segunda-feira, maio 27, 2013

Uma mentira engole a outra - RICARDO NOBLAT


O GLOBO - 27/05

"Nós temos partidos de mentirinha".

Joaquim Barbosa, presidente do STF


O que foi que, semana passada, a ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, atribuiu à central de notícias da oposição?, Dilma chamou de "desumano e criminoso"?, Lula, de ação praticada por "gente do mal"?, José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, de "manobra orquestrada"?, e Ruy Falcão, presidente do PT, de "terrorismo eleitoral"?

NO SÁBADO 18 e no dia seguinte, em 13 estados, um milhão de clientes do programa Bolsa Família invadiram agências lotéricas para sacar suas mesadas fora do dia marcado. Boatos davam conta de que o programa seria extinto ou suspenso. Ou de que Dilma autorizara o pagamento de um bônus.

A MINISTRA MARIA DO ROSÁRIO corrigiu-se poucas horas depois de ter dito o que disse. Qualificou de "singela" sua opinião. E garantiu: "Não quero politizar". 
Ora, quem, por meio de uma "manobra orquestrada", poderia fazer "terrorismo eleitoral"? Aliados do governo? Uma vez politizado, o episódio politizado está. Só que, aos poucos, ameaça voltar-se contra o governo. Teria sido má gestão embrulhada em mentiras.

ENTRE AS TARDES DO SÁBADO e do domingo, quando pessoas em desespero depredaram agências lotéricas na caça ao tesouro do Bolsa Família, dois gerentes regionais da Caixa Econômica sugeriram que um erro do sistema de pagamento seria o responsável pela liberação do dinheiro em desacordo com o calendário. Um deles, Hélio Duranti, do Maranhão, foi mais preciso.

"OS BOATOS SURGIRAM após um atraso no pagamento do benefício ocorrido em todo o país. A situação foi normalizada, mas muita gente procurou os caixas eletrônicos ao mesmo tempo, e o dinheiro acabou", disse ele. "Quem não encontrou ficou revoltado e quebrou os caixas". A ministra Tereza Campello, do Desenvolvimento Social, preferiu observar: "Não existe qualquer motivação para que a gente pudesse gerar esse tipo de intranquilidade para a população."

A DIREÇÃO DA Caixa Econômica atravessou a semana negando que tivesse mexido no calendário de pagamento. 
Até que, na última sexta-feira, a Folha de S. Paulo encontrou na região metropolitana de Fortaleza a dona de casa Diana dos Santos. Uma semana antes, ela fora a um caixa eletrônico sacar os R$ 32 do Bolsa Família referentes a abril. Ao inserir seu cartão, sacou os R$ 32 de abril e os R$ 32 de maio.

"RECEBO O BOLSA FAMÍLIA há anos, e nunca pagaram antecipadamente", comentou Diana. "Acho que outras pessoas receberam também, avisaram aos conhecidos, e virou essa confusão". A Caixa inventou, então, outra história: "A Caixa Econômica Federal esclarece que vem realizando diversas melhorias no Cadastro de Informações Sociais. Em consequência, na sexta-feira (17), primeiro dia do calendário de pagamentos de benefícios do mês de maio, o banco disponibilizou o saque independentemente do calendário individual."

O PAGAMENTO É FEITO levando-se em conta o último número do cartão magnético de cada bolsista. A Caixa soltou o dinheiro para pagar de vez a todo mundo, mas não avisou a ninguém. Ela não explica como uma operação dessas melhora seu Cadastro de Informações Sociais.

NO DIA EM que a Folha pegou a mentira da Caixa, uma fonte da Polícia Federal, mediante a garantia de anonimato, revelou ao GLOBO que fora localizada a central de telemarketing responsável pela difusão dos boatos. Não disse como a central teve acesso aos números de telefones dos inscritos no Bolsa Família.


Sem acesso aos números de telefones como a central poderia disseminar boatos?

Enquanto a Polícia Federal não revelar o nome da empresa e não apresentar o criminoso que encomendou o serviço, sobreviverá a suspeita de que ela mente para livrar a cara da Caixa Econômica.

Mensalão da internet - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 27/05

Na última sexta-feira, neste mesmo espaço, a ex-senadora Marina Silva fez uma corajosa abordagem sobre um tema que impressiona a quem frequenta o mundo das redes sociais. Classificado por ela como "Mensalet" ou "mensalão da internet", trata-se da atuação de uma indústria subterrânea voltada a disseminar calúnias e a tentar destruir reputações.

Ninguém discute os benefícios da internet, que carrega o sonho de um mundo mais plural e democrático. Tamanha transformação exige, porém, um novo senso ético e de responsabilidade compartilhada.

Infelizmente, sob os novos horizontes tornados reais, existe um campo cinzento onde se instalou, no Brasil, um verdadeiro exército especializado em disseminar mentiras e agressões. Fingindo espontaneidade, perfis falsos inundam as áreas de comentários de sites e blogs com palavras-chaves previamente definidas; robôs são usados para induzir pesquisas com o claro objetivo de manipular os sistemas de busca de conteúdo; calúnias são disparadas de forma planejada e replicadas exaustivamente, com a pretensão de parecerem naturais.

Absurdas acusações que jamais serão comprovadas, por serem falsas, são postadas e repostadas diariamente. A vítima pode ser um magistrado, um político ou um cidadão comum. Pode ser um jornalista, uma atriz, não importa. Os objetivos são constranger, forjar suspeições, levantar dúvidas, transformar em verdade a mentira repetida mil vezes.

O mais grave é que esse roteiro se repete para buscar desconstruir a imagem de qualquer um que ouse defender ideias divergentes dos interesses daqueles que mantêm plugada essa verdadeira quadrilha virtual. E, quando alguém recorre à Justiça para se defender de ataques infundados, é acusado de exercer censura, invertendo, assim, as posições. A vítima passa à posição de réu.

Esse tipo de ação covarde é um lado da moeda que, na outra face, tenta controlar a imprensa, impedir a formação de novos partidos, defender a remoção do direito de investigação do Ministério Público e a submissão das decisões do STF à maioria governista no Congresso Nacional.

A boa notícia é que esse movimento, cuja origem e objetivos ficam cada vez mais claros, ganha crescente descrédito, fazendo com que certas vilanias fermentem apenas nas trincheiras dos espaços ocupados, e eventualmente pagos, pela má-fé.

Até porque não é apenas o conteúdo da internet, a mais importante revolução do nosso tempo, que deve permanecer para sempre. A honra das pessoas também deveria.

Liberdades de imprensa, de informação e de opinião são conquistas definitivas da nossa sociedade. Calúnia, injúria e difamação são crimes. E assim devem ser tratados.

Lula e Cristina - dize-me com quem andas... - SERGIO FAUSTO

ESTADÃO - 27/05

Em sua passagem por Buenos Aires, na semana retrasada, Lula deu endosso público à guerra que a presidente argentina move contra a liberdade de imprensa em seu país. Disse, com outras palavras, que lá, como aqui, a imprensa "conservadora" não se conforma com o sucesso de governos "populares".

Pelo menos no caso do país vizinho, falar em sucesso é abuso de linguagem. O balanço de dez anos dos Kirchners no poder tem pontos positivos, mas os negativos vêm se multiplicando ao longo do segundo mandato de Cristina: inflação em alta, crescimento em baixa, investimento em queda, saldo externo em deterioração, inconsistência cada vez maior na gestão das políticas públicas. Parece familiar, não é mesmo? Mas seria injusto dizer que os governos Néstor-Cristina descrevem trajetória igual à dos governos Lula-Dilma. Sem negar semelhanças, a escala dos erros e dos problemas é muito maior lá do que aqui. Grande parte da diferença se explica pela desenfreada arbitrariedade do governo de Cristina Kirchner, tanto na economia quanto na política, inseparavelmente.

Na Argentina não são apenas verbais e localizadas as investidas contra grupos de comunicação não alinhados ao governo. O mais recente torpedo governamental consistiu em proibir supermercados e lojas de eletrodomésticos de publicar anúncios em jornais e canais de televisão. Válida para todos, a medida atinge principalmente os veículos que não contam com os recursos da publicidade oficial. O alvo principal é o Grupo Clarín.

Ele passou de amigo a inimigo do governo depois de assumir posição favorável aos protestos de agricultores contrários à criação de um tributo adicional sobre as exportações de seus produtos. Cristina cumpria o primeiro ano de seu primeiro mandato e acabou derrotada no Congresso. Jamais deglutiu o revés. Desde então, constituir um aparato de mídia sob seu controle e destruir o Clarín se tornou prioridade para seu governo. Com esse duplo propósito, Cristina não poupou recursos públicos nem esforços, entre os quais a tentativa, em andamento, de estatizar a única empresa importadora de papel imprensa do país.

Na guerra contra o Clarín, esbarrou na resistência do Poder Judiciário. Uma liminar concedida há mais de um ano protege o grupo dos efeitos da chamada "Lei da Mídia", cuja aplicação obrigaria o Clarín a vender parte de seus canais de televisão e rádio. Inconformada, Cristina conseguiu aprovar uma lei que reforma o Judiciário, tornando eletivos os assentos no Conselho da Magistratura, órgão incumbido de escolher os juízes dos tribunais argentinos. Assim como no caso da "Lei da Mídia", essa nova iniciativa é apresentada como "democratizadora".

Que o objetivo da reforma do Judiciário não é democratizar a Justiça argentina fica claro pelos limites que impõe à obtenção de liminares contra decisões do governo e pelo empenho sistemático dos Kirchners em bloquear as investigações e decisões judiciais que têm por objeto as várias denúncias de enriquecimento ilícito que pesam contra o casal, sua família e seus aliados. Da mesma forma, o modo discriminatório como o governo trata os veículos de imprensa, de acordo com sua maior ou menor proximidade com o governo, revela não ser democrático o propósito da "Lei da Mídia". Naquela mesma semana, Cristina chegou ao cúmulo de determinar que a transmissão dos jogos do campeonato argentino de futebol no domingo à noite se inicie uma hora mais tarde, para coincidir com o horário em que vai ao ar o programa do jornalista Jorge Lanata, que se tem destacado por denúncias de corrupção contra o governo.

Criar regras que limitem a concentração dos veículos de mídia nas mãos de um mesmo grupo e tornem viável a ampliação da oferta de fontes alternativas de informação é, sim, um passo na direção de maior democracia. Porém, quando a iniciativa parte de governos e partidos cuja prática política consiste em sistematicamente enfraquecer as instituições que garantem o equilíbrio do jogo democrático e põem limites ao uso discricionário do poder pelo governo de turno, é preciso não se deixar iludir pelas belas palavras e nobres intenções. Não é coincidência que iniciativas para promover o "controle social da mídia" e "a democratização da Justiça" surjam sempre irmanadas nas ações dos governos da Venezuela, da Bolívia, do Equador e na cada vez mais "bolivariana" Argentina de Cristina Kirchner.

As declarações de Lula em Buenos Aires não são surpreendentes. Pouco mais de um mês antes, gravou mensagem de apoio a Nicolás Maduro, herdeiro do projeto chavista do "socialismo do século 21". Quem ainda nutre ilusões sobre o que se esconde por trás dessa fachada deveria ouvir o diálogo gravado entre um assessor cubano e o principal ventríloquo do "jornalismo" chavista, Mario Silva, apresentador do programa La Hojilla. O diálogo tornou-se público na semana passada. Desnuda-se ali o confronto interno entre a facção civil e ideológica e a facção militar-cleptocrática do chavismo, aquela inspirada por Cuba e esta, pelas oportunidades de enriquecimento e poder que um regime arbitrário oferece.

Pela influência que tem em seu partido e no governo de sua sucessora, a palavra de Lula não é apenas uma opinião singela. As oposições devem cobrar da presidente Dilma Rousseff uma posição clara quanto às manifestações de seu antecessor. Concorda com elas ou não? Basta de ambiguidades em relação a temas tão essenciais à convivência civilizada e democrática: liberdade de expressão, autonomia do Judiciário, para não falar em direitos humanos, área em que Dilma esboçou mudanças ao início de seu mandato para logo voltar à política de vista grossa e boca fechada.

Não é aceitável dizer-se democrata em casa e solidarizar-se com toda sorte de arbitrariedades na vizinhança. É mais do que hora de acabar com isso.

Impotentes x Batalhadores - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP - 27/05

SÃO PAULO - A corrida de multidões para agências da Caixa, em meio ao boato sobre o fim do Bolsa Família, foi um evento exemplar do Brasil contemporâneo, embora um de seus aspectos remonte a antigas discussões sobre psicologia das massas.

O debate entrou na agenda da academia e da política na virada do século 19 para o 20. A urbanização galopava, e as metrópoles europeias tornavam-se aglomerados de populações desenraizadas.

Na multidão, dizia-se, diluem-se a identidade e o autogoverno do indivíduo, que passa a agir por impulso e imitação. Suscetíveis, as massas devem ser diligentemente manipuladas pela elite da nação.

Lideranças fascistas lambuzaram-se nesse melado. Investiram no carisma hipnotizador do Führer e na propagação metódica das mentiras que lhes interessavam.

Para espalhar boatos e calúnias, não dispunham de acesso telefônico instantâneo a dezenas de milhões de pessoas. Agora, a tecnologia está à mão. Mesmo que não tenha havido ação orquestrada no caso da Caixa, ficou evidente o potencial dessa ferramenta chamada telefone celular.

Também ressalta no episódio o grau de dependência de largas fatias da população em relação ao governo federal. Será que mamãe Dilma vai cortar a mesada? Melhor correr e raspar a conta já.

Resplandece a ética do impotente, de quem espera do governo remédio para seus problemas. De quem encara como dádiva a migalhice recebida dos políticos na assistência, na saúde e na educação.

Mas esse é apenas um polo dos arquétipos em conflito na sociedade brasileira. O outro é o dos batalhadores. De quem acredita que a recompensa individual diferenciada deve decorrer do esforço diferenciado. De quem exige dos governos o retorno eficiente dos impostos que paga.

Batalhadores e impotentes vão bater chapa no ano que vem, na disputa mais profunda pelo poder federal.

Sem sentido - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 27/05

A proposta de alteração da Lei da Anistia não é nova. Com a chegada ao poder de ex-perseguidos pela ditadura militar, no Executivo federal e Legislativo, o tema passou a ser tratado com maior frequência. Até que, no final da gestão Lula, o assunto foi contrabandeado para a terceira versão do Programa de Defesa dos Direitos Humanos. Houve um início de crise no Ministério da Defesa, contornado pelo então ministro Nelson Jobim, com a ajuda de Lula e o providencial recuo do governo.

O assunto retorna, agora, por meio da Comissão da Verdade, criada em 2010 e empossada há um ano pela presidente Dilma Rousseff, para apurar o paradeiro dos desaparecidos e fatos ocorridos nos porões da repressão política na ditadura militar.

Embora não seja incumbência da comissão propor alterações na lei, alguns de seus representantes têm dado declarações favoráveis a mudanças para que agentes públicos envolvidos naquela “guerra suja” possam ser processados, julgados e condenados.

Um avanço de sinal. Os ministros da Defesa, Celso Amorim, e da Justiça, José Eduardo Cardozo, se apressaram, em boa hora, a afastar a possibilidade de o governo encaminhar qualquer proposta ao Congresso neste sentido.

Entre outras consequências negativas, a medida iria contra um veredicto do Supremo Tribunal Federal, de 2010, segundo o qual improcedia o entendimento da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de que a lei não poderia beneficiar torturadores. A Ordem foi derrotada por sete votos a dois.

Se tentasse rever a lei, o Executivo cometeria uma ilegalidade, pois foi referendado pela mais alta Corte do país o caráter amplo, geral e recíproco da anistia, enviada ao Congresso pelo último governo de generais, o de João Baptista Figueiredo, e aprovada em 1979.

Mesmo elaborada, encaminhada e aprovada ainda na ditadura, a Lei da Anistia foi fruto de intensa negociação entre os militares e a oposição. Tem, portanto, uma legitimidade não existente em leis semelhantes de países vizinhos, também ex-ditaduras. Nestes, o alcance da anistia foi calibrado a favor dos militares. Houve contestações, mudanças, e agentes públicos puderam ser processados e condenados. Caso diferente do brasileiro.

Quando a proposta da lei foi redigida, o Brasil já se encontrava na última etapa do processo de redemocratização, formulado e executado na sua parte mais difícil, o início, pelo antecessor de Figueiredo, Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, seu chefe da Casa Civil. Os “porões” em que se abrigava a “tigrada” da repressão foram vencidos no governo Geisel, responsável pela escolha de Figueiredo.

Houve, então, espaço de negociação sobre a Lei da Anistia, como parte do processo mais amplo de redemocratização, a base do atual período de 28 anos de regime estável, de liberdades garantidas pela Constituição, a fase mais longa ininterrupta de estado de direito democrático na República. Se juridicamente já é impossível, do ponto de vista político e histórico não faria qualquer sentido reabrir a questão.

Exploração política de Libra - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 27/05

O primeiro leilão do petróleo do pré-sal sob regime de partilha anunciado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) ofertará a maior reserva já leiloada em um único pregão em todo o mundo. Ela pode ser quatro ou cinco vezes maior do que o maior campo atualmente em produção no País. Os novos dados geológicos sugerem que essa área - Libra, no pré-sal da Bacia de Santos - pode ter reservas de 8 bilhões a 12 bilhões de barris de petróleo recuperáveis, que equivalem a dois terços de todas as reservas provadas do País.

Duas decisões indicam que o governo não resistiu a usar esses dados com objetivos político-eleitorais. A primeira foi o anúncio, pela ANP, de que, inicialmente marcado para novembro, o leilão da área gigante de Libra será antecipado para outubro. Com isso, será adiado para novembro a 12.ª rodada de licitações, com áreas com potencial para produção de gás, antes prevista para outubro. O governo quer explorar publicitariamente o leilão do pré-sal o mais depressa possível.

Até a realização, há pouco, da 11.ª rodada de licitação, a ANP tinha ficado cinco anos sem realizar nenhum leilão, o que resultou no declínio da produção interna de petróleo, pelo natural esgotamento dos campos em exploração e por problemas que a Petrobrás enfrentou, assim como o afastamento do País de empresas que estavam interessadas em investir no setor, mas não encontravam oportunidades.

Após um período de letargia que coincidiu com o aprofundamento da crise financeira e operacional da Petrobrás, a agência reguladora mostra uma grande disposição de dinamizar o setor. Entusiasmada com os novos dados de Libra, chega a empregar linguagem semelhante à utilizada pelo então presidente Lula há seis anos, quando anunciou a descoberta do petróleo do pré-sal. A diretora-geral da ANP, Magda Chambriard, disse que ela e o governo ficaram "deslumbrados" com o potencial de Libra. "É muito grande, muito maior do que tínhamos na mão até agora."

Até abril, a ANP estimava que Libra teria entre 4 bilhões e 5 bilhões de barris recuperáveis. Os novos dados mostram o dobro disso. É bem mais do que o maior campo em exploração no Brasil, o de Marlim, com 2 bilhões de barris recuperáveis, e o campo gigante de Lula, no pré-sal, que tem entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris. Entre 2020 e 2030, Libra será a principal área produtora do País, superando a Bacia de Campos, que responde por 80% do petróleo brasileiro.

"Face ao porte que temos, faz-se absolutamente necessária a presença da presidente da República numa licitação como essa", disse ainda a diretora-geral da ANP, ao anunciar que, ao contrário da 11.ª rodada de licitação, realizada no Rio de Janeiro, o leilão da área de Libra será em Brasília, com a presença da presidente Dilma. É a segunda decisão que mostra a intenção de explorar politicamente o fato.

Dado o potencial de Libra, é muito provável, como prevê a diretora-geral da ANP, que apenas grandes empresas participem do leilão. Elas terão à sua disposição um grande número de informações sobre a área, o que aumentará sua segurança e tenderá a elevar o valor de sua oferta pela concessão.

O marco legal para a exploração do petróleo do pré-sal assegurou à Petrobrás um papel central. Mesmo que não participe originalmente do consórcio vencedor, a estatal tem assegurada a participação de pelo menos 30% do empreendimento. A contrapartida desse direito é a obrigação de a Petrobrás participar, na mesma proporção, de todos os investimentos que terão de ser feitos em Libra e que, segundo estimativas iniciais, podem superar US$ 250 bilhões.

Recorde-se que esse valor é próximo do total do plano de investimento da Petrobrás para os próximos anos - plano que, obviamente, não inclui as necessidades financeiras que surgirão para a exploração de Libra. Se a empresa já enfrenta dificuldades para cumprir seu plano sem Libra, maiores elas serão para participar da exploração da nova área.

Coalizão do atraso - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 27/05

Ainda a 16 meses do pleito presidencial, Congresso paralisa reformas para elevar o preço da fatura por apoio à reeleição de Dilma Rousseff


No que depender do Congresso, o país seguirá parado. Reformas para tornar os tributos mais eficientes, a mineração mais moderna, as finanças estaduais e municipais menos amarradas terão de esperar --ao que indica a hipótese mais otimista-- as eleições nacionais de outubro do ano que vem.

Dezesseis meses é um longo período para uma nação de renda apenas média cujos indicadores econômicos se deterioram em ritmo lento, mas contínuo. A expectativa de desempenho do PIB em 2013 iniciou o ano na faixa de 3% a 3,5%. Um terço do caminho percorrido, já baixou para 2,5% a 3%.

Após mais de uma década no azul, o vermelho começa a prevalecer no resultado das transações comerciais com o exterior. O deficit se amplia se forem computadas as balanças de turismo e das remessas e repatriações de lucros. A inflação custa a desacelerar.

O desemprego continua baixo, mas não por muito tempo caso siga exposto a esse ritmo frustrante de atividade econômica. A China, esteio do boom brasileiro no final da década passada, já cresce menos e coloca freio na demanda pelos produtos básicos nos quais o Brasil se especializou.

Que justamente neste momento o Congresso se anule como fórum de deliberação sobre as questões importantes da economia é algo que desvela a natureza da inchada coalizão de partidos governistas. Estão juntos não para encetar um programa comum, mas para garantir nacos privilegiados da portentosa máquina federal.

Põem-se de acordo apenas sobre a eleição do ano que vem. Postam-se ao lado de quem tem o poder incontrastável de cooptar. E chantageiam o governo que dizem defender em quase tudo o mais.

O PMDB, sócio majoritário da aliança, é preponderante nos endossos para criar a CPI da Petrobras. A estatal fez negócios suspeitos no exterior, de fato. Mas os governistas do PMDB querem mesmo é acertar contas com o Planalto.

A oposição, que se queria sufocar por meio da ampla cooptação governamental, com a oferta de 39 ministérios e mais de 20 mil cargos na administração, estaria de volta sob a forma recalcada de pequenos motins clientelistas na base?

O extravio do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, ainda apoiador e já um rival, seria outra sequela da obsessão hegemônica do PT. Esta, como um vírus atenuado, parece capaz de vir a causar dano maior talvez apenas diante de deterioração mais forte da economia, por ora improvável.

Interpretações à parte, o fato, demonstrado à exaustão, é que esse modelo de aliança política inibe a modernização da economia e da sociedade. É a coalizão do atraso.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO


" Eu sei que eles vão me jogar na cerca, mas eu vou arrebentá-la"
Eduardo Campos (PSB-PE),ao acusar o PT de tentar impedir sua candidatura em 2014


PMDB leva guerras estaduais com  PT para Câmara

Se a presidenta Dilma acha que teve trabalho na votação da MP dos Portos, pode armar tropas para a batalha. A bancada do PMDB agora ameaça, além de negar apoio à sua reeleição, descarregar as broncas estaduais com o PT dificultando a votação de matérias de interesse do governo. O PT trava cabo de guerra com PMDB em Pernambuco, no Rio, Maranhão, Bahia, Mato Grosso do Sul, Ceará e Rio Grande do Sul


Missão impossível

O vice-presidente Michel Temer escalou o ex-ministro Eliseu Padilha (RS) para tentar reestabelecer a relação entre o governo e a bancada.


Problema dele

Líder do PMDB, Eduardo Cunha disse semana passada, em alto e bom som, para Eliseu Padilha ouvir: “Estou pouco me lixando para o Michel”.


Quer distância

A presidenta Dilma se negou a pisar em jantar do PMDB com ministros e governadores para evitar Eduardo Cunha, de quem tem horror.


Mexeu comigo

Dilma ficou irritada com os ataques do líder peemedebista à ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) após votação da MP dos Portos.


OAB entra na briga contra calote de precatórios

A OAB vai entrar de sola contra a flexibilização do pagamento de precatórios, pretendida pelo governador paulista Geraldo Alckmin. De acordo com Marco Antonio Innocenti, presidente da Comissão de Precatórios da OAB nacional, a entidade vai brigar pela impugnação da chamada “modulação” dos precatórios. O Estado de São Paulo deve R$ 29 bilhões em precatórios. A prefeitura paulistana, R$ 28 bilhões.


Me errem

Pedro Simon (PMDB-RS) destaca que o chanceler Antonio Patriota some até nas viagens internacionais de Dilma. Já Aloizio Mercadante...


Mal-me-quer

O PSB-RN torce para que Eduardo Campos (PE) desista de disputar à Presidência em 2014, o que melaria aliança com PT no Estado.


Conveniência

De Abelardo Camarinha (PSB-SP) sobre a relação do PT com aliados: “Nas eleições, o PT é igual ao Cristo Redentor: Vinde a mim!”, ironiza.


Ninguém viu

Dados da organização britânica Campanha Contra Comércio de Armas revelam que o Reino Unido emitiu licenças no valor de R$426 milhões, só no ano passado, para exportar equipamentos militares ao Brasil.


Racha interno

Deputados do PR garantem que faltam apenas três assinaturas para retirar Garotinho (RJ) da liderança do partido. A pedido do Planalto, o dono do PR, Valdemar da Costa Neto, tenta segurá-lo no cargo.


Coincidência?

O governador Camilo Capiberibe defendeu que seu partido, o PSB de Eduardo Campos (PE), apoie a reeleição da presidenta Dilma um dia depois de o BNDES liberar empréstimo de R$ 2,8 bilhões ao Amapá.


É fria

O Itamaraty diz que vai apurar denúncia dos funcionários do consulado em Atlanta (EUA), obrigados pelo então embaixador Adalnio Ganem a furar o bloqueio de uma nevasca. Vizinho do consulado, ele trabalhou.


É fogo

Petrogold, cujos tanques explodiram matando uma pessoa em cenário de horror em Caxias, foi denunciada com outras duas pelo Ministério Público do Rio em 2010 por suposta sonegação fiscal de R$2,3 milhões


Pelo cano

O Ministério da Cultura procura “em local incerto e não sabido” o vereador e ex-presidente da UNE Gustavo Petta (PCdoB-SP) para devolver R$252 mil de um convênio da entidade em Mato Grosso.


Aperto

O ministro do Comércio da Venezuela, Alejandro Fleming, se contorceu para explicar no jornal El Universal o vexame da importação urgente de papel higiênico: “É para acalmar os níveis de ansiedade da população.”


Confusão à vista

A ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos), o presidente da frente LGBT, Jean Wyllys e o pastor Marco Feliciano participarão da exibição, dia 6, na Câmara, do documentário ‘Mais Náufragos que Navegantes, de Guillermo Planel’. O tema: direitos humanos e sexualidade.


Pensando bem...

... Sérgio Cabral meteu o Pezão na porta da Dilma.

Poder sem pudor

Memória afiada

Em 1994, o senador Áureo Mello passou o carnaval no Rio. Certo dia, ele viu nos jornais a famosa fotografia de Itamar Franco com a modelo Lílian Ramos, no Sambódromo. Ela vestia só uma camiseta, exibindo toda a sua intimidade. Um amigo puxou conversa com o senador:
- Que papelão do Itamar na avenida...
Áureo ajeitou os óculos, aproximou o jornal do rosto e exclamou:
- Meu Deus! Se não me falha a memória, isto aí é a dita cuja!
Era.

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: Infância abandonada – Só 10% das crianças em abrigos podem ser adotadas
Folha: Miséria ainda persiste na educação, diz índice oficial
Estadão: Preço menor de produtos tira US$ 20 bi de exportações
Correio: Nova ação na Câmara para abolir voto secreto
Valor: Dilma impõe tolerância zero para atraso em obras
Estado de Minas: Profissão: lobista
Zero Hora: 108 prefeituras não fiscalizam projetos com risco ambiental
Brasil Econômico: Galeão só para as Olimpíadas

domingo, maio 26, 2013

Já para o armário - GUILHERME FIUZA

REVISTA ÉPOCA
A causa gay, como todo mundo sabe, virou um grande mercado comercial e eleitoral. Hoje, qualquer político, empresário ou vendedor de qualquer coisa tem orgulho gay desde criancinha. Se você quer parecer legal perante seu grupo ou seu público, defenda o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Você ganhará imediatamente a aura do libertário, do justiceiro moderno. Você é do bem. Em nome dessa bondade de resultados, o Brasil acaba de assistir a um dos atos mais autoritários dos últimos tempos. Se é que o Brasil notou o fato, em meio aos confetes e serpentinas do proselitismo pansexual.
Conselho Nacional de Justiça decidiu obrigar os cartórios brasileiros a celebrar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Tudo ótimo, viva a liberdade de escolha, que cada um case com quem quiser e se separe de quem não quiser mais. Só que a bondade do CNJ é ilegal. Trata-se de um órgão administrativo, sem poder de legislar e o casamento, como qualquer direito civil, é uma instituição fundada em lei. O CNJ não tem direito de criar leis, mas tem Joaquim Barbosa.

Joaquim Barbosa presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça é o super-herói social. Homem do povo, representante de minoria, que chegou ao topo do Estado para "dizer as verdades que as pessoas comuns querem dizer". O Brasil é assim, uma mistura de novela com jogo de futebol. Se o sujeito está no papel do mocinho, ou vestindo a camisa do time certo, ele pode tudo. No grito.


Justiceiro, Joaquim liberou o casamento gay na marra e correu para o abraço. Viva o herói progressista! Se a decisão de proveta for mantida, o jeito será rezar para que o CNJ seja sempre bonzinho e não acorde um dia mal-humorado, com vontade de inventar uma lei que proíba jornalistas de criticar suas decisões. Se o que o povo quer" pode ser feito no grito, o que o povo não quiser também pode. O Brasil já cansou de apanhar do autoritarismo, mas não aprende.

E lá vai Joaquim, o redentor, fazendo justiça com as próprias cordas vocais. Numa palestra para estudantes de Direito, declarou que os partidos políticos brasileiros são "de mentirinha". Uma declaração absolutamente irresponsável para a autoridade máxima do Poder Judiciário, que a platéia progressista aplaude ruidosamente.
Se os partidos não cumprem programas e ideias claras, raciocinam os bonzinhos, pedrada neles. Por que então não dizer também que o Brasil tem uma Justiça "de mentirinha"? Juízes despreparados, omissos e corruptos é que não faltam. Quantos políticos criminosos militam tranquilamente nos partidos "de mentirinha", porque a justiça não fez seu papel? A democracia representativa é baseada em partidos políticos. Com todas as suas perversões e são muitas -, eles garantem seu funcionamento. E também legitimam a ação de gente séria que cumpre programas e ideias, pois, se fosse tudo de mentira, um chavista mais esperto já teria mandado embrulhar o pacote todo para presente, com Joaquim e tudo.

A resolução do CNJ sobre o casamento entre homossexuais é uma aberração, um atropelo as instituições pelo arrastão politicamente correto. A defesa da causa gay está ultrapassando a importante conquista de direitos civis para virar circo, explorado pelos espertos. Um jogador de basquete americano anuncia que é homossexual, e isso se torna um espetáculo mundial, um frisson planetário. Como assim? A esta altura? A relação estável entre parceiros do mesmo sexo já não é aceita na maior parte do Ocidente? Por que, então, a decisão do jogador é uma bomba? Simples: a panfletagem pró-gay virou um tiro certo.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, dá declaração solene até sobre a opção sexual dos escoteiros. Talvez, um dia, os gays percebam que foram usados demagogicamente, por um presidente com sustentação política precária, que quer se safar como herói canastrão das minorias.

Ser gay não é orgulho nem vergonha, não é ideologia nem espetáculo, não é chique nem brega. Não é revanche.
Não é moderno. Não é moda. É apenas humano.

A luta contra o preconceito precisa ser urgentemente tirada das mãos dos mercadores da bondade. Eles semeiam, sorridentes, a intolerância e o autoritarismo. Já para o armário!

Como o nordeste virou a china brasileira - CLAUDIO DE MOURA CASTRO

REVISTA VEJA


Há 15 anos, o empresário sergipano João Carlos Paes Mendonça não tinha investimentos em shopping centers. Hoje, seu grupo, JCPM, é um dos cinco maiores do país no setor, com participação acionária em 11 shoppings. Seu sucesso é consequência e causa do crescimento econômico do Nordeste, onde ele concentra seus empreendimentos.Nos últimos 15 anos, a região, com mais de 53 milhões de habitantes (27% da população brasileira), deixou de ser vista como um caso de crise e pobreza sem solução. Entre 1995 e 2009, o PIB nordestino cresceu 53,4%, 14% acima da media do país. O crescimento nordestino é consequência de três movimentos: injeção de dinheiro público na economia local (com obras de infraestrutura c programas de renda mínima), crescimento de empresas locais (como o grupo JCPM) e atração de empresas multinacionais e de outras regiões do país.
Maior bolsão de pobreza do Brasil, com metade da população nas classes C, D e E, o Nordeste foi o principal beneficiário da queda da inflação, a partir de 1994, e dos programas de redistribuição de renda, como o Bolsa Família, desde 2003. O Nordeste recebe metade dos recursos distribuídos pelo Bolsa Família (R$ 4,2 bilhões, nos quatro primeiros meses deste ano). A região também é foco prioritário das obras de infraestrutura do governo federal. No governo Lula (2003-2010), 18% dos investimentos previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) contemplavam o Nordeste. "O valor orçado era superior ao PIB da região", diz Alexandre Rands, economista da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Com os repasses do Estado, o vento de prosperidade sobrou o mercado nordestino de baixo para cima. Beneficiou desempregados, trabalhadores, pequenos e grandes empreendedores locais, como Paes Mendonça. Entre 2008 e 2010, a taxa de sobrevivência de empresas no Nordeste superou a média nacional. "O custo Nordeste é muito menor que o alisto Brasil", diz Edênio Nobre, diretor do BicBanco, banco cearense especializado em empresas de pequeno e médio porte. Segundo o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), os pequenos negócios já são responsáveis por 58,2% dos empregos com carteira assinada no Piauí. "O empreendedorismo está em alta, num ambiente próximo ao pleno emprego", diz Luiz Barretto, presidente do Sebrae. De 2002 a 2012, a região criou mais postos dc trabalho que a média nacional. O impacto direto desse desenvolvimento pode ser visto na evolução da renda média por habitante. No Nordeste, ela foi maior que a média nacional. Isso permitiu uma inversão no tradicional movimento migratório de nordestinos para o Sudeste. Ele encolheu 5%, desde os anos 2000. No mesmo período, o número de não nordestinos que decidiram se estabelecer na região cresceu 14%. "Isso é importante, pois estamos falando da região mais difícil do país", diz João Policarpo Lima, pesquisador da UFPE.

Para Paes Mendonça, o maior dinamismo da economia local foi a oportunidade para lançar empreendimentos de maior valor agregado uma transformação relevante, numa família que testemunhou o crescimento da economia da região. Desde os anos 1930, seu pai, Pedro, era dono de mercearias. Na década de 1960, a família passou a investir em supermercados, como a rede Paes Mendonça.

Em 2000, ele se afastou do varejo. Vendeu os supermercados Bom Preço e o cartão de crédito Hipercard, para montar o grupo JCPM. Além de 11 shopping centers, o JCPM atua nos setores imobiliário e de comunicações. E hoje o maior grupo empresarial da região."Um novo mercado se abriu para profissionais mais qualificados, salários mais altos e consumidores mais exigentes", diz Paes Mendonça.

Multinacionais foram atraídas para o Nordeste: Mondeis International (antiga divisão de guloseimas da Kraft Foods), Fiat, Ford e CocaCola são exemplos. "As empresas instalaram-se atraídas por um mercado proporcionalmente maior que a renda gerada na região, dada a grande transferência de recursos do governo federal", afirma Rands, da UFPE. Além do potencial do mercado consumidor emergente, pesaram na decisão das empresas incentivos fiscais generosos, como isenção de ICMS, e a presença de portos integrados a polos industriais. É o caso dos portos de Camaçari, na Bahia, e de Suape, em Pernambuco. Sede da fábrica da Ford na Bahia, Camaçari responde por 30% do PIB do Estado.

A industrialização faz o Nordeste seguir os passos do desenvolvimento trilhados pelo Sudeste há seis décadas.
Há um longo caminho a percorrer. As carências mais significativas estão no semiárido nordestino, desprovidas do dinamismo econômico das capitais litorâneas. Apesar das obras do PAC, portos, aeroportos e estradas são ineficazes. "A falta de infraestrutura ainda é um entrave. Não temos estradas suficientes", diz Paes Mendonça. "Nem ferrovias que sirvam de alternativa." A educação também preocupa. Em 2007, quase 20% da população nordestina com mais de 15 anos não sabia ler ou escrever, ante a média nacional de 10%. A educação, como em todo país, deve ser prioridade.

À prova de influências - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 26/05

O medo nasce da história que contamos a nós mesmos. Descobri isso quando viajei sozinha pela primeira vez, aos 24 anos. Idade semelhante à da protagonista do livro que estou lendo, sendo que no caso dela a aventura foi bem mais radical que a minha: se eu mochilei de trem pela Europa, ela mochilou a pé por uma trilha numa região montanhosa dos Estados Unidos. Andou mais de 1.700km em meio a uma natureza selvagem, sem nenhuma experiência e emocionalmente em frangalhos. É essa a história contada em Livre, de Cheryl Strayed.

Peregrinar é busca. De si mesmo, naturalmente, mas podemos encontrar também novos conceitos para a vida. É onde o medo às vezes entra para atrapalhar. Antes de sair de casa pela primeira vez, eu não havia criado a minha própria história sobre o medo.

Vivia protegida pela família, pelo conforto, pela estrada previamente pavimentada e sinalizada por meus pais – o medo que eu porventura sentisse havia sido herdado deles. Fazia parte da história de vida deles. Eu ainda não tinha a minha.

Só quando comecei a dar os primeiros passos sem retaguarda e sem companhia é que fui criando uma história mais autêntica para o meu medo. Decidi que ele não seria um personagem assustador, com capacidade de me paralisar. Meu medo, diferente do medo de outras pessoas, não me inibiria. Seria sutil. Ele apenas evitaria que a soberba tomasse conta: prepotentes potencializam riscos. Mas eu não permitiria que o medo me tornasse covarde. Na história que criei sobre o meu medo, não dei a ele tanto poder.

Sabemos que o medo tem uma boa assessoria de imprensa. Abra o jornal, assista aos noticiários de tevê, ouça o que dizem por aí: um prédio mal construído pode cair sobre sua cabeça, um maluco pode manter sua filha em cativeiro por 10 anos, você pode ser assaltado ao chegar ao trabalho às oito da manhã, o ônibus em que você viaja pode cair de um viaduto, o leite que você toma pode estar contaminado. Sem falar nas aflições emocionais: o medo de ser traído, deixado, de viver sem amor.

No entanto, nem o Jornal Nacional, nem Zero Hora, nem a internet, nada deveria pautar nosso medo, nem mesmo a experiência dos amigos. Informação nos prepara, mas não fecha caminhos. Eles continuam abertos para aqueles que contam para si mesmo outra história, à prova de influências. Para construir essa história, é preciso se escutar, estar conectado com os seus sentimentos reais, e não com os estimulados em escala industrial.

Se você disser para si mesmo que está disposto a abraçar o que vida oferece de bom e de ruim, o temor diminui. Em algum momento torna-se necessário sair da estrada pavimentada e se aventurar numa rota vicinal menos segura, só para lembrar do que é mesmo que sentimos medo, e por que. E voltar com a resposta que nos dará a bravura necessária para seguir adiante: teremos descoberto que o medo não passa de uma desculpa esfarrapada para ficar no mesmo lugar.

Calma, gente - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 26/05

A indicação de Luís Roberto Barroso para a vaga no STF reacendeu nas redes sociais uma velha rixa entre estudantes de Direito da Uerj (chamada de Congo por um grupo de alunos, por causa da presença de cotistas negros) e da UFRJ.

Foi assim...
No perfil do Facebook “Uerj da depressão”, a turma da faculdade festejou a escolha de Barroso: o post “Uerj no Supremo” citava que ele será o terceiro professor da universidade no STF. Os outros são Joaquim Barbosa e Luiz Fux.
Ao que um aluno da UFRJ provocou: “Correm boatos de que a próxima indicação para o STF será Mr. Catra (famoso funkeiro negro), que também é do Congo”.

Ou seja...
Parece preconceito.
E é. 

Pausa nas UPPs
Dia 3, Cabral inaugura a 34ª UPP no Cerro Corá/Guararapes, no Cosme Velho. A próxima só em agosto.
Por causa da Copa das Confederações e da Jornada Mundial, o governo vai dar um tempo. Ao lado de Romário
Edmundo, o animal, quer ser candidato a deputado federal.

A hora é esta
A Azul, terceira maior empresa aérea do país, protocolou sexta na CVMo pedido para lançar ações no mercado (o nome técnico é IPO). O lançamento sempre esteve nos planos desde a fundação, em 2008. 


É o cacete
Veja como o Brasil abusa do uso da língua inglesa. Um festival de pipas que começou ontem em São Paulo tem o nome de Kite in Night Fest.

Greve de servidores
O balanço das greves do ano passado publicado pelo Departamento Intersindical de Estatísticas (Dieese), na semana passada, mostra que de cada duas greves uma ocorreu no setor público. Em 2012, foram 461 paralisações na esfera privada e 409 na esfera pública.

Só que...
A greve de servidores públicos costuma demorar a terminar. Ainda segundo o Dieese, no ano passado, ocorreram 101 greves com mais de 30 dias de paralisação. Dessas, 87 foram no setor público.

Aliás...
Por que há tantas greves de funcionários, muitas vezes, em setores-chave como saúde e educação? Cartas para a Redação.

Preciosidades
A Universal Music lançará dois discos de Edu Lobo inéditos em CD no Brasil. Trata-se de “Tempo presente”, gravado em 1980, que traz a bela interpretação de Edu para “Desenredo”, de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, e “Camaleão”, de 1978.

Imprudentes antropófagos
Veja o tesouro descoberto pela pesquisadora Regina Wanderley no acervo do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro.

Um desenho inédito com lindo texto dos “imprudentes antropófagos”: Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade. Endereçado ao jornalista Prudente de Moraes Neto e à mulher dele, Inah, tem coqueiros, casinha e cactos.

Ipanema rural
Quem pescou estes dados foi Mauro Osório, economista especializado em economia fluminense. O Censo 2010 aponta que, entre os 92 municípios do estado, o que tem mais gente no setor agropecuário — 9.299 — é o Rio!
Mais que Campos, que tem 9.078 pessoas trabalhando na roça.

Segue...
Para Osório, a posição do Rio se deve, principalmente, à presença, em Santa Cruz e Campo Grande, de produção de caqui, coco, chuchu e inhame e de produção de plantas ornamentais. Essa última é estimulada pelo Sítio Burle Marx, em Guaratiba.

Baratinha da casa
O restaurante do Caiçaras, o clube de bacanas na Lagoa, no Rio, foi interditado, sexta, por falta de... limpeza.
A Vigilância Sanitária municipal encontrou, eca!, muitas baratas por lá e 12kg de comida fora da validade.

Calça da ‘delegata’
A delegada Helô, de Giovanna Antonelli, ainda está na boca do povo.

Ontem, uma madame passava toda-toda pela Rua das Laranjeiras quando ouviu um gaiato falar: “Olha a delegada, toda chique. Tá de pantalona, é delegada. Tá de cigarrete, é presidiária.”

O lóbi - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

ESTADÃO - 26/05

Se existe um céu, a tia Noca está lá. E tem bons contatos

Pronto. Botei todas as minhas fichas no 17. Uma pilha. Agora ou perco tudo ou enriqueço. Bom, talvez enriquecer não. Mas pago minhas dívidas e começo de novo. Estou jogando minha vida no 17. Se não der o 17 eu estou perdido. Vamos lá bolinha. Vamos lá, 17!

Quanto tempo a bolinha fica girando na roleta antes de cair num número? Trinta segundos? Quarenta? Parece uma eternidade. Alguma coisa deve determinar em que número a bolinha vai cair. Alguma força invisível, com algum tipo de razão. Não pode ser uma coisa aleatória. Puro acaso. A vida de um homem não pode depender do puro acaso. Seja o que for que te impele, bolinha, por favor: cai no 17. É pedir muito?

O que move a máquina do mundo move tudo, das marés às bolinhas da roleta. Dos destinos humanos às pragas agrícolas, do que nos aflige ao que nos glorifica, da seborreia ao premio Nobel. Neste momento, nesses segundos, em algum lugar, alguma coisa está decidindo onde essa bolinha vai cair. E eu não tenho como influenciar essa decisão. Minha vida depende dela e eu não tenho com quem barganhar, a quem pedir misericórdia, a quem emocionar com minha história, com meu triunfo ou minha ruina. Com a máquina que move o mundo não tem diálogo. Por favor, bolinha!

Dizem que não existem ateus em trincheiras, bordas de mesas de jogo e filas para apostar na Sena. Incréus viram crentes, agnósticos só faltam cair de joelhos, ateus imploram a Deus, qualquer Deus, para serem ajudados. Eu não acredito em Deus mas tenho certeza que Ele não está sentido com isso. Pô, Deus: 17. Só isso. Dezessete. Basta um sopro na bolinha. Eu estou pedindo que você reparta o Mar Vermelho de novo? Não estou. Só um número, Deus.

Eu preciso de um lóbi. É isso. Um lóbi que me represente no além. Que fale com as autoridades, defenda minha reivindicação, suborne alguém, sei lá. Quem é que eu tenho lá em cima? Pro meu pai e minha mãe não adianta pedir ajuda. Eles sempre foram contra meu hábito de jogar. Minha mãe ainda me dava um dinheirinho escondido, mas sempre acompanhado de um sermão. Meu pai, então, não queria nem saber. Eles não me ajudariam. Quem? Quem?

A tia Noca, claro! É perfeita. Eu era o seu sobrinho favorito. E ela era muito religiosa. Se existe um céu, a tia Noca certamente está lá. E deve ter bons contatos, muita influência no meio, conquistada com seus anos de serviços à Igreja na Terra. Talvez tenha até acesso direto ao Homem ou, no mínimo, a gente do seu gabinete. Tia Noca, é com você!

A bolinha ainda está correndo pela borda da roleta, ainda nos restam uns 10 segundos. Mas aí em cima deve ter outro tempo, aí um segundo deve durar uma semana, aposto. Vai, titia. Descobre quem é o encarregado das bolinhas. Conte como eu sou querido, como eu mereço que a bolinha caia no numero 17, como eu sou até capaz de renunciar ao jogo se ganhar. Fazer uma doação à Igreja, me dedicar à caridade e a trabalhos comunitários. Só me consiga esse 17, tia Noca!!!

Pronto. A bolinha caiu. No número, deixa ver... 26. Certo. Perfeito. Perdi tudo. Eu sei o que move a máquina do mundo e os destinos humanos: nada pessoal. Mas, e agora, fazer o quê? Talvez aceitar o conselho do velho, que sempre me dizia “Experimenta trabalhar”. Vou experimentar. E só voltar aqui com o primeiro salário para jogar tudo no 17.

De Mao a Xiao - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 26/05

Kissinger afirma que Mao impeliu a China a uma década de frenesi ideológico e sectarismo feroz

Esta é a terceira crônica que escrevo tendo por referência o livro "Sobre a China", de Henry Kissinger. Será a última e terá como assunto as figuras de Mao Tse-tung e Deng Xiao Ping, os dois importantes líderes da China moderna, isto é, a nova China surgida da Revolução Comunista de 1949.

Se, nas crônicas anteriores, fui motivado pelas peculiaridades surpreendentes da antiga China, nesta vou me ater a alguns fatos que, na minha opinião, deram origem, de uma maneira ou de outra, à China de agora, tornada capitalista. Sim, mas por se tratar da China, um capitalismo muito peculiar.

A República Popular, que Mao implantou, por cima de uma história e uma cultura milenares, tinha por modelo a URSS de Josef Stálin e, por isso mesmo, projetos e decisões impostos à nação, de cima para baixo, por decisão e vontade do líder.

Por isso mesmo, quando, em 1956, Khruschov denunciou o stalinismo e propôs um modo menos autoritário de conduzir o processo revolucionário, Mao rompeu com ele e o acusou de trair o comunismo.

Certamente, Mao havia mudado a velha China, introduzindo nela medidas econômicas e educacionais que melhoraram sensivelmente a vida do povo chinês. Há, porém, quem ponha em dúvida o seu grau de sensatez, quando passou a tomar decisões delirantes como a de induzir os cidadãos a fabricarem aço em casa.

Milhões de chefes de família teriam montado minissiderúrgicas no quintal da casa para, ali, produzir aço. O resultado, como teria de ser, foi desastroso: toneladas de aço de péssima qualidade, que não servia para nada.

Há quem acredite estar nesse fracasso a origem da Revolução Cultural. Segundo eles, tamanho insucesso teria comprometido a autoridade e o prestígio, até então intocáveis, de Mao, gerando, dentro do Partido Comunista chinês, um movimento contra a sua liderança. Muitos dirigentes passaram a crer que o grande líder havia enlouquecido e que, para deter aquela rebelião, deflagrou a Revolução Cultural que, em última análise, visava a desmontar o aparelho partidário.

Kissinger afirma que Mao impeliu a China a uma década de frenesi ideológico, sectarismo feroz e quase a uma guerra civil. Nenhuma instituição foi poupada e, por todo o país, governos locais foram desfeitos, destituídos líderes do Partido Comunista e do Exército de Libertação Popular, incluindo comandantes da guerra revolucionária, vítimas de expurgo e submetidos a humilhação pública.

Figuras importantes do partido foram obrigadas a desfilar pelas ruas das cidades ostentando orelhas de burro. Os jovens foram instados a saírem às ruas de todo o país, atendendo à exortação de Mao, a fim de "aprenderem a revolução fazendo a revolução".

Dirigentes do partido eram enviados ao campo para aprender com os camponeses analfabetos a lição revolucionária. Adolescentes tornaram-se tropas de choque ideológicas. A nação chinesa virou de cabeça para baixo, com filhos se voltando contra os pais, alunos humilhando professores, queimando livros. Em Pequim, os ataques dos Guardas Vermelhos destruíram quase 5.000 locais de valor cultural e histórico.

Após a morte de Mao, Deng Xiao Ping, principal líder entre o fim dos anos 1970 e início dos 1990-- que fora perseguido por Mao-- afirmou ter a Revolução Cultural quase destruído o Partido Comunista como instituição e arruinara sua credibilidade.

Quando assumiu o governo, a China estava em situação pior do que quando Mao iniciara a transformação revolucionária da sociedade chinesa. Na verdade, o Estado planejado, longe de criar uma sociedade sem classes, terminara por estratificar as classes.

Os bens, em vez de serem comprados, eram distribuídos conforme as prerrogativas oficiais, o que levou ao favoritismo e à corrupção, uma vez que tudo passou a depender de influência partidária.

O programa de reforma que Deng implantara destinou-se a erradicar o maoismo. Ele e seus auxiliares mais próximos implantaram a economia de mercado, aberta ao exterior, confiando no espírito empreendedor do povo chinês.

Não resta dúvida de que nasceu então a China de hoje, de economia capitalista, no polo oposto às teses maoistas. Não obstante, fiel à sagacidade tradicional chinesa, manteve o culto a Mao Tse-tung, embora fizesse o contrário do que ele fez e faria.

Ossos do ofício - HUMBERTO WERNECK

O Estado de S.Paulo - 26/05

E a Marli, que está querendo me vender um túmulo?

Não sei se a iniciativa dela tem a ver com meu assunto da semana passada - esse projeto de lei que tornaria possível, na cidade de São Paulo, enterrar bicho em sepultura de gente.

Não, a Marli certamente não me leu. Saberia que já decidi qual destino dar a minha carcaça, não antes do momento oportuno: o forno, não as profundezas da terra. Como diz a boa amiga dona Alzira: se não subi na vida, não há de ser na morte que aceitarei descer. Como trilha sonora, talvez fique com o Agora É Cinza de Bide e Marçal, samba que vem balançando esqueletos desde o carnaval de 1934. E quero ir sozinho: além de não ter bicho, estou em condições de afirmar, como o Waldick Soriano, que eu não sou cachorro não.

"Aproveite este momento de serenidade para escolher o melhor", busca me tentar a (senhora? senhorita?) Marli, sob a forma de um prospecto insinuado faz uns dias sob a minha porta. "Agora é o momento certo para decidir sobre a reserva de um jazigo", alerta a diligente corretora, exumando argumentos que beiram o depois-não-venha-dizer-que-não-avisei: "Se deixar para depois, em um momento de fatalidade na família você correrá o risco de tomar uma decisão precipitada, inadequada, escolhendo um local indesejável e ainda arcando com despesas desnecessárias". Já pensou, morrer numa nota preta?

Não me escapa a insistência na palavra "momento", três vezes encravada na prosa funéreo-aliciadora da Marli. Acuso o golpe. O puxão de orelhas: insinuado está que perdi tempo, pois o cemitério-parque onde ela quer descarnar meus ossos existe há quase 30 anos. Gente mais esperta com certeza já se habilitou, sendo plausível a hipótese de que alguns, mais vivos do que eu, lá estejam, devidamente mortos, a desfrutar do conforto póstumo com que a Marli, de alfanje em punho, vem me acenar.

Por exemplo, os diferentes tipos de tumbas que eu poderia adquirir, dependendo, claro, da profundidade de meu saldo bancário. O impresso não menciona valores, mas é possível saber que a opção mais econômica é aquela que, num prédio residencial, corresponderia a um quarto e sala: "Duas gavetas sobrepostas sem ossário". Na medida para Senhor & Senhora sem prole. Ou Senhor/Senhora + animal de estimação, se a tal lei passar. Nada da claustrofobia de uma quitinete mortuária.

Se bem entendi, isso é o básico numa escala ascendente que, na ponta mais alta, oferece "seis gavetas mais área de serviço com ossário". Área de serviço! E capacidade para gente à beça, pelo menos seis entes queridos - sem que se possa falar, por favor, em cortiço (mortiço?). Um por andar, quer dizer, um por gaveta. Top de linha. Independentemente do produto escolhido, o freguês é instado a considerar também a oferta de "planos preventivos", seja lá o que for isso, e "pronto sepultamento". Epa. Vamos devagar.

Olha, Marli, você me desculpe, mas eu passo (não desta para melhor, ainda não!). Grato pelo oferecimento. Saiba, porém, que seu esforço persuasório pode não ter sido em vão: tomei a liberdade de repassar o prospecto para a dona Alzira.

Não que a amiga esteja, como certos preços, pela hora da morte; ao contrário, está "forte e sacudida", como em seu tempo de moça se dizia. Contudo, este não é seu parecer. Ela começa a achar (e pode não estar de todo equivocada) que "o mundo não é um bom lugar para se viver". Viajadeira que sempre foi, ultimamente se enfurnou em sua toca. Reagiu mal quando a filha lhe ofereceu um passeio em Roma: "Se é para ver ruína", esconjurou, "sai mais barato olhar no espelho!". Mal entrada na casa dos 80, deu de se achar a criatura mais velha sobre a Terra, agora que entre nós já não estão o Niemeyer e a dona Canô. "Sou do tempo", costuma datar-se, "em que algum decote podia ser chamado de 'ousado'". Outro dia, a propósito de nada, me veio com esta: "Não é de arrepiar, a ideia de que nossa caveira está prontinha dentro da gente?".

Não estou autorizado a falar pela dona Alzira, Marli, mas desconfio que ali tem jogo.

Latindo para os pneus - DIANA LICHTENSTEIN CORSO

ZERO HORA - 26/05

Quem anda por estradas poeirentas do interior está acostumado com o assédio da cachorrada sobre carros e motos. Sozinhos ou em bandos, eles saem latindo atrás do veículo. Um inimigo que deve ser custodiado pelos batedores de quatro patas, em clima ameaçador, até sair do território deles. As rodas, por estarem na altura dos vigias e movimentarem-se visivelmente, polarizam a atenção e são alvo dos latidos.
Evocando esse cenário, uma amiga alcunhou uma frase que julga representar seu estilo de lidar com os próprios desejos: "Sou como cachorro com pneu, quando o carro para não sei o que fazer com ele". É uma boa imagem, em vários sentidos.
Conseguir parar o veículo é sinal de poder por parte do animal guardião. É como se, "assustado", o invasor tivesse ficado paralisado. As cobiçadas rodas ficam à disposição, poderiam ser mordidas. Porém, imóveis elas deixam de fazer sentido. É difícil morder uma roda, dura e grande para sua boca. Mal ou bem, o interesse pela roda era somente um mero representante do jogo de forças: o objetivo era uma disputa de território e prestígio. Claro, estamos aqui cometendo liberdades poéticas, metáforas caninas.
Tentamos ser menos bobos do que os cães, latir para as coisas certas, ser menos irracionais, não avaliar mal a ameaça e gastar energia à toa. Mas volta e meia nos parecemos a eles. Quando escolhemos um objeto de cobiça, pode ser algo ou alguém que queremos, agimos tão convencidos da tarefa como o exemplo acima. No momento de alcançar a graça pela qual tanto lutamos, em geral não sabemos o que fazer, ficamos olhando para nosso pneu, confusos.
Minha amiga tem razão, e está mais acompanhada do que pensa. Um amor conquistado parece muito menos atraente, emocionante ou interessante. Às vezes, não acreditamos e rejeitamos por antecipação aquele que julgamos vai se desiludir de nós. Uma posição de prestígio, atingida por méritos, pode ser mal utilizada ou mesmo recusada, porque imaginamos que aquele lugar idealizado só poderia ser ocupado por alguém melhor do que nós. Levante a mão aquele que não se julgar uma fraude. Algo adquirido com esforço parece menor do que no catálogo. Uma viagem muito planejada sempre tem aquele momento "o que estou fazendo aqui". Enfim, é mais fácil lidar com o fracasso do que com o sucesso, pois, pelo jeito, a melhor parte é continuar querendo. A satisfação de um desejo nos obriga a renegociar nossos objetivos e autoimagem. Sentir-se incompleto e desvalido é reconfortante, podemos imaginar um mundo idealizado dos ricos e famosos, colocá-los no altar de nossos ideais e ficar cultuando, rezando lamúrias.
Como esses cachorros, na verdade esperamos que o pneu continue rodando para além da nossa jurisdição. Assim podemos seguir vivendo, embalados pelo que queríamos, o que seríamos, empanturrados de "se". A maior tarefa, porém, consiste em descobrir o que fazer com o pneu. E em nome do que continuar correndo depois disso. Eis a verdadeira valentia.

Prostituir o talento - TOSTÃO

FOLHA DE SP - 26/05

O maior compromisso do artista é com sua arte. Não é com a fama nem com o dinheiro


Pelé fazia dupla com Coutinho. Neymar, com André, Miralles ou Henrique. Já imaginou se Messi, hoje, jogasse na Argentina, Cristiano Ronaldo, em Portugal, e Ibrahimovic, na Suécia?

Neymar, no fraco time do Santos, é um desrespeito a seu talento.

A situação de Neymar é bem diferente da dos inúmeros bons jogadores brasileiros, que, dificilmente, seriam titulares de uma grande equipe da Europa. Por isso, muitos voltaram. Ser destaque no Brasil, além de ganhar salários tão bons, ou maiores, é melhor que jogar em um time médio europeu.

Se a situação do futebol brasileiro fosse outra, seria ótimo Neymar ficar por aqui. Muitos argumentam que é muito melhor vê-lo jogar mais de perto, do que fora, como se Neymar fosse um produto de consumo, à nossa disposição.

A sociedade do espetáculo idolatra, consome e descarta rapidamente seus ídolos. A impaciência com Neymar já começou. Querem que ele dê show em todas as partidas.

O maior compromisso de um artista é com sua arte e com a busca da perfeição, sem nunca alcançá-la. Ficar no Brasil, porque ganha mais do que Cristiano Ronaldo e é o rei da cocada preta, seria estagnar, prostituir seu talento.

Neymar não vai para provar que é um cracaço nem para ser eleito o melhor do mundo.

Ele vai porque vai enfrentar defesas melhores e mais compactas, porque precisa de concorrência para evoluir, porque vai jogar ao lado e contra os melhores jogadores, porque vai aprender a ser um coadjuvante, como Messi foi no início, e, principalmente, a jogar coletivamente.

No Santos, há dois times, o de Neymar, formado só por ele, e o do Santos, com o restante dos jogadores. Um time não se mistura com o outro. O de Neymar é muito melhor.

Tentar driblar, de rotina, vários jogadores, para fazer um golaço e ganhar o prêmio da Fifa vai levar à ineficiência.

Temo que se transforme em apenas um grande craque circense.

Messi disse que Neymar é excepcional na jogada de um contra um.Messi já o imaginou no Barça. Quando Messi, Xavi e Iniesta trocam passes pelo meio, até a entrada da área, e não conseguem penetrar, o que tem sido mais frequente, um dos três toca a bola para o atacante pelo lado, livre, pois o lateral fecha para o meio, para fazer a cobertura. Mesmo assim, nada ocorre. Costumam voltar a bola para o meio, e tudo recomeça. Messi, Xavi e Iniesta estão loucos para a chegada de Neymar.

Neymar é que tem que decidir sua vida. Não temos nada com isso.

Se optasse por ficar, porque achava que aqui seria mais feliz, que poderia ser ator da TV Globo e o reizinho, nunca ameaçado, teríamos de respeitar sua decisão.

Se optasse por desaparecer e gastar sua fortuna pelo mundo, seria também uma decisão interessante.

Universo consciente? - MARCELO GLEISER

FOLHA DE SP - 26/05

Para o físico John Wheeler, a existência da partícula depende de sua interação com a consciência humana


Entre os vários mistérios da física contemporânea, poucos se comparam à existência de não localidade na física quântica. Não localidade significa que interações entre entidades separadas podem ocorrer instantaneamente. É como se o espaço e o tempo não existissem!

Quando uma bola vai ao gol ou uma gota de chuva cai, existe um efeito local por trás: o chute, a nuvem carregada. No mundo quântico, dos elétrons e fótons --as partículas de luz--, efeitos podem ocorrer sem causa local, algo de que tratei na coluna do dia 28 de abril.

Imagine gêmeos, um em São Paulo e outro em Manaus. Entram num bar, um em cada cidade. Se o de São Paulo pede pinga, o de Manaus pede chope. Se o de São Paulo pede chope, o de Manaus pede pinga. Isso ao mesmo tempo, como se soubessem o que o outro pediu. Como é possível, dado que estão longe e não podem se comunicar?

Essa sincronicidade, se não com gêmeos, foi verificada entre pares de partículas em experimentos à distância que comprovam que a correlação é mais rápida do que a velocidade da luz.

Imagino que muitos leitores estejam pensando na premonição, na sincronicidade junguiana etc.

Lembro que o cérebro humano e os pares de fótons são "sistemas" bem diferentes. Mas cientistas sérios, como o vencedor do Nobel Eugene Wigner e seu colega de Princeton John Wheeler, se questionaram sobre o papel da mente na física.

Quando medimos algo usamos um detector. Não temos contato direto com um elétron. Sua existência é registrada quando interage com o detector e ouvimos um clique ou vemos um ponteiro mexer.

Na interpretação "ortodoxa" da física quântica, é essa interação que determina a existência da partícula: antes da medida, não podemos nem dizer que a partícula existe.

Wigner e Wheeler acham que, sem um observador, essa medida não faz sentido; foi o observador que montou o detector. A existência da partícula depende de interação com a consciência humana: mais dramaticamente, a consciência determina a realidade em que vivemos.

Wheeler imaginou um experimento no qual uma partícula passa por um anteparo com dois orifícios e vai de encontro a uma tela móvel. Atrás dela, há dois detectores alinhados com os orifícios. Se a tela é retirada, os detectores acusam por qual orifício a partícula passou.

Porém, no mundo quântico, partículas podem agir como ondas. Ondas passando por dois orifícios criam padrões de interferência, estrias claras e escuras.

Portanto, duas opções: com tela vemos interferência, sem tela vemos detecção de uma partícula.

Wheeler sugeriu que a tela fosse retirada após a partícula ter passado pelo anteparo. Por meio da sua escolha, o observador cria a propriedade física da partícula agindo retroativamente no tempo! O incrível é que a previsão de Wheeler foi confirmada. Observador e observado formam uma entidade única que existe fora do tempo.

Wheeler extrapolou: "Não somos observadores no Universo, somos participadores. Sem consciência, o mundo não existe! O Universo gera a consciência e a consciência dá significado ao Universo". Essa visão traz o dilema: será que o Universo só faz sentido porque existimos?

Uma relação de desconfiança - SUELY CALDAS

O Estado de S.Paulo - 26/05

A presidente Dilma Rousseff quer e precisa que o investimento - público e privado - prospere, ganhe força e se multiplique. Para isso, reduziu a taxa de juros Selic; distribuiu incentivos fiscais para indústrias escolhidas; desonerou a folha de pagamento de 42 setores de empresas; lançou uma política industrial e de investimento com o Plano Brasil Maior; criou inúmeros programas de crédito subsidiado no BNDES, alguns até com juros negativos de 2,5% ao ano; e, na linha de mostrar ao mundo a potência do "Brasil grande", fez do BNDES sócio de empresas que se tornariam campeãs nacionais, players globais que, em seus segmentos, dominariam o mercado mundo afora. Por fim, Dilma ainda cedeu à privatização, prometendo entregar para empresas privadas a exploração de portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, geração e transmissão de energia.

Com tudo isso, nosso raquítico Produto Interno Bruto (PIB) cresceu só 2,7% em 2011, caiu para 0,9% em 2012 e, para 2013, as estimativas começaram em 4,5%, desabaram para 3,5% e, agora, para 3% ou até abaixo disso. Com tudo isso, nossa taxa de investimento - que precisa chegar a pelo menos 25% do PIB para garantir crescimento econômico contínuo - recuou de 19,5%, em 2010, para 19,3%, em 2011, e 18,1%, em 2012.

Há algo esquisito que fez frear, em vez de acelerar, investimentos produtivos nestes dois anos e cinco meses de governo Dilma. Algo muito esquisito, que deveria levar a presidente a refletir e indagar por quê. Toda essa hiperatividade, essa profusão de ações de estímulo, resulta em queda do investimento? Afinal, o que está havendo? Por que não dá certo? O que está emperrando?

O ex-ministro Delfim Netto, conselheiro dos governos Lula e Dilma, identifica o problema no que chamou de "uma relação desconfortável de desconfiança mútua entre o setor privado e o governo", em artigo publicado há dias no jornal Valor Econômico. Antes, Delfim já havia criticado o modelo de licitações de projetos de infraestrutura: ao definir e tabelar o lucro do negócio o governo afasta, em vez de atrair, investidores privados. Mas os conselhos do conselheiro não têm sido acatados pela presidente.

Delfim tem razão nas duas vezes. Dilma Rousseff sempre viu os empresários como "classe dominante", portanto, inconfiável. Desde 2003, quando ainda era ministra de Minas e Energia, ela manifestava esse sentimento nas reuniões do setor elétrico: considerava mentirosos os números levados pelas empresas. Na época, os investimentos pararam à espera das novas regras da ministra. Dez anos de experiência em posições de comando de uma economia capitalista privada e o fantasma da "classe dominante" continua presente.

O modelo de licitação das rodovias é sintomático. Em vez de criar regras inteligentes e atrativas para acirrar a disputa no leilão e deixar por conta dos consórcios definirem a menor taxa de lucro, o governo a engessou e fixou-a em 5,5%. Resultado: interesse zero do setor privado, o que levou Dilma a recuar, elevando a taxa de remuneração, mas sem abrir mão de fixá-la.

Dilma parece partir da convicção de que empresário privado trapaceia, engana, não joga limpo e, para conter sua ganância, cabe ao governo decidir por ele. E descarta conceber regras que tornem possível obter resultados até melhores deixando fluir a livre concorrência, a disputa entre eles para vencer o leilão - modelo bem-sucedido no passado e adotado no mundo inteiro.

Por sua vez, o empresário também desconfia do governo. Desconfia da competência da equipe econômica, de mudanças de regras no meio do caminho que prejudiquem seu negócio, acha que a presidente intervém com enorme frequência na economia privada, criando incertezas que impedem o planejamento de longo prazo das empresas. Alguns desistem do investimento, outros engavetam seus planos e esperam, poucos arriscam. Por isso nossa taxa de investimento caiu nos dois primeiros anos de governo Dilma, mesmo com o BNDES emprestando dinheiro barato.

A decepção com os investimentos é reconhecida mesmo dentro do governo. Em entrevista ao Broadcast (serviço em tempo real da Agência Estado), o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE), senador Lindbergh Farias (PT-RJ), afirmou: "Vou insistir muito para tentar salvar esta reforma do ICMS, porque, sinceramente, já há um clima de paralisação de investimentos e os empresários não vão investir se não tiver uma definição muito clara sobre isso".

Apesar disso, não há nenhum movimento para mudar o que está errado. Pelo contrário, a cada resultado econômico ruim, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, entra em cena descrevendo o melhor dos mundos: "A economia vem mostrando reações positivas aos incentivos que criamos e vai continuar mostrando com mais força", repete, como se habitasse outro país.

O que deu certo. O sucesso do último leilão do petróleo foi um belo gol de placa do governo Dilma. Mostrou ser possível atrair o capital privado e obter resultados excelentes - que contrastam com o fracasso de licitações em outras áreas. Claro, cinco anos de jejum ajudaram a animar empresas privadas, sequiosas por explorar petróleo e gás no Brasil. Mas a razão maior do sucesso foram as regras do leilão, as mesmas aplicadas desde o governo FHC, o que mostra que a estabilidade regulatória é critério de enorme importância em decisões de investimento. Resultado: 30 empresas participaram, 18 delas estrangeiras, o governo arrecadou R$ 2,8 bilhões (ágio de 628%) e há garantia de investimentos mínimos de R$ 7 bilhões nos próximos anos, fora a geração de empregos, impostos e a receita com o petróleo a ser extraído. Mudar regras a todo instante, como tem feito o governo Dilma, gera incertezas e afugenta investidores.

As novas regras de investimento em terminais portuários constituíram outro sucesso, apesar da confusão em sua aprovação no Congresso Nacional. Elas substituem normas anacrônicas que, por décadas, emperraram projetos privados e criaram gargalos, elevando o custo de exportar. Mas o segredo do sucesso foi a negociação antecipada com potenciais investidores. O governo não decidiu olimpicamente sozinho, como fez na renovação das concessões elétricas.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 26/05

Anvisa permite troca em fila de registro de novos medicamentos
A fila de medicamentos à espera de registro da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) passará por alterações para acelerar demandas de companhias do setor.

Até a próxima semana, elas podem apontar quais produtos devem ser prioritários no processo. A regra até então era seguir a ordem cronológica.

"As empresas justificam que os produtos próximos de entrar em análise muitas vezes estão superados", diz Antônio Mallet, da Anvisa.

Só será possível fazer trocas entre produtos da mesma empresa, e não "furar" alguma das filas existentes. Não há limite para número de alterações por empresa.

A Anvisa pode recusar a mudança caso julgue que há interesse de saúde pública.

A medida passou a valer no início deste mês para medicamentos novos, similares, genéricos e específicos. A nova lista será publicada em junho.

Entidades do setor apontam a medida como positiva.

"É boa até para o consumidor, porque as empresas querem colocar rapidamente no mercado aquilo que pode aumentar a concorrência", afirma o presidente do grupo Farma Brasil, Reginaldo Arcuri.

"Ações para reduzir a burocracia são importantes, desde que adotem parâmetros transparentes e equânimes", diz Nelson Mussolini, presidente do Sindusfarma ( Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de SP).

Para o presidente-executivo da Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa), Antônio Britto, a iniciativa, mesmo válida, ainda não resolve o problema da longa espera.

"A média hoje das filas é de 608 dias", afirma, com base em cálculo da entidade.

Aeronave não tripulada tem mercado potencial em setor civil
A redução do uso dos drones (aviões não tripulados) dos Estados Unidos na "guerra ao terror", prometida pelo presidente Barack Obama, abre mercado para a utilização dessas aeronaves no salvamento em tragédias.

O uso civil dos pequenos e leves aviões pode trazer respostas rápidas na localização de sobreviventes e no levantamento de dados sobre terrenos atingidos por furacões, tornados, enchentes e terremotos, segundo especialistas.

São também mais silenciosos do que as grandes aeronaves tripuladas, cujo barulho pode encobrir gritos de socorro de sobreviventes.

A possibilidade levanta entusiasmo no setor nos Estados Unidos, mas ainda enfrenta barreiras regulatórias.

A utilização dos drones chegou a ser cogitada pela Cruz Vermelha na região americana de Oklahoma City, após o tornado que atingiu a área na semana passada.

A organização, no entanto, declinou da ideia por causa da interdição do espaço aéreo.

Enquanto no mercado americano os veículos não tripulados carregam a imagem negativa do uso militar, no Brasil o uso é mais explorado por segmentos de agricultura e monitoramento ambiental, segundo Luciano Neris, da fabricante AGX.

A empresa ofereceu a tecnologia para ajudar no trabalho de resgate nos deslizamentos do Rio de Janeiro.

De acordo com Neris, estima-se que o mercado mundial de aeronaves não tripuladas chegue a US$ 4,5 bilhões (o equivalente a R$ 9,2 bilhões) em 2014.

"Grande parte desse mercado é de aplicações militares, embora o segmento civil tenha grande potencial de crescimento."

Transporte Seguro
O setor de cloro e soda reduziu em 90% o número de acidentes no transporte de produtos nos últimos oito anos, segundo balanço de 2012 recém-concluído pela Abiclor (associação da indústria de cloro e derivados).

A entidade identificou no ano passado 0,13 acidente a cada 10 mil viagens, com base em dados registrados pelas empresas da área.

Em 2005, a frequência era de 1,45. Os números seguem em queda desde 2007.

Para a associação, a redução é explicada por ações que foram adotadas, como treinamento de motoristas, mudanças no uso de equipamentos e controle mais rigoroso por parte das empresas.

O motorista e o veículo passam agora por uma série de avaliações para comprovar se estão em condições de viajar.

Os produtos são utilizados como matéria-prima em indústrias de grande porte, como de papel e celulose, alimentos, petroquímica e têxtil.

À FRANCESA
A marca francesa Hermès pretende, sim, abrir sua segunda loja no Brasil, mas isso não deve ocorrer antes do segundo semestre de 2015, de acordo com o diretor global de estratégia da empresa, Patrick Albaladejo.

"Estamos convencidos de que precisamos ter mais uma [unidade], mas estamos estudando o momento certo."

O único ponto da companhia hoje no país é em São Paulo, mesma cidade onde deve ser instalado o segundo.

"Também estamos olhando para o Rio, mas São Paulo é mais provável. A cidade é muito grande e o trânsito, difícil. É importante ter lojas perto do cliente potencial."

Albaladejo afirma que o mercado brasileiro pode crescer muito para a empresa, mas que as taxas de importação dificultam.

"Nossos preços aqui são bem mais altos que na Europa e nos EUA. Essa situação não permite que nos desenvolvamos como queremos."

Atualmente, o Brasil não corresponde nem a 1% do faturamento da grife.

As vendas no continente americano aumentaram 10,3% no primeiro trimestre deste ano, menos que na estagnada Europa. A Argentina foi uma das responsáveis pela expansão nesse ritmo.

"Tivemos uma limitação para importar lá [devido às políticas protecionistas do país]. Não vendemos não por falta de cliente, mas por falta de oferta nossa."

EXECUTIVOS BLINDADOS
Metade dos CEOs brasileiros já possuem veículos corporativos blindados, de acordo com um levantamento de remuneração e benefícios da Page Executive.

Segundo a pesquisa da empresa, especializada em recrutamento e seleção de altos executivos, o índice é de 10% entre profissionais que ocupam cargos de diretor financeiro, marketing e RH.

O estudo foi realizado com cerca de 700 executivos de 600 companhias, entre multinacionais e nacionais.

O fornecimento de carro blindado passou a ser utilizado para atrair profissionais, segundo a Page Executive.

Brinde... O setor de cerveja representa 11% do PIB da indústria de transformação do país, conforme um novo levantamento da Ambev, que cruzou dados do IBGE e da FGV.

...industrial Os maiores índices são no Distrito Federal (55%) e no Maranhão (52%). Em São Paulo, o setor corresponde a 10% da indústria de transformação.