quarta-feira, maio 23, 2012
Crédito começa a fluir - CRISTIANO ROMERO
Valor Econômico - 23/05
A maior preocupação do governo neste momento é que, mesmo com a queda das taxas de juros e as medidas de estímulo adotadas, consumidores e empresas não se animem a tomar crédito. Sem crédito, a economia não anda. Embora a demanda, impulsionada pelo forte aumento do salário mínimo em janeiro, siga aquecida, a produção industrial patina. A boa notícia é que há sinais de que o crédito, depois das seguidas rodadas de redução dos spreads, começa a fluir.
Aparentemente, tanto pessoas físicas quanto empresas estão reagindo positivamente à queda dos juros. O vice-presidente de Negócio de Varejo do Banco do Brasil (BB), Alexandre Abreu, revela que, nas linhas com maior impacto sobre a economia, as concessões têm crescido de forma acelerada no último mês e meio.
As operações com pessoas físicas mostram isso claramente. Na linha de crédito direto ao consumidor (CDC), a taxa média de juros cobrada pelo BB caiu de 2,41% para 2,19% ao mês entre março e maio. Nessa modalidade, o banco emprestou, em março, R$ 190,4 milhões por dia útil. Em abril, a média diária saltou para R$ 294,3 milhões e, em maio (até o dia 15), para R$ 322,4 milhões. O incremento por dia útil foi de 70%.
No caso de financiamento de veículos, segmento que, por causa do aumento inadimplência, tornou os bancos mais conservadores na concessão de novos empréstimos, também começa a haver um certo desafogo, algo que pode ser intensificado graças às últimas medidas adotadas pelo governo - ontem, em resposta à liberação de depósitos compulsórios para financiamento de carros novos e à diminuição do Imposto sobre Operações Financeiras incidente sobre crédito, o BB reduziu a taxa média de 1,29% para 1,09% ao mês.
Antes dos novos estímulos, a concessão de empréstimos já vinha melhorando, conforme atestam dados oficiais que o Banco do Brasil divulgará nos próximos dias. De qualquer forma, em março o BB liberou, em média, apenas R$ 11,1 milhões por dia útil para compra de automóveis. Em maio, a média diária mais do que triplicou - foi para R$ 34,1 milhões; agora, com a liberação de R$ 2 bilhões de seu compulsório, o banco acredita que a média diária crescerá para R$ 45 milhões até o fim de junho.
É possível que, nos próximos dias e semanas, haja um incremento nesses valores. Além da redução do custo financeiro, os carros ficaram mais baratos graças à decisão do governo de reduzir as alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Ademais, o BB conta com o fato de ter uma inadimplência média, nesse segmento, inferior à do mercado - 2,6%, face a 5,9%.
No crediário, o BB também tem registrado avanços. A média por dia útil cresceu de R$ 396,1 mil em março para R$ 2,3 milhões em maio (sempre até o dia 15), um pulo de 481,64%. O desembolso total ainda é acanhado se comparado ao de outras linhas - R$ 8,7 milhões em março e R$ 23 milhões nos primeiros 15 dias de maio -, mas a tendência, graças à forte queda dos juros nessa modalidade - de uma taxa média de 3,42% para 1,94% ao mês -, é positiva.
No crédito consignado para aposentados do INSS, os desembolsos diários cresceram quase 60% entre março e maio. A taxa média de juros recuou de 2,02% para 1,79% ao mês no período, e os desembolsos por dia útil avançaram de R$ 7,7 milhões para R$ 12,2 milhões.
Alexandre Abreu explica que, com o "BomPraTodos", programa com que o banco pretende conquistar clientes dentro da realidade de spreads mais baixos, o BB quer mostrar que é mais vantajoso tomar um CDC (juro médio de 2,23% ao mês) do que usar o cheque especial (8,01%) ou o crédito rotativo do cartão de crédito (13% ao mês). De fato, o cheque especial é uma aberração dos tempos de inflação crônica no Brasil. Como o custo de vida corroía diariamente o poder de compra dos salários, o cheque especial funcionava como um crédito automático ao qual o assalariado recorria até o dia de recebimento do salário.
Com o "BomPraTodos, e os bancos privados estão adotando modelo parecido, o BB quer convencer os atuais e novos clientes a migrarem para produtos mais baratos. Três milhões, dos 33 milhões de correntistas do BB, usam cheque especial regularmente. Como a inadimplência nessa modalidade é altíssima - 15% na média do mercado, 11% no Banco do Brasil -, o juro é o mais alto, perdendo apenas para o do cartão de crédito.
Se o cliente adere ao "BomPraTodos", toda vez que ele usa mais de 50% do limite do cheque especial, durante 60 dias, no 61º dia ele recebe uma mensagem pelo celular (SMS) informando que aquela dívida será parcelada automaticamente em 24 meses, ao custo de 3,94% ao mês (taxa máxima do CDC). É um preço salgado, mas bem inferior ao do cheque especial. A mesma regra vale para o crédito rotativo do cartão de crédito.
Abreu justifica o aumento da tarifa nesse programa, alegando o fato de o banco incorrer em novos custos - um deles, o envio de SMS. Além disso, argumenta, o cliente passa a ter uma espécie de assessoria financeira. Nada se compara, no entanto, diz ele, aos custos incorridos antes por causa de juros bem mais altos. O dirigente do BB conta que, com o tempo, a tendência é que o cheque especial desapareça ou se torne menos relevante - o banco estima que, em um ano, a carteira nessa modalidade diminuirá de R$ 3,2 bilhões para R$ 1,6 bilhão.
Embora o cheque especial e o cartão de crédito sejam mecanismos "populares" de acesso a crédito, eles têm relevância econômica menor que a de outras formas de crédito. Da carteira de crédito de R$ 120 bilhões de pessoa física do BB, cheque especial responde por apenas R$ 3,2 bilhões (2,6%) e crédito rotativo de cartão de crédito, por R$ 2,5 bilhões (2%). É muito menos que crédito consignado (37,5% do total), financiamento de automóvel (16,6%) e CDC (20,8%).
"Em apenas um mês, a migração de clientes para o "BomPraTodos" chegou a 200 mil. É um número expressivo", comemora Abreu, que não teme o impacto dos juros mais baixos sobre a saúde financeira do BB. Ele lembra que a iniciativa de reduzir juros é generalizada e assegura que o BB está fazendo isso de forma responsável. "O grande medo do banqueiro é baixar os juros e na ponta o cliente não pegar o recurso. Nossos clientes estão pegando empréstimos."
Sal da terra - ELIANA CARDOSO
O ESTADÃO - 23/05
Após dois voos longos e uma conexão apertada, estou novamente em terra firme e escuto alguém chamar meu nome ainda dentro do avião. Acompanho o oficial. Na sala do aeroporto, outro se aproxima e pede meu passaporte. São US$ 140 para o visa. O senhor aceita cartão de crédito? Não. Tem caixa eletrônica onde eu possa sacar o dinheiro? Escuto a risada do americano recostado num sofá vermelho e o comentário: "Elas não funcionam em Tashkent".
Entrego os US$ 140 ao oficial e ele volta uma hora depois com o passaporte carimbado. Sento-me para esperar o motorista. Vejo a cabeça redonda e raspada do homem gordo, de jaqueta e calça plastificadas, todo de branco. O noivo marciano é meu futuro motorista. A mala não chegou e ele vai me levar ao hotel. São 2 horas da manhã. Tomo uma ducha e me deito. Terra firme? A cama treme e o quadro na parede balança. Muitos anos atrás, em Tóquio, a mesma experiência me levou à recepção, onde me disseram que voltasse para o quarto: um terremoto leve... Desta vez, estou cansada demais para me levantar e fazer perguntas. Confio que também este seja leve e já tenha passado. Relaxo debaixo das cobertas macias e adormeço.
Vim ao Usbequistão, a pedido do Banco Mundial, para satisfazer a ministra da Economia, que quer saber como o Brasil ficou rico. A ditadura usbeque tem má fama, mas o banco me convenceu que conversar não dói...
Tashkent, a capital do país, mistura amplas avenidas e uma abundância de espaços verdes. Dizem que, nos bairros aos quais não tenho acesso, ainda existem labirintos de casas de barro, onde homens velhos vestem casacos estofados, empurram carrinhos de nozes e se reúnem em volta de caldeirões fumegantes, para a refeição diária de plov - mistura de carne, arroz, cenoura, cebola e alho.
Visito Samarcanda e Bukhara, berços de cultura milenar, e me encanto com madrassas espetaculares, belas mesquitas, fortalezas antigas, bazares e artesanato.
Procuro me informar sobre o desastre ambiental do Mar Aral, que já foi um dos quatro maiores lagos do mundo e hoje tem 40% do seu tamanho original. A antiga União Soviética desviou os rios que o alimentavam para diferentes projetos, inclusive para irrigação das plantações de algodão. A pesca, outrora próspera, desapareceu e o recuo do mar provocou verões cada vez mais quentes e mais secos e invernos cada vez mais frios. Restaram enormes planícies cobertas com sal, que o vento espalha. No Sermão da Montanha, Jesus chamou os seus discípulos de sal da terra. Não previu que, na terra maltratada pelo homem, até o sal, que dá sabor à vida, se transformaria em desastre para o meio ambiente.
A ministra da Economia empurra a responsabilidade para a velha União Soviética. Destaca que seu governo tem reduzido as plantações de algodão, ao mesmo tempo que investe na educação rural e na infraestrutura, para impedir a perda dos parcos recursos aquáticos. Mas a catástrofe é irreversível.
Penso na evidência acumulada no mundo inteiro sobre os desastres ambientais e no aquecimento climático. Entretanto, o Wall Street Journal (27/1) publicou artigo assinado por 16 cientistas intitulado Você não precisa entrar em pânico sobre o aquecimento global.
O professor da Universidade Yale William Nordhaus rebate cada um dos argumentos desse artigo, cuja primeira alegação é a de que não há aquecimento do planeta. Tirar conclusões sobre as tendências de temperatura é complicado, porque séries históricas de temperatura mostram grande volatilidade, comparável à dos preços de ações nas bolsas. Uma década de observações sobre o comportamento da bolsa, ou sobre o da temperatura, não representa a tendência de longo prazo. A constatação do aquecimento global entre 1880 e 2011 é uma das conclusões mais robustas da ciência do clima.
Da mesma forma que ações humanas secaram o Mar Aral e vêm destruindo as florestas brasileiras, elas também contribuem para o aquecimento. As projeções dos modelos climáticos são consistentes com as tendências de temperatura registrada nas últimas décadas somente quando incluem os impactos do comportamento humano.
O artigo argumenta ainda que o alarmismo beneficia cientistas (que recebem financiamento público para pesquisa acadêmica) e permite ao governo ações maléficas, como aumentar subsídios para as empresas (que entendem como funciona o sistema político), fazer doações para fundações de caridade (que prometem salvar o planeta) e subir os impostos sobre a gasolina (que recaem sobre os consumidores). De fato, esse argumento procura desviar a atenção do problema verdadeiro. Existem empresas e indústrias preocupadas com prejuízos, que seus interesses econômicos sofreriam, se os governos adotassem políticas destinadas a reduzir a mudança climática.
Os ataques contra a ciência do aquecimento global lembram a resistência das empresas de cigarro às descobertas científicas que apontaram os perigos do tabagismo. Os interesses em distorcer a ciência do clima superam em muito os da indústria do tabaco. Vendas de cigarros nos Estados Unidos somam hoje cerca de US $ 100 bilhões, enquanto as despesas com bens e serviços energéticos se aproximam dos US$ 1.000 bilhões.
Nordhaus mostra que existem benefícios substanciais em agir imediatamente. Estudos econômicos sugerem que a política mais eficiente se resume à elevação do custo das emissões de CO2 por meio de impostos, para que empresas e famílias se movam para atividades com emissões menores de gás carbônico.
O Brasil - ao conter o aumento do preço do petróleo, cortar impostos sobre gasolina e incentivar a venda de automóveis - vai na contramão das políticas a favor do meio ambiente. Sob esse ângulo, não servimos de exemplo para a ministra da Economia do Usbequistão.
Martelo batido - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 23/05
A Polícia Federal determinou ontem a abertura de inquérito para investigar o leilão do Hotel Nacional do Rio, realizado em 2009. A PF quer saber se houve favorecimento da Susep ao empresário Marcelo Limírio, sócio de Carlinhos Cachoeira e Demóstenes Torres, que venceu o leilão. Na época, a autarquia federal era comandada pelo deputado Armando Vergílio (PSD-GO).
O goiano foi nomeado para a Susep em 2007, na cota do PTB. Mas em 2005, na CPI dos Bingos, a então senadora e hoje ministra Ideli Salvatti (PT) perguntou a Jairo Martins, membro do grupo do contraventor, se ele conhecia Vergílio, que seria "ligado" a Cachoeira.
Ata Depois de o ex-agente da Abin, hoje preso na Operação Monte Carlo, negar que conhecesse Vergílio, Ideli insistiu: "Nunca ouviu falar? Nem sabe que é o antigo diretor das Loterias de Goiás, ligado ao Carlinhos Cachoeira? Não tem nenhuma ligação?".
'Somos teu' Depois do flagrante da troca de mensagens entre Cândido Vaccarezza (PT-SP) e Sérgio Cabral, Andressa Mendonça, mulher de Cachoeira, foi aconselhada por seguranças do Senado a evitar o envio de torpedos pelo celular durante o não-depoimento do marido à CPI.
#FalaCachoeira Depois de repetir que não falaria nada aos congressistas, Cachoeira deverá finalmente se manifestar em depoimento à Justiça de Goiás marcado para começar no dia 31. A estratégia ainda está sendo traçada, mas a defesa do empresário confirma que ele pretende responder às acusações.
Nem vem... O ministro da Controladoria-Geral da União, Jorge Hage, reagiu à tática de defesa da construtora Delta, que acusou o órgão de falta de equidade ao julgar se empresas devem ser declaradas inidôneas.
... que não tem "Os defensores da Delta podem ficar tranquilos, porque eles não serão os únicos a serem processados pelas fraudes cometidas em obras do Dnit no Ceará", afirma Hage.
Novo round Em meio à polêmica envolvendo o Ministério Público e a Polícia Federal, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, discutirá, durante evento amanhã, o controle externo da atividade policial.
Dobradinha 1 O PT reunirá Fernando Haddad e Marta Suplicy em novo evento eivado de apelo eleitoral. Ambos participarão na próxima segunda de seminário de deputados estaduais sobre mobilidade urbana, tema que virou prioridade no QG petista.
Dobradinha 2 Geraldo Alckmin pediu a assessores mapa pormenorizado de investimentos em trens e metrô desde 1994. O tucano insistirá em números para se defender e municiar José Serra.
Dresscode Na sessão de homenagem a Lula, anteontem, o vereador Agnaldo Timóteo (PR) chegou à Câmara paulistana de calça azul e paletó amarelo-ovo. Alertado pelo colega Antonio Donato (PT) de que essas são as cores do PSDB, sumiu e ressurgiu com um sobretudo vermelho.
Visitas à Folha Dorothea Werneck, secretária de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebida em almoço. Estava com José Frederico Álvares, diretor-presidente do Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais, e Raquel Massote, assessora de comunicação.
José Armênio de Brito Cruz, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil - Departamento de São Paulo, visitou ontem a Folha.
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
tiroteio
"Na pior das hipóteses, se a CPI acabar em pizza, o presidente poderá cantar 'Ai, se eu te pego' para o Cachoeira com direito autoral incluído na verba de gabinete."
DO DEPUTADO VANDERLEI MACRIS (PSDB-SP), sobre o senador Vital do Rêgo (PMDB-PB) empregar como assessora supostamente fantasma Maria Eduarda Lucena dos Santos, que se diz coautora do hit de Michel Teló.
contraponto
Comunismo de resultados
Durante audiência da Comissão de Turismo e Desporto da Câmara com o presidente da Embratur, Flávio Dino, a deputada Jô Moraes (MG), do PC do B assim como Dino, reclamava da sobrevalorização do real. Mostrou panos de prato chineses, dizendo ser uma importação absurda.
O deputado José Rocha (PR-BA) provocou Jô e Dino:
-Lá na China não é o partido de vocês que governa?
-Somos comunistas do Brasil. Cada qual joga pelo seu time, como manda o marxismo-leninismo aplicado ao futebol, respondeu de pronto o presidente da Embratur.
O poder do latifúndio nos domínios do PT - JOSÉ NÊUMANNE
O ESTADÃO - 23/05
Petrolina e, como a cidade às margens do São Francisco, Pernambuco inteiro, pela voz de seu governador, Eduardo Campos (do clã Alencar, do Cariri cearense), indignaram-se com as críticas ao ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, por ter destinado 90% de todas as verbas da pasta ao seu Estado. Também a Paraíba mobilizou suas tropas retóricas para atacar qualquer um que lembrasse a circunstância de o novo ministro das Cidades do mesmo governo soi-disant socialista de Dilma Rousseff, Aguinaldo Ribeiro, ser neto de Agnaldo Veloso Borges, vilão histórico da esquerda acusado de ter mandado matar os líderes camponeses João Pedro Teixeira e Margarida Maria Alves. Agora vem o repórter Leonencio Nossa, da sucursal de Brasília deste jornal, lembrar que o dono da empreiteira Delta - campeã de obras do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) e citada nas denúncias contra o bicheiro Carlinhos Cachoeira -, Fernando Cavendish, é bisneto do coronel Veremundo Soares, de Salgueiro.
A Salgueiro do tempo dos coronéis tornou-se lendária pela citação num dos clássicos do repertório de outro sertanejo de Pernambuco, Luiz Gonzaga, em sua homenagem ao pai, o sanfoneiro Januário, do Vale do Araripe: "De Itaboca a Rancharia, de Salgueiro a Bodocó, Januário é o maior". Hoje em dia, a região notabiliza-se pelo comércio de carros roubados e pelas plantações de Cannabis sativa, que a tornaram uma espécie de capital informal do "perímetro da maconha". Assim como as plantações de coca florescem nos sovacos dos Andes bolivianos e em outros locais inóspitos, a "erva maldita" cresce e dá bons lucros num território que antes era definido como "polígono das secas" e agora recebe a crua denominação de semiárido. Neste ano, em que ocorre o mais penoso período de estiagem no Nordeste em 30 anos, por mais que incendeie roças da matéria-prima para a droga com a qual os viciados costumam se iniciar, a polícia não dá conta de seu avanço sertão adentro.
A exclusão do nome do bisneto do coronel Veremundo dos convocados a depor na CPI do bicheiro goiano reforça as evidências históricas de que a força inesgotável das oligarquias com poder sediado no sertão representa para a região específica e para todo o Brasil uma praga pior do que o flagelo das secas periódicas e a maconha perene.
Na falta de chuvas deste ano, a situação aflitiva das populações sertanejas é amenizada pela esmola estatal da Bolsa-Família. A famosa bravata de dom Pedro II, que prometeu empenhar o último diamante da coroa imperial para evitar que um cearense morresse de fome, foi assumida pela República assistencialista, que adotou o "neocoronelismo" com cartão magnético e trocou o voto de cabresto pelo sufrágio do guidom. Pois o jegue foi substituído pela moto, financiada a perder de vista, mas também a perder da vida, pois o comprador é dizimado nas rodovias em acidentes fatais e dificilmente sobrevive à própria dívida. No entanto, os animais criados pelas famílias dos camponeses pobres são sacrificados pela inclemência climática e pela insensibilidade do Estado ausente.
O poder do latifúndio no passado foi tema de clássicos da sociologia brasileira, tais comoCoronelismo, Enxada e Voto, de Victor Nunes Leal, Coronel, Coronéis - Apogeu e Declíniodo Coronelismo no Nordeste, de Marcos Vinicios Vilaça e Roberto Cavalcanti de Albuquerque, e Família e Coronelismo no Brasil - Uma História de Poder, de André Heráclio do Rêgo. A "inclusão" dos costumes desse mandonismo na República petista tem merecido um estudioso à altura desses citados expoentes da sociologia do latifúndio, o professor Luiz Werneck Vianna, que no artigo As cidades e o sertão, publicado nesta página, esclareceu: "Está aí a mais perfeita tradução da quasímoda articulação, no processo de modernização capitalista do País, entre o moderno e o atraso, ilustração viva do ensaio de José de Souza Martins A Aliança entre Capital e Propriedade da Terra: a Aliança do Atraso (in A Política do Brasil Lúmpen e Místico, São Paulo, Editora Contexto, 2011) e que se vem atualizando por meio da conversão do imenso estoque de capital social, econômico e político do latifúndio tradicional, que se processa no circuito da política e mediante favorecimento da ação estatal, em que seus herdeiros se reciclam para o exercício de papéis modernos. Para quem é renitente em não ver, este é o lado obscuro do nosso presidencialismo de coalizão, via escusa em que os porões da nossa História se maquiam e mudam para continuarem em suas posições de mando". Ou seja, "ou fingimos que mudamos ou eles mudam contra nós" - parafraseando o príncipe de Salina, protagonista do romance O Leopardo.
O maquiavélico conselho do cínico protagonista da obra-prima de Giuseppe Tomasi di Lampedusa ao sobrinho Tancredi traduz a aliança entre os socialistas pragmáticos do PT e os senhores da terra do semiárido. Não se trata de acusar o neto pelos crimes atribuídos ao avô nem de atribuir ao bisavô os deslizes do bisneto, e sim de reconhecer a renitente sobrevivência do semifeudalismo rural sertanejo nos costumes políticos do Brasil contemporâneo. A transposição do Rio São Francisco, anunciada para matar a sede dos sertanejos, não passa de truque retórico para dar cunho social a uma obra faraônica, que custará caro ao contribuinte e entregará a água a quem já tem a terra para irrigar. A estéril discussão sobre os efeitos do clima no semiárido, sem consequências práticas, representa a manutenção do domínio político e econômico dos oligarcas, confirmado por fatos.
Este ano, a prefeitura de Campina Grande, centro universitário de alta tecnologia, será disputada por Daniela, irmã de Aguinaldo Ribeiro e neta de Agnaldo Veloso Borges, por Romero Rodrigues, primo do senador Cássio, parente de Zé Cunha Lima, de Brejo de Areia, e por Tatiana Medeiros, apoiada pelo prefeito Veneziano Vital do Rêgo Segundo, parente do célebre Chico Heráclio do Rego, personagem-síntese do mandonismo no sertão.
Petrolina e, como a cidade às margens do São Francisco, Pernambuco inteiro, pela voz de seu governador, Eduardo Campos (do clã Alencar, do Cariri cearense), indignaram-se com as críticas ao ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, por ter destinado 90% de todas as verbas da pasta ao seu Estado. Também a Paraíba mobilizou suas tropas retóricas para atacar qualquer um que lembrasse a circunstância de o novo ministro das Cidades do mesmo governo soi-disant socialista de Dilma Rousseff, Aguinaldo Ribeiro, ser neto de Agnaldo Veloso Borges, vilão histórico da esquerda acusado de ter mandado matar os líderes camponeses João Pedro Teixeira e Margarida Maria Alves. Agora vem o repórter Leonencio Nossa, da sucursal de Brasília deste jornal, lembrar que o dono da empreiteira Delta - campeã de obras do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) e citada nas denúncias contra o bicheiro Carlinhos Cachoeira -, Fernando Cavendish, é bisneto do coronel Veremundo Soares, de Salgueiro.
A Salgueiro do tempo dos coronéis tornou-se lendária pela citação num dos clássicos do repertório de outro sertanejo de Pernambuco, Luiz Gonzaga, em sua homenagem ao pai, o sanfoneiro Januário, do Vale do Araripe: "De Itaboca a Rancharia, de Salgueiro a Bodocó, Januário é o maior". Hoje em dia, a região notabiliza-se pelo comércio de carros roubados e pelas plantações de Cannabis sativa, que a tornaram uma espécie de capital informal do "perímetro da maconha". Assim como as plantações de coca florescem nos sovacos dos Andes bolivianos e em outros locais inóspitos, a "erva maldita" cresce e dá bons lucros num território que antes era definido como "polígono das secas" e agora recebe a crua denominação de semiárido. Neste ano, em que ocorre o mais penoso período de estiagem no Nordeste em 30 anos, por mais que incendeie roças da matéria-prima para a droga com a qual os viciados costumam se iniciar, a polícia não dá conta de seu avanço sertão adentro.
A exclusão do nome do bisneto do coronel Veremundo dos convocados a depor na CPI do bicheiro goiano reforça as evidências históricas de que a força inesgotável das oligarquias com poder sediado no sertão representa para a região específica e para todo o Brasil uma praga pior do que o flagelo das secas periódicas e a maconha perene.
Na falta de chuvas deste ano, a situação aflitiva das populações sertanejas é amenizada pela esmola estatal da Bolsa-Família. A famosa bravata de dom Pedro II, que prometeu empenhar o último diamante da coroa imperial para evitar que um cearense morresse de fome, foi assumida pela República assistencialista, que adotou o "neocoronelismo" com cartão magnético e trocou o voto de cabresto pelo sufrágio do guidom. Pois o jegue foi substituído pela moto, financiada a perder de vista, mas também a perder da vida, pois o comprador é dizimado nas rodovias em acidentes fatais e dificilmente sobrevive à própria dívida. No entanto, os animais criados pelas famílias dos camponeses pobres são sacrificados pela inclemência climática e pela insensibilidade do Estado ausente.
O poder do latifúndio no passado foi tema de clássicos da sociologia brasileira, tais comoCoronelismo, Enxada e Voto, de Victor Nunes Leal, Coronel, Coronéis - Apogeu e Declíniodo Coronelismo no Nordeste, de Marcos Vinicios Vilaça e Roberto Cavalcanti de Albuquerque, e Família e Coronelismo no Brasil - Uma História de Poder, de André Heráclio do Rêgo. A "inclusão" dos costumes desse mandonismo na República petista tem merecido um estudioso à altura desses citados expoentes da sociologia do latifúndio, o professor Luiz Werneck Vianna, que no artigo As cidades e o sertão, publicado nesta página, esclareceu: "Está aí a mais perfeita tradução da quasímoda articulação, no processo de modernização capitalista do País, entre o moderno e o atraso, ilustração viva do ensaio de José de Souza Martins A Aliança entre Capital e Propriedade da Terra: a Aliança do Atraso (in A Política do Brasil Lúmpen e Místico, São Paulo, Editora Contexto, 2011) e que se vem atualizando por meio da conversão do imenso estoque de capital social, econômico e político do latifúndio tradicional, que se processa no circuito da política e mediante favorecimento da ação estatal, em que seus herdeiros se reciclam para o exercício de papéis modernos. Para quem é renitente em não ver, este é o lado obscuro do nosso presidencialismo de coalizão, via escusa em que os porões da nossa História se maquiam e mudam para continuarem em suas posições de mando". Ou seja, "ou fingimos que mudamos ou eles mudam contra nós" - parafraseando o príncipe de Salina, protagonista do romance O Leopardo.
O maquiavélico conselho do cínico protagonista da obra-prima de Giuseppe Tomasi di Lampedusa ao sobrinho Tancredi traduz a aliança entre os socialistas pragmáticos do PT e os senhores da terra do semiárido. Não se trata de acusar o neto pelos crimes atribuídos ao avô nem de atribuir ao bisavô os deslizes do bisneto, e sim de reconhecer a renitente sobrevivência do semifeudalismo rural sertanejo nos costumes políticos do Brasil contemporâneo. A transposição do Rio São Francisco, anunciada para matar a sede dos sertanejos, não passa de truque retórico para dar cunho social a uma obra faraônica, que custará caro ao contribuinte e entregará a água a quem já tem a terra para irrigar. A estéril discussão sobre os efeitos do clima no semiárido, sem consequências práticas, representa a manutenção do domínio político e econômico dos oligarcas, confirmado por fatos.
Este ano, a prefeitura de Campina Grande, centro universitário de alta tecnologia, será disputada por Daniela, irmã de Aguinaldo Ribeiro e neta de Agnaldo Veloso Borges, por Romero Rodrigues, primo do senador Cássio, parente de Zé Cunha Lima, de Brejo de Areia, e por Tatiana Medeiros, apoiada pelo prefeito Veneziano Vital do Rêgo Segundo, parente do célebre Chico Heráclio do Rego, personagem-síntese do mandonismo no sertão.
Capacidade de crescer por demanda é mesmo menor? - MONICA BAUMGARTEN DE BOLLE
O ESTADÃO - 23/05
Nossa "ciência lúgubre" vive de profecias pessimistas e, infelizmente, muitas vezes de consensos pré-formatados. O bordão da vez é que a capacidade de o Brasil crescer pelo lado da demanda se esgotou, que o modelo de crescer pela via da expansão do crédito e do consumo já não consegue gerar os mesmos resultados de outrora. A razão, dizem, é que as famílias já estão muito endividadas e que sua renda está muito comprometida. Além do mais, prosseguem, não se compram automóveis, geladeiras, fogões a toda hora. Há dois problemas fundamentais com esse raciocínio. Primeiramente, o adjetivo "muito" para qualificar o endividamento das famílias brasileiras e o comprometimento da renda. Em segundo lugar, o fato de ser estático, enquanto a economia é um sistema dinâmico.
Não que a premissa em que se baseia, isto é, de que o modelo de crescimento movido apenas pelo consumo num país com o estágio de desenvolvimento do nosso é insustentável, seja irrealista. O destaque fica com o "estágio de desenvolvimento" - afinal, um modelo baseado no consumo é exatamente o que a China vêm tentando fazer. Ninguém discorda de que o Brasil precisa investir mais, caminhar na contramão da China, consumindo menos e aumentando a capacidade produtiva para sustentar taxas de crescimento mais elevadas no médio prazo. Mas isso é uma posição normativa, uma afirmação sobre como as coisas deveriam ser.
Já o argumento sobre o suposto esgotamento da demanda é de natureza positiva, isto é, pressupõe a capacidade de observar e mensurar o que se afirma. Obviamente, é possível medir tanto o endividamento das famílias quanto o comprometimento da renda. Em termos do PIB, a dívida do consumidor, hoje, equivale a pouco mais de 20%.
Já o comprometimento da renda "saltou", em 2011, de uns 20% para 22%. Esses são mesmo limites ao crescimento pelo lado do consumo? Segundo um estudo recente do BIS, baseado numa amostra de 18 países da OCDE, a dívida das famílias só passa a ser um gargalo para o crescimento quando supera 85% do PIB. Quando atinge esse patamar, parte considerável da renda passa a ser destinada ao pagamento das dívidas, reduzindo o consumo. Por essa métrica, o Brasil está longe de engasgar com dívidas das famílias.
Quanto ao comprometimento da renda, é verdade que os níveis brasileiros são muito altos. No auge do endividamento das famílias americanas em 2007, o comprometimento da renda nos EUA alcançou 15%, nada comparável aos nossos 22%. Contudo, parte da razão para a fatia da renda que se destina às dívidas são os elevadíssimos juros brasileiros. Com a perspectiva de que caiam para patamares mais "normais", é razoável esperar uma reversão desse indicador que tanto assusta. Adicionalmente, o prazo médio do endividamento das famílias brasileiras é muito menor do que nos países maduros. Isso significa que dívidas contraídas são amortizadas mais rápido, contribuindo para sustentar o consumo.
Nada disso significa que devamos ser complacentes com o consumo turbinado por crédito farto e barato. Mas daí a dizer que o modelo está esgotado, é preciso um salto quântico, ou um ato de fé, ou muita ingenuidade.
Prisioneiro do ressentimento - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 23/05
Mais velho, mais sofrido - e nem por isso mais sábio -, o ex-presidente Lula levou para a Câmara Municipal de São Paulo, onde receberia na segunda-feira o título de Cidadão Paulistano, as suas obsessões e os seus fantasmas: as elites e o mensalão. Ao elogiar no seu discurso a gestão da prefeita Marta Suplicy, ele se pôs a desancar a "parte da elite" de cujo preconceito ela teria sido vítima "porque ousou governar para os pobres". Marta fez os CEUs (centros educacionais unificados), exemplificou, para acolher crianças de favelas, algo inaceitável para aqueles que não querem que os outros sejam "pelo menos iguais" a eles.
O ressentimento de que Lula é prisioneiro o impede de aceitar que, numa megalópole como esta, há de tudo para todos os gostos e desgostos - e não apenas no topo da pirâmide social. Os que nele se situam, uma população que o tempo e as oportunidades de ascensão de há muito tornaram heterogênea, não detêm o monopólio do preconceito de classe. Durante anos, até eleitores mais pobres, portadores, quem sabe, do proverbial complexo de vira-lata, refugaram a ideia de votar em um candidato presidencial que, vindo de onde veio e com pouco estudo, teria as mesmas limitações que viam em si para governar o Brasil.
Lula tampouco admite, ao menos em público, que dificilmente teria chegado lá se o destino não o tivesse levado a viver na mais aberta sociedade do País - que também abriga, repita-se, cabeças egoístas e retrógradas, mas onde o talento, o trabalho e a perseverança são os mecanismos por excelência de equalização social. Em 1952, quando a sua mãe o trouxe com alguns de seus irmãos para cá, estava em pleno andamento, aliás, a substituição das tradicionais elites políticas paulistas por nomes que expressavam as mutações por que vinha passando desde a 2.ª Guerra Mundial o perfil demográfico da capital.
Pelo voto popular, chegaram ao poder descendentes de imigrantes e outros tantos cujas famílias, vindas de baixo, prosperaram com a industrialização, educaram os filhos e os integraram, à americana, na renovada estrutura política. O curso natural das coisas, pode-se dizer, consumou a metamorfose na pessoa do carismático torneiro mecânico pau de arara ungido presidente da República. No Planalto, é bom que não se esqueça, ele vergastava as elites nos palanques e se acertava na política com o que elas têm de pior. Lula se amancebou com expoentes do coronelato do atraso, do patrimonialismo e da iniquidade - o mesmo estamento oligárquico que contribuiu para confinar à miséria incontáveis milhões de nordestinos.
Elas não lhe faltaram no transe do mensalão - "um momento", repetiu pela enésima vez o mais novo cidadão paulistano, "em que tentaram dar um golpe neste país". Na sua versão da história, as elites, a oposição e a mídia só desistiram de destituí-lo de medo de "enfrentarem o povo nas ruas". Falso. Lula ainda não havia completado o trajeto da contrição - "eu não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos que pedir desculpas" - à ameaça de apelar ao povo, quando a oposição preferiu não pedir o seu impeachment para não traumatizar o País pela segunda vez em 13 anos. Pelo menos um dos homens do presidente, ministro de Estado, procurou os líderes oposicionistas para dissuadi-los da iniciativa.
O estopim foi o depoimento do marqueteiro de Lula, Duda Mendonça, na CPI dos Correios, em agosto de 2005. Ele revelou ter recebido em conta que precisou abrir no paraíso fiscal das Bahamas, a conselho de Marcos Valério, o publicitário que viria a ser o pivô do mensalão, a soma de R$ 10 milhões pelos serviços prestados três anos antes à campanha presidencial do petista e ao partido. Afinal, parcela da bolada já estava no exterior e outra sairia do caixa 2 da agremiação - os famosos "recursos não contabilizados" que Lula admitiria existir na reunião ministerial que convocou para o dia seguinte da oitiva de Duda. Tecnicamente, o PT poderia ter o seu registro cassado, e o presidente poderia ser afastado, se as elites quisessem levar a ferro e fogo o combate político. Se conspiração houve, em suma, foi para "deixar pra lá".
Otimismo e cautela na China - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 23/05
O professor Chen Changshen, do Instituto de Filosofia da Academia de Ciências Sociais de Xangai, fez no seminário promovido em conjunto com a Academia da Latinidade uma análise muito aguda da situação atual da China, partindo da constatação de que a globalização é a principal tendência e a ideologia dominante em nosso tempo.
O governo chinês respondeu a ela com reformas e uma política de abertura, e em consequência disso nos últimos 30 anos a economia chinesa foi se transformando, lenta, mas irrevogavelmente, de planejada centralmente em uma economia de confiança no mercado.
Como responsável pelo bem-estar de 1/5 da população da Terra, os desafios e oportunidades da globalização têm sido tema de muita reflexão nos últimos anos na China, gerando um otimismo cauteloso.
Otimismo porque a globalização é uma oportunidade para a China, mas ao mesmo tempo a cautela está presente por que é sabido que a globalização traz desafios nunca vistos, e crises que podem ser fatais.
Reformas e abertura, necessárias para aproveitar a globalização, podem trazer para a China, porém, subversões internas. Com uma sociedade fechada em si mesma durante séculos, a cultura da inércia pode provocar uma espécie de "instinto básico" de rejeição à onda de globalização que vem do Ocidente.
Na análise do professor, o governo chinês está fazendo um esforço significativo para superar esse "instinto cultural", já que é predominante a ideia que é melhor tomar a iniciativa de mudar conceitos para participar da globalização do que, por receio, deliberadamente evitá-la. Chen Changshen admite que para muitos ocidentais os chineses são imprevisíveis, e o socialismo de características chinesas nem sempre é compreendido. Não existe uma única resposta para essas dúvidas, ele ressalta, e a política oficial é avançar com o tempo, sem questões pré-definidas.
Por isso, os "especialistas" em China têm previsões tão discrepantes em relação ao futuro do país. Enquanto uns consideram que o século XXI será da China, que desafiará o poder dos Estados Unidos em algumas áreas, há os pessimistas que acham que a China entrará em colapso dentro de pouco tempo.
Para o professor Chen Changshen, ambos estão errados. Ele considera inevitável que existam conflitos entre os chineses e a sociedade ocidental, e admite que, para a China, integrar-se à comunidade internacional é um problema angustiante, às vezes beirando o vexatório.
Ele considera que a maior dificuldade está em que as culturas chinesa e ocidental não seguem as mesmas regras. Mesmo os chineses dispostos a seguir regras internacionais, se elas ameaçam seus compatriotas, as abandonarão e voltarão às regras tradicionais.
E quais são essas regras? A família tem um papel todo especial na vida chinesa. Estado e casa têm, em chinês, um vínculo que os ideogramas revelam, levando à noção de país, o que significa que o país é uma expansão de sua casa.
Isso significa que o povo chinês dá muita importância às relações interpessoais em detrimento do individualismo, e também da ordem ou da moral públicas.
As relações pessoais e as leis da sociedade são diferentes formas de vida na China, as primeiras dando destaque às relações interpessoais ou intergrupos (família, clã), e as outras lidando com aspectos objetivos onde não interessa quem violou a lei ou quem será o juiz do caso.
Teoricamente, ética, lei, regras e regulamentações são questões objetivas e iguais para todos. Nas relações interpessoais, no entanto, vale mais o "quem fez".
Como lidar com as situações depende exclusivamente das relações entre o agente e as partes interessadas. Chen Changshen dá um exemplo: Se eu vejo alguém roubando, normalmente estarei disposto a testemunhar contra ele, mas se o ladrão é meu irmão, provavelmente não testemunharei "para preservar a família".
Talvez até pense que o que ele fez foi "objetivamente" errado, mas nesse caso pesará mais o princípio das relações pessoais.
Por isso o professor considera que a China precisa de tempo para reformar suas instituições e valores para se acomodar ao desenvolvimento da "aldeia global", o que virá em seu próprio benefício.
Mas a comunidade internacional precisa também entender que é melhor para todos que se dê à China um pouco mais de tempo e de espaço para que ela possa mudar sem grandes conflitos.
Na análise do professor Changshen, a China hoje rivaliza em poder e influência com os Estados Unidos, sendo que o ambicioso plano de modernização militar a transformou em um poder formidável, genuíno competidor estratégico dos Estados Unidos.
Mas ao mesmo tempo, ambos os países são interdependentes, parceiros comerciais com laços econômicos cada vez mais estreitos.
Mas as profundas diferenças de seus sistemas políticos, valores e interesses nacionais fazem permanecer entre os dois desconfianças profundas: Beijing teme que os Estados Unidos tentem preventivamente constranger o crescimento da China, enquanto os Estados Unidos não estão certos de qual será a trajetória futura que a China escolherá.
Há, no entanto, interesses comuns que unem os dois países: segundo o professor, além de combater o terrorismo e as armas de destruição em massa, os dois têm interesse em manter o mundo crescendo e estável, e também dividem a mesma preocupação com a degradação ambiental e as mudanças climáticas.
É também interesse estratégico dos Estados Unidos ajudar a liberalização política na China. O professor Changshen tem uma visão bastante pragmática sobre a China: historicamente, seria uma sociedade que amadurece rápido e declina muito cedo.
Apesar do crescimento econômico das últimas três décadas, a moderna China não produz ciência e tecnologia, não fez uma revolução industrial, não aderiu à economia de mercado nem à democratização, o que a torna um país emergente que é "grande, mas não forte".
O professor considera que mesmo que a China consiga manter o ritmo de crescimento que vem experimentando nos últimos anos - o que considera discutível -, dificilmente superará no curto e médio prazos seus problemas maiores como pobreza, injustiça social, declínio moral, segurança jurídica. Por isso, garantir que a China seja um país próspero dentro das regras internacionais é de interesse não apenas dos Estados Unidos, mas da própria "aldeia global".
O governo chinês respondeu a ela com reformas e uma política de abertura, e em consequência disso nos últimos 30 anos a economia chinesa foi se transformando, lenta, mas irrevogavelmente, de planejada centralmente em uma economia de confiança no mercado.
Como responsável pelo bem-estar de 1/5 da população da Terra, os desafios e oportunidades da globalização têm sido tema de muita reflexão nos últimos anos na China, gerando um otimismo cauteloso.
Otimismo porque a globalização é uma oportunidade para a China, mas ao mesmo tempo a cautela está presente por que é sabido que a globalização traz desafios nunca vistos, e crises que podem ser fatais.
Reformas e abertura, necessárias para aproveitar a globalização, podem trazer para a China, porém, subversões internas. Com uma sociedade fechada em si mesma durante séculos, a cultura da inércia pode provocar uma espécie de "instinto básico" de rejeição à onda de globalização que vem do Ocidente.
Na análise do professor, o governo chinês está fazendo um esforço significativo para superar esse "instinto cultural", já que é predominante a ideia que é melhor tomar a iniciativa de mudar conceitos para participar da globalização do que, por receio, deliberadamente evitá-la. Chen Changshen admite que para muitos ocidentais os chineses são imprevisíveis, e o socialismo de características chinesas nem sempre é compreendido. Não existe uma única resposta para essas dúvidas, ele ressalta, e a política oficial é avançar com o tempo, sem questões pré-definidas.
Por isso, os "especialistas" em China têm previsões tão discrepantes em relação ao futuro do país. Enquanto uns consideram que o século XXI será da China, que desafiará o poder dos Estados Unidos em algumas áreas, há os pessimistas que acham que a China entrará em colapso dentro de pouco tempo.
Para o professor Chen Changshen, ambos estão errados. Ele considera inevitável que existam conflitos entre os chineses e a sociedade ocidental, e admite que, para a China, integrar-se à comunidade internacional é um problema angustiante, às vezes beirando o vexatório.
Ele considera que a maior dificuldade está em que as culturas chinesa e ocidental não seguem as mesmas regras. Mesmo os chineses dispostos a seguir regras internacionais, se elas ameaçam seus compatriotas, as abandonarão e voltarão às regras tradicionais.
E quais são essas regras? A família tem um papel todo especial na vida chinesa. Estado e casa têm, em chinês, um vínculo que os ideogramas revelam, levando à noção de país, o que significa que o país é uma expansão de sua casa.
Isso significa que o povo chinês dá muita importância às relações interpessoais em detrimento do individualismo, e também da ordem ou da moral públicas.
As relações pessoais e as leis da sociedade são diferentes formas de vida na China, as primeiras dando destaque às relações interpessoais ou intergrupos (família, clã), e as outras lidando com aspectos objetivos onde não interessa quem violou a lei ou quem será o juiz do caso.
Teoricamente, ética, lei, regras e regulamentações são questões objetivas e iguais para todos. Nas relações interpessoais, no entanto, vale mais o "quem fez".
Como lidar com as situações depende exclusivamente das relações entre o agente e as partes interessadas. Chen Changshen dá um exemplo: Se eu vejo alguém roubando, normalmente estarei disposto a testemunhar contra ele, mas se o ladrão é meu irmão, provavelmente não testemunharei "para preservar a família".
Talvez até pense que o que ele fez foi "objetivamente" errado, mas nesse caso pesará mais o princípio das relações pessoais.
Por isso o professor considera que a China precisa de tempo para reformar suas instituições e valores para se acomodar ao desenvolvimento da "aldeia global", o que virá em seu próprio benefício.
Mas a comunidade internacional precisa também entender que é melhor para todos que se dê à China um pouco mais de tempo e de espaço para que ela possa mudar sem grandes conflitos.
Na análise do professor Changshen, a China hoje rivaliza em poder e influência com os Estados Unidos, sendo que o ambicioso plano de modernização militar a transformou em um poder formidável, genuíno competidor estratégico dos Estados Unidos.
Mas ao mesmo tempo, ambos os países são interdependentes, parceiros comerciais com laços econômicos cada vez mais estreitos.
Mas as profundas diferenças de seus sistemas políticos, valores e interesses nacionais fazem permanecer entre os dois desconfianças profundas: Beijing teme que os Estados Unidos tentem preventivamente constranger o crescimento da China, enquanto os Estados Unidos não estão certos de qual será a trajetória futura que a China escolherá.
Há, no entanto, interesses comuns que unem os dois países: segundo o professor, além de combater o terrorismo e as armas de destruição em massa, os dois têm interesse em manter o mundo crescendo e estável, e também dividem a mesma preocupação com a degradação ambiental e as mudanças climáticas.
É também interesse estratégico dos Estados Unidos ajudar a liberalização política na China. O professor Changshen tem uma visão bastante pragmática sobre a China: historicamente, seria uma sociedade que amadurece rápido e declina muito cedo.
Apesar do crescimento econômico das últimas três décadas, a moderna China não produz ciência e tecnologia, não fez uma revolução industrial, não aderiu à economia de mercado nem à democratização, o que a torna um país emergente que é "grande, mas não forte".
O professor considera que mesmo que a China consiga manter o ritmo de crescimento que vem experimentando nos últimos anos - o que considera discutível -, dificilmente superará no curto e médio prazos seus problemas maiores como pobreza, injustiça social, declínio moral, segurança jurídica. Por isso, garantir que a China seja um país próspero dentro das regras internacionais é de interesse não apenas dos Estados Unidos, mas da própria "aldeia global".
Cru e quente - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 23/05
Como era óbvio, por sobejamente anunciado, a presença do cidadão Carlos Augusto de Almeida Ramos ontem no Congresso confirmou-se inútil para quaisquer esclarecimentos à investigação parlamentar.
Talvez por isso mesmo fosse mais produtivo se a CPMI tivesse revisto seu plano de trabalho e repensado a estratégia de ouvir o presidiário, legalmente protegido pelo direito de calar, antes de a comissão enveredar pelo caminho da entrega do ouro ao bandido, como bem apontou a senadora Kátia Abreu ao vocalizar com todos os efes e erres o absurdo da situação.
Ao molde do que ocorre aos apressados, a comissão degustou o prato tão cru quanto quente. E não por arte do habilidoso advogado Márcio Thomaz Bastos, mas por força de um princípio constitucional elementar.
Por mais que quem se escude no direito de não falar para evitar se incriminar incriminado já esteja, o fato de o indivíduo vulgo Cachoeira ter como endereço atual a penitenciária da Papuda (DF) fala por si. Não acrescenta informação nova ao pressuposto da culpa.
O trabalho da CPMI não é discutir, celebrar ou condenar a orientação da defesa. Muito menos se deixar conduzir por sugestões tolas como a convocação do réu (em processo na 11.ª Vara Federal de Goiás) a aderir ao instrumento da delação premiada, a falar em sessão secreta ou a "passar uma vassoura da corrupção do País".
O que cabe, conforme ressaltaram vários senadores e deputados, é o recurso aos instrumentos de investigação inerentes à CPMI: quebra de sigilos bancários e fiscais, cruzamento de informações mediante o exame dos documentos já em poder da comissão, bem como a solicitação da indisponibilidade dos bens dos principais suspeitos.
O acusado não falará agora nem cumprirá a promessa de "ajudar" a CPMI depois de seu depoimento em juízo ou a qualquer tempo. Portanto, os investigadores devem obediência ao seu papel. Independentemente da perspectiva da defesa e da expectativa da contribuição do réu.
Verdades 1. Na semana passada, Nelson Jobim disse ao microfone de uma reunião do PMDB sobre as eleições municipais o que seus companheiros de partido dizem por aí para quem quiser ouvir, desde que não haja "aspas" nem amplificadores de voz.
Relembrando: o ex-ministro da Defesa e do Supremo Tribunal Federal afirmou que o PMDB virou um mero instrumento de homologação das decisões do PT e, assim, corre o risco de sucumbir por excesso de submissão sendo mais adiante descartado depois de ser usado pelo parceiro que facilitou a eleição de sua continuidade no governo.
Oficialmente a direção partidária deu-se por constrangida. Vice-presidente Michel Temer e líder da bancada na Câmara à frente da dissimulada reprovação à fala de Jobim.
Todos concordam com ele, mas escudam-se na hipocrisia porque uma coisa é o sentimento de revolta, outra bem diferente a realidade pragmática reinante no partido que não quer deixar o porto e por ora não enxerga no horizonte outro mais seguro onde atracar suas caravelas.
Verdades 2. No PT quem deu voz aos sussurros gerais foi Marta Suplicy dizendo que o conceito de "novo" é pouco para sustentar uma campanha, justamente no momento em que o partido tenta firmar a novidade como ideia força para o avanço da candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo.
Assim como o discurso de Jobim não desperta no PMDB nenhuma reação além da concordância muda, a manifestação de Marta não altera a estratégia petista em São Paulo.
CPI, uma nau sem rumo - FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 23/05
BRASÍLIA - Aconteceu o mais previsível. Carlos Cachoeira nada respondeu ontem no depoimento à CPI que leva o seu nome. A investigação naufraga porque está sem rumo, sem foco e desorientada.
Deputados e senadores já têm farto material preparado pela Polícia Federal em mais de dois anos de apuração. Os milhares de páginas precisam ser lidos e processados. Ninguém fez ainda tal trabalho.
Quantas ligações há exatamente entre Cachoeira e governadores de Estados? E entre Cachoeira e congressistas? Ou entre Cachoeira e seus funcionários mencionando agentes do Estado? Ninguém sabe. Até hoje, há integrantes da CPI citando números errados sobre contatos entre a mídia e o principal investigado.
Essa desídia é a pior parte da CPI. Juntos, Câmara e Senado têm mais de 20 mil funcionários. Todos muito bem remunerados. Nada impediria o comando da CPI de nomear uma força-tarefa de 100 ou 200 servidores para fazer o trabalho de tabulação de dados e interpretação política das informações.
Outro aspecto indefensável é a insistência da CPI de impedir a investigação em nível nacional da empreiteira Delta. Já há provas de que o dinheiro que irrigava a operação dessa empresa no Centro-Oeste saía de conta bancária no Rio de Janeiro -a mesma usada para os pagamentos em várias partes do país.
Sem quebrar o sigilo da Delta nacionalmente, jamais a CPI do Cachoeira chegará a uma conclusão definitiva se esta empreiteira praticava ou não traficâncias diversas.
A frase mais sensata ontem foi a do deputado Miro Teixeira, do PDT fluminense: "Não se deve esperar que um pecador venha até aqui e confesse um crime". É verdade. O melhor que a CPI tem a fazer é interpretar o material disponível em seus arquivos. Mas isso dá trabalho e pouca mídia. Aí, poucos se interessam. Trabalhar duro não é o forte da maioria ali no Congresso.
O linchamento da Delta - ELIO GASPARI
O GLOBO 23/05
O deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) recomendou ao governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ) que "não se preocupe, você é nosso e nós somos teu (sic)". O governador Marconi Perillo também não deve se preocupar, pois é do PSDB que também é seu. O mesmo pode valer para Agnelo Queiroz, o governador petista do Distrito Federal. E assim a CPI do Cachoeira assa uma bela pizza.
Mais preocupada em definir o que não quer investigar do que em buscar as conexões da quadrilha de Cachoeira com o poder público, a CPI filtrou as malfeitorias da empreiteira Delta e, aos poucos, transformou-a em centro de suas preocupações cenográficas. A "Tia do PAC", com R$ 3,6 bilhões de contratos federais, tem também negócios públicos e ligações privadas com governos e governantes de Rio, Goiás, Tocantins e Distrito Federal. As investigações policiais mostraram a intimidade de seus diretores com Carlinhos Cachoeira. Os vídeos monegascos de um jantar do governador Sérgio Cabral documentaram sua notável relação com o presidente da empresa, Fernando Cavendish.
Os mecanismos de proteção mútua dos parlamentares são condenáveis, mas pouco se pode fazer contra eles, salvo puni-los na próxima eleição negando-lhes os votos. Quando tiram-se de cena os administradores do dinheiro público, deixando-se na ribalta apenas a empresa com a qual transacionavam, arma-se uma encenação. Ao contrário do que sucede com governadores, deputados e senadores, cujo desempenho é julgado nas urnas, uma empresa é obrigada a batalhar diariamente pelos seus negócios. Exposta sem julgamento a Delta, confirmou-se o receio do doutor Cavendish: "Vou quebrar." Dias depois, sua companhia, que emprega 30 mil pessoas, estava no mercado. Arrisca virar boi de piranha, aquele bicho que é mandado ao rio para que seja comido, enquanto a manada atravessa em paz. O cardume quer a manada toda.
Durante o mandarinato petista a Delta faturou R$ 4 bilhões no governo federal e ao longo dos governos do casal Garotinho e de Sérgio Cabral foi a queridinha dos cofres fluminenses. Cavendish adicionou a esse desempenho um pendor exibicionista que o levou a desafiar a sabedoria chinesa: "Porco esperto não engorda."
Se a CPI começasse pela Delta, passasse pelos governos e chegasse a Cachoeira, teria muito a revelar. Poderia até redimir o Congresso do deplorável desempenho da CPI do Banestado, concluída em 2004. Ela começou investigando remessas ilegais de dinheiro para o exterior, quebrou 1.700 sigilos bancários e fiscais, para nada. (Ou para muito, para poucos.)
A Delta está sendo linchada porque vem recebendo uma pena de descrédito sem que se cumpra o devido processo legal. Há uma investigação da Polícia Federal e seu caso está com o Ministério Público. Tomara que esse serviço acabe botando gente na cadeia. A sabedoria convencional ensina que empreiteiros compram políticos e que muitos políticos gostam do dinheiro de empreiteiros. Isso pode fazer com que uma pessoa não goste de uns nem dos outros. Quebrar uma empresa a partir de grampos de delinquentes e fortes indícios de malfeitorias na obtenção de contratos não faz bem. Quem seria o próximo?
O que a CPI precisa fazer é desmentir a lei de Vaccarezza: "Não se preocupe, você é nosso e nós somos teu (sic)."
O pátio dos atrasos - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 23/05/12
A novidade do último pacote não foi a Fazenda ajudar a indústria automobilística a limpar seu pátio dos encalhes dos últimos meses. Isso já se esperava. O espanto é que agora até o Banco Central formata medidas de acordo com o desejo das montadoras. Liberou R$ 18 bilhões de compulsório apenas para aumentar o financiamento de veículos. Como o BC sabe, essa carteira teve um aumento de 162% de atrasos acima de 90 dias nos últimos 15 meses.
Se a oferta é maior do que a demanda, o preço tem que cair para que o fabricante e os revendedores se livrem do estoque, certo? Essa lei básica, da oferta e da procura, não funciona no Brasil quando o assunto é carro, porque se o pátio está cheio o Tesouro abre mão de impostos. Agora, além da política tributária, a política monetária também se curva ao desejo da indústria automobilística.
Como todos sabem, esse setor é uma cadeia, e quando ele cresce ou para afeta vários outros setores da economia. Numa emergência, como em 2008, era fácil entender o motivo que levou o governo a agir. Mas agora não faz sentido algum, principalmente porque este é o sétimo pacote do mesmo gênero que tem como centro o que as fábricas de carros querem.
O governo reduziu o investimento público em 2012 em relação ao ano passado. A indústria como um todo tem diversos problemas, alguns decorrentes do baixo investimento em infraestrutura, que onera custos em todas as cadeias. Isso é deixado de lado por mais um curativo destinado ao mesmo paciente.
O transporte de passageiros é um grande responsável pelas emissões de gases de efeito estufa, e é ele que está sendo incentivado sem qualquer exigência feita à indústria por motores mais eficientes, menos poluentes. Que não diga o governo que o imposto cai mais para os carros flex. Isso não cola. A indústria do etanol está em crise e não tem sido capaz de atender à demanda. O que aumenta assustadoramente é o consumo de gasolina, como mostramos ontem num gráfico publicado aqui: 76% de aumento de maio de 2009 a fevereiro de 2012 (vejam no meu blog).
Mesmo se a opção for incentivar o carro para puxar a economia, o governo tinha formas mais inteligentes de fazer, como fez o governo americano. Nos Estados Unidos, a indústria foi empurrada para o desenvolvimento de carros elétricos ou outras opções de baixo carbono.
No mercado de veículos, o estoque de dívidas com atrasos nos pagamentos acima de 90 dias já está em R$ 10,5 bilhões. Há 15 meses atrás, era R$ 4 bilhões. As dívidas com pelo menos 15 dias de atraso já somam R$ 25,15 bilhões. Ainda assim, o governo aumenta a oferta de crédito e incentiva mais a acumulação de dívidas. O endividamento sobre a renda aumentou 133% de janeiro de 2005 a fevereiro de 2012. Era 18,4% da renda anual e agora é 42,9%. Claro que isso é o estoque da dívida, e, portanto, será pago em prazo maior do que um ano.
A renda comprometida com o serviço da dívida já chega a 22%. O governo acha que é baixa, mas o mesmo indicador da economia americana, em 2008, apontava 14%, segundo o economista José Júlio Senna, da MCM consultores. E a nossa taxa está assim mesmo com aumento da renda, alongamento das dívidas e queda dos juros. O brasileiro está ficando com menor renda disponível pelo excesso de dívidas, e num momento em que houver dificuldade no mercado de trabalho e a renda não crescer haverá problemas. O BC deveria olhar isso, mas o órgão está sendo cada vez mais uma estação repetidora da Fazenda.
Aos erros de conjuntura se junta a omissão de médio e longo prazos. Não há qualquer movimento para uma redução da carga tributária, nem mesmo para tornar menos complicado o pagamento de impostos. Não há investimento para tornar a logística menos onerosa. Não há incentivos para a conversão da economia para o padrão de baixo carbono, que será exigido nos grandes mercados nos próximos anos. Foram dados apenas passos pequenos e temporários na desoneração da folha salarial.
O custo de insumos como energia e comunicação é muito alto, e o governo tem reclamado como se não fosse com ele. Juntou-se a quem reclama. Mas o que eleva o preço da energia é a taxação excessiva. No caso da comunicação, o governo promete reduzir os impostos dos estados e não as taxas federais.
Não há nesse pacote nenhum sinal de que os fatores estruturais serão enfrentados. E são eles que tiram a competitividade da economia. Tanto é que mesmo com uma alta de 24% do dólar em um ano, até segunda-feira, a indústria continua com baixo crescimento. Não era, portanto, a competição com o produto importado. Era perda de competitividade por todos os gargalos já conhecidos e não enfrentados pelo Brasil.
O mundo vive a terceira revolução industrial, lembrou a revista "The Economist". A primeira ocorreu no século XVIII, com a mecanização da indústria têxtil. A segunda, no começo do século XX, foi liderada pela indústria automobilística, mais precisamente por Henry Ford, com a linha de montagem da produção em massa. A terceira é digital. Um número impressionante de inovações tecnológicas propiciadas pela era digital tem que estar incorporado ao modo de produção. Essa nova era terá que ser necessariamente de produção de baixo carbono. O mundo se move na direção da criação de um imposto sobre carbono - um passo precursor disso foi a decisão da Europa de cobrar imposto sobre as emissões dos aviões que pousam lá. Era esse tipo de tendência que se esperava que o governo estivesse olhando, mas ele olha apenas para o pátio cheio das montadoras.
Como todos sabem, esse setor é uma cadeia, e quando ele cresce ou para afeta vários outros setores da economia. Numa emergência, como em 2008, era fácil entender o motivo que levou o governo a agir. Mas agora não faz sentido algum, principalmente porque este é o sétimo pacote do mesmo gênero que tem como centro o que as fábricas de carros querem.
O governo reduziu o investimento público em 2012 em relação ao ano passado. A indústria como um todo tem diversos problemas, alguns decorrentes do baixo investimento em infraestrutura, que onera custos em todas as cadeias. Isso é deixado de lado por mais um curativo destinado ao mesmo paciente.
O transporte de passageiros é um grande responsável pelas emissões de gases de efeito estufa, e é ele que está sendo incentivado sem qualquer exigência feita à indústria por motores mais eficientes, menos poluentes. Que não diga o governo que o imposto cai mais para os carros flex. Isso não cola. A indústria do etanol está em crise e não tem sido capaz de atender à demanda. O que aumenta assustadoramente é o consumo de gasolina, como mostramos ontem num gráfico publicado aqui: 76% de aumento de maio de 2009 a fevereiro de 2012 (vejam no meu blog).
Mesmo se a opção for incentivar o carro para puxar a economia, o governo tinha formas mais inteligentes de fazer, como fez o governo americano. Nos Estados Unidos, a indústria foi empurrada para o desenvolvimento de carros elétricos ou outras opções de baixo carbono.
No mercado de veículos, o estoque de dívidas com atrasos nos pagamentos acima de 90 dias já está em R$ 10,5 bilhões. Há 15 meses atrás, era R$ 4 bilhões. As dívidas com pelo menos 15 dias de atraso já somam R$ 25,15 bilhões. Ainda assim, o governo aumenta a oferta de crédito e incentiva mais a acumulação de dívidas. O endividamento sobre a renda aumentou 133% de janeiro de 2005 a fevereiro de 2012. Era 18,4% da renda anual e agora é 42,9%. Claro que isso é o estoque da dívida, e, portanto, será pago em prazo maior do que um ano.
A renda comprometida com o serviço da dívida já chega a 22%. O governo acha que é baixa, mas o mesmo indicador da economia americana, em 2008, apontava 14%, segundo o economista José Júlio Senna, da MCM consultores. E a nossa taxa está assim mesmo com aumento da renda, alongamento das dívidas e queda dos juros. O brasileiro está ficando com menor renda disponível pelo excesso de dívidas, e num momento em que houver dificuldade no mercado de trabalho e a renda não crescer haverá problemas. O BC deveria olhar isso, mas o órgão está sendo cada vez mais uma estação repetidora da Fazenda.
Aos erros de conjuntura se junta a omissão de médio e longo prazos. Não há qualquer movimento para uma redução da carga tributária, nem mesmo para tornar menos complicado o pagamento de impostos. Não há investimento para tornar a logística menos onerosa. Não há incentivos para a conversão da economia para o padrão de baixo carbono, que será exigido nos grandes mercados nos próximos anos. Foram dados apenas passos pequenos e temporários na desoneração da folha salarial.
O custo de insumos como energia e comunicação é muito alto, e o governo tem reclamado como se não fosse com ele. Juntou-se a quem reclama. Mas o que eleva o preço da energia é a taxação excessiva. No caso da comunicação, o governo promete reduzir os impostos dos estados e não as taxas federais.
Não há nesse pacote nenhum sinal de que os fatores estruturais serão enfrentados. E são eles que tiram a competitividade da economia. Tanto é que mesmo com uma alta de 24% do dólar em um ano, até segunda-feira, a indústria continua com baixo crescimento. Não era, portanto, a competição com o produto importado. Era perda de competitividade por todos os gargalos já conhecidos e não enfrentados pelo Brasil.
O mundo vive a terceira revolução industrial, lembrou a revista "The Economist". A primeira ocorreu no século XVIII, com a mecanização da indústria têxtil. A segunda, no começo do século XX, foi liderada pela indústria automobilística, mais precisamente por Henry Ford, com a linha de montagem da produção em massa. A terceira é digital. Um número impressionante de inovações tecnológicas propiciadas pela era digital tem que estar incorporado ao modo de produção. Essa nova era terá que ser necessariamente de produção de baixo carbono. O mundo se move na direção da criação de um imposto sobre carbono - um passo precursor disso foi a decisão da Europa de cobrar imposto sobre as emissões dos aviões que pousam lá. Era esse tipo de tendência que se esperava que o governo estivesse olhando, mas ele olha apenas para o pátio cheio das montadoras.
Limpar o leite derramado - - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 23/05
Na política de contenção de danos, governo, que queria crescer mais de 4%, agora tenta evitar menos de 3%
ATÉ MAIO, OS economistas de Dilma Rousseff se viravam a fim de esticar o crescimento da economia para 4% ao ano, a "meta mínima" da presidente. Havia até então mesmo controvérsia sobre um possível hiperaquecimento da atividade econômica lá pelo fim do ano.
A conversa mudou de tom, tanto no governo como na finança, para nem falar nas empresas. O tempo fechou subitamente em maio. Já vinha nublado, decerto, mas a Europa mandou um alerta de furacão.
A política agora é de contenção de danos. Não se trata de crescer ao menos 4%, mas de evitar um crescimento muito menor do que 3%.
O pacotinho de segunda-feira fala por si só. Trata-se, grosso modo, de um anabolizante de curto prazo para o setor ainda central da indústria, as fábricas de veículos.
O estoque das montadoras está em nível semelhante ao verificado no pânico que se seguiu à explosão da crise, em setembro de 2008.
Naquela época, muitos setores da indústria começaram a demitir "por conta", se antecipando a uma grande recessão. Agora, não se vê tal atitude, mas estava para começar uma paradeira nas montadoras (ou foi isso o que elas disseram ao governo).
Estoques ainda altos levariam as fábricas a decretar férias coletivas. A parada levaria ao sufoco os fornecedores das fábricas. Férias coletivas e sufoco nos fornecedores em breve dariam em demissões, que em seguida afetariam a cadeia de serviços do setor: comércio, finanças, reparos etc. Haveria, assim, contágio no restante da economia.
Não é possível verificar o tamanho do problema nas montadoras, pois elas não abrem suas contas (o que deveria ser obrigatório para quem recebe tanto "estímulo" do governo). Mas as vendas vão de fato mal; o crédito para financiar a venda de carros despencou desde meados do ano passado.
O pacotinho de segunda-feira não é muito mais do que isso. O Banco Central liberou dinheiro que os bancos têm de manter na reserva (do BC) para financiar carros, haverá mais prazo de financiamento e exigência de entrada menor.
No mais, o IOF sobre crediário caiu um pouquinho e haverá mais empréstimo subsidiado para empresas comprarem bens de capital.
O efeito geral das medidas é o de contrabalançar a piora adicional das perspectivas econômicas para a economia neste ano. Isto é, procura-se compensar o impacto negativo que a rediviva crise europeia teria sobre uma economia que já andava devagar. Não mais que isso.
O que emperra o crescimento neste ano, afora os famosos "fatores estruturais" de sempre, é a impressionante contenção do investimento das empresas e a ainda fraca retomada do investimento do governo.
Algumas novidades da conjuntura azedaram mais o ambiente. O real desvalorizado, antes de favorecer a exportação (se é que vai), assusta as empresas, muitas endividadas em moeda estrangeira e com outros custos em dólar. Assustadas também por esse motivo, investem menos, tomam menos crédito lá fora.
O governo não vai parar por aí. Quer facilitar a renegociação de dívidas do consumidor ou a troca do financiamento imobiliário feito num banco por outro mais barato.
A queda dos juros e da inflação vai ajudar um pouco. Mas estamos agora apenas discutindo redução de danos e o curtíssimo prazo.
Dilma turbina o pibinho - CELSO MING
O ESTADÃO - 23/05
O governo Dilma reeditou o sétimo pacote de estímulo ao consumo desde 2008.O objetivo imediato é desencalhar os estoques da indústria automobilística que atingiram os maiores níveis desde novembro de 2008.
O governo Dilma reeditou o sétimo pacote de estímulo ao consumo desde 2008.O objetivo imediato é desencalhar os estoques da indústria automobilística que atingiram os maiores níveis desde novembro de 2008.
A principal aflição que toma conta do governo é a iminência de novo pibinho em 2012. O ano de 2011 terminou com uma promessa solene: o avanço do PIB neste ano seria de 5%.
Mas já nas primeiras semanas de 2012, o ministro Guido Mantega passou a falar em algo entre 4,0% e 4,5%, em desacordo com projeções do Banco Central, que insistiam em somente 3,0%. Agora, Mantega diz que o avanço do PIB neste ano será "maior do que o do ano passado", quando cresceu só 2,7%. E, ontem, o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, admitiu que o crescimento do PIB ficará "algo acima da média global", que ele estima entre 2,5% e 3,0%.
O principal problema desse novo pacote não é o especial desvelo com que trata a indústria de veículos e deixa os demais setores ao deus-dará.É a estratégia de tentar compensar a relativades aceleração interna com mais consumo apoiado no crédito - e não com mais investimento.
Já há indicações suficientes para entender que o comprador está endividado até o pescoço. A inadimplência no financiamento de veículos mais do que dobrou em apenas um ano. Foi de 2,8% para 5,7%. A retranca com que o setor bancário vinha trabalhando o segmento não tem a ver com má vontade, mas, sim, com uma questão técnica: o preço de revenda do carro usado já está de 20% a 30% mais baixo do que o saldo das dívidas contraídas por ocasião da compra.
Ou seja,a reserva de domínio,que constitui a garantia do financiador, perdeu qualidade e aumentou o risco da operação.
O orçamento das classes médias está fortemente comprometido com mais despesas com serviços, sobretudo tarifas de celular e de TV por assinatura; ensino; condução; viagens; academia; refeições fora de casa; etc. Empurrá-las a mais endividamento tem tudo para ser o contrário do que vinha sendo tentado- ou seja,tem tudo para ser uma política macroimprudencial.
Em outras palavras, esse modelo que dá prioridade ao consumo e ao endividamento familiar já deu o que tinha de dar.
Ninguém no governo parece ligar para os enormes congestionamentos que paralisam as grandes cidades do País.
Eles querem empurrar mais veículos para a população.
Não levam em consideração que a reaceleração da produção poderia ser promovida com muito mais vantagens se fosse acionado o investimento.
Por que não agilizar a construção de linhas de metrô, portos, retroportos, aeroportos, estradas de ferro e de rodagem? Há o pré-sal a desenvolver e, no entanto, a Petrobrás não só continua patinando em desempenho reconhecidamente insatisfatório em produção, mas também se prepara para desinvestir maciçamente - porque não dá conta do que já assumiu.
Por que não dar mais atenção à infraestrutura, que, no Brasil, é tão precária e tão cara? Mas não.Os dirigentes das montadoras estão ameaçando com férias coletivas...
Assim, passa a ser de interesse nacional acalmá-los.
Paradoxalmente, essa suposta defesa do emprego ocorre quando o mercado de trabalho vive seu melhor momento histórico e quando o consumo cresce acima de 6% ao ano.
Pacote falha ao não abordar os problemas estruturais - EDUARDO SODRÉ
FOLHA DE SP - 23/05
Os fabricantes de automóveis sabiam, desde o início do mês, que as regras de cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) iriam mudar novamente.
Tudo ocorreu conforme o negociado, incluindo o curto prazo de validade da medida (até agosto), que estimula a corrida às concessionárias e antevê provável prorrogação. Contudo, questões importantes foram postergadas.
A manutenção dos empregos é uma boa notícia para os trabalhadores. Entretanto, faltam ações que colaborem para a ampliação da capacidade produtiva nacional (e consequente abertura de vagas), o que só acontecerá se houver condições para exportação.
As marcas que, após as restrições às importações, demonstraram interesse em fabricar veículos no Brasil sabem que o mercado interno não é o bastante para justificar grandes investimentos.
A benesse concedida agora não muda o cenário -e talvez tenha efeito oposto. Constantes mudanças de regras afugentam o investidor.
Fabricantes e importadores estão satisfeitos com a possibilidade de reduzir estoques sem ter de mexer nas margens de lucros -o "prejuízo" ficará com o governo.
O ganho será maior com ações que deem à indústria brasileira possibilidade de se tornar mais competitiva diante de gigantes exportadores como Japão, China e México.
Investir em facilidades para o escoamento da produção, consolidar acordos comerciais, conceder benefícios para a formação de novos polos industriais e corrigir distorções tributárias são medidas que podem gerar impacto positivo a médio e longo prazo, mas têm sido deixadas para um futuro impreciso.
Renúncia fiscal para estimular a indústria é um recurso válido, que tem se mostrado eficaz em momentos de desaceleração da economia. Mas a simples repetição da fórmula não soluciona problemas estruturais.
Os fabricantes de automóveis sabiam, desde o início do mês, que as regras de cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) iriam mudar novamente.
Tudo ocorreu conforme o negociado, incluindo o curto prazo de validade da medida (até agosto), que estimula a corrida às concessionárias e antevê provável prorrogação. Contudo, questões importantes foram postergadas.
A manutenção dos empregos é uma boa notícia para os trabalhadores. Entretanto, faltam ações que colaborem para a ampliação da capacidade produtiva nacional (e consequente abertura de vagas), o que só acontecerá se houver condições para exportação.
As marcas que, após as restrições às importações, demonstraram interesse em fabricar veículos no Brasil sabem que o mercado interno não é o bastante para justificar grandes investimentos.
A benesse concedida agora não muda o cenário -e talvez tenha efeito oposto. Constantes mudanças de regras afugentam o investidor.
Fabricantes e importadores estão satisfeitos com a possibilidade de reduzir estoques sem ter de mexer nas margens de lucros -o "prejuízo" ficará com o governo.
O ganho será maior com ações que deem à indústria brasileira possibilidade de se tornar mais competitiva diante de gigantes exportadores como Japão, China e México.
Investir em facilidades para o escoamento da produção, consolidar acordos comerciais, conceder benefícios para a formação de novos polos industriais e corrigir distorções tributárias são medidas que podem gerar impacto positivo a médio e longo prazo, mas têm sido deixadas para um futuro impreciso.
Renúncia fiscal para estimular a indústria é um recurso válido, que tem se mostrado eficaz em momentos de desaceleração da economia. Mas a simples repetição da fórmula não soluciona problemas estruturais.
PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV
12h - Campeonato Europeu de natação, etapa da Hungria, Bandsports
16h - AABB x São José, Paulista de futsal, Sportv
19h - Corinthians x São Paulo, Paulista de futsal, Sportv 2
19h30 - Fluminense x Boca Jrs. (ARG), Taça Libertadores, Fox Sports
19h30 - Palmeiras x Atlético-PR, Copa do Brasil, ESPN Brasil e Sportv
21h - New York Rangers x New Jersey Devils, hóquei, ESPN HD
22h - Corinthians x Vasco, Taça Libertadores, Globo e Fox Sports
22h - Goiás x São Paulo, Copa do Brasil, Band e ESPN Brasil e Sportv
22h - Coritiba x Vitória, Copa do Brasil, ESPN e Sportv 2
5h - Treino do GP de Mônaco, F-1, Sportv
CLAUDIO HUMBERTO
“Quero perguntar ao sr. Carlos Augusto que bicho vai dar hoje”
Deputado Rubens Bueno (PPS-PR), ironizando o bicheiro e a frustrante sessão da CPI
O ADVOGADOS DE MENSALEIROS SUGEREM RITO AO STF
Advogados de réus do mensalão subscreveram uma petição, entregue, ontem, ao presidente do STF, Carlos Ayres Britto, com sugestões para o julgamento do caso, como limitar a apenas três, por sessão, as sustentações orais da defesa, a fim de não tornar o julgamento enfadonho para os ministros. Também pediram que as sessões não prejudiquem o funcionamento normal do STF, que às terças, por exemplo, julga pedidos de habeas corpus de réus presos.
ELES ASSINARAM
Assinaram a petição advogados como Márcio Thomaz Bastos, José Carlos Dias, Arnaldo Malheiros e Antonio Carlos de Almeida Castro.
ESTES TAMBÉM
O STF informou que as sugestões e os pedidos dos advogados serão analisados pelo relator do processo, ministro Joaquim Barbosa.
PEDIDO AO STF
Os advogados dos mensaleiros que moram fora de Brasília querem ser informados de sessões de julgamento com antecedência de trinta dias.
RECADO
Sugestivo o resultado do bicho no Rio, ontem, dia do vexame do depoimento do bicheiro Cachoeira na CPI: burro.
CPI AVALIA QUE AS TESTEMUNHAS SERÃO MAIS ÚTEIS
Esperava-se que Carlos Cachoeira ficasse calado na CPI, mas a atitude deu a certeza que os demais indiciados na Operação Monte Carlo utilizarão estratégia idêntica. Isso deve fazer a CPI reorientar sua ação. O deputado Luiz Pitiman (PMDB-DF), membro da CPI, disse que importante agora é concentrar nas testemunhas, como a ex-mulher e o ex-cunhado do bicheiro, que serão obrigadas a depor sob juramento.
SEGREDO REVELADO
Uma coisa se descobriu de Cachoeira, que envelheceu anos em dois meses de cadeia: ele pintava o cabelo. Agora tem têmporas grisalhas.
LÍNGUA PRESA
Orientado pelos caríssimos advogados, Carlos Cachoeira botou banca: tentou fazer da CPMI uma Comissão Parlamentar Muda de Inquérito.
NA TIPOIA
O senador petista Humberto Costa (PE) apareceu no Congresso com o braço esquerdo engessado, na tipoia. Caiu da bicicleta.
DESTINO TRAÇADO
Experiente em CPIs, o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) acha que o destino de Cachoeira está traçado na 11ª Vara Federal de Goiânia: “Ele dificilmente escapará de uma condenação de 20 ou 30 anos de prisão”.
PRODUÇÃO DE PROVAS
Advogados do ex-governador José Roberto Arruda ficaram animados com a notícia de que o atual governo petista do DF estaria “produzindo provas” contra seu cliente. Isso pode motivar a nulidade do processo.
ACERTOU NO MILHAR
A marca de simulador de estande de tiros Virtra, com um só representante no Brasil, ganha hoje (23) a licitação de R$ 1 milhão da Secretaria de Segurança do Rio. Custa US$ 80 mil nos EUA.
CIÚMES DE VOCÊ
Arqui-inimigo do governador do Rio, Sérgio Cabral, Anthony Garotinho (PR-RJ) ironizou Cândido Vaccarezza (PT-SP), ao encontrá-lo: “A Adriana (mulher de Cabral) deve ter ciúmes de suas mensagens...”
BEM LONGE
Membros da CPI de Cachoeira em vaga cedida pelo PSDB, Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e Benedito de Lira (PP-AL) preferiram o plenário do Senado a perder tempo no não-depoimento de Cachoeira.
NÃO DÁ TRÉGUAS
Mulher de Cachoeira, Andressa Mendonça respondeu baixinho a perguntas e provocações, ontem, na CPI. Até corrigiu um deputado que chamou Adriano Aprígio de cunhado do bicheiro: “é ex-cunhado”.
SEM INTERESSE
O presidente do Senado, José Sarney, garante não estar nem um pouco interessado na CPI mista de Cachoeira: “Nem acompanhei o depoimento. Ainda estou me recuperando da saúde”, justificou.
RENEGOCIAÇÃO SEM IOF
O senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) pediu ao ministro Guido Mantega (Fazenda) o apoio a sua emenda à medida provisória 567, eliminando IOF nas operações de renegociação de dívidas. Mantega concordou.
PENSANDO BEM...
...Repetindo o “direito constitucional de ficar calado”, Cachoeira foi por água abaixo.
PODER SEM PUDOR
REUNIÃO ESPÍRITA
Leonel Brizola confiou ao economista Marlan Rocha a missão de percorrer o interior do País para organizar o PDT, que acabara de fundar. Ao chegar em Barreiras, na Bahia profunda, Marlan procurou um militante getulista histórico, Aluízio Mármore, e pediu para organizar uma reunião com velhos trabalhistas das redondezas. Mármore apenas sorriu:
– Amanhã cedo pego você no hotel e vamos ao cemitério. Estão todos lá.
Deputado Rubens Bueno (PPS-PR), ironizando o bicheiro e a frustrante sessão da CPI
O ADVOGADOS DE MENSALEIROS SUGEREM RITO AO STF
Advogados de réus do mensalão subscreveram uma petição, entregue, ontem, ao presidente do STF, Carlos Ayres Britto, com sugestões para o julgamento do caso, como limitar a apenas três, por sessão, as sustentações orais da defesa, a fim de não tornar o julgamento enfadonho para os ministros. Também pediram que as sessões não prejudiquem o funcionamento normal do STF, que às terças, por exemplo, julga pedidos de habeas corpus de réus presos.
ELES ASSINARAM
Assinaram a petição advogados como Márcio Thomaz Bastos, José Carlos Dias, Arnaldo Malheiros e Antonio Carlos de Almeida Castro.
ESTES TAMBÉM
O STF informou que as sugestões e os pedidos dos advogados serão analisados pelo relator do processo, ministro Joaquim Barbosa.
PEDIDO AO STF
RECADO
CPI AVALIA QUE AS TESTEMUNHAS SERÃO MAIS ÚTEIS
SEGREDO REVELADO
LÍNGUA PRESA
Orientado pelos caríssimos advogados, Carlos Cachoeira botou banca: tentou fazer da CPMI uma Comissão Parlamentar Muda de Inquérito.
NA TIPOIA
O senador petista Humberto Costa (PE) apareceu no Congresso com o braço esquerdo engessado, na tipoia. Caiu da bicicleta.
DESTINO TRAÇADO
Experiente em CPIs, o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) acha que o destino de Cachoeira está traçado na 11ª Vara Federal de Goiânia: “Ele dificilmente escapará de uma condenação de 20 ou 30 anos de prisão”.
PRODUÇÃO DE PROVAS
Advogados do ex-governador José Roberto Arruda ficaram animados com a notícia de que o atual governo petista do DF estaria “produzindo provas” contra seu cliente. Isso pode motivar a nulidade do processo.
ACERTOU NO MILHAR
A marca de simulador de estande de tiros Virtra, com um só representante no Brasil, ganha hoje (23) a licitação de R$ 1 milhão da Secretaria de Segurança do Rio. Custa US$ 80 mil nos EUA.
CIÚMES DE VOCÊ
Arqui-inimigo do governador do Rio, Sérgio Cabral, Anthony Garotinho (PR-RJ) ironizou Cândido Vaccarezza (PT-SP), ao encontrá-lo: “A Adriana (mulher de Cabral) deve ter ciúmes de suas mensagens...”
BEM LONGE
Membros da CPI de Cachoeira em vaga cedida pelo PSDB, Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e Benedito de Lira (PP-AL) preferiram o plenário do Senado a perder tempo no não-depoimento de Cachoeira.
NÃO DÁ TRÉGUAS
Mulher de Cachoeira, Andressa Mendonça respondeu baixinho a perguntas e provocações, ontem, na CPI. Até corrigiu um deputado que chamou Adriano Aprígio de cunhado do bicheiro: “é ex-cunhado”.
SEM INTERESSE
O presidente do Senado, José Sarney, garante não estar nem um pouco interessado na CPI mista de Cachoeira: “Nem acompanhei o depoimento. Ainda estou me recuperando da saúde”, justificou.
RENEGOCIAÇÃO SEM IOF
O senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) pediu ao ministro Guido Mantega (Fazenda) o apoio a sua emenda à medida provisória 567, eliminando IOF nas operações de renegociação de dívidas. Mantega concordou.
PENSANDO BEM...
...Repetindo o “direito constitucional de ficar calado”, Cachoeira foi por água abaixo.
PODER SEM PUDOR
REUNIÃO ESPÍRITA
Leonel Brizola confiou ao economista Marlan Rocha a missão de percorrer o interior do País para organizar o PDT, que acabara de fundar. Ao chegar em Barreiras, na Bahia profunda, Marlan procurou um militante getulista histórico, Aluízio Mármore, e pediu para organizar uma reunião com velhos trabalhistas das redondezas. Mármore apenas sorriu:
– Amanhã cedo pego você no hotel e vamos ao cemitério. Estão todos lá.
QUARTA NOS JORNAIS
- Globo: Câmara manobra contra punição de contas-sujas
- Folha: Montadoras cortam preço de veículos em até 10%
- Estadão: Cachoeira se cala e CPI mira Delta
- Correio: O cinismo da esfinge
- Valor: Governo avalia mais ações para destravar o crédito
- Zero Hora: STF decide divulgar salários de ministros, servidores e inativos
- Estado de Minas: Ninguém merece tanto deboche
- Jornal do Commercio: Fifa aposta em Pernambuco
terça-feira, maio 22, 2012
Acabou em samba - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 22/05
A Comissão da Verdade acabou em samba. Não é vaticínio de que não vai dar em nada. É que Noca da Portela compôs, a pedido da ministra Maria do Rosário, o samba “Nossas verdades”, sobre a comissão. Trechinho: “Vamos contar nossas verdades/Para esquecer as mentiras/Vamos viver a realidade/ E festejar nosso passado.”
Araguaia...
Aliás, Maria Celina D’Araújo, cientista política da PUC, pôs na internet (mariacelina.daraujo. net/pacificador.xls) nomes de militares que ganharam a Medalhado Pacificador de1972 a1975. Seguiu pista de Elio Gaspari, autor de quatro livros sobre a ditadura, de militares que combateram a guerrilha do Araguaia.
Mas Elio avisa...
Todos os que estiveram no Araguaia receberam a medalha, mas nem todos os que a receberam estiveram no Araguaia.
Licença médica
Levantamento feito em 1.357 escolas estaduais do Rio mostra que, de 75 mil professores ativos, 18 mil não trabalharam em março. Do total, houve 7.871 faltas abonadas por motivo médico.
No mais...
Tem professor que mente para fugir do trabalho. Mas, para exigir, é preciso também melhorar o salário do mestre, que, como mostrou o GLOBO ontem, ganha pouco.
Ruas estranhas
O livro “Ruas estranhas” , organizado pelo americano George R. R. Martin, autor que já vendeu cerca de 15 milhões de exemplares, vai ser lançado no Brasil pela Casa da Palavra/Fantasy. O obra fala do contato de pessoas com a paranormalidade.
DIA 8, MIELE, o homem-show, 74 anos, pela primeira vez na carreira, vai atuarnum musical. Veja nosso artista no centro da foto, como o Mágico de Oz na adaptação de Charles Müller e Cláudio Botelho, que estreia no Teatro João Caetano. A seu redor, repare, estão Lúcio Mauro Filho (Leão Covarde), a jovem Malu Rodrigues (Dorothy), Pierre Baitelli (Espantalho) e Nicola Lama (Homem de Lata). Veja também Maria Clara Gueiros, de Bruxa Má do Oeste, aqui ao lado
Lei Roberto Carlos
Por iniciativa do relator Alessandro Molon, dia 14 de junho, na Biblioteca Nacional, haverá uma audiência com escritores e juristas para discutir o projeto do ex-deputado Palocci que torna possível a biografia de figuras públicas sem autorização prévia. A ideia é evitar casos como o de Roberto Carlos, que censurou um livro de Paulo César Araújo sobre sua vida.
Filhos adotivos
Domingo de manhã, parentes de crianças adotadas farão passeata na Praia de Copacabana. O ato é para festejar o Dia Nacional da Adoção (25 de maio).
Inflação de milhas
A TAM está cobrando 130 mil milhas por uma perna numa passagem Rio-Londres-Rio logo após as Olimpíadas. Parece abuso. E é.
Táxi, táxi!
Eduardo Paes vai mudar o desenho dos bigurrilhos, como são chamadas aquelas pequenas placas luminosas no teto dos táxis, para sua identificação. O novo modelo deve ser este.
Paris-Rocinha
Uns franceses estão comprando várias casas na Rua 2 da Rocinha.
Lá vão os noivos
A Associação Comercial e de Prestadores de Serviços do Morro dos Macacos, no Rio, vai promover o casamento comunitário de 12 soldados de UPPs. Dez são da própria comunidade. Dois são da UPP do Morro São João.
Pega ladrão
Acredite. Flanelinhas que atuam na Lapa têm cobrado, em tom ameaçador, até R$ 10 dos motoristas.
Grande Bibi
De Bibi Ferreira, 90 anos, ao espirrar pela segunda vez na sessão de domingo do seu espetáculo no antigo Teatro Tereza Rachel, hoje Net Rio: — Desculpem, é que eu sou alérgica a... teatro. A plateia foi ao delírio. Logo ela , filha de artistas, que, praticamente, nasceu no palco.
A Comissão da Verdade acabou em samba. Não é vaticínio de que não vai dar em nada. É que Noca da Portela compôs, a pedido da ministra Maria do Rosário, o samba “Nossas verdades”, sobre a comissão. Trechinho: “Vamos contar nossas verdades/Para esquecer as mentiras/Vamos viver a realidade/ E festejar nosso passado.”
Araguaia...
Aliás, Maria Celina D’Araújo, cientista política da PUC, pôs na internet (mariacelina.daraujo. net/pacificador.xls) nomes de militares que ganharam a Medalhado Pacificador de1972 a1975. Seguiu pista de Elio Gaspari, autor de quatro livros sobre a ditadura, de militares que combateram a guerrilha do Araguaia.
Mas Elio avisa...
Todos os que estiveram no Araguaia receberam a medalha, mas nem todos os que a receberam estiveram no Araguaia.
Licença médica
Levantamento feito em 1.357 escolas estaduais do Rio mostra que, de 75 mil professores ativos, 18 mil não trabalharam em março. Do total, houve 7.871 faltas abonadas por motivo médico.
No mais...
Tem professor que mente para fugir do trabalho. Mas, para exigir, é preciso também melhorar o salário do mestre, que, como mostrou o GLOBO ontem, ganha pouco.
Ruas estranhas
O livro “Ruas estranhas” , organizado pelo americano George R. R. Martin, autor que já vendeu cerca de 15 milhões de exemplares, vai ser lançado no Brasil pela Casa da Palavra/Fantasy. O obra fala do contato de pessoas com a paranormalidade.
DIA 8, MIELE, o homem-show, 74 anos, pela primeira vez na carreira, vai atuarnum musical. Veja nosso artista no centro da foto, como o Mágico de Oz na adaptação de Charles Müller e Cláudio Botelho, que estreia no Teatro João Caetano. A seu redor, repare, estão Lúcio Mauro Filho (Leão Covarde), a jovem Malu Rodrigues (Dorothy), Pierre Baitelli (Espantalho) e Nicola Lama (Homem de Lata). Veja também Maria Clara Gueiros, de Bruxa Má do Oeste, aqui ao lado
Lei Roberto Carlos
Por iniciativa do relator Alessandro Molon, dia 14 de junho, na Biblioteca Nacional, haverá uma audiência com escritores e juristas para discutir o projeto do ex-deputado Palocci que torna possível a biografia de figuras públicas sem autorização prévia. A ideia é evitar casos como o de Roberto Carlos, que censurou um livro de Paulo César Araújo sobre sua vida.
Filhos adotivos
Domingo de manhã, parentes de crianças adotadas farão passeata na Praia de Copacabana. O ato é para festejar o Dia Nacional da Adoção (25 de maio).
Inflação de milhas
A TAM está cobrando 130 mil milhas por uma perna numa passagem Rio-Londres-Rio logo após as Olimpíadas. Parece abuso. E é.
Táxi, táxi!
Eduardo Paes vai mudar o desenho dos bigurrilhos, como são chamadas aquelas pequenas placas luminosas no teto dos táxis, para sua identificação. O novo modelo deve ser este.
Paris-Rocinha
Uns franceses estão comprando várias casas na Rua 2 da Rocinha.
Lá vão os noivos
A Associação Comercial e de Prestadores de Serviços do Morro dos Macacos, no Rio, vai promover o casamento comunitário de 12 soldados de UPPs. Dez são da própria comunidade. Dois são da UPP do Morro São João.
Pega ladrão
Acredite. Flanelinhas que atuam na Lapa têm cobrado, em tom ameaçador, até R$ 10 dos motoristas.
Grande Bibi
De Bibi Ferreira, 90 anos, ao espirrar pela segunda vez na sessão de domingo do seu espetáculo no antigo Teatro Tereza Rachel, hoje Net Rio: — Desculpem, é que eu sou alérgica a... teatro. A plateia foi ao delírio. Logo ela , filha de artistas, que, praticamente, nasceu no palco.
Os novos "3 em 1" de Lula - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 22/05
Lula se prepara para sair da eleição municipal com três dívidas na banca política do governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Quando e se vai pagar, o tempo dirá
Quando concorreu à Presidência da República pela primeira vez, em 1989, Lula ficou meio constrangido num debate quando o adversário Fernando Collor de Mello mencionou que ele havia comprado um aparelho de som “três em um”, aqueles trambolhos da década de 1980 que reuniam rádio, toca-discos e toca-fitas (ainda vivíamos na era do bolachão, muito longe do MP3). Agora, 23 anos depois, ele recebeu dos vereadores paulistanos outro três em um: numa única solenidade, Lula ganhou o título de Cidadão Paulistano, o diploma de Gratidão da Cidade e a Medalha Anchieta. A data não poderia ser melhor para tentar alavancar o petista Fernando Haddad nas pesquisas de intenção de voto para prefeito de São Paulo, antes da largada da campanha.
Lula está focado nesta eleição. Hoje, os petistas têm plena consciência de que foi um bom negócio o ex-presidente evitar a prévia paulistana. Conhecedor de seu partido e das vaidades de cada estrela, ele não queria correr o risco de o PT ficar dividido na eleição paulistana. O problema é que, se Haddad não demonstrar logo que tem traquejo para a campanha, só mesmo Lula para cumprir a tarefa de unir o partido em torno do candidato, ainda que a contragosto de alguns. Que ficaram insatisfeitos com o fim da prévia, caso da senadora Marta Suplicy.
No geral, o PT já se deu conta de que jogou tanta energia em São Paulo para conquistar uma das principais glebas tucanas que se esqueceu do restante do país. A prévia de Pernambuco, por exemplo, correu solta e terminou na “delegacia”, para ser resolvida por outras instâncias partidárias. Também pudera. A 10 dias da votação, os principais apoiadores de Maurício Rands estavam praticamente fora da campanha pelos corações dos militantes. O ex-prefeito João Paulo Lima, deputado federal, estava em Brasília, com toda a razão, cumprindo com as obrigações constitucionais para as quais fora eleito. O senador Humberto Costa (PT-PE) tinha outros afazeres urgentes. Relator do processo contra Demóstenes Torres no Conselho de Ética do Senado, dedicou-se em tempo integral à análise do caso. O governador Eduardo Campos (PSB) estava na China. Rands ficou sozinho enquanto o atual prefeito, João da Costa, amparado pela máquina da reeleição, conquistou 51,9% dos votos no último domingo, numa votação cercada de acusações de fraude.
Por falar em amparo…
Depois da briga entre as duas alas do PT, têm-se a sensação de que nada mais unirá os petistas do Recife, nem Lula, com seu discurso de encantador de serpentes. A divisão pode ser a senha para que o governador Eduardo Campos termine optando por outro candidato à Prefeitura do Recife. Assim, o nome do ministro da Integração, Fernando Bezerra Coelho, antes colocado apenas para tentar incutir algum juízo na cabeça dos petistas, pode virar realidade. Eduardo Campos, porém, é mais suscetível aos apelos de Lula do que o próprio PT. Agora, só mesmo um apelo de Lula para que Campos apoie João da Costa.
Assim, Lula tem outro “3 em 1”. Mas esse é de dívidas com o governador de Pernambuco. Pediu que tirasse Ciro Gomes da sucessão presidencial em 2010, e Eduardo atendeu. Este ano, pediu por Haddad — a aliança será formalizada daqui a alguns dias, num acordo casado que envolveu a Prefeitura de Belo Horizonte. Agora, Eduardo já fez chegar a quem interessar possa, que, se João da Costa se mantiver como candidato, ele só resolverá esse imbróglio da sucessão no Recife com Lula e a presidente Dilma. Assim, Lula agora tem três deferências em São Paulo e três débitos com o governador de Pernambuco. Bem… muito melhor que o antigo 3 em 1, hoje quase uma peça de museu.
Por falar em Dilma…A presidente da República é sempre simpática ao governador Eduardo Campos, mas já avisou a alguns aliados que, apesar disso, não tem como trocar de vice, se for candidata em 2014. Na frente de pelo menos um ministro, ela já comentou que, “se” for candidata à reeleição, irá repetir a chapa. Não por acaso, os peemedebistas correram para desfazer o alvoroço perante o discurso de Nelson Jobim na última quinta-feira, quando, durante um encontro do partido, o ex-ministro da Defesa pregou a candidatura própria. A cúpula da sigla considera melhor uma Vice-Presidência ao alcance da mão do que a incerteza de lançar um nome próprio — que poderia até mesmo terminar confundido com um aparelho 3 em 1 das antigas. Melhor não arriscar.
Lula se prepara para sair da eleição municipal com três dívidas na banca política do governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Quando e se vai pagar, o tempo dirá
Quando concorreu à Presidência da República pela primeira vez, em 1989, Lula ficou meio constrangido num debate quando o adversário Fernando Collor de Mello mencionou que ele havia comprado um aparelho de som “três em um”, aqueles trambolhos da década de 1980 que reuniam rádio, toca-discos e toca-fitas (ainda vivíamos na era do bolachão, muito longe do MP3). Agora, 23 anos depois, ele recebeu dos vereadores paulistanos outro três em um: numa única solenidade, Lula ganhou o título de Cidadão Paulistano, o diploma de Gratidão da Cidade e a Medalha Anchieta. A data não poderia ser melhor para tentar alavancar o petista Fernando Haddad nas pesquisas de intenção de voto para prefeito de São Paulo, antes da largada da campanha.
Lula está focado nesta eleição. Hoje, os petistas têm plena consciência de que foi um bom negócio o ex-presidente evitar a prévia paulistana. Conhecedor de seu partido e das vaidades de cada estrela, ele não queria correr o risco de o PT ficar dividido na eleição paulistana. O problema é que, se Haddad não demonstrar logo que tem traquejo para a campanha, só mesmo Lula para cumprir a tarefa de unir o partido em torno do candidato, ainda que a contragosto de alguns. Que ficaram insatisfeitos com o fim da prévia, caso da senadora Marta Suplicy.
No geral, o PT já se deu conta de que jogou tanta energia em São Paulo para conquistar uma das principais glebas tucanas que se esqueceu do restante do país. A prévia de Pernambuco, por exemplo, correu solta e terminou na “delegacia”, para ser resolvida por outras instâncias partidárias. Também pudera. A 10 dias da votação, os principais apoiadores de Maurício Rands estavam praticamente fora da campanha pelos corações dos militantes. O ex-prefeito João Paulo Lima, deputado federal, estava em Brasília, com toda a razão, cumprindo com as obrigações constitucionais para as quais fora eleito. O senador Humberto Costa (PT-PE) tinha outros afazeres urgentes. Relator do processo contra Demóstenes Torres no Conselho de Ética do Senado, dedicou-se em tempo integral à análise do caso. O governador Eduardo Campos (PSB) estava na China. Rands ficou sozinho enquanto o atual prefeito, João da Costa, amparado pela máquina da reeleição, conquistou 51,9% dos votos no último domingo, numa votação cercada de acusações de fraude.
Por falar em amparo…
Depois da briga entre as duas alas do PT, têm-se a sensação de que nada mais unirá os petistas do Recife, nem Lula, com seu discurso de encantador de serpentes. A divisão pode ser a senha para que o governador Eduardo Campos termine optando por outro candidato à Prefeitura do Recife. Assim, o nome do ministro da Integração, Fernando Bezerra Coelho, antes colocado apenas para tentar incutir algum juízo na cabeça dos petistas, pode virar realidade. Eduardo Campos, porém, é mais suscetível aos apelos de Lula do que o próprio PT. Agora, só mesmo um apelo de Lula para que Campos apoie João da Costa.
Assim, Lula tem outro “3 em 1”. Mas esse é de dívidas com o governador de Pernambuco. Pediu que tirasse Ciro Gomes da sucessão presidencial em 2010, e Eduardo atendeu. Este ano, pediu por Haddad — a aliança será formalizada daqui a alguns dias, num acordo casado que envolveu a Prefeitura de Belo Horizonte. Agora, Eduardo já fez chegar a quem interessar possa, que, se João da Costa se mantiver como candidato, ele só resolverá esse imbróglio da sucessão no Recife com Lula e a presidente Dilma. Assim, Lula agora tem três deferências em São Paulo e três débitos com o governador de Pernambuco. Bem… muito melhor que o antigo 3 em 1, hoje quase uma peça de museu.
Por falar em Dilma…A presidente da República é sempre simpática ao governador Eduardo Campos, mas já avisou a alguns aliados que, apesar disso, não tem como trocar de vice, se for candidata em 2014. Na frente de pelo menos um ministro, ela já comentou que, “se” for candidata à reeleição, irá repetir a chapa. Não por acaso, os peemedebistas correram para desfazer o alvoroço perante o discurso de Nelson Jobim na última quinta-feira, quando, durante um encontro do partido, o ex-ministro da Defesa pregou a candidatura própria. A cúpula da sigla considera melhor uma Vice-Presidência ao alcance da mão do que a incerteza de lançar um nome próprio — que poderia até mesmo terminar confundido com um aparelho 3 em 1 das antigas. Melhor não arriscar.
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