ESTADÃO - 09/07
Se os políticos estão desconfortáveis com os meios e, principalmente, com os modos da presidente Dilma Rousseff, bom saberem que a recíproca é verdadeira: ela tampouco está à vontade com eles.
Acha que é preciso resgatar alguns espaços institucionais, restringir a área de atuação dos partidos na máquina pública e proteger o Estado da ocupação referida nos interesses desse ou daquele aliado.
O custo da insatisfação, segundo ministros de sua convivência diária, está devidamente contabilizado. E o antídoto também: a popularidade da presidente, a expectativa de renovação do poder gerada pelo favoritismo eleitoral, o manejo das emendas parlamentares, a distribuição de espaços ainda disponíveis e o investimento no diálogo.
Em resumo, na avaliação do governo, o diabo não é tão feito quanto faz supor a turbulência posta de forma explícita da votação da MP dos Portos. Primeiro, porque o episódio é visto como uma excepcionalidade.
Devido ao conteúdo da medida, abriram-se janelas de oportunidade para todo tipo de “negócio”, tal a gama de interesses em conflito e o afã de atender às demandas de financiadores e potenciais doadores de campanhas.
Em segundo lugar, na visão do Planalto o clima de tensão não é novidade, faz parte. Mesmo sob a batuta de Lula, argumenta-se, houve momentos de conflito e derrotas importantes, sendo a mais contundente a perda da CPMF.
Em terceiro, e no mais eloquente argumento apresentado pelo governo, é que há diferenças entre as concepções de Dilma Rousseff e as de seu antecessor no tocante ao conceito de governo de coalizão.
Lula compunha e cedia como se não houvesse amanhã. Dilma resolveu restringir propositadamente os espaços ocupados por aliados, inclusive os reservados ao PT. “Daí a insatisfação”, constata integrante da equipe palaciana sem dar sinais de que exista a menor intenção de alterar procedimentos.
Um exemplo citado é o da Petrobras. “Houve mudanças na diretoria a partir da necessidade de se retomar a gestão mais profissionalizada, menos politizada. O Gabrieli não deixou a presidência por acaso”.
No que poderia ser interpretado como crítica aos meios e modos de o ex-presidente Lula tratar seus aliados – embora isso não seja dito dessa maneira explícita –, dá margem ao seguinte raciocínio: “Na transição entre um governo e outro houve mudança de conceito sobre o funcionamento da coalizão. A presidente Dilma decidiu fechar algumas torneiras e, com isso, as pessoas ficaram nervosas”.
Depreende-se, até que as circunstâncias imponham alguma revisão de rumo, que continuarão assim. Pelo simples fato de que Dilma Rousseff acha que deve ser assim.
Bolsa de valor
Quanto mais episódios de desordem e insegurança públicas ocorrem em São Paulo, mais reforço ganha a ideia de fazer do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, candidato ao governo do estado pelo PT.
Nas pesquisas quantitativas, Cardozo nem chega perto dos índices de nomes como Marta Suplicy. Nas qualitativas, em compensação, o ministro aparece bem posicionado no eleitorado do PSDB que se mostra cansado do partido.
Crocodilo
Sinceridade? Alguns tucanos defendem a dupla função de Guilherme Afif Domingos, a maioria estrategicamente cala, mas não vão chorar lágrimas de esguicho se o ministro em governo do PT e vice-governador em administração do PSDB vier a perder o mandato, conforme recomenda o Ministério Público de São Paulo.
Afif, em verdade, entra aí como Pilatos no credo. O Judas mesmo é Gilberto Kassab, cuja migração da oposição para o campo governista a bordo do PSD continua sendo vista como crime sem perdão.
domingo, junho 09, 2013
Contra a impunidade - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 09/06
A comissão formada na Câmara dos Deputados para propor uma nova versão da PEC 37, que impede o Ministério Público de realizar investigações criminais, é um exemplo auspicioso de como encaminhar questões polêmicas como essa para soluções de consenso.
Como já escrevi aqui, só a sua criação já é uma derrota para aqueles que viam na PEC um instrumento de retaliação à atuação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, no julgamento do mensalão. E uma ducha de água fria nos que, aproveitando-se da sede de vingança, queriam mesmo era um ambiente mais propício à maracutaia, sem o Ministério Público para investigar. Não é à toa que a proposta é conhecida como "PEC da impunidade".
Em um seminário organizado pelo Ministério Público do Rio que contou com a participação de representantes de todo o país, participei de um debate sobre a atuação do Ministério Público, onde expressei minha preocupação com "ações voluntaristas e partidárias". Ressaltei que nos últimos anos os acertos foram maiores que os erros, mas houve vários momentos em que o agente do MP foi acusado de abusar de suas prerrogativas.
"É ruim para a instituição uma identificação com petistas ou tucanos, por exemplo, pois coloca em risco as atribuições do MP", disse na ocasião, referindo-me a dois casos exemplares: a atuação do procurador Luiz Francisco de Souza nos governos do PSDB, acusado de trabalhar a favor do PT, e também a do subprocurador José Roberto Santoro, acusado pelo PT de ser ligado aos tucanos, notadamente a José Serra.
Já naquele momento discutia-se a participação do MP em investigações, e eu disse na ocasião que era "equivocada" uma substituição de poderes. "O ideal é que o exemplo de atuação do MP contaminasse a polícia. O trabalho conjunto seria ideal, não a substituição", disse. Defendi uma divulgação do trabalho do Ministério Público nas áreas de Proteção ao Meio Ambiente e do Consumidor, pois são assuntos que dão respaldo à imagem de que o Ministério Público defende a cidadania.
Com o julgamento do mensalão, o papel do MP ganhou maior visibilidade no combate à corrupção, e isso trouxe também problemas políticos adicionais para ele. A firmeza com que o relator do caso, hoje presidente do Supremo, ministro Joaquim Barbosa, levou o processo foi atribuída à sua origem no Ministério Público; e, da mesma maneira, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, caiu em desgraça junto ao PT por suas acusações, que levaram à condenação de líderes petistas como o ex-ministro José Dirceu e os deputados José Genoino e João Paulo Cunha.
Tudo indica que a comissão formada na Câmara, que conta com a participação de representantes das polícias e do Ministério Público, encontrará uma maneira de reforçar, e não tolher, o combate à corrupção, regulamentando a atuação do Ministério Público nas investigações sem tolhê-las.
Esta semana o procurador-geral do Banco Central, Isaac Sidney Menezes Ferreira, divulgou uma nota revelando a importância fundamental do trabalho do Ministério Público no combate aos crimes financeiros. Diz ele que a obrigação legal de comunicar ao MP os indícios de crimes fez com que mais de 16 mil comunicações tenham sido feitas pelo Banco Central.
Além disso, a lei permite que o Banco Central atue nas ações penais iniciadas pelo Ministério Público, existindo atualmente 55 processos em andamento. O procurador-geral do Banco Central diz na nota que a "atuação investigativa do Ministério Público tem resultado em relevantes contributos para a persecução penal", e pede que o " modelo de atuação compartilhada" seja mantido.
Como já escrevi aqui, só a sua criação já é uma derrota para aqueles que viam na PEC um instrumento de retaliação à atuação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, no julgamento do mensalão. E uma ducha de água fria nos que, aproveitando-se da sede de vingança, queriam mesmo era um ambiente mais propício à maracutaia, sem o Ministério Público para investigar. Não é à toa que a proposta é conhecida como "PEC da impunidade".
Em um seminário organizado pelo Ministério Público do Rio que contou com a participação de representantes de todo o país, participei de um debate sobre a atuação do Ministério Público, onde expressei minha preocupação com "ações voluntaristas e partidárias". Ressaltei que nos últimos anos os acertos foram maiores que os erros, mas houve vários momentos em que o agente do MP foi acusado de abusar de suas prerrogativas.
"É ruim para a instituição uma identificação com petistas ou tucanos, por exemplo, pois coloca em risco as atribuições do MP", disse na ocasião, referindo-me a dois casos exemplares: a atuação do procurador Luiz Francisco de Souza nos governos do PSDB, acusado de trabalhar a favor do PT, e também a do subprocurador José Roberto Santoro, acusado pelo PT de ser ligado aos tucanos, notadamente a José Serra.
Já naquele momento discutia-se a participação do MP em investigações, e eu disse na ocasião que era "equivocada" uma substituição de poderes. "O ideal é que o exemplo de atuação do MP contaminasse a polícia. O trabalho conjunto seria ideal, não a substituição", disse. Defendi uma divulgação do trabalho do Ministério Público nas áreas de Proteção ao Meio Ambiente e do Consumidor, pois são assuntos que dão respaldo à imagem de que o Ministério Público defende a cidadania.
Com o julgamento do mensalão, o papel do MP ganhou maior visibilidade no combate à corrupção, e isso trouxe também problemas políticos adicionais para ele. A firmeza com que o relator do caso, hoje presidente do Supremo, ministro Joaquim Barbosa, levou o processo foi atribuída à sua origem no Ministério Público; e, da mesma maneira, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, caiu em desgraça junto ao PT por suas acusações, que levaram à condenação de líderes petistas como o ex-ministro José Dirceu e os deputados José Genoino e João Paulo Cunha.
Tudo indica que a comissão formada na Câmara, que conta com a participação de representantes das polícias e do Ministério Público, encontrará uma maneira de reforçar, e não tolher, o combate à corrupção, regulamentando a atuação do Ministério Público nas investigações sem tolhê-las.
Esta semana o procurador-geral do Banco Central, Isaac Sidney Menezes Ferreira, divulgou uma nota revelando a importância fundamental do trabalho do Ministério Público no combate aos crimes financeiros. Diz ele que a obrigação legal de comunicar ao MP os indícios de crimes fez com que mais de 16 mil comunicações tenham sido feitas pelo Banco Central.
Além disso, a lei permite que o Banco Central atue nas ações penais iniciadas pelo Ministério Público, existindo atualmente 55 processos em andamento. O procurador-geral do Banco Central diz na nota que a "atuação investigativa do Ministério Público tem resultado em relevantes contributos para a persecução penal", e pede que o " modelo de atuação compartilhada" seja mantido.
Leviatã manda lembranças GAUDÊNCIO TORQUATO
ESTADÃO - 09/06
Incrível, porém verdadeiro. Cidadãos brasileiros estão sendo induzidos a praticar o “dedurismo”, denúncia contra pessoas físicas e jurídicas e, desse modo, a fazer parte de um exército de agentes especiais que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), órgão do Ministério da Fazenda, está organizando. Não se trata, como se pode pensar, da “delação premiada”, que réus usam para obter vantagens judiciais em processos criminais a que se submetem. A iniciativa, que agita prestadores de serviços e operadores do Direito, chama a atenção pelo abuso contra princípios constitucionais. Duas resoluções baixadas pela entidade (Resoluções 24 e 25, de janeiro passado), sob o escudo do combate aos crimes de lavagem de dinheiro, constituem o eixo da polêmica. Obrigam pessoas físicas ou jurídicas, que prestem serviços de assessoria, consultoria, contadoria, auditoria, aconselhamento ou assistência em operações, a fazer um cadastro de clientes e guardá-lo por cinco anos. A par da exigência de declarar bens ou serviços prestados no valor igual ou superior de R$ 5 mil, o “agente” que o Conselho está criando é obrigado a “denunciar” seu cliente, caso, seis meses depois, este fizer nova operação que implique valor igual ou superior a R$ 30 mil. E se o prestador se recusar a entrar nesse “grupamento”? Será submetido à multa de até R$ 200 mil, cassação do registro profissional e vedação do exercício da atividade.
É mais que sabido que cabe ao Estado a tarefa de investigar, fiscalizar, controlar e combater todas as veredas que levam às ilicitudes, a partir do tráfico de drogas, de armas, lavagem de dinheiro, peculato, furtos e roubos. Passar o Brasil a limpo deve ser anseio contínuo dos órgãos públicos, o que demanda medidas e ações para defender a sociedade, investigar as máfias que agem nos intestinos do Estado e extirpar os tumores que corrompem os sistemas produtivos. A premissa se torna mais premente ante o paradigma do “puro caos”, que o professor Samuel P. Huntington tão bem descreve em seu Choque de Civilizações: “uma quebra no mundo inteiro da lei e da ordem, Estados fracassados, anarquia crescente, uma onda global de criminalidade, máfias transnacionais, cartéis de drogas, crescente número de viciados, debilitação generalizado da família, declínio na confiança e na solidariedade social em muitos países, violência étnica, religiosa e civilizacional e a lei do revólver predominando em grande parte do planeta”. Tal moldura sugere a maximização de energias por parte das estruturas que executam controles na frente das finanças. Mas qualquer ação ou medida há de se ajustar aos primados consagrados na Carta Magna.
Emerge, aqui, a primeira indagação: a ordem de obrigações e punições emanadas nas duas resoluções do Conselho de Controle de Atividades Financeiras fere ou não princípios da livre iniciativa e do sigilo de dados pessoais, garantidos na Constituição? O tributarista Raul Haidar lembra que apenas leis abrigam o poder de gerar obrigações e sanções. O princípio de que o direito deve se fundar na Constituição, jamais em medidas, decretos, resoluções e até em leis consideradas inconstitucionais, é um dos mais sagrados das Nações democráticas. Desvios e ilegalidades que ocorrem na vida institucional revelam muito sobre o estado civilizatório que o país atravessa. É o caso de enxergar um viés politiqueiro na planificação e execução de políticas de monitoramento do universo dos negócios, não se descartando a hipótese de que grupos, hoje imperando na administração pública, se esforçam para impor uma visão onipotente, onisciente e onipresente. A onipresença fica patente na intenção escancarada de multiplicar os olhos do Big Brother, não deixando nenhum espaço fora de sua vista (George Orwell ficaria embasbacado); a onisciência se apresenta no modo unívoco de entender que o Estado encarna a moral, é a razão efetivada, um Todo ético organizado, na expressão de Hegel, não cometendo erros; e a onipotência se apresenta na atitude rude de rasgar a letra constitucional.
Mais uma observação. Ao contrário da cultura anglosaxã, de rígida obediência à normas, a cultura tupiniquim usa frequentemente as curvas para se moldar aos climas impostos. Será que os inventivos controladores do Conselho não imaginaram o cadastramento de operações falsas, malandragem para atrapalhar concorrentes? Perfis mafiosos ou de má fé não produzirão denúncias apenas para embaralhar as cartas do jogo? É razoável a hipótese de que alguns, entre esses “agentes do Estado”, agirão em causa própria, usando a norma para preencher conveniências pessoais. Na conta das probabilidades, não se descarta a beligerância entre amigos e clientes, quando uns descobrirem que outros apontaram o “dedo duro”.
Nessa moldura, entra bem a imagem de Sólon, um dos sete sábios da Grécia antiga, também conhecido como o pai da Democracia. Perguntaram a ele se as leis que outorgara aos atenienses eram as melhores. Respondeu: “dei-lhes as melhores que podiam eles aguentar”. A resposta do filósofo exprime moderação e clareza mental, valores que construíram a grandeza de Atenas. Ao longo da história da civilização, as Nações beberam nessa fonte de conhecimento, produzindo boas leis, plasmando bons princípios e sólidos valores sobre os quais repousam o edifício das liberdades e os fundamentos do Estado Democrático.
É o caso de indagar aos dirigentes do COAF se as disposições que outorgaram aos brasileiros são condizentes com o império do Direito ou desenham a imagem do Leviatã, o monstro bíblico, cruel e invencível, plasmado pelo ideário absolutista de Thomas Hobbes. Talvez seja o caso de Suas Excelências refletirem sobre a lição de Montesquieu em seu Espírito das Leis: “a única vantagem que um povo livre exerce sobre outro é a segurança que tem de que o capricho de um ou de outro não lhe tirará seus bens ou sua vida. Um povo com esse bom senso seria tão feliz quanto um povo livre”.
Incrível, porém verdadeiro. Cidadãos brasileiros estão sendo induzidos a praticar o “dedurismo”, denúncia contra pessoas físicas e jurídicas e, desse modo, a fazer parte de um exército de agentes especiais que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), órgão do Ministério da Fazenda, está organizando. Não se trata, como se pode pensar, da “delação premiada”, que réus usam para obter vantagens judiciais em processos criminais a que se submetem. A iniciativa, que agita prestadores de serviços e operadores do Direito, chama a atenção pelo abuso contra princípios constitucionais. Duas resoluções baixadas pela entidade (Resoluções 24 e 25, de janeiro passado), sob o escudo do combate aos crimes de lavagem de dinheiro, constituem o eixo da polêmica. Obrigam pessoas físicas ou jurídicas, que prestem serviços de assessoria, consultoria, contadoria, auditoria, aconselhamento ou assistência em operações, a fazer um cadastro de clientes e guardá-lo por cinco anos. A par da exigência de declarar bens ou serviços prestados no valor igual ou superior de R$ 5 mil, o “agente” que o Conselho está criando é obrigado a “denunciar” seu cliente, caso, seis meses depois, este fizer nova operação que implique valor igual ou superior a R$ 30 mil. E se o prestador se recusar a entrar nesse “grupamento”? Será submetido à multa de até R$ 200 mil, cassação do registro profissional e vedação do exercício da atividade.
É mais que sabido que cabe ao Estado a tarefa de investigar, fiscalizar, controlar e combater todas as veredas que levam às ilicitudes, a partir do tráfico de drogas, de armas, lavagem de dinheiro, peculato, furtos e roubos. Passar o Brasil a limpo deve ser anseio contínuo dos órgãos públicos, o que demanda medidas e ações para defender a sociedade, investigar as máfias que agem nos intestinos do Estado e extirpar os tumores que corrompem os sistemas produtivos. A premissa se torna mais premente ante o paradigma do “puro caos”, que o professor Samuel P. Huntington tão bem descreve em seu Choque de Civilizações: “uma quebra no mundo inteiro da lei e da ordem, Estados fracassados, anarquia crescente, uma onda global de criminalidade, máfias transnacionais, cartéis de drogas, crescente número de viciados, debilitação generalizado da família, declínio na confiança e na solidariedade social em muitos países, violência étnica, religiosa e civilizacional e a lei do revólver predominando em grande parte do planeta”. Tal moldura sugere a maximização de energias por parte das estruturas que executam controles na frente das finanças. Mas qualquer ação ou medida há de se ajustar aos primados consagrados na Carta Magna.
Emerge, aqui, a primeira indagação: a ordem de obrigações e punições emanadas nas duas resoluções do Conselho de Controle de Atividades Financeiras fere ou não princípios da livre iniciativa e do sigilo de dados pessoais, garantidos na Constituição? O tributarista Raul Haidar lembra que apenas leis abrigam o poder de gerar obrigações e sanções. O princípio de que o direito deve se fundar na Constituição, jamais em medidas, decretos, resoluções e até em leis consideradas inconstitucionais, é um dos mais sagrados das Nações democráticas. Desvios e ilegalidades que ocorrem na vida institucional revelam muito sobre o estado civilizatório que o país atravessa. É o caso de enxergar um viés politiqueiro na planificação e execução de políticas de monitoramento do universo dos negócios, não se descartando a hipótese de que grupos, hoje imperando na administração pública, se esforçam para impor uma visão onipotente, onisciente e onipresente. A onipresença fica patente na intenção escancarada de multiplicar os olhos do Big Brother, não deixando nenhum espaço fora de sua vista (George Orwell ficaria embasbacado); a onisciência se apresenta no modo unívoco de entender que o Estado encarna a moral, é a razão efetivada, um Todo ético organizado, na expressão de Hegel, não cometendo erros; e a onipotência se apresenta na atitude rude de rasgar a letra constitucional.
Mais uma observação. Ao contrário da cultura anglosaxã, de rígida obediência à normas, a cultura tupiniquim usa frequentemente as curvas para se moldar aos climas impostos. Será que os inventivos controladores do Conselho não imaginaram o cadastramento de operações falsas, malandragem para atrapalhar concorrentes? Perfis mafiosos ou de má fé não produzirão denúncias apenas para embaralhar as cartas do jogo? É razoável a hipótese de que alguns, entre esses “agentes do Estado”, agirão em causa própria, usando a norma para preencher conveniências pessoais. Na conta das probabilidades, não se descarta a beligerância entre amigos e clientes, quando uns descobrirem que outros apontaram o “dedo duro”.
Nessa moldura, entra bem a imagem de Sólon, um dos sete sábios da Grécia antiga, também conhecido como o pai da Democracia. Perguntaram a ele se as leis que outorgara aos atenienses eram as melhores. Respondeu: “dei-lhes as melhores que podiam eles aguentar”. A resposta do filósofo exprime moderação e clareza mental, valores que construíram a grandeza de Atenas. Ao longo da história da civilização, as Nações beberam nessa fonte de conhecimento, produzindo boas leis, plasmando bons princípios e sólidos valores sobre os quais repousam o edifício das liberdades e os fundamentos do Estado Democrático.
É o caso de indagar aos dirigentes do COAF se as disposições que outorgaram aos brasileiros são condizentes com o império do Direito ou desenham a imagem do Leviatã, o monstro bíblico, cruel e invencível, plasmado pelo ideário absolutista de Thomas Hobbes. Talvez seja o caso de Suas Excelências refletirem sobre a lição de Montesquieu em seu Espírito das Leis: “a única vantagem que um povo livre exerce sobre outro é a segurança que tem de que o capricho de um ou de outro não lhe tirará seus bens ou sua vida. Um povo com esse bom senso seria tão feliz quanto um povo livre”.
O Brasil e o império - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 09/06
BRASÍLIA - Na ditadura militar, dizia-se que "o que é bom para os EUA é bom para o Brasil". Adaptando-se aos novos tempos, temos hoje que "o que é bom para os EUA pode ser muito ruim para o Brasil".
Enquanto os EUA saem da crise devagar e sempre, o Brasil vive uma montanha-russa que foi particularmente estonteante do início ao fim da semana passada. Na sexta, a Bovespa caiu para 51 mil pontos e o dólar subiu para R$ 2,13.
Em boa parte, dizem os experts, isso é resultado da recuperação norte-americana. O dólar resgata seu velho vigor e os EUA voltam a ser atrativos para investidores de diferentes gostos e regiões do planeta.
No Brasil, que se preparou para uma longa crise norte-americana, a reversão de expectativas corresponde a: 1) o dólar subindo ameaça ainda mais a inflação, já no teto de 6,5%; 2) o Banco Central não tem alternativa senão manter a alta dos juros, para tristeza e irritação tanto da presidente quanto da candidata Dilma, franca favorita em 2014.
Como pano de fundo, há a nítida aproximação política entre Brasília e Washington, com troca de amabilidades, visitas para cá e para lá, promessas de lado a lado, programas de cooperação e boas perspectivas comerciais bilaterais.
É nesse contexto que a nova embaixadora Liliana Ayalde chega a Brasília e o craque Paulo Vannuchi é eleito para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, preparando terreno para a normalização da relação do Brasil com a OEA, que une os países latino-americanos aos EUA.
Quem determinou a retirada do embaixador na OEA foi Dilma, mas o processo de esvaziamento do organismo e de substituição pela Unasul começou com Lula. Pode estar sendo interrompido.
Afinal, o Brasil não parece ser mais o queridinho de potências e emergentes, e os EUA dão mostras, na economia e com a ofensiva "Big Brother" em plena era Obama, de que o império não vai ruir tão cedo.
BRASÍLIA - Na ditadura militar, dizia-se que "o que é bom para os EUA é bom para o Brasil". Adaptando-se aos novos tempos, temos hoje que "o que é bom para os EUA pode ser muito ruim para o Brasil".
Enquanto os EUA saem da crise devagar e sempre, o Brasil vive uma montanha-russa que foi particularmente estonteante do início ao fim da semana passada. Na sexta, a Bovespa caiu para 51 mil pontos e o dólar subiu para R$ 2,13.
Em boa parte, dizem os experts, isso é resultado da recuperação norte-americana. O dólar resgata seu velho vigor e os EUA voltam a ser atrativos para investidores de diferentes gostos e regiões do planeta.
No Brasil, que se preparou para uma longa crise norte-americana, a reversão de expectativas corresponde a: 1) o dólar subindo ameaça ainda mais a inflação, já no teto de 6,5%; 2) o Banco Central não tem alternativa senão manter a alta dos juros, para tristeza e irritação tanto da presidente quanto da candidata Dilma, franca favorita em 2014.
Como pano de fundo, há a nítida aproximação política entre Brasília e Washington, com troca de amabilidades, visitas para cá e para lá, promessas de lado a lado, programas de cooperação e boas perspectivas comerciais bilaterais.
É nesse contexto que a nova embaixadora Liliana Ayalde chega a Brasília e o craque Paulo Vannuchi é eleito para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, preparando terreno para a normalização da relação do Brasil com a OEA, que une os países latino-americanos aos EUA.
Quem determinou a retirada do embaixador na OEA foi Dilma, mas o processo de esvaziamento do organismo e de substituição pela Unasul começou com Lula. Pode estar sendo interrompido.
Afinal, o Brasil não parece ser mais o queridinho de potências e emergentes, e os EUA dão mostras, na economia e com a ofensiva "Big Brother" em plena era Obama, de que o império não vai ruir tão cedo.
Os sem saída - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 09/06
Se Eduardo Campos ou Aécio Neves recuarem das respectivas candidaturas presidenciais hoje, deixarão no ar a ideia de rendição. Eduardo, ao PT; e Aécio, ao PSDB de São Paulo
Não raro, os políticos armam suas jogadas de forma a terem vários caminhos a seguir. São poucos aqueles que entram em um corredor com apenas uma porta à frente. Na conjuntura atual, entretanto, vários personagens estão nesse ponto. A começar pelos adversários da presidente Dilma Rousseff na corrida de 2014. O presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), são vistos pela classe política como dois líderes que passaram do ponto de recuo.
Entre os tucanos, Aécio começa agora a percorrer o país com a missão de mostrar aos correligionários que sua candidatura é viável. Nesse sentido, o senador precisa urgentemente conquistar os corações paulistas. Ele certamente não ouvirá, desta vez, do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que o candidato a presidente está escolhido e que será o próprio Aécio. Afinal, com José Serra no ninho tucano - e hoje os paulistas consideram que o ex-governador não deixará o PSDB -, Alckmin não pode descartar desde já a candidatura de Serra, embora saiba das dificuldades que seu antecessor enfrenta.
Só para situar aqueles que não têm acompanhado os movimentos de Serra, ele vem reunindo-se com partidários, em São Paulo, e a essas pessoas dá a entender que ficará. Afinal, uma filiação ao MD de Roberto Freire, sem levar um grande contingente de aliados, soaria como o bloco do "eu sozinho", com um tempo de tevê limitado, o que não é uma boa política. Assim, com Serra dentro do PSDB e as dificuldades eleitorais do próprio Alckmin, o atual governador não tem como simplesmente abraçar, desde já, uma candidatura presidencial fora de São Paulo. Portanto, compete a Aécio agora sair pelo país, mostrar-se capaz de seduzir e empolgar todo o partido para que Alckmin não tenha opção, senão apoiá-lo. Pelo menos, essa é a leitura dos bastidores dos alckministas.
Enquanto isso, no Palácio dos Bandeirantes.
Geraldo Alckmin é também um personagem que hoje não tem alternativa. Com o vice-governador Guilherme Afif Domingos fazendo o jogo do adversário Gilberto Kassab, o governador não tem alternativa que dispense concorrer a mais um mandato. Será, na visão dos próprios tucanos, a missão mais difícil desse afável político de Pindamonhangaba. Alckmin hoje tem mais prestígio no interior do que na capital, o que torna a perspectiva de vitória mais incerta do que das outra vezes que ele concorreu.
O PT, ao contrário do PSDB paulista, está com o frescor da novidade na prefeitura da capital, com Fernando Haddad na preparação de um projeto de 25 anos para a maior cidade do país, sem o estresse eleitoral. Haddad ainda está na fase de arrumar a casa. Afinal, pegou a prefeitura abarrotada de problemas e ainda enfrenta desgastes com as manifestações por conta do reajuste das tarifas de ônibus.
Alckmin também tem sua parcela de desgaste nessas manifestações por causa do metrô, que é estadual. E, diante dos problemas conjuntos, os dois têm convivido muito bem - ambos viajam hoje para Paris, a fim de defender a candidatura de São Paulo à Expo 2020, o terceiro evento quadrienal mais importante do mundo depois dos jogos olímpicos e da Copa da Fifa. As outras concorrentes são Esmirna, na Turquia, um país que passa por fortes convulsões sociais nesse momento. Ekaterimburgo, na Rússia; e Dubai, nos Emirados Árabes. Apesar de Afif, Geraldo Alckimin concluiu que não dá para largar os eventos importantes para o estado como um todo por causa da crise que envolve o ministro/vice-governador.
Desde que perdeu o apoio de Afif para o PSD de Gilberto Kassab, Geraldo Alckmin tem tratado de mudar seu jogo. Nesse sentido, reatou os laços com o PSB de Eduardo Campos e não descarta, hoje, a hipótese de oferecer a vaga de candidato a vice-governador ao deputado Márcio França, do PSB, seu ex-secretário de Turismo. A operação, embora arriscada por causa do DEM, que integra a base governista, pode ser a melhor alternativa para Alckmin, dando ainda a Eduardo Campos um palanque em um estado onde seu partido tem pouco combustível.
Por falar em PSB.
Antes de separar as cartas com que pode jogar nos estados, Eduardo Campos tem tratado de arrumar seu jogo internamente. Nos últimos dias, além de Ciro Gomes, conversou com os governadores e líderes de seu próprio partido. Hoje, se Eduardo recuar da candidatura a presidente da República, depois das andanças que faz pelo Brasil e da propaganda que apresentou na tevê, ficará menor do que é, porque deixará no ar uma certa conformidade com a posição de acessório ao PT. E, até aqui, ele não deu um sinal de construção do discurso de desembarque.
Não raro, os políticos armam suas jogadas de forma a terem vários caminhos a seguir. São poucos aqueles que entram em um corredor com apenas uma porta à frente. Na conjuntura atual, entretanto, vários personagens estão nesse ponto. A começar pelos adversários da presidente Dilma Rousseff na corrida de 2014. O presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), são vistos pela classe política como dois líderes que passaram do ponto de recuo.
Entre os tucanos, Aécio começa agora a percorrer o país com a missão de mostrar aos correligionários que sua candidatura é viável. Nesse sentido, o senador precisa urgentemente conquistar os corações paulistas. Ele certamente não ouvirá, desta vez, do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que o candidato a presidente está escolhido e que será o próprio Aécio. Afinal, com José Serra no ninho tucano - e hoje os paulistas consideram que o ex-governador não deixará o PSDB -, Alckmin não pode descartar desde já a candidatura de Serra, embora saiba das dificuldades que seu antecessor enfrenta.
Só para situar aqueles que não têm acompanhado os movimentos de Serra, ele vem reunindo-se com partidários, em São Paulo, e a essas pessoas dá a entender que ficará. Afinal, uma filiação ao MD de Roberto Freire, sem levar um grande contingente de aliados, soaria como o bloco do "eu sozinho", com um tempo de tevê limitado, o que não é uma boa política. Assim, com Serra dentro do PSDB e as dificuldades eleitorais do próprio Alckmin, o atual governador não tem como simplesmente abraçar, desde já, uma candidatura presidencial fora de São Paulo. Portanto, compete a Aécio agora sair pelo país, mostrar-se capaz de seduzir e empolgar todo o partido para que Alckmin não tenha opção, senão apoiá-lo. Pelo menos, essa é a leitura dos bastidores dos alckministas.
Enquanto isso, no Palácio dos Bandeirantes.
Geraldo Alckmin é também um personagem que hoje não tem alternativa. Com o vice-governador Guilherme Afif Domingos fazendo o jogo do adversário Gilberto Kassab, o governador não tem alternativa que dispense concorrer a mais um mandato. Será, na visão dos próprios tucanos, a missão mais difícil desse afável político de Pindamonhangaba. Alckmin hoje tem mais prestígio no interior do que na capital, o que torna a perspectiva de vitória mais incerta do que das outra vezes que ele concorreu.
O PT, ao contrário do PSDB paulista, está com o frescor da novidade na prefeitura da capital, com Fernando Haddad na preparação de um projeto de 25 anos para a maior cidade do país, sem o estresse eleitoral. Haddad ainda está na fase de arrumar a casa. Afinal, pegou a prefeitura abarrotada de problemas e ainda enfrenta desgastes com as manifestações por conta do reajuste das tarifas de ônibus.
Alckmin também tem sua parcela de desgaste nessas manifestações por causa do metrô, que é estadual. E, diante dos problemas conjuntos, os dois têm convivido muito bem - ambos viajam hoje para Paris, a fim de defender a candidatura de São Paulo à Expo 2020, o terceiro evento quadrienal mais importante do mundo depois dos jogos olímpicos e da Copa da Fifa. As outras concorrentes são Esmirna, na Turquia, um país que passa por fortes convulsões sociais nesse momento. Ekaterimburgo, na Rússia; e Dubai, nos Emirados Árabes. Apesar de Afif, Geraldo Alckimin concluiu que não dá para largar os eventos importantes para o estado como um todo por causa da crise que envolve o ministro/vice-governador.
Desde que perdeu o apoio de Afif para o PSD de Gilberto Kassab, Geraldo Alckmin tem tratado de mudar seu jogo. Nesse sentido, reatou os laços com o PSB de Eduardo Campos e não descarta, hoje, a hipótese de oferecer a vaga de candidato a vice-governador ao deputado Márcio França, do PSB, seu ex-secretário de Turismo. A operação, embora arriscada por causa do DEM, que integra a base governista, pode ser a melhor alternativa para Alckmin, dando ainda a Eduardo Campos um palanque em um estado onde seu partido tem pouco combustível.
Por falar em PSB.
Antes de separar as cartas com que pode jogar nos estados, Eduardo Campos tem tratado de arrumar seu jogo internamente. Nos últimos dias, além de Ciro Gomes, conversou com os governadores e líderes de seu próprio partido. Hoje, se Eduardo recuar da candidatura a presidente da República, depois das andanças que faz pelo Brasil e da propaganda que apresentou na tevê, ficará menor do que é, porque deixará no ar uma certa conformidade com a posição de acessório ao PT. E, até aqui, ele não deu um sinal de construção do discurso de desembarque.
Pinga-fogo - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 09/06
Talvez nenhuma instituição civil tenha feito tanto mal a tantos países, famílias e pessoas quanto o FMI
Um fato mantido nas sombras por sua importância incomum: o FMI reconhece que "graves erros" contidos em sua "política de austeridade" subestimaram o estrago que ela poderia causar na Grécia. E causou: a Grécia sofre a mais terrível situação econômica e social na atual crise europeia.
Talvez nenhuma instituição civil tenha feito tanto mal a tantos países, famílias e pessoas quanto o FMI. A política que impôs à Grécia, o FMI exigiu de muitas nações, inclusive o Brasil, desde os anos 50 do século passado. É, ainda, a receita que muitos economistas promovidos por meios de comunicação cobram hoje do governo brasileiro.
Não foi sem fortes motivos que o FMI pretendeu guardar o estudo do seu feito como "estritamente confidencial" --no entanto vazado para o "Wall Street Journal".
2) Mais uma correnteza de dinheiro em direção ao Congresso. A grita contra os dez vetos de Dilma Rousseff à nova lei dos portos, aprovada pelo Congresso, a rigor é motivada por um só deles: o que derruba a renovação automática, portanto sem licitação, das concessões existentes. Este item já entrara no projeto ao embalo de cifrões privados. Vale ainda mais, agora que sua última oportunidade é a derrubada do veto presidencial no Congresso.
3) No mínimo, resolveu-se uma ilegalidade. Nela Renan Calheiros entrou, com a habitual falta de cerimônia, e consigo arrastou o Congresso, ao decidir não sancionar a criação de quatro novos Tribunais Regionais Federais aprovada por Câmara e Senado. Pendurado em ação no Supremo, deu a garantia ao ministro Joaquim Barbosa, ferozmente contrário ao projeto. Mas Renan não tem o poder de engavetar o que, aprovado, depende da sanção do presidente do Congresso para vigorar.
O ato (só) aparentemente desafiador do presidente interino do Congresso, André Vargas, de sancionar a criação dos TRFs tem um aspecto negativo: o engavetamento abusivo era um exemplo importante da desordem legal imposta ao Congresso, a exemplo também da dos três mil vetos cujo exame está relegado.
Na oposição, parte não citava a ilegalidade do engavetamento para não criar um escândalo em torno do Congresso, e parte para não forçar a sanção indesejada por Joaquim Barbosa. A ilegalidade, portanto, era o de menos.
Em tempo: várias associações de juízes federais, a OAB, o ex-ministro Ayres Britto e o ministro Marco Aurélio Mello são alguns dos muitos apoios aos novos TRFs.
4) Ficou para quarta-feira a conclusão do Supremo Tribunal Federal sobre o projeto que dificulta a criação de mais partidos, além de impedir que parlamentares levem, para os novos, dinheiro do fundo partidário e tempo de propaganda dos seus partidos anteriores. É o projeto em cuja tramitação o ministro Gilmar Mendes interferiu, sustando-a a meio do caminho no Congresso.
Na sessão inicial do caso, quarta passada, a vice-procuradora-geral Deborah Duprat discordou do parecer do procurador-geral Roberto Gurgel, a quem substituía. Duprat centrou-se em argumento tão simples quanto forte: "O Congresso Nacional é o lugar apropriado para decidir projetos de lei, não o Judiciário", por ser aquele, em questões políticas, o "espaço democrático de decisão".
Daí seu acréscimo: "Quanto a isso, me desculpem, mas não posso me calar". Ora, não há o que desculpar, há o que agradecer, por lembrar a Constituição democrática na casa que só deveria defendê-la.
São nada menos que 27 os partidos que buscam legalizar-se.
Talvez nenhuma instituição civil tenha feito tanto mal a tantos países, famílias e pessoas quanto o FMI
Um fato mantido nas sombras por sua importância incomum: o FMI reconhece que "graves erros" contidos em sua "política de austeridade" subestimaram o estrago que ela poderia causar na Grécia. E causou: a Grécia sofre a mais terrível situação econômica e social na atual crise europeia.
Talvez nenhuma instituição civil tenha feito tanto mal a tantos países, famílias e pessoas quanto o FMI. A política que impôs à Grécia, o FMI exigiu de muitas nações, inclusive o Brasil, desde os anos 50 do século passado. É, ainda, a receita que muitos economistas promovidos por meios de comunicação cobram hoje do governo brasileiro.
Não foi sem fortes motivos que o FMI pretendeu guardar o estudo do seu feito como "estritamente confidencial" --no entanto vazado para o "Wall Street Journal".
2) Mais uma correnteza de dinheiro em direção ao Congresso. A grita contra os dez vetos de Dilma Rousseff à nova lei dos portos, aprovada pelo Congresso, a rigor é motivada por um só deles: o que derruba a renovação automática, portanto sem licitação, das concessões existentes. Este item já entrara no projeto ao embalo de cifrões privados. Vale ainda mais, agora que sua última oportunidade é a derrubada do veto presidencial no Congresso.
3) No mínimo, resolveu-se uma ilegalidade. Nela Renan Calheiros entrou, com a habitual falta de cerimônia, e consigo arrastou o Congresso, ao decidir não sancionar a criação de quatro novos Tribunais Regionais Federais aprovada por Câmara e Senado. Pendurado em ação no Supremo, deu a garantia ao ministro Joaquim Barbosa, ferozmente contrário ao projeto. Mas Renan não tem o poder de engavetar o que, aprovado, depende da sanção do presidente do Congresso para vigorar.
O ato (só) aparentemente desafiador do presidente interino do Congresso, André Vargas, de sancionar a criação dos TRFs tem um aspecto negativo: o engavetamento abusivo era um exemplo importante da desordem legal imposta ao Congresso, a exemplo também da dos três mil vetos cujo exame está relegado.
Na oposição, parte não citava a ilegalidade do engavetamento para não criar um escândalo em torno do Congresso, e parte para não forçar a sanção indesejada por Joaquim Barbosa. A ilegalidade, portanto, era o de menos.
Em tempo: várias associações de juízes federais, a OAB, o ex-ministro Ayres Britto e o ministro Marco Aurélio Mello são alguns dos muitos apoios aos novos TRFs.
4) Ficou para quarta-feira a conclusão do Supremo Tribunal Federal sobre o projeto que dificulta a criação de mais partidos, além de impedir que parlamentares levem, para os novos, dinheiro do fundo partidário e tempo de propaganda dos seus partidos anteriores. É o projeto em cuja tramitação o ministro Gilmar Mendes interferiu, sustando-a a meio do caminho no Congresso.
Na sessão inicial do caso, quarta passada, a vice-procuradora-geral Deborah Duprat discordou do parecer do procurador-geral Roberto Gurgel, a quem substituía. Duprat centrou-se em argumento tão simples quanto forte: "O Congresso Nacional é o lugar apropriado para decidir projetos de lei, não o Judiciário", por ser aquele, em questões políticas, o "espaço democrático de decisão".
Daí seu acréscimo: "Quanto a isso, me desculpem, mas não posso me calar". Ora, não há o que desculpar, há o que agradecer, por lembrar a Constituição democrática na casa que só deveria defendê-la.
São nada menos que 27 os partidos que buscam legalizar-se.
Não para de crescer - BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR
GAZETA DO POVO - 09/06
O governo federal resolveu recriar a Embrater, a empresa de extensão rural do tempo do governo militar, com o nome de Anater. Mais uma estatal que renasce das cinzas depois de ter desaparecido exatamente porque não conseguiu demonstrar sua utilidade no passado. Diga-se de passagem que o setor agrícola é o que tem apresentado maiores ganhos de produtividade no país graças, fundamentalmente, à Embrapa e aos empresários privados, mas é claro também que os defensores da Anater vão argumentar que agora, com ela, os resultados serão ainda mais brilhantes...
O governo do Paraná está discutindo o local da sede da Universidade do Estado do Paraná (Unespar) como se fosse a coisa mais natural do mundo ter sete universidades estaduais. Nenhum estado brasileiro tem sete universidades, pois cada uma delas precisa ter reitor, vice-reitor, pró-reitores, diretores e coordenadores de cursos, conselhos de ensino e pesquisa e conselhos universitários... e toda a prática sibarítica que compõe uma grande burocracia. Nós – que, segundo o secretário da Fazenda, temos dificuldades até para pagar a folha de pagamento – temos sete...
Já o Congresso não deixa por menos: está aprovando novas regras para a criação de municípios no Brasil, o que pode resultar em mais de 400 novos deles, todos ou quase todos com absoluta inviabilidade financeira. O Paraná tem hoje quase 400 municípios, dos quais 220 absolutamente inviáveis, incapazes de pagar suas contas mais elementares. O desmembramento de municípios é um jogo de espertezas que explora os anseios naturais de autonomia de distritos e subsedes municipais de cidades prósperas, mas que, com as exceções da regra, resulta em empobrecimento geral. Os políticos ganham porque criam cargos eletivos de prefeito, vice-prefeito e vereadores, enquanto não desgrudam o olho da possibilidade de desmembrar cartórios mediante a redistribuição do mapa judiciário. E então nasce um novo ente federativo, o mais das vezes inviável técnica e economicamente, mas ele terá um prefeito, um vice-prefeito, uma Câmara Municipal de nove vereadores no mínimo, um cartório eleitoral, várias secretarias municipais etc. etc. etc.
E assim caminhamos celeremente para re-entronizar a crença de que o Estado é o único ente capaz de promover o desenvolvimento brasileiro, quando o que a prática nos ensinou durante 70 anos é que essa crença tem de ser relativizada e restrita. O Brasil deve muito ao Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), público, mas, quando tentou manter uma empresa pública para produzir aviões, a Embraer, esta quase quebrou e foi salva da falência pela privatização (um termo maldito para o governo petista), transformando-se em uma das líderes mundiais desse setor supersofisticado. O Brasil deve muito à Embrapa, pública, mas o grande desenvolvimento da lavoura e da pecuária no país foi feito por empresas e empresários privados que transformaram um rebanho devastado pela aftosa e pelas zoonoses na maior exportadora de carnes do mundo e que supera os Estados Unidos na produtividade da soja, por exemplo.
Michel Crozier, o grande sociólogo e politicólogo francês, dizia que “o Estado moderno é o Estado modesto”, sem pompas, presente, mas não opressivo; eficaz, mas cioso de seus limites e limitações. Disse isso há 30 anos, mas até agora sua mensagem não chegou por aqui.
O governo federal resolveu recriar a Embrater, a empresa de extensão rural do tempo do governo militar, com o nome de Anater. Mais uma estatal que renasce das cinzas depois de ter desaparecido exatamente porque não conseguiu demonstrar sua utilidade no passado. Diga-se de passagem que o setor agrícola é o que tem apresentado maiores ganhos de produtividade no país graças, fundamentalmente, à Embrapa e aos empresários privados, mas é claro também que os defensores da Anater vão argumentar que agora, com ela, os resultados serão ainda mais brilhantes...
O governo do Paraná está discutindo o local da sede da Universidade do Estado do Paraná (Unespar) como se fosse a coisa mais natural do mundo ter sete universidades estaduais. Nenhum estado brasileiro tem sete universidades, pois cada uma delas precisa ter reitor, vice-reitor, pró-reitores, diretores e coordenadores de cursos, conselhos de ensino e pesquisa e conselhos universitários... e toda a prática sibarítica que compõe uma grande burocracia. Nós – que, segundo o secretário da Fazenda, temos dificuldades até para pagar a folha de pagamento – temos sete...
Já o Congresso não deixa por menos: está aprovando novas regras para a criação de municípios no Brasil, o que pode resultar em mais de 400 novos deles, todos ou quase todos com absoluta inviabilidade financeira. O Paraná tem hoje quase 400 municípios, dos quais 220 absolutamente inviáveis, incapazes de pagar suas contas mais elementares. O desmembramento de municípios é um jogo de espertezas que explora os anseios naturais de autonomia de distritos e subsedes municipais de cidades prósperas, mas que, com as exceções da regra, resulta em empobrecimento geral. Os políticos ganham porque criam cargos eletivos de prefeito, vice-prefeito e vereadores, enquanto não desgrudam o olho da possibilidade de desmembrar cartórios mediante a redistribuição do mapa judiciário. E então nasce um novo ente federativo, o mais das vezes inviável técnica e economicamente, mas ele terá um prefeito, um vice-prefeito, uma Câmara Municipal de nove vereadores no mínimo, um cartório eleitoral, várias secretarias municipais etc. etc. etc.
E assim caminhamos celeremente para re-entronizar a crença de que o Estado é o único ente capaz de promover o desenvolvimento brasileiro, quando o que a prática nos ensinou durante 70 anos é que essa crença tem de ser relativizada e restrita. O Brasil deve muito ao Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), público, mas, quando tentou manter uma empresa pública para produzir aviões, a Embraer, esta quase quebrou e foi salva da falência pela privatização (um termo maldito para o governo petista), transformando-se em uma das líderes mundiais desse setor supersofisticado. O Brasil deve muito à Embrapa, pública, mas o grande desenvolvimento da lavoura e da pecuária no país foi feito por empresas e empresários privados que transformaram um rebanho devastado pela aftosa e pelas zoonoses na maior exportadora de carnes do mundo e que supera os Estados Unidos na produtividade da soja, por exemplo.
Michel Crozier, o grande sociólogo e politicólogo francês, dizia que “o Estado moderno é o Estado modesto”, sem pompas, presente, mas não opressivo; eficaz, mas cioso de seus limites e limitações. Disse isso há 30 anos, mas até agora sua mensagem não chegou por aqui.
Farol do Iluminismo - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 09/06
SÃO PAULO - Cobram-me um posicionamento em relação às invectivas que minha antiga professora de filosofia Marilena Chaui fez contra a classe média. Para os que não tomaram ciência, ao falar no lançamento do livro "10 Anos de Governos Pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma", no mês passado, Marilena declarou: "A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim".
Eu também gostaria que nossas elites estivessem um pouco mais à esquerda do que estão, pelo menos no que diz respeito às liberdades e à defesa de soluções pacíficas para todo gênero de conflito, mas não podemos esquecer que vivemos num país basicamente conservador e, na comparação com as camadas populares, a classe média brasileira desponta quase como um farol do Iluminismo.
E nem é preciso muito malabarismo filosófico para chegar a essa conclusão. Trata-se, na verdade, de uma questão empírica fácil de verificar. As várias pesquisas Datafolha que exploraram a opinião do brasileiro em temas controversos publicadas ao longo dos últimos anos mostram que são invariavelmente os mais ricos que manifestam as posições mais progressistas. Eles apoiam proporcionalmente mais do que os pobres o aborto, a eutanásia e a legalização das drogas. São mais tolerantes em relação ao homossexualismo e menos religiosos. Tendem a ser mais severos com políticos corruptos.
Quem primeiro chamou a atenção para esse fenômeno foi o sociólogo Alberto Carlos Almeida no livro "A Cabeça do Brasileiro", lançado em 2007 e que, à época, despertou bastante polêmica. Se pensarmos bem, entretanto, tais conclusões não deveriam surpreender ninguém. É mais do que conhecida a correlação entre renda e nível de instrução, e uma das principais razões por que mandamos as crianças para a escola é torná-las pessoas mais sábias e esclarecidas.
SÃO PAULO - Cobram-me um posicionamento em relação às invectivas que minha antiga professora de filosofia Marilena Chaui fez contra a classe média. Para os que não tomaram ciência, ao falar no lançamento do livro "10 Anos de Governos Pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma", no mês passado, Marilena declarou: "A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim".
Eu também gostaria que nossas elites estivessem um pouco mais à esquerda do que estão, pelo menos no que diz respeito às liberdades e à defesa de soluções pacíficas para todo gênero de conflito, mas não podemos esquecer que vivemos num país basicamente conservador e, na comparação com as camadas populares, a classe média brasileira desponta quase como um farol do Iluminismo.
E nem é preciso muito malabarismo filosófico para chegar a essa conclusão. Trata-se, na verdade, de uma questão empírica fácil de verificar. As várias pesquisas Datafolha que exploraram a opinião do brasileiro em temas controversos publicadas ao longo dos últimos anos mostram que são invariavelmente os mais ricos que manifestam as posições mais progressistas. Eles apoiam proporcionalmente mais do que os pobres o aborto, a eutanásia e a legalização das drogas. São mais tolerantes em relação ao homossexualismo e menos religiosos. Tendem a ser mais severos com políticos corruptos.
Quem primeiro chamou a atenção para esse fenômeno foi o sociólogo Alberto Carlos Almeida no livro "A Cabeça do Brasileiro", lançado em 2007 e que, à época, despertou bastante polêmica. Se pensarmos bem, entretanto, tais conclusões não deveriam surpreender ninguém. É mais do que conhecida a correlação entre renda e nível de instrução, e uma das principais razões por que mandamos as crianças para a escola é torná-las pessoas mais sábias e esclarecidas.
Turbulência à frente - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 09/06
Pesquisa Datafolha detecta queda na popularidade da presidente Dilma, que em seu terceiro ano de mandato ainda não galvanizou o país
Talvez por inexperiência, a presidente Dilma Rousseff aparenta não atentar para uma obviedade política e eleitoral: ninguém ultrapassa impunemente a metade de um mandato na Presidência.
O ocupante do Planalto que não investe logo o capital de confiança obtido nas urnas em reformas e programas capazes de fazer o país avançar de fato, e não só na propaganda, está condenado à sua dilapidação. É o que indica a nova pesquisa Datafolha.
A avaliação da presidente, que há menos de três meses alcançava 65% de ótimo e bom, perdeu oito pontos. Se Dilma acreditava que bastariam o desemprego baixo e a construção publicitária de um Brasil sem miséria para seguir em voo de cruzeiro até a eleição de 2014, ganha agora mais motivos para preocupar-se com turbulências.
Recomenda-se que escrutine com atenção seu radar. A maior mancha na tela indica o recrudescimento e a renitência da inflação. Aliada ao crédito em recuo, ela corrói o poder aquisitivo e, por consequência, a sensação generalizada de bem-estar suscitada pela alta do consumo --o qual, se não chega a cair, já ameaça parar de crescer.
A parcela da classe média que não via o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com bons olhos, mas de início foi seduzida pela imagem da sucessora de intolerância com a corrupção, já vai atinando que Dilma não é imune aos apetites da horda de partidos comensais que em teoria a apoiam no Congresso. A sucessão de batalhas parlamentares contribui para solapar a autoridade de seu cargo.
Mesmo entre os cerca de 40 milhões de brasileiros que mais têm motivos para incensar os governos do PT --os mais de 13 milhões de famílias agraciadas com o Bolsa Família-- a estrela da administração Dilma terá esmaecido, ainda que temporariamente. A barbeiragem da Caixa Econômica Federal no pagamento dos benefícios, cuja antecipação sem aviso deflagrou boatos e corridas às agências, pode também ter contribuído para arranhar sua popularidade.
Mais consistente é a perda de prestígio de sua administração entre empresários, tantos são os desencontros da política econômica e as dificuldades para pôr o crescimento do PIB numa rota segura, para não falar do controle da inflação e dos gastos públicos.
Deram-se passos necessários e importantes, como na redução de tarifas de energia e no enfrentamento do atraso dos portos. Mas ainda seguem em ritmo hesitante as grandes obras de infraestrutura e sua concessão ao setor privado.
A queda de popularidade da presidente detectada pelo Datafolha pode, claro, ser revertida. Sugere, porém, que perdeu algum crédito com parte do público e que poderá sentir falta dele em 2014.
Cada vez maior a farra fiscal - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 09/06
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, respondeu com mais uma de suas bravatas à agência de classificação de risco Standard & Poor's (S&P), um dia depois de rebaixada a perspectiva do Brasil de estável para negativa. Segundo ele, a agência terá de mudar sua avaliação para um viés de alta, se isso depender da perspectiva econômica do País. A economia brasileira, argumentou, teve um "desempenho razoável" no primeiro trimestre e há sinais de crescimento maior no segundo.
É um arrazoado estranho. Depois de dois anos de estagnação, seria necessária uma expansão muito superior a 0,6% num trimestre para caracterizar uma evolução "razoável".
Se o Produto Interno Bruto (PIB) crescer 3% neste ano, a expansão no triênio terá ficado em pífios 2,2% ao ano.
Além disso, o ministro Mantega descartou muito facilmente outros pontos. Ao adotar o viés de baixa, os avaliadores levaram em conta o risco de uma piora das contas públicas, já comprometidas pela combinação de excesso de gastos com desonerações mal planejadas. Somaram a isso a preocupação com o rápido aumento das operações dos bancos públicos e com o seu risco de crédito. Além disso, a justificativa da agência menciona também o baixo nível de investimentos e a fraqueza das exportações.
O anúncio da S&P coincidiu com a divulgação de duas más notícias sobre as contas públicas. Autorizado pela Medida Provisória (MP) 618, o Tesouro Nacional deverá repassar mais R$ 15 bilhões ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e uma quantia igual à Valec.
Esse dinheiro será levantado com mais endividamento, por meio da colocação de títulos federais no mercado. A transferência será feita por meio de um empréstimo sem prazo de vencimento. O governo poderá disfarçar outros efeitos, contabilmente, mas o impacto sobre a dí- vida bruta do Tesouro será evidente, e esse é o ponto mais relevante para os credores e demais agentes do mercado.
Além disso, o BNDES terá um desconto da dívida acumulada com o Tesouro desde 1997. A maior parte dessa dívida corresponde a transferências ligadas ao Programa de Sustentação de Investimentos, instituído em 2009 como instrumento de ação contra a crise. O governo deveria ter encerrado esse programa em poucos meses, mas decidiu renová-lo mais de uma vez. Entre 2009 e 2012 o Tesouro transferiu para o banco R$ 280 bilhões. A MP ainda autorizou o BNDES a descasar ativos e passivos de operações em dólares.
A outra má notícia reforça as expectativas de um mau resultado fiscal neste ano. O governo só conseguirá fechar suas contas - mesmo abatendo R$ 45 bilhões de investimentos e desonerações da meta fiscal - com a inclusão do bônus de assinatura das licitações do pré-sal na receita do Tesouro. A receita de concessões, inicialmente estimada em R$ 3,3 bilhões, foi revista em maio para R$ 15,6 bilhões, mas poderá ser maior, segundo fontes do Executivo.
O governo deverá usar, portanto, além dos truques já conhecidos, a contabilização de uma receita meramente eventual, sem perspectiva de repetição nos próximos anos.
Mas a maior parte da gastança financiada pelo Tesouro deverá ser permanente.
A bagunça fiscal permanece, é indisfarçável e é inútil o governo rejeitar as avaliações de agências de classificação de risco ou de quaisquer outras entidades. Agências como a S&P têm o poder especial de prejudicar governos e países com suas opiniões negativas, certas ou erradas, mas esse é o menor problema. Muito mais grave, com ou sem classificação negativa, é o dano causado pelo manejo irresponsável das finanças públicas.
O Banco Central voltou a acentuar, na quinta-feira passada, a importância da política fiscal para o combate à inflação e para a preservação da confiança. Sem isso, ninguém poderá contar com estabilidade de preços nem com os investimentos indispensáveis ao País. A inflação em 12 meses continua no limite da margem de tolerância (6,5%), e os investimentos ainda estão longe do nível mínimo desejável. Nenhum desses indicadores vai melhorar com a farra fiscal.
É um arrazoado estranho. Depois de dois anos de estagnação, seria necessária uma expansão muito superior a 0,6% num trimestre para caracterizar uma evolução "razoável".
Se o Produto Interno Bruto (PIB) crescer 3% neste ano, a expansão no triênio terá ficado em pífios 2,2% ao ano.
Além disso, o ministro Mantega descartou muito facilmente outros pontos. Ao adotar o viés de baixa, os avaliadores levaram em conta o risco de uma piora das contas públicas, já comprometidas pela combinação de excesso de gastos com desonerações mal planejadas. Somaram a isso a preocupação com o rápido aumento das operações dos bancos públicos e com o seu risco de crédito. Além disso, a justificativa da agência menciona também o baixo nível de investimentos e a fraqueza das exportações.
O anúncio da S&P coincidiu com a divulgação de duas más notícias sobre as contas públicas. Autorizado pela Medida Provisória (MP) 618, o Tesouro Nacional deverá repassar mais R$ 15 bilhões ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e uma quantia igual à Valec.
Esse dinheiro será levantado com mais endividamento, por meio da colocação de títulos federais no mercado. A transferência será feita por meio de um empréstimo sem prazo de vencimento. O governo poderá disfarçar outros efeitos, contabilmente, mas o impacto sobre a dí- vida bruta do Tesouro será evidente, e esse é o ponto mais relevante para os credores e demais agentes do mercado.
Além disso, o BNDES terá um desconto da dívida acumulada com o Tesouro desde 1997. A maior parte dessa dívida corresponde a transferências ligadas ao Programa de Sustentação de Investimentos, instituído em 2009 como instrumento de ação contra a crise. O governo deveria ter encerrado esse programa em poucos meses, mas decidiu renová-lo mais de uma vez. Entre 2009 e 2012 o Tesouro transferiu para o banco R$ 280 bilhões. A MP ainda autorizou o BNDES a descasar ativos e passivos de operações em dólares.
A outra má notícia reforça as expectativas de um mau resultado fiscal neste ano. O governo só conseguirá fechar suas contas - mesmo abatendo R$ 45 bilhões de investimentos e desonerações da meta fiscal - com a inclusão do bônus de assinatura das licitações do pré-sal na receita do Tesouro. A receita de concessões, inicialmente estimada em R$ 3,3 bilhões, foi revista em maio para R$ 15,6 bilhões, mas poderá ser maior, segundo fontes do Executivo.
O governo deverá usar, portanto, além dos truques já conhecidos, a contabilização de uma receita meramente eventual, sem perspectiva de repetição nos próximos anos.
Mas a maior parte da gastança financiada pelo Tesouro deverá ser permanente.
A bagunça fiscal permanece, é indisfarçável e é inútil o governo rejeitar as avaliações de agências de classificação de risco ou de quaisquer outras entidades. Agências como a S&P têm o poder especial de prejudicar governos e países com suas opiniões negativas, certas ou erradas, mas esse é o menor problema. Muito mais grave, com ou sem classificação negativa, é o dano causado pelo manejo irresponsável das finanças públicas.
O Banco Central voltou a acentuar, na quinta-feira passada, a importância da política fiscal para o combate à inflação e para a preservação da confiança. Sem isso, ninguém poderá contar com estabilidade de preços nem com os investimentos indispensáveis ao País. A inflação em 12 meses continua no limite da margem de tolerância (6,5%), e os investimentos ainda estão longe do nível mínimo desejável. Nenhum desses indicadores vai melhorar com a farra fiscal.
Os malefícios da campanha eleitoral antecipada - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 09/06
A base parlamentar ficou mais instável e há o perigo de, diante das dificuldades na economia, Dilma agir como candidata quando deve ser presidente
Políticos gostam de antecipar campanhas eleitorais para aproveitar momentos de altos índices de popularidade. A presidente Dilma se enquadra no caso, mas consta que foi seu patrono e mentor, o ex-presidente Lula, que decidiu puxar o calendário de 2014 com um de dois objetivos ou ambos: esvaziar o "queremismo" que se alastrava no PT e base aliada, a favor de sua recandidatura e/ou ofuscar a repercussão da descoberta do esquema de lobby montado em altas esferas do poder por Rosemary Noronha, chefe de gabinete da representação da Presidência em São Paulo, emprego obtido por interferência do próprio Lula. Objetivos atingidos: os saudosos de um Planalto afável e mais aberto a barganhas baixaram o vozerio pela volta de Lula — pelo menos por enquanto — e o caso Rose, coincidência ou não, perdeu espaço no noticiário.
E, como previsto, o resultado da antecipação da campanha tem sido funesto para a administração Dilma. Interesses político-eleitorais passaram a contaminar votações no Congresso e induziram a oposição a agir com o único objetivo de prejudicar Dilma, a adversária a ser batida em 2014, independentemente do mérito dos projetos encaminhados ao Legislativo. Aconteceu na MP dos Portos, cujo objetivo de reformar um elo fraco da frágil infraestrutura não poderia ser atacado pela oposição, pois foi ela, no poder, que executou a primeira fase deste projeto de modernização.
A campanha precoce fragmentou ainda mais a base parlamentar. Houve o inevitável e também prematuro ensaio de lançamento do dissidente Eduardo Campos (PSB), governador de Pernambuco, a 2014, e a gelatinosa base do governo ficou mais instável, PMDB à frente. O Congresso passou a enxergar e avaliar todas as iniciativas do governo pelas lentes de 2014. Tudo isso somado ao recrudescimento da inflação, com o consequente aumento das incertezas em relação a 2014, injetou nos partidos governistas razoável dose de preocupação com o futuro. Quem pode garantir que a popularidade da presidente continuará em níveis elevados no segundo semestre do ano que vem?
O senso de oportunidade de Gilberto Kassab e seu PSD é um espelho do momento. Isso foi demonstrado na curiosa explicação de que o pessedista Guilherme Afif assumiu o ministério da pequena e média empresa na "cota pessoal" de Dilma, não como representante do partido. Explica-se a pirueta: se a economia degringolar e a reeleição ficar um projeto arriscado, Kassab e partido ficam livres para aderir à oposição à primeira hora. Se não, Afif funcionará como bilhete de entrada do partido na aliança do segundo mandato. Espertezas da política brasileira.
Outro efeito da antecipação da campanha é deixar aberta a possibilidade de as urnas contaminarem a política econômica, tornando-a refém da busca por votos. Seria um erro suicida. Antecipar a campanha foi um equívoco também porque Dilma, nesta hora de dificuldades na economia, precisa ser mais presidente e menos candidata.
A base parlamentar ficou mais instável e há o perigo de, diante das dificuldades na economia, Dilma agir como candidata quando deve ser presidente
Políticos gostam de antecipar campanhas eleitorais para aproveitar momentos de altos índices de popularidade. A presidente Dilma se enquadra no caso, mas consta que foi seu patrono e mentor, o ex-presidente Lula, que decidiu puxar o calendário de 2014 com um de dois objetivos ou ambos: esvaziar o "queremismo" que se alastrava no PT e base aliada, a favor de sua recandidatura e/ou ofuscar a repercussão da descoberta do esquema de lobby montado em altas esferas do poder por Rosemary Noronha, chefe de gabinete da representação da Presidência em São Paulo, emprego obtido por interferência do próprio Lula. Objetivos atingidos: os saudosos de um Planalto afável e mais aberto a barganhas baixaram o vozerio pela volta de Lula — pelo menos por enquanto — e o caso Rose, coincidência ou não, perdeu espaço no noticiário.
E, como previsto, o resultado da antecipação da campanha tem sido funesto para a administração Dilma. Interesses político-eleitorais passaram a contaminar votações no Congresso e induziram a oposição a agir com o único objetivo de prejudicar Dilma, a adversária a ser batida em 2014, independentemente do mérito dos projetos encaminhados ao Legislativo. Aconteceu na MP dos Portos, cujo objetivo de reformar um elo fraco da frágil infraestrutura não poderia ser atacado pela oposição, pois foi ela, no poder, que executou a primeira fase deste projeto de modernização.
A campanha precoce fragmentou ainda mais a base parlamentar. Houve o inevitável e também prematuro ensaio de lançamento do dissidente Eduardo Campos (PSB), governador de Pernambuco, a 2014, e a gelatinosa base do governo ficou mais instável, PMDB à frente. O Congresso passou a enxergar e avaliar todas as iniciativas do governo pelas lentes de 2014. Tudo isso somado ao recrudescimento da inflação, com o consequente aumento das incertezas em relação a 2014, injetou nos partidos governistas razoável dose de preocupação com o futuro. Quem pode garantir que a popularidade da presidente continuará em níveis elevados no segundo semestre do ano que vem?
O senso de oportunidade de Gilberto Kassab e seu PSD é um espelho do momento. Isso foi demonstrado na curiosa explicação de que o pessedista Guilherme Afif assumiu o ministério da pequena e média empresa na "cota pessoal" de Dilma, não como representante do partido. Explica-se a pirueta: se a economia degringolar e a reeleição ficar um projeto arriscado, Kassab e partido ficam livres para aderir à oposição à primeira hora. Se não, Afif funcionará como bilhete de entrada do partido na aliança do segundo mandato. Espertezas da política brasileira.
Outro efeito da antecipação da campanha é deixar aberta a possibilidade de as urnas contaminarem a política econômica, tornando-a refém da busca por votos. Seria um erro suicida. Antecipar a campanha foi um equívoco também porque Dilma, nesta hora de dificuldades na economia, precisa ser mais presidente e menos candidata.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Estamos à beira de um colapso”
Presidente da Fecomércio-PI, Valdeci Cavalcante, sobre os altos índices de inflação
AÉCIO APROVEITA RACHA NO PMDB PARA BUSCAR APOIO
Virtual candidato do PSDB à Presidência, o senador Aécio Neves (MG) tem procurado grupo dissidente do PMDB no Senado para tentar costurar aliança para 2014. Durante as conversas, ele engrossa o coro dos descontentes, acusando o governo Dilma de “maltratar” aliados e garante que – com a candidatura de Marina Silva e Eduardo Campos (PSB) – a oposição tem 80% de chance de ir a segundo turno.
OPORTUNIDADE
Aécio também tem procurado lideranças do PMDB dos doze Estados contrários à reedição da aliança com o PT em 2014.
AÉCIO, NÃO
A bancada do PMDB-RS, que apoiou o tucano José Serra em 2010, garante que não há a menor chance de se aliar a Aécio Neves.
À LUTA
Com o PT-CE negando-lhe apoio para governador, o líder do PMDB, Eunício Oliveira, é uma bomba-relógio contra o governo, no Senado.
PENSANDO BEM...
...o diabo parece que está gostando do que Dilma prometeu fazer com ele “quando é hora de eleição”.
MINISTRO INDISPÕE BANCADA COM TEMER
Alvo de críticas no PMDB, o ministro Antônio Andrade (Agricultura) agora comprou briga com o vice-presidente Michel Temer, por quem foi indicado à pasta, em articulação com ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento). Andrade tem se negado a nomear cargos prometidos à bancada alegando que as diretorias são ocupadas por indicações de Temer desde a gestão do ex-ministro Wagner Rossi.
JOGO DO EMPURRA
Procurado por peemedebistas, o vice Michel Temer foi peremptório ao declarar que não tem mantido qualquer cargo na Agricultura.
DO ALTO DO OLIMPO
A bancada do PMDB reclama que, além de não emplacar indicações, sequer consegue audiências com o ministro Antônio Andrade.
NA COZINHA COM DILMA
A Presidência da República vai gastar nas cozinhas até R$ 74,2 mil com freezer, fornos, 9 batedeiras, 9 liquidificadores e, epa!, faca elétrica.
SAI DE BAIXO
Dilma recebeu em primeira mão a informação da queda de 4 a 8 pontos percentuais na aprovação do seu desempenho, dependendo da classe social, e o motivo é o retorno da inflação. Madame ficou nervosíssima.
VIVA MÉXICO
Longo artigo do chanceler Antônio Patriota, na rede internacional do Project Syndicate, faz parecer que o Brasil abdicou de um acalentado projeto: defendeu assento permanente no conselho de segurança da ONU... “para a América Latina e África”. Os mexicanos adoraram.
NÃO SOU DE NINGUÉM
Com receio de perder a ampla aliança na disputa pela reeleição em 2014, o governador Renato Casagrande (PSB-ES) tem dito aos quatro cantos que não dará palanque à Dilma, nem a Eduardo Campos (PSB).
É O DESTINO
Aspirante ao Planalto em 2014, Aécio Neves (PSDB-MG) apelou às afinidades em reunião com Paulo Hartung (PMDB-ES) essa semana. Lembrou que foram deputados e governadores no mesmo período.
MEDO DE RASTEIRA
Presidente da Fiesp, Paulo Skaf quer reunião com executiva do PMDB esta semana para tratar de sua candidatura ao governo de São Paulo. Alvo de denúncias recentes, Gabriel Chalita não se vê fora do jogo.
PRODUTOR É QUEM SOFRE
O deputado Fábio Trad (PMDB-MS) critica a demarcação de terras de índios: “O governo tem mais de 30 mil hectares de terras confiscadas de traficantes de drogas. Por que não assenta os índios nelas?”.
CIÊNCIA SEM FRONTEIRAS
O vice-presidente Michel Temer, que fez a primeira viagem oficial de um dirigente brasileiro à Hungria, acertou o oferecimento de 449 bolsas de estudos para brasileiros, em 14 universidades do país.
DANÇA DAS CADEIRAS
O PMDB da Câmara e do Senado está de olho na mudança de cargos nos principais órgãos do Nordeste: Codevasf, Sudene, Banco do Nordeste do Brasil e Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS).
PENSANDO BEM...
... com escândalos torrando dinheiro público desde a era Palocci, a Caixa não é Econômica faz tempo.
PODER SEM PUDOR
PLEONASMO NOS OLHOS
Político tão esperto quanto simplório, Benedito Valadares era governador de Minas quando encontrou na antessala de Getúlio Vargas o ministro da Educação, Gustavo Capanema, que estranhou seus óculos escuros.
- É uma conjuntivite nos olhos - explicou Valadares.
- Benedito, isso é um pleonasmo! - reagiu o ministro, professoral.
Valadares ignorou a observação e entrou para falar com Vargas. O presidente também estranhou os óculos escuros. Ele reagiu:
- Presidente, o médico lá em Minas disse que era uma conjuntivite nos olhos, mas o Capanema, que quer ser mais sabido que os médicos, me disse que é um pleonasmo!...
Presidente da Fecomércio-PI, Valdeci Cavalcante, sobre os altos índices de inflação
AÉCIO APROVEITA RACHA NO PMDB PARA BUSCAR APOIO
Virtual candidato do PSDB à Presidência, o senador Aécio Neves (MG) tem procurado grupo dissidente do PMDB no Senado para tentar costurar aliança para 2014. Durante as conversas, ele engrossa o coro dos descontentes, acusando o governo Dilma de “maltratar” aliados e garante que – com a candidatura de Marina Silva e Eduardo Campos (PSB) – a oposição tem 80% de chance de ir a segundo turno.
OPORTUNIDADE
Aécio também tem procurado lideranças do PMDB dos doze Estados contrários à reedição da aliança com o PT em 2014.
AÉCIO, NÃO
A bancada do PMDB-RS, que apoiou o tucano José Serra em 2010, garante que não há a menor chance de se aliar a Aécio Neves.
À LUTA
Com o PT-CE negando-lhe apoio para governador, o líder do PMDB, Eunício Oliveira, é uma bomba-relógio contra o governo, no Senado.
PENSANDO BEM...
...o diabo parece que está gostando do que Dilma prometeu fazer com ele “quando é hora de eleição”.
MINISTRO INDISPÕE BANCADA COM TEMER
Alvo de críticas no PMDB, o ministro Antônio Andrade (Agricultura) agora comprou briga com o vice-presidente Michel Temer, por quem foi indicado à pasta, em articulação com ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento). Andrade tem se negado a nomear cargos prometidos à bancada alegando que as diretorias são ocupadas por indicações de Temer desde a gestão do ex-ministro Wagner Rossi.
JOGO DO EMPURRA
Procurado por peemedebistas, o vice Michel Temer foi peremptório ao declarar que não tem mantido qualquer cargo na Agricultura.
DO ALTO DO OLIMPO
A bancada do PMDB reclama que, além de não emplacar indicações, sequer consegue audiências com o ministro Antônio Andrade.
NA COZINHA COM DILMA
A Presidência da República vai gastar nas cozinhas até R$ 74,2 mil com freezer, fornos, 9 batedeiras, 9 liquidificadores e, epa!, faca elétrica.
SAI DE BAIXO
Dilma recebeu em primeira mão a informação da queda de 4 a 8 pontos percentuais na aprovação do seu desempenho, dependendo da classe social, e o motivo é o retorno da inflação. Madame ficou nervosíssima.
VIVA MÉXICO
Longo artigo do chanceler Antônio Patriota, na rede internacional do Project Syndicate, faz parecer que o Brasil abdicou de um acalentado projeto: defendeu assento permanente no conselho de segurança da ONU... “para a América Latina e África”. Os mexicanos adoraram.
NÃO SOU DE NINGUÉM
Com receio de perder a ampla aliança na disputa pela reeleição em 2014, o governador Renato Casagrande (PSB-ES) tem dito aos quatro cantos que não dará palanque à Dilma, nem a Eduardo Campos (PSB).
É O DESTINO
Aspirante ao Planalto em 2014, Aécio Neves (PSDB-MG) apelou às afinidades em reunião com Paulo Hartung (PMDB-ES) essa semana. Lembrou que foram deputados e governadores no mesmo período.
MEDO DE RASTEIRA
Presidente da Fiesp, Paulo Skaf quer reunião com executiva do PMDB esta semana para tratar de sua candidatura ao governo de São Paulo. Alvo de denúncias recentes, Gabriel Chalita não se vê fora do jogo.
PRODUTOR É QUEM SOFRE
O deputado Fábio Trad (PMDB-MS) critica a demarcação de terras de índios: “O governo tem mais de 30 mil hectares de terras confiscadas de traficantes de drogas. Por que não assenta os índios nelas?”.
CIÊNCIA SEM FRONTEIRAS
O vice-presidente Michel Temer, que fez a primeira viagem oficial de um dirigente brasileiro à Hungria, acertou o oferecimento de 449 bolsas de estudos para brasileiros, em 14 universidades do país.
DANÇA DAS CADEIRAS
O PMDB da Câmara e do Senado está de olho na mudança de cargos nos principais órgãos do Nordeste: Codevasf, Sudene, Banco do Nordeste do Brasil e Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS).
PENSANDO BEM...
... com escândalos torrando dinheiro público desde a era Palocci, a Caixa não é Econômica faz tempo.
PODER SEM PUDOR
PLEONASMO NOS OLHOS
Político tão esperto quanto simplório, Benedito Valadares era governador de Minas quando encontrou na antessala de Getúlio Vargas o ministro da Educação, Gustavo Capanema, que estranhou seus óculos escuros.
- É uma conjuntivite nos olhos - explicou Valadares.
- Benedito, isso é um pleonasmo! - reagiu o ministro, professoral.
Valadares ignorou a observação e entrou para falar com Vargas. O presidente também estranhou os óculos escuros. Ele reagiu:
- Presidente, o médico lá em Minas disse que era uma conjuntivite nos olhos, mas o Capanema, que quer ser mais sabido que os médicos, me disse que é um pleonasmo!...
DOMINGO NOS JORNAIS
- Globo: Família S/A: Políticos empregam parentes até em partidos
- Folha: Aprovação de Dilma tem a 1ª queda, de 8 pontos, e vai a 57%
- Estadão: ‘Alckmin politiza a questão da segurança’, diz Cardozo
- Correio: Filho de general que chefiou DOI-Codi é diretor da Abin
- Zero Hora: Um raio X dos 491 km de estradas devolvidos pelas concessionárias
- Estado de Minas: A Guerra das Tribos
- Jornal do Commercio: Cuidado com o Dr. Google
sábado, junho 08, 2013
Bofetada da lenda - RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 08/06
RIO DE JANEIRO - Nelson Rodrigues ia todo domingo ao Maracanã. Era míope, não usava óculos, não enxergava o que se passava no gramado e, mesmo assim, ninguém escrevia sobre futebol como ele. Seu segredo: radiografar a alma dos jogadores. Daí porque suas crônicas podem ser lidas e saboreadas hoje, 50 anos depois, sem que os jogos que as inspiraram tenham qualquer importância.
Mas, se Nelson foi o maior cronista esportivo da língua, não foi o primeiro. Mario Filho, seu irmão, antecedeu-o por 20 anos e, a partir de memórias esgarçadas, construiu todo um passado de lenda para o futebol. Exemplo: foi Mario quem deu ao Fla-Flu as dimensões épicas que, depois, o clássico se viu obrigado a honrar. O perigo é quando tomamos Mario, o fabuloso cronista, pelo historiador que ele também queria ser.
Na esteira da recente reabertura do Maracanã, o cronista e blogueiro Eduardo Cyntrão me alerta para o fato de que um dos episódios mais dramáticos da saga do estádio, narrado por Mario Filho, pode não ter acontecido: a bofetada do uruguaio Obdulio Varela no brasileiro Bigode na final da Copa de 1950, entre Brasil x Uruguai, vencida pelos uruguaios por 2 x 1. Para Mario, ela determinou o resultado do jogo.
"Só Mario Filho viu essa bofetada", diz Cyntrão. "Não há uma foto, uma imagem, um registro original dessa suposta agressão. Segundo Mario, a bofetada ardeu no rosto da multidão'. Mas já imaginou as 200 mil pessoas presentes no Maracanã vendo um estrangeiro dar uma bofetada num brasileiro? A geral iria invadir o campo e linchar os uruguaios. Seria a maior tragédia do esporte em todos os tempos". E Cyntrão conclui: "Eu tinha 19 anos e estava lá --e também não vi nenhuma bofetada".
Mario Filho era craque em fazer da realidade lenda. Mas nesta, quem sabe, sua mão escorregou e ele tenha feito da lenda realidade.
RIO DE JANEIRO - Nelson Rodrigues ia todo domingo ao Maracanã. Era míope, não usava óculos, não enxergava o que se passava no gramado e, mesmo assim, ninguém escrevia sobre futebol como ele. Seu segredo: radiografar a alma dos jogadores. Daí porque suas crônicas podem ser lidas e saboreadas hoje, 50 anos depois, sem que os jogos que as inspiraram tenham qualquer importância.
Mas, se Nelson foi o maior cronista esportivo da língua, não foi o primeiro. Mario Filho, seu irmão, antecedeu-o por 20 anos e, a partir de memórias esgarçadas, construiu todo um passado de lenda para o futebol. Exemplo: foi Mario quem deu ao Fla-Flu as dimensões épicas que, depois, o clássico se viu obrigado a honrar. O perigo é quando tomamos Mario, o fabuloso cronista, pelo historiador que ele também queria ser.
Na esteira da recente reabertura do Maracanã, o cronista e blogueiro Eduardo Cyntrão me alerta para o fato de que um dos episódios mais dramáticos da saga do estádio, narrado por Mario Filho, pode não ter acontecido: a bofetada do uruguaio Obdulio Varela no brasileiro Bigode na final da Copa de 1950, entre Brasil x Uruguai, vencida pelos uruguaios por 2 x 1. Para Mario, ela determinou o resultado do jogo.
"Só Mario Filho viu essa bofetada", diz Cyntrão. "Não há uma foto, uma imagem, um registro original dessa suposta agressão. Segundo Mario, a bofetada ardeu no rosto da multidão'. Mas já imaginou as 200 mil pessoas presentes no Maracanã vendo um estrangeiro dar uma bofetada num brasileiro? A geral iria invadir o campo e linchar os uruguaios. Seria a maior tragédia do esporte em todos os tempos". E Cyntrão conclui: "Eu tinha 19 anos e estava lá --e também não vi nenhuma bofetada".
Mario Filho era craque em fazer da realidade lenda. Mas nesta, quem sabe, sua mão escorregou e ele tenha feito da lenda realidade.
Gatsby - ZUENIR VENTURA
O GLOBO - 08/06
Ainda não vi e desconfio que não vá gostar de "O grande Gatsby", pelo menos não tanto quanto do livro, um dos mais fascinantes que li na juventude.
Segundo importantes críticos, é "uma obra prima", um clássico definidor dos anos 20, os "anos loucos", que o próprio Scott Fitzgerald chamou de "era do jazz" e da qual ele foi a voz e sua mulher, Zelda, o belo e atormentado rosto.
Sobre o período, ele escreveu: "Foi uma era de milagres, foi uma era de arte, foi uma era de excesso" - de excesso, dissipação e extravagâncias comportamentais. E foi também a era da Lei Seca, quando as pessoas se enfurnavam em bares clandestinos, as moças dançando charleston e mostrando as pernas, enquanto os homens se embriagavam de bebida contrabandeada.
Para o romancista, "foi a mais dispendiosa orgia da História", uma farra que acabou no crack da Bolsa de NY e na Grande Depressão.
O livro tem como dedicatória "Uma vez mais para Zelda", com quem o autor teve uma filha e uma relação turbulenta, tumultuada por frequentes brigas - ele era alcoólatra e ela sofria de esquizofrenia, tendo sido internada várias vezes com colapso nervoso. Formavam um casal jovem e lindo, excêntrico, perdulário e impaciente, com grande pressa de viver. A disputa entre si era tamanha que chegou a ponto de, reciprocamente, um/uma acusar o outro/outra de plágio. Uma confissão revela o grau de passionalismo que cercava essa tempestuosa história de amor e ciúme: "Eu não ligaria se ela morresse, mas não suportaria vê-la se casar com outro." No verão de 1924, na Riviera francesa, enquanto ele acabava de escrever "O grande Gatsby", o casamento foi outra vez abalado pelo envolvimento de Zelda com um aviador francês.
Escritora também, ela ficou mais famosa como ícone e precursora do feminismo do que como romancista. Foi, como classificou o marido, "a primeira melindrosa da América". Junto com Hemingway, entre outros, os dois pertenceram à "geração perdida", aquela que, como já se disse, viajou dez mil quilômetros para encontrar Paris e descobriu a América.
Assim como a década, o casal acabou mal. Já separados, Scott morreu em 1940, com 44 anos, sem dinheiro, fama e sem acreditar que um dia seu livro seria consagrado pela crítica e venderia 10 milhões de exemplares. Zelda morreu em 1948, aos 48 anos, quando o hospital em que estava internada pegou fogo, matando-a e a outras oito pacientes. No túmulo dos dois, estão inscritas as palavras que encerram "O grande Gatsby": "E assim prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados incessantemente para o passado."
Segundo importantes críticos, é "uma obra prima", um clássico definidor dos anos 20, os "anos loucos", que o próprio Scott Fitzgerald chamou de "era do jazz" e da qual ele foi a voz e sua mulher, Zelda, o belo e atormentado rosto.
Sobre o período, ele escreveu: "Foi uma era de milagres, foi uma era de arte, foi uma era de excesso" - de excesso, dissipação e extravagâncias comportamentais. E foi também a era da Lei Seca, quando as pessoas se enfurnavam em bares clandestinos, as moças dançando charleston e mostrando as pernas, enquanto os homens se embriagavam de bebida contrabandeada.
Para o romancista, "foi a mais dispendiosa orgia da História", uma farra que acabou no crack da Bolsa de NY e na Grande Depressão.
O livro tem como dedicatória "Uma vez mais para Zelda", com quem o autor teve uma filha e uma relação turbulenta, tumultuada por frequentes brigas - ele era alcoólatra e ela sofria de esquizofrenia, tendo sido internada várias vezes com colapso nervoso. Formavam um casal jovem e lindo, excêntrico, perdulário e impaciente, com grande pressa de viver. A disputa entre si era tamanha que chegou a ponto de, reciprocamente, um/uma acusar o outro/outra de plágio. Uma confissão revela o grau de passionalismo que cercava essa tempestuosa história de amor e ciúme: "Eu não ligaria se ela morresse, mas não suportaria vê-la se casar com outro." No verão de 1924, na Riviera francesa, enquanto ele acabava de escrever "O grande Gatsby", o casamento foi outra vez abalado pelo envolvimento de Zelda com um aviador francês.
Escritora também, ela ficou mais famosa como ícone e precursora do feminismo do que como romancista. Foi, como classificou o marido, "a primeira melindrosa da América". Junto com Hemingway, entre outros, os dois pertenceram à "geração perdida", aquela que, como já se disse, viajou dez mil quilômetros para encontrar Paris e descobriu a América.
Assim como a década, o casal acabou mal. Já separados, Scott morreu em 1940, com 44 anos, sem dinheiro, fama e sem acreditar que um dia seu livro seria consagrado pela crítica e venderia 10 milhões de exemplares. Zelda morreu em 1948, aos 48 anos, quando o hospital em que estava internada pegou fogo, matando-a e a outras oito pacientes. No túmulo dos dois, estão inscritas as palavras que encerram "O grande Gatsby": "E assim prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados incessantemente para o passado."
Ueba! Turcocircuito na Turquia! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 08/06
E a Inglória Perez mandou os brasileiros pra Turquia na hora errada! Balão cai, estoura gás lacrimogêneo!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E um amigo postou no Twitter que: "o PMDB é o partido mais quenga da política desde os tempos de Salomé!".
E o Predestinado do dia! Síndico do Copan que multou um casal transando na escada: Affonso Celso Prazeres! Com esse nome, não tem direito de multar ninguém.
Affonso Celso Estraga Prazeres! Affonso Celso Prazeres Menos na Escada! Rarará!
E essa, direto de Salvador: "Ladrões são presos na Ladeira da Preguiça". Rarará!
E um amigo disse que só paga ônibus por R$ 3,20 se o ônibus vier pegar em casa. Com serviço de bordo e banheiro limpo! Rarará!
E atenção! Turcocircuito na Turquia! Como disse o chargista Dálcio: "Bósforo muda pra Fósforo!". E Erdogan pra Tobogan!
E a Inglória Perez mandou os brasileiros pra Turquia na hora errada! Balão cai, estoura gás lacrimogêneo!
Aliás, o gás lacrimogêneo é feito no Brasil. Deve ser made in Projac. Sobrou da novela. Aliás, diz que depois que fecharam a boate da Claudia Raia em Istambul, os turcos se revoltaram! Rarará!
Mas os brasileiros começaram ir pra Turquia depois daquela matéria do Amaury Jr. da Turkish Airlines.
Tanto que no bazar, se você falar que é amigo do Amaury Jr., ganha desconto no tapete!
E olha esse cartaz em Istambul: "A revolução não será televisionada, será tuitada".
Os grandes inimigos do Erdogan: Twitter e Facebook. E Erdogan é nome de xarope! Xarope turco!
E o horário do DEM no meio da novela? Um monte de homem branco. Não tem uma mulher, um negro, um jovem! Brasil colônia!
E DEM quer dizer Deu Em Merda! Foram todos pra outros partidos. Só sobrou o ACMeio Metro! Que subiu em oito engradados de cerveja pra gravar! E sempre com aquela polo toda arrumadinha. Parece feito de Lego. Prefeito Lego!
E o tuiteiro Fabriohabreu postou que "o ACM Neto tem cara de quem jogava bolinha de gude no carpete". Rarará!
E DEM quer dizer Democratas. E como eles vão conseguir transformar o Agripino Maia em democrata? Rarará! Missão Impossível! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
E a Inglória Perez mandou os brasileiros pra Turquia na hora errada! Balão cai, estoura gás lacrimogêneo!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E um amigo postou no Twitter que: "o PMDB é o partido mais quenga da política desde os tempos de Salomé!".
E o Predestinado do dia! Síndico do Copan que multou um casal transando na escada: Affonso Celso Prazeres! Com esse nome, não tem direito de multar ninguém.
Affonso Celso Estraga Prazeres! Affonso Celso Prazeres Menos na Escada! Rarará!
E essa, direto de Salvador: "Ladrões são presos na Ladeira da Preguiça". Rarará!
E um amigo disse que só paga ônibus por R$ 3,20 se o ônibus vier pegar em casa. Com serviço de bordo e banheiro limpo! Rarará!
E atenção! Turcocircuito na Turquia! Como disse o chargista Dálcio: "Bósforo muda pra Fósforo!". E Erdogan pra Tobogan!
E a Inglória Perez mandou os brasileiros pra Turquia na hora errada! Balão cai, estoura gás lacrimogêneo!
Aliás, o gás lacrimogêneo é feito no Brasil. Deve ser made in Projac. Sobrou da novela. Aliás, diz que depois que fecharam a boate da Claudia Raia em Istambul, os turcos se revoltaram! Rarará!
Mas os brasileiros começaram ir pra Turquia depois daquela matéria do Amaury Jr. da Turkish Airlines.
Tanto que no bazar, se você falar que é amigo do Amaury Jr., ganha desconto no tapete!
E olha esse cartaz em Istambul: "A revolução não será televisionada, será tuitada".
Os grandes inimigos do Erdogan: Twitter e Facebook. E Erdogan é nome de xarope! Xarope turco!
E o horário do DEM no meio da novela? Um monte de homem branco. Não tem uma mulher, um negro, um jovem! Brasil colônia!
E DEM quer dizer Deu Em Merda! Foram todos pra outros partidos. Só sobrou o ACMeio Metro! Que subiu em oito engradados de cerveja pra gravar! E sempre com aquela polo toda arrumadinha. Parece feito de Lego. Prefeito Lego!
E o tuiteiro Fabriohabreu postou que "o ACM Neto tem cara de quem jogava bolinha de gude no carpete". Rarará!
E DEM quer dizer Democratas. E como eles vão conseguir transformar o Agripino Maia em democrata? Rarará! Missão Impossível! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
No teto da meta - CELSO MING
ESTADÃO - 08/06
Se prosseguir na venda de ilusões, o governo Dilma dirá, como tem dito, que a inflação de maio (0,37%) foi mais baixa do que a de abril (0,55%); que a alta dos alimentos desacelerou com força e que, por isso, estamos melhorando e tal.
No entanto, a inflação em 12 meses (6,5%) está no gargalo da garrafa e vai saltar para cima desse nível pelo menos nos próximos três meses. Os efeitos da desoneração da cesta básica já não atuarão sobre a inflação e há os reajustes da condução que começam a pesar.
Embora um pouco mais contida, a alta continua espalhada demais, na medida em que 63% dos itens que compõem a cesta do custo de vida apresentaram elevação em maio. Enfim, como aponta o Banco Central, a inflação segue resistente, dizimando o poder aquisitivo.
Se estiver realmente empenhado em virar esse jogo agora adverso, o primeiro passo é admitir a deterioração da economia e tratar de colocar a composição nos trilhos.
Sempre há aqueles que argumentam que o setor fiscal (contas públicas) está melhor do que em tantos países modelos do mundo; que os juros básicos estão elevados demais quando se comparam com os praticados lá fora e, por isso, teriam de cair; que o Brasil estoca respeitável volume em reservas, de US$ 374 bilhões; e que, embora venha decepcionando, a atividade econômica avança mais do que na maioria dos países ricos, há cinco anos mergulhados na estagnação.
A atual combinação de políticas vem produzindo fiascos sucessivos quando comparados com os objetivos propostos: crescimento do PIB provavelmente na casa de 2% neste ano, em vez de 4% a 4,5% ao ano; inflação para além dos 6% ao ano, em vez do limite de 4,5%; derrubada do superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) em vez dos 3,1% do PIB; e rombo crescente nas contas externas (saldo nas Transações Correntes) em vez da relativa estabilidade.
As depredações de quinta-feira na Avenida Paulista em protestos contra a alta das tarifas da condução e o anúncio da perspectiva de rebaixamento da qualidade dos títulos de dívida do Brasil pela Standard & Poor’s são parte do mesmo quadro deteriorado que, felizmente, está longe do que acontece na Argentina, mas que, infelizmente, por lá começou também assim.
Por enquanto, apenas o Banco Central mudou de comportamento, antes complacente demais. O resto da administração Dilma parece paralisado, em parte porque não aprendeu a livrar-se dos mata-burros ideológicos e, pelos quatro cantos, vê a ação conspiratória dos neoliberais e “da finança internacional” e, em parte, porque não sabe ainda o que fazer.
Até que ponto o aperto da política monetária (política de juros) será capaz de conter a inflação? Se o Banco Central ficar sozinho na empreitada, poderá alcançar algum sucesso, mas terá de puxar os juros sabe-se lá para que alturas. Falta saber se o governo está disposto a calibrar sua política fiscal nessa direção.
Falsa impressão. Pode ficar a impressão de que esses números estão relativamente estabilizados. Não estão. É uma inflação muito alta e persistente, em parte porque não há como trazer do exterior a maioria dos serviços. Com isso, os mecanismos da concorrência demoram mais a entrar em ação. Nesse campo, as duas únicas forças capazes de conter a alta são a puxada dos juros e a própria inflação que corrói o poder aquisitivo.
Se prosseguir na venda de ilusões, o governo Dilma dirá, como tem dito, que a inflação de maio (0,37%) foi mais baixa do que a de abril (0,55%); que a alta dos alimentos desacelerou com força e que, por isso, estamos melhorando e tal.
No entanto, a inflação em 12 meses (6,5%) está no gargalo da garrafa e vai saltar para cima desse nível pelo menos nos próximos três meses. Os efeitos da desoneração da cesta básica já não atuarão sobre a inflação e há os reajustes da condução que começam a pesar.
Embora um pouco mais contida, a alta continua espalhada demais, na medida em que 63% dos itens que compõem a cesta do custo de vida apresentaram elevação em maio. Enfim, como aponta o Banco Central, a inflação segue resistente, dizimando o poder aquisitivo.
Se estiver realmente empenhado em virar esse jogo agora adverso, o primeiro passo é admitir a deterioração da economia e tratar de colocar a composição nos trilhos.
Sempre há aqueles que argumentam que o setor fiscal (contas públicas) está melhor do que em tantos países modelos do mundo; que os juros básicos estão elevados demais quando se comparam com os praticados lá fora e, por isso, teriam de cair; que o Brasil estoca respeitável volume em reservas, de US$ 374 bilhões; e que, embora venha decepcionando, a atividade econômica avança mais do que na maioria dos países ricos, há cinco anos mergulhados na estagnação.
A atual combinação de políticas vem produzindo fiascos sucessivos quando comparados com os objetivos propostos: crescimento do PIB provavelmente na casa de 2% neste ano, em vez de 4% a 4,5% ao ano; inflação para além dos 6% ao ano, em vez do limite de 4,5%; derrubada do superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) em vez dos 3,1% do PIB; e rombo crescente nas contas externas (saldo nas Transações Correntes) em vez da relativa estabilidade.
As depredações de quinta-feira na Avenida Paulista em protestos contra a alta das tarifas da condução e o anúncio da perspectiva de rebaixamento da qualidade dos títulos de dívida do Brasil pela Standard & Poor’s são parte do mesmo quadro deteriorado que, felizmente, está longe do que acontece na Argentina, mas que, infelizmente, por lá começou também assim.
Por enquanto, apenas o Banco Central mudou de comportamento, antes complacente demais. O resto da administração Dilma parece paralisado, em parte porque não aprendeu a livrar-se dos mata-burros ideológicos e, pelos quatro cantos, vê a ação conspiratória dos neoliberais e “da finança internacional” e, em parte, porque não sabe ainda o que fazer.
Até que ponto o aperto da política monetária (política de juros) será capaz de conter a inflação? Se o Banco Central ficar sozinho na empreitada, poderá alcançar algum sucesso, mas terá de puxar os juros sabe-se lá para que alturas. Falta saber se o governo está disposto a calibrar sua política fiscal nessa direção.
Falsa impressão. Pode ficar a impressão de que esses números estão relativamente estabilizados. Não estão. É uma inflação muito alta e persistente, em parte porque não há como trazer do exterior a maioria dos serviços. Com isso, os mecanismos da concorrência demoram mais a entrar em ação. Nesse campo, as duas únicas forças capazes de conter a alta são a puxada dos juros e a própria inflação que corrói o poder aquisitivo.
Avançar ou retroceder? - KÁTIA ABREU
FOLHA DE SP - 08/06
Invasões indígenas são reflexo dos impasses de um país com dificuldade para seguir adiante
O país caminha célere rumo ao progresso e à modernidade neste início de século. Hoje, o agronegócio é o motor dessa nova trajetória nacional de sucesso, graças à sua visão, tecnologia, capacidade de inovação e desenvolvimento.
Já vai longe a época em que o setor era visto como símbolo do atraso e de incapacidade empresarial. Somos competitivos internacionalmente e por todos reconhecidos.
A política agrícola dos anos anteriores se resumia a uma disputa por anúncios de mais recursos, sem que os instrumentos estivessem adequados à realidade da produção.
Esse modelo serviu, durante anos, a uma agropecuária incipiente. O que se seguia a cada anúncio dos planos anuais era uma grita pelas infindáveis prorrogações de dívidas.
O seguro agrícola --instrumento eficaz utilizado há décadas no Primeiro Mundo-- era tratado como uma grande benesse aos produtores, quando, na verdade, ele protege um grande patrimônio do país: sua agricultura, que produz alimento de qualidade a preços baixos.
Nas duas mais recentes edições do Plano Agrícola e Pecuário (PAP) deste governo, houve mudança de paradigma.
No PAP 2011/2012, houve aumento de 40% nos valores do seguro e, no deste ano, o crescimento do montante foi de 70%.
Chegamos, enfim, ao bom senso: o seguro agrícola não é mais uma questão dos produtores, mas do Estado brasileiro. Mas ainda há muito a avançar, pois no patamar atual nem 40% da safra está coberta. Nos EUA, o seguro cobre 86% da área plantada.
O PAP 2012/2013 se diferencia também por incorporar, em grande medida, antigos pleitos dos produtores rurais, como programas para armazenagem, irrigação e agricultura de baixo carbono.
Em especial, o plano também abriu importante espaço ao apoiar a pesquisa e a inovação por parte da iniciativa privada.
Tudo isso foi possível pela parceria republicana de alto nível entre a representação dos produtores e o governo federal. Uma parceria baseada no diálogo, no conhecimento da realidade do setor agropecuário e na efetiva determinação de avançar.
Apesar de todo esse esforço, que colocou nossas cabeças no século 21, estamos com os pés ainda atados a um passado de conflitos e controvérsias que parecem intermináveis. O campo brasileiro continua sendo palco de embates medievais, que causam enorme dano à imagem internacional do país e da produção do país.
No que toca à questão indígena, eles são vítimas da colonização brasileira empreendida pelo Estado e pela Igreja, com situações trágicas e desestruturação cultural e religiosa.
Os empreendedores rurais não são os responsáveis por isso. São as novas vítimas.
É sabido que a Funai, órgão criado pelo Estado para tutelar o índio, não tem a isenção necessária a um ator que se propõe a mediar conflitos com justiça e equidade.
Visivelmente, atua como militante indigenista e radical, tendo como alvo o produtor rural.
Consta do Manual do Antropólogo-Coordenador da Funai que os relatórios antropológicos de identificação e demarcação devem estar direcionados à confirmação como indígena de uma determinada área sob exame.
O manual não dá brecha a uma atuação imparcial, que permita ao antropólogo de plantão questionar se a área é, ou não, efetivamente indígena.
E são nesses termos que o relatório deve ser elaborado, de modo que sirva para o "convencimento do juiz". Evidente, portanto, que a Funai não pode ter o monopólio nos processos de identificação e demarcação de terras indígenas. Falta-lhe a imparcialidade.
As invasões indígenas em vários Estados da União, ferindo o direito de propriedade e ameaçando a integridade física dos produtores, inclusive com uma morte dos próprios invasores ocorrida em Mato Grosso do Sul, são um reflexo dos impasses de um país que encontra dificuldade para seguir adiante.
A situação está fora de controle. O Estado democrático de Direito está em questão.
O Brasil precisa se libertar das amarras do seu passado, ingressando definitivamente no século 21. Passou da hora de se dar um basta nessa barbárie.
Invasões indígenas são reflexo dos impasses de um país com dificuldade para seguir adiante
O país caminha célere rumo ao progresso e à modernidade neste início de século. Hoje, o agronegócio é o motor dessa nova trajetória nacional de sucesso, graças à sua visão, tecnologia, capacidade de inovação e desenvolvimento.
Já vai longe a época em que o setor era visto como símbolo do atraso e de incapacidade empresarial. Somos competitivos internacionalmente e por todos reconhecidos.
A política agrícola dos anos anteriores se resumia a uma disputa por anúncios de mais recursos, sem que os instrumentos estivessem adequados à realidade da produção.
Esse modelo serviu, durante anos, a uma agropecuária incipiente. O que se seguia a cada anúncio dos planos anuais era uma grita pelas infindáveis prorrogações de dívidas.
O seguro agrícola --instrumento eficaz utilizado há décadas no Primeiro Mundo-- era tratado como uma grande benesse aos produtores, quando, na verdade, ele protege um grande patrimônio do país: sua agricultura, que produz alimento de qualidade a preços baixos.
Nas duas mais recentes edições do Plano Agrícola e Pecuário (PAP) deste governo, houve mudança de paradigma.
No PAP 2011/2012, houve aumento de 40% nos valores do seguro e, no deste ano, o crescimento do montante foi de 70%.
Chegamos, enfim, ao bom senso: o seguro agrícola não é mais uma questão dos produtores, mas do Estado brasileiro. Mas ainda há muito a avançar, pois no patamar atual nem 40% da safra está coberta. Nos EUA, o seguro cobre 86% da área plantada.
O PAP 2012/2013 se diferencia também por incorporar, em grande medida, antigos pleitos dos produtores rurais, como programas para armazenagem, irrigação e agricultura de baixo carbono.
Em especial, o plano também abriu importante espaço ao apoiar a pesquisa e a inovação por parte da iniciativa privada.
Tudo isso foi possível pela parceria republicana de alto nível entre a representação dos produtores e o governo federal. Uma parceria baseada no diálogo, no conhecimento da realidade do setor agropecuário e na efetiva determinação de avançar.
Apesar de todo esse esforço, que colocou nossas cabeças no século 21, estamos com os pés ainda atados a um passado de conflitos e controvérsias que parecem intermináveis. O campo brasileiro continua sendo palco de embates medievais, que causam enorme dano à imagem internacional do país e da produção do país.
No que toca à questão indígena, eles são vítimas da colonização brasileira empreendida pelo Estado e pela Igreja, com situações trágicas e desestruturação cultural e religiosa.
Os empreendedores rurais não são os responsáveis por isso. São as novas vítimas.
É sabido que a Funai, órgão criado pelo Estado para tutelar o índio, não tem a isenção necessária a um ator que se propõe a mediar conflitos com justiça e equidade.
Visivelmente, atua como militante indigenista e radical, tendo como alvo o produtor rural.
Consta do Manual do Antropólogo-Coordenador da Funai que os relatórios antropológicos de identificação e demarcação devem estar direcionados à confirmação como indígena de uma determinada área sob exame.
O manual não dá brecha a uma atuação imparcial, que permita ao antropólogo de plantão questionar se a área é, ou não, efetivamente indígena.
E são nesses termos que o relatório deve ser elaborado, de modo que sirva para o "convencimento do juiz". Evidente, portanto, que a Funai não pode ter o monopólio nos processos de identificação e demarcação de terras indígenas. Falta-lhe a imparcialidade.
As invasões indígenas em vários Estados da União, ferindo o direito de propriedade e ameaçando a integridade física dos produtores, inclusive com uma morte dos próprios invasores ocorrida em Mato Grosso do Sul, são um reflexo dos impasses de um país que encontra dificuldade para seguir adiante.
A situação está fora de controle. O Estado democrático de Direito está em questão.
O Brasil precisa se libertar das amarras do seu passado, ingressando definitivamente no século 21. Passou da hora de se dar um basta nessa barbárie.
Cinco boas novas, mas com muitas ressalva - ROLF KUNTZ
O ESTADO DE S. PAULO - 08/06
Junho começou com cinco notícias positivas - ataque mais firme à inflação, promessa de prioridade ao investimento, sinais de recuperação na indústria, melhora na balança comercial e pressão empresarial por mais e melhores acordos de comércio. Apesar disso, a Standard & Poors mudou de estável para negativa a perspectiva do País, alegando baixo crescimento e gasto público excessivo. Convém conferir as novidades positivas.
1) O Banco Central (BC) aumentou os juros, aparentemente com a concordância da presidente Dilma Rousseff. O novo aumento foi o dobro do anterior. O aperto pode ajudar a restabelecer a imagem de uma política autônoma e baseada em critérios técnicos. A noção de autonomia operacional do BC havia sido prejudicada nos últimos dois anos. A recuperação, se ocorrer, provavelmente ainda levará algum tempo, mas a primeira providência foi tomada.
Mas pode-se perguntar se o novo aperto, iniciado em abril, é justificável, quando o consumo das famílias parece estagnado. Afinal, cresceu no primeiro trimestre apenas 0,1% em relação aos três meses finais de 2012. Esse argumento é enganador.
Entre janeiro e março o consumo das famílias foi., 2,1% maior do que havia sido um ano antes, enquanto a produção industrial foi 1,4% menor. O consumo do governo superou por 1,6% o de janeiro a março de 2012. Bastariam esses dados para mostrar um grave desequilíbrio entre oferta e demanda no mercado interno.
A diferença resultou em aumentos de preços e de importações. Além disso, a expansão trimestral do consumo privado foi a 39.0 consecutiva, impulsionada pela expansão da massa de salários e do crédito. Em vista da demanda, a ação do BC é plenamente defensável. Mas a eficácia será prejudicada se a política fiscal continuar expansionis-ta. A perspectiva é de mais um ano sem realização integral do superávit primário e de novas transferências do Tesouro às estatais - como os novos aportes de R$ 15 bilhões para o BNDES e R$ 15 bilhões para a Valec.
2) A cúpula federal resolveu, segundo informação da última semana, atribuir ao investimento a função de motor principal do crescimento. Para isso será necessário, entre outras providências, apressar a execução do programa de concessões na área de infraestrutura, anunciado em agosto de 2012 e até agora empacado.
A revisão da estratégia, se for real, resultará do mero reconhecimento de um fato bem visível: embora ainda supere a capacidade interna de oferta, o consumo perdeu dinamismo. Seu papel como estimulante do crescimento esgotou-se - e provavelmente já estava esgotado em 2012. Além disso, o descompasso entre consumo e produção industrial era evidente há mais tempo, mas o governo desprezou esse dado.
A expansão do investimento dependerá tanto do governo quanto do setor privado. Do lado governamental, a tarefa só será cumprida se a administração de programas e projetos melhorar consideravelmente. Há muitos anos o governo mal consegue desembolsar 50% ou 60% das verbas orçamentárias previstas para investimento.
Entre as estatais, a Petrobrás tem sido responsável por uma fatia entre 80% e 90% do total investido. Mas também suas operações ficam menos bonitas quando examinadas de perto. Basta lembrar a queda de produção,"o aumento da importação de combustíveis e lubrificantes e o mau negócio da Refinaria Abreu e Lima. Daí o programa de desinvestimentos.
3) A produção industrial em abril foi 1,8% maior que em março e 8,4% superior à de um ano antes. De janeiro a abril, ficou 1,6% acima da registrada nos primeiros quatro meses de 2012. Em 12 meses, no entanto, ainda foi 1,6% menor que no período anterior. A melhor parte desse notícia é a evolução do setor de bens de capital. Em abril os fabricantes de máquinas e equipamentos produziram 3,2% mais do que em março e 24,4% maio do que um ano antes. Mas ainda houve uma queda de 4,4% no acumulado em 12 meses. O setor ainda nem se recuperou do tombo de 2012. A continuidade da recuperação dependerá da confiança dos empresários e, em proporção menor, das possibilidades de exportar. Somando-se os projetos públicos e privados, o investimento continuará, quase certamente, abaixo de 20% do PIB, uma miséria.
4) Há sinais de melhora na balança comercial, com superávit de US$ 760 milhões em maio, mas o acumulado no ano ainda foi um déficit de US$ 5,4 bilhões. Este resultado e o desempenho da indústria, ruim em 2012 e ainda em lenta melhora, estão claramente vinculados. E cedo para afirmar se o saldo continuará a crescer. De toda forma, o superávit de US$ 15 bilhões previsto pelo BC só será alcançado com um saldo mensal de US$ 2,9 bilhões até o fim do ano. Acredite quem quiser.
5) Setores da indústria começam a discutir e até a cobrar do governo medidas para uma inserção mais ampla do Brasil nos acordos bilaterais e interregionais de comércio. Reagem, finalmente, a eventos como a formação da Aliança do Pacífico, integrada por Chile, Peru, Colômbia e México, e às negociações das Parcerias Transpacífico e Transatlântica, ambas com participação dos Estados Unidos e de grandes e médias potências comerciais. Acordos parciais de comércio já aumentavam antes da interrupção da Rodada Doha e depois passaram a multiplicar-se mais velozmente, enquanto o Brasil continuou preso a um Mercosul estagnado e a alguns pactos pouco relevantes.
Para o Brasil, um resultado comercial relativamente modesto neste ano significará um déficit maior em transações correntes, provavelmente superior a 3% do PIB. Não será um desastre, mas a tendência é preocupante. Se o Banco Central continuar disposto a combater a inflação, os riscos à frente poderão ser menores, mas o aperto monetário dificilmente compensará o previsível desarranjo fiscal. O governo parece ter percebido o custo político da inflação, mas ainda se mostra disposto a pagar caro, por outros meios, pela reeleição.
1) O Banco Central (BC) aumentou os juros, aparentemente com a concordância da presidente Dilma Rousseff. O novo aumento foi o dobro do anterior. O aperto pode ajudar a restabelecer a imagem de uma política autônoma e baseada em critérios técnicos. A noção de autonomia operacional do BC havia sido prejudicada nos últimos dois anos. A recuperação, se ocorrer, provavelmente ainda levará algum tempo, mas a primeira providência foi tomada.
Mas pode-se perguntar se o novo aperto, iniciado em abril, é justificável, quando o consumo das famílias parece estagnado. Afinal, cresceu no primeiro trimestre apenas 0,1% em relação aos três meses finais de 2012. Esse argumento é enganador.
Entre janeiro e março o consumo das famílias foi., 2,1% maior do que havia sido um ano antes, enquanto a produção industrial foi 1,4% menor. O consumo do governo superou por 1,6% o de janeiro a março de 2012. Bastariam esses dados para mostrar um grave desequilíbrio entre oferta e demanda no mercado interno.
A diferença resultou em aumentos de preços e de importações. Além disso, a expansão trimestral do consumo privado foi a 39.0 consecutiva, impulsionada pela expansão da massa de salários e do crédito. Em vista da demanda, a ação do BC é plenamente defensável. Mas a eficácia será prejudicada se a política fiscal continuar expansionis-ta. A perspectiva é de mais um ano sem realização integral do superávit primário e de novas transferências do Tesouro às estatais - como os novos aportes de R$ 15 bilhões para o BNDES e R$ 15 bilhões para a Valec.
2) A cúpula federal resolveu, segundo informação da última semana, atribuir ao investimento a função de motor principal do crescimento. Para isso será necessário, entre outras providências, apressar a execução do programa de concessões na área de infraestrutura, anunciado em agosto de 2012 e até agora empacado.
A revisão da estratégia, se for real, resultará do mero reconhecimento de um fato bem visível: embora ainda supere a capacidade interna de oferta, o consumo perdeu dinamismo. Seu papel como estimulante do crescimento esgotou-se - e provavelmente já estava esgotado em 2012. Além disso, o descompasso entre consumo e produção industrial era evidente há mais tempo, mas o governo desprezou esse dado.
A expansão do investimento dependerá tanto do governo quanto do setor privado. Do lado governamental, a tarefa só será cumprida se a administração de programas e projetos melhorar consideravelmente. Há muitos anos o governo mal consegue desembolsar 50% ou 60% das verbas orçamentárias previstas para investimento.
Entre as estatais, a Petrobrás tem sido responsável por uma fatia entre 80% e 90% do total investido. Mas também suas operações ficam menos bonitas quando examinadas de perto. Basta lembrar a queda de produção,"o aumento da importação de combustíveis e lubrificantes e o mau negócio da Refinaria Abreu e Lima. Daí o programa de desinvestimentos.
3) A produção industrial em abril foi 1,8% maior que em março e 8,4% superior à de um ano antes. De janeiro a abril, ficou 1,6% acima da registrada nos primeiros quatro meses de 2012. Em 12 meses, no entanto, ainda foi 1,6% menor que no período anterior. A melhor parte desse notícia é a evolução do setor de bens de capital. Em abril os fabricantes de máquinas e equipamentos produziram 3,2% mais do que em março e 24,4% maio do que um ano antes. Mas ainda houve uma queda de 4,4% no acumulado em 12 meses. O setor ainda nem se recuperou do tombo de 2012. A continuidade da recuperação dependerá da confiança dos empresários e, em proporção menor, das possibilidades de exportar. Somando-se os projetos públicos e privados, o investimento continuará, quase certamente, abaixo de 20% do PIB, uma miséria.
4) Há sinais de melhora na balança comercial, com superávit de US$ 760 milhões em maio, mas o acumulado no ano ainda foi um déficit de US$ 5,4 bilhões. Este resultado e o desempenho da indústria, ruim em 2012 e ainda em lenta melhora, estão claramente vinculados. E cedo para afirmar se o saldo continuará a crescer. De toda forma, o superávit de US$ 15 bilhões previsto pelo BC só será alcançado com um saldo mensal de US$ 2,9 bilhões até o fim do ano. Acredite quem quiser.
5) Setores da indústria começam a discutir e até a cobrar do governo medidas para uma inserção mais ampla do Brasil nos acordos bilaterais e interregionais de comércio. Reagem, finalmente, a eventos como a formação da Aliança do Pacífico, integrada por Chile, Peru, Colômbia e México, e às negociações das Parcerias Transpacífico e Transatlântica, ambas com participação dos Estados Unidos e de grandes e médias potências comerciais. Acordos parciais de comércio já aumentavam antes da interrupção da Rodada Doha e depois passaram a multiplicar-se mais velozmente, enquanto o Brasil continuou preso a um Mercosul estagnado e a alguns pactos pouco relevantes.
Para o Brasil, um resultado comercial relativamente modesto neste ano significará um déficit maior em transações correntes, provavelmente superior a 3% do PIB. Não será um desastre, mas a tendência é preocupante. Se o Banco Central continuar disposto a combater a inflação, os riscos à frente poderão ser menores, mas o aperto monetário dificilmente compensará o previsível desarranjo fiscal. O governo parece ter percebido o custo político da inflação, mas ainda se mostra disposto a pagar caro, por outros meios, pela reeleição.
Jornalismo patrocinado - ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR
FOLHA DE SP - 08/06
Até o venerando "New York Times" fala em aceitar que propaganda seja incorporada a reportagens
TV ligada, concentração, vai começar mais um "Horizons", programa de prestígio da BBC internacional. É uma série sobre novas fronteiras no mundo dos negócios. Quando acaba o primeiro bloco, entra a propaganda de uma multinacional de química. É um comercial diferente. Longo, dois minutos, com a mesma linguagem visual e o mesmo tema do programa. É como se o "Horizons" e a propaganda formassem um todo sem costuras.
Vejo uma série de reportagens da revista "Vice", publicação de vanguarda que também tem braços muito fortes na internet e um programa no canal a cabo HBO. O tema são os trailers que vendem comida de rua, os chamados "food trucks".
Os menus variam, mas todas as histórias têm um laço comum: várias menções a uma conhecida marca de maionese. Não é o "merchandising" da ficção, que vemos em novelas, por exemplo. As alusões à maionese estão incorporadas à narrativa jornalística.
Agora, internet. Olho a homepage do site "BuzzFeed", merecidamente reconhecido como bíblia dos modernos. Em meio às notícias curiosas e boas sacadas de pauta de sempre, uma reportagem parece deslocada. Ela faz muitos elogios a um antigo serviço de mensagens instantâneas, que já foi dominante mas hoje anda esquecido. Não era um anúncio --era uma reportagem entremeada de propaganda.
Os três exemplos fazem parte de uma nova tendência, vamos chamar assim, em alguns meios de comunicação. É o chamado "branded content". Conteúdo patrocinado, na falta de tradução melhor. No mundo estritamente publicitário, não chega a ser uma supernovidade. O dado novo é que, agora, está chegando ao jornalismo tradicional.
E que chegada! Esta semana, a agência Bloomberg anunciou que ninguém menos que o "New York Times" estuda aderir ao modelo.
O sacrossanto "NYT" adotar o "jornalismo patrocinado" equivale ao ateu militante Richard Dawkins pedir perdão ao papa e receber a hóstia das mãos do próprio Francisco; ou Fidel Castro, aos prantos, depositar um ramalhete de cravos brancos nos túmulos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher.
É uma atitude extrema: o jornal mais prestigioso do mundo busca novos meios de viabilizar sua operação on-line.
Como se sabe, a migração de leitores do papel para a web foi brutal, principalmente nos países desenvolvidos. Mas a essa fuga não se seguiu um grande aumento de publicidade na internet. Ou seja: os leitores zarparam em massa para a rede; os anunciantes, bem menos.
Para complicar, a economia da rede segue um modelo cada vez mais concentrador. Segundo um livro recém-lançado, "Who Owns the Future" ("A Quem Pertence o Futuro"), do visionário Jaron Lanier, o discurso democrático e libertário dos gurus da internet é só isso: discurso.
Segundo a análise prodigiosa de Lanier, a web é hoje terreno de uns poucos conglomerados, como Google e Facebook, que concentram ferozmente o bolo publicitário on-line. Donos de servidores computacionais poderosos, que só megacorporações são capazes de manter, os gigantes da web atraem anunciantes porque sabem tudo sobre seus usuários. Os anúncios são perfeitamente direcionados. Sites "generalistas", como o do venerando "New York Times", ficam em má situação.
Assim, produtores de jornalismo de qualidade vivem um pesadelo, porque lá atrás, quando a internet foi concebida, a palavra de ordem era que a "informação deve ser grátis" (ou livre, "free"). Resta buscar receita na publicidade. Mas os anunciante só querem saber dos já citados Google e Facebook.
O "Times" implantou há algum tempo, com relativo sucesso, o chamado "modelo poroso", em que, a partir de um certo número de matérias, começa a cobrar do usuário. Trouxe alívio, mas não resolveu. Fala agora em aceitar propaganda incorporada a algumas reportagens.
É que o já fazem, entre outros, a BBC internacional (a britânica não tem comerciais), a modernex revista "Vice" e o mais modernex ainda "BuzzFeed". Ironicamente, foi o sucesso do "BuzzFeed" que inspirou o "New York Times" a entrar nessa (quem diria: um site tão jovem apontando o caminho para uma instituição da "velha mídia").
A separação entre interesses comerciais e princípios editoriais é a última fronteira do jornalismo de qualidade. Não se sabe o que existe do outro lado. Talvez sejam tempos novos e radiosos. Talvez seja um abismo.
Até o venerando "New York Times" fala em aceitar que propaganda seja incorporada a reportagens
TV ligada, concentração, vai começar mais um "Horizons", programa de prestígio da BBC internacional. É uma série sobre novas fronteiras no mundo dos negócios. Quando acaba o primeiro bloco, entra a propaganda de uma multinacional de química. É um comercial diferente. Longo, dois minutos, com a mesma linguagem visual e o mesmo tema do programa. É como se o "Horizons" e a propaganda formassem um todo sem costuras.
Vejo uma série de reportagens da revista "Vice", publicação de vanguarda que também tem braços muito fortes na internet e um programa no canal a cabo HBO. O tema são os trailers que vendem comida de rua, os chamados "food trucks".
Os menus variam, mas todas as histórias têm um laço comum: várias menções a uma conhecida marca de maionese. Não é o "merchandising" da ficção, que vemos em novelas, por exemplo. As alusões à maionese estão incorporadas à narrativa jornalística.
Agora, internet. Olho a homepage do site "BuzzFeed", merecidamente reconhecido como bíblia dos modernos. Em meio às notícias curiosas e boas sacadas de pauta de sempre, uma reportagem parece deslocada. Ela faz muitos elogios a um antigo serviço de mensagens instantâneas, que já foi dominante mas hoje anda esquecido. Não era um anúncio --era uma reportagem entremeada de propaganda.
Os três exemplos fazem parte de uma nova tendência, vamos chamar assim, em alguns meios de comunicação. É o chamado "branded content". Conteúdo patrocinado, na falta de tradução melhor. No mundo estritamente publicitário, não chega a ser uma supernovidade. O dado novo é que, agora, está chegando ao jornalismo tradicional.
E que chegada! Esta semana, a agência Bloomberg anunciou que ninguém menos que o "New York Times" estuda aderir ao modelo.
O sacrossanto "NYT" adotar o "jornalismo patrocinado" equivale ao ateu militante Richard Dawkins pedir perdão ao papa e receber a hóstia das mãos do próprio Francisco; ou Fidel Castro, aos prantos, depositar um ramalhete de cravos brancos nos túmulos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher.
É uma atitude extrema: o jornal mais prestigioso do mundo busca novos meios de viabilizar sua operação on-line.
Como se sabe, a migração de leitores do papel para a web foi brutal, principalmente nos países desenvolvidos. Mas a essa fuga não se seguiu um grande aumento de publicidade na internet. Ou seja: os leitores zarparam em massa para a rede; os anunciantes, bem menos.
Para complicar, a economia da rede segue um modelo cada vez mais concentrador. Segundo um livro recém-lançado, "Who Owns the Future" ("A Quem Pertence o Futuro"), do visionário Jaron Lanier, o discurso democrático e libertário dos gurus da internet é só isso: discurso.
Segundo a análise prodigiosa de Lanier, a web é hoje terreno de uns poucos conglomerados, como Google e Facebook, que concentram ferozmente o bolo publicitário on-line. Donos de servidores computacionais poderosos, que só megacorporações são capazes de manter, os gigantes da web atraem anunciantes porque sabem tudo sobre seus usuários. Os anúncios são perfeitamente direcionados. Sites "generalistas", como o do venerando "New York Times", ficam em má situação.
Assim, produtores de jornalismo de qualidade vivem um pesadelo, porque lá atrás, quando a internet foi concebida, a palavra de ordem era que a "informação deve ser grátis" (ou livre, "free"). Resta buscar receita na publicidade. Mas os anunciante só querem saber dos já citados Google e Facebook.
O "Times" implantou há algum tempo, com relativo sucesso, o chamado "modelo poroso", em que, a partir de um certo número de matérias, começa a cobrar do usuário. Trouxe alívio, mas não resolveu. Fala agora em aceitar propaganda incorporada a algumas reportagens.
É que o já fazem, entre outros, a BBC internacional (a britânica não tem comerciais), a modernex revista "Vice" e o mais modernex ainda "BuzzFeed". Ironicamente, foi o sucesso do "BuzzFeed" que inspirou o "New York Times" a entrar nessa (quem diria: um site tão jovem apontando o caminho para uma instituição da "velha mídia").
A separação entre interesses comerciais e princípios editoriais é a última fronteira do jornalismo de qualidade. Não se sabe o que existe do outro lado. Talvez sejam tempos novos e radiosos. Talvez seja um abismo.
Justino e seus companheiros mártires - D. ODILO P. SCHERER
O ESTADO DE S. PAULO - 08/06
No dia 1° de junho, a Igreja Católica recordou os mártires São Justino e seus companheiros. Nascido na Palestina de época romana, na hodiema Nablus, Justino foi um filósofo eclético que, na juventude, migrou por várias correntes filosóficas. Finalmente, abraçou a fé cristã, entendendo ter encontrado nela a verdade, que tanto buscava. No ano 165, sob o imperador Marco Aurélio, foi martirizado em Roma, onde abrira uma escola filosófica, com vários companheiros. As Atas dos Mártires narram seu martírio.
Presos sob a acusação de "heresia", por se recusarem a adorar o imperador e seus deuses oficiais, Justino e seus companheiros foram interrogados por Rústico, prefeito da cidade. Depois de arguir os acusados quanto às suas convicções, Rústico os ameaçou: "Agora vamos ao que interessa, aproximai-vos e, todos juntos, sacrificai aos deuses. Se não o fizerdes, sereis torturados sem compaixão". Diante da recusa firme dos cristãos, o prefeito sentenciou: "Os que não quiseram sacrificar aos deuses e obedecer à ordem do imperador, depois de flagelados, sejam levados para sofrer a pena capital". E* assim,: Justino ,e seus companheiros foram torturados e decapitados.
O Cristianismo conheceu perseguição e martírio desde a sua primeira hora. O. próprio Jesus Cristo morreu mártir e seus apóstolos, da mesma forma. Esclareço que, no sentido cristão, não é "mártir" quem se auto imola por uma causa, mas quem é morto por outros, por causa da sua fé. Foram muitos os mártires ao longo da história da Igreja. O papa João Paulo II constatava, na virada do milênio, que o século 20 foi o que teve o maior número de mártires.
Os cristãos continuam sendo o grupo religioso mais perseguido çm todo o mundo. Se aqui me refiro apenas aos cristãos, não é por desconhecer que existem discriminações e violências também contra outros grupos religiosos. Há poucos dias, Silvano Maria Tomasi, observador permanente da Sana Sé na ONU, em Genebra, fez uma denúncia alarmante: mais de 100 mil cristãos têm sido assassinados anualmente em todo o mundo por razões ligadas, de alguma maneira, à sua fé.
De 196 países avaliados recentemente, 131 não apresentaram sinais de perseguição religiosa em outros 49 países, porém, verificaram-se muitos episódios de perseguição e violência contra os cristãos. Chama a atenção que essa violência acontece, geralmente, onde o Estado não é "laico" e deixa de assegurar a liberdade religiosa a todos os seus cidadãos, ou até impõe uma religião oficial a toda a população.
Esses dados impressionantes foram, de alguma forma, também trazidos a público e confirmados em recentes manifestações da Associação Internacional pela Liberdade Religiosa (Iria, na sigla em inglês), que realizou em São Paulo, entre os dias 23 e 25 de maio, um Festival Mundial de Liberdade Religiosa. Estranhamente, esses fatos graves têm escassa ressonância e espaço na opinião pública ocidental.
O artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos dispõe que toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião. Este direito inclui também a liberdade de mudar de religião ou de crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em privado.
Se Justino vivesse hoje, ainda correria o risco de perder a cabeça por causa de suas convicções religiosas e de ver crescendo o número de seus companheiros... Lamentavelmente, 65 anos depois da Declaração da ONU, o direito à liberdade religiosa ainda não é respeitado em muitas partes do mundo. Pelo contrário, adotam-se novas leis severamente restritivas, até mesmo contra a liberdade de consciência, que vetam a mudança de crença ou religião, sob a ameaça de pesadas sanções, inclusive a pena de morte.
Não cessou o cerceamento à liberdade religiosa com a superação dos regimes totalitários e antirreligiosos que, sobretudo no século 20, impediram a livre manifestação da fé religiosa de cristãos e não cristãos e tentaram manipular ou erradicar a religião, promovendo a perseguição e até a eliminação sistemática de quem ousasse professar publicamente a fé.
E comum que ideologias e regimes totalitários tendam a instrumentalizar a religião em seu proveito, ou a restringir a liberdade religiosa dos cidadãos, por considerá-la um empecilho aos seus propósitos.
Uma das formas sutis de perseguição religiosa é o tratamento preconceituoso e discriminatório dos praticantes de alguma fé religiosa, como se fossem cidadãos "desqualificados", com menos direitos e credibilidade, cujas convicções não devem ser levadas em consideração, ainda que não sejam sobre questões religiosas. Toleram-se até as convicções religiosas nos espaços da vida privada, mas nega-se a sua contribuição para o convívio social e a cultura.
Essa forma velada de preconceito e discriminação ocorre também em países do Ocidente, onde pessoas aderentes à fé religiosa precisam lutar por seus direitos civis e pelo respeito aos mais primários direitos humanos.
Por vezes, atribui-se de maneira primária à religião a culpa de conflitos e guerras e sugere-se a sua supressão, como fórmula para alcançar a paz. Não se percebe, neste caso, que muitos conflitos ditos "religiosos", de fato, não são motivados por questões religiosas, mas por ideologias políticas que instrumentalizam a religião para alcançar seus objetivos.
A liberdade religiosa e de consciência é um direito humano fundamental, que pode ser assegurado somente quando a postura do Estado é pautada pela verdadeira laicidade, que não é de intolerância nem discriminação, mas de garantia para que todos os cidadãos exerçam, sem impedimento, suas escolhas em relação à religião.
Presos sob a acusação de "heresia", por se recusarem a adorar o imperador e seus deuses oficiais, Justino e seus companheiros foram interrogados por Rústico, prefeito da cidade. Depois de arguir os acusados quanto às suas convicções, Rústico os ameaçou: "Agora vamos ao que interessa, aproximai-vos e, todos juntos, sacrificai aos deuses. Se não o fizerdes, sereis torturados sem compaixão". Diante da recusa firme dos cristãos, o prefeito sentenciou: "Os que não quiseram sacrificar aos deuses e obedecer à ordem do imperador, depois de flagelados, sejam levados para sofrer a pena capital". E* assim,: Justino ,e seus companheiros foram torturados e decapitados.
O Cristianismo conheceu perseguição e martírio desde a sua primeira hora. O. próprio Jesus Cristo morreu mártir e seus apóstolos, da mesma forma. Esclareço que, no sentido cristão, não é "mártir" quem se auto imola por uma causa, mas quem é morto por outros, por causa da sua fé. Foram muitos os mártires ao longo da história da Igreja. O papa João Paulo II constatava, na virada do milênio, que o século 20 foi o que teve o maior número de mártires.
Os cristãos continuam sendo o grupo religioso mais perseguido çm todo o mundo. Se aqui me refiro apenas aos cristãos, não é por desconhecer que existem discriminações e violências também contra outros grupos religiosos. Há poucos dias, Silvano Maria Tomasi, observador permanente da Sana Sé na ONU, em Genebra, fez uma denúncia alarmante: mais de 100 mil cristãos têm sido assassinados anualmente em todo o mundo por razões ligadas, de alguma maneira, à sua fé.
De 196 países avaliados recentemente, 131 não apresentaram sinais de perseguição religiosa em outros 49 países, porém, verificaram-se muitos episódios de perseguição e violência contra os cristãos. Chama a atenção que essa violência acontece, geralmente, onde o Estado não é "laico" e deixa de assegurar a liberdade religiosa a todos os seus cidadãos, ou até impõe uma religião oficial a toda a população.
Esses dados impressionantes foram, de alguma forma, também trazidos a público e confirmados em recentes manifestações da Associação Internacional pela Liberdade Religiosa (Iria, na sigla em inglês), que realizou em São Paulo, entre os dias 23 e 25 de maio, um Festival Mundial de Liberdade Religiosa. Estranhamente, esses fatos graves têm escassa ressonância e espaço na opinião pública ocidental.
O artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos dispõe que toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião. Este direito inclui também a liberdade de mudar de religião ou de crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em privado.
Se Justino vivesse hoje, ainda correria o risco de perder a cabeça por causa de suas convicções religiosas e de ver crescendo o número de seus companheiros... Lamentavelmente, 65 anos depois da Declaração da ONU, o direito à liberdade religiosa ainda não é respeitado em muitas partes do mundo. Pelo contrário, adotam-se novas leis severamente restritivas, até mesmo contra a liberdade de consciência, que vetam a mudança de crença ou religião, sob a ameaça de pesadas sanções, inclusive a pena de morte.
Não cessou o cerceamento à liberdade religiosa com a superação dos regimes totalitários e antirreligiosos que, sobretudo no século 20, impediram a livre manifestação da fé religiosa de cristãos e não cristãos e tentaram manipular ou erradicar a religião, promovendo a perseguição e até a eliminação sistemática de quem ousasse professar publicamente a fé.
E comum que ideologias e regimes totalitários tendam a instrumentalizar a religião em seu proveito, ou a restringir a liberdade religiosa dos cidadãos, por considerá-la um empecilho aos seus propósitos.
Uma das formas sutis de perseguição religiosa é o tratamento preconceituoso e discriminatório dos praticantes de alguma fé religiosa, como se fossem cidadãos "desqualificados", com menos direitos e credibilidade, cujas convicções não devem ser levadas em consideração, ainda que não sejam sobre questões religiosas. Toleram-se até as convicções religiosas nos espaços da vida privada, mas nega-se a sua contribuição para o convívio social e a cultura.
Essa forma velada de preconceito e discriminação ocorre também em países do Ocidente, onde pessoas aderentes à fé religiosa precisam lutar por seus direitos civis e pelo respeito aos mais primários direitos humanos.
Por vezes, atribui-se de maneira primária à religião a culpa de conflitos e guerras e sugere-se a sua supressão, como fórmula para alcançar a paz. Não se percebe, neste caso, que muitos conflitos ditos "religiosos", de fato, não são motivados por questões religiosas, mas por ideologias políticas que instrumentalizam a religião para alcançar seus objetivos.
A liberdade religiosa e de consciência é um direito humano fundamental, que pode ser assegurado somente quando a postura do Estado é pautada pela verdadeira laicidade, que não é de intolerância nem discriminação, mas de garantia para que todos os cidadãos exerçam, sem impedimento, suas escolhas em relação à religião.
Mistérios turcos. E nossos - ALBERTO DINES
GAZETA DO POVO - PR - 08/06
Para muitos, mero cenário de telenovela; para outros, destino turístico onde se passeia de balão e, eventualmente, deles se despenca. Para poucos é o ponto de encontro entre o Oriente e o Ocidente onde está ocorrendo uma perigosa experiência de volatilidade política.
A Turquia é a herdeira direta do Império Otomano, um dos mais extensos e estáveis do Velho Mundo (623 anos) e que, em determinado momento, estendia-se de Gibraltar ao Mar Cáspio, na Ásia, e descia até o coração da África. Sede do mundo islâmico, seus califas, sultões e grão-vizires montaram um eficaz sistema de convivência multiétnico e multirreligioso que se impôs às diversidades e até hoje é estudado por politólogos e historiadores.
Da repente, alguém ou alguma circunstância aproximou um fósforo do barril de pólvora turco e o que parecia estabilizado e controlado está prestes a explodir. O previsível caminha rapidamente para o imprevisível e, o que é pior, está ao lado de outro barril de pólvora, enorme, mais perigoso e já detonado: a Síria.
O que aconteceu com o premiê Recep Erdogan, há dez anos no poder? Estava em conversas adiantadas para pacificar os rebeldes curdos; seu islamismo “moderado” parecia ainda mais contido pela necessidade de não agravar as desconfianças da União Europeia e, assim, facilitar sua adesão ao bloco. Recentemente aceitou as desculpas do governo de Israel pela interceptação de um comboio que levava suprimentos para a Faixa de Gaza e, mais importante, a cada dia aumenta a sua oposição ao ditador sírio, Bashar al-Assad.
Difícil acreditar que o incêndio turco tenha como causa única a reação dos ambientalistas contra a urbanização do pequeno Parque Gezi, em Istambul, ou mesmo as medidas governamentais para restringir o uso de bebidas alcoólicas, atendendo às pressões dos islâmicos mais radicais. São ainda cautelosas as manobras do premiê Erdogan para candidatar-se à Presidência e transformar a república num regime mais centralizado e forte; dificilmente poderiam ser apontadas como as responsáveis pelo atual terremoto.
Também não se deve descartar a possibilidade de uma interferência externa – russa ou dos aiatolás iranianos – para desestabilizar um país que assume um papel cada vez mais destacado na região. E contra os seus respectivos interesses.
O que efetivamente nos empurra em direção à situação turca é a sua inesperada volatilidade, a surpreendente reviravolta. É verdade que a mídia do país, embora não controlada pelo governo (como aconteceu em passado recente), faz exatamente o que interessa aos estrategistas oficiais e, assim, não se apressou em apontar os indícios de uma forte insatisfação. Apelos consumistas e a distração com mundanidades têm um terrível efeito deletério, são capazes de desativar ou atenuar legítimas revoltas e resistências.
Nada disso deve nos afastar da inquietação com a atual conjuntura mundial – movediça, vocacionada para a trepidação e naturalmente inclinada para produzir surpresas. Confrontos entre índios e ruralistas acontecem há décadas; violentos protestos contra os aumentos das tarifas nos transportes públicos são ainda mais antigos.
O problema de hoje é que os pavios ficaram mais curtos e as cargas explosivas, mais disseminadas.
Para muitos, mero cenário de telenovela; para outros, destino turístico onde se passeia de balão e, eventualmente, deles se despenca. Para poucos é o ponto de encontro entre o Oriente e o Ocidente onde está ocorrendo uma perigosa experiência de volatilidade política.
A Turquia é a herdeira direta do Império Otomano, um dos mais extensos e estáveis do Velho Mundo (623 anos) e que, em determinado momento, estendia-se de Gibraltar ao Mar Cáspio, na Ásia, e descia até o coração da África. Sede do mundo islâmico, seus califas, sultões e grão-vizires montaram um eficaz sistema de convivência multiétnico e multirreligioso que se impôs às diversidades e até hoje é estudado por politólogos e historiadores.
Da repente, alguém ou alguma circunstância aproximou um fósforo do barril de pólvora turco e o que parecia estabilizado e controlado está prestes a explodir. O previsível caminha rapidamente para o imprevisível e, o que é pior, está ao lado de outro barril de pólvora, enorme, mais perigoso e já detonado: a Síria.
O que aconteceu com o premiê Recep Erdogan, há dez anos no poder? Estava em conversas adiantadas para pacificar os rebeldes curdos; seu islamismo “moderado” parecia ainda mais contido pela necessidade de não agravar as desconfianças da União Europeia e, assim, facilitar sua adesão ao bloco. Recentemente aceitou as desculpas do governo de Israel pela interceptação de um comboio que levava suprimentos para a Faixa de Gaza e, mais importante, a cada dia aumenta a sua oposição ao ditador sírio, Bashar al-Assad.
Difícil acreditar que o incêndio turco tenha como causa única a reação dos ambientalistas contra a urbanização do pequeno Parque Gezi, em Istambul, ou mesmo as medidas governamentais para restringir o uso de bebidas alcoólicas, atendendo às pressões dos islâmicos mais radicais. São ainda cautelosas as manobras do premiê Erdogan para candidatar-se à Presidência e transformar a república num regime mais centralizado e forte; dificilmente poderiam ser apontadas como as responsáveis pelo atual terremoto.
Também não se deve descartar a possibilidade de uma interferência externa – russa ou dos aiatolás iranianos – para desestabilizar um país que assume um papel cada vez mais destacado na região. E contra os seus respectivos interesses.
O que efetivamente nos empurra em direção à situação turca é a sua inesperada volatilidade, a surpreendente reviravolta. É verdade que a mídia do país, embora não controlada pelo governo (como aconteceu em passado recente), faz exatamente o que interessa aos estrategistas oficiais e, assim, não se apressou em apontar os indícios de uma forte insatisfação. Apelos consumistas e a distração com mundanidades têm um terrível efeito deletério, são capazes de desativar ou atenuar legítimas revoltas e resistências.
Nada disso deve nos afastar da inquietação com a atual conjuntura mundial – movediça, vocacionada para a trepidação e naturalmente inclinada para produzir surpresas. Confrontos entre índios e ruralistas acontecem há décadas; violentos protestos contra os aumentos das tarifas nos transportes públicos são ainda mais antigos.
O problema de hoje é que os pavios ficaram mais curtos e as cargas explosivas, mais disseminadas.
Funai, uma raposa no galinheiro - RICARDO BACHA
FOLHA DE SP - 08/06
Os atuais mecanismos do processo demarcatório da Funai devem ser modificados com urgência. O órgão padece de estrutura operacional e recursos orçamentários adequados, ficando à mercê de ONGs que lhe fornecem, além de ajuda financeira, uma forte sustentação ideológica, de resto altamente deslocada nesse período de globalização da economia.
As ações da Funai têm gerado insegurança no campo, prejudicando um dos setores vitais da economia brasileira. Mesmo porque há imensas suspeitas de que os laudos antropológicos que amparam as decisões demarcatórias são anticientíficos e fraudulentos.
O caso dos conflitos na fazenda Buriti é emblemático. Fui vice-presidente do Movimento pela Anistia e Direitos Humanos em Mato Grosso do Sul, lutei contra a ditadura e sonhei com a volta da ordem democrática no país. Enfrentei os arreganhos do Estado de exceção. Fui relator da constituinte estadual e comemorei o Estado democrático de Direito.
Nesse aspecto, sinto-me frustrado porque jamais imaginei que pudesse um dia me sentir vítima dos instrumentos de liberdade que ajudei a conquistar.
Não cabe mais na lógica do exercício da cidadania um órgão como a Funai, que formula, identifica e delimita áreas indígenas, julgando inclusive as contestações dos produtores, que devem ser apresentadas no prazo exíguo de 90 dias.
A PEC 215, em tramitação no Congresso Nacional, por outro lado, não soluciona o fulcro dessa questão, embora tente criar um critério democrático de consulta num espaço que atualmente está vazio.
A Funai tem todo o tempo do mundo disponível para elaborar seus relatórios antropológicos "técnico-científico", mas não admite que o contraditório seja estabelecido dentro das mesmas regras. Daí, a partir desse modelo, além da falta de transparência e autoritarismo, o estopim da crise é aceso, fomentando lutas desnecessárias.
Nesse aspecto, a Funai tornou-se uma instituição obsoleta. A legislação que ampara e regulamenta suas ações tornou-se anacrônica porque ela não conduz à paz no campo e sim aos conflitos permanentes.
Não há como um produtor de alimentos que tem a posse legal de suas terras, reconhecida pelo Estado, escriturada em cartório, mediante atos jurídicos perfeitos, aceitar que deva sair de suas terras, no bojo do qual ele é julgado pelo próprio órgão que o demanda juridicamente.
Ora, o Estado democrático de Direito pressupõe garantias à posse legal da terra, rechaçando o esbulho e sua tomada pela força e violência.
Quando invadiram a fazenda Buriti --propriedade de 302 hectares que minha família adquiriu em 1927-- e reagiram violentamente a uma ordem de reintegração de posse, queimando casas, roubando gado, matando animais, enfim, transformando-a em escombros, vi ali a esvair-se a história política da minha vida.
Lamentei que isso tenha custado a vida de um brasileiro, o índio Oziel Gabriel, pois sei que aqueles que tombam numa luta inglória entregam o fardo da responsabilidade para os companheiros que permanecem na empreitada.
Que esse conflito sirva para provocar uma inflexão no eixo político, alterando o papel da Funai na definição das políticas demarcatórias, estabelecendo critérios justos e objetivos na identificação das terras indígenas.
Caso contrário, a raposa continuará tomando conta do galinheiro, e as galinhas continuarão sendo vítimas, sem poder reclamar para um governo que não ouve, não enxerga e prefere continuar tergiversando diante de tão grave questão.
Os atuais mecanismos do processo demarcatório da Funai devem ser modificados com urgência. O órgão padece de estrutura operacional e recursos orçamentários adequados, ficando à mercê de ONGs que lhe fornecem, além de ajuda financeira, uma forte sustentação ideológica, de resto altamente deslocada nesse período de globalização da economia.
As ações da Funai têm gerado insegurança no campo, prejudicando um dos setores vitais da economia brasileira. Mesmo porque há imensas suspeitas de que os laudos antropológicos que amparam as decisões demarcatórias são anticientíficos e fraudulentos.
O caso dos conflitos na fazenda Buriti é emblemático. Fui vice-presidente do Movimento pela Anistia e Direitos Humanos em Mato Grosso do Sul, lutei contra a ditadura e sonhei com a volta da ordem democrática no país. Enfrentei os arreganhos do Estado de exceção. Fui relator da constituinte estadual e comemorei o Estado democrático de Direito.
Nesse aspecto, sinto-me frustrado porque jamais imaginei que pudesse um dia me sentir vítima dos instrumentos de liberdade que ajudei a conquistar.
Não cabe mais na lógica do exercício da cidadania um órgão como a Funai, que formula, identifica e delimita áreas indígenas, julgando inclusive as contestações dos produtores, que devem ser apresentadas no prazo exíguo de 90 dias.
A PEC 215, em tramitação no Congresso Nacional, por outro lado, não soluciona o fulcro dessa questão, embora tente criar um critério democrático de consulta num espaço que atualmente está vazio.
A Funai tem todo o tempo do mundo disponível para elaborar seus relatórios antropológicos "técnico-científico", mas não admite que o contraditório seja estabelecido dentro das mesmas regras. Daí, a partir desse modelo, além da falta de transparência e autoritarismo, o estopim da crise é aceso, fomentando lutas desnecessárias.
Nesse aspecto, a Funai tornou-se uma instituição obsoleta. A legislação que ampara e regulamenta suas ações tornou-se anacrônica porque ela não conduz à paz no campo e sim aos conflitos permanentes.
Não há como um produtor de alimentos que tem a posse legal de suas terras, reconhecida pelo Estado, escriturada em cartório, mediante atos jurídicos perfeitos, aceitar que deva sair de suas terras, no bojo do qual ele é julgado pelo próprio órgão que o demanda juridicamente.
Ora, o Estado democrático de Direito pressupõe garantias à posse legal da terra, rechaçando o esbulho e sua tomada pela força e violência.
Quando invadiram a fazenda Buriti --propriedade de 302 hectares que minha família adquiriu em 1927-- e reagiram violentamente a uma ordem de reintegração de posse, queimando casas, roubando gado, matando animais, enfim, transformando-a em escombros, vi ali a esvair-se a história política da minha vida.
Lamentei que isso tenha custado a vida de um brasileiro, o índio Oziel Gabriel, pois sei que aqueles que tombam numa luta inglória entregam o fardo da responsabilidade para os companheiros que permanecem na empreitada.
Que esse conflito sirva para provocar uma inflexão no eixo político, alterando o papel da Funai na definição das políticas demarcatórias, estabelecendo critérios justos e objetivos na identificação das terras indígenas.
Caso contrário, a raposa continuará tomando conta do galinheiro, e as galinhas continuarão sendo vítimas, sem poder reclamar para um governo que não ouve, não enxerga e prefere continuar tergiversando diante de tão grave questão.
Use a cabeça, senhor juiz - GUILHERME FIUZA
O GLOBO - 08/06
Enfim, uma unanimidade. A escolha do novo ministro do Supremo Tribunal Federal, o advogado Luís Roberto Barroso, que pode dar o voto decisivo sobre o mensalão, agradou a todos - governistas e opositores, comentaristas e críticos, simpatizantes da defesa e da acusação. Dilma teria resistido à tentação de inocular na Corte mais uma carta marcada petista, como Lewandowski e Toffoli. O juízo geral parece ser de que Barroso é politicamente equilibrado e seu julgamento será sóbrio e técnico. Sendo isso mesmo, fica difícil entender o falatório do novo ministro nos últimos dias.
Em plena sabatina no Senado, Luís Roberto Barroso achou que devia opinar sobre o processo do mensalão, julgado por seus futuros colegas. E declarou que o Supremo "endureceu" nesse caso. Com seu palpite, Barroso julgou de uma vez só o jogo jogado, os juízes do jogo e o prognóstico para o resultado final. Depois ressalvou que não estudou nada do processo e só estava dizendo isso porque já tinha dito antes. O problema é que antes o palpite era só um palpite. Agora ele estava apenas esperando a toga para entrar em campo como juiz.
Com uma pitada da sobriedade que lhe atribuem, Barroso poderia ter dito que suas opiniões como advogado sobre um processo onde agora será juiz, naturalmente, não vêm ao caso.
São papéis completamente diferentes, e a primeira responsabilidade de um alto magistrado a serviço do Estado é mostrar, justamente, que não será na Corte um advogado de suas opiniões pregressas. Quem quiser conhecê- las que vá ao Google.
Na sabatina, Barroso ressalvou que aquele era o único momento em que falaria livremente, pois em seguida mergulharia na discrição do cargo.
Ora, ele já estava virtualmente no cargo.
Todos sabiam que suas chances de aprovação beiravam os 100%. Evidentemente, suas declarações foram para as manchetes não como opiniões de um jurista, mas como o pensamento do novo ministro do STF. O que provocou repercussões imediatas - inclusive com declaração de outro ministro do STF encampando a tese do julgamento "duro" no caso do mensalão.
Em bom português, o sóbrio, equilibrado e técnico Luís Roberto Barroso inaugurou sua carreira de juiz fazendo política. O que significa sua declaração de que o Supremo endureceu? Significa que no seu voto ele vai amolecer? E se não for isso, por que não simplesmente se calar e ir estudar o processo? É bom não perder de vista o que significa o STF amolecer nas decisões sobre os recursos dos réus do mensalão.
Significa desde o abrandamento de penas até a possibilidade de os chefes do esquema escaparem da prisão.
O novo ministro disse que o rigor da Corte no mensalão foi "um ponto fora da curva". O que quer dizer isso? Barroso está dizendo que o Supremo Tribunal Federal se excedeu? Ou que o Supremo errou? Sim, porque não existe mulher meio grávida, nem sentença meio certa. Existe sentença meio mozarela e meio calabresa - e essas são muito comuns. Estará o STF, com sua nova formação, se encaminhando para uma dessas, no julgamento político mais importante da República? Depois da grande catarse nacional no ano passado, o caso esfriou e a opinião pública não mais voltará a olhá-lo com a mesma atenção. Isso é um fenômeno tipicamente brasileiro, uma espécie de habeas corpus natural, com o qual os delinquentes contam fervorosamente. Mas se o novo ministro do STF acha que o julgamento do mensalão foi um ponto fora da curva, é importante lembrar ao ministro que o escândalo do mensalão também foi um ponto fora da curva.
Seria o caso de perguntar ao ministro Barroso se ele tem notícia de outra quadrilha, na história deste país, que tenha criado um duto entre os cofres públicos e o partido do presidente da República. Não para um desvio fortuito, mas para diversas operações, devidamente comprovadas, que levaram o dinheiro do contribuinte para o caixa do PT.
Seria também interessante lembrar ao novo ministro que o grupo político que pariu e operou esse esquema continua governando o Brasil. Os réus do mensalão não estão no governo, mas a tecnologia está. Talvez o ministro ainda não tenha tido que andar um quilômetro entre os terminais 1 e 2 do aeroporto do Galeão, por conta de uma esteira que não funciona às vésperas da Copa das Confederações.
Pois bem: a agência reguladora que deveria garantir a dignidade dos passageiros é aquela transformada em bazar por Rosemary Noronha - a protegida de Lula que Dilma segurou até onde pôde.
Seria bom lembrar que o PAC, que ostenta níveis ridículos de investimento e planejamento em infraestrutura, tinha como empreiteira campeã a Delta - uma central de negociatas revelada pela CPI do Cachoeira (asfixiada pelo governo Dilma). São cachoeiras de parasitas atarraxados ao Estado pelo governo popular, alguns mais aberrantes, como o ex-ministro Carlos Lupi. Demitido sob acusação de usar ONGs para desviar dinheiro do Ministério do Trabalho, menos de um ano depois ele já dava as cartas no governo novamente.
Dizendo que, no STF, vai fazer apenas o que acha certo, Luís Roberto Barroso disse que seguirá seu coração.
Não, ministro. Siga sua cabeça.
Estude bem o que essa quadrilha fez ao Brasil, e use a cabeça.
Em plena sabatina no Senado, Luís Roberto Barroso achou que devia opinar sobre o processo do mensalão, julgado por seus futuros colegas. E declarou que o Supremo "endureceu" nesse caso. Com seu palpite, Barroso julgou de uma vez só o jogo jogado, os juízes do jogo e o prognóstico para o resultado final. Depois ressalvou que não estudou nada do processo e só estava dizendo isso porque já tinha dito antes. O problema é que antes o palpite era só um palpite. Agora ele estava apenas esperando a toga para entrar em campo como juiz.
Com uma pitada da sobriedade que lhe atribuem, Barroso poderia ter dito que suas opiniões como advogado sobre um processo onde agora será juiz, naturalmente, não vêm ao caso.
São papéis completamente diferentes, e a primeira responsabilidade de um alto magistrado a serviço do Estado é mostrar, justamente, que não será na Corte um advogado de suas opiniões pregressas. Quem quiser conhecê- las que vá ao Google.
Na sabatina, Barroso ressalvou que aquele era o único momento em que falaria livremente, pois em seguida mergulharia na discrição do cargo.
Ora, ele já estava virtualmente no cargo.
Todos sabiam que suas chances de aprovação beiravam os 100%. Evidentemente, suas declarações foram para as manchetes não como opiniões de um jurista, mas como o pensamento do novo ministro do STF. O que provocou repercussões imediatas - inclusive com declaração de outro ministro do STF encampando a tese do julgamento "duro" no caso do mensalão.
Em bom português, o sóbrio, equilibrado e técnico Luís Roberto Barroso inaugurou sua carreira de juiz fazendo política. O que significa sua declaração de que o Supremo endureceu? Significa que no seu voto ele vai amolecer? E se não for isso, por que não simplesmente se calar e ir estudar o processo? É bom não perder de vista o que significa o STF amolecer nas decisões sobre os recursos dos réus do mensalão.
Significa desde o abrandamento de penas até a possibilidade de os chefes do esquema escaparem da prisão.
O novo ministro disse que o rigor da Corte no mensalão foi "um ponto fora da curva". O que quer dizer isso? Barroso está dizendo que o Supremo Tribunal Federal se excedeu? Ou que o Supremo errou? Sim, porque não existe mulher meio grávida, nem sentença meio certa. Existe sentença meio mozarela e meio calabresa - e essas são muito comuns. Estará o STF, com sua nova formação, se encaminhando para uma dessas, no julgamento político mais importante da República? Depois da grande catarse nacional no ano passado, o caso esfriou e a opinião pública não mais voltará a olhá-lo com a mesma atenção. Isso é um fenômeno tipicamente brasileiro, uma espécie de habeas corpus natural, com o qual os delinquentes contam fervorosamente. Mas se o novo ministro do STF acha que o julgamento do mensalão foi um ponto fora da curva, é importante lembrar ao ministro que o escândalo do mensalão também foi um ponto fora da curva.
Seria o caso de perguntar ao ministro Barroso se ele tem notícia de outra quadrilha, na história deste país, que tenha criado um duto entre os cofres públicos e o partido do presidente da República. Não para um desvio fortuito, mas para diversas operações, devidamente comprovadas, que levaram o dinheiro do contribuinte para o caixa do PT.
Seria também interessante lembrar ao novo ministro que o grupo político que pariu e operou esse esquema continua governando o Brasil. Os réus do mensalão não estão no governo, mas a tecnologia está. Talvez o ministro ainda não tenha tido que andar um quilômetro entre os terminais 1 e 2 do aeroporto do Galeão, por conta de uma esteira que não funciona às vésperas da Copa das Confederações.
Pois bem: a agência reguladora que deveria garantir a dignidade dos passageiros é aquela transformada em bazar por Rosemary Noronha - a protegida de Lula que Dilma segurou até onde pôde.
Seria bom lembrar que o PAC, que ostenta níveis ridículos de investimento e planejamento em infraestrutura, tinha como empreiteira campeã a Delta - uma central de negociatas revelada pela CPI do Cachoeira (asfixiada pelo governo Dilma). São cachoeiras de parasitas atarraxados ao Estado pelo governo popular, alguns mais aberrantes, como o ex-ministro Carlos Lupi. Demitido sob acusação de usar ONGs para desviar dinheiro do Ministério do Trabalho, menos de um ano depois ele já dava as cartas no governo novamente.
Dizendo que, no STF, vai fazer apenas o que acha certo, Luís Roberto Barroso disse que seguirá seu coração.
Não, ministro. Siga sua cabeça.
Estude bem o que essa quadrilha fez ao Brasil, e use a cabeça.
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