O Estado de S.Paulo - 29/04/12
Com todos os olhos e ouvidos voltados para a CPI que promete abalar Brasília, não se deu a devida atenção a uma decisão tomada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara na última quarta-feira.
Revoltados com o "ativismo" do Supremo Tribunal Federal, os deputados resolveram exorbitar: autorizaram a tramitação de proposta de emenda constitucional que dá ao Congresso a prerrogativa de suspender atos do Poder Judiciário.
Ou seja, em reação a uma presumida interferência da Justiça nas atividades do Legislativo dá-se um peteleco na Constituição com a sem cerimônia de quem vai ao bar da esquina.
Como bem observa o ministro Luiz Fux, do STF, "não é assim tão fácil". A independência dos Poderes é cláusula pétrea da Constituição, o que significa que para mudá-la de forma ao Legislativo ter o direito de desfazer atos do Judiciário seria necessário convocar uma nova Assembleia Nacional Constituinte.
E por que, então, discorrer sobre isso se o absurdo é assim tão evidente e a chance de prosperar aparentemente nula?
Justamente porque a nulidade é aparente. Existe chance de a proposta prosperar na Câmara se não se atentar para a completa falta de juízo da douta Comissão de Justiça.
Um dos poucos, talvez o único, parlamentar a se posicionar contra, o deputado Chico Alencar previu: "Vai virar discurso de valorização do Legislativo." Na opinião dele a proposta "é tão irracional e ilógica quanto popular aqui dentro".
Precisa previsão. O autor da emenda, deputado Nazareno Fonteles, faz exatamente esse discurso alegando que o Judiciário não tem legitimidade para legislar e defendendo a tese de que o Legislativo "precisa ser o Poder mais forte da República" por seu caráter representativo da sociedade.
O leitor ouviu direito, ele propõe a instituição do conceito de desequilíbrio entre Poderes.
Voltemos ao ministro Fux, que entende do riscado e explica o que se passa. Primeiro há o pressuposto da cláusula pétrea. "Em segundo lugar, se o Congresso está insatisfeito com o que chama de judicialização da política é preciso que seja informado sobre a impossibilidade de o Judiciário não se manifestar sobre os temas postos à sua consulta."
Portanto, estamos bem entendidos até aqui: o Supremo não inventa debates nem levanta questões por iniciativa própria, apenas examina e se pronuncia sobre a constitucionalidade desse ou daquele assunto quando provocado a fazê-lo.
E por que há tantas consultas ao tribunal? Aqui entra o terceiro ponto a ser esclarecido pelo ministro Luiz Fux: "Porque por sua própria estratégia política os parlamentares não enfrentam questões difíceis por receio de assumir eventual impopularidade decorrente dos conflitos que os temas encerram".
Quer dizer, justamente por serem dependentes de votos deputados e senadores se esquivam das polêmicas. E aí, o que ocorre?
Criam-se os vácuos que o Judiciário, quando instado, é obrigado a preencher. O ministro Fux lembra que o Supremo não precisaria ter-se pronunciado a respeito, por exemplo, da interrupção da gravidez de feto anencéfalo, da união homoafetiva, das cotas para negros nas universidades, se o Congresso tivesse legislado sobre essas matérias.
Conclusão, suas excelências não precisam agredir a Constituição nem desconstruir a República para defender as prerrogativas do Poder Legislativo: basta que não se acovardem diante de potenciais controvérsias e saiam da inatividade no lugar de reclamar do ativismo alheio propondo soluções fáceis e equivocadas.
Caçada. O ex-presidente Lula disse a um interlocutor na Câmara dos Deputados que o PT é alvo potencial de todos os partidos (governistas e oposicionistas) na CPI do esquema Cachoeira.
Em miúdos: se o PT está louco para se vingar de uns e outros por causa do mensalão, todos os outros estão loucos para ir à forra com o PT por variados motivos: eleitorais e governamentais.
domingo, abril 29, 2012
O mundo e a bola murcha na Espanha - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 29/04/12
Espanhóis amargam novo pico do desemprego já brutal e onda de desconfiança sobre os seus bancos
O BARCELONA perdeu, o Real Madrid perdeu, e o assunto da semana na finança internacional foi a bola murcha dos bancos espanhóis. Um país europeu depois do outro reconhece a recessão. Os americanos pararam de melhorar. O mundo não vai dar uma força para o crescimento da economia da primeira metade do governo de Dilma Rousseff.
O que temos a ver com as finanças da Espanha? Quase nada, assim como a Grécia até 2009 era só um lugar lindo para as férias, até que quebrou, emperrou o sistema bancário europeu, arrastou outros países e ameaçou derrubar uma série de dominós financeiros pelo mundo.
O tumulto que começou na pequena Grécia tira pontos do crescimento mundial desde 2010.
Os empréstimos ruins dos bancos espanhóis levaram o país para o buraco. Emprestaram demais para especulação imobiliária, como se sabe. O governo fez dívida brutal para cobrir os rombos, que em parte ainda estão lá. Ou voltaram a aparecer, pois a Espanha está em crise faz quatro anos, o que provoca deterioração ainda maior do balanço dos bancos.
Por fim, mesmo as instituições remediadas ou saudáveis têm dificuldades para captar dinheiro. Os bancos espanhóis pegaram dinheiro com o governo, pegaram dinheiro com o Banco Central Europeu e mesmo assim estão na pindaíba.
A conversa desta semana de bola murcha no futebol e na finança, porém, é mais feia. Discute-se quem vai colocar dinheiro nos bancos meio quebrados ou descapitalizados do país.
A Alemanha diz que a Europa e suas instituições não vão dar um tostão. O governo da Espanha mal consegue arrecadar o bastante para cumprir sua meta fiscal (de redução de dívida), dada a recessão ainda pior do que a prevista.
Recessão, receita de impostos problemática e risco de gastos na salvação da banca fizeram os donos do dinheiro grosso levantar suspeitas sobre a Espanha. Na prática, isso significa cobrar mais para emprestar ao Estado espanhol ou para manter títulos da dívida espanhola em carteira. Já sobrecarregada de dívidas, a Espanha tem de pagar mais para rolar o papagaio.
Sim, a Espanha não é a Grécia. Para o bem ou para o mal, ressalte-se. A Espanha tem finanças muito mais ordenadas e não deve ser abandonada à própria sorte, pois é "grande demais para quebrar". Ser "grande demais" é também um problema. Mesmo uma balançada feia da Espanha pode causar estrago.
O novo problema espanhol começou a fermentar agora. O governo de lá diz que não haverá rolo nos bancos. Mas o "mercado" não tem acreditado. Se continuar descrente e piorar a recessão de crescimento e de receitas de impostos, a Espanha terá cada vez menos crédito. Quando se vai saber o que vai dar? Trata-se de um jogo marcado lá para o meio do ano.
Um ano, aliás, que já seria apenas medíocre, de recessão suave na Europa, de crescimento que já desanima (mas nada grave) nos EUA, de China mais devagar. Tudo isso deixa cinzento o cenário para a nossa indústria, que ainda padece de câmbio ruim e falta de crédito para o consumidor, que, de resto, comprou demais nos últimos anos e está numa ressaca de despesas grandes.
Não é um desastre. Mas vai ser enjoado.
Espanhóis amargam novo pico do desemprego já brutal e onda de desconfiança sobre os seus bancos
O BARCELONA perdeu, o Real Madrid perdeu, e o assunto da semana na finança internacional foi a bola murcha dos bancos espanhóis. Um país europeu depois do outro reconhece a recessão. Os americanos pararam de melhorar. O mundo não vai dar uma força para o crescimento da economia da primeira metade do governo de Dilma Rousseff.
O que temos a ver com as finanças da Espanha? Quase nada, assim como a Grécia até 2009 era só um lugar lindo para as férias, até que quebrou, emperrou o sistema bancário europeu, arrastou outros países e ameaçou derrubar uma série de dominós financeiros pelo mundo.
O tumulto que começou na pequena Grécia tira pontos do crescimento mundial desde 2010.
Os empréstimos ruins dos bancos espanhóis levaram o país para o buraco. Emprestaram demais para especulação imobiliária, como se sabe. O governo fez dívida brutal para cobrir os rombos, que em parte ainda estão lá. Ou voltaram a aparecer, pois a Espanha está em crise faz quatro anos, o que provoca deterioração ainda maior do balanço dos bancos.
Por fim, mesmo as instituições remediadas ou saudáveis têm dificuldades para captar dinheiro. Os bancos espanhóis pegaram dinheiro com o governo, pegaram dinheiro com o Banco Central Europeu e mesmo assim estão na pindaíba.
A conversa desta semana de bola murcha no futebol e na finança, porém, é mais feia. Discute-se quem vai colocar dinheiro nos bancos meio quebrados ou descapitalizados do país.
A Alemanha diz que a Europa e suas instituições não vão dar um tostão. O governo da Espanha mal consegue arrecadar o bastante para cumprir sua meta fiscal (de redução de dívida), dada a recessão ainda pior do que a prevista.
Recessão, receita de impostos problemática e risco de gastos na salvação da banca fizeram os donos do dinheiro grosso levantar suspeitas sobre a Espanha. Na prática, isso significa cobrar mais para emprestar ao Estado espanhol ou para manter títulos da dívida espanhola em carteira. Já sobrecarregada de dívidas, a Espanha tem de pagar mais para rolar o papagaio.
Sim, a Espanha não é a Grécia. Para o bem ou para o mal, ressalte-se. A Espanha tem finanças muito mais ordenadas e não deve ser abandonada à própria sorte, pois é "grande demais para quebrar". Ser "grande demais" é também um problema. Mesmo uma balançada feia da Espanha pode causar estrago.
O novo problema espanhol começou a fermentar agora. O governo de lá diz que não haverá rolo nos bancos. Mas o "mercado" não tem acreditado. Se continuar descrente e piorar a recessão de crescimento e de receitas de impostos, a Espanha terá cada vez menos crédito. Quando se vai saber o que vai dar? Trata-se de um jogo marcado lá para o meio do ano.
Um ano, aliás, que já seria apenas medíocre, de recessão suave na Europa, de crescimento que já desanima (mas nada grave) nos EUA, de China mais devagar. Tudo isso deixa cinzento o cenário para a nossa indústria, que ainda padece de câmbio ruim e falta de crédito para o consumidor, que, de resto, comprou demais nos últimos anos e está numa ressaca de despesas grandes.
Não é um desastre. Mas vai ser enjoado.
Aprendendo a usar dinheiro - SUELY CALDAS
O Estado de S.Paulo - 29/04/12
Em julho o Plano Real chega à maioridade. Há 18 anos o País expulsou a inflação de sua vida e iniciou uma caminhada de progresso que poderia ser mais rápida, mas se movimenta no ritmo possível da nossa ainda imatura democracia. Descrever o que ocorreu nesses 18 anos, só em páginas e páginas intermináveis. Portanto, vamos aproximar a lente e focar na nova classe média ascendente, quase 110 milhões de pessoas que compram, consomem e poupam, quando sobra. Metade delas é estreante no mercado de consumo. É natural que queiram recuperar o atraso e usar seu dinheiro para comprar o que a família passou anos desejando. É a aspiração do passado realizada no presente. E o futuro?
Por iniciativa da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), desde 2008 seis órgãos do governo e 19 instituições financeiras privadas desenvolvem um projeto denominado Estratégia Nacional de Educação Financeira, cujo objetivo é levar para adultos e estudantes conhecimentos sobre hábitos e formas de consumir, poupar, investir e proteger seu dinheiro; planejar seu orçamento; comprar a casa própria; entender a engrenagem dos juros; controlar suas dívidas e conhecer seus direitos de devedor.
Sem um centavo de dinheiro público, apenas com financiamento do Banco Mundial e de instituições privadas, em 2008 esse grupo realizou uma pesquisa nacional em que 36% dos pesquisados declararam ter perfil gastador, 54% não conseguem honrar suas dívidas e só 31% poupam regularmente para a aposentadoria. Aplicada em todo o País, a pesquisa visou principalmente aos brasileiros da classe média ascendente. Por estar situada no meio do estrato social, com renda para gastar e poupar com aperto, é justamente a classe que mais precisa de educação financeira.
"Não tem nada de ideológico. Nem capitalismo, nem socialismo, nem liberalismo. É simplesmente a vida das pessoas, ajudá-las a cuidar de si", define o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, presidente do Conselho de Administração da Bovespa, uma das instituições apoiadoras. "É ensinar a criança desde cedo a administrar seu dinheiro, poupar, consumir com limites, contratar um seguro de vida, previdência, endividar-se de forma saudável. E com meta de fazer disso uma disciplina obrigatória nas escolas públicas", diz Maria Helena Santana, presidente da CVM.
Mas o Brasil não inventou a ideia. Ao aprender com experiências na Inglaterra, EUA, Espanha, Nova Zelândia e Austrália, constatou que o atraso no assunto não é só nosso. Segundo uma pesquisa, na Inglaterra, justamente a capital financeira da Europa, só 20% da população passou em teste de aritmética básica para avaliar o preparo para tomar decisões - 80% mostraram insegurança em decidir onde aplicar seu dinheiro.
A partir de 2008, o comitê que toca o projeto no Brasil estruturou experiências piloto em 439 escolas públicas de 99 municípios, envolvendo 13.236 estudantes do ensino médio. Professores foram preparados e usaram três livros didáticos nas aulas. "A ideia é levar informações e conhecimento para o estudante tomar a decisão certa quando virar adulto, escolher onde aplicar o dinheiro de acordo com suas necessidades, com autonomia e sem paternalismos. Seja comprar sua casa, fazer um seguro de vida, poupar para a aposentadoria, negociar com o banco os juros do cartão de crédito, contrair um empréstimo, comprometer uma parcela da renda com a prestação de um bem. E, sobretudo, planejar e controlar seu orçamento", explica Maria Helena Santana. Incentivador do projeto, Armínio Fraga acredita que, com o tempo, a educação financeira vai enraizar na população a cultura do pensar no longo prazo, ajudando a elevar a taxa de poupança do País - hoje um bloqueador ao desenvolvimento.
A partir de junho, as experiências piloto terão filhotes em todo o País. Após terem avaliado seu impacto nos estudantes, pais e professores, o Ministério da Educação começará a etapa final do projeto de incorporar Educação Financeira no currículo das escolas públicas do ensino médio. Professores e escolas interessados podem consultar detalhes no site www.vidaedinheiro.gov.br.
Bonde andando - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 29/04/12
BRASÍLIA - CPIs investigam, interrogam, produzem provas, usam e abusam da imprensa para divulgar os tesouros descobertos e, no final, entregam a arca cheia para o Ministério Público, sob animada expectativa de punições.
Pois a CPI do Cachoeira pegou o bonde andando e faz o percurso inverso. A Polícia Federal fez o grosso do trabalho, o MP e o Supremo já estão a bordo e a imprensa tem publicado torrentes de nomes, diálogos, fatos e evidências.
As próprias punições, policiais e políticas, já começaram antes mesmo da instalação da CPI. O pivô Carlinhos Cachoeira está preso desde fevereiro, o senador Demóstenes Torres perdeu o partido e está para perder o mandato, o empresário Fernando Cavendish abandonou a presidência da construtora Delta, que perde, um a um, grandes contratos.
O foco, neste momento, está nos governadores Marconi Perillo, de Goiás, e Agnelo Queiroz, do DF, com a feliz (ou infeliz) coincidência de que um é do PSDB e outro, do PT.
A base das investigações, assim, caiu pronta e detalhada no colo dos integrantes da CPI: o inquérito da PF que está na Procuradoria-Geral da República e no Supremo Tribunal Federal e que liquida o discurso ético e a carreira política de Demóstenes.
Essa, porém, é só a base para os trabalhos da CPI. Um início, um roteiro. Se é para valer, a CPI precisa identificar conexões, fazer cruzamentos, ir fundo num esquema que, ao contrário do que querem fazer crer, não se limita a Goiás e ao DF.
Por isso, surpreende que as bancadas do PT na Câmara e no Senado defendam uma CPI "com foco" e "rápida", para o bonde não sair dos trilhos e não perder o rumo. E quem manda na CPI, sob coordenação do Planalto, é justamente o PT.
E a orientação de Lula para abrir o foco e não medir esforços para apurar tudo,
BRASÍLIA - CPIs investigam, interrogam, produzem provas, usam e abusam da imprensa para divulgar os tesouros descobertos e, no final, entregam a arca cheia para o Ministério Público, sob animada expectativa de punições.
Pois a CPI do Cachoeira pegou o bonde andando e faz o percurso inverso. A Polícia Federal fez o grosso do trabalho, o MP e o Supremo já estão a bordo e a imprensa tem publicado torrentes de nomes, diálogos, fatos e evidências.
As próprias punições, policiais e políticas, já começaram antes mesmo da instalação da CPI. O pivô Carlinhos Cachoeira está preso desde fevereiro, o senador Demóstenes Torres perdeu o partido e está para perder o mandato, o empresário Fernando Cavendish abandonou a presidência da construtora Delta, que perde, um a um, grandes contratos.
O foco, neste momento, está nos governadores Marconi Perillo, de Goiás, e Agnelo Queiroz, do DF, com a feliz (ou infeliz) coincidência de que um é do PSDB e outro, do PT.
A base das investigações, assim, caiu pronta e detalhada no colo dos integrantes da CPI: o inquérito da PF que está na Procuradoria-Geral da República e no Supremo Tribunal Federal e que liquida o discurso ético e a carreira política de Demóstenes.
Essa, porém, é só a base para os trabalhos da CPI. Um início, um roteiro. Se é para valer, a CPI precisa identificar conexões, fazer cruzamentos, ir fundo num esquema que, ao contrário do que querem fazer crer, não se limita a Goiás e ao DF.
Por isso, surpreende que as bancadas do PT na Câmara e no Senado defendam uma CPI "com foco" e "rápida", para o bonde não sair dos trilhos e não perder o rumo. E quem manda na CPI, sob coordenação do Planalto, é justamente o PT.
E a orientação de Lula para abrir o foco e não medir esforços para apurar tudo,
Saldo devedor - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 29/04/12
A cifra corresponde a contratos ativos para obras de duplicação e manutenção de estradas em 17 Estados. Há outros cinco, que somam R$ 14 milhões, ques ainda não tiveram a ordem de serviço liberada. Por fim, há 20 contratos paralisados, num total de R$ 179 milhões.
O Dnit aguarda decisão da CGU (Controladoria-Geral da União), que instaurou processo para declarar a Delta inidônea, o que a impediria de manter os contratos.
No preço Antes mesmo de ser engolida pelo escândalo do Cachoeiragate, a Delta já planejava abandonar os consórcios da reforma do Maracanã e da Transcarioca, corredor que ligará a Barra ao aeroporto do Galeão.
Onde pega O real abalo financeiro da empresa, avalia a direção, será perder a galinha dos ovos de ouro do Dnit.
Lado B Nas gravações ilegais apreendidas com Carlinhos Cachoeira e que a Polícia Federal ainda está periciando há farto material sobre a vida privada de autoridades nacionais e de vários Estados, com tramas que envolvem adultério, festas e outros temperos picantes.
Pirotécnico Além dos vinhos de R$ 30 mil com que Carlinhos Cachoeira e a Delta presenteavam Demóstenes Torres, segundo a Polícia Federal os "mimos" dados ao goiano incluíam até uma bateria de fogos de artifício para comemorar a formatura da mulher do senador, Flávia.
Aviso prévio O governador Marconi Perillo (PSDB-GO) procurou caciques do PMDB para dizer que, se a deputada Iris de Araújo partir para o ataque na CPI do Cachoeira, haverá retaliação na comissão da Assembleia Legislativa contra a gestão de seu marido, Iris Rezende, na Prefeitura de Goiânia.
Luz amarela Em meio à dança de cadeiras na Petrobras, Renan Calheiros (PMDB-AL) demonstrou preocupação em conversa com outros senadores da bancada, nesta semana, com o futuro de Sérgio Machado à frente da Transpetro.
Asas O BNDES tenta articular a aquisição da aérea TAP na privatização do segundo semestre. O órgão já sondou a Gol, que teve prejuízo de R$ 710 milhões no ano passado, e a TAM, que se fundiu com a chilena Lan e tem outros planos. O próximo alvo será a Azul.
Calendário O PSDB foi o primeiro partido a marcar a convenção paulistana que vai homologar a candidatura de José Serra: o evento será no dia 17 de junho.
DDI Têm sido esporádicas, e quase sempre por telefone, as conversas de Fernando Haddad com o marqueteiro João Santana. Embora pretendesse dar apenas uma consultoria à campanha de Hugo Chávez, o brasileiro tem passado mais tempo que o previsto na Venezuela.
Mal... Virou rotina os governadores Jaques Wagner (PT-BA) e Roseana Sarney (PMDB-MA) faltarem em eventos que reúnem os governadores do Nordeste. Dos três últimos encontros, o petista compareceu a apenas um. Nos demais, foi representado pelo ex-presidente da Petrobras Sérgio Gabrielli.
... na foto Já Roseana não foi a nenhum, nem mesmo à reunião do Bird em Washington, quando estava na comitiva da presidente Dilma Rousseff e deixou a capital dos EUA antes.
tiroteio
É preciso identificar como esses crimes estão sendo tratados quanto à responsabilização. Em comum, são casos de jornalistas que desafiaram os interesses de poderosos.
DA MINISTRA MARIA DO ROSÁRIO (DIREITOS HUMANOS), sobre o encontro que o governo patrocinará na próxima semana com entidades para tratar de casos de violência ocorridos recentemente contra jornalistas no Brasil.
Contraponto
Cartão vermelho
O intérprete que traduziu para o presidente da Fifa, Joseph Blatter, as palavras de Dilma Rousseff no encontro que tiveram em março passou por uma saia-justa. A presidente não teve receio de usar seu estilo duro.
-O Jérôme Valcke não é mais bem-vindo no Brasil, disse, por conta da afirmação do dirigente da Fifa de que o país merecia levar um "pé na bunda", feita dias antes.
Blatter ouviu calado, e Dilma ainda arrematou:
-E não é o governo que diz isso. É o povo brasileiro, que foi ofendido, que não quer que ele volte.
Vazamentos - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 29/04/12
Os vazamentos dos documentos sigilosos referentes à investigação da Polícia Federal sobre a relação do senador Demóstenes Torres com o bicheiro Carlinhos Cachoeira que o Supremo Tribunal Federal enviou ao Congresso estão por toda a parte, e já nem são mais seletivos. Há fatos para todos os gostos.
Tanto a chamada “grande imprensa” quanto uma variedade imensa de blogs, de várias tendências políticas e com diversos interesses em jogo, estão divulgando sem parar documentos e gravações, para desespero, suponho, do senador autointitulado bedel da CPI.
Aliás, muitos dos documentos vazaram enquanto estavam sob a guarda do Supremo, e continuaram vazando mesmo antes de chegarem ao Congresso.
Eles demonstram mais uma vez que o relacionamento de jornalistas da revista “Veja” com o bicheiro Carlinhos Cachoeira e seus asseclas nada têm de ilícito, ficando preservada, por tudo que se conhece até o momento, a tênue linha que separa a ética jornalística de atos que podem comprometê-la.
O caso do jornal popular inglês “News of the World”, que colocou seus diretores e proprietários no banco dos réus, é exemplar dessa diferença: lá os jornalistas contratavam arapongas para espionar celebridades e políticos.
Aqui, até o momento está demonstrado que a revista se utiliza de gravações realizadas para revelar os escândalos da República.
E em diversos momentos, como revelam as gravações, a revista se colocou contra os interesses de sua fonte de informações, divulgando notícias que desagradaram o bicheiro e sua turma.
A já conhecida gravação em que Cachoeira se queixa de que o diretor da sucursal de Brasília da revista “Policarpo Junior” não dá nada em troca das informações que recebe é uma evidência disso.
O máximo que aparece nas novas gravações é um tratamento íntimo do bicheiro com o jornalista, e um pedido de uma notinha na revista, fatos que podem desagradar os que tentam politizar o caso para se vingar, ou criar um clima propício à aprovação de uma lei de controle dos meios de comunicação, mas não chegam a condenar a revista nem seus jornalistas.
As gravações mostram também, de maneira evidente, o trabalho do senador Demóstenes Torres de proteger a empreiteira Delta por interesse direto do bicheiro.
Tanto que o PSOL já decidiu aditar à sua representação contra Demóstenes no Conselho de Ética do Senado, todo o material que receber da investigação da Polícia Federal sobre o esquema Cachoeira, através do senador Randolfe Rodrigues, seu representante na CPI.
O Partido Socialismo e Liberdade, aliás, indica que terá nessa CPI um papel semelhante ao que o PT originalmente tinha quando era oposição.
Seus membros são praticamente todos oriundos da base petista, formados na dissidência primeiramente dentro do próprio partido, depois na formação de um novo partido que se quer distante do “pragmatismo” que passou a ditar as regras do governo Lula.
Por motivos errados a meu ver, pois o gatilho para a dissidência foi a reforma previdenciária que o ex-presidente Lula acertadamente tentou levar adiante no início de seu governo, o PSOL já pressentia os rumos que o PT no governo tomaria, e seus fundadores desembarcaram dele antes queestourasse o escândalo do mensalão, em 2005.
Embora insista em teses arcaicas como a implantação do socialismo no país, objetivo que o próprio PT deixou como letra morta em seu estatuto, o PSOL guarda uma certa indignação com as atitudes pouco republicanas na prática política brasileira que é saudável.
Seu instrumento de pressão, a maioria das vezes inócuo pelos próprios vícios do sistema em vigor, são as comissões de Ética e as CPIs no Congresso, como a reforçar a ideia de que o primeiro passo para uma reforma política seria a reforma de nossas práticas políticas.
O partido pretende ampliar o anexo de sua representação à Comissão de Ética com diálogos 'pouco republicanos' de Demóstenes com o contraventor, publicados na imprensa, segundo seu líder, o deputado federal Chico Alencar.
Ele contesta a tendência declarada pelo relator da Comissão de Ética, senador Humberto Costa, de desconsiderar as gravações, afirmando que “não se sustenta” a tese de que elas podem ser anuladas pelo Supremo.
Alencar utiliza-se do argumento do próprio Humberto Costa, que já declarou que o julgamento do senador de Goiás no Conselho é político, e não se cinge às tecnicalidades jurídicas.
“Portanto, tudo o que — sendo veraz, por óbvio — contribui para a análise política da quebra da Ética e do Decoro Parlamentar tem que ser levado em consideração. Assim cobraremos”.
Na análise do líder do PSOL, “há alguns parlamentares na CPMI que confiam uns nos outros, pois são independentes e não têm medo de seu passado e de seu presente, isto é, não têm ‘telhado de vidro’. Nem estão ali para blindar correligionários”. Alencar admite que “não são muitos os que não recuarão por conveniências políticas, é verdade”.
Mas acha que os “independentes” são em número suficiente para, em último caso, fazer um voto em separado, denunciando o que, na verdade, está em questão: “o padrão degenerado da política brasileira, no qual os interesses privados, legais e ilegais, imbricamse com os negócios públicos, e capturam, para o enriquecimento ilícito de pessoas e empresas, as instituições”.
Alencar considera que o caso guarda semelhanças, nesse aspecto da promiscuidade do público com o privado, com o caso do mensalão:
“Trata-se da tarefa de ‘republicanizar a República’, e a oportunidade é singular”, diz ele. Ele chama a atenção para uma declaração do governador petista do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, segundo quem “tomar a denúncia como produto de uma conspiração é errado: é deixar de lado que o Estado brasileiro — historicamente cartorial, bacharelesco e barroco nos seus procedimentos, e forjado sob o patrocínio de um liberalismo antirrepublicano — tem um sistema político, eleitoral e partidário totalmente estimulante a desvios de conduta e a condutas que propiciam a corrupção”.
Genro, por sinal, foi uma das poucas lideranças petistas que, em decorrência do escândalo do mensalão, tentou liderar um movimento dentro do partido para sua “refundação”.
Os vazamentos dos documentos sigilosos referentes à investigação da Polícia Federal sobre a relação do senador Demóstenes Torres com o bicheiro Carlinhos Cachoeira que o Supremo Tribunal Federal enviou ao Congresso estão por toda a parte, e já nem são mais seletivos. Há fatos para todos os gostos.
Tanto a chamada “grande imprensa” quanto uma variedade imensa de blogs, de várias tendências políticas e com diversos interesses em jogo, estão divulgando sem parar documentos e gravações, para desespero, suponho, do senador autointitulado bedel da CPI.
Aliás, muitos dos documentos vazaram enquanto estavam sob a guarda do Supremo, e continuaram vazando mesmo antes de chegarem ao Congresso.
Eles demonstram mais uma vez que o relacionamento de jornalistas da revista “Veja” com o bicheiro Carlinhos Cachoeira e seus asseclas nada têm de ilícito, ficando preservada, por tudo que se conhece até o momento, a tênue linha que separa a ética jornalística de atos que podem comprometê-la.
O caso do jornal popular inglês “News of the World”, que colocou seus diretores e proprietários no banco dos réus, é exemplar dessa diferença: lá os jornalistas contratavam arapongas para espionar celebridades e políticos.
Aqui, até o momento está demonstrado que a revista se utiliza de gravações realizadas para revelar os escândalos da República.
E em diversos momentos, como revelam as gravações, a revista se colocou contra os interesses de sua fonte de informações, divulgando notícias que desagradaram o bicheiro e sua turma.
A já conhecida gravação em que Cachoeira se queixa de que o diretor da sucursal de Brasília da revista “Policarpo Junior” não dá nada em troca das informações que recebe é uma evidência disso.
O máximo que aparece nas novas gravações é um tratamento íntimo do bicheiro com o jornalista, e um pedido de uma notinha na revista, fatos que podem desagradar os que tentam politizar o caso para se vingar, ou criar um clima propício à aprovação de uma lei de controle dos meios de comunicação, mas não chegam a condenar a revista nem seus jornalistas.
As gravações mostram também, de maneira evidente, o trabalho do senador Demóstenes Torres de proteger a empreiteira Delta por interesse direto do bicheiro.
Tanto que o PSOL já decidiu aditar à sua representação contra Demóstenes no Conselho de Ética do Senado, todo o material que receber da investigação da Polícia Federal sobre o esquema Cachoeira, através do senador Randolfe Rodrigues, seu representante na CPI.
O Partido Socialismo e Liberdade, aliás, indica que terá nessa CPI um papel semelhante ao que o PT originalmente tinha quando era oposição.
Seus membros são praticamente todos oriundos da base petista, formados na dissidência primeiramente dentro do próprio partido, depois na formação de um novo partido que se quer distante do “pragmatismo” que passou a ditar as regras do governo Lula.
Por motivos errados a meu ver, pois o gatilho para a dissidência foi a reforma previdenciária que o ex-presidente Lula acertadamente tentou levar adiante no início de seu governo, o PSOL já pressentia os rumos que o PT no governo tomaria, e seus fundadores desembarcaram dele antes queestourasse o escândalo do mensalão, em 2005.
Embora insista em teses arcaicas como a implantação do socialismo no país, objetivo que o próprio PT deixou como letra morta em seu estatuto, o PSOL guarda uma certa indignação com as atitudes pouco republicanas na prática política brasileira que é saudável.
Seu instrumento de pressão, a maioria das vezes inócuo pelos próprios vícios do sistema em vigor, são as comissões de Ética e as CPIs no Congresso, como a reforçar a ideia de que o primeiro passo para uma reforma política seria a reforma de nossas práticas políticas.
O partido pretende ampliar o anexo de sua representação à Comissão de Ética com diálogos 'pouco republicanos' de Demóstenes com o contraventor, publicados na imprensa, segundo seu líder, o deputado federal Chico Alencar.
Ele contesta a tendência declarada pelo relator da Comissão de Ética, senador Humberto Costa, de desconsiderar as gravações, afirmando que “não se sustenta” a tese de que elas podem ser anuladas pelo Supremo.
Alencar utiliza-se do argumento do próprio Humberto Costa, que já declarou que o julgamento do senador de Goiás no Conselho é político, e não se cinge às tecnicalidades jurídicas.
“Portanto, tudo o que — sendo veraz, por óbvio — contribui para a análise política da quebra da Ética e do Decoro Parlamentar tem que ser levado em consideração. Assim cobraremos”.
Na análise do líder do PSOL, “há alguns parlamentares na CPMI que confiam uns nos outros, pois são independentes e não têm medo de seu passado e de seu presente, isto é, não têm ‘telhado de vidro’. Nem estão ali para blindar correligionários”. Alencar admite que “não são muitos os que não recuarão por conveniências políticas, é verdade”.
Mas acha que os “independentes” são em número suficiente para, em último caso, fazer um voto em separado, denunciando o que, na verdade, está em questão: “o padrão degenerado da política brasileira, no qual os interesses privados, legais e ilegais, imbricamse com os negócios públicos, e capturam, para o enriquecimento ilícito de pessoas e empresas, as instituições”.
Alencar considera que o caso guarda semelhanças, nesse aspecto da promiscuidade do público com o privado, com o caso do mensalão:
“Trata-se da tarefa de ‘republicanizar a República’, e a oportunidade é singular”, diz ele. Ele chama a atenção para uma declaração do governador petista do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, segundo quem “tomar a denúncia como produto de uma conspiração é errado: é deixar de lado que o Estado brasileiro — historicamente cartorial, bacharelesco e barroco nos seus procedimentos, e forjado sob o patrocínio de um liberalismo antirrepublicano — tem um sistema político, eleitoral e partidário totalmente estimulante a desvios de conduta e a condutas que propiciam a corrupção”.
Genro, por sinal, foi uma das poucas lideranças petistas que, em decorrência do escândalo do mensalão, tentou liderar um movimento dentro do partido para sua “refundação”.
Em tuas mãos - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 29/04/12
O maestro João Carlos Martins opera o cérebro para recuperar movimentos; consciente, sentia o sangue escorrer na cabeça e gritava de dor; mas diz que, já na cirurgia, voltou a "sonhar"
"Olha aqui a cirurgia." Uma semana depois de passar por uma operação no cérebro que durou mais de nove horas, o maestro João Carlos Martins, 71, aperta o botão de um DVD Player para mostrar as imagens impressionantes do procedimento. O aparelho, na bancada de seu camarim, num auditório de SP, demora alguns segundos para carregar.
"A cirurgia!", grita ele quando as primeiras cenas aparecem. "Você vai ver que precisa ter muito amor à profissão para enfrentar isso."
As imagens mostram o maestro deitado. Uma parafernália de fios e ferros circunda a sua cabeça. "Eu tive que ficar acordado o tempo todo. E mostrando um astral legal... Olha, a anestesia! Olha!" Uma agulha entra em sua testa. "Olha a serra!" Aumenta o volume do DVD e diz que, na hora, escutava o som do aparelho abrindo um orifício em sua cabeça. "Tudo, tudo, eu escutava tudo!"
Gritava: "Ai, meu Deus! Meu Deus do Céu!". "O Paulo [Niemeyer, neurologista que comandou a cirurgia] avisava os outros: 'O sangue está escorrendo!' E eu sentia o sangue na minha cabeça."
"É agora! Atenção", diz Martins, olhos grudados na tela. A voz do médico destaca-se no barulho dos equipamentos cirúrgicos. Ele pede a Martins que abra a mão esquerda. O maestro bate os dedos no próprio corpo, simulando tocar piano. "Isso tudo com o crânio aberto, miolos aparecendo", diz, ao rever a cena. "Não é impressionante?" Na tela, gira o pulso, estica os dedos. "Eu não abria a mão havia dez anos..."
O maestro sofre de uma disfunção cerebral conhecida como "distonia do pianista", explica Niemeyer à coluna. "É algo que pode acometer, por exemplo, quem escreve muito e tem a 'cãibra do escrivão'." São contrações involuntárias que comprometem os movimentos. No caso de Martins, ela evoluiu a ponto de seu braço esquerdo quase grudar no peito. Em pouco tempo, ele poderia ser obrigado a deixar de reger.
Seria a segunda tragédia profissional de sua vida. Até 1998, Martins era pianista reconhecido internacionalmente, considerado um dos maiores intérpretes de Bach. Daí, o primeiro baque: começou a ter dores "insuportáveis" na mão direita, lesionada anos antes numa partida de futebol. "Era como uma faca entrando na minha pele." Os médicos decidiram cortar o nervo para que ele perdesse a sensibilidade. A mão atrofiou. Passou a tocar apenas com a mão esquerda.
Quatro anos depois, a distonia começou a afetar a outra mão. Em 2002, ele se despediu do piano em um concerto em Pequim. Reencontrou a música em 2004, quando passou a reger. Há alguns meses, alertado pelo maestro Julio Medaglia, percebeu que estava perdendo o movimento dos braços.
Procurou a clínica de Niemeyer. Que disse a ele que seria possível, numa cirurgia, recuperar o movimento dos braços. João Carlos Martins insistiu: "Eu pedi que ele tentasse também abrir as minhas mãos. Aí, qual é o meu sonho? É voltar a tocar piano com a mão esquerda. Mas ele não prometeu isso. Prometeu abrir o meu braço. Eu já estava com o braço aqui atrás".
Na cirurgia, realizada no Rio, Niemeyer fez um furo no crânio do maestro. Por ali, programado por um computador, um equipamento levou um eletrodo até núcleos do cérebro responsáveis pela modulação dos movimentos. O paciente precisa ficar consciente porque são feitos testes para ver se o eletrodo está bem posicionado. Se ele apresentar algum distúrbio visual ou dormência, por exemplo, é sinal de que o aparelho não está no lugar correto dentro da cabeça.
Do eletrodo partem fios que, entre o osso e a pele, descem pelo pescoço até a região peitoral. Ali, são ligados a estimuladores, como marcapassos, que inibem as cargas elétricas que provocam as contrações no braço do maestro.
Martins puxa a camiseta, mostra o lugar onde foram instalados "os chips". "Aqui. Um japonês e outro americano. Se um pifar, tem outro. Os médicos agora vão regulando toda semana, até o ideal."
"A única coisa que eu posso dizer é que o Paulo Niemeyer é um gênio. Uma pessoa com uma coragem incrível. E, fora ser um ícone, mantém 150 leitos para pessoas carentes no Rio de Janeiro. É de uma humildade, uma dedicação...", diz o maestro.
"Hoje faz uma semana que eu estou aqui de volta, regendo." Aponta para a camiseta e lê a frase estampada nela: "A música venceu".
Diz que teve medo. "Claro. Claro. Em 1966, eu regi um concerto com o apêndice supurado. Eu tinha 26 anos. Saí do palco, fui internado, tive uma embolia pulmonar e fiquei dois meses em coma. Qualquer um que já tenha vivido isso sente muito medo."
Na hora em que "estava ouvindo o barulho daquela serra cortando a minha cabeça, pensei: 'Meu Deus, o que estou fazendo aqui?'. Com 71 anos, você não tem que arriscar mais nada na vida. Mas, no momento em que minha mão abriu na operação, já comecei a sonhar: 'Vou continuar a reger. E quem sabe volto a tocar piano também'. Porque, no fundo, eu não me conformo de não poder tocar. É uma dor. É como um cadáver enterrado lá dentro".
"Eu já fiz 20 operações", diz ele. "Troco toda uma vida por um sonho. E ele está relacionado à música."
A TV Globo acompanhou cada passo da cirurgia de João Carlos Martins. Dias antes, filmaram o maestro regendo com o braço esquerdo colado ao corpo. Captaram imagens dele fazendo a barba, com a cara ensanguentada -com movimentos precários, ele se cortava involuntariamente. Registraram sua entrada na sala de cirurgia. E um médico fez imagens das nove horas da operação que depois foram entregues à emissora. Tudo vai ao ar nesta terça, no "Profissão Repórter", comandado por Caco Barcellos. O programa vai falar de superação.
"Lá em Rondônia, ninguém sabe meu nome. Mas falam: 'Olha, o cara da novela, o cara da Vai-Vai, o cara da superação", diz Martins, que em 2009 participou do encerramento de "Viver a Vida", trama das oito da Globo, e foi tema de samba-enredo da escola de samba paulista. "No aeroporto, por onde eu ando, as pessoas vêm com lágrimas nos olhos me dizer: 'Perdi meu filho e o seu exemplo me inspirou'. Ou dizem que tiveram câncer, tudo o que você pode imaginar."
O maestro diz que, agora, começa a segunda parte da "longa estrada" de sua recuperação. "A minha mão esquerda estava atrofiada. Eu tenho que fazer todo um aprendizado para usá-la de novo." Ergue uma garrafa de Fanta Laranja com o polegar e os dois primeiros dedos da mão esquerda. "É uma superação psicológica. Meu maior adversário serei eu mesmo."
Mesmo sem a garantia de que voltará a tocar, começará a estudar piano de novo, "como uma criança de seis anos". E faz planos: "Estreei como pianista aos 20 anos, no Carnegie Hall de Nova York. Eleanor Roosevelt estava na plateia". Na casa de shows, regeu a Orquestra Bachiana Filarmônica em 2008 e chorou ao ver tremularem, na plateia, duas bandeiras do Brasil. "No Carnegie Hall, eu tive as maiores emoções da minha vida. Meu sonho é viver, lá, tudo isso de novo."
O maestro João Carlos Martins opera o cérebro para recuperar movimentos; consciente, sentia o sangue escorrer na cabeça e gritava de dor; mas diz que, já na cirurgia, voltou a "sonhar"
"Olha aqui a cirurgia." Uma semana depois de passar por uma operação no cérebro que durou mais de nove horas, o maestro João Carlos Martins, 71, aperta o botão de um DVD Player para mostrar as imagens impressionantes do procedimento. O aparelho, na bancada de seu camarim, num auditório de SP, demora alguns segundos para carregar.
"A cirurgia!", grita ele quando as primeiras cenas aparecem. "Você vai ver que precisa ter muito amor à profissão para enfrentar isso."
As imagens mostram o maestro deitado. Uma parafernália de fios e ferros circunda a sua cabeça. "Eu tive que ficar acordado o tempo todo. E mostrando um astral legal... Olha, a anestesia! Olha!" Uma agulha entra em sua testa. "Olha a serra!" Aumenta o volume do DVD e diz que, na hora, escutava o som do aparelho abrindo um orifício em sua cabeça. "Tudo, tudo, eu escutava tudo!"
Gritava: "Ai, meu Deus! Meu Deus do Céu!". "O Paulo [Niemeyer, neurologista que comandou a cirurgia] avisava os outros: 'O sangue está escorrendo!' E eu sentia o sangue na minha cabeça."
"É agora! Atenção", diz Martins, olhos grudados na tela. A voz do médico destaca-se no barulho dos equipamentos cirúrgicos. Ele pede a Martins que abra a mão esquerda. O maestro bate os dedos no próprio corpo, simulando tocar piano. "Isso tudo com o crânio aberto, miolos aparecendo", diz, ao rever a cena. "Não é impressionante?" Na tela, gira o pulso, estica os dedos. "Eu não abria a mão havia dez anos..."
O maestro sofre de uma disfunção cerebral conhecida como "distonia do pianista", explica Niemeyer à coluna. "É algo que pode acometer, por exemplo, quem escreve muito e tem a 'cãibra do escrivão'." São contrações involuntárias que comprometem os movimentos. No caso de Martins, ela evoluiu a ponto de seu braço esquerdo quase grudar no peito. Em pouco tempo, ele poderia ser obrigado a deixar de reger.
Seria a segunda tragédia profissional de sua vida. Até 1998, Martins era pianista reconhecido internacionalmente, considerado um dos maiores intérpretes de Bach. Daí, o primeiro baque: começou a ter dores "insuportáveis" na mão direita, lesionada anos antes numa partida de futebol. "Era como uma faca entrando na minha pele." Os médicos decidiram cortar o nervo para que ele perdesse a sensibilidade. A mão atrofiou. Passou a tocar apenas com a mão esquerda.
Quatro anos depois, a distonia começou a afetar a outra mão. Em 2002, ele se despediu do piano em um concerto em Pequim. Reencontrou a música em 2004, quando passou a reger. Há alguns meses, alertado pelo maestro Julio Medaglia, percebeu que estava perdendo o movimento dos braços.
Procurou a clínica de Niemeyer. Que disse a ele que seria possível, numa cirurgia, recuperar o movimento dos braços. João Carlos Martins insistiu: "Eu pedi que ele tentasse também abrir as minhas mãos. Aí, qual é o meu sonho? É voltar a tocar piano com a mão esquerda. Mas ele não prometeu isso. Prometeu abrir o meu braço. Eu já estava com o braço aqui atrás".
Na cirurgia, realizada no Rio, Niemeyer fez um furo no crânio do maestro. Por ali, programado por um computador, um equipamento levou um eletrodo até núcleos do cérebro responsáveis pela modulação dos movimentos. O paciente precisa ficar consciente porque são feitos testes para ver se o eletrodo está bem posicionado. Se ele apresentar algum distúrbio visual ou dormência, por exemplo, é sinal de que o aparelho não está no lugar correto dentro da cabeça.
Do eletrodo partem fios que, entre o osso e a pele, descem pelo pescoço até a região peitoral. Ali, são ligados a estimuladores, como marcapassos, que inibem as cargas elétricas que provocam as contrações no braço do maestro.
Martins puxa a camiseta, mostra o lugar onde foram instalados "os chips". "Aqui. Um japonês e outro americano. Se um pifar, tem outro. Os médicos agora vão regulando toda semana, até o ideal."
"A única coisa que eu posso dizer é que o Paulo Niemeyer é um gênio. Uma pessoa com uma coragem incrível. E, fora ser um ícone, mantém 150 leitos para pessoas carentes no Rio de Janeiro. É de uma humildade, uma dedicação...", diz o maestro.
"Hoje faz uma semana que eu estou aqui de volta, regendo." Aponta para a camiseta e lê a frase estampada nela: "A música venceu".
Diz que teve medo. "Claro. Claro. Em 1966, eu regi um concerto com o apêndice supurado. Eu tinha 26 anos. Saí do palco, fui internado, tive uma embolia pulmonar e fiquei dois meses em coma. Qualquer um que já tenha vivido isso sente muito medo."
Na hora em que "estava ouvindo o barulho daquela serra cortando a minha cabeça, pensei: 'Meu Deus, o que estou fazendo aqui?'. Com 71 anos, você não tem que arriscar mais nada na vida. Mas, no momento em que minha mão abriu na operação, já comecei a sonhar: 'Vou continuar a reger. E quem sabe volto a tocar piano também'. Porque, no fundo, eu não me conformo de não poder tocar. É uma dor. É como um cadáver enterrado lá dentro".
"Eu já fiz 20 operações", diz ele. "Troco toda uma vida por um sonho. E ele está relacionado à música."
A TV Globo acompanhou cada passo da cirurgia de João Carlos Martins. Dias antes, filmaram o maestro regendo com o braço esquerdo colado ao corpo. Captaram imagens dele fazendo a barba, com a cara ensanguentada -com movimentos precários, ele se cortava involuntariamente. Registraram sua entrada na sala de cirurgia. E um médico fez imagens das nove horas da operação que depois foram entregues à emissora. Tudo vai ao ar nesta terça, no "Profissão Repórter", comandado por Caco Barcellos. O programa vai falar de superação.
"Lá em Rondônia, ninguém sabe meu nome. Mas falam: 'Olha, o cara da novela, o cara da Vai-Vai, o cara da superação", diz Martins, que em 2009 participou do encerramento de "Viver a Vida", trama das oito da Globo, e foi tema de samba-enredo da escola de samba paulista. "No aeroporto, por onde eu ando, as pessoas vêm com lágrimas nos olhos me dizer: 'Perdi meu filho e o seu exemplo me inspirou'. Ou dizem que tiveram câncer, tudo o que você pode imaginar."
O maestro diz que, agora, começa a segunda parte da "longa estrada" de sua recuperação. "A minha mão esquerda estava atrofiada. Eu tenho que fazer todo um aprendizado para usá-la de novo." Ergue uma garrafa de Fanta Laranja com o polegar e os dois primeiros dedos da mão esquerda. "É uma superação psicológica. Meu maior adversário serei eu mesmo."
Mesmo sem a garantia de que voltará a tocar, começará a estudar piano de novo, "como uma criança de seis anos". E faz planos: "Estreei como pianista aos 20 anos, no Carnegie Hall de Nova York. Eleanor Roosevelt estava na plateia". Na casa de shows, regeu a Orquestra Bachiana Filarmônica em 2008 e chorou ao ver tremularem, na plateia, duas bandeiras do Brasil. "No Carnegie Hall, eu tive as maiores emoções da minha vida. Meu sonho é viver, lá, tudo isso de novo."
Formula Indy! Galvão Free! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 29/04/12
Na Marginal, só se usam quatro marchas: parado, paralisado, ponto morto e puto da vida!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta: "Ônibus do Vasco é campeão em multas". Finalmente o Vasco é campeão! Levou 50 multas por excesso de velocidade e uma por avançar o sinal. Ou seja, tudo o que o Vasco não faz em campo, o ônibus faz na rua! E outra piada pronta de basquete: "Jogador que mudou de nome para Paz Mundial dá cotovelada e é expulso da NBA". A paz mundial não se comportou! Rarará!
E a manchete do Sensacionalista: "Sarney recebe alta, mas não sai do cargo. A vaga é do PMDB!".
E hoje é Fórmula Indy. Com o nosso Rubinho, o INDYABRADO! Fórmula 1, Fórmula Indy e não tem fórmula pra fazer o Galvão desaparecer? Rarará! O bom da Indy é que é GALVÃO FREE! A Indy é o sonho de todo paulista: poder correr na Marginal. Porque na Marginal só se usam quatro marchas: parado, paralisado, ponto morto e puto da vida!
E não adianta os corredores reclamarem de ondulação na pista. Não é ondulação. Foi o Kassab que mandou instalar umas lombadas pra evitar acidente! Na próxima, ele bota uns quebra-molas! Rarará! E com vista para o rio Tietê. O Tietê parece instalação da Bienal: colchão mofado, pneu velho e pet!
E eu já sei quem vai ganhar: um motoboy! O único que tem condições de correr em São Paulo! O mensageiro do caos! E ganha quem cair num buraco! O vencedor vai ser engolido por um buraco!
E diz que tem três mulheres na Indy. Espero que uma delas não seja aquela minha vizinha que bate no meu carro. E depois fala: "Ih, eu não vi". Mas eu buzinei: "Ih, não ouvi!".
E três regras para os pilotos da Indy: não pode passar dos 90 km/h, senão o radar te multa. Pra estacionar nos boxes, tem que dar "déizão" pros flanelinhas, senão eles riscam o carro. E, quando passar pelo Sambódromo, tem que descer do carro e dar uma sambadinha. Rarará!
É mole? É mole, mas sobe!
E a CPI do Cachoeira está aberta! GLUB, GLUB, GLUB! Traje: escafandro! E o Cachoeira só fala em "trem". Tudo pra ele é "trem". A CPI do Trem! E o Collor é o maquinista! CPIIUUIIIII! E um cara escreveu no meu Twitter: "Demóstenes contrata Júlio César e Deola para a defesa".
Então não vai terminar em pizza, vai terminar em frango! Rarará! Demóstre-mes com quem andas, e a PF te dirás quem és! E rápido, porque estou atrasado pra praia! Nóis sofre, mas nóis goza. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Na Marginal, só se usam quatro marchas: parado, paralisado, ponto morto e puto da vida!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta: "Ônibus do Vasco é campeão em multas". Finalmente o Vasco é campeão! Levou 50 multas por excesso de velocidade e uma por avançar o sinal. Ou seja, tudo o que o Vasco não faz em campo, o ônibus faz na rua! E outra piada pronta de basquete: "Jogador que mudou de nome para Paz Mundial dá cotovelada e é expulso da NBA". A paz mundial não se comportou! Rarará!
E a manchete do Sensacionalista: "Sarney recebe alta, mas não sai do cargo. A vaga é do PMDB!".
E hoje é Fórmula Indy. Com o nosso Rubinho, o INDYABRADO! Fórmula 1, Fórmula Indy e não tem fórmula pra fazer o Galvão desaparecer? Rarará! O bom da Indy é que é GALVÃO FREE! A Indy é o sonho de todo paulista: poder correr na Marginal. Porque na Marginal só se usam quatro marchas: parado, paralisado, ponto morto e puto da vida!
E não adianta os corredores reclamarem de ondulação na pista. Não é ondulação. Foi o Kassab que mandou instalar umas lombadas pra evitar acidente! Na próxima, ele bota uns quebra-molas! Rarará! E com vista para o rio Tietê. O Tietê parece instalação da Bienal: colchão mofado, pneu velho e pet!
E eu já sei quem vai ganhar: um motoboy! O único que tem condições de correr em São Paulo! O mensageiro do caos! E ganha quem cair num buraco! O vencedor vai ser engolido por um buraco!
E diz que tem três mulheres na Indy. Espero que uma delas não seja aquela minha vizinha que bate no meu carro. E depois fala: "Ih, eu não vi". Mas eu buzinei: "Ih, não ouvi!".
E três regras para os pilotos da Indy: não pode passar dos 90 km/h, senão o radar te multa. Pra estacionar nos boxes, tem que dar "déizão" pros flanelinhas, senão eles riscam o carro. E, quando passar pelo Sambódromo, tem que descer do carro e dar uma sambadinha. Rarará!
É mole? É mole, mas sobe!
E a CPI do Cachoeira está aberta! GLUB, GLUB, GLUB! Traje: escafandro! E o Cachoeira só fala em "trem". Tudo pra ele é "trem". A CPI do Trem! E o Collor é o maquinista! CPIIUUIIIII! E um cara escreveu no meu Twitter: "Demóstenes contrata Júlio César e Deola para a defesa".
Então não vai terminar em pizza, vai terminar em frango! Rarará! Demóstre-mes com quem andas, e a PF te dirás quem és! E rápido, porque estou atrasado pra praia! Nóis sofre, mas nóis goza. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Coisa de profissional - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 29/04/12
Na política brasileira, Carlinhos Cachoeira tem hoje força incomparável; está muito além da PF
CPI mista de Senado e Câmara, Conselho de Ética do Senado e a agitação pré-campanha eleitoral das eleições municipais -é uma salada experimental bastante criativa, embora de sabor incerto, que será preparada em maio para servir-se em junho, quando as pré-candidaturas e as já candidaturas estarão fumegando.
Tal entrelaçamento, por si só, torna possíveis dois rumos: a CPI ou o conselho ou ambos se esvaziam em poucas semanas, ou, em direção oposta, se entrelaçam em um processo capaz de efeitos muito além dos presumidos.
Dentre os fatores que decidirão entre um sentido e outro, Carlos Augusto Ramos, ou Carlinhos Cachoeira, tem a primazia absoluta.
Na política brasileira, Carlinhos Cachoeira tem hoje força incomparável. As gravações e a investigação (da qual não se tem notícia) feitas pela Polícia Federal são capazes de produzir muitos abalos.
A depender, primeiro, de até onde sejam liberadas; depois, de até onde sejam utilizadas. Nunca se tem certeza de uma coisa nem a influência necessária para a outra (nesta última carência, o caso Renan Calheiros e suas vaquinhas milagrosas é exemplar).
Mas Carlinhos Cachoeira está muito além da Polícia Federal.
Quem se dá ao cuidado de comprar telefones com pretensa proteção contra gravações, e os distribui para uso com seus interlocutores especiais, não é amador. Carlinhos Cachoeira é profissional.
Suas providências para contar com o auxílio da Receita Federal e da Infraero, ao voltar dos Estados Unidos a Brasília, são sugestivas, tratando-se de alguém afeito a telefones protegidos, câmeras, microfones e gravadores imperceptíveis, e outras últimas gerações.
E afeito já experimentado. O vídeo que Carlinhos Cachoeira divulgou no começo do governo Lula, com Waldomiro Diniz lhe pedindo comissão, foi feito bem antes. Tem mais de dez anos. O que indica precauções profissionais muito anteriores ao uso recente de telefones Nextel.
A dedução lógica é a de que esse profissional não deixou, jamais, de registrar, por algum ou por todos os modos possíveis, cada palavra e cada ato capaz de desestimular, se necessário relembrá-lo, uma simples recusa, quanto mais a insensatez de uma hostilidade.
Companheiros, sócios, amigos, muito bem agraciados com favores, presentes e recompensas aos serviços e às boas relações.
Aos contatos novos, a simpática abertura de relacionamento, sempre à disposição. É muita gente, foram muitos serviços e negócios, foram muitas recompensas. Mas profissional sabe o que é a vida e não dispensa as maneiras de acautelar-se contra suas armadilhas.
Ou alguém pensaria que os temores e os medos que mal se disfarçam, em Brasília e em vários Estados, com relação à CPI e em todos os pisos da política e dos negócios sombrios, são uma epidemia de transtornos psicológicos?
Carlinhos Cachoeira nem precisaria mostrar muito. Não é certo nem sequer que mostre alguma coisa porque pode ter ainda a esperança de amparos e saídas que o salvem do futuro amargo. Esperança inútil, tudo indica. E talvez o caminho oposto é que o levasse à solução menos onerosa. Embora a menos desejada por todas as partes da salada de agitações: a delação premiada, ou algo assim.
Redimidos - LUIZ FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 29/04/12
Quando o grampo telefônico e a mini-câmera escondida ainda não eram instrumentos de denúncia e moralização, o político corrupto podia contar com uma certa tolerância tácita dos seus pares e do público. Mesmo quando não havia dúvidas quanto à sua corrupção, havia a disposição de perdoá-lo, até de folclorizá-lo – e o político que roubava mas fazia tinha o privilégio do artista, de ser um canalha em particular se sua obra o redimisse. Uma única gravura do Picasso absolve uma vida de mau caráter. A obra do Marquês de Sade é estudada com a mesma isenção moral dedicada à obra de Santo Agostinho – que nem sempre foi santo – e ninguém quer saber se o escritor engana o fisco ou bate na mãe se seus livros são bons. Ou querer saber, queremos, mas só pelo valor de fuxico. A absolvição custa um pouco mais quando o pecado do artista é o da ideologia errada. Pois se se admitia no político a perversão privada do artista, a única inconveniência intolerável no artista era a incorreção política. Assim um Louis-Ferdinand Céline e um Wilson Simonal tiveram que esperar a remissão que o tempo acabou dando a Kipling, Claudel, Nelson Rodrigues, Jean Genet, etc. Mas a receberam.
O político que declaradamente roubava mas se redimia fazendo tinha um pouco desta imunidade de artista. Sua obra justificava seus pecados, quando não era uma decorrência deles. Todo o sistema de conveniências e deixa-pra-laismo que domina o Congresso brasileiro e que está sendo testado agora presume a mesma desconexão entre moral privada e moral aparente. A cultura do clientelismo, onde o suposto proveito político substitui a ética, está baseado nela. O que causou a atual revolta contra a roubalheira e a tolerância com a corrupção no Brasil, além das modernas técnicas de averiguação, é a constatação crescente de que aqui não se tem nem a ética nem o proveito, rouba-se para poucos e não se faz para a maioria. Em cleptocracias mais avançadas a obra dos artistas do desenvolvimento, todos bandidos, redimiu-os. Empresários corruptores e políticos corruptos fizeram dos Estados Unidos, por exemplo, o que eles são hoje. O capitalismo selvagem americano domou a si mesmo depois de construir um país, ou controlou-se razoavelmente, mas nos seus tempos desinibidos escandalizaria até o Cachoeira. Aqui tem-se o crime mas ainda não se tem o país.
PALAVRAS AVULSAS
O “rude e doloroso” idioma de Bilac é falado por mais gente do que o francês, mas temos razões para nos queixar da sua relativa obscuridade. Ao contrário da Espanha, que perdeu seu império americano mas deixou um imenso mercado para o García Márquez e o Vargas Llosa, Portugal não foi muito pródigo com a sua língua. Seus navegadores, catequizadores e comerciantes apenas largaram palavras avulsas pelos caminhos da sua exploração do mundo, como pepitas raras. Até hoje na Costa Ocidental da África usam a palavra “dash” para gorjeta. Vem do português “deixar”, como em “Vou deixar uns trocados para você, ó mameluco!”. No Japão, o prato de camarão com legumes fritos chamado “tempura” tem este nome por causa dos portugueses que só comiam peixe durante os “Quattuor Tempora”, ou Quatro Tempos, de cinzas e contrição, do ano litúrgico. O “mandarim” chinês vem de “mandar” mesmo, combinada com o sânscrito “mantrin”, ou conselheiro. Algumas palavras portuguesas andaram pelo mundo e voltaram com seu sentido mudado. “Casta”, substantivo, camada social, vem do português “casta”, adjetivo. “Fetishe” começou a vida como feitiço. E o “joss” do chinês pidgin, significando ídolo, é uma corruptela do “Deus” chiado dos portugueses.
Enfim, não é muito mas é nosso.
Quando o grampo telefônico e a mini-câmera escondida ainda não eram instrumentos de denúncia e moralização, o político corrupto podia contar com uma certa tolerância tácita dos seus pares e do público. Mesmo quando não havia dúvidas quanto à sua corrupção, havia a disposição de perdoá-lo, até de folclorizá-lo – e o político que roubava mas fazia tinha o privilégio do artista, de ser um canalha em particular se sua obra o redimisse. Uma única gravura do Picasso absolve uma vida de mau caráter. A obra do Marquês de Sade é estudada com a mesma isenção moral dedicada à obra de Santo Agostinho – que nem sempre foi santo – e ninguém quer saber se o escritor engana o fisco ou bate na mãe se seus livros são bons. Ou querer saber, queremos, mas só pelo valor de fuxico. A absolvição custa um pouco mais quando o pecado do artista é o da ideologia errada. Pois se se admitia no político a perversão privada do artista, a única inconveniência intolerável no artista era a incorreção política. Assim um Louis-Ferdinand Céline e um Wilson Simonal tiveram que esperar a remissão que o tempo acabou dando a Kipling, Claudel, Nelson Rodrigues, Jean Genet, etc. Mas a receberam.
O político que declaradamente roubava mas se redimia fazendo tinha um pouco desta imunidade de artista. Sua obra justificava seus pecados, quando não era uma decorrência deles. Todo o sistema de conveniências e deixa-pra-laismo que domina o Congresso brasileiro e que está sendo testado agora presume a mesma desconexão entre moral privada e moral aparente. A cultura do clientelismo, onde o suposto proveito político substitui a ética, está baseado nela. O que causou a atual revolta contra a roubalheira e a tolerância com a corrupção no Brasil, além das modernas técnicas de averiguação, é a constatação crescente de que aqui não se tem nem a ética nem o proveito, rouba-se para poucos e não se faz para a maioria. Em cleptocracias mais avançadas a obra dos artistas do desenvolvimento, todos bandidos, redimiu-os. Empresários corruptores e políticos corruptos fizeram dos Estados Unidos, por exemplo, o que eles são hoje. O capitalismo selvagem americano domou a si mesmo depois de construir um país, ou controlou-se razoavelmente, mas nos seus tempos desinibidos escandalizaria até o Cachoeira. Aqui tem-se o crime mas ainda não se tem o país.
PALAVRAS AVULSAS
O “rude e doloroso” idioma de Bilac é falado por mais gente do que o francês, mas temos razões para nos queixar da sua relativa obscuridade. Ao contrário da Espanha, que perdeu seu império americano mas deixou um imenso mercado para o García Márquez e o Vargas Llosa, Portugal não foi muito pródigo com a sua língua. Seus navegadores, catequizadores e comerciantes apenas largaram palavras avulsas pelos caminhos da sua exploração do mundo, como pepitas raras. Até hoje na Costa Ocidental da África usam a palavra “dash” para gorjeta. Vem do português “deixar”, como em “Vou deixar uns trocados para você, ó mameluco!”. No Japão, o prato de camarão com legumes fritos chamado “tempura” tem este nome por causa dos portugueses que só comiam peixe durante os “Quattuor Tempora”, ou Quatro Tempos, de cinzas e contrição, do ano litúrgico. O “mandarim” chinês vem de “mandar” mesmo, combinada com o sânscrito “mantrin”, ou conselheiro. Algumas palavras portuguesas andaram pelo mundo e voltaram com seu sentido mudado. “Casta”, substantivo, camada social, vem do português “casta”, adjetivo. “Fetishe” começou a vida como feitiço. E o “joss” do chinês pidgin, significando ídolo, é uma corruptela do “Deus” chiado dos portugueses.
Enfim, não é muito mas é nosso.
A rapina da tecnologia na educação - ELIO GASPARI
O GLOBO - 29/04/12
Com vocês, Delúbio Soares 2.0. A Polícia Federal achou-o no restaurante 14 Bis, no Rio, discutindo o fornecimento de lousas digitais para escolas públicas capixabas e goianas. Segundo o empresário interessado, o companheiro disse-lhe que "um pedido do meu deputado é praticamente uma ordem". Referia-se ao deputado estadual Misael Oliveira (PDT-GO).
Desde que o Homo sapiens grafitou a caverna de Altamira, há 15 mil anos, repete-se o costume de usar uma pedra (giz) para desenhar ou, mais tarde, escrever numa superfície rígida. Desde o século XI isso é feito em escolas. Os quadros-negros custam pouco, não enguiçam, não consomem energia, nem precisam de manutenção.
As lousas digitais, cinematográficas, interativas e coloridas tornaram-se parte de uma praga estimulada por fornecedores de equipamentos eletrônicos para a rede pública de ensino. Cada uma custa pelo menos o salário-base de um professor (R$ 1.451). Um dos municípios que contrataram lousas da empresa que tratou com Delúbio foi o de Presidente Kennedy (ES). Gastou R$ 2,7 milhões em três escolas, e o endereço da fornecedora era um terreno baldio. O prefeito e seis secretários, inclusive a de Educação, foram presos. Com os royalties da Petrobras, Presidente Kennedy tem uma das maiores rendas per capita do Espírito Santo e um dos piores índices de desenvolvimento humano.
O pequeno município não está sozinho nessa febre. O MEC quer comprar 600 mil tablets para que professores preparem suas aulas (como, não diz). Isso e mais 10 mil lousas digitais. O governo de São Paulo estuda um investimento de R$ 5,5 bilhões para colocar lousas e tabuletas em todas as escolas públicas. Gustavo Ioschpe foi atrás da ideia e descobriu que a Secretaria de Educação não tinha um projeto pedagógico que amparasse a iniciativa. Toda a documentação disponível resumia-se a uma carta do presidente da Dell (fornecedor do equipamento), com um resumo de um estudo da Unesco. Pediu o texto, mas não o obteve.
Lousas digitais, tabuletas e laptops são instrumentos do progresso quando fazem parte de uma ação integrada, na qual tudo começa pela capacitação do professor. Hoje, no Brasil, contam-se nos dedos as experiências bem-sucedidas na rede pública. Prevalecem desperdícios que poderiam ser evitados pela aplicação da Lei de Simonsen: "Pague-se a comissão, desde que o intermediário esqueça o assunto".
Quem acredita que Delúbio Soares estava interessado no aprendizado da garotada de Presidente Kennedy, vá em frente.
Na mosca
Há dois meses, um ministro do STF arriscou um palpite: o Supremo poderá declarar constitucionais as cotas nas universidades públicas por unanimidade. Parecia otimismo.
Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e está fascinado com a CPMI do Cachoeira. Ele acredita que se trata de uma encarnação do Curupira do romance "Macunaíma", que caminhava com os pés ao contrário. Em geral, essas comissões desembocam num relatório que desencadeia investigações policiais. Desta vez, ela começa com uma investigação concluída, para chegar onde, não se sabe.
Inspirado no Curupira, o idiota acha que não se deve procurar quem a CPMI quer ouvir ou o que quer descobrir. É o contrário, deve-se atentar para quem ela não quer ouvir e o que não quer investigar. Cada silêncio significará uma conclusão.
Fim da Febraban
Aos poucos, a banca se dá conta de que a Federação Brasileira de Bancos é uma mistura de alhos com bugalhos, responsável pela deterioração da imagem pública das instituições financeiras.
Ao retirar o presidente da Febraban da negociação da queda dos juros, deixando o caso para ser tratado por cada banco, descobriram que dois e dois são quatro.
Há uns dez anos, os grandes laboratórios farmacêuticos lançaram-se no combate aos medicamentos genéricos e esconderam-se atrás da Abifarma. Resultado: os genéricos estão aí e a Abifarma simplesmente foi extinta, substituída pela Interfarma, instituição presidida pelo ex-governador do Rio Grande do Sul, Antônio Britto. Ela trabalha com o entendimento que há três agendas: a do país, a do governo e a da indústria farmacêutica. Quem as mistura produz encrencas.
Icebergs
O estaleiro Atlântico Sul, joia da coroa do programa de revitalização do setor naval, fechou o ano com um prejuízo de R$ 1,5 bilhão, um perdão do velho e bom BNDES, e um espeto no Banco do Brasil. Seu petroleiro João Cândido foi ao mar, mas não navega, já a Samsung, sócio que entrou com a tecnologia, foi-se embora.
Assim como ocorreu no governo JK e na ditadura, o programa naval está num mar cheio de icebergs. O capitão Edward Smith, comandante do barco que naufragou há cem anos, tinha uma barba parecida com a do doutor Luciano Coutinho. Afundou com o barco. Teria feito melhor se, ao saber dos riscos, tivesse se preparado para uma emergência.
A mão de Deus na Suprema Corte dos EUA
Em seus votos a favor das cotas em universidades públicas, o ministro Joaquim Barbosa lembrou que se deve ao presidente da Corte Suprema dos Estados Unidos, Earl Warren, a articulação da unanimidade que derrubou a segregação racial nas escolas americanas.
Em 1953, o processo (Brown x Board of Education) estava com o juiz Fred Vinson, que presidia a Corte. Temia-se que ele construísse uma maioria favorecendo a persistência da segregação. O juiz Felix Frankfurter, um magistrado briguento e sarcástico, estava em casa quando um colaborador aproximou-se e anunciou: Fred Vinson foi fulminado por um ataque cardíaco.
Frankfurter, que detestava o colega, respondeu: "Esta é a primeira prova concreta que tive, em toda a minha vida, da existência de Deus".
O presidente Eisenhower nomeou Warren, ex-governador da Califórnia, e poucos meses depois a segregação racial nas escolas foi declarada inconstitucional. A Suprema Corte sabia que sua decisão mudaria a História do país e fechou a conta por unanimidade.
China eterna
O campeão da luta contra a corrupção na China, o companheiro Bo Xilai, gostava do alheio e sua mulher, Madame Gu, exportava dinheiro com a ajuda de um inglês que acabou assassinado. (Ela teria estado na cena do seu envenenamento.) Sua família amealhou US$ 160 milhões.
Nada de novo no Império do Meio. A China já teve uma imperatriz acusada de ter envenenado o sobrinho, que construiu um iate de mármore. Depois dela, Madame Chiang Kai-shek, mulher do inimigo (anticomunista) de Mao Zedong, terminou seus dias em 2003, aos 105 anos, num dos edifícios mais chiques de Nova Iorque. Tinha um apartamento de dois andares e 18 quartos, com 24 empregados em três turnos.
Ela pendurava patos depenados nas janelas e deu barata no edifício. Um dos operários que trabalharam na dedetização viu: "Num closet, guardava só barras de ouro. Coisa de Fort Knox, não eram barras de chocolate Hershey''s".
Indigestão - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 29/04/12
Os planos de saúde estão com indigestão.
Apenas a chamada classe C recebeu mais de 40 milhões de novos integrantes nos últimos sete anos. São agora 103 milhões (ou 54%) dos brasileiros, aponta o estudo O Observador Brasil 2012, da consultoria Cetelem BGN, do Grupo BNP Paribas (veja o Confira). E essa massa de consumidores vai migrando para planos de saúde, porque não quer mais depender só da precariedade dos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS).
Desde 2005, o número de beneficiários de planos médicos hospitalares cresceu 29%. Já são 47 mil. E há ainda 16 milhões atendidos por planos odontológicos (veja o gráfico). Ao final de 2011, quase 1,6 mil operadoras atuavam no País - apontam estatísticas da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). O Instituto de pesquisas Data Popular indica que, em dez anos, despesas com serviços de saúde feitas só pelas classes médias aumentaram 130%.
A expansão provém tanto da estabilização econômica obtida no período Fernando Henrique como das políticas de crescimento de renda do período Lula-Dilma.
O presidente da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge), Arlindo de Almeida, festeja o novo filão: "É a classe C no foco dos negócios das empresas de saúde". As seguradoras têm 9,0% do mercado; cooperativas médicas, 28%; e empresas de medicina de grupo, 33%.
O sonho do plano de saúde vem logo em seguida do sonho da casa própria, observa Bruno Sobral, diretor de Desenvolvimento Setorial da ANS. Mas os problemas se acumulam. Enquanto a busca pelo serviço de saúde desaba sobre o mercado como cachoeira, a oferta recolhe essa demanda com algumas bacias. Só no primeiro trimestre deste ano, primeiro de vigência dos novos prazos máximos de atendimento estipulados pela ANS, registraram-se 2.981 infrações - 19% das empresas do segmento foram objeto de queixas.
O setor começou a se expandir nos anos 70 para atender às necessidades das classes médias. Mas avançou com mentalidade amadora, sem muita preocupação com qualidade gerencial, sem ganhos de escala e sem controle de custos. A grande demanda dos últimos dez anos parecia boa chance para avanços em racionalidade administrativa. Mas as fusões e incorporações se limitaram às grandes operadoras. Poucas mudanças aconteceram na maioria do setor, de pequenas e médias.
A população quer qualidade e nem sempre tem noção da atual desproporção entre os custos crescentes dos serviços de saúde e as contribuições que faz. Dante Montagnana, presidente do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios de São Paulo, pergunta: "Como esperar que serviços pagos com R$ 50 por mês atendam a toda essa demanda? Só para comparar, grandes operadoras cobram mais de R$ 400 mensais de fatias pequenas da sociedade, as classes A e B (22% da população), e também já não dão conta". Essa desproporção motivou, nessa semana, manifestações de médicos em 12 Estados do Brasil, inconformados com o pagamento mínimo de R$ 12 por consulta.
Os planos de saúde não se prepararam para a demanda do mercado e, assim, frustram o sonho de toda essa gente. Essas coisas têm consequências.
Imposto escondido - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 29/04/12
O empresário Jorge Gerdau gosta de números. Se você não tiver como anotar, vai se perder na conversa. No debate sobre se o Brasil está se desindustrializando ou não, ele está com o primeiro grupo. E tem um número para provar: o déficit comercial do setor de manufaturas foi de US$ 92 bilhões no ano passado, cinco anos atrás era de US$ 20 bilhões. Ele não culpa o câmbio, mas o complexo sistema de impostos embutidos.
Gerdau é um dos donos de uma siderúrgica que tem 49 usinas em 14 países e é também da Câmara de Competitividade, que no governo tenta implantar mais eficiência na gestão pública e um modelo de mais competitividade para a economia brasileira.
- O setor industrial brasileiro é muito produtivo e tem baixa competitividade - diz.
Parece contraditório, mas o que ele está dizendo é que, no caso que conhece bem, o aço, o Brasil é o terceiro mais produtivo do mundo, em termos de custos e eficiência de produção, mas é o segundo mais caro do mundo quando entra o preço final. E fica mais caro pelos impostos e preço de energia.
No custo da energia, nas várias usinas que a Gerdau tem na América do Norte - Canadá e Estados Unidos - o preço varia do menor nível por volta de US$ 31 e US$ 33 por MWh, em Cambridge e Midlothian, até US$ 76 em Jacksonville. No Brasil, os preços mais baixos são os da Siderúrgica Riograndense, US$ 76. O mais alto é US$ 126, em Divinópolis. As diferenças ficam ainda maiores quando se compara o custo do gás.
O aço brasileiro tem o terceiro menor custo de produção em bobina a quente e o quarto menor em vergalhão. Quando entram na conta os tributos em geral, inclusive impostos sobre investimento, o produto do Brasil fica mais caro do que os de China, Rússia, Turquia, Estados Unidos e Alemanha.
Dos impostos no Brasil, todos reclamam. Na sexta-feira, tomei café da manhã com Gerdau, na quinta-feira, passei seis horas no Morro Dona Marta em debates e entrevistas. O presidente da Associação de Moradores, José Mário Hilário dos Santos, apontou uma moradora que, no mesmo momento que eu, subia de bonde ao alto do morro. Ela carregava uma sacola com arroz e feijão que havia acabado de comprar.
- Ela pagou de impostos naquele arroz e feijão o mesmo que você, que é moradora da Gávea. Você acha justo? A sua rua é varrida, as árvores são podadas, você tem todos os serviços - disse.
Os impostos indiretos são injustos por serem exatamente o que José Mário falou: o mesmo para qualquer consumidor independentemente do nível de renda.
O empresário e conselheiro de competitividade do governo brasileiro acha que é injusto o exportador pagar tanto imposto escondido no produto e competir com outros países que desoneram a produção e o investimento. Por isso, encomendou estudo para saber quanto há de imposto num carro estrangeiro que chega ao país e num carro produzido e vendido aqui:
- Nós temos que decidir se queremos ter indústria ou não. Para muita gente não é tão visível esse processo, porque o empresário fecha a fábrica, importa, dá uma tropicalizada e vende aqui.
Transparência no que se paga de impostos é tão importante para um empresário quanto para o morador de uma área de periferia. Disse a Gerdau que seria importante ter transparência de todas as isenções que alguns setores industriais recebem e outros não, tarifas diferenciadas de energia, subsídios dos empréstimos do BNDES. Não se tem transparência no Brasil nem no que o Estado nos cobra nem no quanto ele nos dá. Em vez de uma reforma tributária, o governo tem distribuído favores e isenções para setores escolhidos. Isso é que tem criado mais distorção.
Gerdau admite que uma política industrial precisaria olhar para todos os fatores de competitividade:
- Educação, por exemplo, é fundamental. O que torna uma empresa ou um país competitivo é a cabeça do seu povo. Vou te dar um exemplo. Sabe quanto tempo os funcionários da Siderúrgica Rio Grandense levam para desligar, descarregar e religar o forno? Oito minutos. Quanto leva a siderúrgica da Colômbia? Vinte minutos. O processo é complexo, mas com método e mão de obra qualificada conseguimos reduzir esse tempo. Não podemos ter uma população educada no nível que o mundo exige hoje com apenas 2,7 horas de aula efetiva por dia. O brasileiro tem que estudar mais porque eu quero competir com a Ásia.
Depois da educação, o segundo fator mais importante de competitividade é, na opinião de Gerdau, a logística. Segundo a conta dele, o custo da logística brasileira é de 14% a 15% do PIB. Nos Estados Unidos, é 6,5%.
A hora em que a gente se perde na conversa com ele é quando começa a desfilar números do impacto de imposto sobre imposto em cada produto, como PIS, Cofins, IOF, ICMS, INSS. Enfim, a lista é grande, os números se acumulam. No caso dos custos trabalhistas, ele lembra que é preciso diferenciar o dinheiro que vai para o trabalhador, como FGTS, do imposto mesmo que incide sobre a folha.
- Não faz sentido cobrar imposto sobre intermediação financeira, como há no Brasil. Do spread, 27% é IOF. Pense no imposto embutido no empréstimo para capital de giro. Se contar o tempo que leva da retirada do minério até ficar pronto o produto final são quase seis meses que a empresa leva para ver de volta o dinheiro.
Gerdau acha que tudo isso tem que ficar mais claro para todos os contribuintes. E nisso estamos todos de acordo.
Brasil tem de se proteger - ALBERTO TAMER
O Estado de S.Paulo - 29/04/12
Ninguém se animou no mercado financeiro internacional com o anúncio do Fundo Monetário Internacional (FMI) de que havia conseguido US$ 430 bilhões para conter em parte a crise da dívida na zona do euro, que entra no seu terceiro ano sem solução à vista. Não é que os investidores não confiem no fundo. Eles não estão é convencidos de que esse dinheiro será suficiente para evitar uma nova Grécia.
Até agora, o FMI e a nova direção do Banco Central Europeu (BCE) têm apenas adiado soluções que não dependem deles, mas dos governos dos países da zona do euro. A solução mais indicada por quase todos, a criação do Eurobonds, que incorporariam os títulos soberanos dos 17 países do bloco, foi rejeitada pela Alemanha.
Em vez de alívio, o que houve neste fim de semana foi mais tensão com o rebaixamento da nota da Espanha pela agência de classificação de risco Standard & Poor's - a nota do país caiu de A para BBB+. Com esse movimento, a agência sinaliza que a Espanha vai precisar de socorro, não só do FMI, mas dos governos da zona do euro também.
A Standard & Poor's vai mais longe, criticando a forma pela qual os espanhóis estão reagindo com medidas de austeridade fiscal sem crescimento econômico.
A Espanha reativa a crise financeira na zona do euro que havia sido atenuada pelos empréstimos subsidiados do Banco Central Europeu, afirmavam as agências internacionais na sexta-feira.
"A economia da Espanha enfrenta uma crise de enormes proporções. Os números são terríveis para qualquer um, terríveis para o governo", disse na sexta-feira o ministro das Relações Exteriores do país, Jose Manuel Garcia-Margallo, em entrevista a uma rádio. Ele se referia à taxa de desemprego, que subiu para 24,44% no primeiro trimestre do ano.
Exemplo da Grécia. O FMI já enviou duas missões técnicas a Madri este ano - a primeira, entre os dias 1 e 2 de fevereiro, e a segunda, de 12 a 15 de abril -, e deixou vazar para a imprensa a informação de que os bancos espanhóis não têm capacidade de enfrentar sozinhos os seus problemas.
Provavelmente, a Espanha será levada ainda este ano a um programa do tipo troica (ajuda do FMI, do BCE e dos governos da zona do euro), como aconteceu com a Grécia, prevê um relatório divulgado por dois analistas do Citibank.
Só que, mesmo tendo uma dívida pública estimada pelo FMI de 79% do PIB, a Espanha é a quarta economia da União Europeia e seu sistema financeiro é incomparavelmente maior do que o da Grécia.
Títulos soberanos. A maioria dos investidores continuou se desfazendo de títulos soberanos da Espanha - e os mais ousados, que ainda compravam, estavam usando o empréstimo subsidiado do Banco Central Europeu, de 1 trilhão. Só os bancos espanhóis absorveram quase 300 bilhões.
O próprio BCE deixou de comprar títulos da Espanha e da Itália, argumentando que "não é esse o caminho". O caminho, num primeiro momento, é aumentar a liquidez, emitindo euros e oferecendo aos bancos, o que está tardiamente fazendo. É austeridade fiscal para voltar a crescer. Só não se sabe como.
A saída mais recomendada pelos economistas, e até mesmo pelo FMI e pelo BCE, a de emitir eurobonds, absorvendo a dívida total do bloco, foi vetada pela Alemanha, a maior economia do bloco. Quem errou que pague, dizem os alemães. Mas agora querem, por meio do FMI, que os países emergentes, que não têm nada com isso, ajudem a pagar a dívida europeia, entrando com mais da metade dos US$ 430 bilhões que levaram o caixa do fundo a dispor de US$ 700 bilhões.
Brasil que se proteja. O Brasil já deu um não para a ideia, até mesmo para os US$ 10 bilhões, simbólicos, sim, diante do valor pedido, mas que revelam um fato de extrema importância. Não pretende socorrer os países endividados da zona do euro porque está mais empenhado em se "proteger" do que "evitar" uma crise sobre a qual nada pode fazer.
PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV
7h - Real Madrid x Sevilla, Campeonato Espanhol, ESPN e ESPN HD
8h30 - GP da Espanha, MotoGP, Sportv e Sportv HD
9h30 - Chelsea x QPR, Campeonato Inglês, ESPN Brasil
10h - Novara x Juventus, Campeonato Italiano, ESPN
10h - Siena x Milan, Campeonato Italiano, ESPN HD e Sportv
10h - Circuito mundial de vôlei de praia, Etapa da Polônia, Esporte Interativo e Sportv
11h - Copa do Mundo de ginástica artística, Etapa da Croácia, Sportv 2
12h - Tottenham x Blackburn, Campeonato Inglês, ESPN Brasil e ESPN HD
12h30 - Etapa de São Paulo, Indy, Band e Bandsports
14h45 - Betis x Atl. de Madri, Campeonato Espanhol, ESPN
15h - Rio Ave x Benfica, Campeonato Português, Esporte Interativo
15h45 - Udinese x Lazio, Campeonato Italiano, ESPN HD
16h - São Paulo x Santos, Campeonato Paulista, Band e Globo (para SP)
16h - Vasco x Botafogo, Estadual do Rio, Band e Globo (menos SP)
16h - Lille x PSG, Campeonato Francês, Sportv 2
18h30 - Guarani x Ponte Preta, Campeonato Paulista, Sportv
21h - Tampa Bay x Texas, Beisebol, ESPN e ESPN HD
CLAUDIO HUMBERTO
“Ele está pronto pra luta, pra tudo”
Ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral), sobre o futuro do ex-presidente Lula
ES: ESQUEMA LUCROU R$ 50 MILHÕES EM 90 DIAS
Investigação da Polícia Federal no Espírito Santo estima que, em apenas noventa dias, a compra e venda de terrenos em Presidente Kennedy proporcionou lucros de mais de R$ 50 milhões ao esquema desbaratado pela Operação Lee Oswald. Terrenos foram comprados a preço de banana um pouco antes de serem anunciados investimentos públicos na região. As áreas eram, ainda, supervalorizadas pela concessão de incentivos fiscais às empresas que as comprassem.
LUCRO ESPETACULAR
A ZMM Empreendimentos, com assessoria da BK, do ex-secretário da Fazenda José Teófilo, lucrou R$ 15,6 milhões em dez dias, diz a PF.
NEGÓCIO DA CHINA
Nesse negócio, a ZMM vendeu por R$ 27,9 milhões, em 4 de agosto de 2008, uma área pela qual havia pago R$ 12,3 mi em 25 de julho.
VORACIDADE
Em poucos dias, o grupo investigado pela PF negociou 29 áreas em Presidente Kennedy, no total de 18,3 milhões de metros quadrados.
SÓCIOS
Segundo o inquérito da PF, o ex-secretário José Teófilo seria sócio do ex-governador Paulo Hartung (PMDB) na consultoria Econos.
EX TEME CALOTE EM DIVÓRCIO COM O ‘DONO’ DO PR
A socialite paulista Maria Christina Mendes Caldeira mostra que ex-mulher é mesmo para sempre: ela entrou com liminar na Justiça para garantir 50% dos bens na partilha do seu rumoroso divórcio do deputado Valdemar da Costa Neto (SP), “dono” do PR. Maria Christina pediu à Receita Federal que rastreie aplicações, móveis e imóveis, contas bancárias e declaração de renda dos últimos cinco anos.
NEOPETISTA
À Câmara, em 2005, a ex de Valdemar o envolveu numa “caixinha” de Taiwan para a campanha de Lula. Há meses, disse que entraria no PT.
CÓDIGO DE ENIGMAS
Para o ruralista Zé Silva (PDT-MG), o polêmico novo Código Florestal até parece com outro bem mais complicado: o Código da Vinci.
AMIGOS DE MORFEU
No Senado, ninguém ficará insone com CPIs: até 2016, estão garantidos os serviços do Instituto do Sono de Brasília, por R$ 300 mil.
RAINHA DO TWITTER
A argentina Cristina Kirchner está bombando no Twitter: tem um milhão de seguidores entre os 40 milhões de argentinos. Já a brasileira Dilma tem 1,2 milhão de seguidores – e nossa população soma 194 milhões.
IMPUNIDADE
O araponga Idalberto Araújo, o Dadá, foi indiciado, em 2007, na CPI das Escutas Telefônicas, mas não teve qualquer punição. Para Luiz Pitiman (PMDB-DF), “ele só aumentou o passe. Foi contratado por Cachoeira”.
DISTÂNCIA
A deputada Íris de Araújo (PMDB-GO) garante não ter recebido ligação do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), pedindo-lhe apoio: “Eu sou a última pessoa para quem ele ligaria. Haja óleo de peroba!”.
DÉJÀ VU
Do senador Sérgio Petecão (PSD), sobre denúncias envolvendo o PT no Acre com esquemas de Carlos Cachoeira: “O governo se trancou; os caras comandam tudo, são poderosos e paladinos da moralidade”.
MACHU PICHU
Ex-marido de Marta Suplicy, o argentino Felipe Belisário (“Luiz Favre”) ainda assessora o presidente peruano Ollanta Humala, apesar dos protestos. Ele tem sido alvo de piadinhas nos jornais locais.
BOXE E POLÍTICA
O deputado Acelino Popó (PRB-BA) divide as atividades legislativas em Brasília com treinamento de boxe. Ele se prepara para enfrentar o invicto Michael Oliveira, dia 2 de junho, em Punta Del Este, no Uruguai.
PEDRA NO CAMINHO
Além da pressão para reduzir danos, a CPI do Cachoeira também vai enfrentar o pedido da quebra de sigilo dos investigados, que o STF decide. E no “direito constitucional de permanecer calado” do depoente.
ASSIM É, SE LHE PARECE
Condenado na CPI, o Ecad agora diz que o objetivo das investigações foi justificar a criação de entidades públicas fiscalizadoras do Escritório e “garantir o calote das emissoras de rádios e TV inadimplentes”.
PENSANDO BEM...
...Se Cachoeira se considera preso político, como disse a mulher dele, em breve terá direito à anistia do Ministério da Justiça.
PODER SEM PUDOR
MEMÓRIA CURTA
Foi uma surra memorável. Candidato a vice-governador na chapa de Virgílio Távora em 1958, o ex-prefeito de Fortaleza Acrísio Moreira da Rocha não tinha o direito de esquecer aquela sova cívica. Mas esqueceu. Anos depois, numa entrevista, ele garantiu que jamais havia sido derrotado nas urnas.
– E a eleição de 58? – insistiu o repórter inconveniente.
Acrísio não perdeu a pose:
– Como é que eu poderia ganhar levando nas costas um piano pesado como Virgílio? Nem se fosse guindaste...
Ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral), sobre o futuro do ex-presidente Lula
ES: ESQUEMA LUCROU R$ 50 MILHÕES EM 90 DIAS
Investigação da Polícia Federal no Espírito Santo estima que, em apenas noventa dias, a compra e venda de terrenos em Presidente Kennedy proporcionou lucros de mais de R$ 50 milhões ao esquema desbaratado pela Operação Lee Oswald. Terrenos foram comprados a preço de banana um pouco antes de serem anunciados investimentos públicos na região. As áreas eram, ainda, supervalorizadas pela concessão de incentivos fiscais às empresas que as comprassem.
LUCRO ESPETACULAR
A ZMM Empreendimentos, com assessoria da BK, do ex-secretário da Fazenda José Teófilo, lucrou R$ 15,6 milhões em dez dias, diz a PF.
NEGÓCIO DA CHINA
Nesse negócio, a ZMM vendeu por R$ 27,9 milhões, em 4 de agosto de 2008, uma área pela qual havia pago R$ 12,3 mi em 25 de julho.
VORACIDADE
Em poucos dias, o grupo investigado pela PF negociou 29 áreas em Presidente Kennedy, no total de 18,3 milhões de metros quadrados.
SÓCIOS
Segundo o inquérito da PF, o ex-secretário José Teófilo seria sócio do ex-governador Paulo Hartung (PMDB) na consultoria Econos.
EX TEME CALOTE EM DIVÓRCIO COM O ‘DONO’ DO PR
A socialite paulista Maria Christina Mendes Caldeira mostra que ex-mulher é mesmo para sempre: ela entrou com liminar na Justiça para garantir 50% dos bens na partilha do seu rumoroso divórcio do deputado Valdemar da Costa Neto (SP), “dono” do PR. Maria Christina pediu à Receita Federal que rastreie aplicações, móveis e imóveis, contas bancárias e declaração de renda dos últimos cinco anos.
NEOPETISTA
À Câmara, em 2005, a ex de Valdemar o envolveu numa “caixinha” de Taiwan para a campanha de Lula. Há meses, disse que entraria no PT.
CÓDIGO DE ENIGMAS
Para o ruralista Zé Silva (PDT-MG), o polêmico novo Código Florestal até parece com outro bem mais complicado: o Código da Vinci.
AMIGOS DE MORFEU
No Senado, ninguém ficará insone com CPIs: até 2016, estão garantidos os serviços do Instituto do Sono de Brasília, por R$ 300 mil.
RAINHA DO TWITTER
A argentina Cristina Kirchner está bombando no Twitter: tem um milhão de seguidores entre os 40 milhões de argentinos. Já a brasileira Dilma tem 1,2 milhão de seguidores – e nossa população soma 194 milhões.
IMPUNIDADE
O araponga Idalberto Araújo, o Dadá, foi indiciado, em 2007, na CPI das Escutas Telefônicas, mas não teve qualquer punição. Para Luiz Pitiman (PMDB-DF), “ele só aumentou o passe. Foi contratado por Cachoeira”.
DISTÂNCIA
A deputada Íris de Araújo (PMDB-GO) garante não ter recebido ligação do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), pedindo-lhe apoio: “Eu sou a última pessoa para quem ele ligaria. Haja óleo de peroba!”.
DÉJÀ VU
Do senador Sérgio Petecão (PSD), sobre denúncias envolvendo o PT no Acre com esquemas de Carlos Cachoeira: “O governo se trancou; os caras comandam tudo, são poderosos e paladinos da moralidade”.
MACHU PICHU
Ex-marido de Marta Suplicy, o argentino Felipe Belisário (“Luiz Favre”) ainda assessora o presidente peruano Ollanta Humala, apesar dos protestos. Ele tem sido alvo de piadinhas nos jornais locais.
BOXE E POLÍTICA
O deputado Acelino Popó (PRB-BA) divide as atividades legislativas em Brasília com treinamento de boxe. Ele se prepara para enfrentar o invicto Michael Oliveira, dia 2 de junho, em Punta Del Este, no Uruguai.
PEDRA NO CAMINHO
Além da pressão para reduzir danos, a CPI do Cachoeira também vai enfrentar o pedido da quebra de sigilo dos investigados, que o STF decide. E no “direito constitucional de permanecer calado” do depoente.
ASSIM É, SE LHE PARECE
Condenado na CPI, o Ecad agora diz que o objetivo das investigações foi justificar a criação de entidades públicas fiscalizadoras do Escritório e “garantir o calote das emissoras de rádios e TV inadimplentes”.
PENSANDO BEM...
...Se Cachoeira se considera preso político, como disse a mulher dele, em breve terá direito à anistia do Ministério da Justiça.
PODER SEM PUDOR
MEMÓRIA CURTA
Foi uma surra memorável. Candidato a vice-governador na chapa de Virgílio Távora em 1958, o ex-prefeito de Fortaleza Acrísio Moreira da Rocha não tinha o direito de esquecer aquela sova cívica. Mas esqueceu. Anos depois, numa entrevista, ele garantiu que jamais havia sido derrotado nas urnas.
– E a eleição de 58? – insistiu o repórter inconveniente.
Acrísio não perdeu a pose:
– Como é que eu poderia ganhar levando nas costas um piano pesado como Virgílio? Nem se fosse guindaste...
DOMINGO NOS JORNAIS
- Globo: Delta é acusada de contratar fantasmas e abandonar obras
- Folha: Máquina de lavar chega ao sertão do NE antes da água
- Estadão: Patrimônio de Demóstenes quadruplicou após eleição
- Correio: Cachoeira espionou a diretoria do DNIT
- Estado de Minas: Pequenas cidades, grandes rombos
- Jornal do Commercio: Promessas no lixo
- Zero Hora: Telefonia móvel – À espera do 4G, clientes enfrentam rede limitada
sábado, abril 28, 2012
SHAKESPERIANO - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 28/04/12
Marcello Antony raspou a cabeça para viver Macbeth na peça de mesmo nome que estreia em 1º de junho, no Teatro Vivo. Ele está ensaiando há dois meses em SP. "Ser protagonista de qualquer coisa é um desafio. É um personagem com suas belezas e malvadezas, como todo humano", diz. "Já fiquei careca por outros personagens. É tranquilo."
ZÍPER ABERTO
O empresário do jogo Carlinhos Cachoeira afirmou não apenas à mulher, Andressa Mendonça, mas também a advogados e a amigos que o visitam que "está louco" para falar.
EU TE CONHEÇO
Um de seus interlocutores diz ter entendido que Cachoeira quer, antes de mais nada, passar "recados" a seus críticos. Mas sem, a princípio, revelações bombásticas e comprometedoras.
DE OUTROS CARNAVAIS
O mesmo interlocutor afirma que Cachoeira caiu na gargalhada ao ver a lista de parlamentares que fazem parte da CPI que o investigará. Afirmou estar curioso para saber as perguntas que alguns integrantes, que conhece, farão no dia em que ele for depor na comissão.
DIETA FORÇADA
E Andressa, que namora Cachoeira há nove meses, emagreceu dois quilos nesses dois meses em que ele está preso. Mas não deixou de fazer ginástica duas vezes por semana, em casa. E de ir ao salão de beleza.
ALIANÇAS
Os dois, que haviam planejado se casar em março, mantêm os planos de oficializar a união. Ela disse a Cachoeira que ele precisa "sair logo da cadeia para casar", pois já está se sentindo "enrolada". Pensam numa cerimônia em casa. Ela é evangélica e ele, católico.
TERRA DO JOGO
No ano passado, os dois fizeram viagem romântica para Las Vegas. Assistiram a um show de Celine Dion e a um musical sobre os Beatles.
DILEMA
E o filho mais velho de Cachoeira, que tem 13 anos, quer visitar o pai. Ele não quer que o garoto vá.
VIZINHANÇA
Naji Nahas visitou José Sarney (PMDB-AP) no hospital Sírio-Libanês, onde estiveram internados -o empresário colocou três pontes de safena. Nahas foi ao quarto do senador desejar "boa sorte" quando ele teve alta.
BIEBER VEM AÍ
O cantor Justin Bieber, 18, deve vir ao Brasil em maio para divulgar seu novo CD.
SEM FILTRO
De janeiro até a última segunda-feira, já foram apreendidos quase 1,1 milhão de pacotes de cigarros contrabandeados pela Polícia Rodoviária Federal. Em todo o ano passado, foram 4,8 milhões. Governo e indústria esperam que o decreto que definirá o preço mínimo de R$ 3 para o maço, que entra em vigor na terça, ajude a reduzir a pirataria do produto.
NOITE NO AEROPORTO
Além de Zeca Pagodinho, o sambista Monarco, 78, também não conseguiu embarcar de volta ao Rio, anteontem à noite, porque o aeroporto de Congonhas fechou devido à chuva. Ficou mais de quatro horas no local até conseguir que a TAM enviasse os passageiros a um hotel.
ERA UMA VEZ
Jennifer Morrison, a Cameron do seriado "House", desembarca em SP na próxima semana. Divulgará a série "Once Upon a Time" (Sony).
ACELERADOR
Os pilotos Rubens Barrichello, Helio Castroneves, Bia Figueiredo e Ryan Hunter-Reay foram ao jantar em homenagem aos "Amigos da Indy" promovido pela Bandeirantes no restaurante Pobre Juan, anteontem. Vice-presidente do grupo, Marcelo Meira estava lá.
CURTO-CIRCUITO
Acontece hoje, às 18h, a exibição do curta "De Outros Carnavais", de Paulo Miranda, na Cinemateca Brasileira. Classificação etária: livre.
A ONG Make-A-Wish Brasil promove hoje, a partir das 10h, a quarta Caminhada pelos Sonhos, no parque Ibirapuera.
Nana Moraes autografa o livro "Andorinhas" no dia 4 de maio, a partir das 19h, na Livraria da Vila da alameda Lorena.
com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY
Marcello Antony raspou a cabeça para viver Macbeth na peça de mesmo nome que estreia em 1º de junho, no Teatro Vivo. Ele está ensaiando há dois meses em SP. "Ser protagonista de qualquer coisa é um desafio. É um personagem com suas belezas e malvadezas, como todo humano", diz. "Já fiquei careca por outros personagens. É tranquilo."
ZÍPER ABERTO
O empresário do jogo Carlinhos Cachoeira afirmou não apenas à mulher, Andressa Mendonça, mas também a advogados e a amigos que o visitam que "está louco" para falar.
EU TE CONHEÇO
Um de seus interlocutores diz ter entendido que Cachoeira quer, antes de mais nada, passar "recados" a seus críticos. Mas sem, a princípio, revelações bombásticas e comprometedoras.
DE OUTROS CARNAVAIS
O mesmo interlocutor afirma que Cachoeira caiu na gargalhada ao ver a lista de parlamentares que fazem parte da CPI que o investigará. Afirmou estar curioso para saber as perguntas que alguns integrantes, que conhece, farão no dia em que ele for depor na comissão.
DIETA FORÇADA
E Andressa, que namora Cachoeira há nove meses, emagreceu dois quilos nesses dois meses em que ele está preso. Mas não deixou de fazer ginástica duas vezes por semana, em casa. E de ir ao salão de beleza.
ALIANÇAS
Os dois, que haviam planejado se casar em março, mantêm os planos de oficializar a união. Ela disse a Cachoeira que ele precisa "sair logo da cadeia para casar", pois já está se sentindo "enrolada". Pensam numa cerimônia em casa. Ela é evangélica e ele, católico.
TERRA DO JOGO
No ano passado, os dois fizeram viagem romântica para Las Vegas. Assistiram a um show de Celine Dion e a um musical sobre os Beatles.
DILEMA
E o filho mais velho de Cachoeira, que tem 13 anos, quer visitar o pai. Ele não quer que o garoto vá.
VIZINHANÇA
Naji Nahas visitou José Sarney (PMDB-AP) no hospital Sírio-Libanês, onde estiveram internados -o empresário colocou três pontes de safena. Nahas foi ao quarto do senador desejar "boa sorte" quando ele teve alta.
BIEBER VEM AÍ
O cantor Justin Bieber, 18, deve vir ao Brasil em maio para divulgar seu novo CD.
SEM FILTRO
De janeiro até a última segunda-feira, já foram apreendidos quase 1,1 milhão de pacotes de cigarros contrabandeados pela Polícia Rodoviária Federal. Em todo o ano passado, foram 4,8 milhões. Governo e indústria esperam que o decreto que definirá o preço mínimo de R$ 3 para o maço, que entra em vigor na terça, ajude a reduzir a pirataria do produto.
NOITE NO AEROPORTO
Além de Zeca Pagodinho, o sambista Monarco, 78, também não conseguiu embarcar de volta ao Rio, anteontem à noite, porque o aeroporto de Congonhas fechou devido à chuva. Ficou mais de quatro horas no local até conseguir que a TAM enviasse os passageiros a um hotel.
ERA UMA VEZ
Jennifer Morrison, a Cameron do seriado "House", desembarca em SP na próxima semana. Divulgará a série "Once Upon a Time" (Sony).
ACELERADOR
Os pilotos Rubens Barrichello, Helio Castroneves, Bia Figueiredo e Ryan Hunter-Reay foram ao jantar em homenagem aos "Amigos da Indy" promovido pela Bandeirantes no restaurante Pobre Juan, anteontem. Vice-presidente do grupo, Marcelo Meira estava lá.
CURTO-CIRCUITO
Acontece hoje, às 18h, a exibição do curta "De Outros Carnavais", de Paulo Miranda, na Cinemateca Brasileira. Classificação etária: livre.
A ONG Make-A-Wish Brasil promove hoje, a partir das 10h, a quarta Caminhada pelos Sonhos, no parque Ibirapuera.
Nana Moraes autografa o livro "Andorinhas" no dia 4 de maio, a partir das 19h, na Livraria da Vila da alameda Lorena.
com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY
Faz de conta - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 28/04/12
Estamos começando a viver um clima de faz de conta mesmo antes de a CPI do Cachoeira começar seus trabalhos de fato. O PT formalmente declara-se disposto a limitar as investigações sobre a empreiteira Delta ao que acontecia na sua direção do Centro Oeste, cujo diretor já está preso. Como se os métodos adotados naquela região pela empresa nada tivessem a ver com a sua cultura no resto do país.
Ora, a empreiteira tem (ou tinha) obras em praticamente todas as unidades da Federação, sobretudo devido ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e nada indica que seus métodos de ganhar licitações fossem diferentes em Goiás e no Rio de Janeiro, por exemplo.
A relação próxima, quase promíscua, do empresário Fernando Cavendish com o governador Sérgio Cabral e seus secretários, se não estivesse já demonstrada no episódio do trágico acidente de helicóptero ocorrido em Porto Seguro, fica explicitada pelas
fotos que o deputado e exgovernador Garotinho postou em seu blog ontem.
A comemoração do governador e vários de seus secretários em Paris com o empreiteiro revela um tipo de comportamento incompatível com o decoro de servidores públicos, além de intimidade suspeita com o empreiteiro responsável por grandes obras no estado.
Nenhum daqueles funcionários públicos provavelmente terá condições de provar que pagou a farra com dinheiro próprio, mesmo que alguns deles, como o secretário de Transportes, Julio Lopes, pudessem ter condições de fazê-lo.
E o secretário de governo, Régis Fichtner, que é o encarregado de auditoria dos contratos da Delta com o estado, nesfa fase em que se pretende fazer desaparecer os traços de ligação entre a empreiteira e o governo do Rio, aparece abraçado a Cavendish em uma das fotos, o que o descredencia para a tarefa.
Não é possível fazer de conta que a relação profissional da Delta com políticos de vários partidos e em vários estados não mereça ser investigada quando há claros indícios de que os métodos utilizados no Centro-Oeste não eram específicos apenas daquela região do país onde atuava originariamente o bicheiro Cachoeira.
Também o senador petista Humberto Costa quer fazer de conta que não há as gravações que implicam o senador Demóstenes Torres em diversos crimes e desvios de conduta. Como relator da Comissão de Ética do Senado, que vai julgar o senador amigo do bicheiro, ele diz que não vai usar as gravações por temer que elas sejam desqualificadas pelo Supremo Tribunal Federal, o que anularia uma eventual decisão da Comissão baseada nelas.
Ora, se não vai se basear nas gravações, presume-se que Humberto Costa vai inocentar Demóstenes Torres, ou então vai condená-lo por ter recebido do bicheiro fogão e geladeira importados como presente de casamento, o que ele já admitiu da tribuna do Senado.
Enquanto seus desvios éticos se resumiam a isso, o senador de Goiás se sentiu em condições de subir à tribuna para se defender, e recebeu apoio de nada menos que 44 senadores de todos os partidos, dispostos a lhe perdoar esse pequeno desvio de conduta.
A situação de conluio com o bicheiro só ficou clara depois que as gravações da Polícia Federal vazadas para a imprensa mostraram o grau de intimidade entre os dois e a atuação do senador em órgãos do governo e no próprio Senado a favor dos interesses de Carlinhos Cachoeira.
A atuação de sua defesa, na tentativa de impugnar as provas obtidas através das gravações, é perfeitamente compreensível, mas não se compreende que seus pares se antecipem a uma decisão da Justiça que está longe de ser consensual e retirem dos autos da Comissão de Ética as provas contra Demóstenes.
Aliás, foi mais uma vez devido ao vazamento de gravações e de dados do processo que a opinião pública ficou sabendo da verdadeira dimensão de mais esse escândalo.
Parece, portanto, mais um faz de conta o empenho do ministro do STF Ricardo Lewandowski para que o processo que ontem pôs à disposição de várias comissões do Congresso não vaze.
O ministro chegou a citar os artigos que punem com a prisão a quebra do sigilo de justiça. Embora seja esse o papel que lhe cabe, não é possível esquecer que o relatório está com ele há meses e há meses vem sendo vazado diariamente de diversas maneiras, sem que se possa saber as origens dessas informações.
As penas a que se refere Lewandowski em seu ofício ao Congresso se referem àqueles que quebram o sigilo, e já há jurisprudência no sentido de que os meios de comunicação que reproduzem essas informações não são alcançáveis pelas punições, e sim os servidores públicos responsáveis pela preservação do sigilo do processo.
Neste caso como em vários outros que provocaram a demissão de diversos ministros do governo Dilma, foram as revelações da imprensa que escancararam os desvios que estavam acontecendo em diversos ministérios, e sem essas revelações não teria sido possível apanhar os servidores públicos que se desviaram de suas funções.
Mesmo que nenhum deles tenha sido preso ou que os processos sobre seus “malfeitos” acabem dando em nada, pelo menos a opinião pública ficou sabendo o que se passava nas entranhas do governo.
Agora mesmo temos o exemplo do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que ficou com a investigação da Polícia Federal
e do Ministério Público em sua gaveta inexplicavelmente sem denunciar o senador Demóstenes Torres ao Supremo, o que só viria a acontecer quando o escândalo estourou e as gravações foram vazadas pela imprensa.
A intenção de quem vaza essas informações e os seus efeitos colaterais que podem favorecer o interesse de partes em conflito no submundo não têm importância diante dos benefícios à sociedade que as revelações trazem.
Assim como o ex-governador Garotinho tem interesse político em denunciar seu hoje inimigo Sérgio Cabral, também o bicheiro Cachoeira tinha muitos interesses em jogo quando fazia suas gravações clandestinas.
Mas a revelação por parte da imprensa ajuda a colocar luz no ambiente público.
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