segunda-feira, janeiro 14, 2013

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 14/01


SALTO ALTO
Indústria brasileira investe em produto de maior valor agregado para enfrentar concorrente barato no exterior; exportação caiu 43% desde 2007

Na tentativa de combater os abalos na balança comercial e a concorrência dos importados, a indústria calçadista brasileira capricha no lustre dos sapatos.

A ideia é criar um produto menos sofisticado que os concorrentes europeus, de custo e preços elevados, mas de qualidade superior à de exemplos asiáticos.

O principal problema hoje segue sendo a exportação, segundo o presidente do grupo Couromoda, Francisco Santos. Em 2012, as exportações representaram cerca de US$ 1,09 bilhão. Em 2007, haviam chegado a US$ 1,9 bilhão.

As empresas que ainda registram bom desempenho são aquelas capazes de gerar produtos diferenciados, com processo de inovação e design, ressalta Heitor Klein, da Abicalçados.

"No segmento de produtos de médio e alto valor agregado, os asiáticos ainda não são grandes competidores. Assim, podemos retomar alguns mercados", diz Santos.

"Já estamos colhendo resultados interessantes no exterior, ainda que com a dimensão reduzida em face das perdas", diz Klein.

"Mesmo na China já estamos entrando com produtos de maior valor. É um trabalho lento. Temos de ganhar a confiança dos distribuidores e do varejo local", diz o executivo da Abicalçados.

A Ásia fabrica hoje cerca de 90% dos sapatos produzidos em todo o mundo -14 bilhões de pares, de acordo com Santos. O Brasil corresponde a apenas 5% do total, com 800 milhões.

No mercado interno, os importados da China deixaram de ser os grandes inimigos. As mercadorias do Vietnã agora ocupam esse lugar.

PÉ PRA FORA
A fabricante de calçados Carmen Steffens pretende ampliar a participação das exportações em seu faturamento de 15%, registrados no ano passado, para 25% em 2016.

Fora do país, a companhia evita a competição com os chineses inserindo-se no segmento dos sapatos intermediários.

"O foco é concorrer com o produto italiano e o francês, mas com preços mais baixos que esses e superiores ao chinês", diz o presidente da marca, Mário Spaniol.

A empresa tem hoje 32 lojas em 18 países. Nas unidades que já existiam em 2011, o crescimento foi de 30% no ano passado. Para 2013, estão previstas entre dez e 15 franquias no exterior.

"Vamos continuar expandindo nos Estados Unidos, onde estamos com três lojas. Na Europa, principalmente na Espanha, está mais difícil. Lá vamos manter o que já temos", afirma Spaniol.

No Brasil, a companhia prevê inaugurar cerca de 45 franquias neste ano. Hoje, são cerca de 250.

A Carmen Steffens faturou R$ 300 milhões em 2012.

NEGÓCIO INTERNACIONAL
Empresas que têm negócios internacionais tiveram maiores lucros nos últimos 12 meses do que as que atuam apenas em seu país de origem, segundo pesquisa feita em todo o mundo pela Regus.

Metade das companhias que trabalham em seu país e no exterior viram seus lucros aumentarem. Menos de 40% das domésticas registraram maiores ganhos.

No Brasil, os números são mais altos para os dois modelos de empresa: 66% para as que têm negócios fora e 58% para as que se dedicam apenas ao mercado interno.

O custo com documentação e patrimônio é um dos principais obstáculos para as empresas se estabelecerem no exterior. Dos entrevistados, pouco mais de 60% citaram essa preocupação.

Também aparecem entre as dificuldades a construção de uma imagem internacionalmente (50%) e as normas e tributos locais (44%).

O gerenciamento de riscos políticos e de desastres naturais foi apontado como fator complicador por 37% dos ouvidos pela pesquisa.

O levantamento também mostrou que os executivos brasileiros acreditam que a América do Sul é a região mais lucrativa para se atuar internacionalmente.

A China (45%) e a América do Norte (44%) aparecem em seguida como os mercados mais rentáveis.

Ao todo, 20 mil executivos foram entrevistados.

Mudança de postura - MÁRIO DE MAGALHÃES PAPATERRA LIMONG


O Estado de S.Paulo - 14/01


Em artigo anterior (Decisão do STF terá efeitos benéficos contra a impunidade), publicado na edição de 13 de novembro de 2012 de O Estado de S. Paulo (caderno especial Mensalão, um julgamento histórico, página H8), sustentei que o julgamento do mensalão influenciaria a primeira instância e permitiria maior facilidade para condenações criminais, até então, pouco prováveis. Isso porque o Supremo Tribunal Federal (STF) surpreendeu a todos ao não desprezar a prova produzida na fase inquisitorial, ao conferir importância à prova indiciária, ao adotar a teoria do domínio do fato e ao reconhecer a tipificação do crime de quadrilha ou bando na conduta dos réus. Surpreendeu ainda mais na dosagem das penas, ao aplicá-las acima do mínimo legal, levando em conta a gravidade dos delitos e suas consequências.

O julgamento do mensalão, mais rápido do que se esperava, mudou também comportamentos. Em primeiro lugar, o nosso sistema penitenciário passou a ser discutido e, mais que isso, temido por quem jamais imaginava que pudesse vir a cumprir pena privativa de liberdade.

Os jornais noticiam que implicados na Operação Porto Seguro, com justo receio de condenações, para diminuir futuras penas, querem fazer uso da delação premiada. Com muita propriedade, a jornalista Dora Kramer, na edição de 16 de novembro do Estado(Soro da verdade, página A6), anotou que, se para Marcos Valério Fernandes de Souza , após as condenações impostas, a delação se apresentou tardia, "para Rose (Rosemary Nóvoa de Noronha, ex-chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo) e outros implicados, a hora é essa".

Certamente, não fosse a postura firme do Supremo, a ideia de impunidade continuaria a prevalecer e os implicados na Operação Porto Seguro simplesmente apostariam na dificuldade para a obtenção de provas e na lentidão do Judiciário. A mudança de atitude dos indiciados por corrupção já é um alento para todos os que não compactuam com a improbidade.

É interessante observar que, para que se pudesse atingir mais efetividade no combate ao crime organizado, foi necessária, primeiro, mudança de postura também do legislador.

Embora até hoje ainda se discuta exatamente o conceito de crime organizado, há um consenso em admitir que nele há estrutura hierárquica, divisão de tarefas e infiltração no aparelho estatal. Trata-se, pois, de conduta sofisticada, sendo necessário dar ao aparelho repressivo do Estado melhores meios para a apuração dos delitos.

Por causa dessa necessidade, a legislação brasileira pouco a pouco foi mudando, passando a permitir a quebra de sigilo bancário e telefônico e, seguindo exemplo muito utilizado nos Estados Unidos e na Itália para o combate à Máfia, instituiu a delação premiada (nesses dois países, a delação premiada tem muito mais alcance em razão de as penas serem muito mais duras e, portanto, mais temidas do que as aplicadas no Brasil).

De fato, para o combate à criminalidade organizada e sofisticada, sem a possibilidade de quebras de sigilo e a colaboração de membros da organização fica quase impossível entender a dinâmica dos fatos e a participação de cada um dos membros da quadrilha.

Não poucas pessoas discutem a questão ética. Argumentam que é intolerável a invasão de privacidade que representam a interceptação telefônica (ou de e-mails, como no caso da Operação Porto Seguro) e a quebra do sigilo bancário. De outro lado, não aceitam que a Justiça dê credibilidade a depoimentos de criminosos (curiosamente, no caso de Marcos Valério, os mesmos que negavam a existência do mensalão agora dizem que não se pode dar credibilidade à palavra de quem ostenta condenação criminal).

É evidente que os mecanismos citados devem ser usados com cautela. Mas também aí temos uma mudança de postura.

Certamente, para o combate à criminalidade comum não se justifica a invasão de privacidade e não se pode transacionar com o criminoso. No entanto, para não se render ao poder paralelo que representa o crime organizado, é preciso conferir ao Estado outros meios para a investigação.

Entre o interesse público de combate à criminalidade organizada, que tanto prejuízo causa ao erário, e o interesse particular do investigado, o primeiro deve prevalecer.

Em verdade, a própria lei se encarrega de evitar abusos. A interceptação telefônica e a quebra de sigilo bancário só podem ser determinadas por decisão judicial, devidamente fundamentada, o que afasta, ou ao menos dificulta, a possibilidade de arbitrariedade. E o valor do depoimento do delator também será apreciado pelo juiz, que o confrontará com as demais provas. Aliás, como é sabido por todos os operadores do Direito, nenhuma prova, nem mesmo a confissão, tem valor absoluto. Assim, ninguém será condenado tão somente pela delação de um coautor do delito, mas sim em razão do conjunto da prova.

Ao contrário do que alguns estão sustentando, o nosso sistema processual não fere, em momento algum, o princípio da ampla defesa. Da mesma forma, não é certo dizer que as nossas penas são excessivamente duras (na Alemanha, país sabidamente garantista, por exemplo, um jogador de futebol, primário e de bons antecedentes, está cumprindo pena privativa de liberdade por ter ateado fogo à própria casa, o que dificilmente aconteceria aqui).

Há países onde a legislação é mais ousada, com um sofisticado esquema de proteção de testemunhas ou do colaborador e com a possibilidade de agente policial infiltrado nas quadrilhas para a indução à prática de crimes.

O nosso sistema processual, pouco a pouco, vai se adaptando a uma nova realidade, dando ao aparelho repressivo do Estado melhores condições para um efetivo combate às organizações criminosas.

Enfim, com a paulatina mudança da postura do legislador, mudou a postura do Judiciário e os criminosos já temem a punição. Boas mudanças!

A política tem seu calendário - RENATO JANINE RIBEIRO


Valor Econômico - 14/01


O Brasil segue, no calendário de suas eleições, um caminho diferente do adotado pela França, Alemanha, Estados Unidos, Espanha, Grã-Bretanha, Argentina e Venezuela, para ficarmos nos países mais presentes em nosso noticiário. Aqui, fomos promovendo cada vez mais a coincidência das eleições. Na França, chega a haver várias consultas populares num ano, somando eleições nacionais, municipais, cantonais e eventuais referendos; nos países que mencionei e que são federações - hoje, quase todos eles - as eleições subnacionais, para o governo de Estados ou províncias, podem acontecer em datas desencontradas. No Brasil, porém, temos duas datas fixas, sempre em anos pares, nas quais se vai às urnas.

Nem todos gostam disso. Mas, curiosamente, a crítica mais frequente não é para que adotemos o modelo mais liberal dos países acima. Em quase todos eles, há maior liberdade para fixar as datas das eleições subnacionais e por vezes até a duração de seus mandatos. No parlamentarismo, como é da essência do sistema que possa haver a dissolução do Parlamento para que o povo resolva eventuais crises de governabilidade, não há datas estritas para os pleitos. No Brasil, porém, quando se critica o calendário eleitoral, não é para dizer que temos eleições de menos e que o povo deveria votar com maior frequência. Ao contrário: é para sustentar que temos eleições de mais e deveríamos concentrar todas numa única data, elegendo simultaneamente executivos e legisladores da União, dos Estados, Distrito Federal e municípios.

Insisto: nossa exceção não é termos eleições demais. É irmos pouco às urnas. Ou seja, quem quiser promover a coincidência de todos os mandatos deve sugerir argumentos melhores. Será bom que explique por que o Brasil deveria ir numa direção que não é a de sua história, nem a do resto do mundo.

Ações de governo precisam ter continuidade

Mas, falando de calendário, é bom aproveitar o início, que ora ocorre, dos mandatos municipais para comentar uma espécie de lei que rege nossos governos de todas as instâncias. O primeiro ano de um governo eleito é dedicado a tomar pé. Tem-se um orçamento que foi votado na gestão finda (o que poderia ser modificado se o mandato começasse quarenta e cinco dias antes, o bastante para que os novos, não os velhos, governantes aprovassem o orçamento do primeiro ano). Vão sendo preenchidos os cargos aos poucos, o que não raro demora até dois anos (solução: reduzir os cargos de confiança e aumentar os de carreira). O novo governante também contém despesas, faz caixa e, assim, descumpre as promessas que fez a seus eleitores. Diz a eles que, com o tempo, elas serão atendidas. Às vezes, isso acontece.

O segundo ano de governo é de preparo para outras eleições. Em 2014, os prefeitos mostrarão serviço, para ajudar seus candidatos nos Estados e na União. O terceiro ano é o melhor ano de governo. A administração já completou seus quadros de confiança, os projetos andam. No quarto ano termina o mandato, e ocorrem novas eleições: com sorte, investe-se; com azar (para o povo e o futuro), gasta-se. Lembro uma cidade da Grande São Paulo, com grandes problemas sociais, em que no ano da eleição o prefeito inaugurou uma frota de micro-ônibus com ar condicionado e até frigobar. Depois do pleito, eles sumiram.

Há soluções para isso? Sugeri acima a antecipação da posse, para que o novo Executivo e Legislativo decidam o orçamento do ano entrante. Mais ambicioso e difícil, porém crucial, será dar maior estabilidade à administração. É preciso termos programas de governo que não dependam de uma canetada do poder executivo, como hoje é o caso. Qualquer dirigente, atualmente, pode criar ou eliminar programas. Aliás, como diretor que fui do setor principal (mas o mais barato) da Capes, que é a avaliação dos cursos de doutorado e mestrado do Brasil, vi como os políticos dão mais importância ao que é novidade, ao que impressiona a mídia, do que às ações de base, permanentes, que não fornecem notícias. Uma avaliação, por exemplo, geralmente aponta 3 ou 4% de cursos excelentes; esse porcentual deve ser mais ou menos fixo, senão se inflaciona a avaliação e ela perde o sentido; mas o sonho de qualquer político é dizer que os melhores cursos passaram, digamos, de quatro a dez por cento. A seu modo, isso vale para as escolas, os hospitais, as estradas: o que é sólido é lento, depende de muito esforço e não gera notícias. Daí, justamente, a necessidade de que os programas de governo sejam mais estáveis. E, com isso, é preciso capacitar servidores de carreira que possam conduzi-los no governo de um partido ou outro, até para não termos mais as perdas de tempo que assinalei: pelo meu raciocínio, o melhor ano de governo é o terceiro; todos os outros são anos de governo prejudicados pelo calendário. Sem essa reforma da função pública, não haverá "choque de gestão" ou o que seja. Mas nada disso se resolve fazendo coincidir todas as eleições, o que apenas aumentaria a distância entre o povo teoricamente soberano e seus supostos mandatários, reduzindo o controle do eleitor sobre o eleito.

O que atenua esses males é, paradoxalmente, a reeleição. O governante reeleito tem um mandato quase inteiro, limpo, para dar continuidade ao que iniciou. Com o aval dos eleitores, que aprovaram sua gestão, ele já não precisa conviver com um orçamento desconhecido (primeiro ano) nem compor uma administração nova (primeiro e segundo ano). Por isso mesmo, se formos contestar a reeleição, como propôs Marina Silva em sua por sinal importante entrevista ao Valor nesta sexta-feira, será preciso não perder esses benefícios que ela trouxe.

Lilliput - IGOR GIELOW

FOLHA DE SP - 14/01


BRASÍLIA - No começo deste ano, o ministro do STF Marco Aurélio Mello irritou alguns próceres do Legislativo ao apontar a "inapetência" do Congresso, que viveria constantemente um "faz de conta". Suspeito que ele tenha sido generoso.

Há muita esperteza nos subterrâneos do belo prédio de Niemeyer. Veja Henrique Eduardo Alves (RN), líder quase eterno do PMDB na Câmara e favoritíssimo a ser o próximo presidente da Casa, a partir de fevereiro.

Como a Folha mostrou ontem, ele direcionou verbas por meio de emendas que foram cair na conta da empresa de um assessor. Tudo, naturalmente, dentro da lei e respeitando princípios de impessoalidade, como correram a explicar.

"Henriquinho", deputado há mais tempo na Casa, classificado como político pragmático e "do ramo", é reincidente. Em 2007, por exemplo, este jornal descobriu que ele usava verbas do gabinete para comprar textos laudatórios a si mesmo em um periódico de sua propriedade. E achava o máximo, sem vergonha alguma do conflito ético (se não legal) evidente.

São casos pequenos perto, digamos, de um mensalão, mas que demonstram a qualidade igualmente nanica de nossos congressistas. O personalismo vazio, marca de qualquer República de segunda, impera.

O atual presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), gastou quase dez minutos de horário nobre no fim do ano com uma exaltação à sua gestão, marcada tão somente por mediocridade institucional e pela homologação da agenda do Executivo.

Símbolo maior do "homo politicus" brasileiro, José Sarney (PMDB-AP) acaba de ter suas quatro passagens pela chefia do Senado exaltadas em uma exposição como marcos da modernidade. Claro, com tudo pago pela Casa, que viu "custo zero" por ter usado recursos próprios.

São esses os tais "profissionais" adulados nas rodas de Brasília -ou, para ficar no registro de Marco Aurélio, essa Lilliput do cerrado.

Adversário comum - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 14/01


2013 não fechou sequer o primeiro mês e o empurra-empurra político ganha contornos de ano eleitoral, com as rusgas internas do PSDB, a brigalhada na base governista, o PT insuflando ora Dilma Rousseff, ora Lula, e Eduardo Campos nesse morde-assopra em relação ao governo federal. Essa guerra não vai parar e, que ninguém se iluda se começar a perceber movimentos complementares entre PSDB e PT, que hoje dividem São Paulo.

Da parte dos tucanos de Minas Gerais, virão em breve gestos carinhosos em direção aos paulistas. Aécio sabe que não pode prescindir de toda a força do partido em São Paulo, ainda que hoje esse poder pareça ameaçado e em declínio perto do que já foi nos mandatos Mário Covas, do próprio Geraldo Alckmin e de José Serra. Por isso, ninguém pense que deixará os líderes do partido no estado lhe escorrer entre os dedos.

Os movimentos aecistas, entretanto, não vão parar por aí. O senador pretende desde já colocar em prática a montagem de um plano de governo, como forma de mostrar ao eleitor que, apesar de ser alguém com um espírito mais jovem, sua candidatura presidencial será acoplada de um programa com consistência e coerência. A ordem é mostrar ao eleitor que é possível oferecer ao cidadão uma vida melhor do que a patrocinada pelo governo federal petista. Ou seja, virá aí a tentativa de se criar um jogo dos contrastes com o objetivo de conquistar eleitores descontentes com a presidente Dilma e seu governo.

Enquanto isso, no PSB…

A estratégia de Aécio não pode ser copiada pelo PSB do governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Como um aliado da presidente Dilma e do ex-presidente Lula, o socialista não poderá oferecer um discurso de tempos melhores sem ferir susceptibilidades do governo que apoia. Muitos hoje perguntam o que o governador teria a oferecer de diferente? Que sugestão deu até agora que Dilma não acolheu? E para ser um governo mais ou menos parecido ou igual a esse que os petistas já fazem, por que mudar? Campos, avaliam seus próprios aliados, ainda não tem respostas para essas perguntas e precisa respondê-las antes de anunciar oficialmente que irá concorrer à Presidência da República. Se Eduardo quiser ser candidato, terá que ter esse programa em contraste com o que está aí. Se não tiver contraste, corre o risco de ficar diluído. E é exatamente essa diluição que os petistas pretendem provocar daqui para frente.

E no PT…

Entre os petistas, a estratégia de colocar Dilma e Lula na vitrine deu certo no final de 2012 e, como antecipamos aqui ontem, será repetida. Para completar, o PT também trabalha outras formas de deixar Eduardo Campos ainda mais espremido. Os encontros entre ele a presidente Dilma Rousseff, por exemplo, serão sempre divulgados. Foi assim com o almoço na Bahia, evento que o governo de Pernambuco não anunciou previamente, mas o Planalto e o Palácio de Ondina, sim. O mesmo ocorreu com o encontro de hoje, incluído na agenda oficial de Dilma (aliás, é coisa rara Dilma mandar incluir todas suas audiências na agenda que é divulgada).

Ao anunciar todos os encontros com Campos ela dá dois recados: O primeiro interno, ao PT e ao PMDB, do tipo, não se incomodem porque nossas conversas são sempre às claras e não vou trocar o Michel Temer na chapa. O segundo à população: vejam só, recebo, chamo para almoçar, jantar, libero recursos, discuto projetos e ele planeja ser contra a minha candidatura. A audiência de hoje é mais um tijolinho dessa construção.

Nesse sentido, se Dilma conseguir passar a imagem de que Eduardo Campos é ingrato, e Aécio conseguir agregar São Paulo e deixar claro que os socialistas têm um projeto igual ao do PT, Campos dificilmente terá um motor propulsor capaz de o tirar da toca. Esse jogo está em curso agora.

Chuvas no radar econômico - GEORGE VIDOR


O GLOBO - 14/01
Além dos índices e números habituais, é preciso acompanhar as chuvas para saber o que acontecerá com a economia

Os mercados giram em torno de expectativas, que, por sua vez, são alimentadas por previsões sobre o curto, médio e longo prazos. Tais expectativas são tão importantes no comportamento dos agentes econômicos que o Banco Central, por exemplo, divulga semanalmente um relatório que resume os prognósticos de muitas instituições financeiras em relação à trajetória da inflação, do câmbio, da taxa de juros e do Produto Interno Bruto (PIB). Os formuladores dessas previsões são consumidores de índices e informações macro e microeconômicas. Ficam de olho nos índices semanais de preços, no movimento das rodovias sob concessão (o pedágio permite essa contagem), nos fluxos do câmbio, na contabilidade das finanças públicas. E agora terão de prestar mais atenção também à meteorologia, pois se as chuvas não forem tão abundantes o custo da energia elétrica tende a subir principalmente para as indústrias, o que pode afetar tanto os preços dos produtos como o ritmo da produção.

Então São Pedro terá de mostrar este ano se tem alguma simpatia ou não pelo ministro Guido Mantega. A economia brasileira precisa crescer em 2013 pelo menos uns 3% para as contas públicas voltarem novamente aos eixos. E a indústria terá papel relevante nesse desempenho. Se as empresas continuarem pagando muito caro pela energia elétrica no chamado mercado livre, no qual costumam se suprir para respaldar aumentos de produção, muitas terão de mudar sua programação, podendo até pôr o pé no freio, o que frustraria o almejado crescimento inicialmente previsto para o ano.

Esse tipo de decisão não seria provocado por falta de demanda. Ainda que o consumo tenha dado sinais de arrefecimento, quando se considera também os investimentos a demanda doméstica parece ser suficiente para sustentar um aumento da produção capaz de impulsionar o PIB na faixa de 3%. Do mercado externo se espera uma ligeira melhora para os produtos que o Brasil exporta, sejam básicos ou manufaturados. Tudo que não pode acontecer em 2013 é um estresse em área tão essencial quanto o fornecimento de energia elétrica.

Nem São Pedro resolve

São Pedro realmente poderia ter colaborado mais em 2012 para encher os reservatórios, pois o Brasil tem um sistema elétrico interligado que se baseia em regimes de chuva que variam região para região. Se chove menos em uma região e mais em outra, dá para transferir dentro do sistema energia de um lugar para outro. Mas para que isso funcione bem são necessárias linhas de transmissão e reforços de geração próximos aos principais centros de consumo. No caso das linhas de transmissão, foram muitos os atrasos. Há usinas eólicas prontas e paradas no Nordeste porque as linhas não chegaram até elas no prazo programado. Mesmo que isoladamente só deem uma pequena contribuição para o sistema interligado, a soma desses atrasos passa a ter importância.

Mas nada é tão espantoso como o que aconteceu com a hidrelétrica de Simplício, um aproveitamento no Rio Paraíba do Sul, na divisa do Rio de Janeiro e Minas Gerais, com capacidade de gerar mais de 300 megawatts (MW), o que é expressivo, considerando-se a proximidade aos centros de consumo. A usina está tecnicamente pronta, mas surgiram tantos obstáculos no meio do caminho (exigências de autoridades locais, do Ministério Público, dos ambientalistas, e de um monte de gente que aproveita para tirar uma casquinha), que a hidrelétrica permanece sem uso. O projeto de Simplício previa um reservatório. Como inundaria áreas urbanas e terras cultiváveis, optou-se por um outro processo, com um canal adutor até a casa de força. A barragem onde parte do rio é desviado para o canal adutor fica no distrito de Anta, na qual foi instalada uma primeira casa de força, com capacidade de 30 MW. E é neste verão que a barragem precisa encher. Tantas foram as interferências que nem se sabe mais o custo final da obra. Furnas é que pagará a conta. O país clama por energia, mas na hora de se construir usinas faz-se tudo para impedi-las. Nesse caso, nem milagres de São Pedro poderão resolver o problema.

Se precisar, tem

O Brasil começou 2012 com um consumo de 59 milhões de toneladas anuais e chegou a dezembro na casa de 69,3 milhões. Ao longo do ano o ritmo de expansão do consumo foi diminuindo, fechando o quarto trimestre em 4,7%. Ainda é possível continuar crescendo, pois a indústria tem hoje capacidade para produzir 78 milhões de toneladas de cimento por ano. O problema é que o cimento não deve ser transportado por distâncias muito longas. Às vezes sobra produto em uma região e falta em outra.

De santos, chuvas e votos - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO


O Estado de S.Paulo - 14/01


Quando o governante começa a olhar para o céu e torcer não costuma ser bom sinal. São Pedro não é filiado ao PMDB. Argumentos franciscanos têm pouco apelo em sua paróquia. Não há notícia de presidente que, dando uma verbinha aqui, recebeu uma chuvinha ali - mesmo quando se tem a convicção religiosa de Dilma Rousseff. Fernando Henrique Cardoso que o diga.

Para ter um pibão, a presidente precisa acordar o espírito animal dos empresários brasileiros. Ela cortou os juros e ganhou um bocejo. Teimou. Prometeu diminuir a tarifa da energia elétrica - afinal, reduzir custos é a ladainha predileta dos industriais. De quebra, Dilma faria um agrado para os eleitores-consumidores. Mas o que parecia uma boa ideia pode virar um catch-22, uma pegadinha inescapável.

Se o preço da energia cair, o consumo tende a subir - ao menos nas casas. Mais demanda por eletricidade requer garantia de produção das hidrelétricas, mas São Pedro economizou chuvas em 2012 e os reservatórios que giram as turbinas estão lá embaixo. Restam as usinas termelétricas, mas a maioria delas usa combustíveis fósseis, daqueles cujo preço Dilma prometeu aumentar.

Quando a conta não fecha, sabe-se quem costuma pagar a diferença: o seu, o meu, o nosso, depositado no Tesouro Nacional. O dinheiro que vier a entrar pelo bolso que paga a conta de luz já saiu pelo que paga os impostos. Se a esmola é demais até São Francisco desconfia. Mas o ardil não termina aí.

As indústrias que acreditarem na promessa de crescimento e investirem terão que pedir cota extra de consumo de eletricidade. Até conseguirem, terão que recorrer ao mercado livre, onde o preço do gigawatt é mais caro. Ou seja, o que economizarem com a redução das tarifas regulares estarão arriscadas a gastar com a energia adicional para crescer.

Para complicar, há que chover muito neste verão de 2013 para os reservatórios que movem as hidrelétricas chegarem a 2014 com seus níveis recompostos. Caso chova pouco, a presidente entrará no ano de sua reeleição com a água abaixo das canelas.

Mesmo sem ter que racionar energia como FHC fez em 2001, o baixo nível será suficiente para Dilma enfrentar uma inundação de especulações sobre racionamento - um risco que não é desejável para nenhum candidato à reeleição. Mais: é a desculpa de que parte do empresariado precisa para manter o espírito animal no banco.

É este, no fundo, o desafio presidencial: ganhar o jogo das expectativas. Não basta o governo projetar um pibão, nem é suficiente pedir aos empresários que invistam. Tem que convencê-los de que correm mais risco de perder dinheiro deixando-o parado do que colocando o capital para girar a economia. A questão que permanece sem resposta é como alcançar tal façanha.

Timing difícil. O barateamento do custo da eletricidade parecia ser um passo nessa direção. Dilma ganhou a queda-de-braço com as concessionárias de energia elétrica tucanas e, pela sua determinação, deve conseguir derrubar as tarifas de energia ao longo das próximas semanas. Mas a batalha está longe do fim, e o timing não é dos mais favoráveis à presidente.

Caso os reservatórios não se recomponham ao longo de 2013, as consequências vão aparecer bem no começo da campanha presidencial à reeleição em 2014. O período de seca no Sudeste e Sul começa em abril/maio e se estende até setembro/outubro. É praticamente simultâneo à época em que Dilma estará pedindo votos. E é de se perguntar se até lá os consumidores ainda se lembrarão da redução das tarifas ocorrida mais de um ano antes.

Em 2012, o consumo de energia no Brasil cresceu 3,3% na média anualizada. Mas o crescimento foi muito desigual. Enquanto a indústria, responsável por 4 em cada 10 megawatts consumidos, cresceu quase nada (0,1%), o uso de eletricidade no comércio cresceu 6,2%, e nas residências, 3,8%. É mais um descompasso entre consumo e produção da economia brasileira.

Isso significa também que se o plano de Dilma der certo, ao aumento de demanda comercial e residencial já existente se somaria o crescimento do segmento que é o maior consumidor de energia, a indústria.

Se isso ocorrer num cenário de escassez de oferta, por causa do baixo nível dos reservatórios, aumentam as chances de a oposição ter munição para usar na campanha. Se o plano der errado, bem, o plano terá dado errado.

Assim, melhor Dilma olhar para o céu e torcer. Tampouco custa mandar uma ficha de filiação ao PMDB para São Pedro.

A face cruel da inflação - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 14/01


O debate sobre os artifícios contábeis usados pelo Executivo federal no fechamento das suas contas de 2012 e os desdobramentos para a credibilidade do governo junto a investidores e a setores da sociedade diminuíram a atenção sobre a inflação registrada no país, divulgada na semana passada.

Os números medidos pelo IBGE confirmam mais um dado negativo da política econômica do governo ao mostrar que, pelo terceiro ano consecutivo, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) superou o centro da meta de 4,5%, chegando a 5,8%.

Cotejado com o desempenho medíocre ao longo do ano, que gerou um pibinho de 1%, esse resultado explicita uma situação preocupante de inflação em alta e de economia quase estagnada.

Os resultados de dezembro confirmaram o cenário de inflação elevada ao fechar o mês em 0,79% -o maior índice para o período desde 2004.

Para 2013, à exceção dos prognósticos das autoridades econômicas, as previsões são de que o índice seguirá acima do centro da meta.

É ruim para todos -para o país e para os brasileiros, sobretudo para os segmentos de renda mais baixa. A inflação é o mais perverso dos "impostos", uma vez que penaliza, sobretudo, os trabalhadores de menor poder aquisitivo, corroendo o seu poder de compra.

O INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) -que mede os gastos das famílias com renda mensal de até cinco salários mínimos- fechou 2012 acima do IPCA, chegando a 6,2%.O Indicador de Preços ao Consumidor - Classe 1 medido pela FGV, que leva em conta a inflação das famílias de até 2,5 salários mínimos, chegou a 6,9%.

São exatamente os segmentos da população que não têm como se defender da inflação e sentem mais intensamente o peso do aumento de serviços essenciais, como planos de saúde e alimentação, inclusive de produtos da cesta básica.

Segundo o INPC, os alimentos consumidos no domicílio ficaram 10,6% mais caros no ano passado. Em Belém (PA), o aumento chegou a 14,2%. Das regiões metropolitanas pesquisadas, a concentração dos índices acima da média nacional no Norte e no Nordeste é perversa.

Ao corroer o poder aquisitivo das famílias mais vulneráveis, a inflação restringe o acesso a produtos de primeira necessidade e subtrai também recursos que seriam usados na quitação dos empréstimos contraídos nos últimos anos de expansão do crédito, acelerando os riscos de inadimplência.

É alto o preço que o país está pagando pelas decisões que vêm sendo tomadas pelo governo e pelas que têm sido negligenciadas, como as reformas que deveriam ter sido implementadas. Bons governos administram, no presente, as bases do futuro.

Atropelo bolivariano - PAULO GUEDES

O GLOBO - 14/01


O Parlamento e a Justiça venezuelanos atropelaram sua Constituição, instalando governo juridicamente ilegítimo, embora popular.



Um estadista entre nossos ex-presidentes vivos, FHC não soube resistir à tentação de uma emenda constitucional pela reeleição. Até compreendo sua avaliação, à luz da hesitante defesa de Alck-min e do fogo amigo de Serra à sua política econômica nas posteriores candidaturas presidenciais do PSDB. Mas o que eu esperava de um estadista é que investisse seu formidável capital político à época nas reformas de modernização do país. Porque o crescimento econômico sustentável exige políticas públicas de qualidade nas áreas fiscal, tributária, trabalhista, educacional e previdenciária, além de regulamentação adequada para estimular investimentos em infraestrutura. E a mim parecia importante não criar precedentes ou estimular manobras de perpetuação do poder.

Hoje sabemos todos que Lula não era Chá-vez. Mas nem todos sabíamos que o Brasil não era a Venezuela. Pois não faltaram sugestões oportunistas baseadas no precedente da emenda constitucional patrocinada por FHC. Por que não seria aceitável reeleger o presidente quantas vezes seguidas o povo quisesse? Havendo precedentes, como ficou claro no julgamento do Mensalão, muitos partidários e aliados do PT aceitam até mesmo práticas políticas degeneradas. E se Lula tivesse cedido à tentação de alterar a Constituição? E se tivessem avançado as propostas de "controle social" da mídia? E se Lewandovsky presidisse o STF? E se Lula reeleito uma segunda vez estivesse agora na situação de Chávez?

Como demonstra a crise política da Venezuela, não é fácil para as democracias o caminho da Grande Sociedade Aberta. Ao contrário do Congresso brasileiro, que afirmou sua independência no impeachment de Collor, e de nosso Supremo Tribunal Federal, que condenou a compra de apoio parlamentar, a Assembleia Nacional e o Tribunal Supremo de Justiça venezuelanos são controlados por chavistas. Instalaram um governo constitucionalmente ilegítimo, ainda que popular.

A deusa Aurora foi atendida por Zeus em seu pedido de tornar imortal seu amado Titonos, como ditadores e caudilhos desejam também mandatos perpétuos. Mas se esqueceu de pedir a eterna juventude. E, para dele se livrar, transformou sua ressequida, carcomida e velha crosta em cigarra. Sem novas ideias, apodrecem regimes fechados.

Energia para competir - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP - 14/01


SÃO PAULO - Está em curso, dizem estudiosos, uma metamorfose na produção global de energia, com epicentro nos EUA. Técnicas de mineração para extrair gás e petróleo de uma classe de rochas, o xisto, obtêm combustível em larga escala e a preços ultracompetitivos.

Dotados de grandes reservas desse recurso, os EUA caminhariam depressa para a autossuficiência energética. Há quem os preveja tornando-se exportadores em menos de 20 anos.

Se o vaticínio estiver correto, uma série de repercussões importantes, nem todas restritas ao domínio da economia, vai derivar dessa transformação. Intervenções armadas para assegurar o suprimento energético da superpotência ocidental tendem a diminuir. A substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis vai dilatar-se no tempo.

O debate ambiental tende a acirrar-se, pois a nova vantagem econômica conferida ao gás natural e ao petróleo estimulará as emissões de gás carbônico -sem mencionar o caráter aparentemente mais predatório da mineração do xisto.

Pode haver pressão contra os produtores menos eficientes de petróleo e gás. O combustível extraído das profundezas do pré-sal será lucrativo? E nosso gás natural, bem mais caro que o americano?

O Brasil, que também tem reservas, vai entrar de cabeça na mineração do xisto? Vai manter a política de construir hidrelétricas sem grandes lagos, mais vulneráveis às inconstâncias das chuvas? Continuará a encher o sistema de térmicas que rodam com combustível caro?

Como fica na equação o programa do álcool combustível e o da queima do bagaço da cana e de outros resíduos para produzir eletricidade?

O debate sobre o sistema energético brasileiro perdeu o foco. Importa menos saber o nível do reservatório de Xingó do que indagar se teremos energia barata o suficiente para competir nesse mundo em rápida transição.

Doença totalitária - DENIS LERRER ROSENFIELD


O Estado de S.Paulo - 14/01


A morte é o fim de um ciclo de vida individual, algo próprio da condição humana e animal em geral. No caso humano, ela é intensamente vivida sob a forma de uma angústia diante da finitude, o que dá ensejo a concepções religiosas prometendo outra forma de vida, a da beatitude diante de Deus. Estabelece-se assim, religiosamente, um nexo entre o finito e o infinito, o temporal e o eterno, mesmo sob o império do término das condições de vida terrenas.

No caso de líderes totalitários, o dirigente-mor é investido de um manto de eternidade, no qual se terminam identificando a sua pessoa física, mortal, com a político-jurídica, avessa a qualquer forma de temporalidade e finitude. Na pessoa do líder totalitário se confunde a sua vida com a do seu regime político, como se sua morte equivalesse à morte do regime nele identificado. O medo de seus herdeiros e discípulos é que com o fim da vida do líder máximo esteja sendo sinalizado, se não concretizado, o fim de sua forma de exercício do poder.

O segredo é a forma dada a essa doença totalitária. Os "companheiros" temem, antes de mais nada, a transparência, pois ela seria uma maneira de tornar público o que está acontecendo. Dirigentes totalitários abominam, sobretudo, a prestação pública de contas de suas ações, pois execram a democracia baseada na liberdade de imprensa e dos meios de comunicação, assim como o exercício de Poderes Legislativo e Judiciário autônomos e independentes. A "Suprema" Corte venezuelana é "mínima", sendo nada mais que uma porta-voz do supremo Hugo Chávez.

A doença de Chávez é um exemplo particularmente elucidativo de sua natureza totalitária. Acometido de câncer, optou pelo segredo de Estado e por se tratar em Cuba, país sem nenhuma capacitação médica para esse tipo de tratamento. Entre sua vida pessoal e a preservação do regime, escolheu esta última. Diante da morte, seu maior medo é a prestação pública aos cidadãos de seu país, que têm todo o direito de saber o que está acontecendo com seu presidente.

Em vez disso, os cidadãos venezuelanos e a opinião pública mundial têm direito aos "comunicados" lidos por lideranças chavistas, que estão comprometidas com a mentira, e não com a verdade. Acreditar nas "informações" chavistas equivale a acreditar na existência de vida na Lua.

A melhor analogia cabível no caso seria compará-las com a doença - e morte - de Stalin, também tratada sob o maior sigilo. Ademais, o líder soviético tinha tanto medo de sua morte, digamos, política que os mais próximos, quando de sua última crise, temiam chamar médicos e tocar no seu corpo. O maior segredo consistia na doença do líder totalitário, considerado em sua "imortalidade" e "onisciência".

Aliás, Stalin deve estar ruborizado com a falta de tato de seus discípulos bolivarianos. Não conseguem nem mesmo respeitar a Constituição por eles mesmos elaborada nos mínimos detalhes. Fazem uma coisa e dizem outra, quando não dizem coisas distintas e contraditórias entre si. Deve o finado líder soviético estar pensando que bolchevismo em República de bananas não pode mesmo dar certo!

Até para mentir eles são incompetentes. Para justificar suas ações, suas aparições públicas são equivalentes a uma ópera-bufa. Considerar, por exemplo, a posse do presidente para novo mandato, na data aprazada, como uma mera "formalidade" significa dizer que toda a Constituição é, na verdade, uma mera formalidade. Formalidade essa que será seguida ou não conforme os dirigentes totalitários assim o decidirem.

Nesse contexto, a ida do assessor para Assuntos Internacionais da Presidência da República brasileira a Cuba para se inteirar da saúde de Chávez e se informar das condições de sua sucessão adicionou um toque de ridículo ao que já é, de per si, hilariante. Voltou afirmando a "constitucionalidade" da violação constitucional em curso na Venezuela.

Inteirar-se da constitucionalidade de uma medida com Fidel e Raúl Castro e com o vice-presidente venezuelano, Nicolás Maduro, equivale a diagnosticar uma doença com curandeiros ou mágicos. Os irmãos Castro nem sabem o que significa uma Constituição, têm um desconhecimento e desprezo total pelo Estado Democrático de Direito. Os bolivarianos são seus pequenos aprendizes, embora o dano causado por eles seja enorme. São pequenos em estatura política e moral, porém grandes em seus malfeitos.

Por muito menos o Paraguai foi suspenso do Mercosul, por não ter, supostamente, obedecido à "cláusula democrática" em vigor no correspondente tratado. Tal ação, liderada por Chávez e orquestrada por Maduro, contou com todo o aval e o apoio do governo brasileiro.

Acontece que, no caso paraguaio, a Constituição do país foi plenamente respeitada, enquanto no venezuelano ela está sendo claramente pisoteada. Por um mínimo de coerência, o Brasil deveria propor a suspensão da Venezuela do Mercosul, visto o absoluto desrespeito à sua própria Constituição. O que acontece, porém? O governo dá mais uma vez aval à subversão democrática chavista.

Hugo Chávez está entre a vida e a morte. Se constitucionalmente caberia estabelecer se sua ausência é temporária ou permanente, tal diagnóstico só poderia ser feito por uma junta médica independente e agindo por motivos científicos. Em vez disso, temos os "comunicados" bolivarianos que usam a mentira como instrumento de governo. Uma junta médica independente poderia dar transparência a um processo político desse tipo. Contudo o que mais temem os totalitários é a verdade.

Enquanto isso, atabalhoadamente resolvem seus conflitos e disputas internas de poder estabelecendo as condições de manutenção de um regime que vive da figura de seu líder máximo. Ganham tempo tratando politicamente da doença de Chávez. Dão um golpe na Constituição por eles mesmos elaborada e tipicamente, seguindo a cartilha totalitária, acusam os outros de estarem tramando um golpe.

A exploração totalitária da doença não tem limites!

Dilma perde-se na economia - RUBEM AZEVEDO LIMA

CORREIO BRAZILIENSE - 14/01


A presidente parece perdida na economia. Seu carinho com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, forçou-a a tomar medidas contraditórias para resolver o problema da inflação e do estímulo à produção industrial brasileira. Ela deve estar arrependida da defesa que fez, em público, contra a crítica justa da revista Economist ao ministro. Em política, o erro carece de qualquer defesa. Ele se resolve, na melhor hipótese, pelo menos, sem criar polêmica para salvar quem errou. Tal solução, entre políticos, gera mais cisões do que uniões.

O marechal Lott, chefe de grande inteireza moral, costumava punir erros de subordinados, pessoalmente. A um cabo, ele punira, mandando-o marchar, durante cinco dias, no pátio do quartel, dois quilômetros. Mas o cabo cortava sua marcha em um quilômetro. Ele notara o artifício, chamou o cabo e o advertiu: “Amanhã, vamos marchar cinco quilômetros”. O rapaz sentiu o castigo e o marechal — contam — marchou com ele esses quilômetros. O cabo aprendeu a lição.

Dilma defendeu Mantega, sem puni-lo. Deveria fazê-lo pelo seu excesso de otimismo, sempre exagerado, que faz suas comunicações parecerem falsas e desmoralizam não ele, mas o governo Dilma. Não foram duas ou três vezes que a presidente admitiu tal excesso do ministro. A propósito, ela quase chegou ao ponto do novo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que disse pôr a mão no fogo pela honra de Lula. Afinal, este fez um acordo moralmente inadmissível com Maluf, que não pode sair do Brasil, porque a polícia internacional o prenderá.

Segundo a Polícia Federal, na cidade do Porto, em Portugal, funciona a entidade Porto Seguro, um banco de portugueses, no qual estariam recursos do escritório do ex-presidente, em São Paulo, dirigido por Rosemary Nóvoa de Noronha, secretária pessoal de Lula, com quem ela viajou muito no avião da Presidência, e que servia a uma equipe de assessores, os quais colocou em postos públicos federais. Esses deixaram-no tão complicado quanto os mensaleiros condenados pelo Supremo Tribunal Federal.

A presidente Dilma mexeu nas contas fiscais, para mostrar que o Brasil está bem. Em espanhol, na Argentina, que festeja Messi, diz-se que quem “assa a mantega” é trapaceiro. Nossa presidente mineiro-gaúcha foi objeto de gozação dos argentinos, sem salvar Dilma nem o ministro da Fazenda.

O Congresso que temos - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 14/01


No início de dezembro, às vésperas das festas de fim de ano, anunciava-se no Congresso Nacional o começo de um período de esforço concentrado para desatar o nó de pelo menos três assuntos da maior importância então pendentes: o veto presidencial ao projeto dos royalties do petróleo, as novas regras para a partilha do Fundo de Participação dos Estados e o Orçamento da União para 2013. O ano terminou, os parlamentares entraram em recesso para desfrutar de merecidas férias e os três assuntos importantes - para não falar de muitos outros, como a regulamentação de uma enorme quantidade de dispositivos da Constituição aprovada há quase um quarto de século - permanecem pendentes. É o caso, então, de perguntar: para que serve, afinal, o Congresso Nacional?

Composto por duas casas, o Senado Federal e a Câmara dos Deputados, o Congresso tem a responsabilidade constitucional e republicana básica de, no plano federal, legislar e fiscalizar as ações do Executivo. É o que, essencialmente, cumpre aos 81 senadores, eleitos em pleito majoritário para um mandato de oito anos como representantes dos Estados, e aos 513 deputados federais, eleitos em pleito proporcional para um mandato de quatro anos como representantes dos cidadãos. São, todos, mandatários muito bem remunerados - até porque são eles mesmos que definem seus ganhos - e detentores de um enorme rol de benefícios, prerrogativas e imunidades, tudo estritamente legal - até porque são eles próprios que se atribuem todos esses privilégios. Até aí, tudo bem.

Quanto a legislar e fiscalizar o governo, há controvérsias.

Ressalvada a hipótese de uma Assembleia Nacional Constituinte - que não se convoca todos os dias, a última é de 1988 -, legislar sobre questões relevantes é uma prática da qual os nobres senadores e deputados estão cada vez mais desabituados. O Executivo, cada vez mais centralizador e intervencionista, tem cuidado disso. Criou-se até, em 2001, uma ferramenta utilíssima, a Medida Provisória, que poupa os parlamentares da trabalheira e o Executivo do exercício da paciência. O presidente assinou, está valendo. O que é coerente com o presidencialismo - que alguns dizem ser imperial - em que vivemos.

Mas é claro que o Poder Executivo não pode prescindir do aval do Parlamento a suas iniciativas mais relevantes. Necessita, portanto, de uma "base de apoio" que garanta a formalidade da aprovação de medidas de seu interesse. Para isso funciona o "presidencialismo de coalização", ou seja: o governo trabalha para conquistar o apoio no Congresso do maior número possível de partidos, tarefa muito facilitada, aliás, pelo fato de a maior parte das legendas existir apenas para negociar apoio ao governo. Esse sistema, que tem muito mais a ver com fisiologismo do que com programas ou ideologias, também é conhecido como "toma lá, dá cá". Não é novidade. É apenas a versão parlamentar do patrimonialismo que impera desde sempre na vida pública brasileira. Nos últimos anos esse sistema foi muito aperfeiçoado. E, para operá-lo com maior eficiência, o lulopetismo entregou o comando do Congresso a especialistas de reconhecida competência, dentre os quais se destacam as figuras luzidias dos senadores José Sarney e Renan Calheiros - atual e futuro presidentes do Senado - e dos deputados Michel Temer, hoje vice-presidente da República, e Henrique Eduardo Alves, que se prepara para assumir a presidência da Câmara com a promessa de confrontar e desobedecer o Supremo Tribunal Federal, que tantos dissabores tem causado a Lula & Cia.

Seria muito bom para o Brasil se o panorama descrito acima fosse uma caricatura. Infelizmente, não é. Que o diga a presidente Dilma Rousseff. A aprovação de reformas políticas que resgatem o Parlamento do papel subalterno de grande balcão de negócios e votos a que está reduzido deixou de ser prioridade do PT desde o instante em que chegou ao poder. E Dilma certamente tem outras prioridades. Mas é bom que vá se acostumando com a ideia de que, quando se trata do Congresso - as Mesas da Câmara e do Senado serão trocadas dentro de semanas -, a situação nunca é tão ruim que não possa piorar. A presidente corre o risco de sentir saudades de José Sarney e de Marco Maia.

Omissão federativa - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 14/01


Sem nova lei para dividir o Fundo de Participação dos Estados, governo recorre a manobra para garantir os repasses de janeiro


Foi apenas com uma manobra de última hora que o governo federal pôde distribuir na semana passada a primeira parcela do Fundo de Participação dos Estados (FPE), que reparte entre as unidades da Federação 21,5% da arrecadação do Imposto de Renda e do IPI.

Os recursos, que devem somar R$ 74 bilhões neste ano, são a principal fonte de receita de nada menos que um terço dos Estados brasileiros. Não há exagero em dizer que, sem essas verbas, alguns governos estaduais não teriam condições de fechar suas contas. É difícil compreender, portanto, como o Congresso Nacional e o Executivo federal, por pura omissão, permitiram que os repasses do FPE pudessem ficar sob ameaça de interrupção, como ocorre desde o começo deste ano.

Fixadas em 1989, as regras do fundo -que deveriam ter sido atualizadas em 1992, com base no Censo do ano anterior- foram consideradas inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal, em 2010. Como mudanças repentinas poderiam ocasionar grande impacto na conta dos Estados, a corte agiu bem ao dar ao Congresso um período de carência para definir novos critérios de repartição.

Esse prazo terminou no dia 31 de dezembro de 2012 e, como se sabe, nada foi feito. Ou melhor, criou-se uma situação esdrúxula na qual o governo federal, para não deixar com o pires na mão Estados como Amapá e Roraima, segue uma orientação do Tribunal de Contas da União e finge que o ultimato do STF ainda não está valendo.

A solução é precária. Ainda que o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, tenha discutido o assunto com o presidente do STF, Joaquim Barbosa, não há como saber se o tribunal, caso provocado por algum Estado insatisfeito, validará o remendo, sobretudo se ele se prolongar por mais de um mês.

Após anos de inação, o Congresso agora espera aprovar em fevereiro as novas regras para a divisão do FPE. Pelos critérios vigentes nas últimas duas décadas, 85% dos recursos iam para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e as verbas eram distribuídas entre os Estados numa proporção fixa, com base em indicadores socioeconômicos dos anos 1980.

Embora não tenham sido pequenas as transformações demográficas e econômicas pelas quais o Brasil passou desde então, os projetos de lei que tramitam no Senado não parecem interessados em fazer uma revisão séria dos critérios.

Se, como tudo o mais sugere, o entendimento político sobre o tema se restringir a alterações cosméticas, terá sido perdida, e não pela primeira vez, uma grande oportunidade para aperfeiçoar o equilíbrio da Federação.

Para salvar o mérito - EDITORIAL O GLOBO


O GLOBO - 14/01

Universidades públicas paulistas tentam contornar a mais grave das distorções das cotas raciais, que é subordinar à cor da pele a definição do futuro da criança pobre. Se ela nascer "negra, parda ou indígena", terá facilitado o ingresso no ensino superior público. Em boa medida, a sua vida dependerá bem menos do esforço próprio do que de contingências de misturas de DNAs. Caso não tenha a sorte de ser "negra, parda ou indígena", precisará contar com uma improvável fonte de renda para financiar o estudo num estabelecimento escolar privado ou tirar a sorte grande de obter alguma bolsa.

Refratárias, com razão, à aplicação da cota como desejavam os movimentos racialistas, poderosos dentro do governo e no Congresso - mais fortes ainda depois do respaldo recebido no Supremo -, USP, Unicamp e Unesp, entre outras, forçadas por lei, devem começar a adotar cotas este ano, de maneira progressiva. Porém, de forma a atenuar a desimportância do mérito escolar como critério de seleção de cotistas para o ingresso no ensino superior gratuito.

O método prevê um curso preparatório de dois anos para alunos de escolas públicas selecionados de acordo com as notas do Enem, sobre os quais se aplicam as regras das cotas raciais. Este curso concederá um diploma de nível universitário, já para facilitar a entrada da pessoa no mercado de trabalho. O diploma também será aceito em concursos públicos. Se o estudante quiser, cursa a universidade - com menos problemas para acompanhar as aulas, espera-se.

Trata-se de uma mistura de "cota racial" e "cota social", princípio também adotado pela lei federal - provavelmente para desgosto de racialistas mais radicais. Aliás, várias universidades paulistas já seguem políticas de ação afirmativa voltadas aos estudantes da rede pública, sem discriminação de cor, como é razoável.

É feita, então, toda uma acrobacia administrativa para aplicar a lei com filtros, a fim de impedir, o máximo possível, a contaminação da qualidade do ensino superior pelo ingresso de estudantes mal preparados - não por culpa deles, mas da má qualidade do ensino público básico.

A história seria outra, sem dar chances à possibilidade de choques entre alunos em função da cor da pele - uns privilegiados, outros, não -, se houvesse prevalecido a proposta de uma única, grande e democrática ação afirmativa: a melhoria urgente do ensino público básico. Sob a ação de lobbies, preferiu-se a solução politicamente correta e demagógica das cotas raciais, já contestadas nos Estados Unidos, de onde se importou a ideia.

Infelizmente, vingou a tese da "dívida histórica", quando, na realidade, os negros mandados para o Brasil foram tornados escravos por outros negros durante guerras tribais na África. Os derrotados eram presos e vendidos. Em alguns casos, eram vendidos no Brasil também para outros negros. A grande dívida histórica brasileira é com o pobre, de qualquer cor.

Agora, num país assentado numa sociedade miscigenada, cria-se um apartheid contra o branco de baixa renda. Terrível erro.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO


Embratur diminui presença do Brasil no mundo


À frente de políticas de turismo, a Embratur praticamente não justificou sua existência em 2012, sobretudo na missão de divulgar o Brasil no exterior. Talvez abatido com a morte do filho, vítima de negligência em hospital de Brasília, o presidente da autarquia, Flávio Dino, diminuiu e até cancelou a presença do Brasil em feiras internacionais de turismo, como a célebre BIT de Milão (Itália), da qual participava havia 20 anos. Isto às vésperas da Copa das Confederações e da Copa do Mundo.

Dormindo no ponto

A Embratur reduziu para um terço seu espaço na Bolsa de Turismo de Lisboa, cuja empresa aérea TAP é a que mais voa para o Brasil.

Turistas para quê?

O Brasil também se ausentou da Top Resa, único evento de turismo no mercado francês, e reduziu à metade sua presença na Fitur de Madri.

Ignorando a clientela

Por decisão da Embratur, o Brasil reduziu à metade seu espaço no ITB de Berlim, na rica Alemanha, o maior evento turístico do mundo.

Complexo de vira-latas

Nas feiras das quais ainda participa, o Brasil ocupa espaços menores que países como Paraguai, até compartilhando estandes. Um vexame.

ONGs internacionais freiam Brasil, diz antropólogo

Após trabalhar na demarcação de oito terras indígenas na Amazônia, o antropólogo Edward Luz denuncia que as ONGs internacionais, que se dizem defensoras de questões indígenas e ambientais, freiam por mais de três décadas crescimento do Brasil. Em entrevista à revista Infovias, Luz alerta que esses grupos manipulam as minorias para impedir o desenvolvimento do país, visto como “ameaça às superpotências”.

Quem está por trás

Segundo Edward Luz, esse batalhão de ONGs é orquestrado por países como EUA, Inglaterra, Dinamarca, Canadá, Noruega, Alemanha.

Eco-picaretas

Mestre e doutorando pela UnB, Luz explica que hoje a maioria dos grupos indígenas e ambientalistas são financiados por ONGs picaretas.

Falsos índios

O pesquisador denuncia ainda a existência de falsos índios. Em 2008, havia 250 demandas de delimitação de terra. Hoje, já ultrapassam 500.

Olhar pra frente

Presidente do PT-MG, Reginaldo Lopes convenceu colegas a desistir de fazer ato de apoio ao ex-presidente Lula, alvo de denúncias: “Temos é de comemorar os 10 anos no comando do país e olhar pra frente”.

Linha dura

Em maio, a embaixada do Brasil na Alemanha será dirigida pela primeira vez por uma mulher: a embaixadora Maria Luiza Viotti. Mineira, dinâmica, é conhecida pelo rigor com os “amigos do ócio”.

Falta estofo

Para o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), apesar de ser um nome promissor, o governador Eduardo Campos (PSB-PE) “ainda não tem estofo” para disputar as eleições a presidente da República em 2014.

Ninguém mexe

O PT bate pé que não vai abrir mão dos cargos comissionados na Advocacia-Geral da União e em outros órgãos da Administração Pública. Como bem se sabe, parecer jurídico “vale ouro” na Esplanada.

Isolada

Aumentaram as apostas de que a vice-presidente da Câmara, Rose de Freitas (PMDB-ES), está de malas prontas para o PSD de Gilberto Kassab. Ela nem deu as caras na última convenção estadual do PMDB.

Sob sigilo

O deputado Marco Tebaldi (PSDB-SC) critica governo por não divulgar com clareza os gastos com os mais de 13 mil cartões corporativos. “Além dessa gastança toda, querem esconder da população”, protesta.

Só se queima

Líder do PSDB, Bruno Araújo (PE) defende que seja investigada a participação do ex-presidente Lula no mensalão: “A blindagem do PT joga por terra o que sobrou da luta do partido pela redemocratização”.

Entranhas postais

Nos Correios, o PT que aparelha a casa passou a bombardear um velho aliado interno: a tal “momenclatura”, que, tal como ratos nos porões, domina as entranhas postais.

Parque dos dinossauros

Paraíso das prostitutas universitárias e dos prédios despencando, Cuba tem nova atração turística: a romaria necrológica a Hugo Chávez.

Um semanal diário

O diretor do semanário mineiro O Debate, Osvaldo Nobre, encontrou casualmente em Belo Horizonte o deputado José Maria Alkimin. A velha raposa política não perderia a chance de fazer média:
– Excelente o seu jornal. Leio-o todos os dias.
– Mas o jornal é semanal, deputado – observou Nobre, com ironia.
– Para você, que o faz uma vez por semana – respondeu Alkimin, rápido no gatilho – porque, para mim, que o leio todos os dias, é diário mesmo.

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: A passos lentos – Só metade dos estados adere a plano anticrack
Folha: Brasil perde investimento para outros emergentes
Estadão: TSE gasta R$ 9,5 mi em 3 meses com hora extra
Correio: Polícia reforça o cerco a suplemento proibido
Valor: Bancos reveem a oferta de crédito à baixa renda
Estado de Minas: Chuva põe em perigo 2,5 mil casas em BH
Jornal do Commercio: Insegurança no paraíso
Zero Hora: Obras de barragens viram buracos sem fundo no RS

domingo, janeiro 13, 2013

Luto - CAETANO VELOSO

O GLOBO - 13/01


Acho que Ang Lee foi levado a fazer o filme de Pi por causa do desafio de pôr em cena a experiência de um menino sozinho com um tigre no meio do oceano. Essa ideia chegou a Yann Martel, o autor do livro em que o filme se baseia, através de “Max e os felinos”, romance de Moacyr Scliar, em que um menino judeu, sobrevivente de um naufrágio na fuga da Alemanha nazista para o Brasil, se vê num bote acompanhado de um jaguar. Martel tinha 36 anos quando aprendeu a história. Depois de ter dito que estava à espera de uma história com H maiúsculo para escrever um livro, deparou-se com o argumento de Scliar.

Apesar de tudo resultar bem, com o escritor gaúcho sem ânimo de abrir um processo por plágio, Martel aparece mal na fita quando diz ter lido apenas uma resenha escrita por John Updike (que depois disse nunca ter resenhado o livro de Scliar), mas sobretudo quando disse tratar-se de “uma grande ideia tratada por um escritor menor”. Scliar pode ser visto no YouTube comentando o caso, muito desencanado. Martel terminou escrevendo um agradecimento nominal a Scliar “por uma faísca de vida”. “Não sou litigioso”, diz Scliar. E soa muito bem. Mas ele se ressente, como eu, de que a declaração de Martel sobre “escritor menor”, tendo dito que não leu o livro mas apenas a resenha, trai um preconceito contra a possibilidade de um livro brasileiro ser relevante. Em suma, o filme de Ang Lee é que faz brilhar a história dessa história.

Delfim Netto é uma das mentes mais brilhantes da República. Ele aparece na letra de uma música que fiz (“Ele me deu um beijo na boca”). Nessa música, seu nome precede (e rima com) a frase “Política é o fim”. Eu o vi pessoalmente uma única vez, num voo doméstico (houve oportunidade apenas para um cumprimento com sorriso bom da parte dele). Quando eu estava no exílio, ele era uma das figuras mais odiadas pela esquerda. Eu aderia, sem comentários (sou exuberantemente ignorante em economia): afinal ele tinha assinado o AI-5. Acompanhei, com ignorância ainda notável, sua desaprovação das políticas econômicas de FH. Imaginei a antipatia natural entre um charmoso acadêmico de esquerda e um charmoso acadêmico de direita. Não é assim que, eleito Lula, ele foi virando um petista/lulista/dilmista entusiasta. O artigo da “Folha” em que ele apoia Dilma contra “The Economist” já era bem partidário (a desconfiança dos investidores ficava ali parecendo suspeitamente artificial), mas o texto que li na “Carta Capital” (revista que uma vez apelidei de “a ‘Veja’ do Lula”) chega a parecer uma ode. Tudo isso deve ser bom sinal. O Brasil está virando adulto. Mas para um velho como eu, não deixa de soar engraçado Delfim Netto com forte sotaque “compañero”, escrevendo “presidenta” e tudo o mais. Cheguei a pensar que fosse o Paulo Henrique Amorim (cuja conversão tampouco poderia passar em brancas nuvens — para não falar no Mino Carta).

“As Mulheres de Péricles” é um disco importante. O DJ Zé Pedro teve a ideia de fazer um disco com cantoras jovens interpretando canções de Péricles Cavalcanti e pediu a Nina, filha dele, que fizesse a curadoria. Poderia ser algo simpático e nada mais. Mas o resultado é que a inspiração peculiar de Péricles atraiu as capacidades mais intensas e profundas das moças, revelando a força da nova geração paulista (embora não só paulista) de um modo que nenhuma matéria da “Folha” tinha conseguido sugerir. Eu poderia falar horas sobre Céu e seu som na abertura do álbum. Também teria muito o que dizer sobre Marietta Vital e Mariah Rocha, sobre todas as participantes, enfim. Mas, por enquanto, basta que eu me concentre um minuto no trabalho que Mallu Magalhães fez com “Elegia”. O sumiço do bordão no trecho exato da música, os esconderijos que a voz busca (por timidez, por adivinhação erótica, por consciência das sutilezas da expressão artística), tudo nessa faixa faz pensar na riqueza que está aí no ar, na força que antes desse disco era tão mais difícil de ver. Que, para isso, Mallu tenha ido para o extremo oposto do projeto de clareza complicada que é a tradução de Augusto de Campos para o poema de John Donne, só reforça a sensação de que Mallu chegou longe. E com isso, provou o que se percebe em cada faixa desse disco: que essas meninas não são de brincadeira. Só mesmo a música de Péricles para aglutinar esse elenco de criadoras generosas (não se sente o ranço de ego feminino que fácil surge entre possíveis divas). Péricles, o eterno adolescente que, vezes sem conta, tem salvado o legado dos anos 1960.

Mas São Paulo está de luto. Laércio Grimas, 33, o DJ Lah, do grupo Conexão do Morro, foi morto, entre sete outras vítimas, por um grupo de encapuzados.

Prosopagnosia - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 13/01


Eu estava na fila do cinema, e ela dois passos à frente. Ela virava para trás, me olhava, e logo virava para frente de novo. Até que numa dessas viradas ela disse oi. Eu retribui: Oi. Ela: É isso aí, tu não me conhece, mas eu te conheço: tem que cumprimentar.

Eu sei, amiga.

Leitores me cumprimentam sem que eu os conheça, e tudo certo, já que há uma foto minha ao lado da coluna do jornal. Só vira um problema quando eu realmente conheço a pessoa que me cumprimenta, já conversei com ela em algum momento da vida, e não faço ideia de quem seja. Escrevi certa vez sobre isso: se a pessoa é a recepcionista da minha médica, e sempre a vejo de coque e de uniforme branco, ao passar por mim de vestido floreado e cabeleira solta no shopping, não vou reconhecê-la.

Se o sujeito com quem cruzo na academia, sempre de calção e camiseta, entrar no restaurante de camisa polo e um blusão amarrado em torno do pescoço, não vou reconhecê-lo. Se o porteiro do meu prédio for filmado na arquibancada de um estádio vestindo a camiseta do seu time e segurando um cartaz dizendo “Olha eu aqui, Galvão”, periga o Galvão saber quem é: eu, não. Tenho uma incapacidade crônica de identificar pessoas fora do habitat em que costumo encontrá-las.

Sempre me justifiquei dizendo “Sou péssima fisionomista”, que é um chavão, mas não é mentira, e que, aliado aos meus três graus de astigmatismo, me garantia o perdão de algumas boas almas. Até que outro dia entrei numa loja de conveniências, um cara abriu os braços ao me ver e disse numa alegria comovente: “Marthinha!”.

Achei meio íntimo para um leitor. Sorri amarelo e dei um “oi” igual ao que ofereci à moça da fila do cinema. Ele insistiu: “Martha, sou eu!”. Socorro, eu quem? Então ele disse seu nome. Pasme: era um ex-namorado!! A meu favor, deponho que foi um namorado da época da faculdade (não me obrigue a fazer as contas), mas, ora, ainda que tenha sido no tempo das cavernas, conviveu comigo. Ao menos o seu olhar deveria ser o mesmo. Me senti um inseto.

Pois bem, depois de anos soterrada em culpa, descubro que a medicina está do meu lado. Acabo de saber que “sou péssima fisionomista” possui nome científico: prosopagnosia. Uma doença que debilita a área do cérebro que distingue traços e expressões faciais. Estou lendo o excelente Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera, cujo personagem vive o mesmo desconforto.

Alguns médicos dizem que há apenas 100 casos diagnosticados no mundo – provavelmente eu e outros 99 acusados injustamente de ter o nariz em pé. Mas há quem diga também que o problema é mais comum do que se pensa e que atinge uma a cada 50 pessoas, ou seja, é praticamente uma epidemia.

Comum ou incomum, me concedam o benefício da dúvida: talvez eu seja uma pobre vítima da prosopagnosia e por isso não saio por aí dando dois beijinhos e perguntando pela família de quem, a priori, nunca vi antes. Se não for prosopagnosia, acredite: é astigmatismo evoluindo para uma catarata, somada a uma palermice que me dificulta distinguir semblantes. Nariz em pé, juro que não é.

Retratos da vida - ANCELMO GOIS


O GLOBO - 13/01


Das 7.147 pessoas internadas por problemas psiquiátricos no Estado do Rio, 6.651 não recebem visitas.
Os sem parentes e amigos, veja a tragédia, são 93% dos internados.

Segue...
Do total de pacientes, 1.540 não têm referência de moradia.
Os dados são do Módulo de Saúde Mental, do MP do Rio.

Conteúdo nacional
Luiz Fux promove uma audiência pública, no início de fevereiro, para discutir a lei que regulamenta a TV por assinatura no país.
O ministro é relator, no STF, de três ações diretas de inconstitucionalidade da lei. Uma dessas Adins foi apresentada pelo partido Democratas (DEM).

Contra as cotas...
Em jogo, a cota para programas de conteúdo nacional. A lei em vigor exige que miúdos 2,08% das 168 horas de programação semanal de cada canal sejam dedicados a produções brasileiras.
A lei alavancou (e muito) o mercado para produtores, autores e artistas daqui. Mas tem gente que não gosta.

A compungida
Diplomatas baseados em Havana ficaram surpresos com o estilo de Cristina Kirchner, que, sexta, foi visitar parentes de Hugo Chávez.
A argentina chegou ao hospital de... vestido preto-luto, óculos escuros e com uma Bíblia nas mãos.


Acabou em samba
Este ano, o Bloco Gargalhada, de Vila Isabel, desfila com o enredo “Eu juro que não sabia de nada”.
Vai celebrar o Lula, que, sempre que surge algum escândalo à sua volta, alega que nada sabia.
Faz sentido. 


Saudades de Hirschman
José Serra, que perdeu a prefeitura de São Paulo para Fernando Haddad, está escrevendo um texto sobre o pensador alemão Albert Hirschman, que morreu em dezembro, aos 97 anos, e tinha muitos amigos brasileiros, como Celso Furtado e FH.
Serra, em 1976, durante seu doutorado em Economia nos EUA, trabalhou com Hirschman.


Já...
FH faz a apresentação da esperada biografia do alemão, que sai dia 28 de abril pela Princeton University Press.
A obra é escrita pelo professor Jeremy Adelman, um dos sacerdotes supremos dessa famosa universidade, que fica em Nova Jersey, nos EUA.

Ainda...
Certa vez, Edmar Bacha, o grande economista e também amigo de Albert Hirschman, perguntou-lhe como ele se definiria em termos de afiliação intelectual. E Hirschman:
— Me vejo como um praticante do micromarxismo.
Para Bacha, como o marxismo é macro por excelência, a resposta dele apenas expressava quão original o pensador, de fato, foi, “um verdadeiro hirschmaniano!”.


É grave a crise I
A coluna é do tempo em que os babalorixás traziam a pessoa amada em até três dias. Mas, para Pai Cláudio, que atende em Copacabana, é preciso um pouco mais.
No anúncio de seus trabalhos, ele só garante a “entrega da encomenda” de... 3 a 7 dias. Sei lá.

É grave a crise II
Uma casa de saliência na Rua do Acre, no Rio, quase em frente ao TRF, colou, na porta do estabelecimento, uma propaganda avisando que o pagamento de seus serviços pode ser parcelado, no cartão, em até quatro vezes sem juros.
Uma pechincha.

Rei Lear
Geraldo Carneiro acaba de finalizar sua adaptação de “Rei Lear”, o grande clássico de Shakespeare, para monólogo.
Caberá a Juca de Oliveira viver o personagem. Com direção de Elias Andreato, a peça estreia neste primeiro semestre, no Rio Expresso da folia. A SuperVia colocará um trem com ar-condicionado à disposição das escolas de samba nos dias dos desfiles. É para levar seus integrantes de graça.

Cadeia VIP - DANUZA LEÃO

FOLHA DE SP - 13/01


Na cadeia VIP, sushis e charutos custariam uma fortuna, e parte do dinheiro roubado seria recuperada


A iniciativa privada tem em seus planos construir e gerenciar presídios. Ótimo; assim nossos presidiários poderão ter vida mais digna. É natural que um grande empresário que não agiu de acordo com a lei, cumpra pena em local condizente com sua situação social. As prisões poderão ser de vários tipos, de uma a cinco estrelas, essas para pessoas mais ilustres, mas em todas a hospedagem deverá ser paga. Então aí vai minha pequena colaboração, para que os anos passados longe do convívio dos seus próximos sejam menos dolorosos.

As prisões cinco estrelas teriam suítes de luxo, todas com TV, mas onde só seriam exibidas minisséries, novelas e filmes; proibidos os programas jornalísticos, para que não possam acompanhar o que está se passando no mundo (e se inspirar para novos negócios). Jornais, computadores e celulares seriam proibidos e em matéria de imprensa, só a revista "Caras", para que eles vejam o que estão perdendo.

A diária seria cara, mas isso não seria problema, claro. Haveria muito conforto: sala de ginástica, churrascaria, um bistrot francês e um sushi bar. Eles teriam que passar o dia sós, dentro de seus aposentos - afinal, prisão é prisão-, mas a partir das 7 da noite poderiam se reunir para conversar e até jantar juntos; bebida alcoólica, liberada às visitas, só nos fins de semana. A vida dos detidos não seria ruim; eles teriam direito a quase tudo, menos à liberdade, mas esse quase tudo seria muito caro.

Cada coca-cola, cada sushi, cada camisa lavada e passada, cada charuto cubano, cada roupa de cama trocada custaria uma verdadeira fortuna, e assim parte do dinheiro ganho de maneira desonesta poderia ser recuperada; a única obrigação que teriam seria assistir a uma aula diária de Moral, para aprenderem o mais elementar: que roubar um banco ou o dinheiro do Estado é a mesma coisa, e que "dar uma tacada" ou "fazer um negócio" pode ser tão grave -ou mais- quanto assaltar uma pessoa na rua com um revólver na mão.

Os presidiários deverão trabalhar enquanto estiverem presos, e o estabelecimento seria administrado exatamente como qualquer empresa. O mais inteligente seria o presidente, e escolheria seus colaboradores: quem cuidaria da tesouraria, ou das relações públicas, e haveria sempre alguém para descolar um iPad ou uma garrafa de whisky; tudo pago em dinheiro, cash, e sem recibo, porque são essas manias de assinar cheques e dar recibos que acabam na Justiça.

As empresas ganhariam muito dinheiro administrando essas prisões; tanto, que não precisariam mais de contratos com o governo para construir pontes, estradas, estádios de futebol, trem-bala e aeroportos.

E assim, quem sabe, teríamos um país mais decente.


Paris 1 - Os parisienses antenados não vão mais ao Café de Flore -são turistas demais. Seus encontros agora são marcados no Café Bonaparte, bem pertinho, na praça da igreja de St. Germain, e se você quer parecer que sabe das coisas, já sabe: encontros, só no Bonaparte.

Paris 2 - Se você fizer uma comprinha na Cartier, seja uma pulseira de 300.000 euros ou algo mais importante, não pense que vai sair exibindo a sacolinha vermelha com o nome Cartier em dourado. É assim: a jóia é colocada na sacolinha vermelha, que por sua vez é colocada dentro de uma sacola branca, para que ninguém tenha a tentação de roubá-la. Chique, não?

Paris 3 - Para jantar na Maison du Caviar -950 euros as 100 gramas do beluga gros grains- é preciso reservar, pois a casa está sempre cheia, sobretudo de armênios e russos.

Paris 4 - Mas para quem não liga para caviar, Paris é o lugar. O preço dos restaurantes é quase ridículo, perto dos do Rio e de SP, e da qualidade, nem falemos.

O pugilato de idéias - CARLOS HEITOR CONY

FOLHA DE SP - 13/01


RIO DE JANEIRO - O personagem mais simpático de Machado de Assis, na minha opinião, é Quincas Borba, não o homem, mas o cão que tem o mesmo nome do antigo dono. Justamente porque nada fala, mas pensa, e pensa muito. O espanhol que toma conta dele, quando está com raiva, chama-o de "perro del infierno", mas o cão nem dá bola para a ofensa. De tanto pensar sobre o mundo, Quincas Borba descobriu que a vida é "uma poeira de ideias".

Nunca leu Platão nem Schopenhauer, mas, observando os homens, verificou que toda a humana lida não passa de uma poeira de ideias que, muitas vezes, chega ao pugilato, talvez porque, segundo um autor (Shakespeare) que ele também não leu, os homens são homens, "men are men".

Na semana que passou, apesar da muita chuva que caiu aqui pela Baixada Fluminense, tentei fazer uma ideia de tudo, mas fui obrigado a concordar com Quincas Borba: muita poeira e nenhuma ideia. Vi o pessoal do Ministério de Minas e Energia, que produziu, entre outras maravilhas, a maravilha que é a atual presidente do Brasil, explicar os apagões e garantir que tudo está bem, o que não deixa de ser uma poeira que cobre a nossa realidade.

Poeira também, de uma outra ideia em curso, é a intenção de colocar Lula na turma do mensalão, por conta do domínio do fato que, afinal, é um tipo de poeira que complica a já complicada paisagem nacional. Tudo é possível, dizia o autor de "Quincas Borba". Há também uma ideia generalizada de que as obras prometidas para a Copa do Mundo e a Olimpíada estão atrasadíssimas -e bota poeira nisso, o remédio é esperar que a poeira comece a descer e apareça alguma coisa.

Bem verdade que a mídia, a impressa e a eletrônica, aprecia a poeira, dando mais importância ao pó do que à ideia em si.

A reinvenção da televisão - RENATO CRUZ


O Estado de S.Paulo - 13/01



A televisão vive um ciclo acelerado de mudança tecnológica. Na época da TV analógica, um aparelho costumava durar dez anos. As mudanças - como a passagem do preto e branco para as cores e o surgimento do controle remoto - levavam décadas. Com a TV digital, tudo isso mudou. A televisão entrou no mesmo ritmo de evolução dos microcomputadores, com lançamentos pelo menos anuais e queda de preços e obsolescência aceleradas.

Nos seis últimos anos, acompanhamos o lançamento de aparelhos digitais de alta definição, de alta definição plena ("full HD"), 3D com óculos ativos (que precisam de bateria), 3D com óculos passivos (mais baratos, sem bateria), de LED (com tela mais fina), conectadas à internet e com sensores de voz e gestos.

A Consumer Electronics Show (CES), maior feira de eletrônicos do mundo, realizada na semana passada em Las Vegas, trouxe mais novidades. A grande atração foi a tecnologia Oled, com telas ainda mais finas, mais nitidez e contraste e menor consumo de energia. Fabricantes apresentaram televisores curvos, como algumas telas de cinema. As chamadas televisões de 4K têm quatro vezes mais resolução (quantidade de pontos que formam a imagem) do que a alta definição atual.

Essas mudanças chegam até a trazer certa angústia ao consumidor. Para quem estava acostumado a trocar o televisor a cada década, é difícil de aceitar que o aparelho esteja obsoleto em menos de um ano. Mas, por mais que a imagem se torne melhor a cada lançamento, no entanto, não é aí que acontece a grande revolução digital da televisão. A maior mudança está na forma como as pessoas assistem à televisão. A possibilidade de ver o programa que quiser, na hora que quiser, liberta o espectador, e representa um grande desafio aos canais de televisão.

A organização do conteúdo em canais com grade de programação foi resultado de uma limitação tecnológica que já não existe mais. Os canais para transmissão da TV aberta eram um bem escasso, e a programação foi estruturada para tirar o melhor proveito dessa escassez. Para se ter uma ideia, o canal de 6 MHz usado pela emissora de televisão aberta para transmitir sua programação tem capacidade equivalente a cerca de 19 megabits por segundo (Mbps). É pouco.

Atualmente, é possível contratar um acesso residencial de banda larga com 100 Mbps. Não é barato, mas já dá para ter em casa uma conexão com mais de cinco vezes a capacidade do canal da emissora de TV. A barreira tecnológica à transmissão personalizada de programas ficou para trás. Deixou de fazer sentido ver um vídeo na hora determinada pelo canal.

No ano passado, participei de um evento da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), em Brasília. Perguntei a José Félix, presidente da Net, se a abertura do mercado de TV a cabo era uma ameaça à empresa. No fim de 2011, foi promulgada uma nova lei de televisão por assinatura, e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) retomou a venda de licenças de TV a cabo, que ficou paralisada mais de uma década.

Félix disse que não, porque, se por um lado as novas licenças aumentam a concorrência para a Net, por outro permitem que a empresa expanda sua área de atuação. Segundo ele, a grande ameaça são os serviços "over the top". Esses serviços de vídeo via internet, como Netflix e YouTube, usam a infraestrutura das empresas de banda larga para distribuir seu conteúdo.

Não é por acaso que a audiência da TV aberta vem caindo. O total de aparelhos ligados entre 7h e meia-noite, segundo o Ibope, caiu de 41,7 pontos em 2011 para 40,1 pontos no ano passado. Isso não quer dizer, porém, que o restante dos televisores esteja desligado. Quer dizer que não estava ligado na TV aberta.

Alguém pode dizer que esse cenário de vídeo fora da grade de programação vem crescendo graças à pirataria e ao desrespeito ao direito autoral. Cada vez menos. O avanço da TV conectada e dos serviços de vídeo sob demanda - como o Netflix ou o próprio Now, da Net - é um desestímulo ao download de arquivos ilegais da internet.

O espectador quer comodidade, sem ser obrigado a ver alguma coisa por pura falta de opção.