sábado, novembro 10, 2012

Da realidade à euforia na política brasileira - MARIO CESAR FLORES


O Estado de S.Paulo - 10/11


A realidade esboçada no artigo Euforia x realidade (29/10, A2) já preocupa, mas é ainda mais impactante na política e no serviço público, influentes em tudo, para o bem e para o mal.

Há 60/70 anos tínhamos, da direita à esquerda, políticos de relevância nacional, como (novamente os nomes citados são exemplos, não esgotam o passado) Getúlio Vargas, Prado Kelly, Milton Campos, Carlos Lacerda, Alberto Pasqualini, Fernando Ferrari... Tal como na cultura, os destaques agora são menos expressivos e em menor número, relativamente à população quintuplicada, abrindo espaço ao populismo vulgar. Tínhamos partidos (PSD, UDN, PTB, PL) com alguma consistência. Nos 30 (!) partidos atuais, quais os consistentes? Se um dos poucos partidos hoje oposição eleger o presidente, os muitos da base do governo atual serão oposição? Não mesmo: a adesão será imediata! Em vez do embate de ideias, prevalece agora o não compromisso com as ideias - o que ajuda a explicar as coalizões distintas nos três níveis da Federação. Conselho de pai a filho, em conto de Machado de Assis, rigorosamente válido hoje: você pode "pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma ideia especial a esses vocábulos".

Parte ponderável do quadro político é movida pelas vantagens do poder, pródigas no nosso estatismo patrimonialista. Sob a Constituição de 1988, a política virou profissão dos que a veem como meio de vida confortável. Para eles, a reeleição é a bússola no trato das questões públicas. Tal como no patriarcalismo tutelar do passado rural, nosso populismo urbano deturpa hoje a lógica da democracia se valendo da desorientação popular. Assusta admitir a eleição de atores da propaganda eleitoral enganosa e ofensiva ao bom senso, alguns usando codinomes ridículos, que desmerecem a eleição.

Preocupante no todo nacional, o quadro é pior nos municípios e, neles, na vereança, a ponto de pôr em dúvida a racionalidade desse instrumento da democracia! Seria a convicção de missão redentorista a razão de tanto empenho? Improvável...

O serviço público viveu uma queda de qualidade, de razoável, há 60/70 anos, para o pós-Constituição de 1988. O mérito não vem sendo quesito essencial, sobretudo no comissionamento ao arbítrio político aberto ao clientelismo. Apesar das vantagens singulares do servidor estatutário - estabilidade, aposentadoria integral, salários satisfatórios, ressalvadas umas poucas categorias, a exemplo do magistério do ensino fundamental, até altos para algumas carreiras -, são comuns as greves agressivas à vida do País e ao povo, refém e vítima de pretensões de setores com poder de atropelar a normalidade.

A corrupção sempre esteve presente na nossa História, mas cresceu em anos recentes, facilitada pela conciliação entre a burocracia estatal politicamente configurada e o capital. Em qualquer lugar e época a dimensão da corrupção do sistema público sempre foi proporcional ao tamanho do estatismo e é natural que ela tenha campo fértil no Brasil, onde em tudo está presente a mão do Estado provedor, protetor, cliente ou, no mínimo, carimbador do "autorizo" burocrático.

A comedida redução do estatismo nos anos 1990 foi contida na última década, em consonância com a visão do poder político eleito e, é bem verdade, com nossa cultura que vê no Estado o provedor a qualquer custo. A corrupção acompanhou o recrudescimento do estatismo.

Em cenário dessa natureza, é compreensível que a ineficiência e os malfeitos, por incompetência ou dolo, comprometam o desempenho da política e da gestão em toda a abrangência da ação pública, da política externa ao guarda de trânsito, de forma mais sensível nas áreas comentadas no artigo anterior (e em outras mais), que afetam diretamente o dia a dia da vida nacional e do povo e nas quais a realidade discrepa da euforia. Em suma, a saúde política e administrativa do País é - para dizer o mínimo - precária.

Dentre as consequências da situação, uma ameaça: já começa a transparecer alguma insatisfação que, sub-repticiamente, vem contribuindo para o desrespeito à lei. É o caso da violência banalizada (assalto, arrastão...) como instrumento da satisfação da compulsão ao consumo e o da deformação mental que vê na invasão de propriedades, bloqueio e vandalismo a título de reivindicação ou protesto menos a ilegalidade a ser controlada e mais a manifestação social a ser tolerada. Mesmo que cresça a insatisfação e decresça a indulgência popular, é inverossímil, aqui, uma primavera árabe tropical, incoerente com a inconsistência revolucionária do povo. Mas ainda que sem organização e objetivo político-ideológico, correremos o risco de aumento da desordem generalizada, suscetível de exploração pelo populismo inescrupuloso e pelo crime organizado.

O quadro esboçado não é determinante. Temos empreendimentos econômicos industriais e agrícolas, de ensino, pesquisa, saúde, cultura e serviços de vanguarda, que indicam ser viável a construção de uma afirmação nacional progressista. Algumas universidades (ou ao menos setores delas), escolas do ensino fundamental e médio acima da precariedade geral, uns tantos hospitais de excelência, instituições de pesquisa como a Embrapa, a Fiocruz, o Butantã e o Inpa, ou culturais, como a Osesp, o domínio da tecnologia e prática de exploração de petróleo no mar, serviços de qualidade moderna singular, como a informatização das eleições e do sistema bancário, são exemplos simbólicos que referendam a hipótese de existir potencial humano, social e econômico para levantar do "berço esplêndido" o "impávido colosso" do Hino Nacional, aproximando o real da euforia, efetivamente, e não apenas na retórica do ufanismo oficialista.

A evolução positiva tem por condição prévia a revisão da política (repetindo, influente em tudo) e não é essa uma perspectiva otimista hoje.

A prova - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 10/11


SÃO PAULO - O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) vem há anos militando para emplacar um exame de habilitação mais ou menos nos moldes do que a OAB aplica aos bacharéis em direito.

A coisa começou devagar. Em 2005, criou-se uma prova experimental à qual apenas os formandos que assim o desejassem se submeteriam. Os resultados assustam, com índices de reprovação variando de 32% (2005) a 61% (2008). Agora, o Cremesp tornou o teste obrigatório. Ele ocorre amanhã. Todos os graduandos precisam fazê-lo, mas não há desempenho mínimo. A ideia é que no futuro o exame se torne eliminatório.

Faz todo o sentido aferir a competência técnica dos formandos antes de soltá-los no mercado. Estão em jogo os direitos de consumidor. Num mundo imperfeito onde barbeiragens médicas podem matar e o paciente não tem como conferir a qualificação do profissional quando apela a seus serviços, é preciso que todo médico tenha previamente demonstrado que está apto a exercer a profissão. Provas com essa finalidade existem nos EUA e no Canadá.

O que não me parece correto é que essa incumbência seja dada ao Cremesp. Creio que o órgão acreditador deve ser o Estado, a exemplo do que ocorre com brevês e carteiras de motorista. Conselhos, afinal, gozam de um estatuto meio ambíguo, no qual funções de entidade de classe se misturam a atribuições de órgão regulador. São interesses que podem conflitar com os da sociedade.

Não é coincidência que só o conselho de São Paulo, onde o mercado profissional está mais saturado, defenda o exame. Para a população, porém, desde que a qualidade mínima esteja assegurada, haver mais médicos do que um suposto ideal não é problema. Aliás, enquanto todo o mundo desenvolvido, de olho nas projeções de envelhecimento populacional, fala em aumentar o número de médicos, aqui as entidades de classe se unem para restringi-lo.

Virtudes e política - BRUNO ARAÚJO

O GLOBO - 10/11

O vice-líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira, acabou fazendo da sua difícil tarefa de defender o veto da presidente Dilma Rousseff à emenda que apresentamos e que zera as alíquotas de impostos da cesta básica nacional uma confissão de culpa (O GLOBO, 7/11).

Segundo ele, a presidente se comprometeu a amadurecer a proposta, devolvendo-a à Câmara no prazo mais curto possível. Disse ainda que o PSDB plagiou a matéria ao transformar em emenda projeto de lei de sua autoria e de outros deputados do PT. E reconheceu a necessidade de mudar a atual estrutura tributária, em que os pobres pagam mais impostos que os ricos.

O PT se esquece de que está no governo há quase 10 anos, e, convenhamos, tempo suficiente para resolver problemas que considera importantes, como a reforma tributária e a redução da miséria. E passou todo esse período dizendo que isso era prioridade. Dez anos é muito tempo, uma eternidade para quem passa fome.

Se a redução de impostos sobre produtos da cesta básica é fundamental, por que até hoje não saiu do papel? Curioso que para assuntos que interessam ao governo, como a criação de cargos que aumentam ainda mais as despesas de custeio, a pressa é outra.

A emenda que apresentamos à Medida Provisória 563 e que foi aprovada por unanimidade reproduz o projeto de lei assinado pelos parlamentares petistas. E isso nunca foi segredo. Está no texto da própria emenda, que cita, na justificativa, a proposta e seus autores.

Ao contrário do PT, não temos nenhum problema em reconhecer virtudes nas iniciativas que não são nossas. Nosso objetivo foi apressar a votação da matéria pela importância que ela tem especialmente para as famílias mais pobres.

Quem conhece o funcionamento do Congresso Nacional sabe que uma medida provisória entra em vigor imediatamente, muito mais rapidamente do que um projeto de lei. Dizer que o governo pretende promover uma discussão ampla sobre o assunto só agora, depois de vetar a emenda já aprovada, não nos parece razoável.

Até hoje não se tem notícias do andamento dos estudos do grupo de trabalho criado em setembro por decreto para apresentar proposta de desoneração até 31 de dezembro. Ou seja, ao contrário do que o PT tenta mostrar, o seu discurso é bem diferente da prática.

É lamentável que um governo que se diz preocupado com a redução da desigualdade social vete uma medida tão importante. A isenção de IPI, PIS e Cofins de produtos da cesta básica proporcionaria uma economia de 10% no preço final para o cidadão. Para quem vive com o dinheiro contado, isso faz muita diferença.

Confessar culpa não é suficiente. Não isenta o governo da sua omissão e nem reduz sua dívida com a sociedade pela promessa não cumprida. Seria mais nobre reconhecer que o PSDB contribuiu para tirar do papel essa importante medida do que tentar desqualificar a iniciativa chamando-a de plágio.

Historiador? Só com diploma - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 10/11


BRASÍLIA - Poucos notaram, mas o Senado aprovou um projeto de lei estapafúrdio na última quarta-feira. Eis o essencial: "O exercício da profissão de historiador, em todo o território nacional, é privativo dos portadores de diploma de curso superior em história, expedido por instituição regular de ensino".

Em resumo, se vier a ser aprovada pela Câmara e depois sancionada pela presidente da República, a nova lei impedirá que pessoas sem diploma de história possam dar aulas dessa disciplina.

A proposta é de um maniqueísmo atroz. Ignora que médicos, sociólogos, economistas, engenheiros, juristas, jornalistas ou cidadãos sem diploma possam acumular conhecimentos históricos sobre suas áreas de atuação. Terão todos de guardar para si o que aprenderem.

Há sempre a esperança de alguém levantar a mão e interromper essa marcha da insensatez na Câmara. Mas mesmo que seja abortado, o episódio não perderá a sua gravidade. Trata-se de um alerta sobre a obsolescência e a falta de lógica do processo legislativo brasileiro.

A ideia nasceu em 2009. Era um projeto do senador Paulo Paim, do PT gaúcho. Em três meses, o senador Cristovam Buarque, do PDT de Brasília, deu um parecer favorável. Ouviu um chiste de José Sarney: "Você quer me impedir de escrever sobre a história do Maranhão".

Cristovam parece arrependido do seu protagonismo. Indica ter deixado tudo para assessores, sem supervisioná-los como deveria. Erros acontecem. Só que o senador defensor da educação não quis reconhecer o equívoco na quarta-feira. Preferiu se ausentar do plenário.

O Senado tem 81 integrantes. Só dois votaram contra o diploma obrigatório para historiadores: Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) e Pedro Taques (PDT-MT). É muito pouco para impedir que o país se transforme, de lambança em lambança, numa pátria das corporações.

Crer em Deus ainda faz sentido? - DOM ODILO P. SCHERER


O Estado de S.Paulo - 10/11


No dia 11 de outubro passado, o papa Bento XVI abriu um "Ano da Fé" para toda a Igreja Católica. A iniciativa coincide com o 50.º aniversário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, levada a efeito a seu tempo pelo papa João XXIII. São objetivos do "Ano da Fé" o reencontro dos fiéis com as raízes e as razões da fé da Igreja, sua melhor compreensão e um novo impulso na transmissão do patrimônio da fé, que os cristãos vivem e partilham com a humanidade há 20 séculos.

Pareceria que não faz mais sentido crer em Deus em nossos dias, sobretudo diante da afirmação da racionalidade científica e tecnológica. Há ideias bem diversas sobre a fé, nem sempre compatíveis entre si: há uma fé natural, que se confunde com um desejo intenso, há fé nos projetos humanos e até fé na ciência e na tecnologia. Sem entrar no mérito de cada uma dessas formas de uso do conceito "fé", e respeitando a forma como cada um crê ou não crê, desejo tratar aqui da fé sobrenatural em Deus e daquilo que decorre dessa fé, no sentido cristão de crer - mais exatamente, da Igreja Católica, à qual me dedico.

As perguntas que o próprio papa Bento XVI fez na abertura do "Ano da Fé", provavelmente, são as mesmas que mais de um leitor já se fez alguma vez: ainda tem sentido crer, quando a ciência e a técnica conferem ao homem uma sensação próxima da onipotência? O homem ainda precisa da fé? A fé não humilha a razão? O que significa crer?

Razão e fé, ciência e religião foram e são contrapostas com frequência, como se fossem inconciliáveis. Sobre esse tema o papa João Paulo II escreveu a carta encíclica Fides et Ratio (A Fé e a Razão), de grande profundidade, que permanece plenamente atual. Razão e fé não precisam nem devem, necessariamente, ser contrapostas. São duas vias de acesso à única realidade, percebida de maneiras diferentes; abordagens diversas quanto ao método e complementares quanto ao seu objeto, que é a verdade.

O ato de crer, no sentido cristão, vai além da mera adesão intelectual a uma verdade, ou a um ideal ético elevado. Tampouco se restringe à afirmação de doutrinas sobre Deus ou sobre realidades sobrenaturais. A fé é um dom de Deus, que se manifesta ao homem e o atrai a si, dando-lhe a capacidade de entrar em sintonia e diálogo com Ele. Ao mesmo tempo, é um ato que envolve plenamente o homem e o faz reconhecer os motivos para crer e a razoabilidade da adesão livre a uma realidade que se lhe apresenta luminosa e forte. A fé, nesse sentido, não é um ato irracional nem contrário à razão; nem puro sentimento, podendo ser compreendida e explicitada com argumentos, embora não seja fruto desses argumentos.

Nossa fé está ligada a fatos e eventos, mediante os quais Deus envolve o homem e se manifesta a ele; ao longo da História, de diversos modos Ele veio ao encontro do homem, sobretudo por Jesus Cristo. A fé é, portanto, a resposta livre e pessoal do homem a Deus; por ela nos abrimos para esse encontro misterioso e aderimos a Deus, que é mais que uma verdade intelectual, uma energia ou mesmo o grande caos... Ele se dá a conhecer como um "tu" pessoal, o grande Tu, em referência ao qual tudo passa a ter uma compreensão nova. De fato, a fé, no sentido cristão, oferece uma percepção própria da realidade, à luz de Deus.

O ato de fé é mais que um "crer em qualquer coisa"; é, acima de tudo, abrir-se a Deus e crer nele e, como consequência, naquilo que decorre desse ato de fé primeiro; por isso, a fé se traduz numa relação pessoal com esse grande Tu, que Jesus Cristo ensinou a reconhecer como um pai e a ter com Ele uma relação filial. Apesar de parecer a suprema ousadia da parte do homem, isso corresponde, de fato, ao anseio mais profundo do seu coração, que consiste em relacionar-se de maneira próxima e familiar com Deus.

No ato de crer, a dignidade do homem não é anulada, mas supera-se a frequente tentação de contrapor Deus ao homem. Deus não é a suprema ameaça à autonomia do homem, nem representa o grande obstáculo para que ele seja feliz. O ato de fé em Deus, no sentido exposto, proporciona ao homem a máxima possibilidade de compreensão dos mistérios de sua própria existência e de seu ser.

De fato, por muito que explique o mundo e a si mesmo pela ciência e pela filosofia, o homem não se dá por satisfeito, nem pode abafar algumas questões de fundo, que permanecem sem resposta: quem somos? Por que somos capazes de pensar, querer, decidir? Que significa essa inquietude, essa espécie de saudade interior, que nos impele a procurar a felicidade, o amor, a liberdade, a vida, algo que nos faz falta, como se um objetivo nos atraísse de maneira sutil, mas irresistível? Como orientar nossas escolhas livres para um êxito bom e feliz na vida? E a morte? Haverá algo além desta vida?

Responder de maneira peremptória a essas interrogações com um seco "não me interessa" seria levar pouco a sério o próprio mistério humano e fazer um ato de fé negativo, da mesma forma como faz um ato de fé positivo quem crê em Deus e, à sua luz, procura compreender melhor a si mesmo e ao mundo. E a contraposição inconciliável entre fé e razão, entre ciência e religião pode ser cômoda e simplista, levando a reprimir as interrogações humanas mais angustiantes e a estreitar o horizonte da compreensão do mundo e do ser humano; seria diminuir a própria dignidade homem.

Nossa inteligência é "capaz de Deus" e não está fechada para Ele. Crer é um ato humano livre por excelência, mediante o qual nos abrimos ao supremo Tu, ao Deus pessoal, e podemos alcançar uma certeza interior não menos importante do que aquela que nos vem das ciências exatas ou naturais. Reduzir nossa capacidade racional às certezas verificáveis seria diminuir essa mesma capacidade.

Crer em Deus continua tendo muito sentido.

Copa do atraso - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 10/11


Em junho do ano que vem -ou seja, em sete meses-, começará a Copa das Confederações, evento de teste para o Mundial de futebol em 2014.

Levas de turistas visitarão o Brasil, e o mundo acompanhará o torneio, que envolverá países como Espanha, Itália, Japão e México.

Com custos estimados em mais de R$ 27 bilhões, entre estádios e infraestrutura, as perspectivas do evento ainda são incertas. Algumas melhorias urbanas previstas não serão realizadas, e o balanço das arenas esportivas revela um quadro que, se não é desesperador, ainda oferece motivos para preocupação.

A Fifa anunciou que a Copa das Confederações será realizada em seis sedes: Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Brasília, Fortaleza e Recife. A primeira data para a entrega dos estádios era dezembro deste ano. Apenas Belo Horizonte e Fortaleza teriam condições de cumpri-la. Esticou-se o cronograma, então, até fevereiro. Agora, por fim, até abril.

O novo limite foi definido por pressões do governo federal, que teria oferecido à Fifa garantias de que serão concluídas as obras mais problemáticas, a saber, as do Recife e do Rio de Janeiro.

Mais do que na arena pernambucana, é no Maracanã, por ser a principal vitrine, que se concentram as apreensões.

O histórico recente de reformulações do estádio carioca ilustra o descaso com que o dinheiro público é tratado no país. Com gastos de cerca de R$ 1 bilhão previstos para a Copa, já havia consumido mais de R$ 400 milhões (em valores absolutos, não corrigidos pela inflação) na preparação para o Pan de 2007 e o Mundial de Clubes, em 2000. Espera-se que a Olimpíada de 2016 não exija novas e perdulárias intervenções.

As elevadas despesas, é claro, não garantem prazos. Basta citar a resposta de um um consultor do Comitê Organizador Local (COL) sobre a data de conclusão da reforma: "Se você souber o prazo, me fala. Não tem data certa, mas estimamos para meados de abril".

Apesar dos percalços, é provável que os estádios atrasados tenham condições de receber os jogos em 2013, mas parece certo que faltarão obras no entorno.

A Copa do Mundo não é mais um evento longínquo. Os meses passam, e a hora da verdade se aproxima. Já é tempo, portanto, de o país deixar de praticar um de seus esportes prediletos, depois do futebol: postergar providências e improvisar soluções.

De Hu para Xi - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 10/11


Perdidas as ilusões de que a abertura econômica da China, ou o "socialismo de mercado" introduzido por Deng Xiaoping no final dos anos 1970, desembocaria inexoravelmente na abertura política do regime, os frustrados analistas ocidentais se aferram agora a uma nova esperança. A desaceleração do crescimento chinês, dos extravagantes 10% ao ano, em média, do último decênio, para "apenas" 7,5%, argumentam, acabará estimulando a demanda reprimida por mais liberdade. Isso porque acentuará a infinidade de conflitos de interesses nesse país-planeta onde, por exemplo, os 10% do topo da pirâmide passaram a deter 85% da riqueza nacional. Ainda segundo esse raciocínio, doravante ficará mais difícil para o Partido Comunista Chinês (PCC) recorrer à repressão, como fez ao longo do período prestes a se encerrar do presidente Hu Jintao, a fim de impedir o transbordamento das insatisfações sociais.

Os otimistas citam um recente editorial do Diário do Povo de Pequim, órgão oficial do Partido Comunista Chinês, para sugerir que a tese da descompressão da ditadura é compartilhada por facções da elite partidária. "À medida que aumenta a consciência do público sobre o direito de saber e participar, e também sobre o Estado de Direito", reconhece o jornal, "vemos que a democracia na China não alcançou o nível que muitas pessoas esperam."

Nada remotamente parecido com isso, no entanto, se ouviu no discurso de despedida de Hu - depois de 10 anos, ele será substituído no comando do partido ainda este mês, e da chefia do governo em março do ano que vem, por Xi Jinping, filho de um dos heróis da revolução comunista de 1949, escolhido para ambos os cargos em 2007. Na quarta-feira, ao falar na abertura do 18.º congresso do partido, perante 2.300 de seus hierarcas, foi de uma clareza incomum no seu meio.

Citando Mao, conclamou os camaradas a "preservar a liderança do partido" e a "ampliar persistentemente a vitalidade do setor estatal da economia e a sua capacidade de alavancar a economia". Não parece que o discurso-testamento seja um aviso a um sucessor com eventuais inclinações reformistas. Hu, uma figura com escassa luz própria na era da liderança colegiada pós-Deng e pós-Jiang Zemin (1989-2002), limitou-se a glosar o último relatório quinquenal do PCC que dita a "linha justa" para o futuro próximo. Nem se devem tirar grandes conclusões do fato de Hu não ter dito, afinal, que a China "jamais copiará o sistema político ocidental", como constava do texto distribuído à imprensa. Nem mesmo as suas palavras alarmantes sobre os efeitos potenciais do fracasso do combate à corrupção no governo - "o colapso do partido e a queda do Estado" - prefiguram o advento de um novo tempo de prestação de contas dos colossais negócios públicos chineses.

A corrupção, efetivamente, é indissociável do dia a dia do aparato governamental - perto da China, o Brasil é uma Noruega -, a ponto de se tornar a principal queixa da população, a julgar pelo que corre nas redes sociais do país, apesar da estrita vigilância oficial. Até na cúpula do sistema não falta quem leve ao pé da letra a famosa exortação de Deng para despertar a iniciativa privada chinesa: "Enriquecer-se é glorioso!". O caso mais notório do ano é o do primeiro-ministro Wen Jiabao (a ser substituído por Li Keqiang), cuja família teria acumulado uma fortuna de US$ 2,7 bilhões, conforme revelou o New York Times, decerto seguindo pistas fornecidas por inimigos do premiê no governo. Também por corrupção, ainda por cima misturada ao assassínio de um dublê de homem de negócios e agente inglês, apagou-se a mais luzidia estrela em ascensão no PCC, Bo Xilai, então governador da próspera região de Dalian.

Os dirigentes chineses são visceralmente pragmáticos. Não foi por ética revolucionária que Hu atacou a lambança nas altas esferas, mas porque ela se tornou disfuncional para o seu equilíbrio interno, um desafio ao controle do partido sobre o aparelho do Estado e uma fonte de deslegitimação do regime. Se há uma coisa que a plutocracia política chinesa não esquece foi no que deram na União Soviética a transparência (glasnost) e a reestruturação (perestroika) de Mikhail Gorbachev.

Decisão estratégica na alfabetização - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 10/11


Assim como em alguns conceitos de política econômica, a área de educação tem sido administrada no ciclo de governos tucanos e petistas dentro de alguma coerência. É possível mesmo identificar uma linha lógica de evolução nestes quase vinte anos.

Do tempo de Paulo Renato de Souza, ministro da educação nas duas gestões FH, ficou a universalização da matrícula no ensino fundamental. Já na parte final de sua administração ficara visível que teria de ser decretada guerra à baixa qualidade do ensino público básico.Passado o primeiro governo Lula, cuja maior parte foi, equivocadamente, voltada ao ensino superior, a qualidade do ensino básico voltou à agenda, com Fernando Haddad no MEC.

O lançamento, quinta, do Pacto Nacional pela Alfabetização na Hora Certa, na presença da presidente Dilma, cria um elo que faltava nesta cadeia de ações para contornar talvez o mais crucial obstáculo a que o país dê de fato um salto qualitativo no processo de desenvolvimento.

São conhecidas, e mensuradas, as deficiências do ensino básico brasileiro. Instituído no início do segundo governo Lula, o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) - em que o Executivo federal assume o papel, há muito reclamado dele, de coordenação no setor - lançou as fundações do programa amplo de aprimoramento do ensino sob responsabilidade de municípios e estados.E com o sistema de exames e índices criados desde Paulo Renato de Souza, para a sociedade e o administrador público acompanharem o rendimento da rede de ensino, passou a ser possível estabelecer metas e avaliar até mesmo cada escola pública.

Faltava, porém, estabelecer uma política focada na alfabetização. Afinal, como nem sempre ela é bem feita, a vida do aluno fica comprometida logo cedo. Ele não avançará como deveria no ensino básico como um todo, não se qualificará para disputar as melhores vagas no mercado de trabalho. O MEC contará com R$ 500 milhões, a partir de 2014, para distribuir prêmios na rede pública. Ao todo, o governo federal destinará ao Pacto R$ 2,7 bilhões nos próximos dois anos. Convênios com universidade públicas servirão para treinar alfabetizadores, aos quais será destinado material pedagógico específico. Haverá, inclusive, um teste nacional, a fim de acompanhar a evolução das crianças, outra medida correta.

O alvo são, hoje, 7,9 milhões de alunos das escolas públicas, os quais precisão aprender a ler, escrever e a dominar noções de matemática até os oito anos de idade. Como em qualquer escola particular. Se tudo correr bem - e é preciso vigilância das autoridades e da sociedade para isso -, cairá a vergonhosa taxa de 15,2% de crianças analfabetas (Censo de 2010) e desaparecerá a deplorável figura do "analfabeto funcional". Como uma alfabetização eficiente é essencial ao aprendizado no seu todo, criam-se condições para se atingir as metas estabelecidas para a melhoria de qualidade do aluno formado na escola pública.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Volto a caminhar nas ruas de Havana após várias horas detida”
Yoani Sánchez, jornalista e blogueira, vítima da perseguição da ditadura cubana


PIZZOLATO DECIDE ENTREGAR OS DOIS PASSAPORTES
Condenado no mensalão, o ex-diretor do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, está no Rio e entregará os passaportes brasileiro e italiano no início da semana, mas vai contestar a decisão do Supremo Tribunal Federal, um “precedente gravíssimo de exceção”, segundo o advogado dele. Para Marthius Sávio Lobato, é “inédita, antes da sentença transitada em julgado”, a decisão de recolher os passaportes dos réus, além de “afrontar a soberania”. Henrique Pizzolato tem dupla cidadania.

DIPLOMACIA
A questão levantada nesta coluna na quinta (8) foi confirmada pelo Itamaraty: cidadão com dupla cidadania não pode ter passaporte retido.

RESTRIÇÃO
O ministro Joaquim Barbosa determinou a inclusão dos 25 réus na lista de “procurados” da PF, diante da “possibilidade de fuga” deles.

SEM FUGA
Marthius Sávio Lobato critica a “decisão monocrática”, sem aval pleno do STF, e garante: seu cliente Pizzolato não vai fugir.

SEM ATRASO
O advogado de Pizzolato não descarta acionar canais diplomáticos, após análise da intimação, mas jura que não quer atrasar o julgamento.

AÇO, AÇO
Sugestão, ontem, no Twitter: Dilma aumentar o IPI das panelas para evitar reprise do panelaço gigante de quinta (8), que parou a Argentina.

MEC NIVELA POR BAIXO, VALORIZANDO A IGNORÂNCIA
A última prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) mostrou que o Ministério da Educação continua adotando a ideologia fracassada de valorizar a ignorância, com número excessivo de questões destacando o padrão Chico Bento do uso da língua. Parece até que o objetivo do MEC é fazer prevalecer o uso inculto da Língua Portuguesa, reduzindo oportunidades de crescimento dos mais pobres.

INDESCULPÁVEL
O ministro Aloizio Mercadante é formado pela USP e tem mestrado e doutorado pela Unicamp. Deveria conhecer o valor da boa educação.

MINISTÉRIO DA DESEDUCAÇÃO
Educar significa melhorar o cidadão e abrir novas oportunidades para seu crescimento pessoal e profissional.

CONTE COMIGO
Pelo pavio curto de alguns ministros no julgamento do mensalão no Supremo, não seria má ideia exibir no intervalo o “Conte até 10” do Conselho Nacional do Ministério Público, contra brigas por impulso.

ANJINHOS DO ECA
No Distrito Federal, durante este ano, 5.437 adolescentes foram “apreendidos” em flagrante ou por determinação da Justiça por terem cometido infrações graves, como estupros e homicídios.

A HORA DO ‘CARA’
Em vez de José Dirceu, setores do PT se articulam para criar um movimento de “defesa” de Lula, começando nas redes sociais, diante do possível filme “queimado” do ex com o julgamento do mensalão.

REPATRIAMENTO
Em parceria com o Itamaraty, a Secretaria de Políticas para as Mulheres, do governo federal, identificou que cerca de 50 famílias brasileiras que vivem no exterior pedem, por mês, ajuda para retornar ao Brasil. A maioria sem sucesso.

RETORNO
Ex-chefe do Ministério Público do DF tragado pelo escândalo Caixa de Pandora, Leonardo Bandarra reapareceu na festa do site Congresso em Foco, que premiou os destaques do mundo político, em 2012.

ÚLTIMA QUE MORRE
O deputado Júlio Delgado (PSB-MG) não perde as esperanças de ter apoio do governador Eduardo Campos à sua candidatura à Presidência da Câmara: “Ele está tateando; se ganhar consistência, ele encampa”.

MEXER PARA QUÊ?
Herdeira do espólio político do pai, a deputada distrital Liliane Roriz (PDS) promove campanha contra a instalação de aterro sanitário em Samambaia, próximo a Brasília. Com isso, defende a continuidade do lixão da miserável Estrutural, lugar onde o clã mantém muitos votos.

LOJA DE LOUÇAS
O ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) garantiu empréstimo de US$ 220 milhões do BNDES para a brasileira Fanavid implantar uma fábrica de vidros no porto de Mariel, que Dilma vai inaugurar em 2013.

BAIÃO DE DOIS
É tão afinada a dobradinha dos ministros Toffoli e Lewandowski no Supremo, que alguém na plateia sugeriu chamar a dupla de “Lewatoff”.


PODER SEM PUDOR

A ORDEM DOS PRONOMES

Governador de Minas, Benedito Valadares trocou as bolas durante um discurso, na exposição de gado do município de Curvelo:
- Já determinei à Caixa Econômica e aos bancos do Estado a concessão de empréstimos agrícolas a prazos curtos e juros longos!
- É o contrário, governador! - corrigiu um fazendeiro.
Ele respondeu, na bucha:
- Desde que o dinheiro venha, os pronomes não têm importância!

SÁBADO NOS JORNAIS


- Globo: Depois do julgamento – Governo irá atrás de verba desviada do mensalão

- Folha: Violência aumenta e dez são mortos por dia em São Paulo

- Estadão: Supremo vai revisar penas para corrigir distorções

- Correio: Concurseiro fica sem metrô em dia de prova

- Estado de Minas: Seca de recursos

- Zero Hora: Magaprotesto projeta conflitos na Argentina

- Jornal do Commercio: R$ 1,8 bilhão para a seca

sexta-feira, novembro 09, 2012

Quien quiera oír, que oiga - RICARDO ROA

CLARÍN - ARGENTINA - 09/11


Cuesta encontrar en la historia argentina una movilización popular como la de ayer. Además de una multitud nunca vista, varias cosas más la hacen única. Se hizo a la misma hora en todo el país. No tuvo líderes ni oradores ni consignas partidarias.

Todo el mundo fue por sus propios medios . Cruzó todas las edades y pese a ser acusada de golpista, fue profundamente democrática: nada es tan democrático como la gente en la calle.

Es casi imposible hacer un cálculo preciso sobre el número de manifestantes. Pero si se suman todas las concentraciones y se las compara con las más grandes de los años recientes y no tan recientes, hubo más gente que en los cierres de campaña de Alfonsín y de Luder en el 83. Fue una convocatoria extraordinaria que no la hace mejor a las otras sinodiferente .

Las consignas salieron de los mismos autoconvocados, directas y en pancartas caseras . A la gente la sublevan la inseguridad, la corrupción, las mentiras sobre la inflación, la soberbia y el afán de perpetuarse eternamente en el poder. Piden más democracia y respeto a la Justicia y a la Constitución.

No se vieron agresiones a la Presidenta, a diferencia del cacerolazo de septiembre. Sí, carteles con humor, como el que decía: “Cristina: dejá el micrófono y ponete los auriculares”. O el del juez al que siempre le tocan las causas contra el Gobierno: “Oyarbide, qué suerte que tenés para los sorteos. Jugá al Quini”.

Advertido, esta vez el Gobierno trabajó para que la convocatoria fracasara. Usó argumentos atemorizantes, como que estaba organizada por grupos de ultraderecha y que atrasan cuarenta años. Todo en línea con la “gente bien vestida” a la que “sólo le interesa Miami” de Abal Medina. Al fin, otra muestra de que el relato patina feo : hubo marchas en más lugares y con muchísima más gente.

Y tampoco pudo ocultarla como en septiembre, cuando la televisión oficial y paraoficial ignoraron olímpicamente la protesta. Claro que era demasiado pretender que fueran objetivos: alguno mostró la Plaza de Mayo vacía cuando los actos estaban en otros lados y otro tituló “Caos en el Tránsito” al pie de las marchas. Canal 7 omitió todo y al final envió a periodistas a provocar a los manifestantes : es la forma cómo entiende la libertad de prensa el kirchnerismo.

¿La Presidente es capaz de oír lo que pasó? Si nos guiamos por sus discursos, no hay lugar para la ilusión: “que nadie pretenda que yo me convierta en contradictoria con mis propias políticas”, proclamó. Nadie le pide eso: sólo que atienda los reclamos. Pero Cristina se ha hecho adicta a la irrealidad y no concibe otra forma de ver las cosas que la que ella tiene. Cree que todo anda bien y a la vez dice: “no voy a aflojar ni me van a vencer”. Eso de hablar de la última trinchera y sostener que todo anda fenómeno suena parecido a la esquizofrenia.

Uma década de PT: desastre na infraestrutura - ROBERTO FREIRE

BRASIL ECONÔMICO - 09/11


No próximo dia 1º de janeiro, o PT completará uma década de poder na Presidência da República. É tempo suficiente para uma avaliação de seu modo de governar e as consequências das escolhas dos presidentes Lula e Dilma.

A década não foi inteiramente perdida porque houve o crescimento chinês que alavancou nosso setor exportador de matérias-primas. A indústria recuou, saúde e educação não tiveram avanços significativos, nossa infraestrutura foi inteiramente sucateada. Avançamos muito pouco.

Infraestrutura é a questão mais crítica porque vivemos um verdadeiro apagão: de combustíveis, de energia elétrica, de estradas, de portos, de aeroportos, de ferrovias e de telecomunicações. Faltaram os necessários investimentos na última década. O retrato do país no setor é a escuridão que afetou boa parte do país no último apagão.

A perda de confiabilidade do sistema elétrico decorre da falta de investimentos no passado. No entanto, o futuro do setor é ainda mais preocupante devido às novas regras que o governo quer impor. Reduzir tarifas por decreto é a melhor forma de afastar a iniciativa privada do setor e é exatamente o que a presidente Dilma está fazendo.

A perda de valor das empresas na bolsa retrata a expectativa de baixos retornos ou prejuízos com o novo modelo. Sem perspectiva de retorno lucrativo, não haverá novos investimentos, num setor em que estes já são insuficientes há uma década.

O possível racionamento dos combustíveis, noticiado pela Folha de São Paulo, nos remete ao começo da década de 90. Numa triste volta ao passado, observamos que a falta de planejamento não só nos retirou a autossuficiência em petróleo como nos deixou dependentes de importação de gasolina, para a qual agora falta sistema logístico de portos, tanques e dutos para abastecer o mercado doméstico.

A gasolina para a viagem de verão não está garantida. A Petrobras amarga prejuízos imensos, o que lhe retira capacidade de investimento para aumentar sua produção. Gastamos preciosos anos discutindo o regime de exploração do pré-sal, agora que precisamos do petróleo, ele jaz no fundo do mar.

Na área de telecomunicações, o desastre é regulatório. A Anatel não consegue fiscalizar a contento a qualidade da oferta dos serviços ao usuário. Ligações não são completadas ou são interrompidas. A banda larga é lenta se comparada aos países desenvolvidos e pequena é sua cobertura para um país continental.

A universalização dos serviços de telecomunicações é apenas um sonho distante, no setor que mais recebeu investimentos privados na última década. A logística de portos, aeroportos, estradas, ferrovias e hidrovias é componente do chamado Custo Brasil, que nos retira competitividade. Os repetidos anúncios do governo de novos investimentos não se materializam.

Novamente, a mudança frequente do marco legal faz com que o risco regulatório seja fator de inibição de entrada de recursos privados. O exemplo gritante é da modificação do modelo de concessão dos aeroportos poucos meses após as primeiras concessões. Para a infraestrutura, a última década foi desastrosa. Mas preocupa ainda mais o futuro que está sendo comprometido pelas decisões do presente.

O Maraca é nosso - ANCELMO GOIS


O GLOBO - 09/11

A seleção brasileira vai estrear o novo Maracanã antes da Copa das Confederações, dia 2 de junho, num amistoso com a Inglaterra.

Dona Fifa não gosta
Pode acabar mal para a Federação de Futebol do Rio a ideia de trocar a suspensão de jogadores por uma multa de R$ 500.
A Fifa é contra. Prefere a suspensão automática no terceiro cartão amarelo.

Guarulhos privado
A partir da próxima quinta, dia 15, o Aeroporto de Guarulhos passará a ser administrado pelo consórcio Invepar, formado pela OAS e por fundos de pensão.
A última inspeção, realizada ontem pela Anac, autorizou a transferência.

Furacão Sandy
Dilma vai conceder cooperação humanitária para as vítimas do furacão Sandy.
Não as dos EUA, claro. Mas as dos países pobres, como Haiti e Cuba.

Obama, meu rei
Thomas Shannon, o embaixador dos EUA, foi festejar a vitória de Obama... na Bahia, estado brasileiro com mais afrodescendentes.
Ontem, jantou com o governador Jaques Wagner no restaurante Amado, em Salvador.

Parabéns pra você
Paulinho da Viola vai festejar seus 70 anos do jeito que gosta.
Fará um show, dia 17, no Parque de Madureira, no Rio, com seus amigos da Velha Guarda da Portela.

Yes, nós temos Ohio!
Desde Collor, todo presidente eleito vence a disputa no... Piauí.
Ou seja, é o nosso Ohio, EUA.

Acabou em samba
O pedagogo Paulo Alvez, de Pernambuco, inscreveu uma marchinha sobre Carlinhos Cachoeira no concurso da Fundição Progresso.
Diz assim: “Seu Cachoeira, quero dinheiro também/Eu sei que você tem/Tem até demais/Tem pra todos/Tem pro senador do DEM/Seu Cachoeira, quero dinheiro também/(...) O bicho vai pegar/habeas corpus não vai te soltar/Tua mulher comenta vazar/Se tu na papuda ficar...”

A travessia
O americano William P. Young, autor do sucesso “A cabana”, que vendeu 3,5 milhões de exemplares no Brasil, lança este mês, aqui, seu novo livro, “A travessia”, pela editora Arqueiro.
A aposta é alta: a primeira tiragem será de 300 mil exemplares.

Pai nosso do STF
Do ministro Ayres Britto, presidente do STF, na entrega do 9ª Prêmio Innovare, no Rio:
— A oração especial que faço toda noite para mim e meus amigos do Supremo é o... “Pai nosso dos ministros”, que diz: “Não nos deixeis cair em tanta ação!”
Faz sentido.

A CAPITAL DA ARQUITETURA
A terra do mestre Oscar Niemeyer e de Afonso Eduardo Reidy (que nasceu em Paris, mas foi criado no Rio) pode se transformar, quem sabe?, numa espécie de capital da arquitetura mundial. Este projeto da fotomontagem, do Pátio da Marítima, conjunto de prédios de mais de mil metros quadrados a ser construído no Porto Maravilha, é do renomado arquiteto inglês Norman Foster, 77 anos, autor, entre outros, do Estádio de Wembley, em Londres, da cúpula do Reichstag, em Berlim, e da Torre Hearst, em Nova York. Foster se junta a outros medalhões da arquitetura internacional, como Christian de Portzamparc, Santiago Calatrava, Richard Rogers, Bernard Villemot, Philippe Starck, Chad Oppenheim e Zaha Hadid, que também executam ou estudam projetos no Rio. Em tempo: o Pátio da Marítima é um projeto da incorporadora Tishman Speyer, dona de outros marcos, como o Rockfeller Center e o Chrisler Building, em Nova York 

Versace no Rio
O grupo italiano Versace, criado em 1878, abrirá sua primeira loja no Shopping Leblon, no Rio.
A intenção da grife é inaugurar mais seis em outros estados brasileiros. Em São Paulo, há apenas uma franquia da marca.

Corredor do Fórum
A 3ª Câmara Cível do Rio julgou improcedente o pedido de indenização de um ex-presidiário, condenado por nove homicídios, que processara o estado por achar que... tinha ficado tempo demais na cadeia.
É que sua pena inicial era de 120 anos. Mas, 11 anos depois, ele ajuizou ação e a reduziu para 40. Foi quando pediu indenização por ter cumprido, em regime fechado, um tempo de cadeia calculado sobre a pena de 120 anos e não sobre a de 40.

Distantes, mas importantes para a China - TIM HARCOURT


O GLOBO - 09/11

Durante a recente crise financeira global que causou turbulência no Hemisfério Norte, dois países evitaram o pior da crise global, em parte graças aos seus respectivos laços fortes com a China. Essas nações, que se beneficiaram, também terão um papel importante no desenvolvimento econômico do gigante asiático no século XXI. São elas Brasil e Austrália, duas grandes terras do Sul, que têm como características a vastidão, diversificação, e foram consideradas por seus descobridores como muito, muito distantes.

Em agosto, eu ajudei a liderar um evento, promovido pela Universidade de Melbourne, para ampliar as relações entre Austrália e a América Latina. Muitos dos participantes falaram como, apesar das diferenças entre Brasil e Austrália, os dois países têm muito a compartilhar na experiência de relacionamento com a China.

A Austrália foi colonizada como uma prisão em uma grande parceria do setor público privado (PPP), mas se transformou em três sociedades, os detidos, seus carcereiros e as populações indígenas locais destituídas de suas terras. De alguma forma, apesar deste começo humilde e das tensões geradas, a sociedade se deu bem graças à grande quantidade de recursos naturais, como trigo, lã e ouro. Outro ponto importante foi que os colonos livres do velho mundo se juntaram aos presos e carcereiros, e, ao longo do tempo, esses últimos ficaram em minoria. A China desempenhou um papel importante nesse desenvolvimento. Bob Hawke desenvolveu laços estreitos com a China e ainda é bem conhecido na República Popular até hoje.

O outro país, o Brasil, não foi colonizado como uma prisão, mas sim sob o peso da escravidão. O país também é vasto, mas geograficamente muito diferente. O Brasil também teve que enfrentar problemas econômicos e os seus impactos ainda eram sentidos até uma década atrás. Na maior parte de sua história econômica recente, ele não teve inflação de dois dígitos e não precisou enfrentar o desemprego, mas teve problemas muito piores, como deslocação do mercado de mão de obra e pobreza em massa. Seu sistema financeiro não era antiquado, mas sim disfuncional, houve problemas com as taxas de câmbio, taxas de juros e encargos da dívida, além de greves, mais agitação social generalizada que impactaram sua própria estabilidade democrática.

No entanto, este país também tinha um líder sindical, Lula. Ele não estudara em Oxford, era nascido no Nordeste do país, fora preso por sua atividade sindical e concorrera para presidente três vezes antes de ser eleito. Ele também reformou a economia do país, mantendo fortes programas de justiça social (muitos dos quais foram iniciados pelo seu antecessor, que era um conhecido professor de sociologia, antes de se tornar presidente). Como resultado, este país agora também está economicamente bem posicionado.

A percepção das pessoas sobre o Brasil tem mudado. E não é nenhuma surpresa, dada a sólida taxa de crescimento econômico do Brasil (7,5% em 2010, após a crise financeira mundial, e 2,7% em 2011), política fiscal e monetária complacente, crescimento impressionante das exportações (novamente graças à China) e, o mais importante, redução da evasão escolar e da pobreza absoluta. Economistas brasileiros me disseram que mais de 33 milhões de pessoas foram retiradas da pobreza. Na verdade, um dos meus anfitriões no Rio me disse que a taxa de câmbio brasileira é tão forte "que até mesmo empregada minha está indo de férias para Buenos Aires, para fazer algumas compras". Esta visão foi sustentada pelos participantes do recente Diálogo entre Melbourne e América Latina, em Melbourne.

O Brasil e Austrália são rivais em relação à Pequim? Na verdade, não. Há muito espaço para ambos os países prosperarem com o desenvolvimento econômico da China, e ao longo do tempo as empresas brasileiras e australianas colaborarão para maximizar as suas esferas de influência. Ambos serão grandes fornecedores das necessidades energéticas da China e vão trabalhar com as necessidades agrícolas e industriais de energia limpa.

O Brasil, como um grande fabricante, trabalhará mais com a China em cadeias de suprimentos industriais, e a Austrália focará mais em serviços de construção, infraestrutura, arquitetura e profissionais para ajudar a desenvolver as cidades em estágio menos avançado.

Os fortes laços da Austrália com a China na educação vão atrair mais colaboração do Brasil. É claro que o Brasil estará em destaque com a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 no Rio, e isto ajudará a atrair a ainda mais atenção e investimento global.

As duas nações são grandes terras do Sul com muito surfe, areia, sol e bronzeado, mas economicamente ambas desempenharão um papel importante no futuro da China.

O país dos apelidos - IVAN ANGELO

REVISTA VEJA SP


Tipo popular, baixinha, tronco pesando sobre as pernas curtíssimas, andar tombando para o lado de cada perna de apoio, não atendia quando chamavam:

— Mentira! Chega aqui, Mentira. Não ia.

Sabia da razão do apelido: o ditado “mentira tem perna curta”.Não achava graça nenhuma.

— Vem, Mentira, que eu te pago um café.

Adorava café; passava sempre por ali. Ia, tomava, saía resmungando: “Isso lá é café?”. O boteco ficou com o apelido de Café de Mentira.

Tem gente que não escapa de um apelido. Aquela história do seu Zé do Coqueiro. Cortou o coqueiro, deixou só um toco. Virou seu Zé do Toco de Coqueiro. Arrancou o toco, cavou até as raízes. Virou seu Zé do Buraco de Coqueiro. Tapou o buraco. Virou seu Zé do Buraco Tapado. Mudou-se. Deve estar com novo apelido em outras bandas, que isso de apelido é destino.

Alguns apelidos são criativos, outros não têm graça, revelam preconceito e humor negro. O povo não perde a piada, comenta “ah, que maldade” e passa o apelido adiante. O espírito da coisa é mais forte do que os bons sentimentos.

Na minha infância conheci dois desses casos de mau gosto; três, contando o do meu primo.

O mais cruel foi Rabo de Arraia. Não era nenhum valentão. Era um senhor que arrastava a perna direita, como quem dá uma rasteira. O outro foi Perna de Pau, ponta-esquerda de um timinho do outro lado da linha do bonde. Não que ele fosse ruim de bola, até que não era. Só que era amputado da perna direita, do meio da canela para baixo, e jogava de muleta. Era o dono do bar e do time. Vinha gente de outros bairros para vê-lo jogar, e ele não desgostava do apelido. Se saía briga, rodava a muleta e arrasava. Já o meu primo sofreu um estupor do lado direito e ficou com o olho meio fechado e a boca torta. Não sei quem lhe pôs o apelido de Pontaria, que ele odiava.

Eu mesmo tive um apelido que não colou. Quando rapazinho, fiz a barba, passei loção à base de limão, fui para o sole fiquei com o rosto rajado. No colégio me chamaram de Tigre-sem-bengala, às vezes só Tigre. Não durou mais do que uns três meses, o tempo das rajas, mas tinha piada.

Fernando Gabeira conta que um doidinho, preso junto com ele, cismava de manobrar dentro da cela um imaginário caminhão FNM, para estacionar.Os presos,querendo dormir, ao judavam nas complicadas manobras. O doidinho ficou com o apelido de Fenemê.

Rainha era o apelido do ex-editor-chefe do Jornal da Tarde Murilo Felisberto, branquinho e inquestionável.Seu reinado começou na época da visita da rainha Elizabeth II ao Brasil, em 1968. Outro do jornal: Toninho Boa Morte, redator da coluna de falecimentos d’O Estado de S.Paulo e do JT. Quando queriam elogiá-lo, diziam que ele dava vida à coluna. Já não está entre nós.

No ano em que as telas dos cinemas se alargaram de parede a parede, para exibir filmes no novo processo cinemas cope,um rapaz de Belo Horizonte que amargava o medíocre apelido de Bocão passou, com visível preferência, a ser chamado de Cinemascope. Sub-15 ficou sendo o apelido dorapazinho, menor de idade, que atende no balcão da lanchonetefrequentada por um desembargador meu amigo. Umaex-vizinha, lindinha, naquela Belo Horizonte dos bons tempos,chamada Leleta (com “e” fechado), recebeu o apelidode Rima Rica e nem ficou sabendo.

Alguns apelidos não têm a graça da boa sacada, de parecerquase uma charada, a exigir uma faísca de descoberta,mas são pitorescos, descritivos: Maria Tomba Homem, deuma mulher de rua que batia nos homens; Tarzã dosBueiros, de um ladrão que se escondia nos esgotos; Mãode Onça, de um goleiro com mãos enormes; Fi do Pé, dofilho do Pé de Cana, bebum folclórico. Todo mundo conheceum e divulga. Brasileiro gosta de apelidos, nas suasvariadas funções sociais.

Insuperável na graça do acontecido que gerou o apelido éCidinho Bola Nossa, juiz de futebol, mineiro, atleticanoroxo, que interveio assim numa disputa entre um jogador doAtlético e um do Cruzeiro sobre quem ia bater o lateral,favorecendo o do Atlético: “É bola nossa! Bola nossa!”.

Inflação preocupante - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 09/11


Diante da inflação acelerada, espalhada e muito longe da meta, o brasileiro comum poderá ficar um pouco mais tranquilo se o governo se mostrar um pouco mais preocupado. Empresários e alguns amigos sindicalistas podem dar prioridade à redução dos juros, mas a presidente da República e seus auxiliares deveriam olhar também para a grande massa dos consumidores, aqueles dependentes de salários ou de pequenos rendimentos. Cuidar da família ficou 0,59% mais caro em outubro, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado pelo governo como referência principal para suas políticas. Em setembro a alta de preços havia sido ligeiramente menor - 0,57%. A variação em 12 meses chegou a 5,45%, no mês passado, e ficou bem acima da meta anual, de 4,5%. O ritmo dos aumentos será mais moderado nos próximos meses, segundo especialistas, mas nem essa projeção justifica a tranquilidade exibida até agora pelas autoridades.

Uma das poucas notícias boas das últimas semanas, no front da inflação, foi o recuo de 0,31% do Índice Geral de Preços (IGP-DI) da FGV. Esse dado pode espantar quem se perde no emaranhado de indicadores produzidos no Brasil por várias instituições de pesquisa. Não é tão complicado. O IGP é formado por três componentes. O Índice de Preços ao Produtor mede as variações no atacado e entra no cálculo geral com peso de 60%. Esse item diminuiu 0,68% no mês, por causa da queda de cotações de matérias-primas agrícolas e minerais - um reflexo da crise internacional. A baixa de preços poderá passar do atacado ao varejo e beneficiar as famílias, mas isso levará algum tempo e parte do efeito será perdida no caminho. Mas essa possibilidade é, por enquanto, o principal fundamento de qualquer expectativa otimista.

Enquanto se espera esse efeito, os preços no varejo de bens e serviços continuam disparados. O segundo item mais importante do IGP é um Índice de Preços ao Consumidor, com peso de 30% no conjunto. Esse indicador subiu 0,48% em outubro, menos que em setembro, quando a alta foi de 0,54%. Na pesquisa da FGV, alimentação, habitação e comunicação encareceram menos de um mês para outro, mas houve aumentos maiores em outros cinco grupos de despesas. Se alguém considerar 0,48% uma inflação mensal moderada, mudará de ideia se calcular o resultado acumulado em um ano: 5,91%.

Um quadro também feio foi mostrado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP (Fipe), no Município de São Paulo. A alta dos preços ao consumidor passou de 0,55% em setembro para 0,80% no mês passado. Pode haver alguma perda de impulso, mas o aumento mensal em novembro e dezembro deve ainda ficar entre 0,6% e 0,7%, segundo o coordenador da pesquisa, Rafael Costa Lima.

Um dado muito preocupante é conhecido no jargão dos economistas como indicador de difusão. Esse indicador mede a porcentagem de itens com elevação de preço num dado período. Em outubro, 65,81% dos itens incluídos no levantamento da Fipe ficaram mais caros. No caso do IPCA, o nível de contágio observado foi pior: 68,8%. Em setembro havia sido de 66,3%. Níveis de difusão superiores a 60% e muito próximos de dois terços têm sido observados em pesquisas de vários institutos. Um contágio tão amplo põe em xeque a tese de uma inflação limitada a poucos grupos de preços e resultante basicamente de um choque externo. Os mais otimistas deveriam levar em conta esse detalhe.

O Banco Central tem apontado a evolução do emprego e dos salários - das condições da demanda, portanto - como fator de risco para a estabilidade de preços. Seus dirigentes poderiam, num esforço de autocrítica, incluir a expansão do crédito entre esses fatores.

O governo tenta disfarçar as pressões inflacionárias, contendo o reajuste dos combustíveis e mantendo o corte temporário de impostos para alguns setores. Além de inúteis contra a inflação, esses disfarces criam distorções. Uma política séria seria mais eficiente e mais barata. O governo pode negar, mas é cada vez mais clara a troca da meta de inflação pela meta de juros.

Afagos & empurrões - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 09/11

Para quem tem entre os congressistas a imagem de durona e avessa a conversas políticas, a presidente Dilma Rousseff termina esta semana com jeito de quem começa a mudar esse tom. Ao primeiro movimento, o jantar com o PMDB, veio outro em 24 horas, o jantar com o PSB. Dois encontros recheados de afagos em que Dilma deixou claro que quer os dois ao seu lado. O problema é a lei da física. Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. E aí começa o jogo de empurra, onde todos os atores, inclusive a própria Dilma, mostram suas armas.

Vejamos os movimentos da presidente. Ontem, depois dos jantares e dos afagos aos dois principais partidos da sua base, PMDB e PSB, ela aproveitou a solenidade de lançamento do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa para enaltecer o governador do Ceará, Cid Gomes (PSB). O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, um dos mais próximos da presidente, com quem ela discute todas as questões estratégicas do governo, pediu licença para quebrar o protocolo. Foi ao microfone, dispensou o locutor oficial e, de viva-voz, enalteceu o trabalho de Cid Gomes na área da educação no Ceará.

Para muitos, o gesto de Mercadante foi jogo combinado com a chefe. Nenhum conhecedor dos humores de Dilma ousaria voltar ao microfone dentro do Planalto sem a permissão dela. Depois, o governador ainda foi almoçar com a presidente. Cid Gomes há tempos não tinha um tapete vermelho tão novo para pisar no palácio. Foram tantos afagos que só faltou a proposta de um ministério para Ciro Gomes — o que setores do PSB comentavam na semana passada como uma possível jogada no sentido de enfraquecer Eduardo Campos dentro de seu próprio partido, tirando inclusive qualquer chance de que o presidente do PSB possa reclamar.

O governador cearense, vale lembrar, tão logo terminou a eleição municipal, fez questão de avisar que Dilma era sua candidata a presidente da República. Seu irmão, Ciro Gomes, que tentou se lançar à Presidência em 2010, mas foi impedido pelo PSB, está hoje cuidando da vida, sem mandato. Ontem, depois de parte da série de afagos palacianos, Cid saiu-se com essa: se o PMDB ficar com a Presidência da Câmara e do Senado, por que o PSB não poderia ficar com a vice de Dilma?

A declaração de Cid foi vista como maldade pura por todos os atores envolvidos nessa história. Primeiro, que ninguém é “candidato a vice”. A vice é consequência de acordos políticos. Por isso, há quem tenha visto nessa proposta não um afago a Campos, mas uma tentativa de “queimá-lo” e ainda deixar o PMDB desconfiado. O PSB não tem sequer metade dos votos do PMDB no Congresso e Dilma não precisa colocar Eduardo Campos na vaga de vice-presidente para ter o PSD de Gilberto Kassab ao seu lado. O prefeito hoje tem a quarta bancada, o que lhe dá autonomia. Tanto é que estará com Dilma na semana que vem. Portanto, Dilma não tem hoje como “dispensar” o PMDB.

E entre os socialistas…

Os aliados de Eduardo Campos não entenderam muito bem por que tantos afagos de Dilma a Cid Gomes no dia seguinte ao jantar com Eduardo Campos e o vice-presidente do partido, Roberto Amaral. Afinal, em termos numéricos, a hegemonia do partido está com Eduardo Campos e dois movimentos deixam isso muito claro. O primeiro foi em 2010, quando Ciro Gomes quis ser candidato a presidente. O segundo foi no ano passado, quando Cid e Ciro tentaram fazer de Gabriel Chalita, então do PSB, líder da bancada na Câmara. Chalita obteve três dos 34 votos. Quem venceu foi a deputada Ana Arraes, mãe de Eduardo, hoje ministra do Tribunal da Contas da União.

Pelo que se sabe, 2014 não entrou na conversa de Dilma e Eduardo Campos na noite de quarta-feira, e nem poderia. Afinal, Dilma ainda não avisou com todas as letras que será candidata e Campos já cansou de dizer que não tratará de 2014 agora, pois discutir a próxima eleição neste momento seria jogar contra o Brasil. Mas, para os socialistas, está claro que, se Dilma pensa em sufocar a candidatura de Eduardo Campos afagando Cid Gomes, o efeito pode ser o inverso.

Enquanto isso, no Jaburu…

Com toda essa confusão, o próximo passo dessa história é o PMDB cobrar e Dilma mais uma vez reforçar — como já disse lá atrás — que, se for candidata à reeleição, repetirá a parceria com Michel Temer. A ordem entre os peemedebistas é procurar fazer a menor marola possível para eleger os presidentes da Câmara e do Senado. Entre os deputados, a campanha de Henrique Eduardo Alves é feita à luz do dia e a ideia é, já na próxima semana, começar a tratar da proporcionalidade para os demais cargos da Mesa Diretora.

Ensino medíocre - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 09/11


Em mais um atestado de que o ensino médio brasileiro está em petição de miséria, o cientista social Simon Schwartzman, após analisar dados do Enem, revela que apenas 27,9% dos que fizeram a prova em 2010 obtiveram mais de 450 pontos em todas os testes (as notas máximas variam em torno dos 900).

Os 450 pontos, vale assinalar, são o novo limiar definido pelo Ministério da Educação para conferir diploma de nível médio a quem não concluiu essa etapa da educação básica numa escola. Ou seja, quase três quartos dos alunos ficam aquém do mínimo aceitável.

As variáveis socioeconômicas, como a escolaridade na família, pesam muito no desempenho. Entre os estudantes cujos pais não têm nenhuma instrução formal, apenas 12,1% alcançaram os 450 pontos. Já entre aqueles cujos genitores cursaram o ensino superior, a taxa vai a 49,6%, e chega à maioria (66,4%) só no caso dos filhos de pais com doutorado.

Como observa Schwartzman, para a maioria dos estudantes que fazem o Enem, a prova é "uma ilusão cruel" -seu resultado já se encontra em grande parte predeterminado por suas condições socioeconômicas e pela má qualidade da educação que tiveram até aí.

A única maneira de quebrar esse círculo vicioso é oferecer um sistema público de ensino com qualidade suficiente para permitir que o nível de instrução dos ancestrais não signifique uma condenação irrecorrível ao péssimo desempenho.

Nessa matéria, os avanços dos últimos anos ficam entre o mínimo e o inexistente. Se é verdade que as avaliações mostram algum ganho nas séries iniciais do ensino fundamental, elas também indicam que a melhora desaparece quando o aluno chega ao nível médio.

Infelizmente, no lugar de encarar o problema e procurar resolvê-lo com mais ousadia, autoridades educacionais têm preferido a saída fácil de apelar para cotas raciais e outras pirotecnias populistas, que apenas contribuem para mascarar a questão principal.

Pior, os esquemas adotados não vêm sem efeitos colaterais. Um deles é obrigar universidades públicas a criar sistemas de apoio para compensar lacunas na formação dos alunos, uma tarefa para a qual elas não estão preparadas.

Para princesas - SONIA RACY


O ESTADÃO - 09/11

O médico e nutrólogo Pierre Dukan, criador da “dieta da princesa Kate”, lançou, em SP, seu best seller Eu Não Consigo Emagrecer. E conversou com a coluna.

O que uma pessoa não pode comer de jeito nenhum?

É preciso consumir menos açúcar, escolher os produtos fabricados com farinhas integrais e fugir das farinhas brancas, altamente processadas – com a qual se fabricam o que chamo de “alimentos de recompensa”. Se tivesse de escolher o pior alimento… seria a batata frita.

Qual o segredo do sucesso de seu regime?

Eu diria que a eficácia, a velocidade com que se perde peso no início e a simplicidade.

O fato de a princesa Kate ser adepta mudou sua rotina?

Agradeço aos Middleton por terem declarado que meu regime os ajudou – isso causou um impacto formidável no meu método. O exemplo de uma princesa tão linda é um incentivo a todas as mulheres com excesso de peso. Elas podem dizer: “Se uma princesa fez, eu também posso fazer”.

Como é o dia perfeito de uma dieta do dr. Dukan?

De manhã, café ou chá sem açúcar ou com adoçante; uma panqueca de farelo de aveia; e um iogurte desnatado. No almoço, uma fatia de salmão defumado, um filé de carne com brócolis ou um filé de bacalhau com uma porção de abóbora; um flan de baunilha diet; e um refrigerante zero. No jantar, salada mista de alface, camarão e atum desfiado; uma coxa ou escalope de frango com legumes grelhados; e uma mousse de chocolate diet./DANIEL JAPIASSU

Bastão
Haddad aceitou convite de Kassab. Discursará em evento em Paris, dia 22, no qual São Paulo defenderá sua candidatura a sede da Expo 2020 – a ser abrigada no futuro Piritubão. Antes, porém, os presentes terão de assistir a 10 minutos de vídeo, acompanhado por calhamaço de 760 páginas apresentado pela Prefeitura.

E Dilma? Desistiu. Vai mandar Antonio Patriota.

De olho…
Corre no Planalto que estão na briga pela vaga de Ayres Britto, no STF, Nancy Andrighi, do STJ e do TSE, e Maria Elizabeth Guimarães Teixeira Rocha, do STM – que trabalhou na Casa Civil à época deJosé Dirceu.

…na toga
09.novembro.2012 | 2:20

A escolha será a toque de caixa – assim como no caso de Teori Zavascki. Depois de três magistrados (Luiz Fux, Rosa Weber e Zavascki), há pressão para que o eleito seja oriundo da advocacia.

Toga 2
Por outro lado, o substituto de Zavascki no STJ não deve sair antes de 2013. Vale lembrar que outras duas cadeiras continuam vazias no tribunal – as de Cesar Asfor Rocha e Hamilton Carvalhido.

Mais uma aposentadoria será anunciada ainda este ano. E outras virão, em 2014.

Barril
Pelo que se apurou, Dilma pretende mesmo aguardar a posição do Supremo para, só então, se manifestar sobre a Lei dos Royalties – que acaba de ser aprovada no Senado.

Motivo? Ela teme desgaste semelhante ao sofrido na votação do Código Florestal.

Plim-plim
Gloria Pires ganhará documentário para chamar de seu. A Casa da Atriz terá roteiro de Eduardo Nassife e abordará sua vida e carreira.

Pé na tábua
Felipe Massa fará a alegria de pelo menos 100 fãs em Interlagos durante o GP Brasil de F1.

Vai entregar bolsas de estudos internacionais a universitários brasileiros – iniciativa do Santander Universidades.

Nibelungos
E André Heller-Lopes encenará, em 2013, a ópera O Ouro do Reno– com cena ambientada em Brasília. Qual? A do Nibelheim, no centro da terra, onde os habitantes vivem escravizados pelo… poder.

Água no pescoço
Confusão na Cedae. Tudo porque a empresa de saneamento do Rio reconheceu, na Justiça, ser indevida a taxa de tratamento de esgoto que é cobrada dos usuários no Estado.

Houve acordo para devolver… R$ 2 mil por cliente.

Água 2
O problema é que os processos movidos contra a companhia, por esse motivo, totalizam hoje mais de 100 mil – isso apenas na zona oeste da capital fluminense. Há 3 meses, o número de ações já chegava a 20 mil.

Sérgio Cabral quer que a briga migre do Tribunal de Justiça do Rio para o STJ. A ideia é tentar resolver a questão rapidamente.

Crescendo
Martelo batido. A Votorantim prepara mais uma onda de investimentos. Reservou R$ 1,4 bilhão para a construção de novas fábricas de cimento no Nordeste.

Na perifa
Mia Couto arrancou aplausos, anteontem, durante o Sarau da Cooperifa no bar do Zé Batidão. O escritor moçambicano disse adorar eventos intimistas e garantiu estar se sentindo em casa.

Além de assistir à declamação de poesias pelos participantes, ele se deliciou também com um escondidinho de carne-seca.

Mórmon na Casa Branca? - BARBARA GANCIA

FOLHA DE SP - 09/11


Descobri que o 'Livro de Mórmon' prega que Jesus andou pelos EUA e que negros não são bacanas. Cuma?


Visitei Salt Lake City, Utah, a tra­balho, duas vezes na vida. Na primeira, tentei entrar no maior monumento da cidade, um templo mórmon que se impõe pelo gigantismo e a feiura de suas for­mas, e fui impedida logo na entra­da. "A senhora não pode entrar aqui", disse-me um tipo à porta. "Ué? Por que não? Outros estão en­trando, meus trajes são apropria­dos, o que há de errado?"

"A senhora não é mórmon", res­pondeu-me o homem da porta com tamanha convicção que eu virei e fui embora.

De fato, não sou mórmon. Não te­nho ideia de como ele percebeu, mas, graças a Deus, isso fica evidente com um simples olhar.

Na semana passada, entre um ta­pa na orelha e um soco no nariz ad­vindos do furacão Sandy, consegui fazer valer as entradas adquiridas desde o Brasil e fui à Broadway as­sistir a melhor comédia satírica musical de todos os tempos. Refiro-me, claro, a "The Book of Mormon", de Trey Parker e Matt Stone, os criadores do seriado "South Park".

Nunca tinha me atido aos mór­mons. De onde vieram, para onde vão e qual a utilidade (se alguma) deles. O musical destrincha o fran­go para leigos como eu. Mórmons, pelo que entendi, são pessoas que estão convencidas de que existiu um Moisés norte-americano cha­mado Joseph Smith.

Preste atenção: parece que lá pe­los idos de 1820, o tal Joseph Smith andou dizendo que um anjo vindo do céu mandou que ele procurasse no quintal Tábuas da Lei de Deus feitas de ouro maciço. Por algum motivo, Joseph perdeu essas tá­buas, uma confusão, ninguém viu, ninguém sabe, é a tal da prova de fé, mas ele jurou de pés juntos que de­las constavam ensinamentos que usou para escrever o "Livro de Mórmon", a Bíblia deles. Pois é, ele tinha uma memória incrível pa­ra alguém que só vira as tábuas uma noite.

Algumas amenidades incluídas no livro: 1) Jesus perambulou pelos EUA; 2) tribos de hebreus lutaram em solo norte-americano e, veja só, 3) pessoas de pele escura não são boa coisa. Essa última questão pa­rece ter sido revista em 1978 quan­do Deus teria subitamente mudado de ideia.

Pois eu espero que Andrew Lloyd Webber seja devorado por leões na Mesopotâmia. Verdade. Torço vi­vamente para que isso aconteça. Quando penso em "West Side Story", "My Fair Lady", "Hair", "All That Jazz" e tantos outros musicais incríveis que já passaram pela Broadway, lembro que um ca­nalha chamado Andrew aniquilou o gênero na base de "Fantasma da Ópera", "Evita" e sua música de péssima qualidade, sempre girando em torno de um mesmo acorde, e suas histórias unidimensionais, achatadas, caretas e sem lustro...

Bem, mas ia dizendo. O Sandy e a lembrança de Andrew e a quanti­dade estupenda de mórmons no Brasil... Tudo isso é o de menos. O que realmente importa é que os EUA reelegeram Obama, a despei­to da pregação da comunidade fi­nanceira.

Em Nova York, jantei com uma gerente de fundo de investimentos de Cingapura que torcia por Rom­ney. Ela começou a conversa dizen­do: "You see, I don't like politi­cians". Sei. Eu também, quando es­tava na escola, não gostava de pro­fessor. Mais tarde, passei a não gos­tar de polícia. Hoje, digamos que não morro de amores por fiscal.

Acontece que uma democracia sólida não se contenta com presi­dentes que sejam bons homens de negócios. Ela tenta transformar políticos em estadistas.

E é um pouco mais difícil atingir essa meta quando se tem como ponto de partida um neorrepublicano discípulo de Joseph Smith.

Aposta na fartura - ROGÉRIO FURQUIM WERNECK

O GLOBO - 09/11


As promessas de início de ano do governo eram de crescimento do PIB de pelo menos 4,5%, inflação na meta e geração de um superávit primário global de 3,1% do PIB. A esta altura já se sabe que nada disso será cumprido. O crescimento do PIB mal chegará a um terço do que havia sido prometido, a inflação deve permanecer bem acima da meta e o governo já reconheceu que o superávit primário pretendido se tornou inatingível por larga margem. Nesse quadro, o que mais preocupa é o discurso desconjuntado com que o governo tem tentado racionalizar as dificuldades que vem enfrentando para entregar o desempenho macroeconômico que prometeu.

Boa parte das críticas nessa linha tem sido direcionada ao Banco Central (BC). Mesmo analistas mais complacentes não têm deixado de apontar as sérias falhas de comunicação que têm marcado o esforço do BC de tornar compreensível a condução da política monetária. Grande celeuma vem sendo suscitada pela insistência do BC na previsão de que a inflação, em algum momento, deverá convergir para a meta “de forma não linear”. Como não se sabe bem o que isso pode significar, já há quem avente que o que está sugerido é que a convergência deverá ser tão surpreendente que nem mesmo o BC vem conseguindo antecipar como de fato será.

Mas tudo é relativo. E a verdade é que a pior parte do discurso econômico do governo não é a que diz respeito à política monetária e, sim, à política fiscal. Como é desse lado da política macroeconômica que o governo se tem mostrado mais propenso a transgredir regras e práticas estabelecidas, lhe tem sido muito difícil manter um discurso minimamente respeitável sobre a condução da política fiscal.

O ministro da Fazenda acaba de admitir oficialmente que o governo não terá mais como atingir a meta de superávit primário. É importante notar que o abandono da meta não adveio de mudança deliberada e preanunciada na condução da política fiscal. O que houve foi simples explicitação de um quadro de descontrole. Como a arrecadação federal teve crescimento real de mais de 10% em 2011, a Fazenda atravessou boa parte de 2012 apostando na sobrevida dessa fartura fiscal. Deixou que as despesas primárias corressem soltas, com expansão real da ordem de 6% nos 12 meses terminados em setembro, ritmo quatro vezes mais rápido do que o do crescimento do PIB. E ainda achou que lhe sobrava cacife para promover programas pontuais de desoneração, sem abrir mão do cumprimento da meta fiscal.

Agora, a menos de dois meses do fim do ano, a Fazenda afinal constatou quão inconsequente foi sua aposta na fartura fiscal. Na esteira do pífio desempenho da economia, o crescimento real da arrecadação caiu de 10% ao ano para pouco mais de 1%. E o governo teve de admitir que já não tem mais como cumprir a meta fiscal. Para tentar salvar a face, a Fazenda improvisou às pressas o argumento de que o abandono da meta apenas denotava uma opção pelo investimento e pelo crescimento. E anunciou que, agora, vai buscar o cumprimento da meta ajustada de superávit primário, que exclui o valor dos investimentos do PAC.

A ideia da meta ajustada já não fazia sentido quando a condução da política fiscal era pautada pela necessidade de manter sob controle o endividamento do setor público. No quadro atual, em que o que deveria estar pautando a política fiscal de curto prazo é o seu impacto sobre a demanda agregada, a adoção da meta ajustada faz menos sentido ainda. E o pior é que é bem possível que nem mesmo a meta ajustada o governo consiga cumprir.

Pelos canais usuais, portanto, a política fiscal em curso está trazendo substancial impulso adicional à demanda agregada. E é bom ter em mente que boa parte do efeito expansionista da política fiscal vem envolvendo canais menos usuais, como é o caso das vultosas transferências diretas de recursos do Tesouro às instituições financeiras federais. O que ainda não se sabe é se todos esses impulsos fiscais estão sendo levados devidamente em conta na condução política monetária.

Gargalhadas vingadoras - NELSON MOTTA


O Estado de S.Paulo - 09/11


Tenho muito respeito e gratidão por quem me faz rir. Dou imenso valor aos comediantes que se expõem a todos os ridículos e constrangimentos só para nos divertir e alegrar. Acredito que rir, principalmente de si mesmo, ou refletido e identificado num personagem, ajuda muito a viver as durezas do cotidiano e a enfrentar as fraquezas e precariedades da condição humana.

Ao mesmo tempo, acredito na força devastadora do humor como arma de crítica, que pode ser mais potente e eficiente do que a força bruta, porque é capaz de destruir pelo ridículo e pelo riso os mais sérios e sólidos adversários. Porque basta ser humano e viver a vida para ser uma potencial fonte inesgotável de piadas e deboches para qualquer um com senso de humor e de crítica.

Mas o humor também é amor: já fiz os papéis mais ridículos só para divertir minhas filhas. E também pode ser rancor, dos que sempre perguntam "tá rindo de quê?"

Muitas vezes uma saraivada de piadas engraçadas pode ser mais contundente do que discursos inflamados. Mas as piadas têm que ser boas, e bem contadas, porque piada é timing. E não há nada mais triste do que piada mal contada, quando é gaguejada e perde o tempo e a graça.

Outras piadas só aparecem com o tempo. Hitler e Mussolini eram adorados pelas multidões nazi-fascistas como deuses olímpicos e épicos, mas hoje suas figuras grotescas gesticulando e gritando seus discursos histéricos são ridículas e hilariantes. Pena que tanta gente morreu para que se pudesse rir em liberdade.

O humor e as piadas corrosivas - porque engraçadas - tiveram um papel muito importante na resistência democrática, desmoralizando o autoritarismo e a truculência da ditadura e fustigando os políticos onde mais lhes dói, no orgulho e na vaidade, com piadas e apelidos devastadores e gargalhadas vingadoras.

O humor não é o forte dos políticos, mas justiça se faça a esse talento de Paulo Maluf. Ouvir aquela inconfundível voz nasalada cantando "olê olê olê olá, Lu-lá, Lu-lá" fez o Brasil gargalhar e teve uma carga de crítica política mais poderosa do que qualquer discurso da oposição. Ou da situação.

Praga, segunda vez - CARLOS HEITOR CONY

FOLHA DE SP - 09/11


Escrevi um postal para o Carpeaux e só depois me lembrei que ele já havia morrido


07.11.01 - Praga - Depois de 25 anos, estou de volta à velha Boêmia, primeiro contato que tive com o mundo socialista nos anos 1960. Era inverno, muita neve, 13 graus abaixo de zero, pegaria tempo pior em Moscou e Murmansk, a caminho de Havana.

Hoje, saímos de Veneza às 11h30, fizemos escala em Milão (Malpensa), uma miséria de atraso, ficamos horas esperando o voo da Alitalia, que estava atrasadíssimo, serviço péssimo não apenas da companhia, mas do próprio aeroporto, enorme, labiríntico, perdi o medo dos aviões, mas ganhei pânico dos aeroportos, pelas conexões, "gates", esteiras, balcões de check-in.

Além de atrasado, o voo começou mal, com cheiro de querosene dentro da cabine, a tripulação com extintores de incêndio procurando algum foco de incêndio. Apesar da primeira classe esquálida dos velhos DC-9, nada comi, preferi dormir, mas não consegui. Desembarque razoavelmente fácil, troquei US$ 200 por coroas tchecas, viemos para um bom hotel, parece cenário de filmes dos anos 1930, com Charles Boyer, Loretta Young, Greta Garbo, Fred Astaire, Melvyn Douglas etc.

Enorme a suíte, com quarto, sala, escritório, tudo muito limpo, cheirando a novo. E lustres de cristal tcheco até no banheiro, um lustre colossal, maravilhoso. Caí duro no sofá da sala, dormi logo, diz Beatriz, que nunca me viu tão cansado, ela arrumou minhas coisas, quando acordei já estava com a banheira cheia de espuma esperando pelo banho.

Jantamos no hotel, está chuviscando, comi uma bela milanesa, bebi uma cerveja local, um grupo musical tocava canções ciganas ou parecidas. "As Czardas", de Monti, em destaque.

Compramos uma excursão para amanhã, a fim de darmos um giro fundamental pela cidade, depois iremos por conta própria aos lugares que nos interessarem. Quero rever a velha sinagoga e o cemitério dos judeus, que tanto me impressionaram em 1968. Além do castelo, que deve ter inspirado Kafka, quero rever a catedral, as duas bibliotecas de teologia e filosofia, que eu achei a coisa mais bonita que havia visto até então. Escrevi um postal para o Carpeaux e só depois me lembrei que ele já havia morrido. Mesmo assim, botei na caixa do correio.

São 23h30, estou acabando um Rey del Mondo, aqui mesmo no apartamento, com as janelas abertas, apesar do frio.

08.11.01 - Café no quarto, saímos num tour com um jovem casal alemão e uma guia que falava mal tanto o francês como o alemão. Giro pela Old City, revi as duas bibliotecas que tanto me impressionaram, a catedral, alguns bairros típicos, uma panorâmica da cidade, pegamos um táxi de volta ao hotel.

Lembro que, em 1967, pensei em ficar por aqui, desistindo do asilo em Havana. Telefonaria para o Mario Benedetti, em Paris, que estava me rastreando. Ao atravessar uma das pontes sobre o Vltava, um velho tocava acordeão, uma canção de Smetana que não identifiquei.

Depois de amanhã, Beatriz irá para Budapeste num voo às dez horas, e eu irei para Roma no único voo da Alitalia. Ficarei cinco horas entregue a mim mesmo, com uma porção de malas. Se houver retardo no voo, estarei frito, pouca gente fala inglês ou francês, a segunda língua aqui é o alemão.

09.11.01 - Dia de sol e frio em Praga. Demos um pulo na agência da Alitalia para confirmarmos as passagens. Beatriz segue para Budapeste às dez horas, devendo estar no aeroporto às oito. Eu vou mesmo para Roma, no voo marcado para bem mais tarde. Sairei do hotel depois da Beatriz, me virarei sozinho, levando minhas duas malas e a mala maior da Beatriz. Será uma odisseia, mas tudo bem.

Tomamos um táxi por três horas, 1.500 coroas, e fui rever a velha sinagoga, o cemitério antigo dos judeus, com suas pedras desalinhadas. Entre as vítimas tchecas do Holocausto, cujos nomes estão gravados nas paredes da sinagoga, encontrei um certo Bloch, Adolf, nascido em 1862.

Não pode ser o mesmo que conheci, era de 1908 e se chamava Abracha, nasceu na Ucrânia. Também mandei um postal para ele, que morreu seis anos atrás. Como no caso do Carpeaux, transfiro o problema para o correio. Quando chegar em Roma, mandarei um postal para mim mesmo, em Praga. Como endereço, botarei a rua em que Kafka morava.