quarta-feira, fevereiro 13, 2013

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 13/02


Argentina reduz compra de eletrônicos do Brasil
Enquanto as exportações brasileiras da indústria eletrônica para a Argentina decrescem, as vendas para os Estados Unidos caminham na direção contrária, segundo a Abinee (associação do setor).

Tradicional parceira comercial do Brasil no setor, a Argentina reduziu em mais de 18% suas compras de eletroeletrônicos no ano passado em relação a 2011.

O país ganhou independência em relação ao mercado brasileiro nos últimos anos no segmento de aparelhos celulares, de acordo com Humberto Barbato, presidente da entidade.

"Eles fizeram um esforço nessa área e desenvolveram a indústria", afirma.

Na contramão, as aquisições norte-americanas tiveram alta de 32% na mesma base de comparação.

As vendas do setor aos Estados Unidos somaram US$ 1,59 bilhão no ano passado. Para a Argentina, ficaram em US$ 1,61 bilhão.

A tendência, segundo a entidade, é que os Estados Unidos resgatem a posição de principais compradores estrangeiros do setor, situação que não ocorria desde 2006.

A participação norte-americana no total das exportações do setor eletroeletrônico do Brasil subiu de 14,7% para 20,6%, enquanto a argentina recuou de 24,3% para 20,9%, segundo o levantamento da entidade.

"Os Estados Unidos apenas retomaram uma posição normal nos negócios de outros equipamentos que resgataram a competitividade devido a alterações no câmbio e desoneração na folha de pagamento", diz Barbato.

Peso... A Protege, empresa especializada em segurança, desenvolveu um novo modelo de carro-forte. Chamado de "jipe-forte", o veículo está em fase de testes.

...leve Enquanto o carro-forte convencional pesa entre 5.800 quilos e 7.300 quilos, o novo modelo terá 3.800 quilos. O comprimento cai de 5,3 metros para 4,78 metros.

FERMENTO NO PRATO
Com 39 lojas no país atualmente, a rede de fast-food Seletti Culinária Saudável pretende chegar a 50 unidades no final deste ano.

O projeto inclui praças onde a empresa ainda não está presente, no Sul e no Centro-Oeste.

A rede, que atua com lojas em shoppings, desenvolveu um modelo compacto, que dará suporte à expansão.

"Vamos levar o formato para lugares como postos de gasolina, academias, universidades e hospitais", afirma Luis Felipe Campos, sócio-diretor da Seletti.

Para 2014, a meta é acelerar o processo com a abertura de lojas de rua.

"Esse é um projeto que já está em estudo, mas ainda não podemos calcular o volume", afirma o empresário.


FLÁVIA OLIVEIRA - NEGÓCIOS & CIA

O GLOBO - 13/02


TEM GRINGO NOS CURSOS MBA DO BRASIL
De olho no mercado de trabalho local, estrangeiros estudam até o “jeitinho” de negociar

Uma leva de estrangeiros interessados em conquistar o mercado brasileiro anda desembarcando nas escolas de negócios do país. Eles vêm em busca de oportunidades de trabalho, mais abundantes que nas economias desenvolvidas, mesmo com PIB modesto de 2012. Só a Fundação Dom Cabral, com unidades em Minas e São Paulo, recebeu 1.400 alunos do exterior em 2012. Nas duas escolas de negócios da Fundação Getulio Vargas (FGV), chegaram 364, alta de 29% sobre 2011. Sozinha, a unidade carioca registrou salto de 62%. O Rio chama a atenção pela concentração de investimentos em óleo e gás. Não por acaso, a unidade que a Dom Cabral inaugura no Rio, em abril, terá pós-graduação voltada ao setor. Além disso, terá o 1º programa Learning Journey, no qual cerca de 20 executivos do MBA da suíça Saint Gallen virão ao país para aprender o “jeitinho brasileiro” de negociar. Aluno da École de Management Strasbourg, o francês Maxime Furst está há três meses no Ibmec Rio estudando marketing de serviços e a tal habilidade local. Vai ficar mais seis. Seu projeto é entender as diferenças do varejo da França e do Brasil. “Do atendimento à organização, tudo é diferente. As empresas francesas vão precisar se adaptar, se quiserem fazer negócios no Brasil”, diz. Ano passado, o Ibmec teve 40 estrangeiros em seus cursos de MBAs.

+450% ALUNOS DE FORA
Foi este o salto registrado pela Coppead/UFRJ nos últimos oito anos. Só no biênio 2011-2012, a alta foi de 30%. Franceses, italianos, espanhóis, alemães, russos e indianos lideram a demanda.

CAPITAL DO RESSEGURO
Saiu o projeto do Centro Internacional de Resseguros, na Cinelândia. Quem assina é o escritório Arq&Urb. O complexo, de 17 andares, terá 50 resseguradoras, salas e lojas. Fica pronto em 2014. É parceria de Jones Lang LaSalle, Rio Negócios e Fenaber. O Opportunity elaborou a proposta.

MAIS SAÚDE
O Grupo Memorial vai investir R$ 40 milhões em complexo de saúde no Engenho de Dentro, no Rio. Terá hospital e centros de pesquisas e de estudos. Serão, ao todo, 300 leitos, 20 salas de cirurgia e capacidade para 500 mil exames mensais. O grupo é dono de sete hospitais e 31 clínicas.

Quem vem
Os americanos Jorge Pérez e Stephen Ross, fundadores das empresas Related, do setor imobiliário, passaram o carnaval no Rio. Curtiram a folia, mas estão de olho no mercado carioca. Prometem anunciar investimento na cidade em breve. Nos EUA, têm projetos de US$ 20 bi.

Óleo e gás
A Tridimensional fez parceria tecnológica com a inglesa DPS. Vai construir separadores de óleo e gás compactos para plataformas da Bacia de Campos. A brasileira faturou R$ 100 milhões em 2012. Quer bater R$ 120 milhões este ano.

Ir e vir
A Coppe/UFRJ assinou convênio com a Oi. Juntas, vão mapear deslocamentos de moradores da Região Metropolitana do Rio. A operadora vai entender melhor o comportamento dos clientes. O setor público terá dados para políticas em transporte e até em saúde.

Remédio
Coppead/UFRJ e Fidelize serão parceiras em estudo sobre o setor farmacêutico. A empresa de TI vai bancar dois anos de pesquisas em trade marketing.

Inovador
A Faperj investiu R$ 120 mil em projeto de cabide para pessoas portadoras de deficiência visual. Vem com chip que grava o modelo da roupa. Instituições do Rio e SP receberão amostras.

Popular
A Cury Construtora lançou 30% dos empreendimentos do programa Minha Casa Minha Vida na Região Metropolitana do Rio, ano passado. Foram 1.670 unidades, com valor de vendas de R$ 220 milhões.

Foi alta de quase 60% sobre 2011, quando levou R$ 140 milhões por 1.100 unidades.

De luxo
A JTavares fechou parceria com a Keller Williams, dos EUA. Venderá por aqui imóveis em Miami com preço superior a US$ 1 milhão.

Os brasileiros são hoje os estrangeiros que mais compram unidades de alto padrão na cidade americana. A consultoria imobiliária prevê faturar 20% mais.

É doce 1
O mercado de chicletes e balas fechou agora os dados de 2011. Pela primeira vez, bateu R$10 bilhões em faturamento. A consultoria Mintel estima R$ 10,8 bi em 2012.O preço médio atingiu R$ 44 por quilo. Subiu 23% no período 2007-2011.

É doce 2
A quantidade vendida se manteve estável nos quatro anos. Já o faturamento cresceu 27%. “Com a renda melhor, o brasileiro passou a comprar produtos mais caros. Também impactou a alta de quase 100% do açúcar”, diz Jean Manuel Gonçalves, analista sênior de alimentos da Mintel.

É Páscoa
A rede Walmart espera elevar em 20% a venda de produtos típicos da Páscoa este ano. Avarejista comercializa 350 tipos de ovos de chocolate.

Café
A rede de franquias Fran’s Café faturou R$ 130 milhões no ano passado. Foi aumento de 18% sobre 2011. Com 148 lojas no país, quer chegar a 185 até dezembro. Os alvos são as regiões Centro-Oeste e Sul, onde serão abertas 20 unidades até o fim de 2013.

Hambúrguer
O Joe & Leo’s bateu R$ 18 milhões em receitas em 2012, desempenho 15% melhor que no ano anterior. Vendeu 6,8 toneladas de hambúrgueres. Credita o bom resultado às ações pelos 18 anos da rede. Prevê alta de 15% nas vendas neste 1º semestre no Rio.

Triste papel - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 13/02

Se Guido Mantega não for percebido como alguém que conhece sua área, suas palavras não serão tomadas como informação útil para orientar as decisões empresariais


Há uma crença geral de que quem manda de fato na política econômica e dá as ordens é a presidente Dilma Rousseff e não o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Além da personalidade forte e autoritária, a presidente tem instrução formal em Economia e sua vocação maior é para a gestão cotidiana do governo, e não para os tratos políticos. Até aí, nada de errado com o fato de a presidente concentrar as grandes decisões estratégicas do governo, sobretudo as de ordem econômica, em suas mãos – pois, afinal de contas, ela foi eleita e é a responsável maior pelos resultados.

Porém, sendo o governo muito grande e as tarefas, variadas e complexas, é desejável que cada ministro tenha mais conhecimento de sua área que o presidente da República, além de ser o formulador das soluções e atuar como um assessor do primeiro mandatário nas escolhas feitas pelo governo. Na área da economia, não é isso que acontece. O ministro da Fazenda parece mais um mensageiro de análises, dados e informações produzidos por sua assessoria a fim de que a presidente examine e decida, cabendo a ele o papel de divulgar, defender e implementar, mas jamais decidir.

O ministro da Fazenda dirige a mais importante área da administração pública pela importância que a economia tem para o sucesso ou fracasso do governo, razão por que o ocupante desse cargo deve ser um especialista nos assuntos pertinentes e deve ter credibilidade nacional e internacional. Não pode ser um executivo qualquer, um tarefereiro sem ideias e de poucas luzes intelectuais. É óbvio que o ministro deve ser disciplinado e seguir as diretrizes do presidente, mas ele deve ser, também, portador de ideias, conceitos e propostas capazes de iluminar as decisões do governo e, inclusive, alertar para os erros e as medidas prejudiciais à economia.

É notório que o ministro Mantega é esforçado, tem passado ileso em relação a denúncias de corrupção – apesar de alguns escorregões, como foi o caso de uma indicação sua para a presidência da Casa da Moeda (o indicado se envolveu em supostas fraudes) –, é uma figura simpática e transita bem no governo. Porém, além de não apresentar ideias e não deixar clara qual sua linha de pensamento, o ministro vive se contradizendo e criando dúvidas em relação à política econômica, deixando os agentes de mercado sem saber qual, afinal, será o caminho do governo.

Um exemplo do mau papel que o ministro vem desempenhando está em suas declarações sobre a política cambial. Ora ele diz que o governo trabalhará para elevar o preço do dólar, a fim de evitar a desindustrialização e a perda de competitividade dos exportadores; ora dá indicações em sentido contrário, a ponto de analistas internacionais terem manifestado dúvidas sobre suas declarações ambíguas. Outra área em que o ministro vem desmoralizando suas próprias palavras é a das previsões econômicas. O caso mais vexatório foi a insistência com que ele declarou por diversas vezes que o Produto Interno Bruto (PIB) cresceria 4% em 2012, quando empresários e analistas sabiam que esse número não passaria de 2%. O resultado foi pior e ficou em apenas 1%.

Ainda outro exemplo são as explicações estapafúrdias para as manipulações contábeis das contas feitas para fechar 2012. Com a enorme reação negativa interna e externa, era de esperar que o ministro recuasse e orientasse a presidente Dilma para não mais repetir manipulações similares. Estranhamente, o ministro continuou defendendo as manobras e voltou a repeti-las, avisando que excluirá as desonerações tributárias do cálculo do superávit primário.

Se continuar nessa linha, o ministro da Fazenda terá de amargar a corrosão de sua credibilidade como interlocutor dos setores produtivos e dos investidores. Ele tem a simpatia de seus interlocutores, é uma pessoa tratável e disposta a dialogar. Infelizmente, esse aspecto formal do relacionamento de uma autoridade com os representantes da economia não basta para que as coisas andem bem. Se o dirigente não for percebido como alguém que conhece sua área e com prestígio perante o chefe maior da nação, suas palavras não serão tomadas como informação útil para orientar as decisões empresariais. Perde o ministro e perde o país.

É preciso cuidar da Petrobrás - ADRIANO PIRES

O ESTADÃO - 13/02

O ano de 2012 para a Petrobrás deve ser registrado para não ser repetido. A produção de petróleo caiu 2,3%; o lucro, 36%; o Ebitda, 14%; e a empresa chegou a registrar prejuízo de R$ 1,35 bilhão no 2.º trimestre. A situação difícil é resultado de anos de interferência governamental na empresa. O governo do PT usou e abusou da Petrobrás - na prática, privatizou a empresa em seu benefício próprio, transformando-a em instrumento de política econômica, de política industrial e de política partidária. Esta foi a 4.ª vez em que o lucro da empresa apresentou queda no governo do PT (2004, 2007 e 2009), e foi o pior resultado desde 2004. Aliás, 2012 guarda semelhança com 2004, quando a produção de petróleo também apresentou queda de 3,1%. É importante chamar a atenção: a deterioração observada deu-se num ambiente que seria considerado um cenário perfeito para qualquer empresa petrolífera, com preço do petróleo alto, demanda por derivados crescente e quase monopólio do mercado.

O principal motivo para o péssimo resultado da empresa em 2012 foi o controle dos preços dos combustíveis, que os manteve fortemente defasados em relação ao mercado internacional. Num ambiente de forte crescimento da demanda, a Petrobrás se viu obrigada a elevar vigorosamente suas importações de gasolina e diesel, ocasionando um prejuízo de R$ 34,2 bilhões na área de abastecimento. De fato, o prejuízo dessa área cresceu 136% em relação ao ano de 2011. Aumentos de custos, baixa de poços secos e a estagnação da produção, tanto doméstica quanto internacional, foram outros fatores determinantes do frustrante resultado operacional.

O resultado de 2012 só não foi pior por causa de R$ 2,6 bilhões em receitas financeiras, oriundas de operações contábeis com títulos públicos e reconhecimento de juros de depósitos judiciais. Esse é o famoso jeitinho brasileiro, que tem sido muito utilizado pela equipe econômica.

Com a piora da geração de caixa da empresa e o efeito da desvalorização cambial sobre a dívida, a relação dívida líquida/Ebitda elevou-se para 2,77 (em 2011 a relação era de 1,66), fato que pode provocar um futuro rebaixamento da classificação de risco da empresa, o que dificultaria e encareceria, ainda mais, o financiamento. Essa questão se torna ainda mais grave quando se leva em consideração a necessidade de caixa da empresa para fazer face aos investimentos dos próximos anos, em particular a produção no pré-sal.

Aparentemente, a empresa pretende elevar seu caixa e financiar seus investimentos à custa do acionista minoritário, por meio da diminuição do pagamento de dividendos, o que representa um retrocesso de governança. Pela primeira vez o dividendo dos papéis ON será muito menor do que o dos PN, R$ 0,47 e R$ 0,96 por ação, respectivamente.

Para 2013, as perspectivas também não são nada boas. Após o aumento insuficiente no preço da gasolina e do diesel concedido no final de janeiro, não há expectativa de novo reajuste por causa das preocupações com a inflação e da proximidade do período das eleições presidenciais. A manutenção da política de preços domésticos controlados e defasados da gasolina e do diesel se dará num contexto de aumento da demanda doméstica e elevação do preço do petróleo no mercado internacional em razão da recuperação econômica americana. Ou seja, os problemas de geração de caixa continuarão se agravando.

A presidente da Petrobrás procurou não dar falsas esperanças ao mercado ao declarar que 2013 será um ano difícil, com baixas de poços secos equivalentes às de 2012 e queda na produção por causa da necessidade de manutenção das plataformas, o que reforça a ideia de que há um longo trabalho para consertar as falhas de gestão dos últimos dez anos. Boas notícias, quem sabe, só em 2014. Mas, como a Petrobrás é um transatlântico, e, portanto, a mudança de rota é lenta, o mais provável é que a estatal só volte a encontrar os caminhos da eficiência e da lucratividade em 2016. Isso se o acionista majoritário passar a respeitar os interesses dos minoritários.

Teoria gravitacional da inflação - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 13/02

Redução dos juros é uma bandeira eleitoral e, com pleito próximo, alta forte da taxa Selic é improvável


O IBGE registrou em janeiro a inflação mais elevada para o mês desde 2003, 0,86%. O número é alto, mas sua análise revela características ainda mais inquietantes.

Nada menos do que 75% dos itens pesquisados registraram aumento de preços em janeiro, também a maior proporção observada desde 2003, sugerindo que -ao contrário da história oficial- a aceleração da inflação não está ligada à evolução de uns poucos preços, mas se trata de fenômeno disseminado.

Além disso, as medidas de inflação que buscam atenuar os movimentos exagerados de preços (os chamados "núcleos" da inflação) também alcançaram níveis recordes para o mês.

Registre-se, por fim, que o mau desempenho ocorreu a despeito do apelo patético feito aos prefeitos de grandes capitais para que adiassem a elevação das passagens de ônibus, assim como da antecipação da redução das tarifas de energia. Sem tais manobras, a encrenca seria ainda maior.

Há, é bom que se diga, um tanto de sazonalidade na história: a inflação mensal é, em geral, mais alta no começo e no final do ano e perde força no período de maio a julho.

Seria, portanto, despropositado tomar o resultado do mês de janeiro como valor representativo do que nos espera ao longo de 2013. Ainda assim, a inflação medida em 12 meses (portanto livre de sazonalidade) superou os 6%, sacudindo, aparentemente, o torpor que tem caracterizado a atuação do Banco Central nos últimos anos, a ponto de o organismo admitir, embora com ressalvas, preocupação com a evolução da inflação "no curto prazo".

Foi o que bastou para que o mercado passasse a questionar a estratégia (com o perdão da palavra) anti-inflacionária do Banco Central. É sabido que este não revela a menor intenção de alterar a taxa de juros "por um período de tempo suficientemente prolongado".

À luz, porém, da aceleração inflacionária e do aparente desconforto do Banco Central com tal situação, já há quem aposte na possibilidade de que a promessa de estabilidade da taxa Selic se mostre impossível de ser mantida, pelo menos por um período tão longo quanto o prometido pelo Copom.

Não por outro motivo as taxas de juros futuros se elevaram, incorporando uma probabilidade mais alta de o Banco Central ser obrigado a retomar uma posição mais ativa na condução da política monetária, condizente com o que se espera de uma instituição minimamente comprometida com a estabilidade de preços.

Em momentos como este é que se espera que um economista diga a que veio, isto é, se haverá (ou não) aumento das taxas de juros neste ano, contrariando o consenso da profissão, que ainda aponta para estabilidade da Selic até dezembro de 2013.

Por mais que me desagrade repetir o consenso, desta vez me parece mais provável que o BC mantenha a Selic inalterada.

De qualquer forma, mesmo que, em cenário mais remoto, o BC venha a elevar as taxas de juros, creio que não o fará (como não o fez) em intensidade suficiente para domar o processo inflacionário, ainda mais considerando a proximidade com o ciclo eleitoral.

A verdade é que a definição da taxa Selic, que deveria ser um instrumento para controlar a inflação, tornou-se um objetivo de política econômica e, mais que isso, uma bandeira eleitoral.

Em tais circunstâncias o Banco Central enfrenta obstáculos consideráveis à sua autonomia, como a redução dos juros em meio à aceleração inflacionária permite inferir.

É mais provável que o governo lide com a inflação da forma como tem feito nos últimos tempos, ou seja, por meio de reduções pontuais de tributos, adiando o momento de encontro com o teto da meta (6,5%), sem tratar, porém, das causas fundamentais do problema.

Não há, porém, como trazer a taxa de inflação de volta à meta sem uma verdadeira estratégia de política monetária, apenas alívios temporários, que não mudam a tendência central do processo. Inflação não volta à meta por gravidade, nem por torcida; somente quando o Banco Central faz o seu trabalho de forma consistente.

Carnaval da surpresa - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 13/02

A gente pensa que todo carnaval vai ser uma pasmaceira: notícias sobre o desfile das escolas de samba - mais as do Rio que as de São Paulo. Informações sobre os blocos, orientações sobre a volta de quem viajou, e as notícias que alguns heroicos plantonistas nos jornais descolam. E aí aparece o inesperado: a renúncia do Papa. Foi um carnaval histórico, e não pelos motivos que se espera.

O papa, que ainda não se sabe quem é, e cujo nome sairá só quando houver uma fumaça branca nos céus de Roma, visitará o Brasil em junho. Não é um espanto? Nem foi escolhido e já se sabe que estamos bem no comecinho da fila dos compromissos papais, na Jornada Mundial de Juventude.

Então, para quem descrê do inesperado no jornalismo, ele está aí fazendo mais um dos seus milagres. A quarta-feira de cinzas, normalmente, é dia de noticiar o resultado do desfile de São Paulo, falar da expectativa para o resultado do sambódromo e contar as piadas de sempre sobre o fato de que agora sim o ano vai começar. Mas, nesta quarta, tem ainda novas especulações vindas diretamente de Roma e informações de que o presidente Obama decidiu tirar 34 mil dos 66 mil soldados do Afeganistão no prazo de um ano. É o desembarque, afinal.

O papa teve um pontificado breve, se comparado ao de João Paulo II, mas não tão breve. Afinal, sete anos, dez meses e dez dias representam quase dois mandatos presidenciais no Brasil e nos Estados Unidos.

As análises dos especialistas são de que ele estava dando sinais de cansaço, de que não exercia o poder com gosto, porque prefere seus estudos e trabalhos intelectuais. O que é uma colunista de economia para negar as variáveis dessa equação religiosa? Mas o cardeal Ratzinger sempre esteve próximo do poder, sempre o exerceu mesmo antes do pontificado, nunca foi o intelectual desapegado que alguns analistas o apresentam. Ele certamente tentará exercer sua influência na escolha do sucessor.

O pontificado é diferente de qualquer outro poder. É mais do que um líder religioso e diferente de um chefe de Estado; apesar de ser os dois ao mesmo tempo e ter os seus mais de um bilhão de seguidores espalhados por vários países. Se o de João Paulo II foi o de intensas viagens pelo mundo para tentar usar sua inegável capacidade de comunicação e seu carisma na luta contra a tendência de redução do número de fieis, o de Bento XVI foi introduzido como sendo uma afirmação do setor mais conservador da Igreja.

Os vaticanólogos tentam dizer que o inesperado era bem previsível, mas na verdade foi espantosa a notícia da segunda de carnaval. Entre os fatos lembrados como fonte do desgosto papal está o vazamento da sua correspondência, cujo culpado foi seu mordomo; e a insuficiente reação ao mais forte desafio da Igreja que são as sucessivas denúncias de pedofilia. Há os que garantem haver mesmo sinais de problemas de saúde, o que aos 85 anos parecem bem prováveis. E há até quem fale da reação ao ajuste no orçamento do Vaticano, que foi feito com mão de ferro através da revisão de contratos de fornecimento, gestão e construção da cidade-Estado. Essas revisões teriam transformado déficit em superávit, mas desagradado muito os que aceitavam os altos preços cobrados pelos fornecedores. O autor da façanha fiscal, o arcebispo Carlo Maria Viganò - sonho de várias ordens econômicas - acabou sendo enviado para longe de Roma. Foi ser embaixador do Vaticano nos Estados Unidos. Poderia até ser convocado pela burocracia do país no qual serve, mas no orçamento dos EUA não há santo que dê jeito.

Uma das formas de reduzir o gasto americano será certamente reduzir a máquina de guerra. O que o presidente Barack Obama decidiu anunciar no Estado da União, o discurso anual no Congresso, é um passo tardio e insuficiente para reduzir uma das fontes da ruína do orçamento do país.

Para uma colunista que tem que escrever até na terça-feira gorda não posso me queixar deste carnaval. Desta vez, não tive que falar de mais um erro da política econômica. E se fosse falar do Brasil, esta coluna poderia se debruçar sobre mais um inesperado: já atingiu 1% do eleitorado o movimento popular de assinaturas pelo impeachment do presidente do Senado. Uma coisa é certa, jornalista não pode desta vez se queixar de falta de notícia para ocupar o seu espaço.

Economia - ANTONIO DELFIM NETTO

FOLHA DE SP - 13/02

A crise "surpresa" de 2008 tornou instantaneamente obsoletos livros e textos de macroeconomia que se apoiavam em agentes abstratos. É tempo de grande humildade para a profissão. É preciso cada vez mais cuidado com a tendência a aviar "receitas" universais para a política econômica extraídas de modelos que têm pouco a ver com a realidade.

Para mostrar que não exagero, peço licença para transcrever dois pequenos textos de reconhecidas autoridades. O primeiro é da "OECD Economic Outlook" (1/2007), cujo departamento econômico possui dezenas de profissionais no "estado da arte".

Diz o texto: "No último 'Outlook', sugerimos que a desaceleração dos EUA não indicava um período de fraqueza para a economia mundial, como aconteceu na crise de 2001. Pelo contrário, um 'rebalanceamento' cuidadoso deveria ser esperado, com a Europa tomando a dianteira dos EUA em produzir o crescimento dos países da OECD [OCDE]". E acrescenta: "Os recentes acontecimentos confirmaram aquele prognóstico. De fato, a situação econômica é hoje, de muitas maneiras, melhor do que a que temos tido há anos". Isso no segundo semestre de 2007, só seis meses antes da tragédia!

O segundo é do competente economista D. Acemoglu ("The Crisis of 2008 - Structural Lessons for and from Economics", 1/2009): "Ainda que seja muito cedo para dizer como o segundo semestre de 2008 comparecerá nos livros de história, não pode haver a menor dúvida de que ele significará uma oportunidade crítica para a economia. É uma oportunidade para nós -e aqui digo a maioria dos economistas, entre os quais eu, infelizmente, me incluo- nos livrarmos de certas ideias que nunca deveríamos ter aceitado. É também a oportunidade para tomar alguma distância e refletir sobre o que temos aprendido com nossas investigações teóricas e empíricas -separar as que não foram contaminadas pelos eventos recentes- e perguntar se elas ainda podem nos guiar no debate atual sobre a política econômica".

Quais seriam as ideias nefastas a que se refere Acemoglu? Suspeito que uma delas é do Nobel Robert Lucas: "A teoria econômica é análise matemática. Todo o resto é figuração ou conversa" (Professional Memoir", 4/2001).

É fundamental que se reconheça o imenso fracasso de nossas teorizações para que possamos transcendê-las e começar a reconstruí-las com um ponto de vista diferente, reconhecendo que devemos introjetar a heterogeneidade do comportamento dos agentes que levam à sua auto-organização. Isso já está em marcha nos principais centros de pesquisa, mas vai levar anos para ser incorporado aos livros e textos, o que exigirá um esforço sério e redobrado dos nossos jovens professores para antecipá-las para seus alunos.


Perplexidade - CELSO MING

O ESTADO DE S. PAULO - 13/02

Há enorme perplexidade dentro do governo com a disparada da inflação.

Nos últimos dias, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, deu declarações que não são do seu estilo. Reconheceu que está "desconfortável" com a escalada dos preços e admite que essa inflação persistirá nos próximos meses. Por enquanto, põe fé em que lá pelo final deste ano voltará a convergir mais ou menos espontaneamente para a meta.

A estratégia de esperar para ver parece perigosa. Não está claro se o governo Dilma está em condições de enfrentar o estresse de uma inflação acima de 6% ao ano por mais cinco ou seis meses. Além disso, está operando muito próximo dos limites. Não há folga para enfrentar imprevistos nem o que o então deputado Tancredo Neves chamava de "o imponderável".

Essa inflação aí já é parte do imprevisto e do imponderável. Nem o Banco Central nem a Fazenda esperavam por tanto. No último Relatório de Inflação, editado em dezembro, o Banco Central projetou para todo o ano de 2013 uma inflação de apenas 4,8% - número que, pouco mais de um mês depois, aparece como fortemente irrealista. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, por sua vez, vinha apontando a baixa ou a relativa estabilidade dos preços internacionais das commodities como fator decisivo para redução das pressões inflacionárias internas.

O governo Dilma vem sendo surpreendido pelos fatos. Apostou todas as fichas na forte reaceleração da economia e vem trombando com a sucessão de pibinhos. Anunciou grandes investimentos, mas não consegue agilizá-los. Proclamou que a inflação seguiria comportada sem a necessidade de novos antídotos e, no entanto, vai sendo atropelado por esses números preocupantes do IBGE. Imaginava que a desvalorização cambial (alta do dólar) devolveria a competitividade ao setor produtivo, mas não consegue garantir o câmbio real (descontada a inflação) pretendido. Se é surpreendido pelos fatos, é óbvio que o governo não conduz o processo. Está, sim, sendo conduzido por ele.

Às vezes as autoridades dão sinais de que percebem a desarrumação dos fundamentos da economia. Mas não conseguem garantir nem disciplina orçamentária, nem inflação na meta, nem o câmbio prometido e muito menos o crescimento econômico projetado.

Basta ver a série recente das estatísticas do IPCA para saber que, ao menos por seis meses, a inflação anual tenderá a ficar acima dos 6,0%. Não está claro se o governo Dilma está em condições de enfrentar o estresse de uma inflação acima de 6% ao ano por todo esse tempo. E é um período longo demais para que o Banco Central e a Fazenda sigam somente divergindo e se omitindo mutuamente, vendendo essas diferenças como prova de autonomia.

Caso as despesas públicas sigam o ritmo previsto; caso o câmbio não possa ser usado como âncora dos preços; e caso o Banco Central siga impedido de puxar pelos juros, o ajuste se fará com mais inflação e menos crescimento econômico.

O problema é que essas coisas cobram um preço. Por enquanto, a presidente Dilma ostenta uma enorme poupança política. As classes médias brasileiras parecem satisfeitas porque hoje tem mais emprego, compraram carro, se alimentam melhor e, se não viajaram para Miami, já estão providenciando passaporte.

Enfim, a conta ainda não foi apresentada. Mas pode começar a ser na hora mais imprópria para o governo, às vésperas das eleições de 2014.


Sinais de desarrumação na política econômica - EDITORIAL VALOR ECONÔMICO

VALOR ECONÔMICO - 13/02

Há sinais de desarrumação na política econômica e um dos mais visíveis é a inflação. Ela foi alta em janeiro (0,86%) e em 12 meses (6,15%). Os núcleos do IPCA, índice que baliza o sistema de metas, não caíram abaixo dos 5% nos últimos 25 meses, pelo menos. Há choques de preços (alimentos é o principal deles) propiciando esses resultados nada favoráveis. Mas com o IPCA fugindo do centro da meta pelo terceiro ano consecutivo - e, em 2013, a caminho do quarto -, parece ter se consolidado novo patamar de preços, sustentado também pelos mecanismos de indexação infelizmente subsistentes na economia.

Inflação alta e a economia crescendo a uma taxa medíocre, ao redor de 1%, colocam em xeque a receita do governo de estímulos à economia. Os incentivos à demanda, que nunca foi fraca nos últimos anos, não foram suficientes para devolver um ritmo adequado de crescimento, pelo menos acima dos 3%. A situação externa não ajudou nessa tarefa, mas outros países emergentes, diante das mesmas dificuldades, têm se saído bem melhor que o Brasil, tanto em termos de expansão quanto de inflação.

A resposta oficial ao baixo dinamismo da economia mudou recentemente para melhor, embora os métodos utilizados obscureçam esse fato. Os estímulos setoriais ainda em vigor cedem lugar à redução dos impostos para boa variedade de setores, como é o caso da substituição da tributação da Previdência, que migra da folha de salários para o faturamento. A cesta básica está prestes a se livrar dos impostos federais. A tarifa de energia, uma das mais caras do mundo, foi cortada na marra, em uma ação cujos efeitos de longo prazo sobre a oferta de energia não são isentos de riscos.

O governo parece ter se convencido, corretamente, de que é chegada a hora de deslocar os incentivos do consumo para os investimentos. De forma geral, ele reduziu significativamente o custo de capital, ao derrubar bastante os juros. E, não sem um certo amargor ideológico, o governo com viés estatizante de Dilma deu passos em direção à iniciativa privada, ao destravar as concessões de aeroportos, portos, rodovias e ferrovias. A infraestrutura já era a indutora dos investimentos, e eles deverão ganhar celeridade e volume com a abertura de novas oportunidades a empresas privadas.

Os ajustes de política foram feitos, porém, em meio a sinalizações confusas ou claramente antagônicas. O caso mais ostensivo envolveu o câmbio. O Banco Central, ao encerrar o ciclo de baixa dos juros, comprometeu-se com a manutenção das taxas atuais por tempo "suficientemente prolongado". Para que isso se concretize em um cenário adverso da inflação, não há muitas opções. O mercado passou a nutrir expectativas no terreno cambial de que a valorização do dólar poderá ajudar nessa área. Isso, porém, piora as condições já ruins de competitividade da indústria. Há um dilema, o qual o ministro da Fazenda, Guido Mantega, procurou resolver com declarações precipitadas, indicando que tudo isso é legal, desde que o BC não jogue o dólar abaixo dos R$ 1,85, apontando um piso. No dia anterior, o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, já havia dito, o que parece ter se tornado um segredo de Polichinelo, que o teto da cotação agora é R$ 2. Pode-se até adivinhar o que o governo quer fazer com o câmbio, mas uma coisa é certa: quando todos palpitam na questão, as chances de fracasso sobem exponencialmente.

A base da discussão cambial é a inflação. A política do BC foi correta, mas dizer que a variação dos preços convergirá para 4,5% de "forma não linear" em um futuro indeterminado é um cheque em branco sobre a credibilidade conquistada. Na prática, o desafio do BC hoje é impedir que a inflação ultrapasse o teto da banda.

A maior guinada, para pior, veio da política fiscal. Os investimentos avançam pouco por falta de poupança interna, mas, sem recursos, o governo decidiu que pode criar dinheiro em árvore, no pomar do BNDES. As macumbas para atingir a meta de superávit primário de 3,1% do PIB são desmoralizantes - e desnecessárias. Com superávit entre 1,5% a 1,8% do PIB, a relação entre dívida pública e PIB se estabilizaria. O pior sinal veio com a intenção de alterar a Lei de Responsabilidade Fiscal, desfazendo a obrigatoriedade de que renúncias fiscais sejam acompanhadas da indicação dos recursos para cobri-las. Esse é o caminho seguro para mais inflação.


O vaivém da moeda - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 13/02

Um real forte demais decerto prejudica ao menos parte da indústria brasileira, pois barateia a compra de produtos importados.

Um real fraco demais tem efeito inflacionário, pois contribui para elevar ainda mais os preços domésticos. Na média, eles passam a avançar para um nível próximo do teto da meta oficial de inflação (ou 6,5%, uma vez que ela é de 4,5% ao ano, com tolerância de dois pontos percentuais).

A descrição dos efeitos mais simples e imediatos da variação do preço da moeda brasileira demonstra os limites da utilização da taxa de câmbio, apenas, como instrumento para lidar com as dificuldades da economia brasileira.

Alarmado com a pressão sobre os preços brasileiros de um dólar caro, que chegou a quase R$ 2,10, o Banco Central atuou no mercado para fortalecer o real.

Preocupado com a possibilidade de o dólar descer para um patamar próximo de R$ 1,85, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, informou que intervirá de modo a impedir tamanha valorização da moeda brasileira.

Dado este cabo de guerra, o dólar deverá variar em torno de um limite estreito, perto de R$ 2. É o que indica o Ministério do Desenvolvimento, que denominou o modelo de "câmbio vigilante", parente muito remoto do regime flutuante, extinto de fato entre 2011 e 2012.

Na prática, o preço do dólar não depende apenas das vontades do governo brasileiro. A redução dos juros, por exemplo, contribuiu para a desvalorização do real, com a queda na demanda pela moeda brasileira em consequência da saída de investidores estrangeiros (interessados em lucrar com a diferença entre a alta taxa brasileira e as de outros países, baixas).

Seja qual for o determinante da taxa de câmbio, porém, o preço da moeda por si só não é capaz de dar conta das insuficiências da política econômica. Não é possível controlar a inflação quando os juros estão baixos e os gastos são altos, ou tentar baixar custos desvalorizando o real e estimulando altas de salários.

Tais contradições só não resultam imediatamente em problemas críticos devido a remendos como controles de preços disfarçados (combustíveis, transportes públicos urbanos, reduções localizadas de impostos).

Remendos, por definição, são provisórios, assim como será provisório esse equilíbrio precário da nova política econômica. A conta chegará, um dia, por meio de juros mais altos, redução do consumo ou gradual deterioração das condições macroeconômicas do país.

O ajuste necessário dos fundos de pensão - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 13/02


As empresas que patrocinam fundos de pensão com planos de benefício definido (BD) terão de rever as contas, afetadas desde 2012 pela redução dos juros das aplicações. Os recursos não permitirão cobrir as obrigações, como mostrou a Petrobrás, que registrou em 2012 um aumento do passivo atuarial de R$ 21,1 bilhões para custear aposentadorias e planos de saúde. Outras companhias estatais terão de fazer o mesmo, com recursos próprios ou do Tesouro - ou seja, dos contribuintes.

Os fundos de pensão têm patrimônio de R$ 600 bilhões e obrigações vultosas. Um grupo de 15 empresas citadas pelo jornal Valor patrocina fundos com patrimônio de R$ 360 bilhões, em geral em regime de benefício definido. Só os planos do Banco do Brasil, da Petrobrás e da Caixa Econômica Federal tinham patrimônio superior a R$ 255 bilhões, segundo os últimos dados da entidade de classe (Abrapp). Os fundos são auditados e têm metas atuariais - e são acompanhados de perto pelo Ministério da Previdência.

Há dois tipos básicos de planos de aposentadoria complementar - de contribuição definida (CD) e de benefício definido. Neste (BD) o risco é maior, pois o benefício tem relação com o último salário.

A previdência privada ganhou peso nos anos 60, quando era preciso atrair profissionais para as estatais, assegurando aposentadorias superiores às do INSS. Com a estabilização monetária, o risco cresceu. Os fundos passaram a oferecer planos CD.

Mas, enquanto os juros reais foram altos, as metas atuariais (inflação mais 6% ao ano, em geral) eram cumpridas com folga. Com a queda dos juros, o Conselho de Gestão da Previdência Complementar, hoje Conselho Nacional de Previdência Complementar (CNPC), determinou a diminuição progressiva das metas das carteiras de previdência. Em vez de 6% ao ano, a meta foi limitada a 4,5% ao ano, até 2018. Mas o rombo já existe.

A cada diminuição de um ponto porcentual da renda das aplicações financeiras, as obrigações do fundo aumentam 20%, calcula o professor Edson Jardim, da Fipecafi. É uma medida aproximada, pois há situações específicas, como a de empresas que bancam planos de saúde para os aposentados.

Em alguns fundos, as carteiras ainda rendem mais do que a meta atuarial. Se o superávit é alto, é possível até distribuir resultados, como fez a fundação Previ, do Banco do Brasil. Mas, em geral, não há folga e as patrocinadoras terão de fazer aportes para cobrir o déficit. O pior seria protelar a revisão das regras dos planos de aposentadoria que ficaram inviáveis.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

"Se o Ricardo Teixeira não é corrupto, o sol não existe"
Alvaro Dias (PSDB-PR), sobre condenação de jornalista por chamar presidente da CBF de corrupto

Gurgel pede pressa no julgamento de onze governadores

Procurador-geral da República, Roberto Gurgel pretende que o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral julguem até julho os processos de cassação de onze governadores. As ações são por abuso de poder econômico e político, compra de votos e uso indevido dos meios de comunicação. O Ministério Público já pediu a cassação de governadores como Tião Viana (PT-AC) e Anchieta Jr. (PSDB-RR).


Lista negra

Do PMDB, estão na lista Roseana Sarney (MA), André Puccinelli (TO) e Sérgio Cabral (RJ). Já do PSB, Cid Gomes (CE) e Wilson Martins (PI).


Faltaram provas

Dos eleitos em 2010, o TSE só julgou até agora a ação contra Rosalba Ciarlini (DEM-RN), também acusada de gastos ilícitos. Foi absolvida.


Histórico

Em 2008 e 2009, o TSE cassou o então governador da Paraíba, Cássio Cunha, do Maranhão, Jackson Lago, e de Tocantins, Marcelo Miranda.


Era o que faltava

Escolas públicas do DF copiam as privadas e exigem material escolar individual e coletivo. Famílias pobres gastam até R$ 100 com material.


Dilma quer ‘cortar asas’ de Arthur Virgílio no Amazonas

A presidenta Dilma pediu ao senador Alfredo Nascimento (PR) para fazer as pazes com o desafeto Eduardo Braga (PMDB) e unir forças para “cortar as asas” do tucano Arthur Virgílio que, eleito prefeito de Manaus em 2012, certamente planeja retornar a Brasília como senador ou disputar o governo estadual. Dilma, nesse caso, é mais uma “porta-voz” do ex-presidente Lula, que considera Virgílio um inimigo a abater.


Derrotados

Lula e Dilma se empenharam na campanha de 2012 em Manaus, mas não evitaram a derrota de Vanessa Graziotin (PCdoB) para o tucano.


Sem perdão

Sem perdoar o protagonismo dos políticos que se opuseram a seu governo, no Congresso, Lula investiu forte na derrota de todos eles.


Paredão

Lula tentou impedir a reeleição dos senadores Heráclito Fortes (DEM-PI) e Tasso Jereissati (PSDB-CE). José Agripino (DEM-RN) escapou.


Azedou

A cúpula do PMDB decidiu dar um gelo no deputado Sandro Mabel (GO). Cristão-novo no partido, ele decidiu, de forma isolada, entrar com ação para anular a eleição de líder, na qual saiu derrotado.


Inutilidade

Réu no escândalo “Caixa de Pandora”, o deputado distrital Aylton Gomes (PR-DF) já tem o que fazer na Câmara Legislativa do DF: é dele o projeto de criação do “Dia da Despedida do Servidor Público”.


A Copa é nossa

Tem muita gente rindo à toa no Conselho Nacional de Justiça com a nova missão de “coordenar e fiscalizar obras e litígios” na Copa de 2014: terão viagens, diárias e hotéis nas cidades-sede para o serviço.


Confuso

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) ficou em cima do muro, diante da notícia da renúncia do papa Bento XVI. Ele não sabe como classificar a atitude, se como uma “fuga” ou um ato de “coragem”.


Fábrica de linguiça

É febril o movimento de relatórios de chefões a assistentes na Infraero às duas consultorias de “diagnóstico” contratadas pela estatal: têm que justificar o que fazem, em quanto tempo e se sua área é importante.


Canoa furada

A solução do antigo conflito da pesca ilegal na vizinha Guiana esbarra num problemão: a Marinha do Brasil não pode enviar uma fragata de patrulha ao rio Oiapoque até o fim das “negociações diplomáticas”.


Alô, ANS

Clientes da Unimed Brasília sofrem com o péssimo atendimento. Quando não está ocupado o telefone para marcação de consulta, a ligação cai antes de completar a solicitação. Nem a ouvidoria funciona.


Feijoada

A causa é justa para eles e injusta para nós: o Brasil importa feijão da China, após doar quase 12 mil toneladas do produto à Coreia do Norte, Bangladesh e Sri-Lanka, num total de mais de US$6 milhões, via ONU.


Assim não dá

Está descartada a candidatura de Fernando Henrique a Papa: ele é agnóstico.


Poder sem pudor


Para toda a vida

José Paulo Freire era figura folclórica da política paulista. Transitava de Jânio Quadros para os adversários e vice-versa com desenvoltura e nenhum constrangimento. Certa vez, quando o banqueiro Magalhães Pinto articulava a formação do Partido Popular (PP), ele logo aderiu.

- Você no PP, na oposição? – estranhou o amigo mineiro Olavo Drummond.
Ele justificou, dando uma piscadela:

- Partido de governo dura cinco anos. Partido de banqueiro dura a vida inteira...

QUARTA NOS JORNAIS


Globo: Trono Vazio- Só agora, Vaticano revela problema cardíaco do Papa
Folha: Bento 16 não vai interferir em sucessão, diz Vaticano
Estadão: Disputa de poder foi um dos motivos da saída de Bento XVI
Correio: Novo papa terá de evitar fuga de fiéis
Valor: Concessão de ferrovias terá ‘gatilho’ para ampliações
Estado de Minas: O jogo do poder no Vaticano – Quem vai calçar as sandálias do pescador?
Jornal do Commercio: Esta quarta é cinza

terça-feira, fevereiro 12, 2013

FH: muso do carnaval - ANCELMO GOIS


O GLOBO - 12/02

A ida de Fernando Henrique à Marquês de Sapucaí no domingo não foi surpresa para os amigos cariocas. Natural do Rio, embora radicado desde cedo em São Paulo, o ex-presidente, aos 81 anos, comprou um apartamento em São Conrado para ficar mais perto de filhos e netos. Viúvo, FH tem dois filhos que moram no Rio (Paulo e Beatriz) e uma que mora em Brasília (Luciana).

Segue...
No sábado, Fernando Henrique foi ao cinema sozinho, a pé, no Fashion Mall. No meio do caminho, um grupo de curiosos ficou em dúvida se ele era mesmo o ex-presidente.
Até que um deles deduziu:
— Deve ser um turista americano.

Não topou
Lula, no último encontro com Dilma, chegou a sugerir uma reforma ministerial abrangente. Dilma não topou.

Cabo eleitoral
De um vaticanólogo brasileiro:
— Embora o renunciante não participe do conclave, ninguém na cúpula da Igreja Católica duvida de que o Papa Bento XVI será o grande cabo eleitoral do seu sucessor.

Afinal...
Não é todo o dia que um Papa pode cuidar de sua sucessão. A última tem uns 600 anos.

Do mesmo vaticanólogo...
Enquanto o Papa renuncia a um poder vitalício, aqui, no Brasil, certos políticos insistem em se manter vitaliciamente no poder. É o exemplo de... deixa pra lá. Falta negro no poder Gerou polêmica a crítica do cineasta Spike Lee de que a Bahia, mesmo com maioria negra, sempre foi governada pela elite branca. É gente que lembra que o negro Edvaldo Brito, hoje vereador, foi prefeito de Salvador, entre agosto de 1978 e março de 1979. Mas é pouco, muito pouco.

Calma, gente!
Não convidem para o mesmo desfile Paulo Barros e a cantora Teresa Cristina. Em sua página no Facebook, o carnavalesco postou, ontem, que Teresa Cristina o cobriu de elogios na cabine da TV Globo. Porém, quando chegou em casa e viu as imagens que a emissora fez do desfile, foi “pego com o comentário da própria Teresa Cristina declarando que o desfile da Unidos da Tijuca era para esquecer”.

Segue...
Indignado, Paulo Barros declarou sobre o fato:
— Não vou esquecer de suas palavras!!!

Carnaval 2014
Rosa Magalhães renovou o seu contrato com a Vila Isabel.

As mucamas
Um grupo de sete amigas desfilou no Cordão do Boitatá, na manhã de domingo, na Praça Quinze, no Rio, com a fantasia “Babás do Caiçaras”. Nos “uniformes” das meninas estava escrito com paetês: “Barradas no clube.”

Imagina na Copa
Várias escolas cogitam enredos sobre futebol para o ano que vem por causa, claro, da Copa do Mundo no Brasil.

Dieta de candidato
O vice Pezão, que já perdeu 15 quilos, passou incólume na Sapucaí, sem álcool e à base de frutas.

No mais...
Sobre os desfiles no Sambódromo, Ruth Cardoso, a saudosa antropóloga casada com FH, disse certa vez:
— Um povo que tem esta criatividade e esta organização tem tudo para dar certo.

‘COISA ACESA’ NO RECIFE
Elba Ramalho e Thais Gulin levantaram a multidão no Marco Zero, o palco principal do carnaval do Recife que reúne cerca de 200 mil pessoas por dia. Cantaram juntas “Coisa Acesa”, de Moraes Moreira

POLÍTICOS LONGE DA FOLIA
O carnaval dos presidentes da Câmara e do Senado foi longe da folia. Henrique Eduardo Alves (ao lado) esteve em um parque da Disney, em Orlando. Já Renan Calheiros passou no SPA Kurotel, em Gramado, onde a hospedagem nesse período de carnaval chega a R$ 9 mil por pessoa

Ponto Final
O Brasil é o país onde o problema é sempre o outro. Todo professor, vale também para médico, claro, que falta ao serviço úblico sem motivo de força maior, carrega um pouco de Renan em seu íntimo. Com todo o respeito.

Lama na toga - LUIZ GARCIA

O GLOBO - 12/02


Juízes devem ser imparciais. Quando aceitam presentes de cidadãos interessados em conquistar a sua boa vontade, a imparcialidade é ameaçada. Essa é uma afirmação aparentemente tão óbvia que deve espantar o leitor a necessidade de fazê-la. No entanto, é preciso registrar, com esperado aplauso da plateia, o fato de que só agora o Conselho Nacional de Justiça está agindo para impedir ações e situações que criem benefícios de qualquer natureza para magistrados, em óbvias tentativas de conquistar a sua boa vontade.

Há poucos dias, o ministro Francisco Falcão, corregedor do CNJ, propôs ao plenário que proíba o patrocínio, por empresas privadas, de congressos e quaisquer outros eventos de magistrados. É lamentável que essa medida seja necessária, já que a Constituição já proíbe aos juízes aceitar presentes de quem quer que seja. E isso tem acontecido. No fim do ano passado, a Associação Paulista de Magistrados, numa festinha de confraternização, sorteou brindes aos juízes.

E não eram presentinhos: incluíam passagens para cruzeiros e um automóvel. O leitor pode decidir se os generosos doadores gastaram seu dinheiro por singela e desinteressada admiração pela toga, ou se estavam simplesmente fazendo um investimento na boa vontade dos tribunais.

É saudável e meritório que a indignação com esse, digamos assim, investimento dos doadores tenha partido do próprio Judiciário. A proibição proposta pelo ministro Falcão, no entanto, não foi ainda aprovada: um pedido de vista do ministro Carlos Alberto Reis de Paula interrompeu a votação.

Além disso, três entidades que representam juízes reclamaram por não terem sido consultadas: defendem o patrocínio e pediram que o assunto seja aberto a nova discussão. Pode-se desconfiar que seja uma tentativa de atenuar a iniciativa moralizadora de Falcão — ou de colocá- la em banho-maria indefinidamente.

Há um precedente negativo: há pouco tempo, a então corregedora do CNJ, Eliana Calmon, tentou proibir os patrocínios provados de eventos e festinhas de juízes, mas seus companheiros no conselho derrubaram a sua proposta. A opinião pública gostaria muito de conhecer os argumentos usados para isso. Falcão pode ter certeza de que a turma da arquibancada torce por ele e por Eliana.

O contrato coletivo nacional - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 12/02


Em 1975, mais de 85% da produção automobilística brasileira saía do ABC. Duas décadas e meia depois, de cada 100 veículos produzidos no Brasil, apenas 25 são fabricados no ABC. A redução decorreu da decisão das montadoras de cortar custos, transferindo linhas de produção para o Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro e Bahia - Estados onde a média salarial dos metalúrgicos é mais baixa do que em São Bernardo e São Caetano.

Propiciada pelo avanço da tecnologia, que tornou as fábricas menores e mais flexíveis, essa mudança é chamada de "processo de relocalização industrial" pelos economistas. Com folhas de pagamento menores, as empresas podem reduzir o preço final de seus produtos, o que as torna mais competitivas na disputa pelo mercado. Na Europa, por exemplo, empresas inglesas e francesas transferiram fábricas para o Leste Europeu. Na França o salário mínimo é de 1,3 mil euros, enquanto na Eslováquia não passa de 120 euros.

No Brasil, o exemplo mais recente da "relocalização industrial" está ocorrendo no Vale do Paraíba, onde a General Motors (GM) fechou algumas linhas de produção em São José dos Campos, por causa do radicalismo dos sindicalistas da região. Além de construir uma fábrica de motores em Santa Catarina, a empresa voltou a investir no ABC. Dos 7,5 mil funcionários da GM no Vale do Paraíba, 1,5 mil pode perder o emprego.

Controlado pelo PSTU, um pequeno partido de esquerda radical, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José faz reivindicações salariais irrealistas e rejeita a flexibilização da jornada de trabalho proposta pela GM, com a criação do banco de horas. Esse mecanismo é amplamente utilizado por outros setores da economia. Por meio dele, a jornada diminui nos períodos em que as vendas caem e as horas não trabalhadas são repostas nos períodos em que o mercado está aquecido, sem necessidade de contratação de mais operários. O banco de horas permite às empresas ajustar o quadro de pessoal à demanda do mercado.

Para evitar que as montadoras continuem transferindo fábricas para outras regiões do País, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) reivindica um Contrato Coletivo Nacional, com base em cinco cláusulas sociais - auxílio para creche, acesso dos sindicatos ao local de trabalho, formação de comissões de prevenção de acidentes, acompanhamento das demissões por dirigentes sindicais e controle da jornada de trabalho. Elas beneficiariam todas as bases da CUT, independentemente das especificidades regionais. Em Manaus, o piso salarial dos metalúrgicos é 131% menor do que o do ABC. Nesta região, um montador começa ganhando R$ 1.560 ante R$ 716, em Manaus. O salário médio dos metalúrgicos do ABC é de R$ 4,1 mil, enquanto a média nacional é de R$ 3,5 mil.

A CUT representa 30% da categoria, que tem 2,3 milhões de trabalhadores. Sua proposta já será apoiada pela Força Sindical, que representa 1,4 milhão de metalúrgicos. As duas entidades alegam que as cinco cláusulas sociais do contrato coletivo nacional são corriqueiras nas regiões industrializadas, mas não costumam ser consagradas nos dissídios das regiões mais atrasadas.

O principal ponto de resistência das empresas à adoção desse tipo de contrato é salarial. Para as montadoras, não faz sentido adotar entre os metalúrgicos do Nordeste e do Norte os salários pagos no ABC. Por seu lado, a CUT alega que os metalúrgicos do Norte e do Nordeste têm uma jornada de 44 horas - ante a jornada de 40 horas a que estão submetidos 80% dos metalúrgicos do ABC. Também acusam as montadoras de vender carros pelo mesmo preço em todo o País, sem respeitar as diferenças regionais.

Para vencer a resistência patronal, a CUT e a Força Sindical propuseram colocar as cláusulas sociais na frente das cláusulas econômicas, nos próximos dissídios dos metalúrgicos. Mas, como as empresas deixaram claro que veem poucas vantagens no contrato coletivo nacional, as negociações entre as montadoras e os metalúrgicos devem ser difíceis e morosas, mesmo com a CUT atuando em parceria com a Força Sindical.

A fé verdadeira - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 12/02


SÃO PAULO - Bento 16 vai se aposentar. Embora eu não partilhe de praticamente nenhuma de suas posições conservadoras, admiro seus dotes intelectuais. Joseph Ratzinger pode ser descrito como um pensador fino que não teme ir aonde suas ideias o levam, como o atestam as polêmicas em que se envolveu.

O tom de seu pontificado começou a ser dado antes mesmo de ele ser sagrado papa, quando, na condição de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (o novo nome da velha Inquisição), participou ativamente da elaboração da epístola "Dominus Iesus" (2000). Ali, o Vaticano diz que os que não acatam a "verdade" como interpretada pela Igreja Católica estão em apuros teológicos. "Dominus Iesus" coloca a questão de forma até diplomática, pois admite a possibilidade de graça para os não católicos, ainda que "objetivamente" menor do que para o católico.

Se quisermos, essa carta é a versão "light" do "Extra Ecclesiam nulla salus" (fora da Igreja não há salvação), do papa Bonifácio 8º (1294-1303).

É difícil comprar essa tese. Ela bate de frente contra o que considero um dos mais convincentes argumentos antirreligiosos, que é o do pluralismo. Para onde quer que olhemos no mapa, encontraremos uma "verdade religiosa" diferente. Qual o critério para decidir qual é, de fato, a verdadeira? Por que o catolicismo seria melhor que o calvinismo? No que eles superariam o judaísmo e o islamismo? E o que haveria de errado com Zeus e o panteão olímpico ou com os deuses nórdicos, que já foram providencialmente enterrados por todos? Nós, ateus, estamos apenas um deus à frente dos demais.

Parece mais razoável compreender os diversos sistemas de crença religiosa como manifestações diferentes da mesma predisposição humana, que pode ter base biológica (como acredito) ou divina (como pensa a maioria). Mesmo que Deus exista, é difícil conceber que ele tenha criado só uma fé certa e dezenas de erradas.

Revolução no comércio internacional - RUBENS BARBOSA


O ESTADÃO - 12/02

Fonte de crescimento e de emprego, o comércio internacional está em meio a significativas mudanças, lideradas por EUAe China,que procuram ajustar suas políticas externas e comerciais à nova ordem internacional multipolar. Observa-se hoje a proliferação de acordos regionais e bilaterais e a multiplicação de medidas restritivas e protecionistas, em grande parte devidas ao fracasso das negociações multilaterais da Rodada Doha e ao enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC).

As limitações políticas e técnicas da OMC refletem as dificuldades para responder aos desafios surgidos com as novas formas de organização da produção e de serviços e com a crescente integração dos países às cadeias produtivas globais. Para voltar a ter um papel central no sistema de comércio internacional a OMC deveria passar por uma ampla reforma a fim de ajustá-la às mudanças globais dos novos tempos. O processo decisório de uma instituição de 158 membros tornou-se muito mais complexo, embora os procedimentos tenham continuado com poucas mudanças em relação a 1995, quando, no momento de sua criação, havia apenas 76 membros. A questão da cláusula de nação mais favorecida, um dos principais pilares da OMC e do antigo Gatt, o tratamento preferencial e diferenciado e o princípio do "single undertaking" (ou compromisso único) nas negociações multilaterais (nada está aprovado enquanto todos os acordos não estiverem aprovados) estão sendo contestados e provavelmente terão de sofrer ajustes para responder aos desafios emergentes. Novos conceitos como cadeia de fornecimento global e manipulação das taxas de câmbio terão impacto sobre as negociações internacionais.

Em reação a essas mudanças, os EUA, a Europa e a Ásia estão avançando entendimentos para a negociação de acordos de livre-comércio de grande porte. A Parceria Trans-Pacífica, liderada pelos EUA, concentra 40% do PIB global e inclui Austrália, Malásia, Vietnã, Cingapura, Nova Zelândia, Chile, Peru, Brunei, Canadá, México e talvez Japão e Coréia do Sul. Os EUA já haviam firmado acordos com o Canadá e o México (Nafta) e mais recentemente com Panamá, Colômbia, Peru, Chile e Coréia do Sul. A União Européia, apesar da pesada burocracia de Bruxelas, finalizou acordo de livre-comércio com a Coréia do Sul e está negociando com Cingapura e Canadá. E iniciou conversação com o Japão e o Mercosul. Bruxelas e Washington conversam para avançar os entendimentos de um mega-acordo de comércio e investimento, chamado de Acordo de Livre Comércio Transatlântico (Tafta, na sigla em inglês). A Ásia, numa completa mudança de posição, embarcou numa série de acordos de livre-comércio regionais, sob a liderança da China e do Japão, inclusive com países sul- americanos.

Sendo os EUA e a Europa dois dos principais parceiros do Brasil, é importante entender o significado do Tafta e suas implicações para os países que ficarem de fora.

A eventual formação de uma área de livre-comércio entre essas duas regiões englobará três quartos do mercado financeiro, metade do PIB global e quase um terço do comércio internacional. Grupo de Trabalho de Alto Nível criado pela União Europeia e por Washington deverá apresentar ainda neste mês as suas recomendações. Serão sugeridas, entre outras regras, a inclusão de serviços e investimentos, compras governamentais, propriedade intelectual e outras regras gerais de comércio, além da eliminação das tarifas e barreiras não tarifárias. Haverá um período de transição durante o qual seriam excluídas as reduções tarifárias de "produtos sensíveis"e a desregulamentação de "certos setores" em serviços. Espera-se que as negociações possam começar em meados do corrente ano.

Evidentemente, essa ambiciosa agenda apresentará dificuldades para conciliar história, cultura e práticas locais, como padronização, Buy American Act, patentes farmacêuticas (genéricos), meio ambiente e leis trabalhistas, sem falar de problemas políticos de outra magnitude, como a eventual saída do Reino Unido da União Européia.

Os países em desenvolvimento poderão ficar muito afetados pelos mencionados mega-acordos de livre-comércio, pela exclusão dos benefícios, por obrigá-los a aceitar compromissos de difícil cumprimento e pelo fortalecimento do poder internacional dos setores financeiros, talvez os principais beneficiários desses processos de integração econômica e comercial.

Nesse contexto de grandes movimentos de transformação no comércio internacional, o Brasil está sem estratégia de negociação comercial.

Caso os acordos EUA-União Européia (Tafta) e dos EUA com países asiáticos (Trans-Pacifíc Partnership) sejam concluídos, o Brasil ficará alijado dos dois maiores fluxos de comércio internacional. A eliminação de tarifas entre os países- membros desses dois blocos afetará ainda mais a competitividade dos produtos brasileiros, que praticamente ficarão excluídos desses mercados.

A política Sul-Sul dos últimos dez anos, no tocante à África e ao Oriente Médio, pouco resultou do ângulo comercial. A Aliança do Pacífico (Chile, México, Peru e Colômbia) representou uma ação geoeconômica importante pela aproximação dos EUA e da Asia. O Mercosul, que pediu para ser observador da Aliança, encontra-se em situação de quase total isolamento. Nos últimos dez anos firmou três acordos de livre-comércio com Israel, Egito e Autoridade Palestina, além de acordo de preferência tarifária com a índia e a África do Sul. A negociação do grupo com a União Européia torna-se crucial para podermos estar sintonizados com essas transformações globais.

Se as negociações com a Comissão Européia não avançarem, não restará alternativa ao Brasil, no âmbito do Mercosul, senão fazer um acordo em separado com a União Européia, para resguardar nossos interesses.

MEGAN FOX, A INTOCÁVEL - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 12/02

"Eu nunca vi nenhum filme dessa Megan Fox", diz Susana Vieira ao chegar ao Sambódromo do Rio, anteontem. A atriz critica a colega americana, estrela do filme "Transformers" e contratada por estimado R$ 1,7 milhão para fazer presença VIP no camarote da Brahma no Carnaval.

"Esse camarote já recebeu os maiores atores do Brasil, os maiores cantores e jogadores do mundo, não precisa de Megan Fox. Mas deve interessar ao patrocinador." A única celebridade que ela tentou conhecer no camarote foi Madonna, em 2010. "E os seguranças me expulsaram. Então vai se f..."

Megan só aparece às 23h55. Grades e seguranças, estes na base de empurrões, bloqueiam todas as escadas. Só depois que a americana completa seu trajeto é que Susana Vieira consegue passar, nervosa. "Foi todo mundo barrado, porque a Megan não pode ser tocada. Vai se f...! Ronaldo Fenômeno está no camarote! Ele é muito mais importante!"

O ex-jogador, carregando a nova namorada, a DJ Paula Morais, e uma camisa da seleção para Megan, é autorizado a entrar no cercadinho VIP da atriz. Rodrigo Santoro e Luan Santana também. A americana passa a maior parte do tempo de costas para o desfile, conversando com o marido, Brian Austin Green. Bebe duas garrafinhas de água mineral. E é pontual: sai à 1h55, quando vencem as duas horas que precisa cumprir para receber o cachê.

Astros internacionais no camarote de outra cervejaria, a Devassa, se irritavam com a imprensa. O designer francês Christian Louboutin, de calça vermelha justa e sapato preto cravejado de metais, gingava a cada batuque.

Os sapatos de Louboutin viraram símbolo de um dos grandes escândalos brasileiros de 2012, quando Adriana Ancelmo, mulher do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB-RJ), fez fotos levantando os pés para mostrar o solado vermelho dos calçados num passeio do casal com empreiteiros em Paris.

"Não e o único país em que isso acontece. Não quero estar envolvido nisso, não preciso", diz ele à coluna. Com um gesto de mão, indica que a entrevista "já deu".

O ator francês Vincent Cassel espera na longa fila para a comida, a alguns passos do ex-BBB Alemão. "Você é jornalista? Então não tenho nada a falar. Bom Carnaval." E dá uma piscadinha. "Foto tudo bem."

Adam Clayton, o baixista do U2, cochicha com uma amiga. Ele está no Brasil para uma exposição de Martin Creed na casa de Frances Reynolds, ex-mulher de José Roberto Marinho, da Globo.

MC Naldo sai escoltado por uma equipe, empurrando todos no caminho. O cantor não deveria estar ali: é contratado da Brahma. Segura na mão um saco com a camisa-abadá da cervejaria concorrente. "Ele só queria ver o Will", diz um dos guarda-costas, referindo-se ao ator americano Will Smith -que não estava lá. O encontro dos dois aconteceria no dia seguinte, em um hotel. Tudo registrado por Naldo no Instagram.

Na Brahma, Susana Vieira diz que, caso sua escola, a Grande Rio, vença o Carnaval, vai cancelar a apresentação de "A Partilha", peça que está estrelando em São Paulo, para participar do desfile das campeãs, no sábado. "Eu pago os R$ 8.000 mínimos de diária que devemos ao dono do teatro e venho."

Ela comenta a polêmica gerada por Zeca Pagodinho, que afirmou à Folha que "não tem mais" Carnaval nas ruas do Rio. "Marchinha, baile... é coisa de cem anos atrás. Já fui muito. Mas agora tem os blocos de rua." E anuncia: "Vou sair num bloco no ano que vem. Eu vi a Carolina Dieckmann no da Preta Gil e pensei: 'Minha filha tá lá e eu não tô?' A vovó vai também!".

Jorge Ben Jor endossa: "Não tem mais marchinha tocando em rádio, mas esta semana levei cinco horas para ir da Barra ao Santos Dumont. Tinha 400 blocos na rua."

Dunga também foi à Sapucaí, com a mulher e dois filhos. "Acho que o Ricardo Teixeira deve ter mais saudade de mim do que eu dele", diz, sorrindo, o ex-técnico da seleção, demitido em 2010 pelo então poderoso chefão da CBF. "Nos quatro anos em que eu fiquei lá, ele não teve problemas."

O treinador não teme vexame do Brasil na Copa de 2014. "Tô gostando", diz, sobre a seleção de Luiz Felipe Scolari. "Antes era um barco em alto-mar à deriva. Agora, tem direção. Goste-se ou não do Felipão, ele fala branco, é branco. Fala azul, é azul."

"Esquece estrutura, estádio, aeroporto, telefonia", diz ainda Dunga. "Quem vai fazer a diferença na Copa é o povo brasileiro. Se ele abraçar o evento, com essa animação toda [aponta para as arquibancadas do sambódromo], essa alegria, vai fazer toda a diferença. Senão, estamos perdidos."

O novo carnaval das ruas - ARNALDO JABOR


O ESTADO DE S. PAULO - 12/02

Todo ano minha coluna sai na terça-feira de carnaval. Não há outro assunto que possa suplantar a espantosa festa popular e acabo me repetindo. Eu andava irritado com a folia anual. Cheguei a dizer que o chamado "tríduo momesco" - como falavam os cronistas d"antanho - tinha virado uma calamidade pública. Mas, nos últimos dias, vendo as massas pulando nas ruas de Salvador, Recife e Rio, fiquei pensando: como é que pode? O que faz milhares de foliões se jogarem nas ruas como estouros de boiadas, o que será que provoca tanta fome de samba, de riso, de porres, de sexo em flor? Este ano, há blocos que congregam mais de 400 mil participantes, 400 mil dançando na orla do Rio, em um delirante comício de felicidade.

Olhei de perto um infinito rio de gente pulando na beira-mar, até sem ouvir mais a música que guiava os foliões, como uma locomotiva sonora. Houve uma mudança, sem dúvida.

Lembro-me do tempo recente em que todos reclamavam do "fim do carnaval", reduzido as alegorias luxuosas das escolas sob um elegante desprezo das elites. Lembro das primeiras damas da ditadura rebolando no camarote, d. Yolanda Costa e Silva ou d. Dulce Figueiredo, enquanto o carnaval de rua no Rio minguava, com mascarados solitários e escassos bloquinhos na avenida, restando apenas os "Clovis" de Santa Cruz com a tradição do passado. O carnaval oficial tinha virado um produto de mercado, um merchandising de bicheiros, uma festa para voyeurs, para turistas, inclusive para brasileiros - turistas de si mesmos.

Mesmo depois da ditadura, seria impossível ver esses imensos rios que passam em nossas vidas. Era impossível a alegria popular com 2 mil por cento de inflação ao ano, no fim da década de 80. Creio mesmo que essa enchente de povo se forma a partir da estabilização da economia em 94 e da maré em nossa direção, com o capital internacional dirigido aos países emergentes. Aos poucos, o País retomou sua autoestima e, especialmente no Rio, ela cresce nos últimos tempos, com o melhor controle da criminalidade e com o fim dos governos sórdidos que jogaram a cidade no buraco.

Subitamente, como as multidões árabes que tomaram as praças da África do Noite, nossas massas encheram a cidade. Sente- se o renascimento de um desejo gregário, até de contato físico entre as pessoas, uma explosão de liberdade e um irresistível desejo de existir em comunidade, de viver e morrer numa fervente multidão, onde todos virem um grande "um". Creio também que isso reflete o movimento atual da vida social que se organiza cada vez mais em redes, pois os métodos de comunicação pela internet não apontam mais para um futuro, para um ponto de chegada. Não. Agora a vida social tem uma dinâmica interna, intramuros, congregadora. Não mais utopias nem mesmo distopias, que são "finalismos" ao avesso. Não. Agora o movimento é no presente, é centrípeto, cerrando contatos e intimidades.

Não me esqueço do desfile premonitório que o genial Joãozinho Trinta fez com urubus, ratos e mendigos em 1988, anunciando que o luxo que ele tinha criado com sua frase luminosa ("o povo quer é luxo; quem gosta de miséria é intelectual...") poderia virar um lixo crítico, uma denúncia ao êxtase fácil e alienante. Ali estava um premindo do carnaval que agora se derrama, fluvial, pelo País.

Somos um povo esquisito, todo nu, pulando como malucos para espanto riso- nlio do mundo "civilizado".

Muito bem. Pois, acho o carnaval nossa marca e nossa grandeza. Como pode o mundo achar o carnaval uma loucura, este mundo irracional de homens-bomba e drones? É melhor entender o Brasil através do carnaval, do que ver o carnaval como um desvio da razão. O carnaval nos vê. Sua razão sacana nos ensina mais que estas "moralidades críticas".

Assim como o Círio de Nazaré congrega milhares pela esperança e fé, como um martírio triunfal, assim como o futebol congrega torcidas pela vitória de uma camisa, o carnaval de hoje me parece a consequência da democracia e do crescimento econômico do País. Enquanto as elites deprimem em casa, vão a um camarote de cervejaria ou fogem para a serra, milhares de bailarinos tomam a cidade como numa revolução.

O carnaval mostra que o Brasil tem outra forma de "seriedade", mais alta que a gravidade do mundo anglo-saxão. O carnaval mostra a matéria de que somos feitos, por baixo dessa mímica de "ocidente" que o Brasil tenta há quatro séculos. Mas, para descobrir um carnaval ainda mais puro, temos de ir aos blocos de "sujos", esses sim, com uma alegria selvagem e sem frescuras. Podemos ver nas ruas a preciosa origem do carnaval profundo. Lá, estão os desesperados, os famintos de amor, os malucos, os excluídos da festa oficial; é o carnaval dos miseráveis, a dança do escracho na melhor tradição da arte grotesca, dessacralizando as obrigações da virtude e da obediência. Na razão do carnaval existe algo mais além da imoralidade; há uma santidade nesta explosão de carne que não se explica. Onde existem estas montanhas de corpos se atirando uns aos outros, com sexo e música? A sacanagem das matas profundas é diferente das surubas calvinistas de Nova York, que inventaram o sexo torturado nas boates doentias e acabaram na aids. A "razão perversa" é a razão do carnaval. Não a perversão como "pecado", mas como mímica de uma liberdade, como a busca de uma civilização "não civilizada", de um retorno a uma animalidade perdida e, no entanto, pulsante.

A África e os índios nos salvaram, assim como salvaram os USA Que seria da América sem o jazz? Um país branco azedo, cheio de wasps tristes.

Nosso carnaval mostra que o Inconsciente brasileiro está à flor da carne. Quanto mais civilizado o país, mais fundo o recalque. Já imaginaram um carnaval na Suíça? Talvez o carnaval seja uma doença salvadora, uma epidemia de "desbunde" de que o mundo precisa, por só conhecer a guerra, a velocidade e o mercado cruel.

Tempo de renovar - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 12/02

Impossível não transportar os problemas da Igreja nos últimos anos às agruras da política brasileira, em que as mudanças, a grosso modo, praticamente não ocorreram, o que afasta as pessoas



“Meu Deus, isso é um sinal do fim dos tempos”, reagiu um senhor assim que foi informado da renúncia do Papa Bento XVI, uma atitude tão inusitada que não acontecia desde a Idade Média e, ainda assim, por circunstâncias políticas, conforme você poderá ler nas páginas do Correio de hoje. Mas a retomada de uma medida tão extrema indica que o recurso não caiu em desuso e serve para encerrar um período complicado para o Vaticano, com denúncias de pedofilia, apropriação indevida de documentos da Igreja por parte do mordomo do Papa, ameaça de cisma, crescimento de outras religiões. Agora, se os cardeais forem devidamente iluminados na escolha do sucessor do Santo Padre, a Igreja Católica terá a chance de ganhar energia e, assim, tentar recuperar o terreno perdido.

Ao renunciar, o Papa Bento XVI abre novamente as portas da Igreja para mudanças, necessárias e urgentes no sentido de aproximação das pessoas e resolução dos problemas internos. Há quase um ano, jornalistas dedicados à cobertura do Vaticano mencionavam o clima de fim de pontificado reinante nos bastidores e o desencanto dos fiéis. Daqui até a escolha do novo papa, nem que seja por curiosidade, muitos vão procurar conhecer mais a Santa Igreja, suas qualidades e seus defeitos. E um novo papa, na Jornada Mundial da Juventude, pode ser tudo o que o Vaticano precisa para animar a moçada no caminho da fé e buscar resolver problemas internos.

Impossível ainda não transportar os problemas da Igreja nos últimos tempos (e essa porta aberta à renovação) às agruras da política brasileira, em que as mudanças, a grosso modo, praticamente não ocorreram. Para se ter uma ideia, nos funerais do Papa João Paulo II, em 2005, o então presidente Lula foi acompanhado de uma grande comitiva. Nela, estavam os então presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE). Lula fez um gesto de levar os ex-presidentes da República José Sarney e Fernando Henrique Cardoso. Itamar Franco, que faleceu no ano passado, era embaixador do Brasil na Itália. Faltou apenas o ex-presidente Fernando Collor, que à época ainda era visto pelo PT como um adversário.

Desde a posse de Bento XVI até hoje, muita água rolou sob a ponte da política brasileira, mas as renovações a grosso modo foram restritas e forçadas. No PT, por exemplo, a renovação só ocorreu por força da denúncia do mensalão, que tirou de cena uma grande parcela do primeiro time, com destaque para José Dirceu, que não ocupou mais nenhum cargo de evidência e está prestes a ir para a cadeia. José Genoino voltou ao Congresso, mas todos os dias alguém cobra seu afastamento.

No PMDB, essa renovação não veio. Os cargos principais do partido, salvo raríssimas exceções, continuam com o mesmo grupo. No PSDB, 2010 teve novamente José Serra como candidato. Isso sem contar a cansativa disputa entre mineiros e paulistas dentro do partido, que, sinceramente, ninguém aguenta mais. No PP, colocar um novo líder foi uma guerra. No PR, Valdemar Costa Neto, embora discretíssimo, ainda tem a força. No PDT, Carlos Lupi é quem dá as cartas.

Em termos de presidentes da República, Dilma só existe enquanto mandatária da Nação — uma novidade — porque Dirceu e Antonio Palocci, cotados para suceder Lula, sucumbiram. E os outros que poderiam ocupar o posto naquelas circunstâncias teriam problemas internos. Agora, dentro do partido, já tem um grupo sonhando com o retorno do ex-presidente. Mais um sinal de que renovar não é tão fácil quanto parece. Esperamos que a Igreja consiga.

Por falar em Lula…
De todos os políticos mais antigos que continuam em evidência, são poucos os que se mostram solidários com as pessoas de um modo geral, que acolhem o povo como parceiro e não alguém inferior. Talvez seja esse o segredo da popularidade de Dilma, que passa essa imagem de solidariedade e de proteção. Ou o de Lula, que fala de igual para igual com os cidadãos nos palanques. Muitos podem discordar dele, mas há de se admitir seus méritos. Lula parece ter sido, até o momento, o único a captar a mensagem de mudança vinda das pessoas. A Câmara e o Senado não captaram. A Casa Alta está mais em evidência e começa essa Legislatura com o constrangimento de abaixo-assinados.

As pressões externas, entretanto, não surtirão efeito a curto prazo. O momento dos presidentes das duas Casas, reforçados pelos votos que obtiveram, é o de tentarem se reinventar nos cargos. Henrique Eduardo Alves deu a partida nesse sentido. Renan Calheiros está mais contido. Se eles conseguirem ultrapassar essa fase, talvez ainda tenham alguma condição de reaproximar o parlamento das pessoas. Afinal, embora o estado seja laico, a Igreja e Congresso Nacional nunca estiveram tão juntos em termos de objetivos. O tempo dirá quem cumprirá primeiro a sua meta.