quinta-feira, fevereiro 07, 2013

A mecânica da ilusão - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

Valor Econômico - 07/02


Sempre imaginei que economistas, especialmente os que se especializaram no estudo do mercado de trabalho, soubessem identificar uma situação de pleno emprego, mas me enganei. Por incrível que isso possa soar, ainda há quem acredite numa versão mecânica do fenômeno, igualando pleno emprego ao esgotamento "físico" do universo de pessoas em idade ativa, apenas atingido quando praticamente todos (exceto idosos e crianças) na População em Idade Ativa (PIA) estiverem empregados. Já pela ótica econômica, a configuração do pleno emprego é bastante distinta.

A qualquer momento as pessoas em idade ativa se defrontam com uma decisão nada trivial: participar ou não do mercado de trabalho. Há, é claro, aqueles para quem trabalhar é um imperativo, sem o que não conseguiriam sobreviver. Estes, quase por definição, farão parte da População Economicamente Ativa (PEA), ou seja, os engajados no mercado de trabalho, empregados ou buscando emprego.

Para outros, porém, há alternativas ao mercado, desde estudos até o cuidado com os filhos, sem obviamente esgotar as possibilidades. Neste caso a decisão de participação depende do balanço entre custos e benefícios.

Fica difícil escapar à conclusão que a economia brasileira opera sim a pleno emprego

Os custos refletem a probabilidade de obtenção de um emprego. Em períodos de crise, por exemplo, quando a probabilidade é baixa, espera-se que a PEA se reduza face à PIA, ou, posto de outra forma, que a taxa de participação (a razão entre PEA e PIA) caia. Isto foi observado, por exemplo, no começo de 2009 (ver gráfico), refletindo a crise internacional.

Em particular, como a taxa de desemprego é calculada com relação àqueles engajados no mercado, tal redução fez com que a taxa observada de desemprego aumentasse apenas marginalmente no período, dando a falsa impressão que o mercado de trabalho teria sofrido pouco na crise. Já a estimativa de desemprego ajustada a movimentos da taxa de participação revela, ao contrário, uma elevação de quase dois pontos percentuais no desemprego (ver gráfico), "mascarada" pela queda da taxa de participação.

Os benefícios, por sua vez, refletem o salário esperado, isto é, a taxa de participação cresce em linha com salários, como, aliás, observamos no período mais recente e de forma mais intensa no trimestre final do ano passado. Isto, por sua vez, tende a "mascarar" a queda da taxa de desemprego, já que mais pessoas se juntam à PEA, elevando a quantidade ofertada de mão de obra.

Caso a elevação dos salários necessária para convencer essas pessoas a se engajar no mercado se dê no mesmo ritmo que a expansão da produtividade, os custos unitários do trabalho permanecem inalterados. Significa que o ritmo de crescimento da demanda por mão de obra é consistente com a expansão da oferta (seja pelo crescimento populacional, seja pela maior taxa de participação) e também congruente com a inflação na meta. Isto configura o pleno emprego na ótica econômica.

Se, porém, o aumento da taxa de participação exigir elevações salariais em excesso ao crescimento da produtividade (portanto elevação do custo unitário do trabalho), surgirão pressões inflacionárias, indicando que a economia está operando além do pleno emprego.

A perspectiva econômica do mercado de trabalho, portanto, sugere que a disponibilidade de mão de obra fora da PEA está longe de ser suficiente para determinar se a economia opera abaixo do pleno emprego. O crucial é saber se a elevação salarial necessária para convencê-los a se juntar à PEA é alinhada com o crescimento da produtividade.

Este não parece ser o caso no Brasil de hoje. Pelo contrário, salários médios nominais têm crescido a taxas superiores a 10% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Já o crescimento da produtividade, tomado ao pé da letra, foi negativo em 2012, uma vez que a expansão do emprego (pouco mais que 2%) superou largamente o crescimento do PIB.

Mesmo tomando (como acho correto) uma medida de tendência da produtividade, em vez da observação pontual do ano passado, a conclusão não se alteraria: salários crescem acima da produtividade, forte indicação de uma economia em que o mercado de trabalho está excessivamente aquecido.

Uma vez analisada a questão sob uma ótica econômica, que envolve pessoas tomando decisões à luz de custos e benefícios, fica difícil escapar à conclusão que, a despeito de possível disponibilidade de mão de obra além da PEA, a economia brasileira opera sim a pleno emprego. Apenas ignorando os aspectos econômicos do problema, em particular a evolução dos preços, é que se pode iludir acerca dos obstáculos hoje enfrentados no mercado de trabalho.

O Congresso Nacional, de mal a pior - ROBERTO MACEDO

O Estado de S.Paulo - 07/02


Pensei em falar do Congresso como um lixão político. Mas refleti que estaria ofendendo os coitados que nos de lixo mesmo trabalham em condições abjetas e a duras penas em busca de algo aproveitável para sua sobrevivência. No Congresso há trabalho sujo na fartura, ressalvadas exceções cada vez mais excepcionais.

Não há maior diferença na troca de José Sarney por Renan Calheiros, no Senado, e de Marco Maia por Henrique Alves, na Câmara. Os substitutos não mostram credenciais capazes de reverter a decadência política, ética e funcional das instituições que vão presidir. O que segue mal cumulativamente tenderá a piorar.

O novo presidente da Câmara começou assim, com a ameaça de desrespeitar o Supremo Tribunal Federal (STF) e deixar à Casa a decisão de cassar o mandato dos deputados condenados no julgamento do "mensalão". O assunto nem deveria estar em discussão, pois os próprios condenados deveriam sair por si mesmos. Mas falta vergonha. Poderiam, também, seguir a recomendação que torcedores perto de alambrados costumam fazer aos maus jogadores de futebol: "Pede para sair...". Nas reticências, nomes e adjetivos fortes.

No Congresso há torcedores de outro tipo, a torcer evidências para lhes dar versões de sua conveniência. Os dirigentes eleitos fizeram isso quanto aos malfeitos apontados em suas carreiras. A recente e pízzica CPI do caso Carlinhos Cachoeira também usou e abusou de artifícios para salvar colegas de partido e trocar favores. Agora, em discursos solenes, vem a conversa fiada de ética e transparência, porque o que se vê são dissimulações de comportamentos em contrário.

Em questões como essas merece atenção o conhecimento profundo de Fernando Gabeira, que por 16 anos foi deputado federal. Neste espaço (300 picaretas e uma pá de cal, 1.º/2) tratou do "mensalão" e dos parlamentares que pegam carona nas autoritárias medidas provisórias que passam pelo Congresso, pendurando-lhes emendas que fogem ao caminho democrático e servem a interesses econômicos. E diz que os negócios são o centro de tudo. Além de emendas como essas, sei que há as orçamentárias, que atendem também a interesses eleitoreiros. E há as votações secretas, como nas recentes eleições, que escondem votos inconfessáveis a colegas e eleitores traídos. Gabeira conclui que o Congresso se perdeu para o ramo dos secos e molhados. Leitura imperdível, o artigo está em www.estadao.com.br/noticias/impresso,300-picaretas--e-uma-pa-de-cal-,991634,0.htm.

E mais: seu plenário trabalha em regime de zorra total. A Mesa Diretora costuma ser rodeada de parlamentares posando de papagaios de pirata. No plenário, muitos de pé, e o som dos oradores cai em ouvidos surdos por desatenção e por tagarelice em conversas paralelas. Não há debates profundos de grandes temas nacionais.

Como economista, vejo também o lado nada econômico. O Congresso é indispensável, mas não precisava custar tanto, pois boa parte do muito dinheiro que absorve poderia ser destinada a outras finalidades, mais meritórias em seus benefícios, e de forma mais eficaz e eficiente.

A maioria dos congressistas não mostra a preocupação republicana de buscar o bem comum nem se condói do contribuinte que sustenta a festa com enorme carga tributária, que destaca o Brasil entre seus pares de renda per capita semelhante. Ao pagar, o brasileiro como que tosse impostos, porque o esforço é enorme.

Com o debate sobre os novos presidentes, absurdas cifras vieram à tona Conforme a Folha de S.Paulo de 1.º e 4 deste mês, o orçamento do Congresso para 2013 deve alcançar a elevadíssima cifra de R$ 8,5 bilhões (!), superior aos recursos de vários Estados da Federação. Funcionários: 22 mil (!), com salário médio de R$ 13,6 mil (!) no Senado. Na Câmara, os de servidores efetivos estão entre R$ 4,8 mil e R$ 19,5 mil (!). Salário dos parlamentares, R$ 26.700 (!) por mês, mais a gestão de verbas mensais que na Câmara alcançam R$ 97.200(!) e no Senado, R$ 52.970 (!). Parte delas vai para assessores que trabalham na caça de votos para reeleição, um financiamento público de campanha a privilegiados pelo mandato. E mesmo o salário alto não explica casos de enriquecimento na política.

E o trabalho na sua produtividade? Para que 517 deputados e 81 senadores? Dois terços destes e um terço daqueles seriam mais baratos, produtivos e mais que suficientes. Entre os senadores há ainda os que vieram do nada, pois exercem o mandato como suplentes, "escolhidos" em eleição casada com a do titular. Na última contagem que vi, de outubro de 2012, havia 19 nessa condição, quase um quarto do total. O leitor sabe quem são os suplentes dos três senadores eleitos pelo seu Estado?

O ano de 2012 foi típico do descaso pelo empenho. O Orçamento da União de 2013 segue sem aprovação. E permaneceu a omissão quanto a um imenso orçamento paralelo, o do BNDES, que escapa ao escrutínio parlamentar. O impasse dos royalties do petróleo não foi resolvido e o debate sobre o assunto revelou uma fila com perto de 3 mil (!) vetos presidenciais que se acumularam porque o Congresso deixou de examiná-los. Tampouco foi cumprida a obrigação de fixar novas regras para o repasse dos impostos federais aos Estados, que tinha prazo "final" em 2012 por "determinação" do STF.

O desenvolvimento econômico de um país depende da qualidade de suas instituições, conforme ressaltou Douglass North, Nobel de Economia. Michael Porter, um dos maiores especialistas mundiais em competitividade de empresas e nações, ressalta que a falta de efetividade legislativa também atrapalha.

E assim segue o Brasil, devagar na corrida mundial da competitividade, amarrado por instituições como essa que acaba de dar mais um show do mal que faz ao País.

Berros n'água - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 07/02


Não faz jus à mediocridade do atual Congresso - notadamente da sessão legislativa que agora se inicia - a interpretação de que seus novos dirigentes desafiam o Supremo Tribunal Federal quando reivindicam para a Câmara a última palavra sobre a perda dos mandatos de quatro deputados condenados criminalmente.

Para que se configurasse um duelo seria preciso igualdade em estatura, autoridade e consistência de argumento.

"Queiram ou não queiram, a palavra final é da Câmara", asseverou o novo presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves, para gáudio de vários integrantes da Mesa Diretora que, no entusiasmo da vitória, aderiram à teoria de que uma sentença criminal da instância suprema da Justiça seja passível de revisão no Legislativo.

O presidente do STF e relator do processo que levou às condenações, ministro Joaquim Barbosa, foi de extrema delicadeza ao comentar o assunto, chamando de "especulações" as fanfarronices à deriva.

Barbosa disse o óbvio: o Supremo tem a palavra final sobre qualquer assunto constitucional sobre o qual a Justiça venha a ser instada a se manifestar. De onde não há confronto possível, pois não há duas partes dispostas a brigar.

Não obstante a evidência, o presidente da Câmara revidou: "Volto a dizer, para bom entendedor basta: vamos finalizar o processo, pois quem aprecia as formalidades legais é a Câmara, conforme pensaram quatro dos nove ministros na votação de cinco a quatro".

Pela lógica do deputado, no resultado de cinco a quatro prevaleceriam os quatro votos vencidos sobre os cinco vencedores. Não basta para nenhum tipo de entendedor, bons ou maus.

Acuado pela degradação da própria imagem, o Congresso faz pose de valente. Promete "crescer" para cima dos Poderes Judiciário e Executivo sob as asas dos quais se esconde. Vive agarrado nas barras da toga do tribunal por omissão, e na saia da presidente da República, por submissão.

Agora mesmo um deputado (Sandro Mabel) pede ao STF que anule o resultado da eleição do líder da bancada do PMDB porque ficou insatisfeito com a derrota para Eduardo Cunha.

Não é o único exemplo, embora seja o mais recente e estapafúrdio, de choramingo judicial no Parlamento que se diz usurpado.

Os berros que agora se ouvem têm a consequência dos tiros n'água. Primeiro porque o Legislativo não dispõe de instrumentos legais para descumprir decisão do STF; segundo, porque carece de condições morais para debater de igual para igual com o Judiciário devido aos débitos de suas excelências com a lei.

Diferenças. Na Espanha, o uso de caixa 2 no partido do governo (PP) rende escândalo que, a depender da evolução, pode resultar na renúncia do primeiro-ministro Mariano Rajoy.

No Brasil, o uso de caixa 2 é usado como argumento de defesa. Primeiro pelo então presidente da República, para justificar a distribuição de dinheiro a partidos aliados, e depois no julgamento do processo do mensalão pela banca de advogados que erroneamente embarcou na tese repudiada pelo Supremo.

Dilma real. Melhor seria se a Petrobrás não tivesse tido seu valor de mercado, sua produção e seus lucros drasticamente reduzidos em virtude do uso político, partidário e eleitoral da empresa.

Mas pior seria se não fosse agora presidida por alguém como Maria das Graças Foster, que prefere dizer as coisas como elas são a vender ilusões à toa.

Como subordinada do acionista majoritário da companhia não pode tudo, mas em muita coisa parece ser de fato a versão maquiada que o departamento de propaganda Planalto projeta para Dilma Rousseff.


O xadrez do PT - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 07/02

A semana política terminou ontem com as visitas do novo presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), aos presidentes dos demais Poderes da República — Dilma Rousseff, do Executivo; e Joaquim Barbosa, do Judiciário. Os petistas, entretanto, estão mais à frente no calendário. Com os olhos voltados às manobras para 2014, retomam a formação de jogo feita no momento em que o STF começou o julgamento da Ação Penal 470, vulgo mensalão, em agosto do ano passado. O objetivo é o mesmo que dissemos aqui naquela oportunidade: proteger a rainha, no caso, a presidente Dilma Rousseff.

A ordem no partido é investir todo o capital político na reeleição de Dilma. Apesar de alguns mais saudosistas do estilo de Lula ainda terem esperanças de trocar Dilma pelo ex-presidente, a reeleição está posta dentro do partido, sem volta. Até porque a falência de uma recandidatura de Dilma seria o partido admitir que Lula errou ao escolher a mãe do PAC como alternativa. Portanto, quer setores do PT gostem ou não, a prioridade agora é trabalhar para que a presidente possa apresentar um bom portfólio de realizações aos eleitores a partir do ano que vem.

Nesse rol estão hoje o combate à pobreza extrema e a redução das taxas de juros e da conta de energia. Obviamente, não entram aí o aumento no preço da gasolina e o efeito cascata que ele provoca. Mostrar isso será tarefa dos oposicionistas. E, se o governo sentir algum cheiro de sucesso nessa empreitada, aí sim, a cabeça de Guido Mantega, que já andou a prêmio em outras oportunidades, pode correr. Mas a transferência dele para uma candidatura ao governo de São Paulo, embora cogitada por alguns, soa estranho para uma grande maioria.

Tirar Mantega da Fazenda para fazer dele candidato a governador de São Paulo é uma jogada arriscada no sentido de deixar a rainha desprotegida. Afinal, se o objetivo do jogo é reeleger Dilma, não faria sentido o PT ser representado em São Paulo por um ministro que traz na bagagem previsões de crescimento econômico que não se confirmaram e taxas de inflação preocupantes. Até porque há outros mais “leves” para aparecer ao lado de Dilma, caso de Aloizio Mercadante.

Mercadante é apontado hoje em várias rodas como o melhor nome para representar o PT contra Geraldo Alckmin. O atual ministro da Educação, dizem alguns, ficou fora do segundo turno por muito pouco quando concorreu contra um ex-governador muito bem avaliado à época. Agora, Alckmin apresenta desgaste de material e vem embalado nos problemas internos do PSDB entre serristas e alckministas. Para completar o quadro, Dilma está bem em São Paulo. Portanto, somando os votos que ela poderia ajudar a abocanhar no estado com aqueles que Mercadante já tem, o partido sai de um patamar muito melhor contra o PSDB, sem deixar estampado no palanque estadual eventuais desventuras na área econômica, que estariam hoje coladas à imagem de Mantega.

Esse jogo, entretanto, só estará mais claro mais à frente, quando as previsões de Mantega começarem a ser confrontadas com a realidade de 2013. Por enquanto, tudo é carnaval. Para se ter uma ideia, mencionou-se a hipótese de o PT ceder a vaga de candidato ao governo de São Paulo para o vice-presidente Michel Temer, para abrir a vaga na chapa de Dilma ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos.

Os peemedebistas não querem nem ouvir falar nessa história. Dizem estar selados a promessa e o acordo de que Dilma, candidata, repetirá a chapa de 2010. No quadro de hoje, o PMDB não abre mão da vice, nem com o oferecimento de candidaturas próprias a governos estaduais. Os peemedebistas não esquecem o que ocorreu com Hélio Costa em Minas Gerais, que saiu candidato com o PT nas vice, mas se viu meio sozinho ao longo da campanha, com o PT dedicado a eleger Fernando Pimentel senador. Para completar, os mineiros desistiram de lançar candidato a prefeito de Belo Horizonte no ano passado para seguir ao lado do PT e consideram que jamais foram “compensados” pelo gesto.

Enquanto isso, na Câmara…

Os funcionários do portal da Casa na internet e do Câmara Notícias tiveram uma “ordem despejo”. As salas que eles ocupavam, próximas à TV Câmara, servirá para abrigar o gabinete do ex-presidente Marco Maia (PT-RS). Até Aldo Rebelo, os ex-presidentes da Casa ficavam no anexo onde funcionam as comissões técnicas da Casa. Hoje, eles escolhem onde colocar o futuro gabinete. Arlindo Chinaglia, por exemplo, ficou num espaço perto da chapelaria, nas salas que também serviam à área administrativa e de comunicação da Câmara. No passado, homens como Ulysses Guimarães e Luís Eduardo Magalhães deixavam a presidência da Casa e voltavam aos gabinetes “dos mortais”, no anexo IV, conhecido como “Serra Pelada”. Outros tempos e outros políticos. Vejamos o que fará Henrique Eduardo Alves daqui a dois anos.

Não é não? - PAULA CESARINO COSTA

FOLHA DE SP - 07/02


RIO DE JANEIRO - De um lado, o senador petista Lindbergh Farias já colocou sua candidatura à sucessão do governador do Rio, Sérgio Cabral, como fato consumado.

De outro, o PMDB, partido do governador e do prefeito da capital, diz que seu candidato será o vice-governador, Luiz Fernando Pezão. Com dúvidas razoáveis sobre o potencial eleitoral dele, o nome do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, é ventilado como vice e como alternativa secreta no caso de Pezão ficar por demais plantado no chão.

Beltrame afirmou anteontem que não é candidato. "Vontade [de disputar cargo político] não tenho. Hoje não aceitaria. Sou secretário de Segurança." Lindbergh considera a próxima eleição como a fundamental de sua carreira. "Já quebrei muita pedra. Deixei de ser deputado para ser prefeito da Baixada Fluminense."

Na sua avaliação, o PT, que sempre teve desempenho pífio no Rio, vive um momento de rara unidade.

O partido teve boa votação nas eleições municipais de 2012, mantendo o número de prefeituras, 11. Já o PMDB, que tinha conquistado 35 em 2008, caiu para 24.

Não por acaso, anteontem, Cabral prometeu "avançar" as UPPs para Niterói, São Gonçalo e Baixada, regiões onde a violência cresceu e seus potenciais adversários (Lindbergh e o ex-governador Anthony Garotinho) têm grande força eleitoral.

O ex-cara-pintada petista quer aproveitar a onda de renovação política. Depois do Carnaval, mimetizará a Caravana da Cidadania de Lula e percorrerá cada município do Rio.

Há quem acredite que Cabral não hesitará em abandonar Pezão a pedido do amigo Lula. Ou que insistirá no nome de Beltrame, que tem apoio do empresariado e simpatia de grande parte do eleitorado. Para convencê-lo, pode usar o discurso do próprio: UPP só não basta, é preciso investir no social. Em vez de reclamar, Beltrame terá a chance de mandar fazer.

Tente calcular - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 07/02

Política econômica não é ciência exata, claro. Muitos dizem que não é sequer ciência. Mas também não precisa ser assim tão improvisada



A tarifa de luz caiu 18,5%, para todos os consumidores residenciais no Brasil, desde 24 de janeiro, conforme anunciado pela presidente Dilma. Assim, na conta a pagar em fevereiro, já aparece o desconto referente aos últimos setes dias de janeiro. Em março, a redução plena.

Para comércio e indústria, a redução também está em vigor e o percentual é maior, podendo chegar a até 30%.

Portanto, consumidores e investidores podem programar seus gastos e negócios incorporando nos cenários esta importante redução de custo de um item econômico crucial.

Certo?

Certo, porém: consumidores pelo país afora receberam contas de luz de janeiro com aumentos autorizados em meses anteriores pela Agência Nacional de Energia Elétrica, nos processos regulares de revisão de tarifas. Foi assim, por exemplo, no Rio, em Campinas (SP) e na Paraíba – neste último caso por causa do aumento do ICMS, imposto estadual.

Outro porém: por causa da falta de chuvas e, pois, do nível baixo dos reservatórios das hidrelétricas, boa parte da energia brasileira vem neste momento das termoelétricas, movidas a gás, diesel ou carvão. Esta energia é mais cara, as distribuidoras já estão pagando mais, mas só poderão cobrar dos consumidores em revisões tarifárias futuras. Estas revisões dependem, é claro, do tempo de utilização das termoelétricas, o que, de sua vez, depende das chuvas. Ou seja, nesse item, a conta de luz vai subir, mas não se sabe quanto nem quando.

Terceiro porém: a partir do segundo semestre deste ano, algumas geradoras e distribuidoras passarão por um processo regular de revisão da produtividade, que pode levar a uma redução da conta ao consumidor. Quanto? Não se sabe.

Como, pois, calcular nos cenários do ano o preço que se vai pagar por esse importante insumo?

Gasolina e diesel

Apesar do último aumento, a Petrobrás continua perdendo dinheiro no setor de distribuição. A estatal vende aqui gasolina e diesel por preço inferior ao que paga lá fora. A importação é cada vez maior, pois o consumo só sobe no Brasil, entre outros motivos pela venda de automóveis, oficialmente estimulada pelo governo. E a Petrobrás não tem condições de aumentar a produção interna.

A estatal, pela sua presidente, Graça Foster, deixa claro que precisa cobrar mais caro aqui dentro porque precisa de dinheiro para aplicar em refinarias e na produção de petróleo, em queda neste momento. O governo, pelo ministro Guido Mantega, deixa claro que não quer saber de novos aumentos. E a presidente Dilma diz que o aumento recente da gasolina é muito pequeno, pouco afeta o bolso do consumidor, revelando por aí que não tem intenção de topar nova alta.

Porém, todo mundo, dentro e fora do governo, sabe que será preciso elevar de novo o preço da gasolina e do diesel, porque todo mundo sabe que a Petrobrás precisa de mais dinheiro para o programa de investimento determinado pelo próprio governo.

Por causa dessa dificuldade de caixa, aliás, a Petrobrás cortou dividendos que deveria pagar ao governo federal, seu acionista controlador. Faz sentido, mas o governo estava cobrando mais dividendos de suas estatais para fechar suas próprias contas.

Como, pois, calcular, no cenário do ano, o custo com esses combustíveis?

Inflação

A redução recente da conta de luz derruba a inflação. O aumento da gasolina e diesel vai na direção contrária. Diz a presidente Dilma que a queda na luz é muito maior do que a alta da gasolina, que pesa diretamente no bolso do consumidor e, pois, no índice de inflação.

Certo?

Depende: se você usa muito o seu carro, sua conta será maior. Além disso, o diesel provoca aumento no custo do frete rodoviário, que tem impacto em praticamente tudo que se produz e consome no Brasil.

Se não chover e, por isso, houver aumentos significativos nas contas de luz ao longo do ano, isso dá mais inflação. Com ganhos de produtividade, dá menos.

O adiamento dos reajustes de tarifas de transportes coletivos no Rio e em São Paulo, a pedido do governo federal, alivia a inflação de janeiro e fevereiro. Mas esse aumento terá que sair em algum momento a partir de meados do ano. Mais inflação.

A volta progressiva do IPI dos carros, desde janeiro, aumenta preços e, pois, causa inflação.

Mas a eliminação do Pis-Cofins e IPI da cesta básica, anunciada pela presidente, vai derrubar a inflação mais à frente.

Há, porém, uma bronca de deputados federais. Eles aprovaram o fim dos impostos sobre a cesta básica no ano passado e a presidente Dilma vetou. E agora? Deputados aliados dizem que não se pode cortar o IPI porque isso reduz o repasse de impostos federais aos municípios.

Tudo considerado, qual inflação colocar no cenário? E quanto aos municípios, por exemplo: quanto colocam de repasse federal em suas previsões?

Política econômica não é ciência exata, claro. Muitos dizem que não é sequer ciência. Mas também não precisa ser assim tão improvisada.

Areia demais - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 07/02


Depois que a própria direção reconheceu o desastre de 2012 e previu que resultados ainda piores podem vir em 2013, é preciso entender que a Petrobrás não está dando conta das tarefas de que foi investida.

É areia demais para seu caminhão. Não consegue cumprir todas as metas impostas pelo governo. Não se mostra capaz de, ao mesmo tempo, aumentar a produção, ajudar no combate à inflação, fazer caixa para o enorme programa de investimentos, servir de alavanca para a indústria nacional de fornecimentos e, ainda, contribuir decisivamente para as contas públicas de Estados e municípios, com polpudos pagamentos de royalties.

Essa múltipla trombada entre objetivos de política econômica é recorrente no governo Dilma - que também quer derrubar os juros a níveis recordes, puxar o câmbio para dar competitividade à indústria, emplacar um "pibão grandão" a cada ano, manter a inflação mais ou menos controlada, investir centenas de bilhões de dólares por ano sem ter poupança para isso e continuar gastando à vontade para fazer uma política anticíclica e, além disso, tentar ostentar um mínimo de austeridade fiscal.

O resultado é a progressiva desarrumação da economia, provavelmente nas mesmas proporções em que estão sendo desarrumadas as finanças da Petrobrás. Pelo menos a presidente, Graça Foster é mais sincera sobre estragos na área dela do que tem sido o ministro da Fazenda, Guido Mantega, sobre os estragos na área dele.

A política de congelamento de preços dos derivados de petróleo é da mesma qualidade que a política de congelamento de preços e salários imposta pela presidente da Argentina, Cristina Kirchner. Mas não é só por isso que ela é condenável. É, também, por sabotar a capacidade de investimentos da Petrobrás. Ou o governo Dilma revê o Plano de Negócios da Petrobrás ou revoga esse regime de preços dos combustíveis.

Há seis anos não é realizada nova licitação de áreas para exploração de petróleo. O governo Dilma finalmente concordou em fazer mais duas: uma na área do pós-sal (acima da camada de sal), agendada para maio, e outra, no pré-sal, prevista para novembro.

O novo marco regulatório exige que, nas licitações do pré-sal, onde o regime de concessão será de partilha, a Petrobrás será obrigada a entrar em todos os projetos com participação de, ao menos, 30% em cada um. Entre as áreas a serem licitadas está o Campo de Franco, comprovadamente uma jazida gigantesca de óleo e gás. Significa que o prêmio a ser pago pelos vencedores da licitação dessa área pode chegar a dezenas de bilhões de dólares. Ou a Petrobrás será obrigada a concorrer com novos e enormes desembolsos ou a licitação será novamente adiada - até que a capacidade de investimentos da Petrobrás seja recomposta. Outra hipótese será a revogação da exigência dos 30%.

Não só os governos Dilma e Lula devem ser responsabilizados pelo desmanche da Petrobrás. Seus funcionários, sempre grandes parceiros no processo de engrandecimento da empresa, hoje se omitem. Mobilizam-se para greves com o objetivo de elevar sua participação nos lucros da empresa. Mas não se mostram empenhados em que a Petrobrás se restabeleça e volte a apresentar bons resultados.

Commodities mais manufaturas - MARCELO MITERHOF

FOLHA DE SP - 07/02


É arriscado basear o desenvolvimento apenas em setores intensivos em recursos naturais


A coluna retrasada tentou mostrar que a Argentina tem desde o pós-Guerra uma história de intensa rivalidade política, que persiste na democracia atual e que tem entre suas raízes a oposição entre o setor agrário, especialmente poderoso em razão da idealização de um dourado período primário-exportador, e os sindicatos e a burguesia industrial, fortalecidos a partir de Perón.

Hoje, usarei o exemplo argentino para refletir sobre os limites do desenvolvimento baseado na exportação de commodities. Dois aspectos chamam a atenção.

Primeiro, como visto na coluna anterior, na virada do século 19 para o 20, a Argentina teve um esplendor fornecendo produtos agropecuários para um mundo em que a potência hegemônica, a Inglaterra, era grande compradora deles. A crise de 29 desarticulou esse modelo. A potência sucessora, os EUA, é competidora de países como o Brasil e a Argentina no fornecimento mundial desse tipo de bens.

Quer dizer, é arriscado basear o desenvolvimento apenas em setores intensivos em recursos naturais. Os avanços só costumam dar certo por um tempo limitado quando uma potência industrial é carente desses produtos. A razão é que a indústria é a principal geradora e difusora de inovações, comandando o desenvolvimento produtivo e sendo menos acessível à competição de novos produtores.

Uma competitividade elevada em produtos primários pode se esvair rapidamente pela replicação de sua produção em outros lugares ou pela introdução de técnicas na indústria que prescindam ou tornem mais eficientes o uso de um recurso natural.

Segundo, é notável na experiência argentina a constatação de que o país tinha no início do século 20 altos níveis de urbanização e de escolarização da população. Contudo, sua industrialização foi menos profunda que a brasileira.

Isso sugere que a estratégia de pavimentar o caminho para o desenvolvimento, qualificando a mão de obra e criando uma infraestrutura eficiente, entre outros elementos das clamadas reformas, não é condição suficiente para trilhá-lo.

O capitalismo é, como Marx e Keynes o caracterizaram, uma economia monetária de produção, em que a moeda tem um papel central e distintivo do que ocorre em outros sistemas econômicos.

Isso faz com que a demanda seja sua principal alavanca, algo que pode ser dado exogenamente pelas exportações ou criado pelos gastos públicos, estabelecendo as condições que incentivarão o investimento para aumentar os demais fatores

-aqueles considerados como premissas por outras visões do pensamento econômico- que levam ao desenvolvimento.

A experiência argentina é útil quando a emergência da China, uma potência consumidora de produtos primários, recolocou a possibilidade de retomar o desenvolvimento baseado na exportação de commodities.

Há riscos óbvios nessa estratégia, como a China ampliar a produtividade agrícola à medida que sua população se urbaniza ou conseguir outros fornecedores. Ou ainda o seu consumo de minério de ferro cair à medida que país se torne autossuficiente em sucata, um insumo mais barato do aço.

De qualquer forma, a ascensão chinesa permitiu a Brasil e Argentina reduzir expressivamente a principal restrição que limitou suas industrializações voltadas ao mercado interno: o balanço de pagamentos.

Antes, a política econômica, em vez de estar centrada no ciclo de negócios, baseava-se na administração da restrição externa e de seus impactos inflacionários.

Agora, num momento de crise internacional, que reduz a demanda pelas exportações, é factível que a elevação do gasto público alavanque a demanda interna para reativar a atividade econômica.

Portanto, não se trata de relegar a segundo plano a agropecuária e o extrativismo. Além da importância econômica, eles foram cruciais, por exemplo, para interiorizar o Brasil. Porém é preciso aproveitar a época de bonança para alavancar a indústria e garantir o crescimento sustentado. Além de serem incluídos no padrão de consumo moderno, os brasileiros precisam de mais empregos de qualidade crescente -algo que a indústria proporciona, com desdobramentos nos serviços.

Nos anos 30, a restrição de divisas impulsionou a industrialização brasileira: ao dificultar sobremaneira as importações, incentivou a produção local. Seria inovador retomar uma política de industrialização num período favorável de balanços de pagamentos. O resultado deve ser mais robusto.

Crítica interna - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 07/02

A entrevista do ex-ministro Delfim Netto ajuda no debate sobre os erros da política econômica. Ele escolheu a delicada palavra "tropeços" para falar das várias trapalhadas sequenciais do governo, que vão das normas dos leilões de infraestrutura às estranhas operações fiscais, para dar a impressão de cumprimento de metas, até as ambiguidades da política cambial.

A entrevista foi concedida a Érica Fraga, da "Folha de S.Paulo". O ex-ministro, que sempre foi uma voz em defesa das empresas, critica até a política que foi inspirada no governo militar: a escolha de "campeões" pelo BNDES, ou seja, empresas escolhidas para receberem generosos empréstimos subsidiados. O banco acha que a concentração das empresas as farão mais fortes e capazes de competir no mercado internacional. Não é o que pensa Delfim Netto.

"Não é uma política das mais inteligentes, formar oligopsônios e oligopólios com recursos do Tesouro, porque é óbvio que não são instrumentos eficientes no processo competitivo. São contra a competição." (Oligopólios são poucas empresas fornecendo um produto, oligopsônio é a concentração de compradores).

O ex-ministro lembrou que essa política não começou no governo Dilma, vem do governo Lula. A crítica tem endereço certo: o presidente Luciano Coutinho, que assumiu em 2007 convicto de que é preciso induzir, financiar e virar sócio na concentração de setores.

Na política cambial, o ex-ministro criticou a mudança recente de tendência. O dólar tinha subido até R$ 2,13, o ministro da Fazenda ainda dizia que havia defasagem, mas o BC entrou derrubando a cotação para atenuar o impacto inflacionário. Esse mudança brusca de tendência espalhou prejuízos. Inúmeras empresas com dívidas em dólar, diante da alta da moeda americana, compraram proteção contra o risco de elevação ainda maior da moeda, ou seja, fizeram hedge. Como o BC deu o sinal oposto e derrubou a cotação, elas estão amargando enorme prejuízo. "Quando o governo faz uma intervenção intempestiva no câmbio, aquelas pessoas que tomaram risco de acreditar na política de desoneração e de câmbio entraram em estado de estresse". Acha que isso não só não ajudou a inflação, como "produziu uma dificuldade na credibilidade do governo". Segundo Delfim, "não se pode estressar mais o setor industrial".

Delfim sempre teve nos industriais paulistas seu apoio, quando ministro, e sua base política, quando conquistou mandato. O que se pode entender do que está falando é que não há convencimento, por enquanto, do setor empresarial para investir, o que torna mais difícil a volta do crescimento.

Em um dos pontos de crítica, o governo deu sinal de mudar. É a forma do leilão de investimento em infraestrutura. Delfim disse que o governo não pode fixar alta qualidade e um preço baixo, porque do contrário "o mercado vai responder com a porcaria que cabe dentro da taxa do retorno". Ontem, o governo elevou a taxa.

Durante algum tempo, o discurso oficial era que estava fazendo uma privatização - não se usa essa palavra - melhor do que outros governos porque os preços seriam baixos. Agora, o governo está numa situação em que as obras não saem, houve aumento de subsídio e de presença estatal. Mesmo assim, teve que rever a taxa de retorno para viabilizar algum investimento.

Delfim criticou a "operação quadrangular" entre Tesouro-BNDES-Caixa Econômica, para esconder o não cumprimento da meta fiscal. Disse que isso foi "exagerado", "diminui a credibilidade do governo" e "passou a ideia de que o governo não sabe o que está fazendo".

Depois de tudo isso, o que sobrou? Bom, a inflação está sob controle, o Brasil tem boas instituições, e o país reduz a desigualdade. Além do mais, foi correta a redução dos juros, a mudança na poupança e a queda do custo de energia. Delfim tem sido um interlocutor da presidente. É curioso que esteja fazendo públicas críticas tão ácidas - e certeiras - como tem feito.

Votos voando - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 07/02


BRASÍLIA - O PIB de 2012 foi pífio, a inflação se assanha e a Petrobras derrete, mas as pessoas gastam e a popularidade de Dilma aumenta. Cadê a oposição? O gato comeu.

O grande ausente da abertura do ano legislativo foi justamente quem mais deveria aparecer: o senador Aécio Neves, tido e havido como pré-candidato tucano à Presidência.

Na eleição de Renan Calheiros à presidência do Senado, ele sumiu, resguardando-se do circo armado pelos tucanos: repudiaram Renan em público e liberaram o voto (secreto) nele por uma vaga na Mesa Diretora.

Está aí parte da explicação para a discrepância entre o resultado oficial e a enquete feita pela Folha no Senado: 56 votaram em Renan, mas só 35 admitem que sim. Já o seu opositor, Pedro Taques, teve 18 votos, mas 24 juram que votaram nele.

Pelo menos seis votos estão voando por aí e, de Aécio, não se ouviu um pio. Como também não se sabe onde ele se meteu durante a leitura da mensagem presidencial ao Congresso. Cabia ao governo enaltecer os feitos e abafar os malfeitos e, à oposição, aproveitar para criticar.

Aécio, porém, não foi visto ouvindo a mensagem nem foi achado para comentá-la. Mesmo na tribuna, coube ao novo líder tucano no Senado, Aloysio Nunes Ferreira, fazer as vezes da oposição. Afinal, que oposição é essa? E que candidato é esse?

Enquanto isso, o governador Eduardo Campos (PSB) foi impecável. Como não tem mandato nem de deputado nem de senador, atuou decisivamente nos bastidores (sem explodir pontes com ninguém) para que o PSB votasse contra Renan no Senado e atraísse a boa marca de 165 votos para Júlio Delgado, seu candidato na Câmara.

As duas eleições colocaram mais tijolos na construção da imagem de Eduardo Campos. Quando os tucanos repetem como papagaios que ele "é governista e não tem condições de competir contra Dilma", leia-se: estão morrendo de medo de uma revoada para a candidatura do PSB.

Bem-vinda revisão de um dogma - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 07/02

O Planalto parece, afinal, ter entendido que , sem conversar com os empresários e oferecer-lhesrentabilidades atrativas, os investimentos não decolarão



O PT não teve dificuldades, na campanha eleitoral de 2002, de metabolizar a necessidade de manter as regras básicas da economia de mercado e não investir contra a ordem jurídica do país. Assim, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva assinou a Carta ao Povo Brasileiro, afastou parte dos temores com sua chegada ao Planalto e, logo no primeiro ano de governo, permitiu a aplicação de terapias ortodoxas para estabilizar a economia .

Desde então, os políticos petistas dão demonstrações de intenso pragmatismo — até em excesso, no caso do exercício da política. Mas subsistem dogmas e interdições, principalmente quando se entra no campo das privatizações e cessão a grupos privados da exploração de serviços públicos.

Neste sentido, merece aplausos o anúncio feito anteontem pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, de mudanças no pacote de concessões de projetos na área de infraestrutura, uma das maiores carências nacionais.

O governo Dilma soube decifrar de maneira correta o fracasso no leilão, semana passada, de trechos de duas rodovias federais em Minas. É parte do imaginário do partido que empresários são seres gananciosos, interessados apenas em garantir a maior taxa de retorno possível, no menor espaço de tempo.

Desta vez, porém, o Planalto fez o certo: melhorou as condições do leilão das concessões, para torná-las atraentes. Se leilões fracassam, não é por ganância das empresas, mas devido à falta de condições que deem segurança a longo prazo aos investidores. Ninguém atua em segmentos da infraestrutura para amealhar fortunas de uma hora para outra.

Foi, então, aumentado de 20 para 25 anos o prazo do financiamento aos concessionários, ampliada de três para cinco anos a carência dos empréstimos, com juros mais baixos e os contratos passaram de 25 para 30 anos. Além disso, melhorou-se a taxa de retorno para as empresas interessadas nas rodovias. Juros mais baixos nos financiamentos, retorno maior são itens essenciais para atrair o setor privado. O governo Dilma parece, afinal, entender que forçar reduções na rentabilidade de concessionários é fórmula infalível para retardar a retomada dos investimentos na infraestrutura, crucial para o abatimento do custo Brasil e o próprio crescimento do país. O governo anunciou como grande êxito o novo modelo energético, formulado para reduzir a contas de luz de residências e fábricas. Porém, ao contrariar investidores privados do ramo, o assunto ainda está em aberto.

A abertura demonstrada por Mantega ganha relevância também porque o ministro se prepara para “road shows” em Nova York, Londres, Tóquio e Cingapura, aonde irá oferecer a grupos internacionais o pacote bilionário de projetos brasileiros. São, ao todo, R$ 370,2 bilhões, distribuídos em rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, energia. Se o governo mantivesse a postura de não negociar com o empresariado, o ministro iria apenas acumular milhagem aérea.

Um pouco mais do mesmo - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 07/02


De onde nada se espera é que não vem nada mesmo. Depois de ter prometido, contra todas as evidências, que o Congresso Nacional votaria na última terça-feira o Orçamento da União para este ano, o novo presidente do Senado, Renan Calheiros, anunciou, depois de reunião com as lideranças da base aliada, que a votação estava adiada para depois do carnaval. Não vai fazer muita diferença. Como não se cansam de demonstrar os próprios parlamentares, esse negócio de lei é muito relativo. Quando o Congresso deixou de cumprir seu dever de votar o Orçamento em dezembro, o Palácio do Planalto baixou uma medida provisória garantindo recursos para usar neste início de ano. Se precisar, recorrerá a outras. E os nobres parlamentares - só a maioria, vá lá - continuarão mais preocupados com o que verdadeiramente lhes interessa: cuidar de seus próprios interesses.

Era óbvio que a votação prometida por Calheiros logo depois de ser eleito para a presidência do Senado não passava de jogo de cena, pois, apesar das mudanças na direção das duas Casas do Parlamento e nas lideranças de bancada, a situação permanece exatamente a mesma de dezembro, quando dois fatores conjugados provocaram o primeiro adiamento da votação do Orçamento: a insatisfação da base "aliada" com a reticência do governo na liberação dos recursos relativos às emendas parlamentares de 2012 e a incerteza - habilmente manipulada por aqueles a quem interessa pressionar o Planalto - a respeito do trancamento da pauta de votações em função da decisão do STF sobre o destino dos 3.060 vetos presidenciais que estão na fila para serem apreciados pelos congressistas.

O despacho do STF, de autoria do ministro Luiz Fux, foi inicialmente interpretado como destinado a impedir que qualquer outra matéria fosse votada pelo Congresso antes que os vetos fossem submetidos a escrutínio. Depois o próprio ministro Fux esclareceu que seu despacho não trancava a pauta de votações do Congresso, apenas estabelecia que os vetos teriam que ser votados em ordem cronológica. Mas o episódio serviu para acirrar o confronto com o Judiciário no qual os mandachuvas do lulopetismo estão interessados. Então, todos continuaram a pescar em águas turvas, pois é exatamente nesse ambiente que prosperam tanto o balcão de negócios dos "picaretas" quanto o projeto de poder de Lula & Cia.

Renan Calheiros sabia também que seria temerário colocar o Orçamento em votação na terça-feira porque o quórum não estava garantido. Um grande número de deputados deixou Brasília logo após a eleição da Mesa da Câmara, na segunda-feira. Afinal, suas excelências precisavam se preparar para os folguedos do carnaval. Com toda certeza a oposição, que às vezes se mexe, pediria verificação de quórum e submeteria o Congresso ao vexame de assumir que não poderia votar assunto de tanta relevância porque não havia em plenário número suficiente de parlamentares.

Mas o presidente Calheiros, experiente em se livrar de apertos muito piores, saiu pela tangente, exercitando o óbvio e lançando a culpa nos ombros da oposição: "Infelizmente, teremos de votar o Orçamento por consenso, acordo e negociação". Ah, bom! E mais: "O DEM fez questão de partir na frente dizendo que não vai votar o Orçamento antes de apreciar os vetos". Pois é, a enorme bancada do DEM - 4 senadores e 30 deputados - poderia pôr tudo a perder.

O teor e o nível das discussões travadas no gabinete de Renan Calheiros foram revelados por um dos vice-líderes do governo no Senado, Benedito de Lyra (PP-AL), quando deixou a sala por instantes: "O governo tem que ser parceiro do Congresso. É só mão única? Não é possível. A vida do Congresso é de mão dupla". Pois é, dona Dilma, é preciso prestar muita atenção nas lições que certamente seu preceptor já ministrou a respeito do modo como os representantes do povo devem ser bem tratados! Pois, conforme ensina o novo presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, do alto de sua experiência de mais de 40 anos de mandato em Brasília, os parlamentares não são simples mortais. São seres muito especiais, "abençoados" pelo sufrágio dos cidadãos.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Não há hipótese de não cumprir a decisão do Supremo”
Henrique Alves, presidente da Câmara, ao visitar o ministro Joaquim Barbosa


LULA NÃO FALA DA ‘AUTOSSUFICIÊNCIA’ DA PETROBRAS

O ex-presidente Lula não quer tocar no assunto da crise da Petrobras, cujo patrimônio encolheu 65,5% e o lucrinho desabou 36%, quase sete anos após ele haver proclamado, com mãos sujas de óleo, que o Brasil conquistara a “autossuficiência” em petróleo, ao inaugurar uma plataforma. Procurado através do Instituto Lula, recusou-se a explicar o que deu errado, nem se à época foi mal informado pelos assessores.

JUSTIFICATIVA

O Instituto Lula diz que ele “fala pouco” com a imprensa brasileira “desde o final da doença”. Ou o final do julgamento do mensalão?

SANGRIA

Após a fantasiosa “autossuficiência”, a Petrobras passou a importar mais combustível, para vendê-lo mais barato no País. Quase quebrou.

NINGUÉM VAI PAGAR?

A Procuradoria-Geral da República faz silêncio sobre a necessária apuração de responsabilidades pelo prejuízo bilionário da Petrobras.

FECHADO

O PT bateu o martelo e escolheu o deputado Décio Lima (SC) para presidir a Comissão de Constituição e Justiça, a principal da Câmara.

DELGADO ACUSA ‘CORPO MOLE’ DO PSB NA CÂMARA

Magoado, o deputado Júlio Delgado (PSB-MG) telefonou a Eduardo Campos, governador de Pernambuco e presidente nacional do seu partido, para passar o recibo. Encorajado pelos 165 votos que obteve na disputa pela presidência da Câmara, ele reclamou que poderia até ter sido eleito, caso Campos tivesse se empenhado em sua campanha. Acha que sua vitória fortaleceria o sonho presidencial do governador.

PSB X PMDB

A votação de um terço dos deputados a favor de Júlio só aumentou o cacife político do PSB, que tenta marcar posição contra o PMDB.

MELHOR SE ALIAR

Na tentativa de se aproximar do PSB, o PT tenta burlar o veto do PMDB e dar a Comissão de Meio Ambiente aos socialistas no Senado.

TROCO

O PMDB quer dar o troco no PSB, pelo apoio a Pedro Taques (PDT-MT), impedindo-o de presidir comissão permanente do Senado.

PAUL EM BRASÍLIA

Paul McCartney deve fazer o show de estreia do Estádio Nacional Mané Garrincha, de Brasília, em junho. Inaugurado em 21 de abril, em 11 de maio haverá o primeiro jogo, antes da Copa das Confederações.

CASA DA SOGRA

O senador Alvaro Dias (PSDB-PR) quer saber do chanceler Antonio Patriota o que fazia o embaixador da Venezuela, Maximilien Arveláiz, em ato na Câmara Legislativa do DF em homenagem aos meliantes condenados no mensalão e questionando a decisão do STF.

DE PONTA-CABEÇA

Notícia todo santo dia nos jornais, o ex-ministro José Dirceu acusou em seu blog o “monopólio da comunicação” de “cercear nossa palavra”, mas garantiu “que nunca houve tanta democracia como agora”.

MISERÊ

A Justiça Federal negou mais uma vez o desbloqueio dos bens do ex-presidente da Valec, José Francisco das Neves, o “Juquinha”, suspeito de desviar R$ 144 milhões na estatal. Tem fazenda de R$ 21,3 milhões.

FESTIVAL

Gurizada Fandangueira no Rio Grande do Sul, Gurizada Mensaleira em Brasília, e agora a Gurizada Quadrilheira em São Paulo, com os 72 estudantes da USP denunciados pela invasão da universidade.

PERNAS CURTÍSSIMAS

O minúsculo ex-presidente da Câmara, agora de volta ao baixo clero, diz que é mentira a história do jantar de R$ 8 mil oferecido a prefeitos, por conta do contribuinte. A ONG Contas Abertas, muito mais confiável que M. Maia, confirmou o gasto em reportagem de Gabriela Salcedo.

EI, ACORDE

A nova mesa diretora da Câmara Legislativa do Distrito Federal tomou posse em primeiro de janeiro, mas seu portal na internet continua ignorando que agora o presidente se chama Wasny de Roure (PT) e não mais Sidney Patrício.

SOBERBA

Cerca de 30 deputados não deram as caras na reunião da bancada do PMDB. Sandro Mabel (GO) diz que sua ação para anular a derrota na briga pela liderança do PMDB não o fará deixar o partido. Sobre o eleito, diz: “Nem me cumprimenta, tem que deixar de tanta soberba”.

MELHOR ASSIM

Melhor reduzir o preço da gasolina e subir o da energia. Está no Twitter: “É mais fácil fazer um gato que achar um poço de petróleo”.


PODER SEM PUDOR

SEXO DE GOVERNADOR

Israel Pinheiro era governador de Minas Gerais e conversava com amigos no Hotel Nacional, em Brasília, quando precisou ir ao banheiro. Ele ia entrando no toalete feminino e foi advertido por uma funcionária:

- Dr. Israel, esse banheiro é feminino...

Ele retrucou, mineiramente:

- Minha filha, e governador tem sexo?

QUINTA NOS JORNAIS


Globo: Presidente da Câmara desiste de desafiar STF
Folha: Agência reprova serviço de internet em celulares
Estadão: Alves se reúne com Barbosa e muda tom sobre mensalão
Correio: Plano de saúde do servidor está sob intervenção
Valor: Safras recorde agravam déficit de armazenagem
Estado de Minas: Novos e velhos riscos no caminho até a folia
Jornal do Commercio: Galo já começa o esquente da folia
Zero Hora: Megarreconstituição do incêndio: Perícia quer reunir os sobreviventes na boate

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

A eterna ilusão do controle - JANAINA CONCEIÇÃO PASCHOAL

FOLHA DE SP - 06/02


A prevalecer a ideia de que a atriz matou o motorista ao reclamar de seus serviços, ninguém mais demite um empregado ou rompe o noivado


Divulgou-se que a atriz Zezé Polessa teria reclamado dos serviços prestados por um motorista e que este, temeroso com a possível perda do emprego, passara mal, vindo a morrer.

Em um contexto minimamente racional, o fato triste ensejaria duas consequências: primeiro, a atriz poderia carregar, para o resto de sua vida, o sentimento de que não precisaria ter sido tão contundente; em segundo lugar, todos nós poderíamos refletir acerca de como damos importância exacerbada a situações menores, tomando um atraso corriqueiro como eventual falta de respeito.

No entanto, inacreditavelmente, uma infelicidade inerente à vida transformou-se em assunto policial. Ao ver das autoridades, ou a atriz incorreu no teratológico crime capitulado no artigo 96 do Estatuto do Idoso, consubstanciado no impreciso verbo de humilhar; ou praticara homicídio culposo, pois, mesmo sem ser esse seu objetivo, findou por causar a morte de um senhor.

Percebe-se que, apesar da incerteza acerca de qual crime fora perpetrado, curiosamente, ninguém duvida de que houve um delito.

Não conheço a atriz, também não conheci o falecido motorista, sendo certo que sinto muito por ele e por sua família. Mas precisamos tomar cuidado com a crescente tendência de, diante de toda ocorrência triste, buscar um culpado, alguém para responsabilizar.

Não são incomuns, em hospitais, cenas intrigantes, em que parentes de pessoas muito idosas perguntam como seus entes queridos morreram. Nesse momento, não se recordam de que a pessoa já tinha 90 e poucos anos, sofria do coração, ou de câncer. Afinal, na era em que as pessoas vivem mais de cem anos, a morte tem que ser causada por um erro médico ou mesmo um envenenamento deliberado!

De fato, com a evolução tecnológica, cria-se a sensação de que tudo pode ser controlado e todos podem ser controláveis. É a falsa percepção de que não existe mais o imponderável. Sinto informar, mas as pessoas morrem. Sim, elas ainda morrem!

Responsabilizar criminalmente alguém por ter se alterado ou simplesmente reclamado de um serviço equivale a punir por homicídio a mulher que trai o marido que vem a se matar, ao descobrir a traição.

Situação correlata seria a do homem que abandona a mulher para viver com outra, 20 anos mais jovem. Ora, seria esse homem autor de homicídio, caso sua ex-mulher tivesse um ataque cardíaco, frente à desilusão? Seria ele culpado pelo câncer que ela viesse a desenvolver?

Apesar de vivermos a histeria do controle, a vida é risco. A prevalecer a ideia de que a atriz matou o motorista ao reclamar de seus serviços, ninguém mais demite um funcionário, desfaz um noivado ou coloca um filho de castigo. Aquele senhor poderia ter morrido pela emoção de seu time ser campeão. Seria o técnico culpado por homicídio?

Ao que parece, por não conseguir eficácia relativamente aos fatos que são de sua competência, o Direito Penal começa a migrar para situações que lhe são completamente alheias, em uma frenética ilusão de que está cumprindo sua função.

A vida é recheada de ações e omissões de que nos orgulhamos e nos arrependemos; nem todas são assunto de Estado. Por mais que queiramos um mundo loteado por pessoas gentis, compreensivas, tolerantes e amorosas, não cabe ao Direito Penal propiciar o alcance de tal fim.

Cena de opereta - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 06/02


RIO DE JANEIRO - A foto estrelou todos os jornais de ontem. Em Brasília, o novo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), envolvido em processo criminal, sobe a rampa do Congresso para a abertura do ano legislativo. Vinte manifestantes o recebem com faixas e cartazes onde se leem "Fora Renan!", "Abaixo o Senado!", "Até quando o Poder Legislativo envergonhará o Brasil?", e, na trilha sonora, gritos de "ladrão", "safado" e "sem-vergonha". Apesar disso, Calheiros segue impávido e marcial, passando em revista a tropa, sem ver nada de errado nela -nem ela nele.

Até pelos soldados fardados de azul e tocando tambor à sua passagem, a cena poderia estar numa opereta de Ernst Lubitsch nos anos 30, com Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald, ou numa tampa de caixa de bombons. Calheiros tomou posse sob uma avalanche de editoriais, artigos, cartuns e cartas de leitores, todos contra, mas suas orelhas não arderam nem por um segundo.

Assim como passou pelos soldadinhos como se eles fossem de chumbo e pelos manifestantes como se não existissem, Renan ignorou também a saraivada da mídia. E por que não? Se seus colegas de 20 partidos, entre os quais o PSDB, não se importam de ser presididos por alguém com uma biografia tão cheia de sombras, por que se irritar com críticas que, para ele, têm tanto volume e alcance quanto as dos manifestantes com suas faixas?

A superioridade de Renan reflete o estado de espírito da maioria dos políticos em relação a quem os elege. É exatamente como no cinema. O Congresso é a tela em que eles interpretam seus papéis, maiores que a vida e inalcançáveis pelos espectadores. A função destes é a de, se quiserem, assistir a eles, sentados em suas poltronas, e, no máximo, ruminando sua pipoca.

E, a cada quatro anos, voltar ao guichê e comprar de novo o ingresso.

Carnaval em Londres - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 06/02


Tinha uma placa, ontem, em Wembley, numa porta com o símbolo da Federação Inglesa, com a inscrição “Samba parade”.

Ou seja: vai ter carnaval hoje, antes de Brasil x Inglaterra!

CALMA, COMANDANTE

Na madrugada de segunda, o comandante nervosinho do voo 901, da American Airlines, criou um rebuliço a bordo.

É que ele estava dormindo na classe executiva quando uma criança de dois anos chamou pela mãe e pelo pai. O comandante pulou, aos berros da cadeira, mandando que os pais calassem a boca da criança. Caso contrário, desceria com o avião para deixar a família.

SEGUE...

Assustados, os pais levaram a criança para a classe econômica.

Dois chefes de cabine da companhia, educadíssimos, pediram desculpas à família e deram seus nomes para servir de testemunha.

SEM FUNDAMENTO

O juiz Marco José Mattos Couto, da 2ª Vara Criminal de Jacarepaguá, arquivou o inquérito policial instaurado para apurar a conduta da atriz Zezé Polessa, a Berna da novela Salve Jorge, no caso da morte do motorista Nelson Lopes, que prestava serviços à TV Globo, no dia 14 de janeiro.

A Polícia tinha aberto uma inquérito para apurar a versão que circulou que o motorista sofreu um enfarto fatal após uma discussão com a atriz.

SEGUE...

Porém, após ouvir as testemunhas, inclusive a acusada, o juiz concluiu “que não houve nada que a incriminasse e que insistir nos autos representaria expô-la ainda mais ao constrangimento policial, sem que houvesse qualquer fundamento técnico”.

Melhor assim.

ZIGUEZAGUEANDO

Adriano Pires lembra que a Petrobras no governo do PT já teve seu lucro reduzido quatro vezes: Em 2004, 2007, 2009 e agora em 2012.

Já a produção de petróleo caiu duas vezes, em 2004 e 2012. “Isto, mesmo com preço do petróleo a 100 dólares”, diz o consultor.

MEMÓRIAS CHINESAS

Memórias do Esquecimento, de Flávio Tavares, que acaba de ser reeditado pela L&PM como livro de bolso, será lançado na China.

O eixo da obra é o sequestro do embaixador Charles Elbricik, em plena ditadura. Na época, Tavares foi um dos prisioneiros trocados pelo americano.

VEJA QUE LEGAL

Os bombeiros estão vistoriando os camarotes da Sapucaí.

O Porcão, notificado, se comprometeu a fazer algumas mudanças em seu camarote.

SÓ DE BRANCO

No momento em que a Ong Educafro briga para acabar com a exigência de uniforme branco para as babás em clubes do Rio, o Jockey Club avisa que a partir do dia 18 de fevereiro torna a cobrar uma antiga norma para ingresso de babás e enfermeiras na sede.

Volta a exigir uniforme.

TEM MAIS

Não pode ser qualquer roupa. A camiseta tem que ter mangas. E a bermuda, branca ou jeans, não pode ser curtinha. Tem que estar na altura do joelho.

Ah, bom!

QUEM VEM

Spike Lee, o diretor de cinema americano, vem ao Brasil para o carnaval. Desembarca no sábado em Salvador no camarote Expresso 2222. Antes, almoça na casa de Flora e Gilberto Gil.

Gil e Lee são velhos conhecidos. O americano entrevistou o baiano para um filme que está fazendo sobre o Brasil.

DONA ZICA, CEM ANOS

O samba presta sua homenagem à dona Zica (1913-2003), a viúva de Cartola, que faria cem anos hoje.

As escolas do Rio enviaram ao Centro Cultural Cartola seus estandartes. Foram colocados na fachada.

O FIM DO POCOTÓ

Um cavalo morreu eletrocutado, ontem, após encostar em um fio que saía de um poste na Rua Luiz França Arouxa, em Pedra de Guaratiba.

Moradores dizem que já tinham reclamado com a Light, mas... você sabe.

GRANDE HOTEL

A 16ª Câmara Cível do Rio condenou a inglesa Orient Express, que controla o Copacabana Palace, a indenizar em cerca de R$ 60 mi alguns sócios minoritários do hotel, membros da tradicional família Paula Machado.

VANS DA MORTE

As vans devem voltar com tudo em São Gonçalo. O prefeito Neilton Mulim criou a Subsecretaria do Transporte Alternativo.

Naquela cidade, uma máfia das vans é acusada de matar mais de 60 pessoas.

FORA DE CAMPO

A disputa judicial entre Romário e o Vasco sem data para o fim.

O ex-atleta tem levado vantagem, mas o clube contra-ataca. Pediu ontem que o Baixinho “devolva R$ 20 milhões”.

OHANA NA SAPUCAÍ

Claudia Ohana vai desfilar apresentando a comissão de frente da Inocentes de Belford Roxo.

O convite partiu do coreógrafo Patrick Carvalho, que conheceu a atriz na Dança dos Famosos, do Domingão do Faustão.

Cliente paulista, garçom carioca - ANTONIO PRATA

FOLHA DE SP - 06/02

Acostume-se, conterrâneo, com a sua existência plebeia. O garçom carioca não está aí para servi-lo


Veja, aí estão eles, a bailar seu diabólico "pas de deux": sentado, ao fundo do restaurante, o cliente paulista acena, assovia, agita os braços num agônico polichinelo; encostado à parede, marmóreo e impassível, o garçom carioca o ignora com redobrada atenção. O paulista estrebucha: "Amigô?!", "Chefê?!", "Parceirô?!"; o garçom boceja, tira um fiapo do ombro, olha pro lustre.

Eu disse "cliente paulista", percebo a redundância: o paulista é sempre cliente. Sem querer estereo-tipar, mas já estereotipando: trata-se de um ser cujas interações sociais terminam, 99% das vezes, diante da pergunta "débito ou crédito?". Um ser que tem o "direito do consumidor" em tão alta conta que quase transformou um de seus maiores prosélitos em prefeito da capital. Como pode ele entender que o fato de estar pagando não garantirá a atenção do garçom carioca? Como pode o ignóbil paulista, nascido e criado na crua batalha entre burgueses e proletários, compreender o discreto charme da aristocracia?

Sim, meu caro paulista: o garçom carioca é antes de tudo um nobre. Um antigo membro da corte que esconde, por trás da carapinha entediada, do descaso e da gravata borboleta, saudades do imperador. Faz sentido. Para onde você acha que foram os condes, duques e viscondes no dia 16 de novembro de 1889 pela manhã? Voltaram a Portugal? Fugiram pros Açores? Fundaram um reino minúsculo, espécie de Liechtenstein ultramarino, lá pros lados de Nova Iguaçu? Nada disso: arrumaram emprego no Bar Lagoa e no Villarino, no Jobi e no Nova Capela, no Braseiro e no Fiorentina.

O pobre paulista, com sua ainda mais pobre visão hierárquica do mundo, imagina que os aristocratas ressentiram-se com a nova posição. De maneira nenhuma, pois se deixaram de bajular os príncipes e princesas do século 19, passaram a servir reis e rainhas do 20: levaram gim tônicas para Vinicius e caipirinhas para Sinatra, uísques para Tom e leites para Nelson, receberam gordas gorjetas de Orson Welles e autógrafos de Rockfeller; ainda hoje falam de futebol com Roberto Carlos e ouvem conselhos de João Gilberto. Continuam tão nobres quanto sempre foram, seu orgulho permanece intacto.

Até que chega esse paulista, esse homem bidimensional e sem poesia, de camisa polo, meia soquete e sapatênis, achando que o jacarezinho de sua Lacoste é um crachá universal, capaz de abrir todas as portas. Ah, paulishhhhta otááário, nenhum emblema preencherá o vazio que carregas no peito -pensa o garçom, antes de conduzi-lo à última mesa do restaurante, a caminho do banheiro, e ali esquecê-lo para todo o sempre.

Veja, veja como ele se debate, como se debaterá amanhã, depois de amanhã e até a Quarta-Feira de Cinzas, maldizendo a Guanabara, saudoso das várzeas do Tietê, onde a desigualdade é tão mais organizada: "Amigô, o bife era mal passado!", "Chefê, a caipirinha de saquê era sem açúcar!", "Ô, companheirô, faz meia hora que eu cheguei, dava pra ver um cardápio?!". Acalme-se, conterrâneo. Acostume-se com sua existência plebeia. O garçom carioca não está aí para servi-lo, você é que foi ao restaurante para homenageá-lo. E quer saber? Ele tem toda a razão.


Tem lógica - SONIA RACY


O ESTADÃO - 06/02

A Petrobrás está sendo bombardeada com diversas ideias para melhorar a sua performance e voltar a brilhar.

Uma delas é criar… nova estatal atrelada à empresa. Como? Esta unidade abrigaria todos os 5 bilhões de barris previstos no pré-sal, avaliados em R$ 40 bilhões. E buscaria, no mercado internacional, um parceiro minoritário.

Algo parecido, mas em proporções muito maiores, com o que Dilma fez na Infraero Serviços – subsidiária da própria Infraero, anunciada em janeiro.

Lógica 2
Pergunta: se esta é realmente uma boa ideia, por que não foi executada antes da capitalização da Petrobrás, visando o pré-sal? Resposta de fonte credenciada: “Acreditava-se que a estatal brasileira daria conta de tudo sozinha”. Não deu.

A conferir
Hoje é o Dia D: a tendência é que o BC liquide o banco BVA.

Predinho
A ordem no governo de SP é economizar, mas a Companhia Paulista de Obras e Serviços se prepara para erguer sua sede no bairro do Ibirapuera, no valor de R$ 50 milhões.

Alckmin vai deixar?

Irritação profunda
Blatter convocou reunião, anteontem, para debater – com Jérôme Valcke e demais diretores da Fifa – “ajustes essenciais” nas arenas brasileiras.

Tudo porque, no primeiro dia de funcionamento, faltaram água e luz no Mineirão. E das mais de 50 lanchonetes disponíveis, apenas duas abriram.

Folia segura
Segurança no carnaval paulistano? Haddad aprovou dez telões no Sambódromo do Anhembi. Transmitirão medidas de prevenção, como a localização de saídas, brigadas e equipamentos anti-incêndio.

Serão os únicos momentos sem o batuque da avenida.

Na corrida
Roberto Livianu é candidato a vaga no CNJ. Pelo MP-SP.

Tira-dúvidas
Após a tragédia de Santa Maria, a OAB-SP decidiu criar comissão para casos de desastres climáticos e emergências em ambientes fechados – que coloquem em risco a vida da população. Para dar suporte jurídico a vítimas e familiares.Primeira reunião? Hoje.

Brasil em alta
Paulo Mendes da Rocha será o próximo arquiteto do Summer Project – da Serpentine Gallery, em Londres. Em parceria com a artista Marina Abramovic.

Em alta 2
Depois do board do MoMA, que veio em novembro, está no Brasil o conselho do New Museum, de NY. Faz tour para conhecer melhor a arte brasileira.

Boleira
Daniela Mercury espera visita de jogadores amadores de futebol em Salvador. A diva do axé montou campo cenográfico dentro de seu camarote. Motivo? Foi escolhida embaixadora da cidade para a Copa do Mundo de 2014.

Além de já ter cantado nos Mundiais da França e da Alemanha.

Na frente
John Singleton, diretor de Velozes e Furiosos, também virá curtir o carnaval carioca – mais precisamente, no camarote da Brahma. O cineasta está em busca de atores brasileiros e novos talentos.

O Glamurama arma baile de fantasias, sexta pós-carnaval, no MAM do Rio. Em parceria com Ricardo Amaral e Luiz Calainho e com shows de Mart’nália e Trio Preto +1.

E a Chocolate AMMA, de Diego Badaró e Luiza Olivetto, chegou à Escandinávia. Graças a parceria com Claus Meyer, do restaurante Noma.

O MIS abre a exposição Ai Weiwei Interlacing. Hoje.

Hans Ulrich Obrist, um dos curadores mais importantes do mundo, acertou com Danilo Miranda uma exposição coletiva. Que contará com obras de Dan Graham, Sarah Morris, Ernesto Neto e Norman Foster, entre muitos outros. Para março, no Sesc Pompeia.

Correção: o nome correto de Arno, secretário do Tesouro, é Augustin – e não Austin. Freud não explica.

Haddad saiu de fininho, anteontem, da cerimônia de volta do recesso do judiciário. Deixou o Palácio da Justiça antes mesmo da fala de Alckmin e Ivan Sartori. Justificativa? Compromissos.

Um dedo mindinho - MARCELO COELHO

FOLHA DE SP - 06/02


Seria apenas um ritual mágico? Não haveria nenhuma intenção de beleza, de arte naquilo?


Durante 12 mil anos, qualquer habitante do sul da França podia entrar sem problemas naquela caverna -a não ser pelos ursos que andavam por ali. Depois, houve um desabamento, e a entrada do lugar ficou fechada por mais 20 mil anos.

A caverna de Chauvet só foi reencontrada em 1994, e tornou-se tema do documentário de Werner Herzog atualmente em cartaz no CineSesc.

No começo, pensei que tudo se tratava de um trote, de uma falsificação. Redescobertas pelos pesquisadores, as pinturas daquela caverna, feitas há 32 mil anos, pareciam perfeitas demais para ser verdade.

Há cavalos, leões e rinocerontes, que dificilmente algum humano moderno, sem treinamento específico, poderia desenhar.

Rinocerontes no sul da França? Sim, peludos, além de leões sem juba. Naquela época, o frio era bem maior. Tanto que muitas geleiras ainda não tinham derretido, e com isso o nível o mar estava muitos metros abaixo do que é hoje. Era possível ir a pé da França à Inglaterra, atravessando o que é hoje o canal da Mancha.

Trinta e dois mil anos: desse oceano de tempo, os estudiosos viram emergir as pegadas de um menino de oito anos, ao lado da marca das patas de um lobo. Seriam talvez amigos, especula Werner Herzog. Ou terá havido um intervalo de séculos entre um e outro?

Também se encontram, em meio à quantidade de pinturas, de ossos, de estalactites e de cinzas, as marcas de um único artista. É talvez o momento mais emocionante de todo o documentário.

Os arqueólogos identificaram, numa parede da caverna, coberta das impressões das palmas das mãos de muitos trogloditas, a presença de uma pessoa que tinha o dedo mínimo ligeiramente torto.

A marca dessa mão volta a aparecer mais adiante, em outro salão da caverna, junto às pinturas mais espetaculares de todo o conjunto.

"Este sou eu", parece dizer a marca na parede, "e isto foi o que eu fiz".

O inglês James Elroy Flecker (1884-1915) ficou famoso pelos versos que escreveu "A um Poeta, daqui a Mil Anos". Ele se dirige a algum "estudioso da doce língua inglesa", e imagina esse futuro amigo, "que não vejo, que não conheço, e que ainda não nasceu", lendo sozinho, à noite, as palavras de seu poema.

"Eu era um poeta, eu era jovem", diz Flecker. E, "já que não posso ver teu rosto, nem apertar a tua mão, envio-te minha alma, através do espaço e do tempo. Você vai entender".

Em inglês fica melhor. "O friend unseen, unborn, unknown,/ Student of our sweet English tongue,/ Read out my words at night, alone:/ I was a poet, I was young./ Since I can never see your face,/ And never shake you by the hand,/ I send my soul through time and space/ To greet you. You will understand."

Nossa época desconfia muito desses entendimentos através dos milênios. Os pintores da caverna de Chauvet deveriam ter uma visão de mundo completamente diversa da nossa, e o sentido daqueles cavalos e bisontes na parede está tão perdido quanto o pensamento dos próprios cavalos e bisontes retratados lá.

Tanto relativismo termina sendo impossível de sustentar. No mínimo, sabemos que quem retratou o bisonte queria, de fato, retratar um bisonte, e isso é visível para nós.

Seria apenas um ato religioso, um ritual mágico? Não haveria nenhuma intenção de beleza, de decoração, de arte naquilo?

Ah, o conceito de arte, de "obra", de "autoria", muda com o tempo. É verdade. Mas vale invocar o argumento do escritor católico G. K. Chesterton, em "O Homem Eterno" (editora Mundo Cristão). Por que imaginar, diz ele, que o homem das cavernas tinha apenas uma mente pragmática e utilitária, fazendo desenhos apenas para ter boa sorte nas caçadas?

Esse espírito interesseiro conviria mais a um burguês britânico do século 19 do que a um "primitivo"... O homem das cavernas não seria capaz de sorrir, de brincar, de fazer desenhos por prazer?

De tanto respeito à alteridade, de tanto relativismo, terminamos usando a palavra "outro" com O maiúsculo: o "Outro". É tão Outro que não nos julgamos capazes de entendê-lo.

O raciocínio termina por ser equivalente ao de quem, por desprezo, chama de "primitivos", de "trogloditas", os artistas da caverna. Mas eles nos estenderam as mãos.

Em volta daquele lugar, ainda vagavam hordas de Neandertais. O pintor daqueles cavalos e leões marcava, para o futuro, o território dos homens.


Ueba! Dilma cria o Bolsa Abadá! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 06/02


O Carnaval mais animado do planeta é em Curitiba e com a namorada menstruada. E chovendo!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Oba! Faltam três dias pro Carnaval! E a manchete do Piauí Herald: "Dilma distribui abadás para a base aliada".

E a oposição? A oposição fica na pipoca mesmo! Já imaginou o Aécio todo mauricinho pulando na pipoca? E a marchinha oficial? "Mamãe, eu quero/ Mamãe, eu quero/ Mamãe, eu quero mamar/ Dá ministério/ Dá ministério/ Pro PMDB não chorar."

Aliás, pelo preço do abadá, a Dilma tinha que dar Bolsa Abadá! Tirar os brasileiros da pipoca. Ops, tirar os brasileiros da linha da extrema pipoca! Rarará! E o pior do Carnaval é o banheiro químico. Com o calor de Salvador vai virar forno crematório. Abadá de lata! Rarará!

E adorei esta: "Fidel vota em Cuba e conversa por uma hora". O quê? Só uma hora? Então ele não tá nada bem! Essa é a prova mais contundente de que o El Coma Andante não está nada bem! Uma hora pra ele equivale a um minuto!

E "Salve Jorge"? "Salve Jorge" se passa numa região entre Rio de Janeiro e Turquia chamada TAPADÓCIA! Só tem tapados! "Salve Jorge" se passa na Tapadócia!

E o Big Bode Plasil? Eu quero saber o número pra eliminar todo mundo! Eu quero eliminar todo mundo! Dar um strike no "BBB"! E tem gente que acha o "BBB" antropológico. Eu acho ANTAlógico!

E tá parecendo desfile de Sete de Setembro: só tem canhão! A "Playboy" vai ter que rebolar. Nem Photoshop adianta. Vão ter que inventar uma coisa além.

E olha o e-mail que eu recebi dum curitibano: "Zé Simão, vem pra Curitiba! O Carnaval não cansa!". Eu é que não me canso de repetir que o Carnaval mais animado do planeta é em Curitiba e com a namorada menstruada. E chovendo!

E o Pato? Pensamento do dia: "Como um bom pato, o Pato fez gol de cagada" (Clarice Lispector). Rarará! É mole? É mole, mas é meu! Rarará!

Carnaval 2013! A Grande Festa da Esculhambação Nacional! E os blocos? Adoro os nomes dos blocos! Direto de Olinda: "Só Como na Rua". Mas pela foto das folionas, é melhor comer em casa mesmo! Rarará!

E direto do Maranhão: "Chupa, Mas Não Morde". Deve ser da família Sarney. Ops, me enganei. O bloco da família Sarney chupa e morde. E mais um monte de coisa! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza! Hoje só amanhã!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Depois da ‘mordaça’, a impunidade - JORGE MARANHÃO

O GLOBO - 06/02


Contra a chamada PEC da Impunidade, enfim a sociedade organizada começa a reagir. Depois da famosa "Lei da Mordaça ao Ministério Público’,’ de Paulo Ma-luf, que está apenas engavetada e pode voltar a qualquer momento, temos agora a PEC 37, que quer restringir o poder de investigação do Ministério Público, e cujo autor é o deputado federal Lourival Mendes (MA), delegado de polícia. A PEC propõe que qualquer investigação criminal seja realizada exclusivamente pelas polícias Federal e civis, cabendo ao Ministério Público apenas o acompanhamento de cada caso. Desde que foi aprovada em dezembro na comissão especial, podendo ser encaminhada a qualquer momento à votação no plenário da Câmara Federal, a sociedade civil já divulgou três manifestos de alerta à cidadania.

O primeiro foi dos procuradores de São Paulo, um abaixo-assinado que virou o ano com 30 mil assinaturas. O segundo foi da Rede Articulação Brasileira contra a Corrupção e a Impunidade, cujas 90 entidades de combate à corrupção lançaram uma nota de repúdio à PEC 37. Já a Associação Nacional dos Procuradores da República lançou o seu decálogo de conscientização sobre a importância do poder de investigação do Ministério Público, lembrando que o próprio STF já definiu a constitucionalidade desta sua prerrogativa. Além de alertar que tal exclusividade atingirá também a Receita Federal, a CGU, o Coaf, a Previdência Social, o Ibama, a CVM e outros órgãos de fiscalização e controle que também poderão ter suas funções investigatórias questionadas.

Junte-se a isto que nem todos os setores da própria polícia apoiam a PEC 37, como, por exemplo, a Federação Nacional dos Policiais Federais, que fez questão de assinar o decálogo do Ministério Público, com o entendimento de que seu enfraquecimento é um grande retrocesso. E assim também entendem as associações dos magistrados brasileiros e dos juízes federais.

O que se questiona, portanto, não é o modelo do procedimento investigatório que deve mesmo ser seguido das instituições policiais. Mas daí, tratar toda e qualquer investigação como função exclusiva da polícia vai uma longa distância. Porque nada que é exclusivo numa democracia é bom para os cidadãos. Basta lembrar o caso recente da queda de braço entre o Conselho Nacional de Justiça e as corregedorias dos tribunais, quando se pacificou no próprio STF que o poder de um órgão não extingue o do outro. Na verdade, eles se complementam.

Salvadores da pátria - TOSTÃO

FOLHA DE SP - 06/02

Espanha, Alemanha, Brasil e Argentina são as quatro seleções com mais chances de ganhar a Copa-14


Hoje, seleções candidatas ao título mundial em 2014 entram em campo para jogos amistosos. Apesar de não ter um único excelente atacante, seja um típico centroavante ou não, a Espanha, pelos últimos títulos conquistados, pelo futebol coletivo, pelo ótimo sistema defensivo e por ter vários craques no meio-campo, é a seleção com mais chances de ganhar a Copa do Mundo.

Embora a seleção da Alemanha seja melhor que as de Brasil e Argentina, vejo as três com a mesma possibilidade de vencer o Mundial. A Alemanha tem um ótimo conjunto, mas não possui os craques que tem a Espanha.

O Brasil, pela tradição, por jogar em casa, por ter chances de melhorar até a Copa e por ter Neymar, tem boas chances de ser campeão, com Felipão, Mano Menezes, Tite ou qualquer outro bom treinador. Além disso, o resultado nem sempre se associa à qualidade.

Craques, como Neymar, costumam salvar a pátria e os dirigentes obsoletos, como Marín.

A Argentina, por estar perto de casa, ter Messi e mais três excelentes jogadores do meio para a frente (Higuaín, Agüero e Di Maria), além de ter melhorado muito a defesa após a chegada do técnico Sabella, é também candidata ao título.

A Inglaterra, rival hoje do Brasil, tem um bom time, mas é muito melhor nos comentários e na marca de prestígio do que pelo que joga.

A dúvida na seleção brasileira é se Oscar vai jogar mais como um atacante pela direita ou se vai atuar mais recuado, participando mais da marcação no meio-campo. Analisar a maneira de jogar pelo sistema tático não faz mais nenhum sentido. Os jogadores se movimentam tanto que formam vários esquemas em um mesmo jogo, independentemente da conduta do treinador.

Muito mais importante que o sistema tático são as características dos jogadores, suas movimentações, o tipo de marcação, as distâncias entre os setores, se a equipe privilegia a posse de bola, a troca de passes ou os lançamentos longos, as jogadas aéreas e as bolas paradas, além de outros detalhes.

Há uma grande expectativa sobre alguns jogadores, especialmente Ronaldinho. Contra o Cruzeiro, ele se limitou a jogar a bola na área e a fazer lançamentos longos, além de centralizar as jogadas. Isso funcionou muito bem no ano passado. Seleção não é clube. Receio que sua volta seja mais uma repetição fracassada de seu retorno com Mano.

Diferentemente do que pensa a maioria, prefiro mais ver um clássico entre seleções, ainda mais se tiver o time brasileiro, a ver um clássico entre clubes, do Brasil ou de fora. Isso deve ter a ver com minhas lembranças afetivas, quando ficava arrepiado ao escutar o hino nacional, antes das partidas. Isso é uma coisa. Outra é distorcer os fatos, ser conivente com as falcatruas, ser um ufanista, um Policarpo Quaresma.

PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV - 06/02


13h - Mali x Nigéria, Copa Africana de Nações, SporTV

16h - Espanha x Uruguai, amistoso, SporTV 3

16h30 - Burkina Faso x Gana, Copa Africana de Nações, SporTV 2

17h30 - Inglaterra x Brasil, amistoso, Globo e SporTV

17h30 - Holanda x Itália, amistoso, Bandsports

18h - França x Alemanha, amistoso, Esporte Interativo e SporTV 3

18h45 - Portugal x Equador, amistoso, SporTV 2

20h30 - Avaí x Joinville, Catarinense, SporTV

22h - Botafogo-SP x Corinthians, Paulista, Band e Globo (para SP)

22h - Flamengo x Friburguense, Estadual do Rio, Band e Globo (para RJ)

22h - Fortaleza x Confiança, Copa do Nordeste, Esporte Interativo

22h - Baylor x Oklahoma State, basquete universitário, ESPN +

22h - Minnesota x Michigan State, basquete universitário, Bandsports

24h - Minnesota Timberwolves x San Antonio Spurs, NBA, ESPN

0h30 - México x Jamaica, eliminatória, Bandsports, ESPN + e Esporte Interativo

Rajoy e a corrupção - GILLES LAPOUGE

O Estado de S.Paulo - 06/02

O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, estava em Berlim na segunda-feira. Tinha na ponta da língua um grande discurso no qual pediria à chanceler alemã, Angela Merkel, que cedesse um pouco e tomasse iniciativas destinadas a relançar o crescimento na Europa.

Infelizmente, o discurso ficou entalado na garganta do chefe de governo da Espanha, pois dois jornais, El País (centro-esquerda) e El Mundo (direita), faziam revelações detestáveis a respeito de Rajoy. O herói da virtude e do rigor ficou num estado lastimável depois de ouvir as acusações. O adjetivo era usado de modo incorreto: o incorruptível era um corrupto.

O ex-tesoureiro do Partido Popular Luis Bárcenas afirmava que os quadros do partido conservador, com Rajoy à frente, haviam recebido complementos salariais por baixo do pano até 2008. Desde a noite de domingo, o líder do Partido Socialista, Alfredo Pérez Rubalcaba, pedia a demissão de Rajoy.

O mais estranho é que os espanhóis sabiam há muito tempo que seus dirigentes, tanto da esquerda quanto da direita, praticavam animadamente o esporte da corrupção. Mas estavam conformados com essa praga, pelo menos desde que a Espanha ia de vento em popa, enriquecia, construía imóveis sem parar (aliás, muito feios, que desfiguraram uma das paisagens mais suntuosas do mundo) nos quais a nova burguesia passou a se instalar. Essa situação durou até 2008. Naquele ano estourou a crise. E foi um furacão. As famílias não puderam mais cumprir suas obrigações financeiras. Expulsas de suas novas habitações, acordaram na rua.

Naquelas circunstâncias, os mesmos espanhóis atirados à sarjeta foram informados de que os políticos, não satisfeitos com seus bons salários, recebiam complementos. O cinismo tornou-se um insulto à miséria e à virtude. Apesar dos esforços corajosos e da ajuda da Europa, a Espanha foi perdendo fôlego. Agora, a desocupação destrói a sociedade: 55% dos jovens não têm emprego. Sobrevivem morando com os pais. O desespero pode levar a fugas perigosas (drogas, extremismos de direita ou de esquerda, aversão pelo "político", tráfico, etc.). A sociedade espanhola se desfaz.

Felizmente, a Espanha tem um rei, a instituição monárquica que mantém a coesão da nação. Mas, infelizmente, este ano ficamos sabendo de duas coisas a respeito de Juan Carlos: em primeiro lugar, no que diz respeito às mulheres, ele seria uma espécie de Dominique Strauss-Kahn. Tem o hábito de mostrar-se carinhoso com todas as que encontra em seu caminho. E, em segundo lugar, há alguns meses, ele se machucou numa viagem à África tropical. E como foi que ele se feriu, coitado? Bom, participava de um safari e escorregou. Um rei matar animais selvagens!?

Rajoy tentará construir uma barragem contra a maré destas hediondas revelações. Não será fácil. A Espanha, já desmantelada, voltará a fazer água. O que não é um bom auspício para a União Europeia. Bruxelas acreditava estar vendo "o fim do túnel", depois de quatro anos de dramas. Uma crise política, e então econômica, num país tão importante quanto a Espanha, poderá tornar o túnel mais longo do que já é. Tradução de Anna Capovilla.