domingo, abril 28, 2013

Uma fábula do andar de cima - ELIO GASPARI

O GLOBO - 28/04

O general Emílio Garrastazu Médici governou o Brasil de 1969 a 1974. Foi o mais popular dos ditadores e deixou uma história de absoluta austeridade pessoal. Sua mulher, Scylla, mobiliou a granja do Riacho Fundo com peças de um depósito do serviço público. O casal ia para lá no fim de semana, fugindo da estufa do Alvorada. Vinham de famílias abastadas do pampa gaúcho e tinham dois filhos, Roberto e Sérgio. Todos passaram pelo poder sem que deles se tenha ouvido sequer mexericos. Sérgio morreu em 2008.

Em 1984, um ano antes de morrer, aos 79 anos, o general adotou como filha uma neta adulta. À época a lei permitia dois tipos de adoções: a simples, que só transferia direitos sobre pensões, e a plena, que se estendia ao patrimônio dos pais. A adoção simples era prática comum entre servidores civis e militares e avançava apenas sobre o cofre da Previdência da Viúva. Pode-se estimar que a pensão esteja hoje em algo como R$ 9.000 mensais. Médici valeu-se dessa modalidade.

Veio a Constituição de 1988 e igualou os direitos de todos os filhos, legítimos, ilegítimos ou adotivos, plenos ou simples.

Herdeira de 50% dos bens do marido, Scylla morreu em 2003, aos 95 anos, sob a vigência da nova Constituição. Está no Superior Tribunal de Justiça uma ação da filha de Roberto Médici, neta/filha adotiva do general. Ela quer se habilitar na partilha da fazenda que a mãe/avó deixou em Bagé. Coisa de alguns milhões de reais.

Se a neta/filha prevalecer, o patrimônio de Scylla, que deveria ser dividido entre Roberto e os herdeiros de Sérgio, passará por nova partilha e um ramo da família ficará com dois terços do monte.

Se o general quisesse dividir o seu patrimônio por três, poderia ter optado pela adoção plena. Logo ele, que impedia o ministro Delfim Netto de aumentar o preço da carne para ter tempo de vender na baixa os bois da fazenda que hoje está no centro do litígio. O general não queria que o acusassem de ter ganho com a alta da arroba do boi.

AVISO AMIGO

No mesmo forno de que saiu a blindagem dos partidos existentes (e domesticados) cozinha-se um avanço sobre os meios de comunicação impressos e eletrônicos. Virá disfarçado na pele de cordeiro do direito de resposta.

É uma modalidade do "bateu, levou", que brotou no governo Collor e deu no que deu.

Trata-se de assegurar o direito de exigir a publicação das seguintes informações:

1) Não houve mensalão.

2) Rose Noronha era apenas uma funcionária de terceiro escalão.

3) Como já foi demonstrado, os salários de R$ 15 mil para garçons do Senado decorrem de procedimentos legais e legítimos.

COUTINHO 2.0

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, anunciou o fim do modelo de financiamento para "campeões nacionais". Esse foi o apelido dado a setores e empresas protegidas pelo comissariado e borrifadas com grandes empréstimos a juros camaradas.

Essa passa ser a segunda entrada de Coutinho na história da indústria brasileira. A primeira, no fim do século passado, deu-se quando o governo de José Sarney perfilhou a política de informática dos generais, fecundada no SNI. Nessa época o doutor era secretário-executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Recordar é viver: enquanto durou essa ruinosa política de proteção a donatários nacionais, era mais fácil entrar no Brasil com um quilo de cocaína do que com um computador.

Poucos delírios da ditadura fizeram tamanho mal ao país.

DESALENTO

Durante o julgamento do mensalão houve petistas que acreditaram numa redução do poder do comissariado paulista, de suas obras e suas pompas.

Passou o tempo, ficaram mais zangados, porém perderam a ilusão.

GERENTONA

A doutora Dilma é uma gerentona e governa com 39 ministérios, entre os quais o das Relações Institucionais. Funciona como um varejão em que se trocam verbas por votos e se redigem emendas constitucionais como se fossem noticiário de letreiros luminosos.

Conseguiu fabricar um conflito institucional do Congresso com o Supremo Tribunal Federal a partir de uma manobra eleitoral de salão de sinuca.

SABEDORIA

De quem já viu o governo por dentro:

"Há hoje três ministros da Fazenda: o secretário do Tesouro, Arno Augustin, o secretário-executivo Nelson Barbosa e a presidente Dilma Rousseff."

TRITURADORES

O corregedor-geral da Justiça Militar do Rio Grande do Sul criou um programa destinado a destruir os velhos processos de Inquéritos Policiais Militares lá arquivados.

Ao contrário do que fizeram os comandantes militares na queima de documentos da ditadura, desta vez cada processo destruído será acompanhado de um registro formal com a identificação de quem mandou triturar, com três testemunhas. Ademais, será dado um prazo de 45 dias para que alguém peça a preservação do processo.

A iniciativa promete conservar peças históricas, mas falta definir o que é "histórico". Noves fora o fato de que triturar documentos judiciais resulta em inevitável destruição da memória. Todo mundo ganharia se esse trabalho tivesse o acompanhamento oficial de organizações de defesa dos direitos humanos.

O corregedor poderia oferecer seu arquivo a alguma universidade. Pelo edital, os processos virarão aparas de papel e serão vendidos. O dinheiro arrecadado irá para o Fundo de Reaparelhamento do Poder Judiciário. Assim a burocracia se reaparelha destruindo a história.

Outra fábula do andar de cima

De uma hora para outra, o reconhecimento de que os empregados domésticos têm direito às mesmas garantias que seus empregadores se tornou um retrato das ansiedades do andar de cima nacional.

O doutor Romero Jucá, ex-líder do governo no Senado, defendeu a redução da multa em casos de demissão sem justa causa para algo como 5% ou 10% sobre o saldo do FGTS. Tudo bem, quando o patrão é demitido, embolsa a multa de 40%. Quando ele demite a cozinheira, paga só 10%. Afinal, ela é "gente diferenciada".

A doutora Gleisi Hoffmann trabalha com outra ideia, a de aumentar o desconto no Imposto de Renda para os gastos com empregados domésticos. Tudo bem, a Viúva subsidiará a contratação da cozinheira que, por sua vez, ralará na fila do SUS. Quem não tem empregado ficará com o custo social do mimo dado a quem tem.

Nada de novo no capitalismo brasileiro. Afinal, Adam Smith (1723-1790), o pai da economia moderna, vivia do seu trabalho como professor e diretor de uma alfândega. Quando interrompeu um curso, tentou devolver o dinheiro das aulas que não deu. Ensinou ao mundo as virtudes da "mão invisível" do mercado. Seu similar nacional, o Visconde de Cairu (1756-1835), conseguiu sua aposentadoria pública aos 50 anos e foi o primeiro professor de "ciência econômica" de Pindorama. Ganhava 400 mil réis (mais a aposentadoria), mas nunca deu uma aula. Cairu descobriu outra mão invisível, aquela que tira dinheiro de quem não o tem e o coloca no bolso de quem o tem.

Rose estressada - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 28/04

Os bastidores do processo administrativo disciplinar desencadeado desde fevereiro deste ano pela Controladoria Geral da União (CGU), vinculada à Presidência da República, contra Rosemary Noronha, ex-chefe de gabinete da Presidência em São Paulo e "amiga íntima" do ex-presidente Lula, estão agitados.

As informações são de que Rose está inquieta, considera-se injustiçada e abandonada, e, assim como o núcleo petista ligado ao ex-presidente Lula, não perdoa a forma "implacável e fria" como a presidenta Dilma vem tratando muitos "companheiros", não apenas no caso do mensalão, mas, sobretudo, pela maneira com que abraçou a bandeira de suposto combate à "corrupção", atingindo importantes quadros do partido, entre os quais ela se insere.

O que se comenta nesses meios petistas é que a presidente só poupa quem lhe é conveniente, como no caso de sua amiga Erenice Guerra, que atua com desenvoltura em Brasília após ter sido exonerada da chefia da Casa Civil por tráfico de influência, ou no dos políticos do PR e do PDT que retornaram ao governo depois de enxotados por corrupção. Muito citado ainda o caso do ministro Fernando Pimentel, que, mesmo sem ter explicado o dinheiro recebido em consultorias, foi tratado com benevolência pela presidente.

Desde a instauração da sindicância, as notícias têm vazado, o que revelaria, na opinião dela, interesse na deterioração de sua imagem, atingindo diretamente o próprio Lula e José Dirceu, pessoas próximas a Rose, como é conhecida. E a CGU tem sido implacável em detalhes até surpreendentes para ela. O que irritou, de modo mais específico, Rosemary nos últimos vazamentos foi a notícia de que teria sido apreendida em seu poder a quantia de 33 mil reais em moeda sul-coreana (won), quando, segundo ela, consta do auto de apreensão a quantia de 33 mil won, o que faria toda a diferença. Essa quantia seria algo equivalente a um cafezinho na Coreia do Sul, como dez reais.

Foi apreendida ainda uma quantia em dólares (cerca de 20 mil) que, segundo Rosemary, fora comprada licitamente para uma viagem à Disney que faria em dezembro. Apesar do alto poder aquisitivo demonstrado nessa compra antecipada de dólares, Rose garante que todos os seus recursos estão declarados e nega enriquecimento ilícito.

Rosemary também demonstra indignação com a divulgação de sua hospedagem na embaixada em Roma como se tivesse cometido algum ilícito. Alega que essas hospedagens são comuns e que esteve lá na condição de amiga do ex-embaixador do Brasil em Roma José Viegas, ex-ministro da Defesa de Lula. A defesa de Rosemary, aliás, está disposta a pedir o levantamento das pessoas que teriam se hospedado em todas as embaixadas brasileiras no exterior na gestão da presidenta Dilma, para averiguar se houve situações análogas, de modo a garantir a isonomia de tratamento.

Vários altos funcionários da República, como o ministro Gilberto Carvalho (ex-chefe de Rosemary), Beto Vasconcelos (número dois da Casa Civil) ou Erenice Guerra (ex-ministra da Casa Civil), foram arrolados pela defesa, o que possivelmente demonstra uma estratégia de esmiuçar os meandros da administração pública federal no tocante ao conceito de tráfico de influência, de que Rosemary é acusada. Ela teria atuado para a nomeação de uma desembargadora e diretores da Agência Nacional de Águas e da Agência Nacional de Aviação Civil, e intermediado diversos negócios.

Seguindo o mesmo raciocínio dos "companheiros" de mensalão, Rosemary tem dito que sempre fez o que é comum em Brasília. Segundo sua defesa, as ações estão "absolutamente dentro da cultura político-institucional brasileira, que demanda essa espécie de contato". Se o processo administrativo disciplinar contra Rosemary vingar, ela não poderá mais fazer parte do serviço público federal, e certamente uma sanção terá desdobramentos muito negativos no processo penal a que responde.

Daí porque causa a Rosemary surpresa a fúria punitiva com que se lança o próprio governo federal contra ela. Ela identifica a chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, como a responsável pelo rigor da investigação, e o núcleo petista que reclama disso vê na ministra e em seu marido, o ministro Paulo Bernardo, traços de deslealdade.

Até que ponto Rosemary aceitará passivamente servir de bode expiatório? Ou a presidenta Dilma não comanda seus burocratas, e as instituições atuam sob o comando de outros personagens? Rosemary não acredita nisso.

Leis secas e molhadas - GAUDÊNCIO TORQUATO

O ESTADÃO - 28/04

O marronzinho, visivelmente embriagado, é preso em flagrante, depois de bater o carro em um ônibus, em Taboão da Serra, na noite de segunda feira passada. Sem carteira de habilitação no momento do acidente, confessa ter consumido cerveja e cachaça e é solto após pagar fiança de R$ 5 mil. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), que emprega o profissional, decreta: “não cabe à companhia nenhum procedimento, visto que o caso não tem relação com os aspectos funcional e profissional”. Pois é, o agente responsável pela fiscalização da Lei Seca brasileira, considerada uma das 20 mais severas entre as legislações de 82 nações pesquisadas pelo International Center for Alcohol Policies, dirigirá tranquilo na via tortuosa da burocracia, eis que seu empregador descarta nexo entre conduta pessoal e eventos que mostram transgressão ao escopo funcional do empregado. Esse é apenas um retalho da moldura que abriga leis não cumpridas, justiça lerda, projetos casuísticos, prioridades invertidas, improbidade administrativa, decisões provisórias, banalização da violência, tibieza de governantes e culto ao individualismo, entre outros vetores de nossa vida social e política.

O que chama a atenção no episódio do marronzinho (assim chamado pela cor da roupa) é a resposta da CET, da qual se pode pinçar o discurso reativo de nossa burocracia: “não temos nada com isso; cumprimos rigorosamente o dever; condutas pessoais não estão sob nossa égide”. Eis a viseira que tampa o olhar lateral das estruturas do Estado, preocupadas em ficar longe de denúncias e em distribuir culpas a outros gestores, jamais avocando a si parcela (mínima que seja) de erros e desvios. Não seria mais razoável que, face a situações como a ocorrida, a administração do trânsito viesse a público proclamar seu dever com a formação dos quadros, significando emprego correto de equipamentos, treinamento intensivo de habilidades profissionais, campo de abrangência das leis, e, em complemento, orientação psicológica, de modo a integrar condutas pessoais à planilha profissional?

O desleixo é um dos maiores obstáculos à modernização da gestão pública nas três instâncias federativas. Os maus exemplos vêm de cima, gerando o efeito dominó da ineficiência. A primeira pedrinha derruba a segunda, que derruba a terceira e assim por diante. Veja-se o caso da Lei Seca, a de no 11.705, sancionada pela presidente Dilma em 20 de dezembro de 2012, que tornou mais rigorosa a punição de motoristas alcoolizados. Necessária para diminuir o índice de acidentes – o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking de recordistas de acidentes de trânsito -, no início, a lei correspondeu às expectativas. Registrou-se sensível queda no número de acidentes. Ao correr do tempo, a fiscalização relaxou, tanto por causa da falta de bafômetros quanto por conta da recusa dos motoristas a se submeter ao teste. Nada surpreendente. As leis, por aqui, começam agigantadas e acabam banalizadas. Ou, para não perder o contraponto, leis secas acabam molhadas. A água do adjetivo serve para traduzir o amaciamento do ânimo de agentes públicos, a partir das polícias, que acabam lavando a mão na bacia dos infratores. O chiste popular é: “para não ser multado, fulano molhou a mão do guarda”.

A incúria é doença crônica da administração pública. Veja-se o caso das Agências Reguladoras, criadas para controlar serviços públicos, objetivando harmonizar os interesses do consumidor, como preço e qualidade, com os do fornecedor, como viabilidade econômica das atividades comerciais, sempre obedecendo aos preceitos legais. Cumprem suas funções? De maneira precária. Exemplo é o caos nos aeroportos em algumas épocas do ano. Companhias atrasam e cancelam voos sem aviso prévio, extraviam bagagens, aumentam tarifas, praticam overbooking, diminuem espaços entre as poltronas do avião e passam a cobrar por serviços antes gratuitos. Reclamar a quem? A Agência Nacional de Aviação Civil, que deveria fiscalizar as companhias, faz ouvidos de mercador. Com uma ou outra exceção, a falta de rigor, a leniência e a politicagem ditam o modus operandi dos órgãos de controle de serviços essenciais. Juntando-se o desleixo à esperteza, forma-se a teia dos esquemas de corrupção que se espraiam pela malha administrativa. Não há remédio que dê jeito a tumores adquiridos nos primórdios de nossa civilização.

Os cartórios são provas eloquentes do passado ressuscitado. São os bastiões da cultura arcaica. Qual sua serventia senão a de mostrar que a palavra não serve para nada? Que a verdade só existe quando autenticada com um selo e firma reconhecida. Firma reconhecida quer dizer: a assinatura do cidadão tem de ser igual a que registrou no cartório. A partir dessa exigência, constroem-se catedrais de papel: atestado de nascimento, residência (papéis de conta de luz, água etc), de boa conduta (para provar que não é sonegador inveterado), atestado de saúde e de óbito (pessoa viva com atestado de óbito tem dificuldade de provar que não entrou no caixão). Sicrano é pobre? Tem de comprovar, por atestado de cartório, a condição de pobreza. Hélio Beltrão, em julho de 1979, tentou acabar com essas maracutaias por meio do Programa Nacional de Desburocratização. Perdeu a guerra. Hoje, a pilha de documentos do cidadão atinge os píncaros. Nos EUA, após a tragédia do 11 de setembro, instituiu-se a obrigatoriedade da carteira de identidade, que não existia. Uma celeuma. Já por estas bandas, documentos são usados como burla. A carteira de estudante, que propicia aos portadores descontos de 50% na compra de ingressos em teatros, shows, cinema, passou a ser usada por quem não possui tal direito. Exemplo de insanidade? O título de eleitor. Só vale se o portador levar junto o documento de identidade, que tem foto. A malandragem avança sob a égide de lições não tanto cívicas: “faça o que eu digo, não faça o que faço; aos amigos, pão; aos adversários, pau; nossa balança tem dois pesos e duas medidas; e a lei? Ah, é pra inglês ver”.


Impressão de bagunça - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 28/04

Parlamentares não parlamentam mais, preferem resolver suas questões nos tribunais; e depois reclamam que o Judiciário interfere indevidamente em suas vidas.

É um paradoxo. Política tem variados sentidos. Pode ser a ciência de governar, como ensina uma das definições de Antonio Houaiss, e pode traduzir malícia, perfídia, práticas motivadas por baixos interesses.

Tem também significado positivo expresso numa de suas mais belas funções: a arte de promover o entendimento, de extrair do dissenso caminhos de convergência, não necessariamente ao custo do abandono de convicções em nome da concordância artificial.

O Congresso Nacional já viveu esses momentos. O ponto alto foi na Constituinte, cujos efeitos perduraram ainda por mais duas, no máximo três, legislaturas. Havia núcleos de ação e pensamento que tanto resolviam suas questões entre os doutrinariamente identificados quanto encaminhavam os temas em discussões entre parlamentares ideologicamente contrários. Funcionavam como uma espécie de poder moderador.

As divergências eram resolvidas, os obstáculos transpostos, as soluções encontradas no âmbito do Parlamento, no exercício da conversa, da construção de acordos e, quando impossível, no voto e no respeito ao resultado.

Em relação aos tempos estranhados que vivemos havia mais equilíbrio, respeito, qualidade intelectual, formação e vocação. Não era um paraíso, havia como sempre houve deformações graves. Mas a política não se transformara num negócio da forma acachapante como se vê hoje. Se não deixava de ter um lado mau, tinha um lado bom.

Deputados e senadores andavam de avião com tranquilidade, exibindo na lapela do terno o botão de identificação sem o receio de levar desaforo para casa. Hoje, os que podem viajam em jatinhos particulares ou se valem da FAB. Os que não podem, muitos escondem no bolso aquele broche para não se expor ao risco da descompostura pública.

Atrito entre Legislativo e Judiciário virou assunto constante. Ganhou até uma rubrica: “Crise”.

Se crise há, esta parece assolar o Parlamento, que perdeu sua capacidade de promover o entendimento e de utilizar de ferramentas próprias para dirimir conflitos ou solucionar as coisas na base do voto mediante argumentos justos, parâmetros aceitáveis e, com isso, possibilitar o acatamento à decisão tomada.

Daí a impressão de bagunça – tratada como institucionalmente danoso conflito entre poderes – decorrente das recorrentes desavenças provocadas por decisões judiciais.

Vereditos fornecidos, bom que se tenha sempre claro isso, a pedido. Não se pode dizer, para usar expressão vulgar, que o Supremo Tribunal se mete onde não foi chamado, porque a Justiça só age quando é chamada.

Provocado, o juiz atua. Perguntado, responde. Agora, se a resposta não agrada ou nem sempre leva em conta o desdobramento político que acarretará – como ocorrido com a permissão de o PSD entrar na partilha do Fundo Partidário e do horário eleitoral como se já tivesse passado pelo crivo das urnas – é outra história.

O Congresso certamente terá menos do que reclamar, sentir-se-á menos “invadido” pelo Judiciário se recuperar sua capacidade de mediação, dedicar-se à arte da melhor política e deixar que o STF cuide de seus fazeres, que não são poucos.

Peneira

A direção nacional do PT baixou uma ordem unida proibindo a seção maranhense de fazer críticas ao clã Sarney e à situação de penúria do estado. O ato não apaga a realidade.

O Maranhão continua tendo o segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano, a segunda maior taxa de mortalidade infantil do país e está em quarto lugar no quesito analfabetismo.


Tiro de canhão, tiro no pé - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 28/04

BRASÍLIA - A semana passada foi de crise e esta será de sorrisos e salamaleques, mas a crise continua.

O grande problema não é de forma e de retórica apenas, mas sim de conteúdo. Logo, a crise só acaba com o fim de seus dois pivôs.

São eles um projeto que visa aniquilar uma candidatura e enfraquecer a oposição em favor da reeleição da presidente e outro que dá ao Congresso poder de veto em decisões tomadas pelo Supremo Tribunal Federal (Supremo Tribunal Federal!). Seria cômico, não fosse trágico.

Até casuísmos têm limite, e o Congresso aprovar a lei pró-Dilma e anti Marina a um ano e pouco da eleição tem um ranço "bolivariano" incompatível com o Brasil. As regras não favorecem o rei (ou a rainha)? Mudem-se as regras!

E o projeto de emenda constitucional aprovado em minutos pela CCJ da Câmara para atacar e retaliar o Supremo é de uma violência e de uma irresponsabilidade poucas vezes vistas na democracia deste país.

Uma ousadia sem tamanho, iniciada por um parlamentar do partido do governo e encaminhada alegremente (ou seria o oposto, raivosamente?) pelos que não se conformam com a independência e a lisura do Supremo no julgamento do mensalão. A corte suprema não se rendeu ao poder? Puna-se a corte!

Ao se reunirem amanhã, distribuindo sorrisos e amabilidades diante das câmeras, o ministro Gilmar Mendes e os presidentes da Câmara e do Senado, Henrique Alves e Renan Calheiros, darão mostras de civilidade e responsabilidade. Mas o problema transcende a eles.

O que Lula, Dilma, o PT e parte do PMDB não percebem é que, radicalizando, fortalecem o outro lado e a ideia de um bloco alternativo ao projeto Lula-Dilma.

Os dois projetos e a crise criaram o ambiente perfeito para um acordo de cavalheiros (e de damas) entre Aécio, Eduardo Campos, Marina e seus seguidores. Seriam tiros de canhão, viraram um tiro no pé do PT.


Desoneração caótica - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 28/04

Princípio de diminuir e eliminar tributos que tolhem a produção e o emprego está certo, mas série de medidas pontuais aumenta a confusão

Mesmo quando atua com uma agenda positiva, o governo federal tem dificuldade em mostrar à sociedade um roteiro claro de onde pretende chegar. É o caso do programa de desonerações tributárias, que já engendrou renúncia fiscal de R$ 43 bilhões em 2012, segundo estimativa da Receita Federal.

As tentativas de reduzir impostos vêm desde 2006, com a medida provisória apelidada de MP do Bem, que cortou tributos de setores como informática.

A partir de 2011, já no governo Dilma Rousseff, as iniciativas se tornaram mais numerosas. Inicialmente, buscou-se reforçar a competitividade de segmentos industriais prejudicados pela valorização do real e pelo aumento dos custos de mão de obra.

O Planalto remediou essas dificuldades com a desoneração da folha de pagamento, eliminando a contribuição previdenciária de 20% sobre os salários em troca de um aumento na tributação sobre o faturamento. Os primeiros setores desonerados foram calçados, móveis, confecções e software.

Outros segmentos foram depois agraciados com o benefício --atualmente são 42. Serviços como hotelaria, grande empregador, também foram favorecidos. O objetivo já não era tanto competir no mundo, mas gerar empregos aqui.

A agenda da competitividade foi reforçada com a redução dos preços da energia, obtida em parte com cortes de impostos.

Mais recentemente, a preocupação com a inflação levou à redução de PIS e Cofins para produtos da cesta básica. A presidente disse em cadeia nacional esperar queda proporcional dos preços. Isso não ocorreu, contudo.

Há ainda os cortes de impostos para bens de consumo, como automóveis, que tiveram repetidos abatimentos na alíquota do IPI. Foi a fórmula encontrada para sustentar vendas e evitar um colapso da produção. De quebra, também reduziram temporariamente a inflação.

O problema é que os resultados demoram a aparecer. De todas as iniciativas, a mais bem-vinda é a desoneração da folha salarial, por seu impacto na geração de empregos. As outras, porém, perseguem objetivos pouco transparentes.

A escolha a dedo de setores beneficiados, além disso, amplia o balcão de negócios instalado em Brasília. Muito melhor seria uma desoneração horizontal, para a economia como um todo.

Por fim, a ação do governo ignora que boa parte dos percalços das empresas resulta da dificuldade de cumprir o cipoal de regras sobre impostos. Problema, aliás, agravado pela proliferação de regimes tributários especiais.

É importante e correto desonerar. Falta, contudo, demonstrar como a política até aqui executada se coaduna com o objetivo geral de reduzir os impostos que mais oneram a produção (PIS, Cofins e ICMS) e simplificar drasticamente a legislação tributária.

Diplomacia brasileira precisa voltar ao pragmatismo - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 28/04

Ações motivadas por afinidades ideológicas fazem país patinar, perder oportunidades e espaço no comércio internacional


O presidente eleito do Paraguai, Horacio Cartes, é favorável ao rápido regresso do país ao Mercosul, do qual foi suspenso por Brasil, Argentina e Uruguai em 29 de junho de 2012, como sanção pelo impeachment do presidente Fernando Lugo, no que foi considerado pelos três países um golpe parlamentar. Em manobra polêmica, Brasília, Buenos Aires e Montevidéu puniram o Paraguai para abrir caminho à entrada da Venezuela como membro pleno do bloco comercial. O Congresso paraguaio era o único Legislativo dos integrantes do Mercosul a bloquear o ingresso de Caracas. O obstáculo foi superado com a suspensão.

Isto foi confirmado já com o país suspenso. Em sessão de 23 de agosto, o Senado paraguaio rejeitou a entrada do novo sócio. É provável que Cartes tenha sucesso em reverter a decisão após sua posse, em agosto, pois seu Partido Colorado obteve maioria simples na Câmara dos Deputados (44 das 80 cadeiras) e uma bancada de 19 parlamentares no Senado de 45. Mas não são favas contadas.

Imprevistos poderão significar nova saia justa para a política externa brasileira, que adota dois pesos e duas medidas por conta da “diplomacia companheira”, de fundo ideológico. Para permitir o ingresso da Venezuela chavista no Mercosul, Brasília comandou o boicote ao Paraguai após o impeachment do “companheiro” Lugo.

O bloco comercial agora reúne a Venezuela, inimiga número um dos Estados Unidos na América Latina; a Argentina, que não tem boas relações com Washington e se isola; o Brasil, que caiu num antiamericanismo pueril pela retrógrada visão Norte-Sul dos governos do PT; e o Uruguai. O problema é que os EUA ainda são a única potência e o maior mercado consumidor do mundo. Não se pode fingir que não existe.

EUA e União Europeia anunciaram negociações para um formidável acordo comercial. Na América Latina, México, Peru, Colômbia e Chile, países com economias dinâmicas, se lançam na Aliança do Pacífico. Há enorme efervescência na Ásia. Segundo disse ao “Estado de S. Paulo” Ana Paula Zacarias, embaixadora da UE no Brasil, “ao todo, no mundo, estão sendo negociados cerca de 300 acordos comerciais”. Enquanto isso, o Brasil fica preso a um Mercosul em crise e decadente, que não consegue avançar nas negociações iniciadas em 2010 para um acordo com a UE.

A relação comercial com a Venezuela é importante, desde que não atrapalhe os demais interesses do Brasil. Este não pode abrir mão de seu papel de líder na América Latina em função de companheirismos ideológicos. A política externa brasileira precisa deixar de lado os dois pesos e duas medidas e voltar a refletir essa liderança, retomando o pragmatismo responsável.

A política do cidadão - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 28/04

É preciso desmistificar a noção preconceituosa de que a política é exercida somente por pessoas corruptas ou de mau caráter



A Gazeta do Povo inicia hoje a campanha Política Cidadã, com o objetivo de estimular os cidadãos a participarem do ambiente público do país tanto pela via partidária quanto pela via apartidária. É urgente resgatar o interesse pelo exercício da cidadania ativa, em especial se o Brasil quiser prosseguir no desenvolvimento de suas instituições e no fortalecimento da sociedade.

Atualmente há uma carência notória de engajamento político dos cidadãos. Uma das explicações possíveis para isso é a descrença da população em relação aos políticos. O impeachment do presidente Fernando Collor de Mello – o primeiro presidente eleito de forma direta depois da ditadura militar –, em 1992, foi apenas o início de uma série de escândalos políticos a que o país assiste desde então. Sucessivas denúncias de corrupção atingiram dirigentes políticos nos últimos 20 anos e muitos cidadãos passaram a rejeitar a ideia de se envolverem mais intensamente com o ambiente público. Frequentemente passaram a se dizer decepcionados com a política e optaram por um distanciamento “seguro” dos assuntos públicos, limitando o exercício da cidadania ao voto nas eleições que ocorrem a cada dois anos.

O grande problema é que a apatia social tem resultado em efeitos desastrosos para a vida em sociedade. Sem cidadãos atuantes, interessados em participar e influenciar no processos de tomada de decisão do Estado brasileiro, parte dos políticos se sente livre para se apropriar de bens públicos, desviar recursos e perseguir apenas os próprios interesses em detrimento de interesses mais amplos da comunidade. O distanciamento dos cidadãos em relação aos assuntos públicos contribui para ampliar as imperfeições da democracia brasileira.

Pesquisa recente mostrou que, pela primeira vez desde 1988, o número de brasileiros apartidários superou o de eleitores que dizem ter preferência por alguma legenda política. Segundo pesquisa do Ibope realizada em 2012, 56% dos eleitores afirmam não preferir nenhum partido, contra 44% que declaram ter preferência partidária.

Mas nem sempre foi assim. Há quase três décadas o país viveu um momento de intensa participação popular na política, com o movimento das Diretas Já e da redemocratização do país. Naquele período a população esteve mobilizada, reivindicando liberdade política. Contudo, o engajamento popular foi declinando à medida que os direitos civis iam se consolidando.

A campanha Política Cidadã tem a proposta de reconciliar as pessoas com o ambiente político. É preciso desmistificar a noção preconceituosa de que a política é exercida somente por pessoas corruptas ou de mau caráter. É preciso também apresentar instrumentos que permitam ao cidadão atuar de forma mais sistemática no mundo político. A campanha pretende fazer esse resgate e, para isso, conta com o apoio da sociedade.

Mas outro objetivo igualmente importante da campanha é fazer o cidadão perceber que a questão partidária é apenas um dos âmbitos da política, apesar de ser o mais visível deles. Muitas atividades e situações são importantes demais para que sejam deixadas apenas nas mãos do Estado e dos políticos: elas exigem a participação ativa da sociedade. Ontem mesmo, neste espaço, recordamos como a mobilização em defesa do Passeio Público, em Curitiba, partiu primeiro dos próprios curitibanos, para só depois ser encampada pelo poder público.

Esta Gazeta do Povo acredita firmemente que os principais protagonistas da ação pública devem ser os cidadãos, individualmente ou de forma organizada, em grupos, associações de bairro, entidades de classe ou qualquer outra maneira de congregar pessoas com objetivos em comum; ao poder público cabe complementar essa atuação auxiliando os esforços da comunidade e realizando as tarefas que a sociedade não consegue cumprir por conta própria. Exemplos desse tipo de protagonismo existem aos montes, alguns deles ressaltados também neste espaço, como o caso dos curitibanos que resolveram arborizar áreas da cidade, e dos empresários de Antonina que se uniram para reformar um trapiche. Pode não parecer à primeira vista, mas isso também é política, e da melhor forma: aquela que leva ao pleno uso daquilo que cada cidadão tem de melhor para oferecer aos demais.


O Brasil pintado de rosa - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 28/04
Com produção em alta, inflação em queda, finanças públicas em ordem e contas externas bem sólidas, o Brasil vai bem, no mundo imaginário do Ministério da Fazenda, retratado na edição de março do boletim Economia Brasileira em Perspectiva. Nesse universo de fantasia, o único fator de perturbação é a crise internacional.
Sem ela, a situação do País seria ainda mais brilhante. Mas essa história feliz se desfaz quando se examinam com alguma atenção os números divulgados pelas próprias fontes oficiais. Exemplo: com um buraco de US$ 67 bilhões, o Brasil exibiu nos 12 meses terminados em março o pior resultado das contas externas desde 2002. O rombo acumulado nas transações correntes com o exterior chegou a 2,93% do PIB. As transações correntes englobam a balança comercial, a conta de serviços e as transferências unilaterais. No boletim da vida cor-de-rosa, os resultados são "estáveis" .e facilmente financiáveis com investimentos estrangeiros diretos.

Os fatos desmentiram essa última afirmação nos 12 meses terminados em março, quando aqueles investimentos somaram US$ 63,6 bilhões. Foi necessário, portanto, completar com outros recursos, provavelmente mais especulativos, a cobertura do buraco.

A realidade conflita com a avaliação do Ministério da Fazenda em muitos outros pontos. O comércio vai mal, as importações têm crescido bem mais que as exportações e o País continua muito dependente das exportações de commodities para a China e outros mercados emergentes - uma tendência resultante dos erros cometidos pela diplomacia comercial petista a partir de 2003.

No mundo imaginário do Ministério da Fazenda, a economia brasileira retomou com firmeza o crescimento, depois de dois anos de fiasco. O fracasso de 2011 e 2012 é atribuído, naturalmente, às más condições internacionais. Como de costume, evita-se um tema delicado e incômodo: o desempenho muito melhor de outras economias em desenvolvimento. A nova fase de prosperidade brasileira, segundo o boletim, será sustentada por investimentos crescentes. Em 2012, o governo e o setor privado investiram o equivalente a 18,1% do PIB. A proporção havia chegado a 19,5% em 2010.

Para 2013 o Ministério projeta um número maior que o de 2012, sem bater, no entanto, em 20% do valor do produto interno. A projeção indica uma trajetória de alta contínua até 24% do PIB em 2018. Nesse momento, o País estará investindo, talvez, o necessário para um crescimento sustentável de uns 5% ao ano ou pouco mais. A aplicação de recursos em máquinas, equipamentos, construções privadas e infraestrutura continuará, portanto, muito abaixo do volume necessário por vários anos. Isso é uma confissão de impotência feita com palavras de otimismo e de confiança.

A embromação fica mais evidente quando se apresentam detalhes das grandes vitórias da política econômica. Segundo o relatório, já se aplicaram R$ 328,2 bilhões nos projetos do PAC 2, tendo sido concluídos 46,4% das ações previstas. Como de costume, a realização mais vistosa foi a destinação de dinheiro ao programa Minha Casa, Minha Vida - R$ 188,1 bilhões, ou 57,3% do total empregado.

Estimular a construção habitacional pode ser muito bom, mas investimentos planejados para aumentar produtividade e a competitividade da economia nacional pertencem a categorias muito diferentes. Em energia, por exemplo, foram gastos apenas R$ 108,1 bilhões. Em transportes, míseros R$ 27,7 bilhões, apenas 8,4% dos R$ 328,2 bilhões aplicados no PAC 2. Nada mais natural, portanto, que as dificuldades para levar aos portos a soja destinada à exportação.

Quanto às contas públicas, aparecem no boletim como em ótimas condições. Não há uma palavra, é claro, sobre a contabilidade criativa para o fechamento das contas fiscais nem sobre o mal disfarçado endividamento do Tesouro para apoiar os bancos públicos. Muito menos uma palavra sobre o uso desse dinheiro para financiar empresas escolhidas para ser campeãs nacionais nem sobre a quebra de várias dessas favoritas da corte.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Não aceitamos que o Judiciário influa nas questões legislativas”
Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Congresso, tentando estabelecer limites


ITAMARATY MANTÉM CÔNSUL ACUSADO DE ASSÉDIO

Em novo abaixo-assinado ao chanceler Antonio Patriota e a Heraldo Povoa, corregedor do Itamaraty, os funcionários do Consulado-Geral do Brasil em Sidney (Austrália) pedem o afastamento preventivo do embaixador Américo Fontenelle e do adjunto César Cidade, acusados de assédio moral e sexual há mais de três meses. Dizem eles que Fontenelle circula no consulado avisando: “Isso não vai dar em nada”.

ÉTICA DE PELICA

O processo administrativo já deveria ter sido aberto com o imediato afastamento dos dois, mas o Itamaraty só abriu processo ético.

‘FICHA LIMPA’

O embaixador poderá sofrer apenas sanções, mantendo a “ficha limpa” na carreira. A crise já prejudica o funcionamento do consulado.

FORNO ACESO

Acabou em pizza a primeira investigação no Canadá contra Fontenelle, que alardeia sua amizade com José Dirceu e figurões do Itamaraty.

NA MOITA

Eduardo Campos pediu a aliados que não declarem apoio público a sua candidatura até ser confirmada. Não quer causar-lhes problemas.

MANSÃO DE ERENICE VOLTA AO LIMBO, NO LAGO SUL

Recuperaram a tranquilidade os moradores de uma pacata rua da QI 11 do elegante bairro Lago Sul, em Brasília, antes incomodados pelo frenético entra e sai de carros oficiais de ministros e parlamentares, e carrões de lobistas. Após a revista Veja revelar as suspeitas atividades da ocupante da requisitada mansão, onde funciona o escritório da ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra, a paz finalmente voltou a reinar.

RECONDUÇÃO

O governador Beto Richa costurou acordo e deverá ser reconduzido ao comando do PSDB no Paraná em convenção estadual neste domingo.

QUASE CERTO

O PSDB e o DEM caminham para apoiar o peemedebista Geddel Vieira Lima (PMDB) na disputa contra PT ao governo da Bahia em 2014.

VIDA ALÉM DE LIMINAR

Jô Morais (PCdoB-MG), em mensagem motivacional aos colegas: “A lua estará brilhando pra você, sem depender de liminar do STJ”.

AÇÃO E REAÇÃO

Assim que o deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) começou a recolher assinaturas para a CPI da Caixa, para investigar lavagem de dinheiro nas loterias, o banco pediu uma reunião “imediata” com ele.

TUDO MUITO ESTRANHO

Garotinho marcou para a próxima semana a reunião que a Caixa Econômica Federal pediu, mas ele avisa que não citou “nem 10% das irregularidades”, como os 550 acertos de um apostador e 107 prêmios no mesmo dia para outro.

NINGUÉM MERECE

O ministro Joaquim Barbosa ainda saboeira sua inclusão na lista da revista Time das cem pessoas mais influentes do mundo. Mas não esqueceu o que viu dias antes no presídio de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte. Ficou chocado, é uma pocilga. E o governo local nada faz.

BATE EM MIM

A presidente Dilma prestigiava um grupo de assessores chamados de “espancadores”, no papel de advogado do diabo de projetos. Mas esse grupo perdeu o élan e não se reúne mais. Agora são os espancados.

PRIMEIRA OPÇÃO

O PMDB quer lançar Paulo Hartung contra Renato Casagrande (PSB) ao governo capixaba, em 2014. Apesar das acusações de corrupção que pesam contra Hartung, o partido avalia que ele tem mais condições de vitória, além de garantir palanque à presidente Dilma.

CENÁRIO 2014

Em busca de palanques para 2014, o presidenciável Eduardo Campos articula para lançar ex-governadora Wilma de Faria (PSB) candidata ao governo potiguar. Já o PT cogita lançar a deputada Fátima Bezerra.

LIDERANÇA

Do deputado Paulo Wagner (PV) ao presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB), durante viagem da bancada potiguar para uma reunião na Petrobras: “Nem seu pai conseguiu reunir tantos inimigos numa mesma viagem”. Henrique sorriu, encabulado.

PENSANDO BEM...

...veio na hora certa para o cofrinho de Lula a coluna no site do New York Times com o dólar acima de R$ 2.



PODER SEM PUDOR

GOVERNO DESMORALIZADO

Conta o escritor Carlito Lima uma história engraçada envolvendo o jornalista Floriano Ivo Jr, irmão do saudoso poeta Lêdo Ivo e assessor de Lamenha Filho, governador de Alagoas nos anos 1970. Certa vez, Floriano foi designado a representar o chefe numa exposição agrícola. O gesto irritou o fazendeiro e deputado Nelson Costa, promotor do evento:

- Esse governo está desmoralizado... Mandar um assessor...

Floriano não contou conversa:

- O governador escolhe as solenidades que vai. Às importantes, ele faz questão de ir, mas nessas merdas ele me manda representá-lo...

DOMINGO NOS JORNAIS


Globo: Trabalho sem lei: CLT faz 70 anos com 18 milhões sem carteira
Folha: Cotistas têm pior resultado entre universitários
Estadão: STF prepara reação institucional contra proposta da Câmara
Correio: A selvageria de punks e skinheads está de volta
Estado de Minas: Guia do remédio barato
Jornal do Commercio: Os descaminhos da Copa
Zero Hora: Órfãos da violência doméstica

sábado, abril 27, 2013

Vote limpo - RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA

Uma democracia consolidada não pode transformar um exercício de cidadania em dever draconiano


É muita cara de pau exigir do eleitor brasileiro que “vote limpo”. Como se a lisura de nossa democracia dependesse de mim e de você. Durante dois meses, a televisão transmitiu 20 vídeos por dia para convencer o cidadão “infrator”, que não votou nas três últimas eleições, a pagar multa e regularizar sua situação. A campanha custou R$ 184 mil – de verba pública. E ameaçava punir pesado. O prazo terminou na última quinta-feira, 25 de abril.

Havia mais de 1,5 milhão de eleitores em falta com a Justiça Eleitoral. Desses, 129 mil ficaram “quites” nos últimos dias. O resto, pau neles. São maus cidadãos. O título de eleitor será cancelado, serão impedidos de tirar documento de identidade e passaporte, não poderão obter alguns empréstimos nem se matricular em qualquer escola ou universidade pública.

Não está certo. Um país que se gaba de ser uma democracia consolidada não pode transformar um exercício de cidadania num dever draconiano. Se não votarmos por impedimento geográfico ou inapetência pelo jogo sujo dos políticos, somos obrigados a nos justificar? Entre as dez primeiras economias do mundo, o Brasil, em sétimo lugar, é o único país a manter o voto obrigatório. Quem defende essa excrescência fala “em nome da representatividade”, mesmo forçada.

Os intelectuais adeptos do voto compulsório dizem que, se o voto for facultativo, menos pobres e mais ricos votarão – e o resultado da eleição será distorcido em favor da elite. É uma bobagem. Reforça a tese discriminatória de que “pobre não sabe votar”. Tantos países ricos têm lamentado a alta abstenção nas eleições. É cansativa, preconceituosa e ilusória essa tentativa de dividir as opiniões, as ideologias e a consciência da sociedade entre ricos e pobres. Como se a vontade de votar dependesse do contracheque. E como se os ricos tivessem mais motivo para votar.

O voto obrigatório mascara o real interesse da população na eleição. Faz muita gente (de todas as classes sociais) eleger “rostos conhecidos” ou “amigos de amigos”. Falta maior consciência do eleitor, falta educação política? Falta. O voto facultativo levaria às urnas quem acha que sua escolha pode mudar o atual estado de coisas. Falta vergonha na cara dos políticos, falta transparência nos gastos públicos? Falta. O voto facultativo obrigaria o Estado a fazer campanhas sobre a importância de participar do processo democrático. Obrigaria os políticos a se preocupar mais com sua ficha corrida e a prestar contas de seus atos. O voto seria dado com consciência e por convicção, não por medo de pagar multa. Hoje, no Brasil, o cidadão que não está em dia com a Justiça Eleitoral “não está em pleno gozo de seus direitos civis”.

Ora, diante de um Renan Calheiros presidindo o Senado... Diante do pastor Feliciano cuidando dos Direitos Humanos... Diante da presença dos mensaleiros José Genoino e João Paulo Cunha e do deputado Paulo Maluf na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara... Diante do senador cassado Demóstenes Torres como promotor vitalício no Ministério Público em Goiás... Diante da manobra casuísta do governo Dilma para boicotar futuros potenciais adversários em 2014, como a ex-senadora Marina da Silva... Diante da lentidão da Justiça, que pode devolver à vida pública o ex-governador condenado do Distrito Federal José Roberto Arruda... Diante da censura do PT nacional a qualquer crítica aos Sarneys na TV do Maranhão, por pedido de Roseana a José Dirceu... Diante do salário de R$ 15 mil para garçom que serve cafezinho no Senado, nomeado por ato secreto... Bem, diante de tudo isso, qual eleitor e cidadão está “em pleno gozo” de alguma coisa? Eles é que estão gozando com a gente. E ainda exigem que eu vote limpo.

Na briga entre Congresso e Supremo, com quem fica a palavra final? É uma briga chata de doer. Não há santos nem no Judiciário nem no Legislativo. Mas o momento favorece o Supremo. É no Congresso que condenados e cassados se locupletam. O deputado Nazareno Fonteles (PT-PI), autor da emenda contra o STF, se queixa de que “o Judiciário vem interferindo em decisões do Legislativo; há uma invasão de competência”. Ou seria “de incompetência”?

Ao ver na semana passada as imensas filas diante de cartórios para justificar a “infração eleitoral”, fiquei constrangida. O voto obrigatório ofende a democracia, desonra a expressão “direito de voto”. Se posso anular meu voto ou votar em branco, por que sou obrigada a comparecer às urnas? Voto porque quero, mas respeito quem não quer. O Brasil se livrou da ditadura. Numa democracia formal, o eleitor vota se quiser, se algum candidato o representar e se achar que sua opinião conta. Um dia essa obrigação cairá, por bom-senso. Por enquanto, se os políticos querem um voto limpo, façam sua parte. Comportem-se.


O oitavo pecado - ARNALDO BLOCH

O GLOBO - 27/04

‘Cada um corre o risco de ser chato. (...) O chato puro, contudo, não aceita zonas cinzas: diante dele, nenhuma unanimidade é burra’


A ideia de que a chatice é o maior dos pecados faz parte do arsenal de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, um dos maiores e mais divertidos pensadores da cultura carioca.

Embora espirituosa, a máxima de Stanislaw não é peça de humor, mas uma denúncia: tida habitualmente como um mal circunstancial, necessário, “leve”, a chatice na realidade é a pior das perversões. O oitavo pecado capital.

A chatice corrói e corrompe as relações. Consome tempo incalculável de vida, exaurindo corpo e alma. Inibe o gozo e produz tédio, melancolia e depressão nas almas educadas que deixam germinar sua semente.

Já nas almas aguerridas que cismam em reagir, a chatice causa acessos de fúria assassina ou perda das faculdades da razão, o que em nada ajuda a causa da résistance.

O equívoco, talvez até a cegueira, na guerra dos chateados contra a chatice é crer que o chato é, sempre, inocente. Ele pode ser culpado de seus atos e por eles ser condenado, mas jamais irá em cana. O chato escapa do paredón pois a culpa, em última análise, é da chatice, faculdade transcendental.

É aí que está o erro. Ao considerar-se o chato um indivíduo inimputável, abrem-se as comportas para que os mais conscientes usem o poder da chatice como um meio para fins muito mais graves que o ato simples e isolado de aporrinhar o próximo.

Em outras palavras, o chato mal-intencionado está livre para destruir a comunhão entre iguais. Ele interrompe encontros harmoniosos, estraga festas, inibe gozos, corta climas, desvia assuntos e espalha argumentos nos quais nem acredita só com o intento de desorientar pensamentos que procuram convergir, levando-os de volta às trevas.

Cada um corre o risco de ser chato ao olho subjetivo do outro. O chato puro, contudo, não comporta zonas cinzas: diante dele, nenhuma unanimidade é burra.

Da teoria à prática

Semanas atrás, estacionei numa rua em Laranjeiras, onde tenho aulas de piano. A rua é confusa, mão dupla, carros parados, atropelamentos de motocicleta. Pus-me no que acreditava ser uma vaga: meio-fio alto e espaço entre dois carros.

Uma hora depois voltei cantarolando e instalei-me na poltrona.

Girei o pescoço para o lado direito e lá estava ele, debruçado no vidro.

— O senhor sabe onde está parado?

— Como assim?

— Olhe bem onde o senhor está parado.

Olhei bem e vi um portão sem número, de cor parecida com a do muro, muito difícil de identificar como garagem, ainda mais com o meio-fio de meio metro, sem rampas. Mas não quis discutir. Esqueci os argumentos atenuantes e parti para o perdão.

— Desculpe. Eu realmente não percebi.

Ele não deu sinal de reconhecimento.

— Mas como é que o senhor faz isso? Jura que não viu mesmo? Ocupou minha garagem por uma hora.

— Juro que não vi. Estava realmente um pouco distraído, o meio-fio é alto, o portão indefinido, desta vez falhei mesmo.

Minha humildade era vã.

— O senhor devia ver isso. O senhor deve ser mesmo muito distraído. Como é que pode?

— É verdade. Sinto muito. Vou ver isso. O senhor teve algum dano? Precisou sair com o carro neste meio-tempo?

— Não. Mas isso não vem em absoluto ao caso. Não é desculpa.

— Não, não é desculpa. Fiquei preocupado que o senhor tenha tido um prejuízo maior com a minha infração.

— A sua infração foi devidamente anotada e comunicada.

— Ah, sim, o senhor ligou para as autoridades. Claro que sim.

— Sim, eles vieram e anotaram.

— Obrigado por avisar, vou ficar de olho no correio. O senhor fez o que devia fazer. Como dizem os filmes americanos, o senhor fez a coisa certa. Obrigado.

— E o senhor fez a coisa errada.

— Sim, indiscutivelmente. Agora, se o senhor me permite, eu vou indo, tenho um compromisso, não posso fazer mais nada para minimizar o seu sofrimento e o meu.

Ele ficou parado, pasmo ainda, diante da janela enquanto eu manobrava.

Estava visivelmente inconformado.

Eu poderia ter dado melhor troco. Perguntado o que essa criatura faz na vida.

Há quanto tempo não tem um intercurso ou um sorriso em sua vida.

Poderia ter informado que de almas como a dele nascem os grandes dedos-duros de pequenos delitos, os carrascos de ladrões de maçã, as polícias do pensamento, os torturadores, os príncipes da intolerância e os fascismos de todas as cores.

Aquele homem era, sem dúvida, um objeto de estudo de costumes, um herói pós-balzaquiano da decadência humana.

Omisso ou não, escolhi poupá-lo de maior punição por seus vis pecados. E voltaram a ocupar minha mente os exercícios de piano.

Mulheres (des)cobertas - LAURA GREENHALGH

O Estado de S.Paulo - 27/04

E a briga entre as ativistas do peito aberto e as muçulmanas defensoras dos véus? Que embate... De um lado, as moças do Femen, organização nascida na Ucrânia, de orientação "sextremista". No cocuruto de uma estátua, em frente a uma mesquita, na Praça São Pedro, em Roma, ou num estúdio de TV, elas tiram a blusa com a velocidade do raio. E mostram os seios, em protesto pela opressão feminina. Do outro lado, alistam-se as seguidoras do Islã tradicional, milhares de adeptas dos jihabs e niqabs, decididas a não baixar a guarda. Juram por tudo que é sagrado, e aqui não se trata de força de expressão, que jamais serão subjugadas por feministas etnocêntricas, degradadas e por aí vai.

Os dois exércitos se engalfinham desde o mês passado, quando uma jovem da Tunísia, Amina Tyler, de 19 anos, postou na internet fotos nua da cintura para cima, com slogans sobre os seios: "my body is my own" (conhecido bordão feminista) ou "f*ck your morals" (empunhando um cigarrinho). Antes que acendesse outro, a batata já assava na Comissão de Promoção da Virtude, órgão do regime tunisiano que zela pela orientação moral e religiosa da população. Almi Adel, à frente da comissão, decretou que Amina deveria ser punida segundo o código da sharia, merecendo 80 a 100 chibatadas para começar e apedrejamento até a morte para completar o serviço. Mas, como estava de bom humor naquele dia, ordenou que ela fosse recolhida a um hospital psiquiátrico, "para se curar".

As louras do Femen (parecem primas da Sharapova) endiabraram. Lançaram o Topless Jihad Day, com o alerta de que muitas muçulmanas irão se despir nos próximos tempos. A jihad pipoca na Europa. Aleksandra Shevchenko, líder "femenista", foi presa dias atrás ao literalmente peitar a polícia alemã diante da chanceler Angela Merkel e do presidente russo Vladimir Putin (este só perde para Berlusconi, "o bastardo", no ódio das ativistas). Muçulmanas dão o troco. Propagam o Muslimah Pride Day, sucesso no Facebook, e a campanha Muslim Women Against Femen.

Para quem não vive com seios à mostra nem se cobre com uma barraca de camping para ir ao supermercado, o embate parece bizarro. Mas não é. O Femen nasceu denunciando o turismo sexual na Ucrânia, depois incorporou a crítica ao patriarcado. Tal como o poeta, a organização sacou que beleza é fundamental... à causa. Suas ativistas são jovens, esbeltas, usam guirlandas de flores na cabeça, como fadinhas, e chutam os genitais da polícia, com coturnos. Têm a noção do espetáculo quando presas por atentado à ordem pública, delito do qual se safam. Só que Amina corre risco: passou por testes de virgindade, está sob vigilância da comissão e sua família tornou-se alvo do desprezo social. Com uma rebeldia tão pulsante quanto seus hormônios, Amina foi recrutada por "femenistas" de Paris.

É interessante ver a reação ao Femen. Nas redes sociais, muçulmanas defendem o corpo da mulher sob a veste tradicional - "my hijab, my choice, my dignity", postou uma delas. Outras dizem que não precisam ser salvas por feministas colonizadas, "agentes da guerra ideológica que dissemina a islamofobia no mundo". São defendidas por homens que as chamam de "irmãs" - "go and stay strong, sisters". Na região de Khar, no Paquistão, um ermo habitado por radicais e drones, a muçulmana Badam Zari ousa disputar um cargo político. Tem o apoio do marido, a estupefação da tribo e uma torcida que vem de longe. Aonde isso vai dar? Sabe-se lá. Porém, na gritaria da internet, mundos distantes se confrontam. Convicções arraigadas, idem. E tudo se passa no campo das representações do feminino. Terá sido sempre assim?

Guerreiras, virgens, sacerdotisas, feiticeiras, parece que a humanidade caminha atada às nossas vestes. Em 1995, em meio à balbúrdia da Conferência da ONU para Mulheres, na China, me vi frente a frente com uma intelectual saudita, coberta dos pés à cabeça. Nunca tinha estado com alguém naqueles trajes. Manifestei interesse jornalístico e propus que conversássemos. A acadêmica teve um surto. Disse que estava farta das feministas, da conferência, dos chineses e, me encarando com o único naco descoberto do corpo, perguntou: "Sabe qual é a diferença entre nós duas? Eu sou feliz". Deu as costas, deslocando no ar a pesada massa de panos. Senti o baque. Mas logo saí caminhando pelas ruas de Beijing, de bem com a minha felicidade imperfeita.

Torpedo Ilegal - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 27/04

Das 5 bilhões de mensagens de texto enviadas mensalmente no Brasil, 35% utilizam as chamadas rotas ilegais. Desse total, 30% são de SMS corporativos enviados por meio de "chipeiras", espécie de máquina que utiliza chips pré-pagos de várias operadoras para fazer "spam". Já 5% dos torpedos partem de operadoras instaladas em outros países.

PAINEL
A adoção das rotas ilegais é uma forma de burlar o sistema de cobrança das operadoras, roubando os códigos das empresas para não pagar pelos torpedos. Os dados, coletados em pesquisa do MEF (Mobile Entertainment Forum), serão apresentados no evento Tela Viva Móvel, em maio, em São Paulo.

NA PRATELEIRA
José Luís Próspero afirma que sua saída do cargo de diretor-presidente da editora Saraiva, função que ocupava desde 2005, foi de comum acordo com a empresa. "Vou continuar mantendo vínculos para novos projetos", diz. A sua saída intensificou os rumores de que a editora estaria sendo vendida para a Amazon, maior varejista on-line do mundo. Ele não comenta.

VIAJAR É PRECISO
Se política externa pudesse ser feita "por fax e por e-mail, a Hillary Clinton não teria viajado tanto, o [Henry] Kissinger também não", diz Lula em entrevista para o livro "Dez Anos de Governos Pós-Neoliberais no Brasil: Lula e Dilma", organizado por Emir Sader, que chega às livrarias em maio. "A relação humana produz uma química entre as pessoas. Você tem que conversar, pegar na mão, abraçar a pessoa. Tem de olhar no olho."

QUASE TUDO
O mensalão não foi tema da entrevista de duas horas e meia concedida em fevereiro a Sader e ao sociólogo Pablo Gentili --e que tem sido anunciada como o primeiro balanço de Lula sobre sua gestão. O petista confirmou presença no Centro Cultural São Paulo, no dia 13, para o lançamento do livro da editora Boitempo. A primeira tiragem é de 4.000 exemplares.

ADEUS, SÉCULO 19
E já tem data o lançamento do livro "1889" (Globo Livros), de Laurentino Gomes, que fecha a trilogia "1808" e "1822". As duas obras chegaram, juntas, a mais de 1,5 milhão de cópias. O novo trabalho do jornalista será apresentado ao público durante o fim de semana de abertura da 16º Bienal do Livro do Rio, que ocorre entre 29 de agosto e 8 de setembro.

NAS ONDAS DO RÁDIO
Mariana Weickert comanda, a partir de quarta-feira, boletins diários sobre moda, gastronomia e qualidade de vida na rádio Iguatemi Prime.

Em junho, a modelo estreará como repórter do programa "A Liga", da Band.

SOBE SOM
Arthur Britto, Bernardo Rolla, Marcelo Tché, Pata e Pedro Pepe, da banda Holger, lançam hoje, no Museu da Imagem e do Som deSP, o clipe "Great Strings", dirigido por Luciano Ferrarezi (terceiro a partir da dir.) com apoio da Mixer, representada por Seb Caubron.

MUSEU PARTICULAR
A exposição "Modernidade - Coleção de Arte Brasileira Odorico Tavares" foi inaugurada, anteontem, no Museu Afro Brasil. O diretor da instituição, Emanoel Araujo, recebeu convidados como José Roberto Marcelino, diretor do Banco Safra, a galerista Andrea Rehder e a atriz Sephora Venites. Luciano Tavares, neto do colecionador Odorico Tavares, foi conferir a mostra.

SALVE HÜSEYIN
A curadora Kiki Mazzucchelli inaugurou a exposição "Istambul Agora 2013", no Sesc Pompeia, com peças do turco Hüseyin Bahri Alptekin, morto em 2007. Camila Rocha, viúva do artista, e seu filho, Marino Alptekin, o arquiteto Alvaro Razuk e Amanda Rodrigues Alves, da galeria Fortes Vilaça, estiveram no vernissage anteontem.

CURTO-CIRCUITO
Fafá de Belém cantará no largo do Arouche, dia 19, durante a Virada Cultural.

É hoje o último dia da exposição "Circuito de Narrativas Líquidas", de Stela Barbieri, na Galeria Central, na Vila Madalena.

A banda Double You faz show na festa Sunset Clubinho, hoje, às 16h, no La Luna, no Butantã. 18 anos.

O projeto Espantaxim premia amanhã, no MAM, os campeões do 2º Concurso Nacional Literário Infantil.

Marcos Quintela, presidente da agência Y&R, receberá o prêmio Líder de Comunicação 2013, neste fim de semana.

O DJ Fernando Figueiredo e o músico Bruno Villa Maior farão a trilha da abertura da Copa das Confederações, em junho, em Brasília.

Darwin e a prática da 'Salami Science' - FERNANDO REINACH

O Estado de S.Paulo - 27/04

Em 1985, ouvi pela primeira vez no Laboratório de Biologia Molecular a expressão "Salami Science". Um de nós estava com uma pilha de trabalhos científicos quando Max Perutz se aproximou. Um jovem disse que estava lendo trabalhos de um famoso cientista dos EUA. Perutz olhou a pilha e murmurou: "Salami Science, espero que não chegue aqui". Mas a praga se espalhou pelo mundo e agora assola a comunidade científica brasileira.

"Salami Science" é a prática de fatiar uma única descoberta, como um salame, para publicá-la no maior número possível de artigos científicos. O cientista aumenta seu currículo e cria a impressão de que é muito produtivo. O leitor é forçado a juntar as fatias para entender o todo. As revistas ficam abarrotadas. E avaliar um cientista fica mais difícil. Apesar disso, a "Salami Science" se espalhou, induzido pela busca obsessiva de um método quantitativo capaz de avaliar a produção acadêmica.

No Laboratório de Biologia Molecular, nossos ídolos eram os cinco prêmios Nobel do prédio. Publicar muitos artigos indicava falta de rigor intelectual. Eles valorizavam a capacidade de criar uma maneira engenhosa para destrinchar um problema importante. Aprendíamos que o objetivo era desvendar os mistérios da natureza. Publicar um artigo era consequência de um trabalho financiado com dinheiro público, servia para comunicar a nova descoberta. O trabalho deveria ser simples, claro e didático. O exemplo a ser seguido eram as duas páginas em que Watson e Crick descreveram a estrutura do DNA. Você se tornaria um cientista de respeito se o esforço de uma vida pudesse ser resumido em uma frase: Ele descobriu... Os três pontinhos teriam de ser uma ou duas palavras: a estrutura do DNA (Watson e Crick), a estrutura das proteínas (Max Perutz), a teoria da Relatividade (Einstein). Sabíamos que poucos chegariam lá, mas o importante era ter certeza de que havíamos gasto a vida atrás de algo importante.

Hoje, nas melhores universidade do Brasil, a conversa entre pós-graduandos e cientistas é outra. A maioria está preocupada com quantos trabalhos publicou no último ano - e onde. Querem saber como serão classificados. "Fulano agora é pesquisador 1B no CNPq. Com 8 trabalhos em revistas de alto impacto no ano passado, não poderia ser diferente." "O departamento de beltrano foi rebaixado para 4 pela Capes. Também, com poucas teses no ano passado e só duas publicações em revistas de baixo impacto..." Não que os olhos dessas pessoas não brilhem quando discutem suas pesquisas, mas o relato de como alguém emplacou um trabalho na Nature causa mais alvoroço que o de uma nova maneira de abordar um problema dito insolúvel.

Essa mudança de cultura ocorreu porque agora os cientistas e suas instituições são avaliados a partir de fórmulas matemáticas que levam em conta três ingredientes, combinados ao gosto do freguês: número de trabalhos publicados, quantas vezes esses trabalhos foram citados na literatura e qualidade das revistas (medida pela quantidade de citações a trabalhos publicados na revista). Você estranhou a ausência de palavras como qualidade, criatividade e originalidade? Se conversar com um burocrata da ciência, ele tentará te explicar como esses índices englobam de maneira objetiva conceitos tão subjetivos. E não adianta argumentar que Einstein, Crick e Perutz teriam sido excluídos por esses critérios. No fundo, essas pessoas acreditam que cientistas desse calibre não podem surgir no Brasil. O resultado é que em algumas pós-graduações da USP o credenciamento de orientadores depende unicamente do total de trabalhos publicados, em outras o pré-requisito para uma tese ser defendida é que um ou mais trabalhos tenham sido aceitos para publicação.

Não há dúvida de que métodos quantitativos são úteis para avaliar um cientista, mas usá-los de modo exclusivo, abdicando da capacidade subjetiva de identificar pessoas talentosas, criativas ou simplesmente geniais, é caminho seguro para excluir da carreira científica as poucas pessoas que realmente podem fazer descobertas importantes. Essa atitude isenta os responsáveis de tomar e defender decisões. É a covardia intelectual escondida por trás de algoritmos matemáticos.

Mas o que Darwin tem a ver com isso? Foi ele que mostrou que uma das características que facilitam a sobrevivência é a capacidade de se adaptar aos ambientes. E os cientistas são animais como qualquer outro ser humano. Se a regra exige aumentar o número de trabalhos publicados, vou praticar "Salami Science". É necessário ser muito citado? Sem problema, minhas fatias de salame vão citar umas às outras e vou pedir a amigos que me citem. Em troca, garanto que vou citá-los. As revistas precisam de muitas citações? Basta pedir aos autores que citem artigos da própria revista. E, aos poucos, o objetivo da ciência deixa de ser entender a natureza e passa a ser publicar e ser citado. Se o trabalho é medíocre ou genial, pouco importa. Mas a ciência brasileira vai bem, o número de mestres aumenta, o de trabalhos cresce, assim como as citações. E a cada dia ficamos mais longe de ter cientistas que possam ser descritos em uma única frase: Ele descobriu...

A crise que afronta - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 27/04
Há muito eu não via num dia só tanta gente conhecida preocupada com a perspectiva de uma crise institucional no país. A causa seria a emenda parlamentar que pretende submeter ao Congresso decisões do Supremo Tribunal Federal, usurpando-lhe o poder constitucional de dar a "última palavra". Saindo de uma sessão especial do belo e comovente filme "Flores raras", de Bruno Barreto, encontro Cacá Diegues que, como se sabe, filma e pensa o Brasil com igual lucidez. Estava chocado com a declaração de Renan Calheiros, acusando o STF de "invasão" por ter barrado a tramitação do projeto que limita a criação de novos partidos. É curioso porque o presidente do Senado carrega nas costas pesadas denúncias de "invasão", só que do terreno da ética e dos bons costumes morais.

À tarde, eu já recebera de Ziraldo um telefonema indignado, dizendo que preferiria deixar o país se a ameaça se consumasse. Nem quando foi preso pela ditadura militar umas quatro vezes manifestou essa disposição de agora. "Isso é uma afronta à democracia." À noite, em casa, vi na TV Arnaldo Jabor revoltado, afirmando que se o "vexame" de fato acontecesse seria melhor fechar o Supremo. Ou então mantê-lo aberto, tendo na presidência José Dirceu e na Procuradoria-Geral da República, Valdemar da Costa Neto.

Sem ironia, a mesma hipótese tinha sido levantada pelo ministro Gilmar Mendes: "Se algum dia essa emenda vier a ser aprovada, é melhor que se feche o Supremo." Seu colega Marco Aurélio não acredita na possibilidade de o Congresso "virar a mesa", mas admite que a medida seja uma "retaliação" ao julgamento do mensalão pelo STF. Não por acaso, na Comissão de Constituição e Justiça, que aprovou a emenda, estão homiziados dois mensaleiros condenados na ação penal 470, José Genoino e João Paulo Cunha, e um procurado pela Interpol por causa dos milhões de dólares que tem em contas bancárias no exterior: Paulo Maluf.

Finalmente, resta o personagem que criou toda essa confusão, um obscuro deputado pelo PT do Piauí, Nazareno Fonteles, que diz falar em nome do povo: "Nos submetemos ao crivo popular." Suplente que deve o cargo não ao "crivo popular", mas ao titular da vaga, Átila Lira (PSB), que se afastou para ser secretário de governo, esse Nazareno é um daqueles tipos do baixo clero prontos para os serviços sujos. Insignificante, sim, mas capaz de pôr em risco com uma proposta irresponsável o que o país custou tanto a conquistar: o equilíbrio entre os poderes constituídos e a harmonia institucional.

A empregada foi embora - ROSISKA DARCY DE OLIVEIRA

O GLOBO - 27/04

Chegou ao Brasil um problema que, na Europa, velho de meio século, em nosso país só as empregadas domésticas enfrentavam: como viver sem empregada, esse personagem que, dentro de casa, serve de amortecedor às tensões entre homens e mulheres confrontados às exigências do cotidiano de uma família.

Quem faz o quê na infinidade de pequenos gestos do dia a dia? Nem um nem outro. A resposta é simples: a empregada, a babá, a cuidadora. Por vezes as três tarefas em uma mesma pessoa. Baixos salários, jornadas infindáveis, condições de alojamento deploráveis, essa sequela da escravidão exigia uma abolição. A lei é bem-vinda. Abre uma dinâmica de transformação da sociedade que ainda não está visível em toda a sua profundidade e cujos desdobramentos vão muito além dos muros da casa. Vai interpelar, para além do orçamento das famílias, as contas públicas e a organização do tempo nas empresas.

Mulheres pobres conhecem bem os malabarismos que fazem para criar seus filhos quando a oferta de creches públicas é ridícula em relação à demanda e a escola de tempo integral uma promessa sempre adiada. Jovens pelas ruas são vitimas e herdeiros de um país em que suas mães foram invisíveis e impotentes. A elas não se dava resposta, apenas o conselho de que não tivessem filhos, embora cuidassem dos filhos dos outros. São elas a maior parcela da mão de obra feminina e de mulheres chefes de família.

A classe média resolvia o seu problema delegando-lhes as tarefas que, sem elas, recairiam — e vão recair — sobre as mulheres com carreiras em construção. Nossa cultura, até aqui, isentou os homens desse tipo de atividade dita subalterna. É essa classe média, cada vez mais numerosa e influente, que tem voz e é capaz de defender seus interesses, que vai colocar no debate público as relações entre o mundo do trabalho e o da família no momento em que o emprego doméstico muda de estatuto.

Essa mudança põe a nu o valor — e também o peso — da vida privada que, longe de ser um bloco homogêneo de gestos que se repetem, é uma teia de situações variadas que se tecem ao longo dos dias, envolvendo sentimentos delicados e rotinas que garantem a sobrevivência.

A família não é apenas abrigo, o lugar do sustento material. É o espaço onde somos iniciados à nossa própria humanidade. Quando a escola assume a educação formal das crianças já trabalha sobre uma imensa soma de conhecimentos práticos, gestos aprendidos, atitudes consentidas ou coibidas, agressividades domadas sem as quais seria não só inútil como impossível ensinar a ler e a escrever e a efetuar as quatro operações. Ironia: essa soma de conhecimentos muitas vezes é transmitida por uma mulher sem educação formal, que exerce junto a uma criança, que não é sua, um papel maternal. E aí reside a complexidade da relação humana imbricada ao trabalho doméstico. De modo ainda mais pungente, a relação de idosos e doentes com quem lhes cuida, testemunhas e alívio de suas fragilidades.

O Estado, de maneira imperceptível, descansava nas costas dessa mão de obra barata que velava a deficiência de uma rede institucional de creches, casas para idosos e escolas de tempo integral. A lei das domésticas rasgou o véu. O Estado doravante vai ter que devolver em serviços os impostos pagos. Essa rede institucional se torna imprescindível e inadiável, como é nos países europeus e nos Estados Unidos, onde os direitos que a lei avança não teriam sido exequíveis sem serviços públicos eficientes.

As empresas também vinham sendo poupadas pelo trabalho doméstico barato. Ele liberava o tempo que homens e mulheres não reivindicavam como fazem nos países do hemisfério norte onde a conciliação entre trabalho e vida privada define a fronteira entre atraso e modernidade. A lei das domésticas torna evidente que, em um mercado de trabalho que absorve homens e mulheres em igual proporção, a vida privada, que as empresas sempre se permitiram ignorar, impõe novos arranjos e temporalidades.

A sociedade é um sistema complexo. Não se faz contemporânea em apenas um aspecto. Não se mexe em uma variável sem que haja repercussões no todo. A conciliação da vida familiar com o mundo do trabalho entra de uma vez por todas na agenda da sociedade brasileira. Não como uma questão privada a ser debatida em cada casa, como tem sido até aqui, mas como uma questão pública que chama às suas responsabilidades, exigindo que as assumam, homens e mulheres, governantes e empregadores. Todos entoando o refrão bem conhecido das donas de casa: e agora, que a empregada foi embora?

Um corpo no rio - ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR

FOLHA DE SP - 27/04

Acusado falsamente pela "nova mídia" de ser um dos terroristas de Boston, Sunil apareceu morto


Surgiu esta semana um corpo boiando no rio em Providence, capital de Rhode Island. Era Sunil Tripathi, estudante de filosofia em uma universidade americana de primeira linha, a Brown. Quando escrevo, ainda não se sabe como ele morreu.

Tripathi foi alvo de histeria nas redes sociais e sites colaborativos, especialmente no Reddit.com, muito influente nos Estados Unidos. Era acusado por justiceiros on-line pelos atentados de Boston.

Ele estava desaparecido desde março. Descobriu-se no Facebook uma página criada por parentes para tentar encontrá-lo. Alguém julgou que o rapaz sumido se parecia com um dos suspeitos. Pronto: a informação errada se espalhou sem controle.

Como todos sabemos, nós que seguimos a revista "Wired" e acompanhamos cada novidade do vale do Silício, os sites colaborativos de notícias surgiram para suplantar a "velha mídia" --jornais, revistas, TVs, monstros sensacionalistas sedentos por lucros e pontos de audiência.

O conteúdo colaborativo, sem filtros ou mediações, seria um canal direto com a voz do cidadão. Informação pura, nada de interesses ocultos. Anátema da imprensa estabelecida.

Se Sunil Tripathi não estivesse morto, poderia dar um grande depoimento sobre a qualidade e a precisão das informações surgidas nas redes sociais.

Que fique claro: não se trata de negar a importância das novas mídias --especialmente do Twitter, feito sob medida para esse tipo de evento em que surgem novidades a cada minuto.

O assassinato de um policial no campus do MIT, por exemplo, foi narrado em tempo real por estudantes no Twitter, algo impensável no esquema tradicional da "velha mídia".

Mas o que os atentados de Boston deixaram claro é que as relações entre "velha" e "nova" mídia são muito mais nuançadas do que supunham os gurus do jornalismo-cidadão.

A "nova mídia" funcionou, ao menos neste caso, como uma geradora de ruídos aleatórios. Uma avalanche de dissonância e distorção, em meio à qual se descobriam umas poucas notas de melodia coerente.

Na hora em que se precisa de informação de qualidade e bem apurada, em quem confiar? Nos tuítes de um garoto de 15 anos que vê a confusão pela janela ou num texto apurado por seis repórteres e revisto por mais dois editores no "New York Times"?

Será que as redes sociais são de fato fontes soberanas de informação ou apenas geradoras de "fatos", "certezas" e boatos, a serem conferidos por profissionais do ramo?

E os canais de TV especializados em notícias, como a CNN, perderam para a internet o monopólio da informação imediata?

Como dez entre dez jornalistas, acompanhei pela CNN, desde o início, a cobertura do atentado. E, no começo, quase não havia informações.

Só uns poucos vídeos, repetidos seguidamente. A cobertura demorava a decolar. Os principais repórteres e apresentadores eram, provavelmente, chamados em casa para assumir as transmissões.

Demora um tempo até que cheguem à TV, se arrumem, colham informações para não falar bobagem. Enquanto isso, o pessoal que está no ar se vira como dá.

Começa então o "backlash" na internet. Vi jornalistas, alguns até conhecidos, bradando contra a repetição de imagens, dizendo que era uma espécie de pornografia.

A razão de os vídeos serem reexibidos é óbvia: não havia dado tempo de obter nenhuma outra imagem. E, se a cobertura é ininterrupta, alguma coisa é preciso mostrar.

Agora, imagine o seguinte cenário: a CNN, para não ficar repetindo os vídeos, para não praticar "pornografia", decide sair do assunto e apresentar um daqueles programas mensais de golfe ou tênis.

As mesmas vozes que clamavam contra a "pornografia" da violência iam se deliciar apontando a inércia da "velha mídia", a falta de sintonia da imprensa tradicional com a realidade, iriam dizer que as informações quentes mesmo estavam no Twitter, no Facebook e no Reddit.

É um jogo impossível de ganhar. Se entrou de cabeça no assunto, está praticando "pornografia". Se ignorou o tema, não entende o século 21.

Talvez aconteça, mas não foi com as bombas de Boston que a "nova mídia" tomou o lugar da "velha" como portadora de informação confiável, ou pelo menos da mais confiável que se pode obter.

Agora, vem a investigação. A história contada pelas autoridades americanas está cheia de lacunas. Vamos ver quem vai desvendar o caso. Se algum blogueiro ou tuiteiro que não sai da poltrona ou um repórter com fontes e tempo para mergulhar no assunto.

Minha casa no país do carro zero - SÉRGIO MAGALHÃES

O GLOBO - 27/04

Diferentemente do que ocorre com os automóveis, para os quais há crédito direto e o interessado escolhe o que quer, no caso da casa popular é o governo que escolhe



Preocupada com a qualidade de obras do programa Minha Casa Minha Vida, a presidente Dilma Rousseff declarou: “Eu não fui eleita para dar casa de qualquer jeito para a população.”

É de meados do século passado que data a grande expansão demográfica e de ocupação territorial que caracteriza o Brasil de hoje. Foram as cidades que suportaram o crescimento populacional e proporcionaram grandes melhoras nos indicadores sociais. Em setenta anos, os moradores em cidades passaram de 12 milhões para 170 milhões. E os domicílios urbanos, que eram 2 milhões, passaram a 50 milhões, multiplicando 25 vezes. Hoje, 85% dos brasileiros vivem em cidades.

E como foram construídas as moradias para essa população? Foram construídas pelo próprio povo, na precariedade que a falta de recursos impõe. Daí, expressiva parcela morando em condições irregulares, em favelas e em loteamentos sem infraestrutura adequada.

De fato, 80% dos domicílios foram erguidos exclusivamente com a poupança familiar, sem financiamento algum. Isto, apesar de, desde os anos 1940, o governo ter assumido a responsabilidade de prover a moradia popular.

Através de programas habitacionais que se sucedem, seja o dos IAPs, da Casa Popular, do BNH, do Minha Casa Minha Vida, são os governos os protagonistas. Mudaram os regimes, ditadura, democracia, ditadura, democracia — mas o modelo permanece o mesmo. É o governo que diz onde e como o povo deve morar.

Diferentemente do que ocorre com os automóveis, para os quais há crédito direto, abundante, a juro zero, e o interessado escolhe o que quer, no caso da casa popular é o governo que escolhe. Escolhe a tipologia a construir, escolhe onde e quem constrói, e detém o monopólio do financiamento. Mas, nestes setenta anos, promoveu apenas 20% das moradias urbanas — somando tudo que foi construído por todos os governos, em todas as instâncias, mais o que foi financiado pelo BNH, Caixa e todos os bancos privados.

Ou seja, a família brasileira construiu, sozinha, quarenta milhões de domicílios, enquanto a soma de todas as políticas habitacionais alcançou dez milhões.

O MCMV é um esforço importante. Mas é mais do mesmo. Atingindo as metas, construirá 3,4 milhões de moradias em 8 anos, enquanto no período o país terá construído 12 milhões. Como? Tal como antes, na dificuldade, na precariedade, na irregularidade.

O governo não precisa dar casa para o povo. Sobretudo “de qualquer jeito” — a má qualidade inclui a má localização. Basta que não monopolize os recursos e as decisões. Que o cidadão seja considerado apto a decidir onde e como morar. E que o crédito lhe seja assegurado, tal como o é para comprar um automóvel. (O subsídio do MCMV é importante, é um avanço que precisa ser preservado.) Certamente, teremos obras com preços menores e melhor qualidade.

A presidente Dilma, se assim for, não dará casa, mas oferecerá a oportunidade de moradia para todos. Se o povo fez as cidades apenas com a própria poupança, com a participação da poupança coletiva fará cidades muito melhores.

Em artigo anterior (“Coelho por gato”), inadvertidamente, omiti a autoria arquitetônica do estádio do Engenhão, dos arquitetos Carlos Porto, Gilson Santos, Geraldo Lopes e José Gomes. Retifico com as devidas excusas.

Risco de contágio - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 27/04

Com Aloizio Mercadante declarando-se fora do páreo pelo governo paulista, o PT terá de lidar com dilema que aflige sua cúpula: o risco de a candidatura do agora favorito Alexandre Padilha levar para o palanque o desempenho do governo Dilma Rousseff na Saúde, área mal avaliada nas pesquisas. Petistas temem desgaste à reeleição da presidente em São Paulo, maior colégio eleitoral do país e onde o partido acredita ter chances de inédita vitória na corrida pelo Planalto.

Geopolítica 
O desempenho de Dilma no Estado é considerado decisivo, uma vez que o PT trabalha com expressiva perda de vantagem em Minas Gerais, de Aécio Neves (PSDB), e no Nordeste, de Eduardo Campos (PSB).

Sem sinal 
Padilha estará hoje em uma aldeia indígena a 1.500 km de Manaus (AM), incomunicável. A ordem no QG do ministro é que nada muda na rotina por ora.

Chapão 
Sem o recall de Mercadante, o PT vê como prioridade tentar uma aliança com PMDB e PSD já no primeiro turno. Nunca testados nas urnas, Padilha ou Guido Mantega (Fazenda), também lembrado como opção, precisarão de mais tempo de TV para serem competitivos.

Bumbo 
Auxiliares de Dilma afirmam que o foco do governo para o 1º de Maio será o trabalhador doméstico. A presidente queria o projeto que regulamenta a PEC das Domésticas pronto para divulgação da data, mas falta ajustar detalhes com o relator Romero Jucá (PMDB-RR).

Ampulheta 
Setores do governo não apostam na conclusão do estudo de impacto financeiro do projeto antes do Dia do Trabalho. Na terça, Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e Jucá devem se reunir.

Brecha 1 
Contrários à decisão de Renan Calheiros (PMDB-AL) de segurar a criação de quatro novos tribunais regionais federais, deputados petistas incentivam André Vargas (PT-PR) a promulgar o projeto na ausência do presidente do Congresso.

Brecha 2 
Existe previsão de que Renan viaje em maio, o que levaria o vice-presidente da Câmara a assumir o Congresso. "Ainda não tenho decisão, mas é uma possibilidade", diz Vargas.

Endereço 
A ênfase dada por Eduardo Campos ao desequilíbrio entre União, Estados e municípios na propaganda do PSB se deve a uma aposta do governador de Pernambuco. Ele acha que líderes políticos locais podem ajudá-lo a compensar a falta de palanques fortes em algumas regiões do país em 2014.

Costura 
Acompanhada de deputados e senadores, Marina Silva fará visita ao gabinete de Joaquim Barbosa na próxima semana. A ex-ministra pretende levar ao presidente do STF seus argumentos contrários ao projeto que restringe os direitos dos novos partidos políticos.

Arena 
Em conversa com Gilmar Mendes ontem para agendar encontro na segunda-feira, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), brincou: "Ministro, vamos conversar antes que nos coloquem como guerreiros em guerra".

Visitas à Folha 
Augusto Nardes, presidente do Tribunal de Contas da União, visitou ontem a Folha. Estava com Artur Cotias e Silva, chefe de Gabinete, Hamilton Delfino Silva, secretário de Controle Externo, Cláudia Jordão, secretária de Comunicação, e Simone Barbosa, assessora do cerimonial.

Ricardo Young (MD), vereador em São Paulo, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Ana Carolina do Amaral Silva, assessora de imprensa, e Felipe Neves, assessor de comunicação.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio
"Não estou cogitando deixar o partido, mas, se estivesse, não me filiaria a nenhuma legenda. Afinal, não sou candidato a nada em 2014."
DO GOVERNADOR CID GOMES (CEARÁ), sobre as especulações de que deixará o PSB por discordar da candidatura de aliado Eduardo Campos ao Planalto.

contraponto


Memória seletiva


Em reunião na quarta-feira, vereadores de São Paulo discutiam a pauta de projetos na Comissão de Constituição de Justiça. Como é praxe, alguns pediam vistas ou adiamento de votação para averiguar o conteúdo das proposituras ou obstruir os trabalhos.

Em dado momento, o presidente da CCJ, Antonio Goulart (PSD), anunciou texto de Arselino Tatto (PT).

Para surpresa geral, o líder governista solicitou a retirada da pauta de votações. E explicou, arrancando risos:

--Presidente, por favor. É que eu já não faço a menor ideia do que se trata esse projeto.