quinta-feira, maio 03, 2012

Censo de problemas - EDITORIAL FOLHA DE SP


FOLHA DE SP - 03/05/12


Dados detalhados do IBGE confirmam o retrato de um país que se acomoda com crescimento da economia como solução para tudo


As melhorias sociais e econômicas e a tranquilidade política dos anos 2000 parecem ter eliminado o sentido de urgência diante das carências brasileiras: de educação, de renda, de saúde, de segurança -entre tantos problemas sociais.

Ouve-se o louvor uníssono do crescimento, como se ele, por si só, resolvesse toda a iniquidade. Lamenta-se a mediocridade da educação, em especial na falta de mão de obra qualificada, mas não se vê pressa nem inventividade nas providências para melhorar a escola.

A mais recente publicação dos dados detalhados do Censo 2010 evidencia quão incivilizado ainda é o Brasil. No país da "nova classe média", em mais de 28% das casas a renda mensal por pessoa não passava de meio salário mínimo: R$ 8,50 por dia, o valor de algumas passagens de ônibus. No Nordeste, em 48,4% dos domicílios ela ainda era inferior a isso.

Na idade de cursar ou concluir o ensino médio, 1 em cada 6 jovens de 15 a 17 anos estava fora da escola. Metade dos brasileiros com mais de 25 anos fazia parte do grupo de pessoas sem instrução, ou não havia completado o ensino fundamental (oito anos de estudo) -pessoas que dificilmente chegariam ao ensino secundário.

Já foi pior, costuma-se dizer: em 2000, eram 64% os maiores de 25 anos que tinham menos de oito anos de estudo.

A mortalidade infantil caiu pela metade em uma década. Um feito notável, mas em 2010 era ainda o dobro da americana, ou o quádruplo da registrada na Europa ocidental.

A taxa de fecundidade média declinou a níveis escandinavos. É como se boa parte da população tivesse tomado a iniciativa de racionalizar o uso de seus recursos escassos tendo menos filhos. Sem contar com serviços públicos de qualidade para as crianças, resta a opção de reduzir seu número e investir mais em cada uma delas.

O país que começa a envelhecer pode se tornar maduro sem ter ido em massa à escola. Está à beira de chegar ao período demográfico mais favorável ao progresso econômico e social, aquele em que há mais trabalhadores por crianças e idosos, sem que o trabalho seja qualificado e produtivo o bastante para permitir que a economia dê um salto definitivo para o grupo das nações desenvolvidas.

Os avanços suscitam um clima de autoindulgência, de descaso com mudanças institucionais, de conforto na banalidade das pequenas vitórias. Um consenso acomodatício em torno dos paliativos e da falta de imaginação política e social, seja na oposição, seja no governo liderado pelo PT.

A opção que parece agradar ao governo - JOSÉ RIBAMAR OLIVEIRA


VALOR ECONÔMICO - 03/05/12


Há uma grande distância entre o que desejam os governadores e o que quer o Palácio do Planalto no caso da renegociação das dívidas estaduais. Os primeiros sonham em reduzir o que pagam mensalmente ao Tesouro Nacional por conta dos encargos das dívidas e, dessa forma, abrir espaço para maiores gastos em investimentos. A presidente Dilma Rousseff parece não querer mexer nesta questão, de acordo com sinais que chegam a líderes dos partidos aliados do governo no Congresso. Há indicações de que Dilma prefere uma alternativa que garanta mais recursos para os investimentos sem que isso signifique alívio nas prestações dos governos estaduais.

É bom lembrar que a minuta de proposta de lei complementar, elaborada pela área econômica do governo e que altera a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), não toca nessa questão, abrindo espaço apenas para a discussão dos encargos financeiros pagos pelos Estados. A minuta, como já foi divulgado pelo Valor em meados do mês passado, propõe a alteração do artigo 35 da LRF, para permitir uma nova rodada de renegociação dos débitos estaduais, mas apenas no tocante à mudança do artigo 3º da Lei 9.496, que define os encargos (juros e correção monetária) a serem pagos pelos Estados.

A minuta do projeto não prevê mudança do artigo 5º da Lei 9.496, que trata do limite de comprometimento da receita líquida real, ou seja, do montante máximo da prestação a ser paga mensalmente. A Lei 9.496 diz apenas que os contratos de refinanciamento poderão estabelecer limite máximo de comprometimento da receita líquida real para efeito de pagamento dos encargos financeiros. Os limites que os governadores querem mudar estão, portanto, nos contratos.

Governo não quer reduzir a prestação paga pelos Estados

Para alterar um contrato é necessário que as partes envolvidas estejam de acordo, o que, parece, não é o caso. Essa questão contratual joga luz sobre outro aspecto, que está esquecido até agora. Qualquer mudança na renegociação das dívidas terá que ser pactuada pela presidente Dilma e os governadores, ou seja, esse não é um assunto a ser decidido por deputados e senadores.

Os governadores sabem que se o indexador dos contratos for trocado - atualmente, é o Índice Geral de Preços (IGP) da Fundação Getulio Vargas - e mesmo que haja uma redução da taxa de juros - que hoje varia de 6% a 9% ao ano - pouca coisa vai mudar para suas administrações. Se os juros forem reduzidos e o indexador passar a ser o IPCA, os encargos serão menores e a possibilidade de que os Estados paguem suas dívidas no prazo contratado, sem deixar grande resíduo, aumentará consideravelmente. Mas isso em nada vai melhorar o fluxo de caixa dos Estados, ou seja, abrir espaço para maiores gastos.

Apenas a redução das prestações pagas ao Tesouro deixaria aos governadores mais recursos para gastar. Na verdade, a questão que está na mesa para ser decidida é se os Estados serão autorizados a adiar o pagamento das dívidas para o futuro, liberando mais recursos para gastos imediatos.

Alguns líderes políticos informam que a presidente prefere outra alternativa. Algo na linha do que está sendo proposto pelo grupo de trabalho da Câmara dos Deputados, criado para analisar o problema das dívidas estaduais. A essência dessa alternativa é que as prestações continuariam sendo as mesmas, mas a União se comprometeria a repassar uma parte dos pagamentos feitos para os Estados realizarem investimentos.

O governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), muito ligado à presidente Dilma, chegou a defender essa alternativa durante uma audiência pública realizada no mês passado pelo grupo de trabalho da Câmara dos Deputados, que contou com a participação de outros cinco governadores. Para ele, uma pactuação feita pela presidente com os governadores poderia fazer com que uma parte do que é pago volte na forma de investimentos contratados por meio de convênios firmados pela União com os Estados. Wagner chegou a sugerir que os investimentos sejam definidos em comum acordo entre o governo federal e cada um dos Estados beneficiados.

A proposta enfrenta, no entanto, forte resistência de alguns governadores, que enxergam nela um enfraquecimento da federação, com uma centralização ainda maior das decisões no governo federal. Na mesma audiência pública, o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo (PSD), defendeu a autonomia dos Estados para usar os recursos, mesmo sem criticar diretamente a proposta de Jaques Wagner.

Além da crítica ao crivo do governo federal na escolha dos investimentos a serem realizados pelos Estados, outro reparo que está sendo feito à proposta é em relação à definição de prioridade. Alguns governadores podem achar prioritário usar os recursos em programas de saúde e de educação, por exemplo, do que em obras de infraestrutura. A maioria deles enfrenta dificuldade, atualmente, para pagar o piso salarial dos professores.

Se alguns resistem e querem manter a autonomia, outros podem adotar uma visão mais pragmática e apoiar a proposta, pois a alternativa a ela é ficar sem nenhum recurso adicional. Como a situação atual é ruim, qualquer que seja a vantagem a ser oferecida pela presidente pode ser considerada "melhor do que nada" pela maioria dos governadores, principalmente por aqueles de partidos aliados ao governo federal.

CLAUDIO HUMBERTO

“A partir de agora, é impossível preservar o sigilo”
Senador Álvaro Dias (PSDB-PR), sobre sigilo imposto pela Justiça à CPI do Cachoeira

LIVRO REVELA QUE DITADURA TEVE FORNOS CREMATÓRIOS

O livro Memórias de uma guerra suja (Top Books, Rio), dos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto, vai mudar versões consolidadas de fatos da História recente, e dará relevância definitiva à Comissão da Verdade, no Congresso. Nele, há revelações bombásticas, como a existência, até hoje desconhecida, de fornos crematórios onde o regime militar dava sumiço a presos políticos mortos sob tortura ou em tiroteio.

FLEURY EXECUTADO

O livro revela que o temido delegado Sérgio Fleury não morreu acidentalmente: foi executado por colegas, como queima de arquivo.

CONFESSIONÁRIO

O ex-diretor do Dops-ES Cláudio Guerra, 71, que atuou no Rio, hoje evangélico, resolveu contar o que viu aos autores, capixabas como ele.

SEM MÁGOAS

Os autores de Memórias de uma guerra suja eram jovens e foram vítimas da repressão. Jornalistas bem-sucedidos, não têm mágoas.

MAIS UM BEST-SELLER

A editora carioca Top Books, uma das mais prestigiadas do País, é que vai lançar o livro de 291 páginas, de Rogério Medeiros e Marcelo Netto.

APÓS PRESSÃO DO PMDB, PT TENTA BLINDAR CABRAL

Surte efeito a ameaça do PMDB. O partido ameaçava arrolar de ministros do governo Dilma até o ex-presidente Lula, caso o governador do Rio, Sergio Cabral, fosse convocado para depor na CPI mista do Cachoeira. O relator da comissão, deputado Odair Cunha (PT-MG), deve limitar inicialmente as investigações contra a Delta apenas aos negócios no centro-oeste, onde atuava o ex-diretor Claudio Abreu.

RELAÇÕES PERIGOSAS

Sergio Cabral entrou na berlinda após vir à tona sua relação de amizade, que ele não nega, com Fernando Cavendish, dono da Delta.

NOITES INDORMIDAS

O governador Sérgio Cabral diz que não tem conseguido dormir direito, desde a divulgação de imagens de suas noitadas com Cavendish.

TORNIQUETE VIRTUAL

O deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) garante ter mais vídeos e fotos que constrangem o inimigo Sérgio Cabral. Vai soltá-los a conta-gotas.

AS DORES DE LUPI

O líder do PDT, André Figueiredo (CE), ainda não sabe se vai à posse de Brizola Neto como ministro do Trabalho. Ele diz que a bancada foi ignorada, mas a presidente Dilma ignorou foi o ex-ministro Carlos Lupi.

INDEPENDÊNCIA

Contrário à opinião da oposição, o senador tucano Cássio Cunha Lima (PB) defendeu, ontem, a convocação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, a depor na CPI mista de Carlos Cachoeira.

FALTA EXPLICAR

O senador Fernando Collor (PTB-AL) e os deputados Cândido Vaccarezza (PT-SP) e Silvio Costa (PTB-PE) querem Roberto Gurgel explicando por que o inquérito dormitou nas gavetas sem providências.

DADÁ JÁ FALOU

O ex-sargento Idalberto Nunes, o Dadá, araponga do bicheiro Carlos Cachoeira, já prestou depoimento na Operação Saint Michel, da Polícia Civil do DF. A investigação é uma sequência da Operação Monte Carlo. 

QUEM MANDA

Em meio ao samba do crioulo doido ontem, em reunião da CPI mista do Cachoeira, foi preciso o presidente Vital do Rêgo (PMDB-PB) subir o tom para colocar ordem na Casa: “Eu que comando aqui!”, bradou.

NANOFOFOQUEIRO

De megalonanico a fofoqueiro: o ministro Celso Amorim (Defesa) usa as redes sociais para espalhar boatos e maledicências contra a oposição, seus críticos e até contra ministros do Supremo Tribunal.

TURISMO DE POBRE

O governador gaúcho Tarso Genro (PT) passou o feriadão em Portugal a pretexto de “aumentar o número turistas portugueses” ao Estado. Se pagar a passagem e a estadia e ainda garantir o emprego, eles vêm.

PREVISÍVEL

Completou seis anos no dia 1º o golpe de R$ 2 bilhões que a Bolívia aplicou no Brasil, surrupiando-nos uma refinaria inteira. A aniversário foi marcado por novo afano, desta vez de investimento espanhóis.

É COISA NOSSA

O motorista iraniano da embaixada do Irã foi assaltado e baleado em Brasília. O Brasil poderá classificar o crime de “diferença cultural”. 


PODER SEM PUDOR

DEFUNTO ELEITOR

Quando fez campanha para deputado estadual no Rio Grande do Sul, em 1974, Elias Bainy adotou como estratégia percorrer velórios em Pelotas. Chegava de mansinho, com ar consternado, e cumprimentava os familiares do falecido. Um dia chegou atrasado a um velório, mas a tempo de segurar a alça do caixão. Reconheceu, ao lado, na outra alça, o irmão de um adversário, que, de tão triste, parecia conhecer o morto. Bainy cochichou:

– Quem é o finado ilustre?

O homem foi de uma sinceridade desconcertante:

– Não sei, mas a família é numerosa e quase todos têm idade de votar.

QUINTA NOS JORNAIS


Globo: Ex-delegado confessa crimes da ditadura
- Folha: Só as futuras poupanças devem ter regras alteradas
Estadão: Blindagem do PT cai e Delta terá investigação ampliada
Correio: CPI quebra sigilos e convoca Cachoeira
Valor: Importações em queda apontam recuperação
Zero Hora: Avança ideia de tornar crime cheque-caução cobrado em hospitais

quarta-feira, maio 02, 2012

Chega de leilão de partidos! - PEDRO ABRAMOVAY


O Globo - 02/05/12


Amenos de seis meses para as eleições municipais, o mundo da política espera uma decisão do TSE. Qual será o tempo de televisão concedido ao PSD? Por que essa decisão é tão importante? Basicamente porque ela define qual é o valor, no mercado eleitoral, do partido criado e liderado por Gilberto Kassab.

Essa ansiedade em torno da definição do tempo de TV do PSD na verdade revela uma profunda distorção do sistema político brasileiro. Uma distorção com sérias consequências, mas que pode ser solucionada de forma relativamente simples.

Se existem muitas críticas à possibilidade de coligações entre partidos para eleições proporcionais (deputados e vereadores), ninguém discute a importância das coligações nas eleições majoritárias (como as de prefeito, que acontecerão em outubro). Afinal, é este o momento em que partidos se unem para oferecer uma proposta de governo. Nosso sistema eleitoral e partidário (chamado de presidencialismo de coalizão) obriga que todo eleito tenha que compor alianças com outros partidos para governar, tanto melhor se essas alianças puderem ser feitas antes das eleições, de forma a permitir que o eleitor chancele não apenas o candidato, mas o arco de alianças proposto.

Neste modelo, partidos se coligariam negociando pontos programáticos e participação em um futuro governo, apresentando ao eleitor quais as forças que governariam em caso de vitória.

Entretanto, não é isso que acontece. O modelo de distribuição do tempo de televisão de cada candidato faz com que a única moeda de troca realmente valiosa que os partidos têm neste momento seja o espaço televisivo. Ideias, propostas e até a governabilidade futura sucumbem a este ativo de valor exclusivamente eleitoral.

Isto provoca uma dinâmica nefasta na qual, definidos dois, no máximo três candidatos competitivos, todos os outros mais de 20 partidos existentes passam a participar de um leilão para que agreguem a um desses candidatos o seu tempo de TV. Este leilão pode envolver ofertas de ministérios, secretarias e até outras mais espúrias na corrida por aumentar o tempo de televisão.

É o que vemos agora na expectativa do mundo político com relação ao tempo de televisão do PSD. O tamanho da oferta ao partido não se relaciona com o peso que seu apoio pode ter para atrair eleitores ou para a governabilidade. O único elemento importante são os minutos que se poderá agregar ao programa de televisão do seu candidato.

Assim, este modelo de distribuição do tempo de TV não apenas desincentiva a formação de coligações programáticas, como estimula um leilão - muitas vezes nada republicano - neste momento pré-eleitoral.

O presidente Lula, em 2009, enviou ao Congresso Nacional um projeto de lei com o objetivo de resolver este problema. Trata-se do PL 4.637/2009 que tramita na Câmara dos Deputados. Se o projeto for aprovado, o tempo de televisão não será distribuído de acordo com a representação de cada um dos partidos, mas apenas em função do partido, membro da coligação, com a maior representação no Congresso.

Este modelo é interessante, pois ele mantém a ideia de que deve haver proporcionalidade entre a representação dos partidos e o tempo de TV (caso contrário todos teriam apenas segundos para falar ou teríamos que ter um horário político interminável), mas ele acaba com a ideia de que cada partido novo na coligação agregaria alguns minutos ao programa do candidato, diminuindo enormemente o interesse em negociar coligações com qualquer partido independentemente de sua coloração ideológica.

Talvez assim os candidatos pudessem passar o período eleitoral se concentrando em programas de governo e na formação de discursos políticos consistentes, e não apenas calculando as ofertas na temporada de leilão de partidos.

As Malvinas de Dilma - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 02/05/12


Discurso contra banqueiro é sempre um sucesso de público - e muitas vezes de crítica - e a presidente Dilma Rousseff tem-se dedicado com notável empenho a essa tarefa. O que não deve surpreender ninguém: os juros cobrados no Brasil, entre os mais altos do mundo, estão muito além de qualquer padrão aceitável, exceto em momentos excepcionais, nos países civilizados. Mas foi um tanto surpreendente a escolha dos juros como tema central de seu pronunciamento de segunda-feira, para comemorar o Dia do Trabalho. Ela aproveitou a celebração para cobrar mais uma vez a redução do custo dos financiamentos, como se fosse essa, neste momento, a ação mais importante para a criação de empregos e para o aumento do bem-estar dos trabalhadores. Os bancos brasileiros, disse a presidente, são muito sólidos e isso é bom para o País, mas nada justifica a manutenção de juros tão altos. Ela exortou o setor bancário, mais uma vez, a seguir o exemplo da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil.

Essa campanha diversifica e enriquece o discurso oficial sobre os grandes entraves ao crescimento econômico e ao desenvolvimento do Brasil. Durante algum tempo, a presidente Dilma Rousseff concentrou os ataques num alvo externo - a política dos bancos centrais do mundo rico, acusados de causar um tsunami monetário. O excesso de dinheiro emitido na Europa e nos Estados Unidos é apontado como causa da valorização do real e da perda de competitividade da indústria brasileira.

É uma campanha politicamente interessante, embora inútil do ponto de vista econômico. Nenhuma autoridade monetária do mundo rico vai mudar sua política para atender o governo brasileiro. Mas a função principal desse tipo de retórica não é resolver problemas. É transferir culpas. No caso dos bancos nacionais, a capacidade de ação do governo é certamente maior, embora limitada. Além disso, a opinião pública é sem dúvida mais sensível a esse tipo de discurso do que à peroração sobre os bancos centrais estrangeiros.

Ninguém, exceto os banqueiros e seus porta-vozes, considera como razoáveis os juros cobrados no mercado brasileiro. As justificativas apresentadas - impostos muito altos, elevada inadimplência, depósitos compulsórios muito grandes - são obviamente insuficientes. Afinal, cerca de um terço do spread, a diferença entre o custo de captação dos bancos e os juros cobrados nos empréstimos, corresponde ao lucro dos bancos. Esse lucro só é sustentável porque o grau de concorrência no setor financeiro é muito baixo e as instituições têm enorme poder na formação de seus preços.

Todos esses pontos foram analisados tecnicamente em vários estudos. Daí a decisão do governo de forçar o aumento da competição por meio dos bancos oficiais. Mas qual a eficácia real dessa estratégia? Instituições privadas cortaram os juros de algumas linhas de financiamento, mas muito mais para dar uma satisfação ao governo e à opinião pública do que para enfrentar, de fato, competidores estatais. O jogo pode não ter acabado e talvez sejam necessários novos lances das entidades federais. Até onde poderão avançar sem comprometer a rentabilidade e sem precisar recorrer ao Tesouro?

Juros são importantes, mas não são tudo. A presidente sabe disso e mencionou a "diminuição equilibrada de impostos" e o combate à sobrevalorização cambial. Mas o governo pouco tem feito nessas e em outras áreas muito relevantes para a competitividade da indústria e para a criação de empregos. Não é preciso insistir na lentidão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), nas deficiências da infraestrutura, nas distorções tributárias, na falta de uma política eficiente de tecnologia e na baixa qualidade do gasto público. A presidente prometeu mais de uma vez melhorar a capacidade gerencial da administração federal. Ficou na promessa.

As campanhas contra o tsunami monetário e os juros altos no Brasil seriam mais dignas de crédito se fossem precedidas de ações sérias para a solução de problemas da alçada direta do governo. Sem isso, a retórica da presidente Dilma Rousseff não se distancia muito das perorações habituais de sua colega argentina. Serão os bancos as Malvinas do governo brasileiro?

Discursar é mais fácil - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 02/05/12


Alguém precisava tratar o comportamento cartelizado dos bancos com a necessária dureza. A presidente Dilma começou uma queda de braço, mas isso é pouco. Não é apenas com retórica que se chega lá.

Seu discurso de 1.º de maio na TV, de forte crítica ao comportamento dos bancos, teve tom inusitado. Mas a única ação prática colocada em marcha até agora - que nem pode ser chamada de política de governo - é a decisão de levar os dois maiores bancos oficiais de varejo, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, a baixar os juros e a trabalhar com planilhas de juros e spreads mais baixos, de modo a arrastar também para baixo os juros cobrados pelos bancos privados.

As primeiras reações das instituições privadas foram insatisfatórias e tende a continuar sendo assim, porque falta ao governo federal capacidade impositiva - algo que os ingleses chamam de enforcement.

Alguns grandes bancos divulgaram tabelas de juros mais baixas do que as anteriormente praticadas, mas logo se viu que se destinavam mais a compor jogo de cena e a dar alguma satisfação à opinião pública do que a levar a sério os efeitos da ação do governo.

Para reduzir os juros, não se pode focar somente os bancos. Os juros praticadas pelas operadoras dos cartões de crédito são ainda mais escorchantes. Se são inaceitáveis os juros cobrados no financiamento de capital de giro para pessoas jurídicas (na média, de 40% ao ano, como apurou o Banco Central) ou no crédito direto ao consumidor (49% ao ano) e se articulam a "lógica perversa" - como denuncia a presidente Dilma -, o que se pode dizer, então, dos juros ao ano do cartão de crédito (238%, conforme levantamento da Anefac) e do cheque especial (176%)? (Veja mais no gráfico.)

Mas, afinal, o que fazer para derrubar os juros ao produtor e ao consumidor? A mais longo alcance, o melhor caminho que o governo federal tem a tomar para ser capaz de restabelecer um mínimo de competitividade no segmento bancário é reduzir sua própria dívida. O grande tomador de crédito no Brasil, em condições até recentemente próximas do monopólio, continua sendo o Tesouro Nacional, que tem no mercado nada menos que R$ 1,9 trilhão em títulos, um pouco menos do que o atual estoque geral de crédito (R$ 2,1 trilhões).

Se têm à sua disposição um devedor que paga bem ("os juros básicos mais altos do mundo") e no mole; se esses financiamentos não oferecem risco de crédito; e se não acarretam custos operacionais relevantes de financiamento; por qual motivo os bancos têm de dar melhores condições para conquistar clientes? Redução da dívida, por sua vez, implica disciplina fiscal. Ou seja, um pouco mais de superávit ajudaria a baixar ainda mais os juros.

Outra providência seria assegurar que a derrubada do spread e dos juros não se limitasse aos contratos novos de crédito, mas que se estendessem aos antigos. As instituições financeiras não temem o crescimento da inadimplência? Pois importante passo para evitar calotes seria renegociar contratos antigos, oferecendo prazos e juros melhores. Os bancos oficiais também poderiam oferecer essa redução dos juros nos contratos antigos aos clientes dos bancos privados que enfrentam custos altos. Um bom incentivo oficial para isso também poderia ajudar.

A terceira providência necessária já foi tratada por esta Coluna em algumas edições anteriores. Consiste em aprovar imediatamente a adoção do cadastro positivo para que seja permitida a redução dos juros para os devedores de baixo risco.

Finalmente, não basta simplesmente derrubar os juros. Igualmente escorchantes são ainda as taxas de administração e as tarifas cobradas pelo sistema bancário - incluídos aí o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal.

Depois do discurso do Dia do Trabalhador, a bola não está apenas com os bancos. Está também com o governo.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 02/05/12


Operadoras enfrentam impasse com prefeituras


As operadoras de telecomunicações estão entre a cruz e a espada.

De um lado, está o governo federal, que estabelece regras para o leilão de 4G, divulgadas na sexta-feira.

Para atendê-las, as empresas terão de triplicar o número de antenas até 2014.

Do outro lado, está a Prefeitura de São Paulo, que entrou na Justiça para impedir a construção de novas torres e exigir a regularização de antenas instaladas em locais considerados inadequados.

Além do desrespeito à ocupação do solo, a proliferação das antenas pode gerar riscos à saúde da população, alega a prefeitura.

A capital tem ao menos 2.677 antenas das operadoras Vivo, Claro e Oi. Cerca de 75% delas são consideradas irregulares pela prefeitura.

A restrição às operadoras não se limita à cidade de São Paulo. Mais de 200 prefeituras aprovaram leis que preveem restrições às torres nos últimos dez anos.

A Claro teve uma sentença desfavorável na semana passada, e outras operadoras sabem que estão na mira.

A Justiça paulista congelou na semana passada a instalação de antenas de telefonia celular da Claro em São Paulo. A decisão decorre de uma antecipação de tutela de ação movida pela prefeitura.

O julgamento ainda não tem data. Se a decisão favorecer a prefeitura, a Claro terá de regularizar suas antenas consideradas ilegais.

O município também move ações semelhantes contra a Vivo, a Oi e a Tim.

FALTA MARX

"Precisava baixar juros. Reduzir taxa de juros sempre foi aspiração de todos. Tem de ir com jeito. Não pode encurralar o sistema financeiro", alertou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ao comentar a pressão do governo para que bancos privados ampliem o corte de taxas.

FHC, que teve encontros com investidores e autoridades no Oriente Médio a convite do Itaú Unibanco, exemplificou com derivativos.

"Não chegaram a fazer nada de mais duro com os derivativos. Mesmo sabendo que eles estavam entre as causas da crise porque ficaram com medo", disse, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, na semana passada.

"Os bancos se ajustaram. Tem de olhar com calma. Terá efeito na inflação?" Para o ex-presidente, não pode "fazer tudo de uma vez".

"Se está avançando, deixa que vá. Não fica empurrando, nem interrompendo à toa", diz.

Reduzir taxas de administração pode ser que mate a "galinha dos ovos de ouro", o capital financeiro, diz FHC.

"Não pode cercear demais. Eles [o governo] custam a entender o papel da finança porque não leram Marx. Se tivessem lido, entenderiam. Pensam que é capital não produtivo. Mas é o coração do sistema. Não pode fazer uma operação cardíaca a frio."

POUPANÇA

"O mais difícil é o que fazer na poupança. Tem de mexer, mas precisa de força política e visão pois é delicado. Pode perder a confiança da população."

DAQUI PARA FRENTE

A Renner deve manter o mesmo ritmo de inauguração de lojas neste ano.

A previsão da companhia é abrir 30 novos pontos da rede de lojas de vestuário e seis da Camicado. Em 2011, foram 30 unidades Renner e duas da Camicado.

Para José Galló, presidente da Renner, a companhia teve nos primeiros meses de 2012 um bom desempenho nas vendas, em comparação com o setor, que sofreu uma desaceleração.

A empresa afirma esperar uma melhora de cenário no segundo semestre.

Galló acrescenta, porém, que, "daqui para a frente, tudo vai ser diferente".

A classe C já se acomodou no mercado. "O ticket médio subiu, o crédito já é 45% do PIB", lembra o executivo.

A inadimplência está sob controle, segundo o presidente da empresa. "O brasileiro é cauteloso", diz.

No primeiro trimestre deste ano, houve queda da inadimplência para o mínimo histórico.

FINANCIAMENTO sem alíquota

Cerca de um mês após o Banco Central estender a cobrança de 6% de IOF para empréstimos no exterior, três bancos conseguiram realizar operações de financiamento à exportação sem o pagamento da alíquota.

Foram utilizadas cédulas de crédito à exportação, uma "ferramenta" criada por legislação nos anos 1970.

Com elas, o empréstimo foi realizado no Brasil.

O valor, no entanto, foi negociado em dólares.

"Não foi muito inovador, buscamos um instrumento que era pouco utilizado. Esses títulos permitem a dolarização", afirma Eduardo Lima, sócio do Tauil & Chequer Advogados, escritório que assessorou os bancos.

A operação foi desenvolvida para um exportador de açúcar e álcool.

No porto A Santos Brasil fechou contrato de cinco anos com a multinacional Schaeffler, de produção de componentes automotivos, industriais e aeroespaciais, com fábrica em Sorocaba (SP), que abastece o mercado nacional e exporta parte da produção.
Reação No setor de químicos de uso industrial, a produção subiu 11,6% e a venda interna, 12,7% no primeiro trimestre ante igual período de 2011, segundo a Abiquim.cristina.frias@uol.com.br

Austrália, Bolívia e Brasil - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 02/05/12
Dilma faz discurso contra bancos privados em meio a estatizações barulhentas em países vizinhos

PRIMEIRO DE MAIO é dia de Evo Morales anunciar estatização, como já o fizera com o gás, geradoras de energia elétrica etc. Ontem, foi dia da estatização de uma empresa de transmissão de eletricidade.

Mesmo no Brasil quase ninguém dá a mínima para a Bolívia, afora a Petrobras, que já teve prejuízo por lá, e empreiteiras. Mas neste 1º de Maio Evo Morales fez mais barulho, pois sua estatização pegou carona na da colega Cristina Kirchner, que faz duas semanas anunciou o confisco da petroleira YPF.

Mais interessante, também por ocasião do 1º de Maio, a presidente Dilma Rousseff fez um discurso em rede nacional malhando os bancos privados.

Não, por favor, não se trata de identificar uma "tendência" sul-americana, mas talvez uma impropriedade de marketing, talvez até inadvertida, do governo de Dilma.

A presidente esteve em rede nacional a dizer que a banca deve lucrar menos, que deve transferir parte de seus ganhos para os clientes, baixando juros e taxas. Certa ou errada, Dilma soou como um eco distante da vizinhança tumultuada.

Dilma é de fato mais intervencionista. Gosta de estatais, interfere pesadamente no câmbio, seu Banco Central é tido quase como heterodoxo, quase tabela preços de combustíveis e seu governo vive um frenesi de medidas de estímulo econômico.

Dilma, mais do que Lula, aumentou a interferência do governo na Petrobras. Usa a empresa como instrumento de regulação do preço da gasolina e do álcool, tabelando seus preços e impondo importações prejudiciais à empresa, que lucra menos. Dilma estatizou as metas de lucro da Petrobras, de certo modo.

Tudo isso é ninharia perto do que fazem Cristina Kirchner na Argentina e Evo Morales na Bolívia, para nem mencionar Hugo Chávez na Venezuela. Além do mais, as instituições brasileiras são muito mais firmes, funcionais e funcionantes.

Por fim, o poder & o dinheiro mundiais ainda estão de amores com o Brasil, posto na turma bem comportada do continente, ao lado do Chile e da Colômbia.

Note-se de passagem que até a organizada e relativamente liberal Austrália toma medidas a fim de capturar parte do lucro das empresas de recursos naturais (como o fazem de modo destrambelhado argentinos, bolivianos e venezuelanos). Mas a Austrália não cai na boca do povo.

Em março, passou no Congresso deles um imposto extra de 30% do lucro das mineradoras de ferro e carvão, além de um imposto sobre emissões de carbono. Parte da receita vai bancar a redução dos tributos para outras empresas.

Mas o governo quer ainda aumentar a contribuição patronal para as aposentadorias.

O governo trabalhista diz que a alta do preço dos recursos naturais supervalorizou o dólar australiano, o que derruba negócios outros que não os de exportação de minérios e carvão.

Os empresários, mineradores em particular, dizem o de sempre: o imposto é confuso, difícil de calcular e vai encarecer o produto australiano, exportando empregos.

Parece a nossa conversa por aqui. Não causa muita sensação. A Austrália, além de rica, arrumada, de falar inglês e de grande aliada dos EUA, não é vizinha da Bolívia ou da Argentina.

Falta combinar o jogo - ROLF KUNTZ


O Estado de S.Paulo - 02/05/12


Com multidões em marcha contra o desemprego, o Dia do Trabalho foi celebrado na Europa como um dia de protesto contra o aperto fiscal e a recessão. Com desocupação acima de 10% da mão de obra, a zona do euro já enfrenta quatro anos de estagnação econômica. Os governos poderiam ter tomado outro caminho e poupado sofrimento a milhões de famílias, segundo a pregação de ilustres economistas. Para mudar a política, no entanto, as autoridades precisam ainda cuidar de um detalhe: combinar com o mercado financeiro. Resolvido esse problema, os governos darão prioridade ao crescimento, empregos serão criados, mais impostos serão recolhidos e as contas públicas serão arrumadas com mais eficiência e menos incômodos para todos. No começo, os buracos orçamentários poderão aumentar, mas sem consequências graves, se os banqueiros e outros financiadores continuarem comprando títulos públicos e rolando as dívidas vencidas. A solução é simples e a argumentação é sedutora, mas a turma do mercado aceitará a combinação? Os críticos da austeridade parecem esquecer ou menosprezar esse detalhe. Mas será muito difícil iniciar outro jogo sem a participação dos credores do setor público.

Esses financiadores têm algumas características altamente nocivas à ação dos governos. Em primeiro lugar, agem como esquizofrênicos, como observou há pouco o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard. Cobram políticas severas de ajuste orçamentário, mas, quando essas políticas prejudicam o crescimento, reagem de forma negativa, como ocorreu de novo, nos últimos dias, quando foi confirmada - sem surpresa - a recessão na Espanha.

Seus critérios de confiança também dificultam a condução de políticas públicas. A dívida espanhola deve ficar neste ano em torno de 79% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo projeção do FMI. O endividamento estimado para outros países é muito maior. Bastam alguns exemplos: 235,8% para o Japão, 153,2% para a Grécia, 123,4% para a Itália, 112,4% para Portugal, 99,1% para a Bélgica, 89% para a França, 88,4% para o Reino Unido, 84% para o Canadá. A dívida americana deve bater em 106,6% do PIB, segundo a mesma tabela.

Essa lista inclui algumas das maiores e mais ricas economias do mundo. Alguns de seus governos têm sido fortemente pressionados pelos financiadores, outros, nem tanto. Alguns têm sido pressionados em alguns períodos, como o da Itália. Outros, de modo mais persistente. O espanhol é um exemplo muito claro, embora seu endividamento seja o menor dessa lista.

"O rigor fiscal é incontornável, se queremos estabelecer fundamentos sólidos e um financiamento suficiente para o crescimento econômico de nosso país", disse na segunda-feira o ministro de Finanças da Espanha, Luis de Guindos. Pode ser difícil persuadir o público espanhol dessa necessidade, mas é indispensável mostrar aos credores, de forma convincente, o compromisso dos governantes. Não adianta apontar o endividamento maior de outros Tesouros. Os financiadores querem saber da Espanha, agora, mas a qualquer momento podem retomar as pressões contra Grécia, Portugal, Itália e até França.

O mais duro defensor das políticas de austeridade tem sido o ministro de Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble. Mas até ele, num tom um pouco menos radical, admitiu uma ação mais ampla do Banco Europeu de Investimentos a favor de mais gastos em infraestrutura. Não chega a ser uma grande concessão, no entanto, porque isso pouco afetaria os esforços de ajuste iniciados pelos governos. O desafio permanece e foi destacado mais uma vez, no mês passado, por dirigentes do FMI: é preciso descobrir um meio de combinar as políticas de arrumação fiscal, consideradas indispensáveis, e medidas para a retomada do crescimento. Sem uma reativação das economias, admite-se claramente nas discussões do Fundo, até o ajuste dos orçamentos poderá ficar comprometido.

Mas essa combinação - isto é também ressaltado - dependerá da mensagem transmitida aos mercados. Planos críveis de médio prazo para o ajuste das contas públicas são indispensáveis para a combinação do jogo. Falta ver se serão suficientes e com quem os credores estarão dispostos a se comprometer. O pacto fiscal assinado pelos governos europeus há alguns meses poderia ser um primeiro passo para a criação de uma perspectiva de médio prazo, mas ainda não produziu esse resultado. François Hollande prometeu, na campanha, rejeitar ou renegociar esse pacto, se eleito presidente da França. Mera bravata?

Uma séria ameaça do calote poderia, talvez, levar os credores a cooperar. Que governo tomaria a iniciativa? Sem saídas como essa, resta a difícil tarefa de combinar o jogo.

"Baby boomers" - RUY CASTRO


FOLHA DE SP - 02/05/12

RIO DE JANEIRO - De repente, o mundo descobriu que a geração "baby boom" está em idade de se aposentar. Os "baby boomers", você sabe, foram as crianças nascidas logo a seguir à Segunda Guerra, quando milhões de soldados voltaram para seus países e começaram a casar e a procriar em massa. Os que tinham ficado em casa, de ouvido na BBC, fizeram o mesmo, talvez por uma sensação de alívio diante do apocalipse que não aconteceu, mas poderia ter acontecido -e, então, mais do que nunca, pela súbita existência da bomba atômica.

Curioso é que, em vez de partir para a esbórnia em face do possível fim do mundo, os jovens do pós-Guerra adotaram a singela atitude de casar e "constituir família". Pode ser que, depois de anos em trincheiras, reais ou metafóricas, o lar lhes parecesse um casulo protetor. Daí tantos casamentos e, em meses, milhões de novos cidadãozinhos no mundo. Um deles, eu -porque, nascido em 1948, sou um legítimo "baby boomer".

Bem, passaram-se décadas e os "baby boomers" já podem ser avaliados. Em vários departamentos, não fizemos feio. Ativos desde os anos 60, implantamos o sexo sem culpa, a consciência ecológica, os direitos das mulheres, das minorias e dos animais, revolucionamos a tecnologia, avançamos espetacularmente a medicina e as comunicações etc.

Em compensação, tornamos as cidades impraticáveis, disseminamos as drogas, destruímos o cinema e a música popular, triplicamos a pobreza, intoxicamos o planeta com publicidade, carros e agrotóxicos, compramos e vendemos armas, políticos e tudo que pudesse ser negociado -enfim, vamos deixar também uma bela lambança.

E pensar que nossos pais, quando nos conceberam, só queriam um pouco de sossego, "Seleções", Ovomaltine, discos de Tito Schipa, uma cama quente, pijama e, para eles, sim, uma merecida aposentadoria.

CLAUDIO HUMBERTO


Impaciente, Dilma pode demitir ministro Patriota
O ministro Antonio Patriota (Relações Exteriores) escapou de um presente desagradável na sexta, dia do seu aniversário de 58 anos. Sua demissão já havia sido definida pela presidente Dilma, que na última hora resolveu colocar o assunto na geladeira. Ela não vê a hora de substituí-lo. Não gosta do jeito dele, discreto, quase medroso, e detestou sua atuação durante a visita dela a Washington, em abril.


Falta ousadia

A diplomacia "papai com mamãe" de Patriota levou Dilma a determinar "mais ousadia" ao Itamaraty, durante uma conferência de imprensa.


Impaciência

Dilma anda tão irritada que evitou despachar com Patriota até a lista de laureados da comenda do Rio Branco. E desprestigiou a cerimônia.


Chanceler Viotti

Entre os prováveis candidatos ao lugar de Patriota está a embaixadora Maria Luiza Viotti, chefe da missão do Brasil na ONU, em Nova York.


Bem longe

Dilma deve ir ao Peru até o final do mês, em visita oficial, enquanto não deslancha a CPI do Cachoeira, cada dia mais entalada.


Inferno astral

A base aliada agora tem novo pepino pela frente: barrar a quase inevitável convocação do governador Sérgio Cabral à CPI, após o ex-governador Anthony Garotinho (PR) mostrar sua "porção Cachoeira" com fotos e vídeos da farra com assessores e Fernando Cavendish, seu amigo dono da Delta. Cabral suspeita de "fogo amigo" de contraparentes de Cavendish, que não quer mais conversa com Cabral.


No ventilador

Sergio Cabral arregimenta sua tropa de choque para colocar no ventilador os (muitos) "podres" de Garotinho, seu arqui-inimigo.


Sem jeito

Para Mário Feitoza (PMDB-CE), nem o nascimento de Maria Clara, neta de Ciro Gomes, foi capaz de amansá-lo: "Não sei se ele tem jeito".


Autoestima

É do deputado Alexandre Roso (PSB-RS) o projeto que obriga o SUS a bancar reconstrução de mama, após mastectomia.


Pregando no deserto

Como o avô, o novo ministro Brizola Neto (Trabalho) não gosta da Globo, e ataca jornalistas da "mídia golpista", que não o poupou na desastrada tentativa de viagem à Líbia, convidado pelo tirano Muammar Kadafi para "aliviar a pressão da Otan nos ataques".


O sumiço do secretário

Novo secretário de Educação Básica do MEC, César Callegari causou problema ao cerimonial de inauguração do CEU de São Bernardo (SP), há dias, em ato pró-Haddad. Representaria Aloizio Mercadante, e não apareceu. Mas a passagem oficial ida e volta foi emitida e usada.


PSD na CPI

O PSD fez acordo com os partidos e indicará para a CPI mista de Cachoeira os deputados José Carlos Araújo (BA), Armando Vergílio (GO), e os suplentes Roberto Santiago (SP) e César Halum (TO).


Babel é aqui

Fechou o tempo entre o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e o senador Humberto Costa (PT). Os dois não se entendem enquanto pegam fogo as negociações para as eleições em Recife.


Não tem interesse

O deputado Francisco Praciano (PT-AM), presidente da Frente contra a Corrupção, critica os colegas políticos, "que não votam qualquer medida para aperfeiçoar o Estado depois de tantas CPIs e escândalos".


Ti-ti-ti

Relator do Código Florestal, Paulo Piau (PMDB) reclama da "chiadeira indevida" de senadores que desceram a lenha no texto aprovado pela Câmara: "Ficaram enciumados porque mexi na cria deles".


Dá voltas

Absolvida da cassação de mandato na Câmara, Jaqueline Roriz (PMN-DF) não esquece o dia em que Demóstenes Torres, agora alvo do Conselho de Ética, defendeu sua renúncia: "O mundo é redondo".

PODER SEM PUDOR


Intimidade provada

Um bispo vivia falando mal do interventor no Rio Grande do Sul, Flores da Cunha. Acusava-o de ser boêmio e um elitista esnobe, que não dava intimidades nem mesmo aos próprios aliados. Quando soube disso, o general resolveu calar o bispo de uma forma curiosa: chamou-o para uma conversa às 6h da manhã, recebendo-o nos seus aposentos, ainda na cama. Vestia apenas cuecas:
- Vossa Reverendíssima desculpe, mas como é de minha total intimidade, posso recebê-lo a qualquer hora, em qualquer lugar e de qualquer jeito.

QUARTA NOS JORNAIS


Globo: Bolívia estatiza gigante de energia da Espanha
Folha: Para baixar juros, governo estuda mudar poupança
Estadão: CPI abre hoje batalha política e envolve mais um governador
Correio: Polícia caça acusado de injúria racial no DF
Valor: Barreira faz exportação à Argentina cair 30%
Estado de Minas: Quando o radar vira perigo
Zero Hora: Nova estatal prevê preços de pedágios variáveis no Estado

terça-feira, maio 01, 2012

GÁS ARGENTINO - ANCELMO GOIS


O GLOBO - 01/05/12

Dilma não quer melindrar os argentinos em matéria de energia, até porque precisa deles. Uma fonte do governo Kirchner garante que o Brasil pediu ajuda para evitar o racionamento de energia no Rio Grande do Sul, que sofre uma estiagem prolongada. A ideia é importar gás de Baía Blanca.

ESSO SAI OU FICA?
Há no setor de petróleo a expectativa de que a ExxonMobil faça, no futuro, alguma aquisição no Brasil. Maior empresa de petróleo do mundo, a americana não tem mais negócio de exploração aqui, pois abandonou, semana passada, o bloco BS-M-22, onde deu com os burros n’água.

ALIÁS...
Veja como o negócio do petróleo, mesmo no pré-sal, não é um bilhete premiado. Em 2009, quando descobriram Azulão, o primeiro poço do BS-M-22, o mercado estimou suas reservas em US$ 400 bilhões.

FALTA DO PAI PUNIDA
O STJ, pela primeira vez, condenou um pai por abandono. O homem, de São Paulo, terá de pagar R$ 200 mil à filha. A decisão é da ministra Nancy Andrighi.

A META É CEM
Na última conta do Itamaraty, uns 90 chefes de Estado virão à Rio+20. A meta é passar de cem. Ainda é menos que na Rio 92, quando vieram 116.

MULHER DE DITADOR
A Nova Fronteira publica este mês Mulheres de ditadores, da belga Diane Ducre. Trata-se de um livro polêmico. Em Portugal, a LeYa chegou a retirá-lo do mercado por suspeita de plágio da obra de Felícia Cabrita sobre Salazar.

POR FALAR EM LEYA...
A editora vai trazer ao Brasil o badalado escritor angolano Pepetela para lançar seu novo romance, A Sul. O sombreiro. Haverá lançamentos em São Paulo (7 de maio), Rio (10) e Porto Alegre (11).

70 VEZES GIL
Vem aí o livro 70 vezes Gil, homenagem aos 70 anos de Gilberto Gil. Terá entrevistas sobre o “pensamento visionário” do grande músico baiano. A produtora paulista Iyá Omin foi autorizada a captar R$ 270.050 pela Lei Rouanet.

MENOS AFORTUNADOS
Amartya Sen, Nobel de Economia em 1998, defendeu, semana passada, em São Paulo, cotas para negros nas universidades:

– Nos EUA, a vida dos que entraram graças às cotas melhorou, e muitos deles ajudaram outros menos afortunados.

A festa dos amigos de Carlinhos - LEONARDO CAVALCANTI


Correio Braziliense - 01/05/12


Uma das avaliações recorrentes sobre o escândalo envolvendo o bicheiro Carlinhos Cachoeira é a de que a trama foi armada a partir de núcleo regional — no caso Goiás, a terra do rei dos jogos. Depois, os tentáculos do grupo se aproximaram dos outros estados e da administração pública federal, como no caso do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, o Dnit.

A análise, porém, não se completa, ou melhor, não explica a força de Cachoeira e dos principais aliados. A senha para entender tal coisa está nas relações de parte de personagens da política e de empresas que se relaciona em níveis regionais intricados até formar um grupo tão coeso e inimaginável para o cidadão comum. É o amigo do amigo, que se frequentam e dividem gostos.

As primeiras explicações de Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) sobre a razão de tantas ligações para Cachoeira foram estapafúrdias, mas não deixaram de mostrar o quanto o bicheiro e o senador eram próximos. Em entrevista publicada pelo Correio em 4 de março, Demóstenes tenta justificar os 298 telefonemas para Cachoeira com uma desculpa inusitada: ele era conselheiro sentimental do bicheiro.

“A mulher do meu suplente (Wilder Pedro de Morais) o deixou e passou a viver com Cachoeira. Eu e minha mulher tivemos de resolver esse problema. Por isso houve tantas ligações e encontros.” Mesmo depois dessa declaração, Demóstenes foi à tribuna e, todos lembram, acabou saudado pelos pares. A sessão entrou para a história do parlamento brasileiro — pela porta dos fundos, evidentemente.

Companheiros

No inquérito da Polícia Federal — vazado por todos os lados —, o que mais se vê são diálogos de companheiros, velhos conhecidos. Amigos que marcam encontros e jantares regados a vinhos caros. Boçais que se orgulham de conhecer uvas, safras e de consumir os rótulos mais caros por pura empáfia. Confundem prazeres com puro exibicionismo. Mais parecem um grupo de deslumbrados, piegas.

Há mais, evidentemente. Recados de parabéns por passagens de aniversários, convites para festas, pedidos de empregos para parentes, farras combinadas por antecipação. É dessa forma que vínculos se estabelecem, laços se amarram para todo o sempre. Os interlocutores das escutas da Polícia Federal compartilham não apenas negociatas, mas também segredos particulares. Nada mais simbólico.

Por mais que Carlinhos Cachoeira não seja protagonista de todos os diálogos, ele está lá, relacionado, de uma maneira ou de outra, aos grampeados — diga-se, com autorização judicial. E assim o barco segue, com presentes e viagens internacionais, empréstimos de dinheiro, compra de camarotes para o carnaval. A vida é uma festa para os amigos dos políticos e das empresas investigadas.

Resta-nos acompanhar os vazamentos dia a dia, como voyeurs indignados. Resta-nos chamar os caras de boçais e rezar para que o país saia melhor com a CPI. Até lá, assistiremos a provas de amizades eternas, construídas na base das negociatas e mantidas por conta de segredos e favores pessoais. É triste, mas é melhor que saibamos de tudo isso.

Outra coisa

A CPI do Cachoeira irá dominar o cenário político em ano de eleição municipal, mas poucas disputas serão tão emocionantes quanto as desenhadas até aqui nas capitais. Vide a agonia do DEM — ex-partido do senador Demóstenes —, que tenta a todo custo ganhar o apoio dos tucanos em Recife, Salvador e Macapá. Como moeda de troca, São Paulo e o apoio a José Serra. Nada mais empolgante.

Ministrinho e tijolaços - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 01/05/12


BRASÍLIA - Decisões longas e amadurecidas, por óbvio, tendem a ser melhores do que as rápidas e impensadas. Dilma, no entanto, levou quase meio ano para nomear, na véspera deste Primeiro de Maio, um ministro do Trabalho que enfrenta resistências na própria bancada e em centrais sindicais.
O deputado Leonel Brizola Neto, o enfim escolhido, tem duas credenciais para ocupar o cargo, além de ser do PDT: o sobrenome, herdado de um ícone do trabalhismo brasileiro e da luta contra a ditadura militar, e o blog "Tijolaço", em que se ocupa de xingar todos os críticos do governo, sobretudo do antigo governo, e alimentar a ira contra a imprensa.
A não ser que se considere credencial o fato de Brizola Neto, 33, virar o mais novo dos 38 integrantes da Esplanada dos Ministérios. Ou o fato de, apesar de eleito pelo Rio, ser o oitavo gaúcho no governo Dilma, nascida em Minas e adotada pelo RS.
O anúncio foi feito ontem pelo Planalto e a posse será na quinta-feira, encerrando a era Carlos Lupi, que se atrapalhou todo com ONGs, e a longa interinidade do secretário-executivo, que vem desde dezembro.
O pior é que ninguém sequer notava que o Ministério do Trabalho estava acéfalo. Como o mundo, o Brasil e as relações trabalhistas evoluíram tanto, a pasta se tornou quase tão desimportante quanto a da Pesca. Ambas só são úteis para alimentar tubarões e apoios políticos.
Apesar da versão corrente de que Brizola Neto era o preferido de Dilma, há controvérsias. Há quem diga que ela preferia o também deputado Vieira da Cunha, do PDT-RS, mas, no fim, dá no mesmo. O que importa é que Dilma se livrou na última hora de críticas no Dia do Trabalho e abriu caminho para voltar às boas com o seu antigo partido, o PDT.
Agora, é torcer para o novo ministro não sair infantilmente distribuindo tijolaços por aí, pois podem ter efeito bumerangue e se virar contra o governo que ele julga defender.

Sem panos quentes - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 01/05/12

O relator da CPI do caso Cachoeira, deputado Odair Cunha (PT-MG), reuniu-se com os deputados do PSDB Carlos Sampaio (SP), que é promotor, e Fernando Francischini (PR), que é policial federal. "Quero que vocês me ajudem a sistematizar a investigação, porque a CPI tem que ter um resultado eficiente", pediu o petista. Após a aprovação da Lei da Ficha Limpa, ninguém tem disposição de desafiar a opinião pública. A sorte está lançada: "Quem vai querer ser o coveiro da CPI?".

O procurador na berlinda
Os petistas vão chamar o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, para explicar por que não deu início a uma investigação contra o senador Demóstenes Torres (GO). "Ele precisa explicar por que, durante dois anos, depois de ter recebido a investigação da Polícia Federal, não tomou nenhuma providência", comen-
tou o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP). Os integrantes dos partidos de oposição não veem problema em convidar Gurgel para se explicar, mas avaliam que a prioridade, no primeiro momento, é ouvir o contraventor Carlos Cachoeira, o empresário Fernando Cavendish (Delta), e o seu diretor Cláudio Abreu.

"Diante do malfeito, meu partido não vacilou, botou o Demóstenes (Torres) para a rua. Nós não vamos proteger ninguém" 
— Onix Lorenzoni, deputado federal (DEM-RS), integrante da CPI do Caso Cachoeira

AS CENTRAIS UNIDAS. Antes mesmo de ser oficialmente anunciado como o novo ministro do Trabalho, o deputado Brizola Neto (PDT-RJ) tratou da composição da pasta. Ele se reuniu com os presidentes da CUT, Artur Henrique (à direita), e da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva (à esquerda), e nesta conversa ficou combinado que a secretaria executiva da pasta seria ocupada por José Lopez Feijóo, da CUT que é assessor do ministro Gilberto Carvalho (Secretaria Geral da Presidência).

Prefeito do PT
Em 22 de março de 2011, o contraventor Carlos Cachoeira fala com o vereador Santana Gomes (PMDB): "Tô; em Goiânia, tô aqui com o Paulo Garcia (prefeito), negociando". Santana: "Chefe, esse Paulo Garcia não vai aguentar não".

Prefeito do PMDB
Em 11 de abril de 2011, Cachoeira pergunta por Maguito Vilela (prefeito de Aparecida de Goiânia) e o senador Demóstenes Torres diz: "Falei com ele: `O rapaz (Cachoeira) tá lá... uma onça. Vai te explodir! Diz que você não fez nada...'".

RJ: escândalo Cachoeira anima oposição
Os adversários do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), candidato à reeleição, estão animados com o caso Cachoeira. Eles estão fazendo pesquisas para avaliar o desgaste provocado pela revelação das relaçôes entre o governador Sérgio Cabral e o empresário Fernando Cavendish (Delta). A expectativa da oposição é que este caso provoque desgaste suficiente nas forças de apoio a Paes, capaz de afetar o seu favoritismo à reeleição.

A prova do crime
Consta na Operação São Michel que o governador Agnelo Queiroz (DF) recebeu, em 31 de janeiro, das mãos do policial federal Dadá e de Cláudio Abreu (Delta) escutas telefônicas ilegais do deputado Francisco Francischini (PSDB-PR).

O foco
Na CPI do Caso Cachoeira, a oposição pretende aprofundar a investigação sobre a associação entre Fernando Cavendish (Delta) e Carlos Cachoeira. Os dois atuavam juntos em dez estados e também nos aditivos de obras no Dnit.

O QUE E ISSO? Cachoeira, no dia 24 de março de 2011: "Geovani, os 25 do (deputado Carlos) Leréia (PSDB-GO) você lembra, né?". No dia 28, Cachoeira fala para Geovani: "Aqueles 15 você lembra? E os 20 do Leréia, 25, você tem hoje?".

A TAREFA. Antes de tomar posse, a principal tarefa do novo ministro Brizola Neto (Trabalho) é pacificar o PDT. "O ministério é um espaço coletivo, não é individual", afirma o futuro ministro.

A OPOSIÇÃO vai querer convocar o ex-assessor de José Dirceu na Casa Civil Waldomiro Diniz (CPI dos Bingos) para depor na CPI do Carlos Cachoeira.

A ereção e seus percalços - FRANCISCO DAUDT


FOLHA DE SP - 01/05/12

Quando a idade avança, é o desejo quem manda; mas, então, o que anima nossas partes?

DIFERENTEMENTE DAS mulheres, um homem não pode ser forçado ao congresso carnal com uma jovem que lhe encoste um revólver nas têmporas. Seu genital, ao invés de se animar, encolherá. Um verdadeiro banho de água fria. Assim a seleção natural nos preparou para a luta ou para a fuga (prefiro a última), diante de uma ameaça.

Mas, então, o que anima nossas partes? "Esse obscuro objeto do desejo", como chamou Buñuel. Não estou falando de um adolescente em quem o simples balanço de um ônibus é capaz de produzir embaraços. Mas quando a idade avança, é o desejo quem manda. Qualquer homem que tentou comandar sua ereção, fê-lo debalde, pois o membro teima em desobedecer-lhe, animando-se quando não devia, desanimando-se quando ele mais precisava.

O desejo. Não confundir com a vontade. Ele é obscuro porque se trata de um iceberg imenso, com 10% visíveis (a vontade) e 90% imersos no oceano do inconsciente. São esses que comandam, com sua extrema complexidade, o resultado final.

Considere o exibicionista da capa de chuva. Ele goza com sua nudez mostrada? Não. O objeto de seu desejo é o horror pudico demonstrado pela vítima. Atualmente correria o risco de ser alvo de chacota -"Tudo isso para mostrar essa coisinha?"- e sua ereção desabaria. Não à toa ele saiu de moda.

Mas há nele um denominador comum com o desejo masculino: se a manobra der certo, ele estará no comando, portanto, não se sentindo ameaçado. "As deusas são sempre malcomidas, porque nos ameaçam", é uma crença masculina generalizada. Quando jovens, nossa musa romântica nunca era parte de devaneios masturbatórios, mas sim as degradadas, que não ameaçavam e podiam ser tão sacanas quanto nós. As outras, coitadas, ficavam prisioneiras de sua santidade. Por isso, o bom cafajeste é aquele que permite à mulher ser sexuada, não considera nenhuma como santa, eis o segredo de seu sucesso.

A ameaça que impede a ereção se parece com a inibição de urinar, que muitos homens sofrem quando estão no banheiro do cinema, aquela fila impaciente atrás a lhes cobrar que se despachem. Imagine a profissional dizendo "Como é, meu filho, vamos logo..."

O fetiche (que vem de "feitiço") é o truque de despersonalizar a mulher, para tirar a possível ameaça de ter que levá-la em conta. "Se veste de enfermeira para mim?" equivale a "Deixe de ser você, para eu não ter medo". "Quando ela espirrou, eu brochei" (a pessoa apareceu, quebrou-se o feitiço).

Afora o Ziraldo, que proclama nunca ter sofrido esta desdita, todos nós outros brochamos, em algum momento. O sucesso do Viagra vem da ilusão de mandar na ereção. "Mas, então, não há homens que transem com mulheres sem precisar de truques?" Claro que os há, tanto que os encontros, quando o casal ganha mais intimidade, são muito melhores do que os primeiros. Mesmo assim, os orgasmos são comumente frutos de passeios mentais (serve para ambos os gêneros), que somente em alguns momentos envolvem a pessoa com quem se está. O passeio na complexidade de nosso desejo.

Enfim, cobrar sexo de um homem é um tiro no pé.

Redução de danos - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 01/04/12


Ao nomear o deputado Brizola Neto (PDT-RJ) para o Ministério do Trabalho na véspera do 1º de Maio, a presidente Dilma Rousseff abortou uma operação para desgastá-la hoje nas comemorações pelo país. O aviso de que a Força Sindical deflagraria uma ofensiva orquestrada contra ela no Dia do Trabalho foi dado na semana passada pelo deputado Paulinho da Força (PDT-SP) ao prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho (PT), que fez chegar o recado ao ex-presidente Lula.

Além disso, a devolução da pasta ao PDT ocorre dias antes de Paulinho se afastar da central para tentar viabilizar sua candidatura à Prefeitura de São Paulo.

Curto... Rejeitado pelo grupo do ex-ministro Carlos Lupi, o nome de Brizola Neto foi costurado por Paulinho com a CUT (Central Única dos Trabalhadores), uma exigência do Palácio do Planalto. O número dois da pasta agora deverá ser indicado pela CUT.

...circuito Ex-chefe de gabinete de Lupi no Trabalho, Marcelo Panella avisou que pedirá a desfiliação do PDT. Ele atribui a crise que derrubou Lupi a Brizola Neto.

Não colou Dos 26 maiores sindicatos da CUT, apenas seis aderiram à campanha da central contra a cobrança do imposto sindical. Entidades de peso como o Sindicato dos Petroleiros e o dos Químicos preferiram ignorar a bandeira, carro-chefe do 1º de Maio.

Paralisia Com a CPI do Cachoeira à vista, senadores aliados se reuniram na semana passada para acertar uma agenda positiva. Ficou combinado que Walter Pinheiro (PT-BA) e Renan Calheiros (PMDB-AL) negociarão com Guido Mantega (Fazenda) para votar a mudança do indexador da dívida dos Estados.

Apoio Citado no inquérito do Cachoeiragate, o ministro do Tribunal Superior do Trabalho Guilherme Caputo foi levado por juízes do Tribunal Regional do Trabalho de Goiás à NeoQuímica para pedir patrocínio para um seminário de direito desportivo.

Fumaça Ministros do Supremo Tribunal Federal desconfiam que réus no processo do mensalão estejam incentivando a divulgação dos diálogos do inquérito da Monte Carlo no momento em que a corte se prepara para colocar o julgamento em pauta.

Mestre-sala Numa das conversas gravadas pela PF, Cachoeira sugere que houve "mutreta", no ano passado, para a vitória da Beija-Flor no Carnaval do Rio, escola com a qual ele teria "negócios".

Milésimo Em outro diálogo, Cachoeira trata com um integrante do grupo sobre um contrato de R$ 30 mil para o atacante e ex-vereador Túlio Maravilha. Segundo a PF, o jogador teria montado um esquema de funcionários fantasmas na Câmara Municipal de Goiânia.

Liberou... O governador Geraldo Alckmin (PSDB) deve anunciar nos próximos dias a extensão do fundo de aval da Agência de Fomento Paulista, hoje restrito a três modalidades de empréstimos, para todas as operações feitas pelo órgão.

... geral O fundo de aval é disponibilizado para pequenas empresas que não têm como oferecer garantias para tomar empréstimos. O governo também vai ampliar o teto das empresas que podem se beneficiar dessa cobertura para as que faturam até R$ 3,6 milhões por ano.

Visita à Folha Eleonora Menicucci, ministra da Secretaria de Política para as Mulheres, visitou ontem a Folha. Estava com Nei Bonfim, coordenador de Comunicação da secretaria.

com SILVIO NAVARRO e ANDRÉIA SADI

tiroteio

"Eu torço para que a correnteza da cachoeira afogue gente graúda, limpe a corrupção e mande muitos grã-finos para fazer companhia ao Carlinhos no presídio."

DO DEPUTADO DOMINGOS DUTRA (PT-MA), sobre a lista de autoridades e empresários tragados pela Operação Monte Carlo da Polícia Federal, que agora passará a ser objeto de uma CPI no Congresso Nacional.

contraponto

Do lado de cá

Na tensa sessão de votação do Código Florestal, na semana passada, o deputado ruralista Ronaldo Caiado (DEM-GO) apelou aos líderes por um acordo:

-Os argumentos se repetem, é melhor que fale apenas um deputado de cada lado!

-A proposta é racional, mas irracionais são suas posições aqui hoje, alfinetou Chico Alencar (PSOL-RJ).

Caiado reagiu imediatamente:

-Olha, não vou responder no mesmo tom porque ainda tenho esperança de convertê-lo!

O conto do espanto - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 01/05/12


Quanto mais informações vão sendo reveladas a respeito dos serviços prestados por Demóstenes Torres às organizações Cachoeira de armações ilimitadas, mais esquisito parece o fato de que ele tenha durante tanto tempo podido atuar como o sujeito oculto na defesa dos interesses do contraventor Carlos Augusto Ramos sem despertar suspeitas.

Que o senador tenha conseguido enganar a plateia e parte considerável do elenco da República com o personagem que encarnava em público, compreende-se. Dificilmente alguém que age com tanto vigor e destemor é alvo de desconfiança.

Sempre existe o risco de ser confrontado por um adversário no meio de um discurso, levar um troco na base do bateu levou. Eleito senador pela primeira vez em 2002, notabilizou-se por bater. Nunca levou e, entretanto, vê-se agora como era vulnerável.

Os grampos da Operação Monte Carlo revelaram as conversas com o contraventor, mas suas atividades como praticamente um procurador do bicheiro eram exercidas com boa dose de desinibição.

Pelo divulgado até agora, movimentava-se para todo lado, falava com muita gente, pedia, solicitava, defendia interdição de depoimentos no Congresso e até um episódio em tese menor - o pedido de emprego no governo de Minas Gerais para uma prima de Cachoeira - não se coadunava com a atitude de um defensor intransigente dos pressupostos constitucionais de impessoalidade, probidade e transparência na administração pública.

A julgar pelo conteúdo das conversas telefônicas - e, note-se, não são conhecidas as do senador com personagens outros que não o contraventor - Demóstenes Torres fazia lobby por Cachoeira nos três Poderes, abria portas para negócios comerciais para além da Região Centro-Oeste, interferia na transferência de policiais presos, obtinha informações de bastidores na Polícia Federal e no Ministério Público, atuava aqui e ali como facilitador para a construtora Delta, circulava com desenvoltura entre deputados, senadores, governadores, magistrados.

Será possível que só ao amigo bicheiro revelasse seu lado eticamente permissivo? Apenas ao telefone com Cachoeira deixava-se desvendar? Nas abordagens em prol do contraventor não precisava "abrir" aos interlocutores a natureza dos pleitos pretendidos?

Fica cada vez mais inverossímil a possibilidade de que o senador tenha atuado nesse diapasão por tanto tempo sem que ninguém, entre as pessoas experimentadas com quem o senador convivia, tivesse notado algo de anormal ou de inadequado no comportamento dele.

Mais não seja pela discrepância entre o discurso e as ações. O mais provável, chega-se à conclusão por pura lógica, é que a surpresa manifestada na dimensão de unanimidade não seja de verdade tão unânime assim.

Pelo visto, boa parte dos que se mostraram surpresos depois da eclosão do escândalo considerava perfeitamente normal o uso privado que o senador dava a seu mandato e talvez até admirasse sua capacidade de mimetização.

Só uma hipótese não é crível: a de que o senador tenha enganado completamente a todos os ditos tão espantados.

Contenção. Noves fora o imprevisto absoluto, as versões de que Carlos Augusto Ramos poderia queimar caravelas na CPI guardam mais relação com prevenção de danos do que com chances reais de o bicheiro representar o papel de homem-bomba.

O advogado dele, Márcio Thomaz Bastos, não é exatamente um construtor de explosivos. Ao contrário: como ministro da Justiça do primeiro governo Lula e depois como conselheiro desarmou vários deles.

Cacoete. Publicamente a presidente Dilma Rousseff não fala no assunto, muito menos teria condições de fazer algo parecido. Privada e ideologicamente, no entanto, deixa muito claro que viu com bons olhos na nacionalização da petroleira espanhola YPF pela colega argentina Cristina Kirchner.