terça-feira, novembro 06, 2012

Dos Estados Unidos à Europa - JOÃO PEREIRA COUTINHO

FOLHA DE SP - 06/11


O julgamento sobre Obama, quatro anos depois, não pode ser brando ou entusiasmante



1. OS AMERICANOS vão hoje às urnas. Não sou vidente. Não vou cansar o leitor com análises detalhadas sobre os "swing states", os votos colegiais, as últimas pesquisas. Tudo é possível.

Mas, dentro do possível, confesso que gostaria muito que Mitt Romney ganhasse. Eu sei, heresia: lemos a imprensa "liberal" (no sentido americano da palavra, ou seja, esquerdista) e Romney é apresentado como um fanático que acredita em extraterrestres. Pior: um fanático que pretende entregar os Estados Unidos à plutocracia doméstica, de que ele faz parte.

Barack Obama, pelo contrário, é a personificação da bondade e do realismo. Mesmo Guantánamo, que continua a funcionar, tem outro sabor com Obama: no tempo de Bush, a prisão era o inferno terreno e a prova da malignidade republicana. Com Obama, Guantánamo é um jardim de infância.

Sejamos sérios: o julgamento sobre Obama, quatro anos depois, não pode ser brando ou entusiasmante. Fato: em 2008, Obama recebeu de herança uma nação quebrada. Novo fato: em 2008, Obama dispunha de condições incomparáveis -aprovação popular em níveis estratosféricos, Congresso favorável etc.- para fazer mais e melhor.

Não fez. Um crescimento econômico que se arrasta penosamente nos 2% é tímido, para usar um eufemismo. O desemprego perto dos 8% seria o suficiente para que ele perdesse a reeleição. E a República, agravando o desvario iniciado por George W. Bush, continua dramaticamente endividada -e a endividar-se.

Como escreveu certeiramente Tim Stanley, no "Daily Telegraph", o problema de Obama não é ser o anti-Bush. É, ironia das ironias, repetir os erros de Bush ao permitir um Estado sem controle na despesa e disposto a infiltrar-se na vida comum do cidadão comum.

É por isso que a eleição de hoje não é apenas mais uma eleição na história da América. É, como afirma Romney e sobretudo o seu candidato a vice, Paul Ryan, uma espécie de plebiscito sobre o tipo de sociedade que a América pretende ser no século 21.

Para Obama, o ideal seria que a América se aproximasse da Europa e do modelo de bem-estar social.

Infelizmente, alguém deveria explicar ao presidente Obama que a crise corrente que ameaça destroçar a União Europeia está diretamente relacionada com a insustentabilidade desse modelo social.

Cuidado, América: para Europa, já basta a que temos.

2. E por falar em Europa: leio no "Times Literary Supplement" uma passagem notável das memórias de Madame de Staël.

Conto rápido: já depois da Revolução de 1789, o ministro de guerra Louis de Narbonne-Lara discursava na Assembleia Legislativa.

A páginas tantas, o infeliz ministro introduziu no discurso a expressão "apelo aos mais distintos membros desta Assembleia". Foi a revolta geral, com os jacobinos a relembrarem ao ministro que, naquela Assembleia, todos os membros eram igualmente distintos.

A história é interessante para conhecermos a cabeça do fanatismo igualitário em ação. Mas mais interessante é a observação de Madame de Staël: "para os jacobinos", escreve ela, "a aristocracia de talento era tão repugnante como a aristocracia de berço".

Relembro esta história, hoje, ao saber que na mesma França da Bastilha o presidente François Hollande pretende banir do sistema educativo os deveres de casa.

Corrijo: Hollande não quer banir os deveres. Pretende apenas que eles sejam integralmente realizados na escola, não em casa. Isso permitirá que as diferenças socioeconômicas das famílias não tenham qualquer interferência no respectivo mérito escolar dos filhos. Todos iguais, todos na escola.

Claro que, para sermos perversos, poderíamos perguntar ao senhor presidente o que tenciona ele fazer se alguns alunos, em manifesto desrespeito igualitário, violarem a medida. Como?

Estudando na escola e, depois, estudando um pouco mais em casa, ou nos cafés, ou nas bibliotecas. Será permitida essa busca da excelência extracurricular?

Ou o Estado francês, em nome da igualdade, também pretende instalar um policial em cada casa, café ou biblioteca, disposto a vigiar e punir o mais leve sintoma de curiosidade intelectual?

Esperemos pelas cenas dos próximos capítulos.

Paciente zero - SONIA RACY

O ESTADÃO - 06/11


A depender de informação que chegou a Brasília, o primeiro detento a ser transferido para um presídio federal será Piauí – Antonio Cesário da Silva, um dos principais traficantes da favela de Paraisópolis. Ele hoje cumpre pena na penitenciária de Pacaembu, interior de São Paulo. Preso em agosto deste ano sob a acusação de tráfico de drogas, é suspeito de mandar matar policiais militares na zona sul de São Paulo.

Paciente 2
A decisão deve ser sacramentada em reunião entre José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, Antônio Ferreira Pinto, secretário de segurança paulista, e Lourival Gomes, da secretaria de administração penitenciária do Estado.
Pelo que se apurou em São Paulo junto a fontes da secretaria de administração penitenciária – que não confirmam a escolha de Piauí–, a ideia é transferir presos cuja culpabilidade possa ser comprovada. Afinal, a Justiça tem de autorizar o deslocamento de um preso para outra unidade e só o fará ante fatos claros em relação a ordens para eliminar integrantes da PM.

Luzes
Elena Landau, especialista na área de energia e advogada, critica fortemente a dose do “remédio” receitado na Medida Provisória do setor elétrico. Entre outras, acredita que Dilma está dando um tiro no próprio pé: “Não há como a Eletrobrás sobreviver com esta MP”.

Luzes 2
No Planalto, porém, há certeza de que o governo federal está trilhando o caminho certo. A redução de tarifa é inegociável, bem como a nova fórmula para concessão. O que se aceita debater são os valores calculados para indenização, “conforme previsto desde a edição da MP”, esclarece fonte próxima a Dilma.

Luzes 3
Circula, em Brasília, o motivo pelo qual a Cemig bate tanto contra a MP do setor elétrico.
Ao comprar parte da Cemig, a Andrade Gutierrez atrelou o preço pago à forma como se daria a renovação da concessão.

Bem na fita
Foi depois de uma conversa com Marianne Pinotti que Haddad passou a dar ênfase ao discurso de que vê a mulher “muito além” da gestante.Conquistou o petista.

Pela ordem
Ivan Sartori, do TJ de São Paulo, atesta ser “impossível” administrar a corte no ano que vem com orçamento de R$ 7,5 bilhões. Verba 20% menor que os R$ 9,5 bilhões pedidos para zerar o estoque de 1,5 milhão de processos federais que ajudam a entupir o tribunal. “Tenho outra Justiça Federal aqui dentro, a União tem de pagar”, reclama.

Direto do Pará
Wagner Moura raspou parte de seu cabelo para viver o ambicioso capitalista Lindo Rico, no filme Serra Pelada, de Heitor Dhalia. E Matheus Nachtergaele é o mais novo confirmado no elenco do longa.

American dream
Além de Sarah Jessica Parker, Barack Obama ganhou apoio de outra atriz de Sex And the City, Cynthia Nixon. A intérprete de Miranda saiu a favor do democrata, com a bandeira do casamento homossexual.

Meno male
Interlocutores do ministro da Educação confessaram ontem. Maior que o medo de fraude, no fim de semana do Enem, foi o temor de... apagão em larga escala. Ficaram aliviados com os problemas pontuais em Rio Branco e outros menores pelo País.

Mais fiscalização e ‘portas de saída’ - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 06/11


A rede de programas sociais, por onde hoje transitam bilhões a cada ano, teve as bases lançadas na Era FH, mas foi bastante ampliada a partir do primeiro governo Lula. Cumpre papel importante na atenuação da pobreza, mas padece de duas sérias dificuldades: pelo tamanho que alcançou, e provavelmente por interesses políticos paroquiais, não é fiscalizada como deveria; e ainda precisa estar atrelada a um sistema eficiente de qualificação de mão de obra, as chamadas “portas de saída”, para que o beneficiário possa se livrar da tutela estatal e melhorar de padrão de vida como força de trabalho ativa.

Reportagens publicadas pelo GLOBO a partir de domingo, feitas em cidades do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, regiões mais dependentes desta rede assistencial, comprovam a existência de desvios e a situação de penúria e de falta de perspectiva de famílias em grotões do país. Não que inexistam auditorias e investigações sobre fraudes. Mas o volume de recursos destinados a estes programas já é tão grande que os casos de desvios detectados levam a se supor, sem grande margem de erro, que as fraudes são maiores que as projetadas pelos organismos oficiais.

No Bolsa Família, o Ministério de Desenvolvimento Social calcula em menos de 0,5% das 13,46 milhões de famílias atendidas os casos de desvios. Pode ser, mas este é um número que, para ser confiável, deveria passar por uma auditoria independente. E como este programa já chega a mobilizar R$ 20 bilhões anuais, mesmo que haja mazelas em número proporcionalmente pequeno as cifras envolvidas não serão pequenas.

O Bolsa Família e outros subprogramas têm o sistema de cadastramento descentralizado, sob responsabilidade de municípios e estados. Mas o ganho em agilidade, pela descentralização, vira prejuízo para o contribuinte, por não haver fiscalização e punição proporcionais à multiplicidade de chances de desfalque do dinheiro público.

Há histórias emblemáticas. Numa delas, registrada na Justiça Federal do Mato Grosso do Sul, o ex-coordenador do BF na cidade de Antônio João é réu num processo por ter inscrito no programa o gato de estimação Billy.

Menos folclórico, mas nem por isso menos pernicioso, é o caso de um dono de empresa de eventos em Guarabira, interior da Paraíba, acusado de usar como laranjas pessoas de baixa renda para embolsar o benefício social. Um dos testas de ferro do empresário tem em seu nome sete veículos, entre eles um Land Rover.

Já passou da hora de o governo rejeitar qualquer crítica aos programas sociais, como se partisse de perversos interessados em perpetuar os desníveis de renda e qualidade de vida. É de interesse geral, da sociedade, que os gastos no combate à pobreza e miséria gerem mesmo resultados para que esta despesa não seja mais necessária em futuro não muito distante.

Leia mais sobre esse assunto em

Sustos encomendados - ILAN GOLDFAJN


O Estado de S.Paulo - 06/11


O fim de ano pode ser próspero... em sustos. Após vários meses de alívio, a aparente calma na economia global será testada. Depois das eleições americanas de hoje, estaremos caminhando nos EUA para o abismo fiscal e o teto da dívida, a menos que haja um acordo rápido entre democratas e republicanos (não parece). Na Europa, dúvidas sobre o fim do euro podem voltar se a Espanha continuar evitando pedir auxílio, impedindo o Banco Central Europeu (BCE) de intervir comprando os títulos "tóxicos" soberanos, ou se a Grécia não conseguir renovar o seu programa de ajuste.

A saga continua na economia mundial. Desde a crise de 2007/8, a necessidade de ajuste fiscal ronda os países desenvolvidos. Ajustes difíceis, muitas vezes recessivos, são as opções disponíveis. Políticos tentam evitar o inevitável. Eleitores trocam ou não de líderes, mas a dura realidade permanece.

Nos EUA, diversos incentivos fiscais do passado - cortes de impostos, benefícios de bem-estar social - terminam até 31 de dezembro deste ano. E novos cortes de gastos serão ativados automaticamente no ano que vem se não houver acordo político. Juntos, esses ajustes fiscais equivalem a um impacto de 3,7% do produto interno bruto (PIB) e têm potencial de provocar uma recessão nos EUA e no mundo, por consequência. Se há um bom acordo e apenas um terço das medidas não são renovadas (com contração fiscal equivalente a 1,2% do PIB), estimamos que o crescimento do PIB nos EUA caia para 1,8% (sem contar o impacto do furacão Sandy, que pode alterar essa previsão). No pior caso, se todo o abismo fiscal se materializar, os EUA podem voltar à recessão, com o PIB se contraindo 0,3% no ano que vem.

O ideal é fazer o ajuste fiscal para reduzir o déficit nos EUA ao longo da(s) próxima(s) década(s). Parte desses estímulos deve de fato ser prorrogada. Mas republicanos e democratas têm programas fiscais diferentes e pouco incentivo para ceder rápido. Há sinais de que os democratas vão querer endurecer na negociação, prevendo que a culpa do impasse recaia sobre os republicanos, que serão forçados a aceitar um ajuste baseado em mais impostos e menos cortes de gastos.

Vários estimam que as negociações após as eleições se arrastem pelo menos até fevereiro ou março do ano que vem. É quando outra negociação deve precisar ser feita: o aumento do limite do teto da dívida americana. Sem o aumento o Tesouro americano não poderá emitir títulos e será forçado a parar de gastar, paralisando o governo. Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia e colunista do jornal The New York Times (NYT), considerado democrata "de carteirinha", acha que endurecer a negociação é a estratégia ideal para os democratas: afinal, o abismo fiscal é apenas um "declive fiscal", dá para aguentar. Para o resto de nós, é bom ter em mente que quanto mais longo o impasse, maior será o susto para a economia global neste fim de ano.

Na Europa, quando há um tempo a gastar, ele é totalmente utilizado. Os políticos europeus parecem sempre reagir à piora, dificilmente se antecipando a ela. Esse tem sido o padrão usual nesta crise, que novamente se repete: sem piora a Espanha prefere esperar, enquanto os líderes europeus progridem pouco em direção à maior integração financeira e fiscal.

Aparentemente, a Espanha só pedirá assistência do fundo de crise, conhecido como Mecanismo de Estabilização Europeu (ESM, na sigla em inglês), se o preço dos seus títulos voltar a cair muito e a dificuldade de emitir títulos retornar. Sem a ajuda do ESM o BCE não poderá comprar títulos espanhóis - por meio do programa de Transações Monetárias Diretas, já anunciado.

Em termos de integração, os líderes progrediram pouco na última cúpula da União Europeia. Eles concordaram num calendário que avança a união bancária na zona do euro, mas recuaram no compromisso de recapitalização direta dos bancos, que agora só vale para problemas bancários futuros, deixando todo o legado passado a continuar sendo um entrave.

Na Grécia a situação permanece delicada. Credores oficiais aceitam que o país precisa de mais tempo para se ajustar. A dívida grega, no entanto, outra vez se tornou claramente insustentável. O Fundo Monetário Internacional (FMI) reconhece isso e pressiona governos a aceitarem alguma forma de redução da dívida. Mas autoridades europeias consideram isso politicamente inaceitável, ao menos por enquanto.

A relutância da Espanha em pedir ajuda, o suspense na Grécia e a dificuldade de avançar para maior integração na região do euro criam incertezas e pioram a perspectiva para a economia. Essa situação pode gerar um susto no mercado no fim do ano.

Para o Brasil é preferível um fim de ano sem sustos globais. Afinal, o ritmo da retomada da economia brasileira ainda é incerto. Após um terceiro trimestre mais forte (crescimento anualizado em torno de 4,5%), há dúvidas quanto ao ritmo de crescimento neste último trimestre do ano. Os estímulos do governo contribuíram para a retomada, mas é necessário que o seu impacto se difunda pelo restante da economia. Em última instância, a retomada sustentável vai depender do comportamento do investimento, que decresceu nos últimos trimestres e ainda não mostra sinais de recuperação, apesar de certa melhora na confiança do empresário. O ritmo de crescimento mais forte neste fim de ano será essencial para ajudar a manter a confiança em alta e a retomada da economia em 2013.

Seria ótimo um fim de ano sem maiores turbulências, dando sequência aos meses de relativa calmaria no mundo. Prever isso me daria tranquilidade. Mas não há como ignorar que, diante de opções ruins e negociações muito difíceis, os líderes na Europa e nos EUA venham a usar um pouco além do tempo que têm disponível. Para o resto de nós, esse tempo extra poderá significar novos sustos globais no fim deste ano.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 06/11

Mercado livre de energia terá menor benefício, diz setor
Em meio à forte queda das ações do setor elétrico, em reação à divulgação dos valores das indenizações para empresas que aceitem antecipar o encerramento das concessões, o mercado livre de energia (dos grandes consumidores) também se vê penalizado, dizem executivos.

Ambos os mercados cativo e livre vão se valer da redução de encargos, mas o benefício pela renovação das concessões foi apenas para os consumidores do cativo (residências e empresas que usam menos energia).

"Todos precisam, mas quem mais pedia a redução [de preços], por estar perdendo competitividade e com o custo Brasil muito alto, eram as grandes indústrias", diz Cristopher Vlavianos, presidente da Comerc Energia.

As indenizações, em geral, ficaram muito abaixo do esperado, lembra.

"Que contas foram feitas para chegar a esses valores têm de ser explicadas. Não podem ser uma imposição. O governo poderia ter dividido de forma equilibrada."

Para Marcelo Mello, da Brix, o governo não poderia chegar ao mercado livre, onde as duas partes transacionam entre si, e definir o que vai para o mercado livre e a que preço.

"Mas o governo poderia não ter obrigado que toda a renovação fosse para o cativo", afirma Mello.

"Mais do que trazer capacidade de competição para a indústria, a presidente Dilma, está, aparentemente, preocupada com a inflação."

O mercado livre, porém, já se provou competitivo, defende. "Talvez não tanto quanto empresas de uso intensivo de energia precisariam."

SERVIÇO EXTRA A BORDO
As companhias aéreas terão faturamento de US$ 36,1 bilhões (R$ 73,5 bilhões) com serviços complementares neste ano, segundo pesquisa da IdeaWorksCompany, consultoria do setor, e da Amadeus, multinacional de TI para o mercado de turismo.

O pagamento por excesso de bagagem, a venda de alimentos e as comissões recebidas sobre reservas de hotéis estão entre os itens incluídos no cálculo.

O valor é 11,3% maior que o registrado em 2011. Apesar da alta, haverá queda na participação dos serviços extras no faturamento total das companhias -de 5,6% em 2011 para 5,4% neste ano.

Na América Latina, será registrada a maior expansão do segmento -alta de 30,2%.

"O mercado aéreo ainda não é maduro nessa região. Por isso cresce mais. Em outros locais, já é bastante segmentando e há mais pessoas que não se preocupam com o conforto", diz Gustavo Murad, da Amadeus.

Os serviços de viagens (aluguéis de carro e reservas de hotel) e de milhas são os que mais gerarão receita entre os extras de companhias tradicionais de fora dos EUA -cada um com 30% do total.

Mais famílias endividadas investem, diz levantamento
A quantidade de famílias endividadas que mantêm algum tipo de aplicação financeira aumentou, mostra pesquisa realizada pela Fecomercio-SP (Federação do Comércio do Estado de São Paulo) que será divulgada amanhã.

Houve acréscimo de nove pontos percentuais -de 33,3% para 42,3%- em relação a junho, quando a entidade calculou o índice pela primeira vez. É a porcentagem mais alta desde então, na comparação mensal.

O número de famílias que planejam financiar algum bem nos próximos três meses também caiu, o que denota maior cuidado com o orçamento, segundo a pesquisa. Outro dado que corrobora para a hipótese é a taxa de inadimplência, que se manteve estável desde janeiro.

A maior parte ainda prefere a segurança da poupança, diz Flávio Pina, assessor econômico da entidade. "É a única carteira que reúne todas as características desejáveis em um país em que a renda média é baixa."

A queda dos juros bancários influenciou pouco nas decisões familiares, afirma. "A sensibilidade do brasileiro em relação à queda da taxa de juros é paquidérmica."

PARCERIA ENERGÉTICA
As consultorias LCA e Excelência Energética fecharam uma parceria para atender empresas do setor.

"A LCA trabalha a área de energia com um recorte econômico, sob o olhar da demanda. Analisamos os modelos de financiamento e vemos as estratégias para leilões", diz Fernando Camargo, sócio da empresa.

"Mas nós não temos o lado que estuda a oferta dos produtos energéticos nem a engenharia. A intenção é passar a oferecer o trabalho completo", acrescenta.

As duas consultorias já vinham trabalhando juntas anteriormente. A parceria, no entanto, ocorria quando clientes as contratavam separadamente. "Uma acabava complementando o trabalho da outra", afirma Erik Rego, diretor da Excelência.

A participação do setor de energia no faturamento da LCA varia entre 10% e 15% do total. "Essa parcela deve aumentar", diz Camargo.

A LCA já trabalha em conjunto com a Nielsen e pretende fechar contratos similares com outras empresas.

Comunicação... 
A Alert Brasil Contact Center, empresa especializada em terceirização de contact centers, investiu mais de R$ 10 milhões na construção e na implantação da nova central de atendimento em Porto Alegre (RS).

...expandida 
A unidade tem uma área de 3.600 metros quadrados. Atualmente, a planta tem 600 funcionários e deve contratar outros 180 até o início de 2013. O gerente-geral será Rogério Aquino, que atuou em empresas como a Pepsico.

No copo 
O grupo Vale Verde, do fundador da Kaiser, Luiz Otávio Pôssas, irá fornecer cana-de-açúcar para a produção de uma cerveja que será fabricada pela mineira Wäls em parceria a norte-americana The Brooklyn Brewery.

Estado grande 
A maioria das empresas chinesas que atuam no Brasil tem capital do governo daquele país, diz pesquisa do CEBC (Conselho Empresarial Brasil-China) feita a pedido do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

CAPITAL DE RISCO
O número de companhias que criam fundos próprios de investimento (venture capital) para aplicar em empresas iniciantes voltou a crescer e está se diversificando, de acordo com uma pesquisa realizada pelo BCG (Boston Consulting Group).

Setores como os de maquinário e óleo e gás, que tradicionalmente não aportavam grande volume de recursos para negócios incipientes, também ampliaram esse tipo de investimento.

A maior parcela das empresas, entretanto, ainda está concentrada nos setores de tecnologia, farmacêuticas, telecomunicações e mídia.

O objetivo não é apenas o retorno financeiro, mas também aproveitar as possibilidades de pesquisa e desenvolvimento proporcionadas pelas novas empresas, segundo a consultoria.

Quanto tempo você quer viver? - FLÁVIO JOSÉ KANTER


ZERO HORA - 06/11

Há séculos a humanidade sonha com o elixir da longa vida, a fonte da eterna juventude, a pedra filosofal com poderes para isso. Fantasia para negar a morte inevitável, temor do que ela representa, ou puro interesse em prolongar a vida? David Ewing Duncan lançou o livro Quando eu Tiver 164: A nova ciência da extensão radical da vida e o que acontece se alcançar sucesso. Baseado no livro, publicou ensaio no Science Times de 25 de agosto de 2012, no qual cita que a expectativa de vida dos norte-americanos saltou de 47 para 80 anos, desde 1900. No Rio Grande do Sul, a expectativa já passa dos 79. O aumento deve-se a vários motivos, como condições socioeconômicas, higiene, saneamento, alimentação, hábitos saudáveis e outros. Influíram descobertas e intervenções como vacinas, antibióticos, tratamentos cardiovasculares, drogas contra câncer...

O editorial do Rambam Maimonides Medical Journal de outubro de 2012 identifica o envelhecimento como fator de risco para as doenças que mais matam, mais que todos os fatores que costumamos rastrear e combater. Para doenças cardiovasculares, colesterol alto tem, conforme o editor, influência 30 vezes menor que envelhecer. Se fossem eliminadas todas as doenças cardiovasculares, a esperança de vida aumentaria menos de três anos e ainda se estaria exposto a todas as outras causas de morte relacionadas à velhice. Revela haver várias drogas em fase adiantada de pesquisa que poderão retardar o envelhecimento. Todos nós conhecemos pessoas que aparentam idade bem maior ou menor do que têm, mostrando que nem todos os humanos envelhecemos ao mesmo tempo. Identificados e modificados alguns fatores envolvidos nesse processo, é possível que o que houve nos últimos cem anos não parou aí e que a expectativa de vida siga aumentando. Imagine o impacto disso: crescimento da população, inversão da pirâmide populacional, meio ambiente e recursos naturais, gastos com vidas longas, aposentadorias, mercado de trabalho, habitação, relações familiares e muito mais.

Duncan pesquisa em suas palestras e aulas sobre tendências futuras em biociên- cia, perguntando: "Quanto tempo você quer viver?". Pede que levantem a mão para uma das quatro opções: 80, 120, 150 anos e para sempre. Em três anos, tabulou 30 mil respostas: 60% optam por 80 anos, 30% por 120, quase 10% escolhem 150 e menos de 1% preferem não morrer.

E você, já pensou até que idade quer viver?

Ueba! Obama é brasileiro! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 06/11


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

PCC quer dizer "Porra! Cadê o Celular!". E o Palmeiras ficou em primeiro lugar no Enem. Enem Brasileirão: Enem nada!

E o Sensacionalista diz que o Adriano faltou aos treinos pra estudar pro Enem. Enem foi!

E adorei a charge do Nani com o Marcos Valério: "Pedi a delação premiada porque sei tudo". "Então me diz qual o pretérito perfeito do verbo anuir." Rarará! Mas como diz um amigo meu: "prefiro a felação premiada!".

É hoje! Hoje Today! Ereções do Tio Sam no Império da Mãe Joana! Obama X Romney! Torço pelo Obama porque o Obama é brasileiro. Bota uma bermuda e uma havaiana nele pra você ver! O Obama é filho do Bezerra da Silva!

Então é isso que ele vai dizer pro Romney: "Malandro é malandro e mané é mané". O Romney tem cara de pasta de amendoim!

E republicano quer o Império BB: Bomba e Bíblia! E o Obama tem perfil de moeda, mas de frente é a cara do primo do Romário! Rarará!

O Romney é do DEM! Mentalidade de cowboy velho! E os dois estão em empate técnico. Vai acabar sendo decidido no pôquer, no pênalti e na porrinha!

E vocês já viram a cabine de votação americana? Parece provador da Gap! Rarará! E diz que o resultado vai demorar dias! Ou seja, americano manda homem mais rápido pra Marte que pra Casa Branca! Rarará! E americano vê terrorista até em saquinho de Big Mac!

E como canta o Martinho da Vila: "Aqui em casa todo mundo bebe, todo mundo samba. TODO MUNDO OBAMA!". Rarará!

E moral da Fórmula 1: se o grito do Galvão empurrasse carro, o Massa ganharia todas as corridas! Com umas três voltas em cima do segundo colocado! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

O Brasil é Lúdico! Tucanaram a Nega Maluca! Olha esta padaria em João Pessoa: "Bolo Afro Maluca". Rarará! Não precisa! Negro tem orgulho da própria cor. Deixa a nega mesmo!

E diz que em BH tem duas favelas: Corta Guela e Troca Tapa! UPP nelas! Rarará! Hoje só amanhã! Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Hoje é dia de rock - ARNALDO JABOR


O GLOBO - 06/11


Hoje nossa vida vai mudar. Para pior ou melhor? Hoje vamos saber. Quem dá mais? Obama ou Mitt? A inteligência que resiste à estupidez ou aqueles 59 milhões de idiotas que elegeram o Bush na fraude da Flórida? Será que vão repetir a roubalheira? Estranha herança da democracia dos 'founding fathers' - furos propositais no sistema eleitoral, 'zebras' programadas. Será que ganha o racismo oculto, recôndito, a KKK na alma de wasps? Bush foi o macaco na loja de louças do Ocidente. Mitt Romney finge ser uma evolução da espécie dos símios, mas é macaco também. E não me venham chamá-lo de "sensato conservador".

Barack Obama passou por Malcolm X, por Luther King e atingiu uma espécie de síntese de virtudes políticas que almejamos: tolerância, a inteligência contra a mentira, pela superação da guerra partidária, contra os lobbies, contra a tirania do petróleo, contra o efeito estufa. E não me venham chamá-lo de "esquerdinha sem programa"...

E aumentou o perigo da eleição de Mitt, depois do péssimo desempenho de Obama no primeiro debate, em parte por narcisismo, pois estava "se achando", e, em parte, por ingenuidade, acreditando que ideias verdadeiras impressionam os eleitores americanos.

Mitt Romney, bem treinado por sua equipe, despejou um discurso de mentiras com altivez e articulação, com sua cara perfeita para presidente, seu rosto 'mix' de Clinton com Kennedy, cabelos grisalhos, olhos úmidos e um sorriso irônico nos lábios, tudo estudado para arrasar Obama, que a seu lado parecia um vendedor de amendoim. Os democratas esqueceram que no discurso político importa muito mais o tom, o ritmo da frase, o sorriso na hora certa, a ênfase de falsas certezas, a beleza do rosto wasp. Mitt parecia um Lula ou um Maluf falando inglês: tudo para a mídia, todas as inverdades ditas com precisão e certeza.

Aliás, durante a convenção democrática, notei uma súbita sombra que passou no rosto de Michelle Obama enquanto Clinton fazia seu discurso histórico, arrasando os republicanos. Senti que Michelle, por um segundo, percebeu que o charme infinito, branco e wasp de Clinton poderia eclipsar o marido, sabia que a ajuda de Clinton era excelente e ao mesmo tempo perigosa - poderia relegar Obama para um papel de coadjuvante. Pode ter sido impressão minha, mas confirmou-se no primeiro debate. Diante dos dois wasps clássicos, Clinton e Mitt se digladiando por ele, baixou-lhe um tremor de presidente negro, diante do sutil racismo que existe na maioria dos americanos brancos. Depois disso, tudo ficou por um fio, empate técnico, subida da confiança do republicano que, aconselhado por seus orientadores como Karl Rove, resolveu voltar atrás e bancar o 'moderado', negando todas as barbaridades reacionárias que já proferiu. E com a propaganda reacionária, Obama ficou de 'radical', 'comunista', 'muçulmano e filho bastardo de mãe adúltera'.

Mitt é o delfim da pior face da América: o mundo psíquico dos republicanos, filhos de um deus duro e implacável. Suas caras, suas fuças parecem dizer: "Não tenho dúvidas, não quero ouvir, já sei tudo, Deus me disse...!!"

Eles encarnam o pensamento dos milhões de americanos que jazem entre o hambúrguer e o sofá, diante da TV, gente que acha que problemas se raspam, que dissidências se esmagam, que complexidades se achatam, que o múltiplo tem de virar "um", que tudo tem princípio, meio e fim e que o fim deve ser igual ao início.

Quando Mitt declarou: "Eu não sou o Bush!" - mentiu. Ele é o Bush sim; eles são produzidos em série no útero puritano da América, forjados na velha religião do século 17, falando nas "forças do mal", que são eles mesmos. Há um racismo sutil além da cor da pele.

Se o Mitt for eleito, voltará a grande máquina careta em que todos se encaixam como parafusos obedientes, uma máquina que paralisa o presente num passado eterno, para impedir um futuro que lhes fuja do controle. Os republicanos não têm mais nada a aprender; eles moram na certeza, na eternidade, exatamente como os suicidas de Osama. Como os islamitas, o grande desejo letal, funéreo dos republicanos é a cultura da morte, a destruição de todas as conquistas progressistas dos anos 60 e 70: liberdade, antirracismo, direitos civis. Querem limpar tudo com o detergente da estupidez.

O maior perigo é no plano internacional, com a vitória da ideia de que a América é um país excepcional e que deve reconquistar sua liderança no mundo todo, hostilizando a China, Rússia, apoiando a extrema direita de Israel contra o Irã, sem cultura política e sem habilidade para um mundo em crise econômica (em parte devido a eles) e diante de conflitos crescentes no Oriente Médio. O perigo maior é o que eles pensam: "Chega de frescuras de democracia, multilateralidade, tolerância, bom senso! Vamos botar pra quebrar!"

Imaginem uma guerra na Mesopotâmia, em cima do mar de petróleo. A zona geral do Oriente Médio atingiria o mundo todo, quebraria o comércio internacional e nossos sonhos de emergentes privilegiados. Sente-se no ar o desejo inconsciente por uma tragédia que pareça uma "revelação". Sim. Diante de tantos fatos insolúveis, surge a fome por algo que ponha fim ao "incontrolável", a coisa que americano mais odeia. Mesmo uma catástrofe atômica parecerá uma "verdade" nova.

Por outro lado, se o Obama ganhar, além de termos um homem sério e culto no poder, um líder capaz de se haver com a complexidade política da época atual, teremos a felicidade de ver a derrota das famílias gordinhas dos boçais da direita, os psicopatas sorridentes de dogmas, seus hambúrgueres malditos, seus churrascos nos jardins e nas cadeiras elétricas, não veremos mais os meninos mortos voltando do Iraque como sanduíches embrulhados "para viagem", a crueldade em nome da bondade, a fé contra a razão, a santidade da burrice, tudo sob um inferno de cânticos evangélicos e música country.

Não percam: hoje, mais um passo para nosso destino!

Que herança é essa? - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 06/11


BRASÍLIA - Um apagão atrás do outro, ora apagando a capital da República, ora jogando no escuro não apenas um ou dois Estados, mas todos os Estados da região Nordeste, com milhões de prejudicados.

A nova presidente da Petrobras convivendo com prejuízos imensos e admitindo que as metas da gestão anterior eram faraônicas -logo, furadas- e obrigada a botar os pés no chão, a rever tudo e a trabalhar com a realidade, não com fanfarronices.

Agora essa notícia de que o governo teme falta de combustível até o fim do ano. Se ele teme, imagina nós! Era só o que nos faltava.

Essas notícias já são de amargar e se tornam particularmente constrangedoras por serem justamente da área que rendeu a fama de competência e de boa gerente a Dilma Rousseff e a catapultou à condição de presidenciável no governo Lula. Ela era ministra de Minas e Energia, antes de nomeada para a Casa Civil.

Agora, o Banco do Brasil na boca do povo por causa do mensalão e a ordem do ministro Joaquim Barbosa para apurar tráfico de influência, nada mais, nada menos, no Banco Central no governo Lula.

E os apagões e vexames não param aí. A lista é grande e só faz crescer no fim do ano, com a bagunça e o desrespeito do setor aéreo com os usuários, os cancelamentos, atrasos, as taxas absurdas de remarcação, agora a cobrança até pela escolha de assentos. Sem falar na segurança...

A violência também está fora de controle. O Estado mais crítico, uma calamidade, é São Paulo, mas está praticamente impossível conversar por mais que 20 minutos com alguém sem que o assunto não descambe para furtos, roubos, estupros, mortes.

Assim como a Regina Duarte, que foi do medo ao PT ao encantamento por Dilma, o país está muito satisfeito com sua primeira presidente mulher. Mas Dilma não tem como lavar as mãos e explicar tudo como "herança maldita", tal como fazia Lula. Só se for a herança da "mãe do PAC" para ela própria.

Quase um mensalinho - GIL CASTELO BRANCO


O GLOBO - 06/11


O diplomata e escritor português Eça de Queiroz dizia de forma irônica: "Os políticos e as fraldas são semelhantes, possuem o mesmo conteúdo." Nesse contexto, as vésperas das eleições são marcadas por um festival de promessas, a maioria com pernas curtas.

No Brasil, é conhecida a estratégia dos candidatos governistas de prometerem mundos e fundos do orçamento da União para os seus estados e as suas cidades ao argumento de que os favores serão obtidos por meio da proximidade que possuem com as autoridades federais. Nessas últimas eleições, a prática alastrou-se.

Ao longo da campanha, muitos procuraram mostrar intimidade com os principais caciques políticos, utilizando fotos e gravações em áudios e vídeos. Foram espalhados diversos "santinhos" de "Zés e Manés", preferencialmente com Dilma e Lula, que ainda compareceram aos comícios dos mais ilustres. Caracterizada a "amizade", os pretendentes aos cargos executivos juraram que com recursos federais serão construídos postos de saúde, escolas, hospitais, creches entre várias benfeitorias. Em outras palavras, ofereceram aos eleitores passaporte para o Paraíso, desde que votassem nos amigos da rainha. Para grande parte dos políticos, não há duvida, o orçamento federal é mesmo a "casa da mãe Joana".

Caso as leis fossem seguidas à risca, a moralidade seria maior. Em 1999, um grupo de técnicos do Congresso Nacional em visita ao Parlamento dos Estados Unidos trouxe de lá a ideia de inserir na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) impedimento para o uso político do orçamento da União. Desta forma, há mais de 10 anos, consta nas legislações orçamentárias o seguinte: "(..)A execução da Lei Orçamentária obedecerá aos princípios constitucionais da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência na Administração Pública, não podendo ser utilizada para influir na apreciação de proposições legislativas em tramitação no Congresso Nacional."

Legalmente, portanto, os recursos relacionados às emendas parlamentares - por onde fluem os pedidos dos prefeitos - ou ainda a qualquer transferência voluntária não estão atrelados à boa vontade dos governistas de plantão.

Na prática, porém, não é bem assim. Os prefeitos, em "dobradinha" com os deputados federais e senadores, sugerem emendas que são incorporadas ao orçamento da União. A partir daí, os "iguais" se tornam "diferentes". Quando interessa ao Executivo, os valores são liberados de forma individual e cirúrgica, via de regra às vésperas de votação ou de fato político importante.

Desta forma, talvez não seja mero acaso o senador Marcelo Crivella (PRB/RJ) ser o recordista dentre os que mais conseguiram "empenhos" (compromissos assumidos para posteriores pagamentos) para atendimento dos seus pleitos. Em 2012, o ministro da Pesca obteve empenho de R$ 10,4 milhões para a sua proposta de melhoria das condições de assentamentos precários. Vale lembrar que Crivella foi nomeado ministro para que o seu partido apoiasse a candidatura de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo. A eleição paulistana também foi responsável pela senadora Marta Suplicy ter assumido o Ministério da Cultura, em troca de sua participação na campanha de Haddad. Aliás, por coincidência, a senadora também é destaque dentre os que desatam os nós de suas emendas. A atual ministra da Cultura conseguiu empenho de R$ 4,8 milhões para a estruturação de hospital em Mauá, na região metropolitana de São Paulo.

Conforme levantamento do jornal "Correio Braziliense", os partidos da oposição - PSDB, DEM, PPS e PSol - receberam menos de 7% dos R$ 343 milhões empenhados pelo governo até 8 de outubro para atender às emendas individuais. Já PMDB, PP, PT, PDT, PR, PSB e PTB abocanharam a maior parte dos recursos. Guardadas as proporções, quase um mensalinho.

Na verdade, o pano de fundo dessas emendas é a relação promíscua entre os poderes Executivo e Legislativo, em barganha desenfreada para atender a interesses políticos, partidários e pessoais. A atual oposição, diga-se de passagem, critica de forma envergonhada o que praticava há anos.

Como é difícil imaginar que os próprios parlamentares irão alterar esse costume político, é necessário que o Ministério Público, cumprindo a LDO, questione na Justiça o uso histórico do orçamento federal em beneficio dos apadrinhados. Caso contrário, até que a democracia amadureça, a solução é ir trocando os políticos, exatamente como fazemos com as fraldas.

Nome a zelar - DORA KRAMER


O Estado de S.Paulo - 06/11


Se alguém provoca lamentos e sentimentos sinceros de solidariedade no PT por causa das condenações no Supremo Tribunal Federal, é José Genoino e ninguém mais.

Se algo é capaz de mobilizar os petistas na reação ao vigor das sentenças do STF, é a preservação do nome do partido e nada mais.

É uma constatação que se faz desviando-se a atenção da cenografia radical do presidente Rui Falcão para se ouvir o que se diz entre as várias correntes do partido.

Fala-se com sincero pesar do destino de Genoino. "Não merecia" são as duas palavras recorrentes. "Não tinha noção do real alcance de seus atos oficiais" é a frase síntese da avaliação de que o então presidente do PT entrou na história como Pilatos no Credo.

Já José Dirceu e Delúbio Soares, se não são aberta e nominalmente criticados, tampouco contam com a mesma compreensão. Não chega a haver um ânimo de defesa de punições internas, mas não há disposição de transformar os réus em fatores de motivação do PT a entrar numa cruzada contra o Supremo.

Esse é o clima preponderante entre parlamentares, ministros, parte dos dirigentes, prefeitos e governadores do partido. Daí a suspensão da divulgação do manifesto de protesto à atuação do STF inicialmente prevista para logo depois das eleições.

A ideia só não foi oficial e definitivamente arquivada porque o PT pode ainda reagir de maneira mais forte caso ao fim do julgamento sinta que o nome do partido corre o risco de "ir para o lixo".

Aí, sim, poderia haver apoio partidário a recursos a cortes internacionais, manifestos e mobilização da militância para, na defesa dos "mártires", organizar o que na realidade seria um desagravo partidário para preservar o projeto coletivo de poder.

O resultado eleitoral de São Paulo serviu para conter as posições internas mais belicosas e fazer prevalecer a posição mais moderada que prefere virar essa página, seguir apostando na renovação de quadros e na construção de um novo perfil para o PT.

Plano pragmático que Lula começou a pôr em prática em 2005, com a abertura de espaço para novos personagens - Dilma Rousseff é um exemplo - distanciados da lógica de atuação do comando do aparelho que resultou no escândalo do mensalão.

O revés sofrido com o julgamento rigoroso gerou, no entendimento do PT, um "ambiente de intolerância" que levou à defesa de uma causa perdida, deu sobrevida à velha geração e, a depender de como venha a ser resolvida a questão, atrasará o projeto do partido de se reinventar.

Modelagem. O PMDB segue firme, embora não unânime, no apoio a Renan Calheiros para a presidência do Senado.

O partido sabe dos riscos da volta de Calheiros à ribalta depois de ter renunciado ao mesmo cargo e quase perdido o mandato por ter permitido que um lobista de empreiteira pagasse a pensão de uma filha e por ter mentido ao plenário para se defender das suspeitas do uso de laranjas na compra de duas rádios e um jornal em Alagoas.

Há entre pemedebistas o receio de que a exposição de Calheiros o ponha de novo no foco de denúncias, exatamente como ocorreu com Jader Barbalho.

Insistiu em ser presidente do Senado em 2001, não obstante o passivo de acusações de desvio de verbas do banco estadual quando governou o Pará, irregularidades na gestão à frente do Ministério da Previdência e malversação de recursos da Sudam.

Em pouco tempo as denúncias que até então estavam em banho-maria voltaram à tona. Barbalho foi obrigado a deixar a presidência do Senado seis meses depois de eleito e também a renunciar ao mandato.

Em 2007 Calheiros escapou da cassação por causa do voto secreto, cujo fim foi aprovado em julho último pelo Senado e deve ser votado até o fim do ano na Câmara.

Sem centro - VLADIMIR SAFATLE

FOLHA DE SP - 06/11


Se, no final do século 19, alguém se perguntasse sobre os lugares nos quais se decidia silenciosamente os novos caminhos das artes visuais, dificilmente ele acertaria. Pois dificilmente alguém imaginaria que devesse voltar os olhos para uma ilha perdida no meio da Oceania, para uma cabana rústica isolada nos campos do sul da França e para uma pequena vila nos arredores de Paris. No entanto, era lá que Paul Gauguin, Paul Cézanne e Vincent van Gogh trabalhavam na reconstrução da linguagem da pintura.

Em um dos momentos maiores de redefinição das artes visuais no Ocidente, foi necessário sair do centro para que algo de fato ocorresse. Foi necessário estar na periferia.

Não se tratava de alguma forma de necessidade patológica de isolamento ou de procura pela força pretensamente evigorante da natureza intocada.

Estar fora do centro era importante porque acontecimentos normalmente ocorrem em contextos de deslocamento, em locais onde uma certa indiferença criadora em relação aos padrões da linguagem torna-se possível.

Atualmente, vários voltam seus olhos para as periferias do mundo a fim de encontrar linguagens artísticas em reconstrução.

Outros desconfiam destas procuras, vendo nelas apenas uma forma de projeção que visa compensar, através da idealização de "novos sujeitos", nossas expectativas criativas frustradas. Um pouco como se procurássemos nas periferias aqueles que, no lugar dos proletários integrados ao sistema capitalista, pudessem nos guiar em direção à realização de uma filosofia da história pensada como redenção revolucionária criadora.

No entanto, não precisamos acreditar em tal filosofia da história para aprendermos a olhar para além de nossos muros. Basta darmos um passo a mais em relação à época de Gauguin, Cézanne, Van Gogh e admitirmos uma teoria da contingência que suspende a própria distinção entre centro e periferia para dizer: "Um acontecimento é aquilo que pode vir de qualquer lugar".

Uma revolta política que perpassa nossa época como um vírus pode começar em uma pequena cidade da Tunísia. Uma experiência literária verdadeira pode estar em gestação na periferia de São Paulo.

Esta dimensão de "lugar qualquer" que um acontecimento é capaz de produzir nos lembra que o pior pecado é não acreditar nos agenciamentos contingentes.

Temos de estar preparados para que eles ocorram em qualquer lugar.

O primeiro passo para isto é mostrar, por ações concretas, que abandonamos de vez a distinção entre centro e periferia. Hoje, a inteligência sempre vem de um "lugar qualquer".

Com quem será? - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 06/11


É grande a probabilidade de que os Estados Unidos saiam rachados das eleições presidenciais de hoje.

As pesquisas indicam empate técnico na preferência popular e ainda é preciso ver como se dividirão os votos que indicarão os delegados que, afinal, serão os que elegerão o novo presidente.

Seja quem for o escolhido, a divisão continuará no Congresso. O Senado terá maioria democrata e a Câmara dos Representantes persistirá controlada pelos republicanos.

O presidente Barack Obama até recentemente tentou ser o presidente de todos. Ao longo da administração, e no início da campanha, chegou a fazer um discurso conciliador. Mas há algumas semanas entendeu que a proposta da unidade não tem viabilidade eleitoral. No último debate, sua proposta derradeira mudou. Deixou claro que ambos os candidatos têm visões de mundo distintas e que caberia ao eleitor escolher a que mais lhe convém.

Obama avisou que, uma vez reeleito, seguirá fortalecendo o setor público como a principal alavanca de saída da crise. Fará questão de manter elevadas as despesas orçamentárias cujo financiamento será feito com o aumento de impostos sobre os mais ricos.

Mitt Romney pretende derrubar fortemente as despesas públicas e reduzir impostos, para que o consumo e o emprego se recuperem com o mínimo de intervenção do governo. Também disse que não gosta da política monetária, que considera excessivamente expansionista, conduzida por Ben Bernanke (paradoxalmente, um republicano). Isso sugere que não o reconduziria à presidência do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) em 2014.

Por motivos diferentes, suas críticas à atuação do Fed convergem com as da presidente Dilma (do tsunami monetário) e do ministro da Fazenda, Guido Mantega (da guerra cambial). Entende que, além de não tirarem os Estados Unidos do sufoco, as excessivas emissões de dólares não ajudam o setor privado a reagir contra a paradeira da economia.

Mas muito dificilmente haverá a escolha definitiva de uma saída como a pretendida por Obama. A população americana está dividida, seguirá dividida e tão cedo não superará sua divisão.

Quem tomar posse enfrentará um país dividido também em relação ao maior desafio imediato: o abismo fiscal (fiscal cliff). O atual acordo, arrancado arduamente dos republicanos, impôs severa redução de despesas e aumento de impostos a partir do ano que vem, cujo resultado será o aumento da recessão e do desemprego.

Obama não conseguiu se apresentar como um grande negociador. Não tem a mesma capacidade mostrada pelo democrata Bill Clinton, de distribuir afagos também a seus opositores e deles obter concessões. Romney é mais ambíguo e parece muito frágil em suas convicções. Mas tem mais cintura política do que Obama. Mostrou isso na condição de governador do Estado de Massachusetts, quando obteve a aprovação dos democratas, especialmente do patriarca Ted Kennedy, para seu projeto de extensão dos planos de seguro-saúde para toda a população.

No brasão nacional dos Estados Unidos está escrito, em latim: "E pluribus unum" ("de muitos, um"). Desta vez, não há unidade. O país está implacavelmente rachado.

Chance do segundo mandato - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 06/11

Os Estados Unidos vão às urnas hoje com o favoritismo do presidente Barack Obama, mas o sistema eleitoral americano é complexo demais para ser previsto com exatidão. O cenário mais provável é o presidente Obama ganhar mais um mandato e o Partido Republicano preservar seu controle sobre a Câmara, o que manteria o impasse na votação de medidas econômicas.

No Senado, a vantagem democrata deve continuar por estreita margem. Foi exatamente essa conjuntura de conflito entre os dois poderes que impediu avanços e elevou os riscos nos últimos anos.

A economia americana está melhor, mas ainda fraca. O desemprego continua alto e decisões dramáticas na área fiscal estão contratadas para o fim do ano. Obama não realizou os sonhos em nome dos quais foi eleito, e por isso a campanha não teve a mesma energia e a mobilização que a de 2008. Mas houve algumas vitórias importantes, pois ele evitou o pior na economia, aprovou a reforma no sistema de saúde - o Obamacare - e incluiu 30 milhões de americanos na rede de proteção social.

O tema do aquecimento global, que parecia tão efervescente na última eleição, esteve quase ausente agora. Até que a supertempestade Sandy lembrou a todos a emergência do assunto. A atitude serena e firme do presidente ajudou eleitores indecisos, mas os estados que realmente serão decisivos, e que vão atrair a atenção da mídia, são Flórida, Ohio, Virgínia, Wisconsin, Colorado, Iowa e New Hampshire.

Os republicanos engrossam as fileiras dos céticos do clima e foram apanhados pela tempestade numa casa sem telhado. O governador Romney havia cometido o desatino de propor a privatização da Fema - a agência federal para emergências - e do seu escritório de organização da resposta a desastres. Precisou sair de fininho da proposta insensata.

O eleito hoje, qualquer que seja, herdará uma economia melhor do que a que chegou às mãos de Obama em janeiro de 2009. Naquele ano, havia uma bomba contratada para estourar, que estourou: o desemprego que estava em 6,5% em outubro de 2008 foi a 10% um ano depois. Mas isso foi resultado da crise que ocorreu no período Bush.

Em geral, o mercado financeiro prefere candidatos republicanos, mas desta vez até eles temem a eleição de Romney. Ele criticou a política de afrouxamento monetário do Fed, que apesar de criar distorções evitou a piora da recessão. Como o mandato de Ben Bernanke vai até janeiro de 2014, o que se imagina é que se Romney for eleito o novo presidente do Fed tentará mudar a atual política.

Outro ponto de instabilidade pode ser a aplicação na prática de uma política contra a China, como prometeu na campanha. A simbiose entre as economias americana e chinesa fará qualquer guerra comercial entre os dois países ter severas consequências para o mundo. A relação bilateral é de meio trilhão de dólares por ano. No ano passado, a corrente de comércio entre EUA e China cresceu10%. Outra incerteza está no mercado de petróleo, que pode ficar ainda mais instável se houver um aumento da retórica bélica americana.

Há muita incerteza sobre o desempenho da economia em 2013 porque tudo depende de haver ou não o abismo fiscal. Esse é o nome que se dá ao fenômeno dos cortes automáticos de despesa e aumento de impostos que ocorrerá caso republicanos e democratas não cheguem a um acordo até o fim do ano sobre o orçamento. Para se ter uma ideia, a Tendências Consultoria tem dois cenários para o PIB dos EUA: em um, 2,3%; em outro, -0,3%. O maior risco continua sendo o reflexo do impasse político no país que tem o maior PIB do mundo.

Trégua na China - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 06/11


Sinais de recuperação da economia, ainda que apenas temporária, ajudam a conter turbulências da transição na cúpula do Partido Comunista



Após quase dois anos de gradual desaceleração no crescimento do PIB da China -de 11% ao ano, no final de 2010, para 7,6%, no terceiro trimestre deste ano-, surgem alguns sinais de estabilização.

A notícia não influenciará a troca decenal de comando no país, que será sacramentada a partir de quinta-feira, no 18º Congresso do Partido Comunista. Mas poderá facilitar a transição de poder para Xi Jinping, o novo presidente ungido pela cúpula da burocracia.

Pela primeira vez desde abril, as expectativas de gerentes da indústria sobre a economia voltaram a ficar positivas. Conta-se com o aumento da produção até o final do ano. Não se descarta que o PIB chinês volte a crescer, no quarto trimestre, ao ritmo de 8% ao ano.

A debilidade recente do ímpeto chinês resultou em parte do aperto do crédito pelo governo, com auge em 2011. O foco era reduzir a inflação, que superava 6% ao ano, e os altos preços de imóveis, vistos como ameaça à ordem social.

O mercado imobiliário foi o setor mais afetado, com forte redução de construção e vendas nos últimos dois anos. Mas o setor industrial também sofreu com a letargia da demanda nos Estados Unidos e na Europa, que prejudicou as exportações, outro vetor decisivo de crescimento na China.

O cenário melhorou um pouco nos últimos meses. A inflação de preços ao consumidor caiu para 2% ao ano no segundo trimestre, e o governo pôde adotar medidas expansionistas, como cortes de juros, estímulos ao crédito e novos projetos de infraestrutura.

Arrefecem assim, por ora, os temores de um pouso acidentado, que poderia ter consequências globais nefastas. Permanece quase intocada, contudo, a fragilidade estrutural da economia chinesa -crescimento turbinado com crédito barato da década anterior, excesso de capacidade produtiva e grande estoque de dívidas.

São cada vez mais numerosos os alertas de cidades superendividadas e de setores inteiros -siderúrgicas, petroquímica, energia solar, estaleiros- que só se mantêm à tona com novas rodadas de favores dos bancos oficiais e de grandes projetos estatais.

O desafio para o novo governo chinês é reequilibrar a economia. Para tanto, precisa reduzir sua dependência do investimento público e do crédito subsidiado e aumentar a participação do consumo doméstico. É difícil conceber essa transição sem sobressaltos, pois implicaria distribuir melhor pela população os dividendos da pujança chinesa -e, com isso, contrariar interesses incrustados na burocracia do partido.

A aceleração do crescimento do PIB para 8%, assim, será temporária; o próprio governo prevê média de 7% anuais até 2016. Já seria ótimo resultado, pois a perspectiva mais realista, diante das limitações intrínsecas ao modelo chinês, é a de taxas ainda menores.

Ainda sem respostas - JOSÉ PAULO KUPFER


O Estado de S.Paulo - 06/11


Já se vão quatro anos desde que o Lehman Brothers quebrou e a grande crise global do início do século 21 entrou para a História. Nesse período, as ações e experimentos de política econômica testados não produziram resultados capazes de configurar a superação dos problemas e a reversão das consequências de um ciclo de baixo crescimento.

Concentrados na política monetária e no ativismo dos bancos centrais, os caminhos adotados revelam, com crescente e angustiante nitidez, avanços limitados e insatisfatórios. Difícil negar que, se foram capazes de evitar uma depressão de grandes proporções, nos moldes da ocorrida pós-crash de 1930, ainda não apontam para um horizonte de retomada sustentável do nível de atividade e, principalmente, do emprego.

Em resumo, recessão ou estagnação, refletindo taxas de desemprego alarmantes, é o que se tem para contabilizar, em meio a previsões de muito anos mais nessa situação. Sem falar na contaminação negativa que, aos poucos, acabou atingindo as principais economias emergentes e, em especial, a chinesa.

O quadro geral continua preocupante e essa preocupação aumenta quando se constata que as ideias econômicas das quais derivam as políticas em execução não parecem ter as respostas aos desafios trazidos pela crise de 2008. O pior é que as teorias divergentes ou antagônicas também não conseguem apresentar um rol de saídas convincentes.

Esse é o cenário sombrio pintado pelo economista André Lara Resende, em interessantíssimo artigo publicado, semana passada, no jornal Valor, sob o título "Nova realidade, velhas questões" (http://migre.me/bAQPh). Ex-diretor do Banco Central brasileiro e sempre lembrado como um dos "pais" do Plano Real, Resende é um pensador original da economia. No artigo, ele descreve a encruzilhada em que a crise global jogou o conhecimento macroeconômico contemporâneo.

Resende lembra, por exemplo, que o "quantitative easing" (QE), aplicado pelo Federal Reserve americano, não é um experimento pioneiro, já tendo sido aplicado, sem sucesso, no começo da primeira década deste século, numa economia japonesa até hoje estagnada. O QE americano seria uma espécie de reedição da experiência japonesa e, como ela, baseada nos pressupostos da velha - e, segundo Resende, ultrapassada - teoria quantitativa da moeda, base do monetarismo clássico.

Como instrumento para tirar a economia da estagnação, de acordo com Resende, os QEs atuais são, na melhor das hipóteses, inócuos. Entre outros motivos porque a atuação dos bancos centrais, ao evitar uma depressão econômica como a dos anos 30, impediu que as dívidas fossem pulverizadas pela quebradeira geral que costuma acompanhar as depressões.

Esse mesmo motivo - a permanência de um endividamento excessivo, primeiro do setor privado e depois transferido para o setor público - também tiraria a eventual eficácia de uma política keynesiana pura, como a defendida por Paul Krugman, Prêmio Nobel hoje ativo colunista do jornal The New York Times. Se as dívidas persistem altas, argumenta Resende, um aumento de renda promovido pela expansão fiscal será pelo menos em parte poupado, enfraquecendo o impulso fiscal. Além disso, se a dívida pública já é percebida como excessivamente alta, o necessário aumento do déficit público, implícito na receita keynesiana clássica de expandir gastos públicos, lançaria desconfianças sobre a solvência dessa dívida.

Finalmente, a política monetária neokeynesiana, que sucedeu o monetarismo clássico a partir dos anos 90, redirecionando a atuação dos bancos centrais do controle da base monetária para políticas de juros e metas de inflação, opera em terreno de extrema incerteza quando as taxas reais de juros adentram o terreno negativo, como ocorre hoje nas economias maduras em crise. Para Resende, os efeitos positivos de reduções de juros reais sobre a demanda agregada não se repetem e não seguem a mesma lógica verificada quando os juros reais se tornam negativos.

Na experiência histórica, impasses dessa natureza, em algum momento, com os esforços de negação dos conceitos vigentes e da superação de naturais resistências a mudanças, acabam criando soluções adequadas aos novos tempos. Mas, na crise atual, por enquanto, o que se tem é, simplesmente, uma regressão a antigos debates que pareciam superados. E o aumento da frequência de uma indagação: não se está exigindo mais do que a política monetária e os bancos centrais sozinhos podem entregar?

Estudante guiado - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADÃO - 06/11

Depois de três edições marcadas por inépcia gerencial e trapalhadas administrativas, as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) realizadas neste fim de semana, em 1.615 cidades, transcorreram sem falhas graves. Foi a primeira vez, desde que o Enem foi transformado em vestibular unificado das universidades federais, que não houve erros de impressão no caderno de perguntas e vazamento de questões.

Inscreveram-se no Enem 5,7 milhões de estudantes, mas só 4,17 milhões fizeram as provas de Ciências Humanas e Ciências da Natureza, aplicadas no sábado; e de redação, linguagem e matemática, aplicadas no domingo. A taxa de abstenção de 27,9% foi quase a mesma do Enem de 2011, que ficou em 27,6%. Com 2,1 milhões de participantes, o Sudeste mais uma vez liderou as inscrições no Enem, seguido pelas Regiões Nordeste e Sul, com 1,8 milhão e 732 mil candidatos, respectivamente. Dos 5,7 milhões de inscritos, apenas 1,7 milhão pagou a taxa de R$ 35 cobrada pelo MEC - 4 milhões foram dispensados, por terem alegado falta de recursos.

A maior surpresa do Enem deste ano foi o tema da prova de redação. Tanto os candidatos quanto os professores de escolas e cursinhos esperavam temas como aumento da violência urbana, mudanças políticas e o novo Código Florestal, aprovado pelo Congresso em setembro. Mas, tomando por base um texto com informações sobre haitianos que chegam ao País pelo Acre e bolivianos que trabalham nas grandes cidades brasileiras, o tema proposto foi "Movimento imigratório para o Brasil no século 21", o que deve acarretar muitas notas baixas nessa prova, segundo especialistas em ensino médio. "O tema ficou fora do eixo da maioria dos estudantes e, além disso, não houve informações precisas sobre se há, de fato, um processo migratório", diz o professor Rogério Chociay, da Unesp, depois de lembrar que os alunos acabaram ficando excessivamente dependentes dos textos de apoio. "O inesperado pode ter causado insegurança e feito com que as pessoas não conseguissem construir uma argumentação consistente", diz Caroline Andrade, professora do Cursinho da Poli.

Mas houve docentes que apoiaram a escolha do tema da redação, argumentando que, apesar de ter causado surpresa, não fugiu à tradição do Enem, de valorizar as chamadas "questões sociais". Mas, como esses temas são muito abertos e permitem as mais variadas ilações, os organizadores da prova lembraram aos candidatos, no Guia do Participante - a redação do Enem 2012, que eles são obrigados a "elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos".

A finalidade de uma prova de redação não é avaliar a opinião dos alunos sobre um determinado tema, mas avaliar se ele é capaz de sustentar essa opinião de modo coerente e organizado, e em português correto. Apesar da ênfase sobre os direitos humanos constar há anos do Guia do Participante, na prática ela não é uma forma de orientação dos candidatos. É, isto sim, uma estratégia esperta e sutil de induzi-los a fazer correlações "politicamente corretas", a repetir conhecidos jargões ideológicos e a endossar opiniões de dirigentes governamentais. Desde a ascensão do PT ao Palácio do Planalto, o governo já defendeu a adoção de mecanismos de "controle social" dos meios de comunicação, propôs a criação de uma agência destinada a monitorar a produção de audiovisual e lançou um polêmico Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3), por meio do qual tentou impor a visão de setores radicais do PT e de alguns movimentos sociais sobre assuntos controversos, como reforma agrária e relativização do direito à propriedade privada.

Quando o Guia do Participante dá a entender que a não valorização dos direitos humanos tira pontos da prova, ele inibe a reflexão isenta dos candidatos.Com o receio de que um corretor alinhado com as teses do PT dê zero à redação, os estudantes não têm outra saída a não ser repetir a cartilha ideológica do PNDH3,o que converte o Enem - antes um simples mecanismo de avaliação do ensino médio - em instrumento de proselitismo e doutrinamento.

Ideia fixa - BENJAMIN STEINBRUCH

FOLHA DE SP - 06/11

O Brasil precisa multiplicar os investimentos. A redução dos juros ajuda, mas são necessárias mais medidas

Acabou a temporada eleitoral. Aliás, a eleição foi de novo uma bela demonstração cívica, tecnologicamente avançada e bem organizada -até o bagunçado futebol brasileiro abriu espaço na tabela para não atrapalhar as votações.

Mas não é sobre isso que desejo escrever. Além das eleições, chega ao fim o julgamento do chamado mensalão, faltando só a fixação de penas. O ano, nada favorável à economia, também vai terminando.

Nesse contexto, é hora, mais do que nunca, de pôr de lado divergências ideológicas ou partidárias e concentrar energias para pensar no país. E "pensar no país" significa principalmente buscar a todo o custo a retomada do crescimento sustentável da economia.

Muita coisa já se fez por aqui nesses quase cinco anos de conturbações econômicas mundiais. Felizmente, houve sensibilidade para incentivar o consumo nos primeiros momentos da crise global e atenuar seu impacto no mercado interno.

Também felizmente houve perícia do Banco Central para reduzir os juros a partir de agosto do ano passado, apesar da opinião contrária e comprovadamente equivocada de todo o mercado.

Também já caminhamos na desoneração de folhas de pagamento, com reflexos positivos nos custos de alguns setores.

Desde agosto de 2011, o Plano Brasil Maior atuou para alavancar a competitividade do país e incentivar o desenvolvimento das cadeias produtivas e das exportações. Neste último caso, a política cambial, que mantém o dólar estável e acima de R$ 2, também ajudou.

Vivemos, porém, um momento em que o país precisa multiplicar investimentos. Os juros mais baixos -a Selic está no menor nível de sua história, em 7,25% ao ano- já são um vigoroso incentivo ao investimento produtivo e um desestímulo à especulação financeira.

A forte redução dos juros básicos não teve ainda impacto equivalente nas taxas dos empréstimos às pessoas físicas e às jurídicas. Mas, de qualquer forma, não basta reduzir juros para destravar investimentos. São necessárias outras medidas, como desoneração, retirada de empecilhos que envolvem burocracias variadas, desapropriações, licenças ambientais e falhas de projetos, que prolongam indefinidamente obras públicas ou privadas.

Dados do próprio governo mostram que no setor de transporte foi gasto neste ano menos da metade do montante previsto no orçamento de obras públicas de rodovias, ferrovias e hidrovias, pouco mais de R$ 6,5 bilhões. Com certeza, as execuções não atingirão o valor orçado para o ano, de R$ 13,6 bilhões.

Além de criar empregos, investimentos em infraestrutura são uma necessidade premente num país que aspira ao desenvolvimento e já é a sexta economia do mundo.

Mais da metade dos domicílios brasileiros (54%), por exemplo, não tem rede coletora de esgoto e 60% do material colhido nas redes existentes é lançado a céu aberto.

Em seminário da Fiesp, na semana passada, estimou-se que o país precisa investir R$ 460 bilhões até 2030 para universalizar os serviços de água e esgoto, um trabalho que exige articulação entre governo, empresas e sociedade em geral.

Na área privada, nos setores industriais, a decisão de investir depende de como as empresas locais veem a capacidade de competir. Não há investimento quando o empreendedor está em inferioridade na disputa do mercado interno com fornecedores do exterior. As importações, beneficiadas pelo câmbio e por subsídios na origem, são um desestímulo ao investimento.

Medida correta foi incluída no novo regime automotivo, baseada na alta do IPI de 30 pontos e em descontos do imposto para as montadoras que seguirem exigências de conteúdo local, redução de consumo e investimentos em inovação.

A prova do acerto está no grande número de multinacionais que já trocaram planos de importação por produção local de automóveis.

Eis, portanto, uma estratégia que pode e deve ser repetida em outros setores da indústria.

Destravar investimentos deve ser a nova missão brasileira. E isso só pode ser conseguido com a alocação de recursos existentes, muito trabalho, perseverança e unidade nacional, sem preconceitos de qualquer natureza.

Crescimento e desenvolvimento devem ser ideias fixas de todos os brasileiros da área pública ou privada que pensam o país.


COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Tenho que respeitar o desespero desta pessoa”
Ministro Gilberto Carvalho, secretário-geral do Planalto, sobre Marcos Valério

CHALITA COBRA DE HADDAD ADOÇÃO DO SEU PROGRAMA
Presidente do PMDB-SP, o deputado Gabriel Chalita se encontrará esta semana com o prefeito eleito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), para discutir a prometida adoção do seu plano de governo. Na lista, está a implantação de UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), a revitalização do Centro, o Poupatempo para pessoas jurídicas, escolas de tempo integral e dois corredores expressos na cidade.

QUALQUER UM
Chalita também continua na expectativa de assumir um ministério de Dilma. Ele considera cargo na prefeitura “pequeno demais” para ele.

BRIGA DE FOICE
As diversas facções do PT estão mobilizadas para ocupar espaços na gestão de Fernando Haddad. Querem cargos que “furam poço”.

BORN IN USA
É duro ser americano: além de não ser feriado, sem urnas eletrônicas o resultado da eleição presidencial de hoje talvez demore uma semana.

APAGÃO 
No Twitter, o deputado Ricardo Berzoini (PT-SP) pega carona na frase de Lula: “De post em post, [vamos] democratizar a comunicação”.

EXERCÍCIO DE ‘TIRO REAL’ DO EXÉRCITO IRRITOU DILMA
A presidente Dilma tem medo de avião e, na aproximação para pouso, gosta de monitorar de uma tela as atitudes do comandante do Airbus 319. Ela percebeu que perto de Brasília o avião fazia uma volta pouco comum. Interpelou o piloto, e foi informada que havia um “exercício de tiro real” do Exército no campo de provas de Formosa (GO) e, por precaução, a aeronave fora desviada. Madame deu o maior piti.

SÓ DE FESTIM
Chegando em Brasília, Dilma ordenou ao ministro da Defesa e aos milicos: doravante, exercício de tiro real no DF só com sua autorização.

LAMENTO
O renomado Knight Center for Journalism, da Universidade do Texas, lamentou em nota o sepultamento do “revolucionário Jornal da Tarde”.

SORRIA, MEU BEM
Se faltava motivo, agora já tem: o Ministério da Saúde gastará R$ 7,4 milhões em próteses dentárias para desdentados de 18 Estados.

DENTE DE LEÃO
Outra boca inquieta Lula e os mensaleiros, além de Marcos Valério: a do doleiro Toninho da Barcelona. Sabe tudo sobre a corretora Bônus Banval, a Havaí Turismo, o Banco Rural e a offshore Trade Link Bank.

INIMIGO MEU
Lula quer que Dilma rompa a tradição de ir à posse do novo presidente do STF, dia 22, em represália ao trabalho de Joaquim Barbosa como relator do processo do mensalão. O ministro ainda espera a audiência que pediu para entregar o convite pessoalmente à presidente.

PM: PATRULHA DE MENTIRA
São apenas cenográficos os voos da PM na Barra de São Miguel. Domingo, uma senhora foi assaltada enquanto caminhava na orla, a cem metros do hotel Kenoa, e acenou duas vezes à passagem do helicóptero da PM, pedindo socorro, uma delas 1 minuto após o crime, e foi solenemente ignorada.

O CLONE
Membros do PMDB já acham que foi mau negócio filiar Paulo Skaf com a promessa de fazê-lo candidato ao governo de São Paulo em 2014. Alegam que sua antipatia não é menor que a do tucano José Serra.

O TRIUNFO DA DROGA
Análise de urina colhida em estações de esgoto de Brasília, de autoria de Rafael Feitosa, orientada pelo professor Fernando Sodré, do Instituto de Química da UnB, revela que residentes na capital cheiram 20.000 doses de cocaína (700kg) por ano, em cada mil habitantes.

SIMPLES ASSIM
Depois falam mal do Brasil: um brasileiro de 25 anos, preso com quatro quilos de cocaína no aeroporto belga de Bruxelas, foi dispensado para voltar ao Brasil, por falta de intérprete de português, diz jornal local.

NOVA CHANTAGEM
Promovendo apagões diários em Brasília, a estatal de energia CEB iniciou uma nova greve por aumento salarial e um “bônus” de R$ 8 mil para cada funcionário. É brincadeira! Com o serviço vagabundo que prestam, manter os atuais salários já seria injusto com o contribuintes.

FENÔMENO ‘SEVERINO’
Grupos da base aliada já falam sobre um “fenômeno Severino” nas eleições à Presidência da Câmara em 2013, devido às mágoas em relação ao governo e ao desconforto com Henrique Alves (PMDB-RN). 

ENCANTOS PARISIENSES
Isto é que é choque cultural: o governador Tarso Genro (PT) saiu dos “laços comerciais” que estreitou em Cuba, direto para homenagem da Câmara de Comércio Brasil-França, no rico hotel George V, em Paris.

DIA DA HIENA
Celebra-se, neste dia 7, o Dia Nacional do Riso. Mas, afinal, rir de quê? 


PODER SEM PUDOR

BAIONETAS E OS HOMENS

Pelópidas da Silveira foi destituído da Prefeitura do Recife, no rastro do golpe militar de 1964. Preso no 7º Batalhão de Obuses, em Olinda, ele conseguiu assistir na televisão da sala dos oficiais ao noticiário mostrando a posse do substituto. Comentou com um militar, ao lado:
- Veja, coronel. Essa mesma Câmara que votou o meu impeachment hoje, por 20 a 1, é a mesma que vivia a meus pés, pedindo favores...
- Como é a natureza humana, hein, dr. Pelópidas?! - reagiu o oficial.
- A natureza humana sob baionetas, coronel - corrigiu.

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: Curto-circuito – Pressão estatal ameaça investimento em energia
Folha: Futuro dos EUA está nas mãos de 8 Estados indecisos
Estadão: Pesquisa dá ligeira vantagem a Obama
Correio: O mundo quer Obama. Os EUA decidem hoje
Valor: Racionado, crédito atende só a 38% das vendas de veículos
Estado de Minas: Chuva já matou nove e dezembro nem chegou
Zero Hora: Um país dividido

segunda-feira, novembro 05, 2012

O enrosco do subsídio - REVISTA VEJA

Revista Veja

Dilma manda a Petrobras segurar o preço dos combustíveis para conter a inflação, mas isso debilita a empresa e mata a autossuficiência

HELENA BORGES


Foi bom enquanto durou. No próximo ano, o Brasil voltará a ser dependente da importação de petróleo. Adeus, autossuficiência, celebrada com fervor nacionalista em 2006, quando o país passou a produzir mais petróleo do que consumia. O então presidente Lula deu contornos épicos ao feito, que comparou à "segunda independência do Brasil". A propaganda escondia que a conquista da autossuficiência ainda deixava um déficit na conta externa de energia, pois o Brasil continuaria a vender petróleo cru e a importar gasolina e diesel. Porém, apesar do saldo externo negativo, produzir tanto petróleo internamente ajudou a diminuir a vulnerabilidade da economia a choques externos, como os catastróficos eventos das décadas de 70 e 80, quando a produção brasileira de petróleo totalizava menos de um décimo da atual. Voltar a ser dependente da importação é, portanto, uma má notícia.

Um estudo inédito do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), obtido com exclusividade por VEJA, mostra que, já em 2013, o Brasil estará, consumindo mais óleo do que será capaz de produzir. Se teve seus méritos na conquista da autossuficiência, o governo também é culpado pela perda desse privilégio. Por duas razões: a primeira foi forçar a Petrobras a subsidiar o preço ao consumidor da gasolina e do diesel, mantendo-o estável mesmo com o aumento do custo internacional do petróleo: a segunda foi incentivar a venda de carros novos com crédito farto e corte de impostos, o que aumentou a frota nacional e, claro, o consumo.

Essas feitiçarias heterodoxas têm efeitos imprevisíveis. Ao proibir a Petrobras de repassar os aumentos ao preço do petróleo, o governo conseguiu impedir um acréscimo médio de cerca de 0,4 ponto porcentual no índice de inflação, que já está bem acima da meta de 4,5% estipulada para 2012. Mas, ao bancar o subsídio, que só neste ano já provocou um prejuízo de 12,8 bilhões de reais, a Petrobras perdeu sua capacidade de investimento, não modernizou os poços já produtivos, interrompeu a prospecção de novas jazidas e atrasou a extração da riqueza do óleo de grande profundidade, o pré-sal. Como despiu um santo para vestir outro, a presidente Dilma Rousseff se encontra agora em um dilema severo. Se desafogar o caixa da Petrobras autorizando o repasse dos preços externos, a inflação subirá mais rapidamente. Se mantiver a política de subsídio pela companhia, vai se arriscar não apenas a perder a autossuficiência como a entrevar irreparavelmente a empresa que é orgulho nacional, o retrato a óleo do Brasil emoldurado pelos sonhos de grandeza de tantas gerações. Esse dilema não tem solução fácil nem indolor. É uma daquelas situações em que as opções são perder ou perder.

Se não tem solução, ele oferece a chance de refletir sobre, afinal, por que razão chegamos a essa situação negativa. A verdade pura e cristalina vem do fato de a presidente Dilma ter se servido da Petrobras como um braço de sua política econômica — no caso, como arma para conter a inflação, uma vez que foi descartada a opção clássica de segurar o dragão com o aumento dos juros básicos da economia, a taxa Selic. Diz Adriano Pires, diretor do CBIE, que patrocinou o estudo que aponta a volta da dependência brasileira do petróleo importado: "Ao pesar a mão sobre a Petrobras, o governo não prejudicou só a empresa, mas emperrou o aproveitamento de todo o potencial do pré-sal e comprometeu o crescimento do país".

Os últimos resultados da Petrobras, anunciados no dia 26 de outubro, expuseram o estrago dessa política. O lucro diminuiu, os custos subiram e o endividamento bateu no limite. No último trimestre, a produção de petróleo caiu 3%, chegando ao menor patamar desde 2008. Se estivesse investindo no pré-sal, como previsto, o Brasil deveria estar produzindo neste ano 6.8% mais do que em 2011 e continuaria autossuficiente, mesmo com o salto no consumo de combustível devido ao aumento da frota. As dificuldades de gestão já estão sendo sentidas no preço das ações da estatal, que chegaram a cair 3.39% em um único dia. Comparado a 2009, o valor de mercado da Petrobras foi reduzido a menos da metade.

Recentemente, Maria das Graças Foster, presidente da companhia, admitiu a perda de eficiência média de 10% nas plataformas. Em alguns casos, chega a 50%. Uma das causas é o declínio natural da produtividade de poços mais antigos, mas influíram também as transferências e a aposentadoria de equipes de manutenção e operação altamente treinadas. A extinção do bônus por desempenho individual dos funcionários, trocado pela participação nos lucros, uma exigência sindical, quebrou uma das vigas mestras do sucesso da Petrobras: a meritocracia. O novo sistema desestimula a excelência individual e, pior, dilui as responsabilidade quando ocorrem falhas graves. A tudo isso, somou-se o atraso na entrega de plataformas e sondas para novos campos no pré-sal, fruto de uma contingência do mercado internacional — o que tornará ainda mais difícil fazer a produção voltar a subir. O atual estrangulamento financeiro da estatal é apontado como uma das razões para o fato de o governo ter suspendido, há quatro anos, novos leilões de campos de petróleo, que exigiriam ainda mais investimentos. Sem eles, a produção não avança, desencadeando um ciclo vicioso que agrava a dependência de importações.

Os sinais do fim da autossuficiência já aparecem. Há um mês, seis estados das regiões Sul e Norte ficaram sem gasolina. A própria Petrobras reconhece que só em 2014 a produção voltará a crescer A autossuficiência poderia ser reconquistada em 2015. Mas isso depende de a estatal cumprir os próprios planos, o que não tem ocorrido faz um bom tempo. Diz o economista Luiz Caetano, analista da corretora Planner Prosper: “Há pelo menos cinco anos a Petrobras não honra suas metas. Esse histórico não anima ninguém".

COM MARCELO SAKATE