FOLHA DE SP - 08/05
O aumento do consumo de manufaturas passa a ser atendido pela expansão das importações
A balança comercial registrou deficit de US$ 6,1 bilhões no primeiro quadrimestre do ano. Temos que recuar até 2001 para achar um deficit comercial nesse mesmo período (no caso, modestos US$ 561 milhões) e, por mais que voltemos no tempo, não há registro de deficit de magnitude comparável ao de agora.
É verdade que, em parte, o resultado do período está contaminado por uma mudança na contabilização das importações de petróleo: importações realizadas no ano passado foram registradas apenas neste ano, melhorando o resultado de 2012 ao custo de piorar o de 2013.
Ainda assim, mesmo se desconsiderarmos esse problema, é inegável a tendência de piora da balança, que ocorre --não sem um leve toque de ironia-- desde que o governo se engajou numa política deliberada de desvalorização da moeda para proteger a indústria das importações, assim como estimular as exportações de manufaturados.
Obviamente isso não significa que a deterioração das contas externas resulta da desvalorização da moeda, mas serve para ilustrar como a balança depende de uma gama muito mais vasta de fatores do que a visão unidimensional da taxa de câmbio, favorecida pelos nossos "keynesianos de quermesse", consegue compreender.
Em particular, não há como ignorar o nível reduzido da taxa de desemprego no país, sugerindo que, se a economia não trabalha a pleno emprego, não parece muito distante dele. Nessas circunstâncias, certas respostas são muito diferentes daquelas com que estávamos acostumados quando a economia operava com folga considerável, em particular no mercado de trabalho.
Quando o desemprego é alto, a expansão da demanda tende a se traduzir em aumento da produção tanto da indústria quanto dos serviços, já que ambos os setores têm condições de contratar a mão de obra até então desocupada sem grande pressão sobre os salários.
Já numa situação como a de hoje, o mesmo crescimento da demanda implica respostas muito diferentes em cada setor.
A maior demanda por serviços precisa, com raras exceções, ser satisfeita pela expansão da produção local, levando ao crescimento do emprego no setor.
Concretamente, com o desemprego baixo, isso tende a elevar o salário real em ambos os setores, mas, como o setor de serviços está naturalmente protegido da concorrência externa, esses aumentos podem ser (e são) repassados aos seus preços, o que explica a elevada (8,1%) inflação de serviços.
Já no setor industrial, o repasse é limitado pela concorrência externa e, portanto, o aumento salarial "come" a margem de lucro, expressão da perda de competitividade.
A tendência, pois, é que o emprego se expanda no setor de serviços relativamente à indústria, assim como a produção.
Desse modo, enquanto o maior consumo de serviços é satisfeito localmente, o aumento do consumo de manufaturas, com a economia próxima ao pleno emprego, passa a ser atendido pela expansão das importações.
Isso já vem acontecendo há algum tempo, mas, até recentemente, era parcialmente neutralizado pelo aumento dos preços internacionais das commodities relativamente às manufaturas. Sendo o Brasil um exportador líquido de commodities, seu encarecimento permitia ao país obter mais manufaturas por unidade exportada.
Assim, embora a quantidade importada aumentasse, seus efeitos sobre a balança foram significativamente atenuados pelo maior valor das exportações. Não por outro motivo, sempre tachei de míopes as lamentações governamentais quando os preços de commodities subiam, assim como suas comemorações em caso de queda.
Sem preços crescentes de commodities para compensar a maior demanda por importações, a tendência do saldo comercial é se reduzir em resposta à elevação da demanda interna e da resposta assimétrica da produção.
Como se vê, há muito mais entre o céu e a terra do que nossos "keynesianos de quermesse", e sua manipulação da taxa de câmbio, podem imaginar.
quarta-feira, maio 08, 2013
Quem tem medo de Joaquim Barbosa? - JOSÉ NEUMANNE
O ESTADO DE S. PAULO - 08/05
A situação é, no mínimo, sui generis. Os deputados José Genoino e João Paulo Cunha, ambos do Partido dos Trabalhadores (PT) de São Paulo, foram condenados por crimes de corrupção e formação de quadrilha pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Mas fazem parte da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara.
Nessa condição, compareceram à sessão na qual foi aprovada a excrescência jurídica proposta por um nada ilustrado desconhecido de sua legenda no Piauí, Nazareno Fonteles, submetendo decisões terminais da última instância da Justiça à vontade da maioria dos nobres pares parlamentares. Ou seja, excluindo de nosso Estado Democrático de Direito o sistema de equilíbrio de Poderes autônomos criado pelo francês Charles-Louis de Se-condat, barão de La Brède e de Montesquieu, um dos enciclopedistas franceses do século 18 e autor do clássico O Espírito das Leis. É de Montesquieu, como ficou conhecido pela posteridade, o conceito da autonomia de quem legisla, executa e julga para que as instituições funcionem em harmonia. Fonteles discorda e detona. Genoino e João Paulo concordam e aplaudem. Pois bem, tudo isso está dentro das leis vigentes e não há de que reclamar. Pois é.
Mas enquanto isso, em nome do sagrado direito de esgotar todas as possibilidades de defesa que devem ser concedidas a todo indivíduo para evitar que seja vítima de arbítrio estatal ou erro judicial, os insignes representantes do povo recorreram da decisão na instância máxima. E, não satisfeitos com uma eventual reforma das penas, cuja soma os levará à prisão, após transitadas as sentenças em julgado no STF, resolveram exigir da colenda Corte que substitua o relator, atualmente na presidência do tribunal, o ministro Joaquim Barbosa. Os crimes que foram imputados a Suas Excelências e a seu companheiro de partido e bravatas José Dirceu foram cometidos há oito anos, o Supremo levou um ano debatendo o caso e agora os réus querem trocar o relator...
O que justifica o pedido? Que absurdo deslize jurídico teria cometido o ministro Barbosa para ser substituído nos últimos instantes a pedido de réus condenados? Que grave suspeita de parcialidade pesará sobre ele? Ninguém encontrou um só ilícito que o presidente do STF tenha cometido ao relatar o caso para contra ele ser alegada suspeição. O revisor, Ricardo Lewandowski, tem notórias ligações de amizade com uma personagem do episódio, embora não tenha sido acusada formalmente de nada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e atuou sem reserva alguma nem contestação de nenhum dos famosos (e bem pagos) causídicos que defenderam os acusados.
Ao difamar o relator do mensalão, condenados querem ocultar que a decisão foi da maioria
Não se conhece ainda nenhum embargo de defensores à atuação no julgamento, com direito a voz e voto, do ex-advogado do PT José Antônio Dias Toffoli, namorado de uma colega que representou em causas na Justiça o mais importante e célebre dos réus condenados no processo, o citado José Dirceu. Os defensores nada encontraram de irregular nesse notório fato histórico. Nem o próprio ministro alegou a suspeição, que a qualquer leigo pudesse parecer óbvia, e julgou os antigos clientes como se nunca tivesse mantido algum tipo de relação com eles.
Mesmo se não tivesse ocorrido nenhum desses antecedentes, a tentativa de levantar suspeitas sobre o relatório de Joaquim Barbosa é infamante. De origem familiar pobre, o ministro protagonizou uma carreira brilhante no serviço público e, depois, como profissional do Direito. Consta que teve o nome apreciado por Lula por indicação do frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, sobre quem não pode cair nenhuma desconfiança de desapreço a algum figurão petista julgado, menos ainda ao protagonista oculto do escândalo, Lula. Aliás, não foi este quem indicou Barbosa para o STF?
Será, então, o caso de tirar a relatoria do presidente do STF apenas por ter ele recomendado a condenação de Dirceu, Genoino, João Paulo e outros? Mas não foi o relator quem condenou os réus. Primeiramente, eles foram investigados - e não o foram pelo "Partido da Imprensa Golpista" (PIG),inimiga do governo, do PT e dos "blogueiros progressistas", mas por um órgão do Estado, a Polícia Federal. As provas que explicitaram a culpa dos condenados no processo foram reunidas por funcionários públicos, os policiais federais, subordinados hierarquicamente ao ministro da Justiça e, em última instância, ao presidente da República. A fase de instrução do processo foi concluída pelos procuradores-gerais da República Antonio Fernando de Souza e Roberto Gurgel, nenhum deles nomeado pelo tucano Fernando Henrique, mas ambos por Lula, sendo o segundo mantido por Dilma.
E o que Barbosa tem que ver com isso? Bem, ele teve o trabalho, executado com requintes de lógica aristotélica, de mostrar por Amais B aseus colegas da Corte como funcionou o esquema criminoso de compra de apoio de aliados de pequenas legendas governistas a projetos de interesse do governo petista, do qual Lula era o presidente e Dirceu, o chefe da Casa Civil. Da competência do relatório de Barbosa fala melhor o apoio em votos que recebeu de seus pares, respeitados juristas como ele, do que qualquer elogio que este escriba leigo lhe fizer. Neste texto cabe apenas lembrar que nenhuma pena no mensalão foi atribuída pelo voto isolado do relator. A cada voto seu quase sempre se opunha o revisor e aos restantes membros do colegiado -primeiro 11, depois 10 e, enfim, 9, em votação majoritária -coube decidir a sorte dos réus.
No entanto, José Dirceu e seus colegas de pena tentam desmoralizar o relator para substituí-lo. Em nome da lógica, a que Barbosa foi fiel, seria mais sensato dissolver o STF: a asneira proposta por Fonteles é mais sábia do que a douta representação dos causídicos.
Nessa condição, compareceram à sessão na qual foi aprovada a excrescência jurídica proposta por um nada ilustrado desconhecido de sua legenda no Piauí, Nazareno Fonteles, submetendo decisões terminais da última instância da Justiça à vontade da maioria dos nobres pares parlamentares. Ou seja, excluindo de nosso Estado Democrático de Direito o sistema de equilíbrio de Poderes autônomos criado pelo francês Charles-Louis de Se-condat, barão de La Brède e de Montesquieu, um dos enciclopedistas franceses do século 18 e autor do clássico O Espírito das Leis. É de Montesquieu, como ficou conhecido pela posteridade, o conceito da autonomia de quem legisla, executa e julga para que as instituições funcionem em harmonia. Fonteles discorda e detona. Genoino e João Paulo concordam e aplaudem. Pois bem, tudo isso está dentro das leis vigentes e não há de que reclamar. Pois é.
Mas enquanto isso, em nome do sagrado direito de esgotar todas as possibilidades de defesa que devem ser concedidas a todo indivíduo para evitar que seja vítima de arbítrio estatal ou erro judicial, os insignes representantes do povo recorreram da decisão na instância máxima. E, não satisfeitos com uma eventual reforma das penas, cuja soma os levará à prisão, após transitadas as sentenças em julgado no STF, resolveram exigir da colenda Corte que substitua o relator, atualmente na presidência do tribunal, o ministro Joaquim Barbosa. Os crimes que foram imputados a Suas Excelências e a seu companheiro de partido e bravatas José Dirceu foram cometidos há oito anos, o Supremo levou um ano debatendo o caso e agora os réus querem trocar o relator...
O que justifica o pedido? Que absurdo deslize jurídico teria cometido o ministro Barbosa para ser substituído nos últimos instantes a pedido de réus condenados? Que grave suspeita de parcialidade pesará sobre ele? Ninguém encontrou um só ilícito que o presidente do STF tenha cometido ao relatar o caso para contra ele ser alegada suspeição. O revisor, Ricardo Lewandowski, tem notórias ligações de amizade com uma personagem do episódio, embora não tenha sido acusada formalmente de nada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e atuou sem reserva alguma nem contestação de nenhum dos famosos (e bem pagos) causídicos que defenderam os acusados.
Ao difamar o relator do mensalão, condenados querem ocultar que a decisão foi da maioria
Não se conhece ainda nenhum embargo de defensores à atuação no julgamento, com direito a voz e voto, do ex-advogado do PT José Antônio Dias Toffoli, namorado de uma colega que representou em causas na Justiça o mais importante e célebre dos réus condenados no processo, o citado José Dirceu. Os defensores nada encontraram de irregular nesse notório fato histórico. Nem o próprio ministro alegou a suspeição, que a qualquer leigo pudesse parecer óbvia, e julgou os antigos clientes como se nunca tivesse mantido algum tipo de relação com eles.
Mesmo se não tivesse ocorrido nenhum desses antecedentes, a tentativa de levantar suspeitas sobre o relatório de Joaquim Barbosa é infamante. De origem familiar pobre, o ministro protagonizou uma carreira brilhante no serviço público e, depois, como profissional do Direito. Consta que teve o nome apreciado por Lula por indicação do frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, sobre quem não pode cair nenhuma desconfiança de desapreço a algum figurão petista julgado, menos ainda ao protagonista oculto do escândalo, Lula. Aliás, não foi este quem indicou Barbosa para o STF?
Será, então, o caso de tirar a relatoria do presidente do STF apenas por ter ele recomendado a condenação de Dirceu, Genoino, João Paulo e outros? Mas não foi o relator quem condenou os réus. Primeiramente, eles foram investigados - e não o foram pelo "Partido da Imprensa Golpista" (PIG),inimiga do governo, do PT e dos "blogueiros progressistas", mas por um órgão do Estado, a Polícia Federal. As provas que explicitaram a culpa dos condenados no processo foram reunidas por funcionários públicos, os policiais federais, subordinados hierarquicamente ao ministro da Justiça e, em última instância, ao presidente da República. A fase de instrução do processo foi concluída pelos procuradores-gerais da República Antonio Fernando de Souza e Roberto Gurgel, nenhum deles nomeado pelo tucano Fernando Henrique, mas ambos por Lula, sendo o segundo mantido por Dilma.
E o que Barbosa tem que ver com isso? Bem, ele teve o trabalho, executado com requintes de lógica aristotélica, de mostrar por Amais B aseus colegas da Corte como funcionou o esquema criminoso de compra de apoio de aliados de pequenas legendas governistas a projetos de interesse do governo petista, do qual Lula era o presidente e Dirceu, o chefe da Casa Civil. Da competência do relatório de Barbosa fala melhor o apoio em votos que recebeu de seus pares, respeitados juristas como ele, do que qualquer elogio que este escriba leigo lhe fizer. Neste texto cabe apenas lembrar que nenhuma pena no mensalão foi atribuída pelo voto isolado do relator. A cada voto seu quase sempre se opunha o revisor e aos restantes membros do colegiado -primeiro 11, depois 10 e, enfim, 9, em votação majoritária -coube decidir a sorte dos réus.
No entanto, José Dirceu e seus colegas de pena tentam desmoralizar o relator para substituí-lo. Em nome da lógica, a que Barbosa foi fiel, seria mais sensato dissolver o STF: a asneira proposta por Fonteles é mais sábia do que a douta representação dos causídicos.
As mutações de Dilma - CRISTIANO ROMERO
VALOR ECONÔMICO - 08/05
Era maio de 2010 quando a ainda pré-candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, disse, num seminário promovido no Rio pelo Valor e o "Financial Times", que adotaria receita ortodoxa para convergir a taxa de juro brasileira a níveis internacionais. Ela aumentaria o superávit primário das contas públicas e, assim, reduziria a dívida pública como proporção do Produto Interno Bruto (PIB). À medida que dívida e déficit públicos diminuíssem, investidores exigiriam prêmio menor para financiar o Estado.
Presentes ao seminário, empresários pesos pesados ficaram bem impressionados com o discurso. Alguns ainda desconfiavam de que, uma vez instalada no poder, Dilma baixaria o juro na marra e que, em vez de adotar uma meta para a dívida, teria meta para a Selic.
Na primeira fila da plateia do seminário estava o principal coordenador da campanha de Dilma - o ex-ministro Antonio Palocci, responsável pela política econômica do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Palocci entrara na campanha pelas mãos de Lula, que o escolheu para a tarefa por duas razões: o trânsito livre junto a empresários e banqueiros; e o fato de ser o principal defensor de seu legado na economia.
Pragmático, Lula se preocupava com certas ideias de Dilma. No início do mandato, em 2003, ouviu dela críticas duras à política conduzida por Palocci, que consistia na adoção de uma meta de superávit primário superior à do governo tucano; à flutuação da taxa de câmbio com acumulação de reservas; e ao fortalecimento do regime de metas para inflação, mediante concessão de autonomia operacional ao Banco Central.
As ressalvas de Dilma eram tantas que, certa vez, Lula pediu a ela que formulasse um plano alternativo, que nunca veio. Em 2005, ela assumiu o comando da Casa Civil em meio à crise do mensalão. No fim daquele ano, derrubou tentativa, propugnada por Palocci com o apoio do ex-ministro Delfim Netto, de adoção de um duro programa fiscal para zerar o déficit público.
No segundo mandato de Lula, Dilma liderou iniciativa (o PAC) para aumentar o investimento público em infraestrutura. Era uma inflexão à ortodoxia da Era Palocci, mas com manutenção do tripé mencionado. Naquele período, disciplinada e leal a Lula, a então ministra não foi vista uma vez sequer criticando pública ou reservadamente as políticas cambial e monetária.
Não se sabe também da participação de Dilma no movimento, ocorrido na primeira metade de 2008, para desestabilizar o então presidente do BC, Henrique Meirelles, embora algumas de suas ideias estivessem lá. Reunião no Palácio do Planalto chegou a tratar da desvalorização e prefixação do câmbio, mas Lula abortou a proposta, supostamente porque, em maio daquele ano, o país recebera o grau de investimento das agências de risco.
Durante sua campanha, Dilma adotou discurso conservador. Nada de reduzir juro na marra, desvalorizar o câmbio à força ou flexibilizar a meta de inflação. Eleita, ela aumentou o superávit primário e deu autonomia ao BC para elevar a taxa Selic já no primeiro mês de mandato - e nos meses subsequentes.
Depois da saída de Palocci do governo, em junho de 2011, coincidência ou não, Dilma começou a mudar a política econômica. Em agosto, o BC, num movimento surpreendente, iniciou forte corte da Selic, mesmo com a piora das expectativas de inflação. No momento seguinte, o governo adotou medidas de controle dos fluxos de capitais para forçar a desvalorização do câmbio.
Em 2012 e no ano em curso, o governo abandonou a política de contração fiscal. Desistiu também de perseguir a meta oficial de inflação (4,5%) - o objetivo passou a ser não romper o limite superior do intervalo de tolerância (6,5%). Neste ano, a presidente passou a exercer enorme pressão sobre o BC quando surgiram os primeiros sinais de que o juro subiria.
Paralelamente às mudanças na política macroeconômica, Dilma adotou discurso em prol do aumento da produtividade. Chegou a afirmar que o Brasil não será socialmente justo se não tiver uma economia competitiva. E adotou agenda que coloca o setor privado na liderança dos investimentos em infraestrutura, justamente o oposto do PAC e do que defende o seu partido, o PT.
Ao implementar essa agenda, a presidente fixou regras inexequíveis para o setor privado, mas as vem aperfeiçoando. Anunciou, ainda, um sem-número de pacotes para desonerar a economia, mas com o claro objetivo de reduzir pressões inflacionárias de curto prazo e impedir a alta da Selic.
O resultado de todo esse ativismo não é animador. O PIB cresce pouco, em que pese a expectativa de expansão mais forte em 2013; a inflação em 12 meses supera os 6,5% e preocupa os empresários, como mostrou ontem reportagem no Valor; o investimento está deprimido; há um clima de hostilidade em relação ao governo nos setores financeiro e produtivo; a taxa de juros voltou a subir, no momento em que nas principais economias do planeta ela é negativa.
Nada disso tira o entusiasmo da maioria esmagadora da população. A elevada popularidade dá à presidente favoritismo para a disputa de 2014. Para analistas preocupados com o médio prazo, 2015 será um ano de ajuste, uma vez que tanto a situação fiscal quanto a das contas externas, isto sem falar da inflação, inspiram cuidados. A dúvida é saber que caminho Dilma, reeleita, trilhará para enfrentar os problemas: se a via ortodoxa do início de seu governo ou uma aposta redobrada no modelo adotado desde agosto de 2011.
Presentes ao seminário, empresários pesos pesados ficaram bem impressionados com o discurso. Alguns ainda desconfiavam de que, uma vez instalada no poder, Dilma baixaria o juro na marra e que, em vez de adotar uma meta para a dívida, teria meta para a Selic.
Na primeira fila da plateia do seminário estava o principal coordenador da campanha de Dilma - o ex-ministro Antonio Palocci, responsável pela política econômica do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Palocci entrara na campanha pelas mãos de Lula, que o escolheu para a tarefa por duas razões: o trânsito livre junto a empresários e banqueiros; e o fato de ser o principal defensor de seu legado na economia.
Pragmático, Lula se preocupava com certas ideias de Dilma. No início do mandato, em 2003, ouviu dela críticas duras à política conduzida por Palocci, que consistia na adoção de uma meta de superávit primário superior à do governo tucano; à flutuação da taxa de câmbio com acumulação de reservas; e ao fortalecimento do regime de metas para inflação, mediante concessão de autonomia operacional ao Banco Central.
As ressalvas de Dilma eram tantas que, certa vez, Lula pediu a ela que formulasse um plano alternativo, que nunca veio. Em 2005, ela assumiu o comando da Casa Civil em meio à crise do mensalão. No fim daquele ano, derrubou tentativa, propugnada por Palocci com o apoio do ex-ministro Delfim Netto, de adoção de um duro programa fiscal para zerar o déficit público.
No segundo mandato de Lula, Dilma liderou iniciativa (o PAC) para aumentar o investimento público em infraestrutura. Era uma inflexão à ortodoxia da Era Palocci, mas com manutenção do tripé mencionado. Naquele período, disciplinada e leal a Lula, a então ministra não foi vista uma vez sequer criticando pública ou reservadamente as políticas cambial e monetária.
Não se sabe também da participação de Dilma no movimento, ocorrido na primeira metade de 2008, para desestabilizar o então presidente do BC, Henrique Meirelles, embora algumas de suas ideias estivessem lá. Reunião no Palácio do Planalto chegou a tratar da desvalorização e prefixação do câmbio, mas Lula abortou a proposta, supostamente porque, em maio daquele ano, o país recebera o grau de investimento das agências de risco.
Durante sua campanha, Dilma adotou discurso conservador. Nada de reduzir juro na marra, desvalorizar o câmbio à força ou flexibilizar a meta de inflação. Eleita, ela aumentou o superávit primário e deu autonomia ao BC para elevar a taxa Selic já no primeiro mês de mandato - e nos meses subsequentes.
Depois da saída de Palocci do governo, em junho de 2011, coincidência ou não, Dilma começou a mudar a política econômica. Em agosto, o BC, num movimento surpreendente, iniciou forte corte da Selic, mesmo com a piora das expectativas de inflação. No momento seguinte, o governo adotou medidas de controle dos fluxos de capitais para forçar a desvalorização do câmbio.
Em 2012 e no ano em curso, o governo abandonou a política de contração fiscal. Desistiu também de perseguir a meta oficial de inflação (4,5%) - o objetivo passou a ser não romper o limite superior do intervalo de tolerância (6,5%). Neste ano, a presidente passou a exercer enorme pressão sobre o BC quando surgiram os primeiros sinais de que o juro subiria.
Paralelamente às mudanças na política macroeconômica, Dilma adotou discurso em prol do aumento da produtividade. Chegou a afirmar que o Brasil não será socialmente justo se não tiver uma economia competitiva. E adotou agenda que coloca o setor privado na liderança dos investimentos em infraestrutura, justamente o oposto do PAC e do que defende o seu partido, o PT.
Ao implementar essa agenda, a presidente fixou regras inexequíveis para o setor privado, mas as vem aperfeiçoando. Anunciou, ainda, um sem-número de pacotes para desonerar a economia, mas com o claro objetivo de reduzir pressões inflacionárias de curto prazo e impedir a alta da Selic.
O resultado de todo esse ativismo não é animador. O PIB cresce pouco, em que pese a expectativa de expansão mais forte em 2013; a inflação em 12 meses supera os 6,5% e preocupa os empresários, como mostrou ontem reportagem no Valor; o investimento está deprimido; há um clima de hostilidade em relação ao governo nos setores financeiro e produtivo; a taxa de juros voltou a subir, no momento em que nas principais economias do planeta ela é negativa.
Nada disso tira o entusiasmo da maioria esmagadora da população. A elevada popularidade dá à presidente favoritismo para a disputa de 2014. Para analistas preocupados com o médio prazo, 2015 será um ano de ajuste, uma vez que tanto a situação fiscal quanto a das contas externas, isto sem falar da inflação, inspiram cuidados. A dúvida é saber que caminho Dilma, reeleita, trilhará para enfrentar os problemas: se a via ortodoxa do início de seu governo ou uma aposta redobrada no modelo adotado desde agosto de 2011.
A revolução do gás - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 08/05
Há pelo menos dois anos, o governo brasileiro e as lideranças da indústria já sabem que está em curso uma revolução energética nos Estados Unidos, que pode alijar do mercado global boa parte do sistema produtivo nacional - se uma mudança de atitude não vier a tempo.
A novidade, de só três anos, é a obtenção em larga escala de gás e de petróleo nos Estados Unidos por meio de fraturamento das rochas de xisto.
No ano passado, os Estados Unidos foram o país que mais elevou a produção de petróleo no mundo (mais 780 mil barris diários) e passou a colocar volume enorme de gás a uma mera fração do preço pago no resto do mundo: US$ 2,8 por milhão de BTU nos Estados Unidos ante entre US$ 10 e US$ 12 por milhão de BTU na Europa e no Brasil (veja o gráfico).
São dois os efeitos de enorme alcance estratégico: (1) até 2025, os Estados Unidos deverão ser autossuficientes em petróleo e gás, avalia a Agência Internacional de Energia; e (2) a abundância da oferta de gás e seu baixíssimo preço começam a transferir para os Estados Unidos bom número de investimentos em petroquímica, fertilizantes hidrogenados, química básica (soda e cloro), metalurgia de não ferrosos e outros setores eletrointensivos - como os de cerâmicas, vidro e, provavelmente, cimento. Esse novo movimento de capitais inviabiliza projetos de investimento em outras regiões do Planeta, entre as quais o Brasil.
Os Estados Unidos contam com enormes formações de xisto em regiões altamente industrializadas, o que dispensa pesados custos em infraestrutura de transporte (oleodutos e gasodutos).
A nova tecnologia consiste em injeção a alta pressão de mistura de água, areia e produtos químicos em perfurações horizontais. O processo de microfraturamento da rocha (fracking) libera hidrocarbonetos que sobem à superfície.
A única objeção à essa técnica tem natureza ambiental. A injeção de produtos químicos, sobretudo benzeno, aumenta o risco de contaminação dos lençóis freáticos. Por outro lado, a dispensa de carvão e óleo combustível na produção de energia termoelétrica deve contribuir para a melhora das condições do ar.
A presidente da Petrobrás, Graça Foster, advertiu várias vezes que não há como concorrer com esse gás. É fator que ameaça desde já a sobrevivência de amplos setores da indústria no Brasil, dependentes não só de gás como matéria-prima, mas também de energia elétrica de baixo custo para sua produção.
O governo Dilma sabe que o Brasil também conta com enormes reservatórios de xisto. Cálculos da Agência Nacional do Petróleo indicam que há somente em três bacias (Parecis, Recôncavo Baiano e Parnaíba) potencial de produção de quase 17 trilhões de metros cúbicos de gás. No entanto, o governo brasileiro está ainda muito longe de definir uma política de exploração desse potencial e também de assegurar viabilidade futura para o setor produtivo.
É claro que esse fato estratégico relativamente novo exige redefinição drástica da política industrial brasileira. Não somente para garantir a competitividade, neste momento ainda mais ameaçada, mas também para tirar proveito da nova tecnologia.
Há pelo menos dois anos, o governo brasileiro e as lideranças da indústria já sabem que está em curso uma revolução energética nos Estados Unidos, que pode alijar do mercado global boa parte do sistema produtivo nacional - se uma mudança de atitude não vier a tempo.
A novidade, de só três anos, é a obtenção em larga escala de gás e de petróleo nos Estados Unidos por meio de fraturamento das rochas de xisto.
No ano passado, os Estados Unidos foram o país que mais elevou a produção de petróleo no mundo (mais 780 mil barris diários) e passou a colocar volume enorme de gás a uma mera fração do preço pago no resto do mundo: US$ 2,8 por milhão de BTU nos Estados Unidos ante entre US$ 10 e US$ 12 por milhão de BTU na Europa e no Brasil (veja o gráfico).
São dois os efeitos de enorme alcance estratégico: (1) até 2025, os Estados Unidos deverão ser autossuficientes em petróleo e gás, avalia a Agência Internacional de Energia; e (2) a abundância da oferta de gás e seu baixíssimo preço começam a transferir para os Estados Unidos bom número de investimentos em petroquímica, fertilizantes hidrogenados, química básica (soda e cloro), metalurgia de não ferrosos e outros setores eletrointensivos - como os de cerâmicas, vidro e, provavelmente, cimento. Esse novo movimento de capitais inviabiliza projetos de investimento em outras regiões do Planeta, entre as quais o Brasil.
Os Estados Unidos contam com enormes formações de xisto em regiões altamente industrializadas, o que dispensa pesados custos em infraestrutura de transporte (oleodutos e gasodutos).
A nova tecnologia consiste em injeção a alta pressão de mistura de água, areia e produtos químicos em perfurações horizontais. O processo de microfraturamento da rocha (fracking) libera hidrocarbonetos que sobem à superfície.
A única objeção à essa técnica tem natureza ambiental. A injeção de produtos químicos, sobretudo benzeno, aumenta o risco de contaminação dos lençóis freáticos. Por outro lado, a dispensa de carvão e óleo combustível na produção de energia termoelétrica deve contribuir para a melhora das condições do ar.
A presidente da Petrobrás, Graça Foster, advertiu várias vezes que não há como concorrer com esse gás. É fator que ameaça desde já a sobrevivência de amplos setores da indústria no Brasil, dependentes não só de gás como matéria-prima, mas também de energia elétrica de baixo custo para sua produção.
O governo Dilma sabe que o Brasil também conta com enormes reservatórios de xisto. Cálculos da Agência Nacional do Petróleo indicam que há somente em três bacias (Parecis, Recôncavo Baiano e Parnaíba) potencial de produção de quase 17 trilhões de metros cúbicos de gás. No entanto, o governo brasileiro está ainda muito longe de definir uma política de exploração desse potencial e também de assegurar viabilidade futura para o setor produtivo.
É claro que esse fato estratégico relativamente novo exige redefinição drástica da política industrial brasileira. Não somente para garantir a competitividade, neste momento ainda mais ameaçada, mas também para tirar proveito da nova tecnologia.
Delírios legiferantes - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 08/05
SÃO PAULO - Num dos mais intrigantes experimentos da psicologia, uma pessoa é colocada diante de luzes que piscam num padrão aleatório e o pesquisador a manda apertar um botão que não faz nada. O desejo humano de controlar as coisas é tamanho que, em pouco tempo, o sujeito acha que realmente consegue comandar as luzes.
Essa propensão seria só uma curiosidade, se não nos levasse aos perigosos erros que cometemos quando tentamos legislar sobre o que não pode e o que não deve ser regulado. Um caso particularmente gritante desse viés é a resolução baixada há pouco pelo secretário da Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella, que proíbe policiais de prestar socorro a feridos graves. A orientação é que preservem a cena do crime e chamem um serviço de resgate.
Os limites da regra e seu potencial de gerar confusão ficam claros na reportagem que a Folha publicou anteontem, mostrando que PMs foram céleres em ignorar a norma e prestar socorro imediato quando constataram que o ferido era um PM.
Pior, há relatos de que policiais não só deixaram de socorrer um baleado como não permitiram que familiares o fizessem. A figura jurídica do estado de necessidade autoriza o cidadão até mesmo a usar a força contra o PM (ou qualquer um) que o impeça de levar seu filho ao hospital.
Voltando à regra abstrata, não é preciso mais do que bom-senso para constatar que é uma norma estúpida. Há situações em que o mais indicado é transportar o ferido rapidamente, e outras em que a melhor atitude é esperar por uma remoção especializada. O mais sábio aqui seria treinar os policiais para que sejam capazes de reconhecer os tipos mais comuns de emergência e deixar que tomem a decisão caso a caso, esperando que acertem mais do que errem.
A ideia de que uma regra linear possa dar conta de todos os casos tem algo de delirante, como o sujeito que pensa controlar as luzes.
SÃO PAULO - Num dos mais intrigantes experimentos da psicologia, uma pessoa é colocada diante de luzes que piscam num padrão aleatório e o pesquisador a manda apertar um botão que não faz nada. O desejo humano de controlar as coisas é tamanho que, em pouco tempo, o sujeito acha que realmente consegue comandar as luzes.
Essa propensão seria só uma curiosidade, se não nos levasse aos perigosos erros que cometemos quando tentamos legislar sobre o que não pode e o que não deve ser regulado. Um caso particularmente gritante desse viés é a resolução baixada há pouco pelo secretário da Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella, que proíbe policiais de prestar socorro a feridos graves. A orientação é que preservem a cena do crime e chamem um serviço de resgate.
Os limites da regra e seu potencial de gerar confusão ficam claros na reportagem que a Folha publicou anteontem, mostrando que PMs foram céleres em ignorar a norma e prestar socorro imediato quando constataram que o ferido era um PM.
Pior, há relatos de que policiais não só deixaram de socorrer um baleado como não permitiram que familiares o fizessem. A figura jurídica do estado de necessidade autoriza o cidadão até mesmo a usar a força contra o PM (ou qualquer um) que o impeça de levar seu filho ao hospital.
Voltando à regra abstrata, não é preciso mais do que bom-senso para constatar que é uma norma estúpida. Há situações em que o mais indicado é transportar o ferido rapidamente, e outras em que a melhor atitude é esperar por uma remoção especializada. O mais sábio aqui seria treinar os policiais para que sejam capazes de reconhecer os tipos mais comuns de emergência e deixar que tomem a decisão caso a caso, esperando que acertem mais do que errem.
A ideia de que uma regra linear possa dar conta de todos os casos tem algo de delirante, como o sujeito que pensa controlar as luzes.
Vitória robusta - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 08/05
A vitória do brasileiro Roberto Azevêdo dá ao Brasil um protagonismo importante no momento mais difícil da Organização Mundial do Comércio. O travamento da Rodada Doha e o início da negociação do acordo transatlântico entre Estados Unidos e Europa colocam o mundo numa encruzilhada. É exatamente neste momento que um brasileiro vai assumir o comando do órgão.
A Organização Mundial do Comércio é herdeira direta do GATT, o Acordo Geral de Tarifas e Comércio, que nasceu do esforço de reorganização do mundo após a Segunda Guerra Mundial. Os liberais em comércio têm de sobra dados mostrando que o aumento do comércio produz mais dinamismo em todas as economias; ao mesmo tempo, o protecionismo é um velho vício de todos os países.
No enfrentamento dessas duas correntes, têm caminhado as negociações comerciais multilaterais. Nos anos 60, a Rodada Kennedy; no final dos anos 70 e começo dos 80, a Rodada Tóquio. Nos 90, a Rodada Uruguai. Em cada uma dessas etapas houve uma redução global das barreiras ao comércio. A primeira queria apenas reduzir um pouco as tarifas de importação, a segunda desmontou também algumas barreiras não tarifárias, e a última incluía outros setores que antes nem estavam em discussão.
Tudo somado foi pouco. O mundo é ainda muito fechado, a crise recente reforçou medidas de proteção do mercado interno. A estagnação das negociações da Rodada Doha só incentivou os acordos bilaterais e o fechamento das concessões dentro dos blocos, excluindo os demais.
Por isso, Doha é fundamental. Para garantir o multilateralismo. Só numa OMC forte pode haver sanções a quem desrespeita as regras do jogo. O Brasil tem vitórias emblemáticas na OMC, como o caso do algodão contra os Estados Unidos.
O problema é que o próprio Brasil está num processo de retrocesso em relação à abertura ao comércio. País tradicionalmente fechado, que só em 1990 fez a abertura comercial e acabou com a reserva de mercado da informática, o Brasil foi abrindo até recentemente, quando criou diversas barreiras ao comércio.
Elevou as tarifas de importação, mas dentro do limite da OMC. Reduziu IPI de produto local, discriminando o produto importado, o que não é permitido. Toda a barreira tem que estar concentrada na tarifa de importação. A regra da OMC não aceita que se crie essa diferenciação no imposto interno porque ela acaba sendo uma segunda barreira ao comércio.
Enfim, o Brasil não é conhecido por ser um adepto fervoroso do livre comércio e isso piorou nos últimos anos. Por outro lado, é um defensor das decisões tomadas de forma coletiva, o multilateralismo.
O candidato derrotado Hermínio Blanco é de um país, o México, que tem um fluxo de comércio muito maior em proporção ao PIB. Por outro lado, 75% do que exportam são para os Estados Unidos.
Na divisão dos votos, o Brasil ficou com os países emergentes, China, principalmente, e os em desenvolvimento. A Europa votou em peso em Hermínio Blanco, e os Estados Unidos fizeram até campanha. Coreia do Sul e Japão também ficaram com Blanco.
Oficialmente, o resultado não será divulgado hoje, só que já se vê pela divisão de votos que a primeira tarefa do embaixador brasileiro será reforçar a ponte Norte-Sul. O esforço para levar todos de volta à mesa de negociação tem que superar a clivagem que ficou como herança desta longa disputa. Inicialmente, eram nove, e o embaixador brasileiro acabou vencendo. A vitória é robusta, o momento é decisivo, e, se a atuação dele for relevante, reforçará o projeto do Brasil de ter uma posição de mais destaque na governança global.
A vitória do brasileiro Roberto Azevêdo dá ao Brasil um protagonismo importante no momento mais difícil da Organização Mundial do Comércio. O travamento da Rodada Doha e o início da negociação do acordo transatlântico entre Estados Unidos e Europa colocam o mundo numa encruzilhada. É exatamente neste momento que um brasileiro vai assumir o comando do órgão.
A Organização Mundial do Comércio é herdeira direta do GATT, o Acordo Geral de Tarifas e Comércio, que nasceu do esforço de reorganização do mundo após a Segunda Guerra Mundial. Os liberais em comércio têm de sobra dados mostrando que o aumento do comércio produz mais dinamismo em todas as economias; ao mesmo tempo, o protecionismo é um velho vício de todos os países.
No enfrentamento dessas duas correntes, têm caminhado as negociações comerciais multilaterais. Nos anos 60, a Rodada Kennedy; no final dos anos 70 e começo dos 80, a Rodada Tóquio. Nos 90, a Rodada Uruguai. Em cada uma dessas etapas houve uma redução global das barreiras ao comércio. A primeira queria apenas reduzir um pouco as tarifas de importação, a segunda desmontou também algumas barreiras não tarifárias, e a última incluía outros setores que antes nem estavam em discussão.
Tudo somado foi pouco. O mundo é ainda muito fechado, a crise recente reforçou medidas de proteção do mercado interno. A estagnação das negociações da Rodada Doha só incentivou os acordos bilaterais e o fechamento das concessões dentro dos blocos, excluindo os demais.
Por isso, Doha é fundamental. Para garantir o multilateralismo. Só numa OMC forte pode haver sanções a quem desrespeita as regras do jogo. O Brasil tem vitórias emblemáticas na OMC, como o caso do algodão contra os Estados Unidos.
O problema é que o próprio Brasil está num processo de retrocesso em relação à abertura ao comércio. País tradicionalmente fechado, que só em 1990 fez a abertura comercial e acabou com a reserva de mercado da informática, o Brasil foi abrindo até recentemente, quando criou diversas barreiras ao comércio.
Elevou as tarifas de importação, mas dentro do limite da OMC. Reduziu IPI de produto local, discriminando o produto importado, o que não é permitido. Toda a barreira tem que estar concentrada na tarifa de importação. A regra da OMC não aceita que se crie essa diferenciação no imposto interno porque ela acaba sendo uma segunda barreira ao comércio.
Enfim, o Brasil não é conhecido por ser um adepto fervoroso do livre comércio e isso piorou nos últimos anos. Por outro lado, é um defensor das decisões tomadas de forma coletiva, o multilateralismo.
O candidato derrotado Hermínio Blanco é de um país, o México, que tem um fluxo de comércio muito maior em proporção ao PIB. Por outro lado, 75% do que exportam são para os Estados Unidos.
Na divisão dos votos, o Brasil ficou com os países emergentes, China, principalmente, e os em desenvolvimento. A Europa votou em peso em Hermínio Blanco, e os Estados Unidos fizeram até campanha. Coreia do Sul e Japão também ficaram com Blanco.
Oficialmente, o resultado não será divulgado hoje, só que já se vê pela divisão de votos que a primeira tarefa do embaixador brasileiro será reforçar a ponte Norte-Sul. O esforço para levar todos de volta à mesa de negociação tem que superar a clivagem que ficou como herança desta longa disputa. Inicialmente, eram nove, e o embaixador brasileiro acabou vencendo. A vitória é robusta, o momento é decisivo, e, se a atuação dele for relevante, reforçará o projeto do Brasil de ter uma posição de mais destaque na governança global.
Tragédia - ANTONIO DELFIM NETTO
FOLHA DE SP - 08/05
A recente redução das perspectivas de crescimento do PIB de 2013 (que começou em torno de 4% e já anda em torno de 3%, com viés de baixa) deve-se, essencialmente, à pequena resposta da demanda da produção industrial nacional aos enormes estímulos fiscais, monetários, creditícios e subsídios que lhe têm sido concedidos.
Em outras palavras, o estímulo à demanda nacional "vaza" para a indústria estrangeira em lugar de ser suprida pela indústria nacional. Esse é um fenômeno geral, como prova o crescente saldo negativo do nosso balanço de transações correntes. E é fenômeno relativamente recente
Nele se registram o crescimento das vendas do comércio varejista e o crescimento da indústria de transformação com relação ao triênio anterior no período 2004-2006 e 2010-2012.
A diferença dá uma ideia do aumento da penetração da oferta estrangeira. Vemos que em 2004-2006 (com referência a 2003-2005) as vendas do varejo cresceram praticamente à mesma taxa da produção industrial, 12,0% e 11,5%, respectivamente. No período 2010-2012 (com referência a 2007-2009), o varejo cresceu 27,2% e a indústria nacional 5,1%, revelando o "vazamento" da demanda interna para a oferta externa.
Notemos que a diferença entre os dois períodos é de apenas seis anos. Neles, de exportadores de produtos de linha branca, de vestuário, de bicicletas, de automóveis etc. transformamo-nos em importadores. Hoje nossas fábricas pedem recuperação industrial porque não têm como enfrentar a desleal concorrência externa (China, Índia, Taiwan, Coreia, México, Bangladesh e outros).
Há muitas explicações e múltiplas causas para isso. As mais importantes, entretanto, são duas: 1ª) destruímos o nosso sistema de tarifas efetivas protegendo os setores de insumos básicos e 2ª) produzimos uma violenta valorização do câmbio pelo aumento do salário nominal muito acima da taxa de câmbio nominal.
A recente redução das perspectivas de crescimento do PIB de 2013 (que começou em torno de 4% e já anda em torno de 3%, com viés de baixa) deve-se, essencialmente, à pequena resposta da demanda da produção industrial nacional aos enormes estímulos fiscais, monetários, creditícios e subsídios que lhe têm sido concedidos.
Em outras palavras, o estímulo à demanda nacional "vaza" para a indústria estrangeira em lugar de ser suprida pela indústria nacional. Esse é um fenômeno geral, como prova o crescente saldo negativo do nosso balanço de transações correntes. E é fenômeno relativamente recente
Nele se registram o crescimento das vendas do comércio varejista e o crescimento da indústria de transformação com relação ao triênio anterior no período 2004-2006 e 2010-2012.
A diferença dá uma ideia do aumento da penetração da oferta estrangeira. Vemos que em 2004-2006 (com referência a 2003-2005) as vendas do varejo cresceram praticamente à mesma taxa da produção industrial, 12,0% e 11,5%, respectivamente. No período 2010-2012 (com referência a 2007-2009), o varejo cresceu 27,2% e a indústria nacional 5,1%, revelando o "vazamento" da demanda interna para a oferta externa.
Notemos que a diferença entre os dois períodos é de apenas seis anos. Neles, de exportadores de produtos de linha branca, de vestuário, de bicicletas, de automóveis etc. transformamo-nos em importadores. Hoje nossas fábricas pedem recuperação industrial porque não têm como enfrentar a desleal concorrência externa (China, Índia, Taiwan, Coreia, México, Bangladesh e outros).
Há muitas explicações e múltiplas causas para isso. As mais importantes, entretanto, são duas: 1ª) destruímos o nosso sistema de tarifas efetivas protegendo os setores de insumos básicos e 2ª) produzimos uma violenta valorização do câmbio pelo aumento do salário nominal muito acima da taxa de câmbio nominal.
Uma situação bizarra - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 08/05
O estranho caso do novo ministro Afif Domingos, que permanecerá como vice-governador de São Paulo, é exemplar de como nossos políticos se apegam a cargos, mesmo quando o bom senso manda que abram mão de um deles. Afif já combinou com o governador Geraldo Alckmin que não assumirá o posto deste nunca e pretende viajar sempre que o governador tiver que fazê-lo, para que o cargo possa ser ocupado pelo presidente da Assembleia Legislativa.
Pergunta-se então: como um ministro em Brasília pode ao mesmo tempo ser vice-governador de São Paulo? Para que Afif quer continuar em um cargo que não poderá exercer? A chapa Alckmin-Afif tinha sentido, pois o PSDB e o DEM eram partidos de uma mesma base política no estado. Com a criação do PSD, a situação ficou mais complicada, pois o vice-governador bandeou-se para o novo partido, claramente pendendo para um apoio explícito ao governo Dilma, embora Kassab negue que a ida de Afif para o Ministério seja um compromisso de apoiar Dilma em 2014.
Mas é evidente que a nova Secretaria da Micro e Pequena Empresa só foi criada para levar o PSD para dentro do governo, numa antecipação do apoio em 2014. Vários partidos da base aliada, e não apenas o PSD, tentam ficar com um pé fora da aliança para o caso de alguma emergência.
No caso do PSD, há uma ligação forte de Kassab com o PSB de Eduardo Campos, partido que poderia receber os adeptos do PSD se o partido não conseguisse tempo de TV e Fundo Partidário para ter vida própria. Não é à toa que Kassab inventa essa tese esdrúxula de que não aceitará fazer parte do governo Dilma neste mandato, reservando-se o direito de apenas em 2014 se juntar a ele, caso a presidente seja reeleita. O que ele quer mesmo é aguardar o cenário se estabilizar para definir a quem apoiar na corrida presidencial. Sempre que fala nesse assunto, Kassab sinaliza que a maioria dos diretórios já está se definindo a favor de Dilma.
O PDT e o PR, que voltaram ao governo depois de terem sido faxinados pela presidente Dilma por suspeita de corrupção, dizem que não se decidiram ainda sobre a quem apoiar na eleição presidencial e conversam tanto com o tucano Aécio Neves quanto com o governador Eduardo Campos.
As alianças regionais terão peso nessas definições do quadro nacional. Gilberto Kassab pretende disputar o governo de São Paulo e oferece um segundo palanque à presidente Dilma no estado, pois é impossível pensar em uma aliança com o PT, que terá candidato próprio.
Já no Rio, uma das hipóteses é o PDT lançar a candidatura do deputado federal Miro Teixeira, dando o palanque para o candidato tucano Aécio Neves. Todos os lances, por mais estapafúrdios que sejam, têm explicação lógica, menos a permanência de Afif Domingos no cargo de vice-governador de São Paulo.
Em torno do óbvio
As declarações dos ministros Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes, concordando em que os embargos de declaração podem ter feitos infringentes, provocaram uma agitação política muito além do que representam. Talvez por serem os dois quem são, a concordância pareceu a muitos um sinal de que o Supremo Tribunal Federal caminha para a aceitação das teses das defesas.
Mas o que os ministros disseram, em ocasiões distintas, nada mais é do que o óbvio, embora a intenção de um possa ser diferente da do outro. Dizer que, se "a contradição seja tamanha, ou omissão ou obscuridade seja tamanha a tal ponto que não se possa aproveitar os votos vencedores, em tese, pode se caminhar para uma absolvição no ponto", como disse o ministro Lewandowski, ou que, embora raro, pode acontecer de um embargo de declaração alterar o resultado desde que se encontre um erro claro nas condenações, como disse Gilmar Mendes, é raciocinar sobre hipóteses e não admitir que a reversão de penas acontecerá.
De concreto mesmo, o STF pode considerar que esses primeiros embargos já têm características de infringentes e analisar todos de uma vez só, sem precisar dar mais tempo para novos recursos.
Pergunta-se então: como um ministro em Brasília pode ao mesmo tempo ser vice-governador de São Paulo? Para que Afif quer continuar em um cargo que não poderá exercer? A chapa Alckmin-Afif tinha sentido, pois o PSDB e o DEM eram partidos de uma mesma base política no estado. Com a criação do PSD, a situação ficou mais complicada, pois o vice-governador bandeou-se para o novo partido, claramente pendendo para um apoio explícito ao governo Dilma, embora Kassab negue que a ida de Afif para o Ministério seja um compromisso de apoiar Dilma em 2014.
Mas é evidente que a nova Secretaria da Micro e Pequena Empresa só foi criada para levar o PSD para dentro do governo, numa antecipação do apoio em 2014. Vários partidos da base aliada, e não apenas o PSD, tentam ficar com um pé fora da aliança para o caso de alguma emergência.
No caso do PSD, há uma ligação forte de Kassab com o PSB de Eduardo Campos, partido que poderia receber os adeptos do PSD se o partido não conseguisse tempo de TV e Fundo Partidário para ter vida própria. Não é à toa que Kassab inventa essa tese esdrúxula de que não aceitará fazer parte do governo Dilma neste mandato, reservando-se o direito de apenas em 2014 se juntar a ele, caso a presidente seja reeleita. O que ele quer mesmo é aguardar o cenário se estabilizar para definir a quem apoiar na corrida presidencial. Sempre que fala nesse assunto, Kassab sinaliza que a maioria dos diretórios já está se definindo a favor de Dilma.
O PDT e o PR, que voltaram ao governo depois de terem sido faxinados pela presidente Dilma por suspeita de corrupção, dizem que não se decidiram ainda sobre a quem apoiar na eleição presidencial e conversam tanto com o tucano Aécio Neves quanto com o governador Eduardo Campos.
As alianças regionais terão peso nessas definições do quadro nacional. Gilberto Kassab pretende disputar o governo de São Paulo e oferece um segundo palanque à presidente Dilma no estado, pois é impossível pensar em uma aliança com o PT, que terá candidato próprio.
Já no Rio, uma das hipóteses é o PDT lançar a candidatura do deputado federal Miro Teixeira, dando o palanque para o candidato tucano Aécio Neves. Todos os lances, por mais estapafúrdios que sejam, têm explicação lógica, menos a permanência de Afif Domingos no cargo de vice-governador de São Paulo.
Em torno do óbvio
As declarações dos ministros Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes, concordando em que os embargos de declaração podem ter feitos infringentes, provocaram uma agitação política muito além do que representam. Talvez por serem os dois quem são, a concordância pareceu a muitos um sinal de que o Supremo Tribunal Federal caminha para a aceitação das teses das defesas.
Mas o que os ministros disseram, em ocasiões distintas, nada mais é do que o óbvio, embora a intenção de um possa ser diferente da do outro. Dizer que, se "a contradição seja tamanha, ou omissão ou obscuridade seja tamanha a tal ponto que não se possa aproveitar os votos vencedores, em tese, pode se caminhar para uma absolvição no ponto", como disse o ministro Lewandowski, ou que, embora raro, pode acontecer de um embargo de declaração alterar o resultado desde que se encontre um erro claro nas condenações, como disse Gilmar Mendes, é raciocinar sobre hipóteses e não admitir que a reversão de penas acontecerá.
De concreto mesmo, o STF pode considerar que esses primeiros embargos já têm características de infringentes e analisar todos de uma vez só, sem precisar dar mais tempo para novos recursos.
Dupla militância - DORA KRAMER
O ESTADÃO - 08/05
A nomeação de Guilherme Afif Domingos para a Secretaria da Micro e Pequena Empresa cria uma situação ao mesmo tempo ambígua politicamente e juridicamente discutível.
Como a ambiguidade política é óbvia – filiado ao PSD, ele é vice em governo do PSDB e agora será auxiliar de administração comandada pelo PT –, vamos primeiro ao departamento jurídico.
Claro que Afif fez consultas a especialistas sobre o acúmulo do cargo de vice-governador de São Paulo e o de ministro com gabinete a mil quilômetros de distância, em Brasília. Teve tempo de sobra, já que a escolha estava acertada desde março.
Concluiu que não precisava tirar licença nem renunciar ao posto no Palácio dos Bandeirantes. Foi eleito, na prática não tem tarefa executiva e sua função se resume à expectativa de assumir na ausência do governador.
Sim, mas como fazer isso sendo ministro? Mais que uma dificuldade, um impedimento constitucional. Para contornar o obstáculo, Guilherme Afif e Geraldo Alckmin fizeram um acordo na tarde de segunda-feira, assim que seu vice recebeu telefonema da presidente Dilma Rousseff confirmando o convite.
O vice foi à sala do governador e acertou o seguinte: quando Alckmin precisar viajar ao exterior, ele avisará ao ministro, que dará um jeito de sair do país, e o presidente da Assembleia Legislativa, Samuel Moreira, assume o governo de São Paulo.
O “bem bolado” soluciona em parte o problema de ordem legal. A Constituição de São Paulo em seu artigo 45 diz que o governador e o vice não poderão se ausentar do estado por mais de 15 dias sem pedir licença à Assembleia.
Note-se que a lei não fala em ausência do cargo, mas de afastamento geográfico. Depreende-se, portanto, que se Afif voltar a São Paulo toda semana, como fazem outros ministros em relação aos respectivos estados, não haverá impedimento. Mas, se quiser ficar direto na capital, terá de pedir licença. Periodicamente renovável? A legislação não entra no detalhe.
Outro aspecto da questão: e se Alckmin por algum motivo precisar ficar fora do governo por, digamos, um mês; Afif passará 30 dias fora do país? Não se sabe.
Mas, para o caso de um afastamento mais prolongado já há uma solução discutida e decidida nas internas do PSD. Se por hipótese remota Alckmin concorrer a outro cargo que não à reeleição (presidente ou senador), terá de se afastar seis meses antes da eleição. Se ocorrer isso, Guilherme Afif deixa o ministério e assume o governo de São Paulo para completar o mandato.
Pragmático e, sobretudo, um retrato pronto e acabado da anarquia reinante na política brasileira. Repetindo: ministro em governo do PT, Afif é vice em governo do PSDB e filiado ao PSD.
Partido cujo presidente, Gilberto Kassab, é desafeto forte – para não dizer inimigo – de Geraldo Alckmin. A relação já não era boa desde que Alckmin resolveu enfrentar (e perdeu) Kassab na eleição municipal de 2008.
Dois anos depois o tucano se elegeu governador em aliança com o DEM. Quando Afif se transferiu para o PSD, foi demitido da Secretaria do Emprego, ficando reduzido à condição decorativa de vice.
Kassab entendeu o gesto como rompimento com certidão passada em cartório do céu e, desde então, a coisa desandou de vez. O ex-prefeito terá o maior prazer em ajudar o PT a criar dificuldade para a reeleição de Alckmin e não nega a intenção, justificando que a iniciativa da ruptura foi do governador.
De onde a ida de Afif para a equipe do primeiro escalão do governo federal o põe na inusitada condição de servidor de dois senhores em situação de divergência explícita sem que isso incomode a nenhum deles.
A nomeação de Guilherme Afif Domingos para a Secretaria da Micro e Pequena Empresa cria uma situação ao mesmo tempo ambígua politicamente e juridicamente discutível.
Como a ambiguidade política é óbvia – filiado ao PSD, ele é vice em governo do PSDB e agora será auxiliar de administração comandada pelo PT –, vamos primeiro ao departamento jurídico.
Claro que Afif fez consultas a especialistas sobre o acúmulo do cargo de vice-governador de São Paulo e o de ministro com gabinete a mil quilômetros de distância, em Brasília. Teve tempo de sobra, já que a escolha estava acertada desde março.
Concluiu que não precisava tirar licença nem renunciar ao posto no Palácio dos Bandeirantes. Foi eleito, na prática não tem tarefa executiva e sua função se resume à expectativa de assumir na ausência do governador.
Sim, mas como fazer isso sendo ministro? Mais que uma dificuldade, um impedimento constitucional. Para contornar o obstáculo, Guilherme Afif e Geraldo Alckmin fizeram um acordo na tarde de segunda-feira, assim que seu vice recebeu telefonema da presidente Dilma Rousseff confirmando o convite.
O vice foi à sala do governador e acertou o seguinte: quando Alckmin precisar viajar ao exterior, ele avisará ao ministro, que dará um jeito de sair do país, e o presidente da Assembleia Legislativa, Samuel Moreira, assume o governo de São Paulo.
O “bem bolado” soluciona em parte o problema de ordem legal. A Constituição de São Paulo em seu artigo 45 diz que o governador e o vice não poderão se ausentar do estado por mais de 15 dias sem pedir licença à Assembleia.
Note-se que a lei não fala em ausência do cargo, mas de afastamento geográfico. Depreende-se, portanto, que se Afif voltar a São Paulo toda semana, como fazem outros ministros em relação aos respectivos estados, não haverá impedimento. Mas, se quiser ficar direto na capital, terá de pedir licença. Periodicamente renovável? A legislação não entra no detalhe.
Outro aspecto da questão: e se Alckmin por algum motivo precisar ficar fora do governo por, digamos, um mês; Afif passará 30 dias fora do país? Não se sabe.
Mas, para o caso de um afastamento mais prolongado já há uma solução discutida e decidida nas internas do PSD. Se por hipótese remota Alckmin concorrer a outro cargo que não à reeleição (presidente ou senador), terá de se afastar seis meses antes da eleição. Se ocorrer isso, Guilherme Afif deixa o ministério e assume o governo de São Paulo para completar o mandato.
Pragmático e, sobretudo, um retrato pronto e acabado da anarquia reinante na política brasileira. Repetindo: ministro em governo do PT, Afif é vice em governo do PSDB e filiado ao PSD.
Partido cujo presidente, Gilberto Kassab, é desafeto forte – para não dizer inimigo – de Geraldo Alckmin. A relação já não era boa desde que Alckmin resolveu enfrentar (e perdeu) Kassab na eleição municipal de 2008.
Dois anos depois o tucano se elegeu governador em aliança com o DEM. Quando Afif se transferiu para o PSD, foi demitido da Secretaria do Emprego, ficando reduzido à condição decorativa de vice.
Kassab entendeu o gesto como rompimento com certidão passada em cartório do céu e, desde então, a coisa desandou de vez. O ex-prefeito terá o maior prazer em ajudar o PT a criar dificuldade para a reeleição de Alckmin e não nega a intenção, justificando que a iniciativa da ruptura foi do governador.
De onde a ida de Afif para a equipe do primeiro escalão do governo federal o põe na inusitada condição de servidor de dois senhores em situação de divergência explícita sem que isso incomode a nenhum deles.
Onde mora o perigo - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 08/05
Dois aspectos levaram o governo a acender a luz amarela em relação ao PMDB. O primeiro é a certeza de que haverá dificuldades em votar hoje a Medida Provisória 595, aquela que institui o novo marco regulatório dos portos. A segunda são os palanques estaduais que o aliado prepara em vários estados. Em 16 unidades da federação, os peemedebistas estão praticamente decididos a lançar candidato próprio. E nesse rol, são poucos em que PMDB e PT estarão juntos. E, quando é assim, reza a lenda, alguém termina migrando para a oposição.
Um caso emblemático hoje nessa relação é a Bahia. Lá, os peemedebistas estão em conversas com o Democratas, partido do prefeito Antônio Carlos Magalhães Neto. Em Mato Grosso do Sul, os peemedebistas estiveram recentemente com Dilma Rousseff, mas os acordos eleitorais, por enquanto, se voltam para o PSDB e não para os petistas.
No Rio Grande do Sul, o vice-presidente da República, Michel Temer, bem que trabalhou uma aproximação da bancada com o Planalto, mesmo depois da saída de Mendes Ribeiro do Ministério da Agricultura. Mas, nem de longe, essa boa convivência federal servirá de trampolim para que os peemedebistas gaúchos mergulhem na campanha pela reeleição do governador do estado, Tarso Genro, do PT.
No Amazonas, não será surpresa se o atual líder do governo, Eduardo Braga, deixar o cargo para concorrer ao governo estadual, uma vez que sua mulher é a primeira suplente. Ou seja, além de um mandato de governador continuaria com o de senador. Tudo em família. Em Pernambuco, além de Jarbas Vasconcelos apoiar o governador Eduardo Campos, os peemedebistas acenam com um candidato próprio ao governo estadual. Também bem longe do PT.
Hoje, o único peemedebista mais alinhado com o Planalto no estado é o prefeito de Petrolina, Júlio Lóssio. Ele não se cansa de repetir que é um "soldado do partido". Leia-se, pronto para concorrer ao governo do estado, se Michel Temer assim quiser. "Sou eleitor de Michel", diz ele, que ontem esteve em Brasília junto com o presidente do PMDB pernambucano, Dorani Sampaio, justamente para levar essa mensagem de que deseja concorrer.
De um modo geral, tudo o que une PT e PMDB no plano federal, dificilmente se repetirá nos estados no ano que vem. E, cientes dissos, os peemedebistas preparam seu jogo para tentar angariar mais algum espaço de poder. Daí as desconfianças do Planalto de que os interesses em derrotar o governo na MP dos Portos vai além das questões de mérito, conforme dissemos aqui em várias oportunidades.
Ontem, por exemplo, a presidente Dilma Rousseff bem que tentou reunir líderes para conversar sobra a MP dos Portos. Ao serem informados, entretanto, de que ela não iria ceder a todos os pontos que eles desejavam no mérito, fizeram chegar a ela que melhor seria não haver uma reunião. Afinal, reunião com presidente da República geralmente é para decidir e não ficar negociando um pontinho aqui, outro ali, sem uma definição clara do que é possível ceder.
Enquanto isso, no plenário...
A sensação que se tem quando se conversa com os políticos é a de que as dificuldades permanecerão até o momento em que a presidente abrir as nomeações de segundo escalão aos partidos da base aliada. Esses cargos são, atualmente, ocupados em sua maioria por técnicos ligados ao PT, que servem mais ao partido e não costumam atender os aliados. Se continuar assim, na hora da eleição, todos esses candidatos peemedebistas listados acima ficarão a ver navios, enquanto os petistas terão acesso direto aos interessados em financiar aqueles que detêm o poder. É isso o que mais "pega" hoje na relação entre os dois principais partidos da base com o Planalto. Há uma forte sensação no ar de que o governo joga apenas para o seu partido. Da parte de Dilma, entretanto, a visão é inversa. Há a clara sensação de que, se eles quisessem mesmo participar do governo e fossem parceiros de fato, não derrotariam seus projetos nem criariam tantas dificuldades.
Pelo visto, o que falta mesmo entre esses personagens é um diálogo franco. Ficam nos meandros da política e, na hora dos "vamos ver", ou seja, nas votações, vêm os desentendimentos e as brigas. Hoje, no plenário da Câmara, não será diferente. Pode apostar.
Um caso emblemático hoje nessa relação é a Bahia. Lá, os peemedebistas estão em conversas com o Democratas, partido do prefeito Antônio Carlos Magalhães Neto. Em Mato Grosso do Sul, os peemedebistas estiveram recentemente com Dilma Rousseff, mas os acordos eleitorais, por enquanto, se voltam para o PSDB e não para os petistas.
No Rio Grande do Sul, o vice-presidente da República, Michel Temer, bem que trabalhou uma aproximação da bancada com o Planalto, mesmo depois da saída de Mendes Ribeiro do Ministério da Agricultura. Mas, nem de longe, essa boa convivência federal servirá de trampolim para que os peemedebistas gaúchos mergulhem na campanha pela reeleição do governador do estado, Tarso Genro, do PT.
No Amazonas, não será surpresa se o atual líder do governo, Eduardo Braga, deixar o cargo para concorrer ao governo estadual, uma vez que sua mulher é a primeira suplente. Ou seja, além de um mandato de governador continuaria com o de senador. Tudo em família. Em Pernambuco, além de Jarbas Vasconcelos apoiar o governador Eduardo Campos, os peemedebistas acenam com um candidato próprio ao governo estadual. Também bem longe do PT.
Hoje, o único peemedebista mais alinhado com o Planalto no estado é o prefeito de Petrolina, Júlio Lóssio. Ele não se cansa de repetir que é um "soldado do partido". Leia-se, pronto para concorrer ao governo do estado, se Michel Temer assim quiser. "Sou eleitor de Michel", diz ele, que ontem esteve em Brasília junto com o presidente do PMDB pernambucano, Dorani Sampaio, justamente para levar essa mensagem de que deseja concorrer.
De um modo geral, tudo o que une PT e PMDB no plano federal, dificilmente se repetirá nos estados no ano que vem. E, cientes dissos, os peemedebistas preparam seu jogo para tentar angariar mais algum espaço de poder. Daí as desconfianças do Planalto de que os interesses em derrotar o governo na MP dos Portos vai além das questões de mérito, conforme dissemos aqui em várias oportunidades.
Ontem, por exemplo, a presidente Dilma Rousseff bem que tentou reunir líderes para conversar sobra a MP dos Portos. Ao serem informados, entretanto, de que ela não iria ceder a todos os pontos que eles desejavam no mérito, fizeram chegar a ela que melhor seria não haver uma reunião. Afinal, reunião com presidente da República geralmente é para decidir e não ficar negociando um pontinho aqui, outro ali, sem uma definição clara do que é possível ceder.
Enquanto isso, no plenário...
A sensação que se tem quando se conversa com os políticos é a de que as dificuldades permanecerão até o momento em que a presidente abrir as nomeações de segundo escalão aos partidos da base aliada. Esses cargos são, atualmente, ocupados em sua maioria por técnicos ligados ao PT, que servem mais ao partido e não costumam atender os aliados. Se continuar assim, na hora da eleição, todos esses candidatos peemedebistas listados acima ficarão a ver navios, enquanto os petistas terão acesso direto aos interessados em financiar aqueles que detêm o poder. É isso o que mais "pega" hoje na relação entre os dois principais partidos da base com o Planalto. Há uma forte sensação no ar de que o governo joga apenas para o seu partido. Da parte de Dilma, entretanto, a visão é inversa. Há a clara sensação de que, se eles quisessem mesmo participar do governo e fossem parceiros de fato, não derrotariam seus projetos nem criariam tantas dificuldades.
Pelo visto, o que falta mesmo entre esses personagens é um diálogo franco. Ficam nos meandros da política e, na hora dos "vamos ver", ou seja, nas votações, vêm os desentendimentos e as brigas. Hoje, no plenário da Câmara, não será diferente. Pode apostar.
A nova Arena - FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 08/05
BRASÍLIA - A política guarda alguma semelhança com a máxima segundo a qual na natureza nada se perde, tudo se transforma.
O ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva parece preocupado. Num livro recém-lançado, ele faz uma recomendação ao seu partido: "O PT precisa voltar a acreditar em valores que a gente acreditava e que foram banalizados por conta da disputa eleitoral".
O que tem feito o PT nos últimos anos? Aproxima-se cada vez mais de quem um dia abjurou. Em 2012, Lula foi até a mansão de Paulo Maluf. Deixou-se fotografar alegre abraçando o antigo adversário. Ao lado, a tiracolo, Fernando Haddad --então candidato e depois vitorioso na disputa pela Prefeitura de São Paulo.
Amanhã, Dilma dará posse ao seu 39º ministro, Guilherme Afif Domingos, na Secretaria da Micro e Pequena Empresa. Nesse caso, o próprio Afif tem uma coleção de frases ácidas contra Lula, Dilma e o PT. Mas será agora recebido no aconchego do petismo de raiz.
É compreensível a atitude do PT. Depois de perder três eleições presidenciais seguidas, o partido e Lula perceberam que só havia um caminho para o sucesso dentro do modelo brasileiro de democracia representativa. Teriam de fazer alianças com o "establishment" mais conservador, do centro para a direita, sob pena de nunca chegar ao poder. E assim foi.
Em 2003, Lula se aliou ao antigo PL (hoje PR), do deputado federal Valdemar Costa Neto, condenado no julgamento do mensalão exatamente por causa de um acerto à época em que o PT chegou ao Palácio do Planalto.
Não custa dizer que o PMDB (quando foi poderoso) e o PSDB (ao ficar oito anos no comando do país) também seguiram a mesma cartilha agora adotada "con gusto" pelo PT. O processo de assemelhação é cada vez mais evidente na política brasileira. Tudo vai se transformando, quem diria, numa grande Arena.
BRASÍLIA - A política guarda alguma semelhança com a máxima segundo a qual na natureza nada se perde, tudo se transforma.
O ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva parece preocupado. Num livro recém-lançado, ele faz uma recomendação ao seu partido: "O PT precisa voltar a acreditar em valores que a gente acreditava e que foram banalizados por conta da disputa eleitoral".
O que tem feito o PT nos últimos anos? Aproxima-se cada vez mais de quem um dia abjurou. Em 2012, Lula foi até a mansão de Paulo Maluf. Deixou-se fotografar alegre abraçando o antigo adversário. Ao lado, a tiracolo, Fernando Haddad --então candidato e depois vitorioso na disputa pela Prefeitura de São Paulo.
Amanhã, Dilma dará posse ao seu 39º ministro, Guilherme Afif Domingos, na Secretaria da Micro e Pequena Empresa. Nesse caso, o próprio Afif tem uma coleção de frases ácidas contra Lula, Dilma e o PT. Mas será agora recebido no aconchego do petismo de raiz.
É compreensível a atitude do PT. Depois de perder três eleições presidenciais seguidas, o partido e Lula perceberam que só havia um caminho para o sucesso dentro do modelo brasileiro de democracia representativa. Teriam de fazer alianças com o "establishment" mais conservador, do centro para a direita, sob pena de nunca chegar ao poder. E assim foi.
Em 2003, Lula se aliou ao antigo PL (hoje PR), do deputado federal Valdemar Costa Neto, condenado no julgamento do mensalão exatamente por causa de um acerto à época em que o PT chegou ao Palácio do Planalto.
Não custa dizer que o PMDB (quando foi poderoso) e o PSDB (ao ficar oito anos no comando do país) também seguiram a mesma cartilha agora adotada "con gusto" pelo PT. O processo de assemelhação é cada vez mais evidente na política brasileira. Tudo vai se transformando, quem diria, numa grande Arena.
De R.Quintela@edu para Juiz.Breda@jus - ELIO GASPARI
O GLOBO - 08/05
Meritissimo juiz Maurício Breda, da 8ª Vara Criminal de Alagoas, O senhor preside o juri dos quatro policiais acusados de terem facilitado o assassinato de Paulo Cesar Farias, protomartir do mensalão, dono do Brasil durante o governo de Fernando Collor de Mello. Ele foi uma fusão de José Dirceu, Delubio Soares e Marcos Valério. Em 1996, encontraram-no na cama de sua casa de praia com um tiro no pulmão, ao lado da namorada, que tinha uma bala no peito.
Eu fui um tira brabo. Aos nove anos, fui para a rua ver a cabeça do Lampião, que estava numa lata de querosene. Anos depois, casei-me com a filha do Lucena Maranhão, comandante da tropa que caçou o bando. Tive mais tempo de polícia do que o senhor de vida. Fui secretário de Segurança e de Justiça de Alagoas e morri aos 82 anos, no ano passado. Tudo o que eu tinha era a casa onde vivia e o túmulo para onde fui. Os bandidos me odeiam. São uns bobos, porque eu os odiei mais. Corria que eu mandava matar latrocidas e estupradores. Quando me perguntaram se era verdade, respondi: "Não gosto dessa gente". O doutor Joaquim Barbosa tem razão, a justiça dos ricos é outra. Em Alagoas o filho de um governador deu um tiro num PM e acabou solto. Depois matou um vigilante e foi absolvido.
Escrevo-lhe para dar um testemunho sem valor para os autos. Faço-o agora porque, estando aqui, desobriguei-me do compromisso que me foi imposto no dia da descoberta do crime, quando recebí um recado do governador, mandando que não desse entrevistas. Ademais, conversei há pouco com o PC Farias e a Suzana. Eles me contaram o que houve, mas o senhor sabe que estou preso a outro sigilo.
Doutor Breda, naquele dia eu estava numa festa de aniversário e me chamaram ao local do crime. O PC estava descoberto, com um braço para fora da cama. A Suzana estava encolhida. Quando retiraram os cadaveres ele estava rígido, ela não. A versão divulgada deu conta de que ela o matou e depois suicidou-se. Para que houvesse essa diferença na rigidez a diferença entre as duas mortes seria de pelo menos uma hora. Como PC não foi atingido no sistema nervoso central, deveria ter se movido. O colchão onde estavam foi queimado horas depois. Por quê?
Pois bem, com o que vi, recomendei que chamassem peritos de fora, pois a polícia alagoana não tinha qualificação para um caso desse tipo. Por exemplo: não tinhamos microscópio comparador para analisar as balas. Quando saí da casa disse isso à imprensa.
A autoridade competente ouviu-me, afastou-se e foi conversar com a família de PC. Voltou avisando que os novos peritos não seriam necessários. Pouco depois, veio o recado do governador, mandando que eu calasse a boca. Calei-me. Só usei a palavra "armação" numa conversa posterior, em confiança.
Seus réus são do juri, mas eles sabem o que houve naquela manhã.
Perdoe-me a interferência inútil, coisa de velho meganha. Despeço-me respeitosamente porque vou almoçar com o cangaceiro Corisco e Carlos Lamarca. Eles ficaram amigos depois que eu lhes contei que morreram na mesma região, na caatinga baiana.
Respeitosamente,
Rubens Quintela
Meritissimo juiz Maurício Breda, da 8ª Vara Criminal de Alagoas, O senhor preside o juri dos quatro policiais acusados de terem facilitado o assassinato de Paulo Cesar Farias, protomartir do mensalão, dono do Brasil durante o governo de Fernando Collor de Mello. Ele foi uma fusão de José Dirceu, Delubio Soares e Marcos Valério. Em 1996, encontraram-no na cama de sua casa de praia com um tiro no pulmão, ao lado da namorada, que tinha uma bala no peito.
Eu fui um tira brabo. Aos nove anos, fui para a rua ver a cabeça do Lampião, que estava numa lata de querosene. Anos depois, casei-me com a filha do Lucena Maranhão, comandante da tropa que caçou o bando. Tive mais tempo de polícia do que o senhor de vida. Fui secretário de Segurança e de Justiça de Alagoas e morri aos 82 anos, no ano passado. Tudo o que eu tinha era a casa onde vivia e o túmulo para onde fui. Os bandidos me odeiam. São uns bobos, porque eu os odiei mais. Corria que eu mandava matar latrocidas e estupradores. Quando me perguntaram se era verdade, respondi: "Não gosto dessa gente". O doutor Joaquim Barbosa tem razão, a justiça dos ricos é outra. Em Alagoas o filho de um governador deu um tiro num PM e acabou solto. Depois matou um vigilante e foi absolvido.
Escrevo-lhe para dar um testemunho sem valor para os autos. Faço-o agora porque, estando aqui, desobriguei-me do compromisso que me foi imposto no dia da descoberta do crime, quando recebí um recado do governador, mandando que não desse entrevistas. Ademais, conversei há pouco com o PC Farias e a Suzana. Eles me contaram o que houve, mas o senhor sabe que estou preso a outro sigilo.
Doutor Breda, naquele dia eu estava numa festa de aniversário e me chamaram ao local do crime. O PC estava descoberto, com um braço para fora da cama. A Suzana estava encolhida. Quando retiraram os cadaveres ele estava rígido, ela não. A versão divulgada deu conta de que ela o matou e depois suicidou-se. Para que houvesse essa diferença na rigidez a diferença entre as duas mortes seria de pelo menos uma hora. Como PC não foi atingido no sistema nervoso central, deveria ter se movido. O colchão onde estavam foi queimado horas depois. Por quê?
Pois bem, com o que vi, recomendei que chamassem peritos de fora, pois a polícia alagoana não tinha qualificação para um caso desse tipo. Por exemplo: não tinhamos microscópio comparador para analisar as balas. Quando saí da casa disse isso à imprensa.
A autoridade competente ouviu-me, afastou-se e foi conversar com a família de PC. Voltou avisando que os novos peritos não seriam necessários. Pouco depois, veio o recado do governador, mandando que eu calasse a boca. Calei-me. Só usei a palavra "armação" numa conversa posterior, em confiança.
Seus réus são do juri, mas eles sabem o que houve naquela manhã.
Perdoe-me a interferência inútil, coisa de velho meganha. Despeço-me respeitosamente porque vou almoçar com o cangaceiro Corisco e Carlos Lamarca. Eles ficaram amigos depois que eu lhes contei que morreram na mesma região, na caatinga baiana.
Respeitosamente,
Rubens Quintela
Temores em torno do déficit comercial - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 08/05
A ‘crise mundial’ leva a culpa por dificuldades criadas por uma infraestrutura superada, distorções tributárias e aumentos salariais acima da produtividade
Ser governante é se tornar um militante do otimismo. Haja o que houver. Como, agora, diante dos déficits na balança comercial, algo que há muito tempo não ocorria com o Brasil.
O resultado negativo de abril, de US$ 994 milhões, foi o pior da história neste mês, sendo que, em março, fora contabilizado um superávit de US$ 161 milhões. Mas, nos primeiros quatro meses do ano, o saldo está no vermelho em US$ 6,15 bilhões, quando, no mesmo período de 2012, havia sido alcançado um superávit de US$ 3,29 bilhões. A troca de sinal da balança de comércio externo parece avassaladora, mesmo que o déficit tenha encolhido para US$ 5,7 bilhões, considerada a primeira semana de maio.
Coerente com sua função de presidente, Dilma Rousseff minimiza a safra de maus resultados comerciais — “só oscilações”. Mais uma vez uma autoridade voltou a se referir à crise mundial, explicação clássica de governos para todos os males internos.
Melhor que assim seja, pois, se a acumulação de déficits pode equacionar questões referentes ao câmbio, ele tem o poder de projetar preocupantes incertezas à frente, caso os saldos negativos se devam a problemas graves internos. E caso o comércio exterior brasileiro tenha de fato “virado o fio” por sérias fragilidades da própria economia, nem as reservas de US$ 378 bilhões poderiam garantir tranquilidade absoluta.
A causa da perda de dinamismo do comércio exterior do país não é a agroindústria. Esta continua dinâmica. O desafio às autoridades é o setor industrial. Dados publicados pelo GLOBO, segunda, sobre o saldo de trocas comerciais de diversos setores são dramáticos: há déficits que, nos últimos sete anos, deram saltos astronômicos. O do segmento de têxteis e confecções aumentou 1.834%, de US$ 275 milhões para US$ 5,3 bilhões; em produtos químicos, de US$ 8,5 bilhões para US$ 28 bilhões, mais 229%. Em eletroeletrônicos, outra enormidade: um crescimento de 200%: de US$ 10 bilhões para US$ 30 bilhões.
Toda a indústria, de 2006 ao ano passado, deve ter gerado um déficit mastodôntico de US$ 100 bilhões. Os produtos primários (alimentos e minérios) vinham mais que compensando a sangria. Mas como nem mesmo o petróleo — em que a comemorada autossuficiência não aconteceu — ajuda, abriu-se um ciclo de déficits.
Na radiografia da atividade identificam-se, como dificuldades, aumentos salariais acima da produtividade — esta, em baixa —, além dos já clássicos gargalos de infraestrutura, e ainda empecilhos tributários — apesar de desonerações. Há, também, a sabida falta de mão de obra qualificada. Assim, mesmo que haja uma recuperação mundial, há um razoável entulho interno a ser removido, para a indústria recuperar competitividade. Neste caso, deverá ser lenta a volta dos superávits em níveis tranquilizadores. O Brasil sabe da dureza de uma crise cambial e seus subprodutos (inflação, desemprego).
A ‘crise mundial’ leva a culpa por dificuldades criadas por uma infraestrutura superada, distorções tributárias e aumentos salariais acima da produtividade
Ser governante é se tornar um militante do otimismo. Haja o que houver. Como, agora, diante dos déficits na balança comercial, algo que há muito tempo não ocorria com o Brasil.
O resultado negativo de abril, de US$ 994 milhões, foi o pior da história neste mês, sendo que, em março, fora contabilizado um superávit de US$ 161 milhões. Mas, nos primeiros quatro meses do ano, o saldo está no vermelho em US$ 6,15 bilhões, quando, no mesmo período de 2012, havia sido alcançado um superávit de US$ 3,29 bilhões. A troca de sinal da balança de comércio externo parece avassaladora, mesmo que o déficit tenha encolhido para US$ 5,7 bilhões, considerada a primeira semana de maio.
Coerente com sua função de presidente, Dilma Rousseff minimiza a safra de maus resultados comerciais — “só oscilações”. Mais uma vez uma autoridade voltou a se referir à crise mundial, explicação clássica de governos para todos os males internos.
Melhor que assim seja, pois, se a acumulação de déficits pode equacionar questões referentes ao câmbio, ele tem o poder de projetar preocupantes incertezas à frente, caso os saldos negativos se devam a problemas graves internos. E caso o comércio exterior brasileiro tenha de fato “virado o fio” por sérias fragilidades da própria economia, nem as reservas de US$ 378 bilhões poderiam garantir tranquilidade absoluta.
A causa da perda de dinamismo do comércio exterior do país não é a agroindústria. Esta continua dinâmica. O desafio às autoridades é o setor industrial. Dados publicados pelo GLOBO, segunda, sobre o saldo de trocas comerciais de diversos setores são dramáticos: há déficits que, nos últimos sete anos, deram saltos astronômicos. O do segmento de têxteis e confecções aumentou 1.834%, de US$ 275 milhões para US$ 5,3 bilhões; em produtos químicos, de US$ 8,5 bilhões para US$ 28 bilhões, mais 229%. Em eletroeletrônicos, outra enormidade: um crescimento de 200%: de US$ 10 bilhões para US$ 30 bilhões.
Toda a indústria, de 2006 ao ano passado, deve ter gerado um déficit mastodôntico de US$ 100 bilhões. Os produtos primários (alimentos e minérios) vinham mais que compensando a sangria. Mas como nem mesmo o petróleo — em que a comemorada autossuficiência não aconteceu — ajuda, abriu-se um ciclo de déficits.
Na radiografia da atividade identificam-se, como dificuldades, aumentos salariais acima da produtividade — esta, em baixa —, além dos já clássicos gargalos de infraestrutura, e ainda empecilhos tributários — apesar de desonerações. Há, também, a sabida falta de mão de obra qualificada. Assim, mesmo que haja uma recuperação mundial, há um razoável entulho interno a ser removido, para a indústria recuperar competitividade. Neste caso, deverá ser lenta a volta dos superávits em níveis tranquilizadores. O Brasil sabe da dureza de uma crise cambial e seus subprodutos (inflação, desemprego).
A engenharia do poder - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 08/05
É lamentável que a bandeira da micro e pequena empresa possa se prestar para interesses políticos tão descarados.
A confirmação do empresário Guilherme Afif Domingos como titular do 39º ministério do governo Dilma Rousseff _ a Secretaria da Micro e Pequena Empresa _ tem um efeito prático que vai além do inchaço do primeiro escalão, pois contribui também para confundir os brasileiros com a aproximação escancaradamente interesseira entre siglas políticas de visões antagônicas. A causa dos empreendedores é nobre e o indicado para o cargo tornou-se conhecido como um de seus maiores defensores. Ainda assim, o novo ministério poderia ter suas atribuições assumidas perfeitamente pelo do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. E o indicado chama a atenção não apenas por integrar um governo de oposição ao federal como também por estar na iminência de acumular dois cargos públicos, o que contraria até mesmo a legislação. O movimento, somado ao retorno de lideranças partidárias afastadas do governo por suspeitas de irregularidades, aponta para uma recaída da administração petista na flexibilidade ética geradora de danos ao país, como o mensalão.
Ainda que as justificativas oficiais procurem reforçar a intenção de apoiar as empresas de menor porte, os reais interesses são bem diversos. Na prática, ao cooptar um aliado do PSDB, que entrou para a política pelas mãos de Paulo Maluf e passou por administrações federais de diferentes matizes até ser eleito vice-governador de São Paulo e conquistar o posto atual, o governo federal mira acima de tudo a disputa eleitoral de 2014. O interesse é assegurar o tempo de televisão ao qual o PSD do novo aliado Gilberto Kassab dispõe para propaganda eleitoral, de um minuto e 39 segundos. Entre as intenções, pesa ainda a particularidade de a aliança reforçar o apoio ao governo federal, com os votos de 48 deputados em exercício e dois senadores.
Sob a ótica do governo federal, o PSD é visto também como essencial para uma aproximação com a classe média, de grande influência em qualquer eleição presidencial. E o próprio partido, obviamente, tem seus interesses específicos, a ponto de o indicado não hesitar em acumular o novo cargo, mesmo sob a ameaça de sofrer até mesmo um processo de impeachment na Assembleia de São Paulo, o que parece fazer todo o sentido.
É lamentável que a bandeira da micro e pequena empresa possa se prestar para interesses políticos tão descarados. Uma das características dos empreendedores é justamente gerar o máximo de emprego e renda com o mínimo de recursos. É uma situação inversa da prevista agora, já que o primeiro impacto da nova secretaria com status de ministério será a exigência de contratação de servidores, com a consequente ampliação dos gastos.
É lamentável que a bandeira da micro e pequena empresa possa se prestar para interesses políticos tão descarados.
A confirmação do empresário Guilherme Afif Domingos como titular do 39º ministério do governo Dilma Rousseff _ a Secretaria da Micro e Pequena Empresa _ tem um efeito prático que vai além do inchaço do primeiro escalão, pois contribui também para confundir os brasileiros com a aproximação escancaradamente interesseira entre siglas políticas de visões antagônicas. A causa dos empreendedores é nobre e o indicado para o cargo tornou-se conhecido como um de seus maiores defensores. Ainda assim, o novo ministério poderia ter suas atribuições assumidas perfeitamente pelo do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. E o indicado chama a atenção não apenas por integrar um governo de oposição ao federal como também por estar na iminência de acumular dois cargos públicos, o que contraria até mesmo a legislação. O movimento, somado ao retorno de lideranças partidárias afastadas do governo por suspeitas de irregularidades, aponta para uma recaída da administração petista na flexibilidade ética geradora de danos ao país, como o mensalão.
Ainda que as justificativas oficiais procurem reforçar a intenção de apoiar as empresas de menor porte, os reais interesses são bem diversos. Na prática, ao cooptar um aliado do PSDB, que entrou para a política pelas mãos de Paulo Maluf e passou por administrações federais de diferentes matizes até ser eleito vice-governador de São Paulo e conquistar o posto atual, o governo federal mira acima de tudo a disputa eleitoral de 2014. O interesse é assegurar o tempo de televisão ao qual o PSD do novo aliado Gilberto Kassab dispõe para propaganda eleitoral, de um minuto e 39 segundos. Entre as intenções, pesa ainda a particularidade de a aliança reforçar o apoio ao governo federal, com os votos de 48 deputados em exercício e dois senadores.
Sob a ótica do governo federal, o PSD é visto também como essencial para uma aproximação com a classe média, de grande influência em qualquer eleição presidencial. E o próprio partido, obviamente, tem seus interesses específicos, a ponto de o indicado não hesitar em acumular o novo cargo, mesmo sob a ameaça de sofrer até mesmo um processo de impeachment na Assembleia de São Paulo, o que parece fazer todo o sentido.
É lamentável que a bandeira da micro e pequena empresa possa se prestar para interesses políticos tão descarados. Uma das características dos empreendedores é justamente gerar o máximo de emprego e renda com o mínimo de recursos. É uma situação inversa da prevista agora, já que o primeiro impacto da nova secretaria com status de ministério será a exigência de contratação de servidores, com a consequente ampliação dos gastos.
Quem quer ser professor? - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 08/05
O governo federal alardeia que ser professor é exercer "a profissão que pode mudar o País", mas o que se comprova é que se trata de uma carreira que vem perdendo prestígio e pela qual há cada vez menos interessados.
O problema é especialmente grave no ensino de ciências exatas, essencial para o crescimento de qualquer país. Embora não se trate de algo novo, o fenômeno tem se acentuado nos últimos tempos, e há novos levantamentos mensurando o grande desinteresse dos jovens pelo desafio de ensinar e, dessa forma, "construir um Brasil mais desenvolvido", como diz a propaganda oficial destinada a atrair mão de obra para as salas de aula.
Uma pesquisa recente feita com ingressantes nos cursos de licenciatura em matemática e física na Universidade de São Paulo (USP) mostra que cerca de 50% deles não estão muito dispostos a dar aula nas respectivas áreas. O resultado é particularmente importante quando se leva em conta o fato óbvio de que os cursos de licenciatura são justamente aqueles que formam professores para o ensino fundamental e o médio.
A pesquisa constatou que a maioria dos ingressantes nesses cursos de licenciatura optou por eles porque a exigência do vestibular era bem menor, porque o curso é gratuito, porque têm afinidade com matemática ou física e porque abrem caminho para a pós-graduação. O levantamento mostra ainda que os ingressantes em licenciatura se enquadram num perfil socioeconômico mais baixo do que o dos demais cursos na USP, situação que, de acordo com o estudo, se repete em cursos semelhantes em outras partes do Brasil. É, portanto, uma porta de acesso ao ensino superior para as faixas mais pobres da população.
Os estudantes que se disseram em dúvida sobre abraçar a carreira de professor destacaram que podem se sentir estimulados se a escola for "reconhecida por ter um bom trabalho educacional" ou se tiver "autonomia para elaborar projetos educativos, ensinando com certa liberdade". As respostas denotam idealismo dos entrevistados, mas, na prática, impõem condições que hoje não são atendidas na rede pública de ensino, mas apenas nas escolas particulares.
O sistema educacional público no Brasil padece de um erro de enfoque: privilegiam-se os controles de desempenho dos professores - inclusive com a distribuição de prêmios em dinheiro - sem, no entanto, valorizar a carreira em si. Os salários são considerados baixos em vista da importância da profissão. Pretende-se exigir dos professores que sejam conscientes de sua importância social, mas o magro contracheque diz outra coisa.
Além disso, a precariedade das instalações da maioria das escolas públicas evidencia o descaso do Estado com os profissionais de educação, obrigados a lidar com a crônica falta de material e de equipamentos para enfrentar o desafio diário de estimular seus alunos a aprender.
Outro aspecto que foi levantado pelos entrevistados na pesquisa diz respeito ao desprestígio da profissão de professor na educação básica. Estudantes de medicina ouvidos pelos pesquisadores disseram que não se tornariam professores porque, entre outros motivos, a remuneração é baixa, a possibilidade de ascensão profissional é mínima e as condições das escolas são ruins. No entanto, esse mesmo grupo de entrevistados, assim como os demais, enfatizou que considera o professor muito relevante para o País, por ser o responsável pela transmissão de valores e conhecimentos.
Há, portanto, um abismo entre o ideal de uma carreira e sua realidade, demonstrado cabalmente pelo desinteresse dos estudantes de licenciatura. Assim, o déficit de professores de matemática, física e química, que já é de 170 mil, tende a crescer.
O resultado disso é que o desempenho dos alunos da rede pública em ciências exatas, que já é um dos mais fracos do mundo, tem tudo para piorar -a não ser que o governo aja radicalmente e, sem mais delongas, restitua ao magistério o orgulho profissional.
O problema é especialmente grave no ensino de ciências exatas, essencial para o crescimento de qualquer país. Embora não se trate de algo novo, o fenômeno tem se acentuado nos últimos tempos, e há novos levantamentos mensurando o grande desinteresse dos jovens pelo desafio de ensinar e, dessa forma, "construir um Brasil mais desenvolvido", como diz a propaganda oficial destinada a atrair mão de obra para as salas de aula.
Uma pesquisa recente feita com ingressantes nos cursos de licenciatura em matemática e física na Universidade de São Paulo (USP) mostra que cerca de 50% deles não estão muito dispostos a dar aula nas respectivas áreas. O resultado é particularmente importante quando se leva em conta o fato óbvio de que os cursos de licenciatura são justamente aqueles que formam professores para o ensino fundamental e o médio.
A pesquisa constatou que a maioria dos ingressantes nesses cursos de licenciatura optou por eles porque a exigência do vestibular era bem menor, porque o curso é gratuito, porque têm afinidade com matemática ou física e porque abrem caminho para a pós-graduação. O levantamento mostra ainda que os ingressantes em licenciatura se enquadram num perfil socioeconômico mais baixo do que o dos demais cursos na USP, situação que, de acordo com o estudo, se repete em cursos semelhantes em outras partes do Brasil. É, portanto, uma porta de acesso ao ensino superior para as faixas mais pobres da população.
Os estudantes que se disseram em dúvida sobre abraçar a carreira de professor destacaram que podem se sentir estimulados se a escola for "reconhecida por ter um bom trabalho educacional" ou se tiver "autonomia para elaborar projetos educativos, ensinando com certa liberdade". As respostas denotam idealismo dos entrevistados, mas, na prática, impõem condições que hoje não são atendidas na rede pública de ensino, mas apenas nas escolas particulares.
O sistema educacional público no Brasil padece de um erro de enfoque: privilegiam-se os controles de desempenho dos professores - inclusive com a distribuição de prêmios em dinheiro - sem, no entanto, valorizar a carreira em si. Os salários são considerados baixos em vista da importância da profissão. Pretende-se exigir dos professores que sejam conscientes de sua importância social, mas o magro contracheque diz outra coisa.
Além disso, a precariedade das instalações da maioria das escolas públicas evidencia o descaso do Estado com os profissionais de educação, obrigados a lidar com a crônica falta de material e de equipamentos para enfrentar o desafio diário de estimular seus alunos a aprender.
Outro aspecto que foi levantado pelos entrevistados na pesquisa diz respeito ao desprestígio da profissão de professor na educação básica. Estudantes de medicina ouvidos pelos pesquisadores disseram que não se tornariam professores porque, entre outros motivos, a remuneração é baixa, a possibilidade de ascensão profissional é mínima e as condições das escolas são ruins. No entanto, esse mesmo grupo de entrevistados, assim como os demais, enfatizou que considera o professor muito relevante para o País, por ser o responsável pela transmissão de valores e conhecimentos.
Há, portanto, um abismo entre o ideal de uma carreira e sua realidade, demonstrado cabalmente pelo desinteresse dos estudantes de licenciatura. Assim, o déficit de professores de matemática, física e química, que já é de 170 mil, tende a crescer.
O resultado disso é que o desempenho dos alunos da rede pública em ciências exatas, que já é um dos mais fracos do mundo, tem tudo para piorar -a não ser que o governo aja radicalmente e, sem mais delongas, restitua ao magistério o orgulho profissional.
Senado além da conta - EDITORIAL - FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 08/05
Na era dos computadores portáteis, celulares inteligentes e terminais de autosserviço, ficou ainda mais fácil efetuar o registro de passageiro antes de embarcar num avião. Bastam poucos cliques para confirmar uma viagem, e isso até pode ser feito com alguns dias de antecedência.
Os senadores brasileiros, no entanto, julgam necessário manter no aeroporto de Brasília nove servidores de prontidão. São os "funcionários do setor de serviços aeroportuários". Ou, em linguagem mais direta, auxiliares de check-in.
A função deles é simples: trata-se de ajudar os senadores a fazer o embarque e despachar as malas. Para isso, esses auxiliares recebem uma remuneração líquida entre R$ 14 mil e R$ 20 mil. Não é demais lembrar que esses recursos saem do bolso do contribuinte.
A lista de mordomias aeroportuárias não se esgota nesse absurdo. Senadores contam com sala especial para aguardar o embarque e têm direito a cinco passagens aéreas mensais de ida e volta para seu Estado. Coroa esses gastos despropositados o serviço de "apoio operacional" no Rio de Janeiro, resquício de quando a cidade era a capital federal.
Vê-se que não vai longe a propalada disposição de Renan Calheiros (PMDB-AL) para reduzir as despesas da Casa. Eleito presidente do Senado sob protesto da opinião pública, ele anunciou cortes anuais de R$ 262 milhões (num orçamento de R$ 3,4 bilhões). Mas a tesoura preservou os congressistas.
Por exemplo: foi extinto o atendimento ambulatorial gratuito para servidores; senadores, porém, mantiveram o reembolso ilimitado de gastos médicos (extensivo a cônjuges e dependentes até 21 anos).
Isso para nada dizer da equipe de 32 pessoas que zelam pelas residências oficiais dos senadores --como se marcenaria e instalações sanitárias, entre outros serviços, fossem um problema de Estado.
Além da remuneração de R$ 26,7 mil, cada senador ainda dispõe de quase R$ 170 mil mensais para contratar até 55 auxiliares de gabinete.
Nessa atmosfera de descaso com a coisa pública, não é à toa que Renan Calheiros se permite pagar R$ 11,3 mil líquidos para ter um mordomo. Alguém precisa assumir a culpa por tamanha prodigalidade.
Na era dos computadores portáteis, celulares inteligentes e terminais de autosserviço, ficou ainda mais fácil efetuar o registro de passageiro antes de embarcar num avião. Bastam poucos cliques para confirmar uma viagem, e isso até pode ser feito com alguns dias de antecedência.
Os senadores brasileiros, no entanto, julgam necessário manter no aeroporto de Brasília nove servidores de prontidão. São os "funcionários do setor de serviços aeroportuários". Ou, em linguagem mais direta, auxiliares de check-in.
A função deles é simples: trata-se de ajudar os senadores a fazer o embarque e despachar as malas. Para isso, esses auxiliares recebem uma remuneração líquida entre R$ 14 mil e R$ 20 mil. Não é demais lembrar que esses recursos saem do bolso do contribuinte.
A lista de mordomias aeroportuárias não se esgota nesse absurdo. Senadores contam com sala especial para aguardar o embarque e têm direito a cinco passagens aéreas mensais de ida e volta para seu Estado. Coroa esses gastos despropositados o serviço de "apoio operacional" no Rio de Janeiro, resquício de quando a cidade era a capital federal.
Vê-se que não vai longe a propalada disposição de Renan Calheiros (PMDB-AL) para reduzir as despesas da Casa. Eleito presidente do Senado sob protesto da opinião pública, ele anunciou cortes anuais de R$ 262 milhões (num orçamento de R$ 3,4 bilhões). Mas a tesoura preservou os congressistas.
Por exemplo: foi extinto o atendimento ambulatorial gratuito para servidores; senadores, porém, mantiveram o reembolso ilimitado de gastos médicos (extensivo a cônjuges e dependentes até 21 anos).
Isso para nada dizer da equipe de 32 pessoas que zelam pelas residências oficiais dos senadores --como se marcenaria e instalações sanitárias, entre outros serviços, fossem um problema de Estado.
Além da remuneração de R$ 26,7 mil, cada senador ainda dispõe de quase R$ 170 mil mensais para contratar até 55 auxiliares de gabinete.
Nessa atmosfera de descaso com a coisa pública, não é à toa que Renan Calheiros se permite pagar R$ 11,3 mil líquidos para ter um mordomo. Alguém precisa assumir a culpa por tamanha prodigalidade.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Nossa disposição é reduzir o gigantismo do Senado”
Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, avisando que haverá mais cortes
AZEVÊDO FAZ HISTÓRIA E CONQUISTA DIREÇÃO DA OMC
A vitória do embaixador Roberto Azevêdo, na direção-geral da OMC, a Organização Mundial do Comércio, faz dele o brasileiro a conquistar o cargo mais importante em organismos internacionais na História. Dilma engajou o governo e ainda se empenhou, pedindo votos em conversas bilaterais, telefonemas e por escrito. A campanha foi coordenada por um craque, o embaixador Ruy Pereira, e contou com o arrebatamento de um time campeão: os embaixadores do Brasil mundo afora.
EMOÇÃO
Paulo Tarso Flecha de Lima, um dos maiores diplomatas do nosso tempo, embargou a voz ao felicitar Azevêdo: “É uma vitória histórica!”.
CASAL VITORIOSO
Lula também ligou para Azevêdo, destacando o papel, na vitória, de sua mulher Maria Nazareth Farani Azevêdo, embaixadora na ONU.
MEIO-CAMPO
A vitória na OMC fez Roberto Azevêdo esquecer, mas só por instantes, a derrota do seu Fluminense para o glorioso Botafogo, domingo.
TÃO LONGE
É carregada de significado a distância do ministro Antonio Patriota, que se manteve em Brasília, da eleição na OMC, em Genebra: 8.800 km.
CONGRESSO NÃO ACEITARÁ LIMINARES CONTRA PROJETOS
Os presidentes do Senado, Renan Calheiros (AL), da Câmara, Henrique Alves (RN), fingem botar água na fervura, mas não arredam pé: deixaram claro, ontem, ao ministro Gilmar Mendes (STF), que o Congresso não aceitará o “controle preventivo de constitucionalidade”. E aprovará emenda que veda a concessão de liminares suspendendo a tramitação de projetos, por ser interferência indevida no Legislativo.
EMBROMATION
Políticos hábeis, Renan e Henrique saíram da reunião reduzindo o tom e elogiando o STF e o ministro Gilmar Mendes, mas nada mudou.
O QUE FICA
O projeto amalucado do deputado idem Nazareno Fonteles (PT-PI) vai para o lixo, mas a proposta de Marco Maia (PT-RS) deve prosperar.
NOTORIEDADE
O ex-presidente da Câmara foi retirado do baixo clero para assumir como sua a emenda proibindo liminares contra tramitação de projetos.
PT PRESSIONOU RELATOR
Retirado da relatoria da PEC 33, que subjuga decisões do Supremo Tribunal Federal ao Congresso, o deputado Esperidião Amin (PP-SC) diz que foi pressionado pelo autor, o petista Nazareno Fonteles, para mudar o parecer contrário à proposta. Como se negou, foi afastado.
O ‘XERIFE’ NA PF
O contador Pedro Ricardo Araújo, que dirige a Polícia Legislativa do Senado, onde fez fama de “xerife”, vai depor na Polícia Federal, dia 15, em um velho inquérito sobre suposta arapongagem em Goiás.
TUDO EM CIMA
Adversários espalham que o presidente da CBF, José Maria Marin, emagreceu e anda abatido, mas os resultados de uma bateria de exames de rotina, no Incor, revelam que sua saúde está nos trinques.
NADA FEITO
O Superior Tribunal de Justiça negou a Maria Tereza Goulart, viúva de Jango, indenização integral de anistiado político por superar o teto: fora os R$ 26,7 mil de viúva de ex-presidente, recebe R$ 5,4 mil da anistia.
BOCA MALDITA
Não há mais quem não aposte todas suas fichas na filiação do ministro Fernando Bezerra ao PT. Na “boca maldita” de Recife – o Marco Zero –, já se aposta no dia e na hora que a filiação de dará.
NO MUNDO DA LUA
A liberdade está nas estrelas: pelo menos quatro professores brasileiros estão em Cuba até domingo (12) discutindo cosmologia, campos eletromagnéticos, gravitação e astropartículas.
DIGITALIZANDO
Os deputados José Stédile (PSB-RS), da Frente de Bibliotecas Públicas, e Fátima Bezerra (PT-RN), da Frente do Livro e Leitura, realizam hoje, na Câmara dos Deputados, um seminário sobre desafios do livro digital.
MORTE ANUNCIADA
O senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) admite que foi vergonhosa para a oposição a indicação do vice-governador de São Paulo, Afif Domingos (PSD), a ministro de Dilma: “Já era uma morte anunciada”, lamenta.
PERGUNTA NA DELEGACIA
Qual a mão que balança o berço da impunidade dos “di menor”?
PODER SEM PUDOR
GOVERNO ENVELHECE LOGO
O saudoso jornalista Edísio Gomes de Matos, inteligente e bem humorado, era um grande contador de histórias. Saiba de uma que contou para poucos amigos. Quando jovem, um tio farmacêutico permitia o jogo do bicho na farmácia dele quando um candidato a governador do Ceará empunhava, como bandeira de campanha, o fim do jogo no Estado. O candidato ganhou. O jovem Edísio, preocupado, procurou o tio. A resposta dele foi a seguinte:
- Se preocupa, não, menino. Todo governo novo fica velho...
Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, avisando que haverá mais cortes
AZEVÊDO FAZ HISTÓRIA E CONQUISTA DIREÇÃO DA OMC
A vitória do embaixador Roberto Azevêdo, na direção-geral da OMC, a Organização Mundial do Comércio, faz dele o brasileiro a conquistar o cargo mais importante em organismos internacionais na História. Dilma engajou o governo e ainda se empenhou, pedindo votos em conversas bilaterais, telefonemas e por escrito. A campanha foi coordenada por um craque, o embaixador Ruy Pereira, e contou com o arrebatamento de um time campeão: os embaixadores do Brasil mundo afora.
EMOÇÃO
Paulo Tarso Flecha de Lima, um dos maiores diplomatas do nosso tempo, embargou a voz ao felicitar Azevêdo: “É uma vitória histórica!”.
CASAL VITORIOSO
Lula também ligou para Azevêdo, destacando o papel, na vitória, de sua mulher Maria Nazareth Farani Azevêdo, embaixadora na ONU.
MEIO-CAMPO
A vitória na OMC fez Roberto Azevêdo esquecer, mas só por instantes, a derrota do seu Fluminense para o glorioso Botafogo, domingo.
TÃO LONGE
É carregada de significado a distância do ministro Antonio Patriota, que se manteve em Brasília, da eleição na OMC, em Genebra: 8.800 km.
CONGRESSO NÃO ACEITARÁ LIMINARES CONTRA PROJETOS
Os presidentes do Senado, Renan Calheiros (AL), da Câmara, Henrique Alves (RN), fingem botar água na fervura, mas não arredam pé: deixaram claro, ontem, ao ministro Gilmar Mendes (STF), que o Congresso não aceitará o “controle preventivo de constitucionalidade”. E aprovará emenda que veda a concessão de liminares suspendendo a tramitação de projetos, por ser interferência indevida no Legislativo.
EMBROMATION
Políticos hábeis, Renan e Henrique saíram da reunião reduzindo o tom e elogiando o STF e o ministro Gilmar Mendes, mas nada mudou.
O QUE FICA
O projeto amalucado do deputado idem Nazareno Fonteles (PT-PI) vai para o lixo, mas a proposta de Marco Maia (PT-RS) deve prosperar.
NOTORIEDADE
O ex-presidente da Câmara foi retirado do baixo clero para assumir como sua a emenda proibindo liminares contra tramitação de projetos.
PT PRESSIONOU RELATOR
Retirado da relatoria da PEC 33, que subjuga decisões do Supremo Tribunal Federal ao Congresso, o deputado Esperidião Amin (PP-SC) diz que foi pressionado pelo autor, o petista Nazareno Fonteles, para mudar o parecer contrário à proposta. Como se negou, foi afastado.
O ‘XERIFE’ NA PF
O contador Pedro Ricardo Araújo, que dirige a Polícia Legislativa do Senado, onde fez fama de “xerife”, vai depor na Polícia Federal, dia 15, em um velho inquérito sobre suposta arapongagem em Goiás.
TUDO EM CIMA
Adversários espalham que o presidente da CBF, José Maria Marin, emagreceu e anda abatido, mas os resultados de uma bateria de exames de rotina, no Incor, revelam que sua saúde está nos trinques.
NADA FEITO
O Superior Tribunal de Justiça negou a Maria Tereza Goulart, viúva de Jango, indenização integral de anistiado político por superar o teto: fora os R$ 26,7 mil de viúva de ex-presidente, recebe R$ 5,4 mil da anistia.
BOCA MALDITA
Não há mais quem não aposte todas suas fichas na filiação do ministro Fernando Bezerra ao PT. Na “boca maldita” de Recife – o Marco Zero –, já se aposta no dia e na hora que a filiação de dará.
NO MUNDO DA LUA
A liberdade está nas estrelas: pelo menos quatro professores brasileiros estão em Cuba até domingo (12) discutindo cosmologia, campos eletromagnéticos, gravitação e astropartículas.
DIGITALIZANDO
Os deputados José Stédile (PSB-RS), da Frente de Bibliotecas Públicas, e Fátima Bezerra (PT-RN), da Frente do Livro e Leitura, realizam hoje, na Câmara dos Deputados, um seminário sobre desafios do livro digital.
MORTE ANUNCIADA
O senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) admite que foi vergonhosa para a oposição a indicação do vice-governador de São Paulo, Afif Domingos (PSD), a ministro de Dilma: “Já era uma morte anunciada”, lamenta.
PERGUNTA NA DELEGACIA
Qual a mão que balança o berço da impunidade dos “di menor”?
PODER SEM PUDOR
GOVERNO ENVELHECE LOGO
O saudoso jornalista Edísio Gomes de Matos, inteligente e bem humorado, era um grande contador de histórias. Saiba de uma que contou para poucos amigos. Quando jovem, um tio farmacêutico permitia o jogo do bicho na farmácia dele quando um candidato a governador do Ceará empunhava, como bandeira de campanha, o fim do jogo no Estado. O candidato ganhou. O jovem Edísio, preocupado, procurou o tio. A resposta dele foi a seguinte:
- Se preocupa, não, menino. Todo governo novo fica velho...
QUARTA NOS JORNAIS
- Globo: Maioridade penal em questão: Estuprador do ônibus é menor solto pela Justiça
- Folha: Brasileiro é eleito para chefiar órgão mundial de comércio
- Estadão: Emergentes elegem diplomata brasileiro para direção da OMC
- Correio: Brasileiro terá como missão destravar comércio mundial
- Valor: Países emergentes põem brasileiro na direção da OMC
- Estado de Minas: Poluição manda mais gente para o hospital
- Jornal do Commercio: Violência, perda e dor
- Zero Hora: Presos preferem facilidades do semiaberto a tornozeleira
- Brasil Econômico: Fundos no rastro do boom imobiliário
terça-feira, maio 07, 2013
Santo Sudário - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 07/05
Mais um exemplo de como a vinda do Papa ao Rio para a Jornada Mundial da Juventude traz a reboque eventos paralelos interessantes.
Em junho, o Jardim Botânico vai expor os hologramas do Santo Sudário, da coroa de espinhos de Cristo e do chicote que martirizou Jesus.
Como se sabe...
Hologramas são registros dos objetos feitos com a ajuda de laser, e que depois são projetados numa tela. As peças estão em Turim, na Itália.
A noite da abertura está sendo organizada pela socialite Gisella Amaral.
A rainha dos cowboys
A senadora Kátia Abreu está na capa da “Newsweek”.
Diz lá que “a rainha dos cowboys” vai trabalhar a cavalo e não foge de uma briga.
Cartão de crédito
O Data Popular, de Renato Meirelles, divulga amanhã pesquisa sobre crédito.
Mostra que 40% dos brasileiros desempregados têm cartão de crédito, contra 62% entre os empregados.
Corte chique
O alfaiate italiano Salvatore Di Francisca, que cria os ternos de Cristiano Ronaldo & cia, do Real Madrid, chega ao Rio hoje.
Vai atender clientes na Alberto Gentleman. Mas, é bom preparar o bolso: os ternos chegam a R$ 20 mil.
Varig, Varig, Varig
Ufa! Finalmente amanhã, a pedido da ministra Cármen Lúcia, relatora daquela ação bilionária de defasagem tarifária da Varig, o STF julga o caso.
Pode ser uma tábua de salvação para milhares de antigos funcionários da aviadora.
Redator de verdade
O sociólogo e poeta José Almino, ex-presidente da Casa de Rui Barbosa, vai ajudar na elaboração do relatório final da Comissão Nacional da Verdade.
A ideia é tentar padronizar o texto final para que não fique uma colcha de retalhos dos relatórios produzidos internamente.
Exílio...
Almino, filho de Miguel Arraes, perseguido do regime militar, viveu muito tempo no exílio.
Mãos sujas de sangue...
Aliás, cada um dos membros da Comissão da Verdade recebeu cópias de depoimentos de pessoas torturadas pelo DOI-Codi entre 1970 e 1974, na época comandado pelo coronel Brilhante Ustra.
Ustra, que tinha recusado depor na comissão de São Paulo, teria sido convencido por seus advogados a comparecer sexta agora, às 11h, em Brasília, na Comissão Nacional da Verdade, sob pena de ser preso.
Retratos da vida
Acredite. Dia destes, um grupo de usuários de crack, vindo da Lapa, passou pela Praça Tiradentes, no Centro do Rio, e assaltou... dois mendigos que dormiam na calçada.
Levaram duas garrafas de cachaça e um maço de cigarros.
Jogando a toalha
A unidade da Alsco Toalheiro Brasil, no Jardim Botânico, pretende deixar o bairro, basicamente, residencial.
O terreno foi oferecido à direção do Jardim Botânico, o parque, que enfrenta problemas fundiários.
Quem tem seda?
A Marcha da Maconha, no Rio, foi marcada para sábado, em Ipanema.
A data marca os 32 anos da morte de Bob Marley, o cantor que... você sabe.
Poxa, Puma!
Antes de o Cariocão acabar, já estavam em falta nas lojas do Botafogo as camisas número 10, do ídolo Seedorf.
Lojistas contam que a procura aumentou muito, mas acusam a distribuição da Puma de ser precária.
Aliás...
Viva o Botafogo!
Em junho, o Jardim Botânico vai expor os hologramas do Santo Sudário, da coroa de espinhos de Cristo e do chicote que martirizou Jesus.
Como se sabe...
Hologramas são registros dos objetos feitos com a ajuda de laser, e que depois são projetados numa tela. As peças estão em Turim, na Itália.
A noite da abertura está sendo organizada pela socialite Gisella Amaral.
A rainha dos cowboys
A senadora Kátia Abreu está na capa da “Newsweek”.
Diz lá que “a rainha dos cowboys” vai trabalhar a cavalo e não foge de uma briga.
Cartão de crédito
O Data Popular, de Renato Meirelles, divulga amanhã pesquisa sobre crédito.
Mostra que 40% dos brasileiros desempregados têm cartão de crédito, contra 62% entre os empregados.
Corte chique
O alfaiate italiano Salvatore Di Francisca, que cria os ternos de Cristiano Ronaldo & cia, do Real Madrid, chega ao Rio hoje.
Vai atender clientes na Alberto Gentleman. Mas, é bom preparar o bolso: os ternos chegam a R$ 20 mil.
Varig, Varig, Varig
Ufa! Finalmente amanhã, a pedido da ministra Cármen Lúcia, relatora daquela ação bilionária de defasagem tarifária da Varig, o STF julga o caso.
Pode ser uma tábua de salvação para milhares de antigos funcionários da aviadora.
Redator de verdade
O sociólogo e poeta José Almino, ex-presidente da Casa de Rui Barbosa, vai ajudar na elaboração do relatório final da Comissão Nacional da Verdade.
A ideia é tentar padronizar o texto final para que não fique uma colcha de retalhos dos relatórios produzidos internamente.
Exílio...
Almino, filho de Miguel Arraes, perseguido do regime militar, viveu muito tempo no exílio.
Mãos sujas de sangue...
Aliás, cada um dos membros da Comissão da Verdade recebeu cópias de depoimentos de pessoas torturadas pelo DOI-Codi entre 1970 e 1974, na época comandado pelo coronel Brilhante Ustra.
Ustra, que tinha recusado depor na comissão de São Paulo, teria sido convencido por seus advogados a comparecer sexta agora, às 11h, em Brasília, na Comissão Nacional da Verdade, sob pena de ser preso.
Retratos da vida
Acredite. Dia destes, um grupo de usuários de crack, vindo da Lapa, passou pela Praça Tiradentes, no Centro do Rio, e assaltou... dois mendigos que dormiam na calçada.
Levaram duas garrafas de cachaça e um maço de cigarros.
Jogando a toalha
A unidade da Alsco Toalheiro Brasil, no Jardim Botânico, pretende deixar o bairro, basicamente, residencial.
O terreno foi oferecido à direção do Jardim Botânico, o parque, que enfrenta problemas fundiários.
Quem tem seda?
A Marcha da Maconha, no Rio, foi marcada para sábado, em Ipanema.
A data marca os 32 anos da morte de Bob Marley, o cantor que... você sabe.
Poxa, Puma!
Antes de o Cariocão acabar, já estavam em falta nas lojas do Botafogo as camisas número 10, do ídolo Seedorf.
Lojistas contam que a procura aumentou muito, mas acusam a distribuição da Puma de ser precária.
Aliás...
Viva o Botafogo!
Quem quer viver para sempre? - JOÃO PEREIRA COUTINHO
FOLHA DE SP - 07/05
Se me dissessem que o meu futuro duraria uma eternidade, seria o primeiro a pular da janela sem hesitar
Eu já deveria estar morto. Ou a caminho de. Para alguns leitores, nunca uma frase soou tão verdadeira.
Mas eu falo de história, não de afetos. Se tivesse nascido em Portugal cem anos atrás, já haveria lápide e caixão. Dá para acreditar que, em inícios do século 20, a esperança média de vida para os homens portugueses rondasse os 35-40 anos?
Hoje, andará pelos 80. O que significa que, com sorte e algum bom humor do Altíssimo, eu estou apenas no meio da viagem.
Se juntarmos os progressos da medicina no futuro próximo, é possível que a viagem seja alargada mais um pouco. Cem anos, cento e tal. Nada mau.
Um artigo recente da "Nature", aliás, promete revoluções para a minha pobre carcaça. O segredo está no hipotálamo cerebral e numa proteína do dito cujo que regula o envelhecimento humano.
Não entro em pormenores, até porque eu próprio não os entendo. Mas eis o negócio: se a proteína é estimulada, os ratinhos morrem mais depressa. Se a proteína é inibida, acontece o inverso.
Falamos de ratos, por enquanto, o que significa que a descoberta só terá aplicação imediata entre a classe política.
Mas o leitor entende onde eu quero chegar. E eu quero chegar à maior promessa de todas: o dia em que seremos finalmente imortais.
Na história da cultura ocidental, esse dia pode estar no passado distante (ler o poeta grego Hesíodo, ler a Bíblia).
Ou pode estar no futuro, como garantem os "transumanistas". Falo de uma corrente bioética perfeitamente respeitável que se dedica a essa causa: o destino da humanidade não está em morrer aos cem. Está em viver indefinidamente depois dos cem. Como?
Através dos avanços da tecnologia, claro. Porque só a tecnologia permitirá aos homens suplantar a sua infantil condição mortal.
O nosso corpo é apenas a primeira casca de todas as cascas que estarão para vir. E quem, em juízo perfeito, não gostaria de viver para sempre?
Curiosamente, há quem não queira. O filósofo inglês Roger Scruton, em ensaio recente, dedica um capítulo específico aos transumanistas. O livro intitula-se "The Uses of Pessimism and the Dangers of False Hope" (os usos do pessimismo e os perigos da falsa esperança). Segundo sei, será publicado no Brasil em breve. Recomendo.
Primeiro, porque é uma súmula perfeita do pensamento de Scruton, escrito com a elegância habitual do autor.
Mas sobretudo porque é a mais brilhante refutação do pensamento utópico --e em particular do pensamento utópico transumanista de autores como o norte-americano Ray Kurzweil ou o britânico Max More--, que me lembro de ter lido.
Isso deve-se, em grande parte, ao fato corajoso de Scruton ter sido capaz de virar o debate do avesso e perguntar: por que motivo a doença e a morte devem ser vistos como males intoleráveis que devemos erradicar? Não será possível olhar para eles como bens necessários?
Certo, certo: ninguém ama a doença e, tirando casos extremos, ninguém deseja morrer. Só que esse não é o ponto.
O ponto é que, sem a doença e a morte, a vida não teria qualquer valor em si mesma.
Os projetos que fazemos; as viagens com que sonhamos; os amores que temos, perdemos, procuramos; e até a descendência que deixamos --tudo isso parte da mesma premissa: o fato singelo de não termos todo o tempo do mundo.
Vivemos, escolhemos, amamos --porque temos urgência em viver, escolher e amar. Se retirarmos a urgência da equação, podemos ainda viver eternamente.
Mas viveremos uma eternidade de tédio em que nada tem sentido porque nada precisa ter sentido. Sem a importância do efêmero, nada se torna importante.
Os transumanistas sonham com um mundo pós-humano. É provável que esse mundo seja possível no futuro, quando a técnica suplantar a nossa casca primitiva.
Mas esse mundo, até pela sua própria definição, será um filme diferente. Não será um filme para seres humanos tal como os conhecemos e reconhecemos.
Viver até os cem? Agradeço. Cento e vinte também servem. Mas se me dissessem hoje mesmo que o meu futuro duraria uma eternidade, eu seria o primeiro a pular da janela sem hesitar.
Se me dissessem que o meu futuro duraria uma eternidade, seria o primeiro a pular da janela sem hesitar
Eu já deveria estar morto. Ou a caminho de. Para alguns leitores, nunca uma frase soou tão verdadeira.
Mas eu falo de história, não de afetos. Se tivesse nascido em Portugal cem anos atrás, já haveria lápide e caixão. Dá para acreditar que, em inícios do século 20, a esperança média de vida para os homens portugueses rondasse os 35-40 anos?
Hoje, andará pelos 80. O que significa que, com sorte e algum bom humor do Altíssimo, eu estou apenas no meio da viagem.
Se juntarmos os progressos da medicina no futuro próximo, é possível que a viagem seja alargada mais um pouco. Cem anos, cento e tal. Nada mau.
Um artigo recente da "Nature", aliás, promete revoluções para a minha pobre carcaça. O segredo está no hipotálamo cerebral e numa proteína do dito cujo que regula o envelhecimento humano.
Não entro em pormenores, até porque eu próprio não os entendo. Mas eis o negócio: se a proteína é estimulada, os ratinhos morrem mais depressa. Se a proteína é inibida, acontece o inverso.
Falamos de ratos, por enquanto, o que significa que a descoberta só terá aplicação imediata entre a classe política.
Mas o leitor entende onde eu quero chegar. E eu quero chegar à maior promessa de todas: o dia em que seremos finalmente imortais.
Na história da cultura ocidental, esse dia pode estar no passado distante (ler o poeta grego Hesíodo, ler a Bíblia).
Ou pode estar no futuro, como garantem os "transumanistas". Falo de uma corrente bioética perfeitamente respeitável que se dedica a essa causa: o destino da humanidade não está em morrer aos cem. Está em viver indefinidamente depois dos cem. Como?
Através dos avanços da tecnologia, claro. Porque só a tecnologia permitirá aos homens suplantar a sua infantil condição mortal.
O nosso corpo é apenas a primeira casca de todas as cascas que estarão para vir. E quem, em juízo perfeito, não gostaria de viver para sempre?
Curiosamente, há quem não queira. O filósofo inglês Roger Scruton, em ensaio recente, dedica um capítulo específico aos transumanistas. O livro intitula-se "The Uses of Pessimism and the Dangers of False Hope" (os usos do pessimismo e os perigos da falsa esperança). Segundo sei, será publicado no Brasil em breve. Recomendo.
Primeiro, porque é uma súmula perfeita do pensamento de Scruton, escrito com a elegância habitual do autor.
Mas sobretudo porque é a mais brilhante refutação do pensamento utópico --e em particular do pensamento utópico transumanista de autores como o norte-americano Ray Kurzweil ou o britânico Max More--, que me lembro de ter lido.
Isso deve-se, em grande parte, ao fato corajoso de Scruton ter sido capaz de virar o debate do avesso e perguntar: por que motivo a doença e a morte devem ser vistos como males intoleráveis que devemos erradicar? Não será possível olhar para eles como bens necessários?
Certo, certo: ninguém ama a doença e, tirando casos extremos, ninguém deseja morrer. Só que esse não é o ponto.
O ponto é que, sem a doença e a morte, a vida não teria qualquer valor em si mesma.
Os projetos que fazemos; as viagens com que sonhamos; os amores que temos, perdemos, procuramos; e até a descendência que deixamos --tudo isso parte da mesma premissa: o fato singelo de não termos todo o tempo do mundo.
Vivemos, escolhemos, amamos --porque temos urgência em viver, escolher e amar. Se retirarmos a urgência da equação, podemos ainda viver eternamente.
Mas viveremos uma eternidade de tédio em que nada tem sentido porque nada precisa ter sentido. Sem a importância do efêmero, nada se torna importante.
Os transumanistas sonham com um mundo pós-humano. É provável que esse mundo seja possível no futuro, quando a técnica suplantar a nossa casca primitiva.
Mas esse mundo, até pela sua própria definição, será um filme diferente. Não será um filme para seres humanos tal como os conhecemos e reconhecemos.
Viver até os cem? Agradeço. Cento e vinte também servem. Mas se me dissessem hoje mesmo que o meu futuro duraria uma eternidade, eu seria o primeiro a pular da janela sem hesitar.
Fábulas do desengano - ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
REVISTA VEJA
Uma das passagens mais conhecidas de Dostoievski é a história do Grande Inquisidor, relatada no livro Os Irmãos Karamazov. O cenário é Sevilha, nos tempos da Inquisição. Ainda na véspera, uma centena de hereges havia sido queimada, para maior glória de Deus, num soberbo auto de fé. Eis que agora... quem aparece, caminhando suavemente, na mesma praça? Ele mesmo: Jesus! Estava escrito que um dia voltaria. Decidiu voltar, bem de acordo com seu conhecido gosto pelas estratégias de risco, num momento da história em que os que se fizeram de donos de sua mensagem adotaram a política de silenciar pelas chamas os insubmissos, os desobedientes, os desviantes ou os considerados como tais.
A multidão se aglomera diante dele. Vem um cego e pede: “Senhor, cura-me”. Um gesto, e o cego vê. O povo rejubila-se, canta hosanas. No momento em que adentra a catedral, encontra o pequeno caixão de uma criança mona. A mãe se aproxima, entre lágrimas. ‘‘Ressuscita minha filha.” Ele ordena à criança: “Levanta-te” — e ela se levanta. Nesse momento, surge em cena o Grande Inquisidor. É um velho alto, de face seca e olhar no qual brilha um sinistro clarão. Ele viu tudo: o cego que agora enxerga, a criança que voltou à vida. Aponta o dedo para o autor dos milagres e ordena aos guardas: “Prendam esse homem”. O preso é recolhido ao calabouço dos hereges. À noite, o Grande Inquisidor aparece na cela. É um homem muito ciente de seus deveres e de sua autoridade e por isso lhe comunica que, no dia seguinte, será queimado. Não dá ao condenado nem o direito de palavra. Ordena-lhe: "Não digas nada, cala-te. Que poderias tu dizer? Não tens o direito de acrescentar uma só palavra ao que disseste outrora”.
Dostoievski tinha em mente Jesus e os descaminhos de sua herança nas mãos dos que dela se apropriaram. Uma moral expandida da fábula poderia incluir os grandes pensadores, os políticos, os economistas ou os artistas em nome dos quais seus seguidores, admiradores ou intérpretes haurem prestígio e autoridade. E se eles voltassem? Se Marx voltasse, ou Freud, ou Darwin? Como reagiriam os chefes de suas respectivas igrejas? Para ficar mais perto, e se Bolívar voltasse à Venezuela? Teria ele o direito de acrescentar alguma palavra ao que disse outrora?
O escritor italiano Ítalo Svevo (1861-1928) deixou esboçada uma história, que afinal a morte o impediu de desenvolver, na qual um velho, ao preparar-se para dormir, à meia-noite, lembra que essa é a hora em que Mefistófeles costuma aparecer e propor seus famosos pactos. A esposa, na cama. já dorme placidamente. O velho deixa-se levar pelo devaneio e conclui que — sim, por que não? — de bom grado cederia a alma ao demônio. A questão é: o que pedir em troca? Imagina Mefistófeles, satisfeito por ter amealhado mais um, à espera apenas de que ele declinasse o preço. O vellio pensa, pensa, e não chega a uma conclusão. Pedir de volta a juventude? Mas por quê, se ela é insensata e cruel, ainda que a velhice seja intolerável? A imortalidade? Por quê, se a vida é insuportável, ainda que nos atormente a angústia da morte? O velho se dá conta de que nada tem a pedir e, ao imaginar o embaraço do Mefisto, diante de tão surpreendente situação, põe-se a rir, e tanto que a mulher acorda. “Rindo, a esta hora”, diz ela. ”Ê homem de sorte.”
A fábula de Svevo é parecida com uma outra, de Monteiro Lobato, nesse grande livro que é Reinações de Narizinho. Dona Aranha, exímia costureira, faz o vestido de baile com o qual Narizinho vai se apresentar à corte do Príncipe Escamado. O vestido fica tão bonito que o espelho diante do qual a menina foi prová-lo arregala os olhos de espanto, e, à medida que são acrescentados os adereços, mais os arregala, e mais ainda, até que, de tanto se espantar, racha de alto a baixo. Era o sinal que Dona Aranha esperava desde que tinha nascido e, de menina que era, fora transformada em aranha por uma fada má. Ao mesmo tempo, uma fada boa lhe dera aquele espelho, prometendo que, no dia em que fizesse o vestido mais lindo do mundo, deixaria de ser aranha para ser o que quisesse. E agora? Dona Aranha pensa, pensa. Transformar-se em quê? Princesa? Sereia? Pensa, pensa, e desiste. “Acho melhor ficar no que sou. Estou acostumadíssima.” Tanto na fábula de Svevo quanto na de Lobato a magia é derrotada. Por isso são tão saborosas. É uma delícia ver seres superpoderosos, como Mefistófeles ou as fadas, reduzidos à impotência, diante de quem despreza os seus serviços.
Uma das passagens mais conhecidas de Dostoievski é a história do Grande Inquisidor, relatada no livro Os Irmãos Karamazov. O cenário é Sevilha, nos tempos da Inquisição. Ainda na véspera, uma centena de hereges havia sido queimada, para maior glória de Deus, num soberbo auto de fé. Eis que agora... quem aparece, caminhando suavemente, na mesma praça? Ele mesmo: Jesus! Estava escrito que um dia voltaria. Decidiu voltar, bem de acordo com seu conhecido gosto pelas estratégias de risco, num momento da história em que os que se fizeram de donos de sua mensagem adotaram a política de silenciar pelas chamas os insubmissos, os desobedientes, os desviantes ou os considerados como tais.
A multidão se aglomera diante dele. Vem um cego e pede: “Senhor, cura-me”. Um gesto, e o cego vê. O povo rejubila-se, canta hosanas. No momento em que adentra a catedral, encontra o pequeno caixão de uma criança mona. A mãe se aproxima, entre lágrimas. ‘‘Ressuscita minha filha.” Ele ordena à criança: “Levanta-te” — e ela se levanta. Nesse momento, surge em cena o Grande Inquisidor. É um velho alto, de face seca e olhar no qual brilha um sinistro clarão. Ele viu tudo: o cego que agora enxerga, a criança que voltou à vida. Aponta o dedo para o autor dos milagres e ordena aos guardas: “Prendam esse homem”. O preso é recolhido ao calabouço dos hereges. À noite, o Grande Inquisidor aparece na cela. É um homem muito ciente de seus deveres e de sua autoridade e por isso lhe comunica que, no dia seguinte, será queimado. Não dá ao condenado nem o direito de palavra. Ordena-lhe: "Não digas nada, cala-te. Que poderias tu dizer? Não tens o direito de acrescentar uma só palavra ao que disseste outrora”.
Dostoievski tinha em mente Jesus e os descaminhos de sua herança nas mãos dos que dela se apropriaram. Uma moral expandida da fábula poderia incluir os grandes pensadores, os políticos, os economistas ou os artistas em nome dos quais seus seguidores, admiradores ou intérpretes haurem prestígio e autoridade. E se eles voltassem? Se Marx voltasse, ou Freud, ou Darwin? Como reagiriam os chefes de suas respectivas igrejas? Para ficar mais perto, e se Bolívar voltasse à Venezuela? Teria ele o direito de acrescentar alguma palavra ao que disse outrora?
O escritor italiano Ítalo Svevo (1861-1928) deixou esboçada uma história, que afinal a morte o impediu de desenvolver, na qual um velho, ao preparar-se para dormir, à meia-noite, lembra que essa é a hora em que Mefistófeles costuma aparecer e propor seus famosos pactos. A esposa, na cama. já dorme placidamente. O velho deixa-se levar pelo devaneio e conclui que — sim, por que não? — de bom grado cederia a alma ao demônio. A questão é: o que pedir em troca? Imagina Mefistófeles, satisfeito por ter amealhado mais um, à espera apenas de que ele declinasse o preço. O vellio pensa, pensa, e não chega a uma conclusão. Pedir de volta a juventude? Mas por quê, se ela é insensata e cruel, ainda que a velhice seja intolerável? A imortalidade? Por quê, se a vida é insuportável, ainda que nos atormente a angústia da morte? O velho se dá conta de que nada tem a pedir e, ao imaginar o embaraço do Mefisto, diante de tão surpreendente situação, põe-se a rir, e tanto que a mulher acorda. “Rindo, a esta hora”, diz ela. ”Ê homem de sorte.”
A fábula de Svevo é parecida com uma outra, de Monteiro Lobato, nesse grande livro que é Reinações de Narizinho. Dona Aranha, exímia costureira, faz o vestido de baile com o qual Narizinho vai se apresentar à corte do Príncipe Escamado. O vestido fica tão bonito que o espelho diante do qual a menina foi prová-lo arregala os olhos de espanto, e, à medida que são acrescentados os adereços, mais os arregala, e mais ainda, até que, de tanto se espantar, racha de alto a baixo. Era o sinal que Dona Aranha esperava desde que tinha nascido e, de menina que era, fora transformada em aranha por uma fada má. Ao mesmo tempo, uma fada boa lhe dera aquele espelho, prometendo que, no dia em que fizesse o vestido mais lindo do mundo, deixaria de ser aranha para ser o que quisesse. E agora? Dona Aranha pensa, pensa. Transformar-se em quê? Princesa? Sereia? Pensa, pensa, e desiste. “Acho melhor ficar no que sou. Estou acostumadíssima.” Tanto na fábula de Svevo quanto na de Lobato a magia é derrotada. Por isso são tão saborosas. É uma delícia ver seres superpoderosos, como Mefistófeles ou as fadas, reduzidos à impotência, diante de quem despreza os seus serviços.
Três senhoras sentadas - LYA LUFT
REVISTA VEJA
Eram três mulheres de uns 50 anos, simples, robustas, cansadas e suadas, esperando ônibus no Rio havia mais de uma hora. Calor, desconforto. A van que costumavam usar a caminho de seu emprego fora desativada com outras. Problema nas vans? Em vez de corrigir, a gente suspende tudo. O povo que se vire.
Mas não conseguiam se virar as três senhoras cansadas. Finalmente um ônibus para; por uma raríssima exceção, não está lotado. Deve ter passado a hora do pico. As três entram, depois aparecem em janelas acenando para a câmera da TV com a folha de papel com que se abanavam na rua. Felizes, lustrosas, risonhas: conseguiram um lugar para sentar, coisa mais difícil do que cair dinheiro do céu. Nós somos essas pessoas que ficam felizes por poder se sentar em mais uma longa, quente, infernal viagem até seu trabalho — aonde chegariam atrasadas, com desconto, xingação, qualquer coisa. Mas estamos acostumados.
A gente abre o jornal de manhã e liga a televisão: notícias, apesar de seguidamente prometermos a nós mesmos não envenenar mais a alma ao começar o dia com o atroz desfile de barbaridades econômicas, policiais ou éticas. O que penso que seja burrice nossa, mas ninguém é perfeito. As novidades são violentas: um dos monstros assassinos que queimaram viva uma dentista de classe média, que sustentava pais velhos e irmã deficiente trabalhando num consultório no fundo da casa, confessou o ato e é menor de idade. Vai passar um tempinho numa casa socioeducativa? No âmbito da educação, mais espanto: as universidades não precisam mais exigir título de mestrado ou doutorado para seus professores. A desculpa é que profissionais brilhantes conseguem ensinar sem esse título. Minha sugestão seria, em lugar de baixar ainda mais o nível, nesses casos raríssimos apelar para o “notório saber”... Mas receio que o autor dessa maravilha ignore o que é isso.
Nestes mesmos dias, anunciou-se outra dessas propostas que pululam feito moscas na carniça: o Supremo não seria mais supremo, mas submetido em várias coisas à análise e aprovação do Congresso. Liguei para meus filhos, como costumo fazer: “Está começando o fim da nossa democracia”. Será o fascismo se instalando, a Justiça nas mãos de deputados e senadores nem sempre votados — tem gente que ocupa o lugar como suplente, sem um voto que seja. Vários deles, aliás, réus condenados, mas que por um desses nossos absurdos continuam na tribuna, votando, dando ordens, quando deviam estar recolhidos.
Moradias populares, concedidas a gente de baixa renda, o sonho de uma vida, muitas nem habitadas, já desmoronam. A caixa-d’água caiu em cima da cama em uma delas, mas ninguém morreu. Que alegria. Edifícios erguidos onde desmoronou o malfadado Morro do Bumba, desgraça mais do que anunciada, inabitáveis, agora demolidos e reconstruídos — nós, o povo, pagamos, como sempre. O dinheiro que ali devia ter sido aplicado escorregou para bolsos alheios como em tantos projetos que, com boa gestão, seriam positivos.
Manifestantes vários causam estragos sérios em edifícios públicos; o conserto pagamos nós, o povo. Eles quase sempre ficam impunes. Mas, se eu destruísse o bem público, certamente não estaria livre para aqui escrever. Aliás, de onde vêm essas multidões que não estão na fábrica, no escritório, na escola ou na enxada?
Enquanto escrevo esta coluna, parece que a nova proposta de reduzir o nível já inferior do nosso ensino superior será arquivada: resta-nos alguma lucidez. O plano de amordaçar a imprensa anda quieto, mas voltará a rosnar. E o projeto de castrar o Supremo, o último reduto de moralidade e respeito, também será engavetado: continuamos uma democracia. Bom se com ele engavetassem a mentira, a roubalheira, a impunidade, a insegurança. Eis a nossa perplexidade: o que vão querer nos impingir, mas esconder por breve tempo, se a gente reclamar mais alto? As três mulheres sentadas no ônibus representam um instante de alívio. Breve trégua, até a próxima tentativa.
Eram três mulheres de uns 50 anos, simples, robustas, cansadas e suadas, esperando ônibus no Rio havia mais de uma hora. Calor, desconforto. A van que costumavam usar a caminho de seu emprego fora desativada com outras. Problema nas vans? Em vez de corrigir, a gente suspende tudo. O povo que se vire.
Mas não conseguiam se virar as três senhoras cansadas. Finalmente um ônibus para; por uma raríssima exceção, não está lotado. Deve ter passado a hora do pico. As três entram, depois aparecem em janelas acenando para a câmera da TV com a folha de papel com que se abanavam na rua. Felizes, lustrosas, risonhas: conseguiram um lugar para sentar, coisa mais difícil do que cair dinheiro do céu. Nós somos essas pessoas que ficam felizes por poder se sentar em mais uma longa, quente, infernal viagem até seu trabalho — aonde chegariam atrasadas, com desconto, xingação, qualquer coisa. Mas estamos acostumados.
A gente abre o jornal de manhã e liga a televisão: notícias, apesar de seguidamente prometermos a nós mesmos não envenenar mais a alma ao começar o dia com o atroz desfile de barbaridades econômicas, policiais ou éticas. O que penso que seja burrice nossa, mas ninguém é perfeito. As novidades são violentas: um dos monstros assassinos que queimaram viva uma dentista de classe média, que sustentava pais velhos e irmã deficiente trabalhando num consultório no fundo da casa, confessou o ato e é menor de idade. Vai passar um tempinho numa casa socioeducativa? No âmbito da educação, mais espanto: as universidades não precisam mais exigir título de mestrado ou doutorado para seus professores. A desculpa é que profissionais brilhantes conseguem ensinar sem esse título. Minha sugestão seria, em lugar de baixar ainda mais o nível, nesses casos raríssimos apelar para o “notório saber”... Mas receio que o autor dessa maravilha ignore o que é isso.
Nestes mesmos dias, anunciou-se outra dessas propostas que pululam feito moscas na carniça: o Supremo não seria mais supremo, mas submetido em várias coisas à análise e aprovação do Congresso. Liguei para meus filhos, como costumo fazer: “Está começando o fim da nossa democracia”. Será o fascismo se instalando, a Justiça nas mãos de deputados e senadores nem sempre votados — tem gente que ocupa o lugar como suplente, sem um voto que seja. Vários deles, aliás, réus condenados, mas que por um desses nossos absurdos continuam na tribuna, votando, dando ordens, quando deviam estar recolhidos.
Moradias populares, concedidas a gente de baixa renda, o sonho de uma vida, muitas nem habitadas, já desmoronam. A caixa-d’água caiu em cima da cama em uma delas, mas ninguém morreu. Que alegria. Edifícios erguidos onde desmoronou o malfadado Morro do Bumba, desgraça mais do que anunciada, inabitáveis, agora demolidos e reconstruídos — nós, o povo, pagamos, como sempre. O dinheiro que ali devia ter sido aplicado escorregou para bolsos alheios como em tantos projetos que, com boa gestão, seriam positivos.
Manifestantes vários causam estragos sérios em edifícios públicos; o conserto pagamos nós, o povo. Eles quase sempre ficam impunes. Mas, se eu destruísse o bem público, certamente não estaria livre para aqui escrever. Aliás, de onde vêm essas multidões que não estão na fábrica, no escritório, na escola ou na enxada?
Enquanto escrevo esta coluna, parece que a nova proposta de reduzir o nível já inferior do nosso ensino superior será arquivada: resta-nos alguma lucidez. O plano de amordaçar a imprensa anda quieto, mas voltará a rosnar. E o projeto de castrar o Supremo, o último reduto de moralidade e respeito, também será engavetado: continuamos uma democracia. Bom se com ele engavetassem a mentira, a roubalheira, a impunidade, a insegurança. Eis a nossa perplexidade: o que vão querer nos impingir, mas esconder por breve tempo, se a gente reclamar mais alto? As três mulheres sentadas no ônibus representam um instante de alívio. Breve trégua, até a próxima tentativa.
Lula e os dois PTs - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 07/05
É temerária a perspectiva de que "se passe a menosprezar o exercício da democracia e se comece a aplicar a ditadura de um partido sobre os demais". Por outro lado, "você pode fazer o jogo político, pode fazer aliança política, pode fazer coalizão política, mas não precisa estabelecer uma relação promíscua para fazer política". Um petista desavisado que topasse com essas declarações sobre a política brasileira não hesitaria em atribuí-las à conspiração da "mídia conservadora" para "acabar com o Partido dos Trabalhadores (PT)". Mas são declarações textuais de Luiz Inácio Lula da Silva, o grande líder do PT. Constam de mais uma publicação destinada a cultivar o mito petista, o livro 10 Anos de Governos Pós-Neoliberais no Brasil: Lula e Dilma, que será lançado dia 13.
Quem acompanha com um mínimo de espírito crítico a trajetória política de Lula sabe do absoluto descompromisso do ex-presidente com a coerência. Lula fala o que quer, quando quer, movido por notável intuição político-eleitoral e comprovado senso de oportunidade. Não tem o menor escrúpulo de desdizer hoje o que afirmou ontem nem de fazer amanhã o que condenou hoje. Assim, Lula declarar que tem medo da "ditadura de um partido sobre os demais" e reprovar a prática de "relação promíscua para fazer política" não chega a ser surpreendente, mas é de um cinismo de fazer corar um monge de pedra.
Que dizer, então, do comentário do "principal protagonista" do PT a respeito do polêmico episódio da divulgação da Carta ao Povo Brasileiro? Essa proclamação, de cunho essencialmente eleitoral, cumpriu em 2002 o objetivo de, poucos meses antes da eleição presidencial, tranquilizar os setores da opinião pública temerosos diante da determinação dos radicais lulopetistas de reverter a política econômico-financeira "neoliberal" com que o governo FHC lograra acabar com a inflação, promover a estabilidade e retomar o crescimento social e econômico.
Eleito, Lula realmente manteve os fundamentos econômicos "neoliberais", que permitiram a vigorosa ampliação dos programas sociais iniciados por seu antecessor. E agora, num surto de sinceridade, se dá ao desfrute de fazer blague com aqueles acontecimentos: "Eu era radicalmente contra a carta porque ela dizia coisas que eu não queria falar, mas hoje eu reconheço que ela foi extremamente importante". Teria sido mais verdadeiro se dissesse "útil".
De qualquer modo, ao longo das 20 páginas em que o organizador do livro, coadjuvado por outro fiel seguidor do ex-presidente, se empenha em levantar a bola para o entrevistado, Lula faz também uma análise do PT atual a que certamente só se permitiu porque se considera soberano, com direito ao luxo de dizer a mais pura verdade: o Partido dos Trabalhadores está dividido hoje em dois grupos - "o eleitoreiro, parlamentar, o PT dos dirigentes", e o partido "da base, igualzinho ao que era em 1980".
O que Lula não chega a admitir é que, dentro da "democracia petista" - que, de resto, não é muito diferente daquela praticada pelos outros partidos -, quem manda de fato são os "dirigentes", hoje obcecados em perpetuar-se no poder. A base, "igualzinha ao que era em 1980", continua, é claro, defendendo as mesmas propostas radicais que fizeram Lula ser derrotado em três pleitos sucessivos. E para os "dirigentes" é muito importante que mantenha esse discurso, para que o PT possa continuar ostentando a aura de partido popular.
É isso que explica, por exemplo, a presença do disciplinado Rui Falcão no comando formal da legenda. De vez em quando Falcão reúne a tropa, solta algumas palavras de ordem radicais, vocifera contra a "direita", os "neoliberais", a "mídia golpista" e vão todos para casa jubilosos de sua militância "revolucionária".
Enquanto isso, a nomenklatura petista, refestelada nos altos gabinetes do partido e do governo, cultiva relações cada vez mais promíscuas com as lideranças políticas que combateu durante mais de 20 anos e conspira, nos bastidores do Congresso, para sufocar forças políticas que possam emergir na contramão de seus interesses eleitorais em 2014.
É temerária a perspectiva de que "se passe a menosprezar o exercício da democracia e se comece a aplicar a ditadura de um partido sobre os demais". Por outro lado, "você pode fazer o jogo político, pode fazer aliança política, pode fazer coalizão política, mas não precisa estabelecer uma relação promíscua para fazer política". Um petista desavisado que topasse com essas declarações sobre a política brasileira não hesitaria em atribuí-las à conspiração da "mídia conservadora" para "acabar com o Partido dos Trabalhadores (PT)". Mas são declarações textuais de Luiz Inácio Lula da Silva, o grande líder do PT. Constam de mais uma publicação destinada a cultivar o mito petista, o livro 10 Anos de Governos Pós-Neoliberais no Brasil: Lula e Dilma, que será lançado dia 13.
Quem acompanha com um mínimo de espírito crítico a trajetória política de Lula sabe do absoluto descompromisso do ex-presidente com a coerência. Lula fala o que quer, quando quer, movido por notável intuição político-eleitoral e comprovado senso de oportunidade. Não tem o menor escrúpulo de desdizer hoje o que afirmou ontem nem de fazer amanhã o que condenou hoje. Assim, Lula declarar que tem medo da "ditadura de um partido sobre os demais" e reprovar a prática de "relação promíscua para fazer política" não chega a ser surpreendente, mas é de um cinismo de fazer corar um monge de pedra.
Que dizer, então, do comentário do "principal protagonista" do PT a respeito do polêmico episódio da divulgação da Carta ao Povo Brasileiro? Essa proclamação, de cunho essencialmente eleitoral, cumpriu em 2002 o objetivo de, poucos meses antes da eleição presidencial, tranquilizar os setores da opinião pública temerosos diante da determinação dos radicais lulopetistas de reverter a política econômico-financeira "neoliberal" com que o governo FHC lograra acabar com a inflação, promover a estabilidade e retomar o crescimento social e econômico.
Eleito, Lula realmente manteve os fundamentos econômicos "neoliberais", que permitiram a vigorosa ampliação dos programas sociais iniciados por seu antecessor. E agora, num surto de sinceridade, se dá ao desfrute de fazer blague com aqueles acontecimentos: "Eu era radicalmente contra a carta porque ela dizia coisas que eu não queria falar, mas hoje eu reconheço que ela foi extremamente importante". Teria sido mais verdadeiro se dissesse "útil".
De qualquer modo, ao longo das 20 páginas em que o organizador do livro, coadjuvado por outro fiel seguidor do ex-presidente, se empenha em levantar a bola para o entrevistado, Lula faz também uma análise do PT atual a que certamente só se permitiu porque se considera soberano, com direito ao luxo de dizer a mais pura verdade: o Partido dos Trabalhadores está dividido hoje em dois grupos - "o eleitoreiro, parlamentar, o PT dos dirigentes", e o partido "da base, igualzinho ao que era em 1980".
O que Lula não chega a admitir é que, dentro da "democracia petista" - que, de resto, não é muito diferente daquela praticada pelos outros partidos -, quem manda de fato são os "dirigentes", hoje obcecados em perpetuar-se no poder. A base, "igualzinha ao que era em 1980", continua, é claro, defendendo as mesmas propostas radicais que fizeram Lula ser derrotado em três pleitos sucessivos. E para os "dirigentes" é muito importante que mantenha esse discurso, para que o PT possa continuar ostentando a aura de partido popular.
É isso que explica, por exemplo, a presença do disciplinado Rui Falcão no comando formal da legenda. De vez em quando Falcão reúne a tropa, solta algumas palavras de ordem radicais, vocifera contra a "direita", os "neoliberais", a "mídia golpista" e vão todos para casa jubilosos de sua militância "revolucionária".
Enquanto isso, a nomenklatura petista, refestelada nos altos gabinetes do partido e do governo, cultiva relações cada vez mais promíscuas com as lideranças políticas que combateu durante mais de 20 anos e conspira, nos bastidores do Congresso, para sufocar forças políticas que possam emergir na contramão de seus interesses eleitorais em 2014.
Os anéis e os dedos - JOSÉ PAULO KUPFER
O Estado de S. Paulo - 07/05
De todas as más notícias transmitidas pela economia brasileira nos primeiros quatro meses de 2013, a que merece mais atenção talvez seja a piora acelerada das contas externas. São bem conhecidos os problemas de um aumento na vulnerabilidade externa, mesmo que hoje o País disponha do escudo do ainda elevado, embora cadente, nível projetado de ingressos de investimentos diretos externos e da forte posição em reservas internacionais.
Mas, pelo menos por enquanto, não é por essa razão que os desarranjos nas contas correntes mais preocupam. A maior inquietação com os números negativos e a tendência deslavorávei das contas externas é o que eles denunciam em relação a pontos estruturais da economia.
Alguns poderiam imaginar que a inflação devesse merecer a maior atenção. Ou que a prioridade no ranking das preocupações devesse ser ocupada pela atual caminhada errática e, no fim das contas descendente, do nível de atividades - depois dos números da produção industrial de março, aumentou o grupo de analistas com estimativas para o PIB menores que os 3% por enquanto predominantes.
No caso da inflação, contudo, a tendência é de alivio relativo, com retomo do IPCA em 12 meses ao intervalo do sistema de metas - o que já se projeta que ocorrerá, com a divulgação prevista para amanhã do IPCA de abril -, embora mais uma vez desconfortavelmente próximo do teto. E o crescimento da economia é uma variável dependente de outros elementos - exatamente aqueles que hoje produzem sinais amarelos nas contas externas como nâo se observavam há uma década.
No primeiro quadrimestre do ano, o déficit da balança comercial alcançou inéditos US$ 6,2 bilhões. È certo que o ingresso de recursos com exportações da safra recorde de grãos, em atraso por gargalos logísticos, ajudará a descomprimir um pouco esse quadro. Essa perspectiva ainda é sancionada pela mediana, das projeções dos analistas, cuja previsão de momento é de superávit comercial de US$ 10 bilhões - de todo modo, 70% inferior ao resultado de 2011. Mas cresce o grupo daqueles que já estimam saldo inferior a esse nível e já há quem preveja até mesmo um déficit comercial no conjunto do .ano, situação que não ocorria desde o quinquénio 1995-2000.
Não foram poucos os que, no período imediatamente pré-crise de 2008 e nos primeiros anos seguintes, advogaram o abandono de uma indústria que já cambaleava, sem forças para inovar e se inserir nas novas cadeias fragmentadas globais de produção, quando os mercados internacionais de commodities básicas explodiram e levaram o Brasil a comemorar resultados externos excepcionais. Agora, até os "anti-industrialístas" do passado recente descobrem que é essa mesma indústria - derrotada pelas importações no mercado interno, que não encontra espaços para incrementar cruciais exportações, num mercado externo, de um lado deprimido e protecionista e, de outro, disputando agressivamente os mercados alheios - que detém a chave da recuperação e do fortalecimento da economia.
Embora ainda pareça um exagero falar em descontroles, a situação atual é de evidente desequilíbrio. Muitíssimo complicada porque a política econômica, com limites estreitos tanto na perna fiscal quanto na perna monetária e cambial, opera em cenário de estagflação. E isso em ambiente eleitoral já instalado, que remete ao ocorrido em 1998, com a sobrevida por aparelhos de um sistema de câmbio fixo moribundo, nas eleições gerais daquele ano. Foi longa e doída a marcha para superar os desajustes e retomar o crescimento.
Não é possível enxergar, nas propostas em debate - seja nas de desenvolvimentistas, seja nas de ortodoxos saídas para recuperar a produtividade da indústria e sua competitividade sem entregar anéis. Com as distorções que, à espera das eleições, possivelmente serão aprofundadas até 2014, o risco é que até dedos tenham de ir junto.
De todas as más notícias transmitidas pela economia brasileira nos primeiros quatro meses de 2013, a que merece mais atenção talvez seja a piora acelerada das contas externas. São bem conhecidos os problemas de um aumento na vulnerabilidade externa, mesmo que hoje o País disponha do escudo do ainda elevado, embora cadente, nível projetado de ingressos de investimentos diretos externos e da forte posição em reservas internacionais.
Mas, pelo menos por enquanto, não é por essa razão que os desarranjos nas contas correntes mais preocupam. A maior inquietação com os números negativos e a tendência deslavorávei das contas externas é o que eles denunciam em relação a pontos estruturais da economia.
Alguns poderiam imaginar que a inflação devesse merecer a maior atenção. Ou que a prioridade no ranking das preocupações devesse ser ocupada pela atual caminhada errática e, no fim das contas descendente, do nível de atividades - depois dos números da produção industrial de março, aumentou o grupo de analistas com estimativas para o PIB menores que os 3% por enquanto predominantes.
No caso da inflação, contudo, a tendência é de alivio relativo, com retomo do IPCA em 12 meses ao intervalo do sistema de metas - o que já se projeta que ocorrerá, com a divulgação prevista para amanhã do IPCA de abril -, embora mais uma vez desconfortavelmente próximo do teto. E o crescimento da economia é uma variável dependente de outros elementos - exatamente aqueles que hoje produzem sinais amarelos nas contas externas como nâo se observavam há uma década.
No primeiro quadrimestre do ano, o déficit da balança comercial alcançou inéditos US$ 6,2 bilhões. È certo que o ingresso de recursos com exportações da safra recorde de grãos, em atraso por gargalos logísticos, ajudará a descomprimir um pouco esse quadro. Essa perspectiva ainda é sancionada pela mediana, das projeções dos analistas, cuja previsão de momento é de superávit comercial de US$ 10 bilhões - de todo modo, 70% inferior ao resultado de 2011. Mas cresce o grupo daqueles que já estimam saldo inferior a esse nível e já há quem preveja até mesmo um déficit comercial no conjunto do .ano, situação que não ocorria desde o quinquénio 1995-2000.
Não foram poucos os que, no período imediatamente pré-crise de 2008 e nos primeiros anos seguintes, advogaram o abandono de uma indústria que já cambaleava, sem forças para inovar e se inserir nas novas cadeias fragmentadas globais de produção, quando os mercados internacionais de commodities básicas explodiram e levaram o Brasil a comemorar resultados externos excepcionais. Agora, até os "anti-industrialístas" do passado recente descobrem que é essa mesma indústria - derrotada pelas importações no mercado interno, que não encontra espaços para incrementar cruciais exportações, num mercado externo, de um lado deprimido e protecionista e, de outro, disputando agressivamente os mercados alheios - que detém a chave da recuperação e do fortalecimento da economia.
Embora ainda pareça um exagero falar em descontroles, a situação atual é de evidente desequilíbrio. Muitíssimo complicada porque a política econômica, com limites estreitos tanto na perna fiscal quanto na perna monetária e cambial, opera em cenário de estagflação. E isso em ambiente eleitoral já instalado, que remete ao ocorrido em 1998, com a sobrevida por aparelhos de um sistema de câmbio fixo moribundo, nas eleições gerais daquele ano. Foi longa e doída a marcha para superar os desajustes e retomar o crescimento.
Não é possível enxergar, nas propostas em debate - seja nas de desenvolvimentistas, seja nas de ortodoxos saídas para recuperar a produtividade da indústria e sua competitividade sem entregar anéis. Com as distorções que, à espera das eleições, possivelmente serão aprofundadas até 2014, o risco é que até dedos tenham de ir junto.
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