sexta-feira, abril 20, 2012
Dirceu e seus mensaleiros - JOÂO MELLÃO NETO
O Estado de S.Paulo - 20/04/12
Parece nome de banda de rock, mas não é. Trata-se de algo ainda pior. Está mais para Ali Babá e os 40 Ladrões. Na verdade um pouco menos, porque, entre as quatro dezenas de denunciados, alguns já foram absolvidos. Os mensaleiros protestam inocência, como, aliás, fazem todos aqueles que cumprem pena no inferno. Lúcifer - que reside por lá - vive a cutucá-los com o seu tridente e eles reclamam por entenderem que não merecem tal tratamento. Os petistas, em geral, são todos assim. Vivem a cometer as maiores barbaridades e se sentem com a consciência tranquila porque tudo o que fazem se justifica pela nobreza da "causa" que defendem.
Que causa tão excelsa seria essa? Ora, a "causa justa", a mesma pela qual se bateram Lenin, Trotsky e Stalin, que extinguiu qualquer vestígio de liberdade e - ninguém entende por quê - ainda povoa os sonhos de muitos imbecis. Um mundo melhor, uma sociedade composta de iguais, sem classes, na qual as pessoas, em vez de competirem entre si, colaboram umas com as outras. Alguém já resumiu essa questão de forma magistral: "Capitalismo é um regime em que os homens exploram os homens. Já o socialismo é exatamente o contrário".
A opinião pública não se sensibiliza com tais sutilezas e Asmodeu, pelo visto, também não. Na dúvida, ele prefere torturar as 38 almas decaídas que - enquanto não são devidamente julgadas - estão sofrendo o opróbrio popular. Eles se dividem entre o quarto e o oitavo círculo do inferno.
Segundo a descrição de Dante Alighieri - que alegou ter estado por lá -, o inferno é composto de nove círculos concêntricos - cada um mais profundo que o outro - para onde vão as almas de acordo com a gravidade de seus pecados. No quarto círculo habitam os gananciosos, cuja pena eterna é empurrar, morro acima, pesados sacos de dinheiro. Já no oitavo círculo residem pecadores responsáveis por delitos ainda mais graves. Entre eles se destacam os corruptos e os fraudadores. Seguindo o relato do italiano, existem ali dez fossos. Em geral essa gente está localizada no quinto fosso e há alguns também que desceram para o sétimo e até mesmo para o décimo - morada dos falsificadores. Há castigos disponíveis para todos os gostos. Desde a imersão do corpo em piche fervente até a contaminação pela lepra e pela sarna. Existe também a possibilidade de submersão em fezes e esterco e o incômodo de se ter a cabeça torcida para trás.
O curioso é que os petistas, apesar de suas agruras, acreditam piamente que estão provisoriamente no purgatório, a caminho das delícias proporcionadas pelo paraíso. O próprio José Dirceu é um exemplo eloquente disso. Ele ainda alimenta ambições eleitorais e não acredita, de forma alguma, que eventualmente possa vir a ser condenado pela Justiça. E esta não faz nada para desdizê-lo. Ao contrário.
Desde que o ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal (STF), inadvertidamente, acolheu a denúncia do então procurador-geral da República, a Suprema Corte parece não saber como descascar esse espinhoso abacaxi. Se os magistrados votarem pela condenação dos réus, ficarão de mal com o governo. Se votarem pela absolvição, ficarão de mal com a já exacerbada opinião pública. Na dúvida, o mais prudente a fazer é adiar o julgamento. Sine die, ou seja, sabe lá Deus quando. Atitude tão temerária não se encontra sequer em nenhuma republiqueta subsaariana. Enquanto isso, os mensaleiros, apesar de tudo o que todo mundo sabe, podem continuar a dormir em paz.
Há gente de sobra a defendê-los. Existe até mesmo um ex-presidente da República que tem apostado todo o seu prestígio na tese de que o mensalão, na verdade, nunca existiu...
Haja cara de pau!
Então os mais de R$ 90 milhões movimentados pelo "carequinha" Marcos Valério, todo o dinheiro que foi recebido em notas vivas na boca do caixa de alguns bancos acumpliciados, os dólares confessadamente recebidos pelo então marqueteiro do PT em paraísos fiscais, nada disso, na verdade, existiu? Nem com toda a boa vontade do mundo dá para acreditar nessa história. Lula que nos perdoe, mas essa versão, mesmo que acompanhada da melhor maionese, é impossível engolir...
As eleições aproximam-se, serão realizadas no próximo mês de outubro, e ainda não foi decidida uma data para o início do julgamento. Pior: o ministro encarregado de revisar o processo não dá o menor sinal de quando vai concluí-lo. De acordo com o princípio jurídico de individualização das penas, não são possíveis condenações coletivas. Cada caso deverá ser julgado de acordo com as suas circunstâncias. Ou seja, havendo 38 réus, ocorrerão 38 julgamentos.
Estamos chegando a maio. Em julho haverá as férias forenses e os srs. ministros afirmam ser um "absurdo" deixar de desfrutá-las. Quando voltarem ao trabalho, em agosto, três deles estarão afastados, envolvidos com o processo eleitoral - eles acumulam a função de ministros do Tribunal Superior Eleitoral. Um quarto deverá declarar-se impedido de julgar, já que é umbilicalmente ligado ao PT. Dos 11 ministros titulares restarão, então, apenas sete. Traduzindo em miúdos: nada de julgamentos, ao menos por enquanto. Nada acontecerá que possa comover a opinião pública e se traduzir em mudanças nos resultados das eleições. Talvez ocorra algo no decorrer do ano que vem. Talvez nunca mais aconteça nada. Primeiro, porque muitas das eventuais penas acabarão por prescrever. Segundo, porque, transcorrido o pleito, o interesse do povo haverá, necessariamente, de arrefecer.
A Copa vem aí e, logo depois, teremos a Olimpíada. Toda essa pressa, então, para quê?
Nós ainda haveremos de acatar a versão de Lula e pedir desculpas a toda essa corja pelos estorvos que lhe estamos causando.
Zé Dirceu para presidente! Ao menos em 2030.
Reprise - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 20/04/12
A disputa entre os mesmos grupos que duelaram pela presidência da Câmara e pela liderança do governo na Casa transformou numa guerra interna do PT a escolha do relator da CPI do Cachoeira. De um lado, com apoio de Lula, José Dirceu e Rui Falcão, está o ex-líder Cândido Vaccarezza. De outro, respaldado pela ministra Ideli Salvatti e pelos líderes Arlindo Chinaglia e Jilmar Tatto, fica o também paulista Paulo Teixeira.
A briga pela função se justifica: cabe ao relator definir o roteiro de trabalho da investigação, estabelecendo limites e prioridades nos depoimentos e nas quebras de sigilos, duas das armas de uma CPI.
Eu, não Diante do velho impasse no PT, outros nomes na bancada foram sondados. Alexandre Molon (RJ) alegou estar sobrecarregado com a relatoria do marco civil da internet, e Henrique Fontana (RS), com a reforma política.
Dúvida De um integrante da cúpula petista sobre o impasse na Câmara para escolher o relator: "O PT é tão enrolado que daqui a pouco vai fazer prévia para porteiro de Assembleia Legislativa''.
Tropa de choque O líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), afirma que só um pedido da presidente Dilma o faria integrar a CPI do Cachoeira. Senadores aliados dizem que só Braga garantirá blindagem ao Planalto, já que devem participar da comissão os "magoados" Renan Calheiros (AL) e Romero Jucá (RR).
Revival A CPI ainda não começou os trabalhos, mas já resgata personagens de escândalos dos tempos da CPI dos Bingos. Ex-assessor de Antonio Palocci e personagem do caso Waldomiro Diniz, o advogado Rogério Buratti protestou no Twitter: "A CPI vai esclarecer muita bobagem que foi dita. Nunca entendi por que a Getch me envolveu naquela história".
Cofrinho Os governadores aproveitaram a viagem a Brasília, por conta da posse de Carlos Ayres Britto na presidência do Supremo Tribunal Federal, para se reunir para fechar o pleito de renegociação da dívida dos Estados. A reivindicação, ecumênica, reuniu Jaques Wagner (PT-BA), e os tucanos Geraldo Alckmin (SP) e Antônio Anastasia (MG), entre outros.
Geral Faltaram cadeiras para autoridades e convidados ontem na posse de Ayres Britto. Funcionários do tribunal tiveram de improvisar assentos extras para o plenário, que virou uma fornalha.
#vanusafeelings A cantora Daniela Mercury chegou à posse junto de Ayres Britto. Antes de desafinar e perder o fôlego numa versão arrastada do Hino Nacional, a musa do axé recitou um poema para o presidente do Supremo.
Urnas A ministra Cármen Lúcia estreia na presidência do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em reunião hoje com a ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos) para tratar de acessibilidade nas eleições municipais.
Lembrete O presidente do DEM, José Agripino, e o dirigente paulistano do partido, Alexandre de Moraes, se reuniram ontem com Geraldo Alckmin em Brasília para reiterar o pleito de indicar o vice na chapa de José Serra. Ouviram do governador que o compromisso está mantido.
Forcinha DEM e PSDB confirmam neste fim de semana a disposição de fechar uma aliança para disputar a Prefeitura de Salvador. Na ocasião, não baterão o martelo sobre quem será o candidato, mas já na semana que vem ACM Neto (DEM) deve lançar sua candidatura.
com SILVIO NAVARRO e ANDRÉIA SADI
tiroteio
"Em tempos de completo apagão no setor de transportes, a nova promessa do governador Geraldo Alckmin de triplicar o metrô até 2018 joga luz sobre o que não foi feito."
DE FERNANDO HADDAD, pré-candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, sobre a promessa do governador Geraldo Alckmin (PSDB) de que o Estado construirá mais 126 km de rede de metrô, o triplo da malha atual, até 2018.
contraponto
Alarme falso
O Congresso realizava ontem a sessão para instalação da CPI do Cachoeira quando o líder do PT, deputado Jilmar Tatto (SP), correu para o microfone:
-Presidente, a bancada do PT solicita que a matéria seja retirada da pauta! Precisamos avaliar melhor.
O frisson foi geral, houve protesto de vários partidos, até que o petista conseguiu explicar que se tratava de um engano e se referia a outro projeto.
Na tribuna, Chico Alencar (PSOL-RJ) não resistiu:
-O líder Tatto sempre nos causando fortes emoções...
Controle remoto - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 20/04/12
No oficial, o governo nega intenção de interferir na CPI. Longe no Palácio do Planalto qualquer ideia longínqua que seja de influir em atividade exclusiva do Legislativo, dizem e continuarão a dizer ministros e auxiliares da presidente Dilma Rousseff que, se possível, gostaria de não dar uma palavra em público sobre o assunto.
No paralelo, o governo já tem definida a linha de atuação para tentar manter sob estreita vigilância os trabalhos da comissão mista de inquérito: restringir o objeto das investigações ao universo da Operação Monte Carlo e usar a maioria parlamentar para controlar requerimentos, depoimentos, quebras de sigilo, cruzamentos de dados, vazamento de informações e demais variantes desse tipo de evento.
A Monte Carlo é a operação na qual a Polícia Federal flagrou transações entre um bicheiro de primeira, empresários de segunda e políticos de quinta.
Não há possibilidade de o Planalto deixar as coisas correrem frouxas ao sabor dos acontecimentos no Congresso. Mas não há também a hipótese de o governo - muito menos a presidente - entrar na briga de peito e boca abertos como gostava de fazer Lula quando na Presidência.
O plano é dar as diretrizes por controle remoto, mantendo uma distância regulamentar da fogueira em que pode, ou não, se transformar a CPI. Para isso, serão usados os líderes partidários que para todos os efeitos tomarão as decisões de maneira independente.
Isso em tese, porque na prática as orientações serão dadas passo a passo. Aliás, já estão sendo transmitidas em relação à escolha dos integrantes da comissão, notadamente presidente e relator. O restante do roteiro será escrito de acordo com as circunstâncias em reuniões cuja motivação será sempre qualificada como "de rotina".
Normalíssimo, por exemplo, os partidos aliados reunirem seus líderes no Palácio para discutir o andamento de votações de interesse do governo. A ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, mesmo já avisou que só tratará da "agenda normal".
Considerando que em períodos de CPI de potencial explosivo não há outra pauta possível no Parlamento, a normalidade daqui em diante será tratar do assunto nas reuniões ditas institucionais.
A dificuldade será fazer isso em segredo. Há dois obstáculos concretos ao êxito do estratagema. Um, o traçado de digitais que por si se dão a conhecer e deixarão patente a interferência do Executivo no Legislativo. O outro, parafraseando Nelson Rodrigues, o "Imponderável de Almeida".
No caso representado pelo grau de tolerância da sociedade para com faxinas de fachada.
Aos fatos. Autor da denúncia do mensalão, o ex-procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza envia mensagem acerca do artigo Denúncia revisitada e aproveita para comentar a tentativa de se qualificar a peça apresentada em 2006 como produto de uma fantasia conspiratória.
"Confesso meu desconforto quando leio que algumas pessoas querem que a sociedade considere como 'farsa' os fatos denominados pela imprensa como 'mensalão' e que foram objeto de denúncia já recebida pelo Supremo Tribunal Federal.
"A coluna de modo direto recomenda àqueles que manifestam tal propósito que façam a leitura da denúncia então oferecida. Eu acrescentaria que também apreciem as provas em que se apoia cada uma das imputações.
"O texto, além de conter a referida recomendação, tem o condão de revelar que a suposta 'farsa' é na verdade um acontecimento real, cuja existência histórica não pode ser apagada, de modo que não se trata de uma criação da imprensa ou do Ministério Público.
"Lembro que a denúncia foi apresentada antes da aprovação do relatório final da CPMI dos Correios, circunstância que a torna despida de qualquer influência de considerações ditadas por interesses político-partidários que, além de atingir pessoas de outro espectro partidário, jamais pautaram minha atuação profissional."
Sempre os mesmos - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 20/04/12
BRASÍLIA - Não deixa ser curiosa a trinca de defesa dos principais implicados no escândalo Cachoeira: os advogados Márcio Thomaz Bastos, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, e José Luiz de Oliveira, que têm um portfólio de clientes eclético e suprapartidário, mas ganharam o carimbo de alinhados ao PT, especialmente na era lulista.
Thomaz Bastos, advogado do pivô do escândalo, o empresário e bicheiro Carlinhos Cachoeira, foi ministro daJustiça e peça decisiva de Lula em horas cruciais, como na queda de Antonio Palocci da Fazenda e nas escolhas dos ministros do Supremo.
Kakay, personagem de Brasília que advoga para presidentes, ministros e governadores, defende o senador Demóstenes Torres, ex-DEM, que jogou a carreira política cachoeira abaixo e tenta desesperadamente se safar na Justiça.
E José Luiz Oliveira é simultaneamente advogado do ex-ministro José Dirceu -réu do mensalão- e da empreiteira Delta, que está em todas.
Sobre a maledicência dos que veem estrelas vermelhas rondando os advogados de figuras com tanta munição e tão distantes do PT -ou melhor, da história do partido-, Thomaz Bastos é veemente: "Não alieno minha liberdade de advogar nem ao PT, nem a Lula, nem a ninguém. Minha profissão é minha prioridade".
Exemplifica: eleitor e amigo do PT e de Lula, era também advogado do então poderoso senador ACM, "apesar do ódio recíproco e das divergências viscerais" entre os dois grupos.
Se não é mera coincidência a montagem desse trio de ouro na defesa dos cabeças do escândalo, só há uma explicação plausível: a oferta de grandes criminalistas não deve estar muito grande no país...
Resposta do ministro Joaquim Barbosa, à altura do destempero do desafeto Cezar Peluso: "Ele se acha". Parece ou não bate-boca de botequim? Viva a compostura da Ministra Cármen Lúcia!
Energia nuclear é a saída - CARLOS HENRIQUE MARIZ e DRAUSIO LIMA
O GLOBO - 20/04/12
São preocupantes as críticas à energia nuclear a partir de hipóteses e pressupostos. Parece faltar conhecimento sobre o Sistema Elétrico Nacional e a indústria nuclear. Seria este posicionamento decorrente de um legítimo sentimento ambiental e de preservação dos interesses do país? Ou estaria ele relacionado a um potencial portfólio de energias que deverão ser introduzidas no país, caso ele deseje recuperar o terreno perdido em termos de consumo de energia per capita?
Que o país é pobre em consumo de eletricidade, todos sabem. Que consumimos entre 20% e 25% do consumo per capita de um país desenvolvido também não é novidade. Qualquer que seja o governo em exercício, uma política pública óbvia é que precisamos de mais eletricidade. Resta saber mediante que perfil de fontes geradoras. Em se tratando de um mercado de dezenas ou centenas de bilhões de dólares, os interesses são igualmente avantajados.
Nossa fonte de eletricidade hidráulica é extensa, mas finita. Prevê-se que o potencial hidráulico possa chegar ao seu limite ao longo da próxima década. Fontes com capacidade de geração na base, além da hidráulica, e em grande quantidade de energia são apenas a nuclear, o gás natural e o carvão. O carvão não possui reservas significativas no país. O gás natural é apenas uma promessa de existir em grande quantidade no pré-sal ou em outra parte do território brasileiro. A fonte nuclear surge como uma forte participante do portfólio de geração de eletricidade nas próximas décadas. Denegri-la, sem fundamentação, pode representar um grande aumento de mercado para as demais, tanto quanto um desserviço para o país.
Não raramente, países vão à guerra em sua busca por combustível. Não é por outro motivo que o Oriente Médio representa uma grande oportunidade para a deflagração de um conflito mundial. Apesar de nosso consumo per capita de eletricidade ainda ser muito reduzido, afetando negativamente a nossa qualidade de vida, temos em nosso território rios, gás, urânio e carvão suficientes para um portfólio reparador de nossa limitação energética através da produção de eletricidade de base. Abrir mão, a priori, de qualquer destas fontes, ainda mais por pretensões mercadológicas, seria um desperdício.
CARLOS HENRIQUE MARIZ E DRAUSIO LIMA são engenheiros e assistentes da presidência da Eletronuclear.
A velha face da América Latina - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 20/04/12
la latinidad A velha América Latina do populismo e das políticas voluntaristas ganha de novo espaço no cenário internacional, com a truculenta reestatização da YPF. Essa marca da latinoamericanidad nunca foi inteiramente apagada, mas vinha sendo ofuscada pelos sinais de modernização de um continente conhecido até o fim do século passado pela instabilidade política, pela irresponsabilidade da gestão econômica e pelas crises financeiras frequentes. De repente, a imagem do passado novamente se manifestou, com vigor, e atraiu a atenção num foro multilateral. Provocado para falar sobre a nova ação do governo argentino, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, classificou-a como um erro e alertou para a importância de acompanhar com atenção os sintomas de populismo. No dia anterior, o assunto havia sido tratado pelo economista Augusto de la Torre, responsável, no banco, pela seção da América Latina. É importante, disse ele, esclarecer rapidamente as condições da expropriação e da compensação, porque essas informações são essenciais para os investidores. Ele teria sido mais didático se chamasse a atenção para os erros cometidos na Venezuela.
Nos anos 90 os latino-americanos começaram a deixar de buscar auxílio do FMI. Alguns, incluído o Brasil, se tornaram fornecedores de recursos para operações de emergência. O Chile tomou a dianteira da renovação, ficou isolado por algum tempo, mas acabou sendo seguido por vários vizinhos.
Desde o agravamento da crise financeira, em 2008, o mundo rico passou a ser o foco dos problemas globais e das preocupações de entidades como o FMI, tomando o lugar ocupado por muito tempo pelos latino-americanos e outros países em desenvolvimento. As instituições multilaterais elevaram ao primeiro plano dois desafios - ajudar na recuperação da economia global e na reordenação do sistema financeiro, socorrendo, ao mesmo tempo, os países mais pobres da África, do Sul da Ásia e, em menor número, da América Latina. Essa ordem de preocupações permanece, mas o cenário foi perturbado, mais uma vez, pelo alerta lançado de Buenos Aires. O passado está vivo e velhos vícios podem manifestar-se de forma assustadora a qualquer momento.
Neste ano, como na maior parte da última década, os latino-americanos ficaram num confortável segundo plano, na lista das inquietações dos dirigentes do FMI e do Banco Mundial. Na reunião de primavera das duas instituições entraram em pauta a análise das medidas adotadas para enfrentar a crise da Europa e os sinais de melhora na zona do euro.
Mas há perigos importantes à frente, advertiram dirigentes e especialistas. O epicentro da crise continua na Europa, mas os emergentes - que enfrentaram a crise global com sucesso até agora - continuam vulneráveis a choques externos. A lista dos riscos inclui o ajuste dos bancos europeus, com a provável contração de seus empréstimos, e a instabilidade dos fluxos financeiros. A ameaça de um choque parecido com o da quebra do banco Lehman Brothers, em 2008, permanece no horizonte. Além disso, há riscos internos, derivados, por exemplo, da rápida expansão do crédito em países como a China e o Brasil. Mas são, de modo geral, problemas muito diferentes daqueles tradicionalmente vividos nos países latino-americanos. É como se esses países houvessem subido vários degraus na escala da seriedade e da respeitabilidade. Não se trata de enfrentar a inflação descontrolada ou a velha crise do balanço de pagamentos. Há problemas, mas decorrentes principalmente do forte ingresso de capitais e da valorização cambial. No caso brasileiro há o problema especial do "custo Brasil", mas é possível enfrentá-lo antes que provoque consequências graves.
Já a nova estripulia argentina chama a atenção principalmente porque mostra a persistência de alguns dos piores vícios políticos da região. Durante anos, as estatísticas argentinas foram citadas com reservas em documentos do FMI e as ressalvas novamente apareceram no Panorama Econômico Mundial divulgado nesta semana. Falta encontrar a bala de prata capaz de liquidar certos males da latinoamericanidad.
CLAUDIO HUMBERTO
“Dinheiro sujo não se deposita em conta e malandro sabe disso”
Senador Alvaro Dias (PSDB-PR) sobre a inutilidade da quebra de sigilo bancário
CACHOEIRA ‘REPRESENTA’ CONTRAVENTORES DO PAÍS
Com área de atuação concentrada no eixo Goiás-Brasília, o bicheiro Carlos Cachoeira é suspeito de exercer o papel de “representante para o Centro-Oeste” de uma espécie de pool nacional de contraventores que exploram bingos, máquinas caça-níqueis, vídeo-pôquer etc. em vários Estados. Também a ele caberia a função de organizar o lobby junto ao poder, em Brasília, na defesa dos interesses do “setor”.
CRIME ORGANIZADO
O esquema que financiou o lobby do jogo junto a políticos, suspeitam os investigadores, era financiado por contraventores de todo o País.
PODE, NÃO PODE
Na Papuda, Cachoeira pode ver tevê e ler livros, mas não periódicos ou usar tablets. Celulares, nem pensar. Tampouco ele iria querer mesmo...
ETERNO RETORNO
Vale lembrar, em tempos muito estranhos de CPI: um dos acusados da morte do prefeito de Santo André, Celso Daniel, fugiu da cadeia.
SELVA JURÍDICA
O curioso passeio da onça perto do Superior Tribunal de Justiça, esta semana: era hora de ela beber água na cachoeira?
LULA MONTA TROPA PETISTA PARA CPI DO CACHOEIRA
O ex-presidente Lula começou a montar pessoalmente a “tropa de choque” petista na CPI mista que investigará os esquemas do contraventor Carlinhos Cachoeira. Além de querer emplacar o ex-líder do governo Cândido Vaccarezza (SP) na relatoria da comissão, ele articula a indicação, como membros, dos petistas Carlos Zarattini (SP), André Vargas (PR), Ricardo Berzoini (SP) e Henrique Fontana (RS).
PLANALTO CONTRA LULA
A ministra Ideli Salvatti e o líder do governo, Arlindo Chinaglia, vetam Vaccarezza e querem Odair Cunha (PT-MG) como relator da CPI.
FILA PETISTA
Também tentam vaga na CPI os petistas Policarpo (DF), Vicente Cândido (SP), Marina Santana (GO) e Alessandro Molon (RJ).
NUNCA ANTES...
Para o líder do PMDB, Henrique Alves (RN), “nunca a instalação de CPI no Congresso foi tão ágil, tão unânime; e justo no período eleitoral”.
UM HOMEM LIVRE
O ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal, fez grande elogio ontem ao que chamou de “jurisprudência da liberdade” na trajetória do novo presidente do STF, ministro Carlos Ayres Britto.
AVISA LÁ
Ex-assessor de Palocci e citado na CPI dos Bingos, Rogério Buratti avisou no Twitter que “nunca ouviu falar de Cachoeira, nem disse que teria doado dinheiro ao PT”. À CPI, atribuiu a informação ao finado ex-assessor Ralph Barquette: “R$ 2 milhões de empresas de jogo”.
JILMAR SEM TATO
O líder do PT, Jilmar Tatto (SP), gerou confusão ao emendar outro assunto com a leitura do pedido de abertura da CPI de Cachoeira, ontem. Parlamentares reagiram: “Ele realmente não tem o menor tato”.
OPOSIÇÃO MISTA
O PSDB no Senado deu vagas na CPI aos tucanos Aloysio Nunes (SP), Cássio Cunha Lima (PB) e Alvaro Dias (PR); e cedeu duas para Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE).
NÃO DESISTE
Inconformado com o veto do PR, o deputado Anthony Garotinho (RJ) pressiona o deputado Ronaldo Fonseca (DF) a ceder sua cadeira de suplente na CPI do Cachoeira. O titular será Maurício Quintella (AL).
DELAÇÃO IMPOSSÍVEL
O senador Pedro Taques (PDT) não acredita na possibilidade de o bicheiro Carlinhos Cachoeira, preso na Papuda, pedir delação premiada: “Por isso contrataram advogado de R$ 15 milhões”.
COPA E COZINA
Só a pressa explica tal imperfeição de Dilma, contratando a Delta para obras no aeroporto de Guarulhos (SP), sem licitação e questionadas na Justiça. O teto desabou na inauguração, em dezembro.
3ª MARCHA SERÁ AMANHÃ
Ao celebrar 52 anos, Brasília fará, amanhã, a 3ª Marcha Contra a Corrupção, pelo fim do voto secreto no Congresso, 10% da receita da União para a saúde, julgamento do “mensalão” e Ficha Limpa para todos os cargos públicos. Começa às 10h, no Museu Nacional.
PERGUNTA NO AMBULATÓRIO
Vai ter anestesia para todo mundo na CPI do “doa a quem doer”?
PODER SEM PUDOR
O FOGO DA JUVENTUDE
Eliseu Resende, que morreria aos 81 anos no primeiro dia de 2011, era candidato ao governo de Minas, em 1982, contra Tancredo Neves. Inexperiente, cometeu um erro ao criticar a idade do adversário: “Não podemos entregar o Estado a quem, numa idade provecta, não pode sustentar o peso da administração”. Tancredo não passou recibo. Foi à tevê elogiar o rival e acabar com ele:
– Konrad Adenauer deixou o governo da Alemanha aos 80 anos, após reconstruir o país. Já o jovem Nero...
Senador Alvaro Dias (PSDB-PR) sobre a inutilidade da quebra de sigilo bancário
CACHOEIRA ‘REPRESENTA’ CONTRAVENTORES DO PAÍS
Com área de atuação concentrada no eixo Goiás-Brasília, o bicheiro Carlos Cachoeira é suspeito de exercer o papel de “representante para o Centro-Oeste” de uma espécie de pool nacional de contraventores que exploram bingos, máquinas caça-níqueis, vídeo-pôquer etc. em vários Estados. Também a ele caberia a função de organizar o lobby junto ao poder, em Brasília, na defesa dos interesses do “setor”.
CRIME ORGANIZADO
O esquema que financiou o lobby do jogo junto a políticos, suspeitam os investigadores, era financiado por contraventores de todo o País.
PODE, NÃO PODE
Na Papuda, Cachoeira pode ver tevê e ler livros, mas não periódicos ou usar tablets. Celulares, nem pensar. Tampouco ele iria querer mesmo...
ETERNO RETORNO
Vale lembrar, em tempos muito estranhos de CPI: um dos acusados da morte do prefeito de Santo André, Celso Daniel, fugiu da cadeia.
SELVA JURÍDICA
O curioso passeio da onça perto do Superior Tribunal de Justiça, esta semana: era hora de ela beber água na cachoeira?
LULA MONTA TROPA PETISTA PARA CPI DO CACHOEIRA
O ex-presidente Lula começou a montar pessoalmente a “tropa de choque” petista na CPI mista que investigará os esquemas do contraventor Carlinhos Cachoeira. Além de querer emplacar o ex-líder do governo Cândido Vaccarezza (SP) na relatoria da comissão, ele articula a indicação, como membros, dos petistas Carlos Zarattini (SP), André Vargas (PR), Ricardo Berzoini (SP) e Henrique Fontana (RS).
PLANALTO CONTRA LULA
A ministra Ideli Salvatti e o líder do governo, Arlindo Chinaglia, vetam Vaccarezza e querem Odair Cunha (PT-MG) como relator da CPI.
FILA PETISTA
Também tentam vaga na CPI os petistas Policarpo (DF), Vicente Cândido (SP), Marina Santana (GO) e Alessandro Molon (RJ).
NUNCA ANTES...
Para o líder do PMDB, Henrique Alves (RN), “nunca a instalação de CPI no Congresso foi tão ágil, tão unânime; e justo no período eleitoral”.
UM HOMEM LIVRE
O ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal, fez grande elogio ontem ao que chamou de “jurisprudência da liberdade” na trajetória do novo presidente do STF, ministro Carlos Ayres Britto.
AVISA LÁ
Ex-assessor de Palocci e citado na CPI dos Bingos, Rogério Buratti avisou no Twitter que “nunca ouviu falar de Cachoeira, nem disse que teria doado dinheiro ao PT”. À CPI, atribuiu a informação ao finado ex-assessor Ralph Barquette: “R$ 2 milhões de empresas de jogo”.
JILMAR SEM TATO
O líder do PT, Jilmar Tatto (SP), gerou confusão ao emendar outro assunto com a leitura do pedido de abertura da CPI de Cachoeira, ontem. Parlamentares reagiram: “Ele realmente não tem o menor tato”.
OPOSIÇÃO MISTA
O PSDB no Senado deu vagas na CPI aos tucanos Aloysio Nunes (SP), Cássio Cunha Lima (PB) e Alvaro Dias (PR); e cedeu duas para Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE).
NÃO DESISTE
Inconformado com o veto do PR, o deputado Anthony Garotinho (RJ) pressiona o deputado Ronaldo Fonseca (DF) a ceder sua cadeira de suplente na CPI do Cachoeira. O titular será Maurício Quintella (AL).
DELAÇÃO IMPOSSÍVEL
O senador Pedro Taques (PDT) não acredita na possibilidade de o bicheiro Carlinhos Cachoeira, preso na Papuda, pedir delação premiada: “Por isso contrataram advogado de R$ 15 milhões”.
COPA E COZINA
Só a pressa explica tal imperfeição de Dilma, contratando a Delta para obras no aeroporto de Guarulhos (SP), sem licitação e questionadas na Justiça. O teto desabou na inauguração, em dezembro.
3ª MARCHA SERÁ AMANHÃ
Ao celebrar 52 anos, Brasília fará, amanhã, a 3ª Marcha Contra a Corrupção, pelo fim do voto secreto no Congresso, 10% da receita da União para a saúde, julgamento do “mensalão” e Ficha Limpa para todos os cargos públicos. Começa às 10h, no Museu Nacional.
PERGUNTA NO AMBULATÓRIO
Vai ter anestesia para todo mundo na CPI do “doa a quem doer”?
PODER SEM PUDOR
O FOGO DA JUVENTUDE
Eliseu Resende, que morreria aos 81 anos no primeiro dia de 2011, era candidato ao governo de Minas, em 1982, contra Tancredo Neves. Inexperiente, cometeu um erro ao criticar a idade do adversário: “Não podemos entregar o Estado a quem, numa idade provecta, não pode sustentar o peso da administração”. Tancredo não passou recibo. Foi à tevê elogiar o rival e acabar com ele:
– Konrad Adenauer deixou o governo da Alemanha aos 80 anos, após reconstruir o país. Já o jovem Nero...
SEXTA NOS JORNAIS
- Globo: Congresso cria CPI inédita de todos para investigar todos
- Folha: CPI do Cachoeira é criada com Collor, Jucá e ficha-suja
- Estadão: CPI do Cachoeira é criada e aliados não sabem como agir
- Valor: Comércio com a China tem o menor avanço em 5 anos
- Estado de Minas: Taxistas que bebem na mira das cooperativas
- Zero Hora: Empresas gaúchas na Argentina temem estatização de Cristina
quinta-feira, abril 19, 2012
País da propaganda - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 19/04/12
O Brasil exportou, em 2011, 42 comerciais, 41% a mais em relação a 2010. O faturamento destes filmetes rodados aqui chegou a US$ 11,5 milhões, com EUA, Reino Unido, França e Japão entre os maiores clientes. São dados recém-consolidados pela Apex e pelo Itamaraty.
Aliás...
O Rio (aquele abraço) foi cenário de 60% desses comerciais.
A volta para o Rio
A Hypermarcas comprou, recentemente, o laboratório Montecorp (ex-Shering-Ploug), com fábrica imensa no Rio. Mas, para o protesto de Cabral e da Firjan, decidiu levá-lo para Goiás. Todos os equipamentos foram desmontados e transferidos. Mas, esta semana, acredite, um comboio de caminhões trouxe tudo de volta. É que as máquinas seriam instaladas na fábrica goiana Satepan, de... Cachoeira.
República de Propriá
O novo presidente do STF, Ayres de Britto, pai de dez filhos, vai homenagear hoje, em seu discurso de posse, três amigos. Os juristas Fábio Comparato e Celso Bandeira de Mello, seus professores na faculdade de Direito, e Lula, que o nomeou.
São amigos
Sérgio Cabral e Adriana Ancelmo são os padrinhos das filhas gêmeas, Fernanda e Catarina, de Fernando Cavendish, o dono da construtora Delta. O batizado foi em abril de 2011.
‘Pornô soft’
A editora Intrínseca pagou US$ 450 mil para publicar no Brasil “Fifty Shades of Grey”, de E. L. James, a autora inglesa editada nos EUA, onde estourou com seu estilo, digamos, “pornô soft”. A disputa envolveu ainda Companhia das Letras e Record.
DILMA, COMO SEsabe, sempre manda desligar o ar-condicionado nas solenidades no Planalto, porque é muito friorenta. Mas, terça, talvez sem graça com a presença de Hillary Clinton, passou frio — brrrrrrr... — e pediu esta pashmina a um assessor. A turma que sempre padece no calor adorou. Veja a sequência obtida pelo coleguinha Gustavo Miranda.
Reage, Ronaldinho
Ronaldinho Gaúcho vale hoje uns 4,5 milhões de euros, ou 36% menos que há quatro meses (7 milhões de euros). As avaliações são da Pluri, empresa de pesquisa e análise.
Pac-Man ficha suja
A empresa PlayerUm põe hoje no Facebook o jogo eletrônico “Roba Roba”, sobre corrupção de políticos. São quatro bonequinhos (o jurista, o jornalista, o povo e o policial), todos atrás de um outro, que é... vereador, controlado pelo internauta. Se “comer” as pizzas e o dinheiro pelo caminho, é promovido a... deputado estadual. Depois, deputado federal, senador e presidente do Senado.
Agora vai
O ditador Raúl Castro confirmou que vem para a Rio+20.
Maconha na praia
A turma da maconha promove amanhã um ato na Praia de Copacabana pelo julgamento no STF do recurso sobre a constitucionalidade do dispositivo da Lei de Tóxicos que tipifica como crime o porte de drogas para consumo próprio. Serão espetadas 420 réplicas de folhas de maconha na areia.
Queima total
A Beaux, no Rio, clínica de estética montada por Eike Batista para a namorada Flávia Sampaio, que custou R$ 15 milhões e fechou, faz hoje, à boca miúda, um bazar de saideira. Tem de tudo — de equipamentos a laser de R$ 200 mil a esmalte Chanel usado por R$ 2.
Salve Jorge!
A União da Ilha vai erguer uma capela em homenagem a São Jorge no estacionamento da quadra.
Clube dos 80
Entra hoje no clube dos 80 anos a ex-primeira-dama do Rio Belita Tamoyo, viúva de Marcos Tamoyo (1926-1981), prefeito do Rio no período 1975-1979. Com o marido, dona Belita inaugurou, por exemplo, o Riocentro e a Marina da Glória.
Calma, gente
Uma moça, digamos, de peso causou rebuliço num restaurante no shopping Fashion Mall, no Rio, domingo. É que pediu uma sugestão de bebida ao garçom, que respondeu: “Hum... Uma Coca Light?”. Ela soltou os bichos.
O Brasil exportou, em 2011, 42 comerciais, 41% a mais em relação a 2010. O faturamento destes filmetes rodados aqui chegou a US$ 11,5 milhões, com EUA, Reino Unido, França e Japão entre os maiores clientes. São dados recém-consolidados pela Apex e pelo Itamaraty.
Aliás...
O Rio (aquele abraço) foi cenário de 60% desses comerciais.
A volta para o Rio
A Hypermarcas comprou, recentemente, o laboratório Montecorp (ex-Shering-Ploug), com fábrica imensa no Rio. Mas, para o protesto de Cabral e da Firjan, decidiu levá-lo para Goiás. Todos os equipamentos foram desmontados e transferidos. Mas, esta semana, acredite, um comboio de caminhões trouxe tudo de volta. É que as máquinas seriam instaladas na fábrica goiana Satepan, de... Cachoeira.
República de Propriá
O novo presidente do STF, Ayres de Britto, pai de dez filhos, vai homenagear hoje, em seu discurso de posse, três amigos. Os juristas Fábio Comparato e Celso Bandeira de Mello, seus professores na faculdade de Direito, e Lula, que o nomeou.
São amigos
Sérgio Cabral e Adriana Ancelmo são os padrinhos das filhas gêmeas, Fernanda e Catarina, de Fernando Cavendish, o dono da construtora Delta. O batizado foi em abril de 2011.
‘Pornô soft’
A editora Intrínseca pagou US$ 450 mil para publicar no Brasil “Fifty Shades of Grey”, de E. L. James, a autora inglesa editada nos EUA, onde estourou com seu estilo, digamos, “pornô soft”. A disputa envolveu ainda Companhia das Letras e Record.
DILMA, COMO SEsabe, sempre manda desligar o ar-condicionado nas solenidades no Planalto, porque é muito friorenta. Mas, terça, talvez sem graça com a presença de Hillary Clinton, passou frio — brrrrrrr... — e pediu esta pashmina a um assessor. A turma que sempre padece no calor adorou. Veja a sequência obtida pelo coleguinha Gustavo Miranda.
Reage, Ronaldinho
Ronaldinho Gaúcho vale hoje uns 4,5 milhões de euros, ou 36% menos que há quatro meses (7 milhões de euros). As avaliações são da Pluri, empresa de pesquisa e análise.
Pac-Man ficha suja
A empresa PlayerUm põe hoje no Facebook o jogo eletrônico “Roba Roba”, sobre corrupção de políticos. São quatro bonequinhos (o jurista, o jornalista, o povo e o policial), todos atrás de um outro, que é... vereador, controlado pelo internauta. Se “comer” as pizzas e o dinheiro pelo caminho, é promovido a... deputado estadual. Depois, deputado federal, senador e presidente do Senado.
Agora vai
O ditador Raúl Castro confirmou que vem para a Rio+20.
Maconha na praia
A turma da maconha promove amanhã um ato na Praia de Copacabana pelo julgamento no STF do recurso sobre a constitucionalidade do dispositivo da Lei de Tóxicos que tipifica como crime o porte de drogas para consumo próprio. Serão espetadas 420 réplicas de folhas de maconha na areia.
Queima total
A Beaux, no Rio, clínica de estética montada por Eike Batista para a namorada Flávia Sampaio, que custou R$ 15 milhões e fechou, faz hoje, à boca miúda, um bazar de saideira. Tem de tudo — de equipamentos a laser de R$ 200 mil a esmalte Chanel usado por R$ 2.
Salve Jorge!
A União da Ilha vai erguer uma capela em homenagem a São Jorge no estacionamento da quadra.
Clube dos 80
Entra hoje no clube dos 80 anos a ex-primeira-dama do Rio Belita Tamoyo, viúva de Marcos Tamoyo (1926-1981), prefeito do Rio no período 1975-1979. Com o marido, dona Belita inaugurou, por exemplo, o Riocentro e a Marina da Glória.
Calma, gente
Uma moça, digamos, de peso causou rebuliço num restaurante no shopping Fashion Mall, no Rio, domingo. É que pediu uma sugestão de bebida ao garçom, que respondeu: “Hum... Uma Coca Light?”. Ela soltou os bichos.
Dilma na luta, PMDB na lida - DENISE ROTHENBURG
Correio Braziliense - 19/04/12
Enquanto Dilma, toda prosa, trabalha a população pelo bolso com a queda dos juros bancários, o PMDB, seu maior aliado, tenta se organizar na política para continuar imprescindível a quem estiver no poder
A presidente Dilma Rousseff fechará esta semana com um saldo prá lá de positivo do ponto de visto político. Ela conseguiu dois trunfos em meio a uma saraivada de notícias desgastantes para o governo, tais como a manutenção do crescimento do país abaixo das expectativas, o risco de o Brasil perder o posto de sexta economia do mundo — e, de quebra, uma CPI que promete desaguar numa das empreiteiras que segura o PAC. Ainda assim, ela foi bem naquilo que mais pesa em todas as classes econômicas: o custo dos financiamentos. E, no embalo, ainda recebeu elogios de Hillary Clinton por conta do combate à corrupção.
A notícia de que bancos como o Itaú e o Bradesco vão baixar os juros de quem deseja obter um financiamento cala fundo naquela classe que está com a presidente, mas sem muita convicção. Não por acaso, ministros comentavam que a queda dos juros, no imaginário popular, dá a muitos aquela sensação de que a presidente faz o que outros tentaram e não conseguiram: enquadrar os bancos.
Se essa versão se espalhar e os juros, de fato, caírem sem que os bancos recebam compensações por isso, ela ganhará ainda mais pontos perante o eleitorado. Afinal, é preciso verificar, como bem explicou ontem o blog do editor de economia do Correio, Vicente Nunes, se outras tarifas não sofrerão acréscimos, ou seja, se os bancos de um modo geral vão dar o benefício com uma das mãos e tirar com a outra. Mas, sob o ponto de vista político, governistas e oposicionistas são unânimes em afirmar que os ganhos da presidente virão e, justamente no momento em que os aliados se preparavam para cobrar uma fatura alta.
Por falar em fatura...
Há alguns dias, a base política da presidente Dilma se animou com a nomeação do novo diretor-geral do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), Emerson Fernandes, indicado pelo líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN). A indicação havia sido feita há tempos. A publicação no Diário Oficial da União feita esta semana — justamente, às vésperas da instalação da CPI que investigará as relações do bicheiro Carlos Cachoeira, a empresa Delta, o senador Demóstenes Torres e quem mais chegar — levou muitos a pensarem que estavam reabertas "as portas da esperança" e que todas as nomeações sairiam rapidamente a partir de agora. Mas o Planalto informa que não é bem assim. As nomeações continuarão a conta-gotas, de acordo com a "necessidade", técnica e política.
Afinal, o Planalto avalia que essa CPI não tem como chegar no coração do governo. Na pior das hipóteses, se for para investigar doações de campanha presidencial, seja no primeiro ou no segundo turno, Dilma sempre poderá adotar a mesma postura que Lula teve na crise do mensalão: deixar a conta no colo do PT, mais precisamente, Antonio Palocci, que já está fora.
Por falar em PT...
O partido será convidado para um jantar em 8 de maio com o PMDB. A ideia do encontro surgiu num jantar do PMDB a portas fechadas, há dois dias na casa do deputado Luiz Pitiman (DF). A churrasqueira da mansão foi transformada num miniauditório ao qual só os parlamentares peemedebistas tinham acesso. Ali, numa conversa franca, Henrique Alves tratou de buscar uma certa unidade de trabalho na futura CPI e aproximar o partido de sua candidatura a presidente da Câmara — aliás, o principal objetivo do encontro.
Para amortecer qualquer movimento rumo a Júlio Delgado (PSB-MG), que começa a sentir o terreno para ver se consegue se lançar como alternativa, Henrique Alves mencionou ter o apoio do governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos, do PT e de outros partidos. Depois do feriado de 1º de maio, Henrique passará as noites das terças-feiras em jantares destinados à aproximação com os partidos. Haja comida!
Os movimentos hoje são claros: enquanto Dilma trabalha a população pelo bolso, o PMDB, seu maior aliado, tenta organizar a política para continuar imprescindível a quem estiver no poder e permanecer na ribalta. Como bem lembrou o deputado Alceu Moreira (PMDB-RS) durante o encontro, o PMDB precisa ser o partido do equilíbrio. E é para isso que eles vão trabalhar a partir de agora. Afinal, depois de tantas CPIs, ele continua aí, grande e importante. E está ciente de que, nesta CPI, não será diferente.
Baixar a bola - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 19/04/12
A carroça na frente dos bois
A sucessão na presidência da Câmara só vai ocorrer em fevereiro do ano que vem. Mas o líder do PMDB, deputado Henrique Alves (RN), não pensa em outra coisa. Por isso, na noite de anteontem, na casa do deputado Luiz Pitman (PMDB-DF), ele reuniu 52 deputados do partido. Henrique disse que é candidato a presidir a Câmara e que decidiu antecipar as negociações com os partidos governistas, mas antes queria comunicar sua decisão e obter o aval da bancada. A vice-presidente da Casa, Rose de Freitas (PMDB-ES), que sonha suceder ao atual presidente, Marco Maia (PT-RS), não compareceu ao encontro pró-Henrique.
"Estou frustrado, dá vontade de ir embora” — Ricardo Ferraço, senador (PMDB-ES), relator da Reforma Administrativa, rejeitada pela CCJ do Senado
O DIA D. O senador Demóstenes Torres (GO) vai saber seu destino no dia 3 de maio. Será nessa data que o senador Humberto Costa (PT-PE), na foto, pretende apresentar seu relatório ao Conselho de Ética, pedindo a cassação ou não do mandato do goiano. Depois, caberá aos senadores do órgão decidir se acolherão ou não o parecer. Para a votação do relatório, não há prazo regimental. O voto no conselho é aberto.
O conto de Miami
O contraventor Carlinhos Cachoeira está deprimido. Preso com a deflagração da Operação Monte Carlo, está arrependido por ter confiando na promessa de que os aparelhos Nextel, distribuídos para a quadrilha, eram à prova de grampo.
Medusa
Quando o senador Demóstenes Torres (GO) entrou no plenário ontem, enquanto cumprimentava alguns, outros caíram fora discretamente. O líder do PT, Walter Pinheiro (BA), foi se esconder na sala do cafezinho dos senadores.
A volta do cipó de aroeira
Os senadores que integram o grupo comandado pelo líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), e o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), estão rindo de orelha a orelha. Argumentam que a presidente Dilma estava tentando deslocar o centro do poder na Casa ao nomear o senador Eduardo Braga (PMDB-AM) líder do governo. Agora, com a criação da CPI, Renan e Sarney voltam ao centro da articulação política, pois eles têm votos.
Mui amigo
O procurador de Justiça de Goiás Benedito Torres, irmão de Demóstenes Torres, anda dizendo por aí que achava que estava fazendo um favor para o irmão e não para o crime organizado. A relação entre eles está estremecida.
Medo
O ex-presidente Lula não pretende ir a muitos municípios nestas eleições. Está em pânico com a possibilidade de ficar sem voz no meio de um comício. Vai priorizar a gravação de depoimentos para serem veiculados na televisão.
O PSDB não quer a deputada Iris Resende (PMDB-GO) na CPI do contraventor Carlinhos Cachoeira. O seu marido, o ex-governador Iris Resende, é adversário do governador Marconi Perillo (PSDB).
A SEMELHANÇA física entre Carlinhos Cachoeira e o senador Pedro Taques (PDT-MT) virou piada. O senador Welligton Dias (PT-PI) brincou: "Agora não posso nem aceitar um refrigerante vindo de você."
O MINISTRO Aloizio Mercadante fala sobre a CPI: "Não é meu papel nem minha competência funcional criar uma CPI. Minha vida no Parlamento está encerrada. Estou focado no Ministério da Educação."
Barata tonta - ROGÉRIO GENTILE
Folha de S. Paulo - 19/04/12
SÃO PAULO - O PT sofreu pela primeira vez, em razão da CPI do caso Carlinhos Cachoeira, os transtornos de uma organização que tem duplo comando. É o chamado dilema da barata tonta. A quem atender quando os chefes divergem?
Assim que surgiram na imprensa as gravações que desmascararam o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO), Lula estimulou o PT a pisar no acelerador e abrir uma comissão de investigação no Congresso.
Com "sangue nos olhos", como bem informou Mônica Bergamo, o ex-presidente viu uma oportunidade para acuar a oposição e equilibrar a balança da ética (ou melhor, da falta de ética) na opinião pública num ano eleitoral em que o julgamento do mensalão no STF tende a reavivar constrangimentos para o partido.
Dada a ordem de Lula, a ação foi imediata. Petistas se articularam com os aliados no Congresso e correram para anunciar a criação da comissão antes mesmo de conseguir coletar as assinaturas necessárias.
Bom, aí Dilma voltou do exterior e se deparou com o fato consumado. Contrariada, mas sem ter como engavetar a investigação, colocou um pé no freio a fim de tentar algum controle sobre a CPI. O PT agora corre para viabilizar suas exigências em relação à montagem da comissão e à amplitude da investigação.
A CPI é complicada para a presidente porque paralisa o Legislativo, dá mais força para políticos que ela tenta escantear (Renan Calheiros, Henrique Alves, Romero Jucá etc.) e, sobretudo, ainda tem potencial para respingar no próprio governo em razão do envolvimento da principal empreiteira do PAC com Cachoeira.
Dilma e Lula já conversaram para acertar os ponteiros. O PT como barata tonta não interessa a nenhum dos dois, pois abre uma brecha para a ação da fragilizada oposição. Mas, se não houver uma sintonia fina entre eles, outras divergências tendem a emergir por conta das prioridades de cada um. A de Dilma, claro, é o seu governo. A de Lula, a sua política.
Assim que surgiram na imprensa as gravações que desmascararam o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO), Lula estimulou o PT a pisar no acelerador e abrir uma comissão de investigação no Congresso.
Com "sangue nos olhos", como bem informou Mônica Bergamo, o ex-presidente viu uma oportunidade para acuar a oposição e equilibrar a balança da ética (ou melhor, da falta de ética) na opinião pública num ano eleitoral em que o julgamento do mensalão no STF tende a reavivar constrangimentos para o partido.
Dada a ordem de Lula, a ação foi imediata. Petistas se articularam com os aliados no Congresso e correram para anunciar a criação da comissão antes mesmo de conseguir coletar as assinaturas necessárias.
Bom, aí Dilma voltou do exterior e se deparou com o fato consumado. Contrariada, mas sem ter como engavetar a investigação, colocou um pé no freio a fim de tentar algum controle sobre a CPI. O PT agora corre para viabilizar suas exigências em relação à montagem da comissão e à amplitude da investigação.
A CPI é complicada para a presidente porque paralisa o Legislativo, dá mais força para políticos que ela tenta escantear (Renan Calheiros, Henrique Alves, Romero Jucá etc.) e, sobretudo, ainda tem potencial para respingar no próprio governo em razão do envolvimento da principal empreiteira do PAC com Cachoeira.
Dilma e Lula já conversaram para acertar os ponteiros. O PT como barata tonta não interessa a nenhum dos dois, pois abre uma brecha para a ação da fragilizada oposição. Mas, se não houver uma sintonia fina entre eles, outras divergências tendem a emergir por conta das prioridades de cada um. A de Dilma, claro, é o seu governo. A de Lula, a sua política.
Não é só chilique - CLAUDIA ANTUNES
FOLHA DE SP - 19/04/12
A presidente argentina pode ter um pouco desses traços, mas foi reeleita no ano passado. Agora, tem apoio inclusive da União Cívica Radical, rival histórica do peronismo, para reestatizar a participação da espanhola Repsol na petrolífera YPF.
Condenada com virulência no exterior, a medida é mesmo arriscada. Poderá causar mais dificuldades a um país que já tem pouco acesso a crédito no mercado internacional desde a moratória de 2001. Mas esse não é o único aspecto do caso.
Para começar, a privatização da empresa nos anos 90 -no governo peronista de Carlos Menem, com aval da própria Cristina- foi um ponto fora da curva da tendência que prevalece no mundo. Em geral, petróleo e gás continuam a ser tratados como bens estratégicos, e a maioria dos países produtores tem estatais do setor, o que inclui ditaduras árabes e democracias avançadas.
Depois, há os questionamentos ao desempenho da YPF privatizada. Dados publicados pelo "Valor" mostram que a empresa passou a investir muito menos do que a Petrobras, invertendo a situação anterior. A produção caiu mais de 40% desde 2003, quando os Kirchner chegaram ao poder.
A Repsol argumenta que o controle interno do preço do barril, a um valor menor do que o internacional, tolhia investimentos. Mesmo assim, a operação na Argentina continuava permitindo a remessa de lucros ao exterior.
Há mais do que voluntarismo no rompimento desse contrato.
O bate-bola dos bancos - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 19/04/12
Ontem, o Bradesco e o Itaú, os dois maiores bancos privados do Brasil, anunciaram cortes dos juros em algumas das suas operações de crédito. Seguem iniciativas tomadas nos dias anteriores pelo HSBC e pelo Santander. É inevitável, agora, que toda a rede bancária vá atrás, em resposta à presidente Dilma Rousseff - que, além de mobilizar os dois maiores bancos estatais (Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal), exigiu a queda imediata do spread bancário (diferença entre o que os bancos pagam na obtenção dos recursos e o que cobram do tomador de crédito).
Ficou comprovado que "a bola não está apenas com o governo", como dia 12 havia anunciado o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Murilo Portugal.
Ainda será preciso observar até que ponto essa queda dos juros será relevante para a redução dos custos financeiros do setor produtivo e dos consumidores. Esse tipo de reação do sistema bancário quase sempre atende mais às conveniências da hora do que propriamente às pressões de mercado. Quando é assim, esses movimentos dificilmente se sustentam.
Além disso, os cortes se limitaram a aparar rebarbas. Não parecem disposições reais de baixar os juros com firmeza. Acontecem apenas em algumas linhas e sob certas condições. Tampouco alcançam os escorchantes cartões de crédito e não preveem renegociação dos juros muito mais altos contratados anteriormente.
A mobilização concertada dos bancos também para esse corte dos juros pode ser entendida como outra manifestação de sua atuação cartelizada.
Independentemente do sucesso ou não da ofensiva oficial contra o alto custo do crédito no Brasil, há providências que dependem só do governo para derrubar o custo financeiro. A redução dos impostos cobrados no crédito é uma delas. Outra é a aprovação do chamado cadastro positivo, cujo texto já aprovado pelo Congresso, ainda depende de regulamentação.
Cadastro positivo é a relação de bons pagadores que, na prática, constituem reduzido risco de crédito. Por isso, podem levar juros mais baixos. Hoje, os bancos já trabalham com o cadastro negativo levantado pela Serasa (Centralizadora dos Serviços dos Bancos S.A.), que aponta calotes passados na praça - não só os financeiros.
O projeto do cadastro positivo está encalhado em Brasília desde 2009, por atender a motivações paternalistas. Prevaleceu até agora o ponto de vista de que seria necessário proteger o cliente do banco: bastaria que estivesse fora dessa lista positiva para que um devedor qualquer fosse tratado como pária do sistema de crédito. É uma argumentação destituída de lógica porque, como ficou dito, a Serasa já se encarrega de sujar o nome de caloteiros e inadimplentes.
Mas não só no crédito, os custos bancários são exorbitantes. As taxas de administração cobradas nos fundos mútuos de investimento caíram uma insignificância nos últimos anos com a redução dos juros e a queda da inflação. Nesse particular, o governo guarda no bolso do colete nova frente de pressão sobre os bancos - informou a esta Coluna alta fonte de Brasília. Não quer rever tão cedo a remuneração da caderneta de poupança, para fazer concorrência aos fundos de investimento e para que os bancos se vejam obrigados a baixar suas taxas de administração.
MÔNICA BERGAMO - Entrevista Fernando Cavendish
Folha de S. Paulo - 19/04/12
"Nunca vi Demóstenes", diz dono da empreiteira Delta
Acusado de abastecer empresas do esquema de Carlos Cachoeira, o empreiteiro Fernando Cavendish nega qualquer irregularidade. Ele concedeu ontem entrevista exclusiva à Folha.
Em uma conversa gravada, o senhor disse que, se colocar R$ 30 milhões na mão de político, ganha negócio. O senhor já pagou suborno?
Nesta conversa, eu debatia com sócios da Sygma, empresa [da área de petróleo e gás] que adquirimos por R$ 30 milhões. Eles não performavam. Eu os chamei para renegociar o preço. E me gravaram clandestinamente. Eu queria dizer: "Olha, R$ 30 milhões, se eu fosse fazer projetos políticos, doações de campanha..."
Ganho qualquer negócio.
A expressão foi muito ruim. Ficou horrível, horrível. E agora vou encarar uma CPI da pior forma possível.
Já pediram propina ao senhor? E o senhor pagou?
Olha só, o que se pede são apoios políticos, para campanhas, que é uma coisa legitimada, oficializada e que várias empresas fazem.
Se apoio projetos, faço doações, não é que depois vá ganhar [licitações para obras]. Mas posso estar pelo menos bem representado, tenho a oportunidade de ter informação dos futuros investimentos, das prioridades políticas.
Por que megaempresas fazem doações a campanhas? Vão ter informação. Não é normal? Não é toma lá dá cá. Tem licitação.
A relação de empreiteiras e políticos no Brasil são historicamente promíscuas.
Toda relação entre seres humanos que buscam a intimidade do dia a dia, de trabalho, gera às vezes alguns desvios. Essa intimidade, essa promiscuidade, não são só as construtoras que fazem isso. Só que tem um problema: a gente mexe com dinheiro público. E aí não podemos errar, não podemos pecar.
O senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) é sócio oculto da Delta, como diz o Ministério Público?
Não. Nunca vi o Demóstenes. Ninguém é sócio da Delta. Põe isso na sua cabeça. Já inventaram dezenas de sócios para a Delta. [O ex-governador do Rio Anthony] Garotinho foi sócio da Delta, o [ex-prefeito do Rio] Cesar Maia foi sócio. Esquece isso. Não existe. É factóide.
A Delta teria abastecido empresas fantasmas de Cachoeira em Goiás e, através delas, pago propina.
A empresa tinha um diretor no Centro-Oeste, Claudio Abreu. Sou presidente do conselho, no Rio. Não sei o que está acontecendo em Goiás, no Nordeste, no Norte.
O Claudio conheceu o Carlos Augusto Ramos [Carlinhos Cachoeira]. Eu sei quem cada um tá conhecendo? O que me importa são os resultados, os números, que me enviam em relatórios semestrais. Eu não pouso em Goiânia há cinco anos.
Eu sabia por alto que ele conhecia [ Cachoeira]. Para mim, era um empresário, era um cara bem visto no Estado. Eu não conheço os caras do Rio, vou conhecer de Goiás?
Nesse período todo de escuta, não tem uma única conversa que dê um indício de que eu tinha um conhecimento dessa movimentação.
O Claudio, nessa amizade, extrapolou os limites da atuação dele na Delta.
Conheceu Cachoeira?
Tive um encontro casual no bar de um hotel, o Claudio estava lá e me apresentou, muito rápido.
O Claudio Abreu nunca informou que dava dinheiro para o esquema do Cachoeira?
Nunca. Ele era sócio de terceiros, ia comentar comigo? A gente abriu uma auditoria para investigar essa movimentação.
Foram R$ 39 milhões. Não deu para perceber?
A empresa rodou nesses dois anos, 2010 e 2011, R$ 5 bilhões. Tem 46 mil fornecedores. Esse dinheiro nesse universo, é imperceptível.
A Delta é acusada também de favorecimento no Distrito Federal. O senhor conhece o governador Agnelo Queiroz?
Nunca vi. Eu tenho um crédito lá de R$ 30 milhões para receber, no contrato do lixo. A gente lá só apanha. Se eu tivesse ajudado na campanha dele, precisava de Dadá [araponga do esquema Demóstenes], de fulaninho, de beltraninho, contando história lá embaixo?
E o governador de Goiás, Marconi Perilo?
Não conheço, nunca vi.
Por que a Delta contratou o ex-ministro José Dirceu como consultor?
Um diretor nosso conheceu um assessor do José Dirceu. E falou pra mim: "Quer conhecer o José Dirceu?" Só que fizeram um contrato de R$ 20 mil. Até hoje não consegui entender. Mas o imbecil lá resolveu fazer isso. Tanto é que, quando soube, eu disse: "Pode parar essa porra!" Eu estive com José Dirceu uma vez só. Ele falou sobre a Índia, outros países. E foram dizer que a Delta é o que é por causa dele. Isso é esdrúxulo.
Como a Delta conseguiu tanta obra no PAC?
Mas essa é uma sacanagem. Quando o PAC foi proposto, anunciaram R$ 250 bilhões de investimentos em quatro anos. Quando fizeram um levantamento aí em um site, houve a indicação de que a Delta estava liderando o PAC. A gente tinha faturado uns R$ 400 milhões em 2009. Mas isso era em investimentos dos ministérios. Virei líder do PAC.
Sabe quanto vão custar [as hidrelétricas de] Santo Antonio, Belo Monte, Jirau? Só Santo Antonio corresponde ao faturamento de dez anos da Delta. Como posso, com essa minha conta de retalho, de "trocentos" contratinhos que, somados, dão R$ 800 milhões, liderar o PAC? Estou liderando p. nenhuma. Mas fica bonito, na hora de bater no PT, dizer que o líder do PAC está cheio de problemas. Esquece. Eu devo estar em décimo no ranking do PAC.
O senhor é amigo do governador do Rio, Sergio Cabral. E, no governo dele, ganhou R$ 1,4 bilhão em contratos.
Não é justo falarem isso, não é decente. Eu cresci muito mais no governo do Rio antes de ele assumir. Em 2001, 80% da carteira da Delta era do Estado do Rio.
Conheci Sergio Cabral há dez anos, por meio das nossas esposas. Eu admiro ele como governante, amigo, pai, filho, irmão. É um puta sujeito. No acidente de helicóptero em que morreram as pessoas que eu mais amo [sua mulher e filho, em 2011], eu estava com ele [Cavendish e Cabral iam a uma festa na Bahia]. Tá bom. Mas não comecei a estar com ele depois de ser governador. Nós eramos a maior empreiteira do Rio antes do governo Cabral, com Cesar Maia e Garotinho. Eu era chamado o rei do Rio. Hoje a maior é a Odebrecht.
A Delta cresceu no Rio?
Quando assumi a Delta, em 1995, levando a empresa de Recife, onde foi fundada, para o Rio, tínhamos 200 funcionários. O DNER era praticamente nosso único cliente. Nossas primeiras obras foram na prefeitura do Rio, na gestão do Cesar Maia.
Ele abriu o mercado. Não exigia qualificação técnica mais restritiva que exigisse empresas maiores. Para nós foi ótimo. A gente sabia trabalhar com custo baixo, produtividade e ter um preço muito competitivo. Só existe uma forma, pelo menos para a Delta, que era uma empresa nova, de ganhar as concorrências: disputando preço.
Isso foi dito pelo filho do Cesar Maia [Rodrigo Maia, do DEM]: "Graças à Delta, nós tivemos essa economia de orçamento". Em todas as áreas em que atuamos, quem oferece preço baixo é a Delta.
Eu não sou mais querido por isso, não. Eu sou mais odiado. Esse nível de agressividade sempre foi na contramão da cultura do mercado.
Muitos se enganam, dizem que eu sou um cara muito articulado politicamente. Mentira! Eu sou o grande articulador, lobista profissional? Isso é uma mentira.
De que estados vêm seus maiores faturamentos?
Do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde fazemos obras de conjuntos habitacionais, urbanização. Fizemos também a ampliação da Marginal [Tietê].
O escândalo prejudica os negócios?
Vou quebrar.
Será?
Vou quebrar. Quando a mídia vem com essa intensidade, existe uma reação imediata de órgãos de controle. Agora virei leproso, né? Agora eu só tenho defeitos, eu sou bandido.
O cliente [governo], que é um cliente político, abre sindicâncias para mostrar isenção. Suspende pagamentos.
Cria-se um clima péssimo na empresa. Os bancos vão suspender toda a nossa linha de crédito. Aí vem a Receita Federal. Todos precisam mostrar que a empresa tem que ser fiscalizada em todos os níveis. Não tenho caixa. Se eu não receber antes de acabar meu dinheiro, eu quebrei.
Frases
"Eu sou o grande articulador, lobista profissional. Isso é uma mentira. Não conheço Marconi, não conheço Demóstenes, não conheço Agnelo"
"Quando a mídia vem com essa intensidade, existe uma reação de órgãos de controle. [...] Os bancos vão suspender toda a nossa linha de crédito"
Em uma conversa gravada, o senhor disse que, se colocar R$ 30 milhões na mão de político, ganha negócio. O senhor já pagou suborno?
Nesta conversa, eu debatia com sócios da Sygma, empresa [da área de petróleo e gás] que adquirimos por R$ 30 milhões. Eles não performavam. Eu os chamei para renegociar o preço. E me gravaram clandestinamente. Eu queria dizer: "Olha, R$ 30 milhões, se eu fosse fazer projetos políticos, doações de campanha..."
Ganho qualquer negócio.
A expressão foi muito ruim. Ficou horrível, horrível. E agora vou encarar uma CPI da pior forma possível.
Já pediram propina ao senhor? E o senhor pagou?
Olha só, o que se pede são apoios políticos, para campanhas, que é uma coisa legitimada, oficializada e que várias empresas fazem.
Se apoio projetos, faço doações, não é que depois vá ganhar [licitações para obras]. Mas posso estar pelo menos bem representado, tenho a oportunidade de ter informação dos futuros investimentos, das prioridades políticas.
Por que megaempresas fazem doações a campanhas? Vão ter informação. Não é normal? Não é toma lá dá cá. Tem licitação.
A relação de empreiteiras e políticos no Brasil são historicamente promíscuas.
Toda relação entre seres humanos que buscam a intimidade do dia a dia, de trabalho, gera às vezes alguns desvios. Essa intimidade, essa promiscuidade, não são só as construtoras que fazem isso. Só que tem um problema: a gente mexe com dinheiro público. E aí não podemos errar, não podemos pecar.
O senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) é sócio oculto da Delta, como diz o Ministério Público?
Não. Nunca vi o Demóstenes. Ninguém é sócio da Delta. Põe isso na sua cabeça. Já inventaram dezenas de sócios para a Delta. [O ex-governador do Rio Anthony] Garotinho foi sócio da Delta, o [ex-prefeito do Rio] Cesar Maia foi sócio. Esquece isso. Não existe. É factóide.
A Delta teria abastecido empresas fantasmas de Cachoeira em Goiás e, através delas, pago propina.
A empresa tinha um diretor no Centro-Oeste, Claudio Abreu. Sou presidente do conselho, no Rio. Não sei o que está acontecendo em Goiás, no Nordeste, no Norte.
O Claudio conheceu o Carlos Augusto Ramos [Carlinhos Cachoeira]. Eu sei quem cada um tá conhecendo? O que me importa são os resultados, os números, que me enviam em relatórios semestrais. Eu não pouso em Goiânia há cinco anos.
Eu sabia por alto que ele conhecia [ Cachoeira]. Para mim, era um empresário, era um cara bem visto no Estado. Eu não conheço os caras do Rio, vou conhecer de Goiás?
Nesse período todo de escuta, não tem uma única conversa que dê um indício de que eu tinha um conhecimento dessa movimentação.
O Claudio, nessa amizade, extrapolou os limites da atuação dele na Delta.
Conheceu Cachoeira?
Tive um encontro casual no bar de um hotel, o Claudio estava lá e me apresentou, muito rápido.
O Claudio Abreu nunca informou que dava dinheiro para o esquema do Cachoeira?
Nunca. Ele era sócio de terceiros, ia comentar comigo? A gente abriu uma auditoria para investigar essa movimentação.
Foram R$ 39 milhões. Não deu para perceber?
A empresa rodou nesses dois anos, 2010 e 2011, R$ 5 bilhões. Tem 46 mil fornecedores. Esse dinheiro nesse universo, é imperceptível.
A Delta é acusada também de favorecimento no Distrito Federal. O senhor conhece o governador Agnelo Queiroz?
Nunca vi. Eu tenho um crédito lá de R$ 30 milhões para receber, no contrato do lixo. A gente lá só apanha. Se eu tivesse ajudado na campanha dele, precisava de Dadá [araponga do esquema Demóstenes], de fulaninho, de beltraninho, contando história lá embaixo?
E o governador de Goiás, Marconi Perilo?
Não conheço, nunca vi.
Por que a Delta contratou o ex-ministro José Dirceu como consultor?
Um diretor nosso conheceu um assessor do José Dirceu. E falou pra mim: "Quer conhecer o José Dirceu?" Só que fizeram um contrato de R$ 20 mil. Até hoje não consegui entender. Mas o imbecil lá resolveu fazer isso. Tanto é que, quando soube, eu disse: "Pode parar essa porra!" Eu estive com José Dirceu uma vez só. Ele falou sobre a Índia, outros países. E foram dizer que a Delta é o que é por causa dele. Isso é esdrúxulo.
Como a Delta conseguiu tanta obra no PAC?
Mas essa é uma sacanagem. Quando o PAC foi proposto, anunciaram R$ 250 bilhões de investimentos em quatro anos. Quando fizeram um levantamento aí em um site, houve a indicação de que a Delta estava liderando o PAC. A gente tinha faturado uns R$ 400 milhões em 2009. Mas isso era em investimentos dos ministérios. Virei líder do PAC.
Sabe quanto vão custar [as hidrelétricas de] Santo Antonio, Belo Monte, Jirau? Só Santo Antonio corresponde ao faturamento de dez anos da Delta. Como posso, com essa minha conta de retalho, de "trocentos" contratinhos que, somados, dão R$ 800 milhões, liderar o PAC? Estou liderando p. nenhuma. Mas fica bonito, na hora de bater no PT, dizer que o líder do PAC está cheio de problemas. Esquece. Eu devo estar em décimo no ranking do PAC.
O senhor é amigo do governador do Rio, Sergio Cabral. E, no governo dele, ganhou R$ 1,4 bilhão em contratos.
Não é justo falarem isso, não é decente. Eu cresci muito mais no governo do Rio antes de ele assumir. Em 2001, 80% da carteira da Delta era do Estado do Rio.
Conheci Sergio Cabral há dez anos, por meio das nossas esposas. Eu admiro ele como governante, amigo, pai, filho, irmão. É um puta sujeito. No acidente de helicóptero em que morreram as pessoas que eu mais amo [sua mulher e filho, em 2011], eu estava com ele [Cavendish e Cabral iam a uma festa na Bahia]. Tá bom. Mas não comecei a estar com ele depois de ser governador. Nós eramos a maior empreiteira do Rio antes do governo Cabral, com Cesar Maia e Garotinho. Eu era chamado o rei do Rio. Hoje a maior é a Odebrecht.
A Delta cresceu no Rio?
Quando assumi a Delta, em 1995, levando a empresa de Recife, onde foi fundada, para o Rio, tínhamos 200 funcionários. O DNER era praticamente nosso único cliente. Nossas primeiras obras foram na prefeitura do Rio, na gestão do Cesar Maia.
Ele abriu o mercado. Não exigia qualificação técnica mais restritiva que exigisse empresas maiores. Para nós foi ótimo. A gente sabia trabalhar com custo baixo, produtividade e ter um preço muito competitivo. Só existe uma forma, pelo menos para a Delta, que era uma empresa nova, de ganhar as concorrências: disputando preço.
Isso foi dito pelo filho do Cesar Maia [Rodrigo Maia, do DEM]: "Graças à Delta, nós tivemos essa economia de orçamento". Em todas as áreas em que atuamos, quem oferece preço baixo é a Delta.
Eu não sou mais querido por isso, não. Eu sou mais odiado. Esse nível de agressividade sempre foi na contramão da cultura do mercado.
Muitos se enganam, dizem que eu sou um cara muito articulado politicamente. Mentira! Eu sou o grande articulador, lobista profissional? Isso é uma mentira.
De que estados vêm seus maiores faturamentos?
Do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde fazemos obras de conjuntos habitacionais, urbanização. Fizemos também a ampliação da Marginal [Tietê].
O escândalo prejudica os negócios?
Vou quebrar.
Será?
Vou quebrar. Quando a mídia vem com essa intensidade, existe uma reação imediata de órgãos de controle. Agora virei leproso, né? Agora eu só tenho defeitos, eu sou bandido.
O cliente [governo], que é um cliente político, abre sindicâncias para mostrar isenção. Suspende pagamentos.
Cria-se um clima péssimo na empresa. Os bancos vão suspender toda a nossa linha de crédito. Aí vem a Receita Federal. Todos precisam mostrar que a empresa tem que ser fiscalizada em todos os níveis. Não tenho caixa. Se eu não receber antes de acabar meu dinheiro, eu quebrei.
Frases
"Eu sou o grande articulador, lobista profissional. Isso é uma mentira. Não conheço Marconi, não conheço Demóstenes, não conheço Agnelo"
"Quando a mídia vem com essa intensidade, existe uma reação de órgãos de controle. [...] Os bancos vão suspender toda a nossa linha de crédito"
Socuerro! O grampo é cabeludo! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 19/04/12
E o homem mais rico do Brasil não é o Eike. O homem mais rico do Brasil é o Pina. Tudo vai pro Pina!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Direto do País da Piada Pronta: "Mulher ateia fogo nos genitais do marido em PAU DA LIMA". Deve ser pra esquentar a relação! Rarará!
E esta direto de Curitiba: "Incêndio no Motel Caliente". Rarará! E mais uma manchete do "Piauí Herald": "Hospital confirma que Sarney tem todos os tipos sanguíneos".
E olha o que um cara escreveu no meu Twitter: "Cacciola perdoado. A que horas o Beira-Mar sai da cadeia?". Rarará!
E os vendedores de bilhetes da Loteria Federal em Brasília já estão reclamando. Quando eles gritam "Olha Federal! Olha a Federal!", sai todo mundo correndo.
E esse negócio de grampo tá ficando cabeludo. A Polícia Federal devia lançar um combo. PF-Combo: "Internet, telefone e grampo por R$ 39,90!".
E a CPI do Cachoeira? Finalmente apareceu algo de concreto: uma empreiteira!. Rolo com empreiteira é do tempo do Juscelino! E se chama Delta. Delta e Rola.
Agora eu vou ter que fazer dois trocadilhos: Demóstenes salta da cachoeira com asa-delta! E o que eu mais gosto é que a primeira vítima dos grampos foi um careca: o Demóstenes, atual Óstenes!
E se aparecer mais alguém do DEM negociando propina, o DEM vai ter que mudar de nome pra RECEBEM! Rarará!
E o Marconi continua a Perillo! E em Goiás tem um vilarejo chamado Cacete Armado. Essa vai ser a CPI do Cacete Armado. A CPI vai abrir assim: "Atenção, senhores: o cacete tá armado!".
E a corrupção é suprapartidária. Se corrupção desse caroço, o Brasil seria uma jaca! Rarará!
E o homem mais rico do Brasil não é o Eike. O homem mais rico do Brasil é o Pina. Tudo vai pro Pina! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!
E eu já tenho uma "ídala" no novela "Avenida Plasil": Eliane Giardini, a Muricy, a barraqueira, aquela que ainda usa a palavra messalina! E diz que o Cachoeira emagreceu 16 quilos. Dieta a base de água!
E o Cachoeira tá preso em Mossoró, no Rio Grande do Norte! Que tem uma rivalidade histórica com Natal. Tanto que, no Natal, o povo de Mossoró não fala "Feliz Natal", fala "Feliz Mossoró!". Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Receita errada do FMI - ALBERTO TAMER
O Estado de S.Paulo - 19/04/12
As recomendações do FMI para o Brasil, divulgadas no seu Panorama Econômico Mundial, são pouco inovadoras e estão no mínimo atrasadas. O Fundo pede cautela com a política monetária para evitar um superaquecimento da economia, que não existe e só ele vê. Há ainda a contradição de recomendar ao Brasil e aos países emergentes maior concentração de esforços na expansão do mercado interno, pois não devem contar com um crescimento de apenas 3,5% da economia e do comércio mundial este ano, mas, ao mesmo tempo alertam para os riscos do "superaquecimento"...
"Os emergentes devem estimular a demanda interna, mas evitar um "superestímulo" à atividade econômica," diz o Fundo, textualmente.
Cabem aos países desenvolvidos crescer, acrescenta, mesmo sabendo que, à exceção dos Estados Unidos, eles não estão fazendo nada; ao contrário, adotaram políticas que levam à recessão.
E nós? Vejam só. No caso do Brasil, o FMI recomenda cautela com o corte de juros porque podem exacerbar a demandar e provocar "reaquecimento..." "O crédito elevado e o crescimento das importações sugerem que os riscos de superaquecimento não estão completamente sob controle e poderiam ressurgir se o fluxo de capital retornar aos níveis anteriores,"afirma textualmente o Fundo.
Mas ele não está prevendo um crescimento do PIB de apenas 3% este ano? Onde está o risco de "superaquecimento?" Há muita contradição nisso tudo.
Atrasado. Tudo indica que a análise e alertas do FMI se baseiam em fatos passados que há muito deixaram de existir. Não há no segundo trimestre do ano, nenhum, absolutamente nenhum sinal de "superaquecimento" no Brasil. Ao contrário, está evidente que as políticas monetária e fiscal no fim do ano passado foram de tal forma restritivas, que a economia simplesmente estagnou nos últimos meses.
A previsão do BC, quase sempre correta, é de que, em fevereiro, o PIB "cresceu" apenas 0,23%; no bimestre janeiro-fevereiro de 2011 e 2012, nada mais que 0,08%. Onde estão os riscos de "superaquecimento"que os economistas do Fundo estão vendo no Brasil?
É evitar a recessão. Ao contrário do que eles afirmam, o desafio atual do governo é crescer um pouco mais para evitar a recessão. Já estamos tendo um trimestre negativo, como mostram os indicadores preliminares de março.
O próprio Fundo admite em seu relatório que as taxas agora estimadas para este ano e o próximo são apenas 0,1% (erro estatístico como aquele 0,08%?) acima das projetadas em janeiro. Ou seja, estagnação.
De novo a pergunta que não se cala: onde estão os riscos de superaquecimento que exigem "cautela?" A inflação? Ora, ela até desacelera auxiliada pelo câmbio. Não deve passar de 5% este ano, está em torno de 4,5%, o que, afirmam economistas respeitáveis como Paul Krugaman, não é de todo indesejável em economias ameaçadas pela recessão, nas quais a proridade é crescer.
É preciso ousar mais. Ao contrário do que o FMI preconiza, a equipe econômica precisa ousar mais. É evidente que as medidas tributárias e fiscais adotadas nos últimos meses não foram suficientes para retomar o crescimento. A redução dos juros sozinha não bastou.
O que falta? Mais investimentos do governo para complementar os do setor privado, que enfrenta crescentes probelmas internos. Falta uma política comercial e industrial menos dispersiva que não podem estar separadas. E aqui o papel do Estado é essencial. Tudo indica que os governos federal, estadual e municipal investem pouco não tanto por fata de recursos, mas pelos entraves burocráticos.
Que venham os tsunamis. O que o Brasil precisa no momento é mais incentivo não só à demanda interna, que ainda sustenta a economia, mas investimentos internos e externos também. Que venham os tsunamis de dólares que irrigam a economia, criam empregos e produção. Estariam muito mal sem eles, agora que a outra fonte de recursos, a balança comercial, definha.
E continuarão vindo, sim, não por causa do aumento de liquidez externa, mas simplesmente porque o Brasil se imunizou contra crises financeiras e tem há anos uma política econômica consistente e confiável.
Como as moscas afogam suas mágoas - FERNANDO REINACH
O ESTADÃO - 19/04/12
Esquecer frustrações amorosas por meio da ingestão de bebidas alcoólicas é um comportamento comum entre humanos. A perda de um prazer é compensada por outro.
Há muitos anos se suspeita de que esse mecanismo de substituição seja controlado por sistemas complexos no cérebro. Muitos cientistas creem que o alcoolismo e a dependência de drogas são causados por alterações nesse mecanismo capaz de substituir prazeres negados por novas fontes de felicidade (mesmo que temporárias e destrutivas no longo prazo).
Agora, um grupo descobriu que um neuropeptídeo (uma espécie de hormônio no cérebro) é o responsável por esse mecanismo de compensação. É por meio dele que moscas privadas de atividade sexual passam a preferir alimentos contendo álcool. O estudo foi feito usando a Drosophila melanogaster, aquela mosca pequena que aparece sempre que deixamos uma banana madura em cima da pia.
As moscas foram divididas em dois grupos. Em um, moscas macho eram colocadas por algumas horas, todos os dias, com um número grande de fêmeas virgens. Como esperado, após um namoro que envolve uma dança e carinhos no abdome, os machos se acasalavam com as fêmeas. Isso foi repetido por quatro dias.
No final desse período, esses machos saciados foram colocados em um recipiente com dois tipos de comida: mingau tradicional e mingau com 15% de etanol. Com câmeras, os cientistas avaliaram se os machos preferiam a comida com ou sem etanol.
O outro grupo foi submetido ao mesmo tratamento, com uma diferença: as fêmeas já tinham sido fecundadas (nessa espécie, uma fêmea que já copulou rejeita o macho). Assim, os machos do segundo grupo foram rejeitados várias vezes por dia, durante quatro dias, por um número grande de fêmeas. Ao final do período, esses machos frustrados também puderam escolher entre o mingau comum e o com 15% de etanol. O resultado foi claro.
Os machos rejeitados preferiram a comida com etanol, enquanto os saciados sexualmente dispensaram o álcool.
No passo seguinte, os cientistas mediram a quantidade do neuropeptídeo F (NPF) no cérebro desses dois grupos. O resultado foi novamente claro: os machos frustrados possuíam níveis mais baixos do hormônio no cérebro; os saciados, um nível mais alto. O interessante é que o nível baixo de hormônio nos machos frustrados pode ser facilmente revertido se lhes forem oferecidas algumas fêmeas virgens. Após o sexo, esses machos têm o nível de hormônio aumentado e seu apetite por álcool diminui.
Esses resultados indicam que há uma correlação entre a atividade sexual, o nível de hormônio e a vontade de se embriagar. Mas isso é uma simples correlação ou uma relação causal?
Daí a vantagem de fazer esses estudos com essas moscas. Como a genética dessas moscas é facilmente manipulável, os cientistas alteraram os genes para diminuir o nível de hormônio sem submeter os machos à falta de sexo. Foi observado que moscas com pouco hormônio passaram a gostar de álcool, independentemente da atividade sexual. O inverso também foi observado.
Com base nessas observações, foi demonstrado que o sistema de produção do NPF media a substituição de um prazer negado por uma outra recompensa. É a primeira vez que se mapeia em detalhe o mecanismo molecular responsável por esse comportamento.
O interessante é que em humanos há um neuropeptídeo equivalente e muitas pesquisas em mamíferos já demonstraram que ele pode estar envolvido em fenômenos semelhantes. Se for provado que os humanos têm um sistema parecido com o das moscas, isso possibilitaria drogas para alterar seu funcionamento e talvez tratar pacientes com alcoolismo e diversas outras formas de dependência.
Quem imaginaria que as moscas também afogam suas mágoas com álcool e provavelmente compartilham conosco o mesmo mecanismo hormonal capaz de compensar uma frustração com outra forma de prazer?
Canibais no agreste - CONTARDO CALLIGARIS
FOLHA DE SP - 19/04/12
Os canibais do agreste são três loucos. A partir de que número eles seriam uma seita? E uma religião?
Na quarta-feira retrasada, em Garanhuns (PE), a polícia prendeu Jorge Beltrão Negromonte da Silveira, 51, sua mulher, Isabel Cristina Torreão Pires da Silveira, também 51, e Bruna Cristina Oliveira da Silva, 25, que vivia com o casal e era a amante de Jorge.
Os três são acusados de ter matado no mínimo três jovens mulheres: duas nos últimos meses, em Garanhuns, e outra, em 2008, em Olinda. Eles confessaram ter comido pele, vísceras e carne das vítimas. Isabel declarou ter usado esses ingredientes na preparação de empadas que ela vendia cidade afora. Os restos das vítimas recentes foram encontrados no quintal da casa do trio.
Jorge, formado em educação física e com uma segunda faculdade ao menos começada, deixou um manuscrito de 34 minicapítulos e cinco desenhos registrado em cartório (como se temesse pelos direitos autorais). Também existe um filme, que Jorge e Isabel produziram e no qual eles atuaram, anos atrás. Bruna, ao que parece, escreveu um diário, que acaba de ser encontrado.
Passei a tarde de domingo lendo o manuscrito de Jorge; o memorial se interrompe pouco depois da primeira vítima, Jéssica (a qual, antes de ser morta, pariu uma menina, que passou a viver com o trio e de quem Jorge afirma ser o pai).
No memorial, Jorge também relata o diagnóstico de esquizofrenia paranoide, as tentativas de medicação e a passagem por diversos serviços de saúde mental.
Numa entrevista televisiva (http://migre.me/8GY8q), Jorge conta que as vítimas precisavam ser purificadas, e purificar as almas era a "missão" do trio. As mulheres, atraídas por propostas de trabalho, eram levadas, na conversa, a falar "coisas boas", de maneira a poderem morrer "perdoadas".
Comer a carne era parte do ritual de purificação; talvez os assassinos incorporassem assim a nova "pureza" de suas vítimas -afinal, segundo muitos antropólogos, o canibal assimila as qualidades da pessoa de quem ele se alimenta. De fato, depois do primeiro assassinato, Bruna passou a ser chamada de Jéssica, nome da primeira vítima.
Seja como for, o crime do trio inspirou um horror descomunal. Populares de Garanhuns, não podendo linchar os três, lincharam a casa, que foi saqueada e queimada por duas vezes.
De fato, o autocanibalismo é frequente (as pessoas comem suas unhas e peles sem problema), mas o canibalismo é muito raro. Aparece na ficção (Hannibal Lecter) e em alguns casos em que está ligado a fantasias sexuais extremas (vide o caso de Jeffrey Dahmer e o caso de Armin Meiwes, que, na Alemanha, em 2003, encontrou Bernd Brandes, o qual queria ser devorado e participou da comilança de seu próprio corpo até morrer). Desse canibalismo sexual sobra em nós a vontade de morder o ser amado -além do duplo sentido lusitano de "comer".
Fora isso, o canibal é sobretudo uma construção cultural, que serve para apontar a selvageria no primitivo e no outro em geral (sobre isso, ler o excelente "An Intellectual History of Cannibalism", de Catalin Avramescu, Princeton).
Agora, o canibalismo, para Jorge, não foi um transporte sensual ou sexual, mas o jeito louco de se dar uma identidade e um sentido. Os cristãos sustentam sua força espiritual incorporando simbolicamente o corpo de Cristo na comunhão; Jorge tentou se tornar alguém no mundo devorando realmente suas vítimas purificadas. Ele conseguiu: tornou-se a mão vingadora do arcanjo, com a "clara" missão de purificar o mundo.
Alguém me perguntou: como três pessoas podem compartilhar a mesma loucura?
A psiquiatria francesa do século 19 nomeou a "Folie à deux" (loucura a dois), que o DSM (manual de diagnóstico de transtornos mentais) hoje chama de Transtorno Psicótico Compartilhado. Às vezes, dois ou mais psicóticos podem influenciar reciprocamente a elaboração de seus temas delirantes. Mais frequentemente, a loucura é imposta a outros (não psicóticos) por um personagem dominante (Jorge, no caso), cujo delírio seduz e conquista. Como assim, seduz?
Num mundo em que a maioria sofre de uma tremenda fragilidade narcisista, ou seja, da sensação de ser invisível e desnecessário, os Jorges só podem proliferar, pois eles garantem muito mais do que pão: eles garantem um sentido e uma função no mundo para todos.
Os canibais do agreste são três loucos. A partir de que número eles seriam uma seita? E uma religião?
A verdadeira faxina ética - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 19/04/12
À medida que o tempo passa e novas denúncias vão surgindo, fica mais claro que a CPI do Cachoeira é uma grande oportunidade para fazer a verdadeira faxina ética que os acontecimentos estão a exigir da sociedade brasileira. Criada por interesses nem sempre os mais transparentes, essa CPI pode se transformar na nossa chance de zerar o jogo político e começar de novo, diante das evidências de que os tentáculos da quadrilha do bicheiro goiano há muito evoluíram para além de suas próprias fronteiras.
Parece claro a esta altura que a CPI dificilmente servirá aos interesses partidários que a geraram, dentro do PT ou até mesmo na oposição, que começou o processo como a grande vítima devido à descoberta das ligações do senador Demóstenes Torres com o bicheiro, e quer virar o jogo trazendo para o centro do ringue o onipresente José Dirceu, ícone de uma ala da esquerda petista que pretendia, nas palavras de um de seus mais importantes seguidores, o presidente do PT, Rui Falcão, usar a CPI para denunciar "a farsa do mensalão".
Todas as indicações são no sentido de que, mesmo antes de se conseguir montar as representações partidárias para compor a CPI, as dissensões na base aliada servirão de pano de fundo da comissão, em torno da qual o governo só terá maioria conjuntural, dependendo de quem estiver no alvo naquele justo momento.
Haverá ocasiões em que o PMDB estará ao lado das oposições para deixar o PT em maus lençóis, haverá outros em que um pequeno partido da base aliada poderá trair o governo, para se vingar de alguma ação pretérita ou para se cacifar para negociações futuras.
Nascida da sede de vingança do ex-presidente Lula contra o governador tucano de Goiás, Marconi Perillo, uma CPI de amplo espectro como esta dará oportunidade a todos de tentar apanhar seus desafetos em algum "malfeito".
Pegue-se o caso da construtora Delta, que, assim como seu parceiro Carlinhos Cachoeira, tem obras em praticamente todos os estados brasileiros, acima dos partidos, tendo como objetivo apenas o lucro imediato. Como expô-la ao escrutínio da CPI exporá também governadores e políticos de diversos calibres e siglas partidárias, dificilmente será possível protegê-la, e sobrará para todos os lados.
Essa briga de foice no escuro, sem uma organização clara, pode, afinal, ser boa para a cidadania, pois apenas os que não estão fazendo militância política não têm nada a perder com ela.
Por uma dessas conjunções de forças que o destino às vezes arma, estamos entrando num momento, a partir de hoje, em que o Poder Judiciário será comandado por dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que já deram mostras, pelos seus votos e posicionamentos anteriores, de que têm a mesma percepção sobre a necessidade de reforçar a ética nas relações políticas e sociais: a ministra Cármem Lúcia assume o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e o ministro Carlos Ayres Britto, o Supremo Tribunal Federal.
Como a Lei da Ficha Limpa tem uma nítida correlação com o julgamento do mensalão, o empenho dos dois será para que o processo entre em pauta a tempo de deixar livre o caminho para a realização das eleições sem questões jurídicas pendentes.
O novo presidente do STF tem até novembro para colocar em julgamento o processo do mensalão, pois naquele mês se aposentará por ter atingido a idade máxima. Por isso ele tem deixado claro nas entrevistas dos últimos dias que fará tudo para que o término do julgamento ocorra até 6 de julho, data em que o processo para as eleições municipais começa oficialmente.
No entanto, o que parecia uma data-limite transformou-se apenas em uma "data ideal", pois o ministro Ayres Britto deixou claro que o julgamento ocorrerá mesmo que concomitantemente ao processo eleitoral.
O ministro Marco Aurélio Mello, que assumirá a vice-presidência do Tribunal Superior Eleitoral, também não vê motivos para que a eleição impeça o julgamento, pois "não estamos engajados em política partidária". Nem mesmo a aposentadoria de um dos membros em meio ao julgamento seria causa de interrupção, considera Marco Aurélio Mello, pois o voto de Minerva do presidente pode decidir eventual empate.
Essa questão surge quando se sabe que o ministro Cezar Peluso se aposentará em setembro, e há quem considere que um processo tão delicado politicamente como o mensalão só poderia ser julgado com os 11 ministros presentes.
O ministro Marco Aurélio Mello só dista da tendência geral quando considera disparatada a ideia de usar o recesso de julho, se necessário, para realizar o julgamento.
O ministro Ricardo Lewandowski, que é o responsável não apenas pelo voto do revisor no mensalão, mas também está com o processo do envolvimento do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) com a máfia do bicheiro Carlinhos Cachoeira, parece já ter entendido a ansiedade da opinião pública e promete dar seu voto em breve.
O ambiente político desencadeado pela convocação da CPI, em vez de neutralizar o julgamento do mensalão, está estimulando o anseio da sociedade pela punição dos responsáveis pela corrupção, venha de onde vier.
Régua e compasso - DORA KRAMER
O ESTADÃO - 19/04/12
Se estiver dando para entender direito o que o PMDB anda dizendo sobre a CPI da vez, o partido tem um plano. Posa de bom conselheiro, na certeza de que o PT se enrola todo e acaba deixando o governo em maus lençóis.
Instalada a confusão, usa de sua influência e experiência para salvar a situação abatendo logo dois coelhos: enfraquece o parceiro que identifica como um bom amigo da onça e recuperaprestígio no Palácio do Planalto.
Entraria em cena assim como uma espécie de guia genial dos povos.
Na teoria, como sempre, tudo corre bem. O problema dos planos muito bem elaborados é a desobediência da realidade e a insubordinação das consequências.
Em 2005 a oposição projetou o sangramento político do então presidente Luiz Inácio da Silva considerando desnecessário confrontar sua investidura no cargo com a confissão do publicitário Duda Mendonça sobre uso da caixa dois na campanha presidencial.
Em 2010 a mesma oposição planejou com capricho uma vitória e com o mesmo afinco ajudou Lula a construir uma derrota.
Há inúmeros exemplos da distância existente entre a projeção e a execução de empreendimentos.
Até engenheiros considerados muito competentes cometem erros de cálculo. Note-se o ex-presidente Lula agora no papel diverso do acima citado.
Por enquanto seus planos para Fernando Haddad como candidato aprefeito de São Paulo não tem saído conforme o roteiro original, embora essa ainda sejauma obra em aberto e pode haver modificações.
O que não se alteram são os relatos sobre a oposição da presidente Dilma Rousseff à ideia de Lula de incentivar a comissão de inquérito com o propósito de dar o troco em adversários e anuviar o ambiente de julgamento do mensalão.
O senador Delcídio Amaral, do PT, acha o gesto equivocado: “São coisas diferentes, tratadas em foros distintos e, além do mais, misturá-las só serve para enervar o Supremo e complicar em vez de facilitar a situação”.
É a tal história dos planos: assim como ninguém garante que o PMDB possa controlar a situação e ficar de fora do que venha por aí, tampouco é possível assegurar que se houver seriedade nas investigações originadas nas relações do senador Demóstenes Torres com Carlos Augusto Ramos, não se tenham escarafunchadas as relações entre governos (federal inclusive) e empreiteiras.
Com repercussão direta e imprevisível sobre o PAC e demais obras públicas. Não é à toa nem por acaso que há anos se tenta sem sucesso e se evita com grande êxito sentar essas senhoras nos bancos de uma CPI.
Cerca Lourenço. De todas as cenas impróprias que a política produz dia sim outro também, entre as recentes a pior é a do deputado João Paulo Cunha, dublê de réu do mensalão e presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, em périplo aos gabinetes dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
Por ora pediu audiências a cinco ministros e foi atendido por um, justamente José Antônio Dias Toffoli, assessor jurídico da Casa Civil à época do escândalo e depois advogado-geral da União.
A alegação de que teria ido entregar relatório sobre alterações no Código Penal não faz sentido, pois Cunha além de não ser o relator (era o deputado Sérgio Barradas Carneiro) não tinha delegação para tal.
A motivação óbvia é “sentir o clima” entre os ministros. Uma inconveniência, de parte a parte.
Bendita. Ao contrário do que diz o a partir de hoje ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Cezar Peluso, Eliana Calmon deixará sim um legado importante como corregedora do Conselho Nacional de Justiça.
Ela pode não ter, como disse o ministro, “apresentado resultados concretos” sobrevárias denúncias envolvendo magistrados. Até porque não é senhora do tempo da conclusão dos processos.
Mas contribuiu com atitude, pondo vários pontos em muitos “is”. O que não é pouco no ainda obscuro ambiente da Justiça.
Se estiver dando para entender direito o que o PMDB anda dizendo sobre a CPI da vez, o partido tem um plano. Posa de bom conselheiro, na certeza de que o PT se enrola todo e acaba deixando o governo em maus lençóis.
Instalada a confusão, usa de sua influência e experiência para salvar a situação abatendo logo dois coelhos: enfraquece o parceiro que identifica como um bom amigo da onça e recuperaprestígio no Palácio do Planalto.
Entraria em cena assim como uma espécie de guia genial dos povos.
Na teoria, como sempre, tudo corre bem. O problema dos planos muito bem elaborados é a desobediência da realidade e a insubordinação das consequências.
Em 2005 a oposição projetou o sangramento político do então presidente Luiz Inácio da Silva considerando desnecessário confrontar sua investidura no cargo com a confissão do publicitário Duda Mendonça sobre uso da caixa dois na campanha presidencial.
Em 2010 a mesma oposição planejou com capricho uma vitória e com o mesmo afinco ajudou Lula a construir uma derrota.
Há inúmeros exemplos da distância existente entre a projeção e a execução de empreendimentos.
Até engenheiros considerados muito competentes cometem erros de cálculo. Note-se o ex-presidente Lula agora no papel diverso do acima citado.
Por enquanto seus planos para Fernando Haddad como candidato aprefeito de São Paulo não tem saído conforme o roteiro original, embora essa ainda sejauma obra em aberto e pode haver modificações.
O que não se alteram são os relatos sobre a oposição da presidente Dilma Rousseff à ideia de Lula de incentivar a comissão de inquérito com o propósito de dar o troco em adversários e anuviar o ambiente de julgamento do mensalão.
O senador Delcídio Amaral, do PT, acha o gesto equivocado: “São coisas diferentes, tratadas em foros distintos e, além do mais, misturá-las só serve para enervar o Supremo e complicar em vez de facilitar a situação”.
É a tal história dos planos: assim como ninguém garante que o PMDB possa controlar a situação e ficar de fora do que venha por aí, tampouco é possível assegurar que se houver seriedade nas investigações originadas nas relações do senador Demóstenes Torres com Carlos Augusto Ramos, não se tenham escarafunchadas as relações entre governos (federal inclusive) e empreiteiras.
Com repercussão direta e imprevisível sobre o PAC e demais obras públicas. Não é à toa nem por acaso que há anos se tenta sem sucesso e se evita com grande êxito sentar essas senhoras nos bancos de uma CPI.
Cerca Lourenço. De todas as cenas impróprias que a política produz dia sim outro também, entre as recentes a pior é a do deputado João Paulo Cunha, dublê de réu do mensalão e presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, em périplo aos gabinetes dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
Por ora pediu audiências a cinco ministros e foi atendido por um, justamente José Antônio Dias Toffoli, assessor jurídico da Casa Civil à época do escândalo e depois advogado-geral da União.
A alegação de que teria ido entregar relatório sobre alterações no Código Penal não faz sentido, pois Cunha além de não ser o relator (era o deputado Sérgio Barradas Carneiro) não tinha delegação para tal.
A motivação óbvia é “sentir o clima” entre os ministros. Uma inconveniência, de parte a parte.
Bendita. Ao contrário do que diz o a partir de hoje ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Cezar Peluso, Eliana Calmon deixará sim um legado importante como corregedora do Conselho Nacional de Justiça.
Ela pode não ter, como disse o ministro, “apresentado resultados concretos” sobrevárias denúncias envolvendo magistrados. Até porque não é senhora do tempo da conclusão dos processos.
Mas contribuiu com atitude, pondo vários pontos em muitos “is”. O que não é pouco no ainda obscuro ambiente da Justiça.
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