domingo, agosto 19, 2012

Jardim de infância - ELIANE CANTANHÊDE

 FOLHA DE SP - 19/08


Um apelo à presidente Dilma Rousseff: por favor, capriche na escolha dos próximos ministros do Supremo Tribunal Federal. Tem de agradar o PT e o PMDB, preencher a cota disso e daquilo? Põe no Turismo. Que tal na Pesca? Mas na corte suprema do país não dá.

O ex-presidente Cezar Peluso completa a idade limite em setembro e o atual, Carlos Ayres Britto, em novembro. O decano Celso de Mello arruma as malas para sair antes do tempo.

Dos experientes, vão sobrar dois: Marco Aurélio Mello e Gilmar Mendes. Ambos são tecnicamente muito respeitados, mas um é do contra e o outro dá a vida por uma polêmica. Pior: os dois se detestam e olham à volta como se estivessem ilhados. Até quando Gilmar Mendes e seu pavio curto vão resistir? Será que também vai pular fora, como Celso de Mello?

Numa hora, sussurra-se que o relator do mensalão, Joaquim Barbosa, não suporta mais a pressão e as dores na coluna. Noutra, o revisor, Ricardo Lewandowski, admite que se sente atropelado pelos colegas de toga e ameaça renunciar. Ora reclama que não foi consultado sobre o cronograma e o rito do julgamento. Ora que não combinaram a metodologia dos votos previamente com ele.

Se diante das câmeras de TV já está esse clima que se vê, pode-se supor como está nos bastidores. Nervos à flor da pele, cansaço, incômodo pelas longas horas de exposição pública e, afinal, o peso da responsabilidade diante do que se convencionou chamar de 'o maior julgamento da história do Supremo' ou do 'maior escândalo do governo Lula'.

É assim que o sujeito do tridente gosta. E é quando explodem as vaidades, as falhas humanas, as disputas internas de poder. Sem falar no mais grave: a falta de consistência.

Discordar é preciso, argumentar é fundamental, mas bater boca, fazer birra e rodar a toga parecem coisa de jardim de infância, não da mais alta corte do país decidindo sobre a reputação e o destino de 38 cidadãos.

Todo mundo e ninguém - LEE SIEGEL


O Estado de S.Paulo - 19/08


Os assassinatos em massa cometidos por um homem solitário com uma arma continuam nos Estados Unidos. Dias depois do massacre naquele cinema em Aurora, Colorado, um veterano militar entrou em um templo Sikh de uma cidadezinha de Wisconsin e assassinou outras tantas pessoas. No começo da semana passada, um homem matou um policial e outra pessoa em Austin, Texas. E, de novo, proliferam as tentativas de traçar um perfil psicológico dos matadores.

Espero que isto não parece temerário, ou de mau gosto, mas achei que poderia escrever uma espécie de perfil genérico do matador para dar mais espaço e tempo para os entendidos escreverem sobre assuntos mais importantes, como celebridades que usam calças de ioga ou o gênio da Apple. Aí vai, portanto, a minha contribuição. O perfil a seguir de um assassino em massa é composto de todos os detalhes hoje conhecidos sobre assassinos em massa:

Seus vizinhos disseram que ele era bom, mas recluso, polido, mas distante. Pessoas no trabalho o consideraram rancoroso e vingativo. Ele era gregário. Era tímido. Tinha uma aptidão notável para a álgebra. Ficou irritado e frustrado num banco, certa vez, enquanto preenchia um certificado de depósito. Abandonou o ensino secundário. Tinha um doutorado em física. Era analfabeto. Correspondia-se com Jurgen Habermas.

Ele era um antissemita. Sua mãe era judia. Ele viveu em Israel. Usava um keffieh e lia o Alcorão. Odiava a América. Tinha uma bandeira americana pendurada em seu quarto. Era um democrata registrado. Cresceu com a mãe, mas não se dava com o pai. Cresceu com o pai, mas não se dava com a mãe. Seus pais, ambos cirurgiões cardíacos eminentes, nunca repararam quanto tempo ele passava no porão.

Quando estava na escola elementar, escreveu um poema sobre uma borboleta:

Linda borboleta que esvoaça por meu quintal.

Quero tocar gentilmente tuas asas e ajudar-te a voar.

Quero beijar-te e provar o sol.

Quando estava no ensino médio, escreveu um poema sobre um esquilo:

Vem cá lixo cinzento

Pare de comer nossas flores.

Venha cá. Quero arrancar tuas patas

E enterrar-te vivo enquanto gritas.

Ele teve uma namorada que se chamava MaryLou para quem costumava cantar canções que ele mesmo compunha, enquanto acariciava suavemente seu rosto. Teve uma namorada que se chamava Annalee em cujas pernas atirou bolas de boliche. Salvou um ratinho de estimação de um carro que se aproximava. Enterrou um gatinho no quintal de cabeça para baixo e passou um cortador de grama por cima.

Ele era molestado pela mãe e espancado pelo pai. Protegia a mãe dos acessos de raiva do pai alcoólatra. Protegia o pai dos acessos de raiva da mãe viciada em drogas. Vizinhos disseram que ele era ligado à mãe. Vizinhos disseram que era ligado demais à mãe. Vizinhos disseram que nunca o viram com a mãe. Ele era a joia preciosa de seu pai.

Ele estava sempre surrando meninos menores. Estava sempre sendo surrado por meninos maiores. Uma vez surrou um menino maior que estava surrando um menino menor. Era proficiente em artes marciais. Corria soluçando para o mato quando os outros meninos gozavam dele. Tinha um bichinho de estimação chamado Marlon. Abominava animais.

Ele amava futebol americano, odiava trilhas, era bom em natação, chorava quando tentava lutar boxe, quase estrangulou outro garoto numa disputa de luta livre, acidentalmente acertou o próprio pé com um arco e flecha, venceu o campeonato estadual de esgrima, levantou mais de cem quilos no supino, quebrou o pulso tentando abrir uma garrafa de vinho.

Ele era um liberal, era um conservador, era um comunista, era um socialista, era um fascista, era um trotskista, era um stalinista, era um keynesiano, era presidente de seu fã-clube Harry Potter local.

Quando a polícia revisitou seu quarto, encontrou exemplares de O Apanhador no Campo de Centeio, A Nascente, Senhor dos Anéis, Myra Breckinridge, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, e Como Perder 10 libras em 10 Minutos.

Ele seguiu Anne Hathaway. Kate Moss o seguiu. Era obcecado por Michael Jackson e Dwight D. Eisenhower. Não tinha heróis. Seguia seu professor de educação física do colegial por toda parte. Todos o odiavam. Todos o amavam.

Vizinhos perguntaram: "Como ele pôde fazer isso?" Vizinhos disseram: "Nós sabíamos que ele faria isso". Vizinhos disseram que ele era a última pessoa no mundo que eles imaginariam fazendo isso. Vizinhos se disseram surpresos por ele não o ter feito anos atrás.

Ele foi o produto de seu meio, de uma má-educação, de químicos em seu cérebro, de genes ruins, de má sorte, de maus hábitos higiênicos.

Ele é todo mundo e ninguém. Vive em toda parte em parte nenhuma. É impossível de caracterizar, descrever, diagnosticar ou prever.

A única constante em sua sanha assassina é a arma que ele usa. Uma arma de fogo é fácil de achar, caracterizar, descrever ou prever.

Parafraseando Gertrude Stein: uma arma é uma arma é uma arma é uma arma. Mas por que regulamentar um fato concreto quando se pode especular sobre um mistério insosso?

Bons companheiros - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 19/08


Dilma Rousseff fará um gesto na tentativa de recompor sua relação com a CUT, desgastada devido à greve dos servidores federais. A presidente anunciará em setembro a isenção do Imposto de Renda na PLR (Participação nos Lucros e Resultados), reivindicação antiga da central, ligada ao PT. Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) prometeu em maio que a decisão sairia, mas as negociações foram congeladas graças às paralisações. Agora, Dilma deu sinal verde à medida.

Aqui, não Apesar do afago à central, Dilma não deu nenhuma indicação à equipe de que fará novas concessões para os servidores em greve. Técnicos do governo colocaram na ponta do lápis as reivindicações. Os pedidos variam de a 46,5% a 64,2%.

DilmaTube Para amenizar o efeito de sua decisão de não gravar apoio a Fernando Haddad no início da propaganda eleitoral, a presidente fez uma concessão exclusiva ao candidato do PT em São Paulo: ele poderá usar imagens oficiais ao lado de Dilma em eventos de quando era ministro da Educação.

Blockbuster Após ser o primeiro a adotar a câmera Red One 4K na campanha de Dilma, em 2010, João Santana usa na propaganda de Haddad a Arri Alexa Full HD, a mesma de filmes como "A Invenção de Hugo Cabret" e "Drive". A câmera é do marqueteiro, mas no mercado é locada por R$ 7.500 ao dia.

Válvula Apesar de produzidos e gravados em alta definição pela maior parte dos candidatos, os programas em bloco do horário eleitoral que entrarão no ar na terça-feira chegarão aos telespectadores de São Paulo em formato analógico. Em alguns casos, terão faixas pretas nas bordas.

HD Já para as inserções veiculadas nos intervalos comerciais, Globo e Record aceitaram receber o material em alta definição, mas ainda avaliam as condições técnicas para a transmissão.

Onipresente Mesmo contrariados, advogados consideraram hábil a decisão do relator Joaquim Barbosa de "fatiar" o voto: "Em vez de quatro dias de fama, ele vai pautar todo o julgamento, balizar os demais votos", observa um defensor.

Na rua Contidos pelo grupo ligado a José Dirceu, que adotou a tática da reclusão durante o julgamento do mensalão, militantes do PT estão sendo instados por deputados do partido a ocupar a praça em frente ao STF a partir desta semana.

Esquentou A avaliação dessas alas do PT é que, com a tendência pró-condenação manifestada pelo relator Joaquim Barbosa no início do voto, o partido precisa aumentar a pressão pela absolvição dos réus no caso.

Sedex Nas semanas que antecederam o início do julgamento, Barbosa recebeu de parlamentares (inclusive da base aliada) que atuaram na CPI dos Correios e no Conselho de Ética da Câmara documentos que reforçam aspectos da acusação do Ministério Público contra João Paulo Cunha e Dirceu.

Bronze legal Foi rebatizado de "Bolsa Pódio" o programa federal a ser lançado em setembro para distribuir recursos aos atletas de alto rendimento que tiverem chance de medalha no Rio-2016. Inicialmente, o projeto seria chamado "Bolsa Ouro", mas o Ministério do Esporte preferiu ampliar o slogan.

Linha direta Ao reafirmar a intenção de auxiliar diretamente os competidores, o governo melindra o COB (Comitê Olímpico Brasileiro). Dirigentes do órgão enxergam na ofensiva do Planalto semelhança com a ruptura de Dilma Rousseff com a CBF na gestão de Ricardo Teixeira.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio

"Em meio à crise mundial, a presidente deveria mandar Fernando Pimentel trabalhar pela economia, e não pelo PT."
DO DEPUTADO MARCUS PESTANA (PSDB-MG), sobre a decisão do ministro do Desenvolvimento de tirar férias para reforçar a campanha de Patrus Ananias.

contraponto
Vai indo que eu não vou

Gilberto Carvalho discursava em seminário sobre o programa Brasil sem Miséria no Palácio do Planalto e elogiava a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello. Então, se deu conta de que havia esquecido de mencionar o ministro da Previdência, Garibaldi Alves.
-Desculpe, ministro! Seria simpático o senhor fazer uma fala também. Sua presença é muito importante.
Garibaldi, pego de surpresa, saiu pela tangente:
-Gilberto, você falou tanto da expectativa de ouvir a ministra que confesso que fiquei encabulado. Estou aqui para ser mais um ouvinte da ministra Tereza Campello!

Gestores de crises - GAUDÊNCIO TORQUATO


O Estado de S.Paulo - 19/08



No momento em que a comunidade nacional começa a ouvir a expressão e a receber os abraços de 478.846 candidatos (31.088 a prefeito e vice e 447.758 a vereador), a pergunta se faz oportuna: o pleito municipal poderá ser o canal para jorrar água limpa na fisionomia de nossa política? Como se sabe, seus dutos irrigam a base do edifício de nossa democracia representativa. A resposta à pergunta comporta a análise de algumas variáveis, a começar da condição que cerca a grande maioria dos 5.565 municípios, que recebem pouco mais que 15% do bolo tributário. A sofrível situação econômica das localidades mostra que de seu mato não sairá coelho. Ou seja, governantes de pires na mão, por mais hábeis que sejam na arte da prestidigitação, não conseguirão puxar o eixo da renovação, principalmente quando se sabe que esse "empreendimento milagroso" carece do esforço de todos os que se locomovem na roda da política.

Comprimidos por demandas crescentes, sob a teia do endividamento dos entes federativos, os alcaides estão conscientes de que seu papel é tentar que as comunidades consigam sobreviver ao caos que assola os municípios. A cada ciclo político-eleitoral se escancara a hipótese: o fator econômico dita a condição da política, sendo responsável, aqui e alhures, pelo conjunto de mudanças na estampa do Estado contemporâneo. A escassez de recursos propicia o aparecimento de figurantes menos populistas. A paisagem contém novos sinais. Os governantes hoje são mais suscetíveis aos humores e rumores da política, sujeitando-se todo o tempo ao escrutínio das populações; os tempos de transparência exigem deles compromisso com a verdade; as comunidades clamam por soluções de curto prazo; o discurso com a abordagem de "preparar o amanhã", "construir a Pátria para nossos filhos e netos" dá vez à expressão "o futuro é agora"; a interlocução de líderes e liderados, antes de cima para baixo, hoje se dá unilateralmente, em função da interatividade e horizontalidade proporcionadas pelas redes sociais; no lugar de heróis da Pátria que "vendiam" esperança e felicidade, agora surgem gestores, devidamente paramentados em fatiotas de talhe econômico, que focam sua "venda" em artigos de primeira necessidade.

Como se aduz, novos paradigmas iluminam a política, acarretando mudanças de forma e fundo. Seus mecanismos clássicos - ideologias, partidos, Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, grupos da situação e oposição - abrigam novas dimensões. Alguns, como os Parlamentos, entram em declínio; outros, como os Poderes Executivos, aglutinam forças ou, como o Judiciário, se tornam mais abertos. O arrefecimento dos particularismos doutrinários e de clivagens partidárias do passado, centradas no antagonismo de classes, cede lugar ao personalismo e à multipolaridade da ação política. Esse fato explica a multiplicação de novos circuitos de representação - as entidades que promovem a intermediação de grupos organizados - e a prevalência de fulanos, beltranos e sicranos sobre os partidos que os acolhem. Basta conferir as siglas que acolhem os candidatos a prefeito. Poucos eleitores acertarão, principalmente os nomes conhecidos nas grandes cidades. Mudou também o espaço da política. O território agora é o das questões locais, provenientes de categorias e núcleos especializados. A micropolítica expande-se, gerando uma onda de específicas demandas.

A engrenagem política, que agora só funciona com parafusos econômicos bem azeitados, modela a feição dos atores. Os palcos da governança recebem personagens não tão afeitos às artes e técnicas do discurso, como os protagonistas de ontem. A tipologia passa a juntar perfis de roupagem técnica, indivíduos com noções básicas de administração, finanças, gestão pública. Os populistas não saíram por completo da paisagem, vale lembrar, até porque as tintas da velha política demoram a desbotar. Mas o painel da administração pública, a partir do Executivo municipal, já sinaliza alteração no modus operandi. A propósito, o símbolo mais expressivo da nova fisionomia de governança entre nós é a presidente Dilma. Perfil técnico, aprecia instrumentos de planejamento e controle e é experimentada na arte de cobrar. Prefere o discurso econômico ao político. Sente-se confortável como supergerente de obras, como se afere pelos pacotes que anuncia, o último deles, de R$ 133 bilhões, para alavancar a economia e reequipar a infraestrutura de transportes.

Lá fora o tom também sai da partitura econômica. Nos EUA as expressões dos candidatos democrata, Barack Obama, e republicano, Mitt Romney, impregnam-se de economês, ambos discorrendo sobre políticas fiscais e monetárias, a gigantesca dívida norte-americana, os programas de assistência médica, os gastos militares. Isso explica a escolha do candidato a vice na chapa de Romney, o deputado conservador Paul Ryan, rígido defensor de ajuste nas contas públicas e da redução do Estado na economia. Na Europa, a orquestra política só ensaia cantos econômicos. A Alemanha sente os efeitos da crise e reduz exportações. A Espanha aguarda com expectativa o dinheiro prometido para reforçar o caixa de seus bancos. A China começa a desacelerar os eixos da economia. Nações poderosas e portentosas sofrem as agruras de uma crise que corrói suas entranhas e ameaça paralisar programas sociais de vulto. Nesse quadro de extrema escassez, fenece a imagem do político tradicional e ascende a figura do administrador público.

Sob essa intrincada teia de fios econômicos, o Brasil escolherá em outubro seus prefeitos, ou melhor, seus gestores de crise. Termo que, na acepção grega, aponta para conjuntura perigosa, momento decisivo. E, no ideograma japonês, indica o campo das oportunidades, podendo, portanto, significar expansão, inovação, aperfeiçoamento. Que assim seja!

Ciência, fé e extrapolação - MARCELO GLEISER


FOLHA DE S.PAULO - 19/08


A crença de Newton na gravidade era tão grande que o levou a especular sobre a dimensão do Cosmo
 

Será que podemos compreender o mundo sem ter alguma espécie de crença? Essa não só é uma das questões centrais da dicotomia entre a ciência e a fé como também influencia de que modo um indivíduo se relaciona com o mundo.
Se contrastarmos explicações míticas e científicas da realidade, podemos dizer que mitos religiosos procuram explicar o desconhecido com o "desconhecível", enquanto que a ciência procura explicar o desconhecido com o "conhecível".
A tensão vem da crença de que duas realidades independentes existem em pé de igualdade; uma que pertence a este mundo (e que é, portanto, "conhecível"), e outra fora dele (e que é, portanto, "desconhecível" ou inescrutável).
Tanto o cientista quanto o crente acreditam, se bem que a crença de cada um é bem diferente. A do cientista se manifesta de forma clara quando faz uma extrapolação de uma teoria ou modelo além de seus limites testados.
Por exemplo, ao afirmar que "a gravidade atua da mesma forma em todo o Universo", ou "a teoria da evolução por seleção natural se aplica a todas as formas de vida, inclusive as extraterrestres", não sabemos se essas extrapolações são verdadeiras. Mas, dado o sucesso das teorias em que se baseiam, vale a pena apostar nelas. Testes futuros confirmarão (ou não) a veracidade da extrapolação.
Sem esse tipo de fé no poder da extrapolação, a ciência não avançaria. Eis um exemplo. A teoria da gravitação universal de Newton, explicada no Livro 3 do seu monumental "Princípios Matemáticos da Filosofia Natural", deveria ter sido chamada de "teoria da gravitação do Sistema Solar", já que, no século 17, não havia como testá-la.
Porém, Newton foi em frente e supôs que a força da gravidade-proporcional à massa dos corpos e inversamente proporcional ao quadrado de sua distância- funcionaria em todo o Cosmo: "Se foi estabelecido que todo corpo na vizinhança da Terra gravita em direção à ela em proporção à sua matéria, teremos de concluir que todos os corpos exercem gravitação mútua".
Mais tarde, em carta datada de 10 de dezembro de 1692 e endereçada a Richard Bentley, teólogo de Cambridge, Newton usa a mesma extrapolação para argumentar que o Universo deve ser infinito.
Se a gravidade atuasse sobre um Universo finito, pensou Bentley, não causaria o colapso de toda a matéria no seu centro? Newton concordou que esse seria o destino da matéria num universo finito.
Porém, sugeriu, "se a matéria estiver distribuída de forma homogênea em um Universo infinito, não colapsaria em uma única massa; um pouco de matéria se aglomeraria em um lugar, um pouco mais em outro, constituindo um número infinito de grandes massas, espalhadas pelas distâncias do espaço".
A crença de Newton na natureza universal da gravidade era tão forte que o levou a especular com confiança sobre a extensão espacial do Cosmo. Einstein fez algo semelhante, mas temos de deixar essa história para outra semana.
Para avançar em suas teorias, o cientista precisa ter a coragem de arriscar e de estar errado. Só quando nos atrevemos a arriscar e errar é que podemos, talvez, enxergar um pouco mais longe do que os outros.

Uma ideia para as cotas nas universidades - ELIO GASPARI

O GLOBO - 19/08

Passada uma década de debate, a demofobia mobilizada contra a instituição de cotas nas universidades públicas foi derrotada. Primeiro no Supremo Tribunal Federal, que, por unanimidade, as julgou constitucionais. Recentemente, pelo Senado, que ampliou a política de cotas com apenas uma voz contra.

Enquanto durou o debate, as cotas eram apresentadas como prenúncio do fim do mundo. As pesquisas indicam que os cotistas tiveram desempenhos iguais ou até superiores aos dos demais.

A expansão da política de cotas poderia abrir um debate: qual a distância razoável entre a nota do aluno beneficiado e a daquele que perderá a vaga que ganharia pelo seu desempenho no vestibular. É bom que se diga: na sua essência, as cotas dão a um estudante que tirou nota mais baixa o lugar que iria para outro que teve nota melhor. Alguma diferença tem que haver, se não, a política seria inócua.

Há poucas pesquisas desse tema. De uma maneira geral, acredita-se que a maior distância entre a nota do não cotista barrado e a do cotista beneficiado chega a ser 1,5 ponto ou 2 pontos. Pode acontecer que um estudante tirou oito e perdeu a vaga para outro que tirou seis.

Quem acha que as cotas não devem existir pode permanecer nessa posição, mesmo sabendo que elas vieram para ficar. Quem é a favor pode se perguntar qual é a diferença razoável. Já houve caso em que ela foi de 3,4 pontos. É razoável que alguém que tirou 7,5 perca a vaga para quem tirou 4,1?

Partindo-se da premissa segundo a qual o objetivo das cotas é colocar nas universidades da Viúva alunos de escolas públicas, afrodescendentes e índios, dispensa-se o renascimento da demofobia, disfarçada na defesa de uma diferença que, ao final, barre aqueles a quem se pretende beneficiar. Com números na mesa, esse debate poderá evitar que uma política que busca a justiça social produza injustiças absurdas.

Previsão

Uma alma atenta e supersticiosa, que cantou a vitória de Obama acompanhando o fechamento de lojas em Nova Iorque durante o governo Bush, informa:

Ele vai ganhar. Desde 2008, pela primeira vez, há cartazes oferecendo empregos no comércio da cidade.

Estrela

Em junho de 2011, quando a senadora Gleisi Hoffmann assumiu a chefia da Casa Civil, apelidaram-na de "Dilma da Dilma".

Com um ano no cargo, tornou-se a Gleisi da Gleisi.

Perillês

Em suas conversas com o "Doutor Juquinha", ex-presidente da Valec e dono do PR goiano, o governador Marconi Perillo enriqueceu o folclore político nacional.

Tratando de um cargo que seria entregue a Juquinha, Perillo enunciou a qualificação exigida:

"Tem que dar conta de alavancar dinheiro em Brasília e que saiba mexer o doce."

Por essas e outras, o PSDB não quer que se mexa no doce da CPI de Carlinhos Cachoeira.

Galalaus

Pode-se entender que a Polícia Federal faça protestos nos aeroportos, mas é intimidador ver aqueles galalaus sarados com as camisetas pretas da corporação percorrendo saguões onde estão enfileiradas suas vítimas.

Protesto de uniforme é indisciplina em estado puro.

A fantasia dos computadores nas escolas

O comissário Aloizio Mercadante, que anunciou a compra de 600 mil tabuletas para professores, bem como os educatecas que lidam com encomendas de computadores para escolas, deveria pedir à Universidade Estácio de Sá uma cópia da dissertação de mestrado de Marcelo Remígio Tavares de Matos. É curta e simples. Analisa o impacto e o desempenho de 11 computadores federais colocados na periferia de Petrópolis, na escola municipal Stefan Zweig, o autor do livro "Brasil, País do Futuro".

No Brasil do presente, Remígio entrevistou 164 alunos num universo de 200 jovens do segundo ciclo, mas só três dos dez professores quiseram responder ao seu questionário. Só uma informou que usava o laboratório de informática em suas aulas. Tanto a diretora da escola como a garotada exaltam a experiência. Já os professores não receberam capacitação adequada, nem a escola dispôs de assistência para colocar uma página na Internet. Quando as máquinas chegaram, ficavam disponíveis sete dias por semana e havia um contrato de assistência. Deletaram-no, a sala foi fechada aos sábados e domingos e sumiram os endereços eletrônicos dados aos alunos. Se um computador enguiça, o conserto leva cerca de um mês.

Em média, cada aluno tem acesso aos computadores duas horas por semana. Como eles não são bobos, ligam-se duas horas por dia em outras máquinas quando conseguem. Numa conta racional, poderiam ter cinco horas por semana na escola.

Apesar da falta de capacitação dos professores, não há má vontade de vivalma na Stefan Zweig com os computadores. O que há por lá é a fantasia segundo a qual basta comprar máquinas e, com isso, chega-se ao futuro. Capacitação de mestres dá trabalho. Compra de equipamentos dá marquetagem y otras cositas más.

Dr. SUS

Os 38 réus do mensalão têm em sua bancada de defesa cerca de 150 advogados. Casos semelhantes custam aos clientes quantias que podem chegar a vários milhões de reais, com todas as despesas pagas.

Só um réu, o doleiro Carlos Alberto Quaglia, entregou seu caso a um defensor público, Haman Córdova, 37 anos, R$ 16,6 mil mensais, pagos pela Viúva. Foi o único que conseguiu ser excluído do julgamento no STF.

Deu-se o caso em que fez melhor quem foi buscar assistência jurídica no SUS.

Doce sentença

A primeira sentença do processo do mensalão já saiu: José Antonio Dias Toffoli está condenado à pena de 25 anos de permanência na Corte.

Pedágios

Ressurgiu a ideia da cobrança de pedágio urbano para quem quiser circular no centro das grandes cidades, sobretudo em São Paulo.

Tudo bem. Imagine-se a seguinte situação:

O banqueiro sai de sua mansão, onde há um heliponto, e, dez minutos depois, pousa no alto do seu prédio no centro da cidade. Quanto paga? Zero.

Sua secretária, que mora na periferia, sai de casa uma hora antes, porque encarará o trânsito e pagará uns R$ 3 para chegar ao emprego.

Numa visita do banqueiro David Rockefeller, disseram-lhe que São Paulo só perde em tráfego de helicópteros para Nova Iorque. Ele duvidou, achando que, pelo barulho, São Paulo ganha.

Curiosidade

O deputado Arlindo Chinaglia, líder do governo na Câmara, está em processo de fritura no Planalto.

Não se sabe se fritarão também suas guarnições no Ministério da Saúde e nas agências reguladoras do setor.

Estrago

O alto comissariado petista admite que o julgamento do mensalão custará mais caro do que supunha.

Para correr atrás do prejuízo, depois da festa das concessões, o partido precisa pedir à doutora Dilma que anuncie a descoberta do moto-contínuo, do elixir da felicidade e da fonte da juventude.

A Petrobrás com Graça e Gabrielli - SUELY CALDAS


O Estado de S.Paulo - 19/08


Alvo de críticas e ataques à sua gestão, o ex-presidente da Petrobrás José Sérgio Gabrielli veio a público se defender, em entrevista publicada neste jornal na quarta-feira. A mudança de diretores e a revisão de metas irrealistas e de investimentos apresentados por sua sucessora no plano estratégico da empresa (na verdade, um choque de realidade) suscitaram dúvidas em relação à sua gestão. Acusado de deixar esqueletos que Graça Foster começa a desmanchar, o futuro candidato do PT ao governo da Bahia decidiu falar e dar sua versão sobre os fatos. Não convenceu.

Nem poderia. Sua candidatura morreria antes de nascer, se ele identificasse a verdadeira causa dos problemas: a intensa crise de confiança vivida pela estatal, sobretudo nos oito anos do governo Lula, dos quais Gabrielli esteve à frente da gestão por cinco anos e meio. Essa crise, que atende pelo nome de "interferência política nos negócios", produziu um custo muito alto para a Petrobrás e seus acionistas e frustrou os brasileiros com o orgulho pela empresa abalado.

Um breve resumo dos estragos: entre agosto de 2008 e dezembro de 2011, o valor de mercado da Petrobrás caiu de US$ 303,6 bilhões para US$ 155,4 bilhões, um tombo de quase 50%. Recentemente, ela perdeu para a colombiana Ecopetrol o título de maior empresa da América Latina. Desde 2010, perdeu para a Vale outro título, o de maior exportadora do Brasil. E, no balanço do trimestre abril/junho, amargou o primeiro prejuízo em 13 anos.

Feitos também ocorreram na gestão Gabrielli. Afinal, com competência técnica, geólogos e engenheiros escreveram e continuam escrevendo uma história de sucesso para a Petrobrás ao longo de seus 58 anos. O maior feito foi a descoberta de jazidas gigantes de óleo por onde se estende a rocha salina do pré-sal. Na verdade, a presença de óleo abaixo da rocha já era conhecida dos geólogos desde 2001. O desconhecido era ali existirem reservas gigantescas e que começaram a ser dimensionadas em 2006.

Mas a marca da ruinosa interferência política nos negócios da estatal começou a surgir depois que Lula tomou posse, em 2003. Aliás, o ex-presidente não se preocupou em esconder sua intenção, escancarada no episódio da demissão do físico Luiz Pinguelli Rosa da presidência da Eletrobrás: "Que me desculpe o Pinguelli, mas ele não tem um só voto no Senado", justificou Lula. E o substituiu por Silas Rondeau, apadrinhado do senador José Sarney.

Nas diretorias da Petrobrás fez o mesmo. Partidos da base aliada aliciavam funcionários da estatal e Lula os nomeava. Abortado o mensalão em 2005, Lula reforçou o uso de cargos públicos na barganha com a base aliada. Fez isso com todas as estatais. O resultado em desvios de dinheiro e outras práticas corruptas pode ser percebido pela faxina que Dilma Rousseff apenas começou.

Depois que Graça Foster anunciou a revisão do plano estratégico e trouxe números, metas e investimentos à realidade, as ações da Petrobrás reverteram a queda na Bovespa e começaram a valorizar. Mesmo depois de anunciado o prejuízo de R$ 1,346 bilhão do balanço.

A substituição de diretores políticos por funcionários escolhidos por mérito; o reconhecimento no balanço da sangria (não revelada por Gabrielli) de R$ 2,7 bilhões aplicados em 41 poços secos ou improdutivos; o reajuste de preço de derivados há anos congelados e fonte de prejuízos crônicos; e o adiamento ou cancelamento de investimentos políticos, cuja localização Lula definia com governadores amigos, são fatos concretos que Graça Foster apresentou ao mercado - com o compromisso de não repeti-los - para tentar derrotar a crise de confiança, a descrença em relação a uma gestão de qualidade técnica no futuro e que contribuíram para valorizar os papéis da estatal.

Com o respaldo de Dilma Rousseff, Graça tem sinalizado que vai resistir às demandas de interesses e maus negócios propostos por partidos aliados do governo. Resistência que Gabrielli não mostrou. Pelo contrário, em 2006, ele próprio apareceu em programa televisivo do PT aproveitando-se do cargo de presidente da Petrobrás.

Fazem falta hidrelétricas com reservatórios - EDITORIAL O GLOBO


O GLOBO - 19/08

Nas próximas semanas o governo espera anunciar algumas medidas para reduzir o preço da energia elétrica pago pelos usuários, especialmente os industriais. O peso dos encargos e dos tributos eleva de maneira expressiva este custo para os usuários, chegando em diversos casos a inviabilizar a produção. Se considerada apenas a geração da energia, o custo da eletricidade no Brasil permanece competitivo, pois o modelo que o país passou a adotar, estimulando a concorrência, atraiu para o setor muitos investidores. Quem oferece os preços mais baixos pela energia a ser gerada é escolhido em leilões periódicos para executar projetos de novas hidrelétricas, usinas de fontes renováveis ou centrais térmicas.

Por este critério, as hidrelétricas sempre apresentam vantagens competitivas, seguidas das usinas eólicas. No entanto, não havendo oferta suficiente por parte dessas fontes renováveis, a demanda precisará ser atendida por fontes não renováveis, até mais caras e geralmente bem mais poluentes. Assim, para que a matriz energética brasileira se mantenha a mais limpa possível, o ideal é que o país ainda tente ampliar sua capacidade de geração de eletricidade aproveitando seu grande potencial hidráulico.

Porém, a fim de reduzir o impacto ambiental desses aproveitamentos, as novas hidrelétricas têm sido licenciadas sem considerar a formação de reservatórios. Ou seja, as novas usinas não armazenam água para anos vindouros e funcionam usando a vazão natural dos rios. Por isso, são chamadas de usinas a "fio d´água". Sem a possibilidade de armazenar água, o bom funcionamento das hidrelétricaspassou a depender de um regime favorável de chuvas.

Como o Brasil tem um sistema elétrico interligado, o operador nacional responsável pelo seu gerenciamento procura compensar essa variação transferindo energia de uma região para outra, por meio de longas linhas de transmissão. Mas há um limite físico para tal transferência. Dessa forma, o país também investe em centrais térmicas para criar uma "reserva" de energia.

Para efeito de se minimizar o impacto ambiental, o fato de as novas usinas hidrelétricas não terem mais reservatórios é nulo ou até negativo, pois tal ausência terá de ser compensada por centrais térmicas que, ao serem acionadas, queimarão gás natural, diesel, óleo combustível ou carvão. As térmicas previstas para até 2020 triplicarão as emissões de CO2 pelo setor.

De maneira criteriosa, o Brasil deveria rever essa restrição aos reservatórios. Em locais onde a formação dos lagos exigiria a remoção de grande número de moradores ou o alagamento de terras férteis, com variedade de espécies animais e vegetais, o reservatório pode não fazer sentido. Mas em outros, com baixa densidade demográfica e que passam boa parte do ano alagados naturalmente pelas cheias dos rios, o reservatório é uma opção a ser considerada.

Energia para crescer - JOSUÉ GOMES DA SILVA


FOLHA DE SP - 19/08

Dentre os diferenciais competitivos do Brasil, além das reservas de água, recursos naturais, capacidade de produzir alimentos, equilíbrio nas contas públicas e mercado interno consistente, que já abordei em colunas anteriores, também merecem ênfase nosso potencial e diversidade na área da energia. Temos a matriz mais renovável do mundo industrializado: 45,3% são provenientes de fontes como a hídrica, biomassa, etanol, eólica e solar.

Para entendermos melhor o significado de produzir energia sem poluir, num planeta às voltas com as mudanças climáticas, as hidrelétricas são responsáveis pela geração de 75% da eletricidade do país. Um feliz contraste com a matriz energética mundial, composta por apenas 13% de fontes renováveis, no universo das nações industrializadas, e 6% nas que se encontram em desenvolvimento.

Quanto ao etanol, processamos cerca de 30 bilhões de litros anuais, sem ameaçar a cultura de alimentos, pois temos terras disponíveis para plantar tudo o que for preciso. Ademais, nosso produto, proveniente da cana de açúcar, é mais competitivo que o de milho, feito nos Estados Unidos.

Deveremos alcançar 37 bilhões de litros em 2015. Além de renovável, o álcool hidratado propicia ganho ambiental. Graças ao seu uso como combustível ou aditivo da gasolina, o Brasil evitou, nos últimos 32 anos, emissão superior a 800 milhões de toneladas de dióxido de carbono.

Também são expressivas as possibilidades do país na energia eólica. Na América Latina e Caribe, é o que tem a maior capacidade de produção, com potencial próximo de 143 mil megawatts. Contudo, estudos mais recentes indicam que podemos alcançar índices ainda mais elevados.

O Brasil é igualmente rico no tocante aos combustíveis fósseis, tendo atingido a autossuficiência na produção de petróleo e avançado muito na extração de gás natural. Isso, sem iniciarmos a exploração da "província do Pré-sal", que nos transformará em um dos grandes produtores internacionais.

Essa privilegiada condição deve-se ao avanço da Petrobras, uma das mais eficazes companhias do setor de energia em todo o mundo graças, em especial, ao seu competente quadro técnico. A companhia desenvolve tecnologia de ponta e altamente sofisticada, nos permitindo alcançar jazidas em águas profundas.

Contamos, ainda, com organizações privadas como o Grupo EBX, que também gera empregos e renda na realização de importantes empreendimentos e na implantação de modernos projetos de infraestrutura no Brasil.

Se utilizarmos nosso grande diferencial energético com eficácia e sabedoria, este será um grande trunfo para sustentar nosso desenvolvimento.


Descaminhos do Mercosul - CELSO LAFER


O Estado de S.Paulo - 19/08


Num Estado Democrático de Direito cabe submeter a análise da ação política, nela incluída a diplomática, não apenas a juízos de eficiência e de oportunidade, mas também ao juízo da sua conformidade em relação às normas jurídicas vigentes. A relevância do juízo sobre a conformidade jurídica está ligada à aferição da dimensão democrática de um governo, no qual o poder é exercido de acordo com as leis, e não em função dos instáveis caprichos dos governantes. A justificação para a suspensão da participação do Paraguai no Mercosul foi a aplicação da cláusula democrática. Por isso faz todo o sentido a avaliação jurídica do que se passou e seus desdobramentos.

A incorporação da Venezuela ao Mercosul sem a aprovação do Paraguai é uma ilegalidade. Fere frontalmente, como já expus (Folha de S.Paulo, 4/7), o acordado no Tratado de Assunção (artigo 20) e no Protocolo de Outro Preto (artigo 23).

Neste artigo vou examinar outra faceta da não conformidade com as normas jurídicas decorrentes dos procedimentos da aplicação do Protocolo de Ushuaia, que trata da cláusula democrática do Mercosul. Estabelece o artigo 4.º desse protocolo que, "no caso de ruptura da ordem democrática em um Estado Parte do presente Protocolo, os demais Estados Partes promoverão as consultas pertinentes entre si e com o Estado afetado".

As consultas com o Paraguai não foram realizadas. A ausência dessas consultas é um fato grave e configura uma quebra do devido processo legal. Com efeito, no caso específico, o argumento da ruptura democrática no Paraguai tem como base a celeridade do processo de impeachment do presidente Fernando Lugo, que não teria tido tempo suficiente para preparar a sua defesa nesse processo, conduzido pelo Legislativo paraguaio. Esse processo, no entanto, foi considerado válido pelo Judiciário do Paraguai e em consonância com as normas constitucionais do Paraguai e sua legislação infraconstitucional, relacionada a um juízo político sobre a destituição do cargo de presidente por mau desempenho de sua função.

Nesse contexto se impunham substantivamente as consultas com o Paraguai como passo prévio para a aplicação de uma suspensão de sua participação no Mercosul. Explico-me. A consulta é um mecanismo clássico do Direito Internacional e tem como objetivo a troca de opiniões, no caso, ex vi do artigo 4.º do Protocolo de Ushuaia, entre o Paraguai e a Argentina, o Brasil e o Uruguai sobre uma controvérsia em torno da existência de ruptura da ordem democrática. A função da consulta em geral e neste caso específico tem como objetivo embasar uma avaliação jurídica sobre a existência ou não de uma ruptura da ordem democrática por meio da intelligence gathering, seja pela organização e seleção de informação pertinente, seja pela possibilidade de aprender o relevante para compreender a situação que levou ao impeachment no âmbito do ordenamento jurídico paraguaio. Neste caso, essa função da consulta era uma exigência indispensável, pois a avaliação da ruptura da ordem democrática no Paraguai desconsiderou a avaliação feita pelo Legislativo e pelo Judiciário do país, que não a consideraram como tal. Por essa razão, não foi inequívoca a ruptura da ordem democrática e, por isso mesmo, a afirmação da sua ocorrência precisaria ter sido bem fundamentada, o que não se verificou.

Daí, num juízo jurídico sobre a ação política da Argentina, do Brasil e do Uruguai, a conclusão de que a suspensão do Paraguai do Mercosul não obedeceu ao iter do devido procedimento legal previsto pelo Protocolo de Ushuaia. Também a decisão da suspensão, para não se caracterizar como arbitrária, precisaria ser fundamentada, levando em conta, com base nas consultas que não se realizaram, as características de funcionamento da divisão dos Poderes e das normas constitucionais do Paraguai, tal como alegado pelo país. Em síntese, a decisão da suspensão, tal como foi tomada, fere o devido processo legal inerente aos direitos humanos no plano internacional, agravado por um desrespeito específico ao princípio de não intervenção.

O princípio de não intervenção é um princípio consagrado do Direito Internacional Público e foi constitucionalizado como um dos princípios que regem as relações internacionais do Brasil (artigo 4.º, IV, da Constituição federal). No caso do Protocolo de Ushuaia, o desrespeito a esse princípio cria um precedente grave. Com efeito, a avaliação da condição democrática de um país é complexa. Envolve tanto a degeneração do poder democrático por falta de título para o seu exercício, que é o que ocorre com um golpe de Estado, quanto a degeneração proveniente do abuso no seu exercício, que se verifica, por exemplo, pelo desrespeito aos direitos humanos, à independência do Judiciário e à do Legislativo. Por isso, uma decisão sem elaboração e fundamentação caracteriza arbítrio na aplicação da sanção de suspensão, arbítrio incompatível com a importância das normas inerentes à concepção do Mercosul.

Em conclusão, não estão em conformidade com as normas jurídicas que disciplinam esses assuntos tanto a decisão de suspender o Paraguai das atividades do Mercosul quanto a deliberação subsequente dela derivada, de a ele incorporar a Venezuela, que o Brasil respaldou. Essas decisões ilegais terão consequências substantivas de política externa. Tendem a transformar o Mercosul numa plataforma para objetivos políticos, comprometedora de um projeto originalmente voltado para o potencial de uma integração econômica entre países vizinhos, empenhados em administrar e solucionar tensões e rivalidades regionais. Para o Brasil trata-se de uma ação diplomática imprudente, comprometida por imperícia jurídica, que terá reverberações negativas, dada a profundidade do nosso relacionamento com o Paraguai, de que são exemplos a binacional Itaipu e o tema dos brasiguaios.

Faltou a lição de casa - SÉRGIO LEITÃO


FOLHA DE SP - 19/08

A Firjan reclama aqui da tarifa, mas a eficiência energética da nossa indústria é bem baixa. Só vencemos a Arábia Saudita, que não se preocupa com isso, claro



Em artigo publicado nesta seção da Folha, no último dia 15, intitulado "Uma luz no fim do túnel", o presidente da Firjan (Federação das Indústrias do estado do Rio de Janeiro), Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, defendeu que o pacote anunciado pela presidente Dilma Rousseff para incentivar o investimento em infraestrutura promova a redução de 35% das tarifas de energia.

O presidente da Firjan propõe que o governo elimine os encargos cobrados na conta de luz e diminua o valor pago às geradoras e distribuidoras de energia.

Certamente existem impostos e encargos na tarifa elétrica que podem ser reduzidos ou eliminados, mas a solução apontada pelo presidente da Firjan envolve questões que precisam ser melhor debatidas pelo governo e pela sociedade.

Entre elas, está a própria eficiência da indústria no consumo energético, que ainda está muito distante do que poderia ser.

Segundo dados da Agência Internacional de Energia, entre os países que integram o G20, o Brasil está na penúltima colocação do ranking da chamada intensidade energética -uma relação unidade de PIB produzida versus consumo de energia.

Quanto menor essa relação, mais bem colocado o país fica. Só ganhamos da Arábia Saudita, o que não é nenhum consolo, já que aquele país não vai se preocupar com a conta de luz enquanto puder queimar e vender petróleo, realidade que só será transformada nas próximas décadas.

Entre 1999 e 2005, a China reduziu a sua intensidade energética em 66%; a Índia, em 45%; os Estados Unidos, em 43% e o Reino Unido, em 44%. O Brasil diminuiu esse índice em apenas 22,7%.

Ora, se mesmo com uma conta de luz cara, a indústria brasileira não melhora sua eficiência para reduzir o preço que paga, que estímulo terá com a desoneração?

Não queremos correr o risco de que o setor abandone a modernização de seus processos produtivos, mantendo-se ineficiente.

A energia é um recurso limitado que deve ser racionalizado. Enquanto a indústria não fizer seu dever de casa, não lhe cabe advogar, como faz o presidente da Firjan, a favor da construção de Hidrelétricas na Amazônia baseadas em grandes reservatórios, que inundam milhares de hectares de Florestas, com prejuízos incalculáveis à Biodiversidade e às populações locais.

A indústria brasileira merece ser apoiada com os recursos que são de todos os brasileiros, mas ela precisa entender que não existe competitividade sem uma produção ancorada no uso racional e eficiente dos recursos e o respeito ao meio ambiente. É o mínimo que ela pode e deve dar em troca.


O que é isso, companheiro? - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 19/08


Na semana passada, os comentaristas de Assuntos Econômicos chamaram a atenção para o fato de que, finalmente, a presidente Dilma Rousseff deixou de lado certos preconceitos e decidiu passar à iniciativa privada investimentos e administração de serviços públicos em operações de concessão - que a confraria petista há anos vêm denominando de privataria ou privatização disfarçada, como se esses processos fossem coisa do diabo.

Não são apenas parcerias desse tipo com o setor privado que vêm paralisando decisões de política econômica dos governos liderados pelo PT. Toda a atividade econômica se mantém eivada de preconceitos ideológicos partilhados pelos companheiros do Partido.

Na edição do dia 10 de agosto (Apesar de você), ao analisar o novo recorde de produção de grãos, esta Coluna denunciou algumas ambiguidades não resolvidas da administração do PT em relação ao desempenho da agropecuária. Para bom número deles, continua sendo uma atividade predadora liderada por latifundiários dedicados ao agronegócio que, além de explorar boias-frias e mão de obra semiescrava, praticam o desmatamento sistemático, destrói a agricultura familiar, trabalha para o avanço da monocultura da laranja, da cana-de-açúcar, do eucalipto e do pinus, promove o envenenamento do meio ambiente com agrotóxicos e espalha variedades artificiais transgênicas, na opinião deles, potencialmente nocivas para a saúde do homem, dos animais e para a biodiversidade.

As ambiguidades e a demonização ideológica que seguem paralisando a administração da política econômica não param por aí. Para essa gente, a "grande mídia" ou a "imprensa burguesa" não passa de instrumento pelo qual as classes dominantes dominam e empobrecem os demais brasileiros.

Os empresários são a "burguesia endinheirada" ou, então, o "patronato" sempre disposto a extorquir mais valia do proletariado. Os banqueiros que atuam no Brasil se dividem em dois grupos: a "banca nacional" e a "banca globalizada" que, no entanto, pouco se distinguem entre si quando se trata de impor o jogo do mercado financeiro, como se o mercado financeiro fosse constituído apenas de bancos e não, também, das aplicações feitas pelo assalariado e pelos fundos de pensão que sempre buscam a melhor rentabilidade.

A empresa estrangeira continua sendo o instrumento do imperialismo global, muitas vezes em versão mais moderna dos empreendimentos colonialistas.

As políticas destinadas ao desenvolvimento devem ser "verticais", ou seja, devem eleger o segmento menos nocivo da "burguesia", para receber benefícios em isenções fiscais, juros favorecidos e reservas de mercado. As melhores políticas devem ser "tiradas" em "câmaras setoriais tripartites", às quais compareçam governo, empresários e sindicalistas.

Embora a solidariedade de classe deva ser internacional, as políticas devem favorecer preferencialmente o trabalhador da "empresa nacional". Daí porque sempre se deve exigir participações variadas de "conteúdo local", como nos tempos da substituição de importações, não importando o aumento do custo de produção e quantos prejuízos cause à competitividade das empresas, inclusive as controladas pelo Estado ou por capitais nacionais.

No mais, fora com o neoliberalismo, especialmente aquele que sempre foi inoculado pelo Fundo Monetário Internacional... Oooops! É preciso repensar isso, porque o governo Lula passou a prestigiar o Fundo, reforçou seu capital e quer participar mais de sua administração.

Buemba! Greve só sentado! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 19/08


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta: "Bope apreende filhotes de jacaré na casa do traficante Lacoste". Ele traficava polo? E a casa dele ficava aonde? No Morro do Jacarezinho? Ou em Jacarepaguá?

E olha o outdoor na Via do Parafuso, Bahia: "Greve só com companheiros SENTADOS! Aluguel de cadeira por apenas 1,20". Greve só sentado. E com algum petisco! Gritar e pular nem pensar. E tem coisas que só acontecem na Bahia. Eu estava no aeroporto de Salvador quando anunciaram pelo alto-falante: "Passageiros do voo 6696, portão número... Qual o número, Rosângela?". "Três." "Portão três!". BINGO! Rarará!

E esta: "Corinthians quer espaço eterno pra torcida e negocia cemitério particular". Pra enterrar a Libertadores? Rarará! E como vai se chamar o cemitério? PRESUNTÃO!

E esta: "Adidas lança enquete para dar nome à bola da Copa-2014". PERIGUETE. Já escolhi! Diz que tem que ser um nome bem brasileiro. O Brasil é o país das periguetes! PIMBA NA PERIGUETE! O bullying da semana: Rogério Ceni! Tá duro ser são-paulino! Tá cruel ser bambi.

O Rogério Ceni fez frango contra! Então muda o nome pra Granjério. E sabe o que o Ceni gritou depois do jogo? "Para no Frango Assado que eu ainda tô com fome." E o que ele gritou pro atacante: "Não tenho mais idade pra engolir frango. Me manda uma canja de galinha!". Rarará!

E "Avenida Brasil"? Gritaria Brasil! A Vítima Vilã x a Vilã Vítima! E o Jorginho é filho do Ken com o Falcon! Aliás, eu acho que rolou uma suruba naquele lixão! O Jorginho é filho da Suruba! E o Max é filho do Roberto Leal com o Kadu Moliterno.

Temos que fazer a árvore genealógica do lixão. O Nilo é filho do Véio do Rio com o Inri Cristo. E o Zé Dirceu é filho da Mãe Lucinda! O sotaque é o mesmo! Aliás, como o Zé Dirceu conseguiu ficar 20 anos na clandestinidade com aquele sotaque? Ficou mudo?! O Zé Dirceu é filho do Stálin com o Mazzaropi! Rarará!

Ereções 2012! A Galera Medonha! A Turma da Tarja Preta! Adorei o slogan da Juberlita, de Crato, Ceará: "Já dei muito, agora estou pedindo". Eu acho que ela tá pedindo um tempo. Rarará! Já dei muito, agora estou pedindo um tempo!

E direto de Carazinho (RS): Pinto Pequeno! Tadinho! Vão votar nele por dó! E o slogan: "Pinto pequeno só no nome. A vontade é grande". Ou seja, fica só na vontade! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

A PRIVATARIA PETISTA - AGAMENON

O GLOBO - 19/08

Revoltados com seus altos salários, funcionários públicos federais entraram em greve e ameaçam o governo de trabalhar se suas reivindicações não forem atendidas
Em mais um erro de revisão, o governo criou um programa de modernização dos porcos brasileiros: a partir de agora, nossos suínos vão passar a usar focinho trifásico
Num gesto que causaria inveja ao ex-presidente neoliberal assassino Entregando Henrique Cardoso, o governo marxista-leniente de Dilma Roskoff acaba de privatizar portos, estradas, ferrovias, aeroportos e outras coisas que nunca deram muito certo no Brasil. Com o dinheiro dos capitalistas privados, o governo pretende tapar o buraco das estradas, do mensalão e o sol com a peneira.
Só que o furor uterino privatista de Dilma não para por aí. Na semana que vem a presidente vai anunciar que a hidrelétrica de Itaipu será vendida para o Ricardo Eletro. Em 12 vezes sem juros no cartão! Para acabar com os gargalos na infraestrutura do Brasil, o governo também pretende duplicar imediatamente as estradas dando um litro de cachaça pra cada motorista. E as surpresas do governo lulista-privatista não param por aí! Um grupo empresarial de traficantes bolivarianos latino-americanos mostrou interesse em comprar o Aeroporto Antonio Caos no Jobim para poder ampliar o narcotráfico de aviões já visando a Copa de 2014. O problema do Brasil é a infraestrutura: o sistema digestivo da economia brasileira padece de males terríveis. Segundo o Dr. Jacintho Leite Aquino Rêgo, MD, nossos portos sofrem de constipação crônica e, por isso mesmo, têm grande dificuldade em evacuar as exportações brasileiras.
E não são só os porcos, quer dizer, os portos que são uma bosta. O bilionário Bill Gates, que está desenvolvendo um novo modelo de privada para salvar o mundo, fez um convênio com o governo brasileiro, que ficou de entrar com as cagadas no projeto. Dilma também prometeu fazer uma parceria púbico-privada com a Pfizer e dar uma injeção de Viagra na nossa economia pra ver se assim ela sai do seu estado atual de letargia broxante. Mas isso é um perigo. Quando o governo está em época de ereção, quem acaba sofrendo é o pavilhão reto-furicular do contribuinte.

Política e poder na greve de servidores - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 19/08


O movimento do funcionalismo não chama a atenção apenas pela dimensão, uma onda de greves reunindo cerca de 30 categorias, entre as quais milhares de servidores de áreas vitais. Surpreende, também, pelo fato de vários dos segmentos que se encontram paralisados fazerem parte da elite do serviço público, remunerada por altos salários, bem acima dos praticados nas empresas privadas.

Como sempre, a palavra de ordem dos grevistas é "reposição". Os números, porém, mostram outra realidade, a de funcionários bem pagos, depois de oito anos de governo Lula, em que não apenas a folha de salários inchou em quantidade, pelas contratações, mas também nas cifras, impulsionadas por generosos reajustes, concedidos também em nome da "reposição" daquilo que a inflação havia corroído.

A partir da greve dos professores das universidades federais, o movimento parece ter ganhado velocidade. A questão no ensino superior foi em parte resolvida com a aceitação da parcela menos ideológica da categoria da proposta de reajuste feita pelo MEC, segundo a qual se privilegia o mérito, os doutores. Muito razoável.

O problema continua em vários outros segmentos da máquina burocrática, com graves reflexos no abastecimento interno, em função da paralisação de autarquias responsáveis pela fiscalização e liberação de importações e exportações. Como acontece em greves movidas por forte sentido corporativista - reforçado pelo privilégio da estabilidade no emprego -, os preocupantes números divulgados pelo governo não surtem qualquer efeito. Por exemplo: se todas as demandas fossem aceitas, a folha de salários aumentaria cerca de R$ 90 bilhões ou aproximadamente 50%. Inviável, por suposto.

Isso para atender categorias como a de auditores da Receita, beneficiados, de 2003 até hoje, com aumentos de 50% acima da inflação; analistas do BC, 33,8%; fiscal agropecuário, 71,7%. A lista é grande.

O que leva, então, servidores, uma das bases político-partidárias clássicas do PT, a investir desta forma contra um governo do partido, com o risco de inviabilizá-lo, caso ele não possa destinar os recursos necessários à retomada do crescimento? Não há uma resposta única, mesmo porque alguns setores do sindicalismo público estão sob o controle de PSOL/PSTU, adversários do PT.

No lado da CUT - braço sindical petista, mas que aderiu à greve -, pode haver alguma desilusão com a companheira Dilma, não tão permeável às demandas salariais dos burocratas quanto Lula. Não importa que ele pôde ser generoso, em função da conjuntura da época. Como o próprio Lula reconheceu, ao apoiar a postura de Dilma.

Mas, sem Lula, algo parece trincado na correia de transmissão entre o Planalto e o sindicalismo. As greves podem ser uma reação instintiva de quem perde espaços, para que o governo possa proteger, como disse Dilma, quem não é estável no emprego, a grande maioria dos brasileiros.

Nada mais que a verdade - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 19/08


SÃO PAULO - Parece-me despropositada a tentativa do Senado de contornar a decisão do Supremo que extinguiu a necessidade de diploma para o exercício da profissão de jornalista aprovando uma proposta de emenda constitucional (PEC) que reintroduz a exigência.

O Legislativo brasileiro adora um projetinho de regulamentação profissional. Pesquisa rápida no site da Câmara revela a existência de 6.893 itens cuja ementa faz referência a algum ofício. Difícil coadunar isso com o espírito da Carta, que, em seu artigo 5º, XIII, determina: "É livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer".

É até razoável defender a regulamentação para ofícios que requeiram um saber técnico bastante preciso, como medicina e engenharia, ou exijam perícia específica, como piloto de avião, e cuja ausência represente risco físico para a população. Um jornalista até pode divulgar informações falsas que provocam grandes estragos. Mas é bobagem buscar um conjunto de matérias teóricas que capacitem o estudante a tornar-se um bom repórter.

Podemos afirmar que o engenheiro, para fazer com que a ponte fique em pé, precisa ter cursado cálculo I e II e conhecer noções de física que podem ser aprendidas nas escolas politécnicas. O médico, para receitar uma droga, precisa saber algo de bioquímica e farmacologia. Mas o que dizer do jornalista? O que ele precisa além de noções de português (em tese obtidas com a alfabetização) e de disposição para estudar o assunto de que vai falar? Ao que consta, o MEC não reconhece as disciplinas verdade I, II, III e IV.

Ninguém se torna ético só porque assistiu a aulas de ética na faculdade. Afirmar, como se faz por aí, que a exigência do curso de jornalismo é garantia de bom comportamento no exercício da profissão faz tanto sentido quanto dizer que quem vai à missa não comete pecados.

Há espaço para cortar mais - ALBERTO TAMER


O Estado de S.Paulo - 19/08


A economia voltou a crescer em junho, tímida, mas indicando que o pior, aquele PIB zero em maio, passou. O índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado na sexta-feira, foi de 0,75%. É o melhor resultado em 14 meses. Mais consumo, mais compras e até mais emprego depois de um primeiro semestre desanimador.

Mas isso poderá se sustentar a ponto de terminarmos o ano com um trimestre de 4%, como o ministro da Fazenda prevê? Alguns analistas continuam cautelosos, pode ser apenas um repique passageiro que desaparece quando os estímulos acabarem. Outros apontam que as últimas ações do governo, como as privatizações ou, se quiserem, parceria público-privada (pouco importa o nome), que ainda demoram, só trarão resultados no segundo semestre do próximo ano.

E isso se as licitações ocorrerem bem, sem as ações ambientais que certa vez jogaram os bagres dos rios da Amazônia no colo do presidente atrasando o início de obras importantes. E haja bagre nos rios ambientais brasileiros...

O que houve. Para avaliar o que poderá ocorrer nos próximos meses, é preciso entender por que as vendas no varejo aumentaram 6,1% em junho sobre o mês anterior, mostrando que o consumo das famílias voltou a crescer com força. Seria isso sustentável?

Os números do IBGE dão a resposta. O crescimento se deu nos setores em que o governo reduziu impostos, como veículos, autopeças, nada menos que 16,4%, móveis e eletrodomésticos para as novas casas. O único recuo foi na compra de produtos de informática e comunicação perfeitamente justificáveis pela forte expansão anterior. Há o dobro de celulares que habitantes no Brasil. Os números do IBGE mostram também que os consumidores não estão com medo da crise externa, de perder o emprego. Reagiram imediatamente aos estímulos de curto prazo do governo que reduziram os preços e aumentaram os prazos de financiamento. Parece que a inflação de 5%, que poderia corroer o poder aquisitivo das famílias, está sendo compensada pelo expressivo aumento da renda. As famílias estão consumindo mais apesar de a economia estar crescendo menos, porque os preços recuaram com a ajuda do governo. É isso o que diz a pesquisa do IBGE. A dúvida é saber se isso vai se manter quando os incentivos forem reduzidos ou acabarem.

Dá para continuar? Essa é a questão. O ministro Guido Mantega afirmou nesta sexta-feira, em São Paulo que o governo continuará cortando impostos para estimular a economia. "Reduz preços, incentiva a demanda e ajuda a inflação", afirma ele. Está dando certo. O governo parece consciente dos efeitos negativos da elevada carga tributária sobre a atividade econômica. Mas o ministro não fala nas limitações na margem de manobra da equipe econômica sem alterar a política fiscal, o superávit primário, hoje de 3,1%. Lembrou apenas que até o fim do ano as desonerações deverão chegar a R$ 45 bilhões, o PIS-Cofins, R$ 7 bilhões.

Meses de definição. Até agora o que estamos vendo é um mês de agosto cheio de boas notícias, como a abertura para os investimentos privados e dos Estados, a atração de recursos externos, forte incentivo à demanda. Falta a questão fiscal, o dilema que ainda persiste. Onde buscar os recursos? É esse o ponto crucial: manter ou não o superávit primário de 3,1%, com a economia recuando. Por enquanto, tudo é silêncio em Brasília. Silêncio ou surdina. Se alguém já decidiu sobre investir mais, gastar mais, cortar mais impostos e, por enquanto, poupar menos, ainda não disse.

E então? Se quiser que o PIB cresça a 2% este ano, o governo terá de avançar nos próximos meses. Reduzir os impostos sobre consumo, investimentos, elevar o crédito - possível porque a inadimplência recua com os novos prazos e a renda -, enfim, adotar um franca política fiscal e monetária expansionista com mais liquidez e juros menores. Mas pode? Mantega não foi específico quanto a isso, nesta sexta-feira, mas deu a entender que sim, que a política fiscal equilibrada, superávit elevado, aumento do crédito, juros ainda altos e reservas cambiais permitem isso. Vai agir. Para a coluna foi como dizer: "É só não ficar espalhando por aí para não criar ondas e marolas. É o que se poderia chamar de transparência na surdina..." A gente faz mas não fala muito.

PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV


7h - Circuito Mundial masculino de vôlei de praia, Etapa da Polônia, SporTV

9h - DTM, etapa de Nurburgring, Bandsports

9h30 - Wigan x Chelsea, Campeonato Inglês, ESPN Brasil

11h - Volta da Espanha, ciclismo, ESPN

11h - Saarbrucken x Schalke 04, Copa da Alemanha, ESPN +

11h30 - Mordovia x CSKA Moscou, Campeonato Russo, ESPN Brasil

12h - Manchester City x Southampton, Campeonato Inglês, FOX Sports

13h30 - Masters 1.000 de Cincinnati (final), tênis, SporTV 2

14h - Toluca x Pachuca, Campeonato Mexicano, ESPN

14h - Nascar, etapa de Michigan, FOX Sports

14h15 - Gil Vicente x Porto, Campeonato Português, Bandsports

14h30 - MotoGP, etapa de Indianápolis, SporTV 3

16h - Santos x Corinthians, Campeonato Brasileiro, Band e Globo (apenas SP)

16h - Atlético-MG x Botafogo, Campeonato Brasileiro, Band e Globo (menos SP e MG)

16h - Coritiba x Cruzeiro, Campeonato Brasileiro, Globo (apenas MG)

16h - Barcelona x Real Sociedad, Campeonato Espanhol, ESPN e ESPN +

16h - Ajaccio x PSG, Campeonato Francês, SporTV 2

16h - Milan x Juventus, Troféu Berlusconi, ESPN Brasil

18h30 - Atlético-GO x Palmeiras, Campeonato Brasileiro, SporTV

19h - São Paulo x Itapeva, Liga Paulista de Futsal, SporTV 2

21h - New York Yankees x Boston Red Sox, beisebol, ESPN e ESPN +

21h - Orlândia x Suzano, Liga Paulista de Futsal, SporTV 2

Tonia - LUIS FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 19/08

Quem entrasse na sala da nossa casa naquele momento não acreditaria no que via. Ali estava a Tonia Carrero, atriz de cinema, teatro e televisão ,uma das mulheres mais admiradas do Brasil pelo talento e a beleza, de quatro sobre o tapete demonstrando um exercício para a coluna que recomendava a todos. Nada representava melhor o que era a Tonia do que aquela cena: sua informalidade, seu cuidado com o próprio corpo e sua preocupação com os amigos – mesmo que nenhum amigo sequer tentasse imitar sua ginástica. 

A Tonia nunca deixava de nos visitar quando passava por Porto Alegre. Às vezes se hospedava conosco, e sua chegada era sempre uma festa. No mesmo dia em que ficara de quatro para nos animar a fazer exercícios ela passara um bom tempo dando uma aula de maquiagem à cozinheira. Talvez nenhuma outra grande atriz brasileira tenha se destacado como Tonia tanto pela beleza quanto pelo currículo artístico. A beleza de Tonia era fulgurante e a sua longa carreira teatral incluiu comédias antológicas e clássicos e dramas importantes que ela abrilhantou com sua versatilidade e aquela voz inesquecível. Decididamente, não é apenas um rosto bonito.

Tonia Carrero, a Mariinha como a chamam os amigos, está fazendo 90 anos hoje. Olha aí, Mariinha: o meu abraço inclui os de todo o mundo aqui em casa. Inclusive dos que já se foram.

ENFADO

“Enfadonho” é uma grande palavra. Nada descreve melhor uma coisa assim, assim... Enfim, enfadonha – do que a palavra “enfadonha”. Se você disser que alguém é enfadonho está descrevendo-o com exatidão. Enfadonho não é exatamente chato, tedioso, cansativo. Enfadonho é enfadonho, a palavra está dizendo.

Por exemplo: o enorme voto do relator no julgamento do mensalão foi enfadonho – e ominoso, outra boa palavra. Pelo seu tamanho, o voto do relator já estava pronto e as defesas não fizeram a menor diferença no seu conteúdo. O voto dos outros ministros não será tão grande mas presumivelmente já estavam prontos antes das defesas.

Os advogados de defesa não só disseram o óbvio – ninguém sabia de nada, o dinheiro era para caixas 

2, etc – como falaram em vão. A não ser que dê alguma briga de soco entre os ministros – “Data vênia: paft!” – será tudo muito enfadonho até o final. 

CLAUDIO HUMBERTO

“Tudo está bem. Tudo em paz”
Ministro Carlos Ayres Britto, o presidente, sobre o clima no Supremo Tribunal Federal

MINEIROS PREFEREM AÉCIO A ANASTASIA NA CAMPANHA

Enquanto chovem pedidos para o senador tucano Aécio Neves participar de campanhas em Minas, o governador Antonio Anastasia (PSDB), seu apadrinhado político, tem sido pouco procurado por candidatos a prefeito e a vereador nas eleições municipais em outubro. Segundo o comando tucano em Minas, apesar da gestão bem avaliada pela população mineira, Anastasia tem limitada popularidade. 

TERMÔMETRO

O site do PSDB de Minas disponibiliza fotos de Aécio e de Anastasia para serem usadas nas campanhas. A diferença de downloads é brutal.

REPETECO

O crescimento de Eduardo Campos (PSB) para presidente tem feito Aécio Neves (PSDB) examinar nova candidatura ao governo de Minas.

PARCERIA FORTE

Aécio não descartaria ser vice de Eduardo Campos, em 2014, juram aliados. “É jovem, tem tempo”, diz um velho amigo do avô Tancredo.

JB NO LE MONDE

O ministro Joaquim Barbosa (STF) concederá, hoje, no Rio, entrevista ao Le Monde, seu jornal preferido quando estudava em Paris. 

RELATOR É MELHOR QUE O REVISOR, ACHAM OS JURISTAS 

No meio jurídico e de acordo com os respectivos currículos, o relator do “mensalão” no Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, é considerado muito mais bem preparado tecnicamente que o revisor, ministro Ricardo Lewandowski. Joaquim se formou por uma das mais conceituadas universidades do País, a UnB, enquanto o colega frequentou seu curso em São Bernardo do Campo (SP).

POLIGLOTA

Barbosa fala francês, inglês, alemão e espanhol, tem mestrado e é doutor em Direito Público na Universidade de Paris-II. 

USP NO CURRÍCULO

Lewandowski obteve os títulos de mestre e doutor pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

CONCURSO NO CAMINHO

Barbosa era procurador da República concursado, quando chegou ao STF, e Lewandowski ocupava a vaga de advogados no TJ paulista.

CACHOEIRA DE DINHEIRO

As análises do senador Alvaro Dias (PSDB-PR) apontam que a quadrilha de Carlos Cachoeira utilizava 17 empresas laranjas. Só os repasses para a Delta podem chegar a meio bilhão de reais.

ALVO É O PSB

José Dirceu se dedica à campanha de Luciano Cartaxo à Prefeitura de João Pessoa porque Lula confiou a ele a tarefa de ajudar a derrotar Estelizabel Bezerra, candidata do governador Ricardo Coutinho (PSB).

DESAFIO DO MENSALÃO

O tucano Zenaldo Coutinho desafiou Lula a pedir votos para o petista Alfredo Costa, que tem 1% nas pesquisas em Belém. Coutinho chamou FHC para sua campanha e acha, hoje, a força de Lula um blefe.

GUERRA DOS FARRAPOS

Os gaúchos Humberto Ávila e Luiz Edson Fachin ambicionam uma das vagas de ministro do Supremo Tribunal Federal. O paranaense Luiz Régis Prado, especialista em Direito Penal, também entrou na disputa.

VOU DE TREM 

Um trem de passageiros sairá de Recife para João Pessoa, rumo Norte, e para Maceió, rumo Sul. O termo de referência já está pronto para licitação, diz o chefão da Sudene, Luiz Gonzaga Paes Landim.

A TRIBUNA É LIVRE

Contaram a Dilma que o governador tucano do Pará, Simão Jatene, estaria esperando ligação dela pedindo-lhe para fazer o senador Mario Couto (PSDB-PA) amenizar as críticas. Mas o recado de Jatene não é verdadeiro, tampouco a presidente parece incomodada com as críticas.

TIM, VOCÊ SEM SINAL

Cliente que telefonou para a TIM, após mais de 48 horas sem sinal, foi orientado a “abrir uma reclamação”, mas, ao tentar fazê-lo, o serviço estava “inoperante”. Achou mais fácil mudar de operadora.

ESTRAGO

Interino no lugar de Roberto Jefferson, Benito Gama deve decretar intervenção no PTB de Salvador, fazendo o partido aderir à candidatura do deputado ACM Neto e rompendo com o petista Nelson Pelegrino.

PERGUNTA NA CITY

Caso Julian Assange, do WikiLeaks, estivesse refugiado na Embaixada da China, por exemplo, o governo britânico ameaçaria invadir o prédio? 

PODER SEM PUDOR

UM BURRO NA PLATEIA

Contam na Bahia que foi animada a eleição para presidente da Câmara Municipal de Bom Jesus da Lapa, em janeiro de 2001. Indicado pelo prefeito, o vereador Valdivino Borges fazia seu discurso quando alguém o interrompeu para se referir à sua condição de semianalfabeto:

- Sai daí, seu burro!

Valdivino olhou para o agressor e respondeu na lata:

- Eu sou burro e sou o presidente da Câmara, e você, que não é, está aí me dando coice!

DOMINGO NOS JORNAIS


- Globo: Hospitais cariocas internam 40 mil de outras cidades
- Folha: Conselho de SP libera empréstimo de útero
- Estadão: País precisa investir R$ 100 bi por ano em infraestrutura
- Zero Hora: Depenados
- Correio Braziliense: Brasília, capital do culto ao corpo
- Estado de Minas: Quando o sexo vira crime
- Jornal do Commercio: Técnicos das federais aceitam fechar acordo

sábado, agosto 18, 2012

Amores clandestinos - IVAN MARTINS

REVISTA ÉPOCA

Por que homens e mulheres lidam com isso de forma tão diferente

Tenho uma amiga que virou a outra. Eu a encontrei no fim de semana, depois de um longo tempo, e ela imediatamente começou a falar sobre o que a afligia: faz um ano, está saindo com um homem casado, que a faz “sofrer como o diabo”. “Estou cansada de acordar chorando”, ela me disse, logo de cara.

Os contornos do caso são clássicos. Os dois fizeram faculdade juntos e se encontraram no trabalho, 10 anos depois. Ela estava carente e resolveu ceder às cantadas dele, apesar da aliança no dedo. “Queria uma transa gostosa, uma aventura”, me disse. Acabou não sendo assim. As saídas foram se repetindo, ela se percebeu apaixonada e o sujeito, que antes a cobria de atenções, agora só aparece “quando quer”. “Não tenho a menor ilusão de que ele vá largar a mulher”, ela me disse. “Nem tenho coragem de mandá-lo embora.”

Antes que alguém pergunte, eu não vou julgar nenhum dos dois. O que a amiga e o sujeito fazem é da conta deles. Gente casada, de acordo com o costume vigente, não deveria estar mantendo casos, mas acontece o tempo todo. Gente solteira, em tese, não deveria estar saindo com pessoas casadas, mas isso existe aos montes. Não é culpa dele ou dela, especificamente. Ninguém tampouco é inocente. Todos são adultos com poder de escolha, embora movidos pelo desejo. O desejo mantém as pessoas vivas, mas tem suas exigências. Solto, pode causar um bem íntimo enorme, ou um dano público extraordinário. Se o amante da amiga for descoberto, a vida dele viraria um inferno. Se a mulher enganada vier saber, vai sofrer terrivelmente. E há os filhos... A punição social para quem viola as normas de conduta pode ser pesada.

Minha amiga, porém, não parece preocupada com as consequências do caso, mas com a sua continuidade. Ela gostaria que o sujeito estivesse com ela no domingo de manhã. Como não é possível recuperar o arrebatamento e a atenção do início da relação - afinal, mesmo os amores clandestinos arrefecem - ela quer ao menos a companhia constante do sujeito. Gostaria de conversar, brigar, ver televisão, ir ao cinema na noite de sexta, transar na manhã de sábado. Quer fazer coisas de marido e mulher, de namorada. Deseja algum status público. O problema é que o rapaz já tem mulher. Não pode, e provavelmente não quer ter outra. Ele está deixando claro que deseja uma amante. A minha amiga vai ter de entender.

Posso estar cercado de machos insensíveis ou hipócritas, mas duvido. Também não me parece que os homens tenham menos necessidade de afeto do que as mulheres. Um sujeito casado que se dá ao trabalho de arrumar amante fixa é faminto de amor, não indiferente a ele. Um homem solteiro que corre o risco de sair com uma mulher casada, quando há no mundo tantas mulheres disponíveis, é um romântico, ainda que não saiba. Logo, me parece que a diferença não está na afetividade. Se ela fosse homem seria mais fácil. Homens ficam mais confortáveis na posição de “outro”. Casados ou solteiros, desfrutam a clandestinidade e respeitam as suas limitações sem queixas. Nunca - eu repito, nunca - ouvi um sujeito reclamando da impossibilidade de encontrar a amante na noite de sexta-feira. Ou do sofrimento de acordar sozinho no domingo. Para os homens, cada coisa é uma coisa. Se a mulher é casada, se encontram quando é possível. Se ele é o casado, vale a mesma cautela. Com emoção, com taquicardia, mas sem drama.

Quando o assunto é amantes, o que distingue os homens em geral das mulheres em geral é que elas parecem ver a situação como transitória. Elas acreditam que o homem está amante, encubando um futuro marido ou namorado. Os homens, enquanto isso, parecem ver na amante uma forma pronta, satisfatória tal como ela é. Casado ou solteiro, o sujeito que tem uma amante parece tranquilo com a situação.

A mulher também começa feliz, como a minha amiga, mas logo se inquieta. Fica apaixonada ou, de forma mais mesquinha, sente-se preterida ou humilhada com a situação. No fim, pressiona por mudanças. Se for casada, é capaz de cobrar que o sujeito proponha algo mais sério, mesmo que seja para dizer não, alarmadíssima. Essa diferença de expectativas não impede que relações clandestinas se estendam por anos, mas cria, no interior delas, dois tipos de pessoas: homens satisfeitos e mulheres tristes, ou ressentidas.

Talvez as mulheres nessa situação devessem aprender alguma coisa com os homens. Eles relaxam e desfrutam. Vivem o momento que se apresenta. Não é um jeito ruim de lidar com situações precárias, furtivas e provavelmente transitórias. Gostosas, ademais. Não podemos perder de vista que essas relações começam invariavelmente por causa de sexo. Se elas continuassem e terminassem assim, como sexo, qual seria o problema?

A grande pergunta, claro, é por que gente adulta se mete em situações com as quais não consegue lidar - e por que não caem fora quando se percebem incomodadas ou infelizes.

Eu não sei, e acho difícil que alguém consiga entender sem conversar longamente com os envolvidos. Cada caso é um caso, cada casal é um casal, embora coletivamente o final seja previsível: posto contra a parede, o homem casado choraminga e volta para o seio da família. Ou a mulher casada que, mesmo sem ser pressionada, decide que é hora de acabar com a aventura que pode destruir seu casamento. Há exceções a essa regra, (todo mundo conhece pelo menos uma), mas eu duvido que as estatísticas sejam animadores para as mulheres que pretendem converter o amante de hoje em marido de amanhã. Em geral, garotas, ele não está interessado.