quinta-feira, agosto 16, 2012
Desatolando o governo - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 16/08
O governo decidiu, afinal, chamar o setor privado para desemperrar os projetos de rodovias e ferrovias previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), um sucesso em financiamento habitacional e um fiasco em obras de infraestrutura. Estão previstos investimentos de R$ 133 bilhões, financiados na maior parte pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A mesma solução será tentada, em seguida, para desencantar os investimentos necessários à modernização e à ampliação de portos, aeroportos e hidrovias. Com muito atraso, a presidente Dilma Rousseff pôs de lado alguns preconceitos e decidiu, afinal, recorrer não só a concessões, mas também às Parcerias Público-Privadas (PPPs), já usadas com sucesso em projetos estaduais. Para passar da intenção à prática, no entanto, o governo ainda terá de cuidar das licitações e dos modelos de contratos, pontos fracos da gestão petista.
Para isso, a administração terá de enfrentar mais algumas tarefas tecnicamente complicadas. Mas pelo menos um dos pontos centrais está definido, segundo adiantou o ministro dos Transportes, Paulo Passos: será mantido, na seleção, o critério da menor tarifa, já adotado em 2008. Cinco dos oito projetos então contratados nem foram iniciados e só se realizou um décimo dos investimentos previstos. Mais uma demonstração de teimosia?
Só se cobrará pedágio, segundo o ministro, depois da construção de pelo menos 10% de cada trecho contratado. Além disso, o tráfego nas zonas urbanas será livre da tarifa. A exigência dos 10% deve funcionar, aparentemente, como garantia da realização de investimentos. Que acontecerá depois disso, se as empresas julgarem a remuneração muito baixa para justificar a aplicação de mais capital? Seria bom o governo rever esse ponto, examinando, por exemplo, as experiências do Estado de São Paulo, onde se encontram as melhores rodovias do País.
Os programas anunciados ontem incluem 7.500 quilômetros de rodovias e 10 mil de ferrovias. O uso das estradas de ferro deverá ser aberto a todos os interessados no transporte de cargas. A Valec - estatal vinculada ao Ministério dos Transportes - comprará a capacidade integral das empresas ferroviárias e venderá o uso da malha aos interessados. "Trata-se de um resgate da participação do setor privado em ferrovias, mas pelo fortalecimento da estrutura de planejamento e regulação", disse a presidente.
Ela poderia ter dito algo mais sobre essa "estrutura", se estivesse disposta a lavar roupa suja. Demissões no Ministério dos Transportes foram o começo da faxina parcial empreendida em 2011 no governo federal. A presidente foi praticamente forçada a afastar ministros e altos funcionários envolvidos em enormes bandalheiras. O presidente da Valec, José Ferreira das Neves, o Juquinha, foi afastado naquele ano e preso em 2012 pela Polícia Federal, acusado de participação em esquemas de superfaturamento e desvio de recursos. Ele foi presidente regional, em Goiás, do PR, partido agraciado no governo Lula com o Ministério dos Transportes. Ao falar sobre planejamento e regulação, a presidente seria mais convincente se lembrasse a devastação da máquina pública promovida por seu antecessor, quando loteou e aparelhou a administração.
Para cuidar dos projetos ferroviários, a Empresa de Trens de Alta Velocidade (Etav) será transformada em Empresa de Planejamento e Logística (EPL). Criada para cuidar do trem-bala, a Etav deverá, portanto, enfrentar uma responsabilidade muito maior. O projeto do trem-bala continua emperrado - só o custo estimado se moveu, para cima -, e o governo agora promete uma licitação para breve.
A presidente Dilma Rousseff reconhece, enfim, a necessidade urgente de medidas estruturais para tornar o País mais eficiente. Até agora, ela agiu a maior parte do tempo como se o Brasil enfrentasse apenas problemas conjunturais, decorrentes da crise global. Mas o desafio é muito mais amplo e a competitividade é o ponto central. Admitir esse ponto é um avanço. Para tomar as medidas necessárias, mesmo com a participação do setor privado, o governo precisará, no entanto, de competência gerencial. É o primeiro obstáculo.
Jamaica ou Finlândia? - ROGÉRIO GENTILE
FOLHA DE S. PAULO - 16/08
SÃO PAULO - Terminada a Olimpíada de Londres, aqui e ali escuta-se que o país deveria investir nas escolas, verdadeiros "celeiros de atletas", a fim de obter um desempenho melhor em 2016 no Rio. Com a massificação das práticas esportivas, dizem os especialistas, inevitavelmente surgiriam campeões.
De fato, é muito frustrante, a cada quatro anos, acompanhar o desempenho brasileiro na competição. Dia após dia, a Olimpíada vai se transformando numa sucessão interminável de fracassos. Com honrosas exceções, nossos atletas só perdem. Nem o 'massificado' futebol escapa.
Mas, considerando a fragilidade do ensino brasileiro, será mesmo que descobrir atletas deve ser uma prioridade das nossas escolas? Um país que não consegue ensinar português e matemática adequadamente aos seus alunos deve realmente se preocupar em achar talentos olímpicos? Afinal, preferimos ser uma Jamaica, potência no atletismo, ou uma Finlândia, que nem uma medalhinha de ouro conseguiu em Londres?
É evidente que não se trata aqui de desmerecer a importância do esporte na formação do indivíduo. Os benefícios físicos e psicológicos obtidos com a prática esportiva são inegáveis. A questão é de foco. O objetivo é estimular hábitos saudáveis nas escolas -para os quais bastam uma bola, uma quadra e um bom professor de educação física- ou vamos gastar milhões em diversos equipamentos esportivos para formar campeões em dezenas de modalidades?
Antes de pensar em mudar de patamar olímpico, o Brasil precisa elevar o seu padrão de ensino. Dados como os divulgados anteontem pelo governo federal sobre o grau de conhecimento dos nossos estudantes são inconcebíveis, muito mais do que os resultados esportivos. A nota do estudante do ensino médio é de apenas 3,7, para se ter uma ideia.
Se até 2016 o Brasil conseguir melhorar significativamente os indicadores educacionais, aí sim teremos algum motivo para comemorar.
Torturas e fantasmas, aqui e além - CLÓVIS ROSSI
Argentina prende os algozes, o Brasil no máximo lhes coloca um rótulo
O advogado Fábio Konder Comparato, esse admirável dom Quixote do mundo jurídico, comemorou a confirmação do rótulo de torturador para o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra com uma frase exagerada:
"A desonra do Estado brasileiro no plano internacional acaba de ser desagravada".
O exagero se vê pela virtual coincidência com outro veredicto, na Argentina, que evidencia o abismo no tratamento das violências praticadas pelos respectivos regimes militares.
Na Argentina, o general Jorge Rafael Videla foi condenado a 50 anos de prisão por ter sido considerado responsável pela organização, durante a ditadura do período 1976/83, do sistemático roubo de bebês nascidos no cativeiro de suas mães.
Ou seja, na Argentina, condena-se à prisão o principal chefe militar do período mais agudo da repressão (Videla foi o comandante do Exército entre 1976 e 1981).
No Brasil, nem um subordinado como Ustra, por importante que tenha sido no esquema repressivo, vai para a prisão. Quanto mais os chefes, embora uma figura respeitável como Paulo Sérgio Pinheiro diga que as torturas foram "uma política de Estado" durante a ditadura 1964/85.
A constatação de Pinheiro, secretário nacional de Direitos Humanos no governo Fernando Henrique Cardoso e, hoje, relator da ONU para outro genocídio (o da Síria), é bem parecida com a que levou a Justiça argentina a condenar Videla, ao dar por provada a existência de "prática sistemática e generalizada de subtração, retenção e ocultação de menores de idade, no marco de um plano geral de aniquilação (...) com o argumento de combater a subversão implementando métodos de terrorismo de Estado".
Sou até capaz de entender a diferença no tratamento dessa triste história por causa da aceitação, no Brasil, de uma anistia a meu ver manca. Manca porque foram anistiados os algozes, jamais punidos, e as vítimas, estas sim punidas no marco da lei em alguns casos, mas também à margem dela em tantos outros (não há lei na face da terra que autorize a fazer desaparecer adversários do regime de turno; no Brasil, ainda há 162 desaparecidos).
Aceitemos, de todo modo, que a anistia é irreversível e talvez nem seja útil revê-la. Mas continua inaceitável a demora do Brasil em passar a limpo a história das torturas e das demais violências do regime militar, mesmo que seja só para colar em quem merece o rótulo de torturador. Ou alguém aí acha que só Ustra o merece?
Na Argentina, o governo Raúl Alfonsín, o primeiro pós-ditadura, criou uma espécie de Comissão da Verdade, em 1983. Listou 8.960 casos de desaparecidos e apontou 1.351 responsáveis por sequestros e assassinatos de opositores, conforme levantamento do sítio "Opera Mundi", versão eletrônica da antiga imprensa alternativa.
No Brasil, o trabalho ficou por conta de dois religiosos (dom Paulo Evaristo Arns e o reverendo Jaime Wright, já morto).
Posto de outra forma, só agora o Estado brasileiro tomou coragem de encarar seus fantasmas.
Pacote é bom se vier mais - ALBERTO TAMER
O Estado de S.Paulo - 16/08
O governo anunciou ontem medidas que preveem investimentos privados em transporte, ferrovias, portos, rodovias, da ordem de R$ 133 bilhões, dos quais cerca de R$ 90 bilhões em cinco anos. O mercado não se desiludiu porque não esperava mais. A impressão é que o governo ainda não equacionou a questão fiscal para oferecer novas e mais ousadas desonerações para indústria e ao setor produtivo. Juros e credito até agora não se refletiram na decisão do setor privado de investir. Alguns fatores persistem, a elevada carga tributaria, a forte desaceleração da economia mundial e as incerteza quanto ao futuro.
Talvez, por essa limitações fiscais, o governo deixou para anunciar nas próximas semanas a redução das tarifas de energia elétrica - as mais altas do mundo apesar da predominância das hidrelétricas. Esse é um fator primordial na redução dos custos e o aumento de competitividade da indústria nacional.
As novas medidas ficam para setembro. Espera-se também a desoneração mais ampla das folhas de pagamento.
De qualquer forma, o que veio ajuda. O governo prevê a criação de 150 mil empregos, setores importante da industria serão estimulados por novas encomendas. Talvez, o fato mais positivo do pacote dos transportes seja o governo ter reconhecido suas limitações administrativas na execução de obras até mesmo do PAC, transferindo-as agora para o setor privado. Não é privatização - e não haveria nenhum mal se fosse - mas concessões por prazos longos, mas limitados. Portos, estradas, ferrovias, aeroportos, tudo o que está ainda por inovar e construir. É um passo que demorou, mas tudo indica que está vindo e será ampliado. Há recursos fora do governo? Sim, desde que haja regras claras e definidas para grandes investimentos de retorno em médio e longo prazo.
Para os analistas, as medidas agora anunciadas só devem se refletir no PIB de 2013. Precisam ser regulamentadas, analisada, absorvidas e restam apenas quatro meses.
É urgente. Mas o cenário externo recomenda urgência porque a economia mundial se retrai e vacila. Um sinal: o pacote foi anunciado em Brasília apenas dois dias após a Eurozona confirmar que o PIB do bloco recuou 0,2% no segundo trimestre e seis países estão em recessão técnica. O recuo do PIB anualizado foi de 0,7%, informação oficial do Eurostat.
Não muda. Pior ainda: os economistas europeus são unânimes em afirmar que esse quadro não deve se reverter até o segundo semestre do próximo ano por vários motivos:
1 - ele foi provocado essencialmente pela política de austeridade fiscal, falta de investimentos, que desestimulam a demanda;
2 - os governos do bloco continuam insistindo na prioridade fiscal e não no estimulo ao crescimento, que afunda;
3 - a crise financeira se prolonga e o Banco Central Europeu ainda não decidiu como deve agir, agora. Há fortíssima pressão da Alemanha em favor de mais cortes, menos investimentos e mais superávit. Angela Merkel até ficou feliz porque o PIB alemão - acreditem! - "cresceu" 0,3%. Uma festa principalmente porque a segunda economia da Eurozona, a França, ficou em... 0%.
Eurozona pesa muito. Esses resultados cada vez mais negativos são importantes porque o PIB dos 17 países da Eurozona, US$ 13 trilhões, representa mais de 22% do PIB mundial, já afetado pelo baixo crescimento americano. Se somarmos os Estados Unidos, Europa, China e do Japão, todas recuando ou à beira da recessão, temos aí 70% do PIB mundial que resvala este ano para 2,5%, se tanto.
E para agravar esse cenário inquietante e desanimador temos a hesitação dos bancos centrais dos Estados Unidos e da Eurozona, Fed e BCE, que ainda não sabem o que fazer. Ficam esperando pelos governos, que também não decidem nada.
E nós sozinhos. É este o desafio solitário que o Brasil enfrenta no momento. Precisa evitar um PIB de 1,5% este ano e um recuo na margem de emprego. E é aí que se enquadram as novas exigências de mais estímulo econômico, principalmente via setor privado. Ele espera apenas sinais mais claros e decisões do governo imediatas, como mais estímulos à demanda. Estamos sozinhos, não podemos contar com ninguém, como disse certa vez a presidente. Sozinhos e com pressa porque a economia mundial afunda sem que ninguém faça nada lá fora. É aqui e agora ou, como diz aquela frase tao sabia e secular, "se não formos nós, quem será?"
Às vezes nada dá certo - CORA RÓNAI
O GLOBO - 16/08
Fico muito admirada sempre que leio matérias em que colegas esgrimem, com desenvoltura, números e parágrafos de lei. A única lei que conheço com intimidade é a Lei de Murphy - aquela que diz que, se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará. Sei que ela vive à espreita e ataca quando menos se espera. Terça-feira, por exemplo: sentei para escrever esta coluna e estava pondo os pensamentos em ordem quando o eletricista que instalava um ventilador na sala veio consertar a tomada do computador no escritório, que estava meio solta na parede. Coisinha rápida, simples aperto de parafusos.
Desliguei a máquina e passei o espaço para ele. Em menos de dez minutos, a tomada estava consertada, e tudo funcionava a contento - com exceção do computador, que morreu sem dar um pio. Como explicar isso? Ele foi desligado segundo todas as regras e saiu do ar educadamente. Liguei para o Marcelo Temporal, seu veterinário, e chegamos à conclusão de que a fonte foi para o espaço. Justamente quando preciso escrever a coluna, justamente quando um eletricista mexeu na sua tomada - à qual, diga-se, nem estava conectado no momento. Murphy típico.
Já passava muito da hora do almoço. Botei um ovo para cozinhar, liguei desesperada para o jornal avisando que talvez não tivéssemos crônica esta semana, tirei o notebook do armário, religuei os cabos da internet para não ficar desligada do mundo, conectei e desconectei diversos outros cabos para ver se, por milagre, o PC ressuscitava, peguei um pano na área para limpar a poeira dos cabos mais escondidos com os quais ninguém mexe nunca (muito menos a faxineira), lavei as mãos, voltei para o escritório, telefonei novamente para o jornal para avisar que sim, teríamos coluna, posto que a internet felizmente estava de volta e, enfim, sentei para trabalhar.
Abri o MacBook Air e, como sempre acontece quando preciso dele, fiquei dando tratos à bola para descobrir como executar os comandos mais simples, já que estou fazendo o que sempre recomendei aos meus leitores que não façam, ou seja: trabalhar com dois sistemas diferentes. Acontece que, quando comprei esse notebook, ele era o mais leve do mercado e imaginei que, àquela altura, eu já não sofreria tanto com as suas idiossincrasias. Pois imaginei errado. Se eu tivesse esperado um pouco mais, poderia ter comprado um notebook Windows igualmente leve, mas muito familiar e bem superior para escrever. Paciência; pior seria não ter notebook algum neste momento.
Mal começara a escrever quando ouvi estalos vindos da cozinha. Pulei da cadeira. Quando voltei, tuitei para a minha turma: "A @RobertaSudbrack nunca mais vai falar comigo. Acabo de queimar um ovo cozido - e uma panela."
Lei de Murphy mais uma vez, evidentemente. Mas, graças ao espírito de solidariedade que percorre o Twitter, descobri que não sou a única pessoa que consegue queimar água.
Vou viajar em setembro. Tinha vários destinos em mente, a começar por Vietnã, Laos e Camboja, o Uzbequistão e, sobretudo, o Egito, onde a chapa está quente mas, por isso mesmo, as atrações turísticas devem estar vazias. Desde criança sonho conhecer as pirâmides e o museu do Cairo. Como todo mundo, gosto de imaginar que sou uma pessoa firme, decidida e pouco influenciável. Bastou, porém, que minhas sobrinhas postassem umas fotos de Istambul no Instagram para que eu sentisse uma enorme saudade da Turquia, onde estive no começo do milênio. É isso, pensei. Vou realizar outro sonho, ir à Turquia, e ficar só em Istambul, flanando desocupada por aquela linda cidade, explorando cada cantinho fora de mão.
Nisso, Marcelo Balbio e Tony Oliveira foram para o Marrocos e passaram a postar lindas fotos de Marrakech e Essaouira. E eu logo mudei de ideia. É que já conheço a Turquia - mas nunca estive no Marrocos. Comecei a pesquisar cidades, roteiros e hotéis. Até que, almoçando com amigas, alguém deu a ideia de irmos ao casamento da filha de uma delas, em Londres. Faz tempo que não vou à Inglaterra com calma. Sempre passo por Londres a caminho de outro lugar, o que não é a mesma coisa do que ir com a disposição de ficar lá. Além disso, a cidade vive um ótimo momento, com a autoestima em alta por causa das Olimpíadas. De modo que decidi ir para lá. Antes que alguém viajasse para outro lugar e me fizesse mudar de ideia mais uma vez, comprei passagem, reservei hotel e vivo, agora, a inusitada experiência de saber, com tanta antecedência, para onde vou viajar. Está sendo divertido. Estou fazendo planos, estudando restaurantes e espetáculos em cartaz, sonhando com pequenas viagens ao campo. Pode ser até que consiga fazer as malas uns dois ou três dias antes de embarcar.
A funcionária exonerada de sua função gratificada por ajudar um gatinho a escapar da armadilha montada pela Sepda no prédio da prefeitura foi reconduzida ao cargo assim que o prefeito soube do caso. A famigerada armadilha, porém, continua na área.
Soprano tísica - LUIS FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 16/08
Em algum momento da atual Bienal do Livro de São Paulo se falará da iminente morte do livro e as opiniões se dividirão. Alguns dirão que o livro nunca acabará, e aí estão as bienais, as feiras e as Flips para provar isto, e outros dirão que o livro caminha para a obsolescência e logo estaremos lendo tudo em tabletes, iPodes, iPedes e E-tceteras. Não se chegará a nenhuma conclusão e a conversa será transferida para a próxima bienal.
O escritor americano John Barth não duvida que o livro como nós o conhecemos e amamos acabará, mas nos propõe dois consolos. O primeiro é a história do fim dos dinossauros, cuja existência foi encurtada pelo choque de um asteroide com a Terra, mas ainda viveram 1 milhão de anos entre o impacto do asteroide e sua extinção completa. Nesse período apareceram alguns dos seus espécimes maiores - um bom presságio para a literatura impressa, que pode reagir ao choque da literatura eletrônica produzindo suas maiores obras antes de desaparecer.
O outro consolo sugerido por Barth - um bom romancista e ensaísta com o gosto por jogos de palavras e metalinguagem - é a ópera, que não só é um exemplo de anacronismo que teima em sobreviver como nos fornece outra metáfora para a insistência em viver de um condenado. Geralmente, a melhor ária de uma ópera clássica é a última, quando uma heroína, digamos, à beira da morte ainda encontra força e fôlego para cantá-la. Pensemos no livro, portanto, como uma soprano tísica que ainda nos dará boas surpresas antes do fim.
Barth também poderia ter lembrado o disco de vinil, cuja morte - como se vê, hoje, nas lojas de disco - foi decretada prematuramente. Muita gente está abandonando o CD e voltando para o vinil, o equivalente a largar o tablete e voltar para o livro. E a morte do livro vem senso anunciada há muito tempo. Se você aceitar que a paródia é a decomposição da literatura em estado avançado, e que Don Quixote é um romance inaugural, então você pode dizer que essa conversa da morte do livro começou com Cervantes, há 400 anos. Se resistiu à gozação de Cervantes, o livro resistirá a todos os impactos eletrônicos.
Destino incerto - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 16/08
Pacote de Dilma para rodovias e ferrovias acerta ao avançar nas concessões à iniciativa privada, mas lhe falta uma visão integrada
A decisão do governo federal de ampliar as concessões de serviços de infraestrutura ao setor privado é um passo positivo, ainda que atrasado e deficiente. Ao menos se rompeu um tabu ideológico.
O governo dividiu seu arremedo de plano em fatias e anunciou primeiro as concessões rodoviárias e ferroviárias. Portos, aeroportos e energia virão mais à frente.
A presidente Dilma Rousseff disse que não faz a demagogia da infraestrutura barata, mas a defesa da mais barata possível. Parece um modo cifrado de se referir ao fracasso das concessões feitas há cinco anos: o foco nas baixas tarifas de pedágio dificultou investimentos pelas concessionárias, e um tempo precioso acabou perdido.
Desta vez, optou-se pela busca de algum equilíbrio entre rentabilidade para o setor privado e moderação tarifária. Mas tal orientação só poderá ser confirmada com os editais, quando serão conhecidos os dados detalhados dos projetos.
Inicialmente serão concedidos cerca de 10 mil quilômetros de ferrovias e 7.500 quilômetros de rodovias. O investimento privado seria de R$ 133 bilhões em 30 anos, dos quais R$ 79,5 bilhões ocorreriam nos primeiros cinco anos.
A rentabilidade para o investidor seria de 6,5% (descontada a inflação), abaixo dos últimos leilões, mas em linha com a queda dos juros dos últimos meses.
No transporte ferroviário, a novidade anunciada foi separar construção, manutenção e operação; só as primeiras duas serão concedidas ao setor privado. Com isso, remove-se um grande entrave ao andamento dos projetos -a concentração das obras na Valec, empresa estatal de péssimo retrospecto.
Ela será agora responsável apenas por administrar a malha e comprar os direitos de sua utilização, para em seguida comercializar o transporte de cargas em leilões entre empresas interessadas. A receita assim obtida é que vai remunerar as concessionárias.
Com isso, assegura-se o direito de passagem para todos. Pelas regras atuais, o concessionário tem controle sobre a linha e pode excluir usuários potenciais.
O risco para o governo é assumir o ônus financeiro de garantir o volume de tráfego nas ferrovias, o que só reforça a necessidade de que os projetos tenham qualidade -algo inédito na área de planejamento dos governos do PT.
O Planalto parece mais preocupado em anunciar cifras bilionárias catando projetos aqui e ali. Ainda não conseguiu afastar a impressão de improviso e ansiedade para retomar o investimento, no lugar de um plano integrado de desenvolvimento da infraestrutura. No fundo, não conta com uma estratégia de longo alcance.
Concorrência desleal - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 16/08
BRASÍLIA - Acabou o desfile dos brilhantes e bem remunerados advogados para a defesa dos 38 réus do mensalão. E começou o julgamento em si, com a exposição, ao vivo e em cores, das divisões e até das implicâncias mútuas dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
Dilma pode ter lançado ontem o pacote para rodovias e ferrovias para amenizar o impacto do voto do relator Joaquim Barbosa sobre o PT. O efeito, porém, deve ter sido outro: o pacote e as manifestações de servidores grevistas ajudaram a desviar o foco do clima de lavação de roupa suja na mais alta corte do país.
Assim como Barbosa e o revisor Ricardo Lewandowski bateram boca no primeiro dia, ontem os dois mostraram que não foi um caso à parte, o clima é tenso e as divergências vão longe. Como, aliás, já estava claro desde que Lewandowski avisou que faria um "contraponto" ao relator.
A diferença é que, naquele primeiro dia, Lewandowski ficou praticamente falando sozinho, não apenas pelo imenso voto pelo desmembramento do processo mas também porque só teve apoio nessa tese do ministro Marco Aurélio (que parece estar se divertindo muito). Já ontem, quem ficou isolado foi Barbosa, quando se disse agredido pelos advogados e queria retaliar. Seus pares decidiram que é questão para a OAB, não para o Supremo.
A impressão é que os ministros mais antigos não gostam uns dos outros e se deliciam ao se alfinetarem. Mas, se eles se perderem em questiúnculas de ordem, em provocações e em votos imensos mesmo nos temas mais simples ("não me toca a angústia do tempo", diz Celso de Mello), vão dar razão ao presidente do PT, Rui Falcão, para quem o povo não quer saber de mensalão.
A Olimpíada acabou, mas as maldades da novela continuam e Dilma ainda tem muito plano para lançar. São metas atingíveis? Se forem como as da Petrobras, definitivamente não. Mas dão manchete.
CLAUDIO HUMBERTO
“Já levei dezenas de pessoas para depor em CPI. É um massacre”
Antonio Carlos de Almeida Castro (Kakay), advogado de Duda Mendonça no mensalão
NARCOGUERRILHEIROS ATACAM OBRA DA ODEBRECHT
O governo recebeu a informação, em caráter reservado, sobre ataques terroristas de narcoguerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) a canteiros de obras da construtora brasileira Odebrecht, no interior do País. Os ataques não fizeram vítimas, apenas danos materiais, e a suspeita é que seriam “advertências” dos bandidos em início de uma escalada de chantagem, para extorquir a empresa.
OBRA IMPORTANTE
A Odebrecht venceu a licitação para construir 528 km da Rota do Sol, rodovia que liga Bogotá à costa do Caribe, atravessando 39 municípios.
NEGA, CONFIRMA
A construtora garante ser “absolutamente improcedente” a informação sobre ataques das Farc, revelados à coluna por alta fonte do governo.
HISTÓRICO
Em janeiro de 2005, bandidos sequestraram e mataram em Bagdá o engenheiro João José Vasconcellos Jr., que trabalhava na Odebrecht.
QUEBRA-QUEBRA
Tem louça voando no Palácio da Alvorada. A Presidência da República reservou R$ 8,2 mil para panelas variadas e 40 travessas de porcelana.
DEPUTADOS ISENTAM CHINAGLIA E CULPAM DILMA
Dilma pretende substituir o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), de quem jamais gostou, no cargo de líder do governo na Câmara, porque atribui a ele suas dificuldades com deputados. Chinaglia é um chato, os colegas, inclusive do PT, consideram-no arrogante, mas o isentam de culpa. O problema, dizem eles, está no Planalto: a presidente nem o recebe e até a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) não o prestigia.
VAIDADE EM BAIXA...
Chinaglia tem defensores, inclusive na oposição. O deputado tucano Marcos Pestana (MG) avalia que “a vaidade está mesmo em baixa”.
...DAS SUPERPODEROSAS
“As meninas superpoderosas [do Planalto] não andam consultando muito o espelho”, diz Marcos Pestana, que preside o PSDB em Minas.
NA ATIVA
Chinaglia continua atuando como líder. Até conseguiu protelar a votação de um projeto que prevê 10% do PIB para a Educação.
BELA FADIGA
Close da TV na ministra bonitona Gleisi Hoffmann, durante o evento de ontem no Palácio do Planalto, desvendou o drama de quem é braço direito de Dilma: sua expressão denuncia extrema fadiga.
IH, SUJOU!
Vários deputados estão inquietos com a decisão da Câmara de instalar câmeras de vigilância no acesso aos apartamentos funcionais de suas excelências, em Brasília. Alguns já não poderão receber certas visitas.
VIVA A MOQUECA
Ao receber o título de cidadão do Espírito Santo, ontem, o presidente nacional da OAB, Ophir Cavalcante, foi nomeado defensor da moqueca capixaba, que tem sido atacada em rede nacional, dizem os deputados.
ÁGUA BENTA
O presidente do PT vai representar Lula em eventos de campanha em várias regiões do Nordeste, onde o ex-presidente e Dilma ainda mantêm muito prestígio. O pretexto é “poupar a saúde” de Lula.
OREMOS
Tem razão o procurador-geral Roberto Gurgel, classificando de “ladainha” as críticas da defesa do mensalão. Afinal, após comungarem do “caixa 2”, os réus avisaram: “queixem-se ao bispo”.
NO PULO
Candidato a prefeito de Mauá (SP), o deputado estadual Donisete Braga (PT) disse que iria se licenciar para fazer a campanha. Mas não fez: foi pego no pulo, com o salário pago pelo contribuinte.
FOGO DE PALHA
O general da reserva Maynard de Santa Rosa afirmou que o Brasil tem munição para “menos de uma hora de combate”. Levaria uns 20 anos para “abater” o batalhão defensivo dos mensaleiros no Supremo.
WATERLOO MINEIRO
A Operação Waterloo, do Ministério Público de Minas, devassa as contas da Prefeitura de Pirapora por suposta fraude de R$ 8 milhões. Reeleito quatro vezes, o prefeito Warmillon Fonseca (DEM), que já se negou a receber Lula, declarou patrimônio de R$ 30 milhões ao TRE.
PENSANDO BEM...
...o problema na voz de Lula piorou após o “diagnóstico” do dr. Barbosa da “clínica mensalão”.
PODER SEM PUDOR
O CAVALO ELEITOR
O deputado Zezinho Bonifácio era uma figura. Foi líder do governo durante o regime militar e até presidiu a Câmara dos Deputados. Mas sua pátria era a província, Barbacena (MG). Certa vez, ele fazia campanha na cidade quando o informaram de um problema: a ferrenha oposição de um padre, no bairro de Bias Fortes. Ele procurou o padre e pediu seu cavalo emprestado. O padre ficou constrangido de negar-lhe o pedido. Assim, montado no bicho, ele fez campanha durante todo o dia, no bairro, exibindo o trunfo:
- O padre virou; agora me apoia. Até me emprestou o cavalo...
Antonio Carlos de Almeida Castro (Kakay), advogado de Duda Mendonça no mensalão
NARCOGUERRILHEIROS ATACAM OBRA DA ODEBRECHT
O governo recebeu a informação, em caráter reservado, sobre ataques terroristas de narcoguerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) a canteiros de obras da construtora brasileira Odebrecht, no interior do País. Os ataques não fizeram vítimas, apenas danos materiais, e a suspeita é que seriam “advertências” dos bandidos em início de uma escalada de chantagem, para extorquir a empresa.
OBRA IMPORTANTE
A Odebrecht venceu a licitação para construir 528 km da Rota do Sol, rodovia que liga Bogotá à costa do Caribe, atravessando 39 municípios.
NEGA, CONFIRMA
A construtora garante ser “absolutamente improcedente” a informação sobre ataques das Farc, revelados à coluna por alta fonte do governo.
HISTÓRICO
Em janeiro de 2005, bandidos sequestraram e mataram em Bagdá o engenheiro João José Vasconcellos Jr., que trabalhava na Odebrecht.
QUEBRA-QUEBRA
Tem louça voando no Palácio da Alvorada. A Presidência da República reservou R$ 8,2 mil para panelas variadas e 40 travessas de porcelana.
DEPUTADOS ISENTAM CHINAGLIA E CULPAM DILMA
Dilma pretende substituir o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), de quem jamais gostou, no cargo de líder do governo na Câmara, porque atribui a ele suas dificuldades com deputados. Chinaglia é um chato, os colegas, inclusive do PT, consideram-no arrogante, mas o isentam de culpa. O problema, dizem eles, está no Planalto: a presidente nem o recebe e até a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) não o prestigia.
VAIDADE EM BAIXA...
Chinaglia tem defensores, inclusive na oposição. O deputado tucano Marcos Pestana (MG) avalia que “a vaidade está mesmo em baixa”.
...DAS SUPERPODEROSAS
“As meninas superpoderosas [do Planalto] não andam consultando muito o espelho”, diz Marcos Pestana, que preside o PSDB em Minas.
NA ATIVA
Chinaglia continua atuando como líder. Até conseguiu protelar a votação de um projeto que prevê 10% do PIB para a Educação.
BELA FADIGA
Close da TV na ministra bonitona Gleisi Hoffmann, durante o evento de ontem no Palácio do Planalto, desvendou o drama de quem é braço direito de Dilma: sua expressão denuncia extrema fadiga.
IH, SUJOU!
Vários deputados estão inquietos com a decisão da Câmara de instalar câmeras de vigilância no acesso aos apartamentos funcionais de suas excelências, em Brasília. Alguns já não poderão receber certas visitas.
VIVA A MOQUECA
Ao receber o título de cidadão do Espírito Santo, ontem, o presidente nacional da OAB, Ophir Cavalcante, foi nomeado defensor da moqueca capixaba, que tem sido atacada em rede nacional, dizem os deputados.
ÁGUA BENTA
O presidente do PT vai representar Lula em eventos de campanha em várias regiões do Nordeste, onde o ex-presidente e Dilma ainda mantêm muito prestígio. O pretexto é “poupar a saúde” de Lula.
OREMOS
Tem razão o procurador-geral Roberto Gurgel, classificando de “ladainha” as críticas da defesa do mensalão. Afinal, após comungarem do “caixa 2”, os réus avisaram: “queixem-se ao bispo”.
NO PULO
Candidato a prefeito de Mauá (SP), o deputado estadual Donisete Braga (PT) disse que iria se licenciar para fazer a campanha. Mas não fez: foi pego no pulo, com o salário pago pelo contribuinte.
FOGO DE PALHA
O general da reserva Maynard de Santa Rosa afirmou que o Brasil tem munição para “menos de uma hora de combate”. Levaria uns 20 anos para “abater” o batalhão defensivo dos mensaleiros no Supremo.
WATERLOO MINEIRO
A Operação Waterloo, do Ministério Público de Minas, devassa as contas da Prefeitura de Pirapora por suposta fraude de R$ 8 milhões. Reeleito quatro vezes, o prefeito Warmillon Fonseca (DEM), que já se negou a receber Lula, declarou patrimônio de R$ 30 milhões ao TRE.
PENSANDO BEM...
...o problema na voz de Lula piorou após o “diagnóstico” do dr. Barbosa da “clínica mensalão”.
PODER SEM PUDOR
O CAVALO ELEITOR
O deputado Zezinho Bonifácio era uma figura. Foi líder do governo durante o regime militar e até presidiu a Câmara dos Deputados. Mas sua pátria era a província, Barbacena (MG). Certa vez, ele fazia campanha na cidade quando o informaram de um problema: a ferrenha oposição de um padre, no bairro de Bias Fortes. Ele procurou o padre e pediu seu cavalo emprestado. O padre ficou constrangido de negar-lhe o pedido. Assim, montado no bicho, ele fez campanha durante todo o dia, no bairro, exibindo o trunfo:
- O padre virou; agora me apoia. Até me emprestou o cavalo...
QUINTA NOS JORNAIS
- Globo: Concessões – Dilma “privatiza” rodovias e ferrovias
- Folha: Privatizações de Dilma prometem R$ 80 bi em 5 anos
- Estadão: Governo muda de rota com plano bilionário de privatização
- Correio: A privatização para o país andar
- Valor: Dilma põe setor privado no centro dos grandes projetos
- Estado de Minas: R$ 133 bi para pôr o país nos trilhos
- Zero Hora: Pacote reabre caminho para ferrovias no país
quarta-feira, agosto 15, 2012
Orgulho índio - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 15/08
O antropólogo Mércio Pereira Gomes, 61 anos, surpreendeu-se com um dado do IBGE, segundo o qual 36,2% dos índios vivem nas cidades:
— É até uma coisa bacana. Mas acho que tem mais brasileiro querendo ser índio do que os que existem realmente.
Currais Novos...
Na pesquisa, chamou a atenção do antropólogo, por exemplo, a existência de 27 índios na cidade de Currais Novos, Rio Grande do Norte, onde o próprio Mércio nasceu:
— Lá não tem índio. Minha impressão é que a metodologia do IBGE levou não índio a se declarar indígena, talvez até por ignorância.
Explosão demográfica...
O Censo, como se sabe, revelou que a população indígena cresceu 205% desde 1991.
Petrobras longe do quartel
A Petrobras desistiu de comprar o imóvel hoje ocupado pelo Quartel-General da Polícia Militar do Rio, na Rua Evaristo da Veiga, no Centro, pelo qual teria de pagar R$ 336 milhões.
Alegou aperto de caixa.
Segue...
Apesar das críticas feitas a esta operação, o governo do Rio não vai desistir de vender o imóvel.
Mesmo depois da desistência da Petrobras.
Medalha para Toffoli
A Câmara de Vereadores do Rio aprovou ontem a concessão da Medalha Pedro Ernesto a Dias Toffoli, o ministro do STF.
A razão da medalha agora, quando o ex-advogado do PT é questionado no julgamento do mensalão, é... não sei.
FLAGRANTE DELITO
Veja como, hoje em dia, a informação corre na velocidade da luz. Ontem, por volta de 13h30m, um ouvinte da rádio Bandnews ligou para a emissora e avisou que havia um carro oficial sobre uma calçada da Rua Visconde de Abaeté, em Vila Isabel. Ali perto, o repórter Jorge Antonio Barros, que cuida do site e das redes sociais da coluna, foi conferir com sua digital. Às 14h15m, o possante permanecia ali. O veículo é usado pelo deputado Chiquinho da Mangueira, que justificou: “Fui almoçar com minha mãe, o que faço quase todo dia. Não é comum meu motorista fazer isso, mas, a partir de hoje, ele vai rodar até achar vaga. Prometo que não vai mais acontecer.” A vizinhança agradece. Aliás, o motorista de Sua Excelência
Diário de JustiçaA 3? Turma do TST condenou o Hospital das Clínicas de Porto Alegre a indenizar em R$ 145.250 uma auxiliar de enfermagem contaminada pelo vírus HIV em acidente de trabalho (feriu-se ao coletar sangue de um soropositivo).
Os ministros confirmaram, por unanimidade, sentença do TRT gaúcho.
Dança comigo
Camila Pitanga, a linda atriz, além de aulas de samba, tem aprendido também dança afro para interpretar a ex-escrava Isabel na próxima novela das 18h da TV Globo, "Lado a lado’,’ de João Ximenes Braga e Cláudia Lage.
Seu professor é Jaime Aroxa.
O fole roncou
Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, vai ganhar mais uma homenagem no ano em que faria cem anos.
A Zahar lançará em novembro "O fole roncou: uma história do forró” do jornalista Carlos Marcelo.
Segue...
O livro fala do auge e do ocaso de um dos mais autênticos gêneros musicais brasileiros, a partir de episódios das trajetórias de Gonzagão e outros.
Um ano depois
O promotor de Justiça Paulo Roberto Mello Cunha Júnior, autor das denúncias contra PMs julgadas pela juíza Patrícia Acioli no Tribunal do Júri de São Gonçalo, RJ, foi transferido em definitivo para a 2? Promotoria junto à Auditoria Militar, no Centro do Rio.
O nome de Cunha Júnior estava na lista de ameaçados pelos matadores da juíza
— e, após o assassinato dela, passou a dar apoio ao Grupo de Combate ao Crime Organizado do MP do Rio.
Em causa própria
O caso das moradias particulares dentro do Jardim Botânico do Rio chegou esta semana ao Tribunal de Contas da União. O ministro José Múcio Monteiro pediu vistas, lembrando que, em sua época de ministro de Lula, foi procurado por um colega do Ministério:
— Ele me pedia que nós resolvêssemos. A família dele está lá, é uma das invasoras.
Segue...
O ministro era Edson Santos, que agia no governo em causa própria.
Passa o ponto
As grifes Mary Zayde e Essencial estão fechando suas portas no shopping Rio Design Barra.
Red Valentino
A marca mais jovem do estilista italiano Valentino, a Red Valentino, vai abrir loja no Shopping Leblon, no Rio.
Carminha x Nina
O site de "Avenida Brasil’,’ da TV Globo, bateu um recorde entre os sites de novelas: 5,7 milhões de visitantes únicos no mês de julho, maior marca em todos os tempos.
Aliás, hoje, quando terminar o capítulo da novela, vai entrar no site um aplicativo para as pessoas congelarem suas fotos. A brincadeira vinha sendo feita nas redes sociais, mas, agora, será oferecida uma ferramenta exclusiva.
O antropólogo Mércio Pereira Gomes, 61 anos, surpreendeu-se com um dado do IBGE, segundo o qual 36,2% dos índios vivem nas cidades:
— É até uma coisa bacana. Mas acho que tem mais brasileiro querendo ser índio do que os que existem realmente.
Currais Novos...
Na pesquisa, chamou a atenção do antropólogo, por exemplo, a existência de 27 índios na cidade de Currais Novos, Rio Grande do Norte, onde o próprio Mércio nasceu:
— Lá não tem índio. Minha impressão é que a metodologia do IBGE levou não índio a se declarar indígena, talvez até por ignorância.
Explosão demográfica...
O Censo, como se sabe, revelou que a população indígena cresceu 205% desde 1991.
Petrobras longe do quartel
A Petrobras desistiu de comprar o imóvel hoje ocupado pelo Quartel-General da Polícia Militar do Rio, na Rua Evaristo da Veiga, no Centro, pelo qual teria de pagar R$ 336 milhões.
Alegou aperto de caixa.
Segue...
Apesar das críticas feitas a esta operação, o governo do Rio não vai desistir de vender o imóvel.
Mesmo depois da desistência da Petrobras.
Medalha para Toffoli
A Câmara de Vereadores do Rio aprovou ontem a concessão da Medalha Pedro Ernesto a Dias Toffoli, o ministro do STF.
A razão da medalha agora, quando o ex-advogado do PT é questionado no julgamento do mensalão, é... não sei.
FLAGRANTE DELITO
Veja como, hoje em dia, a informação corre na velocidade da luz. Ontem, por volta de 13h30m, um ouvinte da rádio Bandnews ligou para a emissora e avisou que havia um carro oficial sobre uma calçada da Rua Visconde de Abaeté, em Vila Isabel. Ali perto, o repórter Jorge Antonio Barros, que cuida do site e das redes sociais da coluna, foi conferir com sua digital. Às 14h15m, o possante permanecia ali. O veículo é usado pelo deputado Chiquinho da Mangueira, que justificou: “Fui almoçar com minha mãe, o que faço quase todo dia. Não é comum meu motorista fazer isso, mas, a partir de hoje, ele vai rodar até achar vaga. Prometo que não vai mais acontecer.” A vizinhança agradece. Aliás, o motorista de Sua Excelência
Diário de JustiçaA 3? Turma do TST condenou o Hospital das Clínicas de Porto Alegre a indenizar em R$ 145.250 uma auxiliar de enfermagem contaminada pelo vírus HIV em acidente de trabalho (feriu-se ao coletar sangue de um soropositivo).
Os ministros confirmaram, por unanimidade, sentença do TRT gaúcho.
Dança comigo
Camila Pitanga, a linda atriz, além de aulas de samba, tem aprendido também dança afro para interpretar a ex-escrava Isabel na próxima novela das 18h da TV Globo, "Lado a lado’,’ de João Ximenes Braga e Cláudia Lage.
Seu professor é Jaime Aroxa.
O fole roncou
Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, vai ganhar mais uma homenagem no ano em que faria cem anos.
A Zahar lançará em novembro "O fole roncou: uma história do forró” do jornalista Carlos Marcelo.
Segue...
O livro fala do auge e do ocaso de um dos mais autênticos gêneros musicais brasileiros, a partir de episódios das trajetórias de Gonzagão e outros.
Um ano depois
O promotor de Justiça Paulo Roberto Mello Cunha Júnior, autor das denúncias contra PMs julgadas pela juíza Patrícia Acioli no Tribunal do Júri de São Gonçalo, RJ, foi transferido em definitivo para a 2? Promotoria junto à Auditoria Militar, no Centro do Rio.
O nome de Cunha Júnior estava na lista de ameaçados pelos matadores da juíza
— e, após o assassinato dela, passou a dar apoio ao Grupo de Combate ao Crime Organizado do MP do Rio.
Em causa própria
O caso das moradias particulares dentro do Jardim Botânico do Rio chegou esta semana ao Tribunal de Contas da União. O ministro José Múcio Monteiro pediu vistas, lembrando que, em sua época de ministro de Lula, foi procurado por um colega do Ministério:
— Ele me pedia que nós resolvêssemos. A família dele está lá, é uma das invasoras.
Segue...
O ministro era Edson Santos, que agia no governo em causa própria.
Passa o ponto
As grifes Mary Zayde e Essencial estão fechando suas portas no shopping Rio Design Barra.
Red Valentino
A marca mais jovem do estilista italiano Valentino, a Red Valentino, vai abrir loja no Shopping Leblon, no Rio.
Carminha x Nina
O site de "Avenida Brasil’,’ da TV Globo, bateu um recorde entre os sites de novelas: 5,7 milhões de visitantes únicos no mês de julho, maior marca em todos os tempos.
Aliás, hoje, quando terminar o capítulo da novela, vai entrar no site um aplicativo para as pessoas congelarem suas fotos. A brincadeira vinha sendo feita nas redes sociais, mas, agora, será oferecida uma ferramenta exclusiva.
Nas Entrelinhas - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 15/08
Nos primeiros meses desta Legislatura, em 2011, oito senadores do PMDB, muitos cristãos novos na Casa, lutaram para enfraquecer a voz de comando de Renan Calheiros dentro da bancada. Não passou uma semana entre março e junho sem que eles fizessem pelo menos uma reunião, interessados em fixar uma nova relação e rodízio nos espaços de poder. Hoje, esse grupo é coisa do passado. E tudo indica que a tendência deles hoje é fechar com o líder Renan para presidir o Senado a partir de 1º de fevereiro de 2013.
Eduardo Braga (AM), Eunício Oliveira (CE), Jarbas Vasconcelos (PE), Luiz Henrique da Silveira (SC), Pedro Simon (RS), Ricardo Ferraço (ES), Roberto Requião (PR) e Vital do Rêgo (PB) davam dor de cabeça ao antigo grupo de comando do PMDB. Ao ponto de ganharem a alcunha de G-8. Hoje, eles se encontram apenas no plenário, em conversas informais. E a maioria segue as orientações do líder.
Renan Calheiros soprou o G-8 como se fosse uma casa de areia. Bastou dar prestígio e visibilidade a senadores que ansiavam por mais espaço para exercer o mandato. Eduardo Braga virou líder do governo. Vital do Rêgo preside a CPI do Cachoeira, que, para o bem ou para o mal, lhe dá visibilidade. Luiz Henrique surgiu como relator do Código Florestal. Eunício comanda a Comissão de Constituição e Justiça da Casa. Ferraço integra a Comissão de Reforma do Código Penal.
Por falar em Renan…
Dentro do Senado, a sensação é de um PMDB em paz consigo mesmo, apesar do desconforto de alguns como Jarbas Vasconcelos (PE). Ao ponto de a bancada fixar algumas premissas para o futuro. Primeiro, é praticamente consenso que Edison Lobão (MA) é um companheiro, mas não para presidir o Senado. Isso porque é pra lá de bem relacionado com a presidente Dilma Rousseff. E o PMDB quer alguém mais PMDB e menos Dilma — um perfil similar ao do deputado Henrique Eduardo Alves (RN), que já tem até o apoio do PT para comandar a Câmara.
Além disso, Lobão é, hoje, ministro de Minas e Energia, uma área de grandes empresas e negócios. E tem por intermédio de seu primogênito, o senador Lobão Filho (PMDB-MA), voz ativa na Casa. Tirar Lobão do ministério para colocá-lo no Senado não seria nem trocar seis por meia dúzia, seria trocar “12 por meia dúzia”, com desvantagem para o partido.
Essa equação joga a eleição praticamente no colo de Renan Calheiros, se ele quiser mesmo comandar a Casa e não surgir nada de extraordinário que possa comprometer esse projeto. Em conversas informais, o episódio que quase lhe custou o mandato — que veio à tona a partir da descoberta de uma filha fora do casamento — é tratado como coisa do passado pelos senadores. Embora Renan continue discretíssimo sobre seu futuro — houve inclusive especulações sobre uma possível candidatura ao governo de Alagoas —, há quem diga que ele não pensa em outra coisa. Até para ser candidato ao governo estadual, em 2014, seus aliados consideram melhor que Renan presida o Senado. Assim, ainda pode fechar um acordo com o PT, licenciando-se do cargo no período da campanha para deixar que um vice-presidente petista comande a Casa.
Por falar em candidato…
Dilma recebeu ontem os atletas olímpicos com festa no Planalto, onde o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), aproveitou para tirar uma casquinha em favor de sua campanha à reeleição. Paralelamente, foi divulgada a nota do Ideb, em que o Brasil continua devendo índices melhores, especialmente no Norte e no Nordeste. No Sul, as notas caíram. Na economia, estudos mostram que a classe C segue endividada e a Brasil Foods, dona da Sadia e da Perdigão, anuncia aumento de preços em seus produtos por conta da elevação dos custos. Acha pouco, leitor? Pois hoje, mais uma categoria fará paralisação de 24 horas. São os peritos criminais federais, que reivindicam reposição salarial da inflação.
Em meio a tantas agruras, ainda tem o julgamento do mensalão. Realmente, só mesmo os atletas dourados para fazer Dilma sorrir, uma vez que, no entorno do Palácio do Planalto, só tem problemas. Não por acaso, Dilma tem dito que não pretende interferir na eleição municipal ou mesmo no Senado. Embora goste de Lobão, qualquer gesto mais ousado pode gerar mais arestas. E, diante de tantos desafios, Renan Calheiros presidente do Senado ficou uma questão menor na agenda presidencial.
Nos primeiros meses desta Legislatura, em 2011, oito senadores do PMDB, muitos cristãos novos na Casa, lutaram para enfraquecer a voz de comando de Renan Calheiros dentro da bancada. Não passou uma semana entre março e junho sem que eles fizessem pelo menos uma reunião, interessados em fixar uma nova relação e rodízio nos espaços de poder. Hoje, esse grupo é coisa do passado. E tudo indica que a tendência deles hoje é fechar com o líder Renan para presidir o Senado a partir de 1º de fevereiro de 2013.
Eduardo Braga (AM), Eunício Oliveira (CE), Jarbas Vasconcelos (PE), Luiz Henrique da Silveira (SC), Pedro Simon (RS), Ricardo Ferraço (ES), Roberto Requião (PR) e Vital do Rêgo (PB) davam dor de cabeça ao antigo grupo de comando do PMDB. Ao ponto de ganharem a alcunha de G-8. Hoje, eles se encontram apenas no plenário, em conversas informais. E a maioria segue as orientações do líder.
Renan Calheiros soprou o G-8 como se fosse uma casa de areia. Bastou dar prestígio e visibilidade a senadores que ansiavam por mais espaço para exercer o mandato. Eduardo Braga virou líder do governo. Vital do Rêgo preside a CPI do Cachoeira, que, para o bem ou para o mal, lhe dá visibilidade. Luiz Henrique surgiu como relator do Código Florestal. Eunício comanda a Comissão de Constituição e Justiça da Casa. Ferraço integra a Comissão de Reforma do Código Penal.
Por falar em Renan…
Dentro do Senado, a sensação é de um PMDB em paz consigo mesmo, apesar do desconforto de alguns como Jarbas Vasconcelos (PE). Ao ponto de a bancada fixar algumas premissas para o futuro. Primeiro, é praticamente consenso que Edison Lobão (MA) é um companheiro, mas não para presidir o Senado. Isso porque é pra lá de bem relacionado com a presidente Dilma Rousseff. E o PMDB quer alguém mais PMDB e menos Dilma — um perfil similar ao do deputado Henrique Eduardo Alves (RN), que já tem até o apoio do PT para comandar a Câmara.
Além disso, Lobão é, hoje, ministro de Minas e Energia, uma área de grandes empresas e negócios. E tem por intermédio de seu primogênito, o senador Lobão Filho (PMDB-MA), voz ativa na Casa. Tirar Lobão do ministério para colocá-lo no Senado não seria nem trocar seis por meia dúzia, seria trocar “12 por meia dúzia”, com desvantagem para o partido.
Essa equação joga a eleição praticamente no colo de Renan Calheiros, se ele quiser mesmo comandar a Casa e não surgir nada de extraordinário que possa comprometer esse projeto. Em conversas informais, o episódio que quase lhe custou o mandato — que veio à tona a partir da descoberta de uma filha fora do casamento — é tratado como coisa do passado pelos senadores. Embora Renan continue discretíssimo sobre seu futuro — houve inclusive especulações sobre uma possível candidatura ao governo de Alagoas —, há quem diga que ele não pensa em outra coisa. Até para ser candidato ao governo estadual, em 2014, seus aliados consideram melhor que Renan presida o Senado. Assim, ainda pode fechar um acordo com o PT, licenciando-se do cargo no período da campanha para deixar que um vice-presidente petista comande a Casa.
Por falar em candidato…
Dilma recebeu ontem os atletas olímpicos com festa no Planalto, onde o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), aproveitou para tirar uma casquinha em favor de sua campanha à reeleição. Paralelamente, foi divulgada a nota do Ideb, em que o Brasil continua devendo índices melhores, especialmente no Norte e no Nordeste. No Sul, as notas caíram. Na economia, estudos mostram que a classe C segue endividada e a Brasil Foods, dona da Sadia e da Perdigão, anuncia aumento de preços em seus produtos por conta da elevação dos custos. Acha pouco, leitor? Pois hoje, mais uma categoria fará paralisação de 24 horas. São os peritos criminais federais, que reivindicam reposição salarial da inflação.
Em meio a tantas agruras, ainda tem o julgamento do mensalão. Realmente, só mesmo os atletas dourados para fazer Dilma sorrir, uma vez que, no entorno do Palácio do Planalto, só tem problemas. Não por acaso, Dilma tem dito que não pretende interferir na eleição municipal ou mesmo no Senado. Embora goste de Lobão, qualquer gesto mais ousado pode gerar mais arestas. E, diante de tantos desafios, Renan Calheiros presidente do Senado ficou uma questão menor na agenda presidencial.
Tudo indo - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 15/08
Acompanhei as matérias sobre Londres feitas pelos jornalistas que Zero Hora enviou à capital britânica para cobrir a Olimpíada, e me chamou a atenção um relato feito pelo meu amigo Tulio Milman, que descreveu o fascínio de perder-se pelas ruas de uma cidade estrangeira. Não é a primeira vez que vejo uma pessoa inteligente sair em defesa da desorientação, o que me deixa inquieta, pois me considero uma viajante audaz, mas, pelo visto, sem muito tutano: nunca gostei de me perder.
Claro que possuo o hábito de flanar pelos bairros, que entro em praças e parques que não conheço, que viro à esquerda numa rua sem saber onde ela vai dar, mas tenho uma boa ideia sobre as possibilidades que a redondeza oferece e posso apostar que a caminhada vai resultar proveitosa, mesmo sem destino determinado. Se não resulta, me sinto uma songamonga.
Uma vez me perdi além do tolerável nas ruelas de Veneza e, sinceramente, a experiência não me trouxe nada além de cansaço e desassossego – fui parar onde os doges perderam as botas.
O fato é que todos nós estamos caminhando para algum lugar, mesmo sem saber para onde. Há os que têm um propósito, sabem aonde querem chegar: se não possuem um mapa, possuem ao menos um desejo, e desejos costumam ser guias confiáveis. Já fiz parte do primeiro grupo, mas, de repente, me percebo instalada no segundo: não tenho a menor noção de para onde estou indo, e admito que isso embaralha meu senso de direção – mas tampouco quero voltar para o ponto de partida.
Isso me faz lembrar pessoas que, quando você pergunta se está tudo bem, respondem: “Tudo indo”. Tudo indo pra onde? Ribanceira abaixo? De mal a pior? Seguidamente cruzo com uma moça com quem simpatizo, e, a cada vez que pergunto a ela se está tudo bem, ela me responde “tudo indo” com um jeito de quem vai cair em prantos.
Há um ano que está tudo indo pra ela. E eu fico torcendo para que esteja tudo indo às mil maravilhas, que esteja tudo indo de vento em popa, que esteja indo melhor do que o esperado. Mas não é nada disso que sugere seu olhar sorumbático.
Todos nós estamos indo, que é melhor do que estarmos parados. Estamos indo rumo a novas eleições, indo rumo à primavera, indo rumo a pessoas que ainda não conhecemos, indo rumo a dias melhores, a dias piores e, encaremos: indo rumo ao fim dos dias, se me permite ser uma desmancha-prazeres. É duro, mas a outra opção é estacionar, não ir a lugar algum. Prefiro ir, seja para onde for.
Se eu continuar sem inspiração como hoje, o único rumo que vou tomar é o do departamento de RH para acertar minhas contas. Como você pode comprovar, aqui, nesta coluna, tudo indo. No momento em que escrevo, sem ideia sobre as possibilidades que a redondeza oferece e sem saber se a caminhada vai resultar proveitosa, mas indo. Espero que chegue logo a parte divertida, Tulio.
Acompanhei as matérias sobre Londres feitas pelos jornalistas que Zero Hora enviou à capital britânica para cobrir a Olimpíada, e me chamou a atenção um relato feito pelo meu amigo Tulio Milman, que descreveu o fascínio de perder-se pelas ruas de uma cidade estrangeira. Não é a primeira vez que vejo uma pessoa inteligente sair em defesa da desorientação, o que me deixa inquieta, pois me considero uma viajante audaz, mas, pelo visto, sem muito tutano: nunca gostei de me perder.
Claro que possuo o hábito de flanar pelos bairros, que entro em praças e parques que não conheço, que viro à esquerda numa rua sem saber onde ela vai dar, mas tenho uma boa ideia sobre as possibilidades que a redondeza oferece e posso apostar que a caminhada vai resultar proveitosa, mesmo sem destino determinado. Se não resulta, me sinto uma songamonga.
Uma vez me perdi além do tolerável nas ruelas de Veneza e, sinceramente, a experiência não me trouxe nada além de cansaço e desassossego – fui parar onde os doges perderam as botas.
O fato é que todos nós estamos caminhando para algum lugar, mesmo sem saber para onde. Há os que têm um propósito, sabem aonde querem chegar: se não possuem um mapa, possuem ao menos um desejo, e desejos costumam ser guias confiáveis. Já fiz parte do primeiro grupo, mas, de repente, me percebo instalada no segundo: não tenho a menor noção de para onde estou indo, e admito que isso embaralha meu senso de direção – mas tampouco quero voltar para o ponto de partida.
Isso me faz lembrar pessoas que, quando você pergunta se está tudo bem, respondem: “Tudo indo”. Tudo indo pra onde? Ribanceira abaixo? De mal a pior? Seguidamente cruzo com uma moça com quem simpatizo, e, a cada vez que pergunto a ela se está tudo bem, ela me responde “tudo indo” com um jeito de quem vai cair em prantos.
Há um ano que está tudo indo pra ela. E eu fico torcendo para que esteja tudo indo às mil maravilhas, que esteja tudo indo de vento em popa, que esteja indo melhor do que o esperado. Mas não é nada disso que sugere seu olhar sorumbático.
Todos nós estamos indo, que é melhor do que estarmos parados. Estamos indo rumo a novas eleições, indo rumo à primavera, indo rumo a pessoas que ainda não conhecemos, indo rumo a dias melhores, a dias piores e, encaremos: indo rumo ao fim dos dias, se me permite ser uma desmancha-prazeres. É duro, mas a outra opção é estacionar, não ir a lugar algum. Prefiro ir, seja para onde for.
Se eu continuar sem inspiração como hoje, o único rumo que vou tomar é o do departamento de RH para acertar minhas contas. Como você pode comprovar, aqui, nesta coluna, tudo indo. No momento em que escrevo, sem ideia sobre as possibilidades que a redondeza oferece e sem saber se a caminhada vai resultar proveitosa, mas indo. Espero que chegue logo a parte divertida, Tulio.
Aquarelas do Brasil - TUTTY VASQUES
O ESTADÃO - 15/08
Ei, juiz, vai...
Segundo prognóstico de Roberto Jefferson, "o STF não vai enfrentar a galera, e a galera quer a condenação". Isso quer dizer o seguinte: torcida só não ganha jogo no futebol!
Mal comparando
Falta entre os réus do mensalão alguém com a sinceridade do mordomo do papa, Paolo Gabriele, para admitir que "vendo o mal e a corrupção por toda parte, finalmente cheguei a um ponto em que não consegui mais me controlar". Simples assim!
Todos iguais!
Ao cruzar no Grand Hotel de Estocolmo com os jogadores da seleção, Silvio Santos fez questão de dar uma força a Neymar: "Não fica triste, não! Meu cabeleireiro também não consegue acertar a mão!"
Estigma ultrapassado
Sargentona é o escambau! Promovida pelo Pentágono, Tammy Smith virou a primeira general homossexual assumida do Exército americano.
Melhor parcelar
A chuva está em dívida com São Paulo, onde a seca já perdura há 28 dias. Tomara que São Pedro não pague tudo de uma vez, né?
Incompatibilidade total
Tá explicado por que o ministro Joaquim Barbosa, relator do processo do mensalão no STF, abandonou o Twitter. Alguém que gasta mais de 1 mil folhas para justificar um voto, convenhamos, deve ter dificuldade até para dar bom dia em 140 toques.
"Lá em Londres vez em quando me sentia longe daqui" e, sempre que isso acontecia, a primeira coisa que desgraçadamente me vinha à cabeça não era a letra aqui plagiada de Gilberto Gil para Back in Bahia. O Brasil de hoje tem trilha sonora de Michel Teló: "Ai se eu te pego, ai, ai, assim você me mata..."
Tem um tipo de música se criando de monte por aqui que você não consegue tirar de dentro nem quando está fora. Pode botar um oceano entre seus ouvidos e o grupo de pagode Sorriso Maroto e logo vai descobrir que faz parte de sua bagagem cultural o refrão "ai, ai, aiaiaiai, assim você mata o papai, ai, ai, aiaiaiai".
O Brasil pode ser um país sem memória para outras coisas, mas vai tentar esquecer "eu quero tchu, eu quero tcha, eu quero tchu tcha tcha..." Impossível!
Longe daqui é mais fácil não pensar em Carminha, Nina, Leleco e Tufão do que apagar do inconsciente o "oioioi" tema da novela das 9.
De volta ao país do mensalão, meu repertório de musiquinhas insuportáveis foi enriquecido por este "zero quinhentos dois mil e doze, zero sete, pra doar sete reais..." cantarolado por artistas da Globo na campanha Criança Esperança 2012.
Ninguém merece, mas eu gostei de ter voltado!
O bom e o velho
É impressionante como a geração que jogou futebol com Pelé parece mais velha ao lado dele. No encontro de ontem à tarde em
Estocolmo, o rei chegou a ficar constrangido ao ser apresentado ao
velhinho sueco em quem deu um chapéu
humilhante na final da Copa do Mundo de 1958.
Ei, juiz, vai...
Segundo prognóstico de Roberto Jefferson, "o STF não vai enfrentar a galera, e a galera quer a condenação". Isso quer dizer o seguinte: torcida só não ganha jogo no futebol!
Mal comparando
Falta entre os réus do mensalão alguém com a sinceridade do mordomo do papa, Paolo Gabriele, para admitir que "vendo o mal e a corrupção por toda parte, finalmente cheguei a um ponto em que não consegui mais me controlar". Simples assim!
Todos iguais!
Ao cruzar no Grand Hotel de Estocolmo com os jogadores da seleção, Silvio Santos fez questão de dar uma força a Neymar: "Não fica triste, não! Meu cabeleireiro também não consegue acertar a mão!"
Estigma ultrapassado
Sargentona é o escambau! Promovida pelo Pentágono, Tammy Smith virou a primeira general homossexual assumida do Exército americano.
Melhor parcelar
A chuva está em dívida com São Paulo, onde a seca já perdura há 28 dias. Tomara que São Pedro não pague tudo de uma vez, né?
Incompatibilidade total
Tá explicado por que o ministro Joaquim Barbosa, relator do processo do mensalão no STF, abandonou o Twitter. Alguém que gasta mais de 1 mil folhas para justificar um voto, convenhamos, deve ter dificuldade até para dar bom dia em 140 toques.
"Lá em Londres vez em quando me sentia longe daqui" e, sempre que isso acontecia, a primeira coisa que desgraçadamente me vinha à cabeça não era a letra aqui plagiada de Gilberto Gil para Back in Bahia. O Brasil de hoje tem trilha sonora de Michel Teló: "Ai se eu te pego, ai, ai, assim você me mata..."
Tem um tipo de música se criando de monte por aqui que você não consegue tirar de dentro nem quando está fora. Pode botar um oceano entre seus ouvidos e o grupo de pagode Sorriso Maroto e logo vai descobrir que faz parte de sua bagagem cultural o refrão "ai, ai, aiaiaiai, assim você mata o papai, ai, ai, aiaiaiai".
O Brasil pode ser um país sem memória para outras coisas, mas vai tentar esquecer "eu quero tchu, eu quero tcha, eu quero tchu tcha tcha..." Impossível!
Longe daqui é mais fácil não pensar em Carminha, Nina, Leleco e Tufão do que apagar do inconsciente o "oioioi" tema da novela das 9.
De volta ao país do mensalão, meu repertório de musiquinhas insuportáveis foi enriquecido por este "zero quinhentos dois mil e doze, zero sete, pra doar sete reais..." cantarolado por artistas da Globo na campanha Criança Esperança 2012.
Ninguém merece, mas eu gostei de ter voltado!
O bom e o velho
É impressionante como a geração que jogou futebol com Pelé parece mais velha ao lado dele. No encontro de ontem à tarde em
Estocolmo, o rei chegou a ficar constrangido ao ser apresentado ao
velhinho sueco em quem deu um chapéu
humilhante na final da Copa do Mundo de 1958.
Regras anacrônicas distorcem eleição - ROSÂNGELA BITTAR
VALOR ECONÔMICO - 15/08
A última pesquisa Ibope sobre eleições nas capitais mostrou a estagnação, uma ausência de movimento nas intenções de voto onde se imaginava que já fizera algum efeito o apoio de cabos eleitorais de importância fundamental. Por exemplo: em São Paulo, o candidato Fernando Haddad (PT) não reagiu, apesar de estar em campanha e super exposto na mídia jornalística desde o início do ano, a todo momento sendo citado como preferido do ex-presidente Lula. No Recife, o candidato do PT apoiado por Lula, Humberto Costa, até caiu com relação às intenções de voto iniciais, e o candidato do governador Eduardo Campos, o ex-secretário Geraldo Júlio, subiu. Em Belo Horizonte, a surpreendente definição da candidatura petista de Patrus Ananias, com apoio de Lula, Dilma e Michel Temer, apareceu com menos da metade das intenções de voto do candidato Márcio Lacerda, do PSB do governador Eduardo Campos, do Recife.Eram as três praças onde a unção do ex e da atual presidente, ambos popularíssimos, foi tão espalhafatosa quanto inócua, até o momento. A mídia jornalística, afirmam os entendidos, por mais engajada em uma candidatura, não tem o poder de mexer nas intenções de voto. O fenômeno notado na última pesquisa, porém, não vai se repetir e deve ser logo superado a partir do fim de agosto. No dia 30, já terão se passado quase duas semanas de propaganda eleitoral no rádio e televisão. E, principalmente nas grandes cidades, onde o eleitorado é maior, é difícil haver movimentos expressivos nas curvas de intenção de voto sem a televisão.
Em segundo lugar, há as peculiaridades locais. Se fosse Marta Suplicy a candidata do PT em São Paulo, ainda mais com o apoio de Lula, ela já teria muito mais seguidores do que tem hoje Haddad, pelo simples fato de que já é conhecida e o primeiro impulso já teria sido dado sem esperar a TV. Teria, pelo menos, os 28% de votos que, segundo o Datafolha, o PT tem em São Paulo.
O mercado deveria regular conflito de interesse em pesquisa
Hoje, a maioria desses votos está com Celso Russomano, em segundo lugar com José Serra e só em terceiro com Haddad. Quando informado de que seu candidato e o de Lula é outro, certamente esse contingente de eleitores irá correndo para Haddad.
O tamanho do horário eleitoral dito gratuito nas campanhas para prefeito, ainda por cima, é cinco vezes maior que o das campanhas para eleições presidenciais, de governador, Senador, deputado federal e estadual, porque há menos categorias com quem dividir o tempo, são só os prefeitos e vereadores. Portanto, blocos intermináveis de propaganda e, o mais eficiente, inserções ao longo de todo o dia, um tempo abusivo, mudarão tudo.
Muito do que tem Russomano, hoje, ainda é lembrança da exposição na televisão comercial, da mesma forma que é impossível Haddad não subir significativamente com o horário eleitoral.
No Recife, os números não ficaram tão rígidos, mas a mexida se deu porque, pelas peculiaridades locais, as pessoas notaram a proximidade da eleição: pela primeira vez, em muitos anos, o governador Eduardo Campos e o PT disputam eleições separados, e seu candidato, que não estava na consideração do eleitorado há até bem pouco tempo, subiu no espaço do racha do PT pernambucano.
No fim de agosto, porém, quando a cidade já tiver visto uns dez dias de propaganda na TV e no Rádio, o eleitorado vai se deparar com o fato de que há um candidato de Eduardo Campos e um candidato de Lula. Este, certamente, vai parar de cair, pelo menos. Os especialistas nesses movimentos recomendam não subestimar nem superestimar o peso do apoio de Lula, que sem dúvida é importantíssimo, mas definir o resultado é outra coisa, talvez não defina em várias cidades onde se empenha.
A situação na terceira grande praça onde o barulho foi grande e não correspondeu à mexida no status quo é Belo Horizonte, mas as razões apontadas pelos especialistas são outras. Ali se deu o fenômeno do candidato chamado "incumbente", o prefeito no cargo postulando a reeleição.
Quando pleiteou o cargo na eleição anterior, Lacerda, então um desconhecido, na primeira semana da propaganda eleitoral gratuita subiu nove pontos, um resultado que se espera para os desconhecidos deste ano logo que iniciada a propaganda na TV. Agora não precisa desse impulso, vamos ver se seus adversários se beneficiam da super-exposição.
Mais uma vez o Brasil vai às urnas com campanhas ainda moldadas por duas distorções provocadas pelo anacronismo da legislação eleitoral. Uma, essa do exagerado tempo de propaganda na TV e rádio que está longe de ser gratuito: o governo desonera as emissoras, a produção dos programas é o principal peso no orçamento das campanhas e os partidos compram tempo de TV através das coligações que, há muito, deixaram de ser convergência política ou ideológica, é um mero comércio, um mecanismo aquisitivo de espaço na propaganda. Há estudos que alimentam a corrida ao tempo de TV. Um trabalho realizado pelo sociólogo e cientista político Antonio Lavareda, sobre a eleição de 2008, aponta que 75% dos candidatos vitoriosos tinham o primeiro ou o segundo tempo maior de televisão. Não é coincidência e por isso cada vez mais os partidos saem às compras de legendas, gênese de mensalões na política brasileira.
A segunda distorção que vai ficando no anacronismo da legislação, para ela não se vê razão a não ser a saciedade comercial de um segmento empresarial, são as pesquisas de duplo e dúbio interesse. A pesquisa é um trabalho, diz-se por aí, científico. Há publicações científicas internacionais, hoje, que adotam a informação sobre se aquele trabalho é passível de conflito de interesse, se está fazendo aquilo sob contrato de alguém, ou outros trabalhos sob patrocínio de algum interessado naquele. A simples menção de que os institutos deveriam revelar se têm contrato com partidos ou candidatos que possam conflitar com o trabalho dito científico o mundo desaba.
Ao contrário de criar novas restrições, muitos preferem a desregulação da publicação de pesquisas. Assim, grandes jornais grandes redes, como ocorre no exterior, não contratariam quem fizesse pesquisas para candidatos ou partidos. Lá fora, o próprio mercado foi se organizando e impondo a sua regulação. Aqui, a democracia é ainda experiência e pesquisadores se dão ao luxo de estranhar que certos candidatos e partidos existam na disputa.
A nova política econômica existe só nas intenções - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 15/08
A recuperação da economia está com boa perspectiva, ao menos no olhar do governo. O único problema é concretizar o que até agora são intenções.
O governo, sem reconhecer, ficou aberto às críticas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e, agora, se mobiliza para dar à economia nacional as bases sem as quais ela não tem possibilidade de voltar a um ritmo de crescimento aceitável.
A presidente Dilma Rousseff declarou-se muito favorável à obtenção do superávit primário definido na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). No máximo, poderão ser abatidos os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que são tão diminutos que não deverão alterar muito o resultado final.
A melhor reação, bem tardia, é o reconhecimento de que o crescimento depende da taxa de Formação Bruta de Capital Fixo num mínimo de 20% do PIB. Para chegar a isso, o governo está anunciando um ambicioso programa de concessões para a construção de rodovias e estradas de ferro, projetos realizados por meio do sistema de Parcerias Público-Privadas (PPPs), que têm a vantagem de captar recursos financeiros do setor privado e ser administradas por grupos especializados da área privada. Isso deve permitir redução de custos e menor tempo de realização dos projetos.
Cabe, naturalmente, ao setor privado dar firme contribuição à elevação dos investimentos, e um passo importante acaba de ser dado nessa direção. As indústrias que se oferecerem para aumentar a participação de equipamentos nacionais, no caso da exploração do petróleo e das refinarias, podem contar com uma ajuda financeira importante do BNDES, e projetos nesse sentido já começam a nascer.
Numa indústria nacional em que 24% dos produtos finais oferecidos são bens importados, por causa da baixa competitividade da produção doméstica, era necessário que o governo desse atenção especial a esse problema. Assim, ofereceu a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) em alguns produtos - o que não deveria ser pontual, mas generalizado - e ofereceu também, só para alguns setores, uma desoneração da folha de salários, em que os encargos serão pagos sobre o faturamento, permitindo, assim, aumento das vendas efetivas com flutuação sazonal.
A renovação da infraestrutura, cujo atraso eleva os custos das empresas (transporte rodoviário, ferroviário e portos), deveria aumentar a competitividade do País, enquanto se anuncia a redução do custo da eletricidade.
O quadro altamente positivo está aí. Mas, até agora, só no papel.
POLÍCIA RODOVIÁRIA FEDERAL UMA CAMBADA DE VAGABUNDOS
POLÍCIA RODOVIÁRIA FEDERAL É UMA CAMBADA DE VAGABUNDOS.
DEMISSÃO PARA ESSES FILHOS DA PUTA!
XINGAMENTOS NÃO ADIANTA, CONTINUAM SENDO V A G A B U N D O S
NÃO ESTAVA BÊBADO, MEU CARRO É NOVO, NÃO TINHA FUMADO, NEM FUI MULTADO.
AGORA, PARAR UMA ESTRADA POR MAIS DE 4 HS PARA FUDER O CIDADÃO, ISSO É COISA DE VAGABUNDO.
O PRF TAMBÉM CONHECIDO PELO ALCUNHA DE BOLEIROS, COM UMA ARMA NA CINTURA, ABUSA DA SUA AUTORIDADE CONTRA O CIDADÃO INDEFESO.
SÃO MOLEQUES VAGABUNDOS
MURILO O DONO BLOG!
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XINGAMENTOS NÃO ADIANTA, CONTINUAM SENDO V A G A B U N D O S
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AGORA, PARAR UMA ESTRADA POR MAIS DE 4 HS PARA FUDER O CIDADÃO, ISSO É COISA DE VAGABUNDO.
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SÃO MOLEQUES VAGABUNDOS
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Greves e democracia - HÉLIO SCHWARTSMAN
Folha de S. Paulo - 15/08
SÃO PAULO - Um bom jeito de aferir o grau de democracia de uma nação é ver como ela trata os seus grevistas. Nas ditaduras, paralisações costumam ser proibidas e a regra é implementada a ferro e fogo. Nos países medianamente livres, movimentos paredistas são, em tese, permitidos e a repressão vem na forma de perseguição e assassinato de lideranças. Já em nações de democracia real, mas imatura, como o Brasil, os grevistas fazem o que querem.
Como já escrevi neste espaço, não dá para impedir ou limitar as paralisações sem solapar as garantias mais básicas do Estado de Direito. Para fazer um sujeito comparecer ao trabalho contra a sua vontade, seria preciso resgatar ferramentas jurídicas criadas nos tempos da escravidão.
Daí não decorre que a população esteja condenada a dizer amém a tudo o que exigem os grevistas. Embora não possa obrigar ninguém a trabalhar, o Estado teria condições de reduzir os impactos negativos que as paralisações e os protestos trazem para a sociedade. Se descontar os dias dias parados, por exemplo, tende a encurtar a duração das greves. E não dá para dizer que essa medida seja autoritária ou antidemocrática.
Em setores sensíveis como a Anvisa e a PF, o poder público poderia até mesmo liberar as importações e suspender o controle de passaportes em caráter emergencial. É claro que isso facilitaria a vida de contrabandistas e foragidos. Mas não há muita dúvida de que esse risco é preferível ao de faltarem medicamentos ou de o cidadão ver frustrado seu direito de entrar e sair do país.
A verdade é que a atual legislação, ao tentar domesticar o conflito, obrigando os grevistas a manter serviços mínimos, mas proibindo o empregador de contratar substitutos, contribui para banalizar as paralisações. Faria mais sentido tornar as greves tão custosas para ambos os lados que, a exemplo das armas nucleares, só seriam utilizadas como último recurso.
Como já escrevi neste espaço, não dá para impedir ou limitar as paralisações sem solapar as garantias mais básicas do Estado de Direito. Para fazer um sujeito comparecer ao trabalho contra a sua vontade, seria preciso resgatar ferramentas jurídicas criadas nos tempos da escravidão.
Daí não decorre que a população esteja condenada a dizer amém a tudo o que exigem os grevistas. Embora não possa obrigar ninguém a trabalhar, o Estado teria condições de reduzir os impactos negativos que as paralisações e os protestos trazem para a sociedade. Se descontar os dias dias parados, por exemplo, tende a encurtar a duração das greves. E não dá para dizer que essa medida seja autoritária ou antidemocrática.
Em setores sensíveis como a Anvisa e a PF, o poder público poderia até mesmo liberar as importações e suspender o controle de passaportes em caráter emergencial. É claro que isso facilitaria a vida de contrabandistas e foragidos. Mas não há muita dúvida de que esse risco é preferível ao de faltarem medicamentos ou de o cidadão ver frustrado seu direito de entrar e sair do país.
A verdade é que a atual legislação, ao tentar domesticar o conflito, obrigando os grevistas a manter serviços mínimos, mas proibindo o empregador de contratar substitutos, contribui para banalizar as paralisações. Faria mais sentido tornar as greves tão custosas para ambos os lados que, a exemplo das armas nucleares, só seriam utilizadas como último recurso.
Não é hora - ANTONIO DELFIM NETTO
FOLHA DE SP - 15/08
A ideia escolar que os salários são proporcionais à produtividade marginal do trabalho é absolutamente falsa. A prova é visível. Brasília é, sem sombra de dúvida, onde é menor a produtividade do trabalho, mas ostenta os maiores salários do país!
Vemos armar-se um aparente tsunami reivindicatório de aumentos salariais. O apelo à greve é um direito do funcionalismo, mas é preciso haver responsabilidade e saber que há custos para eles, porque ela pune, basicamente, os direitos da população a quem deve servir.
Talvez seja interessante lembrar que, nos anos 80 do século passado, o Dasp (Departamento de Administração do Serviço Público) fazia pesquisas sobre níveis salariais do setor privado para tentar equiparar a eles os do setor público, ajustados pelo valor atual da vantagem da aposentadoria integral.
Nas funções mais claramente identificáveis e que exigiam mão de obra mais qualificada, os salários eram ligeiramente melhores do que os do setor privado. Talvez seja por isso que não existiam 10 milhões de candidatos preparando-se nos "cursinhos" de admissão do serviço público como hoje.
Em 1984 (quando o Brasil voltou a crescer 5,4% e já tinha superavit em conta-corrente), a situação salarial do funcionalismo estava equilibrada. A destruição do Dasp começou em 1986 e acabou gloriosamente em 1990. Desde então, cada grupo que se "ajeita", dispara uma corrida para a "equiparação" ou "isonomia" dos que se consideram "atrasados".
Essa balbúrdia facilitou a confusão, dando a impressão equivocada de que o caos precede a ordem. Mas, como ensina o velho ditado, "é nessa confusão que morre o Tesouro Nacional"...
Não é fácil avaliar a qualidade, a razoabilidade e a justiça em cada reivindicação dos improváveis 250 mil que se dizem estar em greve causando enormes inconvenientes para a sociedade. Mas, se o número for verdadeiro, ele é uma amostra representativa (40%) de todo o funcionalismo civil federal na ativa, que é de 640 mil.
Com base nela, a razoabilidade das exigências parece ser muito precária. O rendimento real do setor público total entre janeiro de 2005 e março de 2012 (7,25 anos) cresceu nada menos do que 4,8% ao ano, contra 2,1% no setor privado.
O número total de funcionários na ativa cresceu à taxa de 2,2% ao ano. A "renda real" apropriada pelo funcionalismo federal (marajás e bagrinhos) aumentou no período 7,0% ao ano, enquanto o PIB cresceu a 3,8% ao ano.
Num momento de dificuldades como o atual, eles têm todo o direito de reivindicar, mas o governo tem o dever de resistir em nome da estabilidade que beneficia os "excluídos" 196 milhões de cidadãos brasileiros!
A ideia escolar que os salários são proporcionais à produtividade marginal do trabalho é absolutamente falsa. A prova é visível. Brasília é, sem sombra de dúvida, onde é menor a produtividade do trabalho, mas ostenta os maiores salários do país!
Vemos armar-se um aparente tsunami reivindicatório de aumentos salariais. O apelo à greve é um direito do funcionalismo, mas é preciso haver responsabilidade e saber que há custos para eles, porque ela pune, basicamente, os direitos da população a quem deve servir.
Talvez seja interessante lembrar que, nos anos 80 do século passado, o Dasp (Departamento de Administração do Serviço Público) fazia pesquisas sobre níveis salariais do setor privado para tentar equiparar a eles os do setor público, ajustados pelo valor atual da vantagem da aposentadoria integral.
Nas funções mais claramente identificáveis e que exigiam mão de obra mais qualificada, os salários eram ligeiramente melhores do que os do setor privado. Talvez seja por isso que não existiam 10 milhões de candidatos preparando-se nos "cursinhos" de admissão do serviço público como hoje.
Em 1984 (quando o Brasil voltou a crescer 5,4% e já tinha superavit em conta-corrente), a situação salarial do funcionalismo estava equilibrada. A destruição do Dasp começou em 1986 e acabou gloriosamente em 1990. Desde então, cada grupo que se "ajeita", dispara uma corrida para a "equiparação" ou "isonomia" dos que se consideram "atrasados".
Essa balbúrdia facilitou a confusão, dando a impressão equivocada de que o caos precede a ordem. Mas, como ensina o velho ditado, "é nessa confusão que morre o Tesouro Nacional"...
Não é fácil avaliar a qualidade, a razoabilidade e a justiça em cada reivindicação dos improváveis 250 mil que se dizem estar em greve causando enormes inconvenientes para a sociedade. Mas, se o número for verdadeiro, ele é uma amostra representativa (40%) de todo o funcionalismo civil federal na ativa, que é de 640 mil.
Com base nela, a razoabilidade das exigências parece ser muito precária. O rendimento real do setor público total entre janeiro de 2005 e março de 2012 (7,25 anos) cresceu nada menos do que 4,8% ao ano, contra 2,1% no setor privado.
O número total de funcionários na ativa cresceu à taxa de 2,2% ao ano. A "renda real" apropriada pelo funcionalismo federal (marajás e bagrinhos) aumentou no período 7,0% ao ano, enquanto o PIB cresceu a 3,8% ao ano.
Num momento de dificuldades como o atual, eles têm todo o direito de reivindicar, mas o governo tem o dever de resistir em nome da estabilidade que beneficia os "excluídos" 196 milhões de cidadãos brasileiros!
Freud explica - SONIA RACY
O ESTADÃO - 15/08
Ex-FMI e hoje crítico do organismo, o economista declarou que, nas crises vividas pelos EUA nos anos 80 e em 2008, o governo evitou que os bancos americanos falissem. Como? Fixando o valor de seus ativos em um nível intermediário entre o valor de mercado e o valor contábil.
Freud 2
A operação acabou explicada pela tradutora do evento como “truchar las estadísticas”. Truchar, na gíria portenha, significa “falsificar”. Ouvindo isso, Cristina entusiasmou-se: “Si vamos a truchar, truchemos todos”, afirmou, frisando que, caso fosse presidente dos EUA, teria tomado a mesma decisão.
Detalhe: seu governo é acusado de manipular estatísticas.
No ar
Corre pelo mercado que Gol e Avianca estariam conversando.Ambas negam.
De olho
As 17 medalhas trazidas de Londres não deixaram Aldo Rebelo nem um pouco satisfeito. Pelo que a coluna apurou, o ministro do Esporte chegou ao Brasil dizendo que, a partir de agora, pretende aplicar o critério da meritocracia para distribuir recursos.
E mais: dará ênfase a atletas com até 20 anos de idade.
De olho 2
Amante dos esportes fez as contas. Pela quarta vez consecutiva, a América Latina, em conjunto, consegue… 56 medalhas em uma Olimpíada.
A região não arreda pé desse total desde Sydney-2000, passando por Atenas-2004, Pequim-2008 e Londres-2012.
Comida
E a Justiça do Trabalho bateu o martelo: o McDonald’s não pode mais servir… McDonald’s a funcionário de uma loja em São Bernardo do Campo.
De acordo com a decisão, a lanchonete deve fornecer vale-refeição ao empregado.
Comida 2
Para a Justiça, o lanche tem “elevado teor calórico e questionável valor nutritivo”. E não equivale a uma refeição.
A empresa informou ainda não ter sido notificada e que cumpre a legislação trabalhista.
Na frente
A Bienal elegeu ontem novo presidente de seu conselho: Tito Enrique da Silva Neto, ex-ABC Brasil.
Carina Duek é anfitriã de fashion party no Baretto. Hoje.
Gilles Lipovetsky, filósofo francês, participa, hoje, da conferência The New World of Luxury, no MuBe. No mesmo local, Claudio Diniz lança livro sobre luxo.
Mariana Oliveira lança seu primeiro livro infantil, Serafina Nunca Para. Domingo, na Livraria da Vila do JK.
A Frattina e a Cartier fervem em festas nas lojas da Oscar Freire e do Iguatemi. Até domingo.
E a diva do pop Madonna faz 54 anos hoje.
RESPOSTA AOS SERVIDORES - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 15/08
Depois de ter recorrido até mesmo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num esforço para conter o ímpeto dos servidores federais que paralisaram as atividades, particularmente os ligados a sindicatos filiados à Central Única dos Trabalhadores (CUT), o governo da presidente Dilma Rousseff começa finalmente a esboçar uma resposta firme aos grevistas.
O recado, claro, é de que serão priorizadas categorias com maior defasagem e menores ganhos, não as mais ruidosas e com maior poder de pressão. Além disso, o Planalto ameaça descontar os dias parados e não admite qualquer possibilidade de um índice de 22%, como o pretendido em média pelos funcionários. Parece justo. Os servidores não devem ser tratados como inimigos dos cidadãos, mas também não podem se constituir em casta privilegiada.
Cruzar os braços é um direito de qualquer trabalhador, inclusive do setor público. Por isso, a sociedade não pode culpar os grevistas nem o governo por tolerar o movimento. Ao contrário do que costuma ocorrer na iniciativa privada, porém, na esfera governamental os servidores param quando querem, muitas vezes sem se preocupar em garantir um mínimo das atividades em funcionamento.
Ao mesmo tempo, dificilmente sofrem qualquer punição, nem mesmo o desconto dos dias não trabalhados, o que volta novamente agora como ameaça. A leniência se mantém porque o Congresso, integrado em boa parte por lobistas de servidores, até hoje não se dispôs a regulamentar devidamente a lei de greve na área governamental.
O mesmo Congresso tem um papel relevante a desempenhar neste momento em que milhares de servidores se mantêm parados, enquanto categorias influentes prometem aumentar a pressão nos próximos meses, como é o caso de bancários e petroleiros. Por mais que as reivindicações sejam legítimas, o quadro funcional foi mais do que privilegiado no governo anterior, gerando consequências que se tornam mais visíveis em momentos de dificuldades econômicas como o atual.
Desde então, o total de funcionários saltou de 485 mil para 573 mil. Além disso, a média do custo por servidor ampliou-se em 170%, enquanto a inflação do período limitou-se a 70%, criando um descompasso perigoso.
A sociedade, que é quem financia o pagamento do funcionalismo com o valor dos impostos, não pode arcar com o ônus da descontinuidade dos serviços, alguns deles de competência exclusiva do governo federal. Quando isso ocorre, o contribuinte perde duplamente: primeiro por deixar de ser atendido e, depois, pelo fato de recursos tão escassos para áreas essenciais ficarem sem controles mínimos, dando ainda mais margem a deformações.
Depois de ter recorrido até mesmo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num esforço para conter o ímpeto dos servidores federais que paralisaram as atividades, particularmente os ligados a sindicatos filiados à Central Única dos Trabalhadores (CUT), o governo da presidente Dilma Rousseff começa finalmente a esboçar uma resposta firme aos grevistas.
O recado, claro, é de que serão priorizadas categorias com maior defasagem e menores ganhos, não as mais ruidosas e com maior poder de pressão. Além disso, o Planalto ameaça descontar os dias parados e não admite qualquer possibilidade de um índice de 22%, como o pretendido em média pelos funcionários. Parece justo. Os servidores não devem ser tratados como inimigos dos cidadãos, mas também não podem se constituir em casta privilegiada.
Cruzar os braços é um direito de qualquer trabalhador, inclusive do setor público. Por isso, a sociedade não pode culpar os grevistas nem o governo por tolerar o movimento. Ao contrário do que costuma ocorrer na iniciativa privada, porém, na esfera governamental os servidores param quando querem, muitas vezes sem se preocupar em garantir um mínimo das atividades em funcionamento.
Ao mesmo tempo, dificilmente sofrem qualquer punição, nem mesmo o desconto dos dias não trabalhados, o que volta novamente agora como ameaça. A leniência se mantém porque o Congresso, integrado em boa parte por lobistas de servidores, até hoje não se dispôs a regulamentar devidamente a lei de greve na área governamental.
O mesmo Congresso tem um papel relevante a desempenhar neste momento em que milhares de servidores se mantêm parados, enquanto categorias influentes prometem aumentar a pressão nos próximos meses, como é o caso de bancários e petroleiros. Por mais que as reivindicações sejam legítimas, o quadro funcional foi mais do que privilegiado no governo anterior, gerando consequências que se tornam mais visíveis em momentos de dificuldades econômicas como o atual.
Desde então, o total de funcionários saltou de 485 mil para 573 mil. Além disso, a média do custo por servidor ampliou-se em 170%, enquanto a inflação do período limitou-se a 70%, criando um descompasso perigoso.
A sociedade, que é quem financia o pagamento do funcionalismo com o valor dos impostos, não pode arcar com o ônus da descontinuidade dos serviços, alguns deles de competência exclusiva do governo federal. Quando isso ocorre, o contribuinte perde duplamente: primeiro por deixar de ser atendido e, depois, pelo fato de recursos tão escassos para áreas essenciais ficarem sem controles mínimos, dando ainda mais margem a deformações.
Argentina padece com estilo chavista de Cristina - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 15/08
O metrô de Buenos Aires voltou a funcionar após dez dias. O retorno ao trabalho foi possível graças a um acordo provisório que deu 23% de aumento salarial (os trabalhadores querem 28%, para repor a inflação efetiva). No pano de fundo, é uma disputa entre a presidente Cristina Kirchner e o prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, adversário e candidato às eleições presidenciais de 2015. Cristina quer repassar à prefeitura o metrô, que exige investimentos pesados para se modernizar. O prefeito evita assumi-lo, e o usuário paga o preço. Macri denunciou a “chavização do país”. Não é o primeiro a fazê-lo. Ele classificou o episódio do metrô como “uma estratégia da Casa Rosada para destruir um poder político independente, da mesma forma como o presidente venezuelano atua em relação a seus opositores”.
O casamento de chavismo com kirchnerismo permeia o debate sobre a reeleição da presidente. A Constituição permite apenas uma, que já ocorreu, mas aliados da Casa Rosada defendem uma reforma constitucional que permita o terceiro mandato. O que restabeleceria o plano de Néstor Kirchner de o casal K permanecer anos a fio no poder, interrompido com a morte do ex-presidente. Outro projeto de figurino chavista.
Decisões judiciais abrem frestas no muro que o governo K ergue contra a liberdade de imprensa. Uma delas suspendeu a decisão de intervir na Cablevisión, principal operadora de TV a cabo da Argentina, em mais um round da luta do governo contra o Grupo Clarín, um dos maiores no setor de mídia do país, e que ela gostaria de silenciar, por independente. A segunda intimou o Estado a cumprir sentença que mandou incluir o Editorial Perfil (jornal e revistas) na distribuição de publicidade oficial. Esta é outra forma de desidratar grupos de comunicação “inimigos”: não lhes repassar publicidade oficial com que são agraciados veículos “amigos”.
Sobram desmandos. Recentemente, veio a público a iniciativa da Casa Rosada de permitir que presos comuns deixem o cárcere para “fins culturais” e “militar”. O que leva um governo a soltar presidiários para participar de eventos? Engrossar os comícios da presidente e, se for preciso, arranjar confusão e promover tumultos.
O fato de o patrimônio da família ter se multiplicado por nove desde 2003 diz muito sobre seu espírito público. Que foi involuntariamente resumido por Cristina na frase “si vamos a truchar, truchemos todos” (“se vamos falsificar, falsifiquemos todos”), justificando implicitamente a manipulação da inflação. Ocorreu numa palestra do economista Joseph Stiglitz, que destacou a necessidade de “os governos terem agência de estatísticas independentes”.
Com isso, cai a credibilidade da Argentina, que está apenas em sexto no ranking do investimento externo na região, apesar de ser a terceira maior economia latino-americana. A única certeza diante do futuro é que a chavização argentina criará mais problemas para o Brasil no Cone Sul.
Comida indigesta - ANDRÉ MELONI NASSAR
O ESTADÃO - 15/08
Com perdão da brincadeira, carnes de frango e suíno são o recheio de um sanduíche com milho e farelo de soja empurrando-as, de um lado, e o varejo segurando-as, de outro. Quando nos lembramos de que frango e porco, duas das formas mais eficientes de produção de proteína animal, são vorazes comedores de milho e farelo, entendemos por que essa indescritível subida nos preços dos produtos-base para as rações tem tudo que ver com a vida de cada brasileiro. É uma comida indigesta.
Milho e farelo de soja são a base da alimentação da grande maioria dos animais que faz parte da nossa vida. É surpreendente verificar como somos dependentes e comensais indiretos desses produtos. Seja na forma de carne de frango, porco e bovina (cada vez mais o gado de corte brasileiro come rações), seja nos ovos que utilizamos para fazer doces e massas, seja no leite que adultos e crianças tomam todos os dias, seja na ração que damos a nossos pets, todo o alimento que os animais ingerem se resume a milho (em grão ou o pé inteiro) e farelo de soja.
De todos os impactos que os altos preços de milho e soja, fruto de uma das mais frustradas safras norte-americanas nos últimos 70 anos, trarão ao mercado e ao dia a dia das pessoas, além dos óbvios benefícios para quem produz essas lavouras, o mais relevante e significativo é o aumento do custo de produzir proteína animal. Os casos mais emblemáticos, porém, são as carnes de frango e suína.
A carne de frango que cada brasileiro consome (0,9 kg por semana) é, no bom sentido, uma máquina de processar e converter energia e proteína, na forma de biomassa, em carne. Em média, cada frango no Brasil é abatido com 2,5 kg (frango vivo), depois de 41 dias de intensa vida de consumo de milho e farelo de soja. O desenvolvimento tecnológico na produção de frango é surpreendente. Os frangos modernos são capazes de converter 1,8 kg de ração em 1 kg de carne. Quando eu nasci, 40 anos atrás, eram necessários 2,15 kg de ração para produzir 1 kg de carne.
O porco, que tem um sistema digestivo semelhante ao frango e por isso ambos eles são chamados de animais monogástricos, é também muito eficiente na produção de carne a partir da energia do milho e da proteína da soja. Atualmente se abate um porco de 5,5 meses de idade com cerca de 110 kg. A capacidade de conversão alimentar do suíno é de 2,8 kg de ração para 1 kg de carne. O suíno, em toda a sua vida, engorda, surpreendentemente, 660 gramas por dia. Assim, embora sejamos dependentes de milho e farelo, hoje somos muito menos do que fomos no passado.
Não existem formas de transformação de dois produtos não diretamente comestíveis pelo ser humano (milho e soja) em proteínas plenamente digestíveis do que frango e suíno. Assim, se frango e suíno estão sofrendo com essa alta dos preços, é porque precisamos refletir mais seriamente sobre os seus impactos.
O 1,8 kg e os 2,8 kg de ração que frango e porco consomem para produzir, respectivamente, 1 kg de carne são, em volume, 60% de milho (fonte de energia para o animal) e 30% de farelo de soja (fonte de proteína). Em custo, os dois ingredientes somam 70%. A partir daí fica fácil fazer a conta. Para cada 1% de aumento no preço de milho e soja, os custos de frango e suíno sobem, grosso modo, 0,7%. Em um mês e meio (início de julho até hoje) os preços de milho e farelo de soja no Brasil subiram ao redor de 25%, puxando os custos de frango e suíno para cima. O consumidor brasileiro certamente vai sentir esse aumento de custos no bolso.
Esse aumento, no entanto, tem de ser entendido de forma relativa pelos consumidores brasileiros. Primeiro, porque será um aumento de um tiro só, ou seja, os preços vão subir para corrigir os custos e recuperar margens e, se estabilizarão. Segundo, porque nenhum brasileiro quer ver a sua indústria de frango e porco entrar em colapso, o que certamente ocorreria caso os preços não fossem corrigidos, porque eles estão na base do nosso consumo de proteína.
O Brasil, graças ao seu vasto e diversificado território e a um agro comercial e familiar extremamente desenvolvido, terá entre os seus consumidores aqueles que menos sofrerão com os elevados preços internacionais do milho e do farelo de soja. Acredito que se os preços das carnes vão subir por aqui, vão subir ainda mais naquelas nações que ou importam milho e soja (nós somos exportadores) ou importam carne diretamente (somos exportadores também). Ser um produtor competitivo e exportador no momento de crise de preços faz enorme diferença para os consumidores de um país.
Sendo exportador, os preços no mercado doméstico, isto é, os que são pagos pelos consumidores locais, tendem a ser mais baixos que os preços internacionais. Ninguém consegue exportar um produto que seja mais caro que o preço que o importador está disposto a pagar. Além disso, um exportador de milho, soja e carnes, como nós, diante de um aumento de preços originado por motivos fora do controle dos governos, consumidores e produtores, como é o caso da seca nos Estados Unidos, é o que responde mais rapidamente com aumento de produção. Isso significa que serão os consumidores brasileiros os que mais rapidamente se beneficiarão com a queda dos preços quando a produção de soja e milho se recuperar.
Não há dúvida de que os elevados preços são uma grande oportunidade para os produtores de milho e soja. Cabe a eles fazer uso racional da bonança que se desenha e, claro, imaginar que ela deverá acabar num futuro não muito distante. Ao mesmo tempo, não há como negar que a bonança de milho e soja é a penúria de frango e porco e que o cerca de 1,5 milhão de pessoas envolvidas na produção de ambas essas carnes ajudam a alimentar os outros 188,5 milhões de brasileiros.
Permitir que os produtores de frango e porco escapem com vida desta crise é, portanto, obrigação de todos.
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