sábado, março 02, 2013

Indignação para manter o sonho - MIGUEL REALE JÚNIOR

O ESTADO DE S. PAULO - 02/03

Manifesto assinado por milhões de pessoas indignadas exige o afastamento de Renan Calheiros da presidência do Senado até o término do processo em curso no Supremo Tribunal Federal (STF). Em contundente artigo neste jornal, Roberto DaMatta, desolado em face da eleição de Renan, pensa em pegar o chapéu, deixar-se tomar pela depressão e desistir de sonhar.

O reclamo contra essa eleição suscita questão prévia relevante: a presunção da inocência, inscrita na Constituição como direito fundamental. Diz o inciso LVII do artigo 5. 0 : "Ninguém será considerado culpado até o transito em julgado de sentença penal condenatória". Assim, se pendente algum recurso, deve- se presumir não ser o condenado culpado, pois pode ainda ser absolvido.

Segundo Magalhães Gomes Filho, a presunção de inocência leva a rejeitar a avaliação apriorística da culpabilidade, cujo reconhecimento exige a existência de processo justo, com igualdade de armas entre acusação e defesa e decisão definitiva. No entanto, a Lei da Ficha Limpa determinou a perda da elegibilida- de em vista de condenação por crimes contra a administração, falsidade, lavagem de dinheiro ou por infração à probidade administrativa, mesmo sem trânsito em julgado, desde que haja decisão de tribunal. O STF, por provocação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), considerou a lei constitucional, entendendo não se violar a presunção de inocência, em vista do disposto no artigo 14, § 9.º , da Constituição, segundo o qual a lei estabelecerá casos de inelegibilidade a fim de proteger a probidade administrativa e a moralidade para exercício de mandato, considerada a vida pregressa do candidato.

Assim, entendeu o STF que o exercício do ius honorum (direito de concorrer a cargos eletivos) pode ser limitado em face de decisão condenatória de tribunal, mesmo não transitada em julgado, pois diz respeito a fatos de elevadíssima carga de reprovabilidade social que não se compadecem com a pretensão de representar o povo, sendo razoável restringir o direito de ser eleito. Ponderou-se que as exigências postas ao homem público são maiores do que as apresentadas ao "homem comum".

Renan Calheiros, presidente do Senado, foi denunciado perante o STF por crimes de peculato, falsidade ideológica e uso de documento falso, tendo em vista o desvio de verba parlamentar e a produção de documentos inverídicos sobre o rendimento de sua fazenda justificadores de recursos para pagamento de pensão a Mônica Veloso. A denúncia não foi ainda recebida.

Henrique Eduardo Alves, presidente da Câmara dos Deputados, foi condenado em primeira instância no Rio Grande do Norte por ter feito, como secretário de Estado, promoção pessoal com verbas públicas. Aguarda- se julgamento no tribunal. É acusado também na 16.ª Vara da Justiça Federal, em Brasília, de possuir dinheiro no estrangeiro. Surgiu recentemente a revelação de ter havido desvio de verba parlamentar, fato passível de apreciação pelo STF.

Ambos os presidentes, não condenados por órgão colegiado, restam inatingidos pela Lei da Ficha Limpa. A questão, portanto, de assumirem a chefia do Legislativo nacional e eventualmente a Presidência da República não encontra óbice no campo jurídico, e sim no plano moral.

Cumpre ao chefe de um Poder da República ter autoridade moral para impor a probidade administrativa, a firme limitação do abuso do poder, a atuação contínua com vista apenas ao interesse público por todos os servidores, sendo tarefa essencial do Legislativo fiscalizar em favor do mais rigoroso respeito à moralidade na administração pública.

Mesmo sem condenação em tribunal por crimes de peculato e falsidade ou por improbidade administrativa, como podem os presidentes do Senado e da Câmara ter autoridade, força moral incontrastável, respeitabilidade na vida pregressa para exigir correção dos parlamentares, dos funcionários das Casas que presidem e dos servidores de toda a administração federal? Surgem outras evidentes hipóteses de conflito de interesses: que liberdade o presidente do Senado e o da Câmara têm para confrontar o STF, que os julgará, em disputa sobre âmbito de competência entre os Poderes Legislativo e Judiciário? Possíveis são, também, divergências acerca da perda de mandato de parlamentares, bem como da atuação das CPIs ou da admissibilidade de medidas provisórias.

É estranho Renan Calheiros conduzir o Senado na votação do projeto de Código Penal (CP) que descriminaliza as figuras menos graves do peculato por erro de outrem e do peculato culposo (artigo 312, § 2°, e 313 do CP), para as quais sua defesa pode pedir a desclassificação do peculato (artigo 312, caput), pelo qual é processado. Se houver desclassificação, aprovado o projeto de código, ficará impune. Pode Renan presidir a apreciação do projeto de Código Penal em que se elimina a pena de multa para o crime de falsidade ideológica, que lhe é imputado?

O aspecto moral, sem dúvida, prepondera: como educar um jovem, punindo o uso do dinheiro destinado ao material escolar em aposta de joguinho eletrônico, se quem é acusado de" desviar verba parlamentar é eleito para presidir as Casas dos representantes do povo?

Não se imagina que Renan e Alves, em ato de grandeza, renunciem a seus postos, até o término dos processos, para só exercerem a presidência de suas Casas sem que lhes paire sobre a cabeça nenhuma suspeita. Assim, como esforço pedagógico resta apenas aos setores conscientes da sociedade manifestar seu inconformismo e às entidades garantes da democracia, como a OAB, líder da campanha da Ficha Limpa, protestar com alarde, mesmo que o presidente da Ordem seja réu em ação de improbidade e investigado por eventual irregularidade junto ao tribunal do Piauí (revista Exame de 12/6/2008).

Só a indignação evita a depressão, impede que se pegue o chapéu e se deixe de sonhar.

Anatomia de um crime - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 02/03

SÃO PAULO - Pelas primeiras informações divulgadas, seria o maior escândalo médico da história do país. Num consórcio macabro, médicos, funcionários e a direção de um hospital de Curitiba estariam assassinando pacientes na UTI para substituí-los por outros mais rentáveis e aumentar seu faturamento.

Profissionais foram presos e estão sendo investigados por homicídio doloso qualificado. Surgiram testemunhas descrevendo o inferno. Um delegado anunciou que checaria todos os óbitos ocorridos no hospital nos últimos sete anos.

A história era muito inverossímil desde o início, mas, à medida que o tempo foi passando, a polícia entrou em mais contradições que os suspeitos e o grande escândalo foi murchando. A motivação financeira foi a primeira a ser descartada. Depois, desapareceu misteriosamente o policial que havia sido infiltrado na UTI e, ao longo de dois meses, constatara os abusos. Agora, a polícia diz que obteve autorização judicial para fazer a infiltração, mas desistiu. Surgiu até um erro grave de transcrição no material coletado pelas autoridades.

Ainda é cedo para cravar que não houve nenhum tipo de delito, mas, aparentemente, só o que sobra são algumas declarações meio destrambelhadas da chefe da UTI. Há gravações que registram frases como "Quero desentulhar a UTI, que está me dando coceira". Isso é compatível com a síndrome do "burnout" (esgotamento), comum entre médicos, mas dificilmente uma prova material de assassinato.

Na verdade, se despirmos a frase de seus aspectos mais grosseiros, ficamos com uma verdade. As UTIs brasileiras, de um modo geral, retêm os pacientes por muito tempo. Por aqui, ainda é comum indicar cuidados intensivos para doentes terminais, o que implica altos custos não apenas financeiros como também morais e psicológicos. Essa é uma discussão que, por razões culturais, evitamos, mas deveríamos travar.


Estímulos sem resposta - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 02/03
O magérrimo PIB de 0,9% representa um fracasso maior do que parece. Fracassaram todas as medidas de estímulo, algumas boas, como a queda dos juros, outras que criaram tratamento desigual dentro da economia, com subsídios e vantagens distribuídas a escolhidos. O PIB per capita foi zero. O investimento caiu 4%. Olhando para frente, 2013 será melhor do que 2012. O que se discute é quanto melhor.

Na quinta-feira à noite, passando perto de um grupo de economistas reunidos numa livraria do Rio, perguntei a Silvia Matos, do Ibre/FGV:

- Que número sairá amanhã?

- 0,9% - respondeu.

Ela fez essa afirmação categórica porque estudou os dados que levam ao cálculo do PIB e chegou à conclusão de que esse era o número. Isso mostra que o IBGE fez com independência sua conta, apesar de trazer uma má notícia. Serve de consolo. Nossa vizinha Argentina tem um instituto de pesquisa que, por ordem do governo, tem que torturar os números para que saiam como o governo quer. É um alívio saber que os índices do IBGE são previsíveis e respeitados.

Olhando para 2013, houve nas últimas semanas uma série de previsões otimistas, de que o Brasil poderia crescer até 4%. Essa é a estimativa de Nilson Teixeira, do Credit Suisse, que foi muito criticado pelo ministro Guido Mantega, no ano passado, que afirmou que era piada sua previsão de 1% para 2012. Não foi piada, foi o que aconteceu. Outro otimista é Octávio de Barros, do Bradesco, mas sua estimativa de 3,5% entrou em viés de baixa, ontem. A consultoria inglesa Capital Economics cortou sua projeção de 3,5% para 3%, a mesma do HSBC. A Austin Rating manteve 3,7%. Entre os mais cautelosos, estão a Rosenberg & Associados, que prevê 2,5%, e a Gradual, em torno de 2%.

Sobre 2012, o PIB do quarto trimestre, quando anualizado, dá um crescimento de 2,4%, segundo Rafael Bacciotti, da Tendências. É um número bem menor do que dizia o governo: o país terminaria o ano crescendo 4%. A atividade ficou abaixo do esperado e o carregamento estatístico para este ano será menor, de 0,7%. Teremos que remar muito para chegar a um PIB 4%. Esse carregamento funciona assim: mesmo que o país fique estagnado ao longo do ano, ele terá, na média, um PIB 0,7% maior que a média de 2012.

O que foi pior em 2012 foi a queda de 4% do investimento. Foi a segunda queda anual e se igualou a 2009, que foi ano de crise. A indústria encolheu e também voltou a 2009. A maior retração foi a da agropecuária, e o melhor desempenho foi o dos serviços. A taxa de poupança caiu para 14,8% do PIB, e o investimento desceu a 18,1%.

De boas notícias, pode-se dizer três coisas. Na comparação trimestre contra trimestre, o investimento voltou a crescer, 0,5%, depois de cair quatro vezes seguidas. Os serviços também subiram, na taxa acumulada em 12 meses, depois de oito quedas: de 1,5% para 1,7%. Por fim, o próprio PIB acumulado em 12 meses parou de cair. Estava desacelerando desde 2010, saindo de 7,6% para 0,9%. Manteve a taxa no final do ano, e já é alguma coisa não ter ficado pior.

Há razões para algum otimismo este ano: o Brasil está colhendo uma supersafra e os preços internacionais estão bons em várias culturas porque não houve ainda recuperação dos estoques reduzidos. Também vai ser o primeiro ano completo de juros baixos. Ainda que oscilem, eles o farão em patamar menor do que estavam no início de 2012. Em janeiro, houve vários indicadores fortes que podem ajudar a produção industrial do trimestre ser boa. Isso vai aumentar o otimismo.

Um ano melhor do que o desastre de 2012 é fácil. Difícil é iniciar uma nova etapa de crescimento sustentado, o que o governo só poderá conseguir se deixar de lado a obsessão desta campanha eleitoral extemporânea e realmente governar com os olhos nos fundamentos da economia. 

Servidão voluntária - KÁTIA ABREU

FOLHA DE SP - 02/03

A produção nacional seria muito onerada, com uma transferência de nossos ganhos para outros países


O planeta está ficando pequeno para uma economia que se desdobra em nível mundial, criando uma trama de relações de mercado que transcende pessoas, empresas e até mesmo nações.

A Terra também começa a ficar pequena para uma expansão demográfica que avança a passos enormes, indiferente ao desafio de alimentar todas essas pessoas.

Foi no sistema capitalista, aliás, que as condições de vida se desenvolveram, proporcionando o acesso a um melhor atendimento de saúde, a vacinas, alimentação e condições dignas de trabalho. Não fossem esses fatores, a explosão demográfica não teria ocorrido.

Nesse contexto mundial, o papel de cada país, e de seus governos, ganha maior relevância à medida que tratados internacionais assinados podem provocar imensos reflexos nacionais.

Muitas vezes, boas intenções escondem propósitos menos nobres, que podem prejudicar, e muito, a vida das nações.

Deve-se evitar, sobretudo, a servidão voluntária, através da qual um país pode ter as mãos amarradas por iniciativa própria, renunciando ao seu poder de decisão.

O Brasil é uma das maiores potências na produção agropecuária, destacando-se, internacionalmente, pela pujança do agronegócio. O país tornou-se um "player" mundial incontornável.

Os olhos da cobiça não estão ausentes desse cenário, pois empresas e países procuram diminuir a nossa competitividade via tratados e, inclusive, campanhas internacionais, como já acontece com questões florestais e indígenas.

Todo novo tratado deve ser visto com lupa. O diabo mora nos detalhes.

Eis o caso do novo Protocolo de Nagoya, que se sobrepõe ao Tratado Internacional sobre Recursos Fitogenéticos para a Alimentação e a Agricultura (Tirfaa), promulgado pelo Brasil em junho de 2008.

O Tirfaa já vinha cumprindo plenamente suas funções de "prospecção, conservação e uso sustentável dos recursos fitogenéticos para a alimentação e a agricultura".

O Protocolo de Nagoya, assinado pelo Brasil três anos mais tarde, ainda não foi, porém, ratificado pelo Congresso Nacional. Esse debate abrirá espaço para que possamos evitar problemas que venham a repercutir na vida nacional.

Em particular, em seu artigo 4º, estipula que "as provisões deste protocolo não afetarão direitos e obrigações de qualquer parte derivados de qualquer acordo internacional existente", quando, na verdade, deixa em aberto a questão de se o Tirfaa será ou não preservado no âmbito doméstico.

Mais especificamente ainda, o Protocolo de Nagoya estipula a criação de uma contribuição de quem utiliza um determinado produto genético -soja, babaçu, milho, batata, óleos essenciais de árvores nativas e micro-organismos, por exemplo.

Especula-se que essa contribuição seria em torno de 1% da produção relacionada ao uso do elemento da biodiversidade.

Nesse cenário, pode ocorrer que o Brasil passe a pagar pela biodiversidade não nativa utilizada em sua agricultura e pecuária.

A origem da soja, por exemplo, é a China; a do milho, o México; a raça nelore foi importada da Índia; a cana-de-açúcar veio dos países asiáticos.

Imaginem quanto o país teria que pagar hoje pela produção desses cultivos, alguns dos quais dos mais competitivos internacionalmente.

A produção nacional seria muito onerada, com uma transferência de nossos ganhos -e produtividade- para outros países.

Pode-se, mesmo, questionar o que é uma cultura nativa, pois os que a desenvolveram e aperfeiçoaram são os verdadeiros destinatários de seus esforços, trabalho e conhecimento. São criadores.

Não por acaso, os Estados Unidos e o Canadá não firmaram o protocolo, cientes de que ele poderia prejudicar a sua agricultura e pecuária. O Brasil deveria tomar a máxima precaução, não ratificando esse protocolo enquanto essas questões não ficarem bem esclarecidas.

Em particular, a biodiversidade agrícola deveria ser retirada do âmbito de aplicação desse protocolo. O país não pode renunciar a esse aspecto essencial de sua soberania nacional.

PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV - 02/03


7h - Torneio da Malásia, tênis fem., Bandsports

9h - Marfil x Arenas, Espanhol de futsal, Esporte Interativo

10h - Jogo das Estrelas, NBB, Globo e SporTV

11h30 - B. Dortmund x Hannover, Alemão, ESPN

12h - Manchester United x Norwich, Inglês, Fox Sports

12h - Chelsea x West Bromwich, Inglês, ESPN Brasil

12h - Swansea x Newcastle, Inglês, ESPN +

13h - Reims x PSG, Francês, SporTV

14h - La Coruña x Rayo Vallecano, Espanhol, ESPN

14h30 - Wigan x Liverpool, Inglês, ESPN Brasil

14h30 - Leverkusen x Stuttgart, Alemão, ESPN +

15h45 - Treino classificatório da Stock Car, etapa de São Paulo, SporTV 2

16h - Rio do Sul x Rio de Janeiro, Superliga fem. de vôlei, SporTV

16h45 - Milan x Lazio, Italiano, Fox Sports

16h45 - Sporting x Porto, Português, Bandsports e SporTV 3

16h45 - Twente x Ajax, Holandês, ESPN Brasil

18h - Valencia x Levante, Espanhol, ESPN

18h - Pinheiros x Campinas, Superliga fem. de vôlei, Esporte Interativo e SporTV 2

18h30 - Linense x Ponte Preta, Paulista, SporTV

20h - Torneio do Brasil (final), tênis fem., SporTV 3

20h - Miami x Duke, basquete universitário, ESPN +

21h30 - Rio de Janeiro x Florianópolis, Superliga masc. de vôlei, SporTV 2

21h30 - Iowa x Indiana, basquete universitário, Bandsports

21h40 - UFC (card preliminar), artes marciais mistas, SporTV

23h - Arizona x UCLA, basquete universitário, ESPN +

A chuva e o guarda-chuva - CELSO MING

O ESTADO DE S. PAULO - 02/03

O desempenho do PIB em 2012 foi tão ruim quanto se esperava: avanço de apenas 0,9% sobre as posições de 2011 - o que contrariou as projeções oficiais do primeiro trimestre, que apontavam para "crescimento de algo entre 4,0% e 4,5%".

A maior decepção foi o desempenho do investimento, cujo nome e sobrenome nas Contas Nacionais é Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF): queda de 4,0%, o que compromete o futuro.

A indústria foi mal, embora menos do que se previa: caiu 0,8%. E o setor agropecuário, o mais dinâmico da economia, talvez tenha sido outra surpresa negativa: recuo de 2,3%. Reflete o mau momento dos subsetores do trigo, do fumo, da cana-de-açúcar, da laranja e da mandioca.

Quem repete por aí que o Brasil tem economia industrial? Nada disso. Passou a ser uma economia de serviços, que hoje detém fatia de 68,5% da renda nacional.

Infelizmente, nesse segmento não são os serviços de ponta e de alta tecnologia que têm conduzido o processo. Os setores que mais crescem estão envelopados sob a rubrica Outros Serviços. São as tarefas domésticas (empregada doméstica e babá), cabeleireira, manicure, segurança, call centers e um número não especificado ocupado por autônomos ou trabalhadores por conta própria.

Ao final de 2012, a indústria de transformação não pesava mais do que 13,3% do PIB. Houve perda de peso no bolo total de 5,9 pontos porcentuais desde 2004.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tentou explicar nesta sexta-feira mais esse fiasco como sendo consequência da crise global. É mais um autoengano. Se a chuva fosse tão maior que o guarda-chuva (como escreveu o poeta Paulo Leminski), os demais países estariam tão encharcados quanto o Brasil. E, no entanto, não aconteceu assim. A tabela que vai no Confira dá uma ideia melhor disso.

O baixo desempenho do PIB tem a ver com os problemas internos do Brasil. E isso fica ainda mais evidente quando se juntam na mesma ficha PIB e inflação - de 5,84% em 2012 e acima dos 6,00% ao ano no primeiro bimestre de 2013.

Paradoxalmente, a mediocridade do desempenho econômico não é percebida pelo cidadão. O povão nunca comeu tão bem, nunca teve tanta oferta de emprego, nunca viajou tanto e começa a ter atendimento de saúde como nunca teve.

E isso se reflete nas Contas Nacionais. Lá está mostrado que, em 2012, o consumo das famílias cresceu 3,1% e o do governo, 3,2%. Ou seja, o mix das políticas econômicas privilegiou o consumo popular.

Tanto privilegiou que a Poupança Nacional caiu de 17,2% para 14,8%. O Brasil sempre investiu pouco, mas passou a investir menos ainda. Está comendo também as sementes e as matrizes.

Mas essa sensação de bem-estar não é sustentável. É verdade que o governo Dilma parece ter-se dado conta de que algo tem de mudar urgentemente. Esse esforço para elevar o investimento em infraestrutura e logística é efeito dessa tomada de consciência. O problema é que os resultados não são imediatos.

Por falar nisso, é pouco chorar sobre o leite derramado. A próxima Coluna vai examinar o que se pode esperar dessa suposta virada para o desempenho da economia em 2013.

Rombo comercial

Até agora o governo não explicou por que empurrou para os três primeiros meses de 2013 a maior parte das estatísticas de importação de combustíveis - o maior responsável pelo maior déficit comercial em meses de fevereiro. Independentemente da razão, é mais uma distorção que dificulta as previsões do comportamento da economia neste ano.

'Pibinho' no retrovisor - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 02/03

BRASÍLIA - Ontem, saiu a confirmação do "pibinho" de 2012. No segundo ano do governo da petista Dilma Rousseff a economia cresceu 0,9%. Em 2011, o PIB havia sido de 2,7%. A média dilmista é de 1,8%.

Essa taxa coloca Dilma Rousseff atrás de Lula (4% de crescimento médio) e de FHC (2,3%). A oposição, no seu papel, soltou os cachorros.

O país está parado, mal administrado e por aí vai.

Que houve ineficácia nas medidas econômicas ninguém tem dúvida. O difícil é saber como será daqui para a frente. Só olhar o retrovisor muitas vezes não ajuda -ou até atrapalha- na hora de compor análises sobre o futuro da economia brasileira e de outros países. Há uma crise crônica desde 2008, só que, no ano passado, os EUA, a China e a Rússia se deram melhor do que o Brasil.

A oposição cumpre o seu papel. O crescimento da economia foi pífio. Também é visível a incapacidade gerencial do governo petista em Brasília por causa do excesso de centralismo da presidente. Ainda assim, é temerário afirmar que o país entrará num buraco a partir de hoje.

Aliás, às vezes, parece o oposto. Mesmo com todos os obstáculos para prever o desempenho da eco-nomia, não surgiu até o momento nenhum analista (nem do PSDB ou do DEM) vaticinando um PIB de apenas 1% em 2013.

O mercado de trabalho insiste em ficar aquecido. Em alguns setores, preços além do normal indicam uma demanda quase incompatível com o "pibinho". Ontem, em São Paulo, foi lançado um hotel popular que vende os quartos para investidores. Cada unidade, de 19,5 m², custa R$ 358 mil.

Se a corrida presidencial fosse um campeonato de futebol, Dilma Rousseff poderia dizer que sofre agora uma derrota na hora certa. Isso se houver alguma recuperação da economia e a manutenção do nível de emprego. Nesse caso, a petista perderá pouco de sua condição de favorita à reeleição em 2014.

Mitologia petista - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 02/03

Para defender as realizações dos últimos dez anos, o PT não precisava recorrer a distorções e omissões para desqualificar os antecessores e fazer crer que o partido construiu o país do zero

Parlamentares do Democratas e do PSDB resolveram “completar” uma exposição relativa aos 33 anos do PT, no Congresso Nacional: ao perceber que os painéis da mostra passavam direto de 2004 para 2006, os oposicionistas confeccionaram uma placa referente a 2005, classificado como “o ano do mensalão”, e a colocaram no corredor da Casa. Deputados petistas se irritaram e os parlamentares de situação e oposição quase se agrediram. O cartaz acabou removido e, independentemente da opinião que se possa ter sobre o episódio, ele oferece uma oportunidade para discutir as continuadas tentativas, feitas pelo partido hoje no poder, de reescrever a história, distorcendo ou omitindo os fatos na construção de uma narrativa praticamente épica.

No mês passado, o PT, a Fundação Lula e o Instituto Perseu Abramo publicaram uma cartilha de 28 páginas dedicada a exaltar os primeiros dez anos de petismo na Presidência da República. O leitmotiv da publicação é a comparação entre os dois mandatos de Lula e a primeira metade do mandato de Dilma Rousseff com os oito anos da gestão de Fernando Henrique Cardoso, na tentativa de exaltar o governo petista e desqualificar o período FHC, descrito como de “subordinação nacional aos desejos dos grandes detentores de riqueza financeira e dos grupos geradores de divisas internacionais” e de “decadência induzida pela rota da neocolonização neoliberal”, e que “apequenou o país, interrompendo o longo e tortuoso processo de construção do Estado nacional”.

A cartilha petista, no entanto, apresenta estatísticas distorcidas. Reportagem da Folha de S.Paulo publicada logo após a divulgação do folheto de 28 páginas dá exemplos como o trecho no qual se afirma que antes da era Lula “o país permaneceu prisioneiro do estado crônico da semiestagnação econômica, capaz de acorrentar inacreditavelmente 45 brasileiros a cada 100 na condição de pobreza absoluta”, quando a taxa de pobreza no último ano de governo tucano era de 34%. Ou o trecho segundo o qual até o fim desta década “o país deve se situar entre as quatro maiores economias globais e ser o primeiro na exportação agrícola do mundo”, quando o estudo da PriceWaterhouse Coopers estima esse patamar apenas para o ano 2050.

À distorção soma-se a omissão. Quando, por exemplo, a cartilha compara os índices de inflação acumulada – 106,5% nos oito anos de FHC, contra 76,5% nos dez anos de petismo –, deixa de fora a informação de que, entre 1987 e 1994, o período de oito anos anterior a FHC, a inflação acumulada tinha sido de 32.659.187.563%, ainda segundo a Folha de S.Paulo. Ou seja, o esforço principal do combate à inflação foi feito justamente durante o governo tucano e no último ano de Itamar Franco, graças ao Plano Real, capitaneado pelo próprio Fernando Henrique Cardoso, e ao qual o PT se opôs – informação que, obviamente, o folheto petista não menciona.

O objetivo da cartilha, ao fim, é dar a impressão de que Lula e o PT assumiram um país aos frangalhos e o colocaram nos trilhos, quando tal descrição estaria mais adequada ao período anterior, em que, a despeito de todos os equívocos que a gestão tucana possa ter cometido, a hiperinflação foi debelada, o sistema bancário foi saneado e o processo de privatizações permitiu investimentos que o Estado brasileiro não era capaz de realizar, como no caso das telecomunicações. Aliás, ao oferecer aeroportos à iniciativa privada, o governo Dilma nada mais faz que recorrer ao mesmo expediente que condena no caso do governo do PSDB, por mais que insista em uma terminologia própria para evidenciar possíveis diferenças.

Lula, Dilma e o PT têm resultados próprios para mostrar em seu favor, e que tornariam desnecessárias comparações como as da cartilha divulgada dias atrás. O fato de recorrer a distorções e omissões nos números só serve para desmoralizar ainda mais a incapacidade petista de reconhecer os méritos de seus antecessores, e a obsessão em se mostrar melhor que os governos anteriores. O que fica evidente é o esforço em construir uma mitologia de um país erguido do zero graças unicamente aos esforços do PT. No entanto, esta narrativa é nada mais que isso: um mito.


País pagou o preço da retração dos investimentos - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 02/03

Os números preliminares do Produto Interno Bruto divulgados pelo IBGE, confirmando estatisticamente o fraco desempenho da economia brasileira em 2012, um crescimento de apenas 0,9%, deveriam servir para um profunda reflexão, se possível desapaixonada, para que se possa encontrar respostas adequadas a questões importantes para o presente e o futuro. O que teria acontecido para motivar tamanha retração nos investimentos?

O governo tinha um diagnóstico — e acreditou de fato nele — que o levou a estimular o consumo na expectativa de que os investimentos acabariam vindo a reboque. Não deu certo.

Ao longo de 2012, assim como já havia sido em 2011 e anos anteriores, o consumo das famílias permaneceu em ascensão enquanto os investimentos se retraiam (em 4%), uma aparente contradição. Mas a verdade é que o ambiente político e institucional esteve desfavorável aos investimentos nesse período. O intervencionismo governamental inadequado demonizou a presença de investimentos privados nas concessões relacionadas à infraestrutura. Em um setor tão emblemático para a economia brasileira como o do petróleo, o governo Lula deu vários passos atrás e a presidente Dilma, que se apresenta como uma continuidade do antecessor, demorou a reagir.

Depois de sete anos sem rodadas de licitação, o governo promete agora promover quatro, em diferentes modalidades, em 2013. A Petrobras, que estava ladeira abaixo (e os preços das suas ações na Bolsa são uma evidência que os investidores ainda se mantêm temerosos quanto à trajetória da empresa), devido ao aparelhismo político, está sendo sacudida, e, ao que parece, o governo desistiu da política de preços que sufocou financeiramente tanto a companhia como segmentos de biocombustíveis, especialmente o da agroindústria alcooleira.

Para financiar o investimento, o governo deu sinais que o BNDES exerceria esse papel recorrendo a empréstimos ilimitados do Tesouro, em uma situação preocupante. E pela dificuldade de conter seus gastos de custeio, o governo passou a lançar mão de uma “contabilidade criativa” para fechar as contas públicas dentro dos parâmetros assumidos na legislação de diretrizes orçamentárias, abusando da boa fé dos especialistas no tema.

Os dados do IBGE referentes à trajetória do PIB no quarto trimestre do ano passado captaram uma recuperação do investimento, após quatro resultados trimestrais negativos consecutivos. Talvez já signifique uma reação positiva ao anúncio da retomada dos processos de concessão nas áreas de infraestrutura, no cenário doméstico, e à sensação de que o pior da crise já teria passado lá fora. Esse quadro não descarta a reflexão aqui sugerida. O Brasil tem claras oportunidades e não pode desperdiçá-las por causa de decisões políticas equivocadas.

PIB em xeque - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 02/03

Crescimento de apenas 0,9% indica que modelo econômico baseado no aumento do consumo e dos gastos do governo chegou ao seu limite


O crescimento do PIB no ano passado, de apenas 0,9%, foi pífio, mas não uma surpresa. Há vários meses já ficara claro que 2012 seria um ano quase perdido e que a retomada seria bem mais lenta que a apregoada pelo governo.

O crescimento derivou dos fatores de sempre: consumo das famílias e gastos do governo. Ambos tiveram alta pouco superior a 3%.

Do lado do consumo, o impulso foi possível por causa do desemprego baixo e dos salários ainda em alta -mas não teve a exuberância do passado. Depois de anos de forte expansão, o crédito mais escasso e o alto endividamento do consumidor já atuam como freios.

O grande vilão foi o investimento, que caiu 4% e deve encerrar o ano abaixo de 18% do PIB.

Sob a ótica setorial, o quadro é o mesmo. Os serviços continuaram a se expandir (1,7%), ao passo que o PIB industrial, que tem forte correlação com a taxa de investimento, mostrou queda de 0,8%.

O ambiente externo ruim contribuiu para o fraco desempenho verificado nesse quesito, mas não há dúvida de que os principais problemas são domésticos. A questão essencial é de custos e competitividade, que continuam a piorar em relação a outros países. Entre 2006 e 2012, a produtividade da indústria cresceu apenas 10%.

A dicotomia entre consumo, emprego e renda bem sustentados, de um lado, e produção em baixa, de outro, persiste e surpreende. Como entender que o emprego se mantenha, num quadro de PIB indigente e aparente desindustrialização?

Uma explicação possível seria a alta dos preços de commodities e a abundância de capitais externos dos últimos anos, que ensejam um fluxo constante de divisas para o país. O Brasil, grande exportador daqueles produtos, teve um ganho estimado em 2% do PIB ao ano.

O resultado, típico de países submetidos a tal experiência, é um surto de liquidez interna. Mal canalizada, ela acaba desaguando em alta de consumo, gastos públicos e bolhas de preços de ativos, como terras e imóveis.

Com muitos recursos em circulação, vicejam por alguns anos o emprego e a renda, acompanhados porém de erosão na capacidade de competir no mercado internacional. Os salários aumentam além da produtividade, em especial no setor de serviços. A indústria, que não tem a mesma liberdade para ajustar preços (pois está submetida à concorrência de importados), fica cada vez mais pressionada.

Com o passar do tempo, porém, o empuxo externo arrefece. Ficam apenas os custos internos mais elevados. O crescimento murcha, e o modelo centrado no consumo entra em xeque. Tal é o quadro atual.

Os frutos fáceis de colher se acabaram. É chegada a hora de trabalhar para restaurar a competitividade e impulsionar o investimento -algo bem mais difícil de alcançar.


Uma previsão auspiciosa - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 02/03

É auspiciosa a previsão de que, no que depender do Supremo Tribunal Federal (STF), as sentenças a que 25 réus do mensalão foram condenados começarão a ser cumpridas até julho. Mas chamam ainda mais a atenção as duras críticas feitas pelo ministro Joaquim Barbosa à "frouxidão" do sistema penal brasileiro e ao estado "caótico" do sistema prisional, durante entrevista concedida a correspondentes estrangeiros.

A previsão de que os mandados de prisão dos mensaleiros condenados deverão ser expedidos até julho é auspiciosa porque o julgamento da Ação Penal 470, que mobilizou a opinião pública nacional, teve o dom de, em grande medida, restabelecer a confiança dos brasileiros em pelo menos um dos Três Poderes da República.Mas esse sentimento de que a Suprema Corte deu um grande passo para acabar com a impunidade dos poderosos já começa a se dissipar, diante dos indícios de que as abundantes brechas do nosso sistema processual penal permitiriam jogar para um futuro imprevisível o cumprimento das penas. Muitos já apostam, por exemplo, que os deputados federais condenados terão tempo suficiente para chegar ao fim de seus mandatos, daqui a quase dois anos. Ou seja: os poderosos continuariam a ser beneficiados por um sistema penal que só costuma ser rigoroso com os mais comuns dos cidadãos. É bom saber, portanto, que o presidente do STF não pretende frustrar as expectativas de quem acreditou no poder da Justiça.

Joaquim Barbosa colocou o dedo na ferida: "O sistema penal é muito frouxo. É totalmente pró-réu, pró-criminalidade. É um absurdo". E previu: "Essas sentenças que o Supremo proferiu de dez, de doze anos, no final, elas se converterão em dois anos, dois anos e pouco de prisão, porque há vários mecanismos para reduzir a pena". Da mesma forma que fizeram ao longo de todo o julgamento do mensalão, com toda certeza os interessados em desqualificar a decisão histórica do STF voltarão a acusar o agora presidente da Corte de conspirar contra as garantias constitucionais do cidadão, por ser pouco tolerante com as manobras procrastinatórias do processo penal e preconizar sistema mais rigoroso.O relator do mensalão deverá continuar sofrendo marcação cerrada dos "garantistas" de conveniência.

Mas é exatamente a frouxidão a que Barbosa se refere que permite ao deputado federal Natan Donadon (PMDB-RO), condenado pelo STF em outubro de 2010 a mais de 13 anos de prisão, por peculato e formação de quadrilha, continuar em liberdade quase dois anos e meio depois de ter sido sentenciado. Em janeiro o próprio Joaquim Barbosa, já presidente do Supremo, foi obrigado a indeferir o pedido de expedição do mandado de prisão de Donadon feito pela Procuradoria-Geral da República porque ainda não se havia cumprido todo o rito processual.

Por outro lado, faz parte desse contexto a precariedade do sistema prisional, que Barbosa definiu, com toda razão, como "caótico". Até o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, fez pesadas críticas ao "inferno" representado pela perspectiva do cumprimento de uma pena privativa da liberdade no Brasil. Essa precariedade, explicou o presidente do STF aos jornalistas estrangeiros, é usada como argumento "para afrouxar aindamais o sistema penal". A superpopulação dos presídios e cadeias públicas proporciona um verdadeiro circo de horrores que alimenta quase que diariamente o noticiário televisivo. Tudo isso pesa para aumentar a pressão dos que defendem um sistema penal mais leniente, baseado na lógica absurda de que uma maneira de diminuir a superpopulação carcerária é deixar mais criminosos em liberdade.

Quanto à intenção manifestada por Joaquim Barbosa de cumprir todas as etapas do rito processual da Ação Penal 470 até o fim deste semestre, de modo que os responsáveis pelo mensalão comecem a cumprir suas penas já a partir de julho, é conveniente lembrar que uma dessas etapas - aliás, a próxima - é a publicação do acórdão condenatório, que depende de que todos os ministros que atuaram no caso entreguem seus votos, inevitavelmente longos. Ou seja, ficará a critério de cada um colaborar, ou não, para o cumprimento da previsão do presidente Joaquim Barbosa.


COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Já disse que o PSB vai estar em 2014”
Governador Eduardo Campos (Pernambuco) sobre conversa com a presidente Dilma


DILMA PEDE AO PMDB EMPENHO NA MP DOS PORTOS

A presidente Dilma Rousseff pediu aos líderes do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), e na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), empenho na aprovação da Medida Provisória do Portos, que cria marco regulatório para o setor, em reunião na quinta (28). Para ela, a medida aumentará a competitividade portuária brasileira. Já sobre os royalties do petróleo, Dilma disse estar conformada com a inevitável derrubada de seu veto.

TIRA DÚVIDAS

Dilma aproveitou o encontro com os líderes para tirar dúvidas sobre o funcionamento dos trabalhos legislativos, indicação de comissões...

DEIXA ACONTECER

O senador Eunício garante que Dilma nem tocou no assunto reforma ministerial: “Discutiremos isso só depois da convenção do PMDB”.

COMBATE À VIOLÊNCIA

Presidente da Câmara, Henrique Alves (RN) separou o dia 19 de março para debater segurança. O autor da proposta é Lincoln Portela (MG).

MUSEU DO FOLCLORE

De gafe em gafe, Lula ainda se perfilará entre as lendas brasileiras, como o saci-pererê, a mula sem cabeça e o boto cor-de-rosa.

MEC DOBRA VERBA DE PROPAGANDA APÓS LICITAÇÃO

O Tribunal de Contas da União achou tudo muito esquisito e sustou a licitação para agência de propaganda do Ministério da Educação. Até as flores do cerrado sabiam que a vitória seria da baiana Link. Mas a ganância venceu o medo e a verba de R$ 30 milhões, considerada modesta pelas gigantes do setor, que a esnobaram, dobrou para R$ 60 mi após o termino da licitação. Virou piada no cafezinho do TCU.

CADA UM POR SI

Secretário-geral do DEM, Onyx Lorenzoni escolheu Acre e Rondônia para iniciar conversas para 2014, “sem aliança automática com PSDB”.

‘IOIÔ’ DO PSB

Conhecido como “metralhadora giratória”, Ciro Gomes ganhou apelido de “ioiô” de tanto que vai e volta nas críticas e afagos a aliados.

FESTA DE MÁSCARAS

De um dirigente do PR sobre a negociação com o Planalto por cadeira na Esplanada: “Dilma finge que nos ama e a gente finge que acredita”.

NO DIVÃ

Após diligência semana passada no consulado em Sidney (Austrália), o psicanalista e embaixador Roberto Abdalla decide na segunda semana de março em Brasília se abre inquérito para investigar as denúncias de assédio moral do embaixador Américo Fontenelle.

COMEMORAÇÃO

Por terem conseguido dinamitar Gabriel Chalita (PMDB-SP), o ex-prefeito paulistano Gilberto Kassab, o ministro Aloizio Mercadante (Educação) e o deputado Walter Feldman (PSDB-SP) procuram um lugar reservado, este fim de semana, para um jantar comemorativo.

FIEL ESCUDEIRO

Réu condenado no mensalão, o deputado Valdemar da Costa Neto (SP) cogita fazer o senador paulista Antônio Carlos Rodrigues seu sucessor na Secretaria-Geral do PR, quando for cumprir sua sentença.

LUZ NO TÚNEL

O bicheiro Carlinhos Cachoeira está esperançoso que anulará as provas que o fizeram passar nove meses na prisão, sobretudo após decisão da Suprema Corte que obriga transcrição integral de grampos.

DEPOIMENTO

O patrocínio da Caixa ao Corinthians, que “coincidiu” com a compra do passe do atacante Pato, pode ser detalhado na Justiça em depoimento de quem pilotou a operação: o marqueteiro tucano Bob Vieira da Costa, da agência Nova/SB, que tem a conta publicitária da Caixa desde 2003.

NA FILA

Cortes no orçamento dos Estados Unidos da América podem afetar o tempo de espera dos brasileiros por visto americano. Segundo o jornal Daily News, poderá haver cortes no pessoal dos consulados, inclusive na Índia e na China.

RESCALDO DE 2012

Rompidos com Luizianne Lins (PT), o governador cearense Cid Gomes (PSB) e o prefeito de Fortaleza, Roberto Claudio, levaram sonora vaia no seminário de 10 anos do PT, com a presença do ex-presidente Lula.

OLHA O NÍVEL

Servidor da liderança do PT, de nome Neto, recolheu todos os boletins da liderança do Democratas com o episódio do painel rasgado pelos petistas, trocando-os pelos da liderança do PT. O chefe de gabinete, José Márcio Costa, cortou o painel aos gritos de “rasga essa merda”.

PERGUNTA NA PLATEIA

Foi mesmo Lincoln o filme que Lula viu, com o ex-presidente americano esperando o telex, aparelho que só foi inventado em 1930?


PODER SEM PUDOR

É A MÃE!

O jornalista Murilo Melo Filho acompanhava os debates no Senado, que iam num crescente perigoso. E assistiu quando, chamado certa vez de "rebotalho da ditadura", ao senador Victorino Freire reagir ao orador:

- Rebotalho da ditadura é a égua da sua mãe!

Foi advertido pelo então presidente, senador Mello Vianna, que lhe solicitou retirar as violentas expressões. E Victorino:

- Não retiro coisa nenhuma. Sempre que esse sujeito me insultar, trarei a mãe dele para o plenário, pois não ponho diamante em tromba de porco!

SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Habemus pibinho: PIB de 0,9% faz Brasil cair no ranking mundial
Folha: Apesar de incentivos, PIB cresce só 0,9% em 2012
Estadão: Brasil cresce 0,9% e há dúvida sobre ritmo da recuperação
Correio: País cresce apenas 0,9%, o menor PIB desde 2009
Estado de Minas: O Brasil cresceu: Deu pra perceber?
Jornal do Commercio: Seca atinge todo o Estado
Zero Hora: Lições da grande dor

sexta-feira, março 01, 2013

PPS venceu na Itália - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 01/03

De um sábio da política brasileira tentando explicar a eleição italiana:

– Este Pier Luigi Bersani, da coligação centro-esquerdista, é um ex-comunista, como Roberto Freire. Beppe Grillo, do movimento Cinco Estrelas, é o Tiririca. E o Berlusconi é o Maluf.

Faz sentido.

CALENDÁRIO PAPAL

O anúncio da data do conclave deve ser feito na segunda.

Mas, na Igreja, há a crença de que o escolhido vai celebrar sua primeira missa no Vaticano em 19 de março, após o beija-mão e a despedida de todos os cardeais do conclave.

É QUE...

A data é simbólica. Por ser uma missa festiva, não poderia ser celebrada em qualquer domingo da Quaresma. E dia 19, terça, festeja-se São José, padroeiro de todos os padres.

Além disso, a data é propícia. Os cardeais não podem ficar muito tempo em Roma. Precisam voltar às suas dioceses para celebrar as missas da Semana Santa. Com isso, a eleição do novo papa será em tempo recorde.

FUMAÇA

A Fifa vai proibir que se fume nos estádios da Copa das Confederações e da Copa de 2014, no Brasil.

CBF NO AR

A CBF pretende substituir seu Citation CJ4, da Cessna, por um jatinho da Embraer.

ARTE BRASILEIRA

Dilma janta hoje no Rio na casa do advogado Sérgio Fadel.

Vem a ser o dono de uma grande coleção de arte brasileira, que inclui obras de Guignard, Di Cavalcanti...

MARCAS E PATENTES

A 5ª Câmara Cível do Rio determinou que o banco brasileiro BVA não use mais o seu nome num prazo de 60 dias.

Ele perdeu a queda de braço contra o banco espanhol BBVA pela semelhança entre suas marcas.

Caso desobedeça, a multa diária é de R$ 500 mil.

POXA, TIO SAM!

Um consumidor receberá R$ 10 mil do Walmart por danos morais. A decisão é do desembargador Horácio dos Santos Ribeiro Neto, da 15ª Câmara Cível do Rio.

Raul Garcia comprou três sopas instantâneas e, após almoçar, passou mal.

Ao verificar as embalagens na lixeira, sua mãe constatou que estavam com as validades vencidas.

FILHOS DO CRACK

Marcos Frota, o querido ator que mantém um circo, quer trabalhar com usuários de crack.

Não é fofo?

BOLETIM MÉDICO

Wilson Fittipaldi, 92 anos, patriarca da família de pilotos, está internado no CTI do Copa D’Or, no Rio.

POESIA

O ministro Carlos Ayres Britto já começou a aproveitar seu tempo para se dedicar à literatura.

Vai falar sobre poesia do encerramento oficial da 8ª Feira do Livro de Poços de Caldas e Flipoços 2013, dia 4 de maio. Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro, Miriam Leitão e João Paulo Rouanet também confirmaram presença.

VIVA BIBI!

Bibi Ferreira, que festejou ontem seus 72 anos de carreira, é conhecida na França.

Veja só o que o fotógrafo francês Hugues Vassal, o único autorizado a fotografar Édith Piaf nos últimos anos de sua vida, falou sobre a nossa atriz: “Com seu talento arrebatador, carisma e uma imensa trajetória, Bibi é sem dúvida uma das grandes atrizes do mundo e a maior intérprete de outra grande dama, Édith Piaf.

DILMA E CRISTINA

A presidente Dilma e o ministro Antonio Patriota estarão na Argentina na próxima semana. Serão recebidos na Casa Rosada pela presidente Cristina Kirchner.

HOMEM QUE É HOMEM...

Thiago Fragoso, o ator, empresta sua imagem à campanha do Banco Mundial para reforçar a importância da Lei Maria da Penha. Além dele, outras 15 personalidades participam do movimento, que será lançado hoje.

O ALEIJADINHO CARIOCA

A prefeitura lembra hoje os 200 anos da morte de Mestre Valentim (1745-1813), badalando algumas de suas obras pela cidade. Filho de um fidalgo português e de uma escrava africana, o artista mineiro tornou-se um dos maiores expoentes da arte barroca no Rio.

Tropa de elite - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 01/03

Após assumir a candidatura ao governo paulista, Gilberto Kassab investirá na segurança pública, área que mais aflige Geraldo Alckmin. Para discutir medidas de inteligência e combate ao crime organizado, o ex-prefeito convocou o sociólogo Túlio Kahn e o coronel José Vicente da Silva, que trabalharam para gestões tucanas e hoje estão em atrito com o Bandeirantes. A estratégia será testada na segunda-feira: os dois pilotarão seminário do PSD sobre o tema em Brasília.

Paciência Nas conversas que teve nos últimos dias com a cúpula de seu partido, Eduardo Campos demonstrou indignação com Lula, a quem atribui a articulação para rachar o PSB, mas desautorizou antecipar o lançamento de sua candidatura e o desembarque do governo.

Revide A pedido do governador de Pernambuco, o vice-presidente do PSB, Roberto Amaral, que era aguardado na etapa inaugural da caravana de Lula, em Fortaleza, cancelou a participação.

Tudo junto Os organizadores tentaram agendar a ida de Eduardo Campos e de Aécio Neves (PSDB) em dias diferentes ao congresso da APM (Associação Paulista dos Municípios), semana que vem. Mas o pernambucano fez questão de falar logo em seguida ao mineiro, para fazer um "contraponto".

Palco A Rede, de Marina Silva, recorrerá a artistas e celebridades para multiplicar a coleta de assinaturas até outubro. Depois de Gilberto Gil, o compositor Arnaldo Antunes, os atores Marcos Palmeira e Wagner Moura e o estilista Ronaldo Fraga já gravaram depoimentos para o partido.

Barrado O PMDB mudou o local da convenção de amanhã. Após vistoria, os bombeiros vetaram o Hotel Nacional por falta de segurança. A inspeção é exigida pela Presidência da República, já que Dilma Rousseff e Michel Temer estarão presentes. O ato será no auditório Brasil 21.

Me dê motivo A estratégia de transferir a negociação da MP dos Portos para o Congresso só ganhou corpo após líderes ensaiarem rebelião caso as discussões com as centrais sindicais ficassem concentradas na Casa Civil.

Dois em um Além de reduzir o contencioso com o Congresso, a mudança de rota, na visão de parlamentares, tirou a pressão de trabalhadores e empresários do setor da antessala de Dilma.

Contrabando Aprovada ontem no Senado, a medida provisória que desonera a folha de pagamento de 40 setores tem embutida emenda que cria um banco de desenvolvimento para o Centro-Oeste. O trecho deverá ser vetado pela presidente.

Viés de alta Ex-prefeito de Passo Fundo (RS), Airton Dipp entrou na lista de nomes para substituir Brizola Neto no Ministério do Trabalho. Carlos Lupi, presidente do PDT, prefere Manoel Dias.

Desfibrilador Petistas estão contrariados com a exposição dos 33 anos do partido na Câmara, que omitiu 2005, ano do mensalão. "Ressuscitamos o DEM", ironizou um dirigente, referindo-se ao incidente de anteontem.

Fora do ar A TV Câmara preparava debate tratando da "interferência do Judiciário no Legislativo". Um dos participantes seria José Genoíno (PT-SP), condenado no mensalão. Convidado, o líder da minoria, Nilson Leitão (PSDB-MT), declinou.

Road-show Em busca de recursos para obras de infraestrutura estimadas em R$ 6 bilhões, Antonio Anastasia (PSDB) enviou emissários a Nova York. O governador de Minas quer mostrar a investidores projetos de transportes e gestão ambiental.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio
"Permitir que um campeão em desmatamento e amante da motosserra presida a Comissão de Meio Ambiente do Senado é um escárnio."

DO DEPUTADO FEDERAL IVAN VALENTE (PSOL-SP), criticando a escolha do ex-governador Blairo Maggi (PR-MT) para a presidência do colegiado.

contraponto


Apagão eleitoral


Frank Aguiar (PTB), vice-prefeito de São Bernardo dos Campo, teve encontro com o deputado Campos Machado, presidente estadual petebista, que é seu padrinho de casamento. O cantor, aliado do petista Luiz Marinho, alertou ao colega de partido, que integra a base de apoio a Geraldo Alckmin:

-Qualquer poste ganha a eleição de Alckmin em 2014.

Machado respondeu, pondo fim à conversa:

-Meu querido afilhado, não se esqueça de que não há mais postes disponíveis para disputar a eleição. O estoque se esgotou em 2010 e 2012.

Lula, aliás Lincoln - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 01/03
Lula deu agora para se comparar com Abraham Lincoln. A maior afinidade com o presidente responsável pela abolição da escravatura nos Estados Unidos, Lula a vê diretamente relacionada com a postura crítica da imprensa em relação a ambos: "Esses dias eu estava lendo o livro do Lincoln. E fiquei impressionado como a imprensa batia no Lincoln em 1860, igualzinho bate em mim". Com seu habitual descompromisso com a seriedade, Lula pretendeu ombrear-se com um dos maiores vultos da História e, ao mesmo tempo, mais uma vez desqualificar o trabalho da imprensa, a quem acusa do imperdoável crime de frequentemente contrariar suas opiniões e interesses. Foi um dos melhores momentos de seu show de meia hora durante as comemorações dos 30 anos da CUT, na última quarta-feira em São Paulo.

Essa nova bravata do Grande Chefe do Partido dos Trabalhadores (PT) não chega a ser novidade. É apenas mais uma a enriquecer a já alentada antologia das melhores pérolas de seu sofisticado pensamento político-filosófico. Novidade é a revelação de que Lula anda lendo livros. Confessou-o explicitamente, em tom de blague, dirigindo-se ao ministro Gilberto Carvalho, que fazia parte da mesa. "Estou lendo muito agora, viu Gilberto? Só do Ricardo Kotscho e do Frei Betto, li mais de 300", exagerou, em simpática referência a dois ex-colaboradores com quem já manteve relações mais estreitas.

Depois de falar mal da imprensa, Lula sugeriu que, diante da "falta de espaço" para as questões de interesse dos assalariados na mídia "conservadora", os sindicatos de trabalhadores se articulem para ampliar e tomar mais eficazes seus próprios meios de comunicação. Uma recomendação um tanto ociosa, pelo menos do que diz respeito à CUT, que dispõe de uma ampla rede de comunicação integrada por uma emissora de televisão, três de rádio, dois sites de notícias, dois jornais e uma revista mensal. Mas o verdadeiro problema não é exatamente a existência ou não de veículos de comunicação abertos às questões de interesse das organizações sindicais, mas o nível de credibilidade e, consequentemente, de audiência e leitura desses veículos.

Na verdade, o que o lulopetismo ambiciona para a consolidação de seu projeto de poder é dispor de mecanismos de controle da grande mídia, dos jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão que atingem o grande público e por essa razão têm maior peso na formação de opinião. Por entenderem que a maior parte da grande mídia está comprometida com interesses das "elites" e, por essa razão, é "antidemocrática", o PT e seus aliados à esquerda defendem a criação de mecanismos que permitam a "democratização dos meios de comunicação". Trata-se de um argumento absolutamente falacioso, pela razão óbvia de que, se a grande mídia tivesse realmente o viés que lhe é atribuído pela companheirada, o petismo, que se diz discriminado e perseguido por ela, não venceria três eleições presidenciais consecutivas e não estaria comemorando 10 anos de hegemonia política no plano federal.

Ocorre que o pouco que existe de pensamento político em Lula e seus companheiros está hoje quase todo vinculado estritamente à garantia das vantagens materiais que o poder proporciona. O que vai além disso se deixou impregnar pelo autoritarismo que sustenta regimes como os do Irã, Coreia do Norte e China, no Oriente, e Cuba e as repúblicas "bolivarianas" da Venezuela, Equador, Bolívia e Nicarágua, no Ocidente. Ou seja, as autocracias às quais a diplomacia do governo petista se aliou.

Lula, a bem da verdade, não tem formação marxista - ou qualquer outra. Foi sempre um pragmático, avesso a dogmatismos. Forjado na luta sindical, seu pensamento se resume ao confronto de interesses entre empregados e patrões. O resultado desse pragmatismo é a indigência de valores que, como nunca antes na história deste país, predomina hoje na vida política nacional e tem seu melhor exemplo no nosso desmoralizado Parlamento.

Mas Lula é líder popular consagrado, glória que lhe subiu à cabeça e lhe permite acreditar no que quiser, inclusive que se parece com Abraham Lincoln.

Timão! Vai uma liminar aí, mano? - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 01/03

E diz que a Portuguesa exige punição igual à do Corinthians. Pra ter quatro torcedores no estádio!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do Planeta da Piada Pronta: "Advogado de acusação boliviano diz que vai provar que o corintiano acusado é inocente". E o advogado de defesa quer provar que o cliente é culpado! Reviravolta no mundo jurídico!

E a manchete do Piauí Herald: "PT apresenta menor de 17 anos como responsável pelo mensalão". A moda do "de menor" pegou!

E agora a maior diversão do brasileiro: zoar com o Corinthians! Adorei Corinthians X Millonarios! Maloqueiros X Milionários! Sem torcida. Portões fechados! "Corinthians vence com apoio de quatro torcedores." Que conseguiram liminar! Torcedor ficha limpa! Rarará!

E o Corinthians já botou à venda 10 mil liminares pro próximo jogo. Vai ter cambista vendendo liminar na porta do estádio! "Vai liminar aí, mano? Dez real!" E qual o problema de jogar sem torcida? O Santos também joga. Aliás, o site CornetaFC mostra o repórter perguntando ao Cássio: "Cássio, como foi jogar sem torcida?". E o Cássio: "Agora eu sei como a torcida do Santos se sente na Vila". Solitários!

E diz que a Portuguesa exige punição igual à do Corinthians. Pra ter quatro torcedores no estádio! E como disse um amigo no Twitter: "Torcida do Botafogo pensa que também foi punida e não comparece ao estádio desde 1907!". Rarará!

E sorte da mãe do juiz que não teve torcida! Aliás, o Galvão devia ter narrado o jogo. Sem torcida, não ia ter aquele famoso coro: "Ei, Galvão, vai tomar no fiofó!". Rarará! E já imaginou aqueles quatro torcedores num estádio vazio? "Pô, mano, não empurra!" "Chega pra lá, caraio, não vê que eu tô apertado?"

E esta: "Lula se compara a Lincoln". Só se for com o Lincoln Town da Ford: bebe muito, faz muito barulho e não anda nada! Rarará!

E antes não era com Napoleão que os maluquetes se comparavam? Lembra daquelas piadas antigas com o louco com a mão dentro do paletó, dizendo: "Eu sou Napoleão!". Rarará!

Aliás, Lula e Lincoln têm um ponto em comum: Lincoln era mensaleiro! Aliás, alguns colunistas escrevem que Lincoln usava de práticas políticas pouco heterodoxas. Tradução: Mensalão! Mensalation! Rarará!

E adorei esta pichação num muro em Araranguá, Santa Catarina: "A morte é uma coisa que acaba com a vida de um cara". Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

A ex-mulher de James Cameron - BARBARA GANCIA

FOLHA DE SP - 01/03

Por que será que fato de relevância histórica no filme de Bigelow foi totalmente ignorado pela imprensa?


CHEGUEI AO interior da sala de exibição de "A Hora Mais Escura", o filme de Kathryn Bigelow que causou no Oscar, sem saber que seria arrebatada por uma grata surpresa.

Se tenho um defeito é o de viver em descompasso com as novidades. Teria de ser mais antenada para não decepcionar o público, mas a brevidade do dia aliada à minha incapacidade funcional impedem que me mantenha atualizada. Quando vou ao cinema, todo mundo e seu vizinho vêm me contar sobre o filme e comentar o que não quero saber. Vivo para aquele momento de mistério bem no início da sessão, em que o escuro da tela se transforma em espetáculo.

Passou um bom tempo desde o momento em que "A Hora Mais Escura" entrou em cartaz até o dia em que fui assistir ao filme. Nesse ínterim, não teve jeito de fugir da repercussão. Foram vários os assuntos trazidos à tona. Se Bin Laden usou a mulher de escudo, se a história foi contada à risca, mas, sobretudo, se torturador é tudo igual e só muda de endereço.

A gente se lembra como a expressão "Guerra ao Terror" causava ojeriza, inclusive pela conotação mercadológica. Hoje, o distanciamento faz perceber -e o filme mostra- que a terminologia se fazia necessária para que dispositivos legais fossem colocados em prática a fim de driblar a burocracia, agilizar a aprovação de orçamentos exorbitantes e viabilizar interrogatórios, já que leis de exceção só podem ser usadas em períodos de guerra. De que outra forma seria possível lidar com terroristas dispostos a se explodir com toneladas de dinamite amarradas ao corpo? Era uma corrida contra o tempo.

Entre outros, o filme pautou um perfil que li na "Esquire", do oficial da Marinha, o "Navy Seal", que deu os três tiros fatais em Bin Laden. Sujeito está chateado porque jamais será reconhecido publicamente e não levou os US$ 25 milhões da recompensa. Consola-o uma lenga-lenga de ter sido "ungido por Deus" para a missão.

Reportagens sobre o Oscar descreviam "A Hora Mais Escura" como "caçada a Bin Laden". Na visão de dois dos maiores galãs desta nossa Folha, o que chamou atenção foi a tortura. Existirá tortura do bem e do mal? Poderia ser justificada a que serve para salvar uma criança sequestrada? O dilema pode ser instigante. Melhor ainda quando, no papel do torturador, você coloca um Denzel, um Indiana Jones ou o Clint, não? Mas acho que já vi essa versão em DVD...

Outro ser pensante do jornal questiona se um Estado que recorre sistematicamente à tortura merece ser justificado diante de situações que, muitas vezes, ajudou a criar. Bem, eu rebateria perguntando se ele tem automóvel, troca os pneus, anda de avião, possui eletrônicos e faz exames clínicos. Se a resposta for positiva, seu próprio estilo de vida terá fornecido a resposta à sua pergunta.

Agora voltando à grata surpresa sobre o filme de Kathryn Bigelow de que falava lá no começo e a quem chamei de "mulher de James Cameron" -talvez você nem tenha se dado conta, apenas como forma de provocação; a esta altura, é ele quem deveria se apresentar como ex-marido dela.

Em nenhuma crítica ou resumo que eu tenha visto por aí há qualquer menção ao notável fato de que foi uma mulher, uma jovem analista da CIA atuando em seu primeiro emprego, a responsável por encontrar Bin Laden depois de dez anos de busca. Não fosse a bravura e a competência da agente Maya, Bin Laden ainda estaria explodindo civis inocentes pelo mundo. Por que será que o fato, de relevância histórica, não interessou minimamente a ninguém?

Vizinhos saudáveis - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 01/03

O PIB fraco de 2012, que será divulgado hoje, não é culpa da crise externa. Outros países da América Latina estão vivendo um bom momento. México, Chile, Colômbia e Peru têm mantido boas taxas de crescimento com inflação baixa. O México bateu recorde de exportação em 2012, quase US$ 370 bilhões, mais de US$ 1 bilhão por dia. O Peru cresce num ritmo de 6% e investe 29% do PIB.
A economia mexicana cresceu 3,9% em 2012, com inflação de 3,2% e taxa de desemprego de 5,2%. É o país com a maior corrente de comércio da América Latina. O Chile teve 5,6% de PIB com inflação de 1,8% e desemprego de 6%. Os peruanos ostentam um ritmo de crescimento de 6,5%, depois de crescer 8,8% em 2010 e 6,9% em 2011. Têm inflação de 2,7%. A Colômbia tem decepcionado nos últimos trimestres. O número final de 2012 deve ser de "apenas" 3,4%, depois de uma alta de 5,9% no ano anterior. Tem ainda o trunfo da inflação estar em 2%, o que permite estímulo monetário sem arranhar a reputação do Banco Central.

Na América Latina, há países que estão bem e há países que vão mal. A Venezuela teve crescimento forte no ano passado por causa de um excessivo gasto, mas tem inflação altíssima e desabastecimento. A Argentina também cresceu, mas com vários desajustes, e também uma inflação muito alta.

Mas há outros que crescem com inflação baixa. O que esses países têm que o Brasil não tem? Os economistas acham que eles estão conquistando mais confiança de investidores e estão abertos para o comércio internacional. Isso aumenta o dinamismo das empresas e atrai investimentos e fluxos de capital. Para efeito de comparação, a taxa de investimentos em relação ao PIB chega a 29% no Peru; 27%, na Colômbia e no Chile; e22% no México. No Brasil, está em 18%.

-Eles têm acordos comerciais bilaterais que facilitam investimentos e aumentam a concorrência com as empresas locais. Também têm feito reformas, que visam o crescimento no longo prazo. A Colômbia no final de 2012, mesmo com a desaceleração, fez uma reforma tributária que vai incentivar a formalização. Nenhum desvalorizou a moeda, como fez o Brasil, e isso manteve a inflação baixa mesmo com o choque de alimentos - explicou Luka Machado, economista do Itaú Unibanco.

O México é um caso à parte, porque é uma economia industrializada e não é grande exportador de commodities, como Chile, Peru e Colômbia. Cresceu muito pouco durante os anos 2000 e só voltou a chamar atenção apartir de 2010, quando teve alta de 5,3% no PIB. Segundo estudo da Ernst & Young sobre mercados em rápido crescimento - que também inclui o Brasil - os mexicanos estão voltando aganhar mercado nos Estados Unidos porque o custo do produto chinês está subindo, com a alta dos salários. Eles estão ocupando espaço da China.

Há também outra explicação, segundo o conselheiro comercial da ProMéxico, organismo do governo mexicano que atua no Brasil, Juan Manuel Correa. A crise americana de 2008 forçou os empresários do país a buscarem novos mercados. O México tem mais de 40 acordos comerciais em todo o mundo e seus produtos industriais, por terem os EUA como destino, são bem aceitos em outros países. Eles já têm aprovação em critérios internacionais de embalagens, tecnologia, vigilância sanitária.

Nossas exportações chegaram próximo de US$ 400 bilhões em 2012, mais de US$ 1 bilhão exportado por dia. Recorde. Ao mesmo tempo, a participação dos EUA e do Canadá na exportação caiu de 90% para 78% nos últimos quatro anos. A crise teve esse efeito positivo de se buscar novos mercados. Com a recuperação dos EUA, há um ganho comercial duplo - disse.

A economia peruana é similar à chilena. São países de PIB pequeno, com populações também reduzidas quando se compara com os números brasileiros. Os dois são grandes exportadores de cobre. No Chile, a corrente de comércio representa mais de 70% do PIB. Os dois países são os mais bem colocados da região no ranking do Banco Mundial de facilidade de se fazer negócios. O Chile, numa amostra de 180 países, aparece em 37º lugar, e o Peru, em 43º. A Colômbia vem logo em seguida, em 45º , e o México, em 48º . Na mesma lista, o Brasil vai na rabeira, como 130º.

O jeito errado de explicar o PIB pequeno de 2012 é culpar o mundo; o jeito certo é ver os nossos equívocos.

Esteira de eufemismos - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 01/03

SÃO PAULO - Como minha caixa de mensagens continua atulhada de e-mails a propósito da polêmica homossexualismo x homossexualidade, resolvi dedicar mais uma coluna ao tema. Prometo que é a última.

Não tenho nada contra a variante homossexualidade e me disponho a adotá-la tão logo os militantes parem de denegrir o sufixo "-ismo", que, ao contrário de "-astro", não encerra nada de pejorativo. Acredito, porém, que essa substituição de nomes é, muito provavelmente, um exercício fadado ao fracasso.

O pressuposto do patrulhamento linguístico é o de que palavras insidiosamente moldam atitudes, o que torna necessário manter vigilância constante contra formas sutis de ofensa. Embora haja nas humanidades quem ainda sustente essa tese, ela foi já há muito abandonada pelas ciências cognitivas. Nesse modelo, o que ocorre é exatamente o contrário. São as ideias das pessoas, incluindo seus preconceitos, que influenciam a linguagem, originando o fenômeno que o psicólogo Steven Pinker apelidou de "esteira de eufemismos".

A palavra "alcoólatra", por exemplo, foi proposta no início do século 20 para substituir "bêbado" e seus sinônimos mais vulgares, com o objetivo de reduzir um pouco a carga negativa que pesava contra essas pessoas. É óbvio, porém, que a permuta de nomes não fez com que os alcoólatras parassem de beber, de modo que o novo termo logo foi contaminado pelas mesmas mazelas que o fizeram surgir. Em pouco tempo, foi trocado por "etilista", "alcoólico", "dependente químico". A lista é aberta.

Algo parecido aconteceu com o "de cor", que substituiu "crioulo", para depois dar lugar a "preto", "negro" e "afro-brasileiro".

Pinker diz que a esteira de eufemismos é a melhor prova de que são os conceitos -e não as palavras- que estão no comando. Em vez de combater nomes, deveríamos nos concentrar nas atitudes, que são, afinal, o que se deseja mudar.

Os papéis da Petrobras - RODOLFO LANDIM

FOLHA DE SP - 01/03

Poder contar com os mais importantes ministros no seu conselho é certamente um privilégio


Um assunto constantemente debatido é o nível aceitável de influência do Estado na administração de empresas estatais, em especial na Petrobras. As opiniões variam de um polo ao outro, exemplos dos mais distintos são apresentados na defesa ou no ataque às decisões tomadas e comparações são feitas ao desempenho de companhias privadas atuando no mesmo setor.

No entanto, uma análise histórica das mudanças que influenciaram os rumos da companhia pode nos ajudar a contextualizar e entender o real papel que a sociedade lhe destinou.

A primeira descoberta de petróleo no Brasil só ocorreu em 1939, na Bahia. A ela se seguiram anos mais tarde movimentos da sociedade na luta pelo monopólio do Estado para exploração e produção de petróleo, ocorridos em meados do século passado, que culminaram com a criação da Petrobras.

Na realidade, a luta pelo monopólio no Brasil ocorreu simultaneamente a um processo mundial de nacionalização de companhias petrolíferas detentoras de grandes reservas. O Brasil ainda tinha poucas reservas, mas os ventos que sopraram lá fora também sopraram por aqui. E, por muitos anos, sequer pensar em ter qualquer outra companhia explorando no Brasil era quase um sacrilégio.

Em 1988, quando da discussão da nova Constituição Brasileira, o monopólio estatal do petróleo foi confirmado através de uma votação das mais expressivas e os nossos representantes no Congresso Nacional mantiveram ainda a Petrobras como a única empresa autorizada a operá-lo em nome da União.

No entanto, apenas um ano mais tarde, após a queda do Muro de Berlim e todas as transformações ocorridas no cenário mundial, surgiram as discussões sobre a redução do papel do Estado na economia e a abertura do setor para o investimento privado.

Em 1995, foi aprovada uma emenda constitucional retirando da Petrobras o monopólio de exploração e produção, algo que foi regulamentado com a Lei do Petróleo, em 1997. O país vivia uma onda de privatizações, mas por ter sido o setor do petróleo considerado estratégico, ficou estabelecido que era do interesse nacional permanecer com a Petrobras como companhia operadora, controlada pela União, e atuando em regime de concorrência com as demais empresas do setor.

É difícil imaginar que, sendo o setor do petróleo tão importante para o desenvolvimento do país e tendo o governo o controle sobre essa importante máquina, o poder dele advindo não seja utilizado para alcançar aquilo que na sua visão seja o melhor para o país.

Por exemplo, a situação de derivados de petróleo sendo vendidos no mercado a preços inferiores ou até mesmo superiores aos praticados no exterior, obviamente expurgando-se os efeitos dos impostos, é algo que ocorreu por diversas vezes na história da companhia, tanto antes como após a quebra do monopólio.

Isso certamente contraria o que seria de se esperar de uma empresa privada, mas foi esse o caminho que a nossa sociedade escolheu.

É importante ressaltar que os efeitos do controle estatal não são apenas negativos. Após a crise econômica de 2008, as companhias viveram dias muito difíceis em todo o mundo em função do enxugamento do crédito e poucos se lembram que a Petrobras teve acesso a dezenas de bilhões de reais em empréstimos do BNDES e de outros bancos estatais, algo que suas competidoras internacionais não tiveram de bancos e governos de seus países.

Além disso, poder contar com os mais importantes ministros do país no seu conselho de administração e tê-los uma vez por mês nas suas instalações como ouvintes atentos das explanações feitas sob o ponto de vista da companhia é certamente um privilégio.

Mas o mercado de capitais premia a ortodoxia administrativa, desdenha de justificativas estratégicas e pune qualquer decisão que não tenha lógica financeira.

A convivência com empresas estatais tende mesmo a ser conturbada e o valor de mercado delas acaba sempre recebendo um desconto em função disso.

Ponderar objetivos de política pública e de desenvolvimento empresarial é mesmo um mandato complexo.

A hora do investimento - CELSO MING

O ESTADO DE S. PAULO - 01/03

Desta vez, há movimentos importantes e de grande alcance colocados em marcha pelo governo Dilma.

A principal iniciativa da hora é um programa de investimentos da ordem de US$ 235 bilhões nas áreas de transportes e de energia, para o qual o governo está mobilizando a iniciativa privada daqui e do exterior.

Um tanto tarde, mas ainda a tempo, o governo acordou para a necessidade de acionar o investimento. Até recentemente, entendera que a prioridade se restringia a criar e transferir renda para a área de consumo. O resultado foi uma forte elevação das importações, de 144% em apenas seis anos, e o esvaziamento da indústria.

Na prática, como cuidou só da demanda e não da oferta, o governo transferiu mercado para o exterior.

O aumento dos custos e a perda de competitividade do setor produtivo interno desestimularam os investimentos em aumento da capacidade.

O segundo movimento importante do governo Dilma foi ter-se dado conta de que o Tesouro Nacional é um limão espremido que não dispõe de recursos suficientes para enfrentar a enorme demanda de investimentos em serviços de infraestrutura e logística - como portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, armazéns gerais, etc.

Não sobrou saída senão apelar para capitais e parcerias com o setor privado. É uma opção que quebra paradigmas. A primeira dessas rupturas foi ter confiado ao setor privado o desenvolvimento e a administração de serviços públicos, prática que até recentemente vinha sendo considerada "privataria disfarçada", portanto inaceitável, pelo Partido dos Trabalhadores no governo.

A segunda foi admitir que as concessões públicas ao setor privado para a produção de serviços de alto padrão não poderiam ser tabeladas em níveis insignificantes. As primeiras incursões do governo Dilma nesse campo implicaram o tabelamento a valores baixos da remuneração das atividades econômicas contratadas nos regimes de concessão. O secretário do Tesouro, Arno Augustin, por exemplo, argumentava então que o lucro das concessionárias não deveria ser superior a 6%, por remunerar atividades de risco zero. O resultado foi o baixo interesse despertado pelas licitações, que o governo tenta agora reverter.

Essa mudança de atitude tem potencial para se transformar na grande virada do governo Dilma. Mas impõe conseqüências. Uma delas é a renúncia a políticas de cunho populista. A Petrobrás, por exemplo, jamais garantirá parcerias para suas refinarias, como ainda ontem pediu o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, enquanto persistir em vigor a política de achatamento dos preços dos combustíveis.

A outra é ter de lidar, como já começa a acontecer, com corporações alimentadas com privilégios e "reservas de mercado de trabalho". É o caso dos portuários. Em nome próprio ou no jogo de outros interesses comerciais, julgam-se no direito de bloquear a expansão e a modernização do setor.

Um terceiro efeito consiste em definir regras consistentes de jogo e assegurar que sejam cumpridas. Para isso, será necessário recuperar o prestígio e a isenção das tarefas das agências reguladoras que, a partir do governo Lula, passaram a ser instituições vulneráveis ao contexto político de ocasião.

A vingança do Grilo Falante - NELSON MOTTA

O GLOBO - 01/03

Grillo não é um Tiririca, é inteligente e informado, anárquico e desbocado. O ideólogo é o pensador Casaleggio. Nada será como antes no país de Dante


No clássico infantil de Carlo Collodi, o Grilo Falante é a consciência de Pinóquio, que o adverte, aconselha e incomoda, mas o boneco mentiroso não o ouve e prefere a companhia de raposas felpudas e gatos gatunos. Infantil? Parece mais uma profecia metafórica da tsunami que devastou os políticos e partidos mentirosos e gatunos nas eleições italianas, quando o Movimento Cinco Estrelas, fundado pelo comediante Beppe Grillo, conquistou 25% dos votos e fez 109 deputados e 54 senadores.

Grillo recusou o financiamento público legal, não foi a nenhum debate na televisão, não deu entrevistas e fez toda a campanha pelas redes sociais, percorrendo o país num trailer emprestado e lotando as praças em grandes manifestações contra os políticos e partidos. Não aceitou doações de empresas, só individuais, e fez a campanha mais barata da história. O M5E se diz um não partido e não tem sede física nem assembleias, é tudo na nuvem digital. As decisões e candidaturas são votadas on-line pelos militantes sem qualquer hierarquia.

Os homens e mulheres eleitos pelo Cinco Estrelas são de todas as classes sociais e regiões, têm idade média de 37 anos e nenhuma experiencia política. No Parlamento, querem o tratamento de “cidadão” e não de “honorável”, porque os políticos mentirosos e gatunos o desmoralizaram. Não exigem cargos nem participação em ministérios e estatais, mas ficha limpa e concursos públicos.

Não se sabe o que os “grilos” farão no Parlamento, mas com certeza não vão se aliar a nenhuma coalizão partidária, no máximo votarão as propostas caso a caso, como independentes. Grillo não é um Tiririca, é inteligente e informado, anárquico e desbocado, como um mix de Bussunda e Rafinha Bastos. O cofundador e ideólogo do movimento é o pensador Gianroberto Casaleggio, um dos maiores estrategistas da internet na Itália.

O irônico é que os grandes partidos de centro-esquerda e de centro-direita, com medo das ruas, encerraram suas campanhas em teatros, o palco dos comediantes, enquanto o cômico levava multidões ao delírio nas praças, território dos políticos. Nada será como antes no país de Dante.

Os ricos estão mais vulneráveis - MOISÉS NAÍM

FOLHA DE SP - 01/03

Situação dos ricos e dos responsáveis por grandes empresas já não é tão cômoda quanto era antes


Sabemos que a crise econômica está gerando muita pobreza. E que a desigualdade econômica se aprofundou em muitos países.

Estas realidades, contudo, ocultam outra tendência mundial importante: as grandes empresas e seus diretores estão perdendo poder. Isso é difícil de acreditar, em tempos de tanta e tão justificada indignação diante de uma crise provocada principalmente por empresários irresponsáveis ou desonestos.

Obviamente, as elites econômicas mundiais continuam em muito boa situação. Mas é um erro supor que não estejam ocorrendo transformações profundas nos altos níveis do poder empresarial.

De acordo com Emmanuel Sáez, da Universidade da Califórnia, as pessoas que formam o 1% de renda mais alta nos Estados Unidos perderam 36% de sua receita em decorrência da crise, enquanto os outros 99% perderam 11,6%.

Em 2012, 441 das 1.000 pessoas mais ricas do mundo que constam na lista da "Forbes" sofreram uma perda de patrimônio.

É evidente que uma perda de 11% na renda de uma família que a duras penas consegue chegar ao fim do mês é uma catástrofe, enquanto a perda de um terço da renda de quem ganha mais não o é. Mas o fato é que hoje os ricos estão em situação menos segura que antes.

E não apenas no que diz respeito à sua renda -seus empregos agora também estão menos seguros.

A permanência de um alto diretor em seu cargo, nos Estados Unidos, caiu pela metade desde os anos 1990 -de dez para cinco anos. Em 2011, 14% dos responsáveis máximos das 2.500 maiores empresas do mundo deixaram seus cargos involuntariamente.

A mesma coisa se dá com as próprias empresas. Um estudo de Diego Comin e Thomas Philippon mostrou que, em 1980, uma empresa dos EUA que estivesse entre as 20% superiores de seu setor apresentava risco de apenas 10% de ficar fora desse nível nos cinco anos subsequentes. Duas décadas depois, essa probabilidade chegou a 25%.

Outro risco que vem aumentando muito para as grandes empresas e seus diretores é o de sofrer um acidente que arruíne sua reputação.

Uma pesquisa da Oxford Metrica constatou que as empresas que são donas das marcas mais famosas do mundo têm, num período de cinco anos, 82% de probabilidade de sofrerem um acidente que reduza drasticamente o valor de sua marca. Duas décadas atrás, essa probabilidade era de apenas 20%.

O que tudo isso significa? Não quer dizer que o poder econômico esteja desaparecendo nem muito menos que sua capacidade de influir sobre políticos e governantes esteja se reduzindo.

Significa, sim, que a situação dos mais ricos e dos responsáveis pelas grandes empresas já não é tão cômoda, segura e permanente quanto era antes.

Como muitos outros tipos de poder (político, militar, religioso, cultural), o econômico agora é mais fácil de conquistar, mas mais difícil de exercer e mais fácil de perder.

E essa é uma boa notícia.

O vale-tudo que vem por aí - ROGÉRIO FURQUIM WERNECK

O GLOBO - 01/03

Um ano antes do esperado, foi dada a largada da disputa pela sucessão presidencial. A mobilização prematura com a eleição de 2014 deverá aumentar em muito as dificuldades que já vêm marcando a condução da política econômica no País. Em vez de um ano de campanha presidencial a cada quatro, a política econômica vem tendo de lidar com um biênio eleitoral a cada dois.

No último governo, houve antecipação similar. Às voltas com a crise mundial e com o enorme desafio de eleger uma sucessora sem experiência eleitoral prévia, o presidente Lula decidiu começar cedo. Lançou sua candidata com muita antecedência. E atravessou 2009 já em frenético clima de campanha eleitoral.

Reeleger a presidente não parece um desafio tão grande como o de 2010. Mas, garantida, a reeleição ainda não está. O desempenho do governo vem deixando a desejar, a economia continua rateando e é bem provável que a base aliada chegue a 2014 seriamente desfalcada.

Tendo tudo isso em conta, Lula decidiu que o mais prudente seria deflagrar desde já a campanha da reeleição. A antecipação ajudaria a esvaziar os rumores de que o PT, preocupado com os riscos da reeleição, estaria considerando um Plano B para 2014. E, por outro lado, obrigaria as forças políticas mais propensas a abandonar o barco governista a decidir logo se vão ou se ficam, sem esperar para ver o que vai acontecer com a economia em 2013.

Na divisão de trabalho que se estabeleceu, o ex-presidente Lula se encarregará da complexa montagem da coalizão política que dará respaldo à reeleição. E a presidente ficará com as mãos livres para tentar melhorar o desempenho da economia e afastar de vez os temores que ainda mantêm vivo o espectro do Plano B.

Que efeitos terá a antecipação da disputa eleitoral sobre a condução da política econômica? É bom não ter ilusões. A política econômica está fadada a se tornar ainda menos sóbria, mais imediatista e mais improvisada do que já vem sendo há algum tempo. O principal desafio da presidente é mostrar ao PT e ao País uma expansão do PIB em 2013 que caracterize, de forma inequívoca, superação do regime de crescimento entravado dos últimos dois anos. E o Planalto parece disposto a apostar o que for necessário na consecução desse objetivo.

Isso significa que a economia deve atravessar 2013 sob as tensões de uma política de estímulo à demanda que deixará a inflação sob permanente pressão. No script eleitoral que passou a pautar a política econômica, é difícil ver como o Banco Central poderá receber luz verde do Planalto para atuar na contramão do estímulo à demanda, impondo novo ciclo de elevação da taxa de juros.

Tudo indica que a contenção de danos do lado da inflação será feita de forma bem mais primitiva. E que o governo não relutará em fazer uso cada vez mais intenso de intervenções diretas na formação de preços de mais peso no IPCA. Tanto nas medidas de estímulo à demanda agregada como na política de administração do índice de preços, o vale-tudo deverá ser o nome do jogo, como bem ilustram dois exemplos concretos.

Cético sobre sua capacidade de desentravar a tempo o investimento público na esfera federal, o governo está empenhado em relaxar de todas as formas as restrições orçamentárias de Estados e municípios, para que possam ampliar em grande medida seus dispêndios, sem maiores preocupações com a preservação de regras que vinham assegurando a sustentabilidade fiscal dos governos subnacionais.

Tendo em vista a precariedade da oferta de energia elétrica, as usinas térmicas deverão ser mantidas em operação por muitos meses. Em condições normais, isso deveria implicar repasse do aumento de custo de geração de energia aos consumidores. Para evitar que isso ocorra, o governo quer que o Tesouro arque com os custos das térmicas ou, pelo menos, financie as distribuidoras para que o repasse do aumento de custo aos consumidores seja suavemente diluído no tempo.

São duas iniciativas emblemáticas que dão bem ideia do que vem por aí.