por meio de regras estáveis, trajetória fiscal clara e política monetária firme. Assim, poderemos criar as condições para o aumento dos investimentos, principalmente para elevar a produtividade e reduzir os custos. Dessa maneira estaremos enfrentando de forma efetiva o problema do momento.

500 mortes em preto e branco - DORRIT HARAZIM

O GLOBO - 21/07

O governador do Texas Rick Perry negou clemência à condenada. Ele contabiliza agora o cumprimento de 261 execuções desde que assumiu o cargo, em 2000


Semanas, atrás, num final de tarde de verão em Huntsville, Estado americano do Texas, Kimberly McCarthy leu um pouco, comeu um pêssego e arrumou seus pertences. Depois tomou banho de chuveiro, deitou-se e passou a fazer palavras cruzadas. Pouco antes das 18 hr, horário de praxe para execuções à morte no sistema penitenciário dos Estados Unidos, vestiu o uniforme branco novo que também é de praxe para a ocasião.

Enquanto a injeção letal de pentobarbital corria em suas veias, ela ergueu os olhos até a janela por detrás da qual sabia estarem seus familiares e lhes agradeceu o apoio. Suas últimas palavras, atada à maca metálica na câmara da morte, foram : “Isto não é uma derrota, é um ganho. Estou indo para casa com Jesus”.

Arquejou um pouco o corpo antes de morrer. Vinte minutos depois de iniciado o procedimento, o médico constatou ausência de qualquer sinal vital e a cobriu com um lençol branco. O capelão do presídio, então, removeu sua mão do contato com a executada e guardou a bíblia que mantinha erguida.

Kimberly McCarthy foi a 500° pessoa a ser executada no Texas desde a retomada da pena de morte no Estado em 1982. Era negra, viciada em drogas e tinha 52 anos. Em 1997 entrara na casa de uma vizinha idosa sob pretexto de precisar de um pouco de açúcar. Matou a aposentada branca a facadas, roubou sua aliança decepando-lhe o anular e revendeu a joia para comprar crack.

“Quinhentos é apenas um número, não significa muito mais do que isso”, disse o afilhado da vítima do latrocínio, presente àexecução. “Apenas quisemos que fosse feita a justiça prometida pelo Texas”.

Nesse quesito, o segundo Estado mais populoso daquele país não falha. Responsável por quase 40% das mais de 1.300 execuções levadas a cabo nos Estados Unidos desde que a Corte Suprema autorizou a retomada da pena capital, o Texas mantinha uma média de quase uma execução por semana em 2000. No ano passado esse número decresceu para pouco mais de uma morte judicial por mês – ainda assim, cinco vezes superior a média dos outros 32 Estados que também aplicam a pena capital.

Mais que tudo, o Texas é notório pela discriminação racial que define a seleção de jurados. No caso de Kimberly McCarthy, apenas um membro do corpo de 12 jurados era negro, apesar de quase um quarto da população local ser afrodescendente - os três outros que fizeram parte da lista original haviam sido descartados.

O viés racial já foi bem mais explícito no passado, é verdade. Um manual datado de 1963 com instruções à promotoria de como selecionar jurados recomendava abertamente a exclusão de “negros, judeus, mexicanos ou membros de qualquer minoria racial- mesmo quando ricos ou de boa formação”. Em 1986, mesmo um quarto de século depois, onze de 12 candidatos a juri negros foram eliminados sem maiores cerimônias. O caso se tornou célebre e resultou na reversão da pena. E ainda em 2005, contudo, o jornal Dallas Morning News levantou 108 casos de exclusão viciada.

“O sistema de pena capital do Texas é notório pela tolerância com a ineficácia da defensoria pública, pelo excesso de gana da promotoria e pela discriminação racial na composição do corpo de jurados. O caso Kimberly McCarthy parece contaminado pelas três coisas”, acusou em editorial o New York Times.

O governador do Texas Rick Perry negou clemência à condenada. Ele contabiliza agora o cumprimento de 261 execuções desde que assumiu o cargo, em 2000. A grande maioria das comutações por ele autorizadas– 28 – se deram em decorrência de uma decisão da Corte Suprema que bane a pena capital ... para menores de idade.

Menos de 48 horas após a execução de McCarthy, o governador Perry fez as honras da casa para uma organização anti-aborto, a National Right to Life, que realizava sua convenção anual em Dallas. “ Sinto-me abençoado por tê-los aqui, homens e mulheres [que como eu] valorizamos a vida humana”, disse ele, no discurso do abertura do evento. No início do mês o legislativo texano havia passado a lei, já sancionada pelo governador, que amplia em muito as restrições ao aborto ainda legal no Estado.

Tudo em nome da “proteção à vida”.

Um deputado estadual texano, Harold Dutton, deu o troco esta semana ao apresentar um projeto de lei insolente, sem qualquer chance de ser aprovado. Ele propõe a suspensão das novas restrições ao aborto até que a pena de morte seja abolida no Estado.

Já que o discurso oficial de Perry é de “proteção à vida”, argumenta Dutton, deveria ser coerente e contemplar todos.

Inclusive os que estão vivos no corredor da morte, sejam eles negros ou brancos.

* * *

Em tempo: na noite de sexta feira o Estado da Georgia aguardava recursos de última hora para executar Warren Hill, condenado pela morte de uma namorada e, posteriormente, a de um co-detento.

Uma juíza decidira pela suspensão da execução porque o Estado se reusa a fornecer a composição exata do coquetel letal aos advogados do condenado – cita, para tanto, uma lei recente que classifica essas informações como segredo de estado. Dado que a Georgia já teve levas do coquetel injetável confiscado pelas autoridades, por estar contaminado, a questão estava em suspenso.

Com Q.I. de 70 e dado como intelectualmente incapacitado pelos sete especialistas que o examinaram, Warren Hill é outro caso cabeludo. Como se sabe, a Corte Suprema americana proíbe, pelo menos, a execução de pessoas com aguda deficiência intelectual.

'Hannah Arendt', o filme de Von Trotta - CELSO LAFER

O ESTADO DE S. PAULO - 21/07

Fui assistir ao filme sobre Hannah Arendt, da diretora Margarethe von Trotta, com a sempre presente dedicação de estudioso da obra da grande pensadora e com a curiosidade de ver, como antigo aluno, como ela foi, ao mesmo tempo, representada e apresentada.

A atriz Barbara Sukova, que faz o papel principal, estudou gestos e posturas de Arendt para vivê-la, embora não se pareça fisicamente com ela. Para quem foi aluno de Arendt e a conheceu em 1965, na Universidade Cornell, ninguém é capaz de encarná-la na plenitude da sua iluminadora presença. Feita essa ressalva, avalio que Sukova construiu, com propriedade, uma figura verossímil.

O roteiro do filme é de Von Trotta e de Pam Katz. A ideia inicial era fazer um filme sobre todo o percurso da vida de Arendt (19o6-1975),que, como a de tantos da sua geração nascidos na Europa, teve de lidar com as vicissitudes existenciais de uma era de extremos e com o desenraizamento desencadeado pela ilimitada prepotência dos regimes totalitários -no seu caso, o do nazismo antissemita, que a expeliu de seu mundo de juventude e de formação universitária na Alemanha, onde foi aluna de Heidegger e Jaspers.

Essa experiência a instigou a elaborar densa obra, reconhecida como de inequívoca relevância para o entendimento das múltiplas facetas da modernidade. Desde o livro inaugural de 1951, As Origensdo Totalitarismo, até os póstumos, como A Vida do Espírito (1977-1978), tem a característica de obra clássica que, pela qualidade e originalidade da reflexão, nunca termina de dizer aquilo que tem para dizer, para evocar uma das definições de Italo Calvino sobre o que é um clássico.


Foi justamente a dificuldade de condensar num filme uma vida na qual o desenrolar do pensamento tem importância constitutiva que levou Von Trotta a mudar o plano original. Optou por fazer um recorte e escolheu um período da vida de Arendt caracterizado pelas confrontações suscitadas por seu livro Eichmann em Jerusalém - um relato sobre a banalidade do mal (1963-1965). No seu entender, a confrontação prestava-se a dar foco, permitindo traduzir em linguagem cinematográfica quem foi Arendt.


O polêmico livro tem sua origem nos artigos para a revista The New Yorker, para a qual, por sua iniciativa, Arendt cobriu o processo de Adolf Eichmann. A sua motivação foi ver e avaliar, em carne e osso, um executor do Holocausto, pois não tivera a oportunidade de assistir aos julgamentos do Tribunal de Nuremberg.

Eichmann foi um dos mais notórios responsáveis pela gestão da "solução final", voltada para o extermínio dos judeus. Após a 2.a Guerra Mundial, tinhas e escondido na Argentina,


O foco é o período das difíceis confrontações que seu livro 'Eichmann em Jerusalém' suscitou onde foi capturado por agentes israelenses e levado para Israel, para ser julgado. O filme, com muita pertinência para o entendimento da questão e da análise de Arendt, insere várias cenas do julgamento.

Na construção do enredo, Von Trotta põe em cena, entre outros, o marido de Hannah Arendt, Heinrich Blücher; o seu amigo, em Israel, o esclarecido sionista Kurt Blumenfeld; e seu colega e amigo dos bancos universitários na Alemanha, o pensador Hans Jonas. Heidegger, em flashback, aparece apropriadamente em surdina. Todos são verossímeis à luz da correspondência publicada de Arendt. A escritora Mary McCarthy, sua fiel amiga, que ficou pública e destemidamente ao seu lado nos difíceis embates do período, não é, no meu entender, tratada com o peso que merece. Senti falta da presença de Jaspers, o mestre querido de Arendt, um dos seus mais importantes interlocutores sobre o caso Eichmann, como mostra a publicada correspondência que trocaram.

O filme compreende, é simpático e de algum modo endossa as posições de Arendt na polêmica sobre os três grandes itens que o seu livro suscitou e o filme reaviva. Em síntese: 1) o tom com que discutiu o papel de alguns conselhos da comunidade judaica na Europa que, na situação-limite de uma dominação totalitária, facilitaram a entrega de judeus a nazistas, preservando uns e condenando outros; 2) a enormidade do crime do Holocausto, que tornou supérfluos e descartáveis milhões de seres humanos, e a mediocridade do personagem incumbido da gestão da execução (daí, por conta da sua avaliação da pessoa de Eichmann, a expressão por ela cunhada de "banalidade do mal"; com isso quer dizer que o mal não foi profundo, mas extremo, porém tem um potencial de se espraiar pelo mundo como um fungo, destruindo-o, em decorrência da "normalidade burocrática" de gente como Eichmann, incapaz de pensar o mal da enormidade dos horrores que perpetra); 3) o ineditismo do crime de genocídio, que não foi um pogrom em larga escala e, como tal, uma continuação da imemorial perseguição aos judeus no correr da História, na visão do promotor. O genocídio foi perpetrado no corpo do povo judeu e o antissemitismo explica a escolha das vítimas, mas não a natureza do crime, que representou uma contestação à diversidade e à pluralidade da condição humana. Daí a fundamentação ontológica do alcance universal que elaborou para o jus cogens da razão de punir o crime de genocídio como um agravado crime contra a humanidade, tipificado na Convenção Internacional de 1948.

A compreensão pela posição de Arendt revela-se na cena em que explica a seus estudantes o porquê das suas razões. Sua fala no filme mostra o domínio que tem Von Trotta do seu pensamento. Mostra, também, como era bom e respeitoso o seu relacionamento com os alunos, que nada tinha que ver com a arrogância intelectual e a falta de tato de que foi acusada por seus detratores. Da qualidade pessoal desse relacionamento dou testemunho de quem teve o privilégio de ouvir de viva voz os seus socráticos ensinamentos.

O sexo persegue o Vaticano - CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SP - 21/07

Novo escândalo envolvendo importante prelado e o abuso contra crianças estarão na pauta do papa?


O papa Francisco chega ao Brasil à sombra de mais um escândalo no Vaticano, ligado à sexualidade. Ou, no caso, à homossexualidade.

A edição da revista "L'Espresso" nas bancas desde quinta-feira trata do caso que, ao que tudo indica, provocou uma menção de passagem do próprio papa ao "lobby gay" faz pouco. Trata-se do dossiê sobre monsenhor Battista Ricca, prelado para o IOR (Instituto para Obras Religiosas), o banco do Vaticano, foco permanente de escândalos.

Mas o dossiê da revista não trata do IOR e, sim, da "conduta escandalosa" de Ricca e de seu íntimo amigo Patrick Haari, um capitão do Exército suíço. O termo "conduta escandalosa", sempre de acordo com "L'Espresso", aparece em dossiê enviado ao Vaticano pelo núncio apostólico em Montevidéu, Janusz Bolonek, relatando fatos ocorridos durante estada na capital uruguaia de Ricca e de Haari.

O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, negou validade à reportagem de "L'Espresso", mas a direção da revista disse que não adianta fingir que não há dossiê.

Não é o único problema ligado a sexo que o papa em tese será obrigado a abordar durante a visita ao Brasil, se ele pretende mesmo --como disse outro dia Frei Betto-- fazer de sua estada "a semana inaugural do papado".

O Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas está se preparando para questionar a Igreja Católica sobre seu comportamento ao tratar de abusos sexuais de crianças por parte de clérigos --uma mancha que vem de longe, foi subestimada no papado de João Paulo 2º, enfrentada com mais energia por Bento 16 e acabou sobrando para seu sucessor.

Agora, o Comitê pelos Direitos das Crianças, com base em Genebra, prepara uma lista de temas para apresentar ao Vaticano, desafiando-o a fornecer os registros das compensações financeiras dadas às vítimas de abuso e os acordos secretos que foram feitos para preservar a reputação da igreja.

É justo dizer que o papa Francisco parece ainda mais determinado que seus antecessores a lidar vigorosamente com o tema, tanto que já propôs endurecer a legislação a respeito, movimento muito mais significativo do que trocar papamóvel por jipe, dormir em um quarto simples e outros detalhes do gênero. São gestos simpáticos, mas que não tocam nas feridas ainda abertas na pele da igreja.

Se a Jornada Mundial da Juventude seguir o "script" imaginado por dom Cláudio Hummes, o papa muito provavelmente será sabatinado em torno desses temas. O cardeal Hummes disse à rádio Vaticana que não basta falar aos jovens ou celebrar a missa com eles. É preciso que "os jovens façam as perguntas sobre os temas que quiserem; devem mostrar-nos o que lhes interessa saber, quais são as grandes questões que levam no coração e na mente".

Parece impossível que os jovens católicos (e os não católicos também, é claro) gostariam de saber do novo papa como vai limpar a mancha dos abusos sexuais e, também, se tratará do homossexualismo de uma maneira menos preconceituosa. A ver.

A volta do cipó - DORA KRAMER

ESTADÃO - 21/07

Se arrependimento matasse haveria poucos petistas vivos para contar a história do acordo de rodízio para a ocupação da presidência da Câmara firmado entre PT e PMDB, sem a inclusão do Senado no contrato.

Como o PT reivindicou a primazia, presidiu a Câmara nos dois primeiros anos do governo, deixando para o PMDB o comando no período final que coincide com a sucessão presidencial e agora também com a queda livre de Dilma Rousseff nas pesquisas.

No Senado, em lugar da alternância valeu o critério convencional da prioridade à maior bancada. Justamente o PMDB, que ficou com o comando das duas Casas, dois postos na linha sucessória da Presidência da República e o controle total do processo legislativo conduzido por um grupo chamado sem cerimônia de “camarilha”: Renan Calheiros, Gim Argello, Eunício Oliveira, Romero Jucá, Eduardo Braga, José Sarney e Vital do Rego.

Na Câmara, o espetáculo é comandado por Henrique Eduardo Alves em sintonia fina com o líder do PMDB, Eduardo Cunha, e a gentil colaboração de parte da bancada do PT.

Com isso e mais a vice-presidência, não admira que os pemedebistas proponham redução drástica de ministérios e desdenhem das seis pastas que ocupam e nas quais não mandam de verdade. Já têm poder que não acaba mais.

Essa correlação de forças faz o governo refém do PMDB e deixa parlamentares do PT queixosos de serem alijados pelo Planalto, obrigado a ceder os anéis ao parceiro de aliança.

Temerosos de perder também os dedos – vale dizer, a condição de renovarem seus mandatos – senadores petistas articulam um movimento de aproximação com os chamados independentes da base, os integrantes do “PMDB do bem” (Jarbas Vasconcelos, Pedro Simon e companhia) e até parlamentares do PSDB para confrontar a “camarilha”.

Buscam um reequilíbrio, mas pode ser tarde depois de terem menosprezado o potencial de dano que representava a concentração de poder nas mãos do PMDB, apoiado a volta de Renan Calheiros ao comando do Senado, dado apoio a ele quando foi obrigado a renunciar à presidência em meio a denúncias, dado sustentação a Sarney na época do escândalo dos atos secretos, nepotismo e outras peripécias.

Hoje confessam: “Os caras são profissionais”. E constatam: “Querem sugar o governo ao máximo e se a reeleição estiver ameaçada, nos jogar fora”.

Fava contada
A saída de José Serra do PSDB é tida no partido como inevitável. Não que ele tenha comunicado a alguém essa decisão, mas a conclusão parte de um raciocínio lógico: sem espaço no partido para ser candidato à Presidência da República, Serra não teria nada a ganhar ficando nem nada a perder saindo.

Nessa altura da vida não seria candidato a deputado federal para ajudar o PSDB a aumentar a bancada na Câmara, conforme uma das hipóteses correntes, e passar quatro anos sendo mais um dentro de um Parlamento desqualificado. Este mesmo critério vale para a possibilidade de se candidatar a senador.

A candidatura presidencial de Aécio Neves está consolidada, salvo algum tipo de imprevisto muito improvável de acontecer até o início de outubro, data limite para troca de partido. Ao governo de São Paulo, o espaço está ocupado por Geraldo Alckmin, que tentará a reeleição.

Diante desse cenário, concluem políticos próximos a José Serra, a filiação ao PPS seria a opção. Não havendo remédio, os tucanos analisam que a saída não pode ser vista como uma “tragédia”.

Embora uma possível candidatura presidencial de Serra represente um risco. Se de um lado ajuda a levar a eleição para o segundo turno, de outro divide o eleitorado tucano e poder deixar tanto Serra quanto Aécio fora da disputa final. A julgar.


Cármen Lúcia e o 'clamor das ruas' - ELIO GASPARI

O GLOBO - 21/07

A presidente do Tribunal Superior Eleitoral defendeu a Viúva com um gesto simples: ligou o gravador


Na noite de quarta-feira o consórcio de empresas que cuida da manutenção e do funcionamento das 500 mil urnas eletrônicas do país entrou com um pedido de prorrogação do seu contrato, vencido na véspera. Entre os muitos argumentos apresentados, mencionou "a voz do povo que clama por mudanças".

Coisa interessante, o povo "clama por mudanças" e os empresários do consórcio querem prorrogação por cinco anos de um contrato de um ano que caducou. Coisa de R$ 120 milhões, o maior na área do Tribunal Superior Eleitoral.

Um dia antes do vencimento do contrato, a ministra Cármen Lúcia, presidente do TSE, recebeu os empresários e seu advogado. Mostrou-lhes um gravador e informou que a audiência seria formalmente gravada.

O consórcio é liderado pela empresa Engetec, que sucedeu a outra, que faliu. Ele prestou à Justiça Eleitoral dois serviços. Um, regular, de manutenção das urnas, pelo qual seus técnicos verificavam as baterias e o funcionamento elementar dos equipamentos. Essa parte valia R$ 5 milhões. Na outra, de R$ 115 milhões, às vésperas das eleições suas equipes conectavam as urnas, testavam o sistema e suas transmissões.

O advogado das empresas, Toshio Mukay, fez uma exposição demonstrando que, pela lei, um contrato que pode ser prorrogado, prorrogado deve ser. Valeu-se de 22 citações de 16 autores, inclusive ele próprio.

O consórcio não quer que o tribunal abra uma nova concorrência. Ia muito bem a conversa, sobretudo porque pretendia-se prorrogar um serviço de manutenção das urnas que parecia contínuo. Cármen Lúcia ouviu a exposição, elogiou os autores citados e bateu de frente: "A Constituição manda licitar. (...) O próprio consórcio pode ganhar outra licitação. (...) A administração não quer e nem deixa de querer. (...) [Ela] tem dever jurídico. Neste caso, um dever constitucional de licitar. (...) Quando tem um contrato por prazo determinado, assim que acabar o contrato, tenho que fazer licitação."

Mais: o contrato está sob investigação do Ministério Público.

O empresário Helon Machado, da Engetec, informou: "Renovar o contrato para nós hoje, pensando pelo lado do consórcio, não é... para nós o contrato é o de 2014 que nós vamos brigar, que é mais uma eleição".

No decorrer da conversa ficou demonstrado pela ministra que havia dois serviços e que, a prevalecer o argumento (com o qual ela não concorda) segundo o qual deveria ser prorrogado o mais barato, o outro, com o filé, era episódico. Lá pelo terço final da audiência, veio a surpresa, trazida pelo advogado Mukay: "O outro não é contínuo? Então, não prorrogaríamos o não contínuo e prorrogaríamos o contínuo. Porque, se é contínuo, está dentro do que eu falei aqui, agora, se uma parte não é contínuo, e isso foi contestado pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas da União, então não pode conter no aditivo, retira essa parte, essa parte não prorroga, prorroga a outra parte. (...) Na verdade, estou voltando atrás no meu pensamento".

Largar o filé e ficar com o osso? Passaram mais uns minutos, e Machado disse ao advogado: "Eu posso até te explicar isso depois".

E assim terminou a audiência. Se Cármen Lúcia não tivesse gravado o encontro, ele poderia ter perdido sua natureza coloquial e o povo que clama nas ruas por mudanças talvez tivesse dificuldade para entender o juridiquês de uma versão formal. Com a gravação, só não entende quem não quer.

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O ÓBVIO

Na discussão em torno da eventual candidatura de Lula à Presidência há dois fatos óbvios:

1) Ele ficará no banco, vendo o seu time seguir para o cadafalso?

2) Se ele resolver entrar em campo, quantos minutos Dilma Rousseff demorará para ir ao vestiário? Cinco? Dez?

No imaginário petista está a final do Brasil x Rússia de vôlei masculino da Olímpiada de Londres. No fim do terceiro set o técnico russo botou Dmitriy Muserskiy na quadra. Perdera dois sets, e o Brasil precisava de um só ponto para liquidar a fatura. Nada feito.

HADDAD E A VIÚVA

O prefeito Fernando Haddad esclarece que o dinheiro da reforma do autódromo de Interlagos virá do PAC Turismo, "vale dizer, recursos federais". (A obra sairá por R$ 161 milhões à Viúva. O custo anual da redução da tarifa de transportes públicos, contra a qual Haddad lutou como um gladiador vândalo, será de R$ 175 milhões.)

O comissário deve achar que os "recursos federais" do PAC Turismo saem da bolsa de Farah Diba, viúva do xá do Irã.

PISTA LIMPA

A sucessão do Rio de Janeiro pode embaralhar de vez. O grande eleitor Sérgio Cabral voava com a imponência do zepelim Hindenburg chegando a Nova York em 1937. (Carbonizou-se ao pousar.) Candidato oficial, o vice-governador Pezão não consegue decolar.

Já o petista Lindbergh Farias será submetido a uma barragem de denúncias relacionadas com a sua administração na Prefeitura de Nova Iguaçu. Arrisca ficar preso na malha da Lei da Ficha Limpa.


A BASE DE ALCÂNTARA VOLTOU PARA A AGENDA

Está na agenda de negociações da doutora Dilma com o companheiro Obama o tema da participação americana na base de lançamento de foguetes de Alcântara. Até 2000 os Estados Unidos mostraram interesse em operar na privilegiada localização da base, pela sua proximidade da linha do Equador. A FAB não gostava da ideia de criação de áreas restritas em seu território. À época, o PT foi um feroz adversário da iniciativa. Eleito, Lula matou a conversa.

O projeto de Alcântara é de 1983, já consumiu R$ 400 milhões, matou 21 cientistas e não serviu para lançamento relevante. Atualmente, patina numa parceria com a Ucrânia. (O programa espacial americano foi à Lua e a Marte, mas só matou 24 pessoas e um macaco.)

Pode ser boa ideia, mas vale lembrar que nos anos 50, quando JK permitiu que os Estados Unidos montassem uma base de rastreamento de mísseis em Fernando de Noronha, a charanga nacionalista assegurava que a operação resguardaria a soberania nacional na ilha.

Por baixo do pano, aceitaram um documento americano pelo qual alguns equipamentos ficariam fora da área de acesso dos brasileiros. Com isso, um oficial brasileiro foi barrado ao tentar entrar numa sala. Quando o ministro da Guerra Henrique Lott quis empunhar uma causa nacionalista em torno da proibição, o caso foi ao Estado-Maior do Exército, e o coronel encarregado do assunto respondeu:

"Tais restrições foram aceitas por Vossa Excelência."

Ele se chamava Ernesto Geisel.


Carne de linguiça e reforma política - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 21/07

Reforma 'política', do sistema eleitoral, é uma fuga fantasista dos nossos problemas reais


DESDE QUE O "gigante acordou", muitos de nós nos passamos a intérpretes da "voz das ruas" e dos motivos do surto protestante de junho.

A luz do calor da "multidão" (não são mais massas) suscitou ainda debates visionários sobre o poder constituinte das ruas, democracia direta e outras revoluções de corpo e alma políticos.

Não mais que de repente, porém, eis que voltamos a discutir as mumunhas do PMDB e as quizilas do PT com Dilma Rousseff, política politiqueira derivada da conversinha acerca de um projeto de reforma política que nem bem isso é.

Os sonhos de supremo civismo e mudança acabaram reduzidos, segundo a média, a mídia e as medianas das "redes sociais", a demandas de "serviços públicos de qualidade" e revolta contra a "política corrupta". Mesmo o atendimento dessas expectativas reduzidas, pois vagas, não depende de um sistema eleitoral refeito. Nem se fale da probabilidade imensa de que dessa reforma resulte um monstrengo.

Os sistemas eleitorais adotados em países mais ou menos civilizados têm defeitos e qualidades; em cada país, é divertido ver quanta gente acha que a grama do vizinho é mais verde, que o sistema eleitoral dos outros tende a resolver os "vícios" políticos de cada nação.

Sim, cada um desses sistemas tende a formatar modos e manhas da política e dos partidos (influenciam a criação de sistemas bipartidários ou fragmentados; mais ou menos estáveis etc.). Mas o que parecem detalhes operacionais pode transformar sistemas semelhantes em animais completamente diferentes (ou mesmo monstros).

Voto distrital com ou sem segundo turno (EUA ou França)? Com eleição de um ou dois representantes (Chile)? Distrital misto com lista aberta ou fechada? Como vão ser definidos os distritos (a região que vai eleger seu deputado, decisão que sempre acaba em bandalheira)? Quase tudo seria tema do plebiscito? Não? Mas, se os detalhes ficam a cargo dos "políticos corruptos" e são tão importantes, não voltamos à estaca zero?

O resultado de cada maquinaria eleitoral depende ainda de fatores como estrutura do governo, da burocracia, da Justiça, da forma de decidir o Orçamento e de algo que vamos chamar grosseiramente de "cultura e sociologia políticas". Isto é, de história dos partidos, dos conflitos sociais, do grau de "civismo" (engajamento político), da desigualdade econômica e de poder entre cidadãos, entre regiões etc.

Reformado o sistema, eleitores e políticos vão ainda reaprender a fazer seus cálculos e jogadas de acordo com as novas regras, o que leva tempo (várias eleições) e, sim, acaba alterando um tanto da cultura política, mas sabe-se lá para qual direção. No fim das contas, brincar de aprendiz de feiticeiro ou engenheiro político pode dar em nada ou em desastres.

Melhor, enfim, fazer reparos parciais no que há de pior e ver que bicho dá, em vez de tentar a reforma da natureza.

Mexer na maquinaria eleitoral muda a forma de transformar carne em recheio de linguiça. Mas a política maior, a divisão da renda ou do poder, a eficiência do governo, o direito à cidadania, nada disso muda necessariamente (ou quase nunca) com a compra de um novo moedor de carne político.

Por uma nova política - GAUDÊNCIO TORQUATO

ESTADÃO - 21/07

Cada coisa no seu devido lugar. É bem razoável a hipótese defendida pelo analista político Luiz Inácio Lula da Silva, em artigo publicado pelo New York Times, de que os protestos que ecoam em todos os espaços do território não sejam uma “rejeição da política”, para acrescentar que “sem partidos políticos não pode haver nenhuma democracia verdadeira”. Tem razão. Afinal, os atos que chegaram a colocar nas ruas cerca de 1 milhão de pessoas impregnam-se dos valores essenciais da política – a defesa da polis, o bem estar da coletividade – e constituem prova inequívoca da vitalidade do nosso sistema democrático. Daí a fechar com a ideia de que a onda de manifestações decorre, em grande parte, dos sucessos sociais, econômicos e políticos, alcançados na última década, ou seja, pelo PT, configura-se um rematado exagero. Como já foi exaustivamente demonstrado – até por farta cobertura de imagens de passeatas – não foram universitários, vindos de famílias pobres, os que, primeiro, acenderam as faíscas da fogueira social, mas grupamentos jovens de classe média tradicional, ao entorno de um Movimento por redução de tarifas de ônibus. Pode-se, até, dizer que as marolas formadas pela pedra jogada no meio da lagoa, ao chegarem às margens, atraíram os segmentos jovens da base da pirâmide.

A tese contrária à abordagem do ex-presidente se ampara no argumento de que os ganhos obtidos pelos contingentes periféricos - a partir dos 30 milhões de brasileiros que ingressaram na classe C - não tiveram contrapartida junto a núcleos da classe média tradicional, que viram expandidas as demandas nas estruturas de serviços públicos, sob a malha deteriorada dos sistemas urbanos, principalmente nas metrópoles. Se os milhares de jovens da classe média emergente passaram a ter carro e a viajar de avião e, consequentemente, a exigir mais, como lembra Lula, outros milhares da classe média tradicional ‘chutaram o pau da barraca” que acumulava suas demandas reprimidas. Vale lembrar que o poder de irradiação de ideias obedece a um movimento centrífugo, que costuma sair do meio para as margens. Também nascem no meio da pirâmide as locuções mais ácidas sobre deficiências nas áreas dos serviços públicos, o desprezo sobre os políticos e sua falta de compromissos, a par de uma cognição mais aguda sobre a corrupção generalizada. Donde se aduz que a abrangente movimentação social que se espraia pelo país foi aberta no centro da sociedade, não nas laterais como quer fazer parecer o maior líder do PT.

O ensaio de democracia direta, que temos assistido, não é, portanto, uma invenção da década petista, mas o desdobramento natural de uma crise que se arrasta, há décadas, e que tem como epicentro as fendas sociais abertas pela democracia representativa. Nesse ponto, é oportuno retomar os significados múltiplos dos protestos. Se não há uma rejeição à política, entendendo-se que, sem ela, fenecem os sistemas democráticos, carregam eles monumental repúdio à classe política. É inegável que, no pano de fundo das mobilizações de massa, lê-se um discurso contra formas obsoletas de se operar a política, compromissos não realizados, metas inalcançadas, educação defasada, violência desmesurada, equipamentos sucateados nos estabelecimentos hospitalares, ao lado de carimbos com os conceitos que mancham a fisionomia da representação: nepotismo, personalismo, caciquismo, fisiologismo. Eis o pântano de mazelas que os partidos costumam semear. Lula diz que o PT precisa aprofundar a renovação e “recuperar suas ligações diárias com os movimentos sociais e oferecer novas soluções para os novos problemas”. Tem razão. Reconhece que o partido se embalou na névoa moral que suja a imagem dos partidos, principalmente os grandes e médios. Ademais, o descalabro da esfera política ganhou, na era petista, forte impulso com a entronização do mensalão no altar parlamentar. No acervo de feitos (e desfeitos) do PT, não há como apagar aquela mancha, que, aliás, poderá respingar noutros entes, como o PSDB mineiro.

Líderes e partidos procurarão internalizar as lições que as ruas oferecem? Ou imaginam que, daqui a pouco, passado o calor das primeiras horas, as ondas que correm pelas avenidas de grandes e médias cidades tenderão a refluir? Se assim pensam, cometerão um erro comum ao agente político: achar que as coisas entrarão no baú do esquecimento. Esquecem que o copo transbordou. Atingimos o “ponto de quebra”. O país começou a fazer uma caminhada sem retorno. O povo quer dar um basta à empulhação. Ontem, era um povo descrente como um rio seco, um povo sem esperança como uma árvore desfolhada, sem viço e com a cor das coisas mortas. Hoje, são grupos que se mostram ativos, vivos, navegando nas águas caudalosas das mobilizações. Exibem vivacidade, dinamismo, determinação. Percebem que podem mudar o rumo das cidades e de suas próprias vidas. É a vibrante ascensão do que o sociólogo francês, Robert Lattes, chama de “autogestão técnica”. Significa que as pessoas sabem o que desejam, o ponto de chegada e os meios necessários para alcançá-lo. A expressão ganha força: o povo é dono de seu nariz. No contraponto, a imagem também popular é a de que o tempo do “Maria vai com as outras” dá adeus, fechando o ciclo da política de oportunistas.

São esses alguns sinais que haverão de contribuir para a formação de um perfil político mais atinente ao espírito do tempo, ou seja, capaz de capaz de atrelar a locomotiva da ética aos carros do trem da política. A chama ética poderá se transformar na chama a iluminar as reformas fundamentais que a sociedade clama, a partir da reforma política. O Brasil clama por partidos e agentes que desfraldem a bandeira de uma sociedade mais convivial. Sob o lema de um Estado muito perto da Nação.


Ingenuidade de muitos e esperteza de alguns - BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR

GAZETA DO POVO - PR - 21/07

A repetição está ficando cansativa: passeatas e manifestações públicas começam de maneira ordeira e pacífica, até que, de repente, grupos iniciam desordens, depredações e saques em lojas e em agências bancárias. A imprensa corre para caracterizar esses desordeiros como uma pequena minoria, que não representa o sentimento popular expresso nos protestos pacíficos. E invariavelmente a polícia é acusada de arbitrariedade e de violência na repressão dos protestos...

Há verdade e há ingenuidade nessa interpretação, e uma rápida visita aos vídeos dos tumultos em São Paulo e Rio seria bastante instrutiva. Em São Paulo, por exemplo, quando a sede da prefeitura da cidade estava sendo defendida pela Guarda Municipal Urbana desarmada, a multidão avançou sobre o prédio e os guardas tiveram de fugir em correria para não serem linchados (não é necessário acreditar no que estou dizendo: os vídeos estão no YouTube à disposição de quem quiser vê-los).

A esmagadora maioria dos que vão às ruas protestar está demonstrando, apenas, seu desencanto com os canais convencionais de expressão política; não se sente representada condignamente pelos parlamentares e se mostra decepcionada com ações e omissões dos governantes que escolheram. Mais que isso, mostra-se descrente com os jogos de capa e cartola e os truques de prestidigitação que lhe são impingidos pelas “lideranças políticas” como possíveis “soluções” para a voz das ruas. No entanto, desconhecer que esse desencanto geral está sendo capitalizado por grupelhos políticos radicais ou simplesmente por criminosos e meliantes é de uma ingenuidade colossal. E dessa ingenuidade nasce uma intolerância absoluta com qualquer ação policial para reprimir as violências de rua, os saques e as depredações que vão se repetindo sob nossos olhos.

Vamos ser práticos: quando a situação degringola e começa a violência sem limites nem controles, não há métodos suaves e indolores para debelá-la. E, antes de rotular essa minha opinião como fascista ou arbitrária, sugiro aos críticos que façam uma breve pesquisa a respeito de como os países maduramente democráticos enfrentam essas situações em que a multidão se transforma em turba. Máscaras e artifícios para cobrir o rosto são pura e simplesmente proibidos (aliás, é ridículo usar máscaras de Guy Fawkes, um personagem da história inglesa desconhecido por nove entre dez brasileiros nos protestos); gases e armas não letais para reprimir a violência de populares são utilizados sem cerimônia; depredadores e saqueadores são presos sem complacência nem hesitação. O secretário de Segurança do Rio de Janeiro foi claro e preciso: não existem manuais nem protocolos científicos a respeito de como se enfrentar a violência descontrolada. E, antes que os ingênuos de plantão venham com a teoria de que a população pode agir violentamente, mas os agentes do Estado não o podem para dar o exemplo de civilidade, é bom lembrar que entre as prerrogativas exclusivas do Estado está exatamente o monopólio da violência legal, ou seja, do uso da força para restaurar um mínimo de ordem pública.

Escrevo estas linhas com duas certezas: a primeira é de que serei interpretado de maneira equivocada e aligeirada por muitos. Não importa: não cheguei à idade que tenho para ter medo de patrulhas ideológicas de qualquer tipo. A segunda é que ainda temos – como nação – de aprender muito a respeito do delicado equilíbrio entre os direitos da cidadania e seus deveres. Nenhuma democracia verdadeira sobrevive quando a população esquece que, para que o direito de cada um seja respeitado, é necessário que esse cada um esteja pronto a respeitar a vida, a integridade, a propriedade e os direitos dos outros.

Jogo zerado - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 21/07
As pesquisas eleitorais continuam registrando a mudança de patamar para baixo dos índices de popularidade da presidente Dilma, aparentemente tendo como piso a média de 30% do eleitorado, que representa o eleitor cativo do PT. Antes de ampliar sua base eleitoral fazendo acordos políticos e transformando-se no personagem "Lulinha Paz e Amor", criado pelo marqueteiro Duda Mendonça, o ex-presidente Lula também atingia sempre essa faixa do eleitorado, e não conseguia vencer uma eleição.

Como era de se esperar, a mais recente pesquisa feita pelo Ibope já mostra a presidente empatando com um de seus adversários num hipotético segundo turno. Marina Silva, atuando a esta altura mais na sua vertente alternativa do que na de política profissional, tem recebido o apoio dos eleitores insatisfeitos de classes média e alta, surgindo como a escolha das ruas neste momento que parece prenunciar uma troca de guarda na política nacional.

Poderia Marina com sua Rede de Sustentabilidade repetir o fenômeno Collor de 1989, que venceu a eleição presidencial a bordo de um partido nanico, o PRN? O mesmo fenômeno pode acontecer agora, mas as razões, embora semelhantes, serão diferentes.

Collor montou sua farsa eleitoral de posse do mandato de governador de Alagoas, isto é, trabalhando dentro da estrutura política tradicional. E, nos bastidores, fez todos os acordos possíveis com os políticos tradicionais que combatia nos programas eleitorais.

Os eleitores estavam engajados em uma eleição presidencial que tinha diversos candidatos, muitos deles competitivos e representando tendências políticas variadas. Embora a maioria do eleitorado tenha escolhido Collor por ele representar a renovação da política fora da esquerda, havia um eleitorado forte de esquerda que apoiou Brizola e Lula.

Desta vez, Marina se destaca não por ser a renovação da política, mas por representar a candidata da não política. E não há no seu histórico nenhuma indicação que nos leve a imaginar Marina fazendo acordos por baixo dos panos com políticas tradicionais, mesmo que tenha uma longa convivência com o PT.

Se vencer, Marina terá sido eleita por que a maioria do eleitorado quer uma experiência extrema de não política tradicional no poder. Hoje, Marina é a candidata das ruas, enquanto o presidente do PSDB, Aécio Neves, é o dos políticos, diz-se em Brasília. Essa definição pode afetar a receptividade de Aécio num eleitorado que rejeita a política tradicional, mas, por enquanto, o que ele tem de mais eficiente são as negociações de bastidores para montar sua base de apoio.

Como já disse o próprio presidente do PT, Rui Falcão, hoje não se sabe mais quais partidos apoiarão a presidente Dilma em 2014. A base aliada não abandona o barco por enquanto, mas vai medindo o nível da água que vai subindo para ver qual a melhor hora de saltar para outra candidatura.

A de Aécio é a preferida entre os principais apoiadores de Dilma, até mesmo do PMDB. PP, PTB, PDT são partidos que negociam por baixo dos panos com o PSDB de Aécio, e existem outros que aguardam momentos mais oportunos, como o PSD de Kassab, que volta a namorar o ex-governador tucano José Serra para o caso de uma troca partidária que viabilize sua candidatura a presidente pela terceira vez.

Por mais que Marina desponte como a maior beneficiária dessa crise de legitimidade que assola nossa política, seu partido não terá nem tempo de televisão nem capilaridade nacional para se impor num jogo político ainda realizado pelos moldes tradicionais.

A estrutura partidária do PSDB costuma canalizar para seus candidatos os votos oposicionistas, razão pela qual Aécio Neves continua sendo o candidato mais forte na avaliação do próprio Palácio do Planalto.

A questão agora é saber se o voluntarismo das ruas será tão forte para levar Marina para um segundo turno, ou se Aécio Neves conseguirá, levado por um esquema partidário tradicional, convencer os eleitores de Marina de que ele é um político tradicional disposto à renovação ouvindo a voz das ruas.

Até o momento, Dilma está segura num segundo turno, o que deve ser suficiente para refrear o movimento de "Volta Lula" dentro do PT. Mas, além da economia, vai ser decisiva a capacidade da presidente de fazer política com seu partido e sua base aliada. Nada indica, porém, que ela seja capaz da reviravolta necessária na política, muito menos na economia.

Vírus, tiros, tortura - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 21/07

BRASÍLIA - Um milhão e meio de pessoas foram às ruas pedindo saúde, educação e dignidade. Associações médicas rompem com o governo por causa das novas regras para a profissão. Dilma rumina a queda nas pesquisas, o crescimento pífio do país, a birra do PT e as ameaças do PMDB. Enquanto isso...

Perto de 75 mil (75 mil!) pessoas contraíram um vírus e tiveram diarreia em Alagoas, com quase 50 (50!) mortos. O principal suspeito é a água usada para cozinhar, tomar banho, escovar os dentes. Atenção: Alagoas é Brasil, e o Brasil está entre as dez maiores economias do mundo.

Um tiroteio entre policiais e traficantes matou dez pessoas, inclusive um sargento do Bope e dois cidadãos que não tinham antecedentes criminais: um garçom de 35 anos e um engraxate de 16. Atenção: quem mora no Complexo da Maré também é brasileiro, e o brasileiro é um forte, tem direito à vida.

Quatro funcionários de um parque de diversões, entre 22 e 25 anos, foram presos e confessaram o assassinato de uma moça no Paraná, até que um mero exame de DNA mostrou que nenhum deles fizera sexo com a vítima. Soltos, eles disseram que foram espancados, empalados, eletrocutados e asfixiados com sacos plásticos, mesmo após a "confissão". Exames comprovam os maus-tratos. Atenção: bate, depois investiga? Tortura nunca mais!

Vândalos infiltrados entre manifestantes que fazem vigília diante do apartamento do governador do Rio quebram e arrebentam lojas, bancos, prédios, bancas de jornais e tudo o que veem à volta, enquanto a polícia, aturdida, balança entre fazer o que tem de ser feito e simplesmente cruzar os braços para não ser acusada de violência. Atenção: isso é "democratice", não democracia.

No Brasil das eleições, discutem-se constituinte exclusiva, plebiscito, recesso, corte de ministérios e se o melhor aliado é o PMDB ou o PSB. No Brasil real, o pau está quebrando.

Ah! E o papa vem aí.

Visita de Francisco - TEREZA CRUVINEL

CORREIO BRAZILIENSE - 21/07
A maior população católica do mundo, que reúne 123 milhões de fiéis, prepara-se para receber amanhã o papa Francisco. Embora a proporção dos que se declaram católicos tenha caído de 92% para 65% nos últimos 30 anos, segundo o IBGE, a marca da Igreja Católica na formação cultural do Brasil é indelével. Vitor Meirelles plasmou-a, como emblema estético maior, em seu grandioso quadro A primeira missa no Brasil. O que Francisco disser no Brasil sinalizará para o mundo os rumos da Igreja em seu pontificado, já marcado por forte inflexão na ação pastoral e política. Ele vem externando a opção preferencial pelos pobres e tomando medidas moralizantes na gestão do Vaticano.

O papa encontra um Brasil agitado por manifestações em que o exercício da cidadania se perde nos desvãos da barbárie e do terror. Isso vem de junho, mas degringolou de vez na noite de quarta-feira no Rio, ampliando a preocupação dos governantes com a segurança dele. Para ter contato direto com o povo, como vem fazendo desde a sagração, Francisco recusou-se a usar carro blindado e a mudar a programação. Pelo contrário, soube-se na sexta-feira que fará um passeio pelo Centro do Rio, no Papamóvel aberto, que não estava programado. O papa, informou o Vaticano, não teme hostilidades contra sua pessoa. O afeto tem marcado mesmo as aparições públicas, mas, na terra do homem cordial, surgiu agora esse estranho desejo de estragar os grandes eventos.

A visita de Francisco traz esperança, dizem autoridades eclesiásticas. Qualquer que seja o complemento nominal para a palavra, há verdade na frase. Jorge Mario Bergoglio vem ao Brasil antes mesmo de visitar sua Argentina, por força da Jornada Mundial da Juventude, marcada antes de sua escolha, que rompeu com o eurocentrismo da Igreja e reforçou a visibilidade de nossa região espoliada, em sua fase de maior soberania e altivez, no campo da política. Foi na América Latina que vicejou, por meio de Leonardo Boff, do Brasil, e de Gustavo Gutiérrez, do Peru, a Teologia da Libertação (afora o alemão Gerhard Muller, que Francisco prestigiou colocando-o na chefia da mais importante congregação do Vaticano). Bergoglio, como cardeal argentino, não foi um pensador nem um ativista dessa tendência. Não se provou um suposto colaboracionismo com a ditadura, como quiseram alguns. Ficou evidente, por testemunhos diversos, que ele adotou uma postura pragmática de distanciamento, evitando mais problemas para a Igreja. Mas, na ação pastoral, tem dito Boff, ele sempre esteve ao lado dos fracos, dos pobres e dos oprimidos. E isso é o que importa.

Uma vez papa, ele vem prometendo uma nova Igreja. Adotou a simplicidade como estilo, vem renunciando às pompas e aos protocolos. Não faria diferente no Brasil, especialmente numa programação em que os jovens serão o público dominante. A Igreja precisa deles para estancar a perda de fiéis para outras crenças. Jovens que talvez não tenham participado de qualquer protesto e buscam, de outra forma, a esperança de mudança. A passagem de Francisco, na conjuntura que vivemos, reforça o sentido de mudança, mas por outros caminhos. A escalada que está nas ruas não tem a ver com o papa, com a solidariedade nem com a democracia.

O nó da saúde

O Programa Mais Médicos, que as corporações da medicina estão contestando por todos os meios, inclusive na Justiça, não será a redenção dos brasileiros na questão da saúde, mas resolverá uma parte do problema. A falta de médicos, sobretudo no interior e nas periferias, é um fato só ignorado por quem vive no fausto. Mas a solução estrutural depende mesmo é de novas fontes de financiamento de um serviço que a Constituição estabeleceu como universal, mas o Estado não consegue oferecer a contento.

Durante alguns anos, a cobrança da CPMF aportou recursos retirados de todos os brasileiros bancarizados. A fonte secou, chegou a hora de encontrar outra. Os 25% do royalties do petróleo virão a longo prazo e não serão suficientes. No Senado, foi criada uma comissão especial para estudar o assunto, que tem como relator o senador Humberto Costa (PT-PE), ex-ministro da Saúde. Na Câmara, há uma comissão similar, que tem como relator o deputado Rogério Carvalho (PT-SE). O governo deve estar fazendo seus estudos também.

A verdade é que, para investir na melhoria dos serviços públicos, o país precisaria de uma reforma tributária que taxasse os mais ricos, especialmente os rentistas e os especuladores. A CPMF caiu porque era injusta, tirava de todos e tolhia o crescimento. Mas, com o sistema político que temos, com esse presidencialismo de coalizão que aprisiona todos os governos, jamais será aprovada. Por isso é que se diz que a reforma política é a mãe das outras.

Forças estranhas

Depois que os protestos no Rio descambaram de vez para o vandalismo e a violência - embora tenha havido barbárie em outros locais -, o governador Sérgio Cabral (PMDB) criou um grupo de estudos para investigar as forças criminosas infiltradas e sugeriu a atuação de grupos organizados internacionais.

Desde o início da degeneração dos protestos, alguns núcleos acadêmicos examinam a hipótese da conexão internacional. Reservadamente, pois, com o clima de louvor aos manifestantes criado pelas mídias e endossado pelos governos, quem falasse nisso seria acusado de propagar teorias conspiratórias. Circula na internet, em listas restritas, por exemplo, um vídeo sobre a organização secreta The Iluminatis. Ligada aos cérebros do capitalismo central, ela atuaria, através de mercenários contratados, para desestabilizar países que, por razões políticas, descontentam a matriz do mundo. Ou que possuam riquezas e reservas de petróleo que precisam estar sob controle. Vamos ver o que descobre Cabral, além do fato de ter se tornado o governador mais impopular do país, e não apenas pelo desfrute de helicópteros do estado em atividades pessoais.

Pensar é preciso - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 21/07

Democracia dá trabalho, e um deles é ponderar, em tempo, o sentido social e o limite de cada ação pública


A coisa foi menos simples no seu começo e é menos simples, na continuação pelo país afora, do que se tem dito, com maior ou menor pose. Foi muito pouco dizer que os delinquentes que atacaram o Congresso e o Itamaraty eram baderneiros e pronto. O mesmo sobre os delinquentes que investiram contra a Prefeitura de São Paulo e sobre os que tentaram incendiar a Assembleia Legislativa no Rio ou, agora, atacaram no Leblon.

Tais façanhas não são só de "lúmpen" e baderneiros típicos. Os modos e perfis característicos da delinquência contaminaram grande parte das classes médias, como se pode e não se quer ver até em certos territórios universitários. E isso significa algo muito sério e profundo.

A simplificação deturpadora não é menor quanto à parcela social que se diz estar no exercício pleno da democracia em suas manifestações. Os acontecimentos ainda vivos do Leblon dão um bom exemplo. É só vê-los com a necessária ótica de que democracia não é o direito de exprimir qualquer coisa, em qualquer tempo, de qualquer maneira. Há condições e respeitos a serem considerados.

Manifestação em frente ao apartamento de Sérgio Cabral, por exemplo, pode ser um exercício de liberdade democrática, mas pode não ser mais do que uma atitude de autoritarismo. Cabral não é tolo de ficar em casa: está há tempos em endereço não conhecido. Mas seus vizinhos precisam ficar. Com a manifestação infrutífera, todo o trânsito desde o centro da cidade até a Barra da Tijuca, no outro extremo, reduz-se a um engarrafamento que triplica, ou mais do que isso, o tempo de volta do trabalho --não só em carros de luxo, não, também em centenas ou milhares de ônibus a serviço de todas as classes sociais.

Por que não o protesto no palácio de governo, se o alvo é o governador e não o familiar, o vizinho e o transeunte? Os efeitos urbanos, embora muito menores, são parecidos com os do Leblon. Mas a lógica do direito democrático de protestar os justifica, dado serem onde e como devem ser. Democracia dá trabalho, e um deles é ponderar, em tempo, o sentido social e o limite de cada ação pública.

Parece que estamos dispensados dessa obrigação. Os deslimites vêm de todos os lados. Todos em nome da democracia e de direitos.

Ainda o exemplo do Leblon: em nome da democracia, uma reunião de promotores, OAB e Anistia Internacional, na semana passada, recomendou à PM contenção nas ações repressivas aos baderneiros, em especial no uso de bombas de gás; agora a recomendação à PM, em nome da democracia, é de que não permita baderna. Então, para livrar a cara, vem o acréscimo: "mas sem excessos". E o que seriam esses excessos diante da violência delinquente? Ninguém diz, nem diz como deve ser a repressão. Basta falar em nome da democracia.

A simplificação em nome da democracia é um risco de antidemocracia.

OS CELULARES

A ministra Tereza Campello, do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, esclarece que não haverá exigência de posse de celular pelos beneficiários da Bolsa Família. O pretendido, e não bem explicitado na sua entrevista publicada a respeito, é que o gestores do programa peçam aos beneficiários que sempre anotem o número do celular, se o tiverem na família --caso de mais da metade dos inscritos no programa.

O PODER

Onde ficou a ética? Essa é a questão no ato do ministro Joaquim Barbosa que suspende, por liminar, a criação de quatro Tribunais Regionais Federais pelo Congresso. Antes da votação parlamentar, o ministro abriu um confronto com os favoráveis à criação, e foi vencido. Com a circunstância do seu cargo de presidente do Supremo, impõe uma liminar que podia esperar por outro ministro, ao fim do recesso do Judiciário.


Um papa da paz e do diálogo - JOAQUIM PARRON

GAZETA DO POVO - PR - 21/07

A visita de um papa a um país sempre traz comoção e entusiasmo não apenas entre os católicos, mas entre pessoas de vários credos e filosofias. Ainda mais quando se fala no papa Francisco, que já se tornou uma referência em muitos diálogos e discussões mundo afora. Esse papa tem sido notícia, constantemente, nas principais revistas, tevês e jornais em quase toda parte do mundo. Basta folhear as revistas de circulação internacional e acompanhar redes de televisão de alcance mundial. Assim, o papa Francisco não vem apenas para os católicos, mas vem trazer uma mensagem cristã e ética para todas as pessoas de boa vontade.

Além de ser o papa Francisco, que com sua simplicidade e simpatia tem conquistado o mundo, ele estará participando de um evento internacional, a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), no Rio de Janeiro. Essa jornada foi iniciada pelo querido João Paulo II e continuada com carinho por Bento XVI. Agora, por ser o papa Francisco, o apelo tem sido ainda maior; a própria coordenação da Jornada tem afirmado que o número de inscritos cresce a cada dia. Além de tudo isso, é bom lembrar que o papa é chefe de um Estado, o Vaticano, que tem relações diplomáticas com o Brasil e dezenas de outros países mundo afora. Assim, essa visita tem muitos significados para o povo brasileiro e para o mundo. Vou ressaltar apenas três.

Um primeiro significado da visita do papa Francisco é a revitalização da fé cristã, mostrando que um povo que tem Deus tende a prosperar e caminhar pela paz: “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor”, diz o salmista. Com certeza, o papa vai relançar a chama da fé, da esperança e da solidariedade em terra brasileira. O papa, para a Igreja, é o sinal da unidade; embora as comunidades possam viver culturas e linguagens diferentes, o pontífice mostra que a Igreja de Cristo busca viver a unidade. Jesus pediu “rogo para que sejam unidos” e são Paulo escreveu “Há um só Senhor, uma só fé e um só batismo”.

Um segundo significado, devido à sua participação na JMJ, é que a juventude não é apenas futuro, mas é também o presente da Igreja e da sociedade. O papa mostrará a face jovem de Cristo que, muitas vezes, é crucificado quando os jovens são presos nas correntes da dependência química, na falta de educação de qualidade, na carência de uma saúde digna e no transporte público caótico. O papa vai ecoar o Cristo que diz “eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”.

Um terceiro significado da visita do papa é o anúncio da cultura da vida e da ética. As igrejas cristãs terão mais pertinência social quando conseguirem levar, a partir da convicção religiosa, uma consciência da defesa da vida humana em todos os níveis, desde a concepção até a morte natural. Enquanto a corrupção invade as esferas políticas e atinge fortemente alguns poderes constituídos, o papa Francisco vem anunciar que a justiça e a paz caminham juntas e, por isso, a ética deve perpassar todos os setores da sociedade, de modo especial na defesa dos mais frágeis e dos pobres.

Assim, para os cristãos, o papa Francisco virá revitalizar a fé e a esperança e, para os que não têm religião, ele irá trazer uma mensagem de paz e de solidariedade. Com sua simplicidade de Francisco, ele irá fortalecer o diálogo e a paz entre nós. Bem-vindo, papa Francisco!

Se Sua Santidade soubesse... - LU LACERDA

O GLOBO - 21/07
Quando desembarcar no Rio, o Papa Francisco vai encontrar uma cidade bem arrumadinha - todos os caminhos por onde passar vêm merecendo atenção especial das autoridades municipais, estaduais e federais. Mas não há maquiagem que consiga disfarçar problemas antigos, que são motivo de constrangimento e sofrimento para os cariocas.
Mesmo tendo convivido com muita miséria em sua Argentina natal, o Papa dos pobres, ou do povo, que sorri com o olhar, pode se entristecer ao perceber que uma cidade tão bonita - a mais visitada no Brasil - abriga uma população de rua tão numerosa.

Na Prefeitura, apenas 1.500 pessoas estão cadastradas em programas de assistência. Saber quantas mais vivem no abandono é quase impossível.

Muitos sequer têm registro civil, o que impede o acesso a benefícios sociais.

Também seria difícil explicar a Francisco por que os outros moradores do Rio são tão maltratados no sistema de transporte e nos hospitais públicos; por que suas escolas, já deficientes, são constantemente ameaçadas pela violência - evidencias do abismo social de uma cidade que administra um orçamento anual de R$ 23,5 bilhões.

Apesar de receber a todos de braços abertos, como o Cristo Redentor, os cariocas também têm lá seus motivos para um mea culpa. Comparando com outras grandes capitais, a gentileza anda em falta e, sim, é uma cidade onde para tudo existe um jeitinho - aquela mania de querer se dar bem em cima do outro! Ou as manifestações demonstram que a cidade está mudando? Muitos, entre essa gente simpática e bronzeada (em sua maioria), levam uma vida de contradições: querem a cidade limpa, mas jogam lixo na rua; detestam a violência vinda do tráfico, mas usam drogas; querem direitos, mas fogem dos deveres.

O Papa vai ver mais o "Rio de cima", sem poder dimensionar o "Rio de baixo" - assim como quem está nos helicópteros ou nas janelas dos apartamentos da Avenida Atlântica. Do alto, quase não dá para imaginar o que se passa abaixo do nariz em cada uma daquelas quadras, antes da linda vista para o mar azul sem limite.

Se minha, nossa, Sua Santidade soubesse... no mínimo, iria rodar o seu Anel de Pescador, de nervosismo e tristeza! Melhor mesmo continuar inocente, até para que sua estada seja mais agradável, tanto quanto a brisa da estação e a temperatura amena, ideal para o seu figurino fechado.

Facebook, ame-o ou deixe-o - SÉRGIO DÁVILA

FOLHA DE SP - 21/07

SÃO PAULO - Na sexta-feira, o Facebook censurou um texto noticioso da Folha publicado na página que o jornal mantém na rede social e na qual tem 1,76 milhão de simpatizantes.

Falava da manifestação de um grupo pró-passe livre em Porto Alegre e mostrava foto de protesto em que pessoas apareciam nuas. Procurada pelo jornal, a empresa não quis explicar a censura.

O Facebook é, hoje, o terceiro "país" do mundo em "população", com 1,1 bilhão de usuários, 73 milhões deles no Brasil. Pois este "país" é uma ditadura, que pratica censura prévia e póstuma. Sem explicações.

Espiona também seus "cidadãos", como mostrou o austríaco Max Schrems, em entrevista à Folha. Ele venceu uma ação contra a empresa, que teve de exibir tudo o que tinha arquivado dele: um dossiê de 1.222 páginas, algumas com e-mails que ele pensava ter deletado para sempre.

E divide o que sabe de seus "cidadãos" com "governos amigos", como fez com o serviço de espionagem dos EUA pelo programa Prism, segundo revelou o britânico "Guardian".

Não sou um ativista anti-Facebook. Sou "cidadão" desde 2005, quando estudava em Stanford e a rede mal tinha evoluído de sua origem --ajudar nerds a classificar rostos (daí o "face" do nome) como bonitos ou feios.

Mas tenho discutido aqui se devemos nos entregar a essa "rede social" sem questionar suas práticas e sua ética. Como numa seita, muitos não querem nem ouvir falar disso.

Um apresentador de TV que respeito insinuou que o "mimimi" da "grande mídia" com o Facebook era inveja. Uma amiga e ex-editora da Folha disse que, com tantas objeções, o jornal não deveria estar ali.

"O espírito do Facebook é ame-o ou deixe-o?", provoquei, citando um dos slogans da ditadura militar (1964-1985). Ela respondeu que, "se há tantas restrições sobre a postura empresarial das redes, me parece, sim, um ame-o ou deixe-o".

Não amo, nem deixo. E continuarei a questionar.

Alternativa continental ao estatismo - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 21/07

Grande plano de investimentos do México em infraestrutura pode aumentar ainda mais as vantagens da Aliança do Pacífico em relação ao Mercosul protecionista



Presente em Villa de Leya, ao norte de Bogotá, para acompanhar, em junho, reunião de nível ministerial da nova Aliança do Pacífico, a colunista especializada em América Latina do “Wall Street Journal”, Mary Anastasia O’Grady, registrou que, enquanto transcorria o encontro em torno do novo bloco comercial , os jornais nas bancas da cidade colombiana traziam notícias das manifestações no Brasil.

O contraste é de forte simbologia, até porque, segundo O’Grady, a aliança provavelmente criará um poderoso contrapeso ao “retrógrado protecionismo e estatismo do Brasil, Venezuela, Argentina e Bolívia”, esta em fase de ingresso no Mercosul, onde se encontram os demais, num momento de crise no bloco, em que, de fato, há forte tendência protecionista e dirigista.

Mesmo o Paraguai, expulso do Mercosul numa manobra para permitir a entrada da Venezuela chavista como membro pleno do acordo comercial, se aproxima da Aliança, enquanto reavalia se compensa voltar ao bloco do Cone do Sul, na presidência de Horacio Cartes, a tomar posse em agosto. As condições oferecidas pela Aliança do Pacífico são mesmo tentadoras, pois o grupo tem uma visão mais aberta da integração com o mundo, e seus fundadores — Chile, Peru, Colômbia e México — ostentam uma performance econômica muito acima dos componentes do Mercosul.

No ano passado, enquanto o PIB brasileiro não foi além de uma expansão de 0,9% e a inflação bateu nos 5,8%, o México cresceu 3,9% e a inflação ficou em 3,2%; o Chile, 5,6% e uma alta média dos preços de 1,8%; o Peru 6,5% e 2,7%; e Colômbia, expansão de 3,4%, com apenas 3,4% de inflação. Quer dizer, não há crise externa — a explicação oficial clássica para as mazelas brasileiras — travando esses países.

A diferença entre a Aliança e o Mercosul, a tomar pela conjuntura mexicana e brasileira, pode aumentar. Pois enquanto no Brasil o governo não consegue ativar os investimentos — estacionados em insuficientes 18% do PIB —, o México, no governo de Enrique Peña Nieto, acaba de anunciar um plano de inversões de US$ 316 bilhões, em seis anos, em rodovias, ferrovias, infraestrutura de telecomunicações e portos, para ampliar a competitividade do país. O Brasil tem o mesmo objetivo, mas falta confiança nos investidores, depois de algumas desastradas intervenções do governo (setor elétrico, petróleo/pré-sal). No México, o clima é outro, porque, sob o novo governo, segue-se um pacto para reformas liberalizantes — parecidas com as realizadas no primeiro governo de FH —, negociadas por Peña Nieto com a oposição antes de tomar posse.

Os ventos a favor podem soprar com mais força à medida que se recupere a economia americana, à qual o México é muito dependente. Não faltam dados para os estrategistas de Brasília avaliarem os prejuízos para o país caso se mantenha imobilizado numa união aduaneira em pane, sem ao menos induzir sua transformação numa aliança comercial, mais flexível.


As ameaças de Haddad - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 21/07

Causa espanto a atitude do prefeito Fernando Haddad, ao apresentar, em tom alarmista, medidas que a seu ver são indispensáveis para evitar que a cidade simplesmente se tome ingovernável. Como é possível isso, logo no início de seu mandato? Está ele querendo, com essa ameaça de grave crise na maior e mais rica cidade do País, pressionar as autoridades das quais dependem aquelas medidas, e pensa seriamente que isso pode funcionar? Ou já concluiu, tão prematuramente, que seu governo está condenado ao malogro e deseja transferir a culpa disso para outros?
A mais importante das medidas reivindicadas pelo prefeito - todas apresentadas durante reunião do Conselho da Cidade - compete ao Supremo Tribunal Federal(STF) na questão dos precatórios (dívidas que se têm de pagar por decisão judicial), que representam 56% da receita corrente líquida do Município em 2013. Tendo em vista o tamanho da dívida, deseja Haddad que o STF estabeleça um teto de 3% do orçamento para o seu pagamento, que seria feito então ao longo de alguns anos, em vez de determinar sua quitação por ordem cronológica, num prazo muito mais curto.
"A Constituição preserva determinado direito assegurando um porcentual do orçamento para esse fim" afirmou o prefeito, referindo-se aos porcentuais destinados à saúde e à educação. "É isso que precisa ser feito com os precatórios. Qualquer coisa diferente dessa vai tomar São Paulo ingovernável."
Tenha ou não razão com relação à incapacidade do Município de honrar de imediato aquele compromisso, a verdade é que, colocada a questão nesses termos, o prefeito está dando uma espécie de ultimato ao STF - ou ele faz exatamente o que deseja Haddad ou a cidade ficará quase paralisada. Como disse o secretário municipal de Finanças, Marcos Cruz: "Teríamos que parar todas as atividades de assistência social, investimentos, esporte, cultura, meio ambiente e habitação".
Ninguém poe em dúvida a gravidade do problema, mas decididamente essa não é maneira apropriada de resolvê-lo. Principalmente porque o STF, com inteira razão, não costuma ceder a esse tipo de pressão. Apelar para esse expediente não ajuda - ao contrário, só complica as coisas.
Uma outra medida se refere à renegociação da dívida do Município com a União, com a troca do índice de correção do saldo devedor. Desde 2000, quando o acordo da dívida foi feito, o índice usado é o IGP-DI. Esse problema vem sendo discutido há bastante tempo e o governo municipal tem bons argumentos: "A dívida era de R$ n bilhões, já pagamos R$ 20 bilhões e ainda devemos R$ 54 bilhões" diz Haddad. Resta saber se a presidente Dilma Rousseff, mesmo tendo boa vontade, por pertencer ao partido do prefeito, está disposta a aceitar seu tom impositivo.
Finalmente, para obter mais recursos para melhorar o transporte público, Haddad propõe a municipalização da Cide, que é um tributo que incide sobre combustíveis. Desde que lançou essa ideia meses atrás, o prefeito vem sendo criticado por ser ela inviável, tendo em vista que a Cide é um imposto federal. Por que então insiste nela? Por demagogia, para dar a impressão de que está em busca de uma solução para o transporte - uma das principais reivindicações das grandes manifestações do mês passado mas seus adversários estão sempre a lhe criar obstáculos?
O que torna indefensável a posição do prefeito, que deseja dessa maneira colocar o governo federal e o STF contra a parede, é que ele sabia perfeitamente, quando se candidatou a prefeito, de todos esses problemas e da situação difícil que eles criam para a cidade. Foi eleito para resolvê-los e não para adotar a posição cômoda de jogá-los no colo dos outros. Resolvê-los significa buscar soluções de compromisso. Isso exige paciência, determinação e disposição para negociar. E sobretudo coragem para enfrentar a adversidade.
É o oposto de entregar os pontos quando o jogo mal começou, como o prefeito Fernando Haddad parece estar fazendo

Quem quer dar aulas? - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 21/07

É urgente que se apliquem políticas de valorização dos educadores, sob risco de um apagão no sistema de ensino


Os universitários brasileiros não querem trabalhar na sala de aula. Pesquisa após pesquisa – como a realizada anos atrás pela Fundação Carlos Chagas –, o veredicto se confirma, acenando uma das mais graves crises do país. Parem o bonde. Sem professores das disciplinas do ciclo fundamental e médio, não veremos país nenhum. Estima-se que a carência possa chegar a 300 mil educadores, o que deixa o sistema de ensino nas raias de um apagão.

As regiões mais afetadas pela ausência de mestres encontram dificuldades homéricas, como se dizia, para vencer a pobreza e ficam mais expostas às raízes da violência. De resto, o atraso e a treva, na qual estamos nos movendo faz algum tempo. Só sobra uma saída – políticas públicas que atraiam alunos para as licenciaturas, programas de permanência, estágios remunerados por tempo determinado em sala de aula, de preferência no interior do país.

Não se fala aqui em obrigatoriedade ou em qualquer sorte de residência compulsória, como tenta fazer o governo federal em relação aos alunos de Medicina. Fala-se numa tática de valorização do professor, uma bandeira já hasteada aqui e ali, mas cujo discurso, de tão repetido, está pálido como um soneto. Os Programas Institucionais de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibids) ajudam, mas se está falando de uma situação de emergência. É preciso mais.

Há exemplos nos quais nos mirar. Países nórdicos, por exemplo, conhecidos pela relevância dada à função de ensinar. Ou mesmo a alquebrada Cuba. A valorização – com todo o respeito aos que proclamam que o problema dos professores passa, acima de tudo, pelo bolso – supera todas as outras causas. São muitas as categorias mal remuneradas, mas nem todas mal amadas. O desapreço por quem ensina é vexame em par.

A pressão salarial, a ação sindical, a negociação estão aí para resolver impasses de categoria. Vencer uma cultura de menosprezo, contudo, exige mais estratégia dos governos. Passa pelo salário, mas passa também pelas regras de atração. É preciso levar os melhores alunos – e não importa se cursem licenciaturas ou não – para as salas de aula. Igualmente, deve-se levar os melhores professores para as escolas mais problemáticas e de Ideb mais baixo, valorizando o conhecimento adquirido desses profissionais na resolução dos nossos índices educacionais subsaarianos.

É tarefa de casa ver e rever o documentário Pro dia nascer feliz, do cineasta João Jardim. Resumo da ópera. Nas sequências se pode ver uma legião de professores cansados de guerra, com dificuldades de serem ouvidos. Os professores derrubados pela síndrome de Burnout. Os professores que faltam às aulas, deixando às moscas o processo de ensino-aprendizagem. Mas sobretudo os professores que não sabem o que fazer porque se sentem vozes que clamam no deserto. Não há pior expediente profissional que o de não ser ouvido e o de não se sentir parte de nada. Quem está numa escola, por incrível que pareça, sabe do que se trata.

Urge, de fato, uma reforma educacional brasileira. Motivos para tanto não faltam – da ausência de professores ao fato, denunciado pela Fundação Ioschpe, de que há mais pessoas trabalhando na burocracia escolar do setor público do que propriamente ensinando. Dos 5 milhões de educadores contratados, 3 milhões não lecionam. Toda essa multidão de profissionais de gabinete não consegue o que lhes caberia de fato: subsidiar o professor a lidar com a violência, com a indisciplina, com os novos conteúdos e demandas da juventude. O resultado dessa falta de respostas é a frustração profunda, que só pode resultar em desejo de pular do barco.

Como se vê nos dados do Instituto Lobo, a partir do Censo Escolar, muitos o fazem antes mesmo de se graduar. A evasão nas licenciaturas, na média brasileira, chega a 48%. Em áreas como Física, podem alcançar 60%. Deve-se aventar também que carreiras como Física, Química ou Letras se tornaram menos concorridas, o que afeta a seleção. Mas não são fáceis. Muitos alegam desistir por causa do mercado, mas são favas contadas que muitos o fazem por não conseguir acompanhar o curso.

Vale mais um alerta. Parte do problema da evasão de alunos das licenciaturas começa dentro das próprias universidades. É assunto espinhoso. Os cursos que formam professores não raro funcionam como redomas, pouco afáveis a pesquisas que contemplem, de forma mais pragmática, os problemas reais da escola. Não são questões menores, como se pode alegar. O preço é que muitos licenciados acabam chegando ao chão de fábrica despreparados ou desmotivados para lidar com situações que vão além da teoria.

Filhos de Francisco - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 21/07

Durante encontro de jovens católicos, estilo simples cultivado pelo papa contrastará com prodigalidade dos políticos


Desde o início, o papa Francisco tem buscado construir uma identidade marcada pelo despojamento e pela atenção contínua aos pobres. Ao liderar pelo exemplo, ele enfatiza sua visão de que o mundo precisa ser mais solidário e menos desigual --mensagem especialmente apropriada para o Brasil.

Francisco decerto não ignora o aspecto publicitário de suas ações, amplificado por constituírem notável novidade em um Estado acostumado à ostentação.

No Vaticano, por exemplo, dispensou o carro usado pelo antecessor, Bento 16, e o substituiu por um modelo mais simples. Além disso, preferiu aposento menos luxuoso, destinado a cardeais, ao tradicional palacete a que teria direito.

Isso legitima a atitude saneadora que Francisco procura imprimir à estrutura eclesiástica, marcada por recentes escândalos de abuso e corrupção. Numa organização tão hierarquizada, alguns efeitos são imediatos: há notícias de padres que se desfizeram de seus carros de alto padrão e de cardeais que optaram por trajes menos vistosos.

Verdade que a opção pelos pobres já estava presente na teologia da libertação --corrente de esquerda com grande influência na igreja latino-americana e que foi duramente reprimida a partir do pontificado de João Paulo 2º.

Sem resgatar aquele movimento, Francisco retoma o compromisso social, mas com uma diferença decisiva: ele reforça o lado místico dessa aproximação. Ou seja, mais que uma atitude política, trata-se de necessidade da própria experiência religiosa cristã --a caridade do indivíduo reaparece como principal ação reformista, em detrimento de transformações estruturais provocadas por movimentos da sociedade civil organizada.

Em sua visita ao Rio de Janeiro, não é improvável que o papa encontre protestos contra as orientações da igreja e os gastos públicos com o evento.

Em Madri, em 2011, onde ocorreu a mais recente Jornada Mundial da Juventude --idealizada pelo papa João Paulo 2º e realizada pela primeira vez em 1986--, foram registrados atos de jovens espanhóis, conhecidos como "indignados".

Se há objeções a dogmas católicos, manifestantes talvez identifiquem na simplicidade de Francisco mais um motivo para criticar os políticos brasileiros.

Lado a lado, será inevitável a comparação entre o papa e o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), que utiliza vários helicópteros do poder público para transportar familiares e até seu cão de estimação. O mesmo vale para a presidente Dilma Rousseff (PT), que, ao viajar a Roma a fim de assistir à missa inaugural do pontífice, reservou 52 quartos de hotel para sua comitiva.

Pela forma como tem agido até agora, o papa tende a enfatizar no Brasil, ao longo de 17 intervenções, a busca pela fé em Deus e a tradicional crítica da igreja à sociedade de consumo. Temas mais polêmicos, como o casamento gay, devem ficar em segundo plano.

Pastor por excelência, Francisco segue caminho diferente do trilhado pelo intelectual Bento 16 --agora papa emérito--, mais afeito a questões de doutrina teológica.

Seria um erro, contudo, falar em ruptura, como ficou demonstrado na primeira encíclica sob o novo papado, "A Luz da Fé", assinada pelos dois pontífices --a primeira na história escrita a quatro mãos.

De resto, são conhecidas as opiniões conservadoras de Francisco. Ainda arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio mostrou-se alinhado com alas contrárias ao aborto, à ordenação de mulheres e ao casamento gay, mas favoráveis à manutenção do celibato.

No Brasil, o simpático papa Francisco terá o desafio de ajudar a estancar a contínua perda de fiéis, que buscam denominações pentecostais ou simplesmente deixam de ter religião.

Pesquisa Datafolha mostra que o encolhimento é rápido: hoje, 57% dos brasileiros com mais de 16 anos se declaram católicos, contra 64% em 2007, ano da última visita papal; em 1994, eram 75%. Na Grande São Paulo, os católicos são 44% da população, proporção que sobe para 58% no interior do Estado.

Além de menor, é uma igreja sem grandes referências. Uma geração atrás, nomes como dom Paulo Evaristo Arns e dom Hélder Câmara se faziam presentes nos debates nacionais. Atualmente, essa participação se restringe a comunicados da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). As figuras católicas de maior projeção são padres cantores, mais próximos do mundo das celebridades.

Embora em declínio, a Igreja Católica ainda é capaz de mobilizar grandes contingentes. Essa característica será potencializada na Jornada Mundial da Juventude no Rio, a primeira grande viagem internacional do papa argentino.

Atento à importância dos pequenos gestos, Francisco saberá explorar essa grande oportunidade.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Ainda é cedo para essas especulações; deixa para ano que vem”
José Serra, sobre sua possível saída do PSDB para disputar a Presidência em 2014


CÓDIGO DE MINERAÇÃO GERA ‘PÂNICO’ NO PLANALTO

Em meio à crise instaurada no Parlamento, somada à queda de sua popularidade, a presidente Dilma está em pânico com os rumos que poderá tomar a votação do novo Código de Mineração, que já recebeu 500 emendas na comissão especial. O ministro Edison Lobão (Minas e Energia) foi delegado a monitorar os trabalhos e tentar evitar repetição do “balcão de negócios” que tomou o Congresso na MP dos Portos.

INVASÃO MINEIRA

O Planalto teme a quantidade de mineiros na comissão, presidida por Gabriel Guimarães (PT) e relatada por Leonardo Quintão (PMDB).

INTERESSES MIL

Empresários de Minas estão de olho no projeto, que dá novos poderes ao governo, altera o sistema de controle e prevê licitação em blocos.

QUALQUER NEGÓCIO

O clima de insatisfação no PMDB chegou a tal ponto que deputados já falam até em convidar o ex-governador José Serra (PSDB) para se filiar ao partido e sair candidato contra a reeleição de Dilma em 2014.

GAFE DA VEZ

Conhecida por trocar as bolas, Dilma provocou risadas em Fortaleza ao chamar o líder do PT na Câmara de “senador” José Guimarães (CE).

GOVERNO GASTA MAIS COM BOLSA QUE COM SAÚDE

Dilma tem razão quando atribui aos protestos o desejo do povo de “querer mais”: dados do Portal da Transparência revelam que o governo federal gastou até agora R$ 12,1 bilhões com o Bolsa Família – enquanto a Saúde recebeu R$ 9,8 bilhões. O ministério das Cidades recebeu ainda menos – R$ 897 milhões, sendo R$ 6,4 milhões para abastecimento e esgoto em pequenos municípios. O programa de transferência de renda consumiu R$ 20,2 bilhões em 2012.

NA REDE

Mais 450 mil famílias entraram para o programa este ano, sendo a Bahia, governada pelo petista Jacques Wagner, eterna líder do ranking.

SEM REDE

Em fevereiro, cerca de 1,69 milhão dos 50,3 milhões de dependentes dispensaram o Bolsa Família, diz Ministério do Desenvolvimento Social.

A PRAÇA É NOSSA

A Praça Tahir, no Egito, tem muito a aprender com a polícia do Rio, que por duas horas olhou quebradeira total sem dar um só golpe de caratê.

ARBITRÁRIO

O advogado Antônio de Almeida Castro, o Kakay, procurou o BMG, o empresário nº 1 da Fifa, Juan Figer, e o presidente do Atlético de Madrid, Miguel Ángel, para denunciar a “arbitrariedade” da intervenção no Esporte Clube Bahia: “Vai abrir um precedente complicado”, alerta.

NA MIRA DO CRIME

A violência entre jovens de 15 a 29 anos cresceu 414%, como mostra o Mapa da Violência 2013, divulgado sexta (19). Entre 2000 e 2010, o Maranhão registrou aumento de 398,5% em vítimas de arma de fogo.

ENQUANTO ISSO...

...para reforçar a segurança, a Câmara dos Deputados comprou, com dispensa de licitação, um aparelho detector de metais avaliado em R$ 7,5 mil. Nada de armas de fogo por lá.

QUASE UMA GORJETA

Para Luiz Pitiman (PMDB-DF), dar aposentadoria especial aos garçons não impacta nas contas da previdência, já que a categoria não é tão numerosa e o salário é menos da metade do teto do INSS (R$ 4.100).

DEFESA FEROZ

A CCJ da Câmara aprovou projeto de Ricardo Tripoli (PSDB-SP) que criminaliza condutas contra cães e gatos. O texto, um tanto exagerado, prevê 3 a 5 anos de prisão até para a inocente brincadeira de crianças, que atiça cães: “pega, pega, ts, ts”, por “promover a luta entre animais”.

‘AIATOLADO’

O “massacre” do Leblon, diante da casa do governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ) foi notícia no Irã, onde corruptos costumam ser enforcados.

SENTA A PÚA, SENTA A PEIA!

Esse era o lema dos pilotos da Força Expedicionária Brasileira durante a II Guerra ao estabelecer recorde destruindo 1,3 mil veículos, 250 composições de trem, 25 pontes e 85% da munição alemã. É o que merecem políticos desavergonhados que utilizam aviões das FAB, para ir a jogos de futebol, casamentos ou para passear com cães.