segunda-feira, agosto 27, 2012

Agora vai - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 27/08


Passado o anúncio das concessões de rodovias e ferrovias ao setor privado e a renovação de contratos do setor elétrico, prevista para o mês que vem, o governo planeja divulgar em outubro as novas regras para o Código de Mineração. A ideia é aumentar a alíquota dos royalties de exploração dos minérios, estipulando uma taxa de até 4%. Técnicos alegam que o projeto, que passou por idas e vindas, atrasou devido ao "espancamento" de Dilma Rousseff para evitar falhas no texto.

Deu jogo 
Nas negociações do final de semana, o governo fechou aumentos para os servidores do Legislativo de cerca de 5% pelos próximos três anos, atingindo os 15,8% propostos. As agências reguladoras sinalizaram que aceitarão hoje os números discutidos com técnicos do Ministério do Planejamento.

Osso duro 
Entre hoje e amanhã, os sindicatos de categorias como Polícia Federal, IBGE e Receita voltarão à pasta para dizer se topam ou não a proposta do governo.

Relax 
Prestes a se aposentar e alvo de dúvidas sobre se poderá votar no julgamento do mensalão, o ministro do STF Cezar Peluso aliviava a tensão jogando tênis ontem na Asbac, clube de funcionários do Banco Central, na capital federal.

Daqui não saio 
Aliados do deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP), que é um dos réus no mensalão, já articulam nos bastidores barrar pedidos de cassação de mandato se propostos pela oposição na CCJ da Câmara, caso ele seja condenado pelos ministros do Supremo.

Meu garoto 
O ex-presidente Lula tem brincado com interlocutores sobre seu "xará", o ministro Luís Inácio Adams, na bolsa de apostas para uma das próximas vagas no STF: "Meu filho alemão vai pro Supremo". Essa era a forma com que ele chamava o advogado-geral da União quando era presidente.

Sem vínculo 
A eleição de 2012 arrecadou até agora em todo o país R$ 466 milhões. Do total doado, R$ 53 milhões foram para as direções nacionais, estaduais e municipais dos partidos. São as chamadas doações ocultas, em que a verba é destinada à sigla, que transfere o dinheiro aos candidatos.

No topo 
O grosso do dinheiro destinado às cúpulas nacionais dos partidos partiu das empreiteiras. De R$ 6,5 milhões recebidos pelo PMDB, R$ 4,5 milhões vieram das construtoras. Dos R$ 3,2 milhões obtidos pelo PT nacional, R$ 2 milhões vieram das empresas do setor.

Investimento 
Uma das maiores doações individuais até agora no país foi a do candidato Ivan Rodrigues. Ele doou R$ 500 mil para a própria campanha a prefeito pelo PSD em São José dos Pinhais, no Paraná.

Sinal amarelo 
O PSDB-SP e o Palácio dos Bandeirantes monitoram com lupa a eleição em duas cidades com mais de 600 mil habitantes administradas pelo partido há 16 anos e hoje sob ataque do consórcio PT-PMDB, que ensaia aliança para 2014.

Tapetão 
Em Sorocaba, tucanos estão aliviados com a rejeição da candidatura do peemedebista Renato Amary pelo TRE-SP, embora ainda caiba recurso. Acreditam que a decisão dará fôlego ao ex-deputado Antonio Carlos Pannunzio, que aparece em segundo nas pesquisas.

Regra 3 
A situação mais crítica, na avaliação do QG de Geraldo Alckmin, é a de São José dos Campos, onde Carlinhos Almeida (PT) detém larga vantagem na dianteira. Na cúpula tucana, é forte a pressão para que Alexandre Blanco seja substituído pelo padrasto, Emanuel Fernandes.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio
"O PSDB sempre defendeu o julgamento do mensalão no STF. Portanto, não temos medo de bombardeio petista na eleição de 2014."

DO PRESIDENTE DO PSDB, SÉRGIO GUERRA, sobre a pressão do partido adversário para que a corte vote o mensalão mineiro na disputa presidencial.

contraponto


Cada um no seu quadrado

O presidente do Inep, órgão vinculado ao MEC, Luiz Cláudio Costa, passou por um susto durante seminário promovido pelo instituto em Brasília, na quarta-feira, sobre o Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, elaborado pelo órgão, e o SAT, avaliação usada para ingresso em universidades dos EUA. Enquanto o presidente do Inep respondia a perguntas da plateia, a energia da sala de conferência caiu, deixando todos os participantes no escuro.

Diante do silêncio dos presentes, Costa brincou:

-A manchete não pode ser apagão no Enem, viu?

Pequena história de um grande equívoco - MARCO ANTONIO ROCHA


O ESTADÃO - 27/08


A Associação Brasileira da Indústria Têxtil protocolou na semana passada um pedido de investigação de salvaguarda para vestuário porque está havendo um "surto" de importações de roupas no País que causa prejuízo à indústria nacional. Essa era a notícia na sexta-feira.

Não era uma notícia eletrizante, mas serve de gancho para a gente analisar um longo processo de formação da chamada indústria nacional e criticar uma estratégia que sempre nos pareceu equivocada e fora de foco. Pois, na verdade, está havendo "surto" de importações de muita coisa, e várias indústrias nacionais ou já foram para o brejo ou simplesmente viraram importadoras, barracões de montagem.

Esse processo passou, em resumo, pelo seguinte: na primeira metade do século passado, país forte era país que tivesse uma indústria forte, principalmente baseada no binômio do carvão e do aço. Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França e Itália estavam no bloco das nações fortes - tinham carvão, tinham aço e tinham uma indústria forte, de navios, de trens, de máquinas para fazer máquinas. O Brasil não tinha nada, ou quase nada disso. Era a razão do nosso atraso. "O Brasil é um país essencialmente agrícola", diziam muitos, inclusive um presidente da República, de maneira resignada e conformista. "O quê? Uma indústria siderúrgica nos trópicos? Só pode ser brincadeira", ironizou um magnata inglês quando ouviu falar de uma pretensão brasileira por volta da 1.ª Guerra Mundial. Claro que ele não sabia, mas já tinha existido uma, muito tempo antes, no Brasil colônia, a Real Fábrica de Ferro de Sorocaba, em São Paulo, ainda hoje monumento histórico na cidade. Não era bem uma usina siderúrgica, mas dava para fabricar enxadas, machados e arados.

Descrença, falta de know-how, boas receitas externas da exportação de café desde meados do século 19 ajudaram a criar boa dose de resignação com a falta de indústrias no País e com o atraso nesse quesito.

Em 1930, Getúlio Vargas chega ao poder e o mote passa a ser "industrialização" a toque de caixa. A vinda da Belgo-Mineira para o Brasil quebrou o tabu de que siderurgia não prosperava nos trópicos e gerou pretensões mais avantajadas. Logo se começou a pensar numa grande siderúrgica em Volta Redonda. A 2.ª Guerra Mundial e suas demandas bélicas, de transportes, de navios, de armas e munições e de matérias-primas, dariam ao Brasil as oportunidades na área da indústria metalúrgica e manufatureira, além das condições financeiras para enfim arrancar dos americanos a tecnologia e a grana para a construção da Cia. Siderúrgica Nacional, a CSN. Lá está ela, ainda hoje alimentando com seus produtos o parque manufatureiro nacional.

Creio que, a partir daí, ou seja, da década de 1940, é que começou a estratégia equivocada para beneficiar esse parque manufatureiro, baseada na ideia de que era preciso "substituir importações" e, na sua derivada, "brecar importações" para "proteger" a nascente e ascendente indústria nacional. O Imposto de Importação foi o grande instrumento dessa estratégia, e o consumidor brasileiro compareceu como refém de um parque industrial, que afinal nem era tão nacional assim, pois indústrias estrangeiras vieram se instalar aqui para aproveitar as vantagens do curral mercadológico que o governo criara. Nos casos em que o mercado interno tinha escala suficiente, era vantagem vir para cá e livrar-se dos dissabores da concorrência internacional.

Em 1952, ainda com Getúlio, criou-se o BNDE (o "s" veio depois), para dar alento à indústria "nacional". Algumas montadoras que por aqui estavam logo se propuserem a fabricar no Brasil carros "nacionais", com grande alarde e festejos. A grana era do BNDE, a rede de vendas elas já tinham e o Imposto de Importação era o guardião dos produtos. A importação de Chevrolets, Fords, Citroëns, Audis e Mercedes tornou-se absolutamente proibitiva.

(Lembrança: desde 1948 e por alguns anos adiante, um vasto número de táxis, em São Paulo e em muitas cidades do interior, eram Mercedes-diesel, então baratíssimos. De 1955 em diante, viraram carros de magnatas.)

Essa estratégia criou uma indústria dependente da proteção e do financiamento do governo. Que hoje se debate com o desafio de como ganhar o mundo.

O equívoco teve duas pernas: uma, que a melhor defesa era a defesa, quando, na verdade, no mundo dos negócios a melhor defesa é o ataque. Outra, que é função da indústria elevar o nome da Pátria.

O que se vê, no entanto, é que o que importa no mundo de hoje é a marca. A Mitsubishi, a Canon, a Yamaha, a Sony, a Kia; ou a Volvo, a Volkswagen, a Chevrolet, a Telefunken, a Fiat podem ter fábricas em qualquer país - o consumidor mundial busca a marca, não a procedência.

Criar vários produtos brasileiros e marcas brasileiras internacionalmente aceitáveis, como bandeiras e símbolos de qualidade, teria sido a melhor estratégia. Ênfase em merchandising, mais do que em fabricação. Esses produtos e marcas levariam para o mundo todo uma rede de fornecedores industriais nacionais, que estariam hoje competindo, e não se defendendo. Um país emergente com uma indústria submergente, como a que temos, não vai a lugar nenhum.

O bom juiz - RICARDO NOBLAT


O GLOBO - 27/08


“Meu Deus do céu”.

Joaquim Barbosa, ao ouvir a ameaça de Lewandowski de faltar ao julgamento se não puder contraditá-lo


Erra o juiz que leva em conta a opinião pública? Por opinião pública entenda-se a opinião geral de uma sociedade. Da parcela majoritária ou dominante da sociedade que se expressa por meio de pesquisas e dos veículos de comunicação. Ricardo Lewandowski, ministro revisor do processo do mensalão, votou a favor da absolvição de réus que antes haviam sido condenados pelo ministro relator Joaquim Barbosa.

ALVO DE duras críticas, o próprio Lewandowski saiu em defesa do seu voto. "Já esperava. As críticas, as in-compreensões, isso faz parte do nosso trabalho” argumentou. "Mas eu tenho certeza de que o Brasil quer um Judiciário independente, um juiz que não tenha medo de pressões”

E POR FIM: "Eu acho que o juiz não deve ter medo das críticas porque o juiz vota ou julga com sua consciência e de acordo com as leis. Não pode se pautar pela opinião pública.” Quem disse que um juiz não pode se pautar pela opinião pública? Quem disse que o melhor juiz é o que vota em desacordo com ela?

SEM DÚVIDA é mau juiz aquele que se orienta unicamente pela opinião pública. Mas não é bom o outro que parte do princípio de que a opinião pública deve ser desprezada. Se num processo há elementos de convicção possíveis de justificar um voto para um lado ou para o outro por que tapar os ouvidos ao clamor popular?

POR QUE só ouvi-lo quando se trata de crime que choca a sociedade? Até ser julgado, o casal Nardoni ficou longos meses preso, acusado de ter assassinado Isabella, de cinco anos de idade, jogada do sexto andar do edifício London, em São Paulo, onde passava o fim de semana com o pai e a madastra.

SALVO A indignação produzida por crime tão bárbaro, nada na lei autorizava um período extenso de detenção sem julgamento. Corrupção rima com indignação, mas as duas palavras raramente andam juntas. Corrupção é vista como crime menor e corriqueiro. A impunidade dos casos de corrupção esteriliza a indignação das pessoas.

SIM, O BRASIL 
quer um Judiciário independente. Mas isso é tudo o que ele não tem. Quem escolhe os ministros do Supremo Tribunal Federal? O presidente da República. A escolha é referendada pelo Senado, que só reprovou uma desde 1891 — a do médico Barata Ribeiro.

ENTRE NÓS,
 a sabatina mais demorada de um ministro durou sete horas. Foi a de Dias Toffoli, empregado toda a vida do PT e dos seus principais líderes. E que agora irá julgar alguns deles. Dias Toffoli foi reprovado duas vezes em concursos para juiz da primeira instância. Falta-lhe "notório conhecimento jurídico.” Sobrou-lhe padrinhos.

A HISTÓRIA DA Corte Suprema dos Estados Unidos registra caso de ministro que levou sete meses para ter seu nome aprovado pelo Senado. Certa vez, o presidente Bush, o pai, quis nomear ministra uma brilhante advogada que trabalhava para ele. Foi tal a reação contrária de senadores democratas e republicanos que Bush desistiu.

É UM TRUÍSMO dizer -se que um juiz deve votar "com sua consciência e de acordo com as leis” É de se imaginar que assim procedeu Lewandowski ao absolver o deputado João Paulo Cunha (PT) e o publicitário Marcos Valério. E que assim também procedeu Joaquim Barbosa ao condená-los.

O DIREITO NÃO
 é objetivo. É como o Kama Sutra — admite várias posições. Juiz algum é neutro. "O fato incontroverso” e "a verdade processual” nem sempre discrepam da opinião pública.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 27/08


Bancário carimbado
Embora o número de certificações emitidas para quem trabalha no mercado financeiro cresça a cada ano, a taxa de reprovação nos exames ainda é expressiva.

No CPA-10, a certificação básica, a taxa de aprovação foi de 60% neste ano. No CGA (exame para gestores), por sua vez, o percentual de sucesso caiu para 19%, segundo a Anbima (associação de entidades do mercado).

O número total de certificações emitidas até junho deste ano aumentou 9% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Segundo a Anbima, mais de 280 mil pessoas já foram aprovadas em seus exames desde que eles foram implementados há dez anos.

A entidade afirma não ter dados relativos ao número de profissionais em cargos que demandam certificação.

"Há mais profissionais aprovados nos exames do que o número que seria exigido, especialmente pelo conjunto de certificados em algumas instituições, como o Banco do Brasil", diz Carlos M. Takahashi, vice-presidente da Anbima e presidente da BB DTVM, a gestora de recursos do banco público.

O número de estudantes de graduação que prestam o exame mesmo sem ter experiência no mercado de trabalho também vem subindo.

A taxa mais do que dobrou no último ano ante o período anterior, conforme a Anbima.

Embora a experiência seja necessária para obter a certificação, a aprovação no exame é válida por dois anos.

Salto em distância
A fabricante de calçados Skechers abrirá sua primeira loja no Brasil.

A inauguração da loja no shopping Iguatemi de Alphaville, deve ocorrer no dia três de setembro.

A empresa, que venderá calçados de corrida, mira o mercado infantil.

"Nos EUA, a marca é a número um para crianças; aqui, nunca vendemos um par", diz Andrew Schmitt, presidente da empresa no Brasil.

Gota-d'agua
A universalização dos serviços de água e esgoto no país está longe de ser atingida, se forem mantidos os investimentos atuais, aponta estudo da Asfamas (de empresas do setor de saneamento).

Uma hipótese realista trabalha com investimentos anuais privados e públicos de R$ 17 bilhões.

Se os recursos fossem injetados entre 2011 e 2030, alcançariam R$ 340 bilhões, de acordo com Carlos Alberto Rosito, da Asfamas.

"Os investimentos atuais, no entanto, são bem mais baixos. Falta aprimorar a gestão. Em 2012, teremos aproximadamente só R$ 10 bilhões."

Para alcançar a meta até 2025, em uma hipótese mais otimista, seriam necessários 2,5 vezes a média dos investimentos feitos entre 2009 e 2011, quase R$ 20 bilhões por ano até 2025, estima ele.

Mais investimento não basta sem alta da produtividade, diz Gesner Oliveira, da consultoria GO Associados e ex-presidente da Sabesp.

Um estudo da consultoria conclui que a universalização seria alcançada em 2024 com a duplicação do investimento e o aumento de 30% da produtividade dos recursos.

"Dobrar o investimento, seria possível com o aumento da parceria com o setor privado. Empresas públicas não teriam condição de dar esse salto", diz Oliveira.

"Daí a importância de destravar as PPPs (parcerias público- privadas) e superar essa situação de ter mais da metade da população sem acesso à rede de esgoto."

Diesel 
A Terrana, subsidiária da Tramp Oil & Marine, que distribui combustível para 550 postos, fechou um acordo de parceria logística com a distribuidora Torrão. Vai usar uma de suas bases de armazenamento em Guarulhos.

Desconto para todos - CLAUDIO J. D. SALES


O GLOBO - 27/08

O governo federal tem declarado que a tarifa de eletricidade precisa ser reduzida e diz que dará sua contribuição pela eliminação de encargos e diminuição de impostos, referindo-se ao PIS/Cofins. Nunca houve um esforço coordenado de governo para reduzir a carga tributária sobre o serviço público de energia elétrica. Isso precisa ser valorizado e, se o esforço desse governo for exitoso, comemorado com destaque porque, na verdade, a carga tributária atual de 45% sobre a conta de luz foi construída pelo acúmulo de 36 tributos e encargos ao longo de décadas.

Sem transparência para a população, quase metade do que pagamos na tarifa (45% da conta de luz) vai para os cofres do governo, distanciando-se da relação com a geração (25%), transmissão (6%) ou distribuição de energia (24%).

Rubricas como PIS/Cofins, CCC e RGR são candidatas perfeitas para dar início a uma era de mais racionalidade econômica no que se refere à carga tributária sobre o setor elétrico. No caso do PIS/Cofins, que representa cerca de 8% da tarifa, o governo na verdade devolveria ao consumidor de energia, pelo menos parcialmente, custo extra que foi imposto, em 2003, quando se produziu um aumento tarifário efetivo próximo de 4%.

Na Conta de Consumo de Combustível (CCC, cerca de 3% da tarifa), o custo deveria diminuir com o tempo. Isso porque a CCC é um subsídio aos sistemas isolados da região Norte. Começa a ficar muito difícil justificar esse encargo se considerarmos que o consumidor tem arcado, em sua conta de luz, com o custo das linhas de transmissão para conectar tais sistemas.

No caso da Reserva Global de Reversão (1,3% da tarifa), a desoneração é quase uma obrigação porque esse encargo já perdeu sua razão de existir. O governo continua cobrando sem necessidade. O Fundo RGR acumula R$ 19 bilhões, que podem ser usados como o governo quiser.

O único sinal preocupante no discurso governamental tem a ver com os beneficiários da desoneração: grandes indústrias ou grandes consumidores de energia. Não faria sentido deixar de fora da desoneração as classes residencial e comercial de consumidores de energia. O governo poderia reduzir a conta de luz para todos, igualmente.

A piada, os marcianos e as instituições - DENIS LERRER ROSENFIELD


O ESTADÃO - 27/08


Certamente Delúbio Soares passará para a História republicana como um cínico e um frasista, pois algumas de suas tiradas tiveram grande repercussão. Assim, ao falar do mensalão, inventou a expressão "recursos não contabilizados", não sem expor um sorriso irônico em suas declarações. Nunca teve o menor pudor em utilizar a linguagem para encobrir todos os seus malfeitos, contando com a impunidade, no futuro. Entre os seus, foi até agraciado com o retorno ao partido, braço-mãe que o acolheu depois de uma encenação de expulsão, apenas retórica, com vista a apaziguar a opinião pública, aterrada, por assim dizer, com o abandono petista da ética na política.

Entre outras considerações de Delúbio, uma encontrou eco bastante grande à época, a de que o "mensalão" em alguns anos viraria "piada de salão". Alguns anos já se passaram e o Supremo Tribunal defronta-se agora com os fatos geradores da "piada" e suas consequências. Seguro de suas posições e de seus apoios, o ex-tesoureiro do PT pretendeu colocar-se como "profeta", anunciando o futuro. Evidentemente, o personagem não tem a estatura dos profetas bíblicos, mas cada sociedade tem os anunciadores do futuro que merece. Mas será que sua profecia se vai realizar?

A "piada" estava alicerçada na alegação - depois difundida por várias lideranças petistas - de que o mensalão não existiu, como se nossa Suprema Corte estivesse agora às voltas com o julgamento de algo inexistente. Como se poderia julgar o inexistente? Seria tal pergunta risível se não estivesse assentada em toda uma campanha de convencimento da opinião pública visando a tornar um fato de desvio de recursos públicos e aparelhamento partidário do Estado, em particular de uma de suas instituições, o Banco do Brasil, num não fato. Ou seja, o irreal seria o fundamento de uma certa concepção partidária, baseada no enfraquecimento sistemático das instituições republicanas e da moralidade pública.

Os advogados de defesa, salvo exceções, adotaram a atitude de marcianos chegando a um planeta desconhecido. Não sabiam de nada do que tinha ocorrido, desconheciam os fatos. Suas defesas apresentaram um conjunto de anjos que não tinham a menor ideia de nada, como se o julgamento do Supremo fosse somente o resultado de um grande equívoco que esses doutos, regiamente pagos, teriam a missão de esclarecer. Abraçaram a concepção da piada, refinada, se é que se pode utilizar esse termo, na formulação de que o mensalão não existiu.

Os réus estariam ali por mera casualidade, fruto provavelmente de uma conjunção astral desfavorável, nada que o tempo e "bons" argumentos não pudessem resolver. E "bons" argumentos seriam precisamente os que demonstrariam a inexistência de crimes, capazes de convencer os ministros de que o mensalão foi uma invenção midiática ou uma tentativa de "golpe de Estado". Ou a maior parte dos advogados vive em Marte ou compartilha o cinismo de Delúbio e seguidores. A piada e a afirmação da inexistência do mensalão pertencem ao planeta deles - esperamos que não ao nosso.

A denúncia do procurador-geral da República, seguida e enriquecida pelo relator, Joaquim Barbosa, e também pelo revisor, Ricardo Lewandowski, permite recolocar a "piada" e as declarações da simples existência de "caixa 2" em seus devidos lugares. Tudo indica, nestes primeiros dias de julgamento, que a "profecia" delubiana não se vai realizar, mostrando um tribunal à altura da defesa das instituições, pois, enfim, é disso mesmo que se trata. Com efeito, as instituições não podem tornar-se uma piada, sob o risco de os risos serem anunciadores de um porvir sombrio.

O relatório do ministro Joaquim Barbosa, extremamente sério, bem argumentado e rico em informações, foi, em linguagem não jurídica, a exposição do mapa do crime, como se falava antigamente em mapa do tesouro, escondido por piratas que assaltavam e agiam à revelia da lei. Seguiu a trilha desses "piratas modernos", que diferem dos antigos por se apresentarem bem vestidos e usarem, alguns, óculos em vez dos tapa-olhos de outrora. Aqueles tinham charme, enquanto os atuais são apenas banais. A vantagem dos antigos, por assim dizer, consistia em mostrar o que eram, que não tinham nada a ocultar, à diferença dos "modernos", que pretendem passar por homens da sociedade, aceitos por suas práticas "criminosas", aliás, "inexistentes".

Os fatos apresentados e demonstrados expõem todo o caminho de desvio de recursos públicos, com dezenas de milhares de faturas falsas, com responsáveis públicos desviando em proveito próprio e de suas agremiações partidárias fundos que pertencem, em última instância, aos contribuintes. Já aparece com nitidez, nesta fase primeira do julgamento, o aparelhamento partidário do Estado no governo Lula, como se as instituições fossem instrumentos carentes de validade e de legitimidade próprias. O risco de tal conduta está em considerar as instituições como meros meios a serviço de finalidades partidárias, que se erigem como primeiras.

O trabalho da Polícia Federal, do Ministério Público e dos ministros do Supremo que até agora se manifestaram permite ver em funcionamento instituições que existem independentemente de governos e partidos. A trilha do tesouro roubado está sendo desvendada, com as primeiras condenações de alguns envolvidos. O mapa foi apresentado. Resta, agora, seguir as pegadas dos que cometeram os atos criminosos.

Nesta altura do julgamento, não será mais possível voltar para a negação dos fatos, para a inexistência do crime. O problema a ser ainda julgado reside nos pés das pegadas, nos agentes que trilharam o caminho do crime. Isto é, cabe agora determinar as responsabilidades individuais, que, elas também, devem ser provadas, sob risco de atentarmos, por outro lado, contra os direitos individuais.

O mapa já foi apresentado, faltam ainda os responsáveis.

Se é bom para o Maranhão - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO


O Estado de S.Paulo - 27/08


O seu, o meu, o nosso está bancando candidatos a prefeito Brasil afora. Até agosto, os quatro maiores financiadores das campanhas municipais foram as direções nacionais do PSB, do PT, do DEM e do PMDB. E de onde vem boa parte de seu dinheiro? Do Fundo Partidário, subvencionado por recursos públicos. Foram pelo menos R$ 13,6 milhões até agora. Como o grosso das despesas das campanhas ainda está por ser feito, o valor só tende a aumentar.

O dinheiro do Fundo Partidário foi usado para pagar por bandeiras, adesivos, faixas, programas de TV e rádio, marqueteiros, alugar imóveis, carros, bicicletas e até bonecos infláveis. O seu, o meu, o nosso já foi gasto em "santinhos" e "praguinhas", seja lá o que isso signifique. Bem-vindo ao mundo do marketing eleitoral, caro doador involuntário.

A primeira prestação de contas dos candidatos e comitês à Justiça prova que o financiamento público das eleições é fato consumado - e não é de agora. Ao fim da eleição de 2010, os partidos concederam a si próprios aumento milionário do Fundo Partidário, para quitar dívidas de campanha. O que os defensores do financiamento público advogam é, portanto, mais do mesmo.

Seu argumento é que o custo cada vez mais elevado das campanhas eleitorais é a principal origem de corrupção política. Afirmam que se todos os partidos e candidatos tivessem uma mesma fonte de renda - o Tesouro Nacional - o problema seria evitado. As evidências indicam que seria mais uma camada de dinheiro a sustentar outras, de fontes privadas ou semiprivadas.

A prestação de contas dá sinais de que financiamento público exclusivo não impediria empresas de doar nem partidos de pedir dinheiro se recebessem mais do Tesouro. Como o resultado da eleição é, cada vez mais, uma função direta do valor gasto na campanha, comitês se esforçam para arrecadar o quanto podem e o quanto não podem.

O quinto maior financiador das campanhas municipais até o momento é a construtura baiana OAS. É da natureza de seu negócio contratar com governos. A OAS doou R$ 1,850 milhão, a maior parte a candidatos a prefeito do PT: R$ 750 mil a Fernando Haddad (São Paulo), R$ 500 mil a Nelson Pellegrino (Salvador) e a Humberto Costa (Recife). No Rio, deu R$ 50 mil a Rodrigo Maia e ao pai, Cesar Maia - candidatos a prefeito e vereador pelo DEM.

A OAS é apenas a ponta da viga, a parte mais aparente da obra. Empresas que levam "construção", "engenharia" e variantes no seu nome já doaram R$ 25 milhões a candidatos, partidos e comitês. De um lado estão tanto empreiteiras conhecidas nacionalmente quanto de âmbito paroquial; do outro, candidatos do PT, PSD, PMDB, PSB, PSDB, PPS, DEM, PP, PR. Doações construtivas são universais e apartidárias. São parte do negócio e da política.

A única maneira de fiscalizá-las é conhecer a existência dessas doações, contabilizá-las, compará-las, classificá-las. Tudo isso requer transparência. O Tribunal Superior Eleitoral e sua presidente, Cármen Lúcia, divulgaram, pela primeira vez, prestações de contas parciais de candidato, partidos e comitês incluindo os nomes, CPFs e CNPJs dos doadores. É um avanço.

A divulgação dessas informações pelo TSE indica que foi vencedora a tese do juiz Márlon Reis. Ele foi o primeiro magistrado brasileiro a usar a recém-promulgada Lei de Acesso às Informações Públicas (Leinfo) para exigir a divulgação antecipada dos nomes e dados dos doadores de campanha - um exemplo que saiu do interior do Maranhão para o resto do país.

Que o gosto por transparência não se limite a juízes com nomes próprios acentuados na segunda sílaba e terminados em "n".

Campanha contra. A anticampanha ganha força na corrida eleitoral paulistana. A de José Serra (PSDB) desponta nesse quesito. Primeiro, tentou associar uma proposta do adversário Fernando Haddad (PT) ao "mensalão" por prever pagamentos mensais pelo usuário de transporte coletivo. Depois, despachou centenas de "visitadores" para fazer campanha porta a porta contra Celso Russomanno (PRB).

Do ponto de vista de seu candidato, a estratégia tucana parece fazer sentido. Dono de uma taxa de rejeição malufiana (38% dizem que não votariam nele de jeito nenhum), Serra precisa piorar a imagem dos adversários para ter chances de vitória num eventual segundo turno, seja contra Haddad, seja contra Russomanno. Mas a anticampanha também implica riscos.

Se ficar associado à autoria dos ataques, Serra pode ver sua própria rejeição aumentar ainda mais. Pior do que isso: recorrer a esse tipo de tática coloca os adversários em evidência. Não deixa de ser uma maneira de aumentar a visibilidade, principalmente, de Haddad. É o que o petista mais precisa nesta altura - ainda mais se for na condição de vítima.

É um terror. Um demitido virou manchete mundial após matar ex-colega de trabalho perto do Empire State, em Nova York. Por ocorrer ao lado de um marco turístico da cidade que foi palco do maior ato terrorista da história dos EUA, o assassinato virou atentado. E foi tratado como tal pela mídia e pelos policiais, que descarregaram suas armas no assassino, mas feriram nove pedestres que nada tinham com a história. Não é só a guerra do tráfico que produz balas perdidas. A guerra ao terror também.

Biodiesel fluminense - GEORGE VIDOR


O GLOBO - 27/08

A primeira fábrica em território do Estado do Rio poderá usar microalgas como matéria-prima, uma inovação no setor

Grande parte do biodiesel consumido na região Sudeste vem do Centro-Oeste. Pelas regras atuais, as distribuidoras buscam o biodiesel diretamente nas fábricas, para depois misturá-lo ao óleo derivado do petróleo, em uma proporção máxima de 5%. Esse passeio cria dificuldades logísticas e ainda provoca queima considerável de combustível, pois o biodiesel é transportado por centenas de quilômetros (ou até milhares), em caminhões. Um investidor de Duque de Caxias, com experiência no ramo, identificou na substituição desse "passeio" uma oportunidade de negócio, e resolveu apostar numa fábrica no Rio de Janeiro. Recebeu apoio da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado e da UFRJ, e com recursos próprios investiu R$ 32 milhões na montagem de uma indústria, no município de Porto Real, que começará a funcionar em outubro, assim que obter as licenças da Agência Nacional de Petróleo (ANP).

A fábrica sozinha terá condições de abastecer todo o consumo de biodiesel no Estado do Rio, pois sua capacidade será de 100 milhões de litros por ano. Em um primeiro estágio usará diferentes tipos de óleo como matéria-prima, exceto o de mamona, cuja viscosidade não é considerada a mais adequada. A alma tecnológica dessa primeira indústria fluminense de biodiesel é a automação. Um software poderoso, patenteado no Brasil, fará o ajuste das viscosidades para se chegar ao produto final. Capitaneado por Nelson Furtado, PhD que coordena o programa de biodiesel da Secretaria, e que há anos anos participa na UFRJ de pesquisas ligadas a esse tipo de combustível, o projeto foi inovador em todas suas etapas, desde a escolha do local (aproveitando instalações de outra fábrica que não fora adiante) até a reutilização de equipamentos adquiridos por empreendedores que desistiram no meio do caminho. Com isso, o investimento diminuiu. Tem empresa conceituada, grande, que investiu três vezes mais e produz menos que o previsto para a indústria de Porto Real.

O pulo do gato será a utilização de microalgas como matéria-prima em futuro próximo. A tecnologia já foi testada em laboratório e pequena escala pela Coppe e a Escola de Química, da UFRJ. Como subproduto do óleo retirado das microalgas (que capturam também CO2 da atmosfera), haverá uma ração líquida ótima para alimentar peixes em cativeiro. Nelson Furtado estima que com esse programa de biodiesel deixarão de ser lançados na atmosfera 250 mil toneladas de gases causadores do efeito estufa, habilitando o estado a receber US$ 1,5 milhão em créditos de carbono.

Mais um megaprojeto

O que tem a ver a Festa do Peão Boiadeiro, em Barretos, com a produção de celulose no Mato Grosso do Sul? Aparentemente nada, a não ser o fato de que os últimos grandes equipamentos (turbogeradores) para uma nova fábrica em Três Lagoas estão sendo transportados por estradas que passam por essa região do interior de São Paulo. Por via das dúvidas, as autoridades policiais pediram que o transporte fosse interrompido durante a Festa, para evitar acidentes. Mas é um pequeno atraso que não impedirá o funcionamento, até o fim do ano, da enorme fábrica de celulose da Eldorado, em Três Lagoas. De uma única linha de produção, que será a maior do país, sairá cerca de 1,5 milhão de toneladas de celulose por ano. O projeto envolve o plantio de eucaliptos em 150 mil hectares de fazendas antes ocupadas pela criação de gado. Do investimento total de R$ 6,2 bilhões, R$ 800 milhões se destinaram à construção de um centro logístico e à compra de locomotivas, vagões e barcaças que transportarão os fardos de celulose por hidrovia e duas linhas de trem (ALL e MRS) até o porto de Santos, onde a Eldorado tem um terminal marítimo próprio. Cerca de 95% da produção da celulose de fibra curta serão destinados à exportação, de modo que a Eldorado já nascerá faturando mais de US$ 1 bilhão por ano, além de ser autossuficiente - na verdade, superavitária - em energia elétrica, pelo aproveitamento de biomassa.

Três Lagoas hoje é um canteiro de obras. É provável que a maioria dos dez mil trabalhadores ocupados hoje no projeto da Eldorado siga empregada, na implantação da futura fábrica de fertilizantes (ureia e amônia) da Petrobras. O investimento da Eldorado na parte florestal (orçado em R$ 900 milhões) terá de continuar, pois já no ano que vem a empresa terá de iniciar o plantio de mais 150 mil hectares se quiser cumprir a meta de dobrar a produção de celulose em cinco anos. Uma terceira etapa está projetada para 2021. Se concluído todo esse cronograma, o investimento total chegará a R$ 21 bilhões, e tornará a empresa a segunda maior produtora de celulose no país, atrás apenas da Fibria. A Eldorado é uma sociedade do grupo agropecuário J&F com os fundos de pensão Petros e Funcef. O principal executivo é José Carlos Grubisich, ex-Braskem e ex-ETH.

Despesa indisciplinada - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 27/08


A bandeira mais vistosa dos militantes pela educação é o aumento de verbas, e a opinião pública costuma aplaudir qualquer recurso adicional com essa finalidade. Dados recentes recomendam rever e aprimorar esse conceito.

Tem havido forte expansão dos gastos em educação, nos três níveis de governo. Desde meados da década passada, por exemplo, foram de 3,9% para 5,1% do PIB, nível similar ao de países desenvolvidos.

As despesas da União mostram que persiste a tendência de alta. Neste ano, o Ministério da Educação (MEC) chegou a assumir a inédita condição de pasta com maior volume de investimentos (obras e aquisição de equipamentos).

Uma parte do crescimento decorre da meritória iniciativa do Fundeb, o fundo de financiamento da educação básica ampliado para abarcar o ensino infantil e médio. Outros propulsores do gasto, contudo, flertam com o desperdício, a ineficiência e o clientelismo.

No governo federal sob o PT, saltou de 136 mil para 186 mil o quadro de docentes e técnicos administrativos das universidades federais, onde a proporção de 13 alunos por professor está entre as mais baixas do país e do mundo. Elas contam com R$ 22,5 bilhões no Orçamento atual; cinco anos atrás, eram R$ 15,9 bilhões, em valores corrigidos.

O MEC também dedica cifras crescentes a intervenções diretas no ensino básico. Decide, por conta própria e a partir de pleitos regionais, sobre miudezas como compra de móveis para escolas e reformas de quadras esportivas.

Operações do gênero, que invadem a competência federativa de Estados e municípios, preponderam no investimento recorde de R$ 6 bilhões da pasta (janeiro a julho).

Exemplos assim dão sinal do que poderia acontecer se fosse levada a sério a virtualmente irrealizável meta de aplicar 10% do PIB na educação pública, aprovada por comissão especial da Câmara.

Em vez de disciplinar despesas, Brasília produz más ideias. A última, do ministro Aloizio Mercadante, é trocar a prova em que se baseia o índice que apontou estagnação do ensino médio no país, depois que a nota dos alunos, ao contrário do gasto, parou de aumentar.

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: De olho na Copa – Polícia fecha cerco a torcidas organizadas
Folha: No maior dos massacres, ditador mata 330 na Síria
Estadão: Homicídios caem em São Paulo, após 4 meses de alta
Correio: Ensino falido, prefeito rico
Valor: Poucas empresas escapam da queda geral dos lucros
Estado de Minas: Campanha com dinheiro público
Jornal do Commercio: Faltou gol, sobrou emoção
Zero Hora: R$ 400 milhões para remodelar área da Expointer

domingo, agosto 26, 2012

Leite de Rosas - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 26/08

A tradicional loção feminina Leite de Rosas resolveu reabrir sua fábrica na Rua Ana Neri, grudada no Morro da Mangueira, no Rio.
A empresa, que tem outra unidade em Aracaju, avisou a Cabral que a volta é uma aposta na política de pacificação da UPP. Fundada em 1929, a marca já teve como garotos-propagandas Orlando Silva e Carmen Miranda.

Os nós de Dilma

Dilma ganhou do Instituto Mauá, do governo da Bahia, uma imagem de N. S. Desatadora dos Nós.
A presidente pôs a santa em sua sala de trabalho.

Lula é pop
Lula ganhou um pôster autografado de Lenny Kravitz, o cantor e multi-instrumentista americano.

Selo Pitanguy

Quem se hospeda no Hotel Carlton, em Cannes, na luxuosa Riviera Francesa, neste verão europeu, vê nos elevadores um anúncio curioso.
Diz que o spa do hotelzão mais famoso do Sul da França tem "selo de qualidade do cirurgião Ivo Pitanguy'.’

‘The book is on the table’
Veja como alguns cursos lá fora são disputados por brasucas.
Está com fila de espera um cursinho de inglês, nas férias de julho de 2013, em Harvard, a vetusta universidade americana. Custa US$ 4 mil por duas semanas de aulas.

No mais
O fato da semana, a meu ver, foi o voto de Ricardo Lewandowski, reconhecendo que dinheiro público abasteceu o mensalão do PT.
Vindo de quem veio, é um duro golpe no discurso lulista de que tudo não passou de uma prática comum na política, o caixa dois.

O DOMINGO É...
...de Luana Piovani, que completa 36 anos quarta-feira agora. A bela e polêmica atriz paulista vai voltar em breve à telinha. Luana começou, semana passada, a gravar suas primeiras cenas na nova versão da novela “Guerra dos sexos”, de Sílvio de Abreu, que entrará no ar no horário das 19h. Será Vânia, a sedutora e exuberante executiva da rede de lojas Charlo’s, que enlouquecerá os homens - especialmente Felipe, personagem de Edson Celulari. Que seja feliz.

Anos rebeldes
Bethy Lagardère, a milionária, quem diria?, também tem histórias para contar dos anos rebeldes da ditadura militar.
Procura em seu Facebook antigos amigos da turma de 1968 da Escola Estadual Helena Guerra, em Belo Horizonte, que, como ela, tenham sido expulsos ou convidados a se retirar.

Aliás...
Pelo visto, mestre Verissimo tem razão quando fala da existência de um grupo subversivo chamado "Socialites Socialistas’!
Com todo o respeito.

E a vida continua

Os filmes espíritas, que colecionaram sucessos de público, como "Chico Xavier” e "Nosso lar’,’ estão de volta ao país da fé.
"E a vida continua’,’ de Paulo Figueiredo, que estreia dia 14 de setembro, promete bombar.

Segue...

O longa, com Lima Duarte no elenco, é baseado em livro homônimo atribuído ao espírito André Luiz, psicografado por Chico Xavier.

Corrida do Rio
Em reunião sexta no Palácio da Cidade, Eduardo Paes, Sérgio Cabral e o francês Jean Todt, presidente da Federação Internacional de Automobolismo, acertaram que o Rio vai receber, em 2014, uma corrida de Formula E, só com carros elétricos, que chegam a 260 km/h.
A prova sustentável será no Aterro do Flamengo. Além do Rio, farão parte do circuito metrópoles como Paris e Nova York, entre outras.

PIB da eleição
Veja como a economia se mexe nestes dias de eleição. Uma produtora carioca queria cobrar R$ 1,5 milhão para gravar o miúdo horário eleitoral gratuito do noviço PSD.
O ex-deputado Índio da Costa, presidente local do partido, optou por contratar diretamente um cinegrafista e um iluminador.

A desequilibrada

A 2? Turma Recursal Criminal do Rio julga amanhã apelação da delegada Daniela Rebelo, derrotada, em primeira instância, numa ação por desacato e injúria movida contra Cristina Mortágua.
O conflito entre a policial e a ex-modelo ocorreu no dia 7 de fevereiro de 2011, na 16? DP, na Barra, quando um filho de Mortágua dava queixa contra a mãe.

Segue...
Cristina foi absolvida ao alegar que não estava bem da cabeça.
Justiça aceitou a tese da defesa, segundo a qual a ex-modelo tomava "grande quantidade de remédios e se encontrava em total desequilíbrio, sem poder responder por seus atos”

Cofrinho da Monalisa

Heloísa Périssé, que faz sucesso como a Monalisa de "Avenida Brasil’,’ a novela da TV Globo, enche o cofrinho.
É a mais nova garota-propaganda da Embelleze, a indústria de produtos de beleza mais populares.

Monopólio indefensável - EDITORIAL FOLHA DE SP



FOLHA DE SP - 26/08


A seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) tenta transformar um direito essencial, o do acesso de cidadãos à defesa jurídica mesmo quando não tenham recursos para contratá-la, em um monopólio corporativista.

Durante anos uma lei estadual obrigou a Defensoria Pública de São Paulo, que deveria fazer esse atendimento, a manter um convênio exclusivo com a OAB para suprir advogados a cidadãos não atendidos pelo poder público.

É verdade que São Paulo implementou de maneira tardia e insuficiente sua Defensoria Pública. Até o início do ano, ela não atingia mais do que 10% das comarcas do Estado. Mas, obrigada a contratar profissionais indicados pela OAB, a Defensoria passou a gastar mais com eles do que com seus quadros.

Em março, o Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional o convênio obrigatório. Isso permitiu à Defensoria investir na própria ampliação e fazer acordos com universidades e escritórios, por exemplo, se necessário.

Em vez de acatarem a sensata decisão, advogados paulistas insistem na defesa de privilégios. Patrocinaram proposta de emenda constitucional que, aprovada, reestabeleceria -nacionalmente- o convênio exclusivo com a OAB.

A reserva de mercado para assistência jurídica aos "necessitados", como diz a proposta em tramitação no Congresso, também orienta normas internas da OAB-SP, que opõem obstáculos à advocacia gratuita, "pro bono": defender sem cobrar quem não tem recursos para contratar advogado representaria "concorrência desleal" e "captação de clientela" -a qual se quer manter vinculada a profissionais indicados pela OAB, de olho nos desembolsos da Defensoria.

A seção paulista da OAB não p
arece perceber o dano que causa à própria imagem com essa campanha para manter o monopólio de defesa dos desvalidos. Caso contrário, desistiria de solapar o fortalecimento da Defensoria Pública.

As “Marinas” de 2012 - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 26/08

Em política, muitas vezes os movimentos são provocados mais por protestos ou ódios acumulados do que propriamente posições ideológicas ou avaliações racionais. Seja da parte dos eleitores, seja pelos próprios políticos. No caso do eleitorado, atitudes passionais ajudaram, por exemplo, a levar Marina Silva a uma boa performance na sucessão presidencial.

Hoje, é possível verificar essa passionalidade relacionada à política em dois movimentos, um em São Paulo e outro em Brasília. O mais visível é o de São Paulo, onde Celso Russomanno, do PRB, aparece como favorito sem nunca ter administrado a cidade nem dispor de um grande “padrinho”. Para completar, tem um pequeno partido, o que lhe deixa com um tempo bem menor na tevê em relação aos demais.

Russomanno é a “Marina de São Paulo”, como bem definiu um amigo na última quinta-feira. Seu poder de sedução está diretamente relacionado a algo que embalou o fôlego da ex-senadora Marina Silva na campanha presidencial: a insatisfação e a rejeição de parte expressiva do eleitorado ao PT e ao candidato José Serra. Russomanno tem segurado a seu lado grande parte de votos do PT da mesma forma que Marina “pegou” muitos votos de Lula em 2010. Mas a onda Marina não foi suficiente para levá-la a um segundo turno, especialmente, porque não tinha tempo de tevê e nem a experiência administrativa que carregavam José Serra e Dilma Rousseff.

Resta saber o que os paulistanos escolherão: segurar o protesto até o fim, levando Russomanno a um segundo turno, ou voltarão ao embate PSDB versus PT, em outubro. No momento, qualquer aposta fechada num ou noutro caminho é um chute tão grande quanto jogar todas as fichas numa candidatura única a presidente da Câmara dos Deputados para substituir Marco Maia. Vem aí uma “Marina” para atrapalhar os planos do PMDB.

A “Marina” da Câmara

Enquanto o noticiário político em Brasília se mantém focado no desenrolar da Ação Penal 470, o mensalão, grupos de deputados aproveitam a calmaria do Congresso nos esforços concentrados para preparar o próximo embate, a disputa pelas presidências do Poder Legislativo. O primeiro movimento veio do PT, que, no início de agosto, fechou o apoio ao líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), para presidir a Câmara. Desde então, nem tudo tem sido festa para Henrique Alves em seus jantares em busca de votos.

Na última semana, por exemplo, Alves chegou a um encontro de deputados do PSD em Brasília acompanhado do vice-presidente Michel Temer e do deputado Sandro Mabel (PMDB-GO) — companhia constante de Henrique ultimamente, interessadíssimo em herdar o comando da bancada do PMDB na Casa. O líder passou pelo constrangimento de ouvir de alguns deputados do PSD que o assunto só será decidido depois da eleição municipal. Houve quem mencionasse inclusive o possível surgimento de outros candidatos.

No dia seguinte ao jantar dos peemedebistas, o quarto secretário da Câmara, deputado Júlio Delgado (PSB-MG), foi chamado para um almoço com um grupo de políticos. Juntos, começaram a analisar o futuro da Casa. Obviamente, essa inclusão de Júlio Delgado no jogo traz embutido o desejo de PSB e PSD de quebrar a aliança PT-PMDB para 2014 — como, aliás, já dissemos aqui.

Mas, além disso, da mesma forma que há entre os paulistanos uma rejeição ao embate PT versus PSDB, existe entre os deputados uma vontade de protestar contra o poder absoluto do PMDB e do PT no Legislativo federal. Esses dois partidos hoje definem tudo no Congresso. E é nesse sentido que Júlio Delgado desponta nesse universo de 513 eleitores como a “Marina da Câmara”. Se ganhar fôlego, dará trabalho ao PT e ao PMDB, como Marina deu em 2010, e Celso Russomanno, nesta eleição municipal.

Por falar em trabalho...

A decisão da presidente Dilma de chamar os grevistas “de sangue azul” e se mostrar firme na decisão de conceder apenas os 15,8% trouxe mais alguns pontinhos à sua popularidade. As pesquisas internas de alguns partidos confirmam a tendência de a população ficar ao lado de Dilma, contra os grevistas. Mais um limão que ela transformou em limonada.

Em Marte - LUIZ FERNANDO VERISSIMO

O ESTADÃO - 26/08


A Nasa está escondendo, mas a tal sonda-robô mandada a Marte já encontrou sinais de vida no planeta vermelho. Mais do que sinais de vida, encontrou um ser vivo. Mais do que um ser vivo, encontrou vários seres vivos, que, no momento, cercam o artefato que pousou entre eles de surpresa e tentam comunicar-se com ele. A Nasa tem censurado as fotos mandadas pelo robô em que aparecem os marcianos à sua volta e está tentando interpretar o que eles dizem, numa língua que parece o ídiche com mais consoantes.

Até agora os técnicos da Nasa conseguiram decifrar apenas alguns trechos do que os marcianos estão dizendo para o robô e comentando entre si. Já identificaram frases inteiras, como: “Alô, como é seu nome?”, “De onde você veio?” e “Quem vai pagar este estrago no meu quintal?”.

Os marcianos parecem amistosos, mas ficam cada vez mais impacientes com o laconismo do robô, que não responde nem a perguntas simples como “Você quer água?” ou “Tem fome?” ou “Precisa ir ao banheiro?”.

Os marcianos estão perto de concluir que o estranho em seu meio vem de um planeta em que ainda não desenvolveram a fala, o que dirá a boa educação. Comentam a aparência física do estranho.

– Rodas em vez de pernas. Interessante.

– Odiei a roupa.

– Como será que eles se reproduzem?

– Só você para pensar nisso...

– Curiosidade científica!

– Devem usar esta haste com uma bola na ponta.

– Não, isso é o olho.

– Vocês já notaram que até agora ele não piscou?

– Deve estar aterrorizado. Não sabe onde veio cair.

– Vamos fazer uma demonstração de paz, para ele sentir que está entre amigos. Atenção: abraço coletivo. Todo mundo. Iei!

– Cócegas não, que ele pode ficar irritado.

– Vocês viram só? Nenhuma reação.

– Ele parece uma máquina!

O consenso entre os marcianos é que o ser que caiu do céu vem daquele planeta azul que eles chamam de Schlops, que – isto é pura especulação dos tradutores da Nasa – também é a palavra deles para “titica”.

Os marcianos nunca tiveram muito interesse em conhecer melhor o planeta azul e agora, depois da experiência ruim com aquele seu antipático representante, têm menos interesse ainda. Não querem nem imaginar como são seus semelhantes.

Decidem levar o visitante para um hospital, para ele se recuperar do choque, se alimentar e, se possível, começar a se comportar com um pouco mais de civilidade. Só quem protesta é o dono do terreno onde o estranho pousou.

– Quero ver quem vai pagar os estragos no meu quintal!

Público e privado - AMIR KHAIR

O Estado de S.Paulo - 26/08


Após sucessivos pacotes, o governo faz mais uma tentativa para ativar a economia, lançando o primeiro programa de estímulo à logística nos modais de transporte rodoviário e ferroviário. Em breve sai outro contemplando os modais portos e aeroportos.

Esses programas passam a execução de obras e a operação dos modais para empresas privadas sob a forma de concessão.

Algumas análises afirmam que, agora sim, o governo acertou na estratégia para o crescimento econômico, pois irá priorizar o investimento ao invés do consumo. E mais, sendo tocados pela iniciativa privada têm a vantagem de ser realizado a custo e prazo inferior e, suprir a falta de recursos do governo.

1. Sem ilusões. Esses programas, embora necessários, tem impacto no longo prazo, pois faltam atacar detalhes e realizar licitações. Assim, só começarão a aparecer no segundo semestre de 2013.

O governo já perdeu dois anos de crescimento por ser pautado em 2010 e 2011 pelas análises do mercado financeiro, que vivem ameaçando com o fantasma da inflação. Arrisca-se a errar de novo se ficar parado aguardando os resultados desses programas.

2. A saída imediata. O que interessa para garantir bom crescimento em 2013 e sua continuidade é o aproveitamento do potencial de consumo, que está emperrado pelas altas taxas de juros bancárias (nada a ver com a Selic). O que importa para destravar o consumo não é pedir aos bancos que ampliem a oferta de crédito, como fez o governo, mas sim induzi-los (sem pedir) a baixarem as ainda escorchantes taxas de juros para as pessoas e empresas. O governo sabe como fazer isso, mas ainda não fez: reduzir e tabelar as tarifas bancárias e até o fim do ano posicionar a Selic em 5% (nível dos países emergentes). Essas duas fontes de lucros dos bancos se reduzidas, os levam a compensar no aumento da oferta de crédito, com redução de juros que interessa.

Segundo a Anefac, que acompanha as taxas de juros praticadas pelos bancos, a taxa média à pessoa física em julho foi de 104,0% ao ano e à pessoa jurídica, 51,6%, sendo ambas as mais baixas da série histórica desde 1999 (!). Esse é o verdadeiro freio ao crescimento. É bom sempre repetir: se não for removido esse freio, adeus 2013 e 2014, mesmo com bons e necessários programas de logística e infraestrutura.

Vale analisar os argumentos de passar para a iniciativa privada o que antes é mal feito pelo governo, quanto à falta de recursos para investir e os maiores prazos e custos operados por ele.

Sem cair no debate ideológico que essa questão envolve, impõe-se considerações e informações do que vem caracterizando as realizações de responsabilidade pública entregues ou não à iniciativa privada.

3. Falta de recursos. O argumento da falta de recursos é válido para todas as áreas de atuação, especialmente para a social, onde o déficit é elevado e sacrifica a maioria da população. Mas, a falta de recursos é por pouco tempo, pois: a) a redução da Selic vai permitir economizar mais de R$ 100 bilhões por ano; b) com o crescimento acima de 4% ao ano, a arrecadação tende a crescer de 3% a 4% acima do PIB pela redução da inadimplência; c) a arrecadação cresce acima de 1% real devido à melhoria das máquinas fazendárias; e d) se usar corretamente suas estatais, sem os nefastos populismos na fixação de preços, como no caso da Petrobrás, os dividendos crescerão , contribuindo ainda mais para a ampliação dos recursos. Os recursos existem e não vão faltar e, só dependem do governo.

4. Prazos. O setor público trabalha com o freio de mão puxado. Leis, decretos e portarias amarram a ação governamental. Infringir qualquer dispositivo desse emaranhado de regras pode sujeitar o infrator a multas até penas de reclusão. O servidor, com receio da eventual punição, procura se defender não dando seu parecer no processo, encaminhando-o para outro órgão opinar. E assim vai...

O medo do erro e o cipoal legislativo são as principais razões para o atraso na tramitação burocrática de qualquer processo. Isso pode ser bastante aprimorado caso o governo dê importância ao combate ao excesso burocrático. Para isso deve adotar o princípio de que todo cidadão é honesto salve prova em contrário. É o princípio da desburocratização. Enquanto isso não for realidade é necessário estabelecer prazos máximos de tramitação para todo tipo de processo. Por exemplo: aprovação de planta para execução de obra: prazo 30 dias. Vencido o prazo está aprovada, ficando a fiscalização do cumprimento das regras a posteriori.

5. Custos. Podem ser para: compras de bens, prestação de serviços e obras. Para compras, os custos dependem da modalidade de aquisição. Se adotado o pregão eletrônico ou presencial (cada vez mais usado), os preços estão abaixo da média do mercado e, como em geral as quantidades adquiridas são grandes, os preços baixam mais ainda, permitindo preços até melhores que na iniciativa privada quando adquire quantidades menores que no setor público. Impõe-se avançar cada vez mais nessa direção.

A maior parte dos serviços é padronizada e passível de licitar pelo sistema de pregão. Para os demais casos o que determina é o custo da mão de obra, em geral cerca de 80% do total. Esse custo depende do salário e da produtividade. Para órgãos que adotam salários a nível de mercado e têm boa gestão de pessoal os custos podem se equiparar aos da iniciativa privada.

Os da iniciativa privada podem ser mais caros, caso o governo não fiscalize adequadamente o contrato, fato comum no setor público. A precária fiscalização é um convite à prática de superfaturamento. Infelizmente o governo não se equipa para fazer diretamente e contrata o setor privado sem fiscalizá-lo. Quem paga a conta dessa irresponsabilidade é o contribuinte. Nas obras, repete-se o mesmo que para serviços, quando predominam despesas com mão de obra, mas caso o peso dos materiais é determinante, o setor público pode ter custos competitivos, pois pode comprar a preços melhores dado o seu porte.

Em grandes obras há que se tomar cuidado, pois o setor privado opera com poucas empresas onde a ocorrência de superfaturamento é bem conhecida.

Diante dessas considerações creio que o avanço econômico irá se dar no interesse da sociedade, quando atribuição de interesse público entregue ao setor privado seja obrigatoriamente acompanhada de adequada fiscalização e seu custo de implantação e execução for melhor do que os do governo.

Para que a atribuição seja realizada diretamente pelo governo é necessário que ele esteja devidamente aparelhado para executá-la com custos e prazos melhores que os do setor privado. Infelizmente são raros os casos em que órgãos do setor público cumprem o que determina a Lei de Responsabilidade Fiscal, que é ter sistema de custos, o que permitiria as decisões que importam.

Finalmente chega de demonizar ou de endeusar o setor privado e o governo. Impõe-se aprofundar o debate para se obter o maior proveito do que cada um tem de melhor.

Corpo interditado - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 26/08


Estava num café esperando por uma amiga. Enquanto o tempo passava, fiquei observando o ambiente. Outra mulher estava sozinha a poucas mesas de distância, também esperando alguém atrasado. O atrasado dela chegou antes da minha. Vi quando ela se levantou para cumprimentá-lo. Deram-se dois beijinhos.

Os dois beijinhos mais vacilantes e constrangedores que podem ocorrer entre um casal. Talvez fosse delírio meu, mas tenho quase certeza de que eram ex-amantes, ex-namorados, ou um ex-marido e uma ex-esposa que haviam terminado a relação poucos dias atrás, no máximo alguns meses atrás.

É uma cena clássica. Depois de anos de amor e intimidade, a relação se desfaz. Os dois juram nunca mais se ver, odeiam-se por algumas semanas, até que um dia surge uma pendência para ser conversada, ou simplesmente resolvem tomar um drinque para provar ao mundo que a amizade prevaleceu, essas cenas aparentemente civilizadas que trazem significados ocultos.

Ou pior: encontram-se sem querer num estacionamento no centro da cidade, num corredor de shopping, num quiosque do mercado público. Você aqui? Que surpresa. E os dois beijinhos saem de uma forma tão desengonçada que seria motivo pra rir, não fosse de chorar. Eles não se possuem mais fisicamente.

Interdição do corpo. Um dos troços mais sofridos de um final de relacionamento, que só se vai experimentar depois de um tempo afastados. Uma coisa é você ficar racionalizando sobre o desenlace trancafiada no quarto, ele ficar ruminando sobre as razões do rompimento enquanto trabalha.

Uma coisa é você chorar durante o banho para disfarçar os olhos inchados, ele falar mal de você em bares, fingindo que se livrou da Dona Encrenca. Uma coisa é você consultar uma cartomante a fim de acreditar em dias mais promissores, ele sair com umas lacraias bonitinhas pra provar que te esqueceu.

Outra coisa é quando os dois se encontram, cara a cara, depois de semanas ou meses apenas se imaginando.

Ele está ali na sua frente. Mas você não pode agarrar seus cabelos, não pode passar a mão no seu peito, não pode rir de uma piada interna que só pertence aos dois, porque está oficializado que nada mais pertence aos dois.

Ela está ali na sua frente. Mas você não pode mais dar uma beliscadinha na sua bunda, não pode mais beijá-la na boca, não pode mais dizer uma bobagem em seu ouvido, porque está oficializado que ela agora é apenas uma amiga, e não se toma esse tipo de liberdade com amigas.

Depois de terem vivido, por anos, a proximidade mais libidinosa e abençoada que pode haver entre duas pessoas apaixonadas, vocês agora estão proibidos ao toque. Não se amam mais, é o que ficou decretado. Logo, os códigos de aproximação mudaram.

Você dará dois beijinhos na mulher que tantas vezes viu nua, como se ela fosse uma prima. Você dará dois beijinhos no homem para quem tanto se expôs, como se ele fosse um colega de escritório. Esses dois beijinhos doerão mais do que um soco do Mike Tyson.

O corpo interditado. Você não pode mais tocá-lo, você não pode mais tocá-la. O definitivo sinal de que o fim não era uma ilusão.

E a CPI do Cachoeira? - DANUZA LEÃO

FOLHA DE SP - 26/08


É inacreditável: alguns, assim que convocados, já entram com pedido de habeas corpus



O JULGAMENTO do mensalão demarrou -enfim-, mas a CPI do Cachoeira continua em ponto morto. Não é segredo para ninguém que há uma blindagem para que ela não prossiga, com o propósito claro de não salpicar lama no governador Sérgio Cabral. Mas já salpicou.

No Brasil com tantas leis, tantas brechas, tantas filigranas que qualquer advogado de porta de xadrez encontra para proteger seus clientes ou postergar os julgamentos, será que não existe nenhuma possibilidade que impeça os convocados de ficarem calados quando interrogados, como permite a Constituição?

É inacreditável: alguns, assim que convocados, já entram com pedido de habeas corpus antes do comparecimento, para ter o direito de não falar; e se ninguém fala, não há CPI que prospere.

Se os convocados tivessem que jurar sobre a Bíblia, como se vê nos filmes americanos, também não adiantaria: eles mentiriam com a cara mais limpa, como aliás fizeram todos os réus do mensalão. E como o mensalão é a grande novela do momento, fala-se pouco da CPI do Cachoeira.

Com a abertura do sigilo bancário da Delta, de muita coisa vai se saber, mas como os interessados em que nada apareça são maioria na CPI -afinal, o governador do Rio é assim, ó, com a presidente Dilma-, já se sabe que, quando Cavendish aparecer para depor, vai fazer como todos os outros fizeram até agora, isto é, vai entrar mudo e sair calado; se ele for, claro. Isso é um escárnio, seja o convocado do PT, do PSDB ou do PMDB. É simples: eles têm que falar.

Será que não há um jurista, um advogado, um senador, uma autoridade, enfim, que encontre uma maneira de obrigá-los a responder às perguntas? Eles pensam que o episódio grotesco da dança em Paris, com os guardanapos na cabeça, já foi esquecido, e o governador segue a linha Lula: se esconde e não diz uma só palavra.

Pensa que os eleitores se esquecem, e vai ver, tem razão. Vide Maluf; não tem gente que ainda vota nele? E por que não abrem as contas bancárias da Delta, como forçar para que isso aconteça?

Afinal, nunca se ouviu falar de uma empreiteira que tenha conseguido fazer tantas obras em tantos Estados do país.

Cavendish sumiu do mapa, ninguém sabe, ninguém viu. Não é mais presidente da Delta, não é mais visto em lugar algum.

Se ele não falar, como os outros fizeram até agora, vai dar razão a quem diz que trata-se de uma máfia, cujo código de honra é o silêncio, a famosa "omertá". É só lembrar de Don Corleone, no "Poderoso Chefão". Quem será o "capo"?

Enquanto escrevo, acompanho pela televisão o voto do ministro Ricardo Lewandowski, ex-vice-diretor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, com sua toga de veludo, que já absolveu João Paulo Cunha, até agora, de dois crimes.

Nenhuma surpresa: o Brasil inteiro já intuía como seria o voto do ministro.

Voltando à CPI do Cachoeira: não é possível que se ouça, também de Cavendish, o que já virou chavão: "Segundo a Constituição, vou usar do meu direito para não responder".

Não pode, ou melhor, não deveria poder. Tem que responder.

Cenas da miséria americana - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 26/08


De cada sete americanos, um tem ajuda federal para comer; pedidos de auxílio cresceram 70% desde 2007

A MOÇA bonita anuncia na TV empréstimos de até US$ 10 mil, "sem burocracia". Tem uma trança única jogada sobre o peito. Pocahontas. De certo modo, é mesmo Pocahontas: a agência de empréstimos é a "primeira firma financeira 100% 'native-american'" (como se chamam os índios por aqui).
A bela Pocahontas chama a atenção na torrente de anúncios de negócios que veem oportunidade na miséria americana, quase todos iguais. Um comercial de TV atrás do outro oferece dinheiro fácil para remendar o orçamento das famílias.
Disputam lugar com os tradicionais anúncios de firmas de advogados que oferecem vitórias e dinheiro em casos de acidentes de trânsito, erros médicos, remédios podres e coisas assim.
Agora há uma série de empresas a oferecer empréstimos e/ou advogados a fim de evitar despejos, epidemia que explodiu com a bolha imobiliária.
Outras oferecem seguros para cobrir despesas que o seguro saúde não cobre (sim, é o seguro do seguro). Ou para cobrir despesas descobertas pela assistência estatal à saúde de velhos e crianças deficientes (o Medicare).
Mais ou menos um de cada sete americanos depende de assistência do governo federal para comer.
São cerca de 46,5 milhões de pessoas no programa "Food Stamps" (cupons de comida), uma espécie de Fome Zero criado pelo governo Roosevelt (Democrata) em 1939. O número de americanos no Fome Zero cresceu cerca de 70% desde 2007.
O Partido Republicano quer dar cabo do que puder em termos de assistência pública à saúde (Medicare, Medicaid) e do Food Stamps. Barack Obama, o fraco, aprovou um modesto plano de saúde oficial para os mais pobres. Mas quase metade dos americanos quer que os mais pobres se estrepem.
Parlamentares republicanos já pediram o corte de metade da despesa do programa de alimentação, que foi de US$ 76 bilhões no ano passado (custo de oito Bolsas Família).
Os republicanos querem menos impostos para ricos. Os anúncios eleitorais de Obama martelam o fato de que Mitt Romney, candidato dos republicanos, pagou apenas 14% em Imposto de Renda em 2010.
Os americanos comuns, classe média, pagam muito mais, para lá de 20%. Isso quando têm dinheiro: a TV também está cheia de anúncios de firmas que oferecem serviços de acertos de contas com IRS, a Receita Federal daqui.
A renda média das famílias que recebem Food Stamps é de (aqui) miseráveis US$ 783. A linha de pobreza oficial americana é US$ 1.542 por mês para uma família de três pessoas.
Uma empregada doméstica brasileira aqui na região de Boston consegue ganhar mais do que isso por mês -isto é, pode receber uns US$ 12 por hora. Um caixa do Walmart ganha, em média, US$ 8,50.
O salário médio americano no setor privado é de US$ 23,50 por hora. Está quase estagnado faz cinco anos. A desigualdade cresce faz mais de duas décadas.
Quase metade dos americanos acha que Obama, o fraco, é socialista, ou coisa pior. Logo ele, com seus economistas de Wall Street.

Tigres & onças - HUMBERTO WERNECK


O Estado de S.Paulo - 26/08


Em mais de uma ocasião já desfiei (se você perdeu, dou-lhe uma segunda chance nas páginas de O Espalhador de passarinhos & Outras crônicas) lembranças da minha boa vida de Playboy, a mais manuseada revista brasileira.

Entre outros excitantes temas, falei da massa de literatura pretensamente erótica que na qualidade de redator-chefe me cabia desbastar, e em meio à qual certa vez me deparei com um relato torrencial - exaustivo (em todos os sentidos) Kama Sutra enviado à redação, sob pseudônimo, evidentemente, por uma senhora acima de qualquer suspeita que morava no meu prédio. (Não, não foi publicado, nem a autora passou pela vergonha de saber que sua prosa fora lida pelo vizinho do segundo andar.)

Contei também da peleja que podiam ser as tratativas com uma entidade comparável à "mãe de miss": o marido da mulher pelada. Nessa refrega, benza Deus, pouco me envolvi. Houve um episódio que deixei de fora. Por determinação do Juca Kfouri, então meu chefe, liguei para a Thereza Collor, com quem acabara de fazer reportagem de capa para a revista Elle - e, constrangido, convidei a cunhada do presidente a desvelar prendas recônditas nas páginas da Playboy. Desconfio que Pedro, o maridão, pagou o mico de ouvir minha proposta pelo viva-voz.

- Tô pensando nisso não, Humberto... - encerrou com voz molenga a ainda hoje linda Thereza.

Mais sorte tive com a não tão bela Alina Fernández - até porque a moça, que se casava muito, surpreendentemente estava sem marido, além de brigada (como continua) com papai Fidel Castro. Mas já se falou demais desse ensaio, feito pelo Duran em Roma e, para meu desgosto, abortado em nossa redação.

A quem não gostou daqueles meus relatos, lamento informar que estou longe de ter esgotado o assunto. Até agora não tratei, por exemplo, do destampatório que aprontou comigo, pelo telefone, um advogado de Joinville (ou Chapecó?) por causa de um acidente editorial que de todos passou despercebido, menos daquele atento causídico: a inversão de uma imagem fez com que uma pinta de uma louraça americana migrasse para o outro seio. "Um desrespeito!" - perorou o irado consumidor, sem se dar conta do involuntário trocadilho. Tive que me conter para não lhe sugerir que aproveitasse a mudança de lado para explorar aptidões de ambidestro.

Igualmente não falei das cartas, mais adiante e-mails, que a nós chegavam. Não eram poucas, longe disso, mas na hora de selecionar algumas para publicação, a gente penava. A cada mês eu via confirmar-se minha impressão de que, na imprensa em geral, o leitor não o é. No caso da Playboy, então, mais próprio seria falar em "vedor".

Nossa caprichada ração mensal de mulher nua suscitava uma quantidade razoável de manifestações escritas - bem poucas, porém, vazadas em linguajar publicável. O que me levou, devo agora confessar, a duas ou três vezes escrever eu próprio uma cartinha, sob pseudônimo, é claro, que nem a minha vizinha erótica. Se bem me lembro, cheguei mesmo a estabelecer uma discussão, em edições consecutivas, entre dois leitores fictícios. Mais um pouco e teria sido obrigado a apartar uma briga entre eles.

Boa parte da correspondência, invariavelmente assinada com iniciais e portadora de súplicas para que nada se publicasse, vinha de moços inconformados com as dimensões, que consideravam insuficientes, daquela porção crucial de sua anatomia. Não era difícil imaginar a desolação com que eles confrontavam o espelho, depois de terem se esbaldado em filmes ou revistas onde se exibem garanhões desmesurados.

De nada adiantaria argumentar que o tamanho etc. etc. etc. (chegamos a fazer matéria em tom próximo da autoajuda), até porque muitos de nossos aflitos vedores já começavam pedindo que não viéssemos com essa conversa. Que fazer? - diria Lênin. Tocar um tango argentino, como no poema de Manuel Bandeira? Até hoje não sei como o exasperado redator-chefe resistiu à tentação de recomendar à tigrada que fosse cutucar uma onça com o que tivesse à mão.

Conversa fiada - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 26/08


Como privatização é "crime", Dilma pôs o nome de "concessão" e impôs uma série de exigências



Sabe a razão pela qual a empresa estatal dificilmente alcança alto rendimento? Porque o dono dela -que é o povo- está ausente, não manda nela, não decide nada. Claro que não pode dar certo.

Já a empresa privada, não. Quem manda nela é o dono, quem decide o que deve ser feito -quais salários pagar, que preço dar pela matéria-prima, por quanto vender o que produz-, tudo é decidido pelo dono.

E mais que isso: é a grana dele que está investida ali. Se a empresa der lucro, ele ganha, fica mais rico e a amplia; se der prejuízo, ele perde, pode até ir à falência.

Por tudo isso e por muitas outras razões mais, a empresa privada tem muito maior chance de dar certo do que uma empresa dirigida por alguém que nada (ou quase nada) ganhará se ela der lucro, e nada (ou quase nada) perderá se ela der prejuízo.

Sem dúvida, pode haver, e já houve, casos em que o dirigente de uma empresa estatal se revelou competente e dedicado, logrando com isso dirigi-la com êxito. Mas é exceção. Na maioria dos casos, indicam-se para dirigir essas empresas pessoas que atendem antes a interesses políticos que empresariais.

Isso sem falar nos casos -atualmente muito frequentes- de gerentes que estão ali para atender a demandas partidárias.

Tais coisas dificilmente ocorrem nas empresas privadas, onde cada um que ali está sabe que sua permanência depende fundamentalmente da qualidade de seu desempenho. Ao contrário da empresa estatal que, por razões óbvias, tende a se tornar cabide de empregos, a empresa privada busca o menor gasto em tudo, seja em pessoal, seja em equipamentos ou publicidade.

E não é por que na empresa

privada reine a ética e a probidade. Nada disso, é só porque o capitalista quer sempre despender menos e lucrar mais. Não é por ética, é por ganância.

A empresa pública, por não ser de ninguém -já que o dono está ausente- é "nossa", isto é, de quem a dirige, e muitas vezes ali se forma uma casta que passa a sugá-la em tudo o que pode.

A Petrobras pagava a funcionários seus, se não me engano, 17 salários por ano e o Banco do Brasil, 15. Os funcionários da Petrobras gozavam também de um fundo de pensão (afora a aposentadoria do INSS), instituído da seguinte maneira: cada funcionário contribuía com uma parte e a empresa, com quatro partes.

Conheci um desses funcionários que, depois que se aposentou, passou a ganhar mais do que quando estava na ativa. Numa empresa privada, isso jamais acontece, não é? No governo Fernando Henrique aquelas mamatas acabaram, mas outras continuam.

Não obstante, o PT sempre foi contra a privatização de empresas estatais, "et pour cause". Lembram-se da privatização da telefonia? Os petistas foram para a rua denunciar o crime que o governo praticava contra o patrimônio público.

Naquela época, telefone era um bem tão precioso que se declarava no Imposto de Renda. Hoje, graças àquele "crime", todo mundo tem telefone, e a preço de banana.

Mas o preconceito ideológico se mantém. Os governos petistas nada fizeram para resolver os graves problemas estruturais que comprometem a competitividade do produto brasileiro e impedem o crescimento econômico, já que teriam de recorrer à privatização de rodovias e ferrovias.

Dilma fez o que pôde para adiá-la, lançando mão de medidas paliativas que estimulassem o consumo, mas chegou a um ponto em que não dava mais.

O PIB vem caindo a cada mês, o que a levou à hilária afirmação de que, mais importante, era o amparo a crianças e jovens... Disse isso mas, ao mesmo tempo, mandou que seu pessoal preparasse às pressas -já que as eleições estão chegando- um plano para a recuperação da infraestrutura: investimentos que somarão R$ 133 bilhões em 25 anos. Ótimo.

Como privatização é "crime", pôs o nome de "concessão" e impôs uma série de exigências que limitam o lucro dos que investirem nos projetos e, devido a isso, podem comprometê-los.

Nessa mesma linha de atitude, afirmou que não está, como outros, alienando o patrimônio público. Conversa fiada. A Vale do Rio Doce, depois de privatizada, tornou-se a maior empresa de minério do mundo e das que mais contribuem para o PIB nacional. Uma coisa, porém, é verdade: cabe ao Estado trazer a empresa privada em rédea curta.

A lei acima de tudo - CARLOS HEITOR CONY

FOLHA DE SP - 26/08


RIO DE JANEIRO - Amanhã, teremos tempo quente no Supremo, com relator e revisor do mensalão numa saia justa, o primeiro condenando e o segundo absolvendo os mesmos réus e pelos mesmos motivos. Os pareceres até agora apresentados parecem perfeitos -leis, decretos, parágrafos, incisos, páginas e páginas citadas-, só as conclusões são opostas. Isso me faz lembrar Jonathan Swift, que citei em crônica da semana que encerrou.

Gulliver foi dar numa ilha estranha, habitada por liliputianos, pigmeus divididos em duas tribos que viviam uma guerra feroz, sanguinária. O rei de uma das tribos queria que o gigante (para eles) lutasse contra os seus inimigos. Gulliver quis saber o motivo da guerra.

O rei explicou: "Nós todos comemos um ovo quente no café da manhã. Acontece que o meu povo corta os ovos pela parte de cima, a mais estreita; nossos inimigos cortam os ovos pela parte de baixo, a mais grossa. Uma afronta que dura 800 anos!".

O "gigante" perguntou: "Mas não há uma lei que estabeleça como os ovos devem ser cortados?".

O rei pareceu indignado: "Mas claro que há! Está no primeiro artigo de nossa Constituição!".

E informou, com real autoridade: "O artigo é claro. Há 800 anos ninguém ousou reformá-lo. Nele está escrito com todas as letras: 'Os ovos devem ser cortados de maneira certa!'".

Swift foi deão da catedral de Dublin. O livro "Viagens de Gulliver" marca um momento da língua inglesa e é considerado uma das dez maiores obras-primas da literatura universal. Machado de Assis o lia todos os anos e lhe herdou o estilo e a sátira.

Os ministros do STF são homens de "notável saber jurídico". Bem podiam, nas horas vagas, saber como as coisas se passavam numa terra de pigmeus, onde a lei estava acima de tudo.