O GLOBO - 09/07
No começo, eram pouco mais de cinco mil, coordenados por uma gente desconhecida, quase imperceptível, o Movimento do Passe Livre, o MPL, organizado há vários anos em torno de uma ideia singela e viável: o transporte público gratuito, a tarifa zero. Mas a manifestação, convocada para o dia 13 de junho, em São Paulo, queria apenas anular um aumento — mais um — dos transportes coletivos que (não) servem à cidade.
Parecia o bater de asas de uma borboleta inconsequente, capaz de atrapalhar, numa tarde de outono, o caótico trânsito de uma cidade caótica. Provocou, porém, um terremoto, cujas ondas ainda hoje se propagam.
A repressão demencial da polícia ajudou, vertendo gasolina naquele fogo. Autorizada pelos partidos que compartilham o poder, não condenada por eles, mesmo depois dos excessos de praxe, fez lembrar Primo Levi que, se referindo aos campos nazistas, indagava, melancólico: como se pode espancar um homem sem cólera? A PM brasileira o faz desde que foi criada, no século XIX. A República a manteve, para dar pancada em cidadãos de segunda e terceira classes. Quando é preciso, bate também nos de primeira, embora aí suscite algum escândalo. Não deixa de ser uma medida da democracia brasileira o fato de que até partidos de esquerda se sintam protegidos por ela, por homens armados que têm como símbolo uma caveira, cruzada por facas e revólveres, e que batem e matam sem cólera. Não seriam vândalos? Sim, mas intelectuais de várias procedências têm preferido reservar o termo aos que, explodindo de desespero, picham paredes e quebram vidraças.
Quando milhões de pessoas saíram às ruas, foi possível entrever outras causas do terremoto, radicadas numa outra cólera, a de cidadãos obrigados a se haver com serviços públicos indecentes, embora paguem altos impostos, um dos mais altos do mundo, um paradoxo, apontado por Lucio Gregori, ex-secretário municipal da cidade de São Paulo.
Dinheiro há, porém, para construir excelentes estádios, convertidos em arenas excludentes, reservadas a elites sociais, já entregues em mãos de bem-aventurados consórcios privados. Contudo, não há recursos para oferecer educação, saúde e transportes dignos e de qualidade. Os governos curvam-se às imposições da Fifa e de seus padrões, aprovando uma legislação de exceção, cedendo nacos de território ao controle de uma corporação internacional de negócios, e se obrigando, se for o caso (já foi o caso), a reprimir pessoas que se manifestem dentro dos estádios (perdão, das arenas) ou num raio de dois quilômetros dos campos de jogo. Assim se comportam os partidos do poder: reverenciam a Fifa, mas fazem ouvidos moucos às demandas dos próprios cidadãos.
Nas dobras do terremoto, contudo, apareceram outras exigências, bem mais importantes e decisivas: cidadania plena, participação nas decisões políticas, controle do poder. Trata-se, em suma, de radicalizar o processo democrático, ou seja, democratizar a democracia.
Em contraste com os movimentos sociais que preservam a autonomia em relação a partidos e governos, homens probos declaram que não existe democracia sem partidos. Seria mais exato dizer que não existe democracia sem um conjunto de liberdades, inclusive a de organização partidária. A questão é saber em que medida os partidos continuarão a dominar o regime democrático, como o têm feito até hoje.
Propostos, nas formas atuais, em fins do século XIX, eles se construíram como estruturas centralizadas e hierárquicas, correspondendo a um tipo de civilização industrial em declínio há décadas. Como registrou Jean Viard, a sociedade de redes aprofundou o descompasso entre a dinâmica dos partidos e as exigências atuais da cidadania. Não à toa, desde os anos 1960 evidenciam dificuldades em representar as sociedades. O primeiro grande sinal desta tendência, em escala planetária, veio em 1968, ano quente de questionamentos, quando os partidos foram surpreendidos em cuecas, a reboque dos acontecimentos, catando cavaco atrás das passeatas. De lá para cá, em quase todas as convulsões da história contemporânea, da queda de ditaduras à desagregação do socialismo, passando pelas primaveras que se têm sucedido mundo afora, os partidos têm tido participação discreta, ou nula.
No entanto, protegidos por instituições tradicionais, cultivam ainda a ambição — desmedida — do monopólio da representação política, o que não está mais de acordo com as sociedades complexas que passaram a existir a partir da segunda metade do século XX.
Se o terremoto atual se prolongar na forma de um ciclo longo de manifestações, como previu André Singer, não será possível evitar esta questão. Trata-se da construção de um regime político em que a cidadania, organizada autonomamente, possa ter voz e poder de decisão. Se êxito houver nesta aventura, a primavera que chegou no inverno atravessará ainda muitos verões.
terça-feira, julho 09, 2013
Indignação com prazo marcado - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 09/07
BRASÍLIA - Todo o mundo bisbilhota todo o mundo e todos os países (que podem, claro) espionam todos os países (que interessam, claro). A única coisa que não pode(ria) é ser flagrado bisbilhotando e es- pionando. Aí, vira uma confusão, com os espionados encenando indignação e os espiões fingindo enorme constrangimento.
É nessa fase que estamos, depois que o "Globo" revelou que o Brasil não é apenas espionado pelos EUA como também é um dos alvos prediletos dos arapongas americanos.
Mais: a velha e boa espionagem, política e industrial, perdeu totalmente o pudor e entra pela casa, pelo telefone e, principalmente, pela internet das pessoas adentro. Isto, a invasão da privacidade de cidadãos e cidadãs, é o que mais está incomodando as autoridades brasileiras. Pelo menos, da boca para fora.
Então, saca-se um roteiro pronto da gaveta: Dilma faz cara feia e declaração forte contra a "violação de soberania", depois de o chanceler Patriota ter feito um pronunciamento (não foi entrevista) dizendo o que ele sempre diz em qualquer circunstância: o Brasil considera muito grave e/ou vê com muita preocupação.
Valeu para o golpe no Egito, a guerra na Síria, a crise na Turquia e o veto dos europeus ao sobrevoo do avião de Evo Morales, como valeria para o calo do papa Francisco. Agora, na invasão eletrônica do Brasil e de lares brasileiros.
Além disso, houve providências diplomáticas bilaterais, via embaixadas, e multilaterais, na ONU e na Unesco. Mas o principal está preservado: não interessa a nenhum dos dois lados, EUA e Brasil, que isso vire ruído na viagem de Estado de Dilma a Washington, em outubro. Até lá, não se fala mais nisso?
Os médicos estão em pé de guerra, mas Dilma tem razão: o direito coletivo e a necessidade de suprir a falta de profissionais nos rincões se sobrepõem a interesses corporativos.
BRASÍLIA - Todo o mundo bisbilhota todo o mundo e todos os países (que podem, claro) espionam todos os países (que interessam, claro). A única coisa que não pode(ria) é ser flagrado bisbilhotando e es- pionando. Aí, vira uma confusão, com os espionados encenando indignação e os espiões fingindo enorme constrangimento.
É nessa fase que estamos, depois que o "Globo" revelou que o Brasil não é apenas espionado pelos EUA como também é um dos alvos prediletos dos arapongas americanos.
Mais: a velha e boa espionagem, política e industrial, perdeu totalmente o pudor e entra pela casa, pelo telefone e, principalmente, pela internet das pessoas adentro. Isto, a invasão da privacidade de cidadãos e cidadãs, é o que mais está incomodando as autoridades brasileiras. Pelo menos, da boca para fora.
Então, saca-se um roteiro pronto da gaveta: Dilma faz cara feia e declaração forte contra a "violação de soberania", depois de o chanceler Patriota ter feito um pronunciamento (não foi entrevista) dizendo o que ele sempre diz em qualquer circunstância: o Brasil considera muito grave e/ou vê com muita preocupação.
Valeu para o golpe no Egito, a guerra na Síria, a crise na Turquia e o veto dos europeus ao sobrevoo do avião de Evo Morales, como valeria para o calo do papa Francisco. Agora, na invasão eletrônica do Brasil e de lares brasileiros.
Além disso, houve providências diplomáticas bilaterais, via embaixadas, e multilaterais, na ONU e na Unesco. Mas o principal está preservado: não interessa a nenhum dos dois lados, EUA e Brasil, que isso vire ruído na viagem de Estado de Dilma a Washington, em outubro. Até lá, não se fala mais nisso?
Os médicos estão em pé de guerra, mas Dilma tem razão: o direito coletivo e a necessidade de suprir a falta de profissionais nos rincões se sobrepõem a interesses corporativos.
FHC e o papel da oposição - RUBENS BARBOSA
O GLOBO - 09/07
O presidente FHC, em abril de 2011, portanto há uns bons dois anos, em artigo na revista “Interesse Nacional” (www.interessenacional.com), discutiu o papel da oposição. Por sua atualidade, mas sobretudo pela previsão de muitas das circunstâncias atuais das manifestações sociais e da hesitação das oposições, achei oportuno resumir e transcrever literalmente alguns trechos com as opiniões então expressas pelo ex-presidente:
“Os cidadãos cansaram de ouvir tanto horror perante os céus sem que nada mude.
Existe toda uma gama de classes médias, de novas classes possuidoras (empresários de novo tipo e mais jovens), de profissionais das atividades contemporâneas ligadas à TI (tecnologia da informação) e ao entretenimento, aos novos serviços espalhados pelo Brasil afora, às quais se soma o que vem sendo chamado sem muita precisão de ‘classe C’ ou de nova classe média. A imensa maioria destes grupos — sem excluir as camadas de trabalhadores urbanos já integrados ao mercado capitalista — está ausente do jogo político-partidário, mas não desconectada das redes de internet, Facebook, YouTube, Twitter, etc. É a estes que as oposições devem dirigir suas mensagens prioritariamente.
Se houver ousadia, os partidos de oposição podem organizar-se pelos meios eletrônicos, dando vida não a diretórios burocráticos, mas a debates verdadeiros sobre os temas de interesse dessas camadas.
No mundo interconectado de hoje, movimentos protestatários irrompem sem uma ligação formal com a política tradicional.
Os oposicionistas, para serem ouvidos, precisam ter o que dizer. O conteúdo da mensagem é fundamental.
Cabe às oposições não apenas desmascarar o cinismo, mas, sobretudo, cobrar o atraso do país: onde está a infraestrutura que ficou bloqueada em seus avanços pelo temor de apelar à participação da iniciativa privada nos portos, nos aeroportos, na geração de energia e assim por diante?
Na vida política, tudo depende da capacidade de politizar o apelo e de dirigi-lo a quem possa ouvi-lo.
É possível mostrar o quanto pesa no bolso do povo cada despesa feita para custear a máquina público-partidária e manter o capitalismo burocrático dos novos dinossauros. E, para ser coerente, a oposição deve lutar desde já pela redução drástica do número de cargos em comissão, bem como pelo estabelecimento de um número máximo de ministérios e secretarias especiais.
Em suma: não há oposição sem ‘lado’. Mais do que ser de um partido, é preciso ‘tomar partido’. É isso que a sociedade civil faz nas mais distintas matérias.
É preciso estabelecer uma agenda. Tomemos um exemplo, o da reforma política, tema que o governo afirma estar disposto a discutir. Pois bem, o PSDB tem posição firmada na matéria: é favorável ao voto distrital (misto ou puro, ainda é questão indefinida).
No mundo contemporâneo, essa agenda brota também da sociedade, de seus blogs, twitters, redes sociais, da mídia, das organizações da sociedade civil, enfim, é um processo coletivo.
As oposições políticas, por fim, se nada ou pouco tiverem a ver com as múltiplas demandas do cotidiano, como acumularão forças para ganhar a sociedade?”
O presidente FHC, em abril de 2011, portanto há uns bons dois anos, em artigo na revista “Interesse Nacional” (www.interessenacional.com), discutiu o papel da oposição. Por sua atualidade, mas sobretudo pela previsão de muitas das circunstâncias atuais das manifestações sociais e da hesitação das oposições, achei oportuno resumir e transcrever literalmente alguns trechos com as opiniões então expressas pelo ex-presidente:
“Os cidadãos cansaram de ouvir tanto horror perante os céus sem que nada mude.
Existe toda uma gama de classes médias, de novas classes possuidoras (empresários de novo tipo e mais jovens), de profissionais das atividades contemporâneas ligadas à TI (tecnologia da informação) e ao entretenimento, aos novos serviços espalhados pelo Brasil afora, às quais se soma o que vem sendo chamado sem muita precisão de ‘classe C’ ou de nova classe média. A imensa maioria destes grupos — sem excluir as camadas de trabalhadores urbanos já integrados ao mercado capitalista — está ausente do jogo político-partidário, mas não desconectada das redes de internet, Facebook, YouTube, Twitter, etc. É a estes que as oposições devem dirigir suas mensagens prioritariamente.
Se houver ousadia, os partidos de oposição podem organizar-se pelos meios eletrônicos, dando vida não a diretórios burocráticos, mas a debates verdadeiros sobre os temas de interesse dessas camadas.
No mundo interconectado de hoje, movimentos protestatários irrompem sem uma ligação formal com a política tradicional.
Os oposicionistas, para serem ouvidos, precisam ter o que dizer. O conteúdo da mensagem é fundamental.
Cabe às oposições não apenas desmascarar o cinismo, mas, sobretudo, cobrar o atraso do país: onde está a infraestrutura que ficou bloqueada em seus avanços pelo temor de apelar à participação da iniciativa privada nos portos, nos aeroportos, na geração de energia e assim por diante?
Na vida política, tudo depende da capacidade de politizar o apelo e de dirigi-lo a quem possa ouvi-lo.
É possível mostrar o quanto pesa no bolso do povo cada despesa feita para custear a máquina público-partidária e manter o capitalismo burocrático dos novos dinossauros. E, para ser coerente, a oposição deve lutar desde já pela redução drástica do número de cargos em comissão, bem como pelo estabelecimento de um número máximo de ministérios e secretarias especiais.
Em suma: não há oposição sem ‘lado’. Mais do que ser de um partido, é preciso ‘tomar partido’. É isso que a sociedade civil faz nas mais distintas matérias.
É preciso estabelecer uma agenda. Tomemos um exemplo, o da reforma política, tema que o governo afirma estar disposto a discutir. Pois bem, o PSDB tem posição firmada na matéria: é favorável ao voto distrital (misto ou puro, ainda é questão indefinida).
No mundo contemporâneo, essa agenda brota também da sociedade, de seus blogs, twitters, redes sociais, da mídia, das organizações da sociedade civil, enfim, é um processo coletivo.
As oposições políticas, por fim, se nada ou pouco tiverem a ver com as múltiplas demandas do cotidiano, como acumularão forças para ganhar a sociedade?”
Esforço para emergir - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 09/07
O programa dos médicos e votações no Congresso dão o sentido de movimento, mas ainda não criam a sensação de bem-estar geral, especialmente, na economia
Dada a grande presença de governadores, prefeitos e parlamentares na solenidade de lançamento do programa Mais Médicos para o Brasil — e os convites às categorias de saúde para que participassem do evento — está claro o esforço do governo para tentar recuperar terreno, e responder às manifestações com atitudes além do moribundo plebiscito. E, nesse quesito, a iniciativa foi positiva, uma vez que diante dos problemas do setor, não dá para esperar 10 anos para a contratação desses profissionais, nos pontos mais remotos do Brasil. Ontem, enquanto Dilma cuidava dessa parte, os políticos trabalhavam para dar uma turbinada na pauta política, com atos que podem servir de meio-termo entre os desejos da presidente e da base aliada. Falta a economia.
A inclusão na pauta do Senado do projeto que reduz de dois para um o número de suplentes de senadores é uma iniciativa nesse sentido. Até aqui, a proposta dormia nas gavetas, porque os senadores, a bem da verdade, não tinham tanta vontade assim de extinguir a figura dos suplentes. Tanto é que não acabarão com as suplências, uma vez que se trata apenas de redução. Terminará apenas a possibilidade de o senador colocar na chapa mulher e filhos, como fizeram no passado recente o atual líder do governo, Eduardo Braga (PMDB-AM), que tem como suplente a mulher Sandra; e o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão (PMDB-MA), que tem na primeira suplência Lobão Filho, atualmente no exercício do mandato.
A proposta dos senadores, aqui vale um parêntese, não tira de cena aqueles que ajudaram a captar recursos para as campanhas. Alguns ficaram até famosos, caso do senador Wellington Salgado (PMDB-MG), que chegou ali na suplência do senador Hélio Costa. Outro que despontou assim foi Gilberto Miranda (PMDB-AM). No passado, ele foi suplente de dois senadores, Gilberto Mestrinho e Amazonino Mendes. Ambos terminaram encantados com a política. Wellington Salgado, certa vez, referiu-se ao Senado como o céu. Miranda comentou em entrevista que o Senado era uma “confraria”.
A redução das suplências, caso aprovada agora, deverá terminar compondo um referendum a ser apresentado ao eleitor juntamente com o portfolio de candidatos em 2014, assim como o fim da reeleição, que começa a entrar na pauta do Congresso. No momento, isso não está decidido, afinal, o objetivo central agora é mostrar um certo movimento para que a classe política consiga respirar, nem que seja por um breve período. Resta saber, entretanto, se o eleitor e os vários segmentos vão deixar. Hoje, tem marcha dos prefeitos para pressionar por mais recursos. Quinta-feira, tem uma mobilização dos sindicalistas em busca de benefícios. E tudo isso deixa o esforço do Planalto a desejar.
Enquanto isso, no mercado…
Ocorre que nem o programa Mais Médicos para o Brasil nem essas votações relacionadas à reforma política são suficientes para dar aos agentes econômicos e ao eleitorado como um todo aquele clima de que está tudo bem. A derrocada de Eike Batista, por exemplo, quando se percebe que não houve fiscalização por parte dos agentes públicos — leia-se, por exemplo, Agência Nacional de Petróleo —, ajuda no inverso, na submersão. Especialmente, em um país acostumado a ver economia e política caminharem juntas.
Essa parceria não é de hoje. Para ficar apenas na história recente, desde o governo do presidente José Sarney, cada um fez o seu plano, ou promessas econômicas, para conquistar ou manter o poder. Sarney, o Plano Cruzado. Collor apresentou um que levava seu nome. Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, o Plano Real. Lula não veio com planos econômicos, mas precisou da carta aos brasileiros para garantir que não faria bobagens com a economia. Depois, reelegeu-se graças aos planos sociais, que, à primeira vista, parecem insuficientes para fazer a presidente Dilma Rousseff manter-se com folga no projeto reeleitoral. Esta semana, Dilma terá que dar ainda algum sinal de que a derrocada de Eike Batista é um caso isolado. Até aqui, entretanto, parece que nada muda na seara econômica.
E na área externa…
A história de espionagem por parte dos Estados Unidos e as explicações cobradas por Dilma terminaram servindo de notícia positiva para a presidente. Na classe política, há quem diga que talvez o tornado das manifestações esteja perdendo força. Mas ainda não dá para suspender a vigília. Viagens e viajantes da FAB à parte, há tempos a maioria dos políticos não se mostrava tão atenta.
O programa dos médicos e votações no Congresso dão o sentido de movimento, mas ainda não criam a sensação de bem-estar geral, especialmente, na economia
Dada a grande presença de governadores, prefeitos e parlamentares na solenidade de lançamento do programa Mais Médicos para o Brasil — e os convites às categorias de saúde para que participassem do evento — está claro o esforço do governo para tentar recuperar terreno, e responder às manifestações com atitudes além do moribundo plebiscito. E, nesse quesito, a iniciativa foi positiva, uma vez que diante dos problemas do setor, não dá para esperar 10 anos para a contratação desses profissionais, nos pontos mais remotos do Brasil. Ontem, enquanto Dilma cuidava dessa parte, os políticos trabalhavam para dar uma turbinada na pauta política, com atos que podem servir de meio-termo entre os desejos da presidente e da base aliada. Falta a economia.
A inclusão na pauta do Senado do projeto que reduz de dois para um o número de suplentes de senadores é uma iniciativa nesse sentido. Até aqui, a proposta dormia nas gavetas, porque os senadores, a bem da verdade, não tinham tanta vontade assim de extinguir a figura dos suplentes. Tanto é que não acabarão com as suplências, uma vez que se trata apenas de redução. Terminará apenas a possibilidade de o senador colocar na chapa mulher e filhos, como fizeram no passado recente o atual líder do governo, Eduardo Braga (PMDB-AM), que tem como suplente a mulher Sandra; e o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão (PMDB-MA), que tem na primeira suplência Lobão Filho, atualmente no exercício do mandato.
A proposta dos senadores, aqui vale um parêntese, não tira de cena aqueles que ajudaram a captar recursos para as campanhas. Alguns ficaram até famosos, caso do senador Wellington Salgado (PMDB-MG), que chegou ali na suplência do senador Hélio Costa. Outro que despontou assim foi Gilberto Miranda (PMDB-AM). No passado, ele foi suplente de dois senadores, Gilberto Mestrinho e Amazonino Mendes. Ambos terminaram encantados com a política. Wellington Salgado, certa vez, referiu-se ao Senado como o céu. Miranda comentou em entrevista que o Senado era uma “confraria”.
A redução das suplências, caso aprovada agora, deverá terminar compondo um referendum a ser apresentado ao eleitor juntamente com o portfolio de candidatos em 2014, assim como o fim da reeleição, que começa a entrar na pauta do Congresso. No momento, isso não está decidido, afinal, o objetivo central agora é mostrar um certo movimento para que a classe política consiga respirar, nem que seja por um breve período. Resta saber, entretanto, se o eleitor e os vários segmentos vão deixar. Hoje, tem marcha dos prefeitos para pressionar por mais recursos. Quinta-feira, tem uma mobilização dos sindicalistas em busca de benefícios. E tudo isso deixa o esforço do Planalto a desejar.
Enquanto isso, no mercado…
Ocorre que nem o programa Mais Médicos para o Brasil nem essas votações relacionadas à reforma política são suficientes para dar aos agentes econômicos e ao eleitorado como um todo aquele clima de que está tudo bem. A derrocada de Eike Batista, por exemplo, quando se percebe que não houve fiscalização por parte dos agentes públicos — leia-se, por exemplo, Agência Nacional de Petróleo —, ajuda no inverso, na submersão. Especialmente, em um país acostumado a ver economia e política caminharem juntas.
Essa parceria não é de hoje. Para ficar apenas na história recente, desde o governo do presidente José Sarney, cada um fez o seu plano, ou promessas econômicas, para conquistar ou manter o poder. Sarney, o Plano Cruzado. Collor apresentou um que levava seu nome. Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, o Plano Real. Lula não veio com planos econômicos, mas precisou da carta aos brasileiros para garantir que não faria bobagens com a economia. Depois, reelegeu-se graças aos planos sociais, que, à primeira vista, parecem insuficientes para fazer a presidente Dilma Rousseff manter-se com folga no projeto reeleitoral. Esta semana, Dilma terá que dar ainda algum sinal de que a derrocada de Eike Batista é um caso isolado. Até aqui, entretanto, parece que nada muda na seara econômica.
E na área externa…
A história de espionagem por parte dos Estados Unidos e as explicações cobradas por Dilma terminaram servindo de notícia positiva para a presidente. Na classe política, há quem diga que talvez o tornado das manifestações esteja perdendo força. Mas ainda não dá para suspender a vigília. Viagens e viajantes da FAB à parte, há tempos a maioria dos políticos não se mostrava tão atenta.
Espiados e indignados - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 09/07
Cumpramos o ritual de fingir-nos surpresos e indignados com a espio-nagem agora revelada
Vamos fingir que nos sentimos surpresos e indignados. Vamos à ONU com um protesto contra a espionagem com que o governo dos Estados Unidos invadiu mensagens eletrônicas no Brasil. Vamos cobrar do governo americano explicações sobre a central de espionagem instalada em Brasília pelo combinado CIA-NSA.
Faz parte da boa educação cívica mostrar-se surpreso e indignado. Tal como os franceses do presidente François Hollande, pouco antes de ele se sujeitar aos EUA e proibir o sobrevoo da França pelo avião em que supunham estar Edward Snowden, o revelador das espionagens americanas naquele, no nosso e em numerosos outros países.
Cumprido o ritual da surpresa e da indignação, podemos reconhecer que estamos entre os países de maior hospitalidade, senão a maior de todas, a agentes de informação, de subversão antidemocrática e de espionagem dos EUA. Qualidade nacional de que há provas sem conta. Mas, para ficar só em exemplos poucos e notórios, lembremos que o golpe de 1964 foi articulado em três frentes --a militar, a empresarial e a política.
A primeira foi montada pelo adido militar da embaixada dos EUA, general Vernon Walters, especialista em golpes mandado ao Brasil para mais um.
A segunda foi executada pelo próprio embaixador Lincoln Gordon, junto ao grande empresariado e a meios de comunicação. E a terceira ficou a cargo de uma entidade da CIA chamada Ibad, montada e dirigida por um tal Ivan Hasslocher, deslocado para a Suíça logo depois do golpe.
Antes disso, outro embaixador americano, Adolf Berle Jr., orientou, com sua equipe, uma conspiração militar para derrubada de Getúlio.
Repórteres americanos como John Gerassi e ex-agentes da CIA como Phillip Agee, entre muitos outros, publicaram artigos, reportagens e livros sobre a atividade de agentes na América Latina e, em particular, no Brasil. Foram muito pouco publicados aqui.
Não se esperariam atitudes, contra essa liberdade de invasão da CIA, por parte dos seus aliados-beneficiários brasileiros, fossem ainda conspiradores ou já governo. Mesmo os alvos da ação, porém, jamais usaram dos seus poderes legais para contê-la. Todo o governo Jango sabia das atividades de Gordon e de Walters. Em Pernambuco e em Goiás foram identificados agentes insuflando lavradores. O governo nada fez. Desde sempre consta da legislação brasileira que os militares são responsáveis pela soberania nacional. Nenhum dos seus chefes se moveu contra as violações praticadas pelos americanos.
Mais recentemente, a criação do Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) foi entregue à Raytheon, empresa que presta serviços ao Departamento de Defesa (nome do departamento que superintende o planejamento e a execução dos ataques militares e invasões de países pelos EUA). A concorrência foi tão limpa, que a precedeu até a invasão dos escritórios da então Thomson no Rio, multinacional francesa que era a mais provável vencedora e teve todos os seus estudos e projetos roubados.
Declarada "vencedora" a Raytheon, Fernando Henrique telefonou ao presidente Bill Clinton para informá-lo a respeito. Depois explicaria o resultado e o telefonema: "O Clinton pediu pela Raytheon...".
Desde então, todos os dados sobre espaço aéreo, solo e subsolo da Amazônia são transmitidos, em rede e equipamentos criados pela Raytheon, para a central do Sivam. Se você quiser, pode acreditar que a transmissão termina aí.
Os espiões e agentes de americanos são íntimos nossos. Mas cumpramos o ritual de fingir-nos surpresos e indignados com a espionagem agora revelada.
Cumpramos o ritual de fingir-nos surpresos e indignados com a espio-nagem agora revelada
Vamos fingir que nos sentimos surpresos e indignados. Vamos à ONU com um protesto contra a espionagem com que o governo dos Estados Unidos invadiu mensagens eletrônicas no Brasil. Vamos cobrar do governo americano explicações sobre a central de espionagem instalada em Brasília pelo combinado CIA-NSA.
Faz parte da boa educação cívica mostrar-se surpreso e indignado. Tal como os franceses do presidente François Hollande, pouco antes de ele se sujeitar aos EUA e proibir o sobrevoo da França pelo avião em que supunham estar Edward Snowden, o revelador das espionagens americanas naquele, no nosso e em numerosos outros países.
Cumprido o ritual da surpresa e da indignação, podemos reconhecer que estamos entre os países de maior hospitalidade, senão a maior de todas, a agentes de informação, de subversão antidemocrática e de espionagem dos EUA. Qualidade nacional de que há provas sem conta. Mas, para ficar só em exemplos poucos e notórios, lembremos que o golpe de 1964 foi articulado em três frentes --a militar, a empresarial e a política.
A primeira foi montada pelo adido militar da embaixada dos EUA, general Vernon Walters, especialista em golpes mandado ao Brasil para mais um.
A segunda foi executada pelo próprio embaixador Lincoln Gordon, junto ao grande empresariado e a meios de comunicação. E a terceira ficou a cargo de uma entidade da CIA chamada Ibad, montada e dirigida por um tal Ivan Hasslocher, deslocado para a Suíça logo depois do golpe.
Antes disso, outro embaixador americano, Adolf Berle Jr., orientou, com sua equipe, uma conspiração militar para derrubada de Getúlio.
Repórteres americanos como John Gerassi e ex-agentes da CIA como Phillip Agee, entre muitos outros, publicaram artigos, reportagens e livros sobre a atividade de agentes na América Latina e, em particular, no Brasil. Foram muito pouco publicados aqui.
Não se esperariam atitudes, contra essa liberdade de invasão da CIA, por parte dos seus aliados-beneficiários brasileiros, fossem ainda conspiradores ou já governo. Mesmo os alvos da ação, porém, jamais usaram dos seus poderes legais para contê-la. Todo o governo Jango sabia das atividades de Gordon e de Walters. Em Pernambuco e em Goiás foram identificados agentes insuflando lavradores. O governo nada fez. Desde sempre consta da legislação brasileira que os militares são responsáveis pela soberania nacional. Nenhum dos seus chefes se moveu contra as violações praticadas pelos americanos.
Mais recentemente, a criação do Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) foi entregue à Raytheon, empresa que presta serviços ao Departamento de Defesa (nome do departamento que superintende o planejamento e a execução dos ataques militares e invasões de países pelos EUA). A concorrência foi tão limpa, que a precedeu até a invasão dos escritórios da então Thomson no Rio, multinacional francesa que era a mais provável vencedora e teve todos os seus estudos e projetos roubados.
Declarada "vencedora" a Raytheon, Fernando Henrique telefonou ao presidente Bill Clinton para informá-lo a respeito. Depois explicaria o resultado e o telefonema: "O Clinton pediu pela Raytheon...".
Desde então, todos os dados sobre espaço aéreo, solo e subsolo da Amazônia são transmitidos, em rede e equipamentos criados pela Raytheon, para a central do Sivam. Se você quiser, pode acreditar que a transmissão termina aí.
Os espiões e agentes de americanos são íntimos nossos. Mas cumpramos o ritual de fingir-nos surpresos e indignados com a espionagem agora revelada.
Teoria de conspiração - LUIZ CARLOS AZEDO
CORREIO BRAZILIENSE - 09/07
A notícia de que uma das estações de espionagem nas quais agentes da Agência de Segurança Nacional (NSA, em inglês) e da Agência de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos mantiveram 16 bases de espionagens em várias capitais, inclusive Brasília, encaixa-se como uma luva numa das teorias de conspiração que circulam pelo Palácio do Planalto: a de que há interferência norte-americana na onda de manifestações populares organizadas por meio das redes sociais em diversos países do mundo, inclusive no Brasil.
Ao mesmo tempo em que a presidente Dilma declara apoio aos manifestante e procura responder aos seus protestos com uma agenda de ações governamentais, entre as quais a proposta de plebiscito já para uma reforma política e o plano de contratação de médicos estrangeiros para a saúde, o Palácio do Planalto investiga a atuação de organizações estrangeiras, como o Anonymous, nas redes sociais.
Dilma Rousseff desconfia da atuação norte-americana manipulando dados e informações nas redes sociais. Os EUA, segundo interlocutores da presidente da República, supostamente, também estariam interessados em desestabilizar o governo brasileiro, que recentemente obteve importantes vitórias internacionais, como a eleição do embaixador Roberto Azevêdo para a direção-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) e do ex-ministro José Graziano da Silva o comando da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação.
2,3 bilhões
de telefonemas e mensagens eletrônicas foram espionados pela rede no Brasil e ainda não se sabe se as interceptações continuam, segundo revelou no domingo o jornal O Globo.
Certeza
O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo (foto), afirmou categoricamente ontem não ter dúvidas de que cidadãos e instituições brasileiras foram alvo de espionagem do governo dos EUA. “Até o Parlamento Europeu foi monitorado, você acha que nós não fomos?” A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e a Polícia Federal estão apurando as circunstâncias em que o monitoramento aconteceu e se essa ação contou com apoio de empresas que atuam no país. O Palácio do Planalto mira o Facebook e o Google, as duas maiores redes de relacionamento.
Marco civil
A presidente Dilma Rousseff foi mais comedida, mas anunciou que o governo pretende rever o marco civil da internet, que está em tramitação na Câmara dos Deputados, para determinar que o armazenamento de dados brasileiros deve ser feito obrigatoriamente no Brasil. “A posição do Brasil nessa questão é muito clara e muito firme: não concordamos com interferências dessa ordem no Brasil e em qualquer outro país”, disse Dilma, após o lançamento do Programa Mais Médicos, no Palácio do Planalto.
Satélite
O Brasil depende de outros países para as suas comunicações. Para se ter uma ideia do problema, as ligações telefônicas por satélites para regiões remotas, inclusive bases militares, como as de São Gabriel da Cachoeira, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela, e da Estação Antártica Comandante Ferraz, são feitas via Telespazio, multinacional italiana. O satélite geoestacionário de comunicação e vigilância brasileiro ainda não saiu do papel.
Desconversou
O embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, negou ontem que o governo norte-americano espione telefonemas ou mensagens eletrônicas de brasileiros. Shannon esteve com o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, por 20 minutos.
Convocação
O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Ricardo Ferraço (foto), do PMDB-ES, convocou para hoje uma reunião extraordinária da comissão para esclarecimentos sobre as possíveis informações (milhões de telefonemas e e-mails de brasileiros) que o governo dos Estados Unidos teve acesso. Pretende convocar os ministros da Defesa, Celso Amorim, das Comunicações, Paulo Bernardo, das Relações Exteriores, Antonio Patriota, e do Gabinete de Segurança Institucional, José Elito, como também o Embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, e o jornalista americano Glenn Greenwald.
Médicos
A presidente Dilma Rousseff lançou ontem as medidas do Pacto Nacional pela Saúde. Quer contratar médicos estrangeiros e construir hospitais e unidades básicas de saúde nas periferias das grandes cidades e municípios do interior. Serão abertas 11.400 vagas para cursos de graduação de médico e de 12.400 para médicos residentes até 2017. Estão previstos incentivos para a fixação de médicos em lugares onde há carência de profissionais. Os alunos que ingressarem nos cursos de medicina a partir de 2015 terão que atuar dois anos no Sistema Único de Saúde (SUS) para receber o diploma.
Mobilidade 1
A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, se reuniu ontem com os governadores e prefeitos das capitais de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) e Fernando Haddad (PT), Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB) e Eduardo Paes (PMDB), e Bahia, Jacques Wagner (PT) e ACM Neto (DEM), para discutir investimentos de recursos federais em obras de mobilidade urbana.
Mobilidade 2
Hoje, a ministra do Planejamento se reúne com Alberto Pinto Coelho (PP), vice-governador de Minas, e Márcio Lacerda (PSB), prefeito de Belo Horizonte; Cid Gomes (PSB), do Ceará, e Roberto Bezerra, prefeito de Fortaleza; e Beto Richa (PSDB), governador do Estado do Paraná (PSDB),e Gustavo Fruet (PDT), prefeito de Curitiba; o vice-governador Beto Grill (PSB) e José Fortunati (PDT), prefeito de Porto Alegre.
Ao mesmo tempo em que a presidente Dilma declara apoio aos manifestante e procura responder aos seus protestos com uma agenda de ações governamentais, entre as quais a proposta de plebiscito já para uma reforma política e o plano de contratação de médicos estrangeiros para a saúde, o Palácio do Planalto investiga a atuação de organizações estrangeiras, como o Anonymous, nas redes sociais.
Dilma Rousseff desconfia da atuação norte-americana manipulando dados e informações nas redes sociais. Os EUA, segundo interlocutores da presidente da República, supostamente, também estariam interessados em desestabilizar o governo brasileiro, que recentemente obteve importantes vitórias internacionais, como a eleição do embaixador Roberto Azevêdo para a direção-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) e do ex-ministro José Graziano da Silva o comando da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação.
2,3 bilhões
de telefonemas e mensagens eletrônicas foram espionados pela rede no Brasil e ainda não se sabe se as interceptações continuam, segundo revelou no domingo o jornal O Globo.
Certeza
O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo (foto), afirmou categoricamente ontem não ter dúvidas de que cidadãos e instituições brasileiras foram alvo de espionagem do governo dos EUA. “Até o Parlamento Europeu foi monitorado, você acha que nós não fomos?” A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e a Polícia Federal estão apurando as circunstâncias em que o monitoramento aconteceu e se essa ação contou com apoio de empresas que atuam no país. O Palácio do Planalto mira o Facebook e o Google, as duas maiores redes de relacionamento.
Marco civil
A presidente Dilma Rousseff foi mais comedida, mas anunciou que o governo pretende rever o marco civil da internet, que está em tramitação na Câmara dos Deputados, para determinar que o armazenamento de dados brasileiros deve ser feito obrigatoriamente no Brasil. “A posição do Brasil nessa questão é muito clara e muito firme: não concordamos com interferências dessa ordem no Brasil e em qualquer outro país”, disse Dilma, após o lançamento do Programa Mais Médicos, no Palácio do Planalto.
Satélite
O Brasil depende de outros países para as suas comunicações. Para se ter uma ideia do problema, as ligações telefônicas por satélites para regiões remotas, inclusive bases militares, como as de São Gabriel da Cachoeira, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela, e da Estação Antártica Comandante Ferraz, são feitas via Telespazio, multinacional italiana. O satélite geoestacionário de comunicação e vigilância brasileiro ainda não saiu do papel.
Desconversou
O embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, negou ontem que o governo norte-americano espione telefonemas ou mensagens eletrônicas de brasileiros. Shannon esteve com o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, por 20 minutos.
Convocação
O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Ricardo Ferraço (foto), do PMDB-ES, convocou para hoje uma reunião extraordinária da comissão para esclarecimentos sobre as possíveis informações (milhões de telefonemas e e-mails de brasileiros) que o governo dos Estados Unidos teve acesso. Pretende convocar os ministros da Defesa, Celso Amorim, das Comunicações, Paulo Bernardo, das Relações Exteriores, Antonio Patriota, e do Gabinete de Segurança Institucional, José Elito, como também o Embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, e o jornalista americano Glenn Greenwald.
Médicos
A presidente Dilma Rousseff lançou ontem as medidas do Pacto Nacional pela Saúde. Quer contratar médicos estrangeiros e construir hospitais e unidades básicas de saúde nas periferias das grandes cidades e municípios do interior. Serão abertas 11.400 vagas para cursos de graduação de médico e de 12.400 para médicos residentes até 2017. Estão previstos incentivos para a fixação de médicos em lugares onde há carência de profissionais. Os alunos que ingressarem nos cursos de medicina a partir de 2015 terão que atuar dois anos no Sistema Único de Saúde (SUS) para receber o diploma.
Mobilidade 1
A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, se reuniu ontem com os governadores e prefeitos das capitais de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) e Fernando Haddad (PT), Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB) e Eduardo Paes (PMDB), e Bahia, Jacques Wagner (PT) e ACM Neto (DEM), para discutir investimentos de recursos federais em obras de mobilidade urbana.
Mobilidade 2
Hoje, a ministra do Planejamento se reúne com Alberto Pinto Coelho (PP), vice-governador de Minas, e Márcio Lacerda (PSB), prefeito de Belo Horizonte; Cid Gomes (PSB), do Ceará, e Roberto Bezerra, prefeito de Fortaleza; e Beto Richa (PSDB), governador do Estado do Paraná (PSDB),e Gustavo Fruet (PDT), prefeito de Curitiba; o vice-governador Beto Grill (PSB) e José Fortunati (PDT), prefeito de Porto Alegre.
Déficit de governabilidade - RAIMUNDO COSTA
VALOR ECONÔMICO - 09/07
A Comissão de Constituição e Justiça do Senado planeja discutir e se possível votar, já esta semana, proposta de emenda constitucional (PEC) que determina o fim da reeleição, fixa os mandatos em seis anos e estabelece a coincidência geral das eleições, de vereador a presidente da República, a partir de 2022.
Trata-se de assunto que ronda o debate legislativo há alguns anos, mas entra em pauta num momento ruim para o Palácio do Planalto, quando a presidente Dilma Rousseff sofre de um déficit de governabilidade. Para o Congresso, é mais uma demonstração do desconforto dos senadores e deputados com a proposta de plebiscito para a reforma política.
Esse é um assunto que o Congresso considera da sua exclusiva competência. A interferência da presidente da República foi vista como uma tentativa de Dilma de "jogar no colo" dos parlamentares uma crise que em grande parte se deve à falta de ação do governo. Em três semanas, o Congresso demonstrou que é capaz de dar respostas rápidas, ao ser submetido a pressões na escala das manifestações de junho.
Como que surgidos do nada, cartazes toscos diziam "Não à PEC 37". Sem a menor hesitação a Câmara rejeitou por imensa maioria o projeto que retirava poderes do Ministério Público. Proposta, aliás, cuja tendência de voto era anteriormente de aprovação. O mesmo destino teve o projeto da "cura gay".
Na direção do vento votou e aprovou o projeto que classifica a corrupção como crime hediondo e o que acaba com o voto secreto nos processos de cassação de mandatos (ainda sujeito a novas votações).
"Câmara e Senado estão retomando suas próprias pautas de votação para esvaziar o plebiscito", diz o cientista político Cristiano Noronha, da empresa de consultoria Arko Advice, de Brasília. Esse é o caso do projeto que acaba com a reeleição e estabelece a coincidência dos mandatos.
A PEC é de autoria do senador Romero Jucá (PMDB-RR), ex-líder dos governos Lula e Dilma no Senado. O relator é o senador Luiz Henrique (PMDB-SC). Aprovado como está, o texto estende para seis anos o mandato dos prefeitos, vice-prefeitos e vereadores eleitos em 2016 "com vistas a estabelecer, em 2022, a coincidência geral das eleições".
A partir de 2022 todos os mandatos teriam duração de seis anos, "vedada a reeleição" dos chefes dos poderes executivo federal, estadual, distrital e municipal. Uma disposição transitória trata do mandato dos senadores, que atualmente é de oito anos, mas com eleições a cada quatro anos (os senadores eleitos em 2018 teriam mandato de apenas quatro anos de duração).
Fim da reeleição é assunto incômodo para um governo já em campanha para as eleições de 2014 e às voltas com a insistência do "Volta, Lula" permanecer no discurso dos políticos. "Trata-se de uma discussão inadiável", diz o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), que já redigiu uma emenda instituindo o mandato de cinco anos e o fim da reeleição a partir de 2018.
"Eu não defendo o fim da reeleição já para 2014, seria um casuísmo mudar a regra no meio do jogo", diz o senador capixaba. Ferraço acredita que já passou da hora a discussão de um modelo (a reeleição) que considera ineficiente para a política e a gestão pública. Diz o senador: "Qualquer governante, quando se elege, em princípio quer colocar em prática tudo aquilo que propôs na campanha, mas logo abandona esse programa pelo interesse da reeleição."
Na prática, avalia o pemedebista do Espírito Santo, "isso tem representado uma subversão de prioridades: ela deixa de ser a gestão e passa a ser a reeleição".
A história recente do país, de fato, mostra que a sucessão é um processo cada vez mais precoce, as relações do governante com os partidos e o Congresso (ou Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais) é subordinada à reeleição, uma obsessão que toma conta dos governos de uma maneira geral.
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), defensor da reeleição, promete apresentar o projeto ao plenário, para votação, se os trâmites necessários ao regime de urgência forem atendidos. O governo, ainda embaralhado na questão do plebiscito, vê na iniciativa da comissão do Senado mais uma manobra para desgastar politicamente a presidente.
Só o fato de estar em pauta já é um desgaste para a coordenação política do Palácio do Planalto, que vive talvez o seu pior período na relação com o Congresso. O PMDB é peça decisiva: nenhuma emenda constitucional passa no atual Congresso, se não contar com o apoio efetivo do partido.
O governador Eduardo Campos (PE) tem efetivamente conversado com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O pretexto para o reencontro dos amigos foram as manifestações de junho. No PSB, partido presidido por Campos, informa-se que não se deve confundir espírito colaborativo com rendição ao projeto político da legenda. "Se não alienamos nosso futuro político antes, por que o faríamos agora, quando é nítido que o povo quer trocar um projeto que já não atende a suas prioridades por um novo?", pergunta Carlos Siqueira, secretário-executivo do PSB.
Na avaliação de Carlos Siqueira, desde o golpe militar de 1964 que, de dez em dez anos, aproximadamente, o povo brasileiro sinaliza quando a mudança é necessária. Em 1974, mandou um recado para a ditadura ao votar na oposição; em 1984, a campanha das diretas já deixou claro que o modelo do regime militar se esgotara; em 1992 foi o impeachment de Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente eleito pelo voto desde 1964. O período Itamar Franco/Fernando Henrique Cardoso foi o da estabilidade monetária, que já não bastava para o eleitor de 2002, com a inauguração do ciclo do PT, iniciado com a posse de Lula em janeiro de 2003. Esse modelo está completando agora dez anos. Para Siqueira, as revoltas de junho decretaram seu esgotamento. E o PSB pode ser o novo. "Potencial, nós temos".
Terra de cegos - VERA MAGALHÃES
FOLHA DE SP - 09/07
SÃO PAULO - É senso comum nos meios políticos e empresariais que Dilma Rousseff precisa promover mudanças em seu primeiro escalão para demonstrar que tem ferramentas para retomar a confiança nos rumos da economia e o comando sobre sua tão extensa quanto desarrumada coalizão no Congresso.
Essa é uma constatação feita inclusive por ministros da presidente, que, na semana passada, chegavam a dar como certa a saída da combalida Ideli Salvatti da coordenação política e como provável a troca de Guido Mantega, na Fazenda, por um nome capaz de reconquistar o mercado.
A nota oficial divulgada no fim de semana dizendo que nada muda no primeiro escalão só não foi um banho de água fria maior porque a mesma Dilma, no início do ano, prometeu que não mexeria na equipe, para fazê-lo poucos dias depois.
Por outro lado, aliados da petista indagam: substituir Ideli e Mantega por quem? E mais: a troca de nomes vai mudar alguma coisa num cenário em que a articulação política é manietada, e a condução da economia, feita pela própria presidente?
Não há banco de reservas para a vaga de Ideli. Por ali já desfilaram nomes de vários partidos, com desempenho sofrível. O único que foi considerado razoável, pelo manejo do varejo, foi José Múcio, hoje no TCU.
Ideli tem sido submetida a constrangimentos públicos diários. Nas reuniões, não tenta nem disfarçar seu alheamento. Diante dos pedidos de senadores e deputados, sapeca um embaraçoso "a reitora não deixa'', numa referência a Dilma.
As opções aventadas para substitui-la não têm mais lastro político. Além disso, não é possível saber se os petistas à disposição para a tarefa trabalhariam por Dilma ou seriam infiltrados do "volta Lula'' no palácio.
Comentário corrente na base aliada mostra o dilema: um ministério em que pontifica Aloizio Mercadante dá sentido ao ditado segundo o qual em terra de cegos, quem tem um olho é rei.
SÃO PAULO - É senso comum nos meios políticos e empresariais que Dilma Rousseff precisa promover mudanças em seu primeiro escalão para demonstrar que tem ferramentas para retomar a confiança nos rumos da economia e o comando sobre sua tão extensa quanto desarrumada coalizão no Congresso.
Essa é uma constatação feita inclusive por ministros da presidente, que, na semana passada, chegavam a dar como certa a saída da combalida Ideli Salvatti da coordenação política e como provável a troca de Guido Mantega, na Fazenda, por um nome capaz de reconquistar o mercado.
A nota oficial divulgada no fim de semana dizendo que nada muda no primeiro escalão só não foi um banho de água fria maior porque a mesma Dilma, no início do ano, prometeu que não mexeria na equipe, para fazê-lo poucos dias depois.
Por outro lado, aliados da petista indagam: substituir Ideli e Mantega por quem? E mais: a troca de nomes vai mudar alguma coisa num cenário em que a articulação política é manietada, e a condução da economia, feita pela própria presidente?
Não há banco de reservas para a vaga de Ideli. Por ali já desfilaram nomes de vários partidos, com desempenho sofrível. O único que foi considerado razoável, pelo manejo do varejo, foi José Múcio, hoje no TCU.
Ideli tem sido submetida a constrangimentos públicos diários. Nas reuniões, não tenta nem disfarçar seu alheamento. Diante dos pedidos de senadores e deputados, sapeca um embaraçoso "a reitora não deixa'', numa referência a Dilma.
As opções aventadas para substitui-la não têm mais lastro político. Além disso, não é possível saber se os petistas à disposição para a tarefa trabalhariam por Dilma ou seriam infiltrados do "volta Lula'' no palácio.
Comentário corrente na base aliada mostra o dilema: um ministério em que pontifica Aloizio Mercadante dá sentido ao ditado segundo o qual em terra de cegos, quem tem um olho é rei.
A multa do FGTS - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 09/07
Com a aprovação do projeto que extingue a multa de 10% do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) devida pelas empresas nos casos de demissão sem justa causa, o Congresso tenta dar fim a um artifício tributário que vem assegurando ao governo receitas adicionais de cerca de R$ 3 bilhões por ano, mas impõe custos indevidos aos empregadores e desestimula a geração de empregos. Como se previa, o governo quis evitar a aprovação do texto, tendo para isso até empregado uma manobra esperta - a tentativa de votação antecipada de um Projeto de Lei dando a esses recursos um destino "social", como uma espécie de resposta às intensas reivindicações das ruas -, mas nem mesmo sua base votou de acordo com seus desejos.
O projeto, que já havia sido aprovado no Senado, passou na Câmara dos Deputados, sem alterações, por 315 votos a favor e apenas 95 contrários. A presidente Dilma Rousseff tem a prerrogativa de vetá-lo. Se utilizá-la, perpetuará o que era provisório e já deveria, há mais tempo, ter sido eliminado.
A instituição do recolhimento adicional do FGTS pelos empregadores nas demissões sem justa causa e sua manutenção até agora mostram como certas leis aprovadas sob o argumento de urgência, para suprir necessidades financeiras temporárias do governo, tendem a perenizar-se. Somente quando os contribuintes - neste caso, os empregadores - se mobilizam, pressionam os parlamentares e conseguem fazê-los assumir seu papel de representantes da sociedade, o Congresso toma iniciativas para protegê-los dos excessos tributários.
A multa foi criada pela Lei Complementar 110, aprovada em 2001. Ao justificar a criação do adicional de 10% (além dos 40% devidos ao trabalhador demitido), o governo alegou que as decisões do Poder Judiciário, reconhecendo que os saldos do FGTS tinham sido corrigidos a menor na implantação dos Planos Verão (de 1989) e Collor 1 (de 1990), geraram um passivo, que, se não coberto, provocaria o desequilíbrio patrimonial do Fundo. O governo estimou que a necessidade de geração de patrimônio do FGTS era de R$ 41 bilhões.
Embora fosse explícito e limitado o objetivo da multa, o artigo da lei complementar que a instituiu não estabeleceu nenhuma vinculação legal clara entre sua cobrança e a recomposição do patrimônio do FGTS no valor alegado. Assim, a cobrança poderia ser por tempo indefinido. Outros artigos, porém, se referem à necessidade de gerar para a União uma receita adicional que lhe permitisse cobrir os rombos que ela mesma gerou na contas dos trabalhadores com os planos de estabilização. De acordo com cálculos de entidades empresariais, esse rombo foi inteiramente coberto há algum tempo, o que tornou a multa um tributo como os outros, que engordam os cofres do Tesouro.
Desde 2007 tramitava no Senado Projeto de Lei complementar fixando prazo para a extinção da multa. Em agosto de 2012, o Senado aprovou a extinção em 1.° de junho de 2013. O texto passou também pela Câmara, sem alterações.
O projeto, que já havia sido aprovado no Senado, passou na Câmara dos Deputados, sem alterações, por 315 votos a favor e apenas 95 contrários. A presidente Dilma Rousseff tem a prerrogativa de vetá-lo. Se utilizá-la, perpetuará o que era provisório e já deveria, há mais tempo, ter sido eliminado.
A instituição do recolhimento adicional do FGTS pelos empregadores nas demissões sem justa causa e sua manutenção até agora mostram como certas leis aprovadas sob o argumento de urgência, para suprir necessidades financeiras temporárias do governo, tendem a perenizar-se. Somente quando os contribuintes - neste caso, os empregadores - se mobilizam, pressionam os parlamentares e conseguem fazê-los assumir seu papel de representantes da sociedade, o Congresso toma iniciativas para protegê-los dos excessos tributários.
A multa foi criada pela Lei Complementar 110, aprovada em 2001. Ao justificar a criação do adicional de 10% (além dos 40% devidos ao trabalhador demitido), o governo alegou que as decisões do Poder Judiciário, reconhecendo que os saldos do FGTS tinham sido corrigidos a menor na implantação dos Planos Verão (de 1989) e Collor 1 (de 1990), geraram um passivo, que, se não coberto, provocaria o desequilíbrio patrimonial do Fundo. O governo estimou que a necessidade de geração de patrimônio do FGTS era de R$ 41 bilhões.
Embora fosse explícito e limitado o objetivo da multa, o artigo da lei complementar que a instituiu não estabeleceu nenhuma vinculação legal clara entre sua cobrança e a recomposição do patrimônio do FGTS no valor alegado. Assim, a cobrança poderia ser por tempo indefinido. Outros artigos, porém, se referem à necessidade de gerar para a União uma receita adicional que lhe permitisse cobrir os rombos que ela mesma gerou na contas dos trabalhadores com os planos de estabilização. De acordo com cálculos de entidades empresariais, esse rombo foi inteiramente coberto há algum tempo, o que tornou a multa um tributo como os outros, que engordam os cofres do Tesouro.
Desde 2007 tramitava no Senado Projeto de Lei complementar fixando prazo para a extinção da multa. Em agosto de 2012, o Senado aprovou a extinção em 1.° de junho de 2013. O texto passou também pela Câmara, sem alterações.
Para não correr o risco de derrota na votação desse projeto, o governo tentou forçar a Câmara a votar antes o projeto que havia sido apresentado às pressas pelo líder do PP, deputado Artur Lira (AL), transferindo as receitas geradas pelo adicional de 10% do FGTS para o programa Minha Casa, Minha Vida - administrado pelo Ministério das Cidades, cujo titular é do PP. Com sua base desarticulada, porém, o governo voltou a perder. Apenas o PT, o PC do B e o oposicionista PSOL votaram pela manutenção da multa.
Programas sociais têm sido usados com frequência pelo governo como argumento para manter ou aumentar tributos. Apesar das às vezes demagógicas citações desses programas em discursos e peças de propaganda oficiais, muitos deles são importantes para assegurar melhores condições de vida para a população, mas eles devem ser sustentados por recursos orçamentários disponíveis, não por meio de tributos disfarçados ou indevidamente cobrados, como é o caso da multa do FGTS.
Combater a inflação - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 09/07
Alta de preços exige ação clara também do governo, e não só do Banco Central, que mostra disposição para elevar taxa de juros
O índice oficial de inflação do mês de junho sem dúvida provocou certo alívio no governo e no mercado. Pela primeira vez em muitos meses, a alta do IPCA, de 0,26%, ficou abaixo do que se esperava.
Verdade que, nos últimos 12 meses, a inflação acumulada chegou a 6,7% e terminou acima do limite de tolerância de 6,5% definido pelo Conselho Monetário Nacional.
Deve-se observar a partir de agora, porém, tendência de queda --registrou-se, no segundo semestre de 2012, grande alta de preços forçada sobretudo pela quebra da safra nos EUA, algo que não deve se repetir agora. Ao contrário, já começa a se concretizar a queda do valor dos alimentos no varejo.
Além disso, foi relativamente baixa a chamada taxa de dispersão de junho --do total de produtos medidos pelo IPCA, 55,34% ficaram mais caros nesse mês. Desde março de 2012 esse indicador não ficava abaixo de 60%.
Nada garante que o problema inflacionário esteja devidamente equacionado, contudo. Os preços dos serviços, por exemplo, ainda crescem 8,5% ao ano, e não há sinais de mudança nesse padrão.
Do lado das expectativas, tampouco há o que comemorar. Após mais de dois anos de atuação errática do governo no combate à inflação, poucos analistas acreditam no compromisso com a meta de 4,5%. Pesquisa semanal do Banco Central indica projeções de 5,8% para 2013 e 5,9% para 2014.
Recolocar o gênio da inflação na garrafa ainda demandará esforço. Na reunião do Copom (Conselho de Política Monetária) que começa hoje, espera-se a terceira elevação consecutiva da taxa básica de juros (Selic), possivelmente para 8,5% --em abril, ela passou de 7,25% para 7,5%, e em junho foi a 8%. Já há projeções indicando taxa de dois dígitos nos próximos anos.
A razão, em parte, é o choque cambial dos últimos meses. Em 2013, o real já se desvalorizou cerca de 15%. Assim, bens sujeitos à competição externa devem encarecer --com o dólar mais valorizado, há espaço para aumentar o preço de produtos concorrentes fabricados no Brasil. O Ministério da Fazenda, por isso, cogita reduzir alíquotas de importados para compensar tal efeito.
Tudo somado, permanece desafiador o quadro inflacionário, e a credibilidade em baixa da política econômica em geral --incluindo o Banco Central-- apenas torna a situação mais difícil.
O governo precisaria emitir sinais claros e coerentes a respeito de seus objetivos. Controlar a inflação não é tarefa que possa ficar apenas a cargo do Banco Central. Depende também, por exemplo, de uma gestão orçamentária mais cuidadosa --compromisso que a administração Dilma Rousseff teima em não levar a sério.
Alta de preços exige ação clara também do governo, e não só do Banco Central, que mostra disposição para elevar taxa de juros
O índice oficial de inflação do mês de junho sem dúvida provocou certo alívio no governo e no mercado. Pela primeira vez em muitos meses, a alta do IPCA, de 0,26%, ficou abaixo do que se esperava.
Verdade que, nos últimos 12 meses, a inflação acumulada chegou a 6,7% e terminou acima do limite de tolerância de 6,5% definido pelo Conselho Monetário Nacional.
Deve-se observar a partir de agora, porém, tendência de queda --registrou-se, no segundo semestre de 2012, grande alta de preços forçada sobretudo pela quebra da safra nos EUA, algo que não deve se repetir agora. Ao contrário, já começa a se concretizar a queda do valor dos alimentos no varejo.
Além disso, foi relativamente baixa a chamada taxa de dispersão de junho --do total de produtos medidos pelo IPCA, 55,34% ficaram mais caros nesse mês. Desde março de 2012 esse indicador não ficava abaixo de 60%.
Nada garante que o problema inflacionário esteja devidamente equacionado, contudo. Os preços dos serviços, por exemplo, ainda crescem 8,5% ao ano, e não há sinais de mudança nesse padrão.
Do lado das expectativas, tampouco há o que comemorar. Após mais de dois anos de atuação errática do governo no combate à inflação, poucos analistas acreditam no compromisso com a meta de 4,5%. Pesquisa semanal do Banco Central indica projeções de 5,8% para 2013 e 5,9% para 2014.
Recolocar o gênio da inflação na garrafa ainda demandará esforço. Na reunião do Copom (Conselho de Política Monetária) que começa hoje, espera-se a terceira elevação consecutiva da taxa básica de juros (Selic), possivelmente para 8,5% --em abril, ela passou de 7,25% para 7,5%, e em junho foi a 8%. Já há projeções indicando taxa de dois dígitos nos próximos anos.
A razão, em parte, é o choque cambial dos últimos meses. Em 2013, o real já se desvalorizou cerca de 15%. Assim, bens sujeitos à competição externa devem encarecer --com o dólar mais valorizado, há espaço para aumentar o preço de produtos concorrentes fabricados no Brasil. O Ministério da Fazenda, por isso, cogita reduzir alíquotas de importados para compensar tal efeito.
Tudo somado, permanece desafiador o quadro inflacionário, e a credibilidade em baixa da política econômica em geral --incluindo o Banco Central-- apenas torna a situação mais difícil.
O governo precisaria emitir sinais claros e coerentes a respeito de seus objetivos. Controlar a inflação não é tarefa que possa ficar apenas a cargo do Banco Central. Depende também, por exemplo, de uma gestão orçamentária mais cuidadosa --compromisso que a administração Dilma Rousseff teima em não levar a sério.
Solução de mercado para Eike Batista - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 09/07
Do sucesso dos empreendimentos depende não só o atual acionista controlador, mas também empregados, empreendedores, fornecedores e sócios minoritários
As companhias do grupo EBX, do empresário Eike Batista, enfrentam uma séria crise de credibilidade, em especial as de capital aberto, com ações negociadas em bolsa. As cotações de quase todas as empresas tiveram queda vertiginosa, mais acentuada do que a forte desvalorização que atingiu a grande maioria dos papéis na bolsa brasileira nos últimos meses. Essa perda de confiança teve origem na frustração inicial da produção da companhia de petróleo OGX (o maior investimento do grupo) na Bacia de Campos. A empresa traçou metas ambiciosas de produção, a partir das descobertas feitas depois de uma intensa campanha de exploração, com a perfuração de mais de cem poços pelo Brasil. No entanto, os três poços do campo batizado de Tubarão Azul, no mar, não se revelaram tão produtivos. Com isso, as metas ficaram comprometidos e o mercado reviu a projeção de receita, sempre comparando-a com as necessidades de caixa para a continuidade de investimento e a amortização de dívidas.
A frustração inicial com a companhia petrolífera acabou contaminando as ações das demais empresas do grupo EBX, pois todas elas estão envolvidas igualmente com planos ambiciosos.
Trata-se, então, de uma crise de credibilidade, pois os investimentos que as empresas ainda estão realizando não estão na fase de gerar caixa suficiente para que possam ser concretizados sem apoio em novos financiamentos.
Mas também é uma avaliação precipitada considerar que a frustração inicial com a OGX se repetirá em todos os projetos do grupo. O empresário Eike Batista tem vários parceiros nessa empreitada, que viram nesses projetos viabilidade econômica e considerável potencial de crescimento. Diante da perda de confiança do mercado, Eike Batista foi forçado a rever os investimentos de suas empresas, para adequá-los a uma realidade de restrição de crédito. Simultaneamente, pôs à venda patrimônio e até mesmo participações acionárias relevantes dessas companhias. Uma primeira grande negociação já foi bem-sucedida, a que envolve a empresa de energia elétrica MPX, que agora passou ao comando da sócia sócia alemã E.ON.
Tal transação se refletiu positivamente na bolsa, estancando a queda vertiginosa que as demais empresas vinham registrando diariamente. E mostra o caminho correto para o grupo se recuperar. A solução adequada terá de vir necessariamente pelo mercado, sem o uso de dinheiro público.
O grupo EBX tem volume considerável de investimentos no Rio de Janeiro. É especialmente importante para o Norte Fluminense o complexo industrial e portuário do Açu, no município de São João da Barra. A solução de mercado para essas empresas renovará as esperanças em relação à continuidade desses projetos, que hoje não dizem respeito apenas a seu acionista majoritário, mas também a milhares de empregados, fornecedores, empreendedores e sócios minoritários.
Do sucesso dos empreendimentos depende não só o atual acionista controlador, mas também empregados, empreendedores, fornecedores e sócios minoritários
As companhias do grupo EBX, do empresário Eike Batista, enfrentam uma séria crise de credibilidade, em especial as de capital aberto, com ações negociadas em bolsa. As cotações de quase todas as empresas tiveram queda vertiginosa, mais acentuada do que a forte desvalorização que atingiu a grande maioria dos papéis na bolsa brasileira nos últimos meses. Essa perda de confiança teve origem na frustração inicial da produção da companhia de petróleo OGX (o maior investimento do grupo) na Bacia de Campos. A empresa traçou metas ambiciosas de produção, a partir das descobertas feitas depois de uma intensa campanha de exploração, com a perfuração de mais de cem poços pelo Brasil. No entanto, os três poços do campo batizado de Tubarão Azul, no mar, não se revelaram tão produtivos. Com isso, as metas ficaram comprometidos e o mercado reviu a projeção de receita, sempre comparando-a com as necessidades de caixa para a continuidade de investimento e a amortização de dívidas.
A frustração inicial com a companhia petrolífera acabou contaminando as ações das demais empresas do grupo EBX, pois todas elas estão envolvidas igualmente com planos ambiciosos.
Trata-se, então, de uma crise de credibilidade, pois os investimentos que as empresas ainda estão realizando não estão na fase de gerar caixa suficiente para que possam ser concretizados sem apoio em novos financiamentos.
Mas também é uma avaliação precipitada considerar que a frustração inicial com a OGX se repetirá em todos os projetos do grupo. O empresário Eike Batista tem vários parceiros nessa empreitada, que viram nesses projetos viabilidade econômica e considerável potencial de crescimento. Diante da perda de confiança do mercado, Eike Batista foi forçado a rever os investimentos de suas empresas, para adequá-los a uma realidade de restrição de crédito. Simultaneamente, pôs à venda patrimônio e até mesmo participações acionárias relevantes dessas companhias. Uma primeira grande negociação já foi bem-sucedida, a que envolve a empresa de energia elétrica MPX, que agora passou ao comando da sócia sócia alemã E.ON.
Tal transação se refletiu positivamente na bolsa, estancando a queda vertiginosa que as demais empresas vinham registrando diariamente. E mostra o caminho correto para o grupo se recuperar. A solução adequada terá de vir necessariamente pelo mercado, sem o uso de dinheiro público.
O grupo EBX tem volume considerável de investimentos no Rio de Janeiro. É especialmente importante para o Norte Fluminense o complexo industrial e portuário do Açu, no município de São João da Barra. A solução de mercado para essas empresas renovará as esperanças em relação à continuidade desses projetos, que hoje não dizem respeito apenas a seu acionista majoritário, mas também a milhares de empregados, fornecedores, empreendedores e sócios minoritários.
O protagonismo privado na inovação - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 09/07
Investimentos públicos direcionados unicamente para a ciência e a pesquisa nunca serão suficientes para acelerar e sustentar o desenvolvimento de empresas que inovam
Para que o conhecimento gerado na academia se transforme em riqueza e crescimento social, a empresa deve ser reconhecida como protagonista principal da inovação. Os avanços do conhecimento só poderão cumprir a promessa de um crescimento econômico e social vigoroso se inovação for sinônimo de produtividade e competitividade empresarial. Isso significa que o protagonismo privado na inovação – ou seja, o papel da empresa neste processo – é primordial. E que investimentos públicos direcionados unicamente para a ciência e a pesquisa, por mais significativos que sejam, nunca serão suficientes para acelerar e sustentar o desenvolvimento de empresas que inovam.
A Rede Interamericana de Competitividade recentemente mostrou, no relatório Sinais de Competitividade das Américas, que na América Latina de forma geral, e no Brasil em particular, a fonte principal dos investimentos ligados à inovação provém de instituições públicas (totalizando 59% do total investido), ao contrário dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em que aportes do governo se limitam a 35% do total. Recursos direcionados para a ciência são obviamente necessários, mas não são suficientes para provocar as transformações sociais decorrentes da inovação. Prova disso é que, ainda que os dispêndios médios em pesquisa e desenvolvimento (P&D) por pesquisador na Coreia do Sul (US$ 201 mil / pesquisador) e no Brasil (US$ 187 mil / pesquisador) ocorram em patamares similares, existe uma óbvia distância entre os dois países em termos de desenvolvimento social. A chave da inovação está no protagonismo privado. No Brasil apenas 1,1% do PIB está comprometido com atividades de P&D, e a iniciativa privada entra com 45% desse total. A Coreia do Sul compromete 3,7% do seu PIB com essas mesmas atividades, sendo 72% a partir das empresas. Como é que, apesar de sermos uma das maiores economias mundiais, ainda temos no Brasil um protagonismo privado na inovação tão baixo?
Uma primeira explicação encontra-se na confusão que subsiste entre avanços científicos e inovação. Ao acreditar que inovar consiste em desenvolver pesquisas nas universidades, caímos na armadilha de pensar que os investimentos necessários são de exclusiva responsabilidade do governo. Um segundo elemento que sufoca o protagonismo empresarial na inovação é a burocracia, que freia o empreendedorismo. Finalmente, a inovação é muitas vezes entendida e contabilmente classificada como gasto periférico do negócio da empresa, que será consequentemente eliminado em períodos economicamente difíceis – justamente quando a inovação é mais necessária.
Para termos uma compreensão ainda mais completa, necessitamos também questionar a qualidade dos dados que apontam para um baixo protagonismo privado em inovação. Muitos recursos contabilizados no Brasil como “investimentos públicos na inovação” consistem, na realidade, em verbas destinadas à formação universitária e pesquisa básica, atividades que não podemos confundir com a própria inovação. Nas empresas, por outro lado, os investimentos em inovação não são muitas vezes explicitamente reconhecidos e contabilizados dessa forma, por falta de compreensão do tema. Finalmente, os instrumentos de captura de dados sobre protagonismo econômico em inovação não são definitivamente adequados. A Pesquisa em Inovação Tecnológica (Pintec) do IBGE assimila, por exemplo, gastos em compra de máquinas (ou seja, modernização) com inovação, além de amparar a obrigatoriedade de resposta ao questionário na arcaica Lei n.º 5.534, de 1968, que prevê multas em caso de não prestação de informações nos prazos fixados. Nesse contexto, a probabilidade de termos dados imprecisos é grande.
De todas as formas, é imprescindível não mais confundirmos a atividade de pesquisa científica com a atividade de inovação, em que a empresa é o protagonista principal. Na medida em que as políticas industriais não fazem muitas vezes esta distinção, o próprio papel indutor do governo encontra-se prejudicado por falta de incentivos claros e efetivos à atividade empreendedora, por essência privada.
Investimentos públicos direcionados unicamente para a ciência e a pesquisa nunca serão suficientes para acelerar e sustentar o desenvolvimento de empresas que inovam
Para que o conhecimento gerado na academia se transforme em riqueza e crescimento social, a empresa deve ser reconhecida como protagonista principal da inovação. Os avanços do conhecimento só poderão cumprir a promessa de um crescimento econômico e social vigoroso se inovação for sinônimo de produtividade e competitividade empresarial. Isso significa que o protagonismo privado na inovação – ou seja, o papel da empresa neste processo – é primordial. E que investimentos públicos direcionados unicamente para a ciência e a pesquisa, por mais significativos que sejam, nunca serão suficientes para acelerar e sustentar o desenvolvimento de empresas que inovam.
A Rede Interamericana de Competitividade recentemente mostrou, no relatório Sinais de Competitividade das Américas, que na América Latina de forma geral, e no Brasil em particular, a fonte principal dos investimentos ligados à inovação provém de instituições públicas (totalizando 59% do total investido), ao contrário dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em que aportes do governo se limitam a 35% do total. Recursos direcionados para a ciência são obviamente necessários, mas não são suficientes para provocar as transformações sociais decorrentes da inovação. Prova disso é que, ainda que os dispêndios médios em pesquisa e desenvolvimento (P&D) por pesquisador na Coreia do Sul (US$ 201 mil / pesquisador) e no Brasil (US$ 187 mil / pesquisador) ocorram em patamares similares, existe uma óbvia distância entre os dois países em termos de desenvolvimento social. A chave da inovação está no protagonismo privado. No Brasil apenas 1,1% do PIB está comprometido com atividades de P&D, e a iniciativa privada entra com 45% desse total. A Coreia do Sul compromete 3,7% do seu PIB com essas mesmas atividades, sendo 72% a partir das empresas. Como é que, apesar de sermos uma das maiores economias mundiais, ainda temos no Brasil um protagonismo privado na inovação tão baixo?
Uma primeira explicação encontra-se na confusão que subsiste entre avanços científicos e inovação. Ao acreditar que inovar consiste em desenvolver pesquisas nas universidades, caímos na armadilha de pensar que os investimentos necessários são de exclusiva responsabilidade do governo. Um segundo elemento que sufoca o protagonismo empresarial na inovação é a burocracia, que freia o empreendedorismo. Finalmente, a inovação é muitas vezes entendida e contabilmente classificada como gasto periférico do negócio da empresa, que será consequentemente eliminado em períodos economicamente difíceis – justamente quando a inovação é mais necessária.
Para termos uma compreensão ainda mais completa, necessitamos também questionar a qualidade dos dados que apontam para um baixo protagonismo privado em inovação. Muitos recursos contabilizados no Brasil como “investimentos públicos na inovação” consistem, na realidade, em verbas destinadas à formação universitária e pesquisa básica, atividades que não podemos confundir com a própria inovação. Nas empresas, por outro lado, os investimentos em inovação não são muitas vezes explicitamente reconhecidos e contabilizados dessa forma, por falta de compreensão do tema. Finalmente, os instrumentos de captura de dados sobre protagonismo econômico em inovação não são definitivamente adequados. A Pesquisa em Inovação Tecnológica (Pintec) do IBGE assimila, por exemplo, gastos em compra de máquinas (ou seja, modernização) com inovação, além de amparar a obrigatoriedade de resposta ao questionário na arcaica Lei n.º 5.534, de 1968, que prevê multas em caso de não prestação de informações nos prazos fixados. Nesse contexto, a probabilidade de termos dados imprecisos é grande.
De todas as formas, é imprescindível não mais confundirmos a atividade de pesquisa científica com a atividade de inovação, em que a empresa é o protagonista principal. Na medida em que as políticas industriais não fazem muitas vezes esta distinção, o próprio papel indutor do governo encontra-se prejudicado por falta de incentivos claros e efetivos à atividade empreendedora, por essência privada.
O poder da espionagem - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 09/07
A confirmação de que telefonemas e correspondência eletrônica de pessoas residentes ou em trânsito no Brasil e de empresas instaladas no país vinham sendo espionados pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, a NSA _ feita pelo jornal O Globo _, surpreende por reafirmar uma questão que, até o mês passado, não passava de suspeita. Age certo, portanto, o Planalto ao decidir interpelar a Casa Branca e apressar providências legislativas que tornem o país menos vulnerável nesse aspecto. O episódio demonstra o quanto informação pode se constituir num instrumento de poder e como o fim da era da privacidade exige ações rápidas, eficazes e imediatas por parte de países mais vulneráveis.
Tudo começou com a divulgação de documentos da NSA por Edward Snowden, responsável pelo vazamento sobre operações de vigilância de comunicações. Agora, confirma-se que a espionagem praticada pela NSA foi além: estende-se também a outros países, que não podem aceitar essa prática.
Ainda que avalizados por todos os poderes constituídos, e mesmo que se limitem a apurar quem ligou para quem e por quanto tempo, os sistemas são abusivos. Esse aspecto fica ainda mais evidente quando as ações se direcionam para o Brasil, onde teria funcionado até mesmo uma base de espionagem, em conjunto com a Agência Central de Inteligência, a poderosa CIA.
O Brasil não pode aceitar que o direito à privacidade de seus cidadãos seja ignorado. Precisa também fazer a sua parte diante da ameaça da bisbilhotice em escala global, apressando a aprovação de leis em condições de preservar mais os interesses dos brasileiros. Entre as alternativas mais urgentes, estão inovações como o Marco Civil da Internet e a Lei de Proteção dos Dados Individuais, agora com menos razões para continuar na gaveta.
A confirmação de que telefonemas e correspondência eletrônica de pessoas residentes ou em trânsito no Brasil e de empresas instaladas no país vinham sendo espionados pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, a NSA _ feita pelo jornal O Globo _, surpreende por reafirmar uma questão que, até o mês passado, não passava de suspeita. Age certo, portanto, o Planalto ao decidir interpelar a Casa Branca e apressar providências legislativas que tornem o país menos vulnerável nesse aspecto. O episódio demonstra o quanto informação pode se constituir num instrumento de poder e como o fim da era da privacidade exige ações rápidas, eficazes e imediatas por parte de países mais vulneráveis.
Tudo começou com a divulgação de documentos da NSA por Edward Snowden, responsável pelo vazamento sobre operações de vigilância de comunicações. Agora, confirma-se que a espionagem praticada pela NSA foi além: estende-se também a outros países, que não podem aceitar essa prática.
Ainda que avalizados por todos os poderes constituídos, e mesmo que se limitem a apurar quem ligou para quem e por quanto tempo, os sistemas são abusivos. Esse aspecto fica ainda mais evidente quando as ações se direcionam para o Brasil, onde teria funcionado até mesmo uma base de espionagem, em conjunto com a Agência Central de Inteligência, a poderosa CIA.
O Brasil não pode aceitar que o direito à privacidade de seus cidadãos seja ignorado. Precisa também fazer a sua parte diante da ameaça da bisbilhotice em escala global, apressando a aprovação de leis em condições de preservar mais os interesses dos brasileiros. Entre as alternativas mais urgentes, estão inovações como o Marco Civil da Internet e a Lei de Proteção dos Dados Individuais, agora com menos razões para continuar na gaveta.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“É uma coisa que não dá para imaginar”
Ministro Marco Antonio Raupp (C&T) abismado com a espionagem dos EUA no Brasil
CÂMARA DEVE CORTAR SALÁRIO DE DONADON, O LADRÃO
O presidente da Câmara, Henrique Alves, deverá suspender o salário e a chamada “cota parlamentar” de Natan Donadon (RO), preso há duas semanas após condenação por ladroagem, transitada em julgado no Supremo Tribunal Federal. Com isso, não receberá R$ 130 mil mensais, que é a média do custo de cada deputado e inclui, além dos salários, verba de gabinete, auxílio moradia e verba indenizatória.
FORA DO JOGO
O diretor-geral da Câmara, Sérgio Sampaio, recomendará a suspensão dos pagamentos a Donadon: em cana, não pode exercer o mandato.
DINHEIRO DO BOLSO
Conforme esta coluna revelou no sábado, desde sua condenação, em outubro de 2010, Donadon faturou R$ 4,3 milhões da Câmara.
JOGADO FORA
Mesmo preso, o deputado Donadon ainda mantém toda estrutura de gabinete, além de imóvel funcional no valor de R$ 3,8 mil por mês.
FIM DO PRAZO
Os advogados de Donadon têm até quinta para entregar a defesa dele ao deputado Sérgio Zveiter (PSD-RJ), relator da cassação na CCJ.
ASSESSOR VÍTIMA DE ASSALTO DEVE VIRAR SUSPEITO
De vítima pode passar a investigado Wellington Ferreira da Costa, secretário parlamentar do presidente da Câmara, que alega ter sido assaltado, em Brasília, por ocupantes de um Fiat Strada que fecharam seu Ômega e, armados, roubaram-lhe R$ 100 mil de origem ainda não explicada. A polícia ficou desconfiada após Wellington alegar “stress” para não prestar depoimento, quinta (4), e viajar “em férias”. Se continuar evitando a polícia, poderá ser conduzido “coercitivamente”.
SILÊNCIO
A assessoria do presidente da Câmara não responde às ligações sobre o assunto, tampouco Henrique Alves, chefe do suposto assaltado.
DESCONFIANÇA
O dinheiro roubado de Wellington foi sacado três dias antes do assalto. “Passou-se muito tempo entre o saque e o furto”, desconfia um policial.
CONVITE
O presidente da Câmara, Henrique Alves, pode ser convidado a ajudar a polícia nas investigações, ajudando a esclarecer o caso.
JÁ ERA
Renan Calheiros (PMDB-AL) diz que usava aviões da FAB como de representação porque era essa a prática dos presidentes do Senado e da Câmara. Mas reconhece: esse direito foi cancelado pelas ruas.
DESINTELIGÊNCIA
Mais que ingerência dos americanos, a espionagem de brasileiros mostra o desperdício vexaminoso de dinheiro público com adidos militares, da Polícia Federal e da Agência Brasileira de Inteligência.
EPIDEMIA
Tal como o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci, Alexandre Padilha (Saúde) é citado como “infectologista”, mas a especialidade não consta nos registros de ambos no Conselho Federal de Medicina.
MÚMIA ANULADA
O líder do PP na Câmara, Artur Lira (AL), diz a aliados em Alagoas que manda o ministro Aguinaldo Ribeiro (Cidades) se levantar e se senta na cadeira dele, quando despacha quase diariamente no ministério. Pela pífia atuação, Ribeiro é chamado de “Múmia Paralítica”, no Planalto.
PAGODE CHINÊS
Ex-miss Brasil 1968, a baiana Martha Vasconcelos teme morrer ao volante de seu JAC 3: a carroça chinesa trava volante, freios e apaga o painel. A revendedora em Salvador conserta, mas não garante.
MALAS PRONTAS
Após receber convite pessoal do senador e presidenciável mineiro Aécio Neves, o deputado peemedebista de Brasília Luiz Pitiman (DF) bateu o martelo: irá para o PSDB. A expectativa dele é se filiar até a primeira quinzena de agosto.
CULPA DA DISTÂNCIA
O líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB), alega que é o recordista nos gastos com passagens aéreas – R$ 70 mil só em 2013 – devido aos valores abusivos das tarifas e à distância Brasília-Manaus.
PATRIOTADA
Impressiona o verde-amarelo do gramado do Estádio Nacional Mané Garrincha. As duas áreas do campo mudaram de cor, amarelaram. Para algo que custou tão caro, Brasília merecia coisa melhor.
AVISA LÁ
Antes que viremos (novo) alvo de chacota, é bom o governo explicar ao mundo que FAB não quer dizer “Força Aérea de Botswana”.
PODER SEM PUDOR
POUCA VERGONHA NO CAMPO
O ministro Antonio Andrade (Agricultura) gosta de viver perigosamente. Diante da presidente Dilma Rousseff, no lançamento do Plano Safra, em Salvador (BA), ele se saiu com esta, durante seu discurso:
- Temos agora nas plantações uma lagarta indecente, que, depois de comer a soja e o algodão, comem umas às outras...
Madame fechou a cara e fez um bico, afagando a caneta, com toda pinta de quem ia demiti-lo. Mas não o fez. Ainda.
Ministro Marco Antonio Raupp (C&T) abismado com a espionagem dos EUA no Brasil
CÂMARA DEVE CORTAR SALÁRIO DE DONADON, O LADRÃO
O presidente da Câmara, Henrique Alves, deverá suspender o salário e a chamada “cota parlamentar” de Natan Donadon (RO), preso há duas semanas após condenação por ladroagem, transitada em julgado no Supremo Tribunal Federal. Com isso, não receberá R$ 130 mil mensais, que é a média do custo de cada deputado e inclui, além dos salários, verba de gabinete, auxílio moradia e verba indenizatória.
FORA DO JOGO
O diretor-geral da Câmara, Sérgio Sampaio, recomendará a suspensão dos pagamentos a Donadon: em cana, não pode exercer o mandato.
DINHEIRO DO BOLSO
Conforme esta coluna revelou no sábado, desde sua condenação, em outubro de 2010, Donadon faturou R$ 4,3 milhões da Câmara.
JOGADO FORA
Mesmo preso, o deputado Donadon ainda mantém toda estrutura de gabinete, além de imóvel funcional no valor de R$ 3,8 mil por mês.
FIM DO PRAZO
Os advogados de Donadon têm até quinta para entregar a defesa dele ao deputado Sérgio Zveiter (PSD-RJ), relator da cassação na CCJ.
ASSESSOR VÍTIMA DE ASSALTO DEVE VIRAR SUSPEITO
De vítima pode passar a investigado Wellington Ferreira da Costa, secretário parlamentar do presidente da Câmara, que alega ter sido assaltado, em Brasília, por ocupantes de um Fiat Strada que fecharam seu Ômega e, armados, roubaram-lhe R$ 100 mil de origem ainda não explicada. A polícia ficou desconfiada após Wellington alegar “stress” para não prestar depoimento, quinta (4), e viajar “em férias”. Se continuar evitando a polícia, poderá ser conduzido “coercitivamente”.
SILÊNCIO
A assessoria do presidente da Câmara não responde às ligações sobre o assunto, tampouco Henrique Alves, chefe do suposto assaltado.
DESCONFIANÇA
O dinheiro roubado de Wellington foi sacado três dias antes do assalto. “Passou-se muito tempo entre o saque e o furto”, desconfia um policial.
CONVITE
O presidente da Câmara, Henrique Alves, pode ser convidado a ajudar a polícia nas investigações, ajudando a esclarecer o caso.
JÁ ERA
Renan Calheiros (PMDB-AL) diz que usava aviões da FAB como de representação porque era essa a prática dos presidentes do Senado e da Câmara. Mas reconhece: esse direito foi cancelado pelas ruas.
DESINTELIGÊNCIA
Mais que ingerência dos americanos, a espionagem de brasileiros mostra o desperdício vexaminoso de dinheiro público com adidos militares, da Polícia Federal e da Agência Brasileira de Inteligência.
EPIDEMIA
Tal como o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci, Alexandre Padilha (Saúde) é citado como “infectologista”, mas a especialidade não consta nos registros de ambos no Conselho Federal de Medicina.
MÚMIA ANULADA
O líder do PP na Câmara, Artur Lira (AL), diz a aliados em Alagoas que manda o ministro Aguinaldo Ribeiro (Cidades) se levantar e se senta na cadeira dele, quando despacha quase diariamente no ministério. Pela pífia atuação, Ribeiro é chamado de “Múmia Paralítica”, no Planalto.
PAGODE CHINÊS
Ex-miss Brasil 1968, a baiana Martha Vasconcelos teme morrer ao volante de seu JAC 3: a carroça chinesa trava volante, freios e apaga o painel. A revendedora em Salvador conserta, mas não garante.
MALAS PRONTAS
Após receber convite pessoal do senador e presidenciável mineiro Aécio Neves, o deputado peemedebista de Brasília Luiz Pitiman (DF) bateu o martelo: irá para o PSDB. A expectativa dele é se filiar até a primeira quinzena de agosto.
CULPA DA DISTÂNCIA
O líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB), alega que é o recordista nos gastos com passagens aéreas – R$ 70 mil só em 2013 – devido aos valores abusivos das tarifas e à distância Brasília-Manaus.
PATRIOTADA
Impressiona o verde-amarelo do gramado do Estádio Nacional Mané Garrincha. As duas áreas do campo mudaram de cor, amarelaram. Para algo que custou tão caro, Brasília merecia coisa melhor.
AVISA LÁ
Antes que viremos (novo) alvo de chacota, é bom o governo explicar ao mundo que FAB não quer dizer “Força Aérea de Botswana”.
PODER SEM PUDOR
POUCA VERGONHA NO CAMPO
O ministro Antonio Andrade (Agricultura) gosta de viver perigosamente. Diante da presidente Dilma Rousseff, no lançamento do Plano Safra, em Salvador (BA), ele se saiu com esta, durante seu discurso:
- Temos agora nas plantações uma lagarta indecente, que, depois de comer a soja e o algodão, comem umas às outras...
Madame fechou a cara e fez um bico, afagando a caneta, com toda pinta de quem ia demiti-lo. Mas não o fez. Ainda.
TERÇA NOS JORNAIS
- Globo: ‘Invasão’ americana: Brasil vai à ONU contra espionagem dos EUA
- Folha: Formando de medicina terá de trabalhar dois anos no SUS
- Estadão: Estudante de Medicina terá de atuar no SUS; médicos reagem
- Valor: Cardápio caro derruba receita de restaurantes
- Estado de Minas: Receita polêmica para curar o SUS
- Jornal do Commercio: Médicos vão servir ao SUS antes de se formar
- Zero Hora: Tarso negocia com banco antecipação de R$ 1 bilhão ao RS
- Brasil Econômico: CVM estuda monitorar redes sociais após caso Eike
segunda-feira, julho 08, 2013
Doutora Juliana - J. R. GUZZO
REVISTA VEJA
Não há nada de útil que valha a pena dizer a respeito desses últimos. Mas há muito que pensar sobre os primeiros, os médicos de verdade, quando o povo vai para a rua gritar que não suporta mais. entre tantas outras barbaridades, os crimes diários que são cometidos pelo governo nos serviços públicos de saúde. Os marqueteiros do Palácio do Planalto não fizeram nenhuma pesquisa para saber quantos deles, nestes dias de revolta, estão fervendo com a mesma indignação que foi para a praça pública; acham que é uma "catarse emocional". Mas o fato é que dezenas de milhares de médicos em todo o Brasil estão fartos de aguentar calados a prodigiosa incompetência, a mentira em massa e a vadiagem dos responsáveis pela saúde pública brasileira — além de uma ladroagem sem fim na qual se roubam verbas, ambulâncias, sangue e tudo o mais que pode ser rapado pelos amigos do PT e da "base aliada"". O leitor é convidado, aqui, a ouvir uma dessas vozes. É puro TNT. Vamos ver, então, o que a presidente Dilma acha dessa ""catarse", ou se quer propor um "plebiscito" à doutora Juliana Mynssen da Fonseca Cardoso, cirurgiã-geral no Hospital Estadual Azevedo Lima. no Rio de Janeiro. E ela a autora do relato abaixo, publicado na internet com o seguinte título: "O dia em que a "presidenta" Dilma em 10 minutos cuspiu no rosto de 370 000 médicos brasileiros".
"Há alguns meses eu fiz um plantão em que chorei. (...) Eu, que carrego no carro o manual da equipe militar que atendia "na guerra do" Afeganistão, chorei. (...) Na frente da sala de sutura tinha um paciente idoso internado. Numa cadeira. Com o soro pendurado num prego similar aos que pregamos samambaias. Ao seu lado, seu filho. (.-*) Seu pai estava há mais de um dia na cadeira. Ia desmaiar. Tudo o que o rapaz queria era uma maca. Não um quarto, nem um leito; só uma maca. Teve um momento em que ele desmoronou. Se ajoelhou no chão, começou a chorar, olhou para mim e disse: "Não é para mim. É para o meu pai". Saí. chorei, briguei e o coloquei numa maca na ala feminina. (...) Nestes últimos dias de protestos nas ruas e nas mídias, brigamos por um país melhor. (...) Não tenho palavras para descrever o que penso da "presidenta" Dilma. (Uma figura que se proclama "presidenta"já não merece a minha atenção.) Mas hoje, por mim, por você. pelo meu paciente da cadeira, eu a ouvi. (Ela) disse que importará médicos para melhorar a saúde do Brasil... Melhorar a qualidade? Sra. "presidenta", eu sou uma médica de qualidade. (...) O médico brasileiro é de qualidade. Os seus hospitais é que não são. O seu SUS é que não tem qualidade. O seu governo é que não tem qualidade. O dia em que a sra. "presidenta* abrir uma ficha numa UPA for internada num hospital estadual, pegar um remédio numa fila do SUS e falar que isso é de qualidade, aí conversaremos. Não cuspa na minha cara. Não pise no — meu diploma. Não me culpe da sua incompetência."
E aí, presidente Dilma — gostou? E aí. ex-presidente Lula (que diz ter criado no Brasil "um dos melhores serviços de saúde do mundo", mas se trata no Sírio-Libanês de São Paulo), gostou? Se não gostaram, deveriam ter a coragem de ir para a televisão e debater esses fatos com a doutora Juliana, na frente de todo mundo. Se não toparem, passam um atestado público de covardia. Podemos esperar sentados. Dilma teve medo até de ir ao Maracanã, numa final disputada pela equipe do país que preside. Lula fugiu para a Etiópia. Nem sequer vão ler a história acima, pois não vão gostar, e tudo aquilo de que não gostam está automaticamente errado. Acham que se trata de sentimentalismo barato, ou choro de classe média alta. ou algo assim. E o leitor, em quem acredita? Em Dilma, em Lula ou na doutora Juliana?
Ascensão e queda - CARTA AO LEITOR
REVISTA VEJA
A Carta ao Leitor da edição que traz a reportagem de capa que ilustra esta página revelava que os novos milionários brasileiros tinham como ídolo o empresário Eike Batista, em quem viam com enorme admiração o fato de ele "não ter vergonha de ser rico”. VEJA refletiu essa percepção e colocou Eike na capa, em janeiro de 2012, como uma versão brasileira de Deng Xiaoping, o líder cuja pregação "Enriquecer é glorioso" foi o sinal de largada para a transformação da China em potência econômica. O legado do líder chinês, morto em 1997, ficará para sempre. Embora não deva crescer neste ano no mesmo ritmo alucinante com que vinha impulsionando quase sozinha a economia mundial, a China se consolidou como potência. Já nosso Eike Xiaoping, que sonhava acordado em ser o homem mais rico do mundo, não correspondeu às expectativas.
Uma reportagem desta edição de VEJA narra a ascensão e queda do empresário que, até há bem pouco tempo, era símbolo de empreendedorismo e baluarte de um Brasil que enriquecia rapidamente. Eike Batista se transformou no seu oposto. Com o valor de suas empresas na bolsa derretendo como picolé no asfalto, Eike tornou-se o paradigma do espertalhão que ficou rico vendendo gato por lebre. Para piorar as coisas, a derrocada de Eike acompanha a própria degradação da economia brasileira.
Uma análise mais detida mostra as razões desse triste paralelismo. Eike decolou em grande parte pela força das mãos do governo. Obteve créditos bilionários do BNDES. Foi recebido quando quis pelo então presidente Lula e por sua sucessora, Dilma Rousseff. Era um eleito do poder, um dos poucos empresários escolhidos para ser vencedores no jogo do capitalismo estatal brasileiro. A reportagem de VEJA que explica as causas do desmoronamento do império de Eike Batista revela a série de erros cometidos pelo empresário e por seu parceiro nessa aventura, o governo brasileiro.
São enganos típicos dos momentos ingratos em que os governantes ignoram as leis de mercado e imaginam que podem impunemente controlar a economia, arbitrando taxas de juros, subsidiando combustíveis, escolhendo vencedoras entre as empresas. Ambos, Eike e o governo, estão agora pagando pelos erros. O empresário perdeu a confiança do mercado. O governo, a popularidade. Tanto sofrimento poderia ter sido evitado se houvesse prevalecido em Brasília esta antiga e límpida lição: “Os governos são péssimos em escolher vencedores, mas os perdedores são ótimos em escolher governos”.
A Carta ao Leitor da edição que traz a reportagem de capa que ilustra esta página revelava que os novos milionários brasileiros tinham como ídolo o empresário Eike Batista, em quem viam com enorme admiração o fato de ele "não ter vergonha de ser rico”. VEJA refletiu essa percepção e colocou Eike na capa, em janeiro de 2012, como uma versão brasileira de Deng Xiaoping, o líder cuja pregação "Enriquecer é glorioso" foi o sinal de largada para a transformação da China em potência econômica. O legado do líder chinês, morto em 1997, ficará para sempre. Embora não deva crescer neste ano no mesmo ritmo alucinante com que vinha impulsionando quase sozinha a economia mundial, a China se consolidou como potência. Já nosso Eike Xiaoping, que sonhava acordado em ser o homem mais rico do mundo, não correspondeu às expectativas.
Uma reportagem desta edição de VEJA narra a ascensão e queda do empresário que, até há bem pouco tempo, era símbolo de empreendedorismo e baluarte de um Brasil que enriquecia rapidamente. Eike Batista se transformou no seu oposto. Com o valor de suas empresas na bolsa derretendo como picolé no asfalto, Eike tornou-se o paradigma do espertalhão que ficou rico vendendo gato por lebre. Para piorar as coisas, a derrocada de Eike acompanha a própria degradação da economia brasileira.
Uma análise mais detida mostra as razões desse triste paralelismo. Eike decolou em grande parte pela força das mãos do governo. Obteve créditos bilionários do BNDES. Foi recebido quando quis pelo então presidente Lula e por sua sucessora, Dilma Rousseff. Era um eleito do poder, um dos poucos empresários escolhidos para ser vencedores no jogo do capitalismo estatal brasileiro. A reportagem de VEJA que explica as causas do desmoronamento do império de Eike Batista revela a série de erros cometidos pelo empresário e por seu parceiro nessa aventura, o governo brasileiro.
São enganos típicos dos momentos ingratos em que os governantes ignoram as leis de mercado e imaginam que podem impunemente controlar a economia, arbitrando taxas de juros, subsidiando combustíveis, escolhendo vencedoras entre as empresas. Ambos, Eike e o governo, estão agora pagando pelos erros. O empresário perdeu a confiança do mercado. O governo, a popularidade. Tanto sofrimento poderia ter sido evitado se houvesse prevalecido em Brasília esta antiga e límpida lição: “Os governos são péssimos em escolher vencedores, mas os perdedores são ótimos em escolher governos”.
A camisa do Feliciano - LUIZ FELIPE PONDÉ
FOLHA DE SP - 08/07
Sou conservador e sou contra o projeto da cura gay e a favor do casamento gay. Difícil?
Nesses tempos sombrios de crise, somos obrigados a falar muito e por isso sempre acabamos falando demais. Precisamos de mais clareza, mas, como dizem por aí, a democracia é o regime do barulho, e no barulho o mais fácil é gritar "palavras de ordem", muito mais fácil para temperamentos que gozam em assembleias. Não é o meu caso, (in)felizmente.
No dia 29 de junho, aconteceu em São Paulo a Marcha para Jesus. Nela, o conhecido pastor e deputado Feliciano usava uma camisa na qual estava escrito "eu represento vocês".
Claro, de primeira, entendemos que ele quer dizer que representa os evangélicos que ali estavam. Não tenho tanta certeza: tenho amigos e conhecidos que são evangélicos e estão muito longe do que Feliciano diz representar. Não podemos jogar todos os evangélicos no mesmo "saco".
Mas me interessa hoje outra coisa: ele diz ser representante dos conservadores no Brasil. O conceito é complexo e pouco afeito a espíritos que gostam de falar para multidões. Mas é urgente dizer que Feliciano não representa o pensamento conservador no Brasil. Vou dar um exemplo "clichê" em seguida. Antes, vamos esclarecer uma coisa.
A tradição "liberal-conservative", como se diz comumente em inglês, se caracteriza por uma sólida literatura quase desconhecida entre nós: David Hume (sua moral), Adam Smith, Edmund Burke, Alexis de Tocqueville, Friedrich Hayek, T.S. Eliot, Michael Oakeshott, Isaiah Berlin, Russell Kirk, Theodore Dalrymple, John Gray, Gertrude Himmelfarb, Thomas Sowell, Phyllis Schafler, Roger Scruton, entre outros.
Não é à toa que matérias como a da "Ilustrada" do domingo 30 de junho falam que a Flip (poderia ter falado de qualquer outra atividade intelectual no país) é de esquerda: quase ninguém conhece a bibliografia "liberal-conservative" entre nós, porque a esquerda mantém uma poderosa reserva de mercado na vida intelectual pública no país, inclusive tornando um inferno a vida na universidade para jovens interessados neste tipo de bibliografia.
Esta reserva de mercado intelectual e ideológica inviabiliza pesquisas e trabalhos mesmo em sala de aula. Isso faz dos jovens intelectuais interessados nessa tradição uns fantasmas invisíveis, verdadeiras almas penadas, sem corpo institucional para atuarem. Mesmos os centros financiados por bancos investem apenas na bibliografia de esquerda.
Como toda visão política, os conservadores são diferentes entre si e nem sempre convivem bem com seus pares, principalmente quando saímos do livro e vamos para política partidária. Imagine alguém de uma esquerda "islandesa" sendo obrigado a engolir Pol Pot em seu clube intelectual.
O pensamento "liberal-conservative" se caracteriza por defender a sociedade de livre mercado, a propriedade privada, a liberdade de expressão e religiosa, pluralismo moral, a democracia representativa com "corpos médios" locais atuantes, uma educação meritocrática, emancipação feminina, tributação alta para grandes heranças, desoneração da classe trabalhadora, profissionais liberais e pequenos e médios empresários, Estado mínimo necessário (inclusive porque isso diminui a corrupção), saúde eficaz para a população.
E, não esqueçamos: opção liberal quanto à vida moral, cada um faz o que quiser na vida privada contanto que respeite a lei, e esta deve levar em conta esta liberdade privada.
Simplesmente não existe opção partidária no Brasil para quem pensa dessa forma. Por exemplo, dizer que os conservadores queimam bandeiras do movimento negro é uma piada. Isso deve fazer Joaquim Nabuco tremer em seu túmulo, já que ele, conservador, foi um dos principais intelectuais e defensores da abolição da escravatura no Brasil.
E aí voltamos à camisa do Feliciano. Ele não representa os conservadores no Brasil, a começar porque é alguém que mistura religião com política.
Deixe-me esclarecer uma coisa (vou usar um tema "clichê"): sou conservador e sou contra o projeto da cura gay e a favor do casamento gay.
E aí, esquerda: vamos conversar? Vamos parar de se xingar e sentar numa távola redonda e discutir o Brasil?
Sou conservador e sou contra o projeto da cura gay e a favor do casamento gay. Difícil?
Nesses tempos sombrios de crise, somos obrigados a falar muito e por isso sempre acabamos falando demais. Precisamos de mais clareza, mas, como dizem por aí, a democracia é o regime do barulho, e no barulho o mais fácil é gritar "palavras de ordem", muito mais fácil para temperamentos que gozam em assembleias. Não é o meu caso, (in)felizmente.
No dia 29 de junho, aconteceu em São Paulo a Marcha para Jesus. Nela, o conhecido pastor e deputado Feliciano usava uma camisa na qual estava escrito "eu represento vocês".
Claro, de primeira, entendemos que ele quer dizer que representa os evangélicos que ali estavam. Não tenho tanta certeza: tenho amigos e conhecidos que são evangélicos e estão muito longe do que Feliciano diz representar. Não podemos jogar todos os evangélicos no mesmo "saco".
Mas me interessa hoje outra coisa: ele diz ser representante dos conservadores no Brasil. O conceito é complexo e pouco afeito a espíritos que gostam de falar para multidões. Mas é urgente dizer que Feliciano não representa o pensamento conservador no Brasil. Vou dar um exemplo "clichê" em seguida. Antes, vamos esclarecer uma coisa.
A tradição "liberal-conservative", como se diz comumente em inglês, se caracteriza por uma sólida literatura quase desconhecida entre nós: David Hume (sua moral), Adam Smith, Edmund Burke, Alexis de Tocqueville, Friedrich Hayek, T.S. Eliot, Michael Oakeshott, Isaiah Berlin, Russell Kirk, Theodore Dalrymple, John Gray, Gertrude Himmelfarb, Thomas Sowell, Phyllis Schafler, Roger Scruton, entre outros.
Não é à toa que matérias como a da "Ilustrada" do domingo 30 de junho falam que a Flip (poderia ter falado de qualquer outra atividade intelectual no país) é de esquerda: quase ninguém conhece a bibliografia "liberal-conservative" entre nós, porque a esquerda mantém uma poderosa reserva de mercado na vida intelectual pública no país, inclusive tornando um inferno a vida na universidade para jovens interessados neste tipo de bibliografia.
Esta reserva de mercado intelectual e ideológica inviabiliza pesquisas e trabalhos mesmo em sala de aula. Isso faz dos jovens intelectuais interessados nessa tradição uns fantasmas invisíveis, verdadeiras almas penadas, sem corpo institucional para atuarem. Mesmos os centros financiados por bancos investem apenas na bibliografia de esquerda.
Como toda visão política, os conservadores são diferentes entre si e nem sempre convivem bem com seus pares, principalmente quando saímos do livro e vamos para política partidária. Imagine alguém de uma esquerda "islandesa" sendo obrigado a engolir Pol Pot em seu clube intelectual.
O pensamento "liberal-conservative" se caracteriza por defender a sociedade de livre mercado, a propriedade privada, a liberdade de expressão e religiosa, pluralismo moral, a democracia representativa com "corpos médios" locais atuantes, uma educação meritocrática, emancipação feminina, tributação alta para grandes heranças, desoneração da classe trabalhadora, profissionais liberais e pequenos e médios empresários, Estado mínimo necessário (inclusive porque isso diminui a corrupção), saúde eficaz para a população.
E, não esqueçamos: opção liberal quanto à vida moral, cada um faz o que quiser na vida privada contanto que respeite a lei, e esta deve levar em conta esta liberdade privada.
Simplesmente não existe opção partidária no Brasil para quem pensa dessa forma. Por exemplo, dizer que os conservadores queimam bandeiras do movimento negro é uma piada. Isso deve fazer Joaquim Nabuco tremer em seu túmulo, já que ele, conservador, foi um dos principais intelectuais e defensores da abolição da escravatura no Brasil.
E aí voltamos à camisa do Feliciano. Ele não representa os conservadores no Brasil, a começar porque é alguém que mistura religião com política.
Deixe-me esclarecer uma coisa (vou usar um tema "clichê"): sou conservador e sou contra o projeto da cura gay e a favor do casamento gay.
E aí, esquerda: vamos conversar? Vamos parar de se xingar e sentar numa távola redonda e discutir o Brasil?
Calma, gente - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 08/07
Católicos ortodoxos manifestaram a Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio, que são contra a presença de artistas, segundo eles, “mundanos” — Cássia Kiss, Murilo Rosa, Eriberto Leão, Toni Ramos, Ana Maria Braga... — na encenação da via-crúcis.
Já o diretor Ulysses Cruz acha que a turma “ajudará a chamar a atenção de ovelhas desgarradas, jovens alienados, vendo seus ídolos abraçando uma fé”. Eu apoio.
Todas as tribos
Paula Lavigne, empresária de Caetano e outros artistas do grupo “Procure saber”, que defende a fiscalização da gestão coletiva da música, rebate a acusação de que o movimento é excludente e elitista:
— O grupo sempre procurou conversar com pessoas de opinião diferente. Fernando Brant e Danilo Caymmi, por exemplo, estiveram na casa de Gil discutindo o tema. É claro que estamos sempre abertos.
Segue...
Ela diz que o movimento é amplo:
— Somos mais de 200 e estamos crescendo. Cabem todas as tribos, do samba ao rock, da MPB ao funk, do sertanejo ao rap.
Volta da guerra fria
Esta história do Evo Morales, cujo avião foi impedido de sobrevoar países da Europa por causa da suspeita de transportar o ex-agente americano Edward Snowden, lembra os tempos de Guerra Fria.
O avião de Fidel Castro, nas viagens entre Havana e Moscou, naquela época, fez, por vezes, uma volta ao mundo, até mesmo com escala nos Montes Urais, para evitar o espaço aéreo de alguns países “inimigos”.
No mais...
Este episódio mostra — a
exemplo do golpe militar no Egito — um retrocesso histórico. É pena.
Gois na Flip I
O escritor bósnio radicado nos EUA Aleksandar Hemon sentiu-se tapeado na festa. Trouxe chuteiras achando que no país do futebol a bola rolava todo dia.
Mas, em Paraty, não encontrou ninguém disposto a jogar uma pelada.
Gois na Flip II
Do diretor pernambucano Marcelo Gomes, de “Cinema, aspirinas e urubus”, depois de assistir às conversas de escritores na Flip:
— Isso aqui é muito mais denso, mais interessante. Perto da Flip, os festivais de cinema são um estupro.
Gois na Flip III
Míriam Leitão, a coleguinha querida, publicará seu primeiro romance em maio de 2014. “Magnífico” sairá pela Intrínseca.
Gois na Flip IV
A Flip de 2014 será em agosto por causa da Copa.
A turma sonha em levar para Paraty o jornalista Glenn Greenwald, que mora no Rio, autor do furo sobre o esquema de vigilância do governo Obama, e também Nate Silver, o blogueiro do “The New York Times”, gênio da estatística que acertou as eleições em 49 estados dos EUA. Até lá
Voz das ruas
A onda de protestos que agita o país parece influenciar a pacata Rua Soares, no Méier, Zona Norte do Rio.
Um morador, cansado de limpar os, digamos, torpedos caninos da frente de sua casa, colocou este cartaz num poste da rua (veja acima).
Tempos modernos
A “quadrilha” de São João do último ano do colégio Andrews, em Botafogo, no Rio, ontem, acabou com o padre beijando o noivo, e um grupo levantando um cartaz onde se lia: “Feliciano não nos representa!”
Aliás...
Semana passada, a frase campeã nas redes sociais foi esta: “Eu era queijo frescal. Depois do deputado Feliciano, fiquei curado.”
Faz sentido.
Carnaval 2014
A Acadêmicos do Grande Rio poderá arrecadar R$ 6.035.200, pela Lei Rouanet, para seu próximo desfile.
A tricolor, como se sabe, vai contar na Avenida a história de Maricá, RJ.
Já...
O Salgueiro, cujo enredo será “Gaia — A vida em nossas mãos”, foi autorizado a captar R$ 5.152.750.
Quem tem, tem medo
Teve um momento durante a luta em Las Vegas, em que o americano Chris Weidman venceu o nosso Anderson Silva, que Mike Tyson, na plateia, ficou de pé, empatando a visão de um brasileiro que estava atrás dele.
Mas o conterrâneo achou prudente não reclamar com o ex-pugilista. Vai que Tyson não gostasse...
Já o diretor Ulysses Cruz acha que a turma “ajudará a chamar a atenção de ovelhas desgarradas, jovens alienados, vendo seus ídolos abraçando uma fé”. Eu apoio.
Todas as tribos
Paula Lavigne, empresária de Caetano e outros artistas do grupo “Procure saber”, que defende a fiscalização da gestão coletiva da música, rebate a acusação de que o movimento é excludente e elitista:
— O grupo sempre procurou conversar com pessoas de opinião diferente. Fernando Brant e Danilo Caymmi, por exemplo, estiveram na casa de Gil discutindo o tema. É claro que estamos sempre abertos.
Segue...
Ela diz que o movimento é amplo:
— Somos mais de 200 e estamos crescendo. Cabem todas as tribos, do samba ao rock, da MPB ao funk, do sertanejo ao rap.
Volta da guerra fria
Esta história do Evo Morales, cujo avião foi impedido de sobrevoar países da Europa por causa da suspeita de transportar o ex-agente americano Edward Snowden, lembra os tempos de Guerra Fria.
O avião de Fidel Castro, nas viagens entre Havana e Moscou, naquela época, fez, por vezes, uma volta ao mundo, até mesmo com escala nos Montes Urais, para evitar o espaço aéreo de alguns países “inimigos”.
No mais...
Este episódio mostra — a
exemplo do golpe militar no Egito — um retrocesso histórico. É pena.
Gois na Flip I
O escritor bósnio radicado nos EUA Aleksandar Hemon sentiu-se tapeado na festa. Trouxe chuteiras achando que no país do futebol a bola rolava todo dia.
Mas, em Paraty, não encontrou ninguém disposto a jogar uma pelada.
Gois na Flip II
Do diretor pernambucano Marcelo Gomes, de “Cinema, aspirinas e urubus”, depois de assistir às conversas de escritores na Flip:
— Isso aqui é muito mais denso, mais interessante. Perto da Flip, os festivais de cinema são um estupro.
Gois na Flip III
Míriam Leitão, a coleguinha querida, publicará seu primeiro romance em maio de 2014. “Magnífico” sairá pela Intrínseca.
Gois na Flip IV
A Flip de 2014 será em agosto por causa da Copa.
A turma sonha em levar para Paraty o jornalista Glenn Greenwald, que mora no Rio, autor do furo sobre o esquema de vigilância do governo Obama, e também Nate Silver, o blogueiro do “The New York Times”, gênio da estatística que acertou as eleições em 49 estados dos EUA. Até lá
Voz das ruas
A onda de protestos que agita o país parece influenciar a pacata Rua Soares, no Méier, Zona Norte do Rio.
Um morador, cansado de limpar os, digamos, torpedos caninos da frente de sua casa, colocou este cartaz num poste da rua (veja acima).
Tempos modernos
A “quadrilha” de São João do último ano do colégio Andrews, em Botafogo, no Rio, ontem, acabou com o padre beijando o noivo, e um grupo levantando um cartaz onde se lia: “Feliciano não nos representa!”
Aliás...
Semana passada, a frase campeã nas redes sociais foi esta: “Eu era queijo frescal. Depois do deputado Feliciano, fiquei curado.”
Faz sentido.
Carnaval 2014
A Acadêmicos do Grande Rio poderá arrecadar R$ 6.035.200, pela Lei Rouanet, para seu próximo desfile.
A tricolor, como se sabe, vai contar na Avenida a história de Maricá, RJ.
Já...
O Salgueiro, cujo enredo será “Gaia — A vida em nossas mãos”, foi autorizado a captar R$ 5.152.750.
Quem tem, tem medo
Teve um momento durante a luta em Las Vegas, em que o americano Chris Weidman venceu o nosso Anderson Silva, que Mike Tyson, na plateia, ficou de pé, empatando a visão de um brasileiro que estava atrás dele.
Mas o conterrâneo achou prudente não reclamar com o ex-pugilista. Vai que Tyson não gostasse...
Quem não cala, consente - LÚCIA GUIMARÃES
O Estado de S.Paulo - 08/07
Dois episódios, em seguida ao desastre com o avião da Asiana em São Francisco, ilustram a redefinição do cidadão privado no século 21. Um passageiro exausto, mais de 5 horas depois de conseguir pular do avião em chamas, se queixou por telefone à rádio local de São Francisco que não o deixavam ir para casa. Segundo ele, autoridades no aeroporto tinham criado um curral de sobreviventes não feridos, 123 ao todo, os afastavam da mídia e diziam que eles tinham que "ser processados", o FBI estava para chegar. O próprio governo federal americano já tinha anunciado que não havia o menor indício de terrorismo na aterrissagem catastrófica do Boeing 777 com 307 pessoas a bordo. Ninguém pode entrar num avião com destino aos Estados Unidos sem fornecer data de nascimento, telefone de contato, informações que tornam o passageiro acessível, se é que a NSA, Agência de Segurança Nacional americana, já não está se divertindo com seus e-mails e telefonemas privados.
Por que, depois de passar pelo trauma de um grande acidente aéreo, um cidadão acusado de nada, a não ser de sobreviver, tem seus movimentos cerceados com tanta naturalidade? O âncora da CNN, ao vivo, perguntou timidamente a outro passageiro para confirmar que ele não tinha mesmo direito de ir para casa. A situação, pelo que conferi mais tarde, não foi questionada. O rebanho de sobreviventes ficou à disposição das autoridades.
Zapeando entre canais, logo ouvi a outra notícia ligada ao desastre aéreo. Sheryl Sandberg, a Chefe Operacional do Facebook, anunciou em sua página da dita rede social que estava vivinha da silva. Explicou que ela e seu grupo de amigos e parentes, cujos nomes foram citados, estavam com reserva no mal fadado voo 214 da Asiana mas trocaram de companhia em cima da hora para Sandberg usar suas milhas acumuladas na United. O que estes dois episódios têm em comum? Não falo da hipocrisia de uma mulher com salário anual de US$ 600 mil e dezenas de milhões em ações de sua companhia querer a nossa simpatia por procurar desconto em passagem aérea. Qualquer um sabe que, para a esmagadora maioria de passageiros de meios modestos, milhagem hoje rima com miragem, tal os obstáculos impostos pelas companhias aéreas.
Falo de como os dois episódios ilustram dois lados de uma moeda. Um passageiro que nada fez, além de se salvar de um acidente, não pode ficar calado e ir para casa. A mais poderosa mulher num cargo de COO não quer se calar sobre um momento privado.
É neste contexto que precisamos avaliar a temporada de escândalos sobre a vigilância da vida privada, não mais restritos às atividades da NSA, já que a França, em meio à falsa indignação de Hollande, teve Le Big Brother exposto pelo jornal Le Monde.
Pare e pense onde você estava, há 20 anos. Fazendo vestibular? Trabalhando num escritório? Jantando num restaurante? Tente voltar ao seu estado mental de então e imagine que, em cada uma dessas situações, um estranho se aproxima e lhe pergunta por que você foi rejeitado por uma namorada (cujo status online acaba de dar a dica), por que você não foi convidado para o casamento de seu irmão, por que foi despedido do emprego? Há 20 anos, o rubor da súbita exposição indesejada lhe subiria ao rosto. Hoje, esta exposição é iniciada por você. Mas o uso que podem fazer dela, agora e num futuro distante, escapa ao seu controle.
Sei que o meu desconforto é geracional porque fui criada para entender que a distinção entre o público e o privado, além de um direito civil a ser protegido, faz parte da boa educação. Minha mãe teria recebido o anúncio da Sheryl Sandberg não pelo prisma do hoje arruinado verbo compartilhar, mas sim como sinal de vulgaridade.
Você pode contestar o direito de um agente do governo de lhe interrogar sobre sua viagem à China sem um mandado judicial. Mas não esqueça que já contou tudo via Facebook, Twitter e Instagram.
Dois episódios, em seguida ao desastre com o avião da Asiana em São Francisco, ilustram a redefinição do cidadão privado no século 21. Um passageiro exausto, mais de 5 horas depois de conseguir pular do avião em chamas, se queixou por telefone à rádio local de São Francisco que não o deixavam ir para casa. Segundo ele, autoridades no aeroporto tinham criado um curral de sobreviventes não feridos, 123 ao todo, os afastavam da mídia e diziam que eles tinham que "ser processados", o FBI estava para chegar. O próprio governo federal americano já tinha anunciado que não havia o menor indício de terrorismo na aterrissagem catastrófica do Boeing 777 com 307 pessoas a bordo. Ninguém pode entrar num avião com destino aos Estados Unidos sem fornecer data de nascimento, telefone de contato, informações que tornam o passageiro acessível, se é que a NSA, Agência de Segurança Nacional americana, já não está se divertindo com seus e-mails e telefonemas privados.
Por que, depois de passar pelo trauma de um grande acidente aéreo, um cidadão acusado de nada, a não ser de sobreviver, tem seus movimentos cerceados com tanta naturalidade? O âncora da CNN, ao vivo, perguntou timidamente a outro passageiro para confirmar que ele não tinha mesmo direito de ir para casa. A situação, pelo que conferi mais tarde, não foi questionada. O rebanho de sobreviventes ficou à disposição das autoridades.
Zapeando entre canais, logo ouvi a outra notícia ligada ao desastre aéreo. Sheryl Sandberg, a Chefe Operacional do Facebook, anunciou em sua página da dita rede social que estava vivinha da silva. Explicou que ela e seu grupo de amigos e parentes, cujos nomes foram citados, estavam com reserva no mal fadado voo 214 da Asiana mas trocaram de companhia em cima da hora para Sandberg usar suas milhas acumuladas na United. O que estes dois episódios têm em comum? Não falo da hipocrisia de uma mulher com salário anual de US$ 600 mil e dezenas de milhões em ações de sua companhia querer a nossa simpatia por procurar desconto em passagem aérea. Qualquer um sabe que, para a esmagadora maioria de passageiros de meios modestos, milhagem hoje rima com miragem, tal os obstáculos impostos pelas companhias aéreas.
Falo de como os dois episódios ilustram dois lados de uma moeda. Um passageiro que nada fez, além de se salvar de um acidente, não pode ficar calado e ir para casa. A mais poderosa mulher num cargo de COO não quer se calar sobre um momento privado.
É neste contexto que precisamos avaliar a temporada de escândalos sobre a vigilância da vida privada, não mais restritos às atividades da NSA, já que a França, em meio à falsa indignação de Hollande, teve Le Big Brother exposto pelo jornal Le Monde.
Pare e pense onde você estava, há 20 anos. Fazendo vestibular? Trabalhando num escritório? Jantando num restaurante? Tente voltar ao seu estado mental de então e imagine que, em cada uma dessas situações, um estranho se aproxima e lhe pergunta por que você foi rejeitado por uma namorada (cujo status online acaba de dar a dica), por que você não foi convidado para o casamento de seu irmão, por que foi despedido do emprego? Há 20 anos, o rubor da súbita exposição indesejada lhe subiria ao rosto. Hoje, esta exposição é iniciada por você. Mas o uso que podem fazer dela, agora e num futuro distante, escapa ao seu controle.
Sei que o meu desconforto é geracional porque fui criada para entender que a distinção entre o público e o privado, além de um direito civil a ser protegido, faz parte da boa educação. Minha mãe teria recebido o anúncio da Sheryl Sandberg não pelo prisma do hoje arruinado verbo compartilhar, mas sim como sinal de vulgaridade.
Você pode contestar o direito de um agente do governo de lhe interrogar sobre sua viagem à China sem um mandado judicial. Mas não esqueça que já contou tudo via Facebook, Twitter e Instagram.
Uma primavera no outono? LOURDES SOLA
O ESTADO DE S. PAULO - 08/07
Os fatos são subversivos é o título de um dos últimos livros de Garton Ash, um dos mais lúcidos "historiadores do presente". "Os fatos são subversivos (...) porque subvertem os argumentos dos líderes democráticos eleitos tanto quanto dos ditadores (...) porque subvertem as mentiras, as meias-verdades e os mitos de todos aqueles de fala fácil." É à luz dessa reflexão (já citada neste espaço) que situo a irrupção de um movimento de massas apartidário, de escala nacional, cujo alcance surpreendeu a todos. Apesar da perplexidade, porém, tem sido percebido em retrospecto como "a crônica de uma revolta anunciada". Como caracterizá-lo? O que há de comum com outros movimentos similares e o que há de específico?
Uma das características surpreendentes é a força gravitacional de um movimento liderado por jovens de uma classe média diversificada, em que manifestantes das classes C e D marcharam junto aos das classes A e B. Em poucos dias, o que era uma reivindicação tópica adquiriu escala nacional, atraindo cidadãos urbanos não organizados em 360 cidades. Com isso a pauta de reivindicações ganhou em densidade, diversificou-se e converteu-se num alvo móvel. Um dos fatores de sucesso é seu caráter apartidário, graças ao uso intensivo dessa imagem como seu principal asset político.
Há fatores socioeconômicos, políticos e institucionais a registrar. Um deles é o impacto politicamente persuasivo das questões econômicas. A inflação traduz-se em erosão da confiança da sociedade no compromisso do governo com a estabilidade de preços. Há um regime - o de metas inflacionárias -, ou seja, um conjunto de normas estáveis, que foi deixando de pautar as decisões de governo. O que se reflete no fato de que o teto da meta aos poucos se converteu em piso. Nesse quadro, a explosão do custo dos alimentos e as pressões que exerce sobre o orçamento familiar da imensa maioria dos brasileiros traz à luz a distância entre intenções e resultados das políticas oficiais. Daí a relativa unanimidade em torno ao que está efetivamente em questão: a qualidade dos gastos públicos, condensada na demanda algo irônica por "escolas e hospitais padrão Fifa".
Há evidências de que a entrada das classes médias emergentes no cenário sociopolítico ocorre sob a égide da frustração, apesar dos baixos índices de desemprego. Sabem que pagam impostos, mas recorrem a sistemas privados de saúde e de ensino superior, que estão longe de oferecer os benefícios que as empresas relevantes vendem. Sabem que a carga impositiva é a maior da América Latina e entre os Brics. A valorização do transporte público é sintoma de uma dramática redução na tolerância com o modelo de crescimento inaugurado em 2006 e exacerbado depois de 2008. O que acabou por se esgotar, entenda-se, foi a eficácia dessa agenda econômica em termos político-eleitorais. Por conta de um processo cumulativo: os níveis de endividamento dos usuários do crédito fácil, concedido pelos bancos públicos, subvencionados pelo Tesouro; as evidências de que esse modelo responde aos lobbies da indústria automobilística; as redes minúsculas de metrô e o trânsito pesado nas grandes cidades. Serão esses os primeiros indícios de que as classes médias emergentes estão em via de desenvolver uma agenda pós-Lula (como sugere Elio Gaspari)? A pesquisar.
Outros fatores explicam a escala das manifestações e a recusa dos participantes a deixar-se pautar pela agenda dos partidos ditos populares. Ao contrário, é o movimento social que está pautando as respostas das elites governamentais, no Congresso e nos Executivos federal, estadual, municipal. A suspensão dos aumentos das tarifas, a derrubada da PEC 37, a proposta de tornar a corrupção crime hediondo são exemplos. Como explicar esse tipo de impacto? Minha hipótese é que ele reflete o reconhecimento implícito de uma crise de legitimação política combinada com a crise de representação. A resposta atabalhoada de extrair a fórceps uma reforma política mobilizando a sociedade via plebiscito é uma tentativa canhestra de desatar esse nó, inteiramente novo para governos que se querem populares.
O que há de comum com outros movimentos sociais similares e o que há de específico ao nosso? Todos têm caráter difuso e horizontal, ausência de uma liderança permanente, constituem maiorias que podem ser ocasionais, unidas em torno de uma ou várias causas, articulados pelas redes sociais. O que há de específico são quatro características distintivas: 1) Sua inesperada força gravitacional, su poder de arrastre, em bom castelhano; 2) desenvolve-se num marco democrático, por melhora dos gastos públicos e por uma democracia de melhor qualidade; 3) ocorre no quadro de dominância de um partido cujas imagem e tradição se ancoravam no "monopólio" de representação dos interesses populares; e 4) a julgar pelas respostas recentes das autoridades relevantes e do Congresso, cabe falar numa boa dose de responsiveness (embora canhestra) por parte das elites governamentais - uma característica ausente na Turquia e mesmo em democracias consolidadas.
Há, portanto, lugar para otimismo, pois refletem algumas das qualidades da nossa democracia. Uma delas é a multiplicidade de instituições que limitam os poderes das elites político-partidárias: a relativa autonomia do Sistema de Justiça; as instituições que produzem indicadores e prospecções tecnicamente competentes, divulgados por uma mídia razoavelmente competitiva. Em condições de abertura e de integração do País ao sistema e à sociedade globais, o Twitter e o Facebook atuam como correias de transmissão, de dupla via. Pelas quais as avaliações da mídia internacional, das agências de rating e de uma cultura política mais igualitária são filtradas e internalizadas; e, vice-versa, nossos déficits, meias-verdades e mitos são expostos globalmente.
Os fatos são subversivos é o título de um dos últimos livros de Garton Ash, um dos mais lúcidos "historiadores do presente". "Os fatos são subversivos (...) porque subvertem os argumentos dos líderes democráticos eleitos tanto quanto dos ditadores (...) porque subvertem as mentiras, as meias-verdades e os mitos de todos aqueles de fala fácil." É à luz dessa reflexão (já citada neste espaço) que situo a irrupção de um movimento de massas apartidário, de escala nacional, cujo alcance surpreendeu a todos. Apesar da perplexidade, porém, tem sido percebido em retrospecto como "a crônica de uma revolta anunciada". Como caracterizá-lo? O que há de comum com outros movimentos similares e o que há de específico?
Uma das características surpreendentes é a força gravitacional de um movimento liderado por jovens de uma classe média diversificada, em que manifestantes das classes C e D marcharam junto aos das classes A e B. Em poucos dias, o que era uma reivindicação tópica adquiriu escala nacional, atraindo cidadãos urbanos não organizados em 360 cidades. Com isso a pauta de reivindicações ganhou em densidade, diversificou-se e converteu-se num alvo móvel. Um dos fatores de sucesso é seu caráter apartidário, graças ao uso intensivo dessa imagem como seu principal asset político.
Há fatores socioeconômicos, políticos e institucionais a registrar. Um deles é o impacto politicamente persuasivo das questões econômicas. A inflação traduz-se em erosão da confiança da sociedade no compromisso do governo com a estabilidade de preços. Há um regime - o de metas inflacionárias -, ou seja, um conjunto de normas estáveis, que foi deixando de pautar as decisões de governo. O que se reflete no fato de que o teto da meta aos poucos se converteu em piso. Nesse quadro, a explosão do custo dos alimentos e as pressões que exerce sobre o orçamento familiar da imensa maioria dos brasileiros traz à luz a distância entre intenções e resultados das políticas oficiais. Daí a relativa unanimidade em torno ao que está efetivamente em questão: a qualidade dos gastos públicos, condensada na demanda algo irônica por "escolas e hospitais padrão Fifa".
Há evidências de que a entrada das classes médias emergentes no cenário sociopolítico ocorre sob a égide da frustração, apesar dos baixos índices de desemprego. Sabem que pagam impostos, mas recorrem a sistemas privados de saúde e de ensino superior, que estão longe de oferecer os benefícios que as empresas relevantes vendem. Sabem que a carga impositiva é a maior da América Latina e entre os Brics. A valorização do transporte público é sintoma de uma dramática redução na tolerância com o modelo de crescimento inaugurado em 2006 e exacerbado depois de 2008. O que acabou por se esgotar, entenda-se, foi a eficácia dessa agenda econômica em termos político-eleitorais. Por conta de um processo cumulativo: os níveis de endividamento dos usuários do crédito fácil, concedido pelos bancos públicos, subvencionados pelo Tesouro; as evidências de que esse modelo responde aos lobbies da indústria automobilística; as redes minúsculas de metrô e o trânsito pesado nas grandes cidades. Serão esses os primeiros indícios de que as classes médias emergentes estão em via de desenvolver uma agenda pós-Lula (como sugere Elio Gaspari)? A pesquisar.
Outros fatores explicam a escala das manifestações e a recusa dos participantes a deixar-se pautar pela agenda dos partidos ditos populares. Ao contrário, é o movimento social que está pautando as respostas das elites governamentais, no Congresso e nos Executivos federal, estadual, municipal. A suspensão dos aumentos das tarifas, a derrubada da PEC 37, a proposta de tornar a corrupção crime hediondo são exemplos. Como explicar esse tipo de impacto? Minha hipótese é que ele reflete o reconhecimento implícito de uma crise de legitimação política combinada com a crise de representação. A resposta atabalhoada de extrair a fórceps uma reforma política mobilizando a sociedade via plebiscito é uma tentativa canhestra de desatar esse nó, inteiramente novo para governos que se querem populares.
O que há de comum com outros movimentos sociais similares e o que há de específico ao nosso? Todos têm caráter difuso e horizontal, ausência de uma liderança permanente, constituem maiorias que podem ser ocasionais, unidas em torno de uma ou várias causas, articulados pelas redes sociais. O que há de específico são quatro características distintivas: 1) Sua inesperada força gravitacional, su poder de arrastre, em bom castelhano; 2) desenvolve-se num marco democrático, por melhora dos gastos públicos e por uma democracia de melhor qualidade; 3) ocorre no quadro de dominância de um partido cujas imagem e tradição se ancoravam no "monopólio" de representação dos interesses populares; e 4) a julgar pelas respostas recentes das autoridades relevantes e do Congresso, cabe falar numa boa dose de responsiveness (embora canhestra) por parte das elites governamentais - uma característica ausente na Turquia e mesmo em democracias consolidadas.
Há, portanto, lugar para otimismo, pois refletem algumas das qualidades da nossa democracia. Uma delas é a multiplicidade de instituições que limitam os poderes das elites político-partidárias: a relativa autonomia do Sistema de Justiça; as instituições que produzem indicadores e prospecções tecnicamente competentes, divulgados por uma mídia razoavelmente competitiva. Em condições de abertura e de integração do País ao sistema e à sociedade globais, o Twitter e o Facebook atuam como correias de transmissão, de dupla via. Pelas quais as avaliações da mídia internacional, das agências de rating e de uma cultura política mais igualitária são filtradas e internalizadas; e, vice-versa, nossos déficits, meias-verdades e mitos são expostos globalmente.
Ficou mais difícil - LUÍS EDUARDO ASSIS
ESTADÃO - 08/07
É sempre tentador, no rastro dos ensinamentos do materialismo histórico, atribuir rupturas políticas a crises econômicas. O problema é que esse modelo se encaixa com enorme dificuldade ao que ocorre hoje no Brasil.
A economia brasileira não está em crise, a inflação não escapou do controle e não existe ameaça imediata de recessão. Nem mesmo o economista mais infausto deixa de admitir que o PIB de 2013 crescerá mais que no ano passado. A taxa de desemprego aberto (5,8% em maio) é uma das mais baixas da história e causa inveja aos países ricos. A inflação mensal acumulada nos últimos 12 meses é alta (6,5%), mas nos últimos dez anos ela superou esse patamar nada menos que 32 vezes. O saldo líquido de contratações e demissões com carteira assinada aponta a criação de 533 mil novos empregos em 2013. O custo da cesta básica em São Paulo representava 50% do valor do salário mínimo em maio, a mesma proporção registrada para a média dos últimos cinco anos. O rendimento médio real das pessoas ocupadas em 2013 ficou em R$ 1.864,44 nos primeiros quatro meses de 2013, 5,5% maior que o rendimento médio de 2010, ano de forte crescimento do produto. A inadimplência das pessoas físicas vem caindo sistematicamente depois de ter alcançado 6% dos empréstimos em maio do ano passado. Devidamente torturados, portanto, os dados recentes da conjuntura confessam que não estamos diante de um quadro agudo de crise econômica.
Isso não significa que tudo vai bem. Desde 2011 estamos vivendo uma forte reversão de expectativas. O trem continua andando para a frente, mas a velocidade se reduziu drasticamente, forçando as pessoas a reagendarem seus compromissos. Quem imaginava trocar de carro em dois anos e comprar uma casa em cinco teve que mudar de ideia. Confirmada a estimativa de crescimento do produto para este ano (que é revista para baixo todos os dias) teremos um aumento do PIB nos três primeiros anos do governo Dilma de pouco mais de 6%, contra 7,5% de crescimento no último ano da gestão Lula e 43% na primeira década deste século. É muito pouco.
Estamos quase parando. Considerando o aumento da população, a evolução do produto per capita desde 2010 está em 1,2% ao ano. A esse ritmo de caracol, demoraremos algo como 60 anos para alcançar a renda per capita atual da Grécia, país que raramente é citado como modelo no imaginário brasileiro.
Como nutrir a confiança, se temos de esperar tanto para andar tão pouco? Como sonhar? Como manter a esperança de um andarilho perdido no deserto se o prêmio é uma fanta morna, sem gás? Tudo fica mais difícil quando não existe a convicção de que o futuro será melhor amanhã. Na falta de perspectivas melhores, a percepção das conquistas recentes rapidamente se esvanece. Isso é ressaltado pelo próprio mecanismo que engendrou a ascensão social que testemunhamos nos últimos anos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento real médio do brasileiro aumentou 24,5% entre 2004 e 2011. Não está mal, para quem marcava passo há décadas. Essa melhoria, no entanto, foi bastante desigual e varia inversamente ao nível de renda. Os 10% mais pobres viram seu rendimento aumentar 69% nesse período. Mas essa taxa decresce à medida que a faixa de renda aumenta. Para os 10% mais ricos, a evolução foi de apenas 14%. Em outras palavras, para as famílias que ascenderam na escala social a velocidade de crescimento diminui, o que pode alimentar, paradoxalmente, uma frustração de expectativas. Quanto mais se avança, menor é a velocidade da mudança e menos prazeroso o sabor das novas conquistas.
Nessas condições, o raio de manobra para mudanças significativas na economia ficou ainda mais restrito, já que teremos de conviver a partir de agora com agendas e prioridades conflitantes. Tudo ficou mais difícil. Nos últimos anos, quando a conjuntura internacional nos era favorável, a política econômica evoluiu aos rodopios, em trôpegos passos miúdos. Ao som do ronco colérico das ruas e sob a influência de um quadro internacional mais adverso, manobrar com sensatez as regras econômicas exigirá engenhosidade até agora não demonstrada pela equipe econômica. Nossa vida de cigarra chegou ao fim, ao mesmo tempo que as demandas sociais se dramatizam. Descartada a doce ilusão de que o governo pode dar um salto instantâneo de eficiência, melhorar a qualidade dos serviços públicos exige mais despesas, que pressionam o déficit, que empurra a inflação, já ameaçada pela desvalorização cambial. Empenhamos o futuro em proveito de benefícios de curto prazo, mas o futuro chegou. Isto é particularmente transparente na política de preços administrados. Vivemos em um país onde um litro de gasolina é 72% mais barato que um litro de água de coco, do que resultou a depauperação da Petrobrás e de sua capacidade de investimento, sem mencionar o impacto nefasto sobre a indústria do álcool. O mesmo vício parece agora assolar a tarifa dos serviços públicos, que pode ser congelada para aplacar a fúria dos usuários insatisfeitos. Isto representa um risco adicional aos leilões das novas concessões programadas para os próximos meses. Sem concessões, os investimentos não avançam e sem eles o País pode parar, talvez andar para trás. A crise política pode se agravar se a ela for sobreposta uma crise econômica, hoje inexistente.
É tempo de recompor as forças, escolher prioridades e recuperar a credibilidade em torno de uma agenda mínima que contemple o controle da inflação e a estabilidade de regras como condições para o crescimento duradouro. Do contrário, é melhor poupar nosso pessimismo agora. Podemos precisar muito dele mais adiante.
É sempre tentador, no rastro dos ensinamentos do materialismo histórico, atribuir rupturas políticas a crises econômicas. O problema é que esse modelo se encaixa com enorme dificuldade ao que ocorre hoje no Brasil.
A economia brasileira não está em crise, a inflação não escapou do controle e não existe ameaça imediata de recessão. Nem mesmo o economista mais infausto deixa de admitir que o PIB de 2013 crescerá mais que no ano passado. A taxa de desemprego aberto (5,8% em maio) é uma das mais baixas da história e causa inveja aos países ricos. A inflação mensal acumulada nos últimos 12 meses é alta (6,5%), mas nos últimos dez anos ela superou esse patamar nada menos que 32 vezes. O saldo líquido de contratações e demissões com carteira assinada aponta a criação de 533 mil novos empregos em 2013. O custo da cesta básica em São Paulo representava 50% do valor do salário mínimo em maio, a mesma proporção registrada para a média dos últimos cinco anos. O rendimento médio real das pessoas ocupadas em 2013 ficou em R$ 1.864,44 nos primeiros quatro meses de 2013, 5,5% maior que o rendimento médio de 2010, ano de forte crescimento do produto. A inadimplência das pessoas físicas vem caindo sistematicamente depois de ter alcançado 6% dos empréstimos em maio do ano passado. Devidamente torturados, portanto, os dados recentes da conjuntura confessam que não estamos diante de um quadro agudo de crise econômica.
Isso não significa que tudo vai bem. Desde 2011 estamos vivendo uma forte reversão de expectativas. O trem continua andando para a frente, mas a velocidade se reduziu drasticamente, forçando as pessoas a reagendarem seus compromissos. Quem imaginava trocar de carro em dois anos e comprar uma casa em cinco teve que mudar de ideia. Confirmada a estimativa de crescimento do produto para este ano (que é revista para baixo todos os dias) teremos um aumento do PIB nos três primeiros anos do governo Dilma de pouco mais de 6%, contra 7,5% de crescimento no último ano da gestão Lula e 43% na primeira década deste século. É muito pouco.
Estamos quase parando. Considerando o aumento da população, a evolução do produto per capita desde 2010 está em 1,2% ao ano. A esse ritmo de caracol, demoraremos algo como 60 anos para alcançar a renda per capita atual da Grécia, país que raramente é citado como modelo no imaginário brasileiro.
Como nutrir a confiança, se temos de esperar tanto para andar tão pouco? Como sonhar? Como manter a esperança de um andarilho perdido no deserto se o prêmio é uma fanta morna, sem gás? Tudo fica mais difícil quando não existe a convicção de que o futuro será melhor amanhã. Na falta de perspectivas melhores, a percepção das conquistas recentes rapidamente se esvanece. Isso é ressaltado pelo próprio mecanismo que engendrou a ascensão social que testemunhamos nos últimos anos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento real médio do brasileiro aumentou 24,5% entre 2004 e 2011. Não está mal, para quem marcava passo há décadas. Essa melhoria, no entanto, foi bastante desigual e varia inversamente ao nível de renda. Os 10% mais pobres viram seu rendimento aumentar 69% nesse período. Mas essa taxa decresce à medida que a faixa de renda aumenta. Para os 10% mais ricos, a evolução foi de apenas 14%. Em outras palavras, para as famílias que ascenderam na escala social a velocidade de crescimento diminui, o que pode alimentar, paradoxalmente, uma frustração de expectativas. Quanto mais se avança, menor é a velocidade da mudança e menos prazeroso o sabor das novas conquistas.
Nessas condições, o raio de manobra para mudanças significativas na economia ficou ainda mais restrito, já que teremos de conviver a partir de agora com agendas e prioridades conflitantes. Tudo ficou mais difícil. Nos últimos anos, quando a conjuntura internacional nos era favorável, a política econômica evoluiu aos rodopios, em trôpegos passos miúdos. Ao som do ronco colérico das ruas e sob a influência de um quadro internacional mais adverso, manobrar com sensatez as regras econômicas exigirá engenhosidade até agora não demonstrada pela equipe econômica. Nossa vida de cigarra chegou ao fim, ao mesmo tempo que as demandas sociais se dramatizam. Descartada a doce ilusão de que o governo pode dar um salto instantâneo de eficiência, melhorar a qualidade dos serviços públicos exige mais despesas, que pressionam o déficit, que empurra a inflação, já ameaçada pela desvalorização cambial. Empenhamos o futuro em proveito de benefícios de curto prazo, mas o futuro chegou. Isto é particularmente transparente na política de preços administrados. Vivemos em um país onde um litro de gasolina é 72% mais barato que um litro de água de coco, do que resultou a depauperação da Petrobrás e de sua capacidade de investimento, sem mencionar o impacto nefasto sobre a indústria do álcool. O mesmo vício parece agora assolar a tarifa dos serviços públicos, que pode ser congelada para aplacar a fúria dos usuários insatisfeitos. Isto representa um risco adicional aos leilões das novas concessões programadas para os próximos meses. Sem concessões, os investimentos não avançam e sem eles o País pode parar, talvez andar para trás. A crise política pode se agravar se a ela for sobreposta uma crise econômica, hoje inexistente.
É tempo de recompor as forças, escolher prioridades e recuperar a credibilidade em torno de uma agenda mínima que contemple o controle da inflação e a estabilidade de regras como condições para o crescimento duradouro. Do contrário, é melhor poupar nosso pessimismo agora. Podemos precisar muito dele mais adiante.
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