segunda-feira, junho 18, 2012

A ignorância é amarela - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP - 18/06


SÃO PAULO - Steffi é uma abastada nova-iorquina com consciência social. Luta pelos direitos dos presos e até trouxe um ex-detento para jantar com a família em sua "penthouse". Mas sua filha Skylar se apaixona pela brutalidade exótica do sociopata e quer largar o noivo, o yuppie Holden. Abre-se uma crise doméstica. Não era para tanto.

O filme "Todos Dizem Eu te Amo" (1996), de Woody Allen, é cheio de piadas que ironizam a vida da elite liberal na Manhattan fin-de-siècle. De tão estereotipados, parece que choques assim exemplares entre convicções e realidade não acontecem.

Djan Ivson, o Cripta Djan, é habitué do noticiário desde 2008, quando ajudou a invadir e a pichar a 28ª Bienal de São Paulo. Sua brutalidade exótica em pouco tempo passou a encantar o mundo da arte. Foi convidado a expor seu protesto rupestre na Bienal paulista de 2010. Depois em Paris e, neste mês, em Berlim.

Cripta tem sua filosofia: "A gente só vai fazer pichação sem quebrar as regras quando não tiver mais vergonha na cara". A vergonha continua.

Na capital alemã, convidado a debater sua arte na igreja de Santa Elizabeth, o grupo de Cripta pôs-se a escalar e a pichar o prédio de 1835. Não era para tanto. O curador anfitrião chamou a polícia, altercou-se com o brasileiro e acabou pichado, ele mesmo, de amarelo.

Parte da consciência social vigente partilha do ideal romântico de que há forças regeneradoras latentes no ser inculto, no homem em estado bruto ou nas sociabilidades mal providas de bem-estar. Daí o fascínio com o que os despossuídos, em sua lida diária com a escassez, poderiam revelar de emancipatório para a sociedade. Daí o deslumbre estético com formas de expressão toscas e com o mero instinto transgressor.

Vale, porém, a Lei de Steffi. A valorização do inculto, do violento e do grosseiro vai até o ponto em que não ameaça a educação, a segurança e o casamento dos nossos filhos.

Dona Odete e você - DENIS LERRER ROSENFIELD


O ESTADÃO - 18/06


Dona Odete tem 87 anos, usa bengala e tem dificuldade para ouvir e enxergar. Precisa de óculos e aparelho auditivo, desfazendo-se deles ao deitar. Mora sozinha, no 2.º andar de um prédio, em Caxias, no Rio Grande do Sul. Tudo nela aparenta uma pessoa indefesa, não fossem a força de vontade que a habita e sua capacidade, intacta, de defender a sua vida, de exercer numa situação-limite a liberdade de escolha.

Ademais, dona Odete é uma pessoa religiosa, que costuma rezar todos os dias, acreditando em Deus e louvando-o, como é a regra em pessoas de fé. O seu pensamento tem, portanto, uma relação com o absoluto, procurando nele se elevar. Pode-se dizer que dona Odete é uma pessoa comum no sentido conservador do termo, nada a predispondo a nenhum tipo de violência.

Ora, é essa mulher que foi exposta a uma situação completamente inusitada, devendo, hoje, responder a um processo por homicídio e por porte ilegal de arma. Provavelmente, terá de ir a júri, salvo se um juiz (e/ou um promotor) sensato der um basta à insensatez a que está submetida. Diga-se que os policiais não são tampouco responsáveis por essa situação, na medida em que devem seguir a lei. Caberia, então, a pergunta: Qual lei? Qual a sua inspiração, os ditos direitos humanos e o politicamente correto irmanados na injustiça?

Dona Odete dormia quando foi acordada pelos ruídos de um estranho que tinha entrado em seu apartamento. Na verdade, ele o invadiu a partir do telhado de uma escola vizinha, tendo de lá pulado para a janela de sua sala. Ao ver uma senhora indefesa dormindo, não prestou maior atenção, pois não via nela "perigo" algum.

Digamos, uma banalidade, pois às vezes uma banalidade é cheia de significação, considerando principalmente o Brasil de hoje, onde criminosos são tratados com máxima consideração pelos ditos representantes dos direitos humanos, enquanto suas vítimas são relegadas ao esquecimento.

O bandido portava uma faca, que certamente não seria usada para descascar batatas. Não iria, evidentemente, preparar uma janta para a senhora. Trazia consigo uma arma branca que seria utilizada segundo sua própria conveniência. Aliás, a sua força física também jogava a seu favor, pois a senhora acordada, movendo-se sem óculos e sem seu aparelho auditivo, foi quase estrangulada.

Note-se, além disso, que tal indivíduo já tinha sido condenado pela Justiça e estava sob liberdade provisória. Ele tinha uma ficha corrida policial, enquanto a senhora, como se dizia antigamente e se deveria dizer atualmente, é uma pessoa de bem.

Ocorre que dona Odete tinha em seu apartamento um revólver calibre 32, herdado de sua família, arma que estava guardada há mais de 35 anos. Ou seja, segundo a legislação brasileira, ela detinha uma posse ilegal de arma de fogo. Deveria ter entregue sua arma numa dessas campanhas do desarmamento, ficando literalmente desarmada, como uma cidadã dócil ao Estado e aos ditos direitos humanos. Hoje, estaria num caixão, esquecida por todos, salvo por seus familiares. A situação é a seguinte: se obedecesse à lei, estaria morta; desobedecendo-a, conseguiu sobreviver.

De posse do revolver "ilegal", reagiu à investida do invasor e conseguiu acertá-lo com três tiros, matando-o naquele instante. Ato seguinte, telefonou para seus familiares, que acionaram a polícia e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que, quando chegaram, se depararam com o quadro da senhora e de seu algoz, que, no chão, já não apresentava mais nenhum perigo.

Ocorre que a dona Odete nada mais fez do que usar o seu direito de legítima defesa, exercendo a sua liberdade de escolha numa situação-limite, a que se faz entre a vida e a morte. Assinale-se, aqui, o exercício da liberdade de escolha, traduzindo-se pela conservação de sua própria vida. Mas, para que esse direito possa ser exercido, são-lhe necessários os seus instrumentos e condições correspondentes, no caso, uma arma.

O esdrúxulo da situação é que dona Odete terá de responder por homicídio e por posse ilegal de arma. Ela, ao se defender, ao optar por sua própria vida contra um bandido, é legalmente acusada. A alternativa é: ou ela está certa e a lei está errada (exigindo a modificação desta) ou a lei está certa e ela deveria estar morta. A alternativa é excludente.

Imaginem, agora, se o bandido a tivesse estrangulado ou matado a golpes de faca. Certamente não seria preso em flagrante e estaria perambulando pelas ruas. Se preso, responderia por seu processo em liberdade e sempre teria à sua disposição um defensor público, além de algum representante dos ditos direitos humanos que sairia em seu socorro. Hipótese tanto mais plausível se tivesse a habilidade de inventar uma boa história de vítima social, tornado a sua vítima - a idosa assassinada - uma mera consequência de sua condição. O assassino seria a vítima e a verdadeira vítima, um mero número de um registro policial. Os direitos humanos não seriam para ela, nem morta, de nenhum auxílio.

Sempre haverá uma estatística do politicamente correto para colocar o criminoso como vítima inocente das armas de fogo. Será "esquecido" que foi ele que invadiu uma moradia, habitada por uma senhora idosa, para roubar ou matá-la, segundo as circunstâncias. Teria sido a arma de fogo que o matou. Pretensa conclusão: torna-se ainda mais necessária uma campanha do desarmamento, pois as armas continuam produzindo vítimas!

Dona Odete pode ser você. Desarmado, sem nenhuma condição de exercer o legítimo direito à defesa de sua própria vida, em sua própria casa. Você está numa situação ilegal, caso tenha uma arma não registrada. E registrá-la, além de caro, é uma operação raramente bem-sucedida. A lei, nessa circunstância, não o protege. Em caso de encontrar um bandido em sua casa, renda-se a ele, entregue a sua própria vida, abdique da liberdade de escolha.

É essa a mensagem do politicamente correto? Renunciar à liberdade de escolha?

Para suprimir duas injustiças - RENATO JANINE RIBEIRO


Valor Econômico - 18/06


O sistema federativo brasileiro está baseado em duas injustiças, que mais ou menos se compensam. A primeira é a desigualdade na representação dos cidadãos na Câmara de Deputados. A segunda é a cobrança do ICMS no Estado de origem, não no de destino. As duas injustiças se equilibram: a primeira prejudica São Paulo, politicamente; a segunda beneficia esse Estado, fiscalmente. A última é boa para as finanças estaduais paulistas. A primeira é ruim para a participação dos cidadãos que moram em São Paulo nas decisões políticas que passam pelo Congresso.

Numa federação, é correto que Estados de população desigual tenham igual representação em alguma instância. Normalmente, esta é o Senado. Assim acontece nos Estados Unidos. Cada Estado tem dois senadores. Já a Câmara de Deputados expressa a população do país, repartida pelos Estados. Lá, nenhum tem menos de um deputado; no Brasil, porém, o mínimo é oito. Foi de quatro no começo da República, subiu para seis com o golpe do general Geisel em 1977, quando ele fechou o Congresso e emendou a Constituição com sua simples assinatura, e atingiu oito na Constituinte. Geisel também introduziu um máximo de cinquenta e cinco deputados, especificamente para São Paulo, o Estado mais desenvolvido e que, por isso, poderia ser o mais crítico da ditadura. Em 1988, os constituintes subiram o teto para setenta. Resumindo, o Estado de São Paulo tem menos deputados do que deveria ter, em condições normais. Já notei que essa situação enfraquece a própria Câmara, porque ela se torna uma espécie de segundo Senado.

Defensores da desigualdade argumentam que ela evita a excessiva preponderância do Estado mais rico. Discordo. Em primeiro lugar, a diferença de população tem um fórum no qual é compensada e até zerada: o Senado. Segundo, a Câmara não representa os Estados, papel que é do Senado, mas os brasileiros. A divisão das bancadas por Estados é apenas um expediente para classificar os cidadãos do país. Quer dizer que a redução da bancada paulista afeta, não os paulistas, mas os brasileiros que votam em São Paulo, de qualquer origem que sejam - e esse Estado recebe migrantes do país todo. Terceiro, numa democracia, a principal casa do Congresso é justamente a eleita pelo povo, o que é o caso de nossa Câmara, dos Comuns britânicos e dos Representantes americanos. Sem dúvida, o Senado brasileiro e o dos Estados Unidos são eleitos hoje pelo voto direto dos cidadãos, mas eles não representam o povo e sim os Estados. A Casa que representa o povo, no Brasil, sofre assim uma deformação, pela qual alguns são mais iguais do que outros.

O Brasil poderia negociar o fim de duas injustiças

Finalmente, não é verdade que, com uma menor representação dos brasileiros de São Paulo na Câmara, se compensará o poder econômico do Estado. Na verdade, a participação política é o melhor antídoto ao excesso de poder econômico. É a política que limita os perigos da economia. É o voto do cidadão o melhor controle sobre a desigualdade acentuada pelo capitalismo. Por isso, o poder econômico sediado em São Paulo seria mais bem limitado se o voto de todos os brasileiros, inclusive os que residem nesse Estado, fosse igualmente considerado nas eleições legislativas federais.

A outra injustiça é a cobrança do ICMS na origem e não no destino. Obviamente, ela beneficia São Paulo. É injusta porque o imposto sobre vendas deve ser cobrado onde a venda se efetua, melhor dizendo, onde está o comprador. Agora, assim como "São Paulo" no caso de sua bancada na Câmara não é um todo homogêneo, uma entidade metafísica própria, também não o é na hora em que aufere impostos adicionais. O "São Paulo" politicamente prejudicado não é o mesmo "São Paulo" fiscalmente beneficiado. Basicamente, quem ganha com a tributação na origem são o governo estadual e, em decorrência, os municipais. Sem dúvida, isso permite que obras sejam realizadas, que favorecem a sociedade. Mas continua havendo uma diferença entre os dois papéis atribuídos a São Paulo. Se os cidadãos brasileiros que residem no Estado tiverem na Câmara o peso que é seu, pela natureza democrática da representação popular, terão voz para decidir, no foro competente, questões que dizem respeito à arrecadação e dispêndio federais, à organização do país e outras, que os afetam, não como paulistas, mas como brasileiros. O relativo isolamento de São Paulo em relação ao resto do país diminuirá. Nossa democracia ganhará com isso, pois desconheço um regime democrático que funcione na base da redução do valor dos votos de sua unidade subnacional mais populosa.

Por que não acabar com essas duas injustiças? Faz algum tempo, a injustiça na cobrança do ICMS está sendo enfrentada. O Valor de quinta-feira diz que está no horizonte a transferência definitiva da cobrança do ICMS para o destino. Ora, por que não aproveitar para anular, a um só tempo, duas injustiças que até hoje se equilibram? Se a vantagem tributária paulista for extinta, por que manter a desvantagem política que prejudica os brasileiros que votam nesse Estado? Seria um ato de estadistas promover essa mudança. Até porque, como já disse, as duas injustiças são de ordem diferente. Na democracia, não há como defender que uma categoria inteira de pessoas, pelo acaso de sua origem ou pelo acaso de sua residência, tenha diminuído o valor de seu voto. Adaptando a frase de um juiz americano, para quem a luz era o melhor detergente da corrupção, podemos dizer que na democracia o valor do voto é o melhor detergente para a injustiça e a desigualdade. Pena que nossos políticos não tenham negociado o fim, conjunto, de dois erros.

Atalhos da conveniência - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 18/06


O que poderia ser uma boa oportunidade para colocar o Brasil na rota da solução dos graves problemas de infraestrutura do país foi substituído pelo atalho da conveniência.

A Câmara dos Deputados acaba de aprovar a flexibilização das licitações para o PAC -uma extensão do Regime Diferenciado de Contratações (RDC), já em vigor para a Copa e a Olimpíada, consagrando um autêntico regime de exceção criado pelo governo federal para tocar, a seu modo, aquilo que lhe interessa.

Se as quase duas décadas de vigência da lei 8.666, que rege licitações, pode de fato demandar uma revisão mais detida e profunda por parte do Congresso, por que então não discutir um novo modelo, com amplo debate público?

De novo registram-se a concentração de poder e o intervencionismo que têm marcado o governo federal. Escolhe-se o caminho mais fácil e aparentemente mais curto, ignorando-se a questão central: o gigantismo e a ineficiência da administração. E mais: é estranhíssimo que matéria de tal relevância tramite pelo Legislativo embutida numa medida provisória totalmente distinta em conteúdo e finalidade. Para quê? Acredito que todos conhecem as respostas para este tipo de subterfúgio e casuísmo, rotina para matérias polêmicas ordenadas pelo governo.

O regime diferenciado para a Copa 2014 encontrava argumentos, entre seus defensores, no avanço do calendário inexorável do evento, embora o atraso se deva à própria incompetência gerencial do governo. Já a alteração para as obras do PAC não tem qualquer explicação razoável. Por que para as obras do PAC e não para todas as outras? Por que para as obras do governo federal e não para as de Estados e municípios?

A partir de agora, o pleito geral será etiquetar as obras de Estados e municípios como sendo PAC, para que possam fazer jus ao RDC, seja para ganhar agilidade, seja por muitas outras razões menos republicanas. Com isso, acaba o governo federal por ganhar também em propaganda, associando-se a obras nem sempre nascidas em sua esfera.

Como garantir a transparência necessária em uma obra incluída no privilegiado rol de facilidades do PAC?

Se o RDC já vinha sendo criticado por conferir menos transparência aos processos de licitação e diminuir exigências para a habilitação das empresas, entre outros aspectos, agora, com a extensão, acende-se o alerta vermelho: o uso político da novidade, imediato ou futuro, pode servir de fermento para a disseminação de malfeitos de toda ordem.

Acentua, além disso, a divisão que vem se estabelecendo no país entre os deveres de Estados e municípios, de um lado, e os direitos e privilégios exclusivos da União, de outro, criando dois Brasis no que um dia chamamos Federação.

Momentum - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO


O Estado de S.Paulo - 18/06


A metáfora da corrida de cavalos para representar a campanha eleitoral é mais apropriada do que a sua vulgarização pode sugerir. Como no turfe, os candidatos precisam dosar suas forças e traçar suas estratégias com precisão para não arrancar antes da hora nem se deixar "encaixotar" no pelotão intermediário. Tanto um erro quanto o outro pode impedir o maior favorito de cruzar o disco em primeiro lugar.

Na eleição paulistana, José Serra (PSDB) surgiu nas primeiras pesquisas como barbada, tão à frente dos demais que só caberia prognóstico para o segundo colocado da dupla vencedora. Mas o apostador experiente sabe que cânter não ganha páreo. Galopar garboso na apresentação ao público não é garantia de bom desempenho quando o chicote começa a vibrar. E a semana não foi nada boa para o haras tucano.

A um custo ainda difícil de contabilizar, o stud petista tirou um grande peso da sela de Fernando Haddad. Na última hora, cooptou o PP de Paulo Maluf, formalizou a aliança com o PSB de Luiza Erundina e ultrapassou todos os rivais em tempo de propaganda no rádio e na televisão. O apoio malufista se deu em troca da Secretaria de Saneamento do Ministério das Cidades - responsável por programas de esgoto e lixo. Sem comentários.

Nas contas dos repórteres Daniel Bramatti e Julia Duailibi, o candidato a prefeito do PT deve aparecer em 107 inserções de 30 segundos por semana a partir de agosto. Ou seja, 15% a mais do que Serra e quase 50% a mais do que Gabriel Chalita (PMDB). Isso significa só uma coisa: Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva fizeram a parte deles. Cabe a Haddad mostrar se tem força para atropelar na reta final ou se é o matungo que os adversários tentam pintar.

A chapa petista-malufista-socialista (e, talvez, comunista, se o PC do B também aderir) é o melhor exemplo da grande zona cinzenta que é a política brasileira. Enxergar branco e preto num cenário desses é miragem. Vale lembrar que Maluf estava mais perto da cocheira tucana até ser seduzido pelo churrasco de verbas petista. E que o impoluto PR de Valdemar Costa Neto segue firme no bridão do PSDB paulista.

Esse é o jogo político-eleitoral brasileiro. Joga quem quer, ganha quem pode. E quem não pode denuncia - pelo menos até passar a poder.

A perda da aliança com o PP não custou apenas algumas inserções comerciais a Serra. Produziu um desconforto no campo tucano. Segundo o noticiário, Geraldo Alckmin não quis dar os cargos estaduais reivindicados por Maluf, o que teria empurrado o ex-prefeito para o colo adversário. Administrativamente defensável, a atitude do governador ressuscita velhos murmúrios sobre lealdades e traições que remontam à eleição de 2008, quando ele estava no papel de Serra, e o correligionário apoiou veladamente Gilberto Kassab, então no DEM.

Nada indica que sejam mais do que fofoca, mas tais intrigas bastam para dar a impressão de que uma campanha perde confiança, enquanto a do adversário ganha ritmo. É um jogo psicológico restrito a candidatos, articuladores e assessores - que, por enquanto, a grande maioria dos paulistanos não está nem aí para a eleição. Mas é o que alimenta o blá-blá-blá político até a corrida começar para valer.

Pela lei, a campanha eleitoral só começa em julho. Para o eleitor desengajado, a largada é em agosto, com a entrada no ar do horário eleitoral obrigatório. O calendário já condicionou o eleitorado. Raras vezes uma campanha mobiliza corações e mentes antes de o palanque eletrônico entrar no ar. Uma dessas exceções ocorreu na sucessão de Lula.

A eleição de 2010 começou a tomar corpo muito antes da propaganda formal. O principal motivo foi a campanha desabrida que o ex-presidente fez por sua candidata desde muito antes da votação. A frequência com que Lula repetiu o nome de Dilma em palanques, inaugurações, discursos e festas de aniversário é inédita na história moderna do Brasil. A oposição reagiu indignada, esquentou o debate e, sem querer, ajudou Lula a promover a desconhecida Dilma.

Tudo muito diferente do que nesta morna eleição paulistana. Fora da Presidência, Lula não teve palanque nem saúde para repetir o nome do desconhecido Haddad como fez com Dilma. A campanha não empolgou ninguém. Vai sobrar tudo para a TV. Por isso, os minutos de propaganda ganhos por Haddad via PP e PSB valem muito mais do que os 8% a que ele chegou no Datafolha esta semana.

A corrida eleitoral paulistana será curta, sem curvas. Ganha quem alcançar momentum no final.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 18/06


Nova farmacêutica planeja remédios contra câncer e doenças autoimunes

A Bionovis, nova joint venture formada por Aché, EMS, Hypermarcas e União Química, prepara o lançamento de remédios para câncer e doenças autoimunes.

A farmacêutica guarda sigilo dos medicamentos que colocará no mercado, mas a coluna apurou que entre os primeiros projetos está a molécula Rituximab, produto conhecido como Mabthera, indicado para câncer.

Outro plano é a fabricação de Etanercept, ou Enbrel, para autoimunes.

"Esses são produtos que certamente estarão no nosso portfólio", afirma Odnir Finotti, presidente da Bionovis.

A molécula Infliximab, do produto Remicade, também para autoimunes, deve entrar em produção na sequência.

Ainda contra câncer, a Trastuzumab, ou Herceptin, está no planejamento estratégico da nova companhia.

Além desses quatro produtos, outros três remédios serão desenvolvidos.

"Índia, China e Coreia do Sul já têm. Isso vai fortalecer a indústria nacional. Esses são produtos que hoje pesam na balança comercial do setor no Brasil", diz Finotti, que voltou de uma viagem pelo Oriente para visitar fábricas.

A empresa foi criada para produzir remédios biotecnológicos, fabricados a partir de células vivas, mercado ainda pouco explorado por empresas brasileiras.

A companhia deve começar com a produção de biossimilares, baseados em medicamentos já existentes, de patentes expiradas.

Haverá também investimento em novos remédios desenvolvidos do zero.

Repatriação

Para criar um instituto de biotecnologia farmacêutica, a Bionovis quer investir em mão de obra qualificada e trazer profissionais do exterior.

"Já começamos a buscar profissionais estrangeiros e brasileiros que estejam dispostos a voltar para atuar nesse processo de inovação. O Brasil precisa dominar essa tecnologia", afirma Odnir Finotti, presidente da nova companhia.

O escritório da empresa será aberto em julho, em Alphaville. A localização da fábrica ainda está em estudos. São Paulo, Rio e Santa Catarina são algumas opções.

"Os governadores que já leram sobre esses projetos demonstraram interesse."

Inovação... A linha de financiamento lançada em julho de 2011 pelo BDMG (banco de desenvolvimento de Minas) teve desembolso de R$ 21 milhões em 28 projetos.

...mineira Entre eles, a criação de teclados para pessoas com deficiência. Os juros são de 8% ao ano.

Filho de... O Inmetro fará certificação do pirarucu. Para obter o selo, o peixe do Amazonas será avaliado desde a produção à comercialização.

...peixe O anúncio da certificação será feito na Rio+20.

Levantamento de peso

O grupo Bio Ritmo investirá cerca de R$ 80 milhões na expansão da marca Smart Fit até o fim deste ano.

Serão 40 unidades, sendo 32 no Brasil e oito no México, onde a companhia iniciou operação em janeiro.

"Estamos ajustando o modelo, pois o sistema bancário deles é menos desenvolvido, o que muda a forma de pagamento da mensalidade, com dinheiro vivo e em menor quantidade", diz o presidente do grupo, Edgard Corona.

No Brasil, a expansão será concentrada em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Goiás e Distrito Federal.

Cada unidade, cujo tamanho médio é de mil metros quadrados, deve ter cerca de 2.000 alunos. A Bio Ritmo, por sua vez, terá duas novas academias em São Paulo.

A diferença entre as marcas é que a Smart Fit oferece apenas musculação e ginástica. "Com a Smart Fit temos menos margem, mas maior volume de alunos."

O que aconteceu com a Índia? - RAGHURAM RAJAN


VALOR ECONÔMICO - 18/06


Os mercados emergentes em todo o mundo - Brasil, China, Índia e Rússia, para citar os maiores - estão desacelerando. Uma das razões é que continuam dependentes, direta ou indiretamente, das exportações para países industriais avançados. O lento crescimento nesses países, especialmente na Europa, é economicamente depressivo.

Mas uma segunda razão é que cada um desses países tem pontos fracos importantes, que não superaram nos bons tempos. Para a China, é sua dependência excessiva de investimento de ativos fixos para crescer. No Brasil, a baixa poupança e vários impedimentos institucionais mantêm os juros elevados e os investimentos baixos, ao passo que o sistema educacional não atende bem partes significativas da população. E a Rússia, apesar de uma população com muito bom nível educacional, continua dependente de setores de commodities para o crescimento econômico.

É mais difícil entender por que a Índia exibe um desempenho tão inferior a seu potencial. Com efeito, o crescimento do PIB anual indiano caiu cinco pontos percentuais desde 2010. Para um país tão pobre, nem seria preciso fazer alguma força para crescer. Trata-se, principalmente, de disponibilizar bens públicos: infraestrutura básica, como estradas, pontes, portos e energia, bem como acesso a educação e serviços básicos de saúde. E, diferentemente de muitos países igualmente pobres, a Índia já tem uma classe empresarial muito forte, uma classe média razoavelmente grande e bem educada, e um número de empresas de classe mundial que pode ser engajada no esforço de fornecimento desses bens públicos.

As famílias indianas passaram a investir em ouro, o que contribuiu para um enorme déficit em conta corrente. Isso esfriou o entusiasmo dos investidores estrangeiros pela história de êxito da Índia, tendo a rúpia caído significativamente nas últimas semanas.

Quando a Índia acabou com o estupidificante "Reino da Burocracia" na década de 1990, sucessivos governos compreenderam o imperativo do crescimento econômico, tanto foi assim que o Bharatiya Janata Party (BJP) disputou a eleição de 2004 com uma plataforma pró-desenvolvimento, encapsulado no slogan, "Índia Radiante". Mas a coalizão liderada pelo BJP perdeu a eleição. Se o fracasso foi reflexo da escolha do parceiro de coligação pelo BJP ou sua ênfase em crescimento quando muitos indianos não se beneficiaram com isso, a lição que ficou foi de que o crescimento não rende recompensas eleitorais.

De todo modo, aquela eleição mostrou que era necessário disseminar os benefícios do crescimento nas áreas rurais e entre os pobres. Há duas maneiras de fazer isso. A primeira, mais difícil e demorada, reside em aumentar a capacidade de geração de renda nas áreas rurais e entre os pobres, melhorando o acesso à educação, saúde, finanças, água e energia. A segunda é ampliar o poder de compra dos eleitores por meio de subsídios e transferências populistas, que normalmente tendem a ser direcionados para os politicamente influentes, em vez de ir para os necessitados.

Nos anos que se seguiram à derrota do BJP, com poucas e notáveis exceções, a classe política indiana decidiu que o populismo tradicional era uma rota mais segura para reeleger-se. Essa percepção também ajustava-se bem à baixa expectativa do eleitor mediano (geralmente pobre) em relação ao governo na Índia - encarando-o mais como fonte de dádivas esporádicas e não como prestador de serviços públicos de confiança.

Durante alguns anos, o impulso criado pelas reformas anteriores e o forte crescimento mundial levaram a Índia adiante. Os políticos viram pouca necessidade de votar novas reformas, especialmente aquelas que perturbariam os poderosos interesses estabelecidos. A guinada rumo ao populismo foi reforçada quando o Congresso, liderado pela Aliança Progressista Unida, concluiu que um esquema de garantia de emprego rural e um perdão a dívidas contraídas em empréstimos agrícolas de caráter populista contribuiu para sua vitória nas urnas na eleição de 2009.

Mas, enquanto os políticos gastavam os dividendos do crescimento em concessões mal focadas, como subsídios à gasolina e ao gás de cozinha, as necessidades de novas reformas só aumentaram. Por exemplo, a industrialização exige um sistema transparente de aquisição de terras pertencentes a agricultores e aos povos indígenas, o que por sua vez pressupõe a existência de registos de propriedade de terras muito melhores do que os existem realmente na Índia.

Como a demanda por terra, os preços cresceram, a corrupção tornou-se galopante, e alguns políticos, industriais e burocratas aproveitaram a ausência de transparência na documentação de propriedade e no zoneamento de terras para desviar bens. As elites corruptas indianas, que antes controlava a emissão de certificados de propriedade, passou a especular novos recursos valiosos, como a terra. O Reino dos Recursos Naturais surgiu das cinzas do Reino da Burocracia.

A sociedade indiana finalmente reagiu. Um eclético elenco de idealistas e ONGs mobilizou a sociedade contra as compras de terras. Depois que jornalistas investigativos passaram a cobrir os fatos, a aquisição de terras tornou-se uma mina terrestre política.

Além disso, instituições cruciais como a Controladoria e Auditoria Geral e o judiciário, formados por uma classe média cada vez mais indignada, também iniciou investigações. Com o surgimento de evidências de corrupção generalizada em contratos e alocação de recursos, ministros, burocratas e altos executivos empresariais foram presos e alguns passaram longos períodos na prisão.

O efeito colateral, porém, é que mesmo funcionários honestos agora estão muito amedrontados e evitam ajudar as empresas a navegar o labirinto burocrático indiano. Em consequência, houve uma paralisação no desenvolvimento de projetos industriais, de mineração e infraestrutura.

Gastos governamentais populistas e a incapacidade do lado da oferta, na economia, de manter seu ritmo, produziram uma inflação elevada, ao passo que as famílias indianas, preocupadas porque nenhum ativo parecia seguro, passaram a investir em ouro. Como a própria Índia não produz muito ouro, essas compras têm contribuído para um déficit em conta corrente anormalmente grande. Não foi necessário muito mais do que isso para esfriar o entusiasmo dos investidores estrangeiros pela história de êxito da Índia, tendo a rúpia caído significativamente nas últimas semanas.

Tal como acontece em outros grandes mercados emergentes, o destino da Índia está em suas próprias mãos. Tempos difíceis tendem a concentrar as mentes. Se os políticos puderem dar alguns passos para mostrar que são capazes de deixar de lado seus estreitos interesses partidários para estabelecer o governo mais transparente e eficiente necessário a um país de renda média, eles poderiam reenergizar rapidamente os enormes motores indianos de crescimento potencial. Caso contrário, a juventude indiana, frustradas suas esperanças e ambições, poderá decidir tomar a questão em suas próprias mãos. (Tradução de Sergio Blum).

Guerra fiscal e ineficiência - ANDREA CALABI


O GLOBO - 18/06

Os benefícios fiscais concedidos pelos Estados para atrair investimentos privados nas últimas décadas alimentam uma prática política limitada e distorcida de desenvolvimento regional. A definição de uma política nacional, estruturada para dar maior eficiência ao capital e consequentemente às atividades dos Estados, evitaria que as unidades da Federação optassem por essa conflituosa disputa, que está longe de resultar em ganho líquido para o país.

São robustos os estudos econômicos que questionam os efeitos, do ponto de vista nacional, da política de concessão de incentivos estaduais, principalmente baseada no ICMS. Há questões como logística e pressão por investimentos em infraestrutura e serviços públicos, que não são triviais.

O debate se desvirtuou e agora o foco está direcionado a uma questão que se distancia ainda mais da solução do problema. O recente capítulo dessa batalha é a discussão sobre as regras de deliberação do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) para regular a forma como serão concedidas isenções, incentivos e benefícios fiscais ao ICMS.

É importante lembrar o motivo pelo qual os legisladores instituíram a atual regra, isto é, a necessária unanimidade do quorum para beneficiar determinado investimento com menor taxação de ICMS. A unanimidade é um elemento constitutivo que preserva os direitos de um contra um possível “ataque da maioria”.

Justamente por se tratar de uma Federação, o princípio maior da autonomia — aqui retratado sob o prisma da defesa de sua receita tributária — foi preservado e valorizado. E, recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) referendou esse princípio ao declarar a inconstitucionalidade de leis estaduais que concederam incentivos fiscais sem a validação do Confaz.

Antes, porém, de detalhar esse tema, é relevante contextualizar o papel do ICMS nas contas dos Estados. Ele é o oxigênio do administrador estadual para implementar as políticas públicas. Isso quer dizer que ele sustenta grande parte das despesas da maioria dos Estados para atender as demandas dos cidadãos. Em 1995, o ICMS representava 66% das receitas correntes dos Estados, e, ao longo dos anos, ele perdeu sua participação, chegando em 2010 a 55% do total, reflexo da disputa entre os Estados, que gerou menor arrecadação geral. No caso se São Paulo, esse peso é ainda maior devido ao alto nível de industrialização. Em 2011, o ICMS representou 70% da receita corrente.

Se considerarmos o peso desse imposto em relação às receitas próprias, fica ainda mais clara a sua importância. Em 2010, ele representava 81,6% da arrecadação própria dos Estados.

Para evitar um ataque prejudicial aos orçamentos estaduais, a legislação proibiu a decisão unilateral de conceder o benefício e estimulou o princípio da colaboração, no qual é preciso avaliar o impacto da proposta de um Estado nas contas dos demais. Essa análise é necessária porque o regime de alíquotas interestaduais implica a geração de um crédito, que será pago pelo Estado que receber mercadorias de projetos incentivados fora de sua região. Na prática, ele é obrigado a honrar um crédito originado na produção em outro Estado.

Por isso, a necessidade de deliberação unânime nas decisões no Confaz, para que os Estados possam se manifestar sobre os benefícios que incentivem projetos que interfiram na sua gestão fiscal. Caso contrário, o cenário instalado será uma verdadeira intervenção nas contas alheias, o que se configuraria, aí sim, em um cenário extremo, quase uma guerra civil.

Sucateamento da Polícia Federal - MARCOS LEÔNCIO SOUSA RIBEIRO

FOLHA DE SP - 18/06


O governo limita nossa ação. O Congresso não prioriza leis contra a lavagem de dinheiro. Temos menos gratificações e cargos de chefia que a Funai


Combater o crime organizado e a corrupção não têm sido os únicos desafios diários na Polícia Federal.

Para vencer a criminalidade, antes é preciso driblar os cortes no orçamento, a falta de pessoal, a capacidade operacional reduzida e a indefinição de postos estratégicos na administração.

Do jeito que as coisas andam, parece milagre a PF ainda conseguir realizar operações de vulto como Vegas e Monte Carlo. Certamente, isso só tem sido possível graças à determinação e ao comprometimento daqueles que, mesmo com as dificuldades, não abrem mão da missão de ser policial federal.

Para concluir as investigações que culminaram com a prisão do bicheiro Carlinhos Cachoeira, os policiais federais se desdobraram em jornadas de trabalho que chegavam a 15 horas diárias, de segunda a segunda. Por falta de pessoal, o mesmo policial que trabalhava no monitoramento telefônico também tinha que ir a campo fazer diligências.

Houve policial que teve seu filho nascendo durante a operação e não pode se ausentar um dia sequer. Esse é um retrato da Polícia Federal que o Brasil desconhece e que o governo finge não ver.

E a situação tende a piorar. O governo determinou que todas as diárias sejam submetidas à autorização prévia. Inclusive exigiu explicações da Polícia Federal, pois o órgão teria extrapolado o limite imposto.

Ora, tais limitações são impraticáveis. O pagamento das diárias é o que viabiliza o deslocamento dos policiais federais para a realização das operações. Se continuar assim, a Polícia Federal acabará fechando as portas para balanço.

Aliás, a omissão do Ministério da Justiça, que deveria defender a PF junto ao governo, tem provocado efeitos desastrosos.

Além de não garantir os investimentos mínimos necessários para a realização das operações policiais, defesa das fronteiras e segurança nos grandes eventos, desde 2009 nenhum projeto estratégico para o órgão mereceu atenção.

No Congresso, não foram priorizados os projetos legislativos de reforma do Código de Processo Penal, de combate ao crime organizado, de lavagem de dinheiro e a Projeto de Lei Orgânica da Polícia Federal, fundamentais para nós.

No meio disso tudo, uma pergunta parece inevitável: a quem interessa o sucateamento da PF e a desmotivação dos policiais?

Temos salários inferiores ao das polícias legislativas do Senado e Câmara e das polícias civis de vários Estados. Nossa gratificação de chefia é dez vezes menor do que a Polícia Civil do Distrito Federal. Temos menos gratificações e chefias do que a Funai.

Além disso, falta uma estrutura administrativa adequada, não há reposição salarial da inflação e há a demora na implantação de benefícios para os policiais lotados nas fronteiras. Com tudo isso e com a iniciativa legislativa de esvaziamento da aposentadoria policial, a PF ruma para um quadro de descontentamento generalizado.

As consequências são imprevisíveis, mas de antemão a criminalidade agradece.

A Polícia Federal, patrimônio do Brasil, está ameaçada. Um patrimônio que precisa ser valorizado e reconhecido pelos governantes e pelo Estado brasileiro, para manter o padrão de qualidade duramente conquistado e continuar promovendo a prevenção e a repressão qualificada ao crime organizado e à corrupção.

Que o governo reconheça o que o povo brasileiro atento já o fez: a Polícia Federal é um patrimônio de todos nós.

Chegando a hora - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 18/06


Quem ainda tem dúvidas sobre a verdadeira natureza da relação do contraventor Carlinhos Cachoeira, preso sob a acusação de explorar jogos ilegais, com o senador Demóstenes Torres (GO)? Os dois eram amigos, por suposto. Mas as centenas de ligações telefônicas grampeadas pela Polícia Federal mostram que além de amigos também eram sócios.

A cozinha dada de presente por Cachoeira a Demóstenes foi coisa de amigo. Demóstenes acabara de se casar.

Mas o Nextel que Demóstenes ganhou de Cachoeira foi coisa de bandido.

Cachoeira supôs que o aparelho era à prova de grampo. Distribuiu uma dezena para pessoas que o ajudavam a fazer negócios.

Demóstenes era uma delas.

Logo que ruiu sua imagem de exemplar servidor da ética, ninguém dentro do Congresso apostava uma nota de três reais no futuro de Demóstenes. Hoje, o Conselho de Ética do Senado aprovará o relatório que recomenda a cassação do mandato dele. Em seguida, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado avalizará o resultado.

Se tudo correr como o previsto, os 81 senadores (inclusive Demóstenes) se reunirão, no próximo dia 18, para confirmar ou desautorizar o que o Conselho de Ética decidiu. É aí que mora o perigo. O voto no Conselho é aberto. No plenário é secreto. Quem condenar Demóstenes no Conselho poderá absolvê-lo no plenário sem se expor.

E por que a maioria dos senadores fecharia os olhos às evidências de que Demóstenes feriu o decoro parlamentar? Ora, até Luana, minha neta de 4 anos, responderia sem gastar dois neurônios: porque estão pouco se lixando para decoro. Procedem como Demóstenes ou até pior.

Não têm biografias, mas prontuários.

A chantagem é um instrumento afiado, perigoso. Políticos costumam conhecer os malfeitos praticados pelos colegas. Por curiosidade, trocam confidências a respeito. Aprendem uns com os outros. Aperfeiçoam as técnicas de se dar. E bebem em fontes comuns de financiamento de despesas de campanha.

Se um deles correr o risco de ser decapitado pelos demais, apelará para a chantagem se não lhe restar outra saída. Assim, Renan Calheiros salvou seu mandato ao se tornar público que o lobista de uma empreiteira pagava despesas de sua examante com quem ele tem um filho. Na história de 188 anos do Senado, somente um senador foi cassado.

A política virou um meio seguro e eficiente de enriquecimento ilícito. A desqualificação do Congresso pegou velocidade.

Cito de memória presidentes recentes do Senado que renunciaram ao cargo ou ao mandato para não ser cassados: Jader Barbalho (PA), Antonio Carlos Magalhães (BA) e Renan Calheiros (AL). Esqueci algum?

Severino Cavalcanti presidiu a Câmara em 2005. Foi obrigado a renunciar à presidência e ao mandato porque se ficou sabendo que embolsava um mensalinho de R$ 10 mil pago pelo concessionário de um dos restaurantes da Câmara.

João Paulo Cunha, que antecedeu a Severino no cargo, está para ser julgado como um dos 38 réus do mensalão.

Políticos dão a impressão de ser poderosos. E há os que de fato o são até que surja um conhecedor dos seus segredos disposto a revelá-los.

Um motorista, um caseiro, uma mulher agastada - qualquer um serve. Quanto mais humilde for, maior o estrago que suas revelações poderão produzir. Quanto a quem detém de fato poder...

Essa gente não revela segredos nem quando passa aperto.

Vale pelo que sabe, mas não conta. Marcos Valério, um dos cérebros do mensalão do PT, por exemplo, nada contou. Uma vez insinuou que contaria. Lula então tomou um porre e falou em renúncia.

Valério acabou socorrido pelos que temeram suas inconfidências.

O socorro a Valério foi financeiro.

Fernando Cavendish, dono da empreiteira Delta, não quer dinheiro, mas proteção.

Com a autoridade de quem admitia gastar R$ 6 milhões com um senador ou R$ 30 milhões para descolar um bom negócio, cobra proteção a seus amigos infiltrados na CPI do Cachoeira. Está sendo protegido até o momento.

TARTARUGA VAI LONGE - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 18/06

O governo brasileiro conseguiu pela primeira vez repatriar um patrimônio ambiental e histórico do país. É o fóssil de uma tartaruga de 20 centímetros que foi retirado da Chapada do Araripe, no Ceará, geoparque reconhecido pela Unesco. O animal foi encontrado no outro lado do planeta: Japão.

BAÚ BRASILEIRO

O geoparque cearense é um dos 37 que existem no mundo. Nele estão mais de um terço de todos os pterossauros (répteis alados) descritos no planeta e mais de 20 ordens diferentes de insetos fossilizados, com idade estimada entre 70 milhões e 120 milhões de anos.

DE VOLTA

Em geral, casos de repatriação envolvem recursos financeiros. Em outro episódio em que a Secretaria Nacional de Justiça, do Ministério da Justiça, conseguiu trazer ativos de volta ao Brasil, e não dinheiro, foram recuperadas obras de arte do Banco Santos.

EM CASA

O prefeito Gilberto Kassab (PSD-SP) visitou José Dirceu recentemente em SP.

O encontro foi no apartamento do petista, no bairro Vila Mariana.

EM CASA 2

Kassab, que também visitou o ex-presidente Lula há alguns dias, está liderando alianças de seu partido, o PSD, com o PT em várias cidades do país. "Ele só não fechou conosco em lugares em que isso era impossível", diz um dirigente petista.

EM CASA 3

Nas conversas com Lula e o PT, Kassab repete informação que já deu a mais de um interlocutor. Pelas pesquisas qualitativas às quais já teve acesso, ele acredita que Fernando Haddad (PT-SP), adversário de José Serra (PSDB-SP) na eleição, chegará em agosto a um patamar de 15% a 18% das intenções de voto.

DIVINO DIVÃ

O centro universitário UDF, do grupo Cruzeiro do Sul, em Brasília, estuda implantar um curso de pós-graduação em psicologia cristã. A iniciativa bate de frente com o código de ética dos psicólogos. "A associação entre profissão e crença é contrária à própria concepção de psicologia", diz o presidente do Conselho Federal da categoria, Humberto Verona. O objetivo da instituição seria "acadêmico", afirma o coordenador da pós, Marcos Espindola.

DIVINO DIVÃ 2

O advogado Paulo Fernando Melo, professor no UDF, faz o planejamento do curso e não descarta convidar Marisa Lobo para dar aula. Ela é investigada pelo conselho do Paraná por se apresentar como "psicóloga cristã". Melo advoga para a psicóloga evangélica Rozângela Justino, repreendida em 2009 pelo conselho federal por oferecer auxílio para mudar a orientação sexual de gays.

QUESTÃO DE ELEGÂNCIA

O estilista Reinaldo Lourenço apresentou sua coleção de verão na São Paulo Fashion Week, na sexta, na Faap, em Higienópolis. Entre as convidadas, a empresária Maythe Birman. Já o desfile de Gloria Coelho, que teve na passarela as modelos Paula Mulazzani e Alicia Kuczman, aconteceu na Bienal do Ibirapuera. A socialite Carolina Andraus Miranda estava na primeira fila.

BATUTA

João Carlos Martins e Nasari Campos regeram o concerto da Orquestra Filarmônica dos Médicos do Hospital Albert Einstein. O presidente do hospital, Claudio Lottenberg, estava na plateia.

PARA POUCOS

A banda australiana Tame Impala fará show em SP em agosto. Ela se apresentará na festa "Mixtape Multishow", para convidados.

FORA DE MODA

A moda ainda não emplacou na Lei Rouanet. O Ministério da Cultura regulamentou, em dezembro, a captação de incentivos fiscais para o setor. Desde então, registrou a inscrição de sete projetos. Aprovou cinco.

FALE COM ELES

O Instituto Cervantes fará testes de nível de espanhol e concurso de bolsas de estudos para o público que participar do Dia do Espanhol. O evento celebra a presença da cultura hispânica em SP e é realizado no mesmo dia em outras 78 cidades do mundo. A festa, no dia 23, terá atrações infantis e shows na av. Paulista. Das 10h às 21h.

PELA GRAÇA
Após atuar sozinho na peça "Minha Mãe É uma Peça", Paulo Gustavo está em cartaz até o dia 27 com o espetáculo de humor stand-up "Hiperativo", sobre escolhas e medo de avião, no Teatro Frei Caneca. Ele faz solo com uma série de personagens "sem trocar de roupa nem usar maquiagem".

No palco, Paulo brinca com sua vida afetiva: "Quando saio com os amigos bonitos, tenho que esperar eles pegarem alguém para poder pegar a rebarba. Conquisto mais pelo humor do que pela beleza".

CURTO-CIRCUITO

Rafinha Bastos é o DJ convidado na festa "Nervosa", hoje, no clube Caravaggio, no centro, às 22h. 18.

O cantor Pélico se apresenta hoje no Festival Esporte Clube Lira Contemporânea, em Pinheiros, às 23h. Classificação: 18 anos.

O livro "Dignidade", sobre o trabalho da ONG Médicos Sem Fronteiras, terá lançamento hoje, no Teatro Eva Herz, às 19h.

A loja Fotospot faz hoje coquetel de inauguração, no shopping Iguatemi.

Maurice Strong, mentor da ECO-92, participa de reza coletiva para que as decisões na Rio+20 saiam do papel. Na Aldeia Nova Terra, na quarta, no Rio.

com ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, LÍGIA MESQUITA e OLÍVIA FLORÊNCIA

Os planos da Petrobrás - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 18/06


Mesmo com metas mais realistas para a produção de petróleo nos próximos anos, o Plano de Negócios 2012-2016 que acaba de ser aprovado pelo Conselho de Administração da Petrobrás prevê investimentos de US$ 236,5 bilhões para o período, valor 5,25% maior do que o total aprovado para o período 2011-2015. Desse modo, a empresa parece ter atendido, ainda que parcialmente, aos apelos cada vez mais insistentes do governo a todo o setor empresarial para que eleve os investimentos, para evitar que a crise mundial afete ainda mais o desempenho da economia brasileira.

O novo plano reforça a ênfase, já nítida nas programações anteriores, nas atividades de exploração e produção, das quais se destacam os investimentos no pré-sal. É preocupante, no entanto, que, apesar da previsão do aumento nos investimentos totais, numa área essencial para a geração de recursos necessários à expansão contínua das atividades da empresa, a de Abastecimento e Refino, os investimentos sejam menores do que os incluídos no plano quinquenal aprovado no ano passado.

A redução não é apenas porcentual (os investimentos em refino e abastecimento correspondiam a 31% no plano de negócios aprovado em 2011 e, no atual, respondem por 27,7%). Haverá também corte em valores: para o quinquênio 2011-2015, a previsão era de investimentos de US$ 70,6 bilhões; no plano para o período 2012-2016, o valor caiu para US$ 65,5 bilhões, com redução de US$ 5,1 bilhões.

Ao contrário da redução das metas de produção de óleo e gás para os próximos anos, esta não pode ser atribuída a maior realismo da administração da Petrobrás. Embora membros de sua diretoria tenham evitado tratar abertamente do problema, a empresa vem enfrentando dificuldades financeiras em razão de alguma defasagem dos preços dos combustíveis e da valorização do dólar, visto que a empresa importa parte do combustível que vende no mercado doméstico. Compra o produto a preços do mercado mundial, paga em dólares, agora mais caros, mas vende em reais, a preço fixado pelo governo. Isso ajuda no combate à inflação, mas impõe custos à Petrobrás.

Maior eficiência operacional - agora incluída entre as metas do que sua direção chama de "programas estruturantes" necessários à execução do plano para os próximos cinco anos - reduziria a necessidade de reajuste dos preços ao consumidor. Mas o melhor caminho para evitar novas dificuldades financeiras é o aumento da capacidade de refino da empresa. A redução de investimentos nessa área tende a manter a dependência da Petrobrás a fornecedores externos e às oscilações do mercado internacional.

A exploração e a produção, que vinham sendo prioridade da Petrobrás desde a gestão anterior, dirigida por José Sérgio Gabrielli, tornaram-se ainda mais importantes na gestão de Maria das Graças Foster. A área foi contemplada com 57% dos investimentos quinquenais aprovados no ano passado e, com o novo plano para 2012-2016, passará a receber 60% do total, o que equivale a US$ 141,8 bilhões. Desse valor, 51% serão investidos no pré-sal.

A despeito do aumento dos investimentos em exploração e produção, em termos porcentuais e em valores, as metas de produção para os próximos anos são mais modestas do que as aprovadas no ano passado. São conhecidas as dificuldades no fornecimento das plataformas, que têm gerado atrasos na entrega e revisão de preços. Além disso, campos considerados maduros na Bacia de Campos produzem menos. Tudo isso, além da dificuldade previsível na gestão de um programa de investimentos como o da Petrobrás, o maior do mundo no setor, pode ter contribuído para instilar realismo na diretoria da estatal.

A Petrobrás não conseguiu alcançar a produção de 2,1 milhões de barris diários de petróleo no ano passado (a média ficou em 2,02 milhões) e, para este ano e o próximo, mantém a mesma meta de 2011. Em 2016, ela espera produzir 3,3 milhões de barris de óleo equivalente (boe) por dia, um volume 17% menor do que a produção de 3,99 milhões de boe prevista para 2015. Também a previsão para 2020 foi reduzida, de 6,4 milhões para 5,7 milhões de boe/dia, ou 11% menos.

Rio+20 (+3) - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 18/06


Com muita festa e boas intenções, reunião de poucos resultados deve deixar para 2015 o detalhamento de metas ambientais


A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, mais conhecida como Rio+20, foi aberta na semana passada com o esboço de um fracasso.

Não que se esperasse grande coisa dessa nova Cúpula da Terra, que tenta repetir os feitos da primeira, 20 anos atrás, a Eco-92 (ou Rio-92). Naquela oportunidade adotaram-se duas convenções (tratados) em que as nações se comprometiam a cuidar de duas ameaças ao ambiente global: mudança do clima e destruição da biodiversidade.

Nada de parecido surgirá no Rio desta vez. A fase de negociações diplomáticas sobre a declaração final da reunião terminou sem consenso; decisões, só a partir de quarta-feira, com os chefes de Estado.

Como de hábito em encontros multilaterais sobre ambiente, houve até aqui festa, exotismo, muitas boas intenções e pouco resultado. A falta de consenso entre delegações oficiais decorre dos mesmos impasses que travam a arrastada negociação sobre clima desde o Protocolo de Kyoto (1997).

O ponto nevrálgico, como sempre, é dinheiro. Países pobres e emergentes, reunidos sob o guarda-chuva puído do G-77, lançaram com estrondo sobre a mesa a proposta irrealista de um fundo de US$ 30 bilhões para o ambiente global, a cargo dos países ricos.

Foi, obviamente, recusado. Nenhum governo, da Europa aos Estados Unidos e ao Japão, em meio à grave crise econômico-financeira, tem condições políticas de justificar um gasto desse tipo perante os respectivos eleitores.

Ao contrário: se dependesse deles, seria arquivado o princípio oriundo da Eco-92 que fala em "responsabilidades comuns, mas diferenciadas": nações desenvolvidas enriqueceram e se beneficiaram antes com a deterioração do ambiente global; é justo que paguem mais por sua remediação.

Essa dicotomia entre "ricos" e "pobres", no entanto, já não faz tanto sentido, 20 anos depois. China, Índia e Brasil, pelo menos, tornaram-se países de renda média e seu desenvolvimento industrial contribui de modo significativo para ameaças como o aquecimento global. Insistir no prisma do conflito Norte-Sul não leva a lugar algum.

A Rio+20 já daria um grande passo se conseguisse produzir um elenco curto de metas ambientais voluntárias, cujo cumprimento, país a país e no seu conjunto, pudesse ser monitorado. Seriam objetivos como aumentar a participação de fontes renováveis na matriz energética mundial, reduzir as taxas de desmatamento e criar áreas de proteção do ambiente marinho.

A decisão de adotá-las pode até ser tomada no Rio, mas não serão detalhadas. Isso ficaria para 2015 -ou mais três anos de impasses.

Limite moral do mercado - LÚCIA GUIMARÂES


O Estado de S.Paulo - 18/06


NOVA YORK - O mercado é amoral, dirá o leitor, já se opondo ao título da coluna. Concordo e explico: trata-se do subtítulo do novo livro de Michael Sandel, o professor de filosofia de Harvard, responsável pela série Justiça, que se tornou um dos cursos mais frequentados da história da Universidade.

What Money Can't Buy: The Moral Limits of Markets (O Que o Dinheiro não Pode Comprar: Os Limites Morais dos Mercados) se tornou o mais popular entre uma safra de livros inspirados pelo crash de 2008 e a contração da economia mundial. O choque da farra financeira e suas consequências provocaram o que um comentarista comparou à traição no casamento. O colapso do comunismo havia selado uma era de celebração da sabedoria ilimitada do mercado que, por sua vez, passou a bloquear qualquer julgamento moral sobre a "securitização" de tudo. Sandel está longe de ser um esquerdista ou um crítico do capitalismo. Ele alerta que não foi uma explosão assintomática de ambição a responsável pela crise financeira. A mudança começou há 30 anos com o triunfalismo do mercado. Nós partimos de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado. A economia de mercado é uma ferramenta de produtividade. A sociedade de mercado é um mundo onde tudo está à venda.

O livro começa, não com a defesa do argumento do autor, mas com uma lista às vezes obscena do que o dinheiro pode, de fato, comprar. Alguns exemplos:

Um detento pode comprar, por US$ 82, um upgrade para uma cela com mordomias na prisão de Santa Ana, na Califórnia. A moda começa a se espalhar por outras cidades.

Alugue uma parte do seu corpo para publicidade. A companhia aérea Air New Zealand contratou 30 pessoas para rapar a cabeça e aplicar uma tatuagem temporária com publicidade. Mas Kari Smith, mãe solteira do Estado de Utah, estava tão desesperada para pagar a educação do filho que leiloou online uma tatuagem permanente por US$ 10 mil. Um cassino gostou da oferta e a testa da mulher exibe o endereço do website do cassino.

Compre com desconto a apólice de seguro de vida de um idoso e recolha o pagamento após a morte. A indústria que aposta na vida de estranhos prosperou no começo da epidemia da aids, quando doentes terminais não conseguiam pagar o custo astronômico do tratamento médico. Hoje, os chamados "Bônus da Morte" movimentam anualmente mais de US$ 30 bilhões nos Estados Unidos.

Por US$ 15 a hora, uma empresa contrata homeless para fazer fila no Capitólio. Eles cedem lugar aos lobistas que querem lotar os assentos das audiências legislativas.

O negócio de furar fila é cada vez mais lucrativo. Nesta segunda-feira, a Delacorte Theater, aquela arena ao ar livre do Central Park, construída para a série Shakespeare in the Park, faz 50 anos. O criador visionário da série, Joseph Papp, morreu em 1991 sem assistir à violação do princípio que o fez enfrentar poderosos caciques políticos de Nova York na década de 60: Shakespeare no Parque seria sempre grátis. Oficialmente continua a ser - 70% dos ingressos são grátis, 30% vão para os convidados de patrocinadores corporativos. Mas, quando Al Pacino viveu o Shylock do Mercador de Veneza, em 2010, havia gente pagando até US$ 200 para alguém passar a noite na fila. É ilegal? Não. Se você entra no website do festival, antes de descobrir o horário das produções, vai ser convidado a se tornar um membro pagante do Public Theater e a lista de benefícios começa com: "Fure a fila, encomende os ingressos antes de eles serem oferecidos ao público".

Sandel lembra que mais empregados de empresas privadas participaram das ocupações do Iraque e do Afeganistão do que soldados americanos. O debate sobre a terceirização da guerra não existiu. A inércia transfere para o mercado as decisões. E como o mercado não faz julgamento ético, a decisão é amoral.

Essa forma de "precificação" de todas as áreas da nossa vida tem consequências graves, escreve Michael Sandel. Ele deixa claro: não acredita que a democracia exige a igualdade perfeita. Mas a democracia exige que esbarremos uns nos outros. A sociedade de mercado segregou os americanos a tal ponto que eles vivem vidas paralelas, nunca se encontram. Quanto mais o dinheiro invade áreas como saúde, educação e política, maior é a segregação. A extinção progressiva da experiência comum, diz o autor, é o perigo para a democracia.

E ele conclui com a pergunta: Nós queremos viver com bens cívicos independentes do mercado? Se a resposta é "sim", então, precisamos decidir o que o dinheiro não pode comprar.

As coisas podem piorar, e daí? - GUSTAVO CERBASI

FOLHA DE SP - 18/06


Não entre em pânico. Crises são previsíveis. Aliás, são necessárias, para corrigir os exageros na euforia


Escrevi este artigo antes de saber do resultado das eleições na Grécia. Não fui, portanto, influenciado pelo humor de mercado, por análises catastróficas ou pelas imagens de clientes enfileirados nas portas de bancos gregos na esperança de sacar seus últimos euros. Ou, talvez, nada disso aconteça -e o euro continue vigorando na Grécia. Os próximos dias dirão.

O fato é que as coisas podem piorar. Se você tem ações na Bolsa, elas podem cair por causa da possível correria de investidores estrangeiros para se desfazer de papéis brasileiros. O mesmo vale para fundos de ações, fundos multimercado, planos de previdência compostos e qualquer outro investimento cuja estratégia confia na renda variável.

Sua viagem para a Disney pode ficar mais cara, devido a uma possível alta do dólar, decorrente da possível fuga de capitais de países emergentes. Imóveis podem se desvalorizar por um possível esfriamento da economia.

Pergunto-me: e daí? Você vai entrar em pânico? Não deveria. Crises são previsíveis. Aliás, são necessárias, para corrigir exageros na euforia. Toda economia funciona em ciclos, alternando momentos de alívio e alegria com momentos de apreensão e recessão. Deveríamos estar, de certa forma, preparados para crises. Afinal, não sabemos quando, mas é certo que acontecerão.

Já passamos por isso antes. Talvez você já tenha se esquecido do temor em relação às consequências da votação de 2002, que elegeu Lula presidente. As pesquisas diziam que subiria ao poder a temerosa e radical esquerda, que se opunha a qualquer causa governista, que iria acabar com o Plano Real, tomar o patrimônio privado, acabar com as empresas, colocar o bode na sala e comer as criancinhas. Ao menos, essa era a imagem que passava a ala mais apavorada do mercado.

As coisas poderiam piorar muito em 2002. Mas não aconteceu. Reinou o bom senso. Trapalhadas e corrupções à parte, como acontece em qualquer governo, Lula assumiu e, simplesmente, governou. Independentemente de quem foi eleito na Grécia, é bom lembrar que valeu a escolha da maioria. Os eleitos irão governar para essa maioria, a despeito de trapalhadas e corrupções que também acontecem por lá.

Se a crise nos mercados financeiros se agravar, será motivada principalmente pelos apavorados especuladores, que querem resultados rápidos. As coisas podem piorar para cada um de nós. Os importados podem ficar mais caros, a mala de compras nos EUA deve voltar mais leve, empregos podem estar em risco, investir pode passar a ser mais trabalhoso nos próximos meses.

Pergunto: você não se preparou para a crise? Não criou reservas para emergências, caso sua empregabilidade não seja das melhores?

Falta aos brasileiros a capacidade de planejar o fracasso. Todos deveríamos ter um plano B, para lidar com as prováveis viradas de cenário. Não deveríamos concentrar demais investimentos na renda variável. Afinal, o que nos enriquece é saber ter liquidez -dinheiro investido em renda fixa- quando surgem as oportunidades de comprar barato, como nas crises.

O dólar subiu e a viagem ficou inviável? Por que você não garantiu a viagem antes, se queria mesmo viajar? Por que ainda não tem planos para uma viagem em reais, para a possibilidade de o dólar subir? Altas e baixas no dólar são a regra, não a exceção.

A crise na Grécia pode fazer as coisas piorarem, sim. Mas não exagere no medo. Mudanças econômicas influenciam menos as famílias do que imprevistos cotidianos. Se, ao sair para jantar com amigos você for convidado para ser padrinho de casamento, suas finanças podem se desequilibrar bem mais do que pela alta do dólar. E ainda não está preparado para isso? Qual o tamanho de sua reserva emergencial?

Tenha em mente o comportamento cíclico da economia. A Grécia é o berço da intelectualidade, não a cova do mundo. Se a fuga de capitais for muito grande, o governo vai ampliar pacotes de estímulo para a indústria. Se o dólar subir demais, os tributos sobre saída de capital podem ser relaxados. Se a inflação subir, a Selic pode virar, e a antiga regra da poupança voltar a valer.

A bonança voltará, só não sabemos quando. Você estará preparado para isso?

As eleições do euro - LLUÍS BASSETS


O GLOBO - 18/06

A pressão sobre Merkel continuará e vai se intensificar. Hoje (ontem), isto será visto na cúpula do G-20 em Los Cabos, onde serão lidos os resultados eleitorais do segundo turno para a Assembleia Legislativa na França e da repetição das gerais na Grécia. São bons para o euro e para a estabilidade europeia, mas não o são exatamente para a imperturbável imobilidade da chanceler.

Embora ambos os resultados pressionem Merkel, existem algumas leituras em direções opostas. Os franceses têm rejeitado os extremos e dado a seus dois grandes partidos de centro o grosso da Assembleia Nacional. Os gregos mantêm altos índices de austeridade fiscal para que se façam políticas de crescimento. Na Grécia, o voto apoia o resgate e o rigor do pacto fiscal. Mas a oposição francesa é pró-europeia e favorável ao rigor, enquanto a grega exige a renegociação total do resgate e de suas políticas de rigor.

Este domingo não foi o do armagedom europeu. Um resultado incerto na Grécia, sem uma maioria clara, conduzia a uma leitura contra o euro e pelo fim da União Europeia. Também a França poderia contribuir com a desordem política, como seria o caso se das eleições legislativas saísse uma maioria da direita derrotada nas votações presidenciais e um governo de coabitação. Por fim, os gregos querem seguir na Europa, e os franceses preferem pôr todos os ovos no cesto socialista, marcando uma mudança de direção que pode se estender a outros países. É possível que dirigentes conservadores alemães tenham se frustrado: nem Hollande sai enfraquecido, nem a Grécia é expulsa da Europa.

Nada foi pelos ares nesta jornada dramática, acompanhada por toda a Europa. Por enquanto, não haverá corrida aos bancos, como se temia nesta segunda-feira pós-eleição. Da mesma forma, ninguém sairá da zona do euro no momento, e esperamos que nunca se ponha em circulação de novo alguma das velhas moedas desaparecidas, como a dracma.

O momento oferece também lições: deve-se atentar ao crescimento dos extremistas gregos, algo que as pesquisas começam a detectar também na Espanha. O caso da França nos diz que a social-democracia está viva, e tem novas oportunidades. Na Grécia, vemos o que acontece com o extremo rigor, a falta de educação política, a corrupção, os erros dos dirigentes e o desprestígio dos partidos tradicionais.

Economia verde: afinal, de que se trata? - PAULO HADDAD


O ESTADÃO - 18/06
Nas últimas semanas, em função da Rio+20, um dos conceitos mais comentados pelos meios de comunicação é o de economia verde. A experiência mostra que, quando todo mundo fala de um assunto novo, as pessoas provavelmente podem estar falando de coisas diferentes. Podem- se distinguir pelo menos três das principais interpretações que têm sido dadas à economia verde. É possível identificar a primeira interpretação de uma versão mais limitada do que seja a economia verde. Trata-se da tentativa de estender o sistema de preços aos serviços e aos ativos ambientais, mesmo considerando- se que a sua valorização não signifique que esteja transformando- os em mercadorias.

O sistema de preços é considerado um mecanismo tão eficiente, democrático e econômico de resolver os problemas econômicos fundamentais de uma sociedade (o que produzir, como produzir, onde produzir, como produzir e para quem produzir) que acaba por estimular um esforço intelectual muito expressivo para preservar o seu uso nas políticas ambientais. É o caso, por exemplo, de situações em que ocorrem externalidades ambientais (poluição hídrica, avanço da especulação imobiliária sobre os mangues, desmatamento, etc.), quando se procura definir apropriadamente um valor econômico para os recursos ambientais, simulando as condições de mercado para a sua disponibilidade e a sua utilização, afim de se identificarem as perdas e os danos para a sociedade.

Os mercados funcionam adequadamente na alocação de bens privados, os quais são caracterizados pela exclusividade (quem não desejar pagar o preço de mercado é excluído do seu consumo) e pela rivalidade no consumo (o bem pode ser subdividido, de tal forma que quem consome pode excluir os outros dos seus benefícios). Os bens ambientais tendem a ser não excludentes e divisíveis (exemplo: reservas de águas subterrâneas), excludentes e indivisíveis (exemplo:acesso às áreas fechadas de reservas naturais) ou indivisíveis e não excludentes (exemplos: paisagens cênicas; ar puro). Assim,muitos bens ambientais, por se assemelharem mais a bens públicos (não excludentes, indivisíveis, sem rivalidades) do que a bens privados, não conseguem desenvolver ou simular mercados para avaliações monetárias apropriadas e consistentes.

Uma segunda concepção de economia verde está ligada ao desenvolvimento de modelos de planejamento econômico-ambiental que incorporam os conceitos de insumos ecológicos, processos ecológicos e produtos ecológicos. Trata-se de uma tentativa de melhor compreender a interdependência entre o sistema ecológico e o sistema econômico. Esses modelos permitem que se analisem, por exemplo,os impactos dos investimentos previstos no PAC sobre a pegada ecológica (relativa às áreas de terra produtiva e aos ecossistemas aquáticos), sobre apegada de carbono (emissão de gases de efeito estufa) e sobre a pegada hídrica (uso direto e indireto de água). Esbarram, contudo, em enormes dificuldades para obter dados sobre o subsistema ecológico, desde o cálculo de simples coeficientes que relacionem a quantidade de poluentes de diversos tipos emitidos por unidades de produção em cada setor produtivo até informações sobre as características específicas de diferentes processos ecológicos.

Essas duas concepções de economia verde se situam, contudo, dentro de uma visão tradicional da Ciência Econômica. Na visão tradicional, a economia é vista como um sistema isolado, sem trocas de matéria e energia com o meio ambiente. Nesta visão, muitas vezes, não se vislumbram insumos ecológicos ou produtos ecológicos enquanto se produz (exemplos: captação de água ou emissão de dejetos industriais em uma bacia hidrográfica), enquanto se consome (exemplo: emissão de monóxido de carbono de veículos automotivos) ou enquanto se acumula capital (investimentos) na sociedade.

O ecossistema é considerado apenas como um setor extrativo e de disposição de resíduos da economia. Mesmo que esses serviços se tornem escassos (capacidade de suporte de uma bacia hidrográfica ou limitações de oferta de um recurso natural não renovável relevante), o crescimento econômico pode se manter para sempre porque a tecnologia permite a substituição de capital natural por capital man-made. O único limite ao crescimento, na visão tradicional, é a tecnologia e, desde que se desenvolvam novas tecnologias (produção de etanol ligno-celulósico para o aproveitamento do bagaço da cana ou de resíduos de madeiras, a descoberta de novos materiais, a miniaturização de bens duráveis de consumo,etc.), não há limites para o crescimento econômico.

Por outro lado, a visão contemporânea de desenvolvimento sustentável inclui a economia como um subsistema aberto do ecossistema. Desde que o ecossistema permaneça constante em escala enquanto a economia cresce, é inevitável que, a economia se torne maior em relação ao ecossistema ao longo do tempo, ou seja, a economia torna-se maior em relação ao ecossistema que a contém. O capital natural remanescente passa a ser o fator limitativo do crescimento econômico num ecossistema congestionado(com estresse ou em regime de coma ecológico) onde prevalecem as leis da termodinâmica, a de conservação de matéria e energia e a lei da entropia.

PROFESSOR DO IBMEC/MG. FOI MINISTRO DO PLANEJAMENTO E DA FAZENDA NO GOVERNO ITAMAR FRANCO

CLAUDIO HUMBERTO

" Não podemos nos indiciamentos elencar provas que são ilegais"
Senador Vital do Rêgo (PMDB-PB)sobre eventual anulação dos grampos da PF


Itaipu ignora a lei e esconde salários de marajá

A direção brasileira da estatal Itaipu Binacional ignorou o que dispõe a Lei de Acesso a Informação e se negou a informar o salário do ministro Celso Amorim (Defesa) para participar de duas reuniões mensais do seu conselho de administração. Mas esta coluna apurou que Amorim recebe ao menos R$ 19,4 mil mensais. Somando esse valor aos vencimentos de ministro, Amorim embolsaria R$ 46,1 mil por mês. 

Acima do teto

Segundo a lei, no serviço público federal ninguém pode perceber mais do que um ministro do Supremo Tribunal Federal: R$ 26.723,13.

Vice-marajás

Conselheiros da Petrobras e da BR Distribuidora, Guido Mantega (Fazenda) e Mirian Belchior (Planejamento) têm R$ 41,5 mil por mês.

Gordo 

O ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento Industrial) embolsa R$ R$ 38,1 mil por mês, porque integra conselhos como o do BNDES.

Acumulou, ganhou

Advogado-geral da União, o ministro Luís Adams que soma salário aos jetons na BrasilPrev e na BrasilCap, e fatura R$ 38,7 mil mensais.

Leigos 

As Sociedades de Propósito Específico (SPE), criadas pelo governo, vão administrar os aeroportos, em regime de concessão, mas começam muito mal: dos doze representantes das "classes trabalhadoras" nos conselhos de Administração e Fiscal, apenas dois possuem experiência em administração aeroportuária. Os demais foram indicados pelos diretores da estatal Infraero. Um dos indicados para o conselho, fiscal, por exemplo, é irmão do diretor Financeiro.

Vou de ônibus

No aeroporto de Brasília, são privilegiados os que usam ponte (finger) de desembarque. Dois terços são jogados na pista distantes até 2 km.

Nomenclatura

Os analistas estão em guerra com a Controladoria-Geral da União para serem chamados de "auditores", como no Tribunal de Contas da União. 


No meio do caminho

Vice de Fernando Haddad em São Paulo, a ex-prefeita Luiza Erundina (PSB) diz que "continua na mesma rua" do PT. Só que bateu no poste.

Pé do ouvido

Assessor jurídico da liderança do PT no Senado, Marcos Rogério de Souza tem despertado atenções na CPI do Cachoeira. Está sempre falando aos cochichos com o relator, deputado Odair Cunha (SP). 


Conta de chegar

O ex-prefeito Cesar Maia (DEM) diz que falta pouco para a Assembleia Legislativa do Rio aprovar a dispensa de curso superior para novos conselheiros do Tribunal de Contas do Estado. Bastará "notório saber". 


Escala africana

Bela e jovem, a embaixadora de Zâmbia no Brasil, Cynthia Misozi, faz sucesso dentro e fora de seu país: ex-secretária do presidente Michael Sata, ela abala corações por onde passa, em Brasília.


Menos um

A Bolívia anulou o contrato de financiamento de US$ 332 milhões do BNDES para a brasileira OAS construir rodovia num parque ecológico. E pensar que Lula pegou jatinho para tentar conter a fúria cocaleira...

Lorota 

Alguém do governo do DF contou lorota ao pessoal da revista de bordo da GOL, jurando que Brasília teria a segunda maior "malha cicloviária" do país. Os 179 quilômetros informados só existem nas promessas.

Anterior

O Dnit informou que a habilitação da Delta Construções para concorrer em licitação de R$ 13,6 milhões no Ceará ocorreu antes da decisão da Controladoria-Geral da União de declará-la inidônea.

Incompletos

Após notificação do Senado, o Banco Central informou ter identificado a "dificuldade" que levou à omissão da origem e destino do dinheiro movimentado na conta bancária da Delta. Os dados foram enviados com as lacunas à CPI mista do Cachoeira. 

PODER SEM PUDOR

Promessa de político
Jefferson Brant saiu de Uberlância (MG) e, em Brasília, pediu um emprego ao primo Rondon Pacheco, líder do governo do general Emílio Garrastazu Médici na Câmara.
- Claro! É só esperar. Você será agente administrativo da Câmara.
O tempo foi passando, e nada. O primo só dizia: "vai sair". E advertia: "não fale para ninguém, guarde segredo". Certo dia um jornal informou que 20 mil candidatos disputavam as vagas para agente administrativo na Câmara. Jéferson jamais esquecerá a desculpa esfarrapada do primo:
- Eu não disse para não falar a ninguém? Vazou.

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: Vitoria de conservadores na Grécia dá nova chance ao euro
Folha de S. Paulo: Eleições 2012 - Haddad sobe 5 pontos em SP; Serra lidera a disputa
Estadão: Dilma prepara cobrança por ação imediata na Rio+20
Correio: Bilhete levou Dilma a ser torturada em Minas
Valor: Exportações voltam a ter ganhos de rentabilidade
Estado de Minas: Por que Dilma foi torturada de novo
Jornal do Commercio: Dia de espantar o fantasma 
Zero Hora: RS perde 1.045 vagas em casas prisionais

domingo, junho 17, 2012

‘Speak serious’ - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 17/06



Os ingleses driblaram a matemática ao dizer que economizaram meio milhão de libras no orçamento dos Jogos de Londres. Omitiram que o orçamento triplicou desde o dossiê da candidatura, passando de 3,4 bi para 9,3 bi de libras. Ou seja, economizaram só um pouco num orçamento que cresceu três vezes.

Aliás...

Deve ser terrível viver num país onde o governo maquia números em seu benefício.

Calma, gente

Sobrou para o querido Jorge Fernando. A 2+ Câmara Cível do Rio condenou os produtores de “Boom” a indenizarem em R$ 20 mil duas espectadoras da peça. Mariana Yusim e Paula Batalha alegam que chegaram ao teatro atrasadas e foram alvo de piadas de Jorge, dando a entender que seriam gays. Dizem que apareceram num DVD da peça e viraram motivo de chacota.

Nada de propaganda

Como haverá eventos oficiais na HSBC Arena e no Vivo Rio, a ONU negociou a troca dos nomes das casas de shows para Arena da Barra e Anexo do MAM, respectivamente, na Rio+20.

Rio+300

O Itamaraty trouxe 300 diplomatas para a Rio+20. Um maldoso diria que a Casa — como no verso de Vinicius, que foi diplomata — pôs para trabalhar até gente que nunca trabalhou. Com todo o respeito.

Ele merece
Nosso Bussunda completaria 50 anos dia 25 agora. Para homenageá-lo, a turma do Casseta e Planeta vai fazer um “videochat” em sua homenagem. Nada de chororô. Será um batepapo animado para lembrar histórias do craque do humor.

O DOMINGO É
 de Ivete Sangalo, 40 anos, a cantora baiana toda bela que será Maria Machadão na nova versão de “Gabriela”, a novela baseada na obra de Jorge Amado, que entra no ar amanhã. Seu conhecido bom humor contagiou equipe e elenco, que não economizam elogios à sua atuação. Como Maria Machadão,dona do cabaré Bataclan, Ivete vai pôr ordem nas “mulheres-damas” de Ilhéus e animar a vida dos cavalheiros da cidade. Anima eu

Viva Casão!

A Globo Livros lança em 2013 um livro sobre Walter Casagrande Júnior, 49 anos, o ex-atacante que virou comentarista de TV. É escrito pelo jornalista Gilvan Ribeiro e conta, inclusive, o drama que levou Casão a uma clínica de recuperação de drogados.

Arte do Brasil

Com os brasileiros invadindo Nova York, o famoso Museu Guggenheim separou uns US$ 2 milhões para comprar quadros de artistas latino-americanos.

Aliás...

Outro dia, o economista parceiro José Roberto Afonso disse que os brasileiros em Nova York preferem lojas a museus. Mas Adriana Rattes, secretária de Cultura de Cabral, discorda: “Ouvi de um diretor do MoMA que os brasileiros já são os estrangeiros que mais visitam o museu.”

Máquina de madeira
A Companhia das Letras vai lançar “A máquina de madeira”, quinto romance de Miguel Sanches Neto. A ficção parte da história verídica do padre paraibano Francisco Azevedo (1814-1880), que seria o verdadeiro inventor da máquina de escrever. O fato é documentado nos anais da Exposição Nacional de 1861, organizada por Dom Pedro II. Veja na gravura.

Gabriela na Flip

João Ubaldo Ribeiro, uma das estrelas da Flip passada, voltará à festa do livro, em julho. Vai participar de uma conversa na Casa da Cultura sobre o conterrâneo Jorge Amado, que faria 100 anos dia 10 de agosto, com Walcyr Carrasco, autor da adaptação para a TV do clássico “Gabriela, cravo e canela”. A mediação será do coleguinha e escritor Edney Silvestre.

‘Chayenês’

Cláudia Abreu, a Chayene da novela “Cheias de charme”, da TV Globo, que chama todos por nomes de bichos — entre os quais, um tal “curica”, que já até pegou nas redes sociais —, tem se inspirado na “Grande Enciclopédia Internacional Piauiês”,de Paulo José Cunha.

Gois explica...

Curica vem a ser uma ave pequena, mas, no Piauí, o termo é usado como deboche para tratar as queridas domésticas.

Brasileiro joga muita comida fora
Em tempos de Rio+20, a coluna resolveu abrir a lixeira do brasileiro. Achou muita... comida. Pesquisa do Banco Mundial, publicada em março, mostra que 61% do nosso lixo é orgânico, ou seja, de restos de alimentos. Os resíduos recicláveis (plástico, papel, vidro, metal) somam 35%. Para se ter uma ideia, nas lixeiras alemãs, apenas 14% são de material orgânico. Na nossa vizinha Argentina, os restos de comida correspondem a 40%. Já nos EUA são 25%. Em outros países desenvolvidos, a média sobe um pouco, mas não se aproxima da nossa marca (26% no Japão, 29% na Itália, 32% na França, 34% em Portugal, 49% na Espanha).

Só no primeiro trimestre, osgaris do Rio recolheram por dia cerca de 8t de lixo — 5,035t nas residências e 3,09t nas ruas. No cruzamento dos dados da Comlurbcom os do Banco Mundial, vê-se que os cariocas, em média, jogam fora, todo dia, cerca de 5t de comida. Nova York, com 2 milhões de habitantes a mais que o Rio, produz cerca de 14t diárias de lixo. Mas só 3,5t são restos de comida.

O diretor-executivo da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública (Abrelpe), Carlos Silva, enfia a mão nessa lixeira:

— É questão cultural. Até quem tem pouco dinheiro compra frutas, legumes e carne por baixo preço. Em outros países, é diferente. A comida é mais cara e não há tanta variedade. Suécia e Alemanha, por exemplo, não produzem fruta no inverno por causa do frio. Então, importam, mas fica caro. Antes de descartar alguma coisa, é preciso pensar se isso não teria alguma utilidade para alguém. Essa nova cultura tem de ser ensinada às crianças para que o desperdício acabe — diz Silva.

O coordenador de Resíduos Sólidos da Secretaria do Ambiente do Rio, Osmar Dias Filho, concorda:

— No Rio, cada pessoa descarta, em média, de 800g a 900g de resíduos por dia. É um lixo pesado, pois tem muito material orgânico. Com certeza, poderia ser melhor aproveitado. Falta conscientização.

A atriz Vera Holtz, que em “Avenida Brasil”, a novela TV Globo, vive Mãe Lucinda, moradora de um lixão, acredita que a história na telinha vai ajudar:

— O meu lixão é fictício, é quase uma poesia. Mas é uma forma de aproximar as pessoas do assunto. Sinto que há uma pontinha de luz, e algumas pessoas vão mudar de atitude, vão cuidar melhor de seu lixo — aposta.

Tomara.