terça-feira, maio 22, 2012

Verdade? Que verdade? - MARCO ANTONIO VILLA


O GLOBO - 22/05


Foi saudada como um momento histórico a designação dos membros da Comissão da Verdade. Como tudo se movimenta lentamente na presidência de Dilma Rousseff, o fato ocorreu seis meses após a aprovação da lei 12.528. Não há qualquer justificativa para tanta demora. Durante o trâmite da lei o governo poderia ter desenhando, ao menos, o perfil dos membros, o que facilitaria a escolha.

Houve, na verdade, um desencontro com a história. O momento para a criação da comissão deveria ter sido outro: em 1985, quando do restabelecimento da democracia. Naquela oportunidade não somente seria mais fácil a obtenção das informações, como muitos dos personagens envolvidos estavam vivos. Mas — por uma armadilha do destino — quem assumiu o governo foi José Sarney, sem autoridade moral para julgar o passado, pois tinha sido participante ativo e beneficiário das ações do regime militar.

O tempo foi passando, arquivos foram destruídos e importantes personagens do período morreram. E para contentar um setor do Partido dos Trabalhadores — aquele originário do que ficou conhecido como luta armada — a presidente resolveu retirar o tema do esquecimento. Buscou o caminho mais fácil — o de criar uma comissão — do que realizar o que significaria um enorme avanço democrático: a abertura de todos os arquivos oficiais que tratam daqueles anos.

É inexplicável o período de 42 anos para que a comissão investigue as violações dos direitos humanos. Retroagir a 1946 é um enorme equívoco, assim como deveria interromper as investigações em 1985, quando, apesar da vigência formal da legislação autoritária, na prática o país já vivia na democracia — basta recordar a legalização dos partidos comunistas. Se a extensão temporal é incompreensível, menos ainda é o prazo de trabalho: dois anos. Como os membros não têm dedicação exclusiva e, até agora, a estrutura disponibilizada para os trabalhos é ínfima, tudo indica que os resultados serão pífios. E, ainda no terreno das estranhezas e sem nenhum corporativismo, é, no mínimo, extravagante que tenha até uma psiquiatra na comissão e não haja lugar para um historiador.

A comissão foi criada para “efetivar o direito à memória e a verdade histórica”. O que é “verdade histórica”? Pior são os sete objetivos da comissão (conforme artigo 3º), ora indefinidos, ora extremamente amplos. Alguns exemplos: como a comissão agirá para que seja prestada assistência às vítimas das violações dos direitos humanos? E como fará para “recomendar a adoção de medidas e políticas públicas para prevenir violação de direitos humanos, assegurar sua não repetição e promover a efetiva reconciliação nacional”? De que forma é possível “assegurar sua não repetição”?

O encaminhamento dado ao tema pelo governo foi desastroso. Reabriu a discussão sobre a lei de anistia, questão que já foi resolvida pelo STF em 2010. A anistia foi fundamental para o processo de transição para a democracia. Com a sua aprovação, em 1979, milhares de brasileiros retornaram ao país, muitos dos quais estavam exilados há 15 anos. Luís Carlos Prestes, Gregório Bezerra, Miguel Arraes, Leonel Brizola, entre os mais conhecidos, voltaram a ter ativa participação política. Foi muito difícil convencer os setores ultraconservadores do regime militar que não admitiam o retorno dos exilados, especialmente de Leonel Brizola, o adversário mais temido — o PT era considerado inofensivo e Lula tinha bom relacionamento com o general Golbery do Couto e Silva.

Não é tarefa fácil mexer nas feridas. Há o envolvimento pessoal, famílias que tiveram suas vidas destruídas, viúvas, como disse o deputado Alencar Furtado, em 1977, do “quem sabe ou do talvez”, torturas, desaparecimentos e mortes de dezenas de brasileiros. Mas — e não pode ser deixado de lado — ocorreram ações por parte dos grupos de luta armada que vitimaram dezenas de brasileiros. Evidentemente que são atos distintos. A repressão governamental ocorreu sob a proteção e a responsabilidade do Estado. Contudo, é possível enquadrar diversos atos daqueles grupos como violação dos direitos humanos e, portanto, incurso na lei 12.528.

O melhor caminho seria romper com a dicotomia — recolocada pela criação da comissão — repressão versus guerrilheiros ou ação das forças de segurança versus terroristas, dependendo do ponto de vista. É óbvio que a ditadura — e por ser justamente uma ditadura — se opunha à democracia; mas também é evidente que todos os grupos de luta armada almejavam a ditadura do proletariado (sem que isto justifique a bárbara repressão estatal). Nesta guerra, onde a política foi colocada de lado, o grande derrotado foi o povo brasileiro, que teve de suportar durante anos o regime ditatorial.

A presidente poderia ter agido como uma estadista, seguindo o exemplo do sul-africano Nelson Mandela, que criou a Comissão da Verdade e Reconciliação. Lá, o objetivo foi apresentar publicamente — várias sessões foram transmitidas pela televisão — os dois campos, os guerrilheiros e as forças do apartheid. Tudo sob a presidência do bispo Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz. E o país pôde virar democraticamente esta triste página da história. Mas no Brasil não temos um Mandela ou um Tutu.

Pelas primeiras declarações dos membros da comissão, continuaremos prisioneiros do extremismo político, congelados no tempo, como se a roda da história tivesse parado em 1970. Não avançaremos nenhum centímetro no processo de construção da democracia brasileira. E a comissão será um rotundo fracasso.

O futuro do Mercosul - RUBENS BARBOSA


O ESTADÃO - 22/05


O Alto Representante do Mercosul, Samuel Pinheiro Guimarães, publicou, na revista Austral, da UFRGS (janeiro/junho de 2012), ensaio em que pretende examinar o futuro do Mercosul e faz considerações mais amplas sobre as circunstâncias em que o grupo regional foi criado, sua evolução nos últimos 20 anos, as dificuldades atuais e o impacto da China.

Na esperança de que seja iniciado um efetivo debate sobre a situação atual e as perspectivas do processo de integração sub-regional, vou-me limitar a comentar alguns aspectos factuais de suas ideias sobre o Mercosul que, parece-me, merecem reparos, pela imprecisão ou pela distorção motivadas por considerações alheias à realidade.

Ao questionar os objetivos e as razões da criação do Mercosul, Guimarães assinala que em 1991, quando foi assinado o Tratado de Assunção, o pensamento neoliberal, representado pelo Consenso de Washington e pela supremacia dos EUA, era hegemônico; que o Mercosul foi criado para ser um esquema de liberalização comercial como uma etapa de um processo virtuoso de eliminação das barreiras tarifárias ao comércio e plena inserção no comércio internacional; que em 2012 a situação mudou completamente, afetando as perspectivas de integração regional e do Mercosul, na medida em que isso depende da vinculação cada vez maior de suas economias e políticas, o que justificaria uma guinada nos objetivos do processo de integração.

Todo o artigo de Samuel Pinheiro Guimarães está construído como se tudo o que existia antes de 2003 fosse fruto da submissão dos governos aos ditames de Washington e só depois tivessem ocorrido gestos e medidas em defesa da soberania dos países-membros.

O objetivo inicial do tratado é a liberalização do comércio entre os países-membros, com o objetivo de se chegar, numa segunda etapa, a uma integração econômica. A visão politicamente distorcida nos últimos dez anos fez esse objetivo ser perdido, com retrocesso em todas as áreas e uma ênfase indevida nas áreas políticas e sociais. Além da perda do sentido original, prevaleceu a visão de que o Mercosul deveria ser um bastião antiamericano, em torno do qual todos os países da região se reuniriam para lutar contra as investidas do "Império" na América Latina. Colocados diante da opção Mercosul/EUA, o resultado não poderia ser outro: os demais países escolheram fazer acordos com os EUA. Só não fizeram isso o Mercosul e os bolivarianos.

Guimarães defende a ampliação geográfica do Mercosul ao conjunto da América do Sul, a pretexto de ser essa expansão a única maneira de fortalecê-lo econômica e politicamente. Como a Venezuela está prestes a aceder ao Mercosul sem cumprir nenhum compromisso assumido no protocolo de adesão, nem o da Tarifa Externa Comum, os outros países teriam o mesmo tratamento e ingressariam por motivação política, criando outra significativa distorção comercial e uma ainda maior disfunção do grupo.

As assimetrias, acredita Guimarães, resultaram de grandes diferenças de infraestrutura física e social, de capacitação de mão de obra e de dimensão das empresas, o que levaria os investimentos privados a não poderem distribuir-se de forma mais harmônica no espaço comum. Na sua opinião, o Tratado de Assunção não levou em conta essas supostas assimetrias - que existem em qualquer bloco -, o que teria provocado muitas exceções e regimes especiais, à margem e contra a liberalização prevista. Os Estados maiores - no caso, o Brasil apenas - deveriam generosamente contribuir com "financiamentos assimétricos" para compensar essas diferenças.

O Mercosul, contudo, nunca foi pensado como um mecanismo de correção de assimetrias, e sim como instrumento de inserção competitiva dessas economias no mercado internacional, e é sob esse ângulo que deve ser avaliado. A ideia de assimetria, aceita sem análise crítica pelo Brasil, é contrária à simples realidade do comércio internacional, baseado justamente na diferença entre os países; ela justifica a extrema complacência com as medidas restritivas, ilegais, contrárias ao Mercosul e à OMC, e sua redução passou a exigir compromissos financeiros que recaíram, na quase totalidade, sobre o Tesouro brasileiro.

Segundo Guimarães, a estratégia e as políticas de desenvolvimento implementadas pela China são um dos fatores que criam um ambiente propício à adoção de medidas para tornar o Mercosul um organismo para promoção do desenvolvimento econômico. O engano aqui é mais grave: o suposto modelo chinês não é reproduzível em nenhum outro lugar, menos ainda no Mercosul, e a China, longe de pretender uma relação igualitária, repete o mesmo padrão de comércio Norte-Sul, rejeitado pelo autor do ensaio.

Guimarães pretende que o Mercosul seja um organismo de promoção do desenvolvimento econômico dos Estados isolados e em conjunto. Como se sabe, nenhum mecanismo setorial de política comercial pode servir como alavanca de desenvolvimento. A gradual transformação do Mercosul num organismo que se propõe a promover o desenvolvimento econômico dos Estados-membros, inspirada e apoiada pelo então secretário-geral do Itamaraty, levou o grupo a adotar uma atitude introvertida, refletida no protecionismo ilegal, e defensiva em relação à globalização, deixando a liberalização comercial em distante segundo plano. Enquanto a Ásia, por um lado, realiza uma ampla integração produtiva com acordos de livre-comércio entre China, Japão e Coreia do Sul, entre a Asean e os EUA, e começa a se desenhar um acordo comercial entre a União Europeia e os EUA, o Mercosul, de seu lado, só assinou três acordos comerciais (com Israel, Egito e Autoridade Palestina), sem maior relevância para o Brasil.

Foi essa visão equivocada que levou o Mercosul à crise institucional. Temo que, contra o interesse nacional, seja difícil hoje retomar o projeto inicial.

Uma presidente de dedo em riste - RAYMUNDO COSTA


VALOR ECONÔMICO - 22/05


À medida que avança o governo Dilma, aprofundam-se no Congresso convicções sobre as diferenças entre a presidente e seu antecessor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Elas ultrapassariam, em muito, a variação do estilo pessoal de um e de outro, como se analisava em janeiro de 2011. Hoje a avaliação é que Lula era mais pragmático e se adequava às circunstâncias; Dilma, por seu turno, é ideológica, professa o centralismo democrático e somente recua se for por falta de oportunidade política para impor sua decisão.

Esse tipo de manifestação se materializa no Congresso, entre aliados da presidente da República, mas também pode ser ouvida em ministérios e partidos de reputação nem tanto conservadora. Vale o registro das diferenças anotadas junto com sussurros de insatisfação com algumas das últimas medidas de Dilma.

A criação da Comissão da Verdade, semana passada, parece ser um divisor de águas. Lula delegou ao seu ministro da Defesa Nelson Jobim, a tarefa de negociar sua criação com os militares e as entidades representativas dos familiares dos desaparecidos políticos na ditadura militar.

Medidas de Dilma instigam áreas mais conservadoras

Na base desse negociação, a intocabilidade da Lei da Anistia - aprovada ainda no regime militar, numa correlação de forças desfavorável às entidades. A possibilidade de julgar torturadores, por exemplo, passou ao largo. Revanchismo zero. Dilma foi incisiva, num assunto sobre o qual Lula tergiversava: "A comissão não abriga ressentimento, ódio, nem perdão. Ela só é o contrário do esquecimento", disse.

Dilma também nomeou para a comissão nomes como o do professor de ciência política Paulo Sérgio Pinheiro, que apresentou o cartão de visitas logo à primeira intervenção: "nenhuma Comissão da Verdade teve ou tem essa bobagem de dois lados, de representantes dos perpetradores dos crimes e das vítimas".

Os militares, evidentemente, não gostaram. Jobim, que sonha com voos mais altos, respondeu de pronto que a criação da Comissão da Verdade só fora possível depois de acordo segundo o qual seriam investigados violações de direitos humanos cometidas pelos dois lados. "Reajo com indignação à declaração dele", rebateu Paulo Vannuchi, à época Secretário dos Direitos Humanos. "Em 2010 eu chamava a ideia de bilateralidade sugerida por Jobim de monstrengo jurídico."

Ainda tem curso, do centro para a direita da aliança dilmista, a ideia de que só não se avança na questão do controle social da mídia por falta de ambiente político. Um argumento que a prática não autoriza: o ministro Paulo Bernardo (Comunicações) sentou-se em cima do projeto feito no governo Lula. A própria Dilma orientou o PT a evitar ataques à imprensa na CPI do Cachoeira.

Com a oposição aparentemente paralisada e sem poder de formulação, é no campo governista que circulam algumas críticas ácidas. Exemplo: enquanto os presidentes antes de Dilma serviram ao governo, agora é o governo que serve a Dilma. Tanto sob FHC como sob Lula, as divergências eram intensas. Ao presidente cabia arbitrar. O que se verifica atualmente é um ministério medroso de expressar suas divergências.

A sociedade também se manifestava por meio dessas disputas. Hoje não tem governo. Tem a presidente e a vontade da presidente. Férrea, mas às vezes com soluções diferentes para problemas semelhantes. Um peso, duas medidas: o critério que serviu para demitir o ex-ministro Antonio Palocci das Casa Civil não foi o mesmo que balizou a manutenção de Fernando Pimentel no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

O ministro dos Esportes. Orlando Silva, caiu fora do governo diante da suspeita de seu ministério ter feito convênios irregulares com ONGs; Ideli Salvatti (Relações Institucionais) se manteve no cargo, apesar de avalizar a compra de embarcações de uma empresa doadora de campanhas do PT, quando estava no Ministério da Pesca.

No arrebalde do governo também se vê ideologia no embate de Dilma com o mercado financeiro, responsável, segundo a presidente, por uma "lógica perversa" pela qual a taxa Selic baixa, a inflação permanece estável, "mas os juros dos cheque especial, das prestações ou do cartão de crédito não diminuem ". Lula teve oportunidade de mudar as regras da poupança, quando a taxa Selic chegou a 8,75%, mas preferiu não comprar briga com o sistema. Dilma foi na jugular dos banqueiros.

Deixou particularmente constrangidos os congressistas o gesto de Dilma com o dedo em riste, repreendendo publicamente o presidente da Confederação Nacional dos Municípios, Paulo Ziulkoski, diante de uma plateia de 2.500 prefeitos de todo o país. "Tive que me acalmar, senão seria pior", disse Ziulkoski. Naquele momento Dilma exibiu uma face autoritária: uma coisa é levantar o dedo para um superior; outra para alguém que pode sair dali preso.

Dilma nunca fez mistério do fato de ser uma mulher de esquerda, suas convicções foram esmiuçadas na campanha eleitoral. O governo da presidente torna-se mais claro na medida do tempo, mas nada autoriza que Dilma venha a cair em tentações vizinhas. Ela detesta qualquer comparação com Cristina Kirchner, presidente da Argentina. A presidente governa com ranços de autoritarismo, mas é difícil sustentar que Dilma, no fundo, deseje fazer coisas como controlar a mídia. Até agora ela fez por merecer crédito ao dizer que refere "o barulho, às vezes extremamente dolorido, da imprensa livre do que o silêncio das ditaduras".

Há muito marketing nas ações de Dilma. Mas a presidente nunca fez segredo de que é uma mulher de esquerda. Parece crítica vencida, mas não é. Não é mera coincidência que as críticas à "ideologização" corram num momento em que a presidente cuida de várias frentes de batalha: de ministros que sentem-se esvaziados a setores militares mais radicais das Forças Armadas, passando pelos banqueiros.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 22/05


Cresce expatriação fora de Rio e São Paulo

O processo de expatriação de executivos, antes concentrado nos grandes centros urbanos brasileiros, começa a se pulverizar para outras regiões do país.

O fluxo de estrangeiros enviados para trabalhar no Brasil ainda cresce acima de 40% em metrópoles como São Paulo e Rio. Mas aparecem novos polos de atração como Campinas, que registrou alta de 50% entre 2011 e 2010, e Belo Horizonte (25%).

Os dados fazem parte de levantamento realizado pela Ernst & Young Terco com base em um conjunto de mais de 6.000 entregas de declarações de IR de clientes feitas pela empresa.

"O número de estrangeiros também aumenta muito no Nordeste devido aos projetos relacionados a Copa e energia", afirma Carlos Tonnus, sócio da Ernst.

Atualmente, do total de declarações entregues pela empresa, cerca de 18% estão fora dos convencionais grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro.

No sentido inverso, de brasileiros enviados para trabalhar fora, São Paulo ainda é o maior foco de origem de profissionais em diversos setores da indústria.

O que chama a atenção, segundo Tonnus, é a saída maior de profissionais de Minas Gerais. "São solicitados para trabalhar principalmente no ramo de mineração em países da África. No Rio, o expertise requisitado é no ramo de óleo e gás", diz.

Belo Horizonte registrou aumento de 38% no último ano, de acordo com o estudo.

MAIS TEMPO NA PISTA

As locadoras aumentaram o tempo de utilização dos veículos devido à dificuldade para obter novos financiamentos no país, segundo a Abla(Associação Brasileira de Locadoras de Automóveis).

Com a mudança, a idade média dos veículos passou de 15 para 17 meses.

"A venda de carros usados está mais difícil e esse fator também pesou na nossa decisão", diz Paulo Gaba Jr., presidente do conselho gestor da associação e da Sixt Rent a Car do Brasil.

As companhias do setor são contrárias à nova queda do IPI caso não venha acompanhada de grandes facilidades para a obtenção de crédito.

"É uma medida que deprecia a frota existente. Com mais financiamento, podemos pensar em renová-la com maior frequência. Precisamos analisar o que o governo acabou de anunciar."

Em 2011, o faturamento do setor teve alta de 11% e chegou a R$ 5,7 bilhões.

VINHEDO
A vinícola Salton vai investir R$ 45 milhões para expandir o cultivo de uvas e reduzir em 40% seus custos de produção.

Um novo vinhedo, de 450 hectares, será cultivado em Santana do Livramento (RS). No local, também será feito o beneficiamento da fruta.

Na safra deste ano, a empresa comprou 1,4 milhão de quilos de uva Chardonnay. Cada quilo custa, em média, R$ 2,50. "Com a produção própria, o custo fica em R$ 1,50", diz o presidente da vinícola, Daniel Salton.

A unidade também receberá frutos de produtores de cidades próximas. "As uvas não serão mais transportadas por longas distâncias, o que resulta em um vinho de melhor qualidade."

O engarrafamento continuará sendo feito na sede, em Bento Gonçalves, que tem capacidade para produzir 27 milhões de litros por ano.

No novo vinhedo, serão cultivadas, principalmente, uvas para espumantes.

"O consumo desse tipo de bebida no país é incipiente e o potencial, enorme.

MOTOR PROFISSIONAL

Profissionais com até 30 anos trabalham mais e melhor quando são desafiados, segundo estudo da Page Personnel, empresa de recrutamento.

Projetos capazes de desenvolver profissionalmente o trabalhador são os fatores que mais motivam, segundo 42,2% das respostas de analistas, coordenadores e jovens gestores.

A paixão pelo trabalho motiva 21,6% dos profissionais.

Autonomia para planejar ou tomar decisões e a possibilidade de receber promoção ou aumento de salário também são citados, de acordo com o levantamento.

Cerâmico A indústria cerâmica cresceu 7,5% em 2011 e movimentou R$ 18 bilhões, segundo a Associação Nacional de Cerâmica. O setor fabricou 15,6 bilhões de telhas cerâmicas de maio de 2011 a maio de 2012.

Terra A Portonave, terminal portuário de Navegantes (SC), teve alta de 11,8% no volume de movimentação nos quatro primeiros meses do ano, ante igual período de 2011. Foram 184,2 mil TEUs (unidade de medida equivalente ao contêiner de 20 pés).

Ar A partir deste mês, o aeroporto internacional de Cabo Frio recebe operações da Amerijet. Os voos devem movimentar, por semana, cerca de US$ 6 milhões em mercadorias.

O freio ao crescimento - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 22/05


A economia brasileira continuou encolhendo em março, segundo o indicador de atividade elaborado mensalmente pelo Banco Central (BC).Esse indicador, considerado uma antecipação dos cálculos do Produto Interno Bruto (PIB), foi 0,35% menor que o de fevereiro e 1,18% inferior ao de um ano antes, mas o Ministério do Planejamento mantém a previsão de um crescimento de 4,5% para 2012. Essa previsão foi usada como referência, mais uma vez, para a nova revisão bimestral do Orçamento, divulgada na sexta-feira. Por enquanto os dados disponíveis são menos animadores. Em dezembro a atividade foi a mais intensa desde abril de 2011, de acordo com o BC, e a partir de janeiro a redução foi contínua.

De acordo com o Ministério do Planejamento, o crescimento deve ganhar impulso nos próximos meses, graças à redução da taxa básica de juros, à ampliação do crédito oferecido pelos bancos e às medidas do Plano Brasil Maior. A economia brasileira, segundo a mesma análise, recuperou o dinamismo no fim do ano passado e o crescimento se intensificou de forma gradual no primeiro trimestre, mas as estimativas mensais do BC indicam o contrário.

O conflito de avaliações poderá ser eliminado, pelo menos oficialmente, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicar as contas nacionais do primeiro trimestre. Até agora, os números disponíveis mostram uma indústria em marcha lenta e uma safra de grãos e oleaginosas provavelmente menor que a de 2011.

Mesmo nos ministérios econômicos, no entanto, o ambiente dos últimos dias tem sido menos otimista que as projeções divulgadas com a revisão bimestral da execução orçamentária. O ministro Guido Mantega e outros funcionários do Ministério da Fazenda estão discutindo com porta-vozes da indústria automobilística e dos maiores bancos privados possíveis medidas para a ampliação do crédito aos compradores de veículos. E, embora mantendo o otimismo oficial com relação à atividade econômica, o Planejamento reduziu a projeção de receita tributária.

A revisão das projeções pode ser justificada, também no discurso oficial, com as preocupações em relação ao cenário externo. Essas preocupações são bem fundadas. O Brasil dificilmente ficará imune aos efeitos de um agravamento da crise europeia, especialmente se a Grécia abandonar de forma atabalhoada a zona do euro. Além disso, é preciso levar em conta a desaceleração da economia chinesa. Mas outros fatores afetam o crescimento econômico brasileiro e desses o governo tem cuidado com muito menos empenho.

Os empresários do setor automobilístico podem estar certos quando atribuem parte de seus problemas à retração da demanda no mercado interno. Essa retração é derivada tanto do comportamento dos novos consumidores quanto da cautela dos banqueiros. Os novos consumidores estão endividados e, além disso, dificilmente comprariam um novo carro em pouco tempo. Quanto aos banqueiros, tratam de se proteger de uma inadimplência já em alta.

Mas outras áreas do varejo continuaram em alta nos últimos meses. Em março, as vendas do comércio foram 0,2% maiores que as de fevereiro. Além disso, foram 12,5% superiores às de um ano antes. Nesses números não se incluem as vendas de veículos e componentes. Mas nas vendas do comércio ampliado - com a inclusão de veículos e componentes e também de material de construção - o aumento mensal foi de 0,6%, apesar do mau desempenho do setor automobilístico. Na comparação com março de 2011, a diferença para mais foi de 10,2%. Esses resultados se explicam pela manutenção de um alto nível de emprego, pelo aumento do bolo de rendimentos e, pelo menos até recentemente, pela forte expansão do crédito.

Para a maior parte da indústria, portanto, o problema não é a falta de demanda no mercado interno. A procura tem sido bastante razoável, mas produtos importados ocupam espaço crescente no mercado brasileiro. As medidas do Plano Brasil Maior foram insuficientes, até agora, para dar musculatura à indústria brasileira. É preciso examinar a situação desse ângulo.

Bons ventos - LUIZ GARCIA

GLOBO - 22/05

Está tudo quase pronto para a grande e triste festa: o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal do escândalo conhecido pelo prosaico apelido de Mensalão. Não fosse pelo tamanho físico — são 69 mil páginas reunidas em 147 volumes. A propósito, o processo merece o “ão” por um motivo que nada tem de jocoso: trata- se do nosso mais grave escândalo político desde que Brasília é capital. É “ão” que não acaba mais.

No que se refere ao elemento de tristeza na festa, basta lembrar que, independentemente da filiação partidária do batalhão de acusados, ela com certeza produz no eleitorado brasileiro um tanto de desconfiança e uma medida de preocupação sobre os cidadãos que se propõem a representá-lo na administração da vida pública. Podem ser sensações vagas e imprecisas, e sempre é bom não esquecer que episódios de mau comportamento na classe política frequentemente mais provocam passivo desânimo do que saudável indignação no eleitorado.

Desta vez, não é assim, e há mesmo sinais de que o povão está mobilizado pelo julgamento no STF. Estão em ação em diversos estados movimentos mobilizados contra os réus do mensalão, e já foram colhidas mais de 28 mil assinaturas em manifestos cobrando do tribunal rapidez no julgamento dos 28 réus no processo. Também há manifestações programadas em mais de dez cidades.

Não se deve esperar que iniciativas como essas tenham influência direta sobre os votos dos ministros — e, tanto quanto se sabe, não são necessárias para isso. Por outro lado, a manifestação espontânea e sem cor partidária de cidadãos da maioria do estados brasileiros tem, com certeza, uma repercussão saudável na classe política. Ministros do Supremo não precisam de votos populares, mas senadores e deputados dependem da vontade do povo — e todos eles sabem muito bem que ventos estão soprando na planície.

O próprio STF parece disposto a agir com rapidez. O revisor do processo, Ricardo Lewandowski, deve emitir seu voto em meados de junho, o que permitirá um julgamento em agosto, logo depois do recesso de julho.

São bons ventos esses que são notados em Brasília nestes dias — principalmente porque repetem os que, pelo visto, sopram no país inteiro.

O inferno nunca sai da alma - CLÓVIS ROSSI


FOLHA DE SP - 22/05
Impressões sobre uma visita à máquina de matar nazista construída em Auschwitz-Birkenau

CRACÓVIA - Uma placa no museu Judaico de Cracóvia registra um diálogo imaginário entre mãe e filha em que a menina diz: "Mamãe, quando eles nos matarem, vai doer?". A mãe responde: "Não, queridíssima, não vai doer, vai levar só um minuto".

Comentário abaixo do diálogo: "Pode ter levado só um minuto, mas foi o suficiente para nos manter despertos até o fim dos tempos".

Profético. A dor pelo assassinato de 1,1 milhão de judeus, só no complexo Auschwitz-Birkenau, perto de Cracóvia, perdura até hoje na alma dos judeus, como deveria perdurar na alma da humanidade. Não foi um crime só contra os judeus, o que já seria intolerável, mas contra a condição humana.

Não apenas porque em Auschwitz-Birkenau morreram também entre 140 mil e 150 mil poloneses, 23 mil ciganos, 15 mil prisioneiros de guerra soviéticos e 25 mil pessoas de outras etnias. Mas principalmente porque uma máquina meticulosa de matar despojou da condição humana todas essas pessoas e milhões mais em outros pontos da Europa.

Quando a mãe e a menina do diálogo imaginário foram levadas para a câmara de gás de Birkenau, já estavam mortas. Elas, como todos os judeus trazidos de toda a Europa para os 30 km² que abrigavam o complexo de Auschwitz, já haviam perdido suas casas, seus trabalhos, seus objetos pessoais, suas posses, seus seres queridos, rigorosamente tudo o que possuíam.

"Quem perde tudo muitas vezes perde a si mesmo", escreveu Primo Levi, judeu italiano, prisioneiro de Auschwitz, um sobrevivente que é talvez o mais completo narrador dos horrores do campo.

Levi escreveu também que quem esteve em Auschwitz nunca conseguirá sair e quem não esteve nunca conseguirá entrar.

É tanto verdade que se suicidou em 1987, mais de 40 anos depois de deixar o inferno. Dele diria o Prêmio Nobel da Paz (1986) Elie Wiesel, outro sobrevivente de Auschwitz: "Primo Levi morreu em Auschwitz 40 anos depois".

De fato, eu confesso que, como parte de um grupo de jornalistas que o Congresso Judaico Latino-Americano trouxe para uma visita-aula aos locais emblemáticos do Holocausto na Polônia, saio com mil perguntas e quase nenhuma resposta.

Principal pergunta: por que construir uma indústria da morte se ela não servia para derrotar os Exércitos inimigos, se não servia para ocupar territórios? (a Polônia já fora ocupada no início da guerra, em 1939, antes portanto da entrada em operação da máquina de matar).

O que assusta, entre tantos horrores, é que permanece a tentação em muitas partes do mundo, mesmo na Europa, de eliminar o "outro", o supostamente diferente, seja judeu, cigano, hutu ou tutsi (em Ruanda), muçulmano.

Nada, é claro, teve, antes como depois do Holocausto, a dimensão do que se fez em Auschwitz e outros campos e guetos. Mas direitos humanos, direito à vida, não podem ser medidos por quilo.

Por isso, vale a frase do filósofo espanhol Jorge de Santayana y Borrás (mais conhecido como George Santayana), gravada na entrada do "Bloco 4" de Auschwitz: "Quem não relembra a História está condenado a vivê-la de novo".

As concessões das elétricas - REGINALDO MEDEIROS


VALOR ECONÔMICO - 22/05
Nos próximos dias o governo deve enviar uma medida provisória ou um projeto de lei com urgência constitucional para o Congresso Nacional visando equacionar um velho problema: o que fazer quando terminarem as atuais concessões das empresas de energia elétrica?
O Artigo 175 da Constituição Federal dá as diretrizes gerais sobre o tema. Já as leis nºs 8.987 e 9.074 prorrogaram por 20 anos, na prática, em 1995, parte das concessões vincendas à época. Em 2015 esse prazo expirará. A indústria associada à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) já se posicionou favorável à licitação das concessões em campanha na televisão. As concessionárias atuais já se posicionaram pela prorrogação, com pareceres dos melhores juristas disponíveis no mercado. Várias circunstâncias sugerem que a alternativa escolhida pelo governo será prorrogar as atuais concessões por um novo período de tempo.

Entretanto, um tema pouco discutido sobre o problema concessões é como será o acesso dos consumidores à energia mais barata das usinas já depreciadas.

Decisão tem que ser rápida para não criar incertezas e desestimular os investimentos no setor

Há dois mercados bem distintos de energia elétrica no Brasil. O mercado cativo, chamado Ambiente de Contratação Regulado (ACR), onde o consumidor é obrigado a comprar energia das distribuidoras; e o mercado livre, chamado Ambiente de Contratação Livre (ACL), onde os consumidores podem escolher o seu fornecedor, tal qual no sistema de telefonia. O segundo só está acessível atualmente para consumidores maiores que 3.000 KW, lembrando que entre 500 KW e 3.000 KW há um mercado especial que só pode comprar energia de fontes incentivadas - recebendo desconto de 50% na rede, custo pago por todos os consumidores.

A Associação Brasileira dos Comercializadores de energia (ABRACEEL) não tem posição sobre renovar ou licitar as concessões, até porque os comercializadores não possuem ativos, mas defende um conjunto de princípios para a questão do acesso dos consumidores a energia das usinas depreciadas, com base nos seguintes argumentos:

1) A solução para a questão deve preservar e promover a isonomia entre o mercado livre e o mercado cativo no acesso à energia;

2) O tratamento das concessões de geração que vencem em 2015 deve estar alinhado com o que será dado aos contratos firmados entre as diversas geradoras e concessionárias de distribuição, que vencerão em 2012, 2013 e 2014, lembrando que a decisão deve estar coerente com as demais concessões que vencerão nos anos seguintes;

3) A segurança jurídica é fundamental no processo para evitar futuros questionamentos de direitos entre o conjunto de consumidores, a União e as empresas concessionárias e seus acionistas, sejam eles privados ou não;

4) A decisão sobre renovação deve ser rápida para não criar nova fonte de incertezas e desestimular os investimentos no setor;

5) O benefício da amortização das instalações de geração e transmissão, quando for o caso, deverá ser alocado no próprio setor elétrico;

6) O mercado livre e o mercado cativo são igualmente importantes para o país e merecedores dos benefícios advindos da renovação das concessões. O conjunto de consumidores, ao longo de muitos anos, pagou pela depreciação de tais ativos e, pelas regras anteriores (estabelecimento das tarifas com base nos custos), as prorrogações levariam naturalmente à modicidade para o conjunto de consumidores. Essa premissa deve ser preservada. Os consumidores ao se tornarem livres não alteraram esta lógica, até mesmo porque o conceito de modicidade de tarifas e preços está colocado no mesmo nível de prioridade na legislação (Lei nº 10.848/04 e Decreto nº 5.163/04);

7) A melhor maneira de definir o preço da energia é sua oferta de forma competitiva e ampla ao mercado;

8) A forma de captura do benefício não deve perturbar a informação sobre o preço da energia. Preços artificialmente comprimidos distorcem as informações de produção e consumo e comprometem o ambiente em que são tomadas decisões de investimento. Preços que reflitam os custos justos de produção produzem incentivos econômicos ao uso racional da energia e a alocação eficiente dos recursos de geração;

9) O valor do benefício econômico apurado (diferença entre o preço de mercado da energia e o valor a ser recebido pelo concessionário) deve ser dirigido ao abatimento de custos que são assumidos igualmente pelos consumidores cativos e livres. Tal tratamento asseguraria a promoção da modicidade de preços e tarifas, bem como a isonomia entre os dois ambientes de contratação de energia;

10) A energia das usinas depreciadas poderiam ser colocada no mercado por meio de leilões conjuntos do mercado cativo e do livre. Isso poderia ser realizado por meio de rounds sucessivos. Caso existam demanda frustrada do mercado cativo e oferta remanescente, aconteceriam rounds sucessivos nos dois mercados. O propósito da proposta de leilões sugeridos pela ABRACEEL é não alterar a competição dos leilões de energia existente, manter o mercado livre como um contraponto comercial ao cativo, além de dar isonomia na distribuição do benefício das prorrogações de concessões entre todos os consumidores, sem criar um novo fundo setorial.

Finalmente, ressaltamos que a ABRACEEL estudou profundamente, com a consultora Andrade \u0026amp; Canellas, o tema da isonomia na alocação da energia entre os dois mercados, por meio de leilões, e entende que esta é a melhor maneira de definir o preço da energia de forma competitiva e ampla ao mercado. Nos próximos dias, a ABRACEEL procurará o governo e o órgão regulador para apresentar detalhadamente a sua proposta por entender que é seu papel institucional levar soluções e não problemas aos que têm o poder de decisão.

Custos insuportáveis - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 22/05


Primeiro, a presidente Dilma Rousseff advertiu os bancos de que o alto custo do crédito é inaceitável e colocou em marcha uma cruzada, ainda sem desfecho, contra o juro escorchante.

Depois, ela mesma avisou que o alto custo da energia elétrica no Brasil é absurdo e que não continuará assim. Ontem, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, informou que estão prontos estudos que preveem redução da carga tributária da energia elétrica.

Domingo, em entrevista publicada pelo Estado, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, disse que "o imposto cobrado na telefonia é um escândalo". Mais ainda, revelou dado relativamente bem conhecido: mais de 60% da arrecadação dos Estados está assentada sobre o ICMS de combustíveis, veículos, telecomunicações, energia elétrica e bebidas.

Ou seja, o governo começa a reconhecer que o fator determinante por trás da paralisia da produção industrial não é o câmbio fora do lugar - um mantra entre dirigentes da indústria e certos economistas -, mas o alto custo Brasil, que lhe tira competitividade (e mercado).

Por enquanto, o governo não sabe como atacar a voracidade dos governos estaduais, que encarecem insumos essenciais à produção e desencorajam o crescimento econômico. Ele próprio é uma boca gigantesca que não para de engolir receitas tributárias.

Mais do que isso, não está nas telas de radar nenhum esforço sério por parte do interesse público com objetivo de derrubar a carga tributária. Cada uma das dezenas de projetos de reforma tributária redigidos desde a Constituição de 1988 partiu do princípio de que não se pode baixar a arrecadação. No máximo, o objetivo deve se limitar à simplificação de certos trâmites, especialmente do ICMS.

Por enquanto, o governo federal parece mais interessado em demonstrar que a redução das alíquotas dos impostos tende a elevar a arrecadação, porque puxaria o consumo e, portanto, também a base tributária sobre a qual se assenta. É o que se pode tirar das palavras do ministro Paulo Bernardo: "Se baixarmos os impostos, o mercado não vai crescer apenas 130% como nos últimos 15 meses (ele falava da telefonia), vai crescer 250%, vai bombar".

Há anos, os líderes da indústria automobilística vêm tentando convencer o governo de que essa é a estratégia mais adequada para o setor de veículos - encarado há anos pelo setor público como poedeira inesgotável de ovos de ouro. Há alguns anos, o Dieese divulgou estudo que chegou à impressionante conclusão: o comprador de um carro zero entrega ao governo um veículo novo a cada 6 ou 7 anos (dependendo do tipo e da marca) apenas em impostos cobrados sobre o próprio automóvel, sobre peças e sobre combustíveis. Não há revisões mais recentes desses cálculos, mas seus resultados não devem ser muito diferentes hoje.

Essa estratégia de tentar baixar tributos para arrecadar a mesma coisa (ou até mais) não deve ter fôlego longo. Entre outras razões, isso se dá porque os governantes sofrem de coceira irresistível e sem remédio, que é a impressionante propensão de arrecadar. Os políticos sempre querem mais.

Como ocorreu com o Plano Real, que debelou a inflação em 1994, o dirigente que enfrentar corajosamente essa montanha insuportável de custos obterá generoso reconhecimento do eleitor.

Desânimo nas empresas - VINICIUS TORRES FREIRE


FOLHA DE SP - 22/05

Executivos de vários setores dizem que adiaram planos de expansão para o fim do ano -se a crise lá fora parar



EXECUTIVOS DE médias e grandes empresas esperavam retomar investimentos e contratações neste segundo trimestre. Para tanto, esperavam também sentir melhoras no ambiente econômico doméstico e ver movimentações na concorrência -sim, de outras empresas do ramo.

Alguns ainda contavam com a retomada do ânimo de clientes estrangeiros. Por fim, acreditavam que os bancos relaxariam a concessão de crédito, pelo menos neste maio.

Viram pouco ou quase nada do que esperavam, é o que se depreende de uma rodada de conversas com associações empresariais e empresas da área de máquinas, química, venda de veículos, máquinas agrícolas, material de construção civil e incorporadoras de imóveis.

Em vez de iniciar agora o plano de expansão para o ano, alguns setores adiaram tais providências para o quarto trimestre.

É comum ouvir desses executivos que a decisão de "esperar para ver" fora tomada mesmo antes do retorno da crise europeia. O temor de tumulto maior apenas ratificou a retranca. Os executivos reclamam de alta de custos aqui dentro, preços ruins lá fora e crédito ainda difícil.

Os mais dados à exportação dizem que apenas vão saber se o câmbio vai ajudar se o real continuar desvalorizado mais ou menos no patamar atual (uns R$ 2,02) até o fim do ano, e se "a coisa lá fora não ficar pior". Quem depende de insumos e peças importadas, porém, já reclama que a "margem [de lucro] vai para o beleléu com esse câmbio, salário alto, energia cara etc."

Quem vive de vender bens mais caros para o cliente doméstico diz que o consumidor "que pode não quer; o que quer não pode". Os primeiros estão cautelosos ou já se abasteceram de bens duráveis nos anos de bom crescimento; os segundos têm dificuldade com o crédito.

Sim, trata-se apenas de intuições, "evidências anedóticas", impressões no entanto confirmadas pelos indicadores estatísticos do marasmo do investimento privado pelo menos até abril, pelas vendas fracas de carros, pela redução forte do ritmo de venda de imóveis.

Obviamente o governo está ouvindo essa mesma conversa.

Mesmo economistas de banco e de consultorias, os "analistas de mercado", estão ouvindo tais coisas das empresas e da área operacional dos próprios bancos em que trabalham. Tanto que de um mês para cá mudou o tom da turma em relação à política monetária do Banco Central: sobre a taxa de juros.

De críticos agressivos, alguns desses economistas passaram a quase tolerantes adeptos da Selic a menos de 8% (está em 9% e faz um mês vários diziam que era irresponsável chegar a 8,75%).

O governo pretende evitar a extensão do desânimo. Por isso baixou imposto de carros e facilitou o crédito. Quer evitar que o marasmo das montadoras redunde em demissões e quebras nos setores conexos.

Muito mais não pode fazer, a não ser esperar o efeito da queda da Selic, que virá, do aumento do gasto público, que está vindo, e do câmbio, que vai demorar um pouco a vir. "Virá" não se sabe bem quando, a depender do clima no exterior, embora estejamos nós, no Brasil, bem longe de mergulharmos em crise.

Mas, já não bastasse a leseira do início do ano, o medo de colapso europeu vai estender a paradeira até agosto, na melhor das hipóteses.

Abundância de empregos, até quando? - JOSÉ PASTORE


O ESTADO DE S. PAULO - 22/05

Na última reunião do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho (Cert) da Fecomércio de São Paulo, as discussões se iniciaram sobre a possibilidade de o Brasil continuar criando empregos com base no atual modelo que privilegia o consumo- impulsionado por salário, crédito e transferência de renda.

Os conselheiros estão divididos. Alguns acham que esse modelo está com os dias contados. Outros acham que o modelo já se esgotou.

Todos concordam que o Brasil conseguiu reduzir a pobreza e promover as classes de renda mais baixa com base na estabilização da moeda, nos aumentos de salário ( em especial do mínimo), na transferência de renda e na expansão do crédito.

Em conjunto, essas quatro forças estimularam o consumo e a geração de empregos. A elas se somaram os bons ventos na exportação de commodities.

Mas isso tem fôlego? Em 2011, os juros estavam altos e os consumidores faziam fila para comprar automóveis e motocicletas. Hoje, os juros estão mais baixos, mas as novas prestações não cabem no seu bolso - bastante endividado.

O endividamento impôs cautela aos tomadores e fornecedores de crédito.

A inadimplência em veículos bateu a casa dos 6%, o dobro de 2011. Os consumidores sumiram das concessionárias.

No caso em tela, a retração de demanda foi agravada pelas despesas que normalmente se acumulam nos primeiros meses do ano - IPTU, IPVA, matrícula escolar e outras. Há, ainda, o fato de que os consumidores da classe C que compraram o seu primeiro veículo há um ou dois anos não têm condições de trocá-lo novamente, mesmo porque devem mais que o valor do bem que possuem.

O esfriamento desse setor preocupa quem acompanha o mercado de trabalho, porque a cadeia de produção de veículos é muito longa e afeta quase toda a indústria e muitos empregos. No primeiro trimestre de 2012, a produção industrial em São Paulo caiu 6%; no Rio de Janeiro, quase 7%. Só aumentou no Nordeste, 4%.

Apesar da existência de uma massa salarial robusta e que pode sustentar um bom nível de emprego até o fim do ano, o quadro em 2013 é incerto. O emprego de amanhã depende do investimento de hoje.

O modelo de crescimento baseado no consumo pouco pode fazer para formar poupança e alavancar os investimentos dos atuais 18% para 22% ou 23% do PIB. A disparada salarial e o aumento dos benefícios têm pressionado (para cima) o custo unitário do trabalho, propelido também por benesses aprovadas por leis, decretos e portarias que encarecem a contratação. Os lucros das empresas caíram 17% no último trimestre, o que afeta o investimento.

Este também caiu 2,5% em relação ao último trimestre de 2011.

A esse quadro se somam as incertezas advindas do quadro internacional.

A China está desacelerando, a Grécia criou o caos na Europa e os Estados Unidos andam de lado. Tudo indica que o Brasil crescerá cerca de 2,5% - o que é pior que o fiasco do ano passado, quando o PIB cresceu apenas 2,7%.

Com investimentos cadentes, não há como antever a sustentação do emprego para os anos futuros.

Foi esse tipo de análise que levou os conselheiros do Cert a considerarem o atual modelo de consumo como esgotado ou prestes a se esgotar.

Mas, neste ponto, surgiu outra divisão, ainda mais preocupante. Enquanto alguns acreditam na liderança da presidente Dilma para fazer as reformas e tirar o Brasil da trilha do desemprego, outros acham que o modelo não vai mudar, pois é ele que tem garantido preciosos dividendos eleitorais aos governantes de plantão, e assim continuará até a chegada de uma crise profunda.

Embora eu tenha esperança de que as coisas mudem antes de um grave desastre, não ouso desafiar os meus colegas de conselho que conhecem a cultura dos políticos brasileiros melhor do que eu. E você, leitor, acha que um país pode crescer sem investimentos e só com base no consumo?

Razões do pêndulo - JOSÉ PAULO KUPFER


O Estado de S.Paulo - 22/05


Os recursos externos, que até nem dois meses atrás ingressavam com tanta volúpia - contribuindo para uma excessiva valorização do real -, começaram a dar no pé. Ao mesmo tempo em que as ofertas de crédito passaram a escassear, os pregões na Bolsa recuaram a ponto de comer os ganhos do primeiro trimestre, e mesmo projetos com o concurso de capitais externos diretos, já perfeitamente definidos, subiram no telhado ou encolheram.

Não é fácil entender mudança de humor tão abrupta. As manifestações de preocupação com os rumos da economia brasileira, que agora estão pipocando na imprensa especializada internacional, não ajudam muito a encontrar as verdadeiras respostas. Aparentemente, os analistas e os investidores que seguem suas orientações acabam de "descobrir" que, com o estilo de crescimento vigente, a economia brasileira bateu no muro.

Com baixo investimento e baixa poupança, crescer com base no consumo, sobretudo quando este é impulsionado pelo crédito, tem limites. O crescimento modesto do PIB em 2011 e a perspectiva de que uma expansão tímida se repita em 2012 teriam acendido luzes amarelas e chamado a atenção para as fragilidades estruturais da economia brasileira, resumidas numa história nem tão recente de baixa produtividade. Será que só agora os entraves apareceram?

O diagnóstico estrutural é verdadeiro - e não é novidade. Por isso, seria um tanto ingênuo acreditar que a possível virada do pêndulo se deva a essa "descoberta". São outros os motivos, com origens a um oceano de distância, que encabeçam a lista das verdadeiras novas rejeições ao antes "queridinho" dos aplicadores externos.

Nas últimas semanas, a crise na Europa piorou muito e ninguém sabe o que acontecerá com um calote da Grécia e sua saída da zona do euro, duas possibilidades cada vez mais presentes. O sistema bancário dos países encalacrados do continente, adicionando nuvens carregadas ao ambiente, dorme no fio da navalha e já não se discorda de que, sem a liquidez produzida pelo Banco Central Europeu, a possibilidade de colapso em cadeia é enorme. Está claro agora que as análises indicando lenta, mas firme, recuperação europeia, comuns há nem seis meses, eram mais do que otimistas - refletiam armadilhas ideológicas.

Tantas incertezas e tanto medo do desconhecido estão causando um nível inédito de aversão ao risco, nos mercados financeiros. As corridas aos bancos, nos países europeus mais afetados pela crise, cada vez mais frequentes, provam isso e, num quadro assim, nada mais natural que o refluxo de recursos para o dólar, mesmo diante de uma recalcitrante recuperação da economia americana. A ordem é "voar para a qualidade", ainda que, depois de 2008, os requisitos da qualidade tenham sido rebaixados.

A memória costuma ser curta e, por isso, não custa lembrar que ocorreu, faz exatamente um ano, uma outra onda de rejeição da economia brasileira, no mesmo estilo. Na época, o temor era o de uma bolha de crédito, que, de certo modo, e em versão mitigada, insuficiente para repelir investimentos, só foi dar as caras neste primeiro trimestre de 2012.

Na origem daquele sacolejo na posição brasileira de "queridinho" do mercado financeiro, estava a sensação de que as coisas, depois de um momento em que pareciam apontar para o bom caminho, não melhoravam na economia global, dando margem a avaliações de que se estava às portas de um "duplo mergulho". Quanto ao Brasil, então com juros domésticos no pico e a valorização do real em ponto máximo, os alertas ganharam espaço na mesma imprensa especializada internacional que hoje acolhe análises pessimistas sobre o Brasil. Na época, em agosto, derrubaram a Bolsa abaixo de 50 mil pontos. Logo, contudo, as advertências morreriam de inanição, por falta de fatos reais que as alimentassem.

Agora a situação está bem diferente - e bem menos atraente, de fato, do ponto de vista do investidor externo. A velha aversão ao risco alcançou níveis desconhecidos em décadas. No Brasil, câmbio e juros mudaram de direção, espremendo a rentabilidade das aplicações. Isso sem falar nos potenciais impactos negativos dos recuos nos mercados globais de commodities sobre empresas brasileiras do setor, como Petrobrás e Vale, que respondem por quase metade do movimento da Bolsa brasileira.

A moral da história é que, momentaneamente, o Brasil está deixando de ser o "queridinho" não propriamente pelos seus problemas econômicos estruturais, mas pela conjuntura internacional e pelo corte, com juros mais baixos e câmbio mais alto, na rentabilidade das aplicações externas. Se aproveitar a oportunidade e atacar suas reais fragilidades, deixar de ser o "queridinho" dos mercados financeiros pode ser não o problema, mas parte da solução para o País.

Não dá para esperar - BENJAMIN STEINBRUCH


FOLHA DE SP - 22/05



As ações para destravar o crédito, que começam a ser anunciadas pelo governo, são necessárias e urgentes



Há coisas com as quais não se pode brincar. Uma delas é o crescimento da produção, principalmente nas economias ainda não desenvolvidas. Nesses países, recessões são trágicas e estagnações, como a que o Brasil viveu no primeiro trimestre, preocupam e assustam.

A indústria brasileira passa por um momento difícil e seu encolhimento é coisa séria. Já era inquietante no ano passado e continua sendo neste ano. Quem ainda não viu deveria dar uma olhada nos dados da produção da indústria no primeiro trimestre.

Em todo o país, a queda de produção foi de 3% em termos anuais, comparando o primeiro trimestre deste ano com o mesmo período do ano passado.

As cifras regionais são ainda piores. No Sudeste, há perdas fortes em São Paulo (6,2%), no Rio (6,8%), em Minas Gerais (1,4%) e no Espírito Santo (2,4%). O Sudeste, por mais que tenha havido descentralização industrial, responde ainda por 60% da produção nacional.

Não há discussão sobre a principal causa da queda de ritmo da indústria no Sudeste: é a redução de atividade nas montadoras de veículos, que se concentram nessa região e ainda são o carro-chefe do setor manufatureiro. A produção de carros caiu quase 25% em São Paulo e 40% no Rio no primeiro trimestre.

Além disso, a indústria foi prejudicada porque as chuvas torrenciais no período fizeram baixar a produção de minério de ferro em Minas. O setor da metalurgia básica, em consequência, teve queda de produção de 45% na comparação com o primeiro trimestre de 2011.

Também não há discussão sobre a principal causa do encolhimento das vendas de veículos: é a falta de financiamento. Está aí, portanto, um problema que precisa ser enfrentado. Cada vez mais os analistas se convencem de que a economia, apesar da redução dos juros, não deslancha porque o crédito cresce pouco em alguns setores, em especial no de veículos. E também porque o impacto do corte da Selic se dá muito lentamente nos juros dos empréstimos a pessoas físicas e jurídicas.

No caso dos veículos, há um marcante pessimismo entre os revendedores. O cenário atual contrasta com o de 2011, quando os financiamentos iam até 72 meses. Agora, as financeiras estão cautelosas. Praticamente desapareceu o crédito sem entrada e o parcelamento vai apenas até 48 meses. Isso tira do mercado uma ampla faixa de consumidores em potencial da classe C.

A freada na oferta de crédito a veículos se deu, segundo os bancos, porque houve aumento da inadimplência. Em março, 5,7% das pessoas que tomaram crédito para comprar veículos estavam com a mensalidade atrasada mais de 90 dias. Considerando os atrasos de 15 a 90 dias, o índice subia para 8,5%.

Diante dessa tendência, os bancos se tornaram mais seletivos para oferecer novos empréstimos. Índices de inadimplência batem direto no resultado dos bancos, porque elas precisam aumentar suas provisões na medida em que cresce o índice de pagamentos em atraso.

Olhando para o gráfico da evolução da inadimplência, as curvas não parecem tão perigosas. Nas várias modalidades de crédito, os níveis mantêm-se dentro de parâmetros seguidos nos últimos quatro anos. Mas esse é um problema cuja administração cabe aos bancos.

Na indústria, várias razões explicam o encolhimento, entre elas a concorrência externa, o câmbio que somente agora atinge nível razoável e a eterna carga tributária elevada. Um fato inquestionável é que, neste momento, o travamento do crédito assume importância maior porque atinge setores muito dinâmicos e puxadores de tendência, como os de veículos, eletrodomésticos e material de construção.

Pelo que se vê no cenário global, especialmente na União Europeia, não dá para contar com o mercado externo para ativar a economia, mesmo com o câmbio favorável. Então, mais do que nunca, o país terá de estimular seu próprio mercado para crescer pelo menos 3,5% a 4% neste ano e forjar investimentos. Foi assim que se superou a crise de 2008 e assim terá de ser agora.

Por isso, as ações para destravar o crédito, que começam a ser anunciadas pelo governo, são necessárias e urgentes.

CLAUDIO HUMBERTO

“Antes, o mundo espirrava lá fora e pegávamos pneumonia”
Presidente Dilma, jurando que o Brasil está “300% preparado” para a crise internacional

MG: PSDB FEZ ALIANÇA, MAS TRAI MÁRCIO LACERDA

Apesar de ter fechado aliança pela reeleição de Márcio Lacerda (PSB) à Prefeitura de Belo Horizonte, o PSDB mineiro opera, nos bastidores, para enfraquecer sua candidatura. O senador Aécio Neves liberou os tucanos a pedirem apoio para o concorrente Leonardo Quintão (PMDB), em reação ao acordo feito por Lacerda de apoiar o PT a sua sucessão e, em troca, obter apoio para concorrer ao governo de Minas em 2014. 

MAL-ME-QUER

De olho nas eleições presidenciais, Aécio Neves ficou ainda mais irritado após o PSB fechar aliança pela reeleição de Dilma.

FATOR LULA

O apoio do PSB à reeleição de Dilma foi fechado pelo presidente do PSB, governador Eduardo Campos (PE), com o ex-presidente Lula.

BARBA, CABELO...

Na negociação com Eduardo Campos, Lula costurou o apoio do PSB ao candidato petista a prefeito de São Paulo, Fernando Haddad.

VIROU RELÍQUIA

O deputado Nelson Pellegrino (PT-BA) deu um destino à gravata que Paulo Maluf (PP-SP) tirou do pescoço e lhe deu: “Foi para o museu”.

DEPUTADO COMPARA NEGÓCIO DE WAGNER A PERILLO

O deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA) estranha que o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), tenha comprado luxuoso apartamento (no Corredor da Vitória, área nobre de Salvador) de familiares de César Santana, suposto mandante do assassinato de um sindicalista, Paulo Colombiano, “enquanto o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), paga caro por ter vendido casa ao sobrinho de Cachoeira”. 

TIM-TIM!

Custará US$ 8 mil à nossa embaixada em Cingapura o coquetel da missão empresarial do governador Renato Casagrande (PSB-ES). 

PÕE NA CONTA

O Ministério da Cultura bancou R$ 165,6 mil para o livro Uma viagem em 88 fotos pela Era Lula. O material estará também na internet. 

VIVA A QUADRILHA

É grave a seca em Monteiro (PB), mas a prefeitura não poupou artistas para o Festival de Quadrilhas, de 1º a 21 de junho. Está explicado. 

NA CABEÇA

O deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) pode virar hit no carnaval, com a marchinha “Você é nosso, e nós somos teu”. De guardanapo na cabeça, com Angela Guadagnin, aquela gordinha da dança da pizza. 

SCRIPT DE OPOSIÇÃO

Opositor do governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), o senador Sérgio de Souza (PMDB) quer saber do bicheiro Carlos Cachoeira exatamente qual a extensão e como operava o esquema no Sul do País. 

RECUO TUCANO

O PSDB-DF deu um tempo nas tratativas para fazer do senador Alvaro Dias (PR) candidato à sucessão de Agnelo Queiroz (PT), cuja reeleição é difícil. Empresário em Brasília, Dias prefere continuar no Senado.

ALOPROU GERAL

O ex-segurança aloprado de Lula, Freud Godoy perdeu indenização na Justiça paulista contra o Globo, que denunciou suposta contratação superfaturada da empresa de Godoy, a Caso Sistemas, pela Bancoop. 

FUNÇÃO DE ESTADO

Gilson Dipp informou ontem, em boa hora, que a Comissão da Verdade é de Estado e não se subordina a ninguém. É que se discute, em rodas jurídicas, a tese de que Dipp, como membro do Judiciário (ele é ministro do STJ), estaria impedido de exercer função subalterna no Executivo.

FALTA O EMBAIXADOR

Com a expulsão do diplomata Hekmatollah Ghorbani, 50, acusado de pedofilia, o governo do Irã desautorizou seu embaixador em Brasília. Ele atacou a imprensa e disse que seu subordinado tarado fora vítima de “diferenças culturais”. O embaixador deveria se demitir.

ALMA DO NEGÓCIO

Com dois anos de atraso, o governo do Rio distribuiu o balanço social de 2010: a estrela do livro – aliás, chique – é a primeira-dama Adriana Ancelmo, recebendo medalhas e posando com d. Marisa Letícia.

S.O.S. ARQUIVO PÚBLICO

O Arquivo Público do DF mandou seus funcionários informarem as senhas de acesso dos respectivos computadores a uma “Comissão de Tecnologia da Informação”, de pessoas sem vínculos ao órgão. Teme-se pela transferência de dados do valioso acervo do Arquivo Público.

PENSANDO BEM...

...Tem gente botando lenha demais no forno da pizza do Cachoeira. 


PODER SEM PUDOR

PROFISSÃO: GENRO

O governador Plácido Castelo perfilou o secretariado no aeroporto, ao receber o marechal Castello Branco na primeira visita a Fortaleza após o golpe de 64. Castello parou diante do chefe da Casa Civil, de 21 anos:

– Você é muito jovem. E a sua profissão?

– Jornalista.

– Muito jovem, muito jovem... – balbuciou o presidente, impressionado.

– E genro, presidente!... – completou o secretário, esclarecedor.

Castelo Branco deu uma sonora gargalhada. Estava diante de Dário Macedo, jornalista que depois faria carreira de sucesso em Brasília.

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: Governo tenta de novo conter queda do PIB pelo consumo
Folha: Governo reduz impostos para estimular consumo
Estadão: Como em 2008, governo corta IPI de carros e amplia crédito
Correio: Carro fica até 10% mais barato a partir de hoje
Valor: Governo corta IOF e reduz a zero juro real de máquinas
Estado de Minas: Savassi apela para segurança privada
Jornal do Commercio: Pacote estimula a compra de veículos
Zero Hora: Pacote torna venda a crédito mais barata e reduz preço do carro

segunda-feira, maio 21, 2012

A dignidade vale mais que a vida - LYA LUFT


REVISTA VEJA
Voltando da Itália, da qual a gente nunca se cansa, curtindo a arte, a história, a beleza natural e os lugares mais charmosos, também tentando avaliar a crise por lá, trouxemos na bagagem vários novos aprendizados. Embora em todas as cidades que visitamos na Lombardia, no Vêneto e na Toscana não tenhamos sentido a crise diretamente, com restaurantes, hotéis e praças cheios de italianos alegres com crianças (dos turistas em manadas falo depois), vimos notícias de cinco suicídios devidos a esse fantasma chamado Crise. Em geral operários, aposentados e pequenos empresários sem esperança, cansados de lutar, ou esmagados por dívidas. Um deles deixou o bilhete lacônico: "Às vezes, a dignidade vale mais que a vida".
O cuidado com a dignidade humana também aparece na valorização da idade e do ser natural, sem a nossa obsessão por dietas ou caras deformadas por cirurgias excessivas. Chama atenção o grande número de pessoas de bengala em museus, praças, trens, aeroportos. Isso me atingiu pessoalmente: há muitos anos, sabendo que um dia teria de apelar para ela, a bengala, que hoje uso para me mover melhor, dava-me uma sensação de tristeza. Pois nesses dias italianos fiz dela minha amiga, andei por toda parte, curti como nem esperava, e senti os benefícios de uma cultura na qual a juventude não é a única fase valorizada e se favorece quem tem qualquer problema físico. museus com enormes escadarias reservam ascensores para quem deles precisa, e ao natural nos encaminhavam para lá. O acesso a toda parte é simples, gente espontaneamente cedendo lugar, estendendo a mão com gentileza e naturalidade. Se hoje podemos viver mais, que seja com qualidade de vida ótima, participando de tudo, em lugar de nos recolhermos melancolicamente em casa.

Um dos segredos de uma boa viagem é buscar, além daqueles pontos óbvios, alguns lugares pequenos, quase desconhecidos, que guardam tesouros incalculáveis: igrejinhas do século IV, abóbadas de mais de 1000 anos cobertas de mosaicos minúsculos em bom estado e, exposto num jardim, o trono de Átila, rei dos hunos. na ilhazinha de Torcello. junto de Veneza. talhado em pedra, sóbrio e simples, não revelando o poder brutal daquele que dominou e devastou boa parte da Europa antiga.

Se a extraordinária beleza de tantas obras está conservada por toda a Europa, na Itália parece que ela tem um brilho particular: lá. a Alta Idade Média e o Renascimento fizeram explodir em todo o seu esplendor o belo, o sublime de que o ser humano é capaz. E, porque somos humanos. esse período de luxo também centralizou opressão e crueldade. Visitamos em Florença o convento de San Marco. onde morou Savonarola. monge fanático que enviou para a fogueira milhares de inocentes. Mas cada uma das inúmeras celas do convento foi decorada por Fra Angelico, merecendo horas de silencioso encantamento.

As hordas de turistas exaustos, às vezes desinteressados, impedem em vários lugares essa contemplação demorada e tranquila. Como o turismo crescente é inevitável, e nem todos os turistas têm real desejo de apreciar a arte, penso que cada vez mais se visitarão tais lugares em casa, na internet, podendo-se ver e estudar todas as obras sem se acotovelar entre tanta gente. O melhor da humanidade (e, como sempre, o pior) começa a estar ao alcance do mouse de qualquer bom computador. Não é a mesma coisa, mas permite o luxo da tranquilidade para saborear o que, sendo contraditórios, produzimos de magnífico, além do feio, do medíocre ou do grotesco.

Além desse mergulho cultural e estético, que renova e reconcilia, da perspectiva dos problemas locais, que muda com o afastamento geográfico, da alegria pela preservação de tesouros de um passado em que o ritmo da vida permitia que engenho e arte produzissem maravilhas, veio comigo a pontinha de tristeza daquela dolorosa. respeitável frase (que cada um por aqui pode interpretar como puder): "Às vezes, a dignidade vale mais que a vida".

Fora de controle - J. R. GUZZO

REVISTA VEJA

Se a presidente Dilma Rousseff estiver interessada em resolver muita coisa que faz o governo brasileiro ser tão ruim, uma boa ideia pode ser encontrada bem perto do seu local de trabalho, em Brasília mesmo, na Quadra 03, Bloco O, do Setor de Autarquias Sul. É onde funciona a Receita Federal brasileira, e a presidente ganharia de graça, ali, uma grande lição. Bastaria perguntar como foi resolvida uma questão fundamental para a própria Receita, e para o interesse público - o recebimento, a cada ano, das declarações do imposto de renda. Se repetisse em metade do seu governo o que a Receita faz com tanta competência nessa operação, a presidente talvez entrasse para a história do Brasil como uma heroína - a Santa Guerreira que venceu o Dragão da Maldade. É esse bicho que comanda a inépcia, a preguiça e a burrice da burocracia nacional.

A Receita Federal acaba de receber mais de 25 milhões de declarações de renda - quase tudo pela internet, sem que ninguém precise sair de casa, falar com um único funcionário ou fazer fila. Não há papel de espécie alguma. O contribuinte não tem de preencher formulários ou enviar qualquer documento - nem comprovantes da renda que recebeu, nem recibos das despesas que teve. A Receita não lhe manda protocolos ou certidões; fica tudo registrado no computador. O cidadão não precisa assinar nada - e se não precisa assinar também não tem de reconhecer firma. O que vale é a sua assinatura eletrônica, que o identifica como autor da declaração. Ao fim das contas, o Fisco ganha porque consegue receber; a população ganha porque consegue declarar. É um espetáculo de classe mundial. E, também, uma prova indiscutível de que pode haver eficácia na máquina pública.

Por que, num governo que funciona o mal, há um serviço que funciona tão bem? É comum ouvir-se que a tecnologia fez tudo. É um equívoco. O que realmente ganhou essa parada foram as ideias inteligentes, e não a eletrônica. A primeira delas foi perceber que o verdadeiro inimigo era a burocracia da idade da pedra que envenena o poder público no Brasil; se tivesse de se conformar com as suas regras, a Receita não conseguiria, fisicamente, manter vivo o imposto de renda. Adotou, então, um princípio brilhante: mandar para o diabo as normas idiotas, caprichosas e inúteis que ameaçavam a execução de uma das suas principais tarefas e recomeçar do zero com um sistema destinado, acima de tudo, a resolver o problema que tinha de ser resolvido. A segunda atitude foi decidir que o contribuinte, em sua declaração, não tem de provar nada. Ele é, simplesmente, o responsável pelo que declara; depois, se houver problemas, tem de comprovar o que afirmou. É o contrário, exatamente, da postura sagrada da administração pública brasileira.

É pouco comum que se aponte algum mérito num órgão do governo - especialmente nesse, a Receita Federal. Com a possível exceção de Jesus Cristo, que ficou a favor do publicano desprezado por todos, jamais alguém gostou de um coletor de impostos ao longo da história humana. Tudo bem - mas o fato é que, com as declarações de renda, a Receita tem feito um trabalho impecável. Daria para imaginar algo parecido no resto do governo?

Os sinais não são nada bons. A presidente Di1ma não gosta dessa conversa; já chamou de "cegos" os que propõem simplificar o governo. Acha, ao contrário, que o importante é ter mais "controles". Recentemente, ainda, falava-se em Brasília sobre uma "reforma gerencial" pela qual seria possível controlar a cada quinze minutos quantas pessoas pegaram senha nos postos do INSS, obrigar os ministros a apresentar relatórios semestrais de resultados ou enviar direto para a sala da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e durante as 24 horas do dia, imagens do que está acontecendo nos aeroportos - embora não esteja claro o que a ministra Gleisi pode fazer com tanta imagem assim. Enquanto isso, segundo reportagem recente de O Estado de S. Paulo, o poder público escreve mais de 2 milhões de palavras a cada dia útil, na forma de leis, regulamentos, decretos e por aí afora. Um livro que reunisse só a legislação tributária atual pesaria mais de 7 toneladas. Ou seja, o que está acontecendo, mesmo, é uma situação que fugiu a qualquer tipo de controle - o exato oposto do que quer a presidente. É o estouro de uma manada de mamutes. Mas Dilma, ao contrário da Receita, acha que reduzir a quantidade de mamutes é uma ideia falida. Vai acordar amanhã, como todos nós, com mais 2 milhões de palavras na cabeça.

A implosão de uma empreiteira - REVISTA VEJA

Revista Veja 

Acusada de irregularidades e pagamento de propina, a construtora Delta, uma das maiores do país, agoniza. Nos bastidores, seu dono ameaça revelar segredos que comprometeriam políticos e outras grandes empreiteiras

Otávio Cabral e Daniel Pereira

É absolutamente previsível a explosão que pode emergir de uma apuração minuciosa envolvendo as relações de uma grande construtora, no caso a Delta Construções, e seus laços financeiros com políticos influentes. A empreiteira assumiu o posto de líder entre as fornecedoras da União depois de contratar como consultor o deputado cassado José Dirceu, petista que responde a processo no Supremo Tribunal Federal (STF) no papel de "chefe da organização criminosa" do mensalão. Além disso, consolidou-se como a principal parceira do Ministério dos Transportes na esteira de uma amizade entre seu controlador, Fernando Cavendish, e o deputado Valdemar Costa Neto, réu no mesmo processo do mensalão e mandachuva do PR, partido que comandou um esquema de cobrança de propina que floresceu na gestão Lula e só foi desmantelado no ano passado pela presidente Dilma Rousseff. A empreiteira de Cavendish é dona da maior fatia das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e tem contratos avaliados em cerca de 4 bilhões de reais com 23 dos 27 governos estaduais. Todo esse império começou a ruir desde que a Delta foi pilhada no epicentro do escândalo envolvendo o contraventor Carlos Cachoeira. Se os segredos de Cachoeira são dinamite pura, os de Cavendish equivalem a uma bomba atômica. Fala, Cavendish!

Na semana passada, a CPI do Cachoeira aprovou a convocação de 51 pessoas e 36 quebras de sigilo bancário, fiscal e telefônico. Os números foram festejados pela cúpula da comissão como prova inconteste da disposição dos parlamentares para investigar os tentáculos da máfia da jogatina nos partidos políticos, na seara das empreiteiras e na administração pública. Sob essas dezenas de votações, no entanto, esconde-se a operação patrocinada pelo ex-presidente Lula e alguns políticos para impedir que a bomba atômica de Cavendish seja detonada. A estratégia é enaltecer as convocações e quebras de sigilo relativas a empresas e personagens já fartamente investigados pela Polícia Federal. Assim fica mais fácil despistar as manobras para evitar que Cavendish conte tudo - mas tudo mesmo - o que sabe sobre como obter obras públicas pagando propinas a pessoas com poder de decisão nos governos. Investigar a Delta, aliás, foi considerada a tarefa prioritária pelos próprios delegados da Polícia Federal que prestaram depoimento à CPI. Eles disseram que desvendar os mecanismos subterrâneos de concessão de obras públicas no Brasil seria o maior legado da CPI. Fala, Cavendish!

Deflagradas pela Polícia Federal, as operações Vegas e Monte Carlo revelaram o envolvimento do contraventor Carlos Cachoeira com políticos como o senador Demóstenes Torres (ex-DEM) e Cláudio Abreu, ex-diretor da Delta na Região Centro-Oeste. Entre outras atividades, o trio agia para abrir os cofres dos governos estaduais e federal à empresa. Para tanto, ofereceria propina em troca de contratos. A PF colheu indícios desse tipo de oferta criminosa, por exemplo, em Goiás e no Distrito Federal. Foi com base nessa delimitação geográfica que os petistas defenderam uma investigação sobre a atuação da empreiteira apenas na Região Centro-Oeste - tese que saiu vitoriosa na semana passada. "Não há conversa gravada do Cachoeira com o Fernando Cavendish. A CPI não pode se transformar numa casa de espetáculo", bradou o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP). "A generalização beira a uma devassa", reforçou Paulo Teixeira (PT-SP). Os petistas cumpriram à risca as ordens dadas por Lula um dia antes, quando ele esteve em Brasília para a cerimônia de instalação da Comissão da Verdade. A ordem foi calar Cavendish. Mas o correto é o contrário. Fala, Cavendish!

O ex-presidente sabe do potencial de dano ao PT e a seus aliados caso Fernando Cavendish conte como a sua Delta conseguia seus contratos de obras e, em troca, pagava políticos. Numa conversa gravada com ex-sócios, Cavendish os incentivou a cortar caminho para o sucesso comprando políticos. Na tabela da corrupção da Delta, um senador, por exemplo, custaria 6 milhões de reais. A Delta tem obras contratadas por governadores pertencentes aos maiores partidos do país - PT, PSDB e PMDB. Será que essa onipresença da Delta explica as razões pelas quais a CPI decidiu não chamar para depor os governadores Agnelo Queiroz (PT- DF), Marconi Perillo (PSDB-GO) e Sérgio Cabral (PMDB-RJ)? O deputado Vaccarezza deu a resposta. "A relação do PMDB com o PT vai azedar na CPI. Mas não se preocupe, você é nosso e nós somos teu", escreveu em idioma parecido com o português o deputado Vaccarezza numa mensagem de celular destinada ao governador Sérgio Cabral. Captada pelas câmeras de televisão do SBT, a mensagem revela de forma inequívoca o grande arranjo para calar o dono da Delta, amigo íntimo de Cabral. Portanto, é bom repetir a palavra de ordem que pode salvar a CPI do fracasso. Fala, Cavendish!

Nos bastidores, Cavendish tem falado. E muito. Ele usou interlocutores de sua confiança para divulgar suas mensagens. Uma delas foi endereçada aos políticos. Seus soldados espalharam a versão de que a empreiteira destinou cerca de 100 milhões de reais nos últimos anos para o financiamento de campanhas eleitorais - e que o dinheiro, obviamente, percorreu o bom e velho escaninho dos "recursos não contabilizados". Uma informação preciosa dessas deveria excitar o ânimo investigativo da CPI do Cachoeira. Os mensageiros de Cavendish também procuraram solidariedade na iniciativa privada. A arma foi ressaltar que o caixa dois da Delta, que serviu para financiar campanhas, segue um modelo idêntico ao de outras empreiteiras, inclusive usando os mesmos parceiros para forjar serviços e notas fiscais frias. A mensagem é: se atingida de morte, a Delta reagiria alvejando gente graúda. Como o navio nazista Bismarck, a Delta afundaria atirando. Faria, assim, um bem enorme ao interesse coletivo, mas seria mortal aos interesses privados. Os mensageiros de Cavendish têm espalhado que a mesma empresa fornecedora de notas frias da qual sua construtora se servia abastecia outras duas grandes empreiteiras. São essas ameaças, somadas à coloração suprapartidária dos contratos firmados, que azeitam a blindagem da Delta. Como saber se Cavendish está apenas blefando em uma clássica operação de controle de danos? Levando-o à CPI. Fala, Cavendish!

Desde a eclosão do escândalo, a Delta foi forçada a deixar as obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), encomendadas pela Petrobras, e da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), sob responsabilidade do Ministério dos Transportes. A polêmica sobre o destino da empreiteira pôs a presidente e o antecessor em rota de colisão pela segunda vez em menos de dois meses. Lula patrocinou a criação da CPI do Cachoeira ao considerá-la uma oportunidade de desqualificar instituições que descobriram, divulgaram e investigaram o esquema do mensalão, como a imprensa, o Ministério Público, o Judiciário e a oposição. Logo após a abertura da CPI, Fernando Cavendish passou a negociar a empresa com o grupo J&F, cujos donos eram parceiros preferenciais do governo Lula. A venda foi orquestrada pelo ex-presidente. O papel de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central nos oito anos de mandato do petista e atual CEO do J&F, na manobra ainda não está claro. Meirelles não comenta, mas sabe-se que ele, desde os tempos de BC, não assina nada que não tenha a chancela de seus advogados particulares.

O J&F tem 35% de suas ações nas mãos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Mais que isso. Tomou emprestados mais de 6 bilhões de reais no banco. É, portanto, uma empresa semiestatal. Por meio de assessores, a presidente Dilma Rousseff deixou claro que seu governo não apoia a encampação da Delta pelo grupo J&F. A contrariedade de Dilma foi explicitada pela decisão das estatais de tirar a Delta de obras do Dnit e da Petrobras. Dilma determinou à Controladoria-Geral da União (CGU) que declare a empreiteira inidônea e, portanto, proibida de fechar contratos com a União. "O governo fará tudo o que estiver a seu alcance para esse negócio não sair", diz um auxiliar da presidente. Quem conhece Fernando Cavendish mais de perto garante que ele nem de longe vestiria o traje de homem-bomba. Mas como ter certeza de que tem potencial explosivo ou apenas quer minimizar os ataques a ele e a sua empresa? Levando-o à CPI. Vamos lá, coragem. Fala, Cavendish!