O Estado de S.Paulo - 17/06
Balas de chumbo e borracha tomaram o lugar da política na resolução de conflitos entre o Estado e segmentos da sociedade no Brasil. Índios, manifestantes e jornalistas acabaram do lado errado dos canos das armas da polícia - enquanto autoridades se escudavam atrás de microfones na segurança de seus gabinetes.
A inapetência das lideranças políticas brasileiras não distingue partidos. Nem prefeito, nem governador, nem sequer um vereador deu a cara nas cenas de conflito para tentar mediar impasses. Passaram a responsabilidade para policiais. Deu no que deu.
Se os políticos profissionais se escalam para assistir jogo da seleção - e, quiçá, vaiar os colegas -, mas evitam as esquinas onde seus eleitores aspiram gás lacrimogêneo, cabe perguntar: eles servem a quem?
O apagão de lideranças no Brasil é mais contundente do que os cassetetes da PM paulista. Não é coincidência que o movimento que pretende parar as maiores cidades do país se declare "horizontal, autônomo, independente e apartidário". A ausência de um líder tradicional parece confundir políticos e policiais.
Um comandante da PM de Brasília reclamou da falta de interlocutor à altura de sua patente do outro lado - o lado dos manifestantes anti-Copa que ele dispersou a balas e bombas. Os políticos também parecem aturdidos com a falta de hierarquia dos manifestantes.
Não há "cabeças" com quem barganhar, a quem cooptar nem para cortar. Essa é, porém, a maior característica da pós-política. Organização em rede, voluntária, heterogênea e sem estrutura de comando. Só não confunda ausência de líderes com falta de liderança. É bagunça organizada. Começa no dia e hora marcados em locais previamente combinados.
No sumiço dos políticos, nota-se um cálculo marqueteiro: de qual lado ficar para mais faturar? O prefeito Fernando Haddad (PT) ainda está calculando. Já o governador Geraldo Alckmin (PSDB) achou que seria do lado da repressão. Tudo caminhava para ele se consagrar como quem pôs ordem na casa, até a crise tomar um atalho.
Na narrativa preponderante, a manifestação contra o aumento do ônibus/metrô começou como uma curiosidade, virou um estorvo, evoluiu para baderna e tinha tudo para acabar com a glória da repressão policial na quinta-feira passada. No palco escolhido, a esquina da Consolação com Maria Antonia, havia espaço suficiente para acomodar helicópteros de todas as emissoras de televisão.
Mas aí a sede de vingança da tropa falou mais alto - vingança pelo quase linchamento de um policial na manifestação anterior. O pelotão de choque começou a batalha atirando para onde estava virado. Bombardeou posto de gasolina, carro, idoso, apartamento.
Multidão dispersada, começou a caçada aleatória a transeuntes. Por azar, falta de mira ou intenção, os policias acertaram 15 jornalistas. A narrativa muda quando o narrador vira parte da história. De vítima, a polícia virou algoz. E Alckmin teve que ouvir lição de moral ao vivo num programa televisivo.
Não que o governador não possa sair dessa ainda mais favorito à reeleição. No interior paulista, quem não gasta quatro horas diárias para ir e voltar do trabalho em ônibus cada vez mais lotados talvez simpatize com sua posição a favor da ordem.
Já na capital, a pesquisa Datafolha, feita a quente, mostrou uma cidade dividida. "A molecada está certa", resumiu um passageiro. Ele explica os 55% de apoio às manifestações: se o serviço é ruim e só piora, aumento da passagem é tapa na cara do usuário. As depredações e os engarrafamentos engordam os 40% que são contra.
Unanimidade, só a do vinagre. Sua posse, mesmo podendo levar à prisão, virou item de primeira necessidade.
É o único alívio contra a lacrimejante atmosfera paulistana. Vinagre é o novo tomate.
segunda-feira, junho 17, 2013
Apertem os cintos - VALDO CRUZ
FOLHA DE SP - 17/06
BRASÍLIA - Se a semana passada foi ruim para a presidente Dilma, com queda de popularidade, dólar em alta e vaias, esta pode reservar notícias piores na economia.
Amanhã e depois, o FED (banco central americano) pode fazer a tensão no mercado cambial subir ainda mais. Seu presidente, Ben Bernanke, dirá se e quando vai retirar os estímulos à economia americana.
Dependendo do que ele falar, vai aumentar a revoada de dólares dos países emergentes, Brasil incluído, para os Estados Unidos. Aí está o maior risco para a presidente.
Hoje, apesar da piora nos números da economia brasileira, explorada pela oposição, a petista tem razão em dizer que o Brasil não está uma tragédia, vai até, de certa forma, bem. O suficiente para mantê-la bem na foto. Por enquanto.
Afinal, o próprio governo reconhece que, como mostrou a última pesquisa Datafolha, a inflação é um dado-chave para Dilma se manter favorita na eleição presidencial.
Neste momento, quando a equipe econômica aposta no seu recuo, um dólar mais valorizado irá exercer pressão de alta sobre os preços e jogar contra o Planalto. Aí, o Banco Central terá de subir os juros bem mais do que o previsto.
Poderia até não pegar tão pesado, mas dependeria de uma mãozinha do Ministério da Fazenda, com um aperto maior na política fiscal. Mas isso, pelo visto, não virá, além do já prometido: cumprir um superávit primário de 2,3% do PIB.
O fato é que o governo segue, neste momento, confiante no seu receituário bastante desbalanceado. BC subindo juros sem grande ajuda na área fiscal. Planalto lançando programas para elevar o crédito quando o BC tenta contê-lo. É um para cá e outro bem para lá.
Enfim, as previsões indicam riscos de turbulências no ar. Recomenda-se apertar os cintos. Caso contrário, as vaias vindas "da classe média alta" no estádio de Brasília podem se alastrar para outros setores.
BRASÍLIA - Se a semana passada foi ruim para a presidente Dilma, com queda de popularidade, dólar em alta e vaias, esta pode reservar notícias piores na economia.
Amanhã e depois, o FED (banco central americano) pode fazer a tensão no mercado cambial subir ainda mais. Seu presidente, Ben Bernanke, dirá se e quando vai retirar os estímulos à economia americana.
Dependendo do que ele falar, vai aumentar a revoada de dólares dos países emergentes, Brasil incluído, para os Estados Unidos. Aí está o maior risco para a presidente.
Hoje, apesar da piora nos números da economia brasileira, explorada pela oposição, a petista tem razão em dizer que o Brasil não está uma tragédia, vai até, de certa forma, bem. O suficiente para mantê-la bem na foto. Por enquanto.
Afinal, o próprio governo reconhece que, como mostrou a última pesquisa Datafolha, a inflação é um dado-chave para Dilma se manter favorita na eleição presidencial.
Neste momento, quando a equipe econômica aposta no seu recuo, um dólar mais valorizado irá exercer pressão de alta sobre os preços e jogar contra o Planalto. Aí, o Banco Central terá de subir os juros bem mais do que o previsto.
Poderia até não pegar tão pesado, mas dependeria de uma mãozinha do Ministério da Fazenda, com um aperto maior na política fiscal. Mas isso, pelo visto, não virá, além do já prometido: cumprir um superávit primário de 2,3% do PIB.
O fato é que o governo segue, neste momento, confiante no seu receituário bastante desbalanceado. BC subindo juros sem grande ajuda na área fiscal. Planalto lançando programas para elevar o crédito quando o BC tenta contê-lo. É um para cá e outro bem para lá.
Enfim, as previsões indicam riscos de turbulências no ar. Recomenda-se apertar os cintos. Caso contrário, as vaias vindas "da classe média alta" no estádio de Brasília podem se alastrar para outros setores.
Mais impostos, não! - DENIS LERRER ROSENFIELD
O ESTADÃO - 17/06
A criatividade de nossos legisladores e, no caso, de nossos prefeitos parece não ter limites. A sua engenhosidade é tal que partem para a criação de formas de tributações como se o interesse público se resumisse ao que é melhor para eles, e não para os consumidores deste país.
É sabido que a carga tributária já está acima do razoável, com os cidadãos sentindo na carne - e na mesa - os efeitos de impostos que oneram a renda familiar. Progressivamente, esses mesmos cidadãos começam a perceber que impostos e tributos são nada mais do que transferências de renda e de bens em geral. Na verdade, uma família, por exemplo, transfere parte dos seus bens para o Estado, em suas várias instâncias, da municipal à federal, passando pela estadual e pelas diferentes instâncias do Legislativo e do Judiciário.
Não deixa, pois, de causar espécie o Projeto de Lei do Senado (PLS) n.º 386, de 2012, complementar, do senador Romero Jucá, que dispõe sobre o Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS), de competência dos municípios e do Distrito Federal. Com efeito, ele dispõe sobre a tributação da "locação empresarial", incidindo, entre outros setores, sobre empresas familiares (que vivem de sua renda), escritórios comerciais, pontos comerciais de shopping centers, áreas residenciais alugadas a empresas, inquilinos residenciais que tenham como locadores pessoas jurídicas, entre outros. Trata-se de uma transformação do mercado de locação empresarial, com reflexos evidentes sobre os preços dos aluguéis pagos pelos inquilinos. Note-se que o aumento de impostos tende a ser repassado ao preço, com o locatário arcando com o seu ônus.
Na iniciativa desse PLS estão os secretários de Finanças das capitais e a Frente Nacional dos Prefeitos. Se, de um lado, é compreensível que os prefeitos procurem aumentar a sua receita, visto as obrigações que devem cumprir, de outro lado, é incompreensível que os contribuintes devam arcar com isso, e não mediante uma redistribuição entre os diferentes entes federativos.
Entre os motivos de elaboração do projeto, cumpre destacar que ele "visa a diminuir a dependência dos municípios em relação às transferências constitucionais, em especial o Fundo de Participação dos Municípios e as transferências relativas ao ICMS e ao IPVA". Ou seja, os municípios procuram uma maior independência financeira à custa de tornarem os cidadãos mais dependentes do Estado, devendo eles arcar com uma carga maior de seu funcionamento.
Em linguagem popular, o contribuinte deveria "pagar o pato" do fato de os prefeitos não conseguirem se entender com os Estados e a União. Um "terceiro", o cidadão, deveria arcar com a má distribuição dos entes federativos entre si. Parece ser mais fácil descarregar o problema sobre alguém que se encontra numa condição passiva, devendo apenas "aceitar" uma solução "legislativa". O bem de todos é lesado por uma suposta e bizarra noção de "bem público", isto é, o deles!
Observe-se que essa iniciativa "legislativa" se insere num contexto político de regulamentação e aplicação da Lei de Transparência dos Impostos, Lei n.º 12.741, obrigando as notas fiscais a discriminarem, nos preços, os impostos e serviços neles embutidos. A lei foi elaborada a partir de uma iniciativa louvável da Associação Comercial de São Paulo, que, com a utilização do seu "impostômetro", contribuiu decisivamente para que a sociedade paulista e brasileira se conscientizasse daquilo que paga ao Estado cotidianamente.
Ora, esse contexto é bem o de conscientização do peso da carga tributária na vida de cada um. O que é visado é uma redução de impostos e contribuições e melhor equacionamento e proporcionalidade entre o que os cidadãos pagam ao Estado e o que dele recebem em serviços como segurança, saúde, educação e saneamento, entre outros.
Forçoso é reconhecer que o Projeto de Lei n.º 386 se situa na contramão dessa tendência brasileira. Convém, ainda, salientar que sobre os dividendos oriundos da locação já incidem o Imposto de Renda, as cobranças de PIS e Confins, além de os inquilinos pagarem o IPTU. Seria mais uma tributação a se inserir nessa lista suficientemente pesada. Quem arca com esse peso? O inquilino e o cidadão em geral, sobre cujos ombros se ergue toda a estrutural estatal. É muito peso para pouco suporte!
Além desse impacto sociopolítico, há que se considerar o impacto econômico, pois as locações empresariais de bens imóveis fazem parte de uma longa cadeia produtiva, ela mesma geradora de impostos, emprego e investimentos crescentes. Novas moradias postas em aluguel, mercado de escritórios, ampliação e construção de shopping centers não são frutos do acaso, mas nascem da segurança jurídica e de condições propícias aos negócios. Certamente, tal ambiente não se coaduna com carga tributária crescente!
Na verdade, os municípios são os maiores beneficiários de novos investimentos. Quanto maior for o número de moradias postas em locação, quanto maior for o número de shopping centers, quanto maior for o número de escritórios oferecidos, quanto maior for o número de famílias que se organizarem empresarialmente para usufruírem dos seus imóveis, maiores serão os ganhos dos municípios.
Com essa nova forma aleatória de tributação municipal, os investimentos serão afetados, tanto do ponto de vista nacional quanto internacional. Fundos de pensão, fundos imobiliários, investidores em geral, construtoras nacionais, incorporadoras e desenvolvedores de shoppings terão impacto imediato em suas atividades e projeções.
Imaginem um ambiente de aumento do valor de locações de imóveis, residenciais e comerciais, e pontos comerciais em shopping centers. Produtos mais caros serão vendidos e os consumidores serão aqueles que deverão pagar mais por aquilo que pagavam menos há apenas algumas semanas.
A percepção de aumento de impostos, inevitavelmente, não será positiva para os administradores municipais.
A criatividade de nossos legisladores e, no caso, de nossos prefeitos parece não ter limites. A sua engenhosidade é tal que partem para a criação de formas de tributações como se o interesse público se resumisse ao que é melhor para eles, e não para os consumidores deste país.
É sabido que a carga tributária já está acima do razoável, com os cidadãos sentindo na carne - e na mesa - os efeitos de impostos que oneram a renda familiar. Progressivamente, esses mesmos cidadãos começam a perceber que impostos e tributos são nada mais do que transferências de renda e de bens em geral. Na verdade, uma família, por exemplo, transfere parte dos seus bens para o Estado, em suas várias instâncias, da municipal à federal, passando pela estadual e pelas diferentes instâncias do Legislativo e do Judiciário.
Não deixa, pois, de causar espécie o Projeto de Lei do Senado (PLS) n.º 386, de 2012, complementar, do senador Romero Jucá, que dispõe sobre o Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS), de competência dos municípios e do Distrito Federal. Com efeito, ele dispõe sobre a tributação da "locação empresarial", incidindo, entre outros setores, sobre empresas familiares (que vivem de sua renda), escritórios comerciais, pontos comerciais de shopping centers, áreas residenciais alugadas a empresas, inquilinos residenciais que tenham como locadores pessoas jurídicas, entre outros. Trata-se de uma transformação do mercado de locação empresarial, com reflexos evidentes sobre os preços dos aluguéis pagos pelos inquilinos. Note-se que o aumento de impostos tende a ser repassado ao preço, com o locatário arcando com o seu ônus.
Na iniciativa desse PLS estão os secretários de Finanças das capitais e a Frente Nacional dos Prefeitos. Se, de um lado, é compreensível que os prefeitos procurem aumentar a sua receita, visto as obrigações que devem cumprir, de outro lado, é incompreensível que os contribuintes devam arcar com isso, e não mediante uma redistribuição entre os diferentes entes federativos.
Entre os motivos de elaboração do projeto, cumpre destacar que ele "visa a diminuir a dependência dos municípios em relação às transferências constitucionais, em especial o Fundo de Participação dos Municípios e as transferências relativas ao ICMS e ao IPVA". Ou seja, os municípios procuram uma maior independência financeira à custa de tornarem os cidadãos mais dependentes do Estado, devendo eles arcar com uma carga maior de seu funcionamento.
Em linguagem popular, o contribuinte deveria "pagar o pato" do fato de os prefeitos não conseguirem se entender com os Estados e a União. Um "terceiro", o cidadão, deveria arcar com a má distribuição dos entes federativos entre si. Parece ser mais fácil descarregar o problema sobre alguém que se encontra numa condição passiva, devendo apenas "aceitar" uma solução "legislativa". O bem de todos é lesado por uma suposta e bizarra noção de "bem público", isto é, o deles!
Observe-se que essa iniciativa "legislativa" se insere num contexto político de regulamentação e aplicação da Lei de Transparência dos Impostos, Lei n.º 12.741, obrigando as notas fiscais a discriminarem, nos preços, os impostos e serviços neles embutidos. A lei foi elaborada a partir de uma iniciativa louvável da Associação Comercial de São Paulo, que, com a utilização do seu "impostômetro", contribuiu decisivamente para que a sociedade paulista e brasileira se conscientizasse daquilo que paga ao Estado cotidianamente.
Ora, esse contexto é bem o de conscientização do peso da carga tributária na vida de cada um. O que é visado é uma redução de impostos e contribuições e melhor equacionamento e proporcionalidade entre o que os cidadãos pagam ao Estado e o que dele recebem em serviços como segurança, saúde, educação e saneamento, entre outros.
Forçoso é reconhecer que o Projeto de Lei n.º 386 se situa na contramão dessa tendência brasileira. Convém, ainda, salientar que sobre os dividendos oriundos da locação já incidem o Imposto de Renda, as cobranças de PIS e Confins, além de os inquilinos pagarem o IPTU. Seria mais uma tributação a se inserir nessa lista suficientemente pesada. Quem arca com esse peso? O inquilino e o cidadão em geral, sobre cujos ombros se ergue toda a estrutural estatal. É muito peso para pouco suporte!
Além desse impacto sociopolítico, há que se considerar o impacto econômico, pois as locações empresariais de bens imóveis fazem parte de uma longa cadeia produtiva, ela mesma geradora de impostos, emprego e investimentos crescentes. Novas moradias postas em aluguel, mercado de escritórios, ampliação e construção de shopping centers não são frutos do acaso, mas nascem da segurança jurídica e de condições propícias aos negócios. Certamente, tal ambiente não se coaduna com carga tributária crescente!
Na verdade, os municípios são os maiores beneficiários de novos investimentos. Quanto maior for o número de moradias postas em locação, quanto maior for o número de shopping centers, quanto maior for o número de escritórios oferecidos, quanto maior for o número de famílias que se organizarem empresarialmente para usufruírem dos seus imóveis, maiores serão os ganhos dos municípios.
Com essa nova forma aleatória de tributação municipal, os investimentos serão afetados, tanto do ponto de vista nacional quanto internacional. Fundos de pensão, fundos imobiliários, investidores em geral, construtoras nacionais, incorporadoras e desenvolvedores de shoppings terão impacto imediato em suas atividades e projeções.
Imaginem um ambiente de aumento do valor de locações de imóveis, residenciais e comerciais, e pontos comerciais em shopping centers. Produtos mais caros serão vendidos e os consumidores serão aqueles que deverão pagar mais por aquilo que pagavam menos há apenas algumas semanas.
A percepção de aumento de impostos, inevitavelmente, não será positiva para os administradores municipais.
E Eles saíram do Facebook - RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 17/06
O que distingue a época em que eu corria dos PMs montados a cavalo nas ruas centrais do Recife desta, quando escrevo sobre os jovens vítimas da violência da PM de São Paulo, é que há 45 anos vivíamos sob o tacão da ditadura militar inaugurada em março de 1964 e só concluída formalmente em março de 1985. De resto, agora como antes, o que os jovens tentam fazer é somente política. E nada mais.
AQUELES OBRIGADOS a conviver com a ditadura eram chamados pelas autoridades de subversivos, comunistas e, mais tarde, terroristas. Assim também eram apresentados pela imprensa em geral.
Enfrentavam a repressão com paus e pedras e derrubavam cavalarianos com bolas de gude. Até dezembro de 1968 apenas apanhavam e eram presos por pouco tempo. Dali para a frente passaram a ser torturados e mortos.
MUITOS ERAM "filhos órfãos de pais vivos - quem sabe... Mortos, talvez... Órfãos do talvez e do quem sabe". Ou "viúvas de maridos vivos, talvez; ou mortos, quem sabe? Viúvas do quem sabe e do talvez", como denunciou o cearense Alencar Furtado, líder do PMDB na Câmara dos Deputados, em discurso que lhe custou o mandato, cassado em junho de 1977 pelo presidente-general Ernesto Geisel.
UM OBJETIVO unificava as diversas tendências e organizações que atraíam os jovens: a luta pela liberdade.
Quando a ditadura tirou a máscara e exibiu sua carranca medonha, os jovens se dividiram entre duas formas de combatê-la: pela via legal do prudente exercício cotidiano da política e pela via armada. Quando a ditadura chegou ao fim, os que ainda eram jovens foram terminar seus estudos e cuidar da vida.
O AMBIENTE ESTUDANTIL, as entidades juvenis que restaram e os partidos que passaram a atuar livremente depois da redemocratização do país foram incapazes de seduzir as gerações que sucederam àquelas sacrificadas ou brutalizadas pela ditadura de 64. Quem se encarregou de fazê-lo foi a sociedade de consumo com todas as suas formidáveis invenções.
Os jovens só se animaram a sair às ruas para derrubar Collor e eleger Lula.
AS REDES SOCIAIS começaram a funcionar como seu ponto de encontro e sua tribuna. O manifesto eletrônico tomou o lugar dos antigos abaixo-assinados.
Nunca se produziu tanto manifesto como nos últimos dez anos. Basta colar ali o nome previamente digitado e sair para a balada. Ainda é assim.
Talvez ainda seja assim por muito tempo. Talvez esteja deixando de ser assim. É cedo para saber.
E, no entanto...
NO PERÍODO de apenas uma semana, alguns milhares de jovens marcharam pelas ruas de uma dezena de cidades protestando contra o aumento das passagens de ônibus, os milionários gastos públicos com a Copa do Mundo e o Estatuto do Nascituro. O epicentro dos protestos foi a capital de São Paulo.
Ali, esta noite promete novos confrontos entre o novo e o velho, o aprendiz e o sabe-tudo.
POUCO IMPORTA que os jovens disparem suas exigências em todas as direções sem priorizar nenhuma, que careçam de líderes com os quais se possa dialogar e que acolham em seu meio uma minoria de baderneiros e de vândalos. Desde quando foi diferente no passado? Somente a experiência ensina.
E não há porque imaginar que os jovens de hoje não aprenderão.
POR MAIS LEGÍTIMO que seja, o poder existe para ser contestado. Senão for pode virar tirania. A natureza do poder é conservadora. A natureza da rebeldia é destrutiva. O progresso social e humanístico é filho do confronto entre a rebeldia e o poder.
AQUELES OBRIGADOS a conviver com a ditadura eram chamados pelas autoridades de subversivos, comunistas e, mais tarde, terroristas. Assim também eram apresentados pela imprensa em geral.
Enfrentavam a repressão com paus e pedras e derrubavam cavalarianos com bolas de gude. Até dezembro de 1968 apenas apanhavam e eram presos por pouco tempo. Dali para a frente passaram a ser torturados e mortos.
MUITOS ERAM "filhos órfãos de pais vivos - quem sabe... Mortos, talvez... Órfãos do talvez e do quem sabe". Ou "viúvas de maridos vivos, talvez; ou mortos, quem sabe? Viúvas do quem sabe e do talvez", como denunciou o cearense Alencar Furtado, líder do PMDB na Câmara dos Deputados, em discurso que lhe custou o mandato, cassado em junho de 1977 pelo presidente-general Ernesto Geisel.
UM OBJETIVO unificava as diversas tendências e organizações que atraíam os jovens: a luta pela liberdade.
Quando a ditadura tirou a máscara e exibiu sua carranca medonha, os jovens se dividiram entre duas formas de combatê-la: pela via legal do prudente exercício cotidiano da política e pela via armada. Quando a ditadura chegou ao fim, os que ainda eram jovens foram terminar seus estudos e cuidar da vida.
O AMBIENTE ESTUDANTIL, as entidades juvenis que restaram e os partidos que passaram a atuar livremente depois da redemocratização do país foram incapazes de seduzir as gerações que sucederam àquelas sacrificadas ou brutalizadas pela ditadura de 64. Quem se encarregou de fazê-lo foi a sociedade de consumo com todas as suas formidáveis invenções.
Os jovens só se animaram a sair às ruas para derrubar Collor e eleger Lula.
AS REDES SOCIAIS começaram a funcionar como seu ponto de encontro e sua tribuna. O manifesto eletrônico tomou o lugar dos antigos abaixo-assinados.
Nunca se produziu tanto manifesto como nos últimos dez anos. Basta colar ali o nome previamente digitado e sair para a balada. Ainda é assim.
Talvez ainda seja assim por muito tempo. Talvez esteja deixando de ser assim. É cedo para saber.
E, no entanto...
NO PERÍODO de apenas uma semana, alguns milhares de jovens marcharam pelas ruas de uma dezena de cidades protestando contra o aumento das passagens de ônibus, os milionários gastos públicos com a Copa do Mundo e o Estatuto do Nascituro. O epicentro dos protestos foi a capital de São Paulo.
Ali, esta noite promete novos confrontos entre o novo e o velho, o aprendiz e o sabe-tudo.
POUCO IMPORTA que os jovens disparem suas exigências em todas as direções sem priorizar nenhuma, que careçam de líderes com os quais se possa dialogar e que acolham em seu meio uma minoria de baderneiros e de vândalos. Desde quando foi diferente no passado? Somente a experiência ensina.
E não há porque imaginar que os jovens de hoje não aprenderão.
POR MAIS LEGÍTIMO que seja, o poder existe para ser contestado. Senão for pode virar tirania. A natureza do poder é conservadora. A natureza da rebeldia é destrutiva. O progresso social e humanístico é filho do confronto entre a rebeldia e o poder.
A pedra no lago - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 17/06
O problema da vaia não é o volume. É o despertar que provoca, fazendo com que várias notícias negativas para o governo sejam elencadas como motivos para aquele tipo de manifestação
Desde que virou candidata a presidente da República, foram poucas as vezes em que a presidente Dilma Rousseff esteve tão exposta quanto no último sábado, na abertura da Copa das Confederações. Até na campanha, onde estava muitas vezes acompanhada do presidente Lula, a liturgia do cargo do padrinho deixava Dilma longe do povo. Depois, já presidente, outras oportunidades, como nas ruas de Nova York, ela sempre foi aplaudida, elogiada, cercada de sorrisos, pedidos de autógrafos e fotografias. Agora, tem a certeza de que tudo está diferente. E, se o cenário não mudar, a campanha pela reeleição promete ser muito mais dura do que foi a vida de candidata e de presidente até aqui. Mas, nisso tudo, algo chama a atenção: a dificuldade de Dilma em criar para si própria uma personagem que faça "cara de paisagem" perante as adversidades.
O fato de o semblante presidencial não esconder o desconforto com as vaias destoa do que geralmente ocorre com os políticos. Em situações adversas, muitos deles fingem que não viram ou dão aquele minúsculo sorriso amarelo e seguem em frente, como se nada tivesse acontecido. Dilma, não. Ficou aborrecida e expressou isso no olhar, na fisionomia como um todo. Para alguns, esse comportamento pode soar como inapetência da presidente para o exercício da política. Para uma ampla maioria, entretanto, é algo positivo, porque mostra uma faceta mais humana, que as pessoas geralmente esquecem quando se trata de autoridades.
Os aliados da presidente fazem dessa faceta algo a ser destacado daqui para frente e garantem que ela costuma crescer quando exposta ou acuada. Foi assim, por exemplo, em maio de 2008. Dilma era ministra da Casa Civil de Lula e foi chamada ao Congresso para dar explicações a respeito de um dossiê sobre os gastos da Presidência da República nos tempos de Fernando Henrique Cardoso. O senador José Agripino tentou fazer ilações sobre as mentiras que Dilma teria contado aos militares nos tempos da ditadura e ela respondeu com firmeza. A reação ali faria da ministra de óculos fundo de garrafa a candidata de Lula dois anos depois.
E no tempo presente...
Dilma hoje não usa mais aqueles óculos e, também, não pode ser tão dura em suas reações. Daí, a incógnita sobre que tipo de reação a presidente terá. A do semblante no momento da vaia no estádio foi considerada positiva, porque, com já dissemos acima, demonstrou sensibilidade. O que a presidente não pode, garantem seus fiéis escudeiros, é deixar que isso seja confundido com fraqueza. Até aqui, Dilma passou a imagem de mulher forte, capaz de enfrentar situações difíceis. Não pode sair desse script, mas, ao mesmo tempo, precisa evitar uma reação raivosa. Por isso, têm razão os palacianos quando dizem que o momento é de monitorar.
Há no meio político, de um modo geral, a avaliação de que o problema da vaia não é o seu volume. É o despertar que ela provoca. Para atentos observadores do cenário nacional, é sabido que a maioria das pessoas não costuma olhar a política todos os dias. Naquele momento, no estádio, todas as atenções estavam concentradas. E é nessa hora que quem não se liga em política passa a perguntar para o colega ao lado na cadeira, ou no bar, por que a vaia ocorreu; o que está acontecendo que o sujeito até ali não sabia. E é aí que mora o perigo para Dilma e para o projeto reeleitoral do PT. Ao responder, o vizinho fala da inflação, o outro reclama da saúde, o terceiro diz que o problema é a segurança, um fulano cita o aumento no preço da passagem de ônibus. Tome notícia negativa passando de boca em boca. É como uma pedra atirada num lago calmo que vai criando marola. Se isso será apenas uma "marolinha", o futuro dirá. Mas, no momento, todo o cuidado é pouco e a oposição certamente vai tentar surfar nessas ondas. Faz parte do jogo.
E no Congresso...
Na Câmara e no Senado, os políticos dos partidos aliados prometem gastar horas comentando a vaia. A avaliação, entretanto, é a de que não têm muito como ajudar. Afinal, se não participam da formatação dos programas de governo e não faturam politicamente com seus resultados, a presidente que recorra agora àqueles que chamou para participar. Pelo visto, aquela ideia de que governo, quando começa a ter problemas, muitos querem distância, ganha novo fôlego. Se será assim mesmo, as novas pesquisas dirão.
O problema da vaia não é o volume. É o despertar que provoca, fazendo com que várias notícias negativas para o governo sejam elencadas como motivos para aquele tipo de manifestação
Desde que virou candidata a presidente da República, foram poucas as vezes em que a presidente Dilma Rousseff esteve tão exposta quanto no último sábado, na abertura da Copa das Confederações. Até na campanha, onde estava muitas vezes acompanhada do presidente Lula, a liturgia do cargo do padrinho deixava Dilma longe do povo. Depois, já presidente, outras oportunidades, como nas ruas de Nova York, ela sempre foi aplaudida, elogiada, cercada de sorrisos, pedidos de autógrafos e fotografias. Agora, tem a certeza de que tudo está diferente. E, se o cenário não mudar, a campanha pela reeleição promete ser muito mais dura do que foi a vida de candidata e de presidente até aqui. Mas, nisso tudo, algo chama a atenção: a dificuldade de Dilma em criar para si própria uma personagem que faça "cara de paisagem" perante as adversidades.
O fato de o semblante presidencial não esconder o desconforto com as vaias destoa do que geralmente ocorre com os políticos. Em situações adversas, muitos deles fingem que não viram ou dão aquele minúsculo sorriso amarelo e seguem em frente, como se nada tivesse acontecido. Dilma, não. Ficou aborrecida e expressou isso no olhar, na fisionomia como um todo. Para alguns, esse comportamento pode soar como inapetência da presidente para o exercício da política. Para uma ampla maioria, entretanto, é algo positivo, porque mostra uma faceta mais humana, que as pessoas geralmente esquecem quando se trata de autoridades.
Os aliados da presidente fazem dessa faceta algo a ser destacado daqui para frente e garantem que ela costuma crescer quando exposta ou acuada. Foi assim, por exemplo, em maio de 2008. Dilma era ministra da Casa Civil de Lula e foi chamada ao Congresso para dar explicações a respeito de um dossiê sobre os gastos da Presidência da República nos tempos de Fernando Henrique Cardoso. O senador José Agripino tentou fazer ilações sobre as mentiras que Dilma teria contado aos militares nos tempos da ditadura e ela respondeu com firmeza. A reação ali faria da ministra de óculos fundo de garrafa a candidata de Lula dois anos depois.
E no tempo presente...
Dilma hoje não usa mais aqueles óculos e, também, não pode ser tão dura em suas reações. Daí, a incógnita sobre que tipo de reação a presidente terá. A do semblante no momento da vaia no estádio foi considerada positiva, porque, com já dissemos acima, demonstrou sensibilidade. O que a presidente não pode, garantem seus fiéis escudeiros, é deixar que isso seja confundido com fraqueza. Até aqui, Dilma passou a imagem de mulher forte, capaz de enfrentar situações difíceis. Não pode sair desse script, mas, ao mesmo tempo, precisa evitar uma reação raivosa. Por isso, têm razão os palacianos quando dizem que o momento é de monitorar.
Há no meio político, de um modo geral, a avaliação de que o problema da vaia não é o seu volume. É o despertar que ela provoca. Para atentos observadores do cenário nacional, é sabido que a maioria das pessoas não costuma olhar a política todos os dias. Naquele momento, no estádio, todas as atenções estavam concentradas. E é nessa hora que quem não se liga em política passa a perguntar para o colega ao lado na cadeira, ou no bar, por que a vaia ocorreu; o que está acontecendo que o sujeito até ali não sabia. E é aí que mora o perigo para Dilma e para o projeto reeleitoral do PT. Ao responder, o vizinho fala da inflação, o outro reclama da saúde, o terceiro diz que o problema é a segurança, um fulano cita o aumento no preço da passagem de ônibus. Tome notícia negativa passando de boca em boca. É como uma pedra atirada num lago calmo que vai criando marola. Se isso será apenas uma "marolinha", o futuro dirá. Mas, no momento, todo o cuidado é pouco e a oposição certamente vai tentar surfar nessas ondas. Faz parte do jogo.
E no Congresso...
Na Câmara e no Senado, os políticos dos partidos aliados prometem gastar horas comentando a vaia. A avaliação, entretanto, é a de que não têm muito como ajudar. Afinal, se não participam da formatação dos programas de governo e não faturam politicamente com seus resultados, a presidente que recorra agora àqueles que chamou para participar. Pelo visto, aquela ideia de que governo, quando começa a ter problemas, muitos querem distância, ganha novo fôlego. Se será assim mesmo, as novas pesquisas dirão.
Os números da popularidade - PAULO BROSSARD
ZERO HORA - 17/08
O consórcio entre a presidente popular e um Ministério sem fisionomia, a despeito de ser sua criatura, parece ter chegado a seu termo
Decorrido mais de metade do mandato presidencial, aconteceu fenômeno que, na ausência da melhor conceituação, tento explicar como sendo uma espécie de corporificação de algo amorfo até ontem, à semelhança do estado gasoso que passa ao líquido e deste ao pastoso, a caminho da solidificação. Perdoe-me o leitor pela incerteza nas palavras, mas os fenômenos que se desdobram no âmbito da psicologia coletiva não são imunes ao caráter vago próprio das coisas que não se medem nem se pesam, dada a sua imaterialidade. A definição e o sentido da opinião pública é o que me parece estar ocorrendo em relação ao governo, personificado na pessoa da senhora presidente, cujos poderes ela exerce, auxiliada por colaboradores de sua escolha e confiança, o Ministério.
É sabido que, desde o início do atual governo, sua chefe contou com a simpatia do país. No entanto, enquanto desfrutava dessa situação favorável, seu governo vegetava, insosso; o contraste é manifesto; de resto, o Ministério é de sua escolha e dela dependente, pois com a mesma liberdade com que o compôs poderia dispensá-lo, sem sequer justificar a demissão, à sua exclusiva discrição. Nem a copiosa publicidade, principalmente pela TV, em pessoa conduzida pela própria presidente, não sei quantas vezes por dia, foi capaz de imprimir ao governo um fluxo de dinamismo ou um toque de salubridade; nascera indolente, continuava parado, lembrando peça de museu, situação tanto mais estranha quando o governo contava e conta com imensa maioria parlamentar, superior a 80% da casa.
Ora, um governo que tem o apoio de mais de 80% da representação popular pode fazer tudo, salvo fazer de um homem uma mulher e de uma mulher um homem, para repetir a frase célebre de De Lolme a propósito da Câmara dos Comuns. No entanto, o governo não tem sido capaz de converter em lei projeto por ele considerado necessário. Impõe-se considerar agora que são 39 os ministérios, se não for considerado o quadragésimo, exercido pelo marqueteiro oficial. Quais são as relações funcionais com esse conjunto de notabilidades que recebeu da presidente áreas importantes e complexas da administração? Eles têm acesso à presidente, como seria normal? Ao que sei, isso não ocorre. Resultado é que a "base de sustentação", como agora se denomina a maioria parlamentar, vem se revelando cansada, senão indiferente, ao governo. Ao meu sentir, isso resulta da partilha do governo em dezenas de fatias, distribuídas em ministérios e a partidos.
O consórcio entre a presidente popular e um Ministério sem fisionomia, a despeito de ser sua criatura, parece ter chegado a seu termo ou, pelo menos, com fissura perigosa, claramente mensurável, quando o prestígio da chefe do Governo vem de sofrer queda de oito pontos, entre os que consideravam ótimo ou bom seu governo. Era de 65%, mermou para 57%. Dir-se-á que, ainda assim, a presidente detém a maioria, fato que é inegável. Mas igualmente ninguém pode negar que a queda não foi despicienda, nem acidental. É fácil especular a respeito, mas é preferível aguardar o resultado da próxima ou próximas medições de popularidade para que essas possam ser mais cerebrais e menos emocionais. Por ora, pode-se dizer que a redução de oito pontos na popularidade foi mais do que significativa. De 65% para 57%.
Essas considerações não dispensam que se lembre que o PIB está praticamente estacionário, e isso não acontece por acaso. Daí resultam as preocupações de quem pensa a respeito do futuro próximo da nação e, quiçá, também do futuro.
O consórcio entre a presidente popular e um Ministério sem fisionomia, a despeito de ser sua criatura, parece ter chegado a seu termo
Decorrido mais de metade do mandato presidencial, aconteceu fenômeno que, na ausência da melhor conceituação, tento explicar como sendo uma espécie de corporificação de algo amorfo até ontem, à semelhança do estado gasoso que passa ao líquido e deste ao pastoso, a caminho da solidificação. Perdoe-me o leitor pela incerteza nas palavras, mas os fenômenos que se desdobram no âmbito da psicologia coletiva não são imunes ao caráter vago próprio das coisas que não se medem nem se pesam, dada a sua imaterialidade. A definição e o sentido da opinião pública é o que me parece estar ocorrendo em relação ao governo, personificado na pessoa da senhora presidente, cujos poderes ela exerce, auxiliada por colaboradores de sua escolha e confiança, o Ministério.
É sabido que, desde o início do atual governo, sua chefe contou com a simpatia do país. No entanto, enquanto desfrutava dessa situação favorável, seu governo vegetava, insosso; o contraste é manifesto; de resto, o Ministério é de sua escolha e dela dependente, pois com a mesma liberdade com que o compôs poderia dispensá-lo, sem sequer justificar a demissão, à sua exclusiva discrição. Nem a copiosa publicidade, principalmente pela TV, em pessoa conduzida pela própria presidente, não sei quantas vezes por dia, foi capaz de imprimir ao governo um fluxo de dinamismo ou um toque de salubridade; nascera indolente, continuava parado, lembrando peça de museu, situação tanto mais estranha quando o governo contava e conta com imensa maioria parlamentar, superior a 80% da casa.
Ora, um governo que tem o apoio de mais de 80% da representação popular pode fazer tudo, salvo fazer de um homem uma mulher e de uma mulher um homem, para repetir a frase célebre de De Lolme a propósito da Câmara dos Comuns. No entanto, o governo não tem sido capaz de converter em lei projeto por ele considerado necessário. Impõe-se considerar agora que são 39 os ministérios, se não for considerado o quadragésimo, exercido pelo marqueteiro oficial. Quais são as relações funcionais com esse conjunto de notabilidades que recebeu da presidente áreas importantes e complexas da administração? Eles têm acesso à presidente, como seria normal? Ao que sei, isso não ocorre. Resultado é que a "base de sustentação", como agora se denomina a maioria parlamentar, vem se revelando cansada, senão indiferente, ao governo. Ao meu sentir, isso resulta da partilha do governo em dezenas de fatias, distribuídas em ministérios e a partidos.
O consórcio entre a presidente popular e um Ministério sem fisionomia, a despeito de ser sua criatura, parece ter chegado a seu termo ou, pelo menos, com fissura perigosa, claramente mensurável, quando o prestígio da chefe do Governo vem de sofrer queda de oito pontos, entre os que consideravam ótimo ou bom seu governo. Era de 65%, mermou para 57%. Dir-se-á que, ainda assim, a presidente detém a maioria, fato que é inegável. Mas igualmente ninguém pode negar que a queda não foi despicienda, nem acidental. É fácil especular a respeito, mas é preferível aguardar o resultado da próxima ou próximas medições de popularidade para que essas possam ser mais cerebrais e menos emocionais. Por ora, pode-se dizer que a redução de oito pontos na popularidade foi mais do que significativa. De 65% para 57%.
Essas considerações não dispensam que se lembre que o PIB está praticamente estacionário, e isso não acontece por acaso. Daí resultam as preocupações de quem pensa a respeito do futuro próximo da nação e, quiçá, também do futuro.
Os velhos - AÉCIO NEVES
FOLHA DE SP - 17/06
Ao lembrar a figura do Velho do Restelo, personagem de Camões que simboliza o pessimismo diante dos novos tempos, a presidente Dilma Rousseff parece ter se esquecido da trajetória do próprio partido.
Quando a caravela do Plano Real estava pronta para zarpar, em 1994, o Velho do Restelo petista foi o primeiro a insistir: não vai dar certo. Assim também já havia acontecido com a Constituição de 1988, que o PT ameaçou não assinar.
Ou, ainda, quando expulsou dos seus quadros os deputados eleitores de Tancredo, desprezando o caminho mais curto para o reencontro do Brasil com a democracia.
Para decepção desse Velho do Restelo, o que deu errado foram suas previsões --a ditadura militar chegou ao seu fim, a Constituição inaugurou um novo tempo e o Plano Real trouxe estabilidade e prosperidade para o país. O Brasil pôde então singrar por mares nunca dantes navegados.
A queda da aprovação da presidente não deveria abalar o governo federal como o fez.
A chefe da nação precisa manter serenidade para encontrar um caminho consistente a fim de reverter o quadro de dificuldades que o país está enfrentando.
E, também, para enfrentar a perda de credibilidade internacional manifestada, agora, pela agência Standard & Poor's ao alertar para uma perspectiva negativa da economia brasileira.
Há um episódio exemplar que resume a facilidade com que governantes se entregam à avaliação rósea dos bajuladores. Dizem que, na época da ditadura, a dona do "Jornal do Brasil" compareceu a um almoço com o então presidente Costa e Silva. Ele teria se queixado da severidade dos editoriais em relação ao governo.
A interlocutora explicou que o veículo adotava uma postura de "crítica construtiva". "Agradeço, mas eu gosto mesmo é de elogio", teria dito Costa e Silva, em resposta que parece estranhamente atual.
A analogia literária do Velho do Restelo cedeu lugar à galhofa do ministro da Justiça, que comparou a oposição a um personagem de desenho animado de sucesso. Aquele que vive reclamando: "Ó céus, ó vida, ó azar, ó dia...".
A lembrança é boa porque, na verdade, o personagem combina com os próprios petistas, obrigados a receber quase todos os dias notícias ruins: o pibinho ("ó céus!"), a volta da inflação ("ó azar!"), o caos logístico ("ó dia!").
Tendo em vista o nervosismo e a intolerância manifestados pelo governo nos últimos tempos e a sua crescente tendência autoritária de desqualificar toda e qualquer crítica, não será surpresa se os mesmos que, irresponsavelmente, acusaram a oposição pelo episódio do Bolsa Família concluírem que foi a mesma oposição que arregimentou 70 mil torcedores para vaiar a presidente da República. Ó vida!
Ao lembrar a figura do Velho do Restelo, personagem de Camões que simboliza o pessimismo diante dos novos tempos, a presidente Dilma Rousseff parece ter se esquecido da trajetória do próprio partido.
Quando a caravela do Plano Real estava pronta para zarpar, em 1994, o Velho do Restelo petista foi o primeiro a insistir: não vai dar certo. Assim também já havia acontecido com a Constituição de 1988, que o PT ameaçou não assinar.
Ou, ainda, quando expulsou dos seus quadros os deputados eleitores de Tancredo, desprezando o caminho mais curto para o reencontro do Brasil com a democracia.
Para decepção desse Velho do Restelo, o que deu errado foram suas previsões --a ditadura militar chegou ao seu fim, a Constituição inaugurou um novo tempo e o Plano Real trouxe estabilidade e prosperidade para o país. O Brasil pôde então singrar por mares nunca dantes navegados.
A queda da aprovação da presidente não deveria abalar o governo federal como o fez.
A chefe da nação precisa manter serenidade para encontrar um caminho consistente a fim de reverter o quadro de dificuldades que o país está enfrentando.
E, também, para enfrentar a perda de credibilidade internacional manifestada, agora, pela agência Standard & Poor's ao alertar para uma perspectiva negativa da economia brasileira.
Há um episódio exemplar que resume a facilidade com que governantes se entregam à avaliação rósea dos bajuladores. Dizem que, na época da ditadura, a dona do "Jornal do Brasil" compareceu a um almoço com o então presidente Costa e Silva. Ele teria se queixado da severidade dos editoriais em relação ao governo.
A interlocutora explicou que o veículo adotava uma postura de "crítica construtiva". "Agradeço, mas eu gosto mesmo é de elogio", teria dito Costa e Silva, em resposta que parece estranhamente atual.
A analogia literária do Velho do Restelo cedeu lugar à galhofa do ministro da Justiça, que comparou a oposição a um personagem de desenho animado de sucesso. Aquele que vive reclamando: "Ó céus, ó vida, ó azar, ó dia...".
A lembrança é boa porque, na verdade, o personagem combina com os próprios petistas, obrigados a receber quase todos os dias notícias ruins: o pibinho ("ó céus!"), a volta da inflação ("ó azar!"), o caos logístico ("ó dia!").
Tendo em vista o nervosismo e a intolerância manifestados pelo governo nos últimos tempos e a sua crescente tendência autoritária de desqualificar toda e qualquer crítica, não será surpresa se os mesmos que, irresponsavelmente, acusaram a oposição pelo episódio do Bolsa Família concluírem que foi a mesma oposição que arregimentou 70 mil torcedores para vaiar a presidente da República. Ó vida!
O Poder ausente - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 17/06
Ao rejeitar as novas regras de distribuição do Fundo de Participação dos Estados (FPE) aprovadas pelo Senado, os deputados federais deram mais uma mostra da pouca conta que têm pela instituição a que pertencem.
Trata-se de uma questão que os congressistas deveriam ter resolvido até o fim do ano de 1991, mas, por comodismo ou por incapacidade de decidir sobre questões polêmicas envolvendo interesses dos Estados, continua sem solução. Depois de vários de seus dirigentes e líderes partidários terem criticado duramente decisões do Poder Judiciário que, a seu ver, interferiam em questões privativas do Legislativo, neste caso é o próprio Congresso que, por não tomar a tempo decisões de sua exclusiva competência, poderá se ver obrigado a pedir socorro ao Supremo Tribunal Federal (STF), para evitar o caos financeiro nos Estados.
Em 2010, ao julgar uma Ação Direta de Inconstitucionalidade proposta por governos de Estados que se sentiam prejudicados pela omissão dos parlamentares, o Supremo Tribunal Federal determinou que novas regras de distribuição dos recursos do Fundo de Participação dos Estados fossem aprovadas pelo Congresso até 31 de dezembro de 2012, para vigorarem a partir de 2013. No entanto, mesmo dispondo de mais de um ano e meio para decidir, os parlamentares nada fizeram.
No início do ano, para evitar a suspensão dos repasses dos recursos do Fundo de Participação dos Estados - formado por 21,5% da arrecadação do Imposto sobre Produtos Industrializados e do Imposto de Renda -, que forçaria a paralisação dos serviços públicos em alguns Estados e imporia dificuldades financeiras a todos, o STF concedeu novo prazo ao Congresso, que se esgota no dia 23 de junho. Embora um grupo de senadores ainda tente aprovar às pressas um novo projeto, é pouco provável que, em seguida, também a Câmara o faça antes de se esgotar o prazo concedido pelo STF.
"O que lamento é o Legislativo não ter cumprido o seu papel e não ter tomado uma decisão", disse o presidente da Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), após concluída a votação, a toque de caixa. Com 218 votos a favor e 115 contra, o projeto não alcançou o número mínimo de votos (257) exigido para sua aprovação, por se tratar de projeto de lei complementar.
Lamentável foi o comportamento das lideranças das principais bancadas da base governista, que não conseguiram convencer seus liderados a aprovar as novas regras, como era intenção do governo. Formalmente, a inexistência de novos critérios para a distribuição do dinheiro do FPE impede o governo federal de repassar esses recursos aos Estados.
Isso pode gerar o caos administrativo e financeiro em diversos Estados. Neste ano, prevê-se que os recursos do FPE somarão R$ 62 bilhões. Pelas regras atuais, 85% desse dinheiro é repassado para os Estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste e 15% para os do Sul e do Sudeste. Estados com renda per capita menor têm direito a fatias maiores do Fundo. Em alguns deles, o repasse do dinheiro do FPE representa mais de 70% do orçamento estadual.
O projeto rejeitado pela Câmara previa um período de transição até 2015, durante o qual seriam mantidos os critérios atuais. Em 2016 e 2017, seria assegurado a todos os Estados o recebimento de pelo menos o valor transferido até 2015, corrigido pela inflação e por metade do crescimento do PIB. O excedente, se houvesse, seria distribuído de maneira diretamente proporcional à população e inversamente proporcional à renda per capita.
Sem acordo entre representantes dos Estados mais pobres e dos considerados mais ricos, o projeto acabou sendo rejeitado.
Para os Estados, esse é o pior do mundos: uma regra ruim asseguraria o repasse dos recursos e poderia ser revista no futuro; a inexistência de regras impede a distribuição do FPE, a não ser que, mais uma vez, o STF abra prazo para o Congresso aprovar a nova forma de partilha.
"A Casa fica o tempo todo falando de judicialização e se 'autojudicializa' ao deixar decisões como essa para o Supremo", resumiu o líder do PT, deputado José Guimarães (CE).
Ao rejeitar as novas regras de distribuição do Fundo de Participação dos Estados (FPE) aprovadas pelo Senado, os deputados federais deram mais uma mostra da pouca conta que têm pela instituição a que pertencem.
Trata-se de uma questão que os congressistas deveriam ter resolvido até o fim do ano de 1991, mas, por comodismo ou por incapacidade de decidir sobre questões polêmicas envolvendo interesses dos Estados, continua sem solução. Depois de vários de seus dirigentes e líderes partidários terem criticado duramente decisões do Poder Judiciário que, a seu ver, interferiam em questões privativas do Legislativo, neste caso é o próprio Congresso que, por não tomar a tempo decisões de sua exclusiva competência, poderá se ver obrigado a pedir socorro ao Supremo Tribunal Federal (STF), para evitar o caos financeiro nos Estados.
Em 2010, ao julgar uma Ação Direta de Inconstitucionalidade proposta por governos de Estados que se sentiam prejudicados pela omissão dos parlamentares, o Supremo Tribunal Federal determinou que novas regras de distribuição dos recursos do Fundo de Participação dos Estados fossem aprovadas pelo Congresso até 31 de dezembro de 2012, para vigorarem a partir de 2013. No entanto, mesmo dispondo de mais de um ano e meio para decidir, os parlamentares nada fizeram.
No início do ano, para evitar a suspensão dos repasses dos recursos do Fundo de Participação dos Estados - formado por 21,5% da arrecadação do Imposto sobre Produtos Industrializados e do Imposto de Renda -, que forçaria a paralisação dos serviços públicos em alguns Estados e imporia dificuldades financeiras a todos, o STF concedeu novo prazo ao Congresso, que se esgota no dia 23 de junho. Embora um grupo de senadores ainda tente aprovar às pressas um novo projeto, é pouco provável que, em seguida, também a Câmara o faça antes de se esgotar o prazo concedido pelo STF.
"O que lamento é o Legislativo não ter cumprido o seu papel e não ter tomado uma decisão", disse o presidente da Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), após concluída a votação, a toque de caixa. Com 218 votos a favor e 115 contra, o projeto não alcançou o número mínimo de votos (257) exigido para sua aprovação, por se tratar de projeto de lei complementar.
Lamentável foi o comportamento das lideranças das principais bancadas da base governista, que não conseguiram convencer seus liderados a aprovar as novas regras, como era intenção do governo. Formalmente, a inexistência de novos critérios para a distribuição do dinheiro do FPE impede o governo federal de repassar esses recursos aos Estados.
Isso pode gerar o caos administrativo e financeiro em diversos Estados. Neste ano, prevê-se que os recursos do FPE somarão R$ 62 bilhões. Pelas regras atuais, 85% desse dinheiro é repassado para os Estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste e 15% para os do Sul e do Sudeste. Estados com renda per capita menor têm direito a fatias maiores do Fundo. Em alguns deles, o repasse do dinheiro do FPE representa mais de 70% do orçamento estadual.
O projeto rejeitado pela Câmara previa um período de transição até 2015, durante o qual seriam mantidos os critérios atuais. Em 2016 e 2017, seria assegurado a todos os Estados o recebimento de pelo menos o valor transferido até 2015, corrigido pela inflação e por metade do crescimento do PIB. O excedente, se houvesse, seria distribuído de maneira diretamente proporcional à população e inversamente proporcional à renda per capita.
Sem acordo entre representantes dos Estados mais pobres e dos considerados mais ricos, o projeto acabou sendo rejeitado.
Para os Estados, esse é o pior do mundos: uma regra ruim asseguraria o repasse dos recursos e poderia ser revista no futuro; a inexistência de regras impede a distribuição do FPE, a não ser que, mais uma vez, o STF abra prazo para o Congresso aprovar a nova forma de partilha.
"A Casa fica o tempo todo falando de judicialização e se 'autojudicializa' ao deixar decisões como essa para o Supremo", resumiu o líder do PT, deputado José Guimarães (CE).
Os tentáculos dos EUA - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 17/06
Novas revelações mostram que sistema de espionagem americano é maior do que se supunha e envolve a ajuda de empresas privadas
Não param de dilatar-se as dimensões conhecidas do sistema de espionagem de civis implantado pelo governo norte-americano.
Sabe-se agora que megaempresas operadoras de redes sociais e serviços de busca na internet ajudaram a criar ferramentas de transferência de quantidade enorme de informações privadas para órgãos como a NSA (Agência de Segurança Nacional, na sigla em inglês).
Ainda não ficou claro qual a extensão do programa para monitorar ligações telefônicas e as várias formas de comunicação pela rede. O envolvimento na trama de gigantes das telecomunicações e da informática, porém, ameaça minar a credibilidade não só do governo Barack Obama mas também dessas empresas privadas.
Preocupadas com eventuais prejuízos a suas imagens, muitas dessas companhias querem que o governo as autorize a publicar demandas feitas pelas agências de segurança --neste final de semana, algumas delas começaram a divulgar dados relativos aos pedidos.
O ex-técnico da CIA Edward Snowden declarou que o sistema de vigilância bisbilhotava computadores em Hong Kong e na China desde 2009, o que abre espaço para novas tensões entre a potência asiática e os Estados Unidos.
Considerado herói por uns e traidor por outros, Snowden está atualmente em Hong Kong, mas um diretor do FBI (polícia federal dos EUA) afirmou que fará de tudo para que o delator seja responsabilizado pelos vazamentos.
O governo americano reconheceu a existência do sistema Prism, que, amparado em autorização legal, permite acesso quase irrestrito ao que é trocado pela internet. Fez, contudo, firme defesa do programa, descrevendo-o como imprescindível no combate ao terrorismo.
Entre os americanos, 56% aceitam que a NSA vigie ligações telefônicas por meio de ordens judiciais secretas, segundo levantamento do Centro de Pesquisa Pew. É um sinal de que, para parcela significa da população, evitar outro 11 de Setembro é mais importante que o direito à privacidade pessoal.
Trata-se, entretanto, de falso dilema. É preciso que as agências de segurança --e não só as americanas-- priorizem métodos de investigação dentro de limites constitucionais, que não entrem em conflito com princípios democráticos.
A questão tampouco diz respeito apenas ao crédito que Obama ainda é capaz de amealhar. Estão em jogo a confiança da sociedade no governo e nas empresas com as quais transaciona, além da proteção das liberdades de expressão, associação e privacidade.
Tanto pior se a ruptura desse contrato parte de um país com a tradição democrática dos EUA.
Novas revelações mostram que sistema de espionagem americano é maior do que se supunha e envolve a ajuda de empresas privadas
Não param de dilatar-se as dimensões conhecidas do sistema de espionagem de civis implantado pelo governo norte-americano.
Sabe-se agora que megaempresas operadoras de redes sociais e serviços de busca na internet ajudaram a criar ferramentas de transferência de quantidade enorme de informações privadas para órgãos como a NSA (Agência de Segurança Nacional, na sigla em inglês).
Ainda não ficou claro qual a extensão do programa para monitorar ligações telefônicas e as várias formas de comunicação pela rede. O envolvimento na trama de gigantes das telecomunicações e da informática, porém, ameaça minar a credibilidade não só do governo Barack Obama mas também dessas empresas privadas.
Preocupadas com eventuais prejuízos a suas imagens, muitas dessas companhias querem que o governo as autorize a publicar demandas feitas pelas agências de segurança --neste final de semana, algumas delas começaram a divulgar dados relativos aos pedidos.
O ex-técnico da CIA Edward Snowden declarou que o sistema de vigilância bisbilhotava computadores em Hong Kong e na China desde 2009, o que abre espaço para novas tensões entre a potência asiática e os Estados Unidos.
Considerado herói por uns e traidor por outros, Snowden está atualmente em Hong Kong, mas um diretor do FBI (polícia federal dos EUA) afirmou que fará de tudo para que o delator seja responsabilizado pelos vazamentos.
O governo americano reconheceu a existência do sistema Prism, que, amparado em autorização legal, permite acesso quase irrestrito ao que é trocado pela internet. Fez, contudo, firme defesa do programa, descrevendo-o como imprescindível no combate ao terrorismo.
Entre os americanos, 56% aceitam que a NSA vigie ligações telefônicas por meio de ordens judiciais secretas, segundo levantamento do Centro de Pesquisa Pew. É um sinal de que, para parcela significa da população, evitar outro 11 de Setembro é mais importante que o direito à privacidade pessoal.
Trata-se, entretanto, de falso dilema. É preciso que as agências de segurança --e não só as americanas-- priorizem métodos de investigação dentro de limites constitucionais, que não entrem em conflito com princípios democráticos.
A questão tampouco diz respeito apenas ao crédito que Obama ainda é capaz de amealhar. Estão em jogo a confiança da sociedade no governo e nas empresas com as quais transaciona, além da proteção das liberdades de expressão, associação e privacidade.
Tanto pior se a ruptura desse contrato parte de um país com a tradição democrática dos EUA.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
Afastando-se de Gurgel, Duprat melhora chances
Procuradores desconfiam que não é “pra valer” o afastamento da colega Deborah Duprat do seu chefe e amigo Roberto Gurgel, a ponto de ter sido exonerada do cargo de nº 2 da Procuradoria Geral da República por sua posição divergente, no julgamento do projeto que fixa barreiras à criação de partidos. Duprat é a candidata de Gurgel à própria sucessão, por isso suas chances são consideradas modestas.
Eleitor queimado
Gurgel é detestado no Planalto, e o PT o acusa de parcialidade no caso do mensalão e de subestimar a Operação Vegas, da Policia Federal.
De novo na disputa
Afastando-se de Gurgel e ainda por suposta divergência, Deborah Dupra se credencia a ser escolhida por Dilma para substituí-lo.
Três opções
O mais votado da lista tríplice da associação dos procuradores foi o subprocurador-geral Rodrigo Janot, seguido de Duprat e Ela Wiecko.
Mineiro na PGR
O mais votado tem sido nomeado procurador-geral da República. Rodrigo Janot tem 56 anos, é mineiro e ingressou no MP em 1984.
TCU: governo paga caro demais por passagens
O Tribunal de Contas da União (TCU) decidiu suspender em março a Instrução Normativa nº 7, do Ministério do Planejamento, que definia o modelo de compra de passagens aéreas pelo governo. Durante sua vigência, o Ministério obrigava os órgãos públicos a comprar passagens com “tarifa cheia”, sem desconto, além de transferir o custo da taxa de agenciamento da companhia aérea para o órgão licitante.
Sem dó
Antes da Instrução nº 7, as agências de viagens negociavam o preço com as companhias aéreas e repassavam o desconto para o governo.
Amigo das cías
O Ministério do Planejamento, uma mãe, decidiu que o governo arca com as multas de cancelamento e remarcação de passagens.
Decisão inócua
O Ministério do Planejamento ignora a suspensão da IN n°7, mantendo em vigor todos os contratos assinados “até a decisão final do TCU”.
Padrão Zâmbia
A pancadaria da PM, em São Paulo e no Rio mostrou que o sistema de segurança pública para grandes eventos, no Brasil, está abaixo do padrão Zâmbia, onde a única regra é borrachada em quem protesta.
Maria Antonieta
Dieta não está nos planos da Presidência da República, que pretende gastar até R$ 67 mil na compra de pães variados para autoridades e visitas, até o final do ano. A lista inclui 8 mil brioches e minibrioches.
Mostrando serviço
Às vésperas da votação da PEC37, que tira do Ministério Público poder de investigação, o Conselho Nacional divulgará na quinta (20) estudo sobre os inquéritos recebidos pelo órgão em 2012, por tipo de crime.
Enquadrado
Em dobradinha com Eduardo Campos (PSB), Pedro Taques corre o risco de ser obrigado pelo PDT a sair da disputa ao governo de Mato Grosso para ceder lugar ao candidato de Dilma, Blairo Magi (PR).
Coisa feia...
Implacável, o serpentário do Itamaraty faz justiça com as próprias mãos: até nas redes sociais, “homenageia” o trabalho de um colega diplomata que serve em Portugal chamando-o de “Paulo Fezes”.
Oportunidades
O escritório de advocacia Piauhylino Monteiro levará embaixadores de do sudeste Asiático (Filipinas, Indonésia, Malásia, Singapura, Tailândia Vietnã etc), quinta (20), para identificar as potencialidades empresariais de Pernambuco. Serão recebidos pelo governador Eduardo Campos.
No PSD
O deputado Eduardo da Fonte (PP-PE) acha que o ministro Fernando Bezerra (Integração) já tem destino certo: “Tudo indica que o PSD de Kassab, que já pulou para o governo Dilma, é a melhor opção”.
Judicialização
O Planalto cogita entrar com ação de inconstitucionalidade caso seja aprovada proposta de orçamento impositivo no Congresso. O governo alegará que a execução do orçamento é atribuição do Poder Executivo.
Pensando bem...
...em vez de “passe livre,” a gurizada arruaceira recebeu “passe-preso”.
Poder sem pudor
Nada de discurso
O governador paraibano Ernane Sátyro tinha horror a discursos e resistia à tortura de um falatório. Certa vez, foi à posse solene de um sindicato porque prometeram que não havia discursos, mas, na hora agá, o presidente empossado sacou um calhamaço. Era o seu “improviso”. Num golpe rápido, Satyro tomou a papelada das mãos do sindicalista e despachou:
- Deixa que eu leio em casa.
E encerrou a solenidade.
Procuradores desconfiam que não é “pra valer” o afastamento da colega Deborah Duprat do seu chefe e amigo Roberto Gurgel, a ponto de ter sido exonerada do cargo de nº 2 da Procuradoria Geral da República por sua posição divergente, no julgamento do projeto que fixa barreiras à criação de partidos. Duprat é a candidata de Gurgel à própria sucessão, por isso suas chances são consideradas modestas.
Eleitor queimado
Gurgel é detestado no Planalto, e o PT o acusa de parcialidade no caso do mensalão e de subestimar a Operação Vegas, da Policia Federal.
De novo na disputa
Afastando-se de Gurgel e ainda por suposta divergência, Deborah Dupra se credencia a ser escolhida por Dilma para substituí-lo.
Três opções
O mais votado da lista tríplice da associação dos procuradores foi o subprocurador-geral Rodrigo Janot, seguido de Duprat e Ela Wiecko.
Mineiro na PGR
O mais votado tem sido nomeado procurador-geral da República. Rodrigo Janot tem 56 anos, é mineiro e ingressou no MP em 1984.
TCU: governo paga caro demais por passagens
O Tribunal de Contas da União (TCU) decidiu suspender em março a Instrução Normativa nº 7, do Ministério do Planejamento, que definia o modelo de compra de passagens aéreas pelo governo. Durante sua vigência, o Ministério obrigava os órgãos públicos a comprar passagens com “tarifa cheia”, sem desconto, além de transferir o custo da taxa de agenciamento da companhia aérea para o órgão licitante.
Sem dó
Antes da Instrução nº 7, as agências de viagens negociavam o preço com as companhias aéreas e repassavam o desconto para o governo.
Amigo das cías
O Ministério do Planejamento, uma mãe, decidiu que o governo arca com as multas de cancelamento e remarcação de passagens.
Decisão inócua
O Ministério do Planejamento ignora a suspensão da IN n°7, mantendo em vigor todos os contratos assinados “até a decisão final do TCU”.
Padrão Zâmbia
A pancadaria da PM, em São Paulo e no Rio mostrou que o sistema de segurança pública para grandes eventos, no Brasil, está abaixo do padrão Zâmbia, onde a única regra é borrachada em quem protesta.
Maria Antonieta
Dieta não está nos planos da Presidência da República, que pretende gastar até R$ 67 mil na compra de pães variados para autoridades e visitas, até o final do ano. A lista inclui 8 mil brioches e minibrioches.
Mostrando serviço
Às vésperas da votação da PEC37, que tira do Ministério Público poder de investigação, o Conselho Nacional divulgará na quinta (20) estudo sobre os inquéritos recebidos pelo órgão em 2012, por tipo de crime.
Enquadrado
Em dobradinha com Eduardo Campos (PSB), Pedro Taques corre o risco de ser obrigado pelo PDT a sair da disputa ao governo de Mato Grosso para ceder lugar ao candidato de Dilma, Blairo Magi (PR).
Coisa feia...
Implacável, o serpentário do Itamaraty faz justiça com as próprias mãos: até nas redes sociais, “homenageia” o trabalho de um colega diplomata que serve em Portugal chamando-o de “Paulo Fezes”.
Oportunidades
O escritório de advocacia Piauhylino Monteiro levará embaixadores de do sudeste Asiático (Filipinas, Indonésia, Malásia, Singapura, Tailândia Vietnã etc), quinta (20), para identificar as potencialidades empresariais de Pernambuco. Serão recebidos pelo governador Eduardo Campos.
No PSD
O deputado Eduardo da Fonte (PP-PE) acha que o ministro Fernando Bezerra (Integração) já tem destino certo: “Tudo indica que o PSD de Kassab, que já pulou para o governo Dilma, é a melhor opção”.
Judicialização
O Planalto cogita entrar com ação de inconstitucionalidade caso seja aprovada proposta de orçamento impositivo no Congresso. O governo alegará que a execução do orçamento é atribuição do Poder Executivo.
Pensando bem...
...em vez de “passe livre,” a gurizada arruaceira recebeu “passe-preso”.
Poder sem pudor
Nada de discurso
O governador paraibano Ernane Sátyro tinha horror a discursos e resistia à tortura de um falatório. Certa vez, foi à posse solene de um sindicato porque prometeram que não havia discursos, mas, na hora agá, o presidente empossado sacou um calhamaço. Era o seu “improviso”. Num golpe rápido, Satyro tomou a papelada das mãos do sindicalista e despachou:
- Deixa que eu leio em casa.
E encerrou a solenidade.
SEGUNDA NOS JORNAIS
- Globo: Maracanã renasce à italiana
- Folha: Governo de SP pede e terá reunião com manifestantes hoje
- Estadão: Protesto ganha apoio e governo descarta Choque
- Correio: Onda de protestos leva governos à negociação
- Estado de Minas: Tribunal suspende licitações de R$ 1,2 bi
- Jornal do Commercio: Entre o show e as críticas
- Zero Hora: Vaias à presidente – Planalto abafa; oposição vê sintoma de desgaste
- Brasil Econômico: “O que trava o país é a infraestrutura”
domingo, junho 16, 2013
Quando Dilma beijará a cruz? - EDITORIAL REVISTA ÉPOCA
REVISTA ÉPOCA
Já passou da hora de ela reavaliar os erros de sua gestão na economia
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu recentemente que já passou a hora de o petismo beijar a cruz. Era uma referência irônica à relutância dos governos do PT de fazer as concessões de aeroportos, ferrovias e estradas e portos à iniciativa privada. Na prática, apesar de abjurar a palavra, eles já adotaram a demonizada "privatização”. Mas o fazem com tantas reticências que o programa anda aos solavancos — com os de- correntes prejuízos para a modernização da precária infraestrutura nacional.
Da mesma forma, pode-se dizer que chegará uma hora em que a presidente Dilma Rousseff terá de beijar a cruz em relação aos erros de seu governo na gestão da economia. No discurso, ela ainda é reticente em admiti-los, como fez, na semana passada, ao comparar seus críticos ao Velho do Restelo. Era uma referência ao personagem de Os Lusíadas, de Luís de Camões, que agourava os navegadores portugueses de partida da costa lusitana para desbravar mares. Na prática, o governo Dilma já tem dado, ainda que relutantemente, passos atrás na política que adotou em seus dois primeiros anos. É uma política que desajustou a economia brasileira, elevou a inflação, sem aumentara taxa média de crescimento anual do PIB, a menor desde o governo Collor.
Ao respaldar a decisão do Banco Central (BC) de elevar a taxa de juros e deixar a taxa de câmbio flutuar mais livremente, o Palácio do Planalto reconhe tacitamente, a necessidade de uma correção de rumos. As duas medidas representam um recuo na intervenção política do governo no BC, para forçar os juros para baixo e o câmbio para o alto. Os economistas desenvolvimentistas instalados no Ministério da Fazenda acreditavam que tais medidas acelerariam o crescimento brasileiro, ao lado da abertura das comportas dos gastos públicos, por meio de estímulos para certos setores. Tal objetivo foi frustrado. A meia-volta do BC foi ditada pelo crescimento da insatisfação popular com a renitência da inflação (registrada na pesquisa Datafolha que mostrou uma queda de 8 pontos na aprovação à presidente Dilma) e pelas mudanças nas expectativas dos investidores internacionais que valorizam o dólar. Agora, o governo precisa conter seus gastos. Na semana passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, numa tentativa de recuperar a credibilidade perdida da política fiscal, anunciou uma meta de 2,3% do PIB de superavit nas contas públicas. Disse que, se necessário, fará cortes para cumpri-la.
Será crível? Mesmo os amigos do Planalto, como o ex-ministro Delfim Netto, não hesitam em criticar os economistas oficiais. Inspirados, segundo ele, num "keynesianismo de pé quebrado", eles acreditam que os financiamentos do Tesouro farão o PIB crescer. O discurso da austeridade fiscal também não é condizente com as medidas em série tomadas pela presidente Dilma para estimular o consumo. Na semana passada, ela lançou mais um programa de crédito subsidiado pelo Tesouro — destinado às famílias beneficiadas pelo Programa Minha Casa Minha Vida comprarem móveis e eletrodomésticos. Enquanto a reeleição estiver na mira prioritária do Planalto, o mais provável é que Dilma continue a se negar a beijar a cruz de um ajuste fiscal firme, a cada dia mais necessário para reequilibrar a economia brasileira.
Já passou da hora de ela reavaliar os erros de sua gestão na economia
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu recentemente que já passou a hora de o petismo beijar a cruz. Era uma referência irônica à relutância dos governos do PT de fazer as concessões de aeroportos, ferrovias e estradas e portos à iniciativa privada. Na prática, apesar de abjurar a palavra, eles já adotaram a demonizada "privatização”. Mas o fazem com tantas reticências que o programa anda aos solavancos — com os de- correntes prejuízos para a modernização da precária infraestrutura nacional.
Da mesma forma, pode-se dizer que chegará uma hora em que a presidente Dilma Rousseff terá de beijar a cruz em relação aos erros de seu governo na gestão da economia. No discurso, ela ainda é reticente em admiti-los, como fez, na semana passada, ao comparar seus críticos ao Velho do Restelo. Era uma referência ao personagem de Os Lusíadas, de Luís de Camões, que agourava os navegadores portugueses de partida da costa lusitana para desbravar mares. Na prática, o governo Dilma já tem dado, ainda que relutantemente, passos atrás na política que adotou em seus dois primeiros anos. É uma política que desajustou a economia brasileira, elevou a inflação, sem aumentara taxa média de crescimento anual do PIB, a menor desde o governo Collor.
Ao respaldar a decisão do Banco Central (BC) de elevar a taxa de juros e deixar a taxa de câmbio flutuar mais livremente, o Palácio do Planalto reconhe tacitamente, a necessidade de uma correção de rumos. As duas medidas representam um recuo na intervenção política do governo no BC, para forçar os juros para baixo e o câmbio para o alto. Os economistas desenvolvimentistas instalados no Ministério da Fazenda acreditavam que tais medidas acelerariam o crescimento brasileiro, ao lado da abertura das comportas dos gastos públicos, por meio de estímulos para certos setores. Tal objetivo foi frustrado. A meia-volta do BC foi ditada pelo crescimento da insatisfação popular com a renitência da inflação (registrada na pesquisa Datafolha que mostrou uma queda de 8 pontos na aprovação à presidente Dilma) e pelas mudanças nas expectativas dos investidores internacionais que valorizam o dólar. Agora, o governo precisa conter seus gastos. Na semana passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, numa tentativa de recuperar a credibilidade perdida da política fiscal, anunciou uma meta de 2,3% do PIB de superavit nas contas públicas. Disse que, se necessário, fará cortes para cumpri-la.
Será crível? Mesmo os amigos do Planalto, como o ex-ministro Delfim Netto, não hesitam em criticar os economistas oficiais. Inspirados, segundo ele, num "keynesianismo de pé quebrado", eles acreditam que os financiamentos do Tesouro farão o PIB crescer. O discurso da austeridade fiscal também não é condizente com as medidas em série tomadas pela presidente Dilma para estimular o consumo. Na semana passada, ela lançou mais um programa de crédito subsidiado pelo Tesouro — destinado às famílias beneficiadas pelo Programa Minha Casa Minha Vida comprarem móveis e eletrodomésticos. Enquanto a reeleição estiver na mira prioritária do Planalto, o mais provável é que Dilma continue a se negar a beijar a cruz de um ajuste fiscal firme, a cada dia mais necessário para reequilibrar a economia brasileira.
A mesa da cozinha - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 16/06
A mesa da cozinha é o local sagrado das conversas durante a madrugada, quando os irmãos chegam da balada com fissura por um gole de Coca-Cola e com histórias saindo pela boca: com quem ficaram ou não ficaram, o trajeto que fizeram para driblar a blitz, o preço da cerveja, e aí as amenidades evoluem para a filosofia, a necessidade de extrair da vida uma essência, a tentativa de escapar da insignificância, até que o dia começa a clarear e o cansaço avisa que é hora de ir para a cama.
Para alguns casais, a mesa da cozinha já serviu de cama, aliás.
A mesa da cozinha ouviu confissões de amigas que juraram guardar segredo, mas não conseguiram. O amante, a traição, a culpa, o nunca mais. A mesa escuta e não espalha, reconhece a inocência das fraquezas alheias e se sente honrada por ser confidente de tantas vidas.
A mesa da cozinha escutou o que os convidados não comentaram na sala, viu estranhos abrirem a geladeira atrás de algo mais substancial que canapés, suportou o peso de quem resolveu sentar sobre ela para fumar um cigarro antes de voltar para o burburinho da festa.
A mesa da cozinha já foi cenário de toda espécie de solidão.
Mas também de encontros. Viu o casal de namorados preparar, sem receita, seu primeiro salmão ao molho de manga, viu o menino nervoso abrir sua primeira garrafa de vinho para uma menina não menos nervosa, viu um beijo secreto entre primos, cuja família comemorava o Natal em torno da árvore, viu o marido se declarar para a esposa viciada em grifes ao surpreendê-la com um simples avental amarrado em torno da cintura.
A mesa da cozinha viu a mãe esquentar a primeira mamadeira às três da manhã, com cara de sono e felicidade. E o pai da criança, a caminho da área de serviço, segurando uma fralda suja com expressão de nojo, mas também de orgulho.
A mesa da cozinha viu a funcionária sentar no banquinho e, durante uma trégua entre um suflê e um pavê exigido pela patroa, acariciar sua primeira carteira de trabalho.
A mesa da cozinha viu o cachorro xeretar a lata de lixo e o gato lamber os restos que sobraram na louça do jantar. A mesa da cozinha viu a dona da casa tentar escrever um diário, coisas que ela sente e que não tem com quem dividir, a não ser com a luz amarelada do abajur.
A mesa da cozinha testemunhou lágrimas que foram secadas com o pano de prato. A mesa da cozinha possui manchas que contam histórias. A mesa da cozinha tem um pé frouxo que ninguém se lembra de aparafusar.
A mesa da cozinha já amparou carteados, velas acesas em dia de temporal, cinzeiros abarrotados, a roupa passada e dobrada antes de ir para as gavetas. A mesa da cozinha viu tudo.
A mesa da cozinha é o local sagrado das conversas durante a madrugada, quando os irmãos chegam da balada com fissura por um gole de Coca-Cola e com histórias saindo pela boca: com quem ficaram ou não ficaram, o trajeto que fizeram para driblar a blitz, o preço da cerveja, e aí as amenidades evoluem para a filosofia, a necessidade de extrair da vida uma essência, a tentativa de escapar da insignificância, até que o dia começa a clarear e o cansaço avisa que é hora de ir para a cama.
Para alguns casais, a mesa da cozinha já serviu de cama, aliás.
A mesa da cozinha ouviu confissões de amigas que juraram guardar segredo, mas não conseguiram. O amante, a traição, a culpa, o nunca mais. A mesa escuta e não espalha, reconhece a inocência das fraquezas alheias e se sente honrada por ser confidente de tantas vidas.
A mesa da cozinha escutou o que os convidados não comentaram na sala, viu estranhos abrirem a geladeira atrás de algo mais substancial que canapés, suportou o peso de quem resolveu sentar sobre ela para fumar um cigarro antes de voltar para o burburinho da festa.
A mesa da cozinha já foi cenário de toda espécie de solidão.
Mas também de encontros. Viu o casal de namorados preparar, sem receita, seu primeiro salmão ao molho de manga, viu o menino nervoso abrir sua primeira garrafa de vinho para uma menina não menos nervosa, viu um beijo secreto entre primos, cuja família comemorava o Natal em torno da árvore, viu o marido se declarar para a esposa viciada em grifes ao surpreendê-la com um simples avental amarrado em torno da cintura.
A mesa da cozinha viu a mãe esquentar a primeira mamadeira às três da manhã, com cara de sono e felicidade. E o pai da criança, a caminho da área de serviço, segurando uma fralda suja com expressão de nojo, mas também de orgulho.
A mesa da cozinha viu a funcionária sentar no banquinho e, durante uma trégua entre um suflê e um pavê exigido pela patroa, acariciar sua primeira carteira de trabalho.
A mesa da cozinha viu o cachorro xeretar a lata de lixo e o gato lamber os restos que sobraram na louça do jantar. A mesa da cozinha viu a dona da casa tentar escrever um diário, coisas que ela sente e que não tem com quem dividir, a não ser com a luz amarelada do abajur.
A mesa da cozinha testemunhou lágrimas que foram secadas com o pano de prato. A mesa da cozinha possui manchas que contam histórias. A mesa da cozinha tem um pé frouxo que ninguém se lembra de aparafusar.
A mesa da cozinha já amparou carteados, velas acesas em dia de temporal, cinzeiros abarrotados, a roupa passada e dobrada antes de ir para as gavetas. A mesa da cozinha viu tudo.
Duelo em terra e no ar - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 16/06
Os grupos vencedores do último leilão de privatização dos aeroportos devem ir à Justiça para mudar a regra que os impede de participar da próxima rodada, em outubro, que inclui Galeão e Confins.
O governo acha que a proibição desestimula a concentração e estimula a concorrência.
Segue...
Um dos prejudicados é a Invepar, que reúne a OAS e os fundos de pensão Previ, Petros e Funcef. O consórcio, para alegria do Tesouro, pagou R$ 16,2 bilhões por Guarulhos (um ágio de 373,5%).
Lula está bem
João de Deus, o médium que cuidou de Lula, disse a um amigo que o ex-presidente, ao contrário de boatos, não só está bem de saúde como está pronto para voltar ao governo.
É. Pode ser.
Varejo em baixa
O banco BTG, de André Esteves, dono das Lojas Leader, colocou seu sócio Michel Wurman para tentar reverter os resultados da rede de varejo, que não andam bem.
Pedra no sapato
A25ª Vara Cível do Rio determinou que a Calçados Ferrati retire em dez dias toda a publicidade em que aparece o ator Carlos Casagrande.
É que os anúncios continuaram mesmo depois do fim do contrato.
No mais
A UNE estava, em vida, à frente de todas as mobilizações estudantis nos últimos 70 anos, como os protestos contra aumento de passagens de bondes da Light e de ônibus, iguais às ocorridas estes dias.
Que Deus ilumine sua alma e que a UNE possa descansar em paz. Com todo o respeito.
Boa mesa do Papa
O Papa Francisco terá que resistir à tentação da gula na visita ao Hospital São Francisco, na Tijuca, durante a Jornada Mundial da Juventude. Sobretudo se estiver de dieta.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que esteve no hospital, sexta, inaugurando leitos de UTI, teve que encarar uma mesa cheia de deliciosos quitutes e uma explicação do frei Francisco Belotti, diretor do São Francisco.
O estilo franciscano...
Segundo o sacerdote, "se o senhor visitar os beneditinos, eles lhe mostrarão uma capela; se visitar os jesuítas, eles lhe mostrarão uma biblioteca; mas, se o senhor visitar os franciscanos, como nós, eles sempre lhe mostrarão uma cozinha".
Bom apetite.
Francisco de Roma
Leonardo Boff vai lançar em julho, às vésperas da chegada do Papa ao Brasil, o livro "Francisco de Assis e Francisco de Roma", pela Editora Mar de Ideias.
Nele, estão artigos que falam da simbologia por trás da escolha do Papa e dos rumos da Igreja.
Cara coleguinha
A gaúcha Adriana Calcanhotto vai falar na casa do Instituto Moreira Salles na Flip sobre seu conterrâneo e poeta Mario Quintana, dia 5 de julho.
Aliás, a casa vai homenagear este ano os 90 anos da Portela, com apresentações de Paulão 7 Cordas.
É grave a crise
Em função do fechamento do Engenhão, o Botafogo deve cortar a partir de amanhã o correspondente a 30% da folha de pagamento.
Este ano, com a interdição do estádio, o clube de Seedorf perdeu mais de R$ 30 milhões.
Mão grande
Uma sócia do Clube Piraquê, na Lagoa, foi furtada dentro do vestiário, na terça passada.
O larápio, espertinho, só tirou da bolsa da moça os produtos da MAC, grife chique de maquiagem. Os cremes chinfrins ficaram todos lá.
Caiu na rede
A 20ª Câmara Cível do Rio condenou o Google do Brasil a indenizar em R$ 100 mil, por danos morais, uma professora de matemática de Cabo Frio, na Região dos Lagos.
Ela alega que seu ex-companheiro criou um falso perfil e divulgou fotos em que eles apareciam fazendo sexo. A mulher pediu que a página fosse retirada do ar, mas o Google não tomou providências.
O prazer da fé
Um fiel procurou o Motel Corinto, em Vila Isabel, para hospedar mais de 50 peregrinos durante a Jornada Mundial da Juventude.
SANGRIA DESATADA
A função básica era, claro, fazer barba, cabelo e bigode. Mas os barbeiros, ou mestres barbeiros, como definiu o francês Debret nas andanças pelas ruas do Rio do século XIX, extrapolavam as funções primárias e viravam "sangradores". Acreditava-se na época que essas sangrias ajudariam a curar doenças.O historiador Rodrigo Aragão Dantas estuda o fenômeno na sua tese de doutorado na Casa de Oswaldo Cruz, na Fiocruz. Seu trabalho mostra como essas barbearias evoluíram até virarem os salões de beleza modernos. Ele descobriu,veja só, o primeiro caso de cabeleireiro gay do país.Márcia Vieira, da turma da coluna, trocou dois dedos de prosa com o historiador.
Quem eram os barbeiros sangradores? Eram negros ou descendentes de africanos. De 1844 até 1889, eram por volta de mil barbeiros.
As sangrias curavam o quê?
Segundo a medicina da época, era um recurso que permitia expurgar o mal pelo sangue. As doenças eram consideradas um desequilíbrio do corpo.E o equilíbrio poderia ser obtido tirando-se o mal pelo sangue ou usando remédios para provocar vômito.
Por que os portugueses se apossaram da tarefa?
Por causa da dinâmica da migração da cidade.Os escravos foram trabalhar nas lavouras de café.Os portugueses ocuparam, então, trabalhos manuais urbanos.A entrada deles deu outro aspecto ao ofício, com uma preocupação estética mais apurada, mais próxima dos salões de cabeleireiro de hoje.
Você encontrou histórias inusitadas da profissão?
A mais curiosa foi a da mulher de um barbeiro francês. No Arquivo Nacional, está o relato de Maria José da Silva, que notou, em 1884, que o marido andava meio indiferente. E descobriu que o motivo, como diz o texto, era "ter renascido nele o torpe vício afeminado de servir de mulher a indivíduos do seu sexo, retirando-se, portanto, de sob o teto conjugal".
Mas aí é outra história.
Lembrando por lembrar - FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SP - 16/06
Pouca gente sabe que foi graças à classe teatral que se realizou a famosa Passeata dos Cem Mil
Li outro dia uma matéria acerca da luta da intelectualidade contra a ditadura militar e, nela, não havia qualquer referência ao Grupo Opinião, que teve papel relevante nessa luta.
Não vejo qualquer má-fé nessa omissão, mesmo porque o entrevistado, por sua idade, não poderia ter participado daquela luta, iniciada no mesmo ano do golpe, isto é, em 1964.
É público e notório que o primeiro espetáculo a contestar o regime militar foi o show "Opinião", escrito por Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa.
O espetáculo estreou em novembro daquele ano, oito meses depois do golpe, num teatro de arena improvisado, no shopping center da rua Siqueira Campos, em Copacabana. Dele nasceu o Grupo Opinião, que marcaria a vida teatral brasileira daquele período, entre outras razões por sua postura política.
O papel político que esse grupo desempenhou teve uma razão: o Grupo Opinião foi o novo nome do Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE (União Nacional de Estudantes), entidade essencialmente política, extinta por isso mesmo pelo golpe.
Funcionava na sede da UNE, na praia do Flamengo, incendiada por lacerdistas no dia do golpe. Parte dos membros do CPC era militante do Partido Comunista, que dava assistência à entidade. Essa ligação com o PC foi mantida pelo Grupo Opinião.
O êxito de bilheteria do show "Opinião" contribuiu para prestigiar o novo grupo teatral. Nos primeiros meses da ditadura, a ação da censura voltava-se mais para a imprensa em geral e só se voltou efetivamente para o teatro após a proibição de "O Berço do Herói", de Dias Gomes.
A partir daí, a ação da censura foi se ampliando, o que exigia, de outro lado, a mobilização da classe teatral. Isso foi feito principalmente pelo Grupo Opinião, cujo teatro se tornou o local das reuniões e manifestações de protesto contra a censura.
Após o show "Opinião", o grupo apresentou o espetáculo "Liberdade, Liberdade", de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, que era também uma montagem de textos e músicas, só que, neste caso, os textos eram citações de pensadores e estadistas, desde Sócrates a Voltaire e George Washington. Era difícil censurar tais figuras e, por isso mesmo, o meio escolhido pela repressão foi tentar tumultuar o espetáculo, com capangas armados.
Como essa tentativa foi abortada, lançaram mão, algum tempo depois, de um recurso mais drástico: puseram uma bomba na bilheteria que quase destrói o teatro inteiro. Depois disso, o público, assustado, afastou-se dali, dando-se início à falência do grupo teatral.
Mas isso foi um pouco mais tarde. Até ali, a classe teatral, mobilizada, passou dos manifestos e reuniões em teatros a manifestações de rua, com a presença de atores e atrizes de grande prestígio e popularidade, o que intimidava os censores. Nem por isso, conforme o caso, deixavam de mandar os policiais dissolver essas manifestações e até mesmo prender os manifestantes. Prenderam Norma Bengell.
Pouca gente sabe, por exemplo, que foi graças à classe teatral, com o apoio de intelectuais estudantes, que se realizou a famosa Passeata dos Cem Mil. Grupo radicais, ligados à UNE clandestina, insistiam em arrastar os manifestantes para conflitos de rua com a polícia.
Já o nosso grupo pretendia realizar uma manifestação de caráter massivo com o apoio da Igreja Católica e outras organizações sociais, que se opunham ao regime. A participação dessas entidades já estava sendo articulada pelo Partido Comunista e a esquerda católica.
Discutia-se isso no teatro Glaucio Gill, onde se haviam reunido, além da classe teatral, intelectuais de diferentes áreas. A dificuldade para chegar a um consenso decorria do fato de que a direção da UNE, na clandestinidade, não participava das discussões.
A muito custo, conseguiu-se um contato telefônico com Vladimir Palmeira e discutiu-se com ele a proposta em questão. Ele concordou com a proposta e deu seu apoio para a realização da manifestação pacífica e massiva.
A partir daí, começaram todos a mobilizar gente de diferentes setores da sociedade, inclusive sindicatos de trabalhadores, do que resultou a primeira grande manifestação de massa contra o regime militar. Uma manifestação que ficou para a história.
Pouca gente sabe que foi graças à classe teatral que se realizou a famosa Passeata dos Cem Mil
Li outro dia uma matéria acerca da luta da intelectualidade contra a ditadura militar e, nela, não havia qualquer referência ao Grupo Opinião, que teve papel relevante nessa luta.
Não vejo qualquer má-fé nessa omissão, mesmo porque o entrevistado, por sua idade, não poderia ter participado daquela luta, iniciada no mesmo ano do golpe, isto é, em 1964.
É público e notório que o primeiro espetáculo a contestar o regime militar foi o show "Opinião", escrito por Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa.
O espetáculo estreou em novembro daquele ano, oito meses depois do golpe, num teatro de arena improvisado, no shopping center da rua Siqueira Campos, em Copacabana. Dele nasceu o Grupo Opinião, que marcaria a vida teatral brasileira daquele período, entre outras razões por sua postura política.
O papel político que esse grupo desempenhou teve uma razão: o Grupo Opinião foi o novo nome do Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE (União Nacional de Estudantes), entidade essencialmente política, extinta por isso mesmo pelo golpe.
Funcionava na sede da UNE, na praia do Flamengo, incendiada por lacerdistas no dia do golpe. Parte dos membros do CPC era militante do Partido Comunista, que dava assistência à entidade. Essa ligação com o PC foi mantida pelo Grupo Opinião.
O êxito de bilheteria do show "Opinião" contribuiu para prestigiar o novo grupo teatral. Nos primeiros meses da ditadura, a ação da censura voltava-se mais para a imprensa em geral e só se voltou efetivamente para o teatro após a proibição de "O Berço do Herói", de Dias Gomes.
A partir daí, a ação da censura foi se ampliando, o que exigia, de outro lado, a mobilização da classe teatral. Isso foi feito principalmente pelo Grupo Opinião, cujo teatro se tornou o local das reuniões e manifestações de protesto contra a censura.
Após o show "Opinião", o grupo apresentou o espetáculo "Liberdade, Liberdade", de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, que era também uma montagem de textos e músicas, só que, neste caso, os textos eram citações de pensadores e estadistas, desde Sócrates a Voltaire e George Washington. Era difícil censurar tais figuras e, por isso mesmo, o meio escolhido pela repressão foi tentar tumultuar o espetáculo, com capangas armados.
Como essa tentativa foi abortada, lançaram mão, algum tempo depois, de um recurso mais drástico: puseram uma bomba na bilheteria que quase destrói o teatro inteiro. Depois disso, o público, assustado, afastou-se dali, dando-se início à falência do grupo teatral.
Mas isso foi um pouco mais tarde. Até ali, a classe teatral, mobilizada, passou dos manifestos e reuniões em teatros a manifestações de rua, com a presença de atores e atrizes de grande prestígio e popularidade, o que intimidava os censores. Nem por isso, conforme o caso, deixavam de mandar os policiais dissolver essas manifestações e até mesmo prender os manifestantes. Prenderam Norma Bengell.
Pouca gente sabe, por exemplo, que foi graças à classe teatral, com o apoio de intelectuais estudantes, que se realizou a famosa Passeata dos Cem Mil. Grupo radicais, ligados à UNE clandestina, insistiam em arrastar os manifestantes para conflitos de rua com a polícia.
Já o nosso grupo pretendia realizar uma manifestação de caráter massivo com o apoio da Igreja Católica e outras organizações sociais, que se opunham ao regime. A participação dessas entidades já estava sendo articulada pelo Partido Comunista e a esquerda católica.
Discutia-se isso no teatro Glaucio Gill, onde se haviam reunido, além da classe teatral, intelectuais de diferentes áreas. A dificuldade para chegar a um consenso decorria do fato de que a direção da UNE, na clandestinidade, não participava das discussões.
A muito custo, conseguiu-se um contato telefônico com Vladimir Palmeira e discutiu-se com ele a proposta em questão. Ele concordou com a proposta e deu seu apoio para a realização da manifestação pacífica e massiva.
A partir daí, começaram todos a mobilizar gente de diferentes setores da sociedade, inclusive sindicatos de trabalhadores, do que resultou a primeira grande manifestação de massa contra o regime militar. Uma manifestação que ficou para a história.
Miséria cultural absoluta - BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR
GAZETA DO POVO - PR - 16/06
“Será ranzinzice minha ou a música brasileira empobreceu, abastardou-se, vulgarizou-se?”
“Nosso amor que eu não esqueço... e que teve seu começo em uma festa de São João... Morre hoje sem bilhete, sem recado e sem foguete, sem luar, sem violão” (Noel Rosa, Último Desejo).
“Nossa, nossa, assim você me mata... Delícia, delícia.”
“A porta do barraco era sem trinco e a lua furando nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão... Tu pisavas nos astros distraída, sem saber que a alegria desta vida é a cabrocha, o luar e o violão” (Silvio Caldas, Chão de Estrelas).
“Piri, pipiri, pipiri, piri piradinha... Ela tá maluca ela tá doidinha... Piri, pipiri, pipiri, piri piradinha, Ela tá doidona fora da casinha.”
“Palmas para a ala dos barões famintos, o bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do bulevar... Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar... A evolução da liberdade até o dia clarear” (Chico Buarque, Vai Passar).
“Eu quero tchu, eu quero tchá, eu quero tchu tchá tchá tchu tchu tchá tchá tchu tchu tchá.”
Será ranzinzice minha ou a música brasileira empobreceu, abastardou-se, vulgarizou-se? Repita, paciente leitor, a mesma pergunta com a poesia e a literatura e os resultados são igualmente melancólicos. Os grandes poetas do passado recente são Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Mario Quintana, Vinicius de Moraes, Thiago de Mello... Os grandes poetas brasileiros de agora são quem mesmo? E por aí afora. Um quase deserto, com as exceções de praxe como os nossos Cristovão Tezza na literatura e João Manoel Simões na poesia.
O Brasil, independentemente de posições ideológicas, teve grandes oradores parlamentares capazes de mobilizar as massas e moldar o pensamento das elites: Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, Leonel Brizola, Adauto Lucio Cardoso, Bento Munhoz da Rocha. Quais são os grandes oradores e líderes do parlamento brasileiro hoje?
Antes que se apele para o simplismo de achar que minha opinião seja um ressentimento da elite contra a cultura das “camadas populares”: Noel Rosa e Silvio Caldas não pertenciam à elite, Chico Buarque sim; Bento Munhoz da Rocha era do patriciado paranaense, Leonel Brizola era filho órfão de pai de uma trabalhadora. Trata-se, pura e simplesmente, de uma valorização sistemática do vulgar e do ordinário em detrimento da qualidade estéstica. Hoje em dia se lê pouco, se ouve mal e se escreve menos e se escreve mal. Infelizmente, isso é glorificado como sinal de uma sociedade moderna, midiática, imediatista e essencialmente de massa que não honra a língua portuguesa e, portanto, a despreza em favor do “falar popular” do “nós vai, nóis quer”, dos emoticons e das abreviaturas.
Parafraseando Vinicius de Moraes, que me perdoem os críticos, mas a beleza da língua é fundamental até para brigar com namorados e amantes. Que é mais bonito? Receber um fora do amado ou da amada como a Isaurinha Garcia, que “quando o carteiro chegou e meu nome gritou com sua carta na mão” descobriu que ele estava “farto” dela; ou um e-mail determinando “Fui. Delete meu nome do seu mailbox e me tire do seu Facebook. ass. Fulano (ou Fulana)”?
“Será ranzinzice minha ou a música brasileira empobreceu, abastardou-se, vulgarizou-se?”
“Nosso amor que eu não esqueço... e que teve seu começo em uma festa de São João... Morre hoje sem bilhete, sem recado e sem foguete, sem luar, sem violão” (Noel Rosa, Último Desejo).
“Nossa, nossa, assim você me mata... Delícia, delícia.”
“A porta do barraco era sem trinco e a lua furando nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão... Tu pisavas nos astros distraída, sem saber que a alegria desta vida é a cabrocha, o luar e o violão” (Silvio Caldas, Chão de Estrelas).
“Piri, pipiri, pipiri, piri piradinha... Ela tá maluca ela tá doidinha... Piri, pipiri, pipiri, piri piradinha, Ela tá doidona fora da casinha.”
“Palmas para a ala dos barões famintos, o bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do bulevar... Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar... A evolução da liberdade até o dia clarear” (Chico Buarque, Vai Passar).
“Eu quero tchu, eu quero tchá, eu quero tchu tchá tchá tchu tchu tchá tchá tchu tchu tchá.”
Será ranzinzice minha ou a música brasileira empobreceu, abastardou-se, vulgarizou-se? Repita, paciente leitor, a mesma pergunta com a poesia e a literatura e os resultados são igualmente melancólicos. Os grandes poetas do passado recente são Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Mario Quintana, Vinicius de Moraes, Thiago de Mello... Os grandes poetas brasileiros de agora são quem mesmo? E por aí afora. Um quase deserto, com as exceções de praxe como os nossos Cristovão Tezza na literatura e João Manoel Simões na poesia.
O Brasil, independentemente de posições ideológicas, teve grandes oradores parlamentares capazes de mobilizar as massas e moldar o pensamento das elites: Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, Leonel Brizola, Adauto Lucio Cardoso, Bento Munhoz da Rocha. Quais são os grandes oradores e líderes do parlamento brasileiro hoje?
Antes que se apele para o simplismo de achar que minha opinião seja um ressentimento da elite contra a cultura das “camadas populares”: Noel Rosa e Silvio Caldas não pertenciam à elite, Chico Buarque sim; Bento Munhoz da Rocha era do patriciado paranaense, Leonel Brizola era filho órfão de pai de uma trabalhadora. Trata-se, pura e simplesmente, de uma valorização sistemática do vulgar e do ordinário em detrimento da qualidade estéstica. Hoje em dia se lê pouco, se ouve mal e se escreve menos e se escreve mal. Infelizmente, isso é glorificado como sinal de uma sociedade moderna, midiática, imediatista e essencialmente de massa que não honra a língua portuguesa e, portanto, a despreza em favor do “falar popular” do “nós vai, nóis quer”, dos emoticons e das abreviaturas.
Parafraseando Vinicius de Moraes, que me perdoem os críticos, mas a beleza da língua é fundamental até para brigar com namorados e amantes. Que é mais bonito? Receber um fora do amado ou da amada como a Isaurinha Garcia, que “quando o carteiro chegou e meu nome gritou com sua carta na mão” descobriu que ele estava “farto” dela; ou um e-mail determinando “Fui. Delete meu nome do seu mailbox e me tire do seu Facebook. ass. Fulano (ou Fulana)”?
Fauna da padoca - HUMBERTO WERNECK
O Estado de S.Paulo - 16/06
O pãozinho não é lá essas coisas e o barulho nos obriga a esgoelar o papo - e mesmo assim lá vou eu, toda manhã, faz anos, tomar café com Leite, isto é, com meu amigo Paulo Leite. A amizade cobra seus pedágios.
Desprovida de encantos, nossa padoca, em compensação, oferece o espetáculo de uma fauna cujas variadas espécies vou aos poucos registrando. Claro que há gente normal, se é que isso existe, mas algo me diz que também você se liga mais nas bizarrias. Vamos a elas, pois.
O time dos sósias, por exemplo. Uma versão inflada da Ana Paula Arósio, a cada dia mais cheia de si. Um Henry Kissinger acompanhado de uma criatura cujo negror capilar é de matar de inveja a mais retinta das graúnas, e cuja idade talvez não se possa determinar sem recurso ao carbono 14. Também dá as caras uma senhora que, na avaliação do Paulo Leite, passaria por irmã do cardeal Arns. Não põe os pés na padaria desde o dia em que barraram a entrada de seu cachorrinho: da entrada, a dona gesticula, levanta a voz e ali é atendida, com a maior solicitude.
Seriam tipos até convencionais se comparados àquela senhora de boina vermelho vivo, saia e tênis, riponga muito après la lettre, como que saída de um filme de Jacques Tati, acha o Paulo, ou uma Frida Kahlo sem bigode, acho eu. Desenvolta, dá a impressão de ser uma pessoa famosa que ninguém conhece.
Nossa gaiola de aves raras inclui ainda um psiquiatra de meia-idade que fez da padoca o seu escritório - e mesmo seu consultório, pois já o vi passar receita. Espalha papéis na mesa, leva horas escrevendo. Autossuficiente, não é raro que traga sua própria comida. E dá trabalho, ô!, aos atendentes, cuja mão trata de adoçar; os habitués já não estranham quando pede a um deles que vá levar ou buscar alguma coisa em sua casa, nas imediações; levar os sapatos, acredite, e trazer os chinelos. Galante, envia pequenos farnéis para a mulher, de quem já sabemos que adora bolinho de bacalhau.
Faz tempo que não aparece (estará ainda entre nós?) uma senhora de seus 70 anos, organista numa igreja e dona de uma bela voz que por vezes desatava em plena padaria, dependendo do número de caipirinhas matinais. Sujeita a súbitos apagões, em geral sem maiores consequências, madame um dia desmaiou no momento em que ia abocanhar uma coxinha, e, ao desabar, ficou entalada entre o banco e o balcão - pero sin perder o salgadinho jamás. Convenhamos: não há dignidade que resista a um desmaio de coxinha em punho.
Não menos folgado que o nosso psiquiatra é um camarada gordo, diria mesmo hipopotâmico, que como a dama do cachorrinho nunca entra na padoca: encarrega a mulher, igualmente volumosa, de lhe trazer víveres que se põe a mastigar bovinamente, de olhos fechados, no interior da perua estacionada à porta, aonde o garçom irá levar a maquineta do cartão de crédito.
Poderia falar ainda do casal que, para driblar a proibição, acondicionava o lulu num carrinho de bebê. Mas não quero pedir a conta sem registrar também aquilo que, em meio à algaravia dos fregueses e ao estrépito do liquidificador, pode fazer a alegria de um écouteur - sim, a mesma língua francesa que nos deu "voyeur" dispõe de uma palavra, menos usada, é verdade, para designar o "escutador", o xereta, se você prefere. Como este cronista, a cujas orelhas têm chegado deliciosos farelos de conversa alheia. O papo imutável, por exemplo, daquelas duas senhoras a se lamuriar o tempo todo - uma por já não ter marido, a outra por ainda conservar o seu. No quesito pérolas verbais, a padoca nunca me decepciona. Deixo a você, com votos de bom domingo, as últimas que vieram na rede da minha indiscrição:
"Trabalhei anos no ramo de autopeças, mas foi preciso minha esposa falecer para eu descobrir que a vida não é só pneu...".
"E pensar que fiz uma escova de 40 reais para me encontrar com ele... Fora os 25 do táxi!".
"Ah, tenho uma pena dessas prostitutas... Ficam aí esperando quem não combinou de vir...".
O pãozinho não é lá essas coisas e o barulho nos obriga a esgoelar o papo - e mesmo assim lá vou eu, toda manhã, faz anos, tomar café com Leite, isto é, com meu amigo Paulo Leite. A amizade cobra seus pedágios.
Desprovida de encantos, nossa padoca, em compensação, oferece o espetáculo de uma fauna cujas variadas espécies vou aos poucos registrando. Claro que há gente normal, se é que isso existe, mas algo me diz que também você se liga mais nas bizarrias. Vamos a elas, pois.
O time dos sósias, por exemplo. Uma versão inflada da Ana Paula Arósio, a cada dia mais cheia de si. Um Henry Kissinger acompanhado de uma criatura cujo negror capilar é de matar de inveja a mais retinta das graúnas, e cuja idade talvez não se possa determinar sem recurso ao carbono 14. Também dá as caras uma senhora que, na avaliação do Paulo Leite, passaria por irmã do cardeal Arns. Não põe os pés na padaria desde o dia em que barraram a entrada de seu cachorrinho: da entrada, a dona gesticula, levanta a voz e ali é atendida, com a maior solicitude.
Seriam tipos até convencionais se comparados àquela senhora de boina vermelho vivo, saia e tênis, riponga muito après la lettre, como que saída de um filme de Jacques Tati, acha o Paulo, ou uma Frida Kahlo sem bigode, acho eu. Desenvolta, dá a impressão de ser uma pessoa famosa que ninguém conhece.
Nossa gaiola de aves raras inclui ainda um psiquiatra de meia-idade que fez da padoca o seu escritório - e mesmo seu consultório, pois já o vi passar receita. Espalha papéis na mesa, leva horas escrevendo. Autossuficiente, não é raro que traga sua própria comida. E dá trabalho, ô!, aos atendentes, cuja mão trata de adoçar; os habitués já não estranham quando pede a um deles que vá levar ou buscar alguma coisa em sua casa, nas imediações; levar os sapatos, acredite, e trazer os chinelos. Galante, envia pequenos farnéis para a mulher, de quem já sabemos que adora bolinho de bacalhau.
Faz tempo que não aparece (estará ainda entre nós?) uma senhora de seus 70 anos, organista numa igreja e dona de uma bela voz que por vezes desatava em plena padaria, dependendo do número de caipirinhas matinais. Sujeita a súbitos apagões, em geral sem maiores consequências, madame um dia desmaiou no momento em que ia abocanhar uma coxinha, e, ao desabar, ficou entalada entre o banco e o balcão - pero sin perder o salgadinho jamás. Convenhamos: não há dignidade que resista a um desmaio de coxinha em punho.
Não menos folgado que o nosso psiquiatra é um camarada gordo, diria mesmo hipopotâmico, que como a dama do cachorrinho nunca entra na padoca: encarrega a mulher, igualmente volumosa, de lhe trazer víveres que se põe a mastigar bovinamente, de olhos fechados, no interior da perua estacionada à porta, aonde o garçom irá levar a maquineta do cartão de crédito.
Poderia falar ainda do casal que, para driblar a proibição, acondicionava o lulu num carrinho de bebê. Mas não quero pedir a conta sem registrar também aquilo que, em meio à algaravia dos fregueses e ao estrépito do liquidificador, pode fazer a alegria de um écouteur - sim, a mesma língua francesa que nos deu "voyeur" dispõe de uma palavra, menos usada, é verdade, para designar o "escutador", o xereta, se você prefere. Como este cronista, a cujas orelhas têm chegado deliciosos farelos de conversa alheia. O papo imutável, por exemplo, daquelas duas senhoras a se lamuriar o tempo todo - uma por já não ter marido, a outra por ainda conservar o seu. No quesito pérolas verbais, a padoca nunca me decepciona. Deixo a você, com votos de bom domingo, as últimas que vieram na rede da minha indiscrição:
"Trabalhei anos no ramo de autopeças, mas foi preciso minha esposa falecer para eu descobrir que a vida não é só pneu...".
"E pensar que fiz uma escova de 40 reais para me encontrar com ele... Fora os 25 do táxi!".
"Ah, tenho uma pena dessas prostitutas... Ficam aí esperando quem não combinou de vir...".
Estudante profissional - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 16/06
Nas hostes do movimento estudantil, Virgínia Barros, 27, a nova presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), ou presidenta, como ela faz questão de acentuar, é conhecida como "baixinha" --tem 1m53-- e "nervosinha".
Como Lula, Virgínia também é de Garanhuns, Pernambuco. Mas se engana quem pensa que Vic, como gosta de ser chamada, faça o gênero clássico da militância "barbuda de saia". Verdade que apanhar da polícia na rua ela já apanhou. E isso comenta com orgulho. Também já ocupou reitoria. E diz que se sente à vontade com um megafone nas mãos.
Mas Vic, que usa piercing no nariz e tem quatro tatuagens --no braço, uma poesia de Carlos Pena Filho em homenagem a Recife, onde cresceu e se formou em direito; nas costas, três gaivotas e uma frase, "Viva la Vida"; e, na perna, violetas--, está mais para bandas internacionais como The Strokes e Oasis que para Geraldo Vandré.
Che Guevara ela admira, claro. Mas Patrícia Galvão, a Pagu, está acima de tudo. "Modernista, mulher, escritora, militante", diz ao repórter Morris Kachani. A propósito, a agenda sobre direitos da mulher deve entrar com tudo na pauta da UNE. "Mais creches nas faculdades é uma das bandeiras", explica. Até entre os velhos guerrilheiros de esquerda, admite, o machismo grassou.
Vic participou das primeiras manifestações pelo passe livre de ônibus em São Paulo, pacificamente, como faz questão de ressaltar. "A UNE se solidariza com a causa, embora repudie vandalismo e excessos da polícia." Mas não se diz a favor da tarifa zero, como pede o Movimento Passe Livre. "Sempre defendemos o meio passe para estudante, essa é uma bandeira histórica", desconversa.
Fã de literatura brasileira e de Raduan Nassar em particular, Vic começou neste ano o curso de letras na USP, mas mal encontra tempo para frequentar a sala de aula. Nos últimos três dias, por exemplo, passou por São Paulo, Pernambuco e Minas Gerais. Antes, tentou economia, mas largou no meio. "Queria fazer carreira diplomática e desisti. Agora quero ser professora acadêmica."
A verdade é que estudar quase sempre foi um problema para os líderes da UNE, pelo menos enquanto estiveram à frente da entidade. Muitos trancam matrícula. O ex-ministro Orlando Silva, por exemplo, primeiro presidente negro da UNE (eleito em 95), nem concluiu o curso de direito. Vic se define: "Eu sou política".
Mas leva uma vida de estudante, diz ela. Seu habitat noturno são as casas do Baixo Augusta. Coletivos musicais criados por conterrâneos, como Mombojó e Del Rey, estão entre os preferidos.
Adora se maquiar e cuidar do cabelo "quando dá tempo". Recebeu a Folha calçando tênis de pano, jeans com três anos de rodagem e camiseta da UNE no apartamento de 30 m² em Santa Cecília, SP, que divide com o namorado, Thiago Andrade --estão juntos há dois anos.
Thiago também tem 27 anos. Largou o curso de história e agora pensa em prestar psicologia. Os dois não ganham salário. Mas Vic, assim como os 16 diretores que compõem o "board" (conselho) da UNE, tem as despesas de transporte e comida custeadas pela entidade. O resto, como por exemplo a compra do mobiliário, foram os pais do casal que bancaram --os dela são funcionários públicos concursados. Carro, eles não têm. Seu patrimônio, ela brinca, resume-se a um iPhone. E um skate no canto da sala.
A UNE existe desde 1937. Constituiu um dos principais focos de resistência à ditadura e liderou os caras-pintadas no governo de Fernando Collor. José Dirceu, José Serra, Franklin Martins e Lindbergh Farias são alguns de seus ex-militantes ilustres.
Hoje a instituição arrecada cerca de R$ 800 mil anuais através da venda de 400 mil carteirinhas. Mas, com a lei de meia-entrada, em tramitação no Senado, ganharia prioridade na emissão do documento, o que multiplicaria consideravelmente seus rendimentos --o universo total de estudantes brasileiros é de 7 milhões.
Filiados ao PCdoB ocupam a cadeira da presidência da UNE há mais de duas décadas, embora Vic insista em dizer que a gestão da entidade é apartidária.
Para ela, o PT está liderando um projeto que é contraditório, com muitos avanços sociais, mas identificado com as forças do capital internacional. O PSDB, segundo afirma, "já cumpriu papel importante, mas hoje está conectado com um projeto bem conservador".
A estudante se define marxista. E o que é ser marxista nos dias de hoje? "É lutar contra o fim das opressões. Mudar esse sistema econômico desigual, gerando oportunidades para todos." Ser comunista, segundo ela, "é não aceitar o mundo como ele se apresenta".
Para Vic, o jovem de hoje é até mais engajado. "As formas de engajamento é que se diversificaram, tem quem lute pelo meio ambiente ou por software livre e assim por diante. A diferença é que não se entrega a vida."
A pernambucana tem duas obsessões: a defesa da destinação de 10% do PIB à educação e à melhoria da qualidade de ensino, tanto nas universidades públicas como nas privadas. "Só 17% dos jovens brasileiros de 18 a 24 anos estão no ensino superior; 70% deles, nas particulares", afirma.
Ela promete que o novo prédio da UNE, no Rio, assinado por Oscar Niemeyer, estará finalizado em 24 meses. A verba de R$ 30 milhões, concedida durante o governo Lula como indenização pelos crimes da ditadura, está na conta da entidade desde o final de 2010.
Adaptar o desenho do arquiteto à realidade financeira e a um projeto de construção factível teria sido o motivo do atraso. O prédio terá 13 andares e também um centro cultural. Vic não descarta a hipótese de utilizar alguns andares para locação comercial. Seria uma forma de a UNE ganhar autonomia em relação às verbas públicas e, assim, livrar-se de vez das acusações de peleguismo e aparelhamento.
Os principais eventos da entidade são patrocinados por órgãos ligados ao governo federal, que conta com o PCdoB como aliado estratégico. O custo do congresso de 2011, por exemplo, foi estimado em R$ 4 milhões e contou com o patrocínio de empresas como a Petrobras.
Sobre o propósito da vida - MARCELO GLEISER
FOLHA DE SP - 16/06
Seres vivos têm o propósito de preservar sua existência; é difícil aceitar que não há um objetivo maior
Não me refiro aqui à vida de cada um, que envolve nossas escolhas e esperanças, os planos que traçamos no decorrer dos anos. Nossas vidas, claro, têm, ou deveriam ter, um ou mais propósitos.
Falo da vida como fenômeno natural, essa estranha organização da matéria dotada de autonomia, capaz de absorver energia do ambiente à sua volta e de se preservar por meio da reprodução.
O tema gera confusão. Precisamos ter cuidado. Todas as formas de vida têm um propósito essencial: sobreviver. Esse é ainda mais importante do que o outro propósito, reprodução. Afinal, bebês e vovôs estão vivos, mas não se reproduzem. Pode-se até dizer que a vida é uma forma de organização material que tem o ímpeto de se preservar.
Essa é uma diferença essencial que distingue seres vivos de outras formas de organização material, como estrelas ou rochas, que não têm o ímpeto de se preservar: apenas existem, passivamente, entregues aos processos físicos que definem suas interações. No caso das rochas, a existência é delimitada pela sua interação com a erosão --água mole em pedra dura tanto bate até que fura. No caso das estrelas, existem enquanto têm combustível suficiente no seu centro (hidrogênio) para resistir à atração gravitacional, que levará à sua implosão.
Todas as formas vivas têm o propósito de preservar sua existência. Essa é a diferença essencial entre o vivo e o não vivo.
A confusão com relação à questão do propósito vem quando nos deparamos com a diversidade das formas de vida. Dada tanta riqueza, tanta criatividade, fica difícil de aceitar que tudo surgiu sem um propósito maior, sem a intenção de criar criaturas cada vez mais complexas.
A coisa complica ainda mais quando aprendemos que a história da vida na Terra mostra uma complexidade crescente. A vida aqui surgiu há pelo menos 3,5 bilhões de anos. Desses, os primeiros 2,5 bilhões foram dominados por seres unicelulares, bactérias apenas. Apenas cerca de 600 milhões de anos atrás é que a diversificação começou para valer. Na famosa explosão do Cambriano, em torno de 550 milhões de anos atrás, a complexidade da vida decolou. De lá para cá, mais criaturas foram surgindo no mar, na terra e no ar, com complexidade e diversificação crescente.
Fica difícil aceitar que não existe um propósito maior na vida, que é o de aumentar sua complexidade. O clímax dessa complexidade seríamos nós, humanos. Esse propósito oculto é chamado teleologia.
Mas essa conclusão é falsa. Não existe um "plano" de tornar a vida complexa a ponto de gerar formas inteligentes. Vejam os dinossauros, que existiram por 150 milhões de anos e permaneceram burros. O que a vida quer é se preservar. Contanto que esteja adaptada ao ambiente, continuará bem, com mutações ocorrendo sem grandes revoluções.
Fundamental nessa dinâmica é o acoplamento da vida ao ambiente. Variações ocorrem quando o ambiente muda. Se mudássemos algo na história da Terra, como a queda do asteroide que eliminou os dinossauros 65 milhões de anos atrás, a história da vida mudaria também. Provavelmente não estaríamos aqui. Na natureza, criação e destruição andam juntas. Mas nessa coreografia não existe coreógrafo.
Seres vivos têm o propósito de preservar sua existência; é difícil aceitar que não há um objetivo maior
Não me refiro aqui à vida de cada um, que envolve nossas escolhas e esperanças, os planos que traçamos no decorrer dos anos. Nossas vidas, claro, têm, ou deveriam ter, um ou mais propósitos.
Falo da vida como fenômeno natural, essa estranha organização da matéria dotada de autonomia, capaz de absorver energia do ambiente à sua volta e de se preservar por meio da reprodução.
O tema gera confusão. Precisamos ter cuidado. Todas as formas de vida têm um propósito essencial: sobreviver. Esse é ainda mais importante do que o outro propósito, reprodução. Afinal, bebês e vovôs estão vivos, mas não se reproduzem. Pode-se até dizer que a vida é uma forma de organização material que tem o ímpeto de se preservar.
Essa é uma diferença essencial que distingue seres vivos de outras formas de organização material, como estrelas ou rochas, que não têm o ímpeto de se preservar: apenas existem, passivamente, entregues aos processos físicos que definem suas interações. No caso das rochas, a existência é delimitada pela sua interação com a erosão --água mole em pedra dura tanto bate até que fura. No caso das estrelas, existem enquanto têm combustível suficiente no seu centro (hidrogênio) para resistir à atração gravitacional, que levará à sua implosão.
Todas as formas vivas têm o propósito de preservar sua existência. Essa é a diferença essencial entre o vivo e o não vivo.
A confusão com relação à questão do propósito vem quando nos deparamos com a diversidade das formas de vida. Dada tanta riqueza, tanta criatividade, fica difícil de aceitar que tudo surgiu sem um propósito maior, sem a intenção de criar criaturas cada vez mais complexas.
A coisa complica ainda mais quando aprendemos que a história da vida na Terra mostra uma complexidade crescente. A vida aqui surgiu há pelo menos 3,5 bilhões de anos. Desses, os primeiros 2,5 bilhões foram dominados por seres unicelulares, bactérias apenas. Apenas cerca de 600 milhões de anos atrás é que a diversificação começou para valer. Na famosa explosão do Cambriano, em torno de 550 milhões de anos atrás, a complexidade da vida decolou. De lá para cá, mais criaturas foram surgindo no mar, na terra e no ar, com complexidade e diversificação crescente.
Fica difícil aceitar que não existe um propósito maior na vida, que é o de aumentar sua complexidade. O clímax dessa complexidade seríamos nós, humanos. Esse propósito oculto é chamado teleologia.
Mas essa conclusão é falsa. Não existe um "plano" de tornar a vida complexa a ponto de gerar formas inteligentes. Vejam os dinossauros, que existiram por 150 milhões de anos e permaneceram burros. O que a vida quer é se preservar. Contanto que esteja adaptada ao ambiente, continuará bem, com mutações ocorrendo sem grandes revoluções.
Fundamental nessa dinâmica é o acoplamento da vida ao ambiente. Variações ocorrem quando o ambiente muda. Se mudássemos algo na história da Terra, como a queda do asteroide que eliminou os dinossauros 65 milhões de anos atrás, a história da vida mudaria também. Provavelmente não estaríamos aqui. Na natureza, criação e destruição andam juntas. Mas nessa coreografia não existe coreógrafo.
Olha a bola! Família Brasil - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO
O Estado de S.Paulo - 16/06
Você está caminhando pela rua e vê uma bola de futebol vir quicando na sua direção. Uma bola de tamanho regulamentar que escapou de uma pelada de calçada improvisada por um grupo de garotos. Você ouve um dos garotos gritar:
- Olha a bola, tio!
Você, como faria qualquer brasileiro, prepara-se para chutar a bola e devolvê-la à pelada. Chuta - e erra. Em vez de voltar para onde veio a bola vai na direção oposta, impulsionada pelo seu pé. Você ouve a mesma voz gritar:
- Aí, hein tio? Show de bola.
E outras vozes gritarem:
- Põe o pé na forma!
- Ó ruindade!
- Perna-de-pau!
Para um brasileiro, não existe vergonha maior do que errar em bola. Todos nós temos a mínima obrigação congênita de saber dominar uma bola. Ainda mais uma bola fácil, que vem quicando. Você precisa escolher o que fazer para disfarçar seu vexame. Pode apelar para:
1) Fingimento. Continuar caminhando, mas mancando. Será que os desalmados não viram que você é ruim de uma perna, o que explica seu chute torto? Você fez o que era possível, e com sacrifício. Eles que fiquem com seu remorso por terem caçoado de você.
2) Congraçamento e simpatia. Abanar para os garotos, abrir os braços, dar risada e reconhecer que você é ruim mesmo, fazer o quê? Você pode ser um perna-de-pau, mas pô, é um cara legal.
3) Explicações. Contar para os garotos que você está passando por uma fase difícil, problemas em casa, preocupação com dinheiro... Por isso errou em bola. Estava distraído, quem pode chutar uma bola direito com tanta coisa na cabeça? Se eles quiserem você pode mostrar uma foto sua no time de futebol da escola, uniforme completo, lateral direito, prova de que é bom de bola, que não pode ser julgado por um único lance fortuito com a cabeça cheia de problemas, e que merece outra chance.
4) Intimidação. Enfrentar os garotos. Exigir respeito. Ameaçar fazer queixa às autoridades. Onde se viu ocupar uma calçada com uma pelada daquele jeito? Você chutou a bola para o lado errado não por ruindade mas de propósito, para acabar com aquele abuso. Será possível que os garotos não veem que estão atrapalhando o trânsito das pessoas, inclusive deficientes físicos como você? E sair mancando.
Você está caminhando pela rua e vê uma bola de futebol vir quicando na sua direção. Uma bola de tamanho regulamentar que escapou de uma pelada de calçada improvisada por um grupo de garotos. Você ouve um dos garotos gritar:
- Olha a bola, tio!
Você, como faria qualquer brasileiro, prepara-se para chutar a bola e devolvê-la à pelada. Chuta - e erra. Em vez de voltar para onde veio a bola vai na direção oposta, impulsionada pelo seu pé. Você ouve a mesma voz gritar:
- Aí, hein tio? Show de bola.
E outras vozes gritarem:
- Põe o pé na forma!
- Ó ruindade!
- Perna-de-pau!
Para um brasileiro, não existe vergonha maior do que errar em bola. Todos nós temos a mínima obrigação congênita de saber dominar uma bola. Ainda mais uma bola fácil, que vem quicando. Você precisa escolher o que fazer para disfarçar seu vexame. Pode apelar para:
1) Fingimento. Continuar caminhando, mas mancando. Será que os desalmados não viram que você é ruim de uma perna, o que explica seu chute torto? Você fez o que era possível, e com sacrifício. Eles que fiquem com seu remorso por terem caçoado de você.
2) Congraçamento e simpatia. Abanar para os garotos, abrir os braços, dar risada e reconhecer que você é ruim mesmo, fazer o quê? Você pode ser um perna-de-pau, mas pô, é um cara legal.
3) Explicações. Contar para os garotos que você está passando por uma fase difícil, problemas em casa, preocupação com dinheiro... Por isso errou em bola. Estava distraído, quem pode chutar uma bola direito com tanta coisa na cabeça? Se eles quiserem você pode mostrar uma foto sua no time de futebol da escola, uniforme completo, lateral direito, prova de que é bom de bola, que não pode ser julgado por um único lance fortuito com a cabeça cheia de problemas, e que merece outra chance.
4) Intimidação. Enfrentar os garotos. Exigir respeito. Ameaçar fazer queixa às autoridades. Onde se viu ocupar uma calçada com uma pelada daquele jeito? Você chutou a bola para o lado errado não por ruindade mas de propósito, para acabar com aquele abuso. Será possível que os garotos não veem que estão atrapalhando o trânsito das pessoas, inclusive deficientes físicos como você? E sair mancando.
Carminho e o nosso passarinho - CAETANO VELOSO
O GLOBO - 16/06
Sempre gostei de ver a festa do Prêmio da Música. Desde que ela levava um nome de empresa e eu a defendia das investidas de Xexéo. Agora — além de ver Cauby dar show de comportamento de estrela alto astral em passagem fugaz pelo palco (sob ovação com o público de pé); Ney Matogrosso, ao final de um solene “Se todos fossem iguais a você”, voltar-se para uma foto de Tom Jobim e, dando assim as costas para a plateia, citar, no ponto exato entre contenção e relaxamento, seus característicos movimentos andróginos de quase-dança; Leny Andrade, Tulipa Ruiz e Leila Pinheiro darem show de musicalidade a três vozes em suingue perfeito; João Bosco ir em cada nota de “Dindi” com a felicidade total de quem vive dentro da Música; Céu cantando “Insensatez” com um vestido a céu aberto; Nana fazendo-nos desmoronar como só pode uma força extraordinária da natureza; os arranjos de Jaquinho em elegância de frases e de timbres incomparáveis; tudo isso — e mais um pouco, que não estou listando tudo — depois de uma abertura com vários pianos arranjados por Wagner Tiso; sobretudo Rosa Passos, a mais bela expressão de musicalidade brasileira da noite, a espontaneidade mais sobrenatural no entendimento da função de cada nota cantada ou por cantar, de cada nota que, não sendo as que aparecem no canto, na superfície, se agrupam em blocos harmônicos — tivemos Carminho, prefaciada pela discrição mesoatlântica de António Zambujo, levando o sabiá de Tom Jobim e Chico Buarque ao lugar alto que lhe é de direito na história da língua portuguesa.
Foi uma noite de vários aplausos de pé. Mas o que saudou o evento Carminho/“Sabiá” dizia coisas de que as mesmas pessoas que se levantavam não tinham tempo de conscientizar-se. Carminho é a mais nova e a mais bela floração desse renascimento do fado entre jovens portugueses que já faz agora mais de década. Ouvi-la cantar essa canção de exílio brasileira com voz de quem mal atravessou o oceano para vir aqui nos ensinar tanto, foi de fazer chorar. A plateia se levantou crendo ser levada a isso pela exuberância vocal e musical da jovem cantora. Seria um aplauso entusiástico diante de uma interpretação virtuosística. Justo. Mas era claro que havia mais. Muito mais. As pessoas repassaram (era perceptível), num instante, a história da canção (que lutou com o tempo para ser devidamente amada), a história do Brasil, a história da nossa língua. A voz e a pronúncia de Zambujo eram mesoatlânticas. O canto de Carminho era purissimamente lusitano. Mas o acontecimento Carminho cantando assim nosso passarinho (nos dois gêneros: “uma sabiá” e “o meu sabiá”, como o dicionarismo de Tom conversou com o de Chico, trazendo de volta minhas lembranças de uso do nome da ave, em minha Santo Amaro natal, tanto no masculino quanto no feminino) era, no auge do arrebatamento das notas altas com arabescos ibéricos, a consolidação desse mesoatlântico que busco e que Zambujo anunciou. Não seria preciso conscientizar-se de tudo isso para vivenciar o todo da experiência: cada pessoa que foi arrebatada pelo momento desse breve milagre sabia, em sua carne, que todas essas implicações estavam em jogo.
A parte de que menos gosto em premiações são os prêmios propriamente ditos. Acompanho com interesse o suspense dos concorrentes e me animo com a alegria comovida de muitos que se descobrem premiados. Mas para mim isso é apenas o pretexto para que aconteçam coisas que realmente me interessam. Tanto é assim, que os momentos de entrega dos prêmios aos agraciados são os momentos de relativa desanimação da plateia. Há, claro, as comemorações particulares de grupos de amigos, parentes e apoiadores dos premiados. Mas as apresentadoras (ou os apresentadores, a depender de como está organizada a festa em cada ano), as pessoas que fisicamente entregam os troféus e os que os recebem, protagonizam instantes de mera espera — para que as pessoas saiam do palco, para que se rearrume a continuidade do show. Esses “buracos” não atrapalham o brilho da festa (embora possam ser mais bem planejados para evitar quebra de ritmo): eles são a motivação para que ela exista.
Quando Xexéo (e outros ainda menos engraçados) ridicularizavam os prêmios de música brasileira, eu chiava. Achava que uma noite em que eu podia apresentar Herivelto Martins a Cassiano era algo sagrado cuja grandeza só os tolos não viam. Hoje esse tipo de prêmio já é respeitado. O Brasil não precisa mais se depreciar para se aguentar. E Carminho elevou a festa modesta à sua verdadeira altura histórica. É claro que a música entranhada de Rosa Passos já continha tudo sem precisar dizer. Mas o sabiá de Carminho disse.
Sempre gostei de ver a festa do Prêmio da Música. Desde que ela levava um nome de empresa e eu a defendia das investidas de Xexéo. Agora — além de ver Cauby dar show de comportamento de estrela alto astral em passagem fugaz pelo palco (sob ovação com o público de pé); Ney Matogrosso, ao final de um solene “Se todos fossem iguais a você”, voltar-se para uma foto de Tom Jobim e, dando assim as costas para a plateia, citar, no ponto exato entre contenção e relaxamento, seus característicos movimentos andróginos de quase-dança; Leny Andrade, Tulipa Ruiz e Leila Pinheiro darem show de musicalidade a três vozes em suingue perfeito; João Bosco ir em cada nota de “Dindi” com a felicidade total de quem vive dentro da Música; Céu cantando “Insensatez” com um vestido a céu aberto; Nana fazendo-nos desmoronar como só pode uma força extraordinária da natureza; os arranjos de Jaquinho em elegância de frases e de timbres incomparáveis; tudo isso — e mais um pouco, que não estou listando tudo — depois de uma abertura com vários pianos arranjados por Wagner Tiso; sobretudo Rosa Passos, a mais bela expressão de musicalidade brasileira da noite, a espontaneidade mais sobrenatural no entendimento da função de cada nota cantada ou por cantar, de cada nota que, não sendo as que aparecem no canto, na superfície, se agrupam em blocos harmônicos — tivemos Carminho, prefaciada pela discrição mesoatlântica de António Zambujo, levando o sabiá de Tom Jobim e Chico Buarque ao lugar alto que lhe é de direito na história da língua portuguesa.
Foi uma noite de vários aplausos de pé. Mas o que saudou o evento Carminho/“Sabiá” dizia coisas de que as mesmas pessoas que se levantavam não tinham tempo de conscientizar-se. Carminho é a mais nova e a mais bela floração desse renascimento do fado entre jovens portugueses que já faz agora mais de década. Ouvi-la cantar essa canção de exílio brasileira com voz de quem mal atravessou o oceano para vir aqui nos ensinar tanto, foi de fazer chorar. A plateia se levantou crendo ser levada a isso pela exuberância vocal e musical da jovem cantora. Seria um aplauso entusiástico diante de uma interpretação virtuosística. Justo. Mas era claro que havia mais. Muito mais. As pessoas repassaram (era perceptível), num instante, a história da canção (que lutou com o tempo para ser devidamente amada), a história do Brasil, a história da nossa língua. A voz e a pronúncia de Zambujo eram mesoatlânticas. O canto de Carminho era purissimamente lusitano. Mas o acontecimento Carminho cantando assim nosso passarinho (nos dois gêneros: “uma sabiá” e “o meu sabiá”, como o dicionarismo de Tom conversou com o de Chico, trazendo de volta minhas lembranças de uso do nome da ave, em minha Santo Amaro natal, tanto no masculino quanto no feminino) era, no auge do arrebatamento das notas altas com arabescos ibéricos, a consolidação desse mesoatlântico que busco e que Zambujo anunciou. Não seria preciso conscientizar-se de tudo isso para vivenciar o todo da experiência: cada pessoa que foi arrebatada pelo momento desse breve milagre sabia, em sua carne, que todas essas implicações estavam em jogo.
A parte de que menos gosto em premiações são os prêmios propriamente ditos. Acompanho com interesse o suspense dos concorrentes e me animo com a alegria comovida de muitos que se descobrem premiados. Mas para mim isso é apenas o pretexto para que aconteçam coisas que realmente me interessam. Tanto é assim, que os momentos de entrega dos prêmios aos agraciados são os momentos de relativa desanimação da plateia. Há, claro, as comemorações particulares de grupos de amigos, parentes e apoiadores dos premiados. Mas as apresentadoras (ou os apresentadores, a depender de como está organizada a festa em cada ano), as pessoas que fisicamente entregam os troféus e os que os recebem, protagonizam instantes de mera espera — para que as pessoas saiam do palco, para que se rearrume a continuidade do show. Esses “buracos” não atrapalham o brilho da festa (embora possam ser mais bem planejados para evitar quebra de ritmo): eles são a motivação para que ela exista.
Quando Xexéo (e outros ainda menos engraçados) ridicularizavam os prêmios de música brasileira, eu chiava. Achava que uma noite em que eu podia apresentar Herivelto Martins a Cassiano era algo sagrado cuja grandeza só os tolos não viam. Hoje esse tipo de prêmio já é respeitado. O Brasil não precisa mais se depreciar para se aguentar. E Carminho elevou a festa modesta à sua verdadeira altura histórica. É claro que a música entranhada de Rosa Passos já continha tudo sem precisar dizer. Mas o sabiá de Carminho disse.
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