sexta-feira, novembro 09, 2012

Rigor contra corrupção - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 09/11


Talvez porque será o presidente do STF dentro de dias ou porque sua função de relator ajuda a encaminhar as votações, o fato é que Joaquim Barbosa, com toda a sua inabilidade, está conseguindo dar o tom do julgamento do mensalão, seguindo quase que integralmente a posição do Ministério Público Federal, cujo chefe, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, está por trás da medida mais concreta de punição tomada até agora: a proibição aos réus já condenados de sair do país.

A decisão não foi apenas a de entregar os passaportes, mas a comunicação ao Ministério da Justiça de que eles só podem viajar ao exterior consultando o Supremo. Isso porque os advogados de defesa estavam considerando inócua a medida, pois é possível viajar por todos os países vizinhos usando apenas a certeira de identidade.

José Dirceu, condenado à espera da pena, classificou de “populismo jurídico” a tomada de seu passaporte antes da definição da pena e do trânsito em julgado do processo. Mas o procurador-geral quer mais: está insistindo na proposta de que todos os condenados sejam presos imediatamente no final do processo e aguardem na cadeia os recursos que serão impetrados por suas defesas.

Quanto a essa medida, há uma divisão no plenário do STF, e parece uma tarefa difícil conseguir a maioria para a prisão imediata dos condenados, antes que o plenário julgue os recursos. Há, no entanto, na maioria dos ministros, a certeza de que o julgamento é exemplar e o desejo de não permitir que os réus escapem de uma punição severa por brechas da legislação brasileira. Até agora, todos os réus do chamado “núcleo operacional” pegaram penas que os levarão para a cadeia em regime fechado por um bom tempo, e tudo indica que essa tendência se repetirá nos chamados núcleos “político” e “financeiro”.

É bom lembrar que pesquisas anteriores ao julgamento mostravam a sociedade brasileira cética quanto aos resultados, ao mesmo tempo em que os principais acusados consideravam abertamente que o julgamento não se realizaria tão cedo ou que não seriam condenados. Ainda repercute o comentário cínico do réu Delúbio Soares, que disse que o mensalão, ao fim de alguns anos, não passaria de uma piada de salão. O fato de que banqueiros, empresários, políticos e ex-ministros de Estado estejam nos bancos dos réus, todos criminosos de colarinho branco, a maioria condenada à prisão fechada, é um sinal para a sociedade de que a impunidade está sendo superada pela aplicação rigorosa da lei.

Além da expectativa de que as decisões do Supremo repercutam nas instâncias inferiores de nosso Judiciário, há também a disposição de Joaquim Barbosa de colocar como prioridade sua à frente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) o combate à corrupção.

O sistema brasileiro, tanto no STF quanto no CNJ, é presidencialista, em decorrência de que o presidente tem o poder de pauta, que é muito grande. Não foi por outra razão que o julgamento do mensalão entrou na pauta do Supremo na presidência do ministro Ayres Britto, que queria se aposentar com o sentimento de dever cumprido. Essa influência do presidente do STF tem a desvantagem, como analisa o jurista Joaquim Falcão, já citado na coluna, de descontinuar as políticas administrativas, tanto lá quanto no CNJ. Gilmar Mendes, por exemplo, era a favor de que os julgamentos dos juízes fossem públicos quando estava no CNJ, já Cezar Peluso, no mesmo cargo, queria que todos estivessem sob segredo de Justiça. Já Nelson Jobim priorizou o combate ao nepotismo e o teto salarial, que não foram prioridades dos sucessores.

Voluntarista, irascível, e por isso popular, Barbosa está imbuído de uma missão e volta e meia dá sinal disso no julgamento. Anteontem, em meio a uma das mais sérias discussões com Marco Aurélio Mello, ele tentou voltar à votação argumentando: “É isso que a sociedade espera de nós.”

Teremos nos próximos anos um CNJ pró-ativo no combate à corrupção, sob a presidência de Barbosa, o que é um indício de que o mesmo espírito que dirigiu o julgamento do mensalão permanecerá comandando o Judiciário brasileiro.

O que é um bom juiz? - JOSÉ RODRIGO RODRIGUEZ

O Estado de S.Paulo - 09/11


Joaquim Barbosa é a novidade do julgamento do mensalão e está na vanguarda do debate sobre o papel do STF. Tem sido criticado pela atuação apaixonada e combativa, que afirma a necessidade de uma postura exemplar neste caso e contribui para atrair a esfera pública para seu lado.

Mas não foi ele quem ligou as câmeras. O STF decide por maioria e transmite ao vivo seus trabalhos. Admite claramente este modo de agir. A despeito disso, talvez tenha sido ele o primeiro a prestar atenção nisso e explorar o potencial de disputa pública embutido no procedimento do STF. Pois os ministros debatem cotidianamente. O que Barbosa fez foi pôr às claras esta característica, abrindo espaço para um juiz "combativo", "politizado" e bom de TV. Mas que política é essa? O jurista austríaco Hans Kelsen já dizia que a "política jurídica" se faz no espaço de discricionariedade para julgar os casos: não é a mesma política dos partidos. É feita pela escolha de uma solução para o caso concreto tendo em vista o direito, as características e o contexto do julgamento.

O STF está mais próximo de um órgão legislativo do que de um organismo judicial típico. Da mesma forma, as CPIs se parecem mais com um tribunal do que com um órgão legislativo. Explico. Os tribunais julgam casos difíceis, casos únicos por sua importância e/ou complexidade. Para o trivial, o direito prevê soluções padronizadas, interpretações estabilizadas temporariamente, até que apareça um caso difícil sobre aquele assunto.

Já nos casos difíceis, a solução é indeterminada. Seu julgamento se aproxima mais da criação de uma norma geral do que da aplicação de uma lei ao fato; a solução destes casos serve de exemplo para julgamentos futuros, pelo próprio tribunal e pelas cortes de instância inferior.

A despeito de sua postura, os argumentos de Barbosa têm sido aceitos pelos demais ministros; mesmo suas teses jurídicas mais polêmicas. E o STF tem concordado com ele ao tratar este caso como um caso difícil.

Barbosa é "politizado", mas sem deixar de ser técnico. Faz política ao escolher e defender soluções jurídicas para o caso. Na sessão de ontem, o ministro Marco Aurélio parece ter seguido o mesmo caminho. Decidiu um tema técnico, a irretroatividade da lei, afirmando que assim iria "consertar o Brasil", "com C e com S". Desta forma, entra em jogo uma nova maneira de ser juiz que pode se tornar preponderante no Supremo. A partir de agora, o conceito do que seja um "bom juiz" passa a estar em acirrada disputa.

Quem tem tempo não tem pressa - MARIA CRISTINA FERNANDES


Valor Econômico - 09/11


Ao voltar ao Brasil em 1979 sob a maior manifestação popular recebida por um exilado, Miguel Arraes de Alencar viu-se premido na retomada da ação política.

Como em todo o país, em Pernambuco a esquerda que havia resistido à ditadura também delimitava terreno em relação aos exilados.

Com o MDB pernambucano loteado, Arraes acabou recuando de um protagonismo em 1982, primeira eleição direta para governador desde a redemocratização, para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados.

O bonde de 30 anos que separa Arraes de Eduardo Campos

Quando, em 1986, voltou ao governo do qual havia sido apeado pelo golpe, já havia perdido o bonde nacional do PMDB para Ulysses Guimarães.

Essa história é lembrada em Pernambuco como lição de avô para neto. A comparação tornou-se parte do repertório de alguns dos defensores de sua candidatura em 2014. Dado que seu partido bombou nas eleições municipais e a oposição ainda não parece unida em torno do senador tucano Aécio Neves, teria chegado a hora de Eduardo não deixar passar o bonde que, 30 anos atrás, passou acelerado diante de Arraes.

De tão distintas, as circunstâncias que separam neto e avô só corroboram com a hipótese de que Eduardo não esteja em corrida desabalada por uma candidatura.

Arraes tinha 66 anos quando perdeu a oportunidade de disputar protagonismo nacional. Eduardo tem quase vinte anos a menos.

A prudência de quem lhe recomenda vagar inspira-se em dito de Marco Maciel, o ex-presidente da República que, à época do retorno de Arraes, governava Pernambuco. Maciel, que hoje leva vida discreta no Recife, foi escolhido por Geisel para ocupar o Palácio do Campo das Princesas com a mesma idade (39) que Eduardo tinha ao eleger-se pela primeira vez. Costuma dizer que quem tem tempo não tem pressa.

Não que faltem lições do bonde perdido pelo avô. Algumas já foram tiradas pelo próprio Arraes quando decidiu que, a ficar sujeito aos humores pemedebistas, seria preferível mudar de partido.

Outras têm balizado a ascensão de Eduardo dentro e fora do PSB. Cuidou de obter hegemonia no partido que nem a entrada de um ex-candidato à Presidência como Ciro Gomes foi capaz de abalar.

Depois cercou a oposição. Dos poderosos pefelistas que tinham em Pernambuco um de seus mais fortes redutos os que não viraram seus aliados estão de fogo morto.

Reaproximou-se de Jarbas Vasconcelos e impôs derrota acachapante aos antigos aliados petistas no Estado que não se circunscreveu ao Recife.

O cerco ainda não garantiu candidatura nata à sua sucessão, mas lhe deixou em situação mais confortável em 2014 que a do senador tucano Aécio Neves.

Além de não ter um candidato nato à disputa pelo governo de Minas, o PSDB deve enfrentar o mais próximo ministro de Dilma, Fernando Pimentel (PT).

Se a recuperação da economia tornar Dilma Rousseff imbatível, tanto Eduardo quanto Aécio poderiam se lançar em nome de uma projeção em 2018.

O problema é se, além da derrota nacional, sobrevier a perda do Estado, condição de sobrevivência política. Se é possível fazer alguma previsão com dois anos de antecedência, este é um cenário mais provável para Aécio do que para Eduardo.

O que as eleições de 2012 trouxeram de mais negativo para o futuro de Eduardo Campos foi a disposição do PT de criar anticorpos à principal bandeira com que o governador do PSB conta para se lançar nacionalmente: uma gestão baseada em metas para dar eficiência a um serviço público que se pretende inclusivo.

Além de Dilma já encarnar essa disposição, o PT decidiu investir nessa toada na campanha municipal. O prefeito eleito de São Paulo, Fernando Haddad, é o principal representante da geração que pretende fazer frente à demanda por gestores que conciliam modernidade e inclusão.

A derrota do governo nos royalties mostra como a outra bandeira com que Eduardo espera contar, a da questão federativa, tem espaço político. Mas as eleições fluminenses, em que o PSB foi tratado como o partido que quer empobrecer um dos maiores colégios eleitorais do país, mostrou o quanto o tema ainda precisa ser burilado antes de se transformar em mote de campanha.

Mas se o PSB não lhe contesta a hegemonia, o Estado está sob controle, o empresariado começa a se encantar com sua gestão, o maior adversário de sua geração não exibe fôlego de maratonista e o PT já começa a fomentar futuros adversários, o que Eduardo teria a perder em 2014?

Parece óbvio que pouco. Mas a pergunta também pode ser construída de outra forma: o que ele teria a ganhar?

O mais evidente é o desgaste de antecipar em quatro anos a oposição a um partido que, no Planalto, abriu as portas para muitos dos investimentos que fizeram bombar a economia de Pernambuco.

Há outros riscos como a possibilidade de se desperdiçar uma tarefa federal que além de projeção nacional pudesse colocar seu nome como opção da própria base governista.

Tampouco é possível divisar hoje com que aliados contaria já que o PSD sinaliza apoio a Dilma

Como as perdas e ganhos ainda parecem pouco tangíveis o jogo não poderia deixar de ser este que se viu com o jantar de ontem entre o governador e a presidente da República: o PSB é aliado e assim permanecerá até 2014. A nenhum dos dois interessa antecipar o jogo.

A; s dificuldades de Barack Obama para enfrentar a muralha Republicana em seu primeiro mandato não foi capaz de tirar o fascínio que o presidente americano exerce no Brasil. O que foge da análise de muitos dos admiradores é que Obama manteve a divisão do país entre pobres x ricos, negros e hispânicos x brancos já registrada em 2008. Entre os que ganham até US$ 30 mil anuais, por exemplo, teve quase o dobro dos votos de Mitt Romney. Ao se reeleger em 2006, Luiz Inácio Lula da Silva também teve o dobro dos votos de Geraldo Alckmin na faixa até dois mínimos mensais, um terço do ganhos dos mais pobres considerados pelos institutos americanos. Em democracia, conflito de interesse se resolve no voto, mas no Brasil a pauta da divisão do país virou peça de acusação.

Curto-circuito - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 09/11

A insegurança jurídica na área de energia, agravada nesta semana com a aprovação da mudança nas regras de distribuição de royalties do petróleo, preocupa aliados do governo. Deputados e senadores têm sido procurados por investidores e diretores das empresas do setor elétrico, que cobram definições sobre tarifas e o valor dos ativos após o término das atuais concessões. "O governo tem de agir para clarear as regras para o setor", diz o senador Delcídio Amaral (PT-MS).

Ainda essa Em almoço com congressistas em São Paulo, ontem, Delfim Netto disse ser inevitável aumento no preço de combustíveis ainda este ano. Segundo ele, o governo não tem mais margem para protelar o reajuste.

Paz e amor Dilma Rousseff disse a Eduardo Campos anteontem, no Alvorada, que o momento é de "descer do palanque" e que "não deve haver mágoa" nas relações do governo com o PSB.

Para depois "Foi uma conversa cordial e não se falou de 2014. Quem quer antecipar a sucessão é a oposição", disse o vice-presidente da sigla, Roberto Amaral.

Nem aí Questionados pelo presidente petista, Rui Falcão, Campos e Amaral evitaram compromisso com a candidatura de Henrique Alves (PMDB-RN) à Câmara. Por ora, não cogitam retirar Júlio Delgado (PSB-MG) do páreo.

Apetite O próximo dirigente partidário a jantar com Dilma será Gilberto Kassab (PSD), na segunda-feira. O prefeito aproveitará o encontro para tratar do acordo para renegociação da dívida paulistana com a União.

Que tal? Interlocutores de Dilma ironizam a preocupação do presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), com seu futuro político. Responsabilizado pela derrota do governo nos royalties, Maia seria escalado para a embaixada brasileira na Líbia. "Ele se especializou em conflitos", diz um assessor.

Fadiga Embora seja tecnicamente possível a apresentação de habeas corpus ao plenário para tentar derrubar a decisão de Joaquim Barbosa pela apreensão dos passaportes dos condenados no mensalão, advogados acham que a tentativa provocaria desgaste desnecessário, dada a certeza de derrota.

Passivo Ayres Britto deixará o STF sem finalizar um de seus principais casos. Na presidência da corte, não conseguiu colocar em pauta a análise dos embargos apresentados à decisão da demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol.

A conta... Alvejado por entidades de classe após barrar no STF adicional salarial para 85 mil PMs em plena crise na segurança, o governo paulista descarta rever a medida. A incorporação do bônus implicaria gasto anual extra de R$ 2,5 bilhões.

... não fecha A cúpula da polícia também não gostou da transferência da folha de pagamento da corporação à Secretaria da Fazenda. Até então, a PM conduzia, de forma autônoma, o processamento de holerites.

Visitas à Folha Abigail Noble, diretora para a América Latina e África da Fundação Schwab, Cybele Amado de Oliveira, educadora, vencedora do Prêmio Empreendedor Social 2012, Fernando Botelho, sociólogo, vencedor do Prêmio Empreendedor Social do Futuro 2012, e Antonio Sérgio Petrilli, médico, vencedor do Prêmio Escolha do Leitor 2012, visitaram ontem a Folha, a convite do jornal, onde foram recebidos em almoço.

Miguel Bucalem, secretário paulistano de Desenvolvimento Urbano, visitou ontem a Folha. Estava com Flávio Mello, assessor de imprensa.

com FÁBIO ZAMBELI e BRENO COSTA

tiroteio

"Mesmo com a derrota para o PT, o PSDB é incapaz de traçar diagnóstico dos seus erros e se organizar para o futuro em São Paulo."

DO SECRETÁRIO EDSON APARECIDO, que coordenou a campanha de Serra, sobre a ausência de reuniões de avaliação nas direções municipal e estadual tucana.

contraponto

Existe amor em Brasília

Às voltas com conversas para recompor a base aliada após as eleições e preparar o terreno para sua reeleição, a presidente Dilma Rousseff reuniu ontem, no lançamento do programa Idade Certa, aliados como o vice-presidente Michel Temer (PMDB) e o governador Cid Gomes (PSB-CE), que criticou o excesso de poder do PMDB.

O clima hostil foi quebrado por crianças que cantaram uma música que falava "eu te amo" em várias línguas:

-'Ti amo' é em italiano; em inglês é 'I love you'.

-Quem sabe essa música fofinha faça com que selem a paz? -, cochichou um deputado para um colega.

O Brasil que sai das urnas - FERNANDO GABEIRA


O ESTADÃO - 09/11


Esse é o título de um artigo que me encomendou a Fundação Herbert Daniel. Resolvi levar a proposta ao pé da letra e destaquei o Brasil que saiu das urnas: eleitores que votaram nulo ou declararam em pesquisas que só votaram porque era obrigatório. Não só em São Paulo, como em todo o Brasil, muita gente deu as costas para a política. Aos partidos só interessa contabilizar os ganhos. Mas o crescimento da abstenção enfraquece o processo político.

Um dos fatores de desencanto com a política é a corrupção. Mas não só ela deve ser focada. O julgamento do mensalão no STF é uma semente de confiança cujos frutos ainda não foram de todo colhidos. Esta semana o STF julgou também se o amianto deveria ser proibido. O Congresso Nacional não se manifestou sobre o tema. Havia projeto e inúmeras audiências foram realizadas, até com especialista estrangeiros. A maioria não se interessou.

O declínio da política se expressa ainda nas questões que são decididas pela Justiça, pois os congressistas não querem abordá-las. Sem desmerecer o esforço do STF, o amianto é um tema político, pois transcende a proibição. Implica definição do phase-out, o tempo para desmobilizar a indústria existente, e recursos para transitar rumo a outras atividades econômicas. Muitas questões minoritárias têm sido transferidas para o STF. E alguns líderes desses movimentos consideram isso positivo, com o argumento de que o Congresso é conservador, logo, são maiores as chances de vitória entre os ministros do STF.

Não importa se o Congresso é ou não conservador. As questões precisam passar por seu crivo, pois os eleitos foram escolhidos para isso: é a democracia. Os dois elementos combinados, corrupção e ausência do Congresso, contribuem para enfraquecer a legitimidade do processo político.

O programa Brasil sem Miséria está sofrendo com desvios em várias cidades. A leitura de que não há rigor no combate à corrupção acaba ressuscitando a frase que tanto ouvimos no passado: ou todos se locupletam ou se restaure a moralidade.

Muito se falou da influência do julgamento do mensalão nas eleições. Ele segue seu rumo, para além do processo eleitoral. Algumas penas ainda serão definidas e um condenado, Marcos Valério, quer depor de novo. Ele reaparece tocando em temas escolhidos a dedo para incomodar o PT: Lula sabia do mensalão? Como foi o assassinato de prefeito de Santo André? De onde surgiu o dinheiro apreendido pela Polícia Federal em 2006 com militantes do PT, os chamados aloprados? O PT acha um ultraje voltar a tais temas. Atribui esse incessante retorno aos adversários que não se conformam com o novo poder no País. Não parou para refletir sobre sua versão dos três fatos. Se o fizesse, entenderia que os adversários só se aproveitam de uma fragilidade incontestável: as histórias não convencem e fazem um permanente convite à busca da versão definitiva. São temas inescapáveis, mas não os únicos na agenda.

O PT venceu em São Paulo e outras cidades metropolitanas. É a chance que tem de articular, a partir da capital, uma verdadeira aliança da metrópole para enfrentar seus maiores problemas. O fato de muitas cidades serem dirigidas pelo mesmo partido ajuda, mas não é condição necessária. Políticas metropolitanas deveriam ser articuladas entre partidos diferentes. Durante a campanha Dilma insinuou que seria mais fácil a cidade crescer em sintonia com o governo federal. A palavra que usou é a de sempre: parceria. A julgar pelo tom da campanha, as parcerias só se realizam entre partidos da mesma coligação. Salvador e Manaus, por exemplo, estariam fora dessa possibilidade. É este o principal argumento dos candidatos oficiais: se não votarem em mim, a cidade não vai obter recursos de Brasília.

Na semana do furacão Sandy, Barack Obama fez questão de procurar o governador de Nova Jersey em busca de ajuda articulada. São de partidos diferentes. Mas ao menos tentam derrubar o mito segundo o qual um adversário deve ser tratado a pão e água para que não cresça. Numa cultura política em que o PT é o partido dominante e o objetivo parece ser isolar e destruir quem se opõe a ele, o gesto de Obama deveria ser considerado. Nos EUA havia um desastre em curso, dirão alguns. Mas o princípio da cooperação que vale para o desastre também é válido para grandes opções cotidianas.

A atrofia da vida política brasileira manifesta-se ainda em outras áreas. Muitos abraçam a Petrobrás e se dispõem a lutar por ela como nos anos 50. Quando a empresa vê seu lucro reduzido e enfrenta dificuldades no abastecimento, não há nenhum debate, nem mesmo curiosidade sobre o que ocorreu por lá. Ao contrário, os deputados seguirão discutindo para onde vão os royalties do pré-sal, pois a divisão dos recursos parece ser sua única fixação.

O Brasil talvez seja muito grande e complexo para sair totalmente modificado das urnas municipais. O distanciamento da política já era sensível nas eleições de 2010. No início do processo Lula dizia aos eleitores desinteressados: quem não gosta de política acaba sendo dominado por políticos que não escolheu. Era uma tentativa de fortalecer a ideia de mudança. Porém duas décadas depois nos vemos de novo diante de um divórcio entre parte da população e o sistema político. Não se trata apenas de repetir o estímulo à participação. Isso o TRE faz, tocando o Hino Nacional ao fundo de um anúncio celebrando as eleições. A questão agora é responder por que o processo de democratização chegou a este ponto. Seria uma reação comodista de pessoas satisfeitas com a vida material melhorada? Ou apenas nojo pela sucessão de escândalos em cachoeira desaguando em gavetas amigas?

A corrupção generalizada e o suicídio do Congresso são apenas duas pistas. O julgamento do mensalão aparece como marco dessa longa história. Nele os dois elementos aparecem relacionados: dinheiro público contra voto parlamentar. Quem não gosta de política está sujeito a ser dirigido por políticos que despreza. Mas chega um tempo em que a questão não é mais gostar de política, e sim gostar de si próprio e do País. Nesse tempo, mesmo sem amar a política, os ausentes podem querer balançar o coreto. Seriam bem-vindos.

O ministro do PSD - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 09/11

No PSD, e no governo, o nome mais cotado para assumir o Ministério da Micro e Pequena Empresa, tão logo o Senado vote, é o do presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, Paulo Safady Simão. Ele preenche o perfil técnico e atende ao desejo político de ampliar a participação de Minas no governo. Simão tem o aval do presidente do partido, Gilberto Kassab.

O caminho das pedras
O Ministério da Fazenda está inclinado a propor à presidente Dilma que vete o artigo 3º da Lei dos Royalties. Ele trata do petróleo licitado sob o regime de concessão, mantendo receitas do Rio e do Espírito Santo. A sustentação jurídica é a do “direito adquirido”. Quanto às reservas que ainda serão licitadas, no regime de partilha (artigo 2º), a ideia é sancionar o aprovado no Congresso, reduzindo a receita de estados e municípios produtores e afetados, conforme texto do senador Vital do Rêgo (PMDB-PB). O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) diz que não é o ideal, mas que é “uma solução intermediária”. Esse veto permitiria que a presidente Dilma licite novas áreas já.

‘Oh-la-la’
Joaquim Barbosa Ministro do STF, relator do mensalão, usa expressão francesa, de empolgação ou de alívio, após aprovada a pena de 25 anos, 11 meses e 20 dias de prisão para o publicitário Cristiano Paz, ex-sócio de Marcos Valério na agência SMP&B

O PTB entra no Conselho Político
Presidente em exercício do PTB, Benito Gama combinou com a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) que, após oito anos, o partido vai voltar ao Conselho Político do governo. E relatou que o mandato da direção do PTB vai até 2015.

Boca no trombone
Licenciado da presidência do PTB, Roberto Jefferson ficou irado com o movimento para suceder a ele. E avisa: “Vou derrotar o câncer e a metástase de agourentos do PTB.” Campos Machado (SP) protesta: “A interferência (Planalto) é indevida. O Roberto não está de saída.” O senador Armando Monteiro (PE) diz: “Não estou nesta disputa.”

A negociação
Procurado, o senador Antonio Carlos Rodrigues (PR), suplente da ministra Marta Suplicy, pediu para ser presidente da Câmara de Vereadores de São Paulo ou ministro. Se atendido, assumiria o segundo suplente, Paulo Frateschi (PT).

A culpa é de quem?
O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), discorda da avaliação de que o governo Dilma foi o culpado pela derrota na votação da Lei dos Royalties. Na sua visão, as bancadas do Rio e do Espírito Santo são as responsáveis pelo resultado. Segundo ele, os deputados de ambos os estados foram irredutíveis na negociação, não aceitando acordo, e todos os demais estados se rebelaram.

Duas táticas na oposição
A ala do PSDB ligada ao senador Aécio Neves (MG) compartilha da visão do DEM, que considera um erro político pressionar a Procuradoria Geral da República a investigar a participação do ex-presidente Lula no mensalão.

Sob nova direção
Coordenador do Conselho Político da Associação Comercial (SP), Jorge Bornhausen convidou o governador Jaques Wagner para dar palestra na entidade. No auge do mensalão (2005) , festejou: “Vamos nos livrar desta raça (os petistas).”

O GOVERNADOR Tarso Genro (RS) foi recebido pelo presidente da França, François Hollande. Pauta: produção de carros elétricos para o Mercosul.

VAGABUNDO NÃO VIAJA!


Todo cuidado é pouco - DORA KRAMER

O ESTADO DE SÃO PAULO - 09/11


A negociação entre investigadores e investigados para entrega de informações em troca dos benefícios judiciais não é algo simples nem imune a riscos.

Um caso ocorrido em 2004 e hoje longe da memória nacional vem bem a propósito nesse momento em que a defesa de Marcos Valério Fernandes de Souza tenta obter melhores condições para o cumprimento das penas decorrentes de todos os processos relativos ao mensalão.

O episódio encerrou a carreira do subprocurador da República José Roberto Santoro, atuante em casos de repercussão nacional como o desmonte de quadrilhas incrustadas no aparelho de Estado no Acre e no Espírito Santo.

Santoro trabalhava no escândalo Waldomiro Diniz, braço direito de José Dirceu na Casa Civil e conhecido do Brasil depois da divulgação de um vídeo em que tentava extorquir o bicheiro Carlos Cachoeira quando era presidente da loteria estadual do Rio de Janeiro (Loterj), no governo Anthony Garotinho de quem o PT era aliado.

O contraventor procurou o Ministério Público buscando benefícios em troca de informações sobre um alegado esquema de arrecadação de recursos para o PT, que receberia parte da propina pedida e cuja cúpula teria conhecimento das ações de Waldomiro.

José Roberto Santoro chamou Cachoeira ao seu gabinete numa madrugada para questioná-lo a respeito do que ele teria a oferecer à Procuradoria. Queria o vídeo original e completo do encontro de Waldomiro Diniz com o bicheiro.

No interrogatório, a certa altura o subprocurador pressionou Cachoeira a falar logo antes que o então procurador-geral Cláudio Fonteles chegasse e interpretasse a cena como uma tentativa de "ferrar" o ministro da Casa Civil, José Dirceu, "para derrubar o governo Lula".

O bicheiro estava gravando. O áudio foi entregue à TV Globo e usado pelo governo para politizar a história, dizendo que o diálogo era prova da "conspiração".

O escândalo, que até então era de corrupção, virou uma questão política com o subprocurador sendo acusado de usar o cargo para prestar serviço ao PSDB.

Estava negociando uma delação premiada que, distorcida, levou investigador e investigados a inverterem os papéis.

José Roberto Santoro deixou a procuradoria, abriu escritório de advocacia e hoje, oito anos depois, Carlos Cachoeira está na cadeia, Waldomiro Diniz condenado a 12 anos pela justiça do Rio e José Dirceu em vias de ser preso.

Ao bispo. A conta das perdas do Rio de Janeiro com a aprovação da nova lei de distribuição dos royalties do petróleo não pode ser cobrada só do Congresso.

Não fosse a mudança nas regras proposta pelo então presidente Lula no embalo da euforia do pré-sal, não haveria o prejuízo.

Confiante no peso de Lula sobre a vontade do Legislativo, o governador Sérgio Cabral embarcou numa canoa desde o início fadada a fazer água: se a quase totalidade dos Estados brasileiros é de não produtores, era óbvio que a representação no Congresso iria se posicionar para favorecer essa maioria.

Agora dificilmente a presidente Dilma Rousseff fará vetos que contrariem parlamentares, prefeitos e governadores.

Ilusão à toa. Começa a circular uma ideia lançada pelo governador da Bahia, Jaques Wagner, de que o PT poderia se comprometer desde já a ceder a cabeça da chapa presidencial para Eduardo Campos em 2018, em troca a permanência do governador de Pernambuco no campo governista em 2014.

Campos pode até continuar aliado do Planalto. Por razões de estratégia política, mas não motivado pela perspectiva de um acerto feito com seis anos de antecedência cuja moeda é nada menos que a melhor cadeira da República.

Digamos que esteja crescidinho demais para acreditar nesse tipo de promessa.

Os ruins e os piores - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 09/11


BRASÍLIA - A violência em São Paulo evoluiu de uma guerra entre bandidos e policiais para uma guerra de vaidades entre o governo federal e o estadual, descambou para mais uma guerra partidária entre PT e PSDB e desemboca numa guerra interminável de números. A eleição de 2014 já está começando.

Com as credenciais de ex-secretário nacional de Segurança na era FHC e atual professor do Centro de Altos Estudos de Segurança da PM-SP, o coronel da reserva da PM José Vicente da Silva Filho pega em armas para defender São Paulo.

Incomodado com o noticiário em geral e com uma coluna em que classifico a violência na capital de São Paulo como "calamidade", ele diz que, feitas todas as ponderações de população, a violência no Rio e em Salvador, Maceió, Recife, Fortaleza e Curitiba está num nível bem pior do que a paulistana.

Vai aos (seus) números: a violência no Rio é 80% maior, e a de Salvador, 300%. Mesmo em setembro, quando os homicídios praticamente dobraram em São Paulo, os dados cariocas ainda continuaram 25% mais assustadores.

Na versão do coronel professor, mais do que guerrear para ver que Estado está pior do que o outro, ou que capital é mais violenta do que a outra, convém focar nos dados federais. E eles não são nada bons, diz.

Nas contas de José Vicente, o governo federal gastou 21,26% a menos que em 2011 em segurança e, até agora, só usou 46% do Orçamento de R$ 10,8 bilhões destinados para esse setor tão delicado.

Pior: citando dados da Câmara dos Deputados, acrescenta que o Orçamento da União para Segurança em 2013 foi reduzido para R$ 7,2 bi, 33% a menos do que neste ano.

É assim que, enquanto bandidos assassinam policiais em São Paulo e civis também lá e em todo o resto do país, autoridades, acadêmicos e imprensa participamos de um festival horripilante: quem mata mais?

Faltou líder - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 09/11

A crise da distribuição dos royalties do petróleo chegou ao ponto que chegou por falta de liderança. No Rio, o governador Sérgio Cabral apostou que o estado seria salvo pela Presidência da República; não construiu coalizões políticas ou com a opinião pública. Em Brasília, o governo não parece ter entendido que a Presidência é a guardiã da paz federativa.

Este assunto é explosivo. Rio de Janeiro e Espírito Santo dizem que a mudança na distribuição vai arruinar suas finanças e é uma forma de espoliação. A maioria dos estados acha que há uma apropriação indébita da riqueza nacional por apenas dois estados e alguns municípios.

É neste impasse que faz falta a liderança da presidente e do governador do estado que produz mais de 80% do petróleo consumido no país. A presidente não pode ser surpreendida por ações de políticos, até de sua base, contra a posição que o governo alega defender. Precisa estar no comando; ter uma posição e defendê-la com negociação e convencimento. Afinal, ela é chefe do governo da União. Numa federação, a União tem o indelegável papel de ser o ponto neutro de defesa dos interesses comuns.

O Rio não pode ficar deitado em praia esplêndida garantindo que toda a riqueza é dele. Precisa convencer a opinião pública dos seus pontos. O governador Sérgio Cabral chorou na primeira vez que perdeu no Congresso. Na segunda, ameaçou com o fim das Olimpíadas. São argumentos emocionais. Precisamos de racionalidade neste tema.

A posição dos que defendem a nova repartição está baseada nas seguintes teses: o petróleo é de todos; aumentou muito a expectativa de arrecadação com a descoberta do pré-sal; a riqueza não está nos territórios dos estados produtores, mas sim no mar, que é de todos os brasileiros.

A Constituição estabelece no seu artigo 20 que o mar territorial é bem da União. No parágrafo primeiro, no entanto, a Carta assegura que os estados e municípios participem do resultado da exploração de petróleo, gás natural ou outros recursos no respectivo território, plataforma continental, mar territorial. Ou então que haja compensação financeira por essa exploração.

A União recebe grande parte dos royalties e redistribui para estados e municípios. Mas a lei estabelece que os estados que tenham esses bens em seu território ou plataforma continental participem do resultado. É por isso que eles recebem diretamente royalties e participação especial.

O petróleo é tributado de maneira diferente. Recolhe-se o imposto no estado que consome o produto e não no que produz. Ao contrário da maioria dos outros bens. Isso prejudica os estados produtores. Portanto, há aí uma injustiça tributária, que é compensada pelos royalties e pela participação especial.

A expectativa de arrecadação cresceu com o pré-sal e, diante disso, começou o debate sobre a mudança na forma de distribuição dos royalties. Nessa discussão, dois pontos deveriam ser considerados: não alterar o passado e encontrar uso estratégico para esse excedente. Em vez de apenas aumentar a distribuição para todos os estados e municípios não produtores, deveria se pensar numa reserva de contingência ou num investimento no futuro.

Esse é um recurso finito que deveria financiar a transição para uma economia de baixo carbono ou ser aplicada no mais estratégico dos investimentos no futuro, que é a educação. Pensou-se nisso, mas não foi o que terminou aprovado.

Esta não deveria ser uma luta de todos contra o Rio e o Espírito Santo. Deveria ser uma luta comum por uma estratégia de desenvolvimento sensata e de longo prazo.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 09/11


Novartis e Furp fecham acordo de transferência
A Novartis e a Furp (Fundação para o Remédio Popular) fecharam acordo para a troca da tecnologia de produção de dois medicamentos para o combate à rejeição de órgãos transplantados.

A expectativa é que a entidade, do governo do Estado, fabrique os remédios em três a cinco anos. Serão usadas suas duas fábricas, em Guarulhos e em Américo Brasiliense (a 283 km da capital).

Enquanto a produção dos medicamentos não começar, o Ministério da Saúde irá centralizar a compra e a distribuição dos remédios da Novartis, como contrapartida.

Atualmente, a Furp produz 67 remédios distribuídos para cerca de 3.000 municípios.

Os novos medicamentos são estratégicos tanto para a Novartis quanto para o governo federal, diz Adib Jacob, presidente da empresa no Brasil. "Nosso parceiro direto é a Furp", afirma. "Mas o ministério ajuda no acordo."

"Vamos investir em máquinas e treinamento, mas as duas plantas que já existem são capazes de produzir os novos remédios sem problema", diz Flávio Vormittag, superintendente da entidade.

O nível da queda nos preços dependerá do tamanho da produção e de compras pelo governo, diz Jacob.

ESFERA FEDERAL
Baxter firma convênio com a Hemobrás

A farmacêutica Baxter também fechou acordo para a transferência de tecnologia com uma empresa estatal, a Hemobrás. A expectativa é que a produção de fator 8 recombinante, que combate a hemofilia, comece em no máximo dez anos.

SUPOSTO CARTEL
Seis mandados de busca e apreensão foram cumpridos durante todo o dia de ontem para coletar documentos e materiais que possam comprovar a prática de cartel no mercado de silicatos.

Derivado do silício,o silicato é utilizado em cimentos e refratários, entre outros.

A operação ocorreu em quatro Estados, nas cidades do Rio de Janeiro (RJ), de Mogi das Cruzes (SP), de Cajamar (SP), de Rio Claro (SP), de Jaboatão dos Guararapes (PE) e de Criciúma (SC), segundo Diogo Thomson superintendente-adjunto do Cade.

"O material apreendido será analisado pelo Cade e, se confirmadas as suspeitas, será aberto um processo administrativo contra as empresas e pessoas físicas envolvidas", afirma Thomson.

Segundo a denúncia que motivou as buscas, as empresas participantes do esquema trocavam informações entre si com o objetivo de dividir clientes e fixar preços. A prática teria começado em 1999 e durado até 2009.

EXECUTIVO ESPECIALIZADO
A maioria das empresas que buscam um executivo atualmente precisa de engenheiros em seus quadros de funcionários, segundo pesquisa da Michael Page.

De mil vagas analisadas, 38% exigem a formação em alguma área de engenharia. Em seguida, aparecem administração e economia.

A procura por engenheiros reflete o início da retomada dos setores da construção e da indústria, segundo o presidente da consultoria no Brasil, Paulo Pontes.

As companhias também deixaram de considerar o curso de MBA como essencial e preferem, agora, pós-graduações específicas na área de atuação do executivo.

"As empresas atuam em ramos mais específicos hoje. Antes um MBA em gestão era suficiente, mas, há um ano, isso começou a mudar."

Encontrar o profissional especializado, no entanto, não tem sido fácil. "Muitas empresas bancam o curso de pós, porque não encontram alguém já qualificado."

TEMPERO AMERICANO
A Hemmer Alimentos vai fabricar produtos da americana Reckitt Benckiser em Blumenau (SC) a partir do próximo ano.

Inicialmente, será produzida a mostarda da marca French's, já distribuída no país pela catarinense.

"Ampliamos nossa planta em 3.000 metros quadrados neste ano, por isso já estamos preparados para fabricar o produto", diz Ericsson Luef, presidente da companhia.

O investimento na ampliação e em maquinário foi de cerca de R$ 3 milhões.

"Aproveitaremos os canais de distribuição da parceira, que já está presente em toda a América do Sul", completa.

A projeção de faturamento para este ano é de R$ 115 milhões, alta de mais de 35% em relação ao ano passado.

ENERGIA HÚNGARA
Uma fabricante de bebidas energéticas da Hungria está com projeto avançado para instalar uma fábrica em São Paulo, segundo informações da Fiesp.

Representantes da empresa estarão na entidade na próxima terça-feira, ao lado de outras 16 companhias húngaras e do secretário de Estado do Ministério da Economia do país, Kristóf Szatmáry, para uma rodada de negócios.

O fluxo comercial entre o Brasil e a Hungria foi de apenas US$ 417,3 milhões (aproximadamente R$ 850 milhões) no ano passado.

Em 2011, as importações brasileiras cresceram 22,85%. As exportações tiveram queda de 17,43%, segundo o Ministério do Desenvolvimento.

NATAL NOS EUA
O número de americanos propensos a gastar mais com as compras de Natal aumentou em relação ao ano passado, de acordo com levantamento da consultoria Ipsos.

Os homens planejam gastar mais do que as mulheres (17% a 9%, respectivamente).

Cerca de metade dos entrevistados (46%) disse que deve desembolsar a mesma quantia que no ano passado e 37% vão cortar as despesas.

O tempo gasto em busca de melhores preços para compras pela internet diminuiu em relação a 2011.

A pesquisa foi realizada com 1.001 adultos maiores de 18 anos nos Estados Unidos.

Como inovar A CNI fechou uma parceria com a Fundação Dom Cabral para realizar uma pesquisa sobre os métodos de inovação usados por 18 grandes empresas brasileiras. Os resultados estão previstos para setembro de 2013.

Beneficente O Itaú substitui o Bradesco no Teleton neste ano. A meta é superar a marca de R$ 25 milhões em doações para a AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente). O evento começa hoje e vai até domingo.

Obras... 
Um quarto dos brasileiros pretende fazer algum tipo de reforma até agosto de 2013 -16,8 milhões do total de 61 milhões de moradias-, segundo pesquisa nacional encomendada pelo Clube da Reforma ao Data Popular.

...para todos 
O gasto médio das obras será de R$ 4.445. Os homens têm expectativa de gastar R$ 3.603, enquanto as mulheres esperam gastos de R$ 5.250. Foram entrevistadas 3.969 pessoas.

Mais bacalhau 
O Pão de Açúcar vai importar para o Natal 2.500 toneladas de bacalhau, alta de 18% ante 2011.

IMAGEM BRASILEIRA
A presença do Brasil na mídia internacional diminuiu entre julho e setembro, ante o trimestre anterior, segundo pesquisa da Imagem Corporativa feita com base no monitoramento de 16 jornais e revistas estrangeiros.

A queda foi considerada normal, pois o país havia recebido ampla atenção em junho por causa da Rio+20.

O número de reportagens negativas sobre o país, porém, aumentou. Elas abordaram a falta de infraestrutura.

O espanhol "El País" resumiu a situação com o título "O Brasil não é para amadores", em reportagem alertando sobre os riscos para quem quer vir ao país na Copa.

1.217 foram as reportagens sobre o Brasil na mídia internacional no terceiro trimestre de 2012

1.450 haviam sido publicadas no trimestre anterior

16% foi o tamanho da queda

*28% das reportagens entre julho e setembro tinham teor negativo

*22% eram as matérias negativas sobre o país entre abril e junho

25% das citações eram sobre o Brasil como um player internacional

A conta do ajuste - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 09/11


Há dois grupos de crítica às políticas de ajuste aos desequilíbrios globais. Há os que criticam as políticas fiscais dolorosas demais. E há os que criticam as políticas monetárias expansionistas demais.

As duas análises são antagônicas, porque não há como fugir de um ajuste que cobre ou o seu preço fiscal ou o seu preço monetário - ou uma combinação de ambos.

O governo brasileiro, por exemplo, não sabe o que recomenda. Às vezes, tanto a presidente Dilma Rousseff como o ministro da Fazenda, Guido Mantega, condenam as políticas fiscais dos países avançados, por produzirem contração do sistema produtivo (queda do PIB), desemprego e diminuição de encomendas no mundo inteiro. Outras vezes, desaprovam as políticas monetárias desses mesmos países, considerando-as flácidas demais, feitas à custa de farta emissão de moeda que em seguida vazará para os mercados de câmbio dos países emergentes. É o que a presidente Dilma chama detsunami monetário e o ministro Mantega, de guerra cambial.

Não há como fugir desse dilema. Ou as autoridades enfrentam uma crise com terapêuticas fiscais (austeridade no manejo das contas públicas e derrubada das dívidas) ou com enormes emissões de moeda, que tanto têm a possibilidade de transbordar para os países emergentes e inundá-los, como podem se transformar em bomba de retardamento e inflação.

É verdade que uma opção seria o estímulo a investimentos (receita keynesiana). Mas, para isso, os governos teriam de ter acesso a capitais de baixo custo que não provocassem inflação. Desta vez, não dá para recorrer a um mecanismos desse tipo porque os capitais não existem ou não estão disponíveis. Ou, então, não são mobilizáveis, porque seus detentores não querem correr os riscos da recessão e da enorme volatilidade dos mercados.

Um jeito de superar o dilema seria prover novos arranjos nas despesas públicas. É exatamente o que entrou na grande agenda política do governo dos Estados Unidos que, agora, terão de renegociar um novo pacto na administração das contas públicas - que aterre o abismo fiscal que entrará em vigor em janeiro ou construa uma ponte sobre ele.

Essa necessidade de ajuste fiscal na Europa foi também um dos assuntos tratados pelo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, no seu pronunciamento de ontem, após a decisão que manteve os juros básicos em 0,75% ao ano. Ele reafirmou que uma resposta fiscal firme e crível seria fator importante na recuperação da confiança, portanto, de superação da crise.

Aqui no Brasil, o governo Dilma enfrenta novas contradições. Construiu seu mix de política econômica de maneira tal que uma sólida administração das contas públicas abrisse caminho para redução dos juros e para a desvalorização do real (alta do dólar), esta última para elevar a competitividade do setor produtivo. No entanto, ao longo deste ano, o governo federal roeu essa corda e os demais fundamentos perderam firmeza. O superávit primário (sobra de receita para pagamento da dívida) foi flexibilizado. O governo gastou muito mais do que deveria em proporção da arrecadação. E, por isso, a inflação ficou mais solta e o crescimento econômico será a decepção já anunciada.

Política, economia e energia - RODOLFO LANDIM

FOLHA DE SP - 09/11


Esta, apesar dos pesares, era mesmo uma eleição a ser vencida pelos democratas nos EUA


As eleições americanas terminaram e Obama foi eleito para mais quatro anos de governo. Ao analisarmos o conteúdo dos programas e as posições políticas em relação aos principais temas debatidos no período eleitoral, vemos que existiram muito mais convergências do que divergências na essência do que se propunha fazer. Mas algumas diferenças merecem ser ressaltadas.

De uma forma geral, como é normal na tradição dos candidatos do Partido Democrata, Obama mostrou-se mais comprometido com medidas que levarão a maiores gastos do governo na área social.

Já Romney pregava a necessidade de administrar o país como se fosse uma grande corporação, cortando despesas e reduzindo o papel do Estado como supridor de benefícios.

Entre outras medidas, defendia o maior controle do uso de dinheiro público em programas na área de saúde e corte de isenção fiscal para aquisição de casa própria pela população de baixa renda.

O fato é que em tempos de vacas magras esse tipo de discurso acabou amedrontando boa parte da classe média americana, a qual parece, a cada dia mais, pretender ter as garantias sociais dos países europeus.

Nos temas ligados ao setor de energia, os candidatos também apresentaram algumas visões distintas em razão das posições que tinham em relação à política externa ao aquecimento global. Romney defendia que reduzir emissões de carbono nos Estados Unidos significava apenas exportá-las para a China, onde a menor preocupação local com os impactos ao ambiente contribuiria para piorar o problema global.

Obama foi opositor à invasão do Iraque desde o início do envio de tropas americanas para aquela região, cujo equilíbrio político acaba sendo fundamental para a garantia de suprimento e estabilidade dos preços de petróleo no mundo.

Apesar de não ter cumprido integralmente a expectativa de retirada militar do Iraque no seu mandato, Obama moveu as tropas americanas para a fronteira com o Irã e para o Afeganistão.

Por sua vez, Romney defendia uma política de maior intervencionismo via manutenção de tropas no Iraque como forma de garantir a estabilidade democrática daquele país. Propunha o crescimento do orçamento militar americano, mesmo ele já sendo maior do que os gastos somados das dez maiores potências bélicas do mundo depois dos EUA, e deixava claro que, apesar de defender a ampliação de sanções econômicas ao Irã, uma intervenção militar não deveria ser descartada.

Romney também mostrou ser um grande defensor de um megaprojeto chamado Keystone Pipeline. Esse projeto envolve a interligação por dutos da região produtora de óleo pesado na província de Alberta, no Canadá, até o Estado de Oklahoma, onde fica localizado o maior parque de armazenamento de petróleo americano, e de lá até as refinarias do sul do país, situadas no golfo do México.

O projeto vem tendo sua implantação adiada devido a uma série de demandas ambientais e somente há pouco tempo recebeu do governo de Obama o licenciamento para a construção de uma pequena parte do sistema proposto.

Romney também foi contrário no passado à utilização de dinheiro público para ajudar a salvar a indústria automotiva americana, fato que acabou contribuindo para um revés político no Estado de Ohio, considerado decisivo para as suas pretensões presidenciais. No entanto, propunha criar um grande pacote de ajuda à pesquisa energética e novas tecnologias aplicáveis a automóveis.

A reeleição de um presidente, principalmente em um sistema em que existe um bipartidarismo de fato, como o americano, pode ser considerada quase como um plebiscito. É verdade que o desempenho econômico dos Estados Unidos nos últimos anos ficou longe das expectativas do "Yes, we can", slogan da vitória democrata ao final de 2008, quando os EUA e o mundo passaram por uma de suas maiores crises. Mas grande parte da sangria foi estancada, e o país voltou a crescer a taxas razoáveis.

Aquela era certamente uma eleição a ser perdida pelos republicanos como foi, e esta, apesar dos pesares, era mesmo uma eleição a ser vencida pelos democratas.

Ideologia é a causa da crise dos royalties - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 09/11


Se estatistas de Palácio não vissem no pré-sal brecha para restabelecer parte do monopólio da Petrobras, pacto federativo não seria agredido no Congresso


Com o aumento da produção prevista para os próximos anos, estima-se que o conjunto da atividade do petróleo, considerando- se também a cadeia de fornecedores e serviços, corresponderá a 20% do PIB do país até o fim da década. Boa parte desse impulso se deve à quebra do ultrapassado monopólio estatal, com uma nova lei que beneficiou especialmente a Petrobras, por livrá-la de uma série de amarras que a burocratizavam e limitavam sua atuação. Em novo ambiente competitivo, a empresa fez parcerias e foi forçada pelo mercado a se tornar mais transparente, ainda que em um grau insuficiente para o ambiente de governança exigido de companhias com acionistas minoritários.

Mas, no segundo mandato do governo Lula, o país regrediu na abertura do mercado de petróleo. A ingerência política sobre a Petrobras afetou seu desempenho operacional e financeiro (evidenciado pela queda de rentabilidade e estagnação na produção de óleo bruto). A pretexto de combate à inflação, o governo adotou uma política de preços para os derivados que ignorou o mercado, o que não só comprometeu a receita da estatal como desequilibrou o consumo de alguns derivados, tornando o etanol, por exemplo, não competitivo para os produtores. Essa política foi apenas corrigida em parte no governo Dilma, mas o eixo principal, de ignorar o mercado, prevalece. Assim, o Brasil hoje importa um volume de gasolina nunca visto, sem possibilidade de alteração desse quadro antes de 2016. As distorções não se limitaram à ingerência política na Petrobras e à interferência demagógica sobre os preços, mas estenderam-se à antes bem-sucedida trajetória de atração de investimentos para o setor.

Com as descobertas na camada do pré-sal o governo resolveu mudar, desnecessariamente, movido apenas a ideologia, as regras para exploração e produção em futuros blocos nessas áreas. E o pior, paralisou as rodadas de licitação. Há vários anos elas não são realizadas, entre outras razões devido a incertezas que surgiram a partir da disputa política que passou a ser travada em torno da receita de royalties, cujo estopim foram exatamente as mudanças de regras para o pré-sal estabelecidas pelo governo federal.

O Congresso acabou chutando para o alto o pacto federativo, deixando estados e municípios do Rio de Janeiro e do Espírito Santo em situação inaceitável de constrangimento financeiro, o que exigirá uma atitude do governo federal ou mesmo um pronunciamento do Supremo Tribunal Federal (STF). Nada teria acontecido se os estatistas de Palácio não aproveitassem o pré-sal para empurrar um projeto de resgate de parte do monopólio da Petrobras, inclusive convertendo-a numa autarquia de fomento de substituição de importações, com todos os custos inerentes a este tipo de política.

Não se pode pôr a perder a oportunidade que representa o setor de petróleo e gás devido a essa coletânea de equívocos com origem em motivação ideológica jurássica sobre o papel do Estado.

Por que sumimos da campanha americana? - MARCELO COUTINHO

FOLHA DE SP - 09/11


Nosso poder militar não assusta nem Honduras. A influência do Brasil viria da legitimidade das suas bandeiras. Mas em épocas nervosas ninguém liga para isso


Acabou a eleição norte-americana para presidente. O Brasil não apareceu em nenhum momento da campanha. Obama nem Romney se lembraram do nosso país. Ficamos invisíveis ou o que foi que aconteceu?

Poucos anos atrás, éramos tratados como uma das grandes estrelas em ascensão. Na disputa de 2008, os candidatos democrata e republicano citaram o Brasil em mais de uma oportunidade, inclusive no debate sobre política externa. Agora nada, nem uma palavrinha, mesmo quando tantos brasileiros correm para fazer compras em Nova York.

Não é de todo ruim desaparecer das preocupações de Washington. Afinal, eles costumam prestar mais atenção a quem dá sérios problemas, como o Irã. Não é o nosso caso.

Os políticos americanos certamente não mudaram muito em relação à América Latina. Fora do radar, continuam sem saber o que fazer com ela. Mas com a Europa indo a pique e a Ásia crescendo, os olhares se voltaram para o Pacífico. Por isso, é natural que o futuro presidente dos EUA se interesse mais pela China do que pelo vizinho do Atlântico Sul. Mas o silêncio absoluto quanto ao Brasil parece um megafone de significados. O Brasil mudou para pior desde as últimas eleições nos EUA.

O governo brasileiro há anos incorre em uma "misperception", uma interpretação completamente equivocada da realidade. Ele acreditou em um conto de fadas, superestimando suas próprias capacidades internacionais.

Mais uma vez, como viemos fazendo desde o fim da Primeira Guerra, o Brasil teve certeza de que a cadeira fixa no Conselho de Segurança da ONU era sua, de que era o pivô da solução para conflitos históricos no Oriente Médio e que progredia "pari passu" às potências orientais.

A realidade se mostrou bem diferente disso tudo.

Nem sequer a elite paraguaia levou o Brasil em consideração antes de destituir Fernando Lugo. E Brasília sequer tomou parte da mediação definitiva no conflito colombiano, a última guerra da América do Sul, o que foge de todas as nossas melhores tradições diplomáticas desde Rio Branco. Um espanto.

Alguns poderiam argumentar que seriam os EUA que não fazem uma leitura correta e negligenciam o Brasil. Isso pode ter uma parte de verdade, mas não explica porque vizinhos sul-americanos não nos priorizam nem porque os investimentos e o crescimento econômico brasileiro viraram fumaça. Tampouco explica porque não alcançamos nossos objetivos de política externa.

As nossas estruturas militares não assustaram nem a pequena Honduras no episódio da embaixada. O risco de o porta-aviões São Paulo quebrar antes de alcançar o mar do Caribe seria um risco que não suportaríamos.

Somos a sétima economia do mundo, mas isso pode muitas vezes se resumir a uma conta cambial sem maiores impactos sobre a ordem internacional.

Uma questão importante é saber o quão distantes estamos das grandes potências EUA e China, e quais as chances que temos de influenciar o comportamento de outros de modo a atender os nossos interesses. Alguns caças a mais apenas nos equipararão ao Chile, e qualquer coisa que pareça cara de mais destoaria da precariedade das nossas escolas e hospitais.

Ainda não nos conscientizamos que a força do Brasil não está no mundo realista, medido pelo alcance das armas. Nossa força será tão maior quanto mais próximo o mundo estiver de uma verdadeira sociedade global, pois assim a influência é dada pela legitimidade do que dissemos e queremos, e não pelo que amedrontamos.

A projeção brasileira no mundo sempre esteve menos associada à ideia de projétil do que à de "soft power", de poder das ideias, cultural, dos valores. O problema é que esse poder suave, definido pelo cientista político americano Joseph Nye, não funciona em tempos de escassez e beligerância iminente como os de agora. Daí a indiferença das eleições americanas em relação a nós.

De um novo eldorado, fomos distinguidos agora pelo dom da invisibilidade. Inventaram um gigante sem altura, uma potência sem poder.

Os 'barracos' no STF - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE SÃO PAULO - 09/11


Na véspera da retomada do julgamento do mensalão, na quarta-feira, o relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, participava de um congresso de juristas, em Aracaju, quando foi perguntado sobre a sua popularidade, traduzida em cumprimentos, fotos e pedidos de autógrafos, por onde quer que passe. "Há uma identificação cada vez maior da população com as questões jurídico-institucionais tratadas pelo Supremo", comentou. "Esse julgamento trouxe o tribunal para dentro das famílias, e o que vem acontecendo no plano pessoal é consequência disso." A elegância e a modéstia destas suas palavras, no entanto, são tudo que lhe tem faltado no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), que completou ontem 44 sessões, enredado na questão dos critérios para a fixação das penas dos réus condenados por uma variedade de delitos.

As divergências a respeito estimularam Barbosa a reincidir no comportamento que vem caracterizando a sua participação no exame da mais importante ação penal da história da Casa. Desde as primeiras manifestações de inconformismo com o parecer do revisor da matéria, ministro Ricardo Lewandowski, a sua atuação destoa do que se espera de um membro da mais alta Corte de Justiça do País, ainda mais quando os seus trabalhos podem ser acompanhados ao vivo por todos quantos por eles se interessem. Em vez da serenidade - que de modo algum exclui a defesa viva e robusta de posições, bem assim a contestação até exuberante dos argumentos contrários -, o ministro como que se esmera em levar "para dentro das famílias" um espetáculo de nervos à flor da pele, intolerância e desqualificação dos colegas.

Um integrante do STF não pode reagir com um sorriso depreciativo à exposição de um ponto de vista de um de seus pares, por discrepar de suas convicções sobre a questão da hora. Foi o que se passou anteontem quando o ministro Marco Aurélio Mello defendia uma interpretação antagônica à do relator - e mais benigna para os réus - sobre crimes e penas. O desdém estampado na face do relator fez o colega adverti-lo: "Não sorria porque a coisa é muito séria. Estamos no Supremo. O deboche não cabe aqui". Barbosa retrucou dizendo saber aonde o outro queria chegar, para ouvir em seguida: "Não admito que Vossa Excelência suponha que todos aqui sejam salafrários e só Vossa Excelência seja uma vestal". Decerto ele não supõe nada parecido com isso, mas é a impressão que transmite, principalmente para aquela parcela do público que assiste pela primeira vez a um julgamento no Supremo.

Seria deplorável se também isso estivesse na raiz da súbita notoriedade de Barbosa - para a qual hão de ter contribuído a sua condição de negro e o seu manifesto desconforto físico provocado por um crônico problema na coluna. O relator merece aplausos, isso sim, pelo desassombro, coerência e conhecimento de causa com que evidenciou os delitos cometidos pela quadrilha do mensalão, entre eles o "sujeito oculto" do esquema corruptor armado em favor do governo Lula, o seu então braço direito José Dirceu. É de louvar igualmente a sua clareza ao apontar a gravidade incomum dos crimes praticados - por serem o que eram os réus e pelo efeito corrosivo de seus atos para as instituições políticas e a ordem democrática nacional. Mas ele deveria ser o último a dar azo a que os brasileiros confundam rigor com desrespeito pela opinião alheia. Nenhum juiz pode insinuar, como fez, que um colega se equipara aos advogados de defesa dos mensaleiros.

O estilo, digamos assim, do relator deve preocupar por outra razão ainda. A partir do próximo dia 18, quando o presidente do STF, Carlos Ayres Britto, deixar o cargo e a Corte por ter completado 70 anos, Barbosa o substituirá por um biênio. E de forma alguma é descabido perguntar se ele sabe que terá de domar o seu temperamento para conduzir o tribunal com a paciência e o comedimento demonstrados por Ayres Britto - duramente testados, aliás, nos "barracos" que teve de acalmar no curso deste julgamento. O presidente do tribunal incumbido de dar a última palavra também em demandas que envolvem a conduta alheia deve ser o primeiro a vigiar o próprio comportamento.

Fora da caixa - ROMERO RODRIGUES

O GLOBO - 09/11

Pode parecer uma ideia um tanto audaciosa, mas é possível aprender os caminhos de como empreender desde cedo, muito cedo. E o resultado pode ser uma história de sucesso como a do americano Robert Nay, de 14 anos, que conseguiu desbancar o jogo Angry Birds do topo da lista de mais baixados da App Store, da Apple, ao criar, sozinho, no seu quarto, um game chamado Bubble Ball. A Nay Games, empresa que criou, teve como único investimento um computador, comprado pelos pais do garoto. Já o Angry Birds teve 17 engenheiros formados trabalhando em sua elaboração.

Educar para a vida deveria levar muito em conta a necessidade de ensinar a empreender. O mercado de trabalho, aqui e na maioria dos países do mundo, tem uma limitação séria: não é capaz de absorver toda a população economicamente ativa, isto é, todas as pessoas em idade para trabalhar.

As razões para este fenômeno são simples: com os avanços na área da saúde, foi possível nas últimas décadas prolongar bastante não apenas a expectativa de vida, mas também a "vida útil" de milhões de pessoas. Assim, hoje é comum que homens e mulheres com mais de 60, 65 anos, permaneçam no mercado, retardando a necessidade de replacement de muitos postos de trabalho. Ao mesmo tempo, as economias de muitos países vêm se desenvolvendo em um ritmo menor ou similar ao crescimento populacional. Na soma dos fatores, faltam vagas para os mais jovens.

Se não há vagas para todos, nada melhor a fazer senão estimular o empreendedorismo. Criar e gerenciar um negócio pode parecer, à primeira vista, um grande enigma, uma tarefa destinada a quem já nasceu predestinado, com talento especial e faro empresarial. Nada mais falso, no entanto. É possível aprender a empreender. E dá para fazer isto desde cedo, muito cedo.

Para tanto, porém, é preciso não apenas o desejo de ensinar, mas a presença de professores qualificados. Não é preciso reinventar a roda, vale a pena estudar alguns modelos existentes no mundo, como o projeto All Terrain Brain, da Kauffman Foundation, concebido para levar as crianças a pensar "fora da caixa" e estimular o seu espírito empreendedor. Com 25 vídeos, um site interativo e um guia de atividades pronto para ser baixado na internet, o projeto tenta levar as crianças a descobrem que têm o poder de fazerem o que quiser na vida, inclusive empreender.

A partir de brincadeiras e muita interatividade, o All Terrain Brain inspira as crianças a descobrir paixões, a pensar criativamente, assumir responsabilidades, abraçar a mudança, perseverar, definir metas, resolver problemas e correr atrás de um grande sonho. E o que é empreendedorismo senão a soma de todos esses fatores?

É preciso trazer para as nossas escolas iniciativas criativas que possam contribuir com a modernização da educação no Brasil. Educar para a vida é oferecer as melhores condições para que todos desenvolvam suas aptidões e possam buscar suas melhores oportunidades na vida adulta. É apostar na possibilidade de muitos "Robert Nays" também aqui no Brasil.

É preciso trazer para as nossas escolas iniciativas criativas

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Puro populismo jurídico e séria violação aos direitos dos réus”
José Dirceu, cuja “fuga iminente” foi especulada, sobre a entrega dos passaportes


PIZZOLATO PODE VIRAR UM ‘BATTISTI’ DO MENSALÃO
Condenado por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro no processo do mensalão, o ex-diretor de marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato poderá criar uma encrenca internacional se tiver que entregar seus passaportes italiano e brasileiro, como determinou o Supremo Tribunal Federal. A Convenção de Haia impede a retenção de passaporte de cidadão com dupla cidadania, informa o Itamaraty. O STF discorda: só se o réu Pizzolato estivesse em território italiano.

VOLARE
Especialista em direito internacional, Giacomo Guarnera diz que só ordem restritiva da procuradoria poderá impedir Pizzolato de viajar.

CIDADÃO ITALIANO
Impedido, Pizzolato poderia recorrer à Embaixada italiana, abrindo espaço para longa discussão “à la Battisti” entre os dois países.

INCÓGNITA
Notificado, Pizzolato terá 24h para entregar os dois passaportes. O advogado dele não foi encontrado para dizer o que seu cliente decidiu.

PORTO SEGURO
O ex-diretor de marketing do BB foi à Itália em julho e “tecnicamente” poderia voltar e ficar. Salvatore Cacciola foi preso ao sair da Itália.

LOUCO POR MINISTÉRIO, PSD DEVE APOIAR HENRIQUE
Uma vez oficializado o apoio da presidente Dilma Rousseff ao líder do PMDB, Henrique Alves (RN), na disputa pela Presidência da Câmara, o PSD deverá esquecer a própria ameaça de apoiar a candidatura de Júlio Delgado (PSB-MG). O partido de Gilberto Kassab está louco para faturar algum ministério na reforma prometida pela presidente em 2013 e, por ora, não correrá o risco de contrariar a orientação do governo.

PAUTA É OUTRA
O líder do PSD na Câmara, Guilherme Campos, nega acordo por um ministério, jurando que a prioridade é o espaço do partido na Casa.

MANGAS DE FORA
O governador pernambucano e presidenciável Eduardo Campos (PSB) já fala abertamente contra a política federativa do governo Dilma.

PÓS-MENSALÃO
Absolvido no processo do mensalão, o ex-líder do PT Paulo Rocha já se prepara para disputar o governo do Pará, em 2014.

NA MORAL
Além de Henrique Pizzolato, outros 22 condenados do mensalão devem entregar o passaporte. O advogado Luiz Francisco Barbosa diz que seu cliente Roberto Jefferson o fará antes de ser notificado.

ENCARANDO AS FERAS
O chanceler Antônio Patriota, que sempre tratou com enfado e irritação os políticos, está frito: terá de implorar a aprovação em prazo recorde, no Congresso, de nova escala de salários para diplomatas e servidores no exterior. O Tribunal de Contas da União acha ilegal a correção cambial para os salários.

LEI PIAUHYLINO
Hoje, à frente de uma das mais prestigiadas bancas de advocacias do País, o ex-deputado Luiz Piauhylino (PE) foi muito cumprimentado pela aprovação do seu projeto, datado de 1999, punindo crimes na internet.

CONTE ATÉ DEZ, STF
O presidente da OAB, Ophir Cavalcante, foi cercado por autoridades, em uma rodinha, no lançamento da campanha “Conte até dez” contra a violência, para pilheriar que deveria ser acrescentada a sigla STF.

TABULEIRO
Com o crescimento do PSB após as eleições, o governador cearense Cid Gomes defende o PSB na vice de Dilma, em 2014: “Além de não ser um lugar cativo do PMDB, nosso partido é mais orgânico”.

DEMISSÃO DEFINIDA
Está concluída no DF, com parecer pela demissão a bem do serviço público, a investigação de dois agentes da Polícia Civil flagrados grampeando ilegalmente o telefone da procuradora Claudia Fernanda, do Tribunal de Contas, em 2006, durante o governo de Joaquim Roriz.

FIM DO MUNDO
Jornalistas, boêmios e políticos organizam em Brasília o “almoço do fim do mundo” no restaurante Stella Grill, no Setor Comercial Sul, em 21 de dezembro, claro. Só para tripudiar sobre as profecias de Nostradamus.

DE MULHER PRA MULHER
Coordenadora da bancada feminina, a deputada Janete Pietá (PT-SP) vai pedir à ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) a liberação de emendas para áreas relacionadas a questões de gênero em 2013.

PERGUNTA EM ALTO-MAR
Será que sem os royalties do petróleo o governador Sérgio Cabral (PMBD) também vai perder os guardanapos franceses da Copa?


PODER SEM PUDOR

CARCEREIRO GENTIL
Preso em 1964, Francisco Julião, das Ligas Camponesas, foi metido num cubículo da 2ª Companhia de Guardas, no Recife. Ele não passava bem e um oficial do Exército chamou um médico, que prescreveu apenas alimentação decente. Gentil, todos os dias o militar "contrabandeava" um litro de leite para Julião. E ainda lhe fez uma surpresa: levou-o para o banho, certo dia, para um inesperado encontro com outro preso político, Paulo Freire. Trocaram abraço, palavras, força. O oficial, o alagoano Carlito Lima, relata história em seu livro Confissões de um capitão (Garamond, Rio), prefaciado pelo ex-líder estudantil Vladimir Palmeira.

SEXTA NOS JORNAIS


Globo: Fronteiras fechadas – PF alerta aeroportos para evitar fuga de mensaleiros
Folha: Líder chinês afirma que corrupção ameaça país
Estadão: Republicanos admitem ceder por pacto fiscal nos EUA
Correio: Plano de saúde de servidor agoniza
Valor: Benefício de acordo salarial terá renovação automática
Estado de Minas: Natal engarrafado
Zero Hora: Aeroportos em alerta para evitar fuga de condenados do mensalão
Leia os destaques de capa de alguns dos principais jornais do país.

quinta-feira, novembro 08, 2012

E se ele não tem grana? - IVAN MARTINS

REVISTA ÉPOCA


Por que muitas mulheres ainda hesitam em se juntar a homens sem dinheiro



Ponha-se no lugar da moça que eu conheço. Ela tem trinta e oito anos, gostaria de casar e ter filhos, mas o homem por quem está apaixonada não tem onde cair morto. É um sujeito culto, inteligente, idealista, sem a menor vocação para ganhar dinheiro. Mora num apartamento minúsculo e parece feliz em andar de ônibus e comer fora em lugares baratos, apesar de estar chegando aos 40 anos. A minha amiga não.

O pai dela foi um provedor dedicado e um marido amoroso, que criou as filhas com desvelo, para viver e casar bem. Ela admite que, no fundo, gostaria de encontrar um homem prático e bem sucedido como o pai para começar sua própria família, mas, ao mesmo tempo, sente que ama o professor de olhos tristes. Se eles vierem a casar, está claro que viverão do salário dela, que é bom. Ela hesita. Diante da possibilidade de se tornar a provedora da casa, a primeira na história da sua família, ela morre de medo. Não era bem assim que começava a história do Príncipe Encantado.

Eu imagino que nos próximos anos um número cada vez maior de mulheres vá enfrentar o mesmo dilema.

Elas trabalham duro, acabam ganhando bem e, lá adiante, quando a vida permite uma pausa para pensar em família & casamento, descobrem que nem sempre as circunstâncias a colocam diante de caras com a mesma história de sucesso econômico. O passo lógico seria abraçar a situação como ela se apresenta, fazer o que os homens fizeram por séculos, e ainda fazem, com absoluta naturalidade – tomar pra si a responsabilidade econômica pela pessoa que ama e pela família que vier a resultar dessa união.

Lembro de ter lido, tempos atrás, uma entrevista com jovens executivas que ilustra de forma extrema essa atitude. Todas elas, diante da pergunta sobre a possibilidade de se juntar a um homem com menos dinheiro, negaceavam. Uma delas dizia, com todas as letras, que não aceitaria um sujeito que houvesse conseguido menos do que ela na vida. A única medida de sucesso que ela parecia perceber era dinheiro, patrimônio, renda. Se o sujeito tivesse acumulado uma cultura imensa, se carregasse uma história de vida extraordinária, se fosse feliz, intenso, engraçado, brilhante ou sensual, nada disso parecia contar. Fiquei com a impressão de que a jovem executiva cogitava para si mesma uma fusão comercial, não uma parceria afetiva. Talvez antes de envolver-se com alguém ela requisitasse os serviços de uma empresa de consultoria... Mas, nessa hora, algo emperra na cabeça de algumas mulheres, como emperrou na cabeça da minha amiga. A inversão de papéis não lhes parece natural, e muito menos promissora. Elas puxam o freio de mão, ou pulam fora do relacionamento. Preferem o risco de ficar sozinhas a converter-se, voluntariamente, na cabeça econômica de um casal.

Ao me perguntar o que há por trás dessa atitude, eu percebo algumas coisas, nem todas elas frívolas.

Segurança econômica talvez seja a principal. Quem já passou necessidade sabe que a constante falta de grana pode provocar situações terríveis no interior dos casais e das famílias. Dinheiro traz conforto, tranquilidade, a possibilidade de fazer coisas gostosas e oferecer aos filhos horizontes que os pais muitas vezes não tiveram. Por isso tudo, é bom ter em casa alguém com capacidade e disposição para ganhar dinheiro - mas por que essa pessoa precisa, necessariamente, ser o homem?

Ao contrário do que previam alguns evolucionistas, a realidade tem demonstrando que as mulheres são perfeitamente capazes de prover o sustento da família. Segundo o IBGE apurou no censo de 2010, no Brasil 37% das casas brasileiras são mantidas exclusivamente por mulheres – e, naquelas em que vive um casal, em 46% dos casos são elas que ganham mais. Está claro, portanto, que as mulheres podem perfeitamente assumir a posição de mantenedoras principais. A de parceiras e co-responsáveis pelas despesas da casa elas assumiram faz tempo, junto com todas as tarefas domésticas que ainda sobram para elas.

Minha amiga, aquela do começo desta coluna, sabe que é capaz de ganhar dinheiro pelos dois, mas teme que o homem de quem ela gosta não seja bom marido ou bom exemplo como pai. O pai dela, afinal, era protetor, cuidava de tudo, criou em torno dela, das irmãs e da mãe uma rede de conforto e segurança econômica que o homem que ela ama, claramente, não é capaz de prover. Eu entendo o que ela sente, mas acho que talvez esteja confundindo coisas. Talvez esteja misturando a capacidade de oferecer conforto material com a capacidade de aglutinar uma família feliz.

O homem que não sabe ganhar dinheiro, mas tem seu trabalho e seus valores, pode ser o melhor marido e o melhor pai do mundo, assim como, através dos séculos, muitas da melhores mães e companheiras do mundo nunca ganharam um tostão furado. Um homem sem dinheiro pode ser amoroso, generoso, gentil com as pessoas e cuidadoso com as coisas. Pode ser ativo, espirituoso, cheio de vida, capaz de boas atitudes e bons sentimentos. Se não for vagabundo ou ressentido, pode ser um ótimo exemplo para os filhos – exemplo de que o dinheiro e o sucesso material não são a coisa mais importante da vida, exemplo de que há outros valores além dos que o dinheiro é capaz de comprar.

Talvez não haja muitas mulheres dispostas a bancar um homem desses, porém. A maioria talvez prefira a relação com um tipo convencional, com mais jeito de provedor. Esse negócio de ser o chefe econômico da casa, afinal, não é moleza. O estresse que vem com a posição é enorme, dura décadas, e no final rouba uns 10 anos de vida de quem o abraça. É um preço que os homens vêm pagando há muitas gerações. Eles escolhem a mulher com base apenas nos seus sentimentos e desejos, sabendo que terão de trabalhar duro, provavelmente pelo resto da vida, para cuidar da família que fizerem com ela. Não é uma opção fácil, como a minha amiga está percebendo, mas tem suas gratificações. Exige coragem, porém. No caso das mulheres, a coragem adicional de desafiar convenções e de romper com os preceitos da própria cabeça.