O GLOBO - 31/01
Lembram-se de toda aquela campanha do governo Lula comemorando a autossuficiência em petróleo? Pois é, foi só marketing eleitoral. Só não, porque a estatal, que não pertence só ao governo, muito menos ao PT, pagou por aquela fraude
Sabe qual a melhor coisa que poderia acontecer para a Petrobrás? Uma forte queda do preço internacional do petróleo. Isso derrubaria também as cotações da gasolina e do diesel, produtos que estão quebrando a estatal brasileira. Como não há produção interna suficiente desses combustíveis, a companhia tem que importá-los. Como o governo Dilma segura os preços internos para conter a inflação, a Petrobrás se vê na situação esdrúxula de comprar caro e vender barato – que perdura mesmo depois do reajuste anunciado na última terça. Prejuízo na veia.
Logo, se o governo não deixa aumentar mais o preço interno, resta torcer pela queda da cotação internacional.
Pode? Uma companhia petrolífera, dona de reservas elevadas, dependendo de uma queda no preço de seu principal ativo!
Acrescente aí uma forte valorização do real e o quadro “melhoraria” ainda mais para a estatal. Se o dólar voltasse, digamos, para R$ 1,70, a Petrobrás economizaria cerca de 15% nas suas compras externas de combustível.
Claro que, nesse caso, também cairia o valor das reservas da Petrobrás. De novo, pode? Uma companhia precisando de queda no valor de seu patrimônio.
Por outro lado, que sempre tem, a queda do preço internacional de petróleo colocaria em risco a operação no pré-sal. Ainda não se sabe o custo exato, pois a tecnologia está em desenvolvimento, mas certamente será muito caro retirar o óleo lá do fundão do oceano. Assim, se a cotação global cair muito, o pré-sal torna-se economicamente inviável.
Consequências: a Petrobrás não conseguiria financiamento para as novas operações e os estados e municípios perderiam os royalties pelos quais tanto brigaram.
Ou seja, é uma ideia de jerico torcer pela queda dos preços internacionais do óleo e dos combustíveis.
De outro lado, ainda, um dólar mais barato facilitaria as importações de equipamentos para extração e refino. Bom, não é mesmo?
Seria, se as políticas para o setor tivessem alguma lógica. Ocorre que a Petrobrás é obrigada pelo governo a dar preferência ao produtor nacional, mesmo pagando mais caro, até um certo nível. Ora, com o real valorizado, a diferença de preços entre o local e o estrangeiro ficará bem maior, de modo que a estatal não terá como justificar a compra do equipamento made in Brasil.
Isso destruiria a política do governo para estimular a indústria nacional ou, caso o modelo fosse mantido, aumentaria os custos da Petrobrás em reais.
Ou seja, é outra ideia de jerico torcer pela valorização do real neste caso.
Voltamos assim ao senso comum, pelo qual uma companhia de petróleo deve se dar bem quando o preço do petróleo está em alta. Esta lógica não mudou. O que a subverte é a gestão do governo brasileiro. Um desastre de grande competência: não é fácil fazer uma petrolífera perder dinheiro.
Outra coisinha: lembram-se de toda aquela campanha do governo Lula comemorando a autossuficiência em petróleo? Pois é, foi só marketing eleitoral. Só não, porque a estatal, que não pertence só ao governo, muito menos ao PT, pagou por aquela fraude. Custo na veia da população.
Protecionista quem?
Andam dizendo por aí que as negociações comerciais entre Mercosul e União Europeia (UE) não avançam por causa por causa do protecionismo dos dois lados.
Curioso. A UE, só na América Latina, tem acordos de livre comércio fechados com Chile e México (já em vigor) e mais Peru, Colômbia e América Central (a vigorar neste ano). Fora da região, tem acordos com diversos países da Ásia, inclusive Coreia do Sul, e esta prestes a iniciar negociações com os Estados Unidos.
Já o Mercosul tem acordos com Israel e Jordânia.
Mas, dizem governo Dilma e aliados, neste ano as conversas com a Europa vão avançar.
Sério?
Se o Brasil não consegue ter livre comércio nem com a Argentina, principal sócia no Mercosul, se a Argentina, pelo calote, está excluída do mercado financeiro global, e se a Venezuela, nova sócia, só quer acordos com os amigos bolivarianos, Cuba, por exemplo, quem mesmo vai negociar com a UE?
No último fim de semana, a Comunidade dos Estados da América Latina e Caribe, Ceal, reuniu-se com a UE – encontro de cúpula, solene. Olhando bem, no entanto, os líderes europeus mantiveram duas conversas bem diferentes. Uma com o pessoal do Mercosul – só protocolar, para os fotógrafos.
Outra, para valer, com o chamado bloco do Pacífico, liderado por Chile, Peru, Colômbia e México. Enquanto o Mercosul torna-se cada vez mais restrito ao grupo bolivariano de Chávez, Cristina Kirchner e outros menores, o bloco do Pacífico já tem acordos com os EUA, Europa e negocia um megatratado com a Ásia.
Devem estar todos equivocados, não é mesmo?
quinta-feira, janeiro 31, 2013
Muito tarde e muito pouco - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 31/01
O reajuste dos preços da gasolina e do óleo diesel não muda substancialmente as coisas. A Petrobrás segue arrochada pelo governo Dilma.
Os cálculos sobre as perdas com o atraso dos reajustes variam de um consultor para o outro. Mas, provavelmente, apenas em 2012, ultrapassaram os R$ 20 bilhões. Em vez de fazer da Petrobrás uma alavanca do desenvolvimento nacional, o governo Dilma continua usando o caixa da empresa para fazer política de preços. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reconheceu ontem que, desde 2006, os combustíveis foram reajustados em apenas 6% - "o que é menos do que a inflação", disse.
Tanto a Petrobrás, hoje dirigida por administradores fiéis à aliança de governo, como o próprio governo vêm repetindo que a política "busca alinhar o preço dos derivados aos valores praticados no mercado internacional em uma perspectiva de médio e longo prazos" - está assim no comunicado da Petrobrás divulgado na noite de terça-feira. Trata-se de repetição vazia, uma vez que não há critério. Os reajustes não obedecem a nenhuma regra e só são feitos quando a capacidade de geração de recursos da Petrobrás apresenta notórios sinais de deterioração. A qualquer momento, por exemplo, se espera o rebaixamento da qualidade dos títulos da Petrobrás. Sua capacidade de endividamento foi e continua sendo duramente atingida. Se houver melhora mínima nas condições da economia global, como se espera, as cotações do barril do petróleo Brent saltarão para acima dos US$ 115 por barril, nível em que estão hoje, e as distorções se ampliarão.
Essa política não está errada apenas porque dá um tratamento populista para os derivados de petróleo. Está errada, principalmente, porque sabota a política de investimentos da Petrobrás aprovada pelo próprio governo federal.
Há seis meses, a Petrobrás avisou em seus documentos que seu Plano de Negócios (investimentos), de US$ 236,5 bilhões até 2016, só poderia ser cumprido caso houvesse reajuste de 15% em seus produtos. Foram autorizados apenas 6,6% para a gasolina e 5,4% para o óleo diesel, acompanhados pelo aviso de que não haveria outros em 2013. São reajustes de longe insuficientes para recompor as perdas passadas da Petrobrás. Pelos cálculos dos analistas Bruno Montanari e Guilherme Bellinetti, do Grupo Morgan Stanley, ouvidos pela Agência Estado, mesmo com essa correção, os preços internos em relação aos pagos pela Petrobrás nas suas importações ficarão cerca de 10% mais baixos, no caso da gasolina, e de 20%, no do diesel.
Além disso, a gasolina se manterá subsidiada à custa da saúde financeira da Petrobrás. Preços assim vantajosos no varejo continuarão estimulando o consumo de gasolina, pressionando importações e deteriorando a capacidade de investimentos da Petrobrás. Ao mesmo tempo, os preços artificiais da gasolina seguirão achatando os preços do etanol e desestimulando investimentos em cana-de-açúcar e na expansão das destilarias.
Ontem, o mercado financeiro voltou a punir as ações da Petrobrás como forma de mostrar a política irracional a que está sendo submetida. As ações ordinárias caíram 5,12% e as preferenciais, 4,76%.
O reajuste dos preços da gasolina e do óleo diesel não muda substancialmente as coisas. A Petrobrás segue arrochada pelo governo Dilma.
Os cálculos sobre as perdas com o atraso dos reajustes variam de um consultor para o outro. Mas, provavelmente, apenas em 2012, ultrapassaram os R$ 20 bilhões. Em vez de fazer da Petrobrás uma alavanca do desenvolvimento nacional, o governo Dilma continua usando o caixa da empresa para fazer política de preços. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reconheceu ontem que, desde 2006, os combustíveis foram reajustados em apenas 6% - "o que é menos do que a inflação", disse.
Tanto a Petrobrás, hoje dirigida por administradores fiéis à aliança de governo, como o próprio governo vêm repetindo que a política "busca alinhar o preço dos derivados aos valores praticados no mercado internacional em uma perspectiva de médio e longo prazos" - está assim no comunicado da Petrobrás divulgado na noite de terça-feira. Trata-se de repetição vazia, uma vez que não há critério. Os reajustes não obedecem a nenhuma regra e só são feitos quando a capacidade de geração de recursos da Petrobrás apresenta notórios sinais de deterioração. A qualquer momento, por exemplo, se espera o rebaixamento da qualidade dos títulos da Petrobrás. Sua capacidade de endividamento foi e continua sendo duramente atingida. Se houver melhora mínima nas condições da economia global, como se espera, as cotações do barril do petróleo Brent saltarão para acima dos US$ 115 por barril, nível em que estão hoje, e as distorções se ampliarão.
Essa política não está errada apenas porque dá um tratamento populista para os derivados de petróleo. Está errada, principalmente, porque sabota a política de investimentos da Petrobrás aprovada pelo próprio governo federal.
Há seis meses, a Petrobrás avisou em seus documentos que seu Plano de Negócios (investimentos), de US$ 236,5 bilhões até 2016, só poderia ser cumprido caso houvesse reajuste de 15% em seus produtos. Foram autorizados apenas 6,6% para a gasolina e 5,4% para o óleo diesel, acompanhados pelo aviso de que não haveria outros em 2013. São reajustes de longe insuficientes para recompor as perdas passadas da Petrobrás. Pelos cálculos dos analistas Bruno Montanari e Guilherme Bellinetti, do Grupo Morgan Stanley, ouvidos pela Agência Estado, mesmo com essa correção, os preços internos em relação aos pagos pela Petrobrás nas suas importações ficarão cerca de 10% mais baixos, no caso da gasolina, e de 20%, no do diesel.
Além disso, a gasolina se manterá subsidiada à custa da saúde financeira da Petrobrás. Preços assim vantajosos no varejo continuarão estimulando o consumo de gasolina, pressionando importações e deteriorando a capacidade de investimentos da Petrobrás. Ao mesmo tempo, os preços artificiais da gasolina seguirão achatando os preços do etanol e desestimulando investimentos em cana-de-açúcar e na expansão das destilarias.
Ontem, o mercado financeiro voltou a punir as ações da Petrobrás como forma de mostrar a política irracional a que está sendo submetida. As ações ordinárias caíram 5,12% e as preferenciais, 4,76%.
Bolsa fora da rota - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 31/01
A bolsa brasileira está há dois anos andando de lado. Rompeu os 70 mil pontos em janeiro de 2011. Está em 59 mil. Seria normal, se fosse no mundo inteiro, mas, nos EUA, o índice S&P 500 ultrapassou, pela terceira vez em sua história, a marca de 1.500 pontos. O Dow Jones está perto do recorde. Na Europa, estão em recuperação as bolsas de Grécia, Portugal e Espanha. Na América Latina, o México se destaca.
O mau desempenho do Ibovepa tem a ver com a desaceleração da economia, mas isso não explica tudo. A queda do ritmo de crescimento do PIB, de 7,5% em 2010 para cerca de 1% em 2012, piora o ambiente para os negócios e a rentabilidade das empresas. Mas há, além disso, percepção de aumento do intervencionismo estatal e maior imprevisibilidade.
A Petrobras hoje tem menor valor de mercado do que a petrolífera estatal colombiana Ecopetrol, apesar de ser muito mais poderosa. Também vale menos que a Ambev. A empresa tem dificuldade na geração de caixa, a produção de petróleo não cresceu como o esperado, há aberrações em investimentos e elevação de custos, como na refinaria Abreu e Lima. Quem enche o tanque acha a nossa gasolina cara, mas o fato é que a Petrobras recebe das distribuidoras menos do que paga em cada litro. Os prejuízos com a importação são bilionários, e a ingerência política sobre a empresa coloca em xeque a sua gestão.
O reajuste de terça-feira atenua o problema, mas não resolve. As ações caíram 4,8% ontem. Nos últimos dois anos, as ações PN da empresa caíram 30%. Desde 2009, a redução encosta em 50%. O "Financial Times" classificou a queda como uma das mais dramáticas do setor de energia. Vários integrantes do governo falam sobre preço dos combustíveis, só a Petrobras parece não ter voz ativa no seu principal produto.
A troca de comando na Vale também foi mal recebida pela mercado. A saída do ex-presidente Roger Agnelli foi entendida como punição pela resistência a projetos de interesse do governo, como a entrada no mercado de siderurgia. Isso coincidiu com a desaceleração da China, que afetou o preço do minério de ferro, principal produto exportado pela Vale. As ações PN da empresa perderam 18,5% do valor em dois anos. A MP 579, que mudou as regras do setor elétrico, provocou uma fuga em massa de investidores. As ações ON da Eletrobras caíram 54% desde agosto. Segundo um analista de mercado financeiro, que preferiu não se identificar, principalmente investidores estrangeiros ficaram assustados.
- Energia mais barata aumenta a rentabilidade da indústria e renda dos consumidores. O problema é a forma como foi feito. O setor elétrico é de proteção em um portfólio. São contratos de 30 anos, com menor variação de receita. Fundos de pensão estrangeiros perderam muito dinheiro com as mudanças. Há receio de que outros setores sofram intervenção, como telecomunicações e saneamento. Quando houve a saída, foi da bolsa, e não troca para uma outra empresa - disse.
Normalmente, quando os juros caem, a bolsa sobe. Primeiro, pelo estímulo ao crescimento da economia. Segundo, porque os títulos públicos passam a render menos, e o investidor é obrigado a tomar mais risco. Mas não foi isso que aconteceu, segundo a Economática. A participação da bolsa brasileira no portfólio dos fundos de investimento caiu de 13,33%, em 2011, para 11,97%, em 2012. Ao mesmo tempo, subiu a participação em títulos públicos, de 56,96% para 59,48%.
A bolsa do México está em trajetória de alta desde 2009. Há períodos de queda, mas depois as altas são mais fortes. Nesse período, a valorização chega a 154%. Desde janeiro de 2011, a valorização passa de 40%.
Há, no momento, tendência de aumento do fluxo para ativos de risco. Isso é cíclico e sempre que acontece o Brasil se favorece. O estranho é que desta vez os investidores com maior apetite por risco não aportaram por aqui. O Brasil está, por enquanto, fora da rota.
A bolsa brasileira está há dois anos andando de lado. Rompeu os 70 mil pontos em janeiro de 2011. Está em 59 mil. Seria normal, se fosse no mundo inteiro, mas, nos EUA, o índice S&P 500 ultrapassou, pela terceira vez em sua história, a marca de 1.500 pontos. O Dow Jones está perto do recorde. Na Europa, estão em recuperação as bolsas de Grécia, Portugal e Espanha. Na América Latina, o México se destaca.
O mau desempenho do Ibovepa tem a ver com a desaceleração da economia, mas isso não explica tudo. A queda do ritmo de crescimento do PIB, de 7,5% em 2010 para cerca de 1% em 2012, piora o ambiente para os negócios e a rentabilidade das empresas. Mas há, além disso, percepção de aumento do intervencionismo estatal e maior imprevisibilidade.
A Petrobras hoje tem menor valor de mercado do que a petrolífera estatal colombiana Ecopetrol, apesar de ser muito mais poderosa. Também vale menos que a Ambev. A empresa tem dificuldade na geração de caixa, a produção de petróleo não cresceu como o esperado, há aberrações em investimentos e elevação de custos, como na refinaria Abreu e Lima. Quem enche o tanque acha a nossa gasolina cara, mas o fato é que a Petrobras recebe das distribuidoras menos do que paga em cada litro. Os prejuízos com a importação são bilionários, e a ingerência política sobre a empresa coloca em xeque a sua gestão.
O reajuste de terça-feira atenua o problema, mas não resolve. As ações caíram 4,8% ontem. Nos últimos dois anos, as ações PN da empresa caíram 30%. Desde 2009, a redução encosta em 50%. O "Financial Times" classificou a queda como uma das mais dramáticas do setor de energia. Vários integrantes do governo falam sobre preço dos combustíveis, só a Petrobras parece não ter voz ativa no seu principal produto.
A troca de comando na Vale também foi mal recebida pela mercado. A saída do ex-presidente Roger Agnelli foi entendida como punição pela resistência a projetos de interesse do governo, como a entrada no mercado de siderurgia. Isso coincidiu com a desaceleração da China, que afetou o preço do minério de ferro, principal produto exportado pela Vale. As ações PN da empresa perderam 18,5% do valor em dois anos. A MP 579, que mudou as regras do setor elétrico, provocou uma fuga em massa de investidores. As ações ON da Eletrobras caíram 54% desde agosto. Segundo um analista de mercado financeiro, que preferiu não se identificar, principalmente investidores estrangeiros ficaram assustados.
- Energia mais barata aumenta a rentabilidade da indústria e renda dos consumidores. O problema é a forma como foi feito. O setor elétrico é de proteção em um portfólio. São contratos de 30 anos, com menor variação de receita. Fundos de pensão estrangeiros perderam muito dinheiro com as mudanças. Há receio de que outros setores sofram intervenção, como telecomunicações e saneamento. Quando houve a saída, foi da bolsa, e não troca para uma outra empresa - disse.
Normalmente, quando os juros caem, a bolsa sobe. Primeiro, pelo estímulo ao crescimento da economia. Segundo, porque os títulos públicos passam a render menos, e o investidor é obrigado a tomar mais risco. Mas não foi isso que aconteceu, segundo a Economática. A participação da bolsa brasileira no portfólio dos fundos de investimento caiu de 13,33%, em 2011, para 11,97%, em 2012. Ao mesmo tempo, subiu a participação em títulos públicos, de 56,96% para 59,48%.
A bolsa do México está em trajetória de alta desde 2009. Há períodos de queda, mas depois as altas são mais fortes. Nesse período, a valorização chega a 154%. Desde janeiro de 2011, a valorização passa de 40%.
Há, no momento, tendência de aumento do fluxo para ativos de risco. Isso é cíclico e sempre que acontece o Brasil se favorece. O estranho é que desta vez os investidores com maior apetite por risco não aportaram por aqui. O Brasil está, por enquanto, fora da rota.
Preconceito dá prejuízo - MARCELO MITERHOF
FOLHA DE SP - 31/01
Como a existência de elites é insofismável, prefiro que a brasileira não seja apenas branca
No último dia 12, um menino negro de sete anos, filho de um casal de brancos, foi destratado pelo gerente de uma concessionária da BMW no Rio de Janeiro, que ao vê-lo se aproximar teria dito: "Você não pode ficar aqui dentro. Aqui não é lugar para você. Saia da loja. Eles pedem dinheiro e incomodam os clientes".
O fato é uma lamentável demonstração de preconceito, mas não é surpreendente. Em razão da notícia, a rádio CBN reapresentou uma reportagem na qual dois repórteres, um negro e outro branco, de idades próximas e vestindo roupas parecidas, testaram o atendimento que receberiam em estabelecimentos comerciais cariocas.
O tratamento dado ao negro foi sistematicamente pior e em boa parte das vezes nem sequer foi atendido. Em uma loja de roupas masculinas, ao branco foi oferecido um terno de maior qualidade, e, ao negro, o mais barato.
O diabo é que os preconceitos se devem a uma poderosa capacidade humana, a de fazer generalizações a partir de experiências limitadas. Poderosa, mas falível.
Preconceitos como o racismo ou o sexismo são frutos de generalizações indevidas e estigmatizadoras. Porém, sem conceitos prévios (preconceitos), que permitam tomar decisões rápidas, teríamos dificuldade para fazer coisas simples, como dirigir ou escolher um restaurante sem ter uma indicação.
Ainda assim, vale uma constatação etimológica: preconceito é sinônimo de prejuízo (em inglês, preconceito é "prejudice"). Nossos antepassados, ao criar suas línguas, perceberam que conceitos ou juízos prévios costumam levar a perdas, a ideias equivocadas. A loja da BMW teve um baita prejuízo com o episódio. Evitar comer um queijo mofado pode ser sensato, mas corre-se o risco de desprezar uma iguaria.
Isso não significa que se deva deixar de fazer generalizações, mas uma certa parcimônia é proveitosa. No caso da concessionária, o tratamento dado a uma criança que se aproximava foi indevido mesmo que ela não fosse filha de clientes.
Um bom vendedor se esforça para atender a todos bem, mesmo que muitas vezes perca tempo. Contudo, a força da capacidade humana de generalizar costuma prejudicar o exercício desse tipo de cuidado.
No Brasil, ser negro é uma marca de pobreza. Tal generalização não só condiz bem com a realidade como carrega outras generalizações associadas à pobreza. Por exemplo, se num comércio de luxo aparece uma criança pedindo esmolas, é provável que muitos clientes prefiram ver o gerente colocando-a para fora da loja a ter que lidar com o incômodo da pobreza que existe no país.
Os casos destacados não são surpreendentes, portanto. Por isso, em 19/07/2004, defendi em artigo publicado na Folha que as cotas raciais devem servir para diversificar a elite brasileira, de forma que ela passe a espelhar melhor a pluralidade étnica da população.
Crescimento econômico, redução das disparidades sociais e políticas públicas, como educação boa e universal, são cruciais para o país ser melhor, mas não tendem a tornar a elite mais plural.
Nos EUA, há uma significativa elite negra. A riqueza americana contribui para isso, mas o país já era rico quando, nos anos 60, Kennedy teve que mandar tropas federais para garantir a matrícula de negros na Universidade do Alabama. Depois, vieram as cotas raciais e os direitos civis. Hoje, o presidente da República é negro.
Anos depois desse primeiro artigo, a constatação é que o debate das cotas ajudou a colocar o tema racial na agenda brasileira. O percentual de autodeclaração de negros e pardos no censo do IBGE subiu significativamente. Os estudantes cotistas têm em geral bom desempenho acadêmico.
Apesar desses bons resultados, muitos entendem que as cotas racializam o país. Talvez, mas nesse caso é preciso apresentar outras opções para desrracializar a sociedade brasileira, pois isso é um fato, como mostram os exemplos dados.
Outros acreditam que o problema é existirem elites. Como a existência de elites é insofismável, prefiro que a brasileira não seja apenas branca. Tampouco sou contra as elites, que podem ter papéis importantes, como o de garantir que numa democracia a vontade da maioria seja temperada pelos direitos individuais.
Ruim é o elitismo, que ocorre quando a elite acredita que quem atrapalha o país é o seu povo. Para isso, a diversificação da elite é um bom remédio.
O poder econômico é uma arma poderosa contra os preconceitos.
Como a existência de elites é insofismável, prefiro que a brasileira não seja apenas branca
No último dia 12, um menino negro de sete anos, filho de um casal de brancos, foi destratado pelo gerente de uma concessionária da BMW no Rio de Janeiro, que ao vê-lo se aproximar teria dito: "Você não pode ficar aqui dentro. Aqui não é lugar para você. Saia da loja. Eles pedem dinheiro e incomodam os clientes".
O fato é uma lamentável demonstração de preconceito, mas não é surpreendente. Em razão da notícia, a rádio CBN reapresentou uma reportagem na qual dois repórteres, um negro e outro branco, de idades próximas e vestindo roupas parecidas, testaram o atendimento que receberiam em estabelecimentos comerciais cariocas.
O tratamento dado ao negro foi sistematicamente pior e em boa parte das vezes nem sequer foi atendido. Em uma loja de roupas masculinas, ao branco foi oferecido um terno de maior qualidade, e, ao negro, o mais barato.
O diabo é que os preconceitos se devem a uma poderosa capacidade humana, a de fazer generalizações a partir de experiências limitadas. Poderosa, mas falível.
Preconceitos como o racismo ou o sexismo são frutos de generalizações indevidas e estigmatizadoras. Porém, sem conceitos prévios (preconceitos), que permitam tomar decisões rápidas, teríamos dificuldade para fazer coisas simples, como dirigir ou escolher um restaurante sem ter uma indicação.
Ainda assim, vale uma constatação etimológica: preconceito é sinônimo de prejuízo (em inglês, preconceito é "prejudice"). Nossos antepassados, ao criar suas línguas, perceberam que conceitos ou juízos prévios costumam levar a perdas, a ideias equivocadas. A loja da BMW teve um baita prejuízo com o episódio. Evitar comer um queijo mofado pode ser sensato, mas corre-se o risco de desprezar uma iguaria.
Isso não significa que se deva deixar de fazer generalizações, mas uma certa parcimônia é proveitosa. No caso da concessionária, o tratamento dado a uma criança que se aproximava foi indevido mesmo que ela não fosse filha de clientes.
Um bom vendedor se esforça para atender a todos bem, mesmo que muitas vezes perca tempo. Contudo, a força da capacidade humana de generalizar costuma prejudicar o exercício desse tipo de cuidado.
No Brasil, ser negro é uma marca de pobreza. Tal generalização não só condiz bem com a realidade como carrega outras generalizações associadas à pobreza. Por exemplo, se num comércio de luxo aparece uma criança pedindo esmolas, é provável que muitos clientes prefiram ver o gerente colocando-a para fora da loja a ter que lidar com o incômodo da pobreza que existe no país.
Os casos destacados não são surpreendentes, portanto. Por isso, em 19/07/2004, defendi em artigo publicado na Folha que as cotas raciais devem servir para diversificar a elite brasileira, de forma que ela passe a espelhar melhor a pluralidade étnica da população.
Crescimento econômico, redução das disparidades sociais e políticas públicas, como educação boa e universal, são cruciais para o país ser melhor, mas não tendem a tornar a elite mais plural.
Nos EUA, há uma significativa elite negra. A riqueza americana contribui para isso, mas o país já era rico quando, nos anos 60, Kennedy teve que mandar tropas federais para garantir a matrícula de negros na Universidade do Alabama. Depois, vieram as cotas raciais e os direitos civis. Hoje, o presidente da República é negro.
Anos depois desse primeiro artigo, a constatação é que o debate das cotas ajudou a colocar o tema racial na agenda brasileira. O percentual de autodeclaração de negros e pardos no censo do IBGE subiu significativamente. Os estudantes cotistas têm em geral bom desempenho acadêmico.
Apesar desses bons resultados, muitos entendem que as cotas racializam o país. Talvez, mas nesse caso é preciso apresentar outras opções para desrracializar a sociedade brasileira, pois isso é um fato, como mostram os exemplos dados.
Outros acreditam que o problema é existirem elites. Como a existência de elites é insofismável, prefiro que a brasileira não seja apenas branca. Tampouco sou contra as elites, que podem ter papéis importantes, como o de garantir que numa democracia a vontade da maioria seja temperada pelos direitos individuais.
Ruim é o elitismo, que ocorre quando a elite acredita que quem atrapalha o país é o seu povo. Para isso, a diversificação da elite é um bom remédio.
O poder econômico é uma arma poderosa contra os preconceitos.
Multinacionais vão à caça - ALBERTO TAMER
O Estado de S.Paulo - 31/01
A crise financeira na Europa e a retração da economia mundial, com países importante em recessão ou se aproximando rapidamente nela, vem tendo dois desdobramentos: a queda do valor dos ativos de empresas, que viram seu mercado reduzidos, com seus preços atraente, e um movimento de aquisições e fusões no decorre\r de 2012. Diante das incertezas na Europa, que somente agora começam a desanuviar, as multinacionais que haviam resistido à crise se retraíram e acumularam reservas de caixa estimadas pelo Unctad (sigla em inglês para Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento), com base em entrevistas com seus executivos, da ordem de US$ 6 trilhões. E voltaram ao mercado em 2012, realizando grandes operações e obtendo lucros e investindo em países emergentes que ainda crescem.
Mas aqui a grande surpresa: elas estão encontrando agora a competição de multinacionais de países emergentes, igualmente ativas em busca de bons preços e barganhas! O cenário está mudando.
Brasil também? Sim. A crise nos países ricos permitiu que empresas brasileiras e de países emergentes saíssem às compras em 2012 e ampliassem suas estratégias de internacionalização. Em um ano, segundo dados da ONU, as multinacionais brasileiras aumentaram suas aquisições no exterior em 34%, chegando a um valor de US$ 7,4 bilhões.
O valor coloca o Brasil como o 12.º maior responsável por aquisições no exterior em todo o mundo. Entre os emergentes, o País é o sexto maior comprador.
O ano de 2012, diante da crise na Europa, registrou um volume recorde de aquisições por países emergentes. Hoje, uma a cada três aquisições pelo mundo já é realizada por empresas de países em desenvolvimento, registra a Unctad em seu tradicional balanço anual.
Brasil primeiro mundo? A crise nos países ricos permitiu que empresas brasileiras e de países emergentes saíssem às compras em 2012 e ampliassem suas estratégias de internacionalização. Em um ano, segundo dados da ONU, as multinacionais brasileiras aumentaram suas aquisições no exterior em 34%, chegando a um valor de US$ 7,4 bilhões.
Esses valores colocam o Brasil como o 12º maior responsável por aquisições no exterior do mundo, diz a Unctad. Entre os emergentes, o País é o sexto maior comprador de empresas lá fora.
Não deixa de ser instigante que o Brasil, que cresceu apenas 1% este ano porque os investimentos principalmente privados não param de recuar (eles representam 80% do total), não só não invista menos ano após ano, como dê sinais de correr o risco de desinvestir.
Em 2012, diante da crise na Europa, houve um volume recorde de aquisições por países emergentes. Hoje, uma a cada três aquisições pelo mundo já é realizada por empresas de países em desenvolvimento. No ano passado, enquanto a Europa na prática parou de comprar, os emergentes aumentaram suas atividades em 10%.
US$ 114 bilhões. No total, os emergentes gastaram pelo menos US$ 114 bilhões em aquisições. O principal responsável é a China, que investiu US$ 37 bilhões na aquisição de empresas no exterior. Hong Kong vem na segunda posição, seguido por Malásia, Chile e Rússia.
Entre as multinacionais latino-americanas, o aumento de aquisições no exterior foi de 50%, chegando a um volume recorde de US$ 28 bilhões e registrando a maior elevação do mundo. Até mesmo empresas argentinas gastaram US$ 2 bilhões em aquisições no exterior,
Empresas do Reino Unido, Portugal, Espanha e Itália que nos últimos anos haviam comprado companhias no exterior foram obrigadas a se desfazer de seus negócios e repatriar o dinheiro para casa.
E não seria irônico se essas operações forem feitas por multinacionais brasileiras com recursos que estariam tirando do Brasil, porque encontram lá fora melhores condições, menos impostos, segurança, regras sustentáveis e menos intervenções do governo - o que não se oferece aqui?
E por que não se pergunta a elas? Ou elas já disseram, mas ainda não obtiveram respostas?
A crise financeira na Europa e a retração da economia mundial, com países importante em recessão ou se aproximando rapidamente nela, vem tendo dois desdobramentos: a queda do valor dos ativos de empresas, que viram seu mercado reduzidos, com seus preços atraente, e um movimento de aquisições e fusões no decorre\r de 2012. Diante das incertezas na Europa, que somente agora começam a desanuviar, as multinacionais que haviam resistido à crise se retraíram e acumularam reservas de caixa estimadas pelo Unctad (sigla em inglês para Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento), com base em entrevistas com seus executivos, da ordem de US$ 6 trilhões. E voltaram ao mercado em 2012, realizando grandes operações e obtendo lucros e investindo em países emergentes que ainda crescem.
Mas aqui a grande surpresa: elas estão encontrando agora a competição de multinacionais de países emergentes, igualmente ativas em busca de bons preços e barganhas! O cenário está mudando.
Brasil também? Sim. A crise nos países ricos permitiu que empresas brasileiras e de países emergentes saíssem às compras em 2012 e ampliassem suas estratégias de internacionalização. Em um ano, segundo dados da ONU, as multinacionais brasileiras aumentaram suas aquisições no exterior em 34%, chegando a um valor de US$ 7,4 bilhões.
O valor coloca o Brasil como o 12.º maior responsável por aquisições no exterior em todo o mundo. Entre os emergentes, o País é o sexto maior comprador.
O ano de 2012, diante da crise na Europa, registrou um volume recorde de aquisições por países emergentes. Hoje, uma a cada três aquisições pelo mundo já é realizada por empresas de países em desenvolvimento, registra a Unctad em seu tradicional balanço anual.
Brasil primeiro mundo? A crise nos países ricos permitiu que empresas brasileiras e de países emergentes saíssem às compras em 2012 e ampliassem suas estratégias de internacionalização. Em um ano, segundo dados da ONU, as multinacionais brasileiras aumentaram suas aquisições no exterior em 34%, chegando a um valor de US$ 7,4 bilhões.
Esses valores colocam o Brasil como o 12º maior responsável por aquisições no exterior do mundo, diz a Unctad. Entre os emergentes, o País é o sexto maior comprador de empresas lá fora.
Não deixa de ser instigante que o Brasil, que cresceu apenas 1% este ano porque os investimentos principalmente privados não param de recuar (eles representam 80% do total), não só não invista menos ano após ano, como dê sinais de correr o risco de desinvestir.
Em 2012, diante da crise na Europa, houve um volume recorde de aquisições por países emergentes. Hoje, uma a cada três aquisições pelo mundo já é realizada por empresas de países em desenvolvimento. No ano passado, enquanto a Europa na prática parou de comprar, os emergentes aumentaram suas atividades em 10%.
US$ 114 bilhões. No total, os emergentes gastaram pelo menos US$ 114 bilhões em aquisições. O principal responsável é a China, que investiu US$ 37 bilhões na aquisição de empresas no exterior. Hong Kong vem na segunda posição, seguido por Malásia, Chile e Rússia.
Entre as multinacionais latino-americanas, o aumento de aquisições no exterior foi de 50%, chegando a um volume recorde de US$ 28 bilhões e registrando a maior elevação do mundo. Até mesmo empresas argentinas gastaram US$ 2 bilhões em aquisições no exterior,
Empresas do Reino Unido, Portugal, Espanha e Itália que nos últimos anos haviam comprado companhias no exterior foram obrigadas a se desfazer de seus negócios e repatriar o dinheiro para casa.
E não seria irônico se essas operações forem feitas por multinacionais brasileiras com recursos que estariam tirando do Brasil, porque encontram lá fora melhores condições, menos impostos, segurança, regras sustentáveis e menos intervenções do governo - o que não se oferece aqui?
E por que não se pergunta a elas? Ou elas já disseram, mas ainda não obtiveram respostas?
O livro da Delta - PAULA CESARINO COSTA
FOLHA DE SP - 31/01
RIO DE JANEIRO - É entre fraldas, chupetas e muitos problemas que o dono da Delta tem passado os dias.
O empresário Fernando Cavendish, 49, está sendo estimulado a publicar a "única verdade que conhece". Escreveu um livro, mas ainda não decidiu se vai publicá-lo.
Foi depois da queda de um helicóptero que levava amigos para sua festa de aniversário na Bahia, em junho de 2011, que se tornou uma figura conhecida. Na ocasião, morreram sete pessoas, entre elas a mãe de seus dois filhos gêmeos, de dois anos, e ficou exposta a amizade com Sérgio Cabral, governador do Rio, Estado que tem vários contratos com a Delta.
Mas foi só com a CPI do Cachoeira -que investigou as ligações do banqueiro do jogo do bicho com políticos, empresários e órgãos públicos, no ano passado- que seu mundo começou a ruir. Em especial com a revelação das ligações do diretor Cláudio Abreu, acusado de ser parceiro de Cachoeira. No livro, Cavendish distancia-se de Cachoeira, diz que não ia a Goiás havia cinco anos e que seu estilo sempre foi o de delegar poder.
Demitiu 22 mil funcionários. Hoje, são 6.500. A Delta, considerada inidônea, está atolada em dívidas.
O empresário narra sua história. O pai, pernambucano, tinha uma empresa pequena. Em 94, Cavendish montou uma sala no Rio. Ambicioso, queria fazer a empresa acontecer. Percebeu que o meio era recheado de vícios, e cresceu na contramão, aceitando ganhar menos.
Bate na tecla de que o complicado no seu ramo de negócio é que, a cada dois anos, tem campanha eleitoral, e o cliente tem necessidade de "apoio empresarial".
Mas o que pode ser mais explosivo -e que resiste a colocar em detalhes no livro- é sua avaliação de que a CPI acabou porque bateu no lugar errado, as grandes empresas.
"Ou acabava o Brasil e fechava para balanço. Ou acabava a CPI", costuma falar. O que restará no livro?
RIO DE JANEIRO - É entre fraldas, chupetas e muitos problemas que o dono da Delta tem passado os dias.
O empresário Fernando Cavendish, 49, está sendo estimulado a publicar a "única verdade que conhece". Escreveu um livro, mas ainda não decidiu se vai publicá-lo.
Foi depois da queda de um helicóptero que levava amigos para sua festa de aniversário na Bahia, em junho de 2011, que se tornou uma figura conhecida. Na ocasião, morreram sete pessoas, entre elas a mãe de seus dois filhos gêmeos, de dois anos, e ficou exposta a amizade com Sérgio Cabral, governador do Rio, Estado que tem vários contratos com a Delta.
Mas foi só com a CPI do Cachoeira -que investigou as ligações do banqueiro do jogo do bicho com políticos, empresários e órgãos públicos, no ano passado- que seu mundo começou a ruir. Em especial com a revelação das ligações do diretor Cláudio Abreu, acusado de ser parceiro de Cachoeira. No livro, Cavendish distancia-se de Cachoeira, diz que não ia a Goiás havia cinco anos e que seu estilo sempre foi o de delegar poder.
Demitiu 22 mil funcionários. Hoje, são 6.500. A Delta, considerada inidônea, está atolada em dívidas.
O empresário narra sua história. O pai, pernambucano, tinha uma empresa pequena. Em 94, Cavendish montou uma sala no Rio. Ambicioso, queria fazer a empresa acontecer. Percebeu que o meio era recheado de vícios, e cresceu na contramão, aceitando ganhar menos.
Bate na tecla de que o complicado no seu ramo de negócio é que, a cada dois anos, tem campanha eleitoral, e o cliente tem necessidade de "apoio empresarial".
Mas o que pode ser mais explosivo -e que resiste a colocar em detalhes no livro- é sua avaliação de que a CPI acabou porque bateu no lugar errado, as grandes empresas.
"Ou acabava o Brasil e fechava para balanço. Ou acabava a CPI", costuma falar. O que restará no livro?
Lula e a falência da ‘Doutrina Garcia’ - DEMÉTRIO MAGNOLI
O GLOBO - 31/01
Brasil ajudou a converter a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos numa ferramenta de proteção da ditadura castrista
Lula sabe mais que os “intelectuais progressistas” reunidos em seu instituto para, nas palavras do assessor Luiz Dulci, “definir um plano de trabalho para o desenvolvimento e integração” da América Latina. Há muito reduzidos à condição de intelectuais palacianos, os convidados celebraram os “avanços” na integração regional e a miraculosa clarividência do ex-presidente. O anfitrião, contudo, pediu-lhes algo diferente da bajulação habitual: a formulação de uma “doutrina” da integração latino-americana. No décimo-primeiro ano de poder lulista, o pedido traz implícito o reconhecimento de um fracasso estrondoso de política externa — e da crise regional que se avizinha.
“Não tem explicação, depois de mais de 500 anos, eu inaugurar a primeira ponte entre Brasil e Bolívia; não tem explicação, depois de mais de 500 anos, eu inaugurar a primeira ponte entre Brasil e Peru”, proclamou o ex-presidente, sem ser corrigido por nenhum dos intelectuais que decoravam o ambiente. O trem inaugural da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré chegou a Guajará-Mirim em abril de 1912. Os presidentes Café Filho e Paz Estenssoro inauguraram a Estrada de Ferro Brasil-Bolívia em Santa Cruz de La Sierra, em janeiro de 1955. A Ponte da Amizade, sobre o Rio Paraná, uma ousada obra de engenharia, foi inaugurada em 1965, conectando o Paraguai às rodovias brasileiras e ao porto de Paranaguá. As pontes que Lula inaugurou estavam previstas na Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), aprovada na conferência de chefes de Estado de Brasília, em 2000, no governo FHC. De lá para cá, sob o lulismo, integração regional converteu-se em eufemismo para alianças políticas entre governantes “progressistas”.
Desde 2003, com a nomeação de Marco Aurélio Garcia como assessor especial da Presidência, a política brasileira para a América Latina foi transferida da alçada do Itamaraty para a do lulopetismo, impregnando-se de reminiscências políticas antiamericanas, terceiro-mundistas e castristas. O coquetel conduziu-nos ao impasse atual, que Lula é capaz de identificar mesmo se tenta disfarçá-lo pelo recurso à bazófia autocongratulatória.
A “Doutrina Garcia” rejeita a ideia de livre comércio, que funcionou como pilar original do Mercosul. A Argentina dos Kirchner aproveitou-se disso para violar sistematicamente as regras do Mercosul, desmontando o edifício da zona de livre comércio. No seu instituto, Lula denunciou a “preocupação maior de relação preferencial com os EUA ou com a Europa ou com qualquer um, menos entre nós mesmos”. Entretanto, na celebrada última década, a América Latina não aprofundou o comércio intrarregional, limitando-se a estabelecer uma “relação preferencial” com a China, que absorve nossas exportações de commodities. O primitivismo ideológico impede até mesmo a conclusão de um tratado comercial Brasil-México, elemento indispensável em qualquer projeto de integração latino-americana.
A “Doutrina Garcia” acalenta a utopia de uma integração impulsionada por investimentos estatais e de grandes empresas financiadas por recursos públicos. Contudo, a estratégia de expansão regional do “capitalismo de estado” brasileiro esbarrou nas resistências nacionalistas de argentinos, bolivianos e equatorianos, que assestaram sucessivos golpes em negócios conduzidos pela Petrobras e por construtoras beneficiadas por empréstimos privilegiados do BNDES. Numa dessas amargas ironias da história, o espectro do “imperialismo brasileiro” reemergiu como acusação dirigida por líderes latino-americanos “progressistas” contra o governo “progressista” de Lula.
A “Doutrina Garcia” almeja promover a liderança regional do Brasil, preservar o regime autoritário cubano e erguer uma barreira geopolítica entre América Latina e EUA. Em busca da primeira meta, o Brasil colidiu com as pretensões concorrentes da Venezuela de Hugo Chávez, que criou a Aliança Bolivariana das Américas (Alba). A concorrência entre o lulopetismo e o chavismo paralisa a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), esvaziando de conteúdo suas reuniões de cúpula. Em busca das outras duas metas, que compartilha com o chavismo, o Brasil ajudou a converter a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) numa ferramenta de proteção da ditadura castrista e de desmoralização da Carta Democrática da Organização dos Estados Americanos (OEA). Dias atrás, Cristina Kirchner definiu a ascensão de Cuba à presidência rotativa da Celac como o marco de “uma nova época na América Latina”. Ela tem razão: é o fim da curta época na qual os Estados da região levaram a sério seus proclamados compromissos com os direitos humanos e as liberdades públicas.
Distraídos, os intelectuais palacianos nada perceberam, mas a falência da “Doutrina Garcia” foi registrada no radar de Lula. De um lado, abaixo do celofane brilhante da Unasul e da Celac, desenvolve-se um processo que deveria ser batizado como a desintegração da América Latina. A principal evidência disso encontra-se na emergência da Aliança do Pacífico, uma área de livre comércio formada sem alarido por México, Colômbia, Chile e Peru, aos quais podem se juntar o Panamá e outros países centro-americanos. De outro, lenta mas inexoravelmente, desmorona a ordem castrista em Cuba, aproxima-se uma incerta transição na Venezuela chavista e dissolve-se o consenso político kirchnerista na Argentina. Quando clama por uma nova “doutrina” da integração latino-americana, o ex-presidente revela aguda consciência da encruzilhada em que se colocou a política externa brasileira.
A consciência de um problema é condição necessária, mas não suficiente, para formular suas possíveis soluções. Lula e seu cortejo de intelectuais não encontrarão uma “doutrina” substituta sem lançar ao mar o lastro de anacronismos ideológicos do lulopetismo. Isso, porém, eles não farão.
Brasil ajudou a converter a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos numa ferramenta de proteção da ditadura castrista
Lula sabe mais que os “intelectuais progressistas” reunidos em seu instituto para, nas palavras do assessor Luiz Dulci, “definir um plano de trabalho para o desenvolvimento e integração” da América Latina. Há muito reduzidos à condição de intelectuais palacianos, os convidados celebraram os “avanços” na integração regional e a miraculosa clarividência do ex-presidente. O anfitrião, contudo, pediu-lhes algo diferente da bajulação habitual: a formulação de uma “doutrina” da integração latino-americana. No décimo-primeiro ano de poder lulista, o pedido traz implícito o reconhecimento de um fracasso estrondoso de política externa — e da crise regional que se avizinha.
“Não tem explicação, depois de mais de 500 anos, eu inaugurar a primeira ponte entre Brasil e Bolívia; não tem explicação, depois de mais de 500 anos, eu inaugurar a primeira ponte entre Brasil e Peru”, proclamou o ex-presidente, sem ser corrigido por nenhum dos intelectuais que decoravam o ambiente. O trem inaugural da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré chegou a Guajará-Mirim em abril de 1912. Os presidentes Café Filho e Paz Estenssoro inauguraram a Estrada de Ferro Brasil-Bolívia em Santa Cruz de La Sierra, em janeiro de 1955. A Ponte da Amizade, sobre o Rio Paraná, uma ousada obra de engenharia, foi inaugurada em 1965, conectando o Paraguai às rodovias brasileiras e ao porto de Paranaguá. As pontes que Lula inaugurou estavam previstas na Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), aprovada na conferência de chefes de Estado de Brasília, em 2000, no governo FHC. De lá para cá, sob o lulismo, integração regional converteu-se em eufemismo para alianças políticas entre governantes “progressistas”.
Desde 2003, com a nomeação de Marco Aurélio Garcia como assessor especial da Presidência, a política brasileira para a América Latina foi transferida da alçada do Itamaraty para a do lulopetismo, impregnando-se de reminiscências políticas antiamericanas, terceiro-mundistas e castristas. O coquetel conduziu-nos ao impasse atual, que Lula é capaz de identificar mesmo se tenta disfarçá-lo pelo recurso à bazófia autocongratulatória.
A “Doutrina Garcia” rejeita a ideia de livre comércio, que funcionou como pilar original do Mercosul. A Argentina dos Kirchner aproveitou-se disso para violar sistematicamente as regras do Mercosul, desmontando o edifício da zona de livre comércio. No seu instituto, Lula denunciou a “preocupação maior de relação preferencial com os EUA ou com a Europa ou com qualquer um, menos entre nós mesmos”. Entretanto, na celebrada última década, a América Latina não aprofundou o comércio intrarregional, limitando-se a estabelecer uma “relação preferencial” com a China, que absorve nossas exportações de commodities. O primitivismo ideológico impede até mesmo a conclusão de um tratado comercial Brasil-México, elemento indispensável em qualquer projeto de integração latino-americana.
A “Doutrina Garcia” acalenta a utopia de uma integração impulsionada por investimentos estatais e de grandes empresas financiadas por recursos públicos. Contudo, a estratégia de expansão regional do “capitalismo de estado” brasileiro esbarrou nas resistências nacionalistas de argentinos, bolivianos e equatorianos, que assestaram sucessivos golpes em negócios conduzidos pela Petrobras e por construtoras beneficiadas por empréstimos privilegiados do BNDES. Numa dessas amargas ironias da história, o espectro do “imperialismo brasileiro” reemergiu como acusação dirigida por líderes latino-americanos “progressistas” contra o governo “progressista” de Lula.
A “Doutrina Garcia” almeja promover a liderança regional do Brasil, preservar o regime autoritário cubano e erguer uma barreira geopolítica entre América Latina e EUA. Em busca da primeira meta, o Brasil colidiu com as pretensões concorrentes da Venezuela de Hugo Chávez, que criou a Aliança Bolivariana das Américas (Alba). A concorrência entre o lulopetismo e o chavismo paralisa a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), esvaziando de conteúdo suas reuniões de cúpula. Em busca das outras duas metas, que compartilha com o chavismo, o Brasil ajudou a converter a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) numa ferramenta de proteção da ditadura castrista e de desmoralização da Carta Democrática da Organização dos Estados Americanos (OEA). Dias atrás, Cristina Kirchner definiu a ascensão de Cuba à presidência rotativa da Celac como o marco de “uma nova época na América Latina”. Ela tem razão: é o fim da curta época na qual os Estados da região levaram a sério seus proclamados compromissos com os direitos humanos e as liberdades públicas.
Distraídos, os intelectuais palacianos nada perceberam, mas a falência da “Doutrina Garcia” foi registrada no radar de Lula. De um lado, abaixo do celofane brilhante da Unasul e da Celac, desenvolve-se um processo que deveria ser batizado como a desintegração da América Latina. A principal evidência disso encontra-se na emergência da Aliança do Pacífico, uma área de livre comércio formada sem alarido por México, Colômbia, Chile e Peru, aos quais podem se juntar o Panamá e outros países centro-americanos. De outro, lenta mas inexoravelmente, desmorona a ordem castrista em Cuba, aproxima-se uma incerta transição na Venezuela chavista e dissolve-se o consenso político kirchnerista na Argentina. Quando clama por uma nova “doutrina” da integração latino-americana, o ex-presidente revela aguda consciência da encruzilhada em que se colocou a política externa brasileira.
A consciência de um problema é condição necessária, mas não suficiente, para formular suas possíveis soluções. Lula e seu cortejo de intelectuais não encontrarão uma “doutrina” substituta sem lançar ao mar o lastro de anacronismos ideológicos do lulopetismo. Isso, porém, eles não farão.
Conforme a música - DORA KRAMER
O ESTADO DE S. PAULO - 31/01
Enquanto pede à Procuradoria-Geral da República que investigue um ato da presidente da República que não requer investigação, pois o uso eleitoral de cadeia de rádio e televisão na semana passada foi explícito, o PSDB vai deixando de lado o que seria no momento o serviço primordial de um partido que se pretende alternativa de poder.
Os tucanos buscam abrigo nas asas do Ministério Público a fim de dar a impressão de que fazem oposição. No mais, dançam conforme a música orquestrada pela situação.
No campo em que poderiam abrir espaço para exercer o contraditório e falar à opinião pública, o Congresso Nacional, comportam-se como governistas: aceitam formalmente constrangidos a candidatura de Renan Calheiros à presidência do Senado e, na Câmara, submetem-se a um acerto feito entre PT e PMDB.
Acordo este que em tese não deveria lhes dizer respeito não falasse mais alto o medo de ficar de fora da divisão de postos na Mesa Diretora. Em nome de assentos que na prática não lhe conferem poder algum de ação devido à esmagadora submissão da maioria aos ditames do Planalto, firmam compromisso com o compadrio interno e acentuam a falta de comprometimento com a sociedade.
Três dias antes da eleição o PSDB esboçou reação por intermédio do senador Aé-cio Neves, que sugeriu ao PMDB a indicação de um nome mais apropriado, sem dizer com todos os efes e erres que gente em débito com a Justiça e com o decoro não pode comandar o Congresso.
A bancada no Senado se reúne hoje para decidir se parte para a abstenção ou se apoia o nome de Pedro Taques. Faz isso quando o quadro parece consolidado, aos 42 do segundo tempo, depois que o procurador-geral da República ofereceu denúncia contra Renan Calheiros ao Supremo Tribunal Federal e em meio a cobrança de apoio por parte do PMDB que alega ter "ajudado" os tucanos a salvar o governador Marconi Perillo na malfadada CPI do Cachoeira.
Se o PSDB pretende ganhar a próxima eleição presidencial, perdeu uma excelente oportunidade de se diferenciar da geleia geral, marcando posição num processo de troca de comando para a Câmara e o Senado que sintetiza a degradação do Legislativo.
Teria aí um bom início de afirmação partidária, mas preferiu o conforto de seus aposentos no muro do qual ensaia descer na última hora e da forma que escolheu para fazer oposição: devagar, quase parando.
Guichê. Certeiro o título de reportagem do Estado publicada nesta terça-feira sobre uma das várias legendas em processo de formação: "Candidato a partido, PROS busca clientela".
O Partido Republicano da Ordem Social, como reza o nome, não quer dizer absolutamente nada. Recolhe assinaturas (ao preço de R$ 0,25 cada) para registro na Justiça Eleitoral à cata apenas de clientes.
Para ter acesso às transações permitidas no sistema de coligações em eleições proporcionais e assim, quem sabe, chegar ao Congresso Nacional, para ter acesso às verbas do fundo partidário e ao tempo à propaganda de rádio e televisão sempre à disposição de eventuais locatários, para se transformar em mais um balcão de negócios.
Depois das maneiras desabridas com que o PSD conseguiu vasta clientela de 50 deputados, quase cinco centenas de prefeitos, e agora está prestes a indicar para um ministério no governo do PT o vice-governador na administração paulista do PSDB, tudo é permitido.
De onde a legenda aspirante não se acanhou. Aproveitou reunião de prefeitos em Brasília para panfletar sua plataforma: "Insatisfeito com seu partido? Quer sair sem perder o mandato? O PROS é a mais nova opção".
Como isca na pescaria, não exige ficha limpa. "É só assinar a ficha".
Puro Stanislaw Ponte Preta, no perigoso terreno da galhofa onde se encena o festival de besteiras que assola o País.
Os tucanos buscam abrigo nas asas do Ministério Público a fim de dar a impressão de que fazem oposição. No mais, dançam conforme a música orquestrada pela situação.
No campo em que poderiam abrir espaço para exercer o contraditório e falar à opinião pública, o Congresso Nacional, comportam-se como governistas: aceitam formalmente constrangidos a candidatura de Renan Calheiros à presidência do Senado e, na Câmara, submetem-se a um acerto feito entre PT e PMDB.
Acordo este que em tese não deveria lhes dizer respeito não falasse mais alto o medo de ficar de fora da divisão de postos na Mesa Diretora. Em nome de assentos que na prática não lhe conferem poder algum de ação devido à esmagadora submissão da maioria aos ditames do Planalto, firmam compromisso com o compadrio interno e acentuam a falta de comprometimento com a sociedade.
Três dias antes da eleição o PSDB esboçou reação por intermédio do senador Aé-cio Neves, que sugeriu ao PMDB a indicação de um nome mais apropriado, sem dizer com todos os efes e erres que gente em débito com a Justiça e com o decoro não pode comandar o Congresso.
A bancada no Senado se reúne hoje para decidir se parte para a abstenção ou se apoia o nome de Pedro Taques. Faz isso quando o quadro parece consolidado, aos 42 do segundo tempo, depois que o procurador-geral da República ofereceu denúncia contra Renan Calheiros ao Supremo Tribunal Federal e em meio a cobrança de apoio por parte do PMDB que alega ter "ajudado" os tucanos a salvar o governador Marconi Perillo na malfadada CPI do Cachoeira.
Se o PSDB pretende ganhar a próxima eleição presidencial, perdeu uma excelente oportunidade de se diferenciar da geleia geral, marcando posição num processo de troca de comando para a Câmara e o Senado que sintetiza a degradação do Legislativo.
Teria aí um bom início de afirmação partidária, mas preferiu o conforto de seus aposentos no muro do qual ensaia descer na última hora e da forma que escolheu para fazer oposição: devagar, quase parando.
Guichê. Certeiro o título de reportagem do Estado publicada nesta terça-feira sobre uma das várias legendas em processo de formação: "Candidato a partido, PROS busca clientela".
O Partido Republicano da Ordem Social, como reza o nome, não quer dizer absolutamente nada. Recolhe assinaturas (ao preço de R$ 0,25 cada) para registro na Justiça Eleitoral à cata apenas de clientes.
Para ter acesso às transações permitidas no sistema de coligações em eleições proporcionais e assim, quem sabe, chegar ao Congresso Nacional, para ter acesso às verbas do fundo partidário e ao tempo à propaganda de rádio e televisão sempre à disposição de eventuais locatários, para se transformar em mais um balcão de negócios.
Depois das maneiras desabridas com que o PSD conseguiu vasta clientela de 50 deputados, quase cinco centenas de prefeitos, e agora está prestes a indicar para um ministério no governo do PT o vice-governador na administração paulista do PSDB, tudo é permitido.
De onde a legenda aspirante não se acanhou. Aproveitou reunião de prefeitos em Brasília para panfletar sua plataforma: "Insatisfeito com seu partido? Quer sair sem perder o mandato? O PROS é a mais nova opção".
Como isca na pescaria, não exige ficha limpa. "É só assinar a ficha".
Puro Stanislaw Ponte Preta, no perigoso terreno da galhofa onde se encena o festival de besteiras que assola o País.
Vai pra casa, Renan! - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 31/01
BRASÍLIA - Apesar de não ter feito campanha ostensiva (tinha mais a esconder do que a mostrar?), o senador Renan Calheiros será lançado como fato consumado hoje para ser eleito e empossado amanhã na presidência do Senado.
Mesmo que não houvesse nada ilegal contra Renan, ele deveria desistir dessa aventura que custa caro a ele e ao Senado e custará ainda mais com a posse: se insistir, ele será alvo diário de suspeitas e até de agressões.
A "denúncia consistente" da Procuradoria-Geral da República ao Supremo, por exemplo, pairará todo o tempo sobre Renan, principalmente enquanto os jornalistas -e, portanto, os cidadãos- não descobrirem qual é exatamente o crime a que se refere. Ontem, a pressão já era enorme.
Fora do Congresso, nos gramados, manifestantes instalaram 81 kits de limpeza, cada um representando um senador, para protestar contra a volta de Renan à presidência do Senado -de onde ele saiu pelos fundos, há cinco anos, por denúncias.
Dentro, Renan era jogado ao mar pelo PSB, aliado ao Planalto, e pelo PSDB, que liberou a bancada, enquanto senadores "independentes" se reuniam em torno de Jarbas Vasconcelos e Pedro Simon (ambos PMDB), Pedro Taques (PDT) e Randolfe Rodrigues (PSOL), buscando um candidato único de oposição.
Renan, porém, continuava franco favorito, num clima em que o senador Romero Jucá tenta se agarrar desesperadamente ao osso da liderança do governo, quatro mensaleiros acumulam o mandato de deputado com condenações no Supremo e Afif Domingos (PSD) espana o terno para cumular a posição de vice-governador do tucano Alckmin com um ministério da petista Dilma.
Rui Falcão (PT) diz que a imprensa desqualifica a política e isso já levou ao nazismo e ao fascismo. Há controvérsias, colega. Quem está detonando a política e o Congresso, remetendo você para momentos históricos tão dramáticos? A imprensa ou os próprios políticos e o Congresso?
BRASÍLIA - Apesar de não ter feito campanha ostensiva (tinha mais a esconder do que a mostrar?), o senador Renan Calheiros será lançado como fato consumado hoje para ser eleito e empossado amanhã na presidência do Senado.
Mesmo que não houvesse nada ilegal contra Renan, ele deveria desistir dessa aventura que custa caro a ele e ao Senado e custará ainda mais com a posse: se insistir, ele será alvo diário de suspeitas e até de agressões.
A "denúncia consistente" da Procuradoria-Geral da República ao Supremo, por exemplo, pairará todo o tempo sobre Renan, principalmente enquanto os jornalistas -e, portanto, os cidadãos- não descobrirem qual é exatamente o crime a que se refere. Ontem, a pressão já era enorme.
Fora do Congresso, nos gramados, manifestantes instalaram 81 kits de limpeza, cada um representando um senador, para protestar contra a volta de Renan à presidência do Senado -de onde ele saiu pelos fundos, há cinco anos, por denúncias.
Dentro, Renan era jogado ao mar pelo PSB, aliado ao Planalto, e pelo PSDB, que liberou a bancada, enquanto senadores "independentes" se reuniam em torno de Jarbas Vasconcelos e Pedro Simon (ambos PMDB), Pedro Taques (PDT) e Randolfe Rodrigues (PSOL), buscando um candidato único de oposição.
Renan, porém, continuava franco favorito, num clima em que o senador Romero Jucá tenta se agarrar desesperadamente ao osso da liderança do governo, quatro mensaleiros acumulam o mandato de deputado com condenações no Supremo e Afif Domingos (PSD) espana o terno para cumular a posição de vice-governador do tucano Alckmin com um ministério da petista Dilma.
Rui Falcão (PT) diz que a imprensa desqualifica a política e isso já levou ao nazismo e ao fascismo. Há controvérsias, colega. Quem está detonando a política e o Congresso, remetendo você para momentos históricos tão dramáticos? A imprensa ou os próprios políticos e o Congresso?
Os caminhos para a educação integral - CLAUDIA COSTIN
O ESTADÃO - 31/01
Quando observamos as características da educação oferecida nos países mais bem colocados no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), um dado chama a atenção: nenhum conta com apenas quatro ou cinco horas de aula. O processo de ensino-aprendizagem demanda tempo.
Por muito tempo se pensou em organizar a jornada escolar de tempo integral nas escolas públicas apenas como forma de atender às necessidades dos pais que trabalham ou ofertar às crianças mais pobres oportunidades de utilização do tempo livre com atividades como artes e esportes, que alunos de classe média recebem naturalmente de suas famílias. Os resultados do Brasil no Pisa nos obrigam a olhar com muita seriedade para os imensos desafios que ainda devem ser enfrentados se nos quisermos colocar não apenas entre as nações com economias forte, mas também entre as que têm chances de construir um futuro melhor para as novas gerações.
Esse olhar implica ir além das expectativas imediatas dos pais e oferecer mais que um espaço seguro ou oportunidades de diversificação de repertório das crianças. Envolve a consolidação do que é básico na educação: desenvolver a capacidade de leitura, interpretação e escrita, raciocínio matemático e o fomento de mentes investigativas. Para isso, além da oferta de mais tempo na escola, deve-se trabalhar com mais tempo significativo de ensino e enriquecimento de repertório. Ou seja, a escolha não é entre oficinas pós-escola ou mais aulas, ambas são importantes.
Ao buscar um salto na qualidade da educação carioca, a partir de 2009, tínhamos consciência de que se deve iniciar o processo de transformação pela definição do que se espera que as crianças aprendam. Isto é, não iniciamos o trabalho fixando metas de escolas em tempo integral, mas estabelecendo um currículo claro e instrumentos pedagógicos a ele associados. Prosseguimos o percurso investindo em duas peças-chave para a melhoria da aprendizagem: capacitação de professores e constituição de um sistema forte de reforço escolar. Com essas medidas conseguimos avançar muito no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e em avaliações externas de que os alunos do município participam.
Nas escolas em áreas conflagradas, onde crianças e jovens são mais vulneráveis, oferecemos uma modalidade de educação em tempo integral com oficinas após as aulas, com base no Mais Educação, iniciativa interessante oferecida pelo MEC. Nelas a escola pôde selecionar, com base em critérios próprios, um grupo de alunos que frequentaram oficinas de artes, esportes e reforço escolar. Para que tudo funcionasse bem um educador comunitário acompanhava as crianças nas oficinas e fazia a ponte entre estas e as atividades mais acadêmicas. Dado o sucesso da iniciativa, resolvemos estender essa forma de estruturação do tempo integral a mais escolas, em especial as com desempenho educacional mais fraco. Mas ainda não se tratava de educação integral para todos e com uma grade curricular de tempo integral.
Assim, embora essas escolas tenham apresentado desempenho melhor, percebemos que seria fundamental estender o tempo de aula reservado ao currículo básico para podermos, de fato, dar um salto na qualidade na educação. Projeto de lei proposto na Câmara Municipal abriu uma oportunidade nessa direção. Estabelecia o projeto a exigência de pôr toda a rede, progressivamente, em período integral. Numa rede formada por 1.074 escolas, essa progressividade fazia muito sentido. Além disso, o Rio, mais que outras cidades, vive um processo acelerado de transição demográfica, dado que o número médio de filhos por mulher caiu para 1,6. Assim, se construíssemos rapidamente o número de escolas necessárias para todos estudarem em tempo integral, em pouco tempo elas estariam ociosas.
Aprovada a proposta, elaboramos um plano diretor para pôr toda a rede em turno único de sete horas de aula para escolas que atendem do 1.º ao 6.º anos e de oito horas para as que têm alunos do 7.º ao 9.º, seguidas de oficinas de artes, esportes e reforço escolar. Nesse plano não previmos só obras e contratação de professores, mas identificamos para cada território a dinâmica demográfica prevista e quantas unidades de cada tipo de escola seriam necessárias, considerando a especialização dos prédios escolares por tipo de atendimento: espaços de desenvolvimento infantil, ensino fundamental I e II.
Mas não é suficiente pôr todas as escolas em tempo integral. A carreira do professor precisa ser adequada a essa realidade. Não faz sentido ter um professor dando aulas em três escolas diferentes, ou com uma carga horária de 16 horas, se os alunos ficam o dia todo na escola. A implantação da escola em tempo integral é um bom momento para fazer cada professor se dedicar integralmente a apenas uma delas, com mais tempo para o processo de ensino e para maior interação com os alunos. Assim, a partir do final de 2010 passamos a realizar concursos apenas para professores com carga horária de 40 horas. É um grande desafio de gestão definir o sequenciamento da construção de cada escola, da lotação de professores de 40 horas, do investimento em formação para assegurar um perfil mais voltado para a formação integral do aluno, que fica agora o dia todo no ambiente escolar, e para trabalhar melhor com parceiros da comunidade que integram as oficinas pós-escola.
Esse novo perfil também inclui elementos do que Edgard Morin chamou de religação dos saberes, a possibilidade de tornar o professor o mediador do processo de aprendizagem, e não mero fornecedor de aulas, dentro de sua especialidade. Um professor mais polivalente, especialista não numa área específica, e sim profundo conhecedor de como o aluno aprende.
Esses cuidados, integrados a uma política educacional não fragmentada, com definição clara do que se espera que a criança e o adolescente aprendam, podem estar no centro do processo do salto de qualidade que o Rio e o País precisam dar. Ainda falta muito, mas já dá para enxergar o caminho, que será longo e não sem percalços.
Quando observamos as características da educação oferecida nos países mais bem colocados no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), um dado chama a atenção: nenhum conta com apenas quatro ou cinco horas de aula. O processo de ensino-aprendizagem demanda tempo.
Por muito tempo se pensou em organizar a jornada escolar de tempo integral nas escolas públicas apenas como forma de atender às necessidades dos pais que trabalham ou ofertar às crianças mais pobres oportunidades de utilização do tempo livre com atividades como artes e esportes, que alunos de classe média recebem naturalmente de suas famílias. Os resultados do Brasil no Pisa nos obrigam a olhar com muita seriedade para os imensos desafios que ainda devem ser enfrentados se nos quisermos colocar não apenas entre as nações com economias forte, mas também entre as que têm chances de construir um futuro melhor para as novas gerações.
Esse olhar implica ir além das expectativas imediatas dos pais e oferecer mais que um espaço seguro ou oportunidades de diversificação de repertório das crianças. Envolve a consolidação do que é básico na educação: desenvolver a capacidade de leitura, interpretação e escrita, raciocínio matemático e o fomento de mentes investigativas. Para isso, além da oferta de mais tempo na escola, deve-se trabalhar com mais tempo significativo de ensino e enriquecimento de repertório. Ou seja, a escolha não é entre oficinas pós-escola ou mais aulas, ambas são importantes.
Ao buscar um salto na qualidade da educação carioca, a partir de 2009, tínhamos consciência de que se deve iniciar o processo de transformação pela definição do que se espera que as crianças aprendam. Isto é, não iniciamos o trabalho fixando metas de escolas em tempo integral, mas estabelecendo um currículo claro e instrumentos pedagógicos a ele associados. Prosseguimos o percurso investindo em duas peças-chave para a melhoria da aprendizagem: capacitação de professores e constituição de um sistema forte de reforço escolar. Com essas medidas conseguimos avançar muito no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e em avaliações externas de que os alunos do município participam.
Nas escolas em áreas conflagradas, onde crianças e jovens são mais vulneráveis, oferecemos uma modalidade de educação em tempo integral com oficinas após as aulas, com base no Mais Educação, iniciativa interessante oferecida pelo MEC. Nelas a escola pôde selecionar, com base em critérios próprios, um grupo de alunos que frequentaram oficinas de artes, esportes e reforço escolar. Para que tudo funcionasse bem um educador comunitário acompanhava as crianças nas oficinas e fazia a ponte entre estas e as atividades mais acadêmicas. Dado o sucesso da iniciativa, resolvemos estender essa forma de estruturação do tempo integral a mais escolas, em especial as com desempenho educacional mais fraco. Mas ainda não se tratava de educação integral para todos e com uma grade curricular de tempo integral.
Assim, embora essas escolas tenham apresentado desempenho melhor, percebemos que seria fundamental estender o tempo de aula reservado ao currículo básico para podermos, de fato, dar um salto na qualidade na educação. Projeto de lei proposto na Câmara Municipal abriu uma oportunidade nessa direção. Estabelecia o projeto a exigência de pôr toda a rede, progressivamente, em período integral. Numa rede formada por 1.074 escolas, essa progressividade fazia muito sentido. Além disso, o Rio, mais que outras cidades, vive um processo acelerado de transição demográfica, dado que o número médio de filhos por mulher caiu para 1,6. Assim, se construíssemos rapidamente o número de escolas necessárias para todos estudarem em tempo integral, em pouco tempo elas estariam ociosas.
Aprovada a proposta, elaboramos um plano diretor para pôr toda a rede em turno único de sete horas de aula para escolas que atendem do 1.º ao 6.º anos e de oito horas para as que têm alunos do 7.º ao 9.º, seguidas de oficinas de artes, esportes e reforço escolar. Nesse plano não previmos só obras e contratação de professores, mas identificamos para cada território a dinâmica demográfica prevista e quantas unidades de cada tipo de escola seriam necessárias, considerando a especialização dos prédios escolares por tipo de atendimento: espaços de desenvolvimento infantil, ensino fundamental I e II.
Mas não é suficiente pôr todas as escolas em tempo integral. A carreira do professor precisa ser adequada a essa realidade. Não faz sentido ter um professor dando aulas em três escolas diferentes, ou com uma carga horária de 16 horas, se os alunos ficam o dia todo na escola. A implantação da escola em tempo integral é um bom momento para fazer cada professor se dedicar integralmente a apenas uma delas, com mais tempo para o processo de ensino e para maior interação com os alunos. Assim, a partir do final de 2010 passamos a realizar concursos apenas para professores com carga horária de 40 horas. É um grande desafio de gestão definir o sequenciamento da construção de cada escola, da lotação de professores de 40 horas, do investimento em formação para assegurar um perfil mais voltado para a formação integral do aluno, que fica agora o dia todo no ambiente escolar, e para trabalhar melhor com parceiros da comunidade que integram as oficinas pós-escola.
Esse novo perfil também inclui elementos do que Edgard Morin chamou de religação dos saberes, a possibilidade de tornar o professor o mediador do processo de aprendizagem, e não mero fornecedor de aulas, dentro de sua especialidade. Um professor mais polivalente, especialista não numa área específica, e sim profundo conhecedor de como o aluno aprende.
Esses cuidados, integrados a uma política educacional não fragmentada, com definição clara do que se espera que a criança e o adolescente aprendam, podem estar no centro do processo do salto de qualidade que o Rio e o País precisam dar. Ainda falta muito, mas já dá para enxergar o caminho, que será longo e não sem percalços.
O poder que recicla - ROGÉRIO GENTILE
FOLHA DE SP - 31/01
SÃO PAULO - Os senadores preparam-se para jogar um balde de água fria naqueles que acreditam que o julgamento do mensalão produzirá um efeito moralizador sobre a política brasileira. Amanhã, ao que tudo indica, Renan Calheiros (PMDB) será eleito novamente presidente do Senado por larga vantagem.
Político habilidoso, Calheiros integrou a base de apoio de todos os presidentes eleitos após a ditadura militar. Adversário de Fernando Collor em Alagoas, onde costumava chamá-lo de "príncipe herdeiro da corrupção", virou líder do seu governo na Câmara dos Deputados, em 1990.
Depois disso, ele apoiou o processo de impeachment, dirigiu uma estatal na administração Itamar Franco, foi ministro da Justiça no governo Fernando Henrique e presidente do Senado com Lula.
O auge da notoriedade de Calheiros, no entanto, ocorreu justamente na sua queda da presidência do Senado, em 2007, após ter sido acusado de bancar as despesas de sua então amante, Mônica Veloso, com dinheiro oferecido por um lobista amigo.
O escândalo acabou rendendo um famoso ensaio para a revista "Playboy" e um livro, "O Poder que Seduz", no qual Mônica revelou intimidades do casal e alguns momentos de alegria incontida do senador: "O celular tocou. Era ele [Calheiros], radiante como uma criança por ter tomado café com o presidente (...)".
Calheiros passou, então, alguns anos longe dos holofotes, tendo de saborear mais discretamente
seus cafés com os presidentes, mas ainda com bastante influência nos meandros de Brasília. Tanto assim que recebeu, entre os colegas parlamentares, o apelido de "o despachante do Senado".
Agora, para inspiração dos mensaleiros, o peemedebista retoma sua trajetória de sucesso, favoritíssimo na disputa pelo comando do Senado. Afinal, na política brasileira não existe fim da linha, não existe aterro sanitário. Qualquer um pode voltar. O tempo recicla tudo.
SÃO PAULO - Os senadores preparam-se para jogar um balde de água fria naqueles que acreditam que o julgamento do mensalão produzirá um efeito moralizador sobre a política brasileira. Amanhã, ao que tudo indica, Renan Calheiros (PMDB) será eleito novamente presidente do Senado por larga vantagem.
Político habilidoso, Calheiros integrou a base de apoio de todos os presidentes eleitos após a ditadura militar. Adversário de Fernando Collor em Alagoas, onde costumava chamá-lo de "príncipe herdeiro da corrupção", virou líder do seu governo na Câmara dos Deputados, em 1990.
Depois disso, ele apoiou o processo de impeachment, dirigiu uma estatal na administração Itamar Franco, foi ministro da Justiça no governo Fernando Henrique e presidente do Senado com Lula.
O auge da notoriedade de Calheiros, no entanto, ocorreu justamente na sua queda da presidência do Senado, em 2007, após ter sido acusado de bancar as despesas de sua então amante, Mônica Veloso, com dinheiro oferecido por um lobista amigo.
O escândalo acabou rendendo um famoso ensaio para a revista "Playboy" e um livro, "O Poder que Seduz", no qual Mônica revelou intimidades do casal e alguns momentos de alegria incontida do senador: "O celular tocou. Era ele [Calheiros], radiante como uma criança por ter tomado café com o presidente (...)".
Calheiros passou, então, alguns anos longe dos holofotes, tendo de saborear mais discretamente
seus cafés com os presidentes, mas ainda com bastante influência nos meandros de Brasília. Tanto assim que recebeu, entre os colegas parlamentares, o apelido de "o despachante do Senado".
Agora, para inspiração dos mensaleiros, o peemedebista retoma sua trajetória de sucesso, favoritíssimo na disputa pelo comando do Senado. Afinal, na política brasileira não existe fim da linha, não existe aterro sanitário. Qualquer um pode voltar. O tempo recicla tudo.
Combustíveis para crise - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 31/01
Com os aumentos de 6,6% para a gasolina e de 5,4% para o diesel, o governo piorou as perspectivas de inflação sem resolver o problema de caixa da Petrobrás. Ontem de manhã, as ações ordinárias da estatal caíram 4,5% na Bolsa de Valores de São Paulo, porque os investidores logo perceberam a insuficiência do aumento. As perdas da empresa passarão de cerca de R$ 2 bilhões por mês para cerca de R$ 1,2 bilhão, porque os valores serão insuficientes para eliminar o desajuste acumulado.
Ao mesmo tempo, especialistas começaram a calcular o impacto inflacionário dos novos preços e a confrontá-lo com o provável benefício da redução das contas de eletricidade. Para o consumidor, o resultado será um empate, segundo o economista Salomão Quadros, um dos responsáveis pela área de índices da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A resultante dos dois efeitos, positivo e negativo, será de aproximadamente 0,2 ponto porcentual e sua influência combinada nos índices de preços ao consumidor será praticamente nula.
A tentativa de atenuar o impacto do aumento dos combustíveis afetará as contas públicas. O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, confirmou ontem o compromisso, acertado há semanas com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, de manter as tarifas de ônibus sem reajuste até junho. O governador de São Paulo havia prometido adiar a elevação dos bilhetes de metrô. Autoridades federais haviam pedido ajuda também aos governos carioca e fluminense. Além disso, a própria administração federal será duplamente afetada pela manutenção dos subsídios ao consumo de combustíveis - pelo custo da operação e pelo atraso da agenda energética, por causa da perda de capacidade financeira da Petrobrás.
Mais uma vez, portanto, a presidente Dilma Rousseff e seus ministros da área econômica embolam objetivos e instrumentos de política e agravam os problemas do próprio governo. Ao insistir nesse caminho, as autoridades negam o próprio discurso, prolongando e agravando a disparidade entre ações e palavras.
Ainda ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou o uso do câmbio no combate à inflação. Só a política monetária é adequada para conter a alta de preços, disse o ministro, mencionando como exemplo os juros e referindo-se genericamente a outros mecanismos do Banco Central (como alteração dos depósitos compulsórios e outras medidas para regulação da oferta de dinheiro). Poderia ter acrescentado a austeridade fiscal como fator favorável à estabilidade de preços. A afirmação sobre o papel da política monetária é sensata, mas as palavras sobre a atuação efetiva das autoridades são obviamente falsas.
Em vez de combater a inflação pelos meios adequados, a presidente e seus ministros tentam administrar os índices, adiando politicamente os aumentos de preços dos combustíveis, pedindo ajuda a governos estaduais e municipais para adiar o ajuste de tarifas e reduzindo de forma voluntarista a conta de luz, sem levar em conta as necessidades financeiras da Petrobrás, da Eletrobrás e de outras empresas do setor energético.
Não se trata de defender a lucratividade dessas empresas, mas de levar em conta os custos efetivos e as necessidades de investimento para destravar uma economia emperrada. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prejudicou a saúde financeira da Petrobrás e sua capacidade de elaboração e de execução de projetos ao usá-la em benefício de sua imagem popular e de seu prestígio internacional. Também comprometeu a gestão do setor elétrico loteando seus postos mais importantes e liquidando os restos de sua capacidade de planejamento. Os apagões e miniapagões frequentes são parte da herança maldita deixada na área da infraestrutura.
A presidente Dilma Rousseff mostrou-se consciente dos danos causados à Petrobrás por seu antecessor. Mas é incapaz de renegar essa herança e de mudar de rumo, porque ela mesma carrega o vírus do populismo voluntarista. São características evidenciadas quando ela controla os preços dos combustíveis, barateia bens duráveis pela redução temporária de impostos e, ao mesmo tempo, força a baixa dos juros.
Prioridade da política econômica deve ser investimento - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 31/01
Os gastos de custeio do governo federal continuaram se expandindo de forma indesejável durante o ano de 2012, para o qual já se esperava frustração nas receitas
O Brasil não foi sugado pela crise que se abateu sobre várias economias importantes do planeta e isso chegou a atrair a atenção dos meios econômicos e dos mercados que influenciam diretamente a decisão de investidores pelo mundo afora. Mas, desde o ano passado, a economia brasileira passou a figurar nas manchetes negativas de renomados veículos especializados em finanças. Na reunião do Forum Econômico Mundial, que se realiza em Davos, na Suíça, foram poucas as menções à economia brasileira, e nem sempre abonadoras.
Tal mudança de humor pode estar refletindo a perda de dinamismo que se observou nos últimos dois anos. E certamente contribuiu para isso uma série de decisões tomadas pelo governo, começando pela equivocada alteração do modelo de concessões para exploração e produção de petróleo em novas áreas. Hoje, a percepção dos mercados é que tem havido um desmonte nos pilares que sustentaram o processo de ajuste da economia brasileira.
Para recuperar dinamismo, a economia brasileira depende agora de um incremento substancial nos investimentos. E para isso, os investidores precisam ter confiança no futuro. Na ata da mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central deixou claro que pouco pode fazer agora para controlar a inflação pelo lado da demanda, pois, em sua análise, as deficiências de oferta respondem por grande parte da alta de preços.
Essas deficiências de oferta estão relacionadas a investimentos de menos tanto na cadeia produtiva como na infraestrutura, na qual a participação do setor público ainda se faz necessária, até porque o governo só aos poucos retoma os programas de concessões no segmento de transportes, por exemplo.
A julgar pelo comportamento das contas federais no ano passado, o governo não tem conseguido priorizar os investimentos como deveria. Os gastos com custeio do governo central continuaram aumentando mais do que recomendado para um ano em que a arrecadação enfraqueceu, seja pela queda de ritmo da atividade econômica, seja pelo impacto imediato de uma série de desonerações tributárias. Enquanto os gastos se expandiram em 11%, as receitas avançaram 6%.
São fatos como esses que desgastam a imagem da política econômica. E para agravar esse quadro, o governo recorreu a uma conta de chegar, no apagar das luzes do exercício fiscal, para que o resultado de 2012 se aproximasse das metas inicialmente propostas para 2012.
Espera-se que em 2013 essa experiência frustrante não se repita, e que o governo verdadeiramente priorize os investimentos e controle de fato os gastos de custeio. Sem isso, a imagem da política econômica continuará se desgastando, o que não é nada bom para o país. Pessimismo de investidores hoje é garantia de mais problemas no futuro.
Os gastos de custeio do governo federal continuaram se expandindo de forma indesejável durante o ano de 2012, para o qual já se esperava frustração nas receitas
O Brasil não foi sugado pela crise que se abateu sobre várias economias importantes do planeta e isso chegou a atrair a atenção dos meios econômicos e dos mercados que influenciam diretamente a decisão de investidores pelo mundo afora. Mas, desde o ano passado, a economia brasileira passou a figurar nas manchetes negativas de renomados veículos especializados em finanças. Na reunião do Forum Econômico Mundial, que se realiza em Davos, na Suíça, foram poucas as menções à economia brasileira, e nem sempre abonadoras.
Tal mudança de humor pode estar refletindo a perda de dinamismo que se observou nos últimos dois anos. E certamente contribuiu para isso uma série de decisões tomadas pelo governo, começando pela equivocada alteração do modelo de concessões para exploração e produção de petróleo em novas áreas. Hoje, a percepção dos mercados é que tem havido um desmonte nos pilares que sustentaram o processo de ajuste da economia brasileira.
Para recuperar dinamismo, a economia brasileira depende agora de um incremento substancial nos investimentos. E para isso, os investidores precisam ter confiança no futuro. Na ata da mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central deixou claro que pouco pode fazer agora para controlar a inflação pelo lado da demanda, pois, em sua análise, as deficiências de oferta respondem por grande parte da alta de preços.
Essas deficiências de oferta estão relacionadas a investimentos de menos tanto na cadeia produtiva como na infraestrutura, na qual a participação do setor público ainda se faz necessária, até porque o governo só aos poucos retoma os programas de concessões no segmento de transportes, por exemplo.
A julgar pelo comportamento das contas federais no ano passado, o governo não tem conseguido priorizar os investimentos como deveria. Os gastos com custeio do governo central continuaram aumentando mais do que recomendado para um ano em que a arrecadação enfraqueceu, seja pela queda de ritmo da atividade econômica, seja pelo impacto imediato de uma série de desonerações tributárias. Enquanto os gastos se expandiram em 11%, as receitas avançaram 6%.
São fatos como esses que desgastam a imagem da política econômica. E para agravar esse quadro, o governo recorreu a uma conta de chegar, no apagar das luzes do exercício fiscal, para que o resultado de 2012 se aproximasse das metas inicialmente propostas para 2012.
Espera-se que em 2013 essa experiência frustrante não se repita, e que o governo verdadeiramente priorize os investimentos e controle de fato os gastos de custeio. Sem isso, a imagem da política econômica continuará se desgastando, o que não é nada bom para o país. Pessimismo de investidores hoje é garantia de mais problemas no futuro.
Alívio passageiro - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 31/01
Aumento de combustíveis traz folga momentânea à Petrobras, cujo desempenho continuará prejudicado pela interferência do Planalto
Há quase sete anos, em abril de 2006, num prenúncio da euforia com as descobertas do pré-sal, o então presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, enterrou R$ 37 milhões numa campanha publicitária laudatória da autossuficiência alcançada pelo país.
De lá para cá, o entusiasmo evaporou, assim como os resultados da Petrobras. A instrumentalização da maior empresa do país como arma de propaganda governista deu no que não poderia deixar de dar: deterioração acelerada do desempenho da companhia.
Não só a autossuficiência não livrou o Brasil do deficit na balança comercial de combustíveis como o país vem importando quantidades crescentes deles -sobretudo gasolina, que é vendida no mercado interno por preços inferiores aos do mercado internacional, defasagem que causa prejuízos bilionários à petroleira.
Não é com o aumento da gasolina e do diesel para distribuidores (6,6% e 5,4%, respectivamente) anunciado anteontem, contudo, que a Petrobras se verá livre da sangria. O reajuste ficou longe de zerar a defasagem. As estimativas variam, mas ela ainda estaria, após a alta, na faixa de 7% a 15% de diferença entre os preços domésticos e os internacionais.
O prejuízo mensal da Petrobras com esses combustíveis, calculado em cerca de R$ 2 bilhões, cairia para algo mais próximo de R$ 1 bilhão. Ainda assim, um subsídio considerável para seu consumo, bancado por uma empresa que deveria lutar por resultados melhores para apresentar aos acionistas.
Na segunda-feira devem ser divulgados os novos números do desempenho da Petrobras, e as expectativas são pessimistas -espera-se o anúncio de queda na produção de petróleo em 2012, por exemplo. O próprio reajuste dos combustíveis, acredita-se, teria sido um expediente para contrabalançar as más notícias iminentes.
Outro fator que explica o momento escolhido para o aumento é a inflação. O governo federal -que representa o acionista controlador da Petrobras, a União- vinha represando o preço dos combustíveis para evitar a alta dos índices. A folga obtida com a redução das tarifas de energia elétrica, anunciada há uma semana pela presidente Dilma Rousseff, permitiu acomodar a majoração que traz algum alívio para a petroleira.
Há indicações de que Graça Foster, presidente da estatal, defendia alta maior para a gasolina, da ordem de 7,5%. Teve de contentar-se com 6,6% (que devem resultar em cerca de 4,6% para o consumidor).
Não será a primeira nem a última vez em que a Petrobras submete o interesse dos acionistas particulares aos interesses do Planalto.
Aumento de combustíveis traz folga momentânea à Petrobras, cujo desempenho continuará prejudicado pela interferência do Planalto
Há quase sete anos, em abril de 2006, num prenúncio da euforia com as descobertas do pré-sal, o então presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, enterrou R$ 37 milhões numa campanha publicitária laudatória da autossuficiência alcançada pelo país.
De lá para cá, o entusiasmo evaporou, assim como os resultados da Petrobras. A instrumentalização da maior empresa do país como arma de propaganda governista deu no que não poderia deixar de dar: deterioração acelerada do desempenho da companhia.
Não só a autossuficiência não livrou o Brasil do deficit na balança comercial de combustíveis como o país vem importando quantidades crescentes deles -sobretudo gasolina, que é vendida no mercado interno por preços inferiores aos do mercado internacional, defasagem que causa prejuízos bilionários à petroleira.
Não é com o aumento da gasolina e do diesel para distribuidores (6,6% e 5,4%, respectivamente) anunciado anteontem, contudo, que a Petrobras se verá livre da sangria. O reajuste ficou longe de zerar a defasagem. As estimativas variam, mas ela ainda estaria, após a alta, na faixa de 7% a 15% de diferença entre os preços domésticos e os internacionais.
O prejuízo mensal da Petrobras com esses combustíveis, calculado em cerca de R$ 2 bilhões, cairia para algo mais próximo de R$ 1 bilhão. Ainda assim, um subsídio considerável para seu consumo, bancado por uma empresa que deveria lutar por resultados melhores para apresentar aos acionistas.
Na segunda-feira devem ser divulgados os novos números do desempenho da Petrobras, e as expectativas são pessimistas -espera-se o anúncio de queda na produção de petróleo em 2012, por exemplo. O próprio reajuste dos combustíveis, acredita-se, teria sido um expediente para contrabalançar as más notícias iminentes.
Outro fator que explica o momento escolhido para o aumento é a inflação. O governo federal -que representa o acionista controlador da Petrobras, a União- vinha represando o preço dos combustíveis para evitar a alta dos índices. A folga obtida com a redução das tarifas de energia elétrica, anunciada há uma semana pela presidente Dilma Rousseff, permitiu acomodar a majoração que traz algum alívio para a petroleira.
Há indicações de que Graça Foster, presidente da estatal, defendia alta maior para a gasolina, da ordem de 7,5%. Teve de contentar-se com 6,6% (que devem resultar em cerca de 4,6% para o consumidor).
Não será a primeira nem a última vez em que a Petrobras submete o interesse dos acionistas particulares aos interesses do Planalto.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“É uma pequena correção que não vai atrapalhar ninguém”
Ministro Guido Mantega (Fazenda) sobre o reajuste no preço dos combustíveis
COMO RENAN, TAQUES TAMBÉM É ALVO DE DENÚNCIA
Candidato à presidência do Senado, Pedro Taques (PDT-MT) também enfrenta graves acusações, a exemplo do rival Renan Calheiros (PMDB-AL). Ele trava uma batalha judicial contra um jornalista de Cuiabá, José Marcondes, o “Muvuca”, que o acusou de haver beneficiado, como procurador, a “máfia dos combustíveis” em Mato Grosso, cuja retribuição teria sido generosa doação à sua campanha.
VÍNCULO
A mulher do senador Pedro Taques atua no escritório de advocacia que defende os interesses do SindPetroleo, do comércio de combustíveis.
REAÇÃO NA JUSTIÇA
Pedro Taques reagiu com indignação e processa “Muvuca”. Reafirma sua defesa da liberdade de imprensa, “mas com responsabilidade”.
NÃO ATRAPALHA
Guido Mantega (Fazenda) acha que o reajuste dos combustíveis não atrapalha ninguém. Não no caso dele, que usa carro oficial, claro.
‘MISINFIO’
Rui Falcão, chefe do PT, vai ao “balaio ecológico” (“despacho” para Iemanjá), sábado, em Salvador. Os petistas estão mesmo precisados...
SENADO ECONOMIZARÁ R$ 80 MILHÕES COM REFORMA
O relator da reforma administrativa do Senado, Ciro Nogueira (PP-PI), já concluiu o seu trabalho, e vai provocar alvoroço. A racionalização do trabalho que ele propõe deverá promover uma economia de ao menos R$ 80 milhões para o contribuinte. E acabará uma polêmica reserva de mercado: o cargo de chefe de gabinete não será mais privativo de servidor de carreira, poderá ser ocupado por funcionário comissionado.
BOMBA!
O jornal Granma deu “furo”: exibiu Lula lendo (!) a versão espanhola de Os últimos soldados da Guerra Fria, com o autor, Fernando Morais.
DAQUI NÃO SAIO
O deputado Cesar Halum (PSD-TO) garante não sofrer pressão para abrir vaga ao suplente do PMDB: “Só saio da Casa se o povo me tirar”.
MENDES FICA
O PT aposta que a minirreforma da presidente Dilma não afetará a permanência de Mendes Ribeiro (PMDB) no Ministério da Agricultura.
CASA DE NOCA
Alvará no Brasil é papel de embrulho: a Prefeitura de Vitória multou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária por manter posto sem licença para funcionar. Se o governo federal faz, dono de boate também pode.
SEM NOÇÃO
O folheto de apresentação da boate Kiss na internet mostra os bares vips, as instalações, a decoração, a noite da “vodca dupla”, menos a sinalização de emergência, as portas de saída e extintores de incêndio.
INVENÇÃO CRUEL
A Polícia Federal investiga um site de inspiração nazi-fascista como autor da invenção de que o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) seria o dono oculto da boate Kiss. Ele mora em Santa Maria e conhece várias famílias enlutadas, por isso a acusação é particularmente cruel.
VISÃO AFETADA
Os médicos proibiram o senador Luiz Henrique (PMDB-SC) de trabalhar. Ele retornou de visita ao Haiti e a Cuba, no início do mês, com uma infecção nos olhos que evoluiu para úlcera na córnea. Renan Calheiros (PMDB-AL) não foi acusado de provocar a infecção.
Ainda.
VAPT-VUPT
A ministra Carmem Lúcia indeferiu a liminar do desembargador Bernardo Garcez Neto questionando a posse “ilegal” e “sem eleição” da nova presidente do TRE do Rio, Letícia Sardas. Garcez vai recorrer.
CIDADÃO ENGANADO
Ao comentar a descoberta de que a energia aumentou antes da redução anunciada pela presidente Dilma Rousseff, o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) concluiu que “o governo trocou a caneta pela caixa de maquiagem; o cidadão está sendo enganado, iludido”.
HERANÇA MALDITA
A traulitada silenciosa do aumento da gasolina após o festejado discurso de Dilma reduzindo a tarifa de luz, lembra o estilo do ex-ministro Rubem Ricupero: “O que é ruim a gente esconde”.
ARMADILHA DO DESTINO
Deve chegar à Itália hoje o corpo de Nicola Fumagalli, italiano que se jogou da janela de um hotel, sábado (26), em Brasília, após participar de ritual do Santo Daime na comunidade Jardim Juramidam, em Goiás.
PENSANDO BEM...
...só no Brasil desconto vem com aumento.
PODER SEM PUDOR
MOTIVO PARA ROMPIMENTO
- Quero comunicar a São Paulo que rompi com o governador Adhemar de Barros - anunciou certa vez o inefável deputado Salomão Jorge.
- Por que, deputado? - quis saber um repórter.
- Ele fez chover no quintal dos meus adversários.
- E o que ele fez com o senhor?
- No meu quintal, ele abriu o guarda-chuva...
Ministro Guido Mantega (Fazenda) sobre o reajuste no preço dos combustíveis
COMO RENAN, TAQUES TAMBÉM É ALVO DE DENÚNCIA
Candidato à presidência do Senado, Pedro Taques (PDT-MT) também enfrenta graves acusações, a exemplo do rival Renan Calheiros (PMDB-AL). Ele trava uma batalha judicial contra um jornalista de Cuiabá, José Marcondes, o “Muvuca”, que o acusou de haver beneficiado, como procurador, a “máfia dos combustíveis” em Mato Grosso, cuja retribuição teria sido generosa doação à sua campanha.
VÍNCULO
A mulher do senador Pedro Taques atua no escritório de advocacia que defende os interesses do SindPetroleo, do comércio de combustíveis.
REAÇÃO NA JUSTIÇA
Pedro Taques reagiu com indignação e processa “Muvuca”. Reafirma sua defesa da liberdade de imprensa, “mas com responsabilidade”.
NÃO ATRAPALHA
Guido Mantega (Fazenda) acha que o reajuste dos combustíveis não atrapalha ninguém. Não no caso dele, que usa carro oficial, claro.
‘MISINFIO’
Rui Falcão, chefe do PT, vai ao “balaio ecológico” (“despacho” para Iemanjá), sábado, em Salvador. Os petistas estão mesmo precisados...
SENADO ECONOMIZARÁ R$ 80 MILHÕES COM REFORMA
O relator da reforma administrativa do Senado, Ciro Nogueira (PP-PI), já concluiu o seu trabalho, e vai provocar alvoroço. A racionalização do trabalho que ele propõe deverá promover uma economia de ao menos R$ 80 milhões para o contribuinte. E acabará uma polêmica reserva de mercado: o cargo de chefe de gabinete não será mais privativo de servidor de carreira, poderá ser ocupado por funcionário comissionado.
BOMBA!
O jornal Granma deu “furo”: exibiu Lula lendo (!) a versão espanhola de Os últimos soldados da Guerra Fria, com o autor, Fernando Morais.
DAQUI NÃO SAIO
O deputado Cesar Halum (PSD-TO) garante não sofrer pressão para abrir vaga ao suplente do PMDB: “Só saio da Casa se o povo me tirar”.
MENDES FICA
O PT aposta que a minirreforma da presidente Dilma não afetará a permanência de Mendes Ribeiro (PMDB) no Ministério da Agricultura.
CASA DE NOCA
Alvará no Brasil é papel de embrulho: a Prefeitura de Vitória multou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária por manter posto sem licença para funcionar. Se o governo federal faz, dono de boate também pode.
SEM NOÇÃO
O folheto de apresentação da boate Kiss na internet mostra os bares vips, as instalações, a decoração, a noite da “vodca dupla”, menos a sinalização de emergência, as portas de saída e extintores de incêndio.
INVENÇÃO CRUEL
A Polícia Federal investiga um site de inspiração nazi-fascista como autor da invenção de que o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) seria o dono oculto da boate Kiss. Ele mora em Santa Maria e conhece várias famílias enlutadas, por isso a acusação é particularmente cruel.
VISÃO AFETADA
Os médicos proibiram o senador Luiz Henrique (PMDB-SC) de trabalhar. Ele retornou de visita ao Haiti e a Cuba, no início do mês, com uma infecção nos olhos que evoluiu para úlcera na córnea. Renan Calheiros (PMDB-AL) não foi acusado de provocar a infecção.
Ainda.
VAPT-VUPT
A ministra Carmem Lúcia indeferiu a liminar do desembargador Bernardo Garcez Neto questionando a posse “ilegal” e “sem eleição” da nova presidente do TRE do Rio, Letícia Sardas. Garcez vai recorrer.
CIDADÃO ENGANADO
Ao comentar a descoberta de que a energia aumentou antes da redução anunciada pela presidente Dilma Rousseff, o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) concluiu que “o governo trocou a caneta pela caixa de maquiagem; o cidadão está sendo enganado, iludido”.
HERANÇA MALDITA
A traulitada silenciosa do aumento da gasolina após o festejado discurso de Dilma reduzindo a tarifa de luz, lembra o estilo do ex-ministro Rubem Ricupero: “O que é ruim a gente esconde”.
ARMADILHA DO DESTINO
Deve chegar à Itália hoje o corpo de Nicola Fumagalli, italiano que se jogou da janela de um hotel, sábado (26), em Brasília, após participar de ritual do Santo Daime na comunidade Jardim Juramidam, em Goiás.
PENSANDO BEM...
...só no Brasil desconto vem com aumento.
PODER SEM PUDOR
MOTIVO PARA ROMPIMENTO
- Quero comunicar a São Paulo que rompi com o governador Adhemar de Barros - anunciou certa vez o inefável deputado Salomão Jorge.
- Por que, deputado? - quis saber um repórter.
- Ele fez chover no quintal dos meus adversários.
- E o que ele fez com o senhor?
- No meu quintal, ele abriu o guarda-chuva...
QUINTA NOS JORNAIS
- Globo: Depois da tragédia de Santa Maria – Rio tem 49 espaços culturais sem alvará.
- Folha: Haddad promete avaliar segurança de boate em 90 dias
- Estadão: Governo eleva a 25% mistura de etanol na gasolina
- Correio: Impunidade, a segunda tragédia
- Valor: Liquidez cresce e frigoríficos captam US$ 2 bi no exterior
- Estado de Minas: Fiscalização em BH não tem data para começar
- Zero Hora: Empresa de bombeiros executou obra contra incêndio em boate
quarta-feira, janeiro 30, 2013
Empatia - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 30/01
As pessoas se preocupam em ser simpáticas, mas pouco se esforçam para ser empáticas, e algumas talvez nem saibam direito o que o termo significa. Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, de compreendê-lo emocionalmente. Vai muito além da identificação. Podemos até não sintonizar com alguém, mas nada impede que entendamos as razões pelas quais ele se comporta de determinado jeito, o que o faz sofrer, os direitos que ele tem.
Nada impede?
Foi força de expressão. O narcisismo, por exemplo, impede a empatia. A pessoa é tão autofocada, que para ela só existem dois tipos de gente: os seus iguais e o resto, sendo que o resto não merece um segundo olhar. Narciso acha feio o que não é espelho.
Ele se retroalimenta de aplausos, elogios e concordâncias, e assim vai erguendo uma parede que o blinda contra qualquer sentimento que não lhe diga respeito. Se pisam no seu pé, reclama e exige que os holofotes se voltem para essa agressão gravíssima. Se pisarem no pé do outro, é porque o outro fez por merecer.
Afora o narcisismo, existe outro impedimento para a empatia: a ignorância. Pessoas que não circulam, não possuem amigos, não se informam, não leem, enfim, pessoas que não abrem seus horizontes tornam-se preconceituosas e mantêm-se na estreiteza da sua existência. Qualquer estranho que possua hábitos diferentes será criticado em vez de respeitado. Os ignorantes têm medo do desconhecido.
E afora o narcisismo e a ignorância, há o mau-caratismo daqueles que, mesmo tendo o dever de pensar no bem público, colocam seus próprios interesses acima do de todos, e aí os exemplos se empilham: políticos corruptos, empresários que só visam ao lucro sem respeitar a legislação, pessoas que “compram” vagas de emprego e de estudo que deveriam ser conquistadas através dos trâmites usuais, sem falar em atitudes prosaicas como furar fila, estacionar em vaga para deficientes, terminar namoros pelo Facebook, faltar compromissos sem avisar antes, enfim, aquelas “coisinhas” que se faz no automático sem pensar que há alguém do outro lado do balcão que irá se sentir prejudicado ou magoado.
É um assunto recorrente: precisamos de mais gentileza etc. e tal. Para muitos, puxar uma cadeira para a moça sentar ou juntar um pacote que alguém deixou cair, basta. Sim, somos todos gentis, mas colocar-se no lugar do outro vai muito além da polidez e é o que realmente pode melhorar o mundo em que vivemos. A cada pequeno gesto diário, a cada decisão que tomamos, estamos interferindo na vida alheia. Logo, sejamos mais empáticos do que simpáticos.
Ninguém espera que você e eu passemos a agir como heróis ou santos, apenas que tenhamos consciência de que só desenvolvendo a empatia é que se cria uma corrente de acertos e de responsabilidade – colocar-se no lugar do outro não é uma simples gentileza que se faz, é a solução para sairmos dessa barbárie disfarçada e sermos uma sociedade civilizada de fato.
As pessoas se preocupam em ser simpáticas, mas pouco se esforçam para ser empáticas, e algumas talvez nem saibam direito o que o termo significa. Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, de compreendê-lo emocionalmente. Vai muito além da identificação. Podemos até não sintonizar com alguém, mas nada impede que entendamos as razões pelas quais ele se comporta de determinado jeito, o que o faz sofrer, os direitos que ele tem.
Nada impede?
Foi força de expressão. O narcisismo, por exemplo, impede a empatia. A pessoa é tão autofocada, que para ela só existem dois tipos de gente: os seus iguais e o resto, sendo que o resto não merece um segundo olhar. Narciso acha feio o que não é espelho.
Ele se retroalimenta de aplausos, elogios e concordâncias, e assim vai erguendo uma parede que o blinda contra qualquer sentimento que não lhe diga respeito. Se pisam no seu pé, reclama e exige que os holofotes se voltem para essa agressão gravíssima. Se pisarem no pé do outro, é porque o outro fez por merecer.
Afora o narcisismo, existe outro impedimento para a empatia: a ignorância. Pessoas que não circulam, não possuem amigos, não se informam, não leem, enfim, pessoas que não abrem seus horizontes tornam-se preconceituosas e mantêm-se na estreiteza da sua existência. Qualquer estranho que possua hábitos diferentes será criticado em vez de respeitado. Os ignorantes têm medo do desconhecido.
E afora o narcisismo e a ignorância, há o mau-caratismo daqueles que, mesmo tendo o dever de pensar no bem público, colocam seus próprios interesses acima do de todos, e aí os exemplos se empilham: políticos corruptos, empresários que só visam ao lucro sem respeitar a legislação, pessoas que “compram” vagas de emprego e de estudo que deveriam ser conquistadas através dos trâmites usuais, sem falar em atitudes prosaicas como furar fila, estacionar em vaga para deficientes, terminar namoros pelo Facebook, faltar compromissos sem avisar antes, enfim, aquelas “coisinhas” que se faz no automático sem pensar que há alguém do outro lado do balcão que irá se sentir prejudicado ou magoado.
É um assunto recorrente: precisamos de mais gentileza etc. e tal. Para muitos, puxar uma cadeira para a moça sentar ou juntar um pacote que alguém deixou cair, basta. Sim, somos todos gentis, mas colocar-se no lugar do outro vai muito além da polidez e é o que realmente pode melhorar o mundo em que vivemos. A cada pequeno gesto diário, a cada decisão que tomamos, estamos interferindo na vida alheia. Logo, sejamos mais empáticos do que simpáticos.
Ninguém espera que você e eu passemos a agir como heróis ou santos, apenas que tenhamos consciência de que só desenvolvendo a empatia é que se cria uma corrente de acertos e de responsabilidade – colocar-se no lugar do outro não é uma simples gentileza que se faz, é a solução para sairmos dessa barbárie disfarçada e sermos uma sociedade civilizada de fato.
Liga contra o futebol - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 30/01
Aliás...
Deve pegar fogo o debate sobre escritores como Graciliano Ramos e Lima Barreto, que repudiaram a chegada do futebol ao país. O autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma” chegou a cogitar fundar uma liga contra o futebol. Lima, nacionalista, dizia que o futebol era um esporte aristocrático inglês. Fazia sentido.
Alegria, alegria
Cada um dos dez vice-presidentes da antiga gestão do Flamengo tinha direito a um camarote no Engenhão. Todos com bufê. A nova diretoria devolveu oito camarotes. Além disso, cortou 500 ingressos da torcida.
Lá e cá
Veja como nas empresas americanas há uma cultura de prevenção de acidentes. No fim dos anos 1980, funcionários da Esso, no Rio, eram proibidos de agendar eventos em casas de espetáculo que não preenchiam condições de segurança satisfatórias. Entre elas, o antigo Canecão.
No mais...
Ontem pela manhã, foras da lei motorizados, como de costume, fugiram do engarrafamento em São Conrado, em direção ao Túnel Zuzu Angel, usando o acostamento. O Brasil só será um país civilizado, capaz de evitar tragédias maiores como a da boate em Santa Maria, quando a gente parar de achar que o problema é sempre o outro.
O PAPEL MAIS DIFÍCIL DE DIECKMANN
Carolina Dieckmann, a atriz carioca de 34 anos que acaba de se despedir de sua personagem Jéssica, na novela “Salve Jorge”, posa para a nova edição da “Contigo!”. Com os cabelos longos, ela brinca com o tempo em que Jéssica ficou na trama da TV Globo: “Acho que nunca houve uma participação especial de tanto sucesso. E foi meu papel mais difícil, sem dúvida”
Rio é o Brasil na Copa
Apedido do Ministério do Esporte, a FSB Pesquisa ouviu cem jornalistas esportivos de dez países sobre a Copa do Mundo no Brasil. Perguntou qual cidade-sede eles gostariam de visitar.
A preferida foi... o Rio, disparada.
Brasil no Oscar
Um filme brasileiro faturou o prêmio de “melhor série étnica” do AVN Awards, nos EUA, o Oscar do... cinema pornô.
Foi com o, digamos, longa “Show de...” deixa pra lá.
Quem vem
Burt Bacharach, maestro, compositor e arranjador americano, 84 anos, apresenta-se no Vivo Rio dia 18 de abril e, dia 20, no HSBC Brasil, em São Paulo. Ele teve sua música interpretada por cantores famosos como Dionne Warwick e Aretha Franklin, além de ter sido pianista e maestro de Marlene Dietrich.
Diário de Justiça
A 7ª Câmara Cível do Rio julga hoje o caso de uma filha que cobra pensão do pai. Maior de idade, a moça perdeu em primeira instância. Agora, a defesa dela tenta provar que o pai abusou sexualmente da filha.
A volta de Tim aos EUA
Finalmente os EUA se rendem ao talento de Tim Maia. Logo ele que, em vida, foi flagrado, na Flórida, num carro roubado, fumando maconha. Depois de cumprir cana de seis meses, foi deportado. Seu disco “Nobody can live forever”, lançado pela Luaka Bop, de David Byrne, foi bem aceito pelo “New York Times”.
Segue...
O Síndico virou matéria na “New Yorker”, que aborda a época em que Tim morou em Tarrytown, a 40 quilômetros de Nova York, entre 1959 e 1964. Lá, ficou conhecido como “Jimmy, the brazilian”. Aborda ainda o sucesso do musical sobre Tim Maia, baseado na biografia de Nelson Motta.
Zé Dirceu na ABI
A ABI afirma não ter ligação com o debate sobre o mensalão, hoje, com a presença de Zé Dirceu, na entidade. Diz que apenas alugou o espaço para o Sindipetro.
Zona Franca
O ministro Aldo Rebelo dará posse amanhã, às 12h, em Brasília, no cargo de Secretário Nacional de Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor ao coleguinha Antonio José Carvalho do Nascimento Filho, o Toninho Nascimento.
Antonio Wanderley, após 14 anos como diretor de desenvolvimento de negócios internacionais do Ibope em Miami, assume a diretoria executiva de marketing do instituto no Brasil.
Marisa Manfredini é a diretora-geral da Grande Festa do Samba, hoje, no Imperator.
O Baile Glamurama será dia 15, no MAM, no Rio.
Sérgio Valente festeja os 15 anos de seu restaurante Bon Grill, hoje.
Mauro Magalhães recebeu ontem do presidente da Amar, Luis Igrejas, medalha pelos 30 anos da Associação da Barra da Tijuca.
Ponto Final
Há quem diga que já tem banqueiro pensando em ir às ruas lançar a campanha “Volta, Lula!”
Pureza armada - MARCELO COELHO
FOLHA DE SP - 30/01
Qualquer transgressão é apresentada como direito; se roubaram você, responda roubando também
A notícia, que saiu no UOL há algum tempo, tinha me deixado curioso. Alguém em Brasília encaminhou pedido ao Ministério Público para que "O Livro Maldito" (editora BestSeller) tivesse sua venda proibida no país.
Os motivos para essa interdição estariam até mesmo na contracapa do volume. O autor, Christopher Lee Barish, promete ensinar uma série de coisas proibidas.
"Assalte um banco." "Arrombe fechaduras." "Forje a própria morte." "Minta para um polígrafo."
E outras coisas, "muito, mas muito piores", promete a contracapa. Fui ver.
A maior parte das transgressões de "O Livro Maldito" tende para o café pequeno. "Como não limpar o cocô de seu cachorro", "como burlar máquinas de refrigerante" ou "como escapar de ser jurado num tribunal" não constituem objetivos tão diabólicos assim.
Uma seção especial, destinada "a criminosos", promete ensinar os incautos a falsificar dinheiro, a entrar para a máfia e a contrabandear drogas.
Mas basta ler um pouquinho para perceber que o propósito de "O Livro Maldito" é humorístico e que nenhuma das suas informações seria capaz de garantir por mais de meia hora a sobrevivência do leitor no mundo do crime.
O interessante, na verdade, está em ver que tipo de humorismo é esse.
Veja-se como começa o capítulo sobre como enganar uma máquina de refrigerantes.
"Quantas vezes, ao longo da vida, você já foi roubado por uma dessas máquinas?" Elas "passaram a perna em você -e agora está na hora de dar o troco", diz o autor.
Segue-se uma impraticável explicação de como colar uma fita adesiva dos dois lados de uma cédula de dinheiro, deixando um rabicho para puxá-la de volta.
O essencial -e tão tipicamente americano, aliás, quanto o uso cotidiano dessas máquinas- está no gênero de argumentos utilizado pelo autor.
Em resumo, qualquer transgressão é apresentada como um direito legítimo. Se roubaram você, responda roubando também.
Outro exemplo. Se um guarda de trânsito pretende multá-lo por excesso de velocidade, "pergunte sobre o radar dele", recomenda o livro. Isso porque em muitos lugares dos Estados Unidos é lícito exigir do guarda o certificado de aferição do aparelho.
O autor também oferece muitas razões "legítimas" para nos instruir a roubar no jogo de dados. O cassino vive de arrancar nosso dinheiro; "a única maneira boa de se vingar é tomando o dinheiro dele".
As dicas do livro a esse respeito são obviamente delirantes: "pratique jogar dados colocando para cima os números que você quer", e "lance-os de tal maneira que não haja muita rotação".
Ah, bom. Muito obrigado. Agora estou pronto para a desforra.
Tantas reparações imaginárias contra "os verdadeiros ladrões" têm, na verdade, um pressuposto até ingênuo.
A ideia, especialmente estranha para nós brasileiros, é a de que o cidadão é em sua essência honesto e, sobretudo, detentor de direitos. É em defesa desses direitos que ele encontra justificativa para quebrar a lei; a boa notícia está no fato de que, em última análise -como no caso das multas de trânsito-, o próprio sistema judiciário facilita esse tipo de comportamento.
No Brasil, tudo teria de ser escrito ao inverso. Estamos culturalmente preparados para um estado de culpa, e não de inocência. Se apanhados em alguma transgressão, nossa tendência será dizer que todo mundo faz o mesmo.
Nos Estados Unidos, pelo menos através das lentes satíricas de "O Livro Maldito", a atitude é outra: que autoridade tem o guarda para me acusar de alguma coisa?
Sem ser especialmente engraçado, muito menos útil, e menos ainda pernicioso, o livro de Christopher Barish ajuda a entender um pouco dos aspectos mais misteriosos da psique americana.
A partir desse pressuposto da inocência e do recurso à ilegalidade como um direito dos cidadãos, fica mais clara, por exemplo, a estranha atitude de tantos americanos com relação à posse de armas de fogo.
Eles se batem por um direito que, em qualquer outro país, passa por um evidente e patológico desejo homicida. Liberar a compra de metralhadoras? No Brasil ou no Canadá, um "princípio" desses constitui o mais rematado absurdo.
É preciso acreditar muito na própria inocência, sem dúvida, para fazer tanta questão de possuir um arsenal dentro de casa. Dizer-se roubado, fazer-se de vítima, ver o crime nas intenções dos outros -eis, na verdade, um bom caminho para se tornar criminoso também.
Qualquer transgressão é apresentada como direito; se roubaram você, responda roubando também
A notícia, que saiu no UOL há algum tempo, tinha me deixado curioso. Alguém em Brasília encaminhou pedido ao Ministério Público para que "O Livro Maldito" (editora BestSeller) tivesse sua venda proibida no país.
Os motivos para essa interdição estariam até mesmo na contracapa do volume. O autor, Christopher Lee Barish, promete ensinar uma série de coisas proibidas.
"Assalte um banco." "Arrombe fechaduras." "Forje a própria morte." "Minta para um polígrafo."
E outras coisas, "muito, mas muito piores", promete a contracapa. Fui ver.
A maior parte das transgressões de "O Livro Maldito" tende para o café pequeno. "Como não limpar o cocô de seu cachorro", "como burlar máquinas de refrigerante" ou "como escapar de ser jurado num tribunal" não constituem objetivos tão diabólicos assim.
Uma seção especial, destinada "a criminosos", promete ensinar os incautos a falsificar dinheiro, a entrar para a máfia e a contrabandear drogas.
Mas basta ler um pouquinho para perceber que o propósito de "O Livro Maldito" é humorístico e que nenhuma das suas informações seria capaz de garantir por mais de meia hora a sobrevivência do leitor no mundo do crime.
O interessante, na verdade, está em ver que tipo de humorismo é esse.
Veja-se como começa o capítulo sobre como enganar uma máquina de refrigerantes.
"Quantas vezes, ao longo da vida, você já foi roubado por uma dessas máquinas?" Elas "passaram a perna em você -e agora está na hora de dar o troco", diz o autor.
Segue-se uma impraticável explicação de como colar uma fita adesiva dos dois lados de uma cédula de dinheiro, deixando um rabicho para puxá-la de volta.
O essencial -e tão tipicamente americano, aliás, quanto o uso cotidiano dessas máquinas- está no gênero de argumentos utilizado pelo autor.
Em resumo, qualquer transgressão é apresentada como um direito legítimo. Se roubaram você, responda roubando também.
Outro exemplo. Se um guarda de trânsito pretende multá-lo por excesso de velocidade, "pergunte sobre o radar dele", recomenda o livro. Isso porque em muitos lugares dos Estados Unidos é lícito exigir do guarda o certificado de aferição do aparelho.
O autor também oferece muitas razões "legítimas" para nos instruir a roubar no jogo de dados. O cassino vive de arrancar nosso dinheiro; "a única maneira boa de se vingar é tomando o dinheiro dele".
As dicas do livro a esse respeito são obviamente delirantes: "pratique jogar dados colocando para cima os números que você quer", e "lance-os de tal maneira que não haja muita rotação".
Ah, bom. Muito obrigado. Agora estou pronto para a desforra.
Tantas reparações imaginárias contra "os verdadeiros ladrões" têm, na verdade, um pressuposto até ingênuo.
A ideia, especialmente estranha para nós brasileiros, é a de que o cidadão é em sua essência honesto e, sobretudo, detentor de direitos. É em defesa desses direitos que ele encontra justificativa para quebrar a lei; a boa notícia está no fato de que, em última análise -como no caso das multas de trânsito-, o próprio sistema judiciário facilita esse tipo de comportamento.
No Brasil, tudo teria de ser escrito ao inverso. Estamos culturalmente preparados para um estado de culpa, e não de inocência. Se apanhados em alguma transgressão, nossa tendência será dizer que todo mundo faz o mesmo.
Nos Estados Unidos, pelo menos através das lentes satíricas de "O Livro Maldito", a atitude é outra: que autoridade tem o guarda para me acusar de alguma coisa?
Sem ser especialmente engraçado, muito menos útil, e menos ainda pernicioso, o livro de Christopher Barish ajuda a entender um pouco dos aspectos mais misteriosos da psique americana.
A partir desse pressuposto da inocência e do recurso à ilegalidade como um direito dos cidadãos, fica mais clara, por exemplo, a estranha atitude de tantos americanos com relação à posse de armas de fogo.
Eles se batem por um direito que, em qualquer outro país, passa por um evidente e patológico desejo homicida. Liberar a compra de metralhadoras? No Brasil ou no Canadá, um "princípio" desses constitui o mais rematado absurdo.
É preciso acreditar muito na própria inocência, sem dúvida, para fazer tanta questão de possuir um arsenal dentro de casa. Dizer-se roubado, fazer-se de vítima, ver o crime nas intenções dos outros -eis, na verdade, um bom caminho para se tornar criminoso também.
O nome da culpa - ZUENIR VENTURA
O Globo - 30/01
No Brasil, as tragédias anunciadas ou previsíveis ocasionadas por descaso e imprevidência recebem todas o mesmo nome: fatalidade. Assim são classificados as chuvas e os desabamentos que matam centenas de pessoas a cada verão, assim também foi qualificado o incêndio da boate de Santa Maria por seus donos. Em nota, eles afirmam "a bem da verdade" que a empresa estava em "situação regular", com o "sistema de proteção e combate contra incêndio aprovado pelo Corpo de Bombeiros". Se estava tudo bem, nada fora de ordem, se as normas de segurança eram rigorosamente cumpridas, é fácil atribuir a responsabilidade à "fatalidade". Portanto, a conclusão cínica é que ao destino deve ser debitado tudo o que contribuiu para a morte de 230 pessoas e ferimentos em mais de 100: superlotação, plano de prevenção vencido, inexistência de saída de emergência, artefatos pirotécnicos com fogos de artifício, uso de revestimento acústico altamente inflamável, falta de fiscalização. Em suma, como disse o delegado logo após as primeiras investigações, "a boate Kiss não podia estar funcionando".
A bem da verdade mesmo, o nome para a culpa por esse e outros episódios trágicos não é fatalidade, mas impunidade, uma espécie de mãe de todos os vícios nacionais, não apenas da corrupção. Aqui se faz e aqui em geral não se paga. Pode-se alegar que incêndios em boates acontecem em toda parte - no Japão, na China, na Europa, na Argentina. De fato. Mas a diferença é que em Buenos Aires, por exemplo, tragédia semelhante ocorrida em 2004, com 194 mortos, levou o dono à prisão por anos e provocou mudanças drásticas no sistema de segurança das casas noturnas. Aqui, há 52 anos houve o incêndio do circo de Niterói, o maior da história. A comoção geral, a repercussão internacional, a mobilização das autoridades (o então presidente Jango visitou as vítimas, o Papa enviou mensagem de solidariedade, houve jogo com Pelé e Garrincha), a indignação e o clamor popular foram parecidos com a reação de agora. Acreditava-se que a morte de mais de 500 pessoas iria pelo menos servir de lição, pois as autoridades prometeram logo "rigorosa apuração da culpa" e medidas enérgicas de segurança.
Mais ou menos como naquela época, as inúmeras promessas de providências estão disputando espaço no noticiário com o relato da dor dos que ficaram. Governadores e prefeitos anunciam varreduras e em algumas cidades estabelecimentos já foram interditados por falta de segurança. Por que só agora? De qualquer maneira, vamos esquecer que as providências já deveriam ter sido tomadas muito antes, pois mais do que legislação o que falta é aplicação da lei e fiscalização, e vamos torcer para que dessa vez a tragédia sirva realmente de lição.
No Brasil, as tragédias anunciadas ou previsíveis ocasionadas por descaso e imprevidência recebem todas o mesmo nome: fatalidade. Assim são classificados as chuvas e os desabamentos que matam centenas de pessoas a cada verão, assim também foi qualificado o incêndio da boate de Santa Maria por seus donos. Em nota, eles afirmam "a bem da verdade" que a empresa estava em "situação regular", com o "sistema de proteção e combate contra incêndio aprovado pelo Corpo de Bombeiros". Se estava tudo bem, nada fora de ordem, se as normas de segurança eram rigorosamente cumpridas, é fácil atribuir a responsabilidade à "fatalidade". Portanto, a conclusão cínica é que ao destino deve ser debitado tudo o que contribuiu para a morte de 230 pessoas e ferimentos em mais de 100: superlotação, plano de prevenção vencido, inexistência de saída de emergência, artefatos pirotécnicos com fogos de artifício, uso de revestimento acústico altamente inflamável, falta de fiscalização. Em suma, como disse o delegado logo após as primeiras investigações, "a boate Kiss não podia estar funcionando".
A bem da verdade mesmo, o nome para a culpa por esse e outros episódios trágicos não é fatalidade, mas impunidade, uma espécie de mãe de todos os vícios nacionais, não apenas da corrupção. Aqui se faz e aqui em geral não se paga. Pode-se alegar que incêndios em boates acontecem em toda parte - no Japão, na China, na Europa, na Argentina. De fato. Mas a diferença é que em Buenos Aires, por exemplo, tragédia semelhante ocorrida em 2004, com 194 mortos, levou o dono à prisão por anos e provocou mudanças drásticas no sistema de segurança das casas noturnas. Aqui, há 52 anos houve o incêndio do circo de Niterói, o maior da história. A comoção geral, a repercussão internacional, a mobilização das autoridades (o então presidente Jango visitou as vítimas, o Papa enviou mensagem de solidariedade, houve jogo com Pelé e Garrincha), a indignação e o clamor popular foram parecidos com a reação de agora. Acreditava-se que a morte de mais de 500 pessoas iria pelo menos servir de lição, pois as autoridades prometeram logo "rigorosa apuração da culpa" e medidas enérgicas de segurança.
Mais ou menos como naquela época, as inúmeras promessas de providências estão disputando espaço no noticiário com o relato da dor dos que ficaram. Governadores e prefeitos anunciam varreduras e em algumas cidades estabelecimentos já foram interditados por falta de segurança. Por que só agora? De qualquer maneira, vamos esquecer que as providências já deveriam ter sido tomadas muito antes, pois mais do que legislação o que falta é aplicação da lei e fiscalização, e vamos torcer para que dessa vez a tragédia sirva realmente de lição.
Ueba! O Lincoln era mensaleiro! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 30/01
E sair pra balada virou trauma: ou você tem problemas com a segurança ou com os seguranças!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Piada pronta direto de Uberlândia: "Bandidos tentam explodir caixa eletrônico no bairro Granada". E esta: "Pastor abusava de fiéis dizendo que tinha pênis abençoado". E sabe como é o nome do pastor? PICANTO! Valdei Picanto. Além de abençoado, canta. Rarará!
E o pensamento do dia: "Justin Bieber parece um chocalho -faz um barulho irritante, mas as crianças adoram". E aquela Val Marchiori parece uma pomba gira: se veste de preto e vermelho e só bebe!
E sair pra balada virou trauma: ou você tem problemas com a segurança ou com os seguranças! A segurança é uma tragédia e ainda apanha dos seguranças! É verdade! Eu já vi 300 mil vídeos de cliente apanhando de seguranças na calçada! Ou na pista mesmo!
E a manchete do Piauí Herald: "PSDB quer processar Lincoln como pioneiro do mensalão". Eu assisti "Lincoln" e rolou um "mensalation" mesmo! O inventor do mensalão não foram nem os tucanos mineiros nem os petistas, foi Lincoln!
E socuerro! Me bate uma vitamina de abacate com Red Bull. Chegou a Globelesma! A Globeleza parece a estátua do Oscar sambando! Aliás, a estatueta do Oscar é mais sexy. Aliás, a estatueta do Oscar é gay: dourada, marombada e com uma espada na mão!
O Carnaval chegou! Já recebi a música daquele bloco carioca Já Comi Pior Pagando! Isso não é um bloco, é uma verdade insofismável. Rarará! E aquele bloco de Belém, Filhos de Glande, anunciou que o tema deste ano é Tim Maia: Ereção Racional. Sendo que a coisa mais irracional do mundo é uma ereção!
E sabe o que eu vi ontem na televisão? Uma escola de samba mineira: as passistas são de fora, o mestre-sala dança no Municipal e o mestre de bateria dá aula no conservatório! Só faltou o leque e o chá! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!
O Brasil é Lúdico! Olha esta promoção de gasolina em Barbacena, Minas: "Acumulando R$ 300 em abastecimento, ganhe um pão com linguiça". Aí você enche os dois tanques. Rarará!
E esta placa no banheiro dum estacionamento em São Vicente: "Super-homem, favor mirar o valente dentro do vaso sanitário. Obrigado!!!". Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
E sair pra balada virou trauma: ou você tem problemas com a segurança ou com os seguranças!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Piada pronta direto de Uberlândia: "Bandidos tentam explodir caixa eletrônico no bairro Granada". E esta: "Pastor abusava de fiéis dizendo que tinha pênis abençoado". E sabe como é o nome do pastor? PICANTO! Valdei Picanto. Além de abençoado, canta. Rarará!
E o pensamento do dia: "Justin Bieber parece um chocalho -faz um barulho irritante, mas as crianças adoram". E aquela Val Marchiori parece uma pomba gira: se veste de preto e vermelho e só bebe!
E sair pra balada virou trauma: ou você tem problemas com a segurança ou com os seguranças! A segurança é uma tragédia e ainda apanha dos seguranças! É verdade! Eu já vi 300 mil vídeos de cliente apanhando de seguranças na calçada! Ou na pista mesmo!
E a manchete do Piauí Herald: "PSDB quer processar Lincoln como pioneiro do mensalão". Eu assisti "Lincoln" e rolou um "mensalation" mesmo! O inventor do mensalão não foram nem os tucanos mineiros nem os petistas, foi Lincoln!
E socuerro! Me bate uma vitamina de abacate com Red Bull. Chegou a Globelesma! A Globeleza parece a estátua do Oscar sambando! Aliás, a estatueta do Oscar é mais sexy. Aliás, a estatueta do Oscar é gay: dourada, marombada e com uma espada na mão!
O Carnaval chegou! Já recebi a música daquele bloco carioca Já Comi Pior Pagando! Isso não é um bloco, é uma verdade insofismável. Rarará! E aquele bloco de Belém, Filhos de Glande, anunciou que o tema deste ano é Tim Maia: Ereção Racional. Sendo que a coisa mais irracional do mundo é uma ereção!
E sabe o que eu vi ontem na televisão? Uma escola de samba mineira: as passistas são de fora, o mestre-sala dança no Municipal e o mestre de bateria dá aula no conservatório! Só faltou o leque e o chá! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!
O Brasil é Lúdico! Olha esta promoção de gasolina em Barbacena, Minas: "Acumulando R$ 300 em abastecimento, ganhe um pão com linguiça". Aí você enche os dois tanques. Rarará!
E esta placa no banheiro dum estacionamento em São Vicente: "Super-homem, favor mirar o valente dentro do vaso sanitário. Obrigado!!!". Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Duas grandes mentiras - TOSTÃO
FOLHA DE SP - 30/01
Continuam as discussões sobre as vantagens e as desvantagens de sediar a Copa do Mundo no Brasil
Os otimistas e a turma do oba-oba, que, às vezes, se confundem, falam que 498 dias são mais que suficientes para se formar uma grande seleção, que Felipão e Parreira são os únicos capazes de suportar a pressão de comandar uma Copa no Brasil, que, em casa, o Brasil é o principal favorito, e que a seleção possui Neymar e vários outros grandes craques.
Os realistas, críticos, também chamados de pessimistas, dizem que não haverá nenhum legado técnico após a Copa de 2014, mesmo se o Brasil for campeão, que o futebol brasileiro, fora raras exceções, como o Corinthians, desaprendeu a jogar coletivamente, que o Brasil só tem um grande craque, Neymar, e que há outras seleções melhores.
Os otimistas e a turma do oba-oba falam que o dinheiro do BNDES não é público, que é comum os estádios ficarem mais caros que o previsto, que nenhum se tornará elefante branco, porque são arenas multiúso, que os novos estádios e gramados vão melhorar a qualidade do futebol e que o desalojamento de famílias e a desapropriação de bens públicos foram exigências da Fifa.
Os realistas e críticos dizem que quase todos os estádios são construídos com dinheiro público (financiamento do BNDES, diminuição de impostos e outras vantagens), que os estádios de Brasília, Cuiabá e Manaus serão elefantes brancos, que os estádios existem para se jogar futebol e, depois, serem sedes de outros eventos, e não o contrário, que quase todos estão superfaturados, com enorme variação de preços, e que, por ser caríssima a manutenção, não serão rentáveis, a não ser que os ingressos sejam muito caros.
Os otimistas e a turma do oba-oba falam que haverá um grande legado à população, que o turismo será beneficiado, que não haverá confusão em aeroportos, no período da Copa, porque diminuirá bastante o número de passageiros habituais.
Os realistas e críticos falam que os aeroportos continuarão tumultuados, desorganizados, superlotados, que a maioria das obras perto e ao lado dos estádios, o tão falado legado da mobilidade urbana, não ficará pronta ou já está cancelada e que o dinheiro público para outras obras urgentes e importantes, para os setores de saúde, transporte, saneamento básico e infraestrutura, foi transferido para o Mundial.
Não tenho dúvidas de que os estádios estarão prontos e lindos, que temos condições de fazer uma Copa tão ou mais organizada que a da África do Sul, que o torcedor vai curtir uma grande festa, ainda mais se o Brasil avançar na competição e for campeão, mas não podemos fechar os olhos a tantos absurdos, a tanto gasto desnecessário e excessivo e a duas grandes mentiras, a de que não haveria dinheiro público e a de que a Copa deixará um grande legado social e urbano à população.
Continuam as discussões sobre as vantagens e as desvantagens de sediar a Copa do Mundo no Brasil
Os otimistas e a turma do oba-oba, que, às vezes, se confundem, falam que 498 dias são mais que suficientes para se formar uma grande seleção, que Felipão e Parreira são os únicos capazes de suportar a pressão de comandar uma Copa no Brasil, que, em casa, o Brasil é o principal favorito, e que a seleção possui Neymar e vários outros grandes craques.
Os realistas, críticos, também chamados de pessimistas, dizem que não haverá nenhum legado técnico após a Copa de 2014, mesmo se o Brasil for campeão, que o futebol brasileiro, fora raras exceções, como o Corinthians, desaprendeu a jogar coletivamente, que o Brasil só tem um grande craque, Neymar, e que há outras seleções melhores.
Os otimistas e a turma do oba-oba falam que o dinheiro do BNDES não é público, que é comum os estádios ficarem mais caros que o previsto, que nenhum se tornará elefante branco, porque são arenas multiúso, que os novos estádios e gramados vão melhorar a qualidade do futebol e que o desalojamento de famílias e a desapropriação de bens públicos foram exigências da Fifa.
Os realistas e críticos dizem que quase todos os estádios são construídos com dinheiro público (financiamento do BNDES, diminuição de impostos e outras vantagens), que os estádios de Brasília, Cuiabá e Manaus serão elefantes brancos, que os estádios existem para se jogar futebol e, depois, serem sedes de outros eventos, e não o contrário, que quase todos estão superfaturados, com enorme variação de preços, e que, por ser caríssima a manutenção, não serão rentáveis, a não ser que os ingressos sejam muito caros.
Os otimistas e a turma do oba-oba falam que haverá um grande legado à população, que o turismo será beneficiado, que não haverá confusão em aeroportos, no período da Copa, porque diminuirá bastante o número de passageiros habituais.
Os realistas e críticos falam que os aeroportos continuarão tumultuados, desorganizados, superlotados, que a maioria das obras perto e ao lado dos estádios, o tão falado legado da mobilidade urbana, não ficará pronta ou já está cancelada e que o dinheiro público para outras obras urgentes e importantes, para os setores de saúde, transporte, saneamento básico e infraestrutura, foi transferido para o Mundial.
Não tenho dúvidas de que os estádios estarão prontos e lindos, que temos condições de fazer uma Copa tão ou mais organizada que a da África do Sul, que o torcedor vai curtir uma grande festa, ainda mais se o Brasil avançar na competição e for campeão, mas não podemos fechar os olhos a tantos absurdos, a tanto gasto desnecessário e excessivo e a duas grandes mentiras, a de que não haveria dinheiro público e a de que a Copa deixará um grande legado social e urbano à população.
Posição delicada do Brasil no mercado do petróleo - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADÃO - 30/01
O relatório do mercado de petróleo divulgado em 18 de janeiro pela Agência Internacional de Energia (IEA) mostrou que a demanda global da commodity superou as expectativas e deverá atingir a média de 90,8 milhões de barris/dia neste ano, 240 mil acima do que foi previsto em novembro e 930 mil barris/dia acima da média de 2012. "Os mercados estão mais apertados do que esperávamos", segundo os especialistas em petróleo da IEA.
O aumento da demanda é um ligeiro sinal de reativação da economia global. Não há sinais de desequilíbrio entre a demanda e a oferta (média de 91,2 milhões de barris/dia, em dezembro). Mas, com a queda das exportações de petróleo da Arábia Saudita e do Iraque, os preços tenderam à alta. Entre 28/12 e 28/1, de fato, houve uma elevação média de 3,4% nas cotações do petróleo tipo Brent, de US$ 110,84 para US$ 114,69. O maior responsável pela demanda é a China, cuja economia dá sinais de retomada.
O Brasil não está em situação favorável, no curto prazo. A IEA estima que a produção média do País, neste ano, será de 2,27 milhões de barris/dia. Mas, apesar do início da produção de novos campos, três fatores limitarão a oferta: parada para manutenção da plataforma P-53, do Campo de Roncador, em fevereiro, e da P-40, no Campo de Marlim, em abril; a expectativa de que o programa de eficiência da Petrobrás (Proef), que pretende sustentar a produção no médio prazo, resulte em diminuição da extração, no primeiro semestre; e, enfim, o atraso já previsto da retomada da produção do Campo de Frade e do início da operação do Campo Papa Terra - para o primeiro trimestre de 2014. O efeito líquido negativo sobre a produção deste ano é estimado em 80 mil barris/dia.
Ao mesmo tempo, o Brasil vem se destacando entre os maiores consumidores de petróleo do mundo, com elevação da demanda de 155 mil barris/dia no quarto trimestre do ano passado, em relação a igual período de 2011. O aumento do consumo no País só foi inferior ao da China, e semelhante ao dos Estados Unidos. O Brasil é, agora, o 6.º maior consumidor mundial de petróleo, ocupando o lugar que era da Arábia Saudita.
Não há o que comemorar, pois, segundo notícia do jornal Valor, a área de abastecimento da Petrobrás perde mensalmente R$ 1,8 bilhão (foram R$ 21,7 bilhões, em 12 meses, até setembro de 2012), porque o País importa gasolina e óleo diesel por preço superior ao que vende, subsidiando o consumo. A continuação desse prejuízo torna provável que a estatal tenha de adiar os investimentos no pré-sal.
O relatório do mercado de petróleo divulgado em 18 de janeiro pela Agência Internacional de Energia (IEA) mostrou que a demanda global da commodity superou as expectativas e deverá atingir a média de 90,8 milhões de barris/dia neste ano, 240 mil acima do que foi previsto em novembro e 930 mil barris/dia acima da média de 2012. "Os mercados estão mais apertados do que esperávamos", segundo os especialistas em petróleo da IEA.
O aumento da demanda é um ligeiro sinal de reativação da economia global. Não há sinais de desequilíbrio entre a demanda e a oferta (média de 91,2 milhões de barris/dia, em dezembro). Mas, com a queda das exportações de petróleo da Arábia Saudita e do Iraque, os preços tenderam à alta. Entre 28/12 e 28/1, de fato, houve uma elevação média de 3,4% nas cotações do petróleo tipo Brent, de US$ 110,84 para US$ 114,69. O maior responsável pela demanda é a China, cuja economia dá sinais de retomada.
O Brasil não está em situação favorável, no curto prazo. A IEA estima que a produção média do País, neste ano, será de 2,27 milhões de barris/dia. Mas, apesar do início da produção de novos campos, três fatores limitarão a oferta: parada para manutenção da plataforma P-53, do Campo de Roncador, em fevereiro, e da P-40, no Campo de Marlim, em abril; a expectativa de que o programa de eficiência da Petrobrás (Proef), que pretende sustentar a produção no médio prazo, resulte em diminuição da extração, no primeiro semestre; e, enfim, o atraso já previsto da retomada da produção do Campo de Frade e do início da operação do Campo Papa Terra - para o primeiro trimestre de 2014. O efeito líquido negativo sobre a produção deste ano é estimado em 80 mil barris/dia.
Ao mesmo tempo, o Brasil vem se destacando entre os maiores consumidores de petróleo do mundo, com elevação da demanda de 155 mil barris/dia no quarto trimestre do ano passado, em relação a igual período de 2011. O aumento do consumo no País só foi inferior ao da China, e semelhante ao dos Estados Unidos. O Brasil é, agora, o 6.º maior consumidor mundial de petróleo, ocupando o lugar que era da Arábia Saudita.
Não há o que comemorar, pois, segundo notícia do jornal Valor, a área de abastecimento da Petrobrás perde mensalmente R$ 1,8 bilhão (foram R$ 21,7 bilhões, em 12 meses, até setembro de 2012), porque o País importa gasolina e óleo diesel por preço superior ao que vende, subsidiando o consumo. A continuação desse prejuízo torna provável que a estatal tenha de adiar os investimentos no pré-sal.
Aguardando a pedida - ROSÂNGELA BITTAR
Valor Econômico - 30/01
Definida mesmo para 2014, até o momento, só a candidatura de Dilma Rousseff à reeleição. O que não significa que não poderá desistir a favor de Luiz Inácio Lula da Silva, que haverá uma candidatura única no campo governista, que o governador Eduardo Campos está fora do páreo para ceder ao PT, que uma vez iniciada a campanha de Dilma, como já está, todo mundo vai correr atrás. Podem todos ficar parados olhando, enquanto se preparam. Significa, apenas, que Dilma está em campanha, acelerada e marquetada. Ela entrou em ebulição a uma distância do pleito semelhante àquela que Lula estabeleceu para iniciar a corrida efetiva da sua primeira eleição, em 2010: dois anos antes.
Lula e Eduardo Campos, na aliança de governo, Aécio Neves e Marina Silva, na oposição, encontram-se na situação, como no pôquer, de aguardar as pedidas. Medem-se de corpo inteiro.
Um interlocutor assíduo do ex-presidente Lula acha risível a conclusão dos apressados de que ele desistiu mesmo a favor de Dilma, prova disso seria seu silêncio e discrição, no momento, depois de orientá-la a correr o país e aproximar-se mais do PT. O ex-presidente mergulhou, sim, mas foi após o seu mais recente revés, o da revelação de suas ligações com protagonista do esquema de corrupção montado no escritório da Presidência da República em São Paulo. Que, por sua vez, surgiu logo depois de um depoimento do publicitário Marcos Valério tê-lo colocado no centro do mensalão. Até para Lula foi demais, ficou mudo e discreto.
Não significados da embolada governista
Mas logo que pôde botar a cara na janela, embora ainda em silêncio, no modelo da candidatura Renan à presidência do Senado, o fez. Reuniu-se com a presidente Dilma e tratou do esquema eleitoral.
A campanha de Dilma será intensificada a partir de agora, embora já tenha começado em decibéis elevados e no Brasil inteiro.
Lula, porém, está no jogo, e o PT está tranquilo porque foi convencido disso. A avaliação corrente é que está cedo para Lula se expor e que a discrição do momento, em que começa uma campanha pelo exterior para restabelecer sua imagem interna e não obscurecer a campanha de Dilma e evitar cobranças, não significa que tenha se conformado à posição de ex. "Está cedo para a candidatura dele ser posta, mas ele está no jogo", diz um amigo e frequentador do Instituto.
Também não é uma divisão de espaço formal, feita de forma combinada com Dilma. Pode parecer, mas não é, garante o interlocutor. Tudo é subentendido e cada passo é dado naturalmente, ditado pelo bom senso, sob orientação de Lula.
Também o governador de Pernambuco está na mesma situação: aguarda as pedidas. Só que ele, ao contrário de Lula, não diz objetivamente que não será candidato. Deixa a especulação rolar com evidente cupidez, estimula as candidatura do seu campo político à presidência da Câmara, não desestimula ninguém e deixa-se vislumbrar numa possível candidatura de reconhecimento em 2014, deixando a aliança com o governo para o segundo turno. Visita Lula, visita Dilma, não diz que é candidato nem que não é. E não precisa dizer, mas é candidatíssimo.
O melhor a fazer, para as candidaturas que se opõem a essa embolada governista, é se dedicarem a uma preparação não amadora para o embate real mais à frente. Marina Silva está dando os primeiros passos, quer criar um partido. Mas e Aécio?
A; campanha do senador Renan Calheiros para ser eleito presidente do Senado e, como consequência, do Congresso Nacional, transformando-se em chefe supremo do Poder Legislativo, depois de renunciar ao cargo para evitar perda de mandato por falta de decoro, só atua às claras junto ao baixo clero. Calheiros tem recebido senadores suplentes com suas mulheres em casa, na praia de Barra de São Miguel, em Alagoas. Para o alto clero ele nem admite candidatura, para não se expor. Por recomendação de especialistas, só emergirá, talvez, na sessão de votação. Os senadores descontentes com este destino estavam entregues ao desconforto da má sorte, sem condições de reagir, quando, nos dois últimos dias, líderes consagrados começaram a fazer um apelo candente ao candidato, só ele capaz de resolver o problema da coletividade retirando sua candidatura. Eduardo Suplicy (PT) implorou anteontem ao senador que não se candidate; Aécio Neves (PSDB) fez o mesmo, ontem, um apelo à desistência. Os dois partidos estavam, até agora, recomendando voto em Renan. Portanto, um problema que se resolve facilmente: é só retirar a recomendação e votar contra.
Quando se imaginava que não era mais possível piorar a imagem do Senado Federal, há anos ao rés do chão, seu presidente, José Sarney, nas últimas horas de seu mandato, decidiu jogar a pá de cal. O impasse na regulação das transferências do Fundo de Participação dos Estados (FPE) só tem um responsável, o Congresso Nacional, a quem foi dado um tempo amplo, geral e excessivo para fazer nova norma antes que a antiga, prorrogada até 31 de dezembro de 2012, expirasse. Não o fez, a regulação findou e o governo começou a repassar recursos sem regras até que o Supremo Tribunal Federal analisasse o pedido de mais uma prorrogação do esquema provisório de repasses. Para atender aos Estados, o ministro Ricardo Lewandowski (STF), no exercício da presidência, durante o recesso judiciário, prorrogou por mais 150 dias a tolerância para a ausência de regulação da transferência. Como reagiu Sarney?
Disse que não está obrigado a cumprir a decisão de Lewandowski e não se submeterá à "pressão" do Supremo. E ainda fingiu-se de desentendido, como está na moda, dizendo que o Supremo estava mesmo era determinando prazo para o Executivo, "responsável pelos repasses", e não para o Congresso, responsável pela nova norma de partilha. "Ele não dá prazo ao Congresso. Ele apenas mantem a decisão de um nova regulamentação do fundo e diz que durante cinco meses serão mantidas as mesmas regras. É mais dirigido ao Poder Executivo, de manter a transferência de acordo com os índices da antiga distribuição", diz, levando o contorcionismo ao sofisma máximo.
Definida mesmo para 2014, até o momento, só a candidatura de Dilma Rousseff à reeleição. O que não significa que não poderá desistir a favor de Luiz Inácio Lula da Silva, que haverá uma candidatura única no campo governista, que o governador Eduardo Campos está fora do páreo para ceder ao PT, que uma vez iniciada a campanha de Dilma, como já está, todo mundo vai correr atrás. Podem todos ficar parados olhando, enquanto se preparam. Significa, apenas, que Dilma está em campanha, acelerada e marquetada. Ela entrou em ebulição a uma distância do pleito semelhante àquela que Lula estabeleceu para iniciar a corrida efetiva da sua primeira eleição, em 2010: dois anos antes.
Lula e Eduardo Campos, na aliança de governo, Aécio Neves e Marina Silva, na oposição, encontram-se na situação, como no pôquer, de aguardar as pedidas. Medem-se de corpo inteiro.
Um interlocutor assíduo do ex-presidente Lula acha risível a conclusão dos apressados de que ele desistiu mesmo a favor de Dilma, prova disso seria seu silêncio e discrição, no momento, depois de orientá-la a correr o país e aproximar-se mais do PT. O ex-presidente mergulhou, sim, mas foi após o seu mais recente revés, o da revelação de suas ligações com protagonista do esquema de corrupção montado no escritório da Presidência da República em São Paulo. Que, por sua vez, surgiu logo depois de um depoimento do publicitário Marcos Valério tê-lo colocado no centro do mensalão. Até para Lula foi demais, ficou mudo e discreto.
Não significados da embolada governista
Mas logo que pôde botar a cara na janela, embora ainda em silêncio, no modelo da candidatura Renan à presidência do Senado, o fez. Reuniu-se com a presidente Dilma e tratou do esquema eleitoral.
A campanha de Dilma será intensificada a partir de agora, embora já tenha começado em decibéis elevados e no Brasil inteiro.
Lula, porém, está no jogo, e o PT está tranquilo porque foi convencido disso. A avaliação corrente é que está cedo para Lula se expor e que a discrição do momento, em que começa uma campanha pelo exterior para restabelecer sua imagem interna e não obscurecer a campanha de Dilma e evitar cobranças, não significa que tenha se conformado à posição de ex. "Está cedo para a candidatura dele ser posta, mas ele está no jogo", diz um amigo e frequentador do Instituto.
Também não é uma divisão de espaço formal, feita de forma combinada com Dilma. Pode parecer, mas não é, garante o interlocutor. Tudo é subentendido e cada passo é dado naturalmente, ditado pelo bom senso, sob orientação de Lula.
Também o governador de Pernambuco está na mesma situação: aguarda as pedidas. Só que ele, ao contrário de Lula, não diz objetivamente que não será candidato. Deixa a especulação rolar com evidente cupidez, estimula as candidatura do seu campo político à presidência da Câmara, não desestimula ninguém e deixa-se vislumbrar numa possível candidatura de reconhecimento em 2014, deixando a aliança com o governo para o segundo turno. Visita Lula, visita Dilma, não diz que é candidato nem que não é. E não precisa dizer, mas é candidatíssimo.
O melhor a fazer, para as candidaturas que se opõem a essa embolada governista, é se dedicarem a uma preparação não amadora para o embate real mais à frente. Marina Silva está dando os primeiros passos, quer criar um partido. Mas e Aécio?
A; campanha do senador Renan Calheiros para ser eleito presidente do Senado e, como consequência, do Congresso Nacional, transformando-se em chefe supremo do Poder Legislativo, depois de renunciar ao cargo para evitar perda de mandato por falta de decoro, só atua às claras junto ao baixo clero. Calheiros tem recebido senadores suplentes com suas mulheres em casa, na praia de Barra de São Miguel, em Alagoas. Para o alto clero ele nem admite candidatura, para não se expor. Por recomendação de especialistas, só emergirá, talvez, na sessão de votação. Os senadores descontentes com este destino estavam entregues ao desconforto da má sorte, sem condições de reagir, quando, nos dois últimos dias, líderes consagrados começaram a fazer um apelo candente ao candidato, só ele capaz de resolver o problema da coletividade retirando sua candidatura. Eduardo Suplicy (PT) implorou anteontem ao senador que não se candidate; Aécio Neves (PSDB) fez o mesmo, ontem, um apelo à desistência. Os dois partidos estavam, até agora, recomendando voto em Renan. Portanto, um problema que se resolve facilmente: é só retirar a recomendação e votar contra.
Quando se imaginava que não era mais possível piorar a imagem do Senado Federal, há anos ao rés do chão, seu presidente, José Sarney, nas últimas horas de seu mandato, decidiu jogar a pá de cal. O impasse na regulação das transferências do Fundo de Participação dos Estados (FPE) só tem um responsável, o Congresso Nacional, a quem foi dado um tempo amplo, geral e excessivo para fazer nova norma antes que a antiga, prorrogada até 31 de dezembro de 2012, expirasse. Não o fez, a regulação findou e o governo começou a repassar recursos sem regras até que o Supremo Tribunal Federal analisasse o pedido de mais uma prorrogação do esquema provisório de repasses. Para atender aos Estados, o ministro Ricardo Lewandowski (STF), no exercício da presidência, durante o recesso judiciário, prorrogou por mais 150 dias a tolerância para a ausência de regulação da transferência. Como reagiu Sarney?
Disse que não está obrigado a cumprir a decisão de Lewandowski e não se submeterá à "pressão" do Supremo. E ainda fingiu-se de desentendido, como está na moda, dizendo que o Supremo estava mesmo era determinando prazo para o Executivo, "responsável pelos repasses", e não para o Congresso, responsável pela nova norma de partilha. "Ele não dá prazo ao Congresso. Ele apenas mantem a decisão de um nova regulamentação do fundo e diz que durante cinco meses serão mantidas as mesmas regras. É mais dirigido ao Poder Executivo, de manter a transferência de acordo com os índices da antiga distribuição", diz, levando o contorcionismo ao sofisma máximo.
O câmbio no centro da política econômica - CRISTIANO ROMERO
Valor Econômico - 30/01
Tudo indica que o governo começa a reconhecer que não é possível atingir todos os objetivos ao mesmo tempo - juro baixo, câmbio desvalorizado, gasto público crescente, economia acelerada e inflação cadente. Nos últimos dias, a presidente Dilma Rousseff deixou claro, em vários discursos, que as principais metas de seu governo agora são manter os juros baixos e reduzir custos de produção (corte da tarifa de energia à frente).
Dois aspectos da política econômica recente sumiram da fala presidencial: a promessa de crescimento elevado do Produto Interno Bruto (PIB) e a defesa de uma taxa de câmbio desvalorizada em relação ao dólar. Não se trata de abrir mão de uma expansão mais rápida da economia, mas de admitir que essa batalha está, pelo menos por ora, perdida. Depois de crescer 2,7% em 2011, o PIB pode ter avançado menos de 1% em 2012 e caminha, pelo jeito, para mais um resultado frustrante em 2013.
No caso do câmbio, trata-se de uma mudança de rumo, sinalizada em dois documentos cruciais do Banco Central (BC) - o Relatório de Inflação de dezembro e a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) - e confirmada por ações recentes da autoridade monetária. Sem poder recorrer ao aumento da taxa de juros (Selic) e sem contar com o esforço fiscal necessário para controlar a demanda agregada, o BC vai usar o câmbio para segurar a inflação nos próximos meses.
Atuação do BC no câmbio tem aval da Fazenda e de Dilma
Depois de sofrer depreciação de 30% entre setembro de 2011 e setembro de 2012, a taxa de câmbio voltou a apreciar. Desde o pico de depreciação mais recente (no início de dezembro, foi a quase R$ 2,12), teve valorização de 6,07%, segundo cálculo do Valor Data. Não se deve esperar um retorno aos níveis anteriores à grande depreciação de 2011/2012, mas é possível que a taxa caminhe para um valor mais baixo, o suficiente para melhorar as expectativas de inflação, que seguem em franca deterioração.
Ontem, o câmbio caiu abaixo do piso simbólico de R$ 2,00, fixado, no ano passado, pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. A atuação do BC na segunda-feira não deixou muitas dúvidas sobre seu propósito neste momento - a instituição antecipou, em alguns dias, uma operação de swap que funciona como uma venda de dólares no mercado futuro, e fez isso num dia em que moedas de vários países estavam se depreciando em relação ao dólar.
O movimento do BC não é um voo solo. Ele é coordenado com o restante da equipe econômica e tem o aval do Palácio do Planalto. "As coisas são conversadas. Esta equipe econômica funciona como equipe, ao contrário do que ocorria no governo anterior. Existe uma coordenação e a preocupação de todos neste momento é com os índices recentes [de inflação]", informou uma fonte graduada.
Para o Ministério da Fazenda, é difícil admitir que a política deliberada de desvalorização do real foi abandonada. Quando o dólar estava cotado a R$ 2,05, o ministro Guido Mantega chegou a afirmar publicamente que a moeda brasileira ainda estava 19% apreciada. Ao mesmo tempo, não se deve esperar que a diretoria do BC confirme oficialmente a política de apreciação do real para combater as pressões inflacionárias deste início de ano.
No regime de câmbio flutuante, a atuação do BC no mercado depende menos de preço e mais de liquidez. Suas intervenções visam tornar o mercado funcional, diminuir a volatilidade (que prejudica o comércio exterior) e acumular reservas. Dificilmente o BC será visto assumindo o uso da taxa de câmbio como instrumento de combate à inflação, mesmo que isso tenha sido feito em vários momentos desde o lançamento do Plano Real.
O câmbio é uma variável de ajuste da inflação que não derruba a economia, ao contrário do que ocorreria se o BC recorresse aos juros. A apreciação cambial ajuda a segurar os preços domésticos e, portanto, a aumentar o poder de compra da moeda nacional, elevando a sensação de bem-estar da população. Além disso, dá um ganho de capital às empresas, à medida que barateia a importação de máquinas e equipamentos.
Reside nesse ponto um aspecto crucial do debate. Uma corrente de economistas, identificada com os desenvolvimentistas e com grande influência sobre o governo Dilma, acredita que a desvalorização do real é crucial para salvar a indústria brasileira, acossada por ineficiências domésticas e pelas chamadas "guerras cambiais" em curso no mundo. Outros fatores podem ter contribuído para a situação atual, mas o fato é que a perda de valor do real entre 2011 e 2012 não ajudou o PIB brasileiro a acelerar o passo.
Uma outra corrente de economistas - o professor Afonso Celso Pastore foi pioneiro em defender essa tese - acredita que a apreciação do real, ao diminuir o custo de bens de capital importados, estimula o investimento privado. Quando o câmbio desvaloriza, o investimento cai (ver gráfico, que mostra essa relação desde o primeiro trimestre de 2003). Ambos (câmbio e investimento) dependem de confiança e refletem o valor dos ativos brasileiros. Quando o valor dos ativos cai, o câmbio deprecia e o ânimo para investir vai embora (ademais, porque os bens de capital ficam mais caros).
Tudo indica que o governo começa a reconhecer que não é possível atingir todos os objetivos ao mesmo tempo - juro baixo, câmbio desvalorizado, gasto público crescente, economia acelerada e inflação cadente. Nos últimos dias, a presidente Dilma Rousseff deixou claro, em vários discursos, que as principais metas de seu governo agora são manter os juros baixos e reduzir custos de produção (corte da tarifa de energia à frente).
Dois aspectos da política econômica recente sumiram da fala presidencial: a promessa de crescimento elevado do Produto Interno Bruto (PIB) e a defesa de uma taxa de câmbio desvalorizada em relação ao dólar. Não se trata de abrir mão de uma expansão mais rápida da economia, mas de admitir que essa batalha está, pelo menos por ora, perdida. Depois de crescer 2,7% em 2011, o PIB pode ter avançado menos de 1% em 2012 e caminha, pelo jeito, para mais um resultado frustrante em 2013.
No caso do câmbio, trata-se de uma mudança de rumo, sinalizada em dois documentos cruciais do Banco Central (BC) - o Relatório de Inflação de dezembro e a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) - e confirmada por ações recentes da autoridade monetária. Sem poder recorrer ao aumento da taxa de juros (Selic) e sem contar com o esforço fiscal necessário para controlar a demanda agregada, o BC vai usar o câmbio para segurar a inflação nos próximos meses.
Atuação do BC no câmbio tem aval da Fazenda e de Dilma
Depois de sofrer depreciação de 30% entre setembro de 2011 e setembro de 2012, a taxa de câmbio voltou a apreciar. Desde o pico de depreciação mais recente (no início de dezembro, foi a quase R$ 2,12), teve valorização de 6,07%, segundo cálculo do Valor Data. Não se deve esperar um retorno aos níveis anteriores à grande depreciação de 2011/2012, mas é possível que a taxa caminhe para um valor mais baixo, o suficiente para melhorar as expectativas de inflação, que seguem em franca deterioração.
Ontem, o câmbio caiu abaixo do piso simbólico de R$ 2,00, fixado, no ano passado, pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. A atuação do BC na segunda-feira não deixou muitas dúvidas sobre seu propósito neste momento - a instituição antecipou, em alguns dias, uma operação de swap que funciona como uma venda de dólares no mercado futuro, e fez isso num dia em que moedas de vários países estavam se depreciando em relação ao dólar.
O movimento do BC não é um voo solo. Ele é coordenado com o restante da equipe econômica e tem o aval do Palácio do Planalto. "As coisas são conversadas. Esta equipe econômica funciona como equipe, ao contrário do que ocorria no governo anterior. Existe uma coordenação e a preocupação de todos neste momento é com os índices recentes [de inflação]", informou uma fonte graduada.
Para o Ministério da Fazenda, é difícil admitir que a política deliberada de desvalorização do real foi abandonada. Quando o dólar estava cotado a R$ 2,05, o ministro Guido Mantega chegou a afirmar publicamente que a moeda brasileira ainda estava 19% apreciada. Ao mesmo tempo, não se deve esperar que a diretoria do BC confirme oficialmente a política de apreciação do real para combater as pressões inflacionárias deste início de ano.
No regime de câmbio flutuante, a atuação do BC no mercado depende menos de preço e mais de liquidez. Suas intervenções visam tornar o mercado funcional, diminuir a volatilidade (que prejudica o comércio exterior) e acumular reservas. Dificilmente o BC será visto assumindo o uso da taxa de câmbio como instrumento de combate à inflação, mesmo que isso tenha sido feito em vários momentos desde o lançamento do Plano Real.
O câmbio é uma variável de ajuste da inflação que não derruba a economia, ao contrário do que ocorreria se o BC recorresse aos juros. A apreciação cambial ajuda a segurar os preços domésticos e, portanto, a aumentar o poder de compra da moeda nacional, elevando a sensação de bem-estar da população. Além disso, dá um ganho de capital às empresas, à medida que barateia a importação de máquinas e equipamentos.
Reside nesse ponto um aspecto crucial do debate. Uma corrente de economistas, identificada com os desenvolvimentistas e com grande influência sobre o governo Dilma, acredita que a desvalorização do real é crucial para salvar a indústria brasileira, acossada por ineficiências domésticas e pelas chamadas "guerras cambiais" em curso no mundo. Outros fatores podem ter contribuído para a situação atual, mas o fato é que a perda de valor do real entre 2011 e 2012 não ajudou o PIB brasileiro a acelerar o passo.
Uma outra corrente de economistas - o professor Afonso Celso Pastore foi pioneiro em defender essa tese - acredita que a apreciação do real, ao diminuir o custo de bens de capital importados, estimula o investimento privado. Quando o câmbio desvaloriza, o investimento cai (ver gráfico, que mostra essa relação desde o primeiro trimestre de 2003). Ambos (câmbio e investimento) dependem de confiança e refletem o valor dos ativos brasileiros. Quando o valor dos ativos cai, o câmbio deprecia e o ânimo para investir vai embora (ademais, porque os bens de capital ficam mais caros).
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