domingo, agosto 05, 2012

A exceção e a regra - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 05/08


Existe um presidente da República, em pleno exercício do mandato, que doa 90% de seu salário


Falando francamente, confesso a você que já quase perco a esperança no Brasil. Basta ouvir o noticiário de televisão ou ler o jornal. É que a corrupção tomou conta do aparelho de Estado de tal modo que até parece não ter mais volta.

Não se trata apenas do roubo puro e simples, da apropriação de recursos públicos que são desviados para a caixa dos partidos e para o bolso dos políticos. É também o uso da máquina -dos mútuos favores e das leis- para benefício dos ocupantes de altos cargos nos diferentes setores do poder. Sem qualquer escrúpulo, a casta que se apropriou do país atribui-se a si mesma altos salários, vantagens e privilégios que envergonhariam qualquer um.

São salários que a maioria dos trabalhadores brasileiros jamais ganhará, mesmo que trabalhe 20, 30 anos. E o pior é que grande parte daquela gente simplesmente não trabalha. Muitos recebem como funcionários públicos para prestar serviço na casa ou na firma do parlamentar que os apadrinha.

E você se pergunta: como pôr fim a isso? E logo vê que é muito difícil, senão impossível, uma vez que toda essa safadeza está amparada em leis e dispositivos que eles próprios inventaram e aprovaram.

Para mudar essas leis, seria preciso elegermos legisladores totalmente desvinculados dessa casta corrupta. Mas como, se ela domina toda a máquina do Estado e os partidos? Os que a isso se opõem -e os há!- continuarão minoria e pouco ou quase nada conseguirão fazer. Por isso, a cada dia, meu desânimo é maior.

Bem, era, porque inesperadamente me chegaram informações de que existe um presidente da República, em pleno exercício do mandato, que doa 90% de seu salário à sociedade. Devem imaginar meu espanto ao saber disso. Mas ele existe, sim, chama-se José Mujica e é presidente da República do Uruguai.

De nome, já o conhecia e me lembro de quando foi eleito em 2009, em substituição a Tabaré Vázquez, político de esquerda como ele. Admito que, ao saber dele, temi que fosse outro exemplo do neopopulismo em que a esquerda latino-americana se transformara.

Enganei-me redondamente e só me dei conta disso agora, ao receber essa notícia escandalosa de que é ele o presidente da República que não só não rouba nem deixa roubar como entrega quase todo o salário que recebe a instituições que ajudam aos pobres. Estava eu, portanto, longe de imaginar que José Mujica fosse o exemplo de homem público que ele é, com um grau de desprendimento e consciência social como dificilmente se encontra hoje em dia. De minha parte, posso dizer que não conheço nenhum.

José Mujica tem uma longa história. Foi guerrilheiro naqueles anos em que muita gente perdeu a lucidez política e entrou nessa errada.

Ele, como outros, inclusive nossa Dilma, por força das circunstâncias, teve que abrir mão do radicalismo ideológico e aderir à normalidade institucional democrática. Elegeu-se deputado, depois senador e, durante o governo de Tabaré Vázquez, foi ministro da Granadería. Talvez algo do radicalismo guerrilheiro ainda persista em alguma de suas atitudes, como negar-se a residir no palácio presidencial após tomar posse na chefia do governo.

Mas pode ser mesmo que prefira morar em sua pequena fazenda nos arredores de Montevidéu. Para quem não gosta de pompa, a própria casa é sempre mais acolhedora.

A verdade é que, muito embora já tenha exercido mandatos e ocupado cargos no governo, não enriqueceu, já que, além dessa pequena fazenda, tudo o mais que possui é um fusca azul celeste, que não deve valer no mercado mais que R$ 3.000.

Sua mulher, a senadora Lucía Topolansky, também doa quase todo o salário a entidade sociais. A possibilidade de que isso não passe de uma atitude demagógica parece-me descabida, já que ambos se declaram em fim de carreira.

Se saber da existência de um tal político me deu ânimo novo, não significa que basta ser solidário e generoso com os mais pobres para fazer bom governo e resolver os problemas do país. Problemas esses que, a cada dia, se tornam mais difíceis de resolver. No entanto, para nós brasileiros, que vemos nosso país tomado por políticos corruptos, o exemplo de Mujica causa inveja.

Musa da pilhagem - RENATO LESSA


O Estado de S.Paulo - 05/08


O finado Dr. Marx, em um de seus mais inspirados momentos, descreveu e analisou, na célebre oitava seção do primeiro livro de seu O Capital, o que denominou como o processo de "acumulação primitiva de capital". Páginas luminosas; não faria mal as ler quinzenalmente. Com efeito, qualquer que seja o juízo que se faça, hoje, a respeito das benesses ou desgraças do capitalismo, o bom senso recomenda reconhecer que a coisa começou pessimamente. Estivessem vigentes, naquela altura, os institutos jurídicos que hoje vigoram nos países por assim dizer democráticos - e capitalistas -, o capitalismo não teria nascido do modo como nasceu. Ou, simplesmente, não teria nascido, posto que barrado algures, em algum STF.

O cenário da acumulação primitiva, tal como hoje é fartamente sabido, exibiu intensa associação entre maximização de ganhos, uso da violência e destituição de uma série de vítimas sociais. O atributo "primitivo" não se deve tanto ao fato óbvio de que isso se deu nos primórdios do capitalismo. O termo pode revelar, ainda, uma forte dissociação entre apetite maximizador e aquilo que, graças a Norbert Elias, podemos designar como "processo civilizador". Tal dissociação esteve presente tanto nos primórdios do capitalismo europeu quanto na contemporânea pujança do capitalismo à brasileira. Somos, por cá e em grande medida, contemporâneos dessa dissociação; os operadores da modernidade são, vez por outra, agentes do primitivismo.

O emblemático personagem que ora reside em presídio vizinho a Brasília, e que dá nome a uma CPI, é um operador exemplar desse apetite infrene dos pioneiros do capital. O drama que protagoniza tem como enredo central o trânsito de dinheiro obtido em circuitos ilegais para o âmbito da, digamos, economia legal. Quer por sua materialização em bens e serviços - por exemplo, mansões e serviços de decoração - ou por sua transformação em "investimento produtivo", configura-se o circuito de uma acumulação que, mais do que "primitiva", aproxima-se do que Max Weber, em dia iluminado, denominou "capitalismo de pilhagem".

Tal processo de acumulação, no entanto, não se limita à lavagem de dinheiro ou ao trânsito de numerário ilegal acumulado para o âmbito da economia legal. Parte considerável, ao que tudo indica, tem como origem recursos públicos, o que não deve surpreender. Se voltarmos ao Dr. Marx, devemos recordar que a toda infraestrutura corresponde uma superestrutura política e jurídica. Em contextos nos quais o estado de direito está implantado de modo mais consistente, tal relação não faz lá muito sentido, mas nesta parte do mundo temo que ainda faça. Faz, ao menos, para os circuitos ilegais. A economia ilegal não prescinde de seus operadores não econômicos, incrustados nos assim chamados Poderes da República.

Vejam só, no Rio de Janeiro, para as eleições deste ano, cerca de 600 policiais e bombeiros inscreveram-se como candidatos a vereador. É forte, para dizer o mínimo, a presença de policiais e bombeiros entre milicianos que infestam as periferias cariocas, e a maioria desses candidatos tem vínculos com áreas tomadas por milícias. O que é isso, senão a tentativa de captura de espaços legais, por parte dos circuitos de pilhagem? O significado sociológico do mandado senatorial de um dos campeões da direita brasileira, posto a serviço do personagem que habita o presídio da Papuda, não tem sentido distinto.

A glamourosa companheira desse notável operador do capitalismo de pilhagem brasileiro deu significativa contribuição ao quadro aqui composto. A tentativa malograda de intimidação de um juiz, com base em ameaça de chantagem, revela um modo preciso de operação, fundado na hipótese - felizmente errada - de que o que conta na vida, para valer, são as ofertas que não podem ser recusadas. Essa lógica tem, necessariamente, implicações penais. Ou seja, seus operadores e agentes são, em termos técnicos rigorosos, "criminosos". Mas não nos iludamos, há mais coisas entre o céu e a terra do que o código penal: há sociologia na coisa, sociologia pesada.

O bom barão de Montesquieu, nos idos do século 18, falava da atividade de ganhar dinheiro como "paixão calma", proporcionada pelo "doce comércio". Com ela, as interações humanas progressivamente deixariam de ser belicosas. Uma doce complementaridade somada à percepção de que precisamos uns dos outros deveria, segundo o barão, orientar nossos interesses privados. Nada de semelhante parece estar presente no campo das relações entre, digamos, a atividade de ganhar dinheiro - ou de acumular - e o âmbito da legalidade no Brasil. As relações são, no mínimo, incertas.

A musa da pilhagem, na tentativa de chantagem ao juiz, é o avesso da "paixão calma". Ao contrário, ela pretende ensinar ao País que ganhar dinheiro exige agressividade e pouca - se alguma - atenção a formalidades. É curioso como, entre nós, "empresários agressivos" passam por personagens virtuosos. A meu juízo, trata-se da única ocupação à qual o atributo "agressivo" soa como adjetivo elogioso. Assim não dá.

O que vem por aí - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 05/08


Ministros enxergam duas estratégias em gestação na defesa dos réus para desqualificar a acusação do mensalão. A primeira questionaria o poder investigatório do Ministério Público, já em debate no STF. A segunda sustentaria a inexistência da figura da organização criminosa na lei brasileira, fragilizando a denúncia de formação de quadrilha e derrubando imputações de lavagem de dinheiro. O voto de Joaquim Barbosa, dizem os advogados, trará respostas a essas duas tentativas.
Cronologia Por definição legal, o crime de lavagem exige outro anterior. Defensores alegam que, como alguns réus não integram nenhum núcleo definido pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, o crime precedente seria a própria organização criminosa.
Quem ganha Com isso, o ex-deputado Paulo Rocha deverá ser beneficiado, já que ministros admitem nos bastidores rever o voto caso a questão venha à tona.
Preventivo Observadores do STF dizem que o ministro Luiz Fux está segurando a Adin que questiona a autonomia do MP desde março, quando pediu vista, para evitar que uma eventual decisão anulasse o trabalho da Procuradoria no mensalão.
#comofaz Ministros devem fazer reunião administrativa antes do voto de Barbosa para definir se cada um já indicará penas no próprio voto ou se o tema será tratado depois da decisão sobre condenações ou absolvições.
Ufa! Pela expectativa de ministros e advogados, o voto do relator terá mil páginas, e deverá consumir cinco sessões para ser lido. Já o do revisor Ricardo Lewandowski é estimado em 1.300 páginas, e deve ocupar um dia a mais.
Épico De um ministro descrevendo a união dos advogados em torno da mesma estratégia para atrasar o julgamento: "Vão vir para cima da gente como os 300 de Esparta. Temos de resistir".
Time... Pressionado pela expansão de candidaturas do PT e PMDB em redutos tucanos, Geraldo Alckmin escalou os secretários de seu núcleo político para mutirão em cem cidades paulistas.
... em campo Julio Semeghini (Planejamento), Edson Aparecido (Desenvolvimento Metropolitano), Sílvio Torres (Habitação), Bruno Covas (Meio Ambiente), José Aníbal (Energia) e Sidney Beraldo (Casa Civil) turbinarão campanhas de aliados nas regiões do Estado onde mantêm eleitorado cativo.
Flashes O governador também fará sessão de fotos com 45 candidatos do PSDB do interior amanhã à noite.
Esplanada... O PT levará a partir da segunda quinzena do mês cinco ministros aos polos estratégicos de São Paulo: Alozio Mercadante (Educação), Alexandre Padilha (Saúde), Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência), Miriam Belchior (Planejamento) e José Eduardo Cardozo (Justiça).
...itinerante A agenda será casada com demandas regionais de suas pastas.
Comigo não José Serra seguirá refutando o chamado de Gabriel Chalita para debater os modelos de gestão na Educação em São Paulo. Embora se incomode com as críticas do peemedebista, evidenciadas no primeiro debate na TV, o tucano entende que essa polarização só interessa a Chalita.
Rewind Petistas compararam as estreias de Fernando Haddad e Dilma Rousseff em debates. A equipe de marketing do candidato considerou o ex-ministro mais solto e objetivo que a então candidata à Presidência, que debutou neste formato de confronto televisivo em agosto de 2010.
TIROTEIO
No camarote do PSDB, faltou incluir placa dizendo que o evento era patrocinado pelas Organizações Cachoeira e Marconi Perillo.
DO LÍDER DO PT NA CÂMARA, JILMAR TATTO (SP), ironizando a sessão preparada por tucanos para acompanhar o julgamento no STF em telão.
Contraponto
A vez da mulher
Em cerimônia que selou aliança no setor de petróleo entre os governos da Argentina e da Venezuela, em Brasília, a presidente Cristina Kirchner voltou a defender a nacionalização da petroleira YPF, expropriada em abril da espanhola Repsol. Em seu discurso, ela reconheceu que a decisão não foi simples.
-Elegemos um caminho difícil... As mulheres são assim: gostamos das coisas difíceis. Para as fáceis, os homens são melhores!
Na plateia, o venezuelano Hugo Chávez gargalhou. Em seguida, aplaudiu efusivamente a colega argentina.

A despachante de luxo - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 05/08

A presidente Dilma está possessa com vários integrantes de seu governo. Alguns se acham mais importantes do que os outros, e isso tem impedido a troca de informações e dificultando uma ação mais coordenada do Executivo. Há casos em que a presidente precisa pegar o telefone e ligar pedindo que um integrante do primeiro escalão do governo receba um colega que foi procurá-lo.

Um desabafo internacional
Numa conversa com os presidentes Cristina Kirchner (Argentina) e Hugo Chávez (Venezuela), a presidente Dilma se queixou que estava cansada de ser uma "despachante de luxo". Explicou que as pessoas não falam uma com as outras sem a sua interferência direta. E contou, a título de exemplo, que um ministro foi falar a seu pedido com um diretor do BNDES. No dia que deveria ocorrer o encontro, o ministro liga dizendo que não tinha sido autorizado pelo diretor a subir ao andar de seu gabinete no banco. Dilma teve que ligar para o diretor e mandar que ele recebesse o ministro. Chávez reforçou dizendo que em seu governo isso também acontece muito.

“Para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem (...) Hoje começa o julgamento do ‘mensalão’. Ficarão sequelas... A vida é dura” Delcídio Amaral Senador PT-MS, no Twitter

O Papa vem aí
A Defesa e a Justiça, que bateram de frente na Rio +20, agora brigam sobre a Jornada Mundial da Juventude. O Rio vai receber cinco milhões de pessoas e o Papa Bento 16, em julho de 2013. A Justiça quer o evento na praia de Copacabana. A Defesa, alegando razões de segurança, sugere a Base Aérea de Santa Cruz e o Campo dos Afonsos.

Na surdina
Confiante de que será candidato a governador do Rio em 2014, o senador Lindbergh Farias (PT) contratou para trabalhar sua imagem a mesma empresa que cuida da comunicação e do marketing do governador Sérgio Cabral (PMDB).

Um serviço para Sherlock Holmes
Identificado em Londres o ladrão que roubou a carteira de Márcio Fortes, da Autoridade Pública Olímpica do Brasil. Ele foi flagrado pela câmera de um caixa eletrônico em um shopping tentando sacar 200 libras, sem ter a senha do cartão.

O cargo é meu. Ninguém tasca
O "poderoso" deputado João Magalhães (PMDB-MG) falou duro com o vice Michel Temer sobre a diretoria Internacional da Petrobras. Disse que ia "rodar a baiana" caso José Carlos Amigo não fosse nomeado. A cúpula do PMDB tremeu. Temer apelou ao habilidoso ministro Edison Lobão (Minas e Energia) para tratar com a presidente da estatal, Maria das Graças Foster.

O pedágio venezuelano
O governo estimula, mas as empresas temem a Venezuela. Um empresário relatou para Alessandro Teixeira (Desenvolvimento) que sua empresa vendeu, o cliente pagou, mas o BC de lá reteve a remessa do pagamento durante meses.

Dilma e a greve do funcionalismo
A greve preocupa os ministros. Mas apresidente Dilma está totalmente voltada para manter os empregos na iniciativa privada. Por isso, não quer usar as receitas públicas para pagar mais a quem tem estabilidade e ganha acima da média salarial.

DE OLHO NA CRISE, a presidente Dilma reúne-se todas as manhãs com o ministro Guido Mantega e na sua ausência com o secretário Nelson Barbosa.

Perdão, leitores - JOÃO UBALDO RIBEIRO


O Estado de S.Paulo - 05/08


Vergonha mate-me, mas algum dia eu tinha que dizer o que vou dizer hoje: de vez em quando um leitor me observa gentilmente que eu repeti boa parte de uma crônica ou artigo já publicados. Geralmente nem confiro, porque sei que é a cruel verdade. Mas preciso defender-me um pouco, antes que me tenham em má conta e o jornal me dispense por vender serviço velho como novo. Na verdade, suspeito que já escrevi algumas vezes o mesmo texto, com alterações muito pequenas, para publicações diversas, em épocas diversas. Não dá para verificar, porque acredito que o total do que já escrevi para jornais e revistas encheria uma sala ampla até o teto, mas a suspeita é grande. Só que eu acho que mereço alguma indulgência, por parte dos mais rigorosos, que felizmente não parecem ser muitos.

A preliminar de minha defesa é a companhia mais que ilustre que me fazem muitos autores de dimensão universal. Shakespeare, por exemplo, não estava acima de repetir trechos inteiros de obras suas mesmo, ou meio surrupiadas de terceiros. Mais ainda, bonus dormitat Homerus, como escreveu Horácio, ou seja, até o bom Homero cochilava, embora, a bem da verdade literária, deva ser mencionado que Horácio se revelou indignado com os cochilos homéricos. Mas, de qualquer forma, se o grande Homero e o não menos grande Shakespeare (para não falar, como é obrigação baiana, em Ruy Barbosa, que, apesar de ter sido o homem mais inteligente do mundo em todos os tempos e discursar em todos os idiomas, também deu suas mancadinhas, que ninguém nos ouça) incorriam em seus deslizes, não seria a arraia-miúda que constituiria exceção, pelo contrário.

Escrevo crônicas ou artigos, sem interrupção, praticamente desde que me enfiaram numa redação de jornal, aos 17 anos, na condição de foca, categoria que tinha um status semelhante ao de um recruta dos Fuzileiros Navais em início de treinamento, ou seja, obedecia a tudo e não mandava em nada. Não havia escola de jornalismo, nem os jornais costumavam dar cursos, de maneira que a formação era no tapa mesmo, em redações inacreditavelmente barulhentas e enfumaçadas, com todo mundo falando alto e as máquinas de escrever matraqueando sem cessar. Foca tomava trote, gozação e esbregue por todos os lados. Mulher, com exceção de uma colunista ou outra, que raramente era vista em pessoa, não trabalhava em jornal e a linguagem na redação, inclusive nas ordens e advertências, não costumava ser de alto nível.

Passei por alguns trotes, inclusive a tradicional gracinha da calandra. Calandra, que ninguém, muito menos o foca, sabia o que queria dizer, era o nome dado, pelo menos na Bahia, a uma prensa enorme e pesadíssima, usada na preparação das matrizes para a rotativa. Um veterano chamava o foca e dizia: "Meu filho, dê um pulinho aí à oficina, procure Seu Soares e diga a ele que eu mandei você buscar a calandra para trazer aqui." O infeliz, morto de medo de falhar em sua primeira missão no jornal, ia lá, mas a calandra era mais pesada do que dois hipopótamos e Soares, que não era o rei do bom humor, recebia a mensagem e o mensageiro com um gesto e alguns impropérios que, sendo este um jornal da família, não posso descrever aqui. Eu não, mas houve um foca meu contemporâneo que chegou a tentar levantar a calandra.

E, enfim, aprendi a redigir (com três dedos) à máquina e iniciei minha formação. Peguei reputação de escrever sem muitos erros e isso me levou à primeira crônica, ainda antes, se bem me lembro, de completar dezoito anos. Não que me tivessem chamado para ser cronista, foi por causa de um buraco. As páginas eram diagramadas em papel e às vezes sobrava um "buraco" inesperado, um espaço em branco, sem nenhuma matéria para botar nele e com a hora do fechamento chegando. Um belo dia, aconteceu isso quando eu estava peruando a diagramação de uma página, para ver se aprendia (nunca aprendi). O chefe (hoje seria editor) dessa página me cutucou no ombro e ordenou:

- Leia esta matéria e faça um comentário para fechar esse buraco junto dela, qualquer coisa, pode ser até uma espécie de crônica, faça uma crônica.

- Mas eu? Eu nunca escrevi crônica, não vou acertar. Eu...

- Quarenta e quatro linhas - disse ele. - Pode ser umas duas a mais, duas a menos. Fecha às sete e meia.

Suei bastante, mas consegui e, no dia seguinte, sem assinatura, mas com algum destaque, lá estava meu texto. Aí deram para me requisitar para tapar buracos em tudo quanto era página e eu fui obedecendo às ordens. Daí a uns dois anos, as coisas evoluíram até o ponto em que eu fazia uma crônica diária, sobre problemas da cidade, uma coluna de humor também diária e um colunão semanal no suplemento literário, que eu também editava, tapando os buracos de todo o caderno ou com gravuras recortadas ou com artigos sob pseudônimo e até poemas. Eu não sabia diagramar e o diagramador era meu veterano desde o início - me pegou com o trote da régua de paica, que eu também não descrevo aqui porque é impróprio, mas perguntem a um jornalista coroa. Então, quando ele inventava que, em determinado buraco, não cabia uma gravura, só cabia um poema de tal tamanho, ou eu fornecia o poema ou ele dizia que, nesse caso, eu diagramasse toda a página ou caderno. Lembro um poeta ruinzinho, chamado José Luiz Ribeiro Neto. Eu mesmo, claro; a necessidade é triste.

Não que tudo isso seja justificativa, mas é pelo menos uma explicação. O consolo é que muita gente se esquece do que leu antes e outros até gostam de reler a mesma história ou rever os mesmos argumentos, com outras palavras. Mas não posso conter agora o receio de que esta crônica de hoje seja, ela também, a repetição de uma anterior. Cartas para o editor, por caridade.

Data venia - HEITOR CONY

FOLHA DE SP - 05/08


RIO DE JANEIRO - Esta crônica foi escrita logo após a primeira sessão do Supremo Tribunal Federal que rejeitou o pedido de desmembramento do processo do mensalão. Não farei considerações políticas e muito menos jurídicas, pela evidente ignorância que tenho sobre tais assuntos. Não discutirei o conteúdo em si, mas o formato dos votos, expressos na linguagem ainda em uso nas práticas forenses e cartoriais.

Tenho respeito pelo Supremo, corte na qual o meu advogado, Nelson Hungria, ganhou um habeas corpus (9 a 1) a meu favor num processo que Costa e Silva, ex-ministro da Guerra e mais tarde presidente da República, me denunciou como incurso na Lei de Segurança Nacional então em vigor.

Foi, aliás, a primeira manifestação daquela corte após o movimento militar de 1964. Concedendo a mesma medida a outros contestadores daquele regime, o Supremo sofreria represálias, tendo três de seus ministros cassados.

Há gordura demais na linguagem com que juízes e advogados se expressam. Na imprensa e na literatura em geral, procura-se a contenção, a transparência, a economia verbal. Nos jornais, desde o advento dos copidesques, um texto com mais de duas laudas é cascata.

Sem prejuízo da qualidade, Balzac não faria tão extensa a sua "Comédia Humana". Reduziria o texto de cada um de seus romances à metade. Quando Zola publicou "La faute de l'Abbé Mouret", um contemporâneo seu, Ernesto Renan, comentou: "Duzentas páginas para descrever um jardim? Alguma coisa está errada com os naturalistas".

A defesa que Cícero fez de seu amigo Milão ( "Pro Milone", em 52 a.C.) é até hoje citada como uma das obras-primas da literatura latina. Um voto, perfeito como expressão da justiça, não precisa de tantas palavras, "intelligentibus pauca".

O bom embate - DORA KRAMER


O Estado de S.Paulo - 05/08


Houve quem se assustasse com o atrito entre o ministro relator, Joaquim Barbosa, e o revisor, Ricardo Lewandowski, logo no início do julgamento a respeito de uma questão de ordem apresentada pelo advogado Marcio Thomaz Bastos.

Por que o susto se o assunto foi resolvido no voto mediante embate de ideias?

Provavelmente porque haja entre nós grande resistência em aceitar com naturalidade o exercício contraditório, habitualmente visto como algo condenável. Preferimos sempre a composição à contraposição.

Não por outro motivo, o ofício da oposição visto com reservas. Tido não como algo indispensável à dinâmica democrática, mas como fruto de intenções menores, rebeldia à deriva sustentada em objetivos golpistas de irresponsáveis interessados exclusivamente em inviabilizar o governo em curso.

A divergência inicial do julgamento foi recebida e interpretada como um sinal de que os procedimentos seriam tumultuados pela disposição do ministro revisor de se conduzir como contraponto ao revisor.

Nada autoriza conclusão tão definitiva, mas, se for essa a opção feita pelo ministro Lewandowski é de se perguntar: que mal há?

Os ministros do Supremo não funcionam em sistema de colegiado a não ser na contabilização do resultado em que vence a maioria. De resto, cada qual forma seu voto de acordo com suas convicções e diferentes interpretações dos textos legais.

É justamente no antagonismo que reside a riqueza de uma discussão que, por ser transmitida pela televisão, permite ao cidadão acesso a um conhecimento que normalmente não teria.

Todos os aspectos do processo são explicados à sociedade, esmiuçados à exaustão como ocorreu na primeira sessão.

Quem se interessa mais por conhecer que por simplesmente torcer, teve acesso a informações sobre o significado do instrumento do foro especial de Justiça, o que resultaria em prejuízos ou benefícios do desmembramento do processo e também sobre qual a razão de a maioria ter optado por afirmar a competência do STF para julgar os réus em conjunto.

Momentos como aquele são proveitosos e devem se repetir ao longo do julgamento em que o menos relevante é o atraso de dias e até semanas.

Essencial é que o Supremo destrinche o caso à sociedade, que fale ao cidadão e demonstre o valor do bom embate de ideias que tanto faz falta à cidadania no Brasil.

Conjunto da obra. A narrativa do procurador-geral da República em nome da promotoria não constituiu novidade.

Mas o relato feito com começo, meio e fim, em linguagem clara e acessível, recupera e organiza na cabeça do público o fato em julgamento: a ação de um esquema comandando por José Dirceu com o objetivo de cooptar parlamentares para a base de apoio do governo Lula em troca de vantagens financiadas por empréstimos simulados do Banco Rural e desvio de dinheiro do Banco do Brasil.

Para derrubar o exposto pela acusação, a defesa precisará de mais que a justificativa de que a engrenagem descrita por Roberto Gurgel funcionava para suprir o caixa 2 de campanhas eleitorais.

Às favas. O ministro Dias Toffoli não se considera suspeito para julgar antigos companheiros de partido.

O Ministério Público não alegará impedimento para não tumultuar nem atrasar o processo.

Tem-se, com isso, resolvida a questão e desprovidas de sentido as discussões a respeito.

Se Toffoli não vê obstáculo ético e Roberto Gurgel submete a lei a cronogramas, pior para a ética e para a lei.

O dilema agora pertence ao ministro que terá seu voto e os 25 anos que tem pela frente no STF postos em xeque: se votar pela absolvição será objeto da desconfiança de que o fez movido pelo compadrio; se condenar, dirão que decidiu motivado pela necessidade de se afirmar.

De onde o afastamento voluntário sairia mais barato.

Dois pesos e dois mensalões - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 05/08

A premissa de serem crimes conexos os atribuídos aos réus do mensalão do PT não valeu para o mensalão mineiro


Na sua indignação com o colega Ricardo Lewandowski, o ministro Joaquim Barbosa cometeu uma falha, não se sabe se de memória ou de aritmética, que remete ao conveniente silêncio de nove ministros do Supremo Tribunal Federal sobre uma estranha contradição sua. São os nove contrários a desdobrar-se o julgamento do mensalão, ou seja, a deixar no STF o julgamento dos três parlamentares acusados e remeter o dos outros 35, réus comuns, às varas criminais. De acordo com a praxe indicada pela Constituição.

Proposto pelo advogado Márcio Thomaz Bastos e apoiado por longa argumentação técnica de Lewandowski, o possível desdobramento exaltou Barbosa: "Essa questão já foi debatida aqui três vezes! Esta é a quarta!" Não era. Antes houve mais uma. As três citadas por Barbosa tratavam do mensalão agora sob julgamento. A outra foi a que determinou o desdobramento do chamado mensalão mineiro ou mensalão do PSDB. Neste, o STF ficou de julgar dois réus com "foro privilegiado", por serem parlamentares, e remeteu à Justiça Estadual mineira o julgamento dos outros 13.

Por que o tratamento diferenciado?

Os nove ministros que recusaram o desdobramento do mensalão petista calaram a respeito, ao votarem contra a proposta de Márcio Thomaz Bastos. Embora a duração dos votos de dois deles, Gilmar Mendes e Celso de Mello, comportasse longas digressões, indiferentes à pressa do presidente do tribunal, Ayres Britto, em defesa do seu cronograma de trabalho.

A premissa de serem crimes conexos os atribuídos aos réus do mensalão petista, tornando "inconveniente" dissociar os processos individuais, tem o mesmo sentido para o conjunto de 38 acusados e para o de 15. Mas só valeu para um dos mensalões.

Os dois mensalões também não receberam idênticas preocupações dos ministros do Supremo quanto ao risco de prescrições, por demora de julgamento. O mensalão do PSDB é o primeiro, montado já pelas mesmas peças centrais -Marcos Valério, suas agências de publicidade SMPB e DNA, o Banco Real. Só os beneficiários eram outros: o hoje deputado e ex-governador Eduardo Azeredo e o ex-vice-governador e hoje senador Clésio Andrade.

A incoerência do Supremo Tribunal Federal, nas decisões opostas sobre o desdobramento, é apenas um dos seus aspectos comprometedores no trato do mensalão mineiro. A propósito, a precedência no julgamento do mensalão do PT, ficando para data incerta o do PSDB e seus dois parlamentares, carrega um componente político que nada e ninguém pode negar.

A Polícia Federal também deixa condutas deploráveis na história do mensalão do PSDB. Aliás, em se tratando de sua conduta relacionada a fatos de interesse do PSDB, a PF tem grandes rombos na sua respeitabilidade.

Muito além de tudo isso, o que se constata a partir do mensalão mineiro, com a reportagem imperdível de Daniela Pinheiro na revista "piauí" que chegou às bancas, é nada menos do que estarrecedor. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, com seu gosto de medir o tamanho histórico dos escândalos, daria ali muito trabalho à sua tortuosa trena. Já não será por passar sem que a imprensa e a TV noticiosas lhes ponham os olhos, que o mensalão do PSDB e as protetoras deformidades policiais e judiciais ficarão encobertas.

É hora de atualizar o bordão sem mudar-lhe o significado: de dois pesos e duas medidas para dois pesos e dois mensalões.

Ficou nanico - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 05/08


Acostumado com juros altos, o brasileiro médio olha para seu extrato de investimentos financeiros e balança a cabeça decepcionado.

E sai por aí a consultar o gerente do banco, seus conselheiros financeiros ou simples palpiteiros sobre o que fazer para obter ao final do mês alguma coisa mais próxima do que estava acostumado, porque contava com esse retorno para complementar seu orçamento doméstico.

Na média, R$ 1 mil aplicados num fundo DI renderam, em julho, apenas R$ 5,40. Somente para comparar, há dez anos, os mesmos R$ 1 mil pagaram R$ 11,40 ao mês. Como os juros devem continuar em queda, a perspectiva é de um retorno ainda mais baixo. Não paga nem o preço da condução de ida e volta ao banco.

Anos e anos de inflação ensinaram o brasileiro a lidar com a perda de valor do seu dinheiro. Por causa disso, ele aprendeu a fazer contas e, no início dos anos 90, chegou a ser o maior comprador de calculadoras financeiras do mundo.

No entanto, o brasileiro não aprendeu ainda a viver com juros baixos, situação normal em qualquer país avançado, onde, há anos, o rendimento financeiro mal cobre a inflação e hoje chega a ser negativo em termos reais. Essa limitação não é apenas do brasileiro médio. É também dos bancos que ainda se teimam em cobrar, nos fundos de investimento, taxas de administração de mais de 1,5% ao ano, incompatíveis com a nova realidade.

A primeira reação do pequeno e médio aplicador aos rendimentos bem mais baixos tende a ser a de sair gastando, por entender que já não vale mais a pena deixar seu dinheiro numa aplicação financeira. Mas a experiência de outros países mostra que essa atitude pode ser temporária. A partir do momento em que perceber que já não pode contar com o mesmo retorno de suas reservas seja para prover seu futuro, seja para emergências, tentará poupar ainda mais.

Outra opção é buscar mais risco, sempre sujeito a perdas de patrimônio. No entanto, também acostumado ao rendimento relativamente fácil das aplicações firmes, o brasileiro não aprendeu a lidar com o risco. Em princípio, gosta da ideia de tocar um negócio por conta própria, que também implica riscos, mas tem medo de investir em ações por seguir como prisioneiro de uma mentalidade de curto prazo.

Talvez esta seja boa oportunidade para aceitar mais risco, porque a crise global derrubou as cotações das aplicações de renda variável para possíveis pontos de compra. Hoje, há um bom número de ações à venda no mercado por preços que correspondem a alguma coisa entre 60% a 80% do seu valor patrimonial. Quem sabe (e pode) esperar e não perde o sono com trancos das bolsas, tem aí mais oportunidades do que propriamente riscos.

O Brasil é uma economia com baixo índice de poupança, de não mais do que 16% da renda. A atual política econômica, por sua vez, partiu do princípio de que precisa incentivar a expansão de um grande mercado de consumo e, por isso, não vê necessidade de incentivar o investimento. Pessoas que procuram fazer reservas muitas vezes são vistas preconceituosamente como meros "rentistas".

Não é apenas o brasileiro médio que não aprendeu a lidar com os juros baixos na administração de suas finanças. Também os administradores da economia brasileira não se deram conta de que não basta derrubar os juros e de que é preciso criar mais incentivos para aumentar a poupança nacional.

Futuro da política e marcas do passado - GAUDÊNCIO TORQUATO


O Estado de S.Paulo - 05/08


As primeiras avaliações de cientistas sociais do País, a começar de um dos mais qualificados, o sociólogo e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, sugerem que o julgamento da Ação Penal 470, conhecida como processo do mensalão, poderá mudar a cultura política brasileira. O otimismo parte do pressuposto de que crimes políticos ganharão, doravante, um basta do império da lei. A expectativa é de que os luminares da Justiça fecharão as portas ao ciclo de desmandos na política e descortinarão um novo tempo, sob a égide de padrões éticos e princípios morais.

A hipótese de que a decisão da Suprema Corte sobre esse escândalo político seja um marco na História do País se imbui, também, da crença de que a comunidade nacional assistirá a um julgamento isento e justo, posto que foram obedecidos os trâmites do contencioso de 50 mil páginas e 600 testemunhas e garantidas amplas condições de defesa aos 38 réus. Há razões para apostar tanto na reordenação de nossa modelagem política quando se sabe que reformar implica enterrar arraigados costumes, cortar privilégios, reduzir posições de grupos, enfim, travar uma guerra de muitas frentes, nas quais, como lembra o professor Samuel Huntington, inimigos e aliados mudam constantemente de lado?

O momento que vive o País, vale registrar, é propício para avanços institucionais, podendo acolher novos traços na morfologia política e comportamentos menos estabanados de seus agentes. Até aí, tudo bem. Mas essa situação alvissareira não permite aduzir que a mais alta Corte, ao julgar o processo mais caudaloso de sua trajetória, consiga redesenhar o modus operandi da política. Em se tratando destes trópicos que dão abrigo a mazelas seculares, a lição de Confúcio pode servir de bússola: "Se queres prever o futuro, estuda o passado".

É ingenuidade pensar que num passe de mágica o Brasil terá condições de trocar de identidade. Na acepção aqui usada, identidade quer significar os traços característicos da forma de pensar e fazer política, as cargas culturais formadas e desenvolvidas nos ciclos históricos, os vícios de nossa tradição, os valores e princípios que pincelam o ethos nacional. O que se pode destacar, isso sim, é a dualidade impressa em nossa morfologia institucional, na qual convivem, lado a lado, o moderno e o anacrônico, o legal e o extralegal, a norma jurídica (teórica) e a prática política. Exemplo? Do farto cipoal legislativo - quase 200 mil instrumentos normativos -, calcula-se que menos de um terço entre na agenda das obrigações. Nossa tríade do poder se inspira nos ditames das modernas democracias. Na prática, expressa certo descompasso.

Os entraves que impedem a modernização de padrões políticos partem da relação promíscua entre o poder público e o privado, que advém do nosso berço civilizatório e frutifica até hoje, como se enxerga na árvore e nos galhos do mensalão. Por isso mesmo é improvável que eventual condenação de acusados de desviar dinheiro público para cooptação parlamentar mude a cultura política. Aliás, não é de hoje a condenação de agentes públicos e privados flagrados com as mãos nos cofres do Tesouro Nacional. A malversação persiste. Em muitos recantos se vê o uso de dinheiro, serviços e cargos públicos em ações partidárias e individuais. O que chama a atenção é a continuidade de uma prática anacrônica ao lado de um sistema moderno como a urna eletrônica, que livrou o eleitor do falseamento do voto, até então uma tradição coronelista.

E por falar em coronéis, será que eles saíram da paisagem? O personalismo, que começa a iluminar os candidatos neste início de pleito, não é, de certo modo, a sombra do coronelismo? Verbas liberadas para os amigos do governo e represadas para os adversários não expressam o afamado axioma "aos amigos, pão; aos inimigos, pau"?

Afinal, que áreas se apresentam mais abertas e condizentes com a meta nobre da política, qual seja, a promoção da igualdade socioeconômica e a ampliação da democracia participativa? Vejam-se os eixos de nossa democracia. O quadro partidário é um mosaico de visões personalistas. O campo ideológico, uma colcha desbotada. Na frente eleitoral, o retrato está amarelecido na parede. Os eleitores colecionam imagens vagas e difusas de candidatos, fazendo escolhas como consumidores numa feira, "comprando" quem apresenta maior benefício ao bolso. No exame dos "produtos", qualidades e atributos de cada um acabam entrando nos compartimentos "candidato do povão", "amigo dos trabalhadores", "defensor dos pobres".

Maximizar o ganho, eis a equação de ontem e de hoje. Donde resulta a hipótese de que assuntos abstratos para as massas não influenciam muito as urnas, a não ser para consolidar posições já assumidas por grupos opostos, como tucanos e petistas. Pode-se até dizer que evoluímos um pouco com a adoção do voto racional, que se expande nos conjuntos sociais, permitindo enxergar escolhas coladas em núcleos de referência (sindicatos, associações, clubes, categorias profissionais). E também defender a tese de que a elevação dos padrões de vida de grupamentos propicia um voto mais crítico e seletivo.

Da engenharia política brasileira, cujos alicerces, como se viu, estão cravados nos terrenos do conservadorismo, do personalismo, da imbricação entre a coisa pública e o interesse privado, sobram estreitas margens de modernização. A estratégia para reordenar a política requer a conjunção de esforços envolvendo os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e os sistemas de defesa e controle, com a clarificação dos papéis do Ministério Público e da Polícia Federal. Dá para alterar os padrões políticos sem mexer no arsenal legislativo? Que disposição o Executivo tem para apoiar a reforma de práticas políticas? Sem o engajamento de todos os Poderes, é utopia imaginar que o julgamento do mensalão semeará a moral e a ética nos jardins da política.

A doutora Dilma detonou o mensalão 2.0 - ELIO GASPARI

O GLOBO - 05/08

O golpe financeiro que abasteceria Marcos Valério tentou voltar à tona e morreu com uma canetada

A trama do mensalão tem um aspecto raramente mencionado. Quem entraria com o paganini? O comissariado pedia dinheiro a Delúbio Soares, ele repassava a demanda a Marcos Valério, que, por sua vez, tomava empréstimos nos bancos Rural e BMG. Na sua conta, o PT deve-lhe R$ 100 milhões. Certo mesmo é que ele deve R$ 83 milhões. Tudo bem, mas quem quitaria essas dívidas?

Em outubro de 2003, Delúbio Soares estava no esplendor de sua fama. A essa época, batalhava o encerramento da liquidação do Banco Econômico, fechado durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Litigando com o Banco Central, Angelo Calmon de Sá, ex-dono do Econômico, sustentava que tinha créditos de R$ 6,3 bilhões, suficientes para quitar seus débitos. O BC sustentava que esses créditos não valiam e seu presidente, Henrique Meirelles, blindou-se, mesmo quando foi pressionado por parlamentares petistas.

Se abrissem o cofre, todas as instituições interessadas poderiam reivindicar até R$ 40 bilhões. Diante de semelhante ervanário, os R$ 100 milhões devidos pelo comissariado seriam gorjeta.

O repórter Fernando Rodrigues revelou que Marcos Valério relembrou a Delúbio seu interesse no caso do Econômico durante um encontro às vésperas de seu depoimento ao Ministério Público. Tipo me-ajuda-senão-eu-falo. Prometeram-lhe apoio, mas deixaram-no na estrada. Ainda bem.

Passou o tempo e, enquanto se discutia o velho escândalo, a manobra reapareceu, mansinha. A ressurreição dos créditos foi contrabandeada na medida provisória 517, também conhecida como "MP Frankenstein", porque nela havia de tudo.

Aprovada pelo Congresso, teve pareceres contrários da advocacia do Banco Central. Os patrocinadores de Marcos Valério mobilizaram-se, jogando pesado, sob a liderança dos controladores do falecido Banco Nacional e o socorro da elite operacional do PMDB. Sinal dos tempos, tentaram dobrar o BC, mas não bateram à porta do Planalto. Em junho de 2011, a doutora Dilma vetou o dispositivo que permitia o arranjo. Ela sabia de tudo, de todos, há tempos.

O episódio perdeu-se nos silêncios que cimentam a unidade de base aliada. Quem dançou não reclamou e quem prevaleceu calou-se.

Se em 2003 o doutor Delúbio Soares tivesse sido avisado de que a manobra do resgate dos bancos quebrados não teria o amparo do Planalto, não teria acontecido o "Mensalão 1.0". Mesmo depois da explosão do escândalo, havia companheiros apertando o Banco Central. Com o veto de Dilma, e com a resistência de alguns servidores do Estado, evitou-se o "Mensalão 2.0".

BALA DE PRATA

O comissariado sonha com uma manobra que impeça o ministro Cezar Peluso de votar no julgamento do mensalão.

Pretende-se forçar o calendário para levá-lo à aposentadoria compulsória no dia 3 de setembro, quando completa 70 anos.

Como dizia doutor Tancredo Neves, esperteza, quando é muita, come o dono.

Na hipótese de um resultado apertado, como ficaria o Supremo Tribunal depois que se soubesse como Peluso teria votado?

JK E A IMPRENSA

Depois de sete anos de trabalho, Luís Fernando Freire concluiu os originais de mil páginas, em dois volumes, da edição comentada do arquivo deixado pelo seu pai, o senador Vitorino Freire (1908-1977).

Homem valente, leal e direto, Vitorino enriqueceu o folclore da política brasileira com frases como: "Se você vê um jabuti numa forquilha, não mexa nele, porque alguém o pôs lá. Jabuti não sobe em forquilha".

Entre os 1.500 documentos catalogados por Lula Freire está uma carta confidencial do líder do governo no Senado, Filinto Müller, de setembro de 1956. Nela, informa a Vitorino que o presidente Juscelino Kubitschek, reunido com o comando político do governo, decidira mandar ao Congresso uma mensagem com o anteprojeto de uma "Lei de Responsabilidade da Imprensa".

Vitorino foi para a tribuna e disse que "toda tentativa de calar a imprensa volta-se com razão, violentamente, contra o governo, que só deve ter medo dos jornais se tiver duvidosas contas a prestar".

A iniciativa foi esquecida.

GABBY E SARAH, ESPORTE E VONTADE

Quem tiver algum tempo para perder num domingo, sapeie a história de Gabby Douglas, a ginasta americana de 16 anos que arrastou as medalhas de ouro da ginástica feminina.

Atrás daquele sorriso de Michelle Obama há a história emocionante de uma menina que saiu de casa na Virginia aos 14 anos e foi morar com uma família do Iowa para poder treinar com o técnico chinês Liang Chow.

Quem viu "Karatê Kid" ou "Karatê Girl" emocionou-se com ficção. Gabby fez melhor, na vida real, sem violência. Ela foi a primeira negra a levar para casa o ouro da ginástica e a primeira americana a ganhar nas provas individual e de equipe.

Com três irmãs criadas por uma mãe divorciada, sua vontade de ferro levou-a para um fim de mundo, onde foi recebida pela família de um pequeno empresário onde já havia quatro crianças. A mãe e a protetora de Gabby torceram juntas em Londres, uma negra, outra loura como uma ginasta russa. Quando embarcou, seu único patrocinador era Procter & Gamble. Agora terá quantos quiser.

Enquanto as ginastas de Estados fortes (Rússia, China e Romênia) são amparadas e controladas por máquinas que buscam propaganda para os governos, Gabby saiu da tessitura da sociedade: vontade, independência e sentido de comunidade. Isso para não se falar da religiosidade da menina.

A marca dessa sociedade está também na história do técnico Liang Chow. Ele foi um premiado ginasta na China e em 1990 aceitou uma bolsa para estudar inglês e trabalhar como instrutor na Universidade do Iowa.

Abriu o Instituto Chow de Dança e Ginástica em Des Moines (menor que Teresina) e tem três ginastas na equipe nacional de juniors.

Para atrair clientela, oferece festas de aniversário com uma hora de exercícios e 30 minutos de cantoria e brincadeiras. As famílias levam os doces.

Exemplos como esses ensinam que o Brasil vai melhor do que se pensa. Sarah Menezes, que levou o ouro no judô, tem o mesmo jeitão de Gabby. Começou treinando no Sesc Ilhotas, com Expedito Falcão. Ele hoje tem sua própria academia.

Há lotes de cartolas do comissariado esportivo federal em Londres, mas nenhum visitou o Sesc Ilhotas, assim como não tiveram tempo para ir à inauguração do centro de treinamento que a BM&F Bovespa construiu em São Caetano do Sul. Não fizeram falta. Os atletas foram.

Av. Brasil! Quero ser congelado! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 05/08


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Periguetes e Suelens! Olha o outdoor em Taboão da Serra (SP): "MISS PIRIGUETI! Show-pana Bar! Indeixável de ir!". E indeixável de rir com esse indeixável!

E as manchetes olímpicas: "Natália Ferrão eliminada na pistola"; "Equipe feminina de hóquei da Holanda é patrocinada pelo Rabobank"; "Pato disse a Ganso pra ter paciência". Quack! Isso é futebol ou aquele filme da Disney em que os bichos falam? E um amigo meu quer uma nova modalidade olímpica: Salto na MINHA vara! Rarará!

E nós vamos ganhar ouro em ourucubaca e ourubu! E dominó, porrinha, pega vareta, passa anel, rouba monte, bimbada e bronha!

E o bafo da semana: Mensalão! O mensalão tem tantos acusados que não é mais banco de réu, é arquibancada. E esse mensalão demorou tanto pra ser julgado que os réus já estão doentes e o juiz tá com Alzheimer! Adia! Mais sete anos!

E aquele ministro do Supremo com aquela capinha preta? Parece o avô do Batman! Rarará! E o ministro Toffoli? Ele devia se chamar Tôfora! E preguiça, viu! Rever o Delúvio Soares e o Marcos Velório! Por que eles não reprisam o escândalo do Renan Calheiros? Pelo menos a mulher era gostosa! Rarará! Esse julgamento devia ser sumário: 48h. Tamo Livre e Teje Preso!

E diz que o Tufão é o único que não acredita que o mensalão existiu. E o Jorginho é revoltado assim porque se lembrou que comeu a Mãe Lucinda em outra novela. E a Monalisa se mudou pra zona sul e entrou em novela do Manoel Carlos. E a Muricy ganhou medalha olímpica em salto em vara.

E deviam congelar o pinto do Cadinho. E descongelar no último capítulo! Rarará! E quem gritar mais, congela a imagem no final! Os Congelados. Do Carrefour! E o meu maior sonho é ser congelado! É mole? É mole, mas sobe!

EREÇÕES 2012! A Galera Medonha! A Turma da Tarja Preta! Direto de Cotia: Linguiça Sem Preguiça! Voto! A pior coisa do mundo é linguiça com preguiça! E em Indiaporã (SP): "Para prefeito, Fernando Boi. Vice Meio Quilo". Rarará!

E direto de Pernambuco: Dó do Povo, Dona Fufu, Sou do Bem e Furúnculo Maligno. Tenho medo do Furúnculo Maligno! Tenho medo da Nina, da Carminha e do Furúnculo Maligno! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

O inescapável - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO


O GLOBO - 05/08


Ao voltar de férias, percorri os jornais: só dá mensalão e Olimpíada. Não é para menos, mas é pouco. Consolou-me haver lido uma matéria de David Brooks sobre a campanha eleitoral em seu país. Basta ler o título, A campanha mais tediosa, para que o leitor se dê conta do baixo-astral que envolveu o comentarista ao seguir os embates entre Barack Obama e Mitt Romney. Isso a despeito de os americanos ainda estarem sufocados pela crise e de haver muito que debater sobre como sair dela e sobre o papel dos Estados Unidos num mundo cheio de incertezas. Mas o cotidiano não se alimenta de decisões históricas...

Como seria bom se pudéssemos apenas nos deliciar com a sensibilidade e a inteligência da crônica de Roberto DaMatta sobre os elos humanos que aparecem na novela Avenida Brasil, não tão diferentes dos que relacionam o antropólogo com seus objetos de estudo. Ela nos dá um banho de vida. Infelizmente, nesta semana não dá para falar apenas das estrelas. A dura realidade é que começou na quinta-feira um julgamento histórico sobre o qual não faltaram palavras sensatas. Uns, como José Nêumanne, mostraram as Falácias e enganos acerca do mensalão de maneira crua e direta. Outros, como Dora Kramer, desvendaram a Falsa dicotomia entre julgamento técnico e julgamento político. Outros ainda, como Elio Gaspari, sem negar que torcer faz parte da alma humana, insistem em que o importante é que os magistrados julguem de maneira compreensível para o povo. Que não nos confundam com o jargão da toga. E há os que abrem o jogo, mostram suas apostas, como o Zuenir Ventura, para logo dizer que tudo é mero palpite, pois não se pode saber o que passa na cabeça dos julgadores.

Por mais que se deseje ser objetivo, tenho tentado, e por mais prudente que se deva ser na antevéspera do julgamento (no momento em que escrevo este artigo), é inegável a sensação de que talvez estejamos no começo de uma nova fase de consolidação das instituições democráticas. Existe também o temor de que ela se perca. É isso que produz ansiedade e faz com que os comentaristas mais perspicazes - incluo neles Merval Pereira -, ao falarem sobre o tema, acabem por deixar transparecer o que gostariam que acontecesse. De minha parte, torço para que não haja impunidade. Calo sobre quem deva ser punido e em que grau, mas não se deve obscurecer o essencial: houve crime.

Embora, portanto, esteja engrossando o número dos obcecados com o mensalão, não posso esconder certa perplexidade diante da despreocupação com que recebemos as notícias sobre a crise internacional, como se, de fato, a teoria da marolinha tivesse substituído o bom senso na economia. Não dá para ignorar que com toda a inundação de dólares a baixo custo feita pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), a economia do país não reage. Na Europa, por mais que seu Banco Central se diga disposto a cobrir qualquer parada dos especuladores, os mecanismos para tornar efetiva a gabolice estão longe da vista. Resultado: mal-estar social e desemprego crescente. A própria China, bastião da grandeza capitalista mundial, parece mergulhar em taxas decrescentes de crescimento, as quais, se bem que nos deem água na boca (entre 6% e 7%), são insuficientes para atender aos reclamos dos chineses e, mais ainda, para sustentar a maré dos preços elevados das matérias-primas, principalmente minerais.

Tudo indica, portanto, que os efeitos da crise mundial, somados à inércia nas transformações de fundo da economia que marcou o governo Lula, acabaram por levar nossa economia, se não às cordas, ao canto do ringue. O governo atual, não querendo beijar a cruz, embora já ajoelhado diante da realidade, despejou uma série de paliativos de todos conhecida: redução setorial de impostos, créditos de mão beijada para alguns setores beneficiados, expansão dos gastos públicos correntes e, até, desvalorizações da moeda e redução das taxas de juros. Em situações "normais" de crise, o receituário funcionaria. Um pouco de sustentação da demanda, jogando-se nos ombros de Keynes a responsabilidade pela ligeireza de certas medidas, animaria o consumo e daria aos empresários o apetite para investir. Diante, entretanto, da duração e da profundidade da crise atual, é pouco. Serão necessárias medidas verdadeiramente keynesianas que dizem respeito à sustentabilidade dos investimentos, públicos e privados, e ao incremento da produtividade. Desafio duro de roer e que não se pode levar adiante somente com os recursos públicos nas mãos de uma burocracia politizada.

É esse o desafio que o governo Dilma Rousseff tem pela frente. Quem sabe, premido pelas circunstâncias, ele finalmente reconheça, na prática, o que o lulopetismo sempre negou: que as reformas que meu governo iniciou precisam ser apoiadas e retomadas com maior vigor. Nem as estradas, nem os aeroportos e muito menos as fontes de energia darão o salto necessário sem alguma forma de privatização ou de concessão. Elas terão de vir se quisermos de fato crescer mais aceleradamente. Só com estabilidade jurídica, aceleração dos investimentos em infraestrutura e educação, melhor balanceamento energético será possível despertar não apenas, como está na moda dizer-se, o "espírito animal" dos empresários, mas a crença de todos nós no futuro do Brasil.

Ao contribuir para a consolidação da Justiça como um valor, parte essencial da modernização do nosso país, o julgamento do mensalão poderá ser um marco histórico. Basta que seja sereno e justo para injetar mais ânimo em nossa política e para que esta volte a olhar o Brasil com a clareza de que somos um país capaz de andar com as próprias pernas graças à nossa seriedade e aos conhecimentos que desenvolvemos. Só assim deixaremos de flutuar ao sabor das ondas favoráveis às economias primário-exportadoras para podermos dar rumo próprio ao nosso futuro.

Sexo, conflito e tensão - LEE SIEGEL


O Estado de S.Paulo - 05/08


NOVA JERSEY - Cinquenta Tons de Cinza é um livro a respeito do relacionamento sadomasoquista entre uma universitária inocente e um jovem e lindo bilionário, que a convida para partilhar os prazeres do sexo na sua "sala vermelha da dor". A obra causou sensação nos Estados Unidos, vendendo centenas de milhares de exemplares no formato eletrônico e no impresso. Praticamente todos aqueles que ganham a vida escrevendo já apresentaram sua opinião do livro - na verdade, todas as escritoras o fizeram. Os escritores parecem querer distância dele.

Tentei ler o livro e tive de abandoná-lo quando cheguei à parte em que o protagonista, Christian Grey, faz sexo violento com a jovem e virginal Anastasia. Como em toda a pornografia, o trecho mais parecia uma lista de instruções para a correta organização de uma mesa de cartas. Quanto mais explícitos são os textos sobre o sexo, mais constrangedora é a sua leitura. O trecho mais erótico de toda a literatura é do grande romance de Gustave Flaubert, Madame Bovary, escrito no século 19, quando Emma Bovary viaja de carruagem com seu amante, Rodolphe. Flaubert jamais descreve o encontro sexual, o que o torna muito mais tórrido.

A esta altura, dúzias de comentaristas destacaram as semelhanças entre Cinquenta Tons de Cinza - escrito por uma ex-executiva da televisão britânica chamada E.L. James - e romances góticos como Jane Eyre, bem como a popular série de romances vampirescos Crepúsculo. Mas ninguém explorou a dinâmica entre o bilionário e sua presa. Ninguém indagou se Anastasia permitiria que o caixa de uma livraria ou um mecânico de carros a espancasse, machucasse e torturasse sexualmente. Em vez de fugir de um homem claramente perturbado e insano, ela fica ao lado dele, tentando transformá-lo num amante terno e cheio de consideração.

Assim, nestes EUA que têm mais bilionários do que qualquer outro país do mundo, nestes EUA onde a distância entre ricos e pobres aumenta a um ritmo alarmante, nestes EUA onde uma oligarquia é cada vez mais a dona do país - neste lugar que se torna cada vez mais estranho para aqueles que, como nós, o amam, a obra de ficção mais popular no mercado é, literalmente, sobre uma mulher que submete sua dignidade e a própria alma ao fato bruto da riqueza e do poder.

Os rituais do sadomasoquismo me parecem se encaixar perfeitamente numa cultura que está se tornando dominada quase que exclusivamente pelos valores de mercado. Não estou julgando ninguém - aquilo que é de consentimento mútuo entre duas pessoas no reino do prazer não deve ser da conta de nenhuma outra pessoa, e Deus sabe que todos precisamos do prazer para sobreviver. Quero apenas destacar, com aquilo que espero ser uma neutralidade antropológica, que o sexo sadomasoquista é o sexo mais quantificável que se pode ter. Assim como ocorre numa permuta altamente estruturada, não há surpresas. Todos os componentes são apresentados previamente. A fórmula subjacente é clara: Dor = Prazer. Prazer é divisível pela dor. Dor multiplicada por duas chicotadas, uma torção e um pisão = prazer.

Se o sexo é, entre outras coisas, uma incalculável sublimação do estresse, do conflito e da tensão na forma do prazer, então - na minha concepção - o sexo sadomasoquista é uma dessublimação do prazer sexual diretamente de volta ao reino do estresse, do conflito e da tensão. Se o sexo é, ao lado da arte e do brincar, o grande domínio da liberdade humana no qual podemos nos refugiar do estresse, do conflito e da tensão do mercado, então o sexo sadomasoquista é um retorno ao mercado. Somente os muito ricos, que talvez anseiem pelo conflito diário como apenas outra diversão, podem vivenciar o ritual sadomasoquista como uma fuga. Para todos os demais, este sexo traz apenas aquilo que temos no nosso dia a dia.

E por baixo das permutas sadomasoquistas entre Christian Grey e Anastasia está, é claro, a permuta mais antiga de todas. Anastasia oferece sexo a Grey, e ele concede a ela os benefícios do seu poder. Nos velhos tempos, isso significaria joias, roupas e, quem sabe, um apartamento, e as pessoas teriam lido isso e enrolado a língua em sinal de reprovação, compartilhando entre si também uma piscadela, já que, num certo nível, é assim que o mundo funciona, e isso consiste num elemento essencial da tríade amor, casamento e filhos. Mas, além de comprar para a jovem um bracelete de platina e diamantes para cobrir as marcas no pulso dela, Grey não dá a Anastasia nada que tenha valor material. Em vez disso, ele a espanca e machuca e simula com ela violações anais. E os leitores estão comprando o livro aos montes.

Esportes espontâneos - LUIZ FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 05/08

Não sei muita coisa a respeito de judô. Sempre me pareceu que uma luta de judô consiste em um tentando desarrumar o pijama do outro. Mas uma coisa me surpreendeu, vendo o judô das Olimpíadas 

na TV: como judoca é emotivo. Tem-se visto manifestações de sensibilidade em outras modalidades, claro. Todo o mundo se emociona na vitória ou na derrota, na hora das medalhas e na hora dos hinos. Mas você imaginaria que judocas fossem pessoas duronas, que soubessem conter suas emoções. O simples fato 

do puxa-puxa das suas lutas não desandar em brigas de rua, com pontapés e ofensas à mãe (pelo contrário, nada mais civilizado do que as formalidades entre os lutadores antes e depois das lutas) seria 

uma prova de controle absoluto. Mas não, judocas choram quando ganham e choram quando perdem. O que não deixa de ser muito simpático.

Sempre achei que as Olimpíadas se tornariam mais simpáticas se incluíssem o que se poderia chamar de esportes espontâneos. Por exemplo: queda de braço e bolinha de gude. A incorporação destas modalidades populares favoreceria países sem tradição olímpica, que nunca competem nos esportes nobres mas poderiam muito bem mandar uma delegação vencedora de jogadores de pauzinho (também conhecido como, desculpe, porrinha). Qualquer frequentador de bar brasileiro conhece o jogo de pega-bolacha, que consiste em empilhar bolachas de chope na borda da mesa, mandá-las para o alto com um golpe e tentar agarrá-las no ar. Duvido que o Brasil encontrasse adversário à sua altura numa competição de pega-bolacha. Há esportes espontâneos com uma longa história que quem praticou em criança nunca esquece, como bater figurinha. Com alguns meses de treinamento, qualquer adulto pode recuperar sua habilidade em bater figurinha e ir para os Jogos. Outras modalidades: embaixada com laranja ou qualquer outra coisa esférica; tiro ao alvo com bodoque; arremesso de invólucro de canudo soprando o canudo; par ou impar. Etc, etc.

E não vamos nem falar nos vários jogos de cartas, como o truco, nos quais nossas chances de ganhar o ouro seriam grandes. Talvez houvesse alguma dificuldade em acordar a delegação do pôquer para o desfile inaugural, e imbuir todo o mundo do espírito olímpico, mas fora isso...

Apagão logístico - EDITORIAL O ESTADÃO


O ESTADÃO - 05/08
Congestionamento nas estradas, enormes filas de caminhões nos portos, navios parados ao largo à espera de espaço para atracar, falta de espaço nos armazéns e prejuízos assustadores - este cenário é bem conhecido, mas o quadro poderá ser pior no próximo ano, avisam produtores rurais e líderes do agronegócio. O apagão logístico há vários anos previsto por especialistas e empresários do setor poderá finalmente ocorrer, se a próxima colheita de grãos e oleaginosas for tão boa quanto se espera. Boa parte da segunda safra de milho deste ano ainda estará nos armazéns, no começo de 2013, quando os plantadores de soja precisarem de espaço para acomodar uma produção provavelmente recorde, por enquanto estimada em 80 milhões de toneladas.
A "safrinha", nome tradicional da segunda safra de milho, deve totalizar 34,6 milhões de toneladas, estima a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Empresários, técnicos e dirigentes de associações de vários Estados produtores, entrevistados pela Agência Estado, traçaram mais uma vez o velho quadro paradoxal: notícias de boas colheitas são prenúncios de muita dor de cabeça para produtores, processadores e exportadores.

O agronegócio continua dando uma ampla contribuição para o saldo comercial do País. Mesmo com a queda de preços de vários produtos, no primeiro semestre, o setor manteve um superávit de US$ 36,7 bilhões entre janeiro e junho e de US$ 79,4 bilhões em 12 meses, segundo o levantamento mensal do Ministério da Agricultura. Os problemas de logística são parte da rotina do agronegócio e tendem a ficar cada vez mais graves, porque os investimentos em conservação e expansão da infraestrutura nem de longe acompanham o crescimento do volume colhido.

Neste ano e no próximo, a quebra da produção americana, por causa da seca, abre perspectivas de bons negócios para os produtores brasileiros, por causa da alta de preços no mercado internacional. As cotações são atraentes para quem dispõe do chamado milho safrinha, normalmente plantado depois da colheita da soja, e para quem planeja o plantio da próxima safra de verão.

A área destinada à soja, segundo estimativas correntes, deverá ser 10% maior que a da temporada 2011-2012. Dirigentes e técnicos de associações de produtores de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná já apontam dificuldades para o escoamento do milho recém-colhido ou em processo de colheita. Os armazéns são insuficientes.

Além disso, as velhas dificuldades logísticas foram agravadas pelas greves de servidores da Receita Federal e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, nos últimos dias, pela paralisação de caminhoneiros.

A ameaça de greve de mais uma categoria, a dos fiscais federais agropecuários, era apontada, na sexta-feira, como mais uma preocupação para produtores e exportadores.

Alguns técnicos preveem escassez de caminhões para a próxima safra de verão. É um recado para a indústria e para os bancos financiadores de equipamentos. Mas o aumento da oferta de caminhões só resolverá parte do problema. É preciso cuidar das vias de transporte. A recuperação da Rodovia BR-163 (Cuiabá-Santarém), hoje em muito más condições, criaria uma alternativa mais econômica para escoamento de 30% da produção mato-grossense, sugeriu o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso, segundo a Agência Estado. Especialistas poderiam multiplicar os exemplos de obras necessárias para baratear a movimentação das safras. Investimentos em hidrovias, outra possibilidade citada com frequência, permitiriam transportar a produção do Centro-Oeste para os portos da Região Norte e evitar o longo e caro trajeto até os terminais do Sudeste e do Sul.

Para cuidar do risco do apagão logístico, no entanto, o governo precisará enfrentar uma deficiência interna - o apagão de sua capacidade de planejamento, de administração e de execução de projetos. A quase paralisia do Ministério dos Transportes, depois da faxina parcial do ano passado, é apenas um dos sintomas do problema. As disfunções da máquina federal ameaçam travar o setor mais competitivo da economia nacional, o agronegócio.

Resposta à fome do mundo - JOSUÉ GOMES DA SILVA


FOLHA DE SP - 05/08

Semana passada, ratifiquei a opinião de Dani Rodrik, professor na Universidade Harvard (EUA) e respeitado economista, quanto às boas perspectivas de o Brasil continuar crescendo, do nosso mercado interno, do equilíbrio das contas públicas e da democracia consolidada. Acrescentei à análise o nosso diferencial competitivo referente à imensa reserva hídrica.

Mas, há outros fatores significativos favoráveis ao país, entre eles, a disponibilidade superior a 300 milhões de hectares de terras agriculturáveis.

São mais de 100 milhões de pastagens, dando sustentabilidade à criação de gado de corte e, parte das quais, se necessário, pode ser adequada à cultura de outros alimentos.

São poucas as nações com áreas disponíveis à agropecuária que não impliquem desmatamento. Somos, de longe, os campeões no quesito, em plenas condições de conciliar produção/segurança alimentar com a preservação ambiental.

Temos clima diversificado, chuvas regulares, energia solar abundante e mais de 12% de toda a água doce do planeta: tudo o que a natureza precisa para fertilizar a terra e prover abundância.

O melhor é que sabemos aproveitar esse potencial, agregando tecnologia de ponta ao agronegócio, onde a Embrapa e outros institutos de pesquisas têm sido fundamentais. Nossa produção de alimentos cresceu 120% nos últimos 15 anos.

Tais números e dados brasileiros são a melhor resposta às inquietações da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) quanto à necessidade de se aumentar em 70% a produção mundial de comida até o ano 2050, quando a população da Terra superará nove bilhões de pessoas.

Os técnicos do organismo multilateral acreditam que 80% dos alimentos necessários ao atendimento dessa grande demanda virão do aumento da produtividade (temos tecnologia para isso!) e 20%, de novas áreas agricultáveis (temos disponibilidade para isso!).

O Brasil é uma ilha de fertilidade, pois há países nos quais já falta espaço para plantar e criar rebanhos e onde a água, elemento essencial à vida, é extremamente escassa e a pouca que se tem disponível está poluída, portanto imprestável.

E somos potência agrícola, ainda que nos falte logística eficiente e competitiva, o que reduz muito a renda do produtor. Mas há obras de infraestrutura em andamento e, quando prontas, irão contribuir muito.

O Brasil tem, portanto, a faca e o queijo (...o leite, a carne, a soja, o café, os grãos, as frutas...) para se tornar a grande referência e protagonista da segurança alimentar.

Não há dúvida de que esse potencial pode ser cada vez mais convertido em vantagem competitiva, crescimento econômico e desenvolvimento.

CLAUDIO HUMBERTO

“Nada, absolutamente nada, acontecia sem sua prévia autorização”
Roberto Gurgel, procurador-geral, sobre o papel de José Dirceu no mensalão

DEFESA TEME ‘LINHA DURA’ DE GILMAR NO MENSALÃO 

Advogados de “mensaleiros” consideraram “muito duro” o discurso do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, que afirmou, no primeiro dia do julgamento do mensalão, que havia uma “lenda urbana de que o STF não condena”, mas que “isso já está desmistificado aqui”. A defesa dos réus, que apostava no perfil e votos “técnicos” do ministro, entendeu que ele adotará linha favorável a condenações.

PROPOSTA INDECOROSA

Em abril, o ex-presidente Lula pediu a Gilmar Mendes para adiar o julgamento do mensalão em troca de blindagem na CPI do Cachoeira.

BRIGA PÚBLICA

Perplexo com a pressão de Lula, Gilmar Mendes revelou o caso e acusou o petista pela “central de divulgação” de boatos contra o STF.

DOIS PESOS...

A mulher de Cachoeira será processada pela ousadia de pressionar um juiz. Já Lula, o inimputável, que pressionou um ministro do STF...

TÔ FORA

O ex-tesoureiro Delúbio Soares escreveu em seu blog: “creio em Deus, no povo e na Justiça”. Deus mandou avisar que não sabia de nada.

PELUSO PODE SAIR DO STF SEM VOTAR NO MENSALÃO 

Em menos de um mês, a 3 de setembro, o ministro Cezar Peluso vai se aposentar e certamente não participará da votação sobre o mensalão – processo que tramitou sob sua gestão, na presidência do Supremo Tribunal Federal. A única possibilidade é se o processo de votação tiver começado e ele pedir antecipação de voto. Peluso não aparenta, mas completa 70 anos e pela Constituição será obrigado a se aposentar.

O RETORNO

Ex-prefeito do Rio, César Maia (DEM) planeja disputar o governo estadual em 2014, caso obtenha votação expressiva para vereador.

AQUI MANDO EU

César Maia ocupará um minuto do horário eleitoral de TV, este ano; os demais candidatos a vereador dividirão os 20 segundos restantes. 

EM CAMPANHA

Com o maridão Íris Rezende (PMDB-GO) em repouso, após cirurgia, a deputada Íris de Araújo, sua mulher, tem ido à luta no interior goiano.

NOVA ESTRATÉGIA

O deputado Odair Cunha (PT-MG), relator da CPI do Cachoeira, acha que o bicheiro deverá “mudar de estratégia” agora que o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos deixou sua defesa. Quem sabe, abrindo o bico. 

TOFFOLI E BATTISTI

Alvo de polêmica por suas relações pessoais com o governo petista e o próprio PT, o ministro Dias Toffoli alegou “foro íntimo” no julgamento do Supremo da decisão de Lula não extraditar Cesare Battisti, em 2009. 

ATITUDE EXEMPLAR

O prefeito de Licínio de Almeida (BA), Alan Lacerda (PV), matriculou os filhos no ensino público e determinou que os secretários fizessem o mesmo. Resultado: o município está entre os 100 melhores do Brasil.

EM CASA

O tiranete da Venezuela, Hugo Chávez, era chegado à “marvada”. Na posse de Lula em 2003, beijou com “bafão” três servidoras do cerimonial e tirou chapéu dos Dragões da Independência.

LÁ NO INTERIOR

O PSDB cogita criar assessorias de comunicação em municípios do interior, sobretudo onde o PT (Lula) é forte, para usar o julgamento do processo do mensalão, a fim de desgastar candidatos petistas.

CIDADÃO LUDIBRIADO

A divulgação do balanço do PAC 2, sobre o andamento de 26 obras prioritárias, revoltou o deputado Eduardo Gomes (PSDB-GO). Ela acha que o governo faz propaganda enganosa e “ludibria o cidadão”.

CPI DO KIT GAY

O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) articula uma CPI para esmiuçar o currículo do ensino fundamental, e apurar as responsabilidades de quem impõe às crianças “livros que estimulam o homossexualismo”.

LEGISLAÇÃO EM LIBRAS

Pessoas com deficiência auditiva poderão ter acesso a provas eletrônicas de legislação de trânsito em formato de Libras, no Distrito Federal. O aviso de licitação foi publicado no Diário Oficial do DF. 

PENSANDO BEM...

...Com a escassez de medalhas nas Olimpíadas, o Brasil foi pegar “um bronze” em Londres. 

PODER SEM PUDOR

SANTO TROTE

O deputado Padre Nobre tomava banho de imersão todo fim de tarde, com direito a sais e espuma. Seu colega Nelson Thibau (MDB-MG) fez uma brincadeira: telefonou durante o banho dizendo ser o então arcebispo de Brasília, dom José Newton. O padre-deputado só descobriria o trote no dia seguinte. Ficou furioso. Após alguns dias, tocou o telefone de novo:

- Aqui é dom José Newton, Padre Nobre.

- Vá arrumar o que fazer, vagabundo! - gritou e desligou com raiva.

Levou tempo até conseguir o perdão do arcebispo. Dom José Newton simplesmente não entendia o porquê da agressão ao telefone.

DOMINGO NOS JORNAIS


Globo: Tropa de 150 advogados vai tentar salvar os réus
Folha: Advogados vão explorar contradições de Gurgel
Estadão: Mercosul é ‘clube de amigos’, diz presidente do Paraguai
Correio: A geografia da traição no DF
Estado de Minas: As doenças que assombram os nossos filhos
- Jornal do Commercio: Recifense, com muito prazer
Zero Hora: Quinze anos de erros na gestão dos pedágios

sábado, agosto 04, 2012

Patrões e patroas sem-noção - RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA


Você, que não perde um capítulo da novela do mensalão e torce pela condenação de todos os vilões, já parou para pensar se existe uma Carminha em seu íntimo? Lembre que o exercício da cidadania começa em casa, ao acordar para o café.

Você é uma patroete ou patrão sem-noção, que desrespeita as empreguetes – ou valoriza o trabalho de quem limpa, cozinha, lava e passa para você e sua família?

Não faz sentido discursar contra a corrupção na aula de pilates ou no salão de beleza e, durante o alongamento e a escova progressiva, falar mal do “traste” que você mantém em casa, usando a linguagem da novela das 9, Avenida Brasil. Na “liga das patroas” da novela das 7, Cheias de charme, o uso da língua ferina contra as empregadas é mais que um passatempo, é um vício.

Se Zé Dirceu & Cúmplices precisam ser presos para dar exemplo e moralizar a política, como disciplinar as Carminhas soltas e impunes por aí? E olha que Carminha é emergente e já fez de tudo. O Brasil está cheio de Sandrinhas, Therezinhas, Ruthinhas (incluo meu nome para não fulanizar) que nunca fritaram um ovo, jamais fazem sua cama ou lavam suas calcinhas, não servem uma mesa, não lavam a louça e nunca usaram um aspirador de pó ou uma enceradeira. Elas têm horror a detergente e desperdiçam boa parte da vida procurando poeira para dar bronca. Humilham as empregadas domésticas fixas – um luxo no mundo moderno e civilizado. Quem já morou na Europa sabe.

Quando Nina começou a se vingar de Carminha, invertendo os papéis, a novela ficou meio chata. Na voz e nos gestos de Nina, as barbaridades cotidianas se tornam caricaturais, inverossímeis. Antes, tudo estava em seu devido lugar: sininho, exploração, chiliques, maus-tratos. Carminha era sem dúvida mais convincente no papel de patroa perua cheia de grana.

Se você não é uma Carminha, certamente conhece uma. Tive uma amiga de esquerda em São Paulo com atitudes singulares. No quarto, ao lado de sua cama, ela apertava a campainha ao acordar e lá vinha a empregada com bandeja e o café da manhã preparado. A doméstica dormia num anexo da casa, era obrigada a usar uniforme com touquinha. Servia almoço e jantar. Sentava-se na cozinha para ser chamada por um sininho várias vezes durante as refeições.

Conversei com Léa Silva, conhecida como Tia Léa, dona de uma laje no Vidigal, favela pacificada do Rio de Janeiro, onde serve refeições para estrangeiros. Há 38 anos ela trabalha em “casa de família”, desde adolescente. E já penou com Carminhas e Chayenes. “Sabe o que é levar na cama da patroa uma bandeja com café e ela jogar tudo longe, as coisas se esparramarem na cama, porque ela não gostou de alguma coisa?”, pergunta. Tia Léa detesta o som do sininho. Acha campainha menos desagradável.

Tia Léa era acordada de madrugada para atender os amigos da patroa. E o quarto de serviço? “Cheio de entulho”, diz. “Aquele chuveiro frio da Nina na novela... é assim em muitos lugares. Eu esperava a patroa sair para esquentar água na panela e tomar banho de baldinho. Colchão costuma ser horroroso. Roupa de cama é o resto do resto.”O macarrão com salsicha que Nina serviu para Carminha é realidade em muitos lares. “Comida de empregada era uma, comida dos patrões era outra.” Numa casa, empregada era proibida de comer as “partes nobres” do frango. “Para nós ficavam as asas, o pescoço e os pés da galinha. Um dia, eu desfiei a asa bem fininha e fiz um empadão para mim e para as outras empregadas. Para quê! A madame chegou e não gostou nada. Acabou pegando o empadão para ela.” Às vezes, não é só a comida que é diferente. Os pratos, os talheres e os copos são separados. Como se patroetes tivessem nojo das empreguetes.

Um dos autores de Cheias de charme, Filipe Miguez, me disse que tenta mostrar “de maneira leve” as agressões e irregularidades de uma relação típica de Terceiro Mundo. A patroa Chayene joga sopa na cara da empregada, mas é denunciada na polícia. Em outra casa, uma menina, filha da empregada que morreu, trabalha sem carteira assinada. “No Sudeste, é menos comum, mas no Norte e Nordeste isso ainda acontece muito. A garota cresceu ali, tem casa e comida, e a mentalidade é de casa-grande e senzala”, diz Filipe.

Se é para encher a boca com cidadania, vamos convocar o Supremo para julgar se você é uma patroa cidadã? E não adianta pedir desmembramento do processo para se safar. Sua empregada tem carteira assinada? Direito a INSS, férias e 13º salário? Quantas horas trabalha por semana? Você a chama com sininho e campainha? Grita? Está sempre insatisfeita? Controla o que ela come? As dependências têm dignidade? Preocupa-se com sua saúde ou apenas reclama que ela está doente e deixou você na mão?

Faça esse teste simples. Dependendo do resultado, quem sabe você precisa de uma reviravolta didática em sua vida.

O mundo é dos psicopatas - WALCYR CARRASCO

REVISTA ÉPOCA


Eles são sedutores, não dá para saber do que são capazes. Já me relacionei com uma psicopata assassina sem ter idéia



Vivo encontrando psicopatas. Não me espantei quando li as notícias sobre o recente massacre nos Estados Unidos, protagonizado por James Holmes, de 24 anos, cujos disparos atingiram 70 pessoas numa sala de cinema, 12 delas mortas. Já me relacionei com uma psicopata assassina, sem jamais suspeitar. Há muitos anos, morei uma temporada no México. Vivia com uma amiga, Regina, em Cuernavaca. Regina era produtora de espetáculos e rapidamente se relacionou com um grupo de cantoras local. Uma delas, cujo nome prefiro ocultar por delicadeza, era uma garota simpática que nos convidou a vê-la no bar de um hotel local. Nunca esqueci aquela noite luxuosa para meus padrões na época, pois, sabedora de nossa difícil situação financeira, a cantora ofereceu as bebidas. Voltei ao Brasil sozinho. Anos depois, Regina reapareceu com a novidade. A cantora matara o namorado, um americano. E o esquartejara na banheira do quarto de hotel! Depois, espalhara os pedaços pela Cidade do México. Crime muito semelhante ao recentemente ocorrido em São Paulo. Foi presa e nunca mais soubemos dela. Até hoje não consigo entender: como aquela garota risonha foi capaz de esquartejar o namorado?

Essa é a grande questão sobre os psicopatas: são sedutores. Não se percebe do que são capazes até quando algo tremendamente terrível acontece. Li faz pouco um belo livro,Precisamos falar sobre Kevin, da americana Lionel Shriver. Ela conta, do ponto de vista da mãe chocada, a trajetória de um garoto que se torna serial killer – o livro foi também adaptado para o cinema, com direção de Lyanne Ramsay. A mensagem final é de desesperança. Percebe-se que não havia nada a fazer, desde o momento em que Kevin nasceu, a não ser aguardar a tragédia. Tive o privilégio de conhecer, socialmente, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa da Silva, autora deMentes perigosas – O psicopata mora ao lado. Com ela, entendi que a psicopatia não tem cura, pois o sujeito não tem nenhum sentimento em relação ao outro. Eis um caso verdadeiro: a avó de um garoto negou alguma coisa que ele queria. Uma bobagem qualquer. O anjinho botou o gato da vovó no micro-ondas e ligou.

Eis o outro lado da moeda: ser psicopata até certo grau é uma característica valorizada pela sociedade. Há alguns anos, falava-se na lei de Gérson, “levar vantagem em tudo”. A expressão saiu de moda, mas no cerne continua valendo. As crianças são educadas não para amar, mas para vencer o próximo. O que importa é subir na vida, ser rico, doa a quem doer. Quando escrevi a novela Morde & assopra, na TV Globo, minha colaboradora, Cláudia Souto, propôs que o prefeito e sua mulher dessem um golpe na merenda escolar. Quase rejeitei a ideia. Pensava que ninguém seria capaz disso. Por coincidência, pouco depois vários escândalos com a merenda escolar pipocaram pelo interior de São Paulo. O corrupto rouba na merenda. Na conta de hospitais. Sabe que gente passará fome, até morrerá por causa de seus atos. Pouco importa, na lógica psicopata. Muitos altos executivos colocam a empresa acima de tudo, até das relações familiares. E daí, se ganham bem?Um grande número de psicopatas, porém, não chega ao extremo, como atesta Ana Beatriz. Simplesmente, usa os outros. Não quero me fazer de vítima do mundo. Talvez por ser autor de novelas, eu atraia um número grande de personalidades com um traço doentio. São pessoas dispostas a fazer qualquer coisa para conquistar a fama – que, no Brasil, se traduz em conseguir um papel na televisão. Com frequência, alguém se aproxima oferecendo amizade. Até há pouco tempo, eu era um tanto ingênuo. Acreditava. Muitas vezes a amizade acabou subitamente, com acusações e raiva, quando não ofereci em contrapartida um papel na próxima novela. Só então eu descobria: o objetivo não era a amizade, mas entrar na TV!

Meu sobrenome é Carrasco. Por ser de origem espanhola, não significa que algum de meus antepassados enforcasse alguém profissionalmente. Mas cresci com o peso que um nome desses carrega. Há anos, em Lisboa, descobri um Pátio do Carrasco. Lá morava, no passado, justamente o... carrasco, em português. Olhei as casas simples, imaginei aquele homem, brincando com as crianças, trazendo um pão para o jantar. Se alguém lhe perguntasse sobre seu cotidiano de mortes, ele responderia:

– É minha profissão.

Ninguém se engane. A falta de sentimento pela dor alheia tornou-se uma vantagem no mundo dos negócios e da política. O psicopata é um vencedor.