segunda-feira, abril 15, 2013

Em busca do tomate perdido - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

O Estado de S.Paulo - 15/04

Enquanto presidenciáveis da oposição falam para empresários e públicos já catequizados, Dilma Rousseff (PT) acelera a própria sucessão. Transforma inaugurações em comícios, e pronunciamentos formais em discursos de campanha. O descompasso entre a velocidade da presidente e a lentidão dos opositores faz parecer que são eles e não ela a ostentar intenção de voto recorde.

Dilma tem 35% das intenções de voto espontâneas tanto no Ibope quanto no Datafolha. É uma taxa inédita para um presidente disputando reeleição a um ano e meio do pleito. Mas grande parte desses eleitores é cativa, declara voto no candidato petista seja ele quem for. Partidários, aprovam qualquer gestão do PT.

É o que acontece com o prefeito paulistano Fernando Haddad, cujo saldo de aprovação com cem dias de mandato só não é maior do que o de outra prefeita petista de São Paulo: Marta Suplicy. Mas Marta não conseguiu se reeleger - porque o eleitorado cativo do PT nunca basta para um petista alcançar maioria absoluta.

A questão, portanto, não é quão intenso está ou não o apoio do terço de petistas ao seu candidato, mas qual a força da candidatura do PT nos outros dois terços do eleitorado - seja o brasileiro ou o paulistano.

Segundo o Datafolha, quase metade dos 35% de votos espontâneos de Dilma vem hoje de eleitores que se declaram petistas ou simpatizantes. É um fato contra o qual a oposição pode pouco.

O peso dos petistas no total dos que declaram voto em Dilma diminui quando a intenção de voto é estimulada. Isso ocorre porque mais eleitores não petistas tomam conhecimento, pelo pesquisador, de quem são os candidatos e, a partir dessa informação, escolhem um nome. Se só conhecem ou ouvem falar do nome de Dilma, tendem a citá-lo com mais frequência.

Esse é o campo de manobra dos oposicionistas. Mas, para manobrar, os candidatos a presidente da oposição precisam se tornar conhecidos e ter um discurso com apelo às aspirações desses eleitores não petistas. Por enquanto, nenhum presidenciável oposicionista encontrou seu público nem seu mote.

"Faremos uma campanha permanente de oposição clara ao governo do PT porque, para o Brasil, esse ciclo de governo do PT precisa e deve ser interrompido", disse Aécio Neves (PSDB-MG), em seminário promovido pelo PPS na Câmara dos Deputados.

A frase joga a oposição ao futuro, como algo a ser feito. Antes tarde do que nunca. Mas ao chamar sua campanha de "permanente", as palavras do candidato contradizem os votos do senador.

Nos dois primeiros anos de mandato, Aécio foi mais governista do que opositor nas votações nominais no Senado: votou com o governo 55% das vezes. Foi superado em "oposicionismo" por seis colegas da bancada tucana, mas em "governismo", por apenas três. Não é das mais claras e permanentes demonstrações de oposição.

Aécio Neves mirava o governador Eduardo Campos (PSB-PE), um aliado que sobe em palanques com Dilma enquanto aguarda e torce por uma oportunidade para lançar-se em voo solo à Presidência. O governador de Pernambuco faz um discurso oposicionista que mais assopra do que morde, à espreita de uma crise econômica que ainda não chegou - e talvez não chegue em tempo para a sucessão.

As chances de Campos residem num fracasso claro de Dilma na área econômica. Não um fracasso de índices e indicadores, mas de percepção popular. Algo que seja sentido no bolso antes de ser propagandeado em campanhas de comunicação. Mas a eventual derrocada da presidente não poderia ser rápida e forte a ponto de ressuscitar um fantasma hoje esquecido: a volta de Lula.

O problema do governador de Pernambuco, portanto, não é apenas o timing da pressuposta crise econômica, mas também a sua intensidade. Ele não controla nenhum desses fatores e, portanto, sua candidatura será, se for, fruto apenas de oportunidade - salvo, é claro, a hipótese de Campos assumir um discurso frontalmente oposicionista e abrir mão das benesses federais.

Outra banda da oposição tenta fazer do tomate uma limonada. No desejo de provar a si mesma que o precipício econômico está logo ali em 2014, confunde preço alto com inflação. Na busca de um ícone popular para a crise ansiada, trocou o PIB pelo fruto.

O que corrói a renda são aumentos sucessivos de preços, não oscilações sazonais exorbitantes. Só será possível extrair sumo eleitoral do tomate se seu preço continuar a subir sem parar. E não basta ser só o tomate e a cebola. Tem de subir todo o resto do churrasco: a carne, o arroz, o pão. Tem de subir e não cair. Fora esse cenário, a piada com tomate já vem pronta e repisada.

De santos e tomates - PAULO GUEDES

O GLOBO - 19/04
O conhecimento humano é limitado, especializado e compreendido em profundidade por relativamente poucos. Quantos de nós saberíamos construir televisões, aviões, tablets e outros instrumentos do conhecimento aplicado que desfrutamos? A nossa ignorância é, por sua vez, ilimitada, abrangente e distribuída entre todos. Só a cooperação e a divisão do trabalho permitem o milagre de uma formidável marcha do progresso no lombo de bestas míopes que somos. Essa imensa ignorância lança suas tintas sobre a cena contemporânea.

O enterro de um homem que ressuscitou uma ideologia funesta em nome de outro defunto, o "socialismo bolivariano", é transformado em cerimônia de beatificação por sua obra de mergulhar o país em um histórico cul-de-sac . Agora, a morte da mulher que resgatou do afogamento uma ilha da fantasia do bem-estar social, submersa nas águas do intervencionismo, do sindicalismo, do populismo e do socialismo, é celebrada por ressentidos. Quando o obsoleto trabalhismo inglês já afundara a ilha décadas antes da Europa continental, que sofre hoje dos mesmos excessos.

A beatificação do "socialista bolivariano" e a demonização da "liberal conservadora" - designação política de uma impossibilidade conceitual - contrastam com a recente dessacralização do papado. Sim, para aumentar a confusão, o representante de Deus na Terra, em sua santa modéstia, secularizou-se e aposentou-se. Um sentimento religioso invade a política, fabricando santos e demônios, enquanto a dimensão humana de um Papa surpreende a religiosidade.

Enquanto isso, prossegue em terras brasileiras a saga dos sociais-democratas em sua longa e desventurada batalha contra a inflação. São duas décadas e meia em um dilacerante combate. Sim, é verdade que, por equívocos primários, a inflação chegou a 5.000% ao ano. Mas persistem nossos esclarecidos dirigentes em sua histórica determinação de combater a inflação sem o controle dos gastos públicos, sem subir as taxas de juros e sem desacelerar a expansão do crédito. O combate indolor à inflação, a miragem da estabilidade de preços sem sacrifícios, ao sancionar o afrouxamento dos regimes fiscal e monetário, facilita a propagação dos aumentos generalizados de preços e a deterioração das expectativas inflacionárias. É quando se diz que, por ignorância, o governo está pisando no tomate no combate à inflação.

Médici às avessas - RUBENS RICUPERO

GAZETA DO POVO - PR - 15/04

“O Brasil vai bem, mas o povo vai mal”, a frase com que o general Médici definiu o milagre econômico brasileiro, foi pronunciada quando o PIB chegava a crescer 14% ao ano em meio a aumento da desigualdade. Hoje, fica-se tentado a dizer que o povo vai melhor, enquanto vão mal o Brasil, a Argentina, a Venezuela.

Sucede que esses países são justamente os que se definem pela prioridade de redistribuir e transferir renda. Haveria relação de causa e efeito entre redistribuição e queda do crescimento? Seria incompatível manter pleno emprego e inflação baixa, melhoras salariais e avanços em competitividade?

Há uma coincidência perturbadora: os três regimes sul-americanos que melhor se identificaram às aspirações de melhoria de vida e dignidade das massas das periferias ostentam os piores indicadores econômicos da região. Em todos, o panorama se caracteriza por inflação em alta, crescimento em baixa, deterioração da posição fiscal e das contas externas, competitividade precária. Em compensação, seus índices sociais são tão favoráveis que até agora lhes vêm garantindo elevado apoio eleitoral, apesar da mediocridade da economia.

Trata-se de mera coincidência ou uma coisa seria consequência da outra? Trágico seria se assim fosse. Não se justifica, porém, atribuir as falhas dessas economias às conquistas sociais. Não só porque Bolívia e Equador, de semelhante orientação social, conseguem números econômicos razoáveis. Ademais, Chile e Peru, menos ideológicos, também dependentes de commodities, combinam os resultados econômicos mais brilhantes do continente com avanços sociais comparáveis aos distributivistas.

O desempenho insatisfatório dos maiores parece derivar, portanto, não de um compromisso maior com as causas populares, mas de defeitos no desenho e na execução de políticas públicas que se estendem além das estritamente econômicas.

No Brasil, é o que se vê no vasto cemitério de desgoverno que vai da proliferação de ministérios ao atraso de obras bilionárias, da crise do programa do etanol ao retrocesso na matriz energética, da politização e corrupção das agências reguladoras à inexplicável obsessão do trem-bala. Como o dinheiro do trem aliviaria muito mais o sofrimento dos trabalhadores se aplicado em metrô e trens urbanos, o exemplo revela que a preocupação social está longe de ser decisiva.

Esses governos erram pelos motivos usuais: incompetência, idiossincrasias e caprichos de dirigentes, excessiva indulgência com fisiologismo político, corrupção. Desculpá-los com nobres motivações sociais e ideológicas equivale a afirmar que o preço do combate à desigualdade e à pobreza passa pelo desgoverno e pelo desperdício. E constitui, no fundo, um desserviço a esses mesmos regimes.

Com efeito, eles só se salvarão se corrigirem suas políticas e voltarem a crescer, a fim de assegurar a sustentabilidade dos avanços sociais.

Do contrário, a combinação dos maus resultados econômicos com a saída de cena de Nestor Kirchner, Hugo Chávez e Lula cedo ou tarde encerrará mais um ciclo desapontador na história das frustrações sul-americanas.

Inflação e voto - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP - 15/04

SÃO PAULO - De cada 100 brasileiros aptos a comparecer às urnas em outubro do ano que vem, 40 tinham menos de 16 anos ou nem haviam nascido quando o Plano Real liquidou a superinflação. Para essa fatia do eleitorado, é fraca a memória de preços galopantes, corridas aos supermercados no dia do pagamento e estresse cotidiano com o valor do dinheiro no banco.

Em meados dos anos 1990, o Brasil aproveitou-se tardiamente de uma onda mundial que, desde o início da década anterior, vinha reprimindo a inflação. O feito propiciou ao consórcio liderado por Fernando Henrique Cardoso oito anos de domínio da Presidência da República.

Os pressupostos da política econômica sob FHC foram mantidos pelo PT nos seis anos seguintes. Até que apareceu a crise financeira no final de 2008. Três décadas depois, os parâmetros que haviam baixado a inflação no mundo e inaugurado uma era de frenética finança global estavam de pernas para o ar.

Para quem gosta de fixar-se a padrões algo misteriosos, talvez haja ciclos longos, de 25 a 30 anos, alternando-se no capitalismo mundial. Estaríamos agora de novo entrando num período de maior tolerância com a inflação?

Na vizinhança, Argentina e Venezuela já reabriram a caixa de Pandora inflacionária. O efeito indesejável, para seus governantes, é o potencial político desestabilizador dessas variações abruptas no poder de compra das famílias.

Logo após o chamado milagre econômico da ditadura militar brasileira, a "carestia" animou a primeira vitória eleitoral da oposição, o MDB, em 1974. A inflação costuma oferecer aos adversários de quem está no governo uma plataforma imediata e poderosa de contestação.

A oposição ao PT no Brasil já entendeu esse jogo. Por isso, elevar os juros e evitar a escalada dos preços passou a ser crucial para a reeleição de Dilma Rousseff.

Choro fora de hora - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 15/04

"Não há nada que justifique qualquer nova investigação sobre o chamado mensalão"
José Dirceu

Foi Luiz Fux que admitiu ter saído por aí durante o segundo governo Lula à caça de apoios para ser nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). (Acabou nomeado por Dilma.) Em meio ao julgamento do mensalão, líderes do PT plantaram notas em jornais garantindo que o episódio acontecera. Irado, Fux aproveitou uma festa em Brasília e comentou o fato com o ex-deputado Sigmaringa Seixas (PT-DF).

NA SEMANA SEGUINTE, procurado por Mônica Bergamo, colunista da "Folha de S. Paulo"0, admitiu que fizera, sim, campanha para ocupar uma vaga no STF . E que conversara a respeito com o ex-ministro José Dirceu. Conversou seis vezes. E mais de uma dezena com Evanise, mulher de Dirceu. Negou, porém, que tivesse prometido absolvê-lo caso participasse do julgamento. "Não me lembrei que ele era réu" , alegou Fux, o distraído.

ÀS VÉSPERAS DA publicação do acórdão do julga-mento, o que pretende Dirceu ao revisitar o episódio e dizer que foi assediado moralmente por Fux para ajudá-lo a se tornar ministro do STF? Vingar-se por ter bancado o bobão? Desmoralizar o ministro? Difícil que consiga. O distinto público está satisfeito com o resultado do julgamento. E com Fux e todos que votaram pela condenação dos réus.

DIRCEU IMAGINA sugerir que houve parcialidade no julgamento pelo menos da parte de Fux? Difícil de entender o raciocínio dele. Digamos que Fux prometeu votar a favor de Dirceu. Haveria parcialidade se ele tivesse honrado a palavra. Ou a intenção de Dirceu seria forçar a Procuradoria Geral da Re-pública a investigar o comportamento de Fux? Com base em que provas? Fux tem credibilidade, Dirceu, não, segundo o procurador .

QUANTOS MINISTROS não procederam como Fux para ganhar uma cadeira no STF? Joaquim Barbosa foi um dos poucos que não procederam. O objetivo de Dirceu não era esse , certamente não era, mas ao dizer o que disse sobre Fux pode ter estimulado uma discussão acerca do que os três poderes da República sempre passaram ao largo - a natureza doméstica do processo de escolha dos ministros de tribun ais superior es .

A CONSTITUIÇÃO exige de um aspirante a ministro que tenha notório saber jurídico e reputação ilibada. A escolha é do presidente da República, submetida ao Senado. Na história de mais de 100 anos do STF , o Senado só rejeitou um nome. A aprovação, portanto , é um mero e inócuo ritual. Ninguém se interessa em interrogar a fundo um candidato a ministro. E se no futuro precisar dele no exame de alguma questão?

JOAQUIM BARBOSA tem um notável currículo. O que pesou mais para que virasse ministro, contudo , foi sua cor . Em certa época, Lula encantou-se por ministros temáticos - negro, mulher , do Nordeste, do Sudeste. Dias Toffoli entrou na cota do PT . Dele não se exigiu notório saber jurídico. Por duas vezes foi re-provado em concursos para juiz. O que vale é que por longo tempo serviu a Lula e ao PT com lealdade .

SE DIRCEU DISCORDA do modo pouco republicano como os ministros do STF costumam ser indicados, deveria , no mínimo, ter dado um for a em Fux ao ser procurado por ele atrás de patrocínio. Se não discorda, choraminga for a de hora. Deixou Dilma sob a suspeita de que promoveu Fux a ministro de olho no voto favorável dele à absolvição dos mensaleiros. Na verdade, o maior cabo eleitoral de Fux foi Antonio Palocci.

A PRISÃO ESPERA Dirceu. Uma aposentadoria cinco estrelas, Fux. Que não pode se queixar da vida amena e repleta de mimos que leva desde agora

Tolerância zero - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 15/04

Não dá mais para tentar esconder a escalada da inflação, como insiste em fazer o governo federal, tratando-a como se fosse um parente incômodo atrapalhando a festa da família.

Os fatos estão aí, incontestáveis. O Dieese apontou que os preços dos gêneros alimentícios essenciais continuaram em alta e subiram em 16 das 18 capitais, onde o órgão faz pesquisa sobre a cesta básica.

Ligado aos sindicatos de trabalhadores, o Dieese é 100% insuspeito de alarmismo para assustar a população, atitude que os petistas teimam em atribuir à oposição.

A alimentação no domicílio saltou cerca de 14% em 12 meses. O bom humor dos brasileiros fez a disparada do preço do tomate virar piada nacional. Mas podia ser a farinha de mandioca, que teve crescimento de 151% em um ano.

O impacto é maior entre as famílias mais pobres. Elas gastam do seu orçamento com comida e bebida bem mais que as famílias mais ricas.

Para ampliar a lista de notícias ruins, a inflação anual registrada em março, de 6,59%, estourou o teto da meta, fixada em 4,5%, com margem de dois pontos percentuais.

Confirmou-se também que a pressão maior veio dos alimentos. No trimestre, tomate, cebola e cenoura foram as altas de destaque, 60,9%, 54,9% e 53,3%, respectivamente.

Em boa parte, o descontrole nos preços está associado à forma equivocada como o governo federal gasta, a começar pela máquina administrativa em permanente regime de engorda.

A irresponsabilidade fiscal tem consequências maléficas. O país precisa se afastar, com urgência, do projeto anacrônico de inchaço estatal, reconhecidamente fracassado no planeta.

Cultiva-se uma farta distribuição de privilégios, movida com recursos públicos. Predomina a manipulação de setores importantes da economia para fins meramente políticos e partidários.

Ninguém sabe quanto custarão ao Tesouro Nacional as perdas da Petrobras e da Eletrobras, resultantes da má gestão. Ou do BNDES e da Caixa Econômica Federal para socorrer projetos empresariais de acerto duvidoso.

O PT sempre foi permissivo com a inflação. Basta lembrar que se posicionou contra o Plano Real, instrumento que derrotou a inflação e fez o país entrar numa era de prosperidade.

Os mais jovens não conheceram os dias difíceis vividos pela geração de seus pais e avós nos anos 80 e 90, quando os preços mudavam todos os dias nos supermercados e alcançavam a estratosfera.

Inaugurada pelo Plano Real, a estabilidade econômica converteu-se em patrimônio de todos os brasileiros e não pode ser colocada sob ameaça.

É senso comum que a marcha da inflação sacrifica os mais pobres, em primeiro lugar. Por isso, para nós, a receita é uma só: com a inflação, a tolerância é zero.

O rapto do jornalismo - CARLOS ALBERTO DI FRANCO

O ESTADÃO - 15/04

Pedro Lozano Bartolozzi, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra, acaba de lançar um livro instigante, O Rapto do Jornalismo. O texto é uma reflexão sobre nossa profissão, seus dilemas e seu fascínio. O jornalismo foi raptado pela perda de qualidade do conteúdo, pelo perigoso abandono de sua vocação pública e por sua equivocada transformação em produto mais próprio para consumo privado. Bartolozzi defende a necessidade de essa tendência ser revertida. É preciso recuperar o entusiasmo do "velho ofício". É urgente investir fortemente na formação e qualificação dos profissionais. Sem jornalismo público, independente e qualificado o futuro da democracia é incerto e preocupante.

A sobrevivência dos meios tradicionais demanda foco absoluto na qualidade de seu conteúdo. A internet é um fenômeno de desintermediação. E que futuro aguarda os meios de comunicação, assim como os partidos políticos e os sindicatos, num mundo desintermediado? Só nos resta uma saída: produzir informação de alta qualidade técnica e ética. Ou fazemos jornalismo de verdade, fiel à verdade dos fatos, realmente fiscalizador dos poderes públicos e com excelência na prestação de serviço, ou seremos descartados por um consumidor cada vez mais fascinado pelo aparente autocontrole da informação na plataforma virtual.

No Brasil, para além da permanência dos diários tradicionais, explodiu o fenômeno dos populares de qualidade. O novo segmento não tem apenas incorporado novos leitores. Ele, de fato, representa uma esplêndida plataforma educativa. É fascinante ler alguns depoimentos dos novos leitores. São pessoas simples, frequentemente marginalizadas do debate público, que encontraram nos populares de qualidade uma carícia na sua autoestima. Sentem-se cidadãos. A nova classe emergente é uma grande oportunidade.

Se trabalharmos bem, com criatividade e ousadia, assistiremos ao mais surpreendente fenômeno de migração de leitores de todos os tempos. Não estamos diante de um simples movimento de consumo, mas de um exercício de cidadania. O consumidor de um diário popular pode, amanhã, ter demandas mais sofisticadas. A vida é assim. Os populares podem ser a porta de entrada para os produtos tradicionais.

Os diários têm conseguido preservar seu maior capital, a credibilidade. A confiança da população na qualidade ética dos seus jornais tem sido um inestimável apoio para o desenvolvimento de um verdadeiro jornalismo de buldogues. O combate à corrupção e o enquadramento de históricos caciques da política nacional, alguns sofrendo o ostracismo do poder e outros no ocaso do seu exercício, só é possível graças à força do binômio que sustenta a democracia: imprensa livre e opinião pública informada.

A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas. É preciso atiçar o leitor com matérias que rompam a monotonia do jornalismo de registro. Menos aspas e mais apuração. O leitor quer menos show e mais informação de qualidade. O sensacionalismo, embora festejado num primeiro momento, não passa pelo crivo de uma visão retrospectiva. Curiosidade não se confunde com aprovação. O prestígio de uma publicação não é fruto do acaso. É uma conquista diária. A credibilidade não se edifica com descargas de adrenalina.

Apostar em boas pautas - não muitas, mas relevantes - é outra saída. É melhor cobrir magnificamente alguns temas do que atirar em todas as direções. O leitor pede reportagem. Quando jornalistas, entrincheirados e hipnotizados pelas telas dos computadores, não saem à luta, as redações se convertem em centros de informação pasteurizada. O lugar do repórter é na rua, garimpando a informação, prestando serviço ao leitor e contando boas histórias. Elas existem. Estão em cada esquina das nossas cidades. É só procurar.

Quem tem menos de 30 anos gosta de sensações, mensagens instantâneas. Para isso a internet é imbatível. Mas há quem queira, e necessite, entender o mundo. Para esse público deve existir leitura reflexiva, a grande reportagem.

Antes os periódicos cumpriam muitas funções. Hoje não cumprem algumas delas. Não servem mais para contar o imediato. E as empresas jornalísticas precisam assimilar isso e se converter em marcas multiplataformas, com produtos adequados a cada uma delas.

Há um modelo a ser seguido? Nas experiências que acompanho, ninguém alcançou a perfeição e ninguém se equivocou totalmente. O perceptível é que os jornais estão lentos para entender que o papel é um suporte que permite trabalhar em algo que a internet e a rede social não fazem adequadamente: a seleção de notícias, jornalismo de alta qualidade narrativa e literária. É para isso que o público está disposto a pagar. Também na internet. A fortaleza do jornal não é dar notícia, é se adiantar e investir em análise, interpretação e se valer de sua credibilidade. Não é verdade que o público não goste de ler. Não lê o que não lhe interessa, o que não tem substância. Um bom texto, para um público que adquire a imprensa de qualidade, sempre vai ter interessados.

Para mim, o grande desafio do jornalismo é a formação dos jornalistas. Se você for a um médico e ele disser que não estuda há 25 anos, você se assusta. Mas há jornalistas que não estudam nada há 25 anos. O jornalismo não é rotativa: o valor dele se chama informação, talento, critério. Por isso é preciso investir em jornalistas com boa formação cultural, intelectual e humanística - pessoas que leiam literatura, sejam criativas e motivadas. E, além disso, que sejam bons gestores.

As competências são demasiadas? Talvez. Mas é o que nos pede um mundo cada vez mais complexo e desafiante.

Um grito de socorro - PAULO BROSSARD

ZERO HORA - 15/04

Faz um mês, pouco mais, escrevi artigo cujo título diz quase tudo: "O endividamento das Santas Casas"; pelos dados conhecidos essas entidades, da mais alta benemerência, caminhavam para o cemitério e a causa desse desastre humano e social era simples e sabida: o SUS _ Serviço Único de Saúde pagava 65% dos custos dos serviços médicos ou farmacêuticos prestados pelas Santas Casas e hospitais filantrópicos, de modo que, dia a dia, mês a mês, ano a ano, aquelas instituições acumulavam prejuízos; e não era preciso ser gênio para antever o desfecho inelutável.

Passaram-se 40 dias e dois dos maiores jornais do país estamparam em suas colunas notícia original: no dia seguinte, com exceção do Pronto Socorro, as Santas Casas e os hospitais filantrópicos suspenderiam, por 24 horas, todos os seus serviços para divulgar a todos os segmentos sociais sua real situação, morrendo dia a dia, até que ocorresse o inevitável. Um dos maiores jornais de São Paulo, onde se localiza grande parte dos leitos destinados à faixa humana, 46 mil em um universo de 154 mil, noticiou singelamente, "as mais de 2 mil Santas Casas e hospitais filantrópicos do país deram ontem um prazo de 60 dias para o governo federal reajustar os valores de tabela de procedimentos do SUS, sob o risco de reduzirem o atendimento ou até mesmo fecharem postos". Como se vê, não foi uma ameaça, mas um patético grito de socorro!

Mas há um dado que é dramático, 56% das Santas Casas e dos hospitais filantrópicos se localizam em cidades com até 30 mil habitantes, o que importa em dizer que as populações destas áreas ficarão ao desamparo na medida em que se consuma a calamidade iminente. Outros dados são altamente ilustrativos, como os preços que o SUS paga em relação aos pagos pelos planos de saúde, mas quero fugir dessas comparações e em lugar delas e por todas, repetirei uma só frase: "as Santas Casas e os hospitais filantrópicos acumulam um déficit de R$ 5 bilhões por ano". Não há necessidade de dizer mais.

Ainda a propósito do endividamento, o provedor da Santa Casa de São Paulo, a maior do país, com 100% de atendimento pelo SUS, declarou que há cerca de dois anos já havia sinais de colapso com a ameaça de fechar o seu Pronto Socorro; a dívida acumulada então era de R$ 120 milhões; hoje, "a dívida já está na casa dos R$ 250 milhões. Não temos mais fôlego!".

Não tenho mais nada a dizer, a não ser que escrevi o artigo com tristeza. Corrijo, ou melhor, tenho um adendo. A senhora presidente criou mais um ministério e poderá criar mais outro, e estando empenhada em aumentar o número de "partidos" que a apoiam, e já possuía dezessete em trinta e tantos, para ganhar mais uns minutos no rádio e na televisão, ela que, vezes por dia, usa esse incomparável meio de comunicação falando sobre tudo, mas, obviamente, a serviço de sua reeleição. Pois tudo isso pode virar em água de barrela, se não for dado um basta, de verdade, no que vem acontecendo no setor da saúde pública, sob uma regência macabra.

A volta da TPC - VALDO CRUZ

FOLHA DE SP - 15/04

BRASÍLIA - A tensão pré-Copom voltou a infernizar o governo Dilma, que já trabalha com a hipótese de o Banco Central subir os juros nesta semana, mas ainda sonha com a possibilidade de a decisão ser postergada para o mês de maio.

Hoje, por sinal, depois de ter ficado explícito que o próprio Palácio do Planalto dá como certo um aumento nos juros em breve, assessores presidenciais passaram a demonstrar receio com o tamanho do aperto monetário que vem por aí.

Ninguém acredita numa paulada nos juros, mas o novo temor é que o BC aplique uma dose mais forte na largada de um novo ciclo de ajuste na política monetária para mostrar que tem as rédeas do processo.

Em vez de uma leve alta de 0,25 ponto percentual, o Copom poderia subir, de cara, a taxa dos atuais 7,25% para 7,75%. Afinal, o banco precisa, reconhece o governo, recuperar sua credibilidade. Somente subir os juros já não seria suficiente para atingir tal objetivo.

Nada mais irônico é o Planalto despertar, somente agora, para a importância de o BC restaurar seu poder de coordenador das expectativas sobre os rumos da inflação. Afinal, ele foi duramente atingido por obra do chamado fogo amigo.

Trágico, porém, é notar que o governo descobriu, tardiamente, que uma inflação girando na casa de 6% durante tanto tempo criou resistências para sua queda. E gera um risco de reindexação na economia.

Parece ter acordado apenas depois que a inflação alta, como se diz, caiu na boca do povo. Deixou de ser um debate entre economistas e passou a fazer parte do cotidiano dos eleitores. Nada pior às vésperas de uma eleição presidencial.

Por essas e por outras, muita gente no governo crê num aumento dos juros, mas no fundo no fundo torce para que não seja agora.

Daí que, se o BC avalia que não pode mais esperar, a hora é essa. As pressões internas perderam força, mas podem ressurgir.

Argentina congelada - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 15/04

Governo de Cristina Kirchner insiste na receita desestabilizadora de medidas dramáticas e autoritárias para controlar a inflação


A quase sempre convulsionada Argentina exibe desempenho econômico superior ao de países maiores da América Latina, com exceção do Chile. Nos 20 anos de 1992 a 2011, sua renda per capita cresceu a 3,7% ao ano, contra 3,9% no Chile, mas ao dobro do ritmo brasileiro e ao triplo do mexicano.

O tumulto argentino, seus colapsos dramáticos e recuperações vertiginosas suscitam desacordos apaixonados entre comentaristas, polêmica revivida outra vez agora, com o "modelo Kirchner" a apresentar sinais de fadiga extrema.

O governo de Cristina Kirchner arrancou de setores do varejo o compromisso de congelar preços ao menos até maio. Na semana que passou, Kirchner impôs um teto aos preços dos combustíveis. Segundo medidas extraoficiais, a inflação anual ronda 25%; segundo o governo, seria menos de 11%.

Desde 2007, quando o governo interveio no instituto estatal de estatísticas, o índice de preços calculado por instituições particulares sempre supera o oficial. O governo tem reprimido até a divulgação de cálculos privados de inflação.

O congelamento é motivado pela proximidade das eleições parlamentares de outubro. Mas a lista de intervenções estatais é longa.

O governo impôs severos controles cambiais, procurando limitar a compra e a remessa de dólares para o exterior, tradicional recurso de defesa argentino contra crises. Sinal da tensão econômica, a diferença entre a cotação oficial do dólar e a paralela chegou a 40%.

O governo ainda regula importações e exportações, toma medidas protecionistas drásticas (que muito afetam o Brasil, aliás), manipula fundos públicos e ameaça empresas. Se não bastasse, uma disputa com credores na Justiça americana pode redundar em junho em nova declaração de default (inadimplência) do governo.

Por mais que Néstor e Cristina Kirchner tenham tido mérito de retirar a Argentina de uma grande depressão, a insistência em lidar com problemas de fundo com medidas extraordinárias tornou-se contraproducente.

Os sintomas da crise são a inflação, a volta do deficit público e a queda das reservas internacionais. Sinais evidentes da síndrome de poupança e investimento escassos, de um modelo de crescimento ora insustentável.

O desempenho argentino nas últimas décadas indica que o país tem potencial de recuperação, desde que o governo normalize fundamentos econômicos, faça um acordo de paz com o mercado e deixe de recorrer a remendos que apenas adiam de forma perigosa o inevitável ajuste. Receita, aliás, que muito bem faria o governo brasileiro em adotar.

O fim de um privilégio - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 15/04

Um debate iniciado em março do ano passado no Supremo Tribunal Federal (STF) terminou na última quarta-feira com uma decisão sensata. Por 7 votos a 4, em sessão administrativa, a Corte derrubou a reprovável norma adotada em 2010, pelo seu então presidente, Cezar Peluso, segundo a qual os nomes dos investigados em inquéritos e dos réus em processos criminais ali instaurados passaram a ser mantidos em sigilo - ficando a sua identificação nos autos restrita às iniciais, mesmo quando a ação não corresse em segredo de Justiça.

A regra parece ter se originado da divulgação da abertura de inquérito contra o presidente do Banco Central à época, Henrique Meirelles. O caso foi arquivado, mas Peluso teria entendido que o episódio prejudicou a imagem da instituição no País e no exterior. O STF, como se sabe, apenas dá início a ações penais que digam respeito a autoridades detentoras do chamado foro privilegiado - notadamente, parlamentares federais, ministros de Estado ou a eles equiparados, presidentes da República e seus vices.

A omissão das identidades impedia que se conhecesse a possível ficha processual dos detentores daqueles cargos, porque excluía do rol dos processos aqueles em que somente as iniciais dos envolvidos constavam dos autos. Só em caso de condenação - uma raridade na história do tribunal - os nomes seriam dados a conhecer por extenso. A regra de ouro da publicidade dos atos dos Três Poderes ficou gravemente prejudicada, já não bastasse o uso abusivo do instituto do segredo de Justiça, originalmente restrito a processos nas Varas da Família para proteger os filhos de casais em litígio.

Ou, como lembrou o ministro Marco Aurélio Mello, um dos primeiros a se opor à medida, "a divulgação das iniciais pode ser prejudicial ao próprio envolvido, porque se passa a ver chifre em cabeça de cavalo, imaginar coisa pior". Além dele, votaram contra o sigilo os seus colegas Joaquim Barbosa, presidente da Corte, Celso de Mello, Cármen Lúcia, Rosa Weber, Teori Zavascki e Carlos Ayres Britto (que se manifestara no ano passado, antes de se aposentar). Pela manutenção da norma, votaram os ministros Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Luiz Fux e Ricardo Lewandowski.

Na acalorada sessão de hora e meia, Fux foi o mais encarniçado defensor do uso mandatório das iniciais quando um inquérito é protocolado no STF. Mais adiante, distribuída a matéria, caberia ao ministro incumbido de ser o seu relator decidir se a identidade do suspeito deve ou não ser revelada. Ainda assim, assinalou, "a regra geral, tendo em vista que no inquérito não há acusação substanciosa, é autuar com as iniciais". De agora em diante será o inverso: inicialmente, constará o nome inteiro do inquirido, podendo o relator determinar o sigilo.

A principal voz pela extinção do anonimato foi a de Joaquim Barbosa. Desde que assumiu a presidência do colegiado, em novembro último, ele foi explícito em suas objeções ao sistema introduzido por Peluso. Na semana passada, manifestou o seu ponto de vista em plenário. Na sessão decisiva, lançou mão de um argumento simples - e irrefutável. Visto que a norma em todas as demais instâncias do Judiciário é a divulgação dos nomes, com a manutenção do registro pelas iniciais no STF "estaríamos estabelecendo um privilégio que só vale para pessoas que detêm prerrogativa de foro" - o que, em si, já distingue os beneficiados das pessoas comuns na esfera judicial.

De mais a mais, se os desiguais devem ser tratados desigualmente em determinadas circunstâncias, como é o caso do direito ao foro especial, não se pode perder de vista que, em relação aos detentores de cargos públicos, o princípio da publicidade - ou seja, o direito da sociedade de conhecer o que fazem e o que se passa com eles por força de sua própria condição - prevalece sobre o princípio da privacidade, que se aplica aos cidadãos em geral (e às autoridades, mas apenas no que toca à sua vida pessoal). É verdade que a reputação de uma figura pública pode ser indevidamente atingida, mas o mesmo vale para todos os envolvidos, com nome e sobrenome, em processos de grande notoriedade dos quais saiam absolvidos.

Opção necessária - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 15/04

A participação das usinas termoelétricas na matriz energética brasileira terá de ser ampliada para compensar o fato de o país não construir mais usinas hídricas com grandes reservatórios de acumulação. As novas hidrelétricas são quase sempre a fio d’água, com barragens que retêm água e apenas usam a vazão natural do rio para acionamento das turbinas naquele momento. No período da cheia, as turbinas são mais acionadas; chegam a ser desligadas na seca. A razão principal para não se construir hidrelétricas com reservatórios de acumulação é ambiental. Os maiores aproveitamentos estão hoje na Amazônia, em trechos de rios onde há desníveis mais expressivos. Na região amazônica são raros os vales profundos a montante dessas possíveis barragens. Assim, para acumulação de água possivelmente teriam de ser formados lagos muito extensos (mesmo para as dimensões da Amazônia), e rasos, o que deixaria parte da floresta submersa ou transformaria as várzeas em igarapés e igapós permanentes.

Antes, considerava-se suficiente uma proporção de 14% de energia de origem térmica na matriz elétrica. Na pratica, como se observou no ano passado e agora em 2013, tal percentual se mostra inadequado para assegurar o fornecimento de energia no caso de a precipitação pluviométrica ficar abaixo das médias históricas. Ainda que com grande potencial de crescimento, talvez se multiplicando por 10 no prazo de quinze a vinte anos, a energia eólica atualmente responde por cerca de 0,5% da eletricidade gerada no país. A solar permanece como promessa para um futuro mais distante.

No caso das térmicas, será preciso recorrer a usinas que queimem gás (cuja oferta é limitada pela produção nacional relativamente pequena), biomassa, óleo e carvão mineral. Nessas opções, a energia é mais cara que a gerada por hidrelétricas e tem o inconveniente do impacto ambiental mais intenso.

Neste contexto, o Brasil não pode abrir mão da energia nuclear. O país tem hoje o domínio da construção e da operação desse tipo de usina, além de deter tecnologia para enriquecimento de urânio, o que significa que novas centrais tendem a ficar mais baratas do que as atuais. Está provado que o impacto ambiental das usinas nucleares, geridas de maneira responsável e com elevado padrão de segurança, é dos mais baixos entre as grandes fontes de geração de eletricidade. Todas as etapas de funcionamento de uma usina nuclear são controladas, inclusive a de rejeitos, que, em futuro relativamente próximo, deverão ser reaproveitados como combustível (pois, no atual processo, não são completamentos queimados nos reatores) devido ao avanço tecnológico que possibilitará a sua reutilização.

O acidente em Fukushima, após o tsunami que devastou a costa do Norte do Japão voltada para o Oceano Pacífico, trouxe intranquilidade para os projetos de usinas nucleares, mas já estão claros os erros cometidos ali (e que mesmo assim não chegaram a causar danos mais sérios para a população). Tanto que usinas estão sendo religadas.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

"Vamos encontrar um País no chão"
José Serra, ainda tucano,sobre a “herança maldita” a ser deixada pelo PT


Cardozo é contra aumentar pena para traficantes

O ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) pediu ao deputado Osmar Terra (PMDB-RS) – médico e ex-secretário de Saúde do Rio Grande do Sul – para modificar projeto de sua autoria que aumenta de cinco a oito anos de prisão a pena mínima a traficantes de drogas. Para Cardozo, a medida vai “sobrecarregar ainda mais” os presídios. A matéria, a ser votada na terça (16), institui também internação involuntária do viciado.


Indefensável

Trocando em miúdos, o governo prefere traficantes soltos, viciando mais pessoas, sobretudo jovens, do que “sofrendo nas penitenciárias”.


Desinteresse

Osmar Terra denuncia: o segundo escalão no governo (áreas de Saúde e Justiça principalmente) trava o Programa de Combate ao Crack.


Eles estão no poder

No Ministério da Justiça, a turma do ex-secretário Pedro Abramovay, a favor de descriminalizar “pequeno traficante”, boicota ações antidrogas.


Deixa como está

PT e PSOL trabalham para derrubar o projeto que, segundo eles, “só radicaliza” e não soluciona o consumo e tráfico de drogas no país.


Aviões-espiões da PF não conseguem sair no chão

Nem empurrando a Polícia Federal consegue fazer decolar os aviões Vant (Veículo Aéreo Não Tripulado), comprados em Israel há três anos, para combater contrabando e narcotráfico na fronteiras. Os dois aviões-espiões, programados para voar em junho na Copa da Confederações, continuam nos hangares na base de São Miguel do Iguaçu (PR) por insuficiência de pilotos, como informou a coluna em janeiro de 2012.


Voo atrasado

O projeto empacou em 2011, quando o Tribunal de Contas da União questionou o alto valor da manutenção e da formação dos pilotos.


Próxima atração

Com Dirceu no cadafalso e Lula subindo os degraus, não será surpresa o aparecimento de “fitas” comprometedoras ou ameaças de revelá-las.


Panela de pressão

Desembargadores não descartam que o antigo colega no Tribunal de Justiça do Rio, ministro Luiz Fux, se aposente antes da hora.


Tempos de tensão

A cúpula do PT não gosta dos ataques de José Dirceu contra o ministro Luiz Fux. Teme que a artilharia acerte Lula e seu braço direito Antonio Palocci, que era ministro da Casa Civil quando Fux chegou ao STF.


O palanque sou eu

O pretendido ingresso do ricaço Josué Gomes da Silva no PMDB, para disputar o governo de Minas em 2014, seria tentativa de capitalizar a imagem do pai, José Alencar. Mas Josué, que sempre revelou desprezo pela política, corre o risco de ficar sozinho no palanque.


Será moleza

Foi ruidosa a comemoração da assessoria do governador paulista Geraldo Alckmin após o vazamento da preferência de Dilma pela candidatura de Aloísio Mercadante (PT) ao Palácio dos Bandeirantes.


Dona da casa

Lembrete a Dilma, que deve visitar Washington em outubro, após o fiasco de sua visita oficial de 2012: mais “modesta” que a de Roma, a embaixada brasileira na capital americana dispõe de aposentos mais confortáveis é maravilhosa.


Esforço inútil

O ministro Alexandre Padilha (Saúde) anuncia na Fiesp uma revolução na produção de medicamentos de ponta, mas um tal Conitec, do seu ministério, leva 90 dias para liberar um remédio já aprovado na Anvisa.


Murchando

Subiu no telhado a associação de Duda Mendonça a Antonio Lavareda, gigantes do marketing político. Com os bens ainda bloqueados pela Justiça, apesar de sua absolvição no processo do mensalão, Duda está sem condições de integralizar sua parte no capital da nova empresa.


Bajulação

Diante de 300 funcionários “convidados” na inauguração de elevatória no Rio, o presidente da Assembléia do Rio, Paulo Mello, “chamou de ‘secretário da Cedae’ o presidente da estatal de águas, Wagner Victer.


Chama o Lula

O prefeito Fernando Haddad que se cuide: o Supremo julga ação direta de inconstitucionalidade contra lei do Estado de São Paulo que obriga a remoção gratuita de postes que causam transtornos à população.


Pensando bem...

...tirar “22 milhões da extrema pobreza” é mole. Difícil é tirá-los da inflação depois.


Pensando bem...

Estimulados pela leniência do PT, só falta os criminosos “di menor” fundarem um partido: o Petizada.

Poder sem pudor

Um chato de botina

A bibliografia sobre a ditadura do AI-5 lembram muitos personagens, mas pouco se fala do Chefe do Gabinete Militar do general-presidente Costa e Silva. O general Jayme Portella tinha fama de ultra-direitista e de ultra-chato. Um jornalista perguntou a um oficial do Gabinete Militar, na época, se o general Jayme era mesmo mal-humorado ou era só aparência.
- É verdade – respondeu o oficial, com sinceridade - Ele é tão complicado que calça 40, mas usa 37 só pra conservar o mau humor.

SEGUNDA NOS JORNAIS


- O GloboMoradias populares - Governo investigará fraude no Minha Casa Minha Vida
Estadão: Estatal de aeroportos terá aporte bilionário
Folha: Maduro vence por margem estreita
Estado de Minas: Pavor na sala de aula
Zero Hora: Jovem de 21 anos confessa assassinato de seis taxistas
Correio Braziliense: Nicolás Maduro enfrenta o desafio de suceder Chávez
Valor Econômico: Aos 26 anos, Norte-Sul continua fora do trilho
Brasil Econômico: Receita ficará 24 h nos aeroportos para apressar a liberação de cargas

domingo, abril 14, 2013

Lula privatizou a si mesmo - GUILHERME FIUZA

REVISTA ÉPOCA

Ministério Público pediu à Polícia Federal abertura de inquérito contra Lula. A base do pedido é a denúncia de Marcos Valério, que o acusa de ter intermediado um repasse de R$ 7 milhões de uma telefônica para o PT. Valério afirmou que foi a Portugal em 2005 para preparar essa operação.

O Ministério Público parece que bebe. Será possível que os procuradores ainda não entenderam? Lula não sabia. Tanto não sabia, que até outro dia afirmava, para quem quisesse ouvir, que o mensalão não existiu. A condenação de seus companheiros mensaleiros, aliás, deve fer sido um choque para ele. Se é que ele já sabe o que aconteceu no Supremo Tribunal Federal.

É uma injustiça essa suspeita de armação petista para sugar milhões de uma empresa privada de telefonia. Todos sabem que o PT prefere extorquir empresas públicas. Até porque as estatais são coisa nossa (deles). Com tanto trabalho para chegar ao poder e passar a ordenhar os cofres do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, do BNDES, por que Lula e sua turma perderiam tempo achacando uma telefônica portuguesa?

Ao receber a notícia sobre o inquérito contra Lula por suspeita de envolvimento com o valerioduto, José Dirceu reagiu imediatamente. E disparou o argumento fulminante: o mensalão não existiu. Se existe alguém com autoridade para afirmar isso, esse alguém é José Dirceu. Condenado a dez anos de prisão, ele sabe que essas coisas que não existem podem dar uma dor de cabeça danada. Se Lula não sabia de algo que não existiu, nada melhor do que ser defendido pelo lendário Dirceu, guerreiro do povo brasileiro - personagem que também não existe.

Enquanto o filho do Brasil espera esfriar a denúncia do pedágio colhido com a telefônica, recebe a solidariedade dos fiéis por seu trabalho com as empreiteiras. Sabe-se agora que Lula fez uma série de viagens internacionais bancadas por algumas grandes construtoras brasileiras. Ele explicou que isso foi um ato patriótico - foi ajudar empresas nacionais a fazer negócios no estrangeiro, para o bem do Brasil. Não restam mais dúvidas: a vida é bela. E é feita de gestos nobres como este: um ex-presidente aproveita seu tempo livre para fazer boas ações, ajudando empresários a ganhar dinheiro no exterior, porque país rico é país sem pobreza empresarial.

Aí surge um comovente coro de progressistas, éticos e crédulos para afiançar as turnês lulistas, gritando que Lula não fez nada demais. De acordo com a nova moral da república companheira, não fez mesmo. Qual o problema de o líder máximo do partido que governa o país desenvolver uma relação particular (ou patriótica) com grandes empreiteiras que têm o governo como cliente? Que mal haveria na ajuda de Lula a empresas decisivas no jogo político, com suas doações às campanhas eleitorais? Qual o problema de Lula ter viajado para a Venezuela para arrancar de Hugo Chávez US$ 1 bilhão, devido a uma dessas empreiteiras, que pagou a viagem de Lula? E se essa empresa for a mesma que realizará seu sonho de construir o estádio do seu clube de coração para a Copa do Mundo, fazendo a alegria de milhões de torcedores-eleitores fiéis?

Não tem problema nenhum. Esse é o Brasil moderno, onde as coisas acontecem às claras, inclusive o tráfico de influência. A não ser quando o ministro do Desenvolvimento declara secretos os documentos de financiamentos do BNDES a Cuba e Angola, para obras dessas mesmas construtoras amigas de Lula. Deve ser para a imprensa burguesa não meter o bedelho - sempre uma boa causa. Por acaso, o ministro do Desenvolvimento é Fernando Pimentel, amigo de Dilma que prestou consultorias milionárias à indústria de Minas Gerais. Como se sabe, essas consultorias nunca foram demonstradas. Devem ter sido também apenas um ato patriótico, nova definição para o velho ditado "uma mão lava a outra".

Pelo visto, a mão que nenhuma outra lavou no final das contas foi a do companheiro Valério - logo ele, que lavou tanto para tanta gente. Agora, o operador do mensalão que não existiu quer mostrar a mão grande do chefe. Será mais um susto. Ele não sabia.


A inflação de Dilma - MAÍLSON DA NÓBREGA

REVISTA VEJA
Dias atrás, na África do Sul. a presidente Dilma disse não concordar "com políticas de combate à inflação que olhem (sic) a redução do crescimento econômico". Disse "Esse receituário, que quer matar o doente, em vez de curar a doença, «5 complicado". E concluiu: "Essa é uma política superada". Depois, com a repercussão negativa da declaração, falou certo: "O combate à inflação e um valor em si". Dilma sabe que a inflação corrói a renda dos trabalhadores, pode derrubar sua popularidade e atrapalhar o projeto de sua reeleição. No Brasil de hoje, inflação descontrolada é suicídio político.

No dia seguinte, o Relatório Trimestral de Inflação do Banco Central (BC) foi bem didático sobre o assunto. 'Taxas de inflação elevadas geram distorções que levam a aumento dos riscos e deprimem os investimentos." A inflação subtrai "o poder de compra de salários", reduzindo "o potencial de crescimento, bem como a geração de emprego e de renda".

Nos Estados Unidos, a inflação anual atingiu 13,5% em 1980. por excesso de demanda. Fato gravíssimo para padrões americanos. Para combater a alta dos preços, o Federal Reserve elevou brutalmente a taxa de juros. E houve recessão e aumento do desemprego, mas a inflação foi dominada. Na Europa, diante do mesmo problema, a esquerda protestou, onde já se viu combater inflação com recessão?

A esquerda defendia outra saída: uma "política de rendas". Trabalhadores e empresários negociariam entre si. Os primeiros moderariam as reivindicações salariais e os segundos sacrificariam parte dos lucros. A demanda cairia e com ela a inflação. O emprego seria mantido. Acontece que isso nunca poderia funcionar. Não ha via como coordenar todos os interesses envolvidos. Seriam necessários muitos estádios para abrigar os negociadores. Eleger representantes era complicado. A solução veio com o velho, provado e eficaz. instrumento: a taxa de juros. O benefício superava o custo.

O Brasil tolerou por décadas uma inflação elevada, que agravou as nossas desigualdades sociais. Surgiu uma cultura de indexação e de defesa: preços, salários e contratos se indexavam á inflação passada. Os preços subiam pelo excesso de demanda, mas a inflação se propagava pelo mecanismo de indexação e se acelerava quando havia más safras, altas do petróleo e mais desvalorizações cambiais. A inflação brasileira tinha, pois. um complicador: a indexação generalizada, que foi vencida em 1994 pelo Plano Real após cinco outras tentativas fracassadas.

Quando a inflação aumentou nos anos 1980. a esquerda brasileira também condenou as ações para combatê-la e defendeu ilusões. Celso Furtado escreveu um best-seller: Não - Não á Recessão e ao Desemprego. Na America Latina, falava-se que a inflação era estrutural e não de demanda. No Brasil, propunha-se vencê-la com mais produção. Acontece que antes é preciso investir, aumentando a capacidade de produzir. A demanda aumenta antes da oferta, agravando o desequilíbrio e a inflação.

Dilma parece prisioneira dessas visões. Dá a entender que acredita ser possível vencer a inflação sem reduzir a demanda. Além disso, em seu governo, o instrumento eficaz. a taxa de juros, se transformou em bandeira política. Até a oposição a elogia pela decisão de impor ao BC a queda da Selic. Por isso. ela resiste à ideia de aumentar a taxa de juros e à sua natural consequência: a queda temporária do ritmo de crescimento. Prefere controlar o preço da gasolina, adiar o aumento de tarifas de ônibus e trens, reduzir tarifas de energia e desonerar a cesta básica.

A experiência mostra que essas medidas alteram preços relativos, podem aliviar momentaneamente a inflação. mas não eliminam suas causas, que estão, vale repisar, no excesso de demanda. Como em qualquer doença, adiar o tratamento pode exigir doses maiores do remédio, que tendem a prostrar mais o doente do que quantidades menores em momentos apropriados. Na verdade, o que mata o doente é a ausência de tratamento ou prescrições equivocadas.

Tudo indica que a inflação do atual governo ficará acima da meta de 4,5. já em si muito alta. Sem o emprego da receita certa, ela pode fugir do controle. Será que a presidente Dilma vai autorizar o BC a agir?

Combate à inflação: a missão impossível - AFFONSO CELSO PASTORE

O Estado de S.Paulo - 14/04

Quando as expectativas de inflação se elevam acima da meta oficial, o Banco Central deveria elevar a taxa real de juros. É isso que faz a inflação retornar à meta. O ajuste não deveria ocorrer de uma única vez, e sim gradualmente, como fazem os bancos centrais de outros países, e como foi o procedimento do Banco Central do Brasil em episódios anteriores de aperto monetário.

Mas quando as autoridades não reagem, contentando-se com argumentos não convincentes de que assistimos apenas a um desvio temporário, estarão dando à sociedade uma prova de maior tolerância a inflações mais altas. A sociedade passa a perceber a existência de uma meta implícita de inflação superior à oficial, caracterizando-se um processo de desancoragem das expectativas. O resultado é o crescimento contínuo da inflação.

Desde o inesperado início do ciclo de queda da taxa Selic, em agosto de 2011, as expectativas vêm excedendo a meta oficial de inflação, e mesmo assim o Banco Central continuou reduzindo os juros. Em agosto de 2011, as autoridades brandiram os resultados de um modelo DSGE, que supostamente lhes daria uma superioridade de informações. O argumento era de que reagiam ao risco de um recrudescimento da recessão mundial, e que o seu modelo DSGE garantiria que a queda da taxa de juros não impediria a convergência para a meta de 4,5% mesmo diante de um choque de 25% do ocorrido quando da quebra do Lehman Brothers. Mas, mesmo dispondo de um DSGE, o Banco Central não conseguiu dimensionar corretamente a queda factível da taxa de juros, exagerando-a. O resultado é que não somente a inflação não convergiu para a meta de 4,5%, como adquiriu uma tendência crescente.

O exagero na queda da taxa de juros mostra que, além da desancoragem das expectativas, a inflação brasileira atual é, também, uma consequência do crescimento da demanda acima do crescimento da oferta. Embora haja um grau elevado de imprecisão nas medidas empíricas da taxa neutra real de juros - a que iguala oferta e procura, estabilizando as taxas de inflação -, há claras indicações de que atualmente a taxa real de juros se situa abaixo da neutra.

Quando isso ocorre, o crescimento da demanda excede o crescimento da oferta e, ainda que o país cresça pouco, ocorre a inflação. Uma evidência desse comportamento vem do mercado de trabalho, no qual a taxa de desemprego é a menor em toda a história, e ao lado disso assistimos ao crescimento da taxa de participação da força de trabalho e dos salários reais, acarretando uma inflação de serviços que há mais de dois anos supera 8% ao ano.

Taxa cambial. Em um quadro como esse, no qual a inflação somente vem sendo precariamente contida pelos baixos reajustes dos preços administrados, o Banco Central já deveria ter iniciado um ciclo de elevação da taxa de juros, e provavelmente terá de fazê-lo em breve. Mas a sua tarefa não será fácil.

A primeira razão prende-se ao comportamento da taxa cambial. Se, a exemplo do ocorrido em episódios anteriores de aperto monetário, a taxa cambial pudesse se valorizar, a política monetária poderia atuar através do canal do câmbio, elevando a sua eficácia no controle da inflação. Mas a valorização cambial esbarra no objetivo de recompor a margem de lucro das indústrias. Contrariamente ao setor de serviços, que não sofre a competição das importações, o setor industrial é mais aberto ao exterior, e não tem a mesma liberdade de repassar aumentos de custos para preços.

Desde o início de 2010, as margens de lucro da indústria vêm caindo continuamente, por causa do aumento do custo unitário do trabalho medido em reais, que é em grande parte uma consequência do superaquecimento do mercado de trabalho. A isto se soma a redução de margens de lucro gerada pelo câmbio, que permanece valorizado apesar da tentativa (frustrada pelo aumento da inflação) de forçar uma depreciação iniciada em maio do ano passado.

Se combinarmos estes dois indicadores em um único - o custo unitário do trabalho medido em dólares -, veremos que a perda de competitividade da indústria brasileira nos últimos anos foi maior do que em qualquer outro país na América Latina. Com isso as margens de lucro da indústria se estreitaram, reduzindo os investimentos, que é uma das causas do baixo crescimento brasileiro atual. O setor industrial somente retomará taxas de investimento mais elevadas se: a) elevar as expectativas de lucros futuros, aumentando suas taxas esperadas de retorno sobre o capital fixo; b) elevar suficientemente os lucros retidos para financiar uma boa parcela de seus investimentos.

Se o superaquecimento do mercado de trabalho pudesse ser revertido, levando à queda do custo unitário do trabalho medido em reais, teríamos uma elevação de margens de lucro, mas politicamente o governo rejeita ações que levem ao aumento do desemprego. Se fosse possível evitar que a inflação erodisse a depreciação do câmbio real, esta levaria a uma recomposição parcial da competitividade. Mas, para que isso ocorresse, a depreciação do câmbio nominal teria de ser acompanhada de um forte aperto das políticas fiscal e monetária, que elevaria a taxa de desemprego, sendo também rejeitada pelo governo. Não há disposição política de pagar os custos necessários para corrigir a penalização que vem sendo imposta à indústria e, nesta situação, torna-se impossível permitir a valorização cambial, que agravaria ainda mais este quadro.

Política fiscal. A segunda razão vem da política fiscal. Se essa política pudesse se tornar contracionista, aliviaria a carga sobre a política monetária. Mas o governo parece acreditar mais no efeito sobre a inflação vindo de desonerações que afetem preços relativos, do que na potência da política monetária. Para isso, vem reduzindo impostos com efeitos temporários sobre a inflação. Porém, em um prazo um pouco mais longo, a queda consequente do superávit primário gera mais inflação, aumentando a carga suportada pela política monetária.

O segundo propósito das desonerações é favorecer os setores produtivos com quedas de custos. Como temos de conviver com os efeitos do elevado custo unitário do trabalho e do câmbio real apreciado sobre o lucro das indústrias, o governo procura compensá-las com desonerações atingindo setores específicos. Por isso a política fiscal torna-se cada vez mais expansionista.

A última razão, e talvez a mais importante, é de natureza política. O reconhecimento de que a popularidade da presidente depende do baixo nível de desemprego levou um ministro de Estado a afirmar que "o PIB do pobre é o emprego e o salário elevado". É isso que está por trás da proposição de que "o combate à inflação não se faz com a redução do crescimento", porque o que se quer preservar é a popularidade vinda do baixo desemprego.

O objetivo da reeleição se sobrepõe a todos os demais. Não há como provar que a relutância do Banco Central em cumprir o seu mandato - o combate à inflação - venha de sua obediência à diretriz de não permitir a elevação da taxa de desemprego. Mas não é necessário que haja qualquer interferência explícita, porque na prática tudo funciona "como se" ela existisse, dado que o Banco Central assiste passivamente ao crescimento da inflação, sem esboçar qualquer reação.

Como é grande o risco de uma desancoragem ainda maior da inflação, é possível que em algum momento o governo decida elevar os juros. Mas, dado o constrangimento de que o crescimento não pode ser afetado, e o canal do câmbio não poder ajudar, o mais provável é que se veja uma elevação cosmética dos juros, visando apenas afetar as expectativas e mostrar que o Banco Central está atuando. Se esta for a motivação, as expectativas permanecerão desancoradas.

Temos um Banco Central extremamente tolerante à inflação, ajustado a um diagnóstico errado e aos objetivos políticos do governo. O próprio governo alimenta a inflação através da política fiscal, que além de permanecer pródiga no aumento dos gastos correntes, vem sendo utilizada para temporariamente "aplainar" elevações de preços. Por isso, combater a inflação no Brasil é, atualmente, uma missão impossível.


MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 14/04

Cassidian negocia para participar de concorrência
A Cassidian, empresa do grupo EADS que opera em sistemas de defesa e segurança, está em negociações com grandes grupos brasileiros para fechar uma parceria e participar da concorrência do Sisgaaz (Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul).

Por "Amazônia Azul", entenda-se a fronteira marítima e o pré-sal.

O novo sistema envolverá satélites, sensores, radares, inteligência, câmera, mísseis e outros equipamentos.

Nesta semana, os executivos no Brasil receberam da matriz europeia o sinal verde para a parceria.

"Confirmo que estamos falando com a Embraer, além de outros grupos que prefiro não mencionar", diz Christian Scherer, vice-presidente mundial da empresa, que esteve no Rio de Janeiro até a quinta-feira passada.

Scherer afirma não saber a quantas empresas se associará. "Dependerá do cliente."

A expectativa é que a primeira fase da licitação ocorra neste ano.

O custo estimado é de cerca de R$ 6 bilhões, mas o valor ainda depende de especificações finais.

A Cassidian, que teve 5,8 bilhões de euros de faturamento em 2012, é especialista em monitoramento de fronteiras e faz um gerenciamento semelhante ao do Sisgaaz na Arábia Saudita, na França e no Catar, segundo Scherer.

No ano passado, a Cassidian encerrou uma joint venture com a Odebrecht Defesa e Tecnologia. Juntas, as duas companhias concorreram à licitação do Sisfron, em que a Embraer saiu vencedora.

"Mantemos boas relações e estamos conversando também com a Odebrecht", diz.

Economia reduz crescimento na construção civil para 2,3%
O mercado da construção civil deve fechar o ano com um crescimento menor do que o previsto, segundo a consultoria LCA.

A alta projetada, de 2,8%, no início de 2013, caiu para 2,3% após uma revisão no fim do primeiro trimestre.

"A queda não era esperada, pois havia um otimismo grande no início deste ano", diz Paulo César Neves, economista da consultoria.

Para ele, dois aspectos contribuíram para a piora da expectativa para o setor.

"O mercado imobiliário não reagiu o quanto imaginávamos e os investimentos em infraestrutura nesses meses iniciais foram menores do que o projetado", afirma.

Mesmo com o recuo, o ritmo de crescimento ainda é considerado bom, segundo o economista.

"Não teremos retração. A expansão deve se manter, principalmente por causa dos desembolsos previstos pelo BNDES", afirma Neves.

o que estou lendo
Abilio Diniz, empresário
Na semana em que passou a acumular as presidências do conselho do Grupo Pão de Açúcar e do conselho da BRF, Abilio Diniz lê "Conscious Capitalism" (Capitalismo Consciente), de Raj Sisodia e John Mackey.

"Lucrar é fundamental para a vitalidade de um negócio, mas não pode ser a sua única razão de existir, nem a mais importante", diz Abilio. Para o empresário, o conceito de capitalismo difundido pelos autores é o modelo mais eficiente para o desenvolvimento de uma empresa.

"Ter um propósito maior nos leva a levantar todo dia para fazer nosso trabalho, serve como um norte nos tempos mais difíceis, motiva as pessoas", acrescenta.

Por isso, as companhias que atuam assim são capazes de inspirar e gerar comprometimento em funcionários, clientes, fornecedores e acionistas, afirma.

"Ter esse propósito é fazer com que todos os envolvidos permaneçam satisfeitos e felizes. Isso é capitalismo consciente", conclui.

PARA DENTRO DO PAC
Na reunião do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial, de quarta-feira passada, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) propôs ao governo a inclusão no PAC de 207 projetos de infraestrutura considerados prioritários nas regiões Norte, Nordeste e Sul do país.

As rodovias, ferrovias, hidrovias e portos demandariam investimentos de R$ 54,7 bilhões até 2020, mas proporcionariam uma economia anual de R$ 13,1 bilhões em gastos com transporte nas três regiões, segundo a CNI.

"Procuramos selecionar os projetos que cortariam custos no escoamento da produção e dariam um ganho de produtividade. E consideramos o prazo de amortização de todos eles", diz Robson Andrade, presidente da CNI.

"Algumas obras já estão no PAC e propomos outras que deveriam entrar no programa também", acrescenta.

A região Norte tem projetos de hidrovias fundamentais para atrair investimento e reduzir o custo de exportações agrícolas", exemplifica.

BICHO CARIOCA
O Pet Center Marginal vai abrir as suas duas primeiras unidades no Rio de Janeiro, entre julho e agosto deste ano. Uma será em Manilha, próximo a Niterói, e a outra será na Barra da Tijuca.

"Fora de São Paulo, temos uma loja em Brasília. Com as duas do Rio, marcaremos presença nos três principais eixos do setor pet do país", afirma Sérgio Zimerman, dono do Pet Center.

A marca terá também um ponto em São Caetano e em mais três locais a serem definidos. O investimento total deve superar os R$ 20 milhões, segundo Zimerman.

A Europa vai ficar para trás? - JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS

O Estado de S.Paulo - 14/04

1. O Japão surpreendeu o mundo com seu agressivo programa de estímulo monetário, que vai injetar quase US$ 1,5 trilhão em dois anos. Busca sair de vez da deflação, e levar os preços a subirem até 2% ao ano. Busca também consolidar a atual desvalorização do iene, que caiu 25% frente ao dólar e ao euro, entre novembro e o início de abril. A indústria japonesa, que ainda preserva muitas áreas de grande competência, deve elevar suas exportações e puxar algum crescimento, especialmente se os Estados Unidos consolidarem, em 2014, uma expansão da ordem de 3,0% a 3,5%, como acreditamos. Se algumas reformas no mercado interno puderem também avançar, poderemos ver, finalmente, a terceira economia do mundo começar a andar.

2. Os dados de emprego recentes deixaram nervosos vários analistas da economia americana, mesmo tendo-se em conta que os números dos últimos meses foram revisados para melhor. Entendo esse resultado mais como uma flutuação numa tendência de melhora da economia, que deve continuar. Os fatores de expansão ainda estão ativos. Chamo a atenção para a elevação no valor das residências, que vem melhorando a posição patrimonial das famílias. De fato, nos últimos anos as mesmas recapturaram mais de US$ 1,5 trilhão de riqueza perdida no início da crise. Não é de se surpreender que o crédito ao consumo tenha voltado a crescer.

Ao mesmo tempo, o chamado precipício fiscal tem cada dia mais jeito do "bug do milênio" (aquele evento na passagem do século que iria gerar um caos no mundo, parando todos os computadores, o que nunca ocorreu, apesar do medo que gerou). Os cortes automáticos de gastos estão acontecendo, sem o mergulho na recessão previsto por muitos. Em parte, porque segundo fontes que conhecem bem o problema, o corte nas despesas da Defesa não tem afetado muito o setor, isto é, colocado a segurança em risco, tal o desperdício típico de segmentos que recebem por muito tempo dinheiro em excesso (será que isso tem alguma semelhança com gastos do nosso governo?). O ajuste fiscal americano está longe de ser o ideal, mas está avançando sem gerar uma recessão, como se temia.

Continuamos trabalhando com o crescimento do PIB dos EUA da ordem de 3,0% a 3,5% em 2014.

3. Chipre: a solução à crise bancária organizada pela chamada troica (FMI, BCE e União Europeia) foi muito ruim, mesmo que se diga que Chipre não é igual aos outros países que assinaram programas de ajuste. Quatro observações são relevantes: na primeira proposta do plano de resgate havia uma tributação sobre os depósitos até 100 mil. Ora, essa garantia vale para os 17 países da zona do euro e a proposição colocaria dúvidas em toda a região, aumentando a desconfiança. Mesmo essa proposta tendo sido retirada na segunda versão do pacote, fica a desconfiança.

A perda enfrentada por depositantes e investidores também leva a uma incerteza quanto ao futuro de outros locais que têm sistemas bancários muito alavancados, como Malta, Luxemburgo, etc. Todos esses países também se dizem diferentes dos casos onde acabou por haver alguma intervenção.

Em terceiro lugar, a colocação de controles de capital foi inevitável, uma vez que a desconfiança levaria a um generalizado êxodo de capital para outros países. Com isso, parece-me pouco provável que os controles sejam aliviados em prazo curto. Como consequência, temos dois absurdos: controle de capital numa união monetária e, em segundo lugar, um euro que vale menos em Chipre do que no remanescente dos países. O caso da ilha mostra como a Europa ainda tem muito com o que se preocupar.

4. A Eslovênia rapidamente se colocou como uma das novas fontes de dificuldades. Segundo a OCDE, o país está em profunda recessão e enfrenta uma severa crise bancária. O prêmio de risco subiu rapidamente nas últimas semanas. Alguma coisa terá de ser feita com esse pequeno país.

5. A Europa vai ficar para trás? Se nossas expectativas estiverem mais ou menos corretas, os EUA crescerão bem no próximo ano, a China deve sustentar com facilidade uma expansão da ordem de 8,0%, o Japão pode começar a andar, implicando que os três maiores PIBs nacionais do mundo (algo da ordem de US$ 30 trilhões) crescerão mais que neste ano. Quase todos os outros países asiáticos seguirão numa velocidade de crescimento superior a 5,0%, e mesmo na América Latina, Chile, Peru, Colômbia e México terão uma expansão significativa.

Ao mesmo tempo, o melhor cenário da Europa é continuar estagnada, provavelmente por vários anos.

6. Argentina e México: embora este texto tenha como foco a Europa, não posso deixar de fazer duas observações. O desmonte da economia argentina não tem fim e a política econômica é cada vez mais louca. Um colapso cambial pode acontecer, pois como dizia Mario Henrique Simonsen, "a inflação incomoda, mas o câmbio é mortal". As empresas brasileiras estão desistindo de operar na Argentina em grande quantidade. Vale e Deca já anunciaram sua decisão. Petrobrás, JBS e ALL colocaram ativos à venda. Muitas outras estão tentando organizar sua saída, o que não é fácil, por pressão do governo e pela impossibilidade de remeter divisas para o Brasil. Nesta semana, duas empresas me disseram que não vão mais exportar para lá, tão grandes são as dificuldades para obter permissões e receber o dinheiro.

Por outro lado, a imprensa tem tratado a atração exercida pelo México de forma que me incomoda. Em praticamente todas as matérias, fala-se que o México é o novo queridinho do mercado, sugerindo uma coisa de moda e volubilidade. Volto em outro momento para discutir isso com mais cuidado, mas chamo a atenção para quatro coisas: a competitividade do país aumentou muito, inclusive com relação à China; o México investiu em portos no Pacífico e ferrovias que os ligam aos centros industriais no norte do país; o gás natural lá custa pelo menos quatro vezes menos que no Brasil. Finalmente, enquanto formamos 45 mil engenheiros por ano, o México forma 105 mil, tendo uma população que é 60% da brasileira.

Sua Excelência, o tomate! - JOÃO BOSCO RABELLO

O Estado de S.Paulo - 14/04

Ao contrapor a realidade como limite ao excesso de idealização, o deputado Ulysses Guimarães dizia a interlocutores "sonháticos" que na política manda "Sua Excelência, o fato", agora representado pelo tomate inflacionário, vilão que trouxe para as ruas a preocupação econômica até então circunscrita aos especialistas.

O fato impõe sério revés à estratégia do Planalto de manter no âmbito técnico o debate sobre a economia e põe em xeque o diagnóstico precoce de que sua fase negativa não afetaria o bolso do eleitor a tempo de influir na campanha presidencial de 2014.
Mais cedo ainda do que supunham mesmo os mais pessimistas, as imagens de consumidores revoltados em supermercados ganharam espaço nos telejornais exibidos no horário nobre, o tomate virou piada nacional nas redes sociais, e os candidatos de oposição à presidente Dilma Rousseff ganharam a munição eficiente para difundir a dúvida sobre sua capacidade gestora.

"Sua Excelência, o tomate", é o figurino recente da "velha senhora", a inflação, dada como a única ameaça à reeleição da presidente se, em médio prazo, não for contida. Para enfrentá-la, aumentam-se os juros o que, por sua vez, encarece investimentos e põe um freio na anestesia do consumo, ópio do eleitorado.

O governo, que receia mais do que demonstra, prepara-se para essas providências, cuja protelação pretendia estender, dispondo-se a pagar o preço após a reeleição da presidente Dilma.

Mas a conta chegou mais cedo, combinando inflação e falta de investimentos e exibindo a insuficiência das desonerações em série como antídoto eficaz.

O relógio de Campos

Pressionado pela antecipação da campanha presidencial pelo governo, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, começa a viver a angústia de ter antecipada a saída do PSB da base aliada, com a consequente entrega dos cargos do partido na estrutura federal. Seu plano original previa o desembarque em outubro, um ano antes da disputa, mas segundo um interlocutor de sua confiança, a eventual aprovação da Medida Provisória dos Portos pode precipitar esse prazo. A MP retira dos Estados a autonomia da gestão dos portos, agravando o discurso crítico de Campos e reduzindo a viabilidade de manter-se aliado e candidato por muito mais tempo.
Ritmo lento

A favor do governador pernambucano soma o veto do governo ao relatório da MP dos Portos, do senador Eduardo Braga (PMDB-AM), que prorroga por 10 anos, os contratos assinados até 93. A proposta contraria o Planalto e retarda a tramitação da MP que já recebeu 600 emendas na comissão mista que a examina.

Beltrame

Em busca de nomes do Sudeste para a chapa presidencial, Eduardo Campos convidou o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, para se filiar ao PSB. E pensa no prefeito Eduardo Paes, do PMDB. Mas aí, admitem seus pares, é sonho: Paes que já foi cotado para vice do pré-candidato ao governo, Luiz Fernando Pezão, quer ir até o fim do mandato na prefeitura credenciando-se para chegar ao governo no tempo certo.

Leilão

Já o senador Aécio Neves (PSDB-MG) oferecerá ao PP, a cabeça de chapa na disputa estadual mineira, que iria para Alberto Coelho, atual vice de Antonio Anastasia. O PP é cobiçado também pelo PT e já deu seu preço: o ministério das Cidades e a garantia de manter sua cota se Dilma Rousseff for reeleita.

Portal da esperança - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 14/04

O PMDB nunca foi tão feliz. Pelo menos, no que se refere a atendimento por parte do governo. A cada semana, tem um ministro na Câmara, instalado na sala de reuniões da liderança do PMDB, dedicado especialmente a ouvir os pedidos dos parlamentares do partido. O primeiro foi o ministro da Agricultura, Antônio Andrade. Ninguém prestou muita atenção, porque, afinal, Andrade é do partido, deputado por Minas Gerais, estava “em casa”. A romaria começou a chamar a atenção na última quarta-feira, quando o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, passou duas horas e meia dedicado aos peemedebistas. “Sou uma UPA móvel”, brincou Padilha, referindo-se à sigla das Unidades de Pronto Atendimento.

Padilha atendeu pelo menos 50 parlamentares. Chegou ao PMDB no início da noite e saiu já passava das 21h. Na sala do líder, os deputados esperavam a sua vez de conversar com Padilha, já separando as emendas que querem ver atendidas. A próxima a fazer esse périplo no partido deve ser a ministra do Desenvolvimento Social, Teresa Campelo. “É muito mais fácil assim. Em pouco tempo, o ministro consegue atender vários parlamentares”, dizia o deputado Júnior Coimbra.

Essa romaria ao PMDB é inédita como prática de gestão. No governo Fernando Henrique Cardoso, os ministros sempre atendiam na Liderança do Governo na Câmara. E, invariavelmente, esse atendimento individual coincidia com a data de alguma votação importante para o projeto do presidente da República. No governo Lula, a tradição de ministro despachar na liderança se manteve, mas não era tão comum quanto no antecessor. As conversas se davam mais nos jantares.

Enquanto isso, nos demais…
O convite aos ministros partiu do líder, Eduardo Cunha, do Rio de Janeiro, como forma de tentar estreitar o relacionamento da bancada com o governo do qual o partido é associado. E o pronto atendimento por parte do Executivo deixa clara a prioridade que a presidente Dilma Rousseff e sua equipe pretendem dar ao PMDB, o único partido hoje “amarrado” ao projeto da reeleição dela, junto com o PT.

O PMDB não tem escolha. O fato de ter seu presidente licenciado, Michel Temer, como vice-presidente da República fecha as portas a projetos alternativos para 2014. O máximo que os peemedebistas tentarão até lá é obter o poio do PT a projetos estaduais estratégicos para o partido, caso do Rio de Janeiro. O Planalto registrou o recado de Sérgio Cabral, publicado esta semana pelo Panorama Político do jornal O Globo, onde o governador pede que tenha a primazia de fazer o sucessor, assim como Lula teve para eleger Dilma Rousseff com o apoio do PMDB. Mais claro do que isso, impossível. Resta saber se Lula intervirá para tirar Lindbergh Farias do campo ou se deixará o barco correr. Até aqui, nada foi feito.

Enquanto o PMDB força a porta para seus candidatos a governador, os demais partidos aliados do governo colocam um pé em cada canoa. Talvez, o maior aliado de Dilma hoje, depois do PMDB, obviamente, seja o PSD de Gilberto Kassab, que a conta-gotas, vai levando seus diretórios estaduais ao apoio a Dilma. O PSD ainda não marcou visitas de ministros a seus parlamentares e ali há quem considere que não seria de bom tom, uma vez que o partido se declarou independente do governo. Mas, certamente, começará agora uma pressão de outros partidos para que os ministros repitam o procedimento com suas respectivas bancadas. O problema é que, hoje, os demais não estão assim tão fechados com a presidente quanto está o PMDB.

… e nas votações…

Esse tipo de relacionamento onde o ministro vai à liderança anotar os pedidos é a prova mais cabal de que a política consiste num jogo de toma-lá-dá-cá, onde os deputados terminam transformados em despachantes dos pedidos das prefeituras municipais. Sendo assim, sobra pouco tempo para cuidar dos temas para os quais foram eleitos, tornar a legislação mais ágil e fiscalizar as ações do Poder Executivo. Vira tudo meio “brother”, “parceiro”. Se a relação seguir nessa batida, não terá oposicionista capaz de acabar com essa irmandade.

Esse modelo no qual o ministro vai aos partidos anotar pedidos é a prova mais cabal de que a política consiste num jogo de toma-lá-dá-cá em que os deputados terminam transformados
em despachantes das prefeituras municipais

Ansiolítico eleitoral - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 14/04

Apesar do recuo no consumo em supermercados e do estouro da meta da inflação, a previsão compartilhada por ala expressiva da equipe econômica do governo é a de que o índice de preços ceda em até um ponto percentual até setembro. A análise tem sido usada no Planalto para tranquilizar os que temem impacto da crise na campanha de Dilma Rousseff. Auxiliares da presidente entendem que produtos sazonais, caso do tomate, representam 60% da alta dos últimos meses.

Caderninho O otimismo é tamanho que governistas catalogam declarações dos presidenciáveis sobre economia. Falas sobre risco de "desemprego" e "inflação" serão usadas para acusar Aécio Neves e Eduardo Campos de "torcer contra o país".

Zero... Não há previsão de ida de Dilma para inaugurar a Arena Pernambuco, que será entregue hoje tendo só o governador como estrela. A presidente lançou estádios em Fortaleza e Salvador.

... a zero O governo do Estado diz que o ato de hoje será técnico e que está sendo discutida outra data para Dilma inaugurar a obra.

W.O. Para não irritar o governo, a Fifa desistiu de mandar mensagem de Joseph Blatter ao evento de hoje em Recife. O ministro Aldo Rebelo (Esporte) não irá.

Titanic O próximo encontro de Dilma e Campos será em maio, quando será lançado o novo navio do estaleiro Atlântico, de Pernambuco.

Dupla cidadania Após confirmar ida ao seminário do PT amanhã, em Belo Horizonte, a mineira Dilma informou a dirigentes da sigla que participará também da escala da caravana de Lula em Porto Alegre, onde morou, dia 24.

Abin O governo vai monitorar o comportamento do PDT no projeto que barra acesso de novas siglas ao fundo partidário e tempo de TV. Auxiliares do Planalto cobram lealdade do partido após ingresso de Manoel Dias no Ministério do Trabalho.

Onde pega Um dos mais ativos líderes pedetistas, Paulo Pereira da Silva (SP), presidente da Força Sindical, diz estar prestes a reunir as assinaturas necessárias para criar seu "Solidariedade".

Carinho 1 Diante da resistência de Renan Calheiros (PMDB-AL) em promulgar a emenda que cria quatro Tribunais Regionais Federais, parlamentares da base aliada veem tentativa de agradar Joaquim Barbosa, presidente do STF e crítico do projeto.

Carinho 2 Às vésperas de o peemedebista assumir a presidência do Senado, em fevereiro, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, enviou à corte denúncia contra ele por três crimes.

Recordar é viver Quando a PEC foi aprovada no Senado, peemedebistas lembram que Renan não apenas votou a favor como encaminhou voto favorável à questão como líder da bancada.

Força-tarefa Escritórios de advocacia que representam réus do mensalão reforçaram as equipes para se dedicar à leitura das milhares de páginas do acórdão do julgamento, que deveria ter saído na semana passada, mas teve a publicação atrasada.

Algorítimo Empresas de informática também foram contratadas para dissecar a peça, a fim de que apenas os votos referentes aos clientes sejam analisados. A ideia é otimizar o tempo, exíguo para verificar eventuais lacunas e contradições no texto.

Bolsa novela Dilma usará a necessidade de digitalização do sistema de TV para estimular a compra de receptores e conversores de alta definição. Além da anunciada desoneração dos aparelhos, está em gestação programa para subsidiar a compra por famílias de baixa renda.

On-line Fabricantes de TV fizeram chegar a interlocutores do governo que, em 2014, 80% dos televisores produzidos no país serão conectáveis na internet.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio
"José Dirceu disse algo inimaginável a respeito de um ministro do STF. Para quem nega o mensalão, já vimos o tamanho da mentira."
DO LÍDER DO DEM NA CÂMARA, RONALDO CAIADO (GO), sobre a declaração do ex-ministro de que Luiz Fux teria prometido absolvê-lo no julgamento.

contraponto


Rá-tim-bum


"A presidente Dilma Rousseff, ministros e amigos do casal Lula da Silva se reuniram há uma semana em São Paulo para comemorar o aniversário da ex-primeira-dama Marisa Letícia.

Havia um bolo com bonequinhos dela e de Lula. Mas como era aniversário de Guido Mantega (Fazenda), foi providenciado um cupcake.

--Olha! O Pibinho! --gritou alguém diante do bolinho, provocando risadas discretas e constrangidas.