O GLOBO - 15/03/12
Os dois principais motores da economia mundial estão dando sinais contraditórios. A China continua sendo a economia mais acelerada do mundo, mas o Banco Mundial alertou recentemente que o modelo de crescimento chinês é insustentável e o governo revisou a previsão de alta do PIB para 7,5%. Os Estados Unidos estão com uma recuperação mais sólida, mas o clima ainda é de cautela porque a cada número bom corresponde uma ressalva.
Pela primeira vez em oito anos a meta de crescimento chinês foi revista para baixo. Depois de surfar no longo período de expansão mundial dos anos 2000, das bolhas nas economias americana e europeia, os chineses resistiram no começo, mas já estão sentindo a crise. Nos Estados Unidos, o ânimo gangorra a cada número. O desemprego caiu, mas o inverno este ano foi menos rigoroso. Isso ajuda a criar empregos, mas não significa melhora nos fundamentos. Foi o terceiro mês seguido de mais criação de vagas do que se esperava. Em fevereiro, foram 227 mil. A taxa de desemprego ficou estável em 8,3%. O preço da gasolina subiu, e isso sempre tem impacto na renda disponível das famílias, como se viu no ano passado.
- Há sinais mais sólidos de recuperação, mas nada espetacular. O mercado de trabalho, a indústria, a confiança dos consumidores tiveram melhoras. As bolsas subiram fortemente e alguns setores estão em recuperação, como o varejo, mas o setor financeiro ainda sente o impacto da crise europeia - diz o economista Raphael Martello, da Tendências Consultoria.
O índice Dow Jones atingiu na terça-feira o valor mais alto desde 2007. O S&P chegou ao nível de 2008, e o Nasdaq superou os 3 mil pontos pela primeira vez em mais de uma década.
Os economistas projetam alta no PIB chinês entre 7% e 9% nos próximos anos. De 2003 a 2007 ficou entre 10% e 13%. A mudança de marcha coloca os chineses mais próximos do ritmo indiano. Isso terá reflexo nos preços de vários ativos da economia mundial, como as commodities que o Brasil exporta. A queda das commodities já afetou o preço das ações das empresas brasileiras exportadoras, mesmo num ano de alta nas bolsas.
- A recuperação da cotação das commodities em 2012 está sendo interrompida, e em alguns produtos até mesmo sendo anulada pela redução da meta chinesa - disse o presidente da AEB, José Augusto de Castro.
O aviso de que a China crescerá menos mostra que ela foi afetada pela economia mundial, acredita o economista Paulo Bittencourt, da Apogeo Investimentos. A China projeta alta de 10% nas exportações este ano, abaixo dos 23% de 2011. Em fevereiro, o governo divulgou que houve o maior déficit comercial mensal no país desde 1989: US$ 31 bilhões.
- Tudo funcionou muito bem enquanto o mundo estava bem. Mas o governo chinês entendeu que a economia mundial ficará um bom tempo crescendo pouco e que depender de exportações é um imenso risco. O Brasil exportou menos carne para a Europa em 2011. Imagine o que está acontecendo com os produtos manufaturados chineses - disse Bittencourt.
A China, como se sabe, quer depender mais do mercado interno, mas a transição não é rápida. O consumo das famílias chinesas corresponde a apenas 33% do PIB, muito abaixo do de outras economias. No Brasil e nos EUA, a taxa fica em torno de 66%.
- Para que a China cresça via consumo interno é preciso aumentar o poder de compra da população. Mas há uma preocupação sobre os efeitos dos aumentos de salário na competitividade da indústria. Se o yuan for valorizado fortemente, os exportadores perderiam duas vezes, via custo de trabalho e câmbio menos favorável - disse Rodrigo Maciel, da Strategus consultoria.
Os estímulos que o governo chinês deu à economia em 2009, logo após a quebra do Lehman Brothers, não devem se repetir agora. Eles aumentaram os gastos públicos e a concessão de crédito, o que alimentou bolhas e elevou a inflação.
Os investimentos em infraestrutura serão um pouco menos intensos neste novo modelo de crescimento chinês. O governo já espera uma redução no ritmo de criação da empregos nas cidades, de 12,2 milhões, em 2011, para 9 milhões em 2012, o que significa menos migrantes do que se esperava e um crescimento menor da pressão sobre a infraestrutura urbana.
- Esse é um risco para o Brasil porque afeta o consumo de minério de ferro. As negociações de preço são trimestrais e serão um bom indicador sobre os efeitos que haverá sobre nós - disse Bittencourt.
O Brasil tem um déficit em conta corrente de US$ 60 bilhões e uma reversão nos preços das commodities pode diminuir nosso saldo comercial e agravar ainda mais o buraco nas nossas contas externas.
Nos últimos anos, o Brasil saiu de um superávit para déficit comercial com os Estados Unidos, porque a crise reduziu as exportações. Neste momento, é hora de fazer esforço para ocupar de novo espaço na economia chinesa e ficar atento à desaceleração que pode nos afetar. Não há o que fazer, esses dois puxam o mundo.
Nos próximos dias eu vou tirar um pedaço das minhas férias. Vocês ficarão com a jornalista Regina Alvarez. Não demoro.
quinta-feira, março 15, 2012
Buemba! Michel Teló fica duro! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 15/03/12
"Proibida a entrada vestindo bermuda, chinelo e boné pra trás". Proibida a entrada do Brasil!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Placa no show dos sertanejos Munhoz e Mariano: "Proibida a entrada vestindo bermuda, chinelo e boné pra trás". Proibida a entrada do Brasil! Rarará. Mas essa proibição é inédita, boné pra trás! Adorei!
E atenção! Festival de Piadas Prontas! "Chinês descobre que comprou iPhone falso e esfaqueia vendedor". Rarará. Tá certo! Chingling não pode sacanear outro chingling!
"Brasil manda carta para ministro da Economia do México para limitar importação de automóveis." Como é o nome do ministro? Eduardo FERRARI!
"Dilma promete muitos afagos ao PMDB." Ah, agora mudou de nome? Se chama afago? Quanto custa isso? Trinta mil afagos! E isso aqui? Seis parcelas de 220 afagos. E o dólar? O dólar hoje está a 1,80 afagos. E PMDB quer dizer Papai Me Descola uma Boquinha!
E esta bomba: "Jogador chinês Zizao cai, machuca o ombro e fica fora por um mês do Corinthians". Feito na China mesmo! No primeiro dia de uso, quebrou. Reforço chingling. Timão contrata um chingling! Requisito básico pra entrar no Timão: já vem bichado!
O CT do Timão virou uma CTI. Centro de Tratamento Intensivo do Timão. Isso é um clube ou pronto-socorro? Pronto atendimento. Torci o tornozelo. Liga pro Tite. Vai se tratar no Timão! E ninguém mandou comprar o chinês na 25 de Março.
E um amigo meu foi no Stand Center comprar um aparelho de som e perguntou pra chinesa: "As caixinhas 'surround' vêm junto?". E a chinesa: "Caxinha sulounde paga sepalado". E o meu amigo: "Então enfia na peleleca!". Rarará. E mais: "Música de espera do telefone da Secretaria de Segurança do Paraná: 'Ai Se Eu Te Pego'". Você liga pra pedir socorro e recebe uma ameaça!
E completa com essa: "Juiz bloqueia dinheiro que Teló ganhou com 'Ai Se Eu Te Pego". Três universitárias paraibanas teriam inventado o refrão! Precisa de TRÊS universitárias pra inventar aquele refrão?
Pior, foi inventado numa viagem à Disney. Então "delícia, delícia" era o Pateta. Rarará. O Teló pediu ajuda pros universitários!
E adorei essa charge do Duke: "Agora, um minuto de silêncio pela queda do Ricardo Teixeira". "UHU! UHUHU!". Rarará. Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Batalha pelas terras raras - GILLES LAPOUGE
O Estado de S.Paulo - 15/03/12
Uma batalha planetária foi deflagrada às margens do lago Lemano, na tranquila cidade de Genebra. Quem são os adversários? De um lado, a China. Diante dela, três campeões: Europa (UE), Estados Unidos e Japão.
E o que está em jogo? O gálio, o germânio, a fluorita, o índio e alguns outros minérios cujo nome não é muito fácil lembrar, mas que compõem a família das terras raras, as terras que hoje constituem objeto de um litígio.
E para regular o comércio destas terras raras a Europa, os EUA e o Japão protestam agora na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra a China, ou seja, contra o primeiro e praticamente o único país produtor.
Mas por que esta explosão de paixões e de interesses a respeito de minérios que poucas pessoas conhecem e cujos nomes são no mínimo bastante esquisitos? Ocorre que estas terras raras são indispensáveis às indústrias de ponta. Sem elas, não haveria smartphones, nem celulares, trens que andam a mais de 500 quilômetros horários, nem veículos híbridos, fazendas eólicas, lâmpadas fluorescentes. A China produz sozinha 97% das terras raras mundiais. Consequentemente, se ela suspendesse as exportações de terras raras, toda a indústria de ponta do mundo ficaria estrangulada.
Torneira. Felizmente, a China é um membro da OMC. Portanto, não tem o direito de fechar a torneira das terras raras. Por outro lado, ela se deu a liberdade de estabelecer cotas de exportação. E as justifica da seguinte maneira: a extração, e principalmente o refino, das terras raras são extremamente poluentes. A China se recusa a destruir seu meio ambiente "pelos belos olhos" da indústria japonesa ou americana. Este argumento ecológico é até convincente. No entanto, é enganoso. Todo mundo sabe que se a China quiser reduzir as vendas de terras raras, será com a finalidade de criar uma indústria própria de ponta, integrada, contra a qual país nenhum poderá lutar.
O paradoxo é que as terras raras não são absolutamente raras. Elas podem ser encontradas nos cinco continentes. A China, que produz 97% delas, possui apenas 35% das reservas mundiais; os Estados Unidos 10%, a Rússia 15%, a Austrália 5%. Mas sua exploração é muito complicada, muito cara e muito poluente.
Antes de 1980, os EUA forneciam terras raras à metade do planeta. Mas, por volta de 1990, a China entrou no circuito, e começou a explorar suas próprias terras raras. Graças a uma mão de obra inesgotável e muito mal paga, conseguiu produzir a preços tão baixos que a maior parte das outras explorações, fora da China, teve de fechar as portas, até deixar a Pequim praticamente o monopólio destes minérios.
Hoje, a China se beneficia dele - por um lado aumentando ferozmente o preço, por outro, limitando suas exportações. Um país como o Japão, desprovido de terras raras, mas dotado de uma enorme indústria high tech seria ameaçado se a China restringisse exageradamente suas exportações.
É este o motivo das reclamações que Europa, Japão e EUA apresentam à OMC. Entretanto, em Genebra as perspectivas são bastante pessimistas.
Um diplomata americano na Suíça teme que as reclamações não cheguem a resultado algum, porque os argumentos são frágeis. Do lado americano, a ação parece ser motivada principalmente por razões políticas. Do outro lado, o argumento ecológico apresentado pela China, ainda que oportunista, não deixa de ter certa força. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA
Fé e educação - KENNETH MAXWELL
FOLHA DE SP - 15/03/12
Existe um velho padrão na política dos Estados Unidos. Richard Hofstadter foi professor de História na Universidade Columbia. Era um intelectual engajado e conhecido e escreveu duas obras importantes: "Anti-intelectualismo nos Estados Unidos" (1963) e "The Paranoid Style in American Politics" (1964).Nesses livros, ele conectava o populismo antissemita dos anos 1890 à demagogia anticomunista do senador Joseph McCarthy no começo dos anos 50.
O nome de Hofstadter não é muito lembrado. Ele morreu aos 54 anos, em 1970. Tendo sofrido discriminação antissemita nos anos 40, tornou-se defensor apaixonado dos valores progressistas.
Nos anos finais de sua vida, era conhecido por sua firme oposição aos universitários radicais da Universidade Columbia, em 1968.
As universidades norte-americanas são amplamente reconhecidas hoje como as melhores do mundo. Harvard, Yale, Princeton e Stanford estão sempre entre as instituições mais bem classificadas de ensino superior.
É muito estranho, portanto, que os dois principais candidatos à indicação republicana para enfrentar o presidente Barack Obama na eleição presidencial de novembro, o ex-senador Rick Santorum e o ex-governador Mitt Romney, tenham escolhido atacar a educação universitária norte-americana.
Santorum chamou Obama de "esnobe" por advogar uma expansão no número de matriculados no ensino superior. Santorum definiu as universidades como "usinas de doutrinação" que "destroem a fé religiosa". Romney, tentando não ficar para trás, instou os universitários a "não esperar que o governo perdoe as dívidas que vocês assumirem". Ele os aconselhou a "não tentarem se matricular nas universidades de maior preço".
São opiniões compatíveis com as expressas pelos conservadores sociais e pelos cristãos evangélicos, dois componentes importantes da base do Partido Republicano. Mas existem poucas provas em apoio a esse tipo de afirmação. É verdade que, entre os cientistas dos Estados Unidos, há nove democratas para cada republicano.
Entretanto estudos recentes com as faixas etárias jovens não constataram diferenças quanto à maior parte dos indicadores de identidade, práticas religiosas e crenças entre os universitários e os que não fazem curso superior.
Os universitários não abandonam sua fé em razão da influência de professores universitários "ímpios".
Mas, como Hofstadter demonstrou muito tempo atrás, a política tem pouco em comum com os fatos.
Balas perdidas - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 15/03/12
BRASÍLIA - Tudo seria mais fácil se o PT e o PMDB fossem dois monoblocos, mas, se até simularam isso bem na era Lula, agora rasgam a fantasia. O PT está rachado ao meio em São Paulo e no Congresso, e o PMDB é uma tropa cheia de comandantes, mas sem comando. São todos como conjuntos matemáticos que ora se afastam, ora se misturam. Neste momento, unem-se contra Dilma.
Ela tenta uma versão heroica, resumindo a rebelião dos aliados a mera sofreguidão por cargos (que é só parte do problema) e buscando aplausos da opinião pública para a "moralização das relações com o Congresso" -uma nova "faxina".
Objetivamente, porém, ela está confrontando a própria base aliada e corre risco de represálias. Quando essa gente quer retaliar, sai de baixo.
O discurso de Dilma e do novo líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), é de que irão cumprir o acordo com o PMDB para fevereiro de 2013, mantendo um peemedebista na presidência do Senado e elegendo um peemedebista na Câmara, hoje presidida pelo PT.
Petistas, peemedebistas, gregos e troianos acham que não é bem assim e que Dilma, apesar do discurso, vai fazer tudo contra Renan Calheiros no Senado e Henrique Eduardo Alves na Câmara, para não ficar na mão desse PMDB justamente no ano da reeleição, 2014.
Isso significa transformar a atual queda de braço com o Congresso numa guerra campal, até porque boa parte do PT ameaça voltar-se contra Dilma para apoiar o PMDB -em nome da palavra dada, mas, na verdade, pelo acúmulo de passivos com o Planalto. Ou melhor, com Dilma.
Os dois lados têm suas armas. A presidente, a caneta, as verbas, os cargos. Os "inimigos", as leis da Copa e dos royalties do petróleo, o código florestal, o Funpresp (fundo de previdência dos servidores) e um trunfo: a capacidade de explodir a coordenação política e arruinar a fama de boa gestora da presidente.
BRASÍLIA - Tudo seria mais fácil se o PT e o PMDB fossem dois monoblocos, mas, se até simularam isso bem na era Lula, agora rasgam a fantasia. O PT está rachado ao meio em São Paulo e no Congresso, e o PMDB é uma tropa cheia de comandantes, mas sem comando. São todos como conjuntos matemáticos que ora se afastam, ora se misturam. Neste momento, unem-se contra Dilma.
Ela tenta uma versão heroica, resumindo a rebelião dos aliados a mera sofreguidão por cargos (que é só parte do problema) e buscando aplausos da opinião pública para a "moralização das relações com o Congresso" -uma nova "faxina".
Objetivamente, porém, ela está confrontando a própria base aliada e corre risco de represálias. Quando essa gente quer retaliar, sai de baixo.
O discurso de Dilma e do novo líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), é de que irão cumprir o acordo com o PMDB para fevereiro de 2013, mantendo um peemedebista na presidência do Senado e elegendo um peemedebista na Câmara, hoje presidida pelo PT.
Petistas, peemedebistas, gregos e troianos acham que não é bem assim e que Dilma, apesar do discurso, vai fazer tudo contra Renan Calheiros no Senado e Henrique Eduardo Alves na Câmara, para não ficar na mão desse PMDB justamente no ano da reeleição, 2014.
Isso significa transformar a atual queda de braço com o Congresso numa guerra campal, até porque boa parte do PT ameaça voltar-se contra Dilma para apoiar o PMDB -em nome da palavra dada, mas, na verdade, pelo acúmulo de passivos com o Planalto. Ou melhor, com Dilma.
Os dois lados têm suas armas. A presidente, a caneta, as verbas, os cargos. Os "inimigos", as leis da Copa e dos royalties do petróleo, o código florestal, o Funpresp (fundo de previdência dos servidores) e um trunfo: a capacidade de explodir a coordenação política e arruinar a fama de boa gestora da presidente.
Mais energia para o PIB - PAULO PEDROSA
O ESTADÃO - 15/03/12
Os números do Produto Interno Bruto (PIB) apresentados recentemente mostraram mais uma vez de forma irrefutável o peso do setor industrial no andamento da economia. Um recuo da atividade da indústria nos últimos meses do ano freou fortemente o crescimento geral do País e acendeu a luz amarela nos gabinetes de governo. Mais do que uma redução do PIB em si,os dados do IBGE mostram uma perda de qualidade e aumento da vulnerabilidade da economia brasileira, cada vez mais voltada para serviços e consumo.
As abordagens tradicionais de incentivo, que recaem sobre desonerações ou subsídios específicos para determinados setores e redução de juros, são medidas que podem trazer algum resultado.
Mas não passam de paliativos e mascaram a necessidade de uma política industrial que recupere a competitividade da indústria nacional no longo prazo.
Essa política precisa, necessariamente, contemplar a redução das distorções que oneram a produção nacional,como o alto custo da energia, seja a elétrica ou o gás natural.Estudos recentes da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de energia e de Consumidores Livres (Abrace) comprovam a importância de atacar esses temas:cada R$ 1 a menos pago pela energia se refletiria em R$ 8,6 a mais no PIB brasileiro.
A Agência Internacional de energia diz que estamos no início da idade de ouro do gás natural, que trará consigo uma mudança no mapa da economia e da geopolítica global. Isso significa que as reservas brasileiras do insumo, associado ou não ao petróleo, podem potencializar uma nova fase do desenvolvimento nacional. Se demorarmos a perceber essa realidade, corre-se o risco de perder a oportunidade de fortalecer a economia e gerar empregos.
Os EUA já vivem uma nova ordem econômica em razão da abundância do gás não convencional (principalmente o gás de xisto, ou shale gas), que fez os preços caírem drasticamente e está incentivando a produção local.Os americanos pagam hoje pouco mais de US$3 por milhão de BTU(unidade que mede o gás). No Brasil esse valor chega a ultrapassar US$ 16.Os efeitos começam a ser percebidos:enquanto a indústria química americana se recupera e a de alumínio é ressuscitada, as empresas brasileiras desses segmentos interromperam investimentos em expansão e algumas penam para não fechar as portas, levando consigo cadeias produtivas inteiras.
Obviamente, a situação dos EUA é um extremo neste momento,pois o gás de xisto já está sendo explorado. Mas, mesmos e comparado aos demais Brics, o Brasil é hoje quem paga mais para consumirgás.
Além disso,há grande incerteza em relação aos desembolsos nos próximos anos, pois a maioria dos consumidores ainda não tem informações sobre a renovação dos contratos firmados entre as distribuidoras e a Petrobrás, que se encerram até o fim de 2012.
Também não existem expectativas reais quanto ao funcionamento do mercado livre de gás, já antecipado pela legislação setorial. Com relação a esse ponto, aliás, vale observar que, mesmo em energia elétrica,que é um setor mais maduro,não atingimos o patamar de eficiência e sustentabilidade necessário.
Há de se reconhecer que diversas esferas do governo federal começam a perceber que a energia é muito mais do que uma cadeia que se fecha em si,em torno de geração ou exploração, transmissão ou transporte e Distribuição.O Ministério de Minas e energia, por exemplo,estuda, com os Ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, alternativas para restabelecer a competitividade da indústria de alumínio.
No cenário global de crise, o Brasil tem condições únicas para continuar galgando postos entre os maiores PIBs do mundo.O compromisso com a melhoria da governança da administração pública,apoiado por grandes lideranças empresariais, certamente coloca o País no rumo certo para o salto no desenvolvimento com qualidade. Mas é importante que a energia seja incorporada nessa agenda como alternativa capaz de produzir resultados num prazo curto.A simples redução de distorções posicionaria melhor o País no parâmetro global de competitividade.
Os números do Produto Interno Bruto (PIB) apresentados recentemente mostraram mais uma vez de forma irrefutável o peso do setor industrial no andamento da economia. Um recuo da atividade da indústria nos últimos meses do ano freou fortemente o crescimento geral do País e acendeu a luz amarela nos gabinetes de governo. Mais do que uma redução do PIB em si,os dados do IBGE mostram uma perda de qualidade e aumento da vulnerabilidade da economia brasileira, cada vez mais voltada para serviços e consumo.
As abordagens tradicionais de incentivo, que recaem sobre desonerações ou subsídios específicos para determinados setores e redução de juros, são medidas que podem trazer algum resultado.
Mas não passam de paliativos e mascaram a necessidade de uma política industrial que recupere a competitividade da indústria nacional no longo prazo.
Essa política precisa, necessariamente, contemplar a redução das distorções que oneram a produção nacional,como o alto custo da energia, seja a elétrica ou o gás natural.Estudos recentes da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de energia e de Consumidores Livres (Abrace) comprovam a importância de atacar esses temas:cada R$ 1 a menos pago pela energia se refletiria em R$ 8,6 a mais no PIB brasileiro.
A Agência Internacional de energia diz que estamos no início da idade de ouro do gás natural, que trará consigo uma mudança no mapa da economia e da geopolítica global. Isso significa que as reservas brasileiras do insumo, associado ou não ao petróleo, podem potencializar uma nova fase do desenvolvimento nacional. Se demorarmos a perceber essa realidade, corre-se o risco de perder a oportunidade de fortalecer a economia e gerar empregos.
Os EUA já vivem uma nova ordem econômica em razão da abundância do gás não convencional (principalmente o gás de xisto, ou shale gas), que fez os preços caírem drasticamente e está incentivando a produção local.Os americanos pagam hoje pouco mais de US$3 por milhão de BTU(unidade que mede o gás). No Brasil esse valor chega a ultrapassar US$ 16.Os efeitos começam a ser percebidos:enquanto a indústria química americana se recupera e a de alumínio é ressuscitada, as empresas brasileiras desses segmentos interromperam investimentos em expansão e algumas penam para não fechar as portas, levando consigo cadeias produtivas inteiras.
Obviamente, a situação dos EUA é um extremo neste momento,pois o gás de xisto já está sendo explorado. Mas, mesmos e comparado aos demais Brics, o Brasil é hoje quem paga mais para consumirgás.
Além disso,há grande incerteza em relação aos desembolsos nos próximos anos, pois a maioria dos consumidores ainda não tem informações sobre a renovação dos contratos firmados entre as distribuidoras e a Petrobrás, que se encerram até o fim de 2012.
Também não existem expectativas reais quanto ao funcionamento do mercado livre de gás, já antecipado pela legislação setorial. Com relação a esse ponto, aliás, vale observar que, mesmo em energia elétrica,que é um setor mais maduro,não atingimos o patamar de eficiência e sustentabilidade necessário.
Há de se reconhecer que diversas esferas do governo federal começam a perceber que a energia é muito mais do que uma cadeia que se fecha em si,em torno de geração ou exploração, transmissão ou transporte e Distribuição.O Ministério de Minas e energia, por exemplo,estuda, com os Ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, alternativas para restabelecer a competitividade da indústria de alumínio.
No cenário global de crise, o Brasil tem condições únicas para continuar galgando postos entre os maiores PIBs do mundo.O compromisso com a melhoria da governança da administração pública,apoiado por grandes lideranças empresariais, certamente coloca o País no rumo certo para o salto no desenvolvimento com qualidade. Mas é importante que a energia seja incorporada nessa agenda como alternativa capaz de produzir resultados num prazo curto.A simples redução de distorções posicionaria melhor o País no parâmetro global de competitividade.
Não é mais pecado - LUIZ FERNANDO VERISSIMO
O Estado de S.Paulo - 15/03/12
Na sua Divina Comédia Dante coloca os sodomitas, os blasfemadores e os usurários no mesmo círculo do Inferno. As práticas das três categorias eram igualmente antinaturais. A Igreja condenava a usura e só absolvia os usurários arrependidos se eles devolvessem todo o lucro obtido com juros, que não era fruto do trabalho e portanto contra as leis de Deus. Aos usurários renitentes era negado enterro cristão. Já os blasfemadores e sodomitas não podiam esperar nenhuma remissão: iam direto para o Inferno. Pelo menos para o Inferno do Dante.
Nos 7 séculos desde a Divina Comédia, aos poucos e cada uma por sua vez, as três classes se livraram da danação que as estigmatizava. Relações homossexuais hoje são aceitas sem muito escândalo. Blasfemadores não precisam mais temer as fogueiras da Inquisição, ou qualquer coisa parecida, por negarem a religião. E os usurários mandam no mundo.
Pode-se, com alguma imaginação, comparar a regulação dos bancos que existia até pouco tempo com o controle que a Igreja tentava manter sobre a atividade financeira no fim da Idade Média, e a desregulação dos bancos que deu na crise que vivemos agora com a conclusão da Igreja que estava perdendo grandes negócios, combatendo a usura, e sua decisão de aderir. Os banqueiros passaram de excomungados a abençoados, e pelo século 18 a própria Igreja já era um dos maiores manipuladores financeiros do planeta. No caso dos bancos modernos, liberados para fazerem qualquer negócio pelo lucro imediato, inclusive destruir economias inteiras, a mensagem da desregulação foi a mesma que a Igreja deu aos usurários séculos atrás: não é mais pecado, gente!
Seria possível especular sobre quem Dante colocaria hoje no mesmo nicho, no sétimo circulo do Inferno? Nada parece muito antinatural, ultimamente. Bom, talvez a pizza com abacaxi. Mas nem isto merece ser jogado no fogo eterno.
Além-túmulo. Leitores perguntam se enlouqueci. Há uma semana escrevi que o fato da revolução comunista acontecer na Rússia, onde ninguém esperava, assustara até o Marx. Como Marx morreu em 1883 e a revolução foi em 1917 (ou 1905, a se contar a primeira tentativa fracassada) o susto era improvável. Pensei que tivesse ficado subentendido que Marx se surpreendera no além-túmulo, mas nem todos subentenderam. Resta imaginar onde fica o além-túmulo do Marx. No céu ou no inferno? Há controvérsias.
O poder da matemática - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 15/03/12
Têm sido mais comuns do que desejaríamos os sinais de que o ensino de matemática entre nós está abaixo das necessidades do país, de que são exemplos os dados disponíveis, que mostram uma aprovação de apenas 42,8% dos alunos do 3 ano do ensino fundamental com os conhecimentos básicos de matemática.
Em apenas 35 cidades do país, mais da metade dos alunos do 9 ano do ensino fundamental sabe matemática, teria nota superior a 5.
Apenas 11% dos jovens que alcançam a 3 série do ensino médio têm aprendizado suficiente na matéria.
Roberto Boclin, doutor em Educação e chefe de gabinete da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio, considera que a questão da educação, complexa por si só, "envolve pensamentos políticos que tangenciam o absurdo, como currículo único obrigatório na educação básica brasileira.
Por outro lado, destaca que "um currículo com 12 disciplinas, nem na Ásia".
Para ele, os currículos deveriam oferecer "oportunidades de interesse diversificado, variando entre eles pelo menos de 30% a 60% dos conteúdos, com no máximo cinco disciplinas, de modo a atraírem candidatos com propostas mais adequadas às suas realidades e vocações, e assim não abandonarem o curso no meio por absoluta falta de interesse".
Como o ensino médio é prioridade, pois do seu êxito dependem os caminhos do ensino superior ou do emprego futuro dos candidatos, "são completamente inaceitáveis evasões de 50 a 60% dos alunos ingressantes, muitos ainda no 1 ano".
Boclin diz que "basta olhar para outros, como os países asiáticos, a Finlândia e historicamente a Alemanha, que encontraremos inúmeros modelos que poderão transformar a educação brasileira".
Quando acabar a maré favorável dos preços na exportação das commodities, e for preciso competir na indústria da transformação, "a formação profissional será essencial", destaca Boclin.
Para além dos vexames internacionais em exames como o do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), em que nossos representantes ficaram na 57 colocação, à frente apenas de alunos de outros oito países, o professor Arnaldo Niskier, da Academia Brasileira de Letras e ex-secretário de Educação do Rio, que selecionou os exemplos da abertura da coluna, vê uma indicação de que perdemos competitividade num mundo cada vez mais dominado pela alta tecnologia, onde a matemática tem importância fundamental.
"Não resta dúvida sobre a utilidade de seu aprendizado, mesmo para aqueles que não se destinam às carreiras técnicas. Conhecer seus pormenores faz bem até quando o estudante deseja, por exemplo, escolher um curso de filosofia. Platão não foi filósofo e matemático", analisa Niskier.
Ele ressalta que o cérebro humano, com seus reconhecidos cem bilhões de neurônios, "evoluiu para lidar com o mundo físico e se utiliza da linguagem matemática para cumprir a sua finalidade, nas questões do pensamento".
Niskier destaca o papel da lógica em todo esse processo, citando o cientista da computação dos Estados Unidos Jeff Raskin: "A lógica humana nos foi trazida pelo mundo físico e é, portanto, concordante com ele. A matemática deriva da lógica. É por isso que a matemática é concordante com o mundo físico."
Arnaldo Niskier ressalta que, "mesmo trabalhando com incertezas, a ciência dos números tem verdades inabaláveis, como é o caso da geometria euclidiana, hoje tão acreditada como há 300 anos a.C.
Também Francisco Antonio Doria, professor da COPPE/UFRJ, matemático e filósofo, membro da Academia Brasileira de Filosofia, toma exemplo do dia a dia para falar do nosso déficit de matemática: "Pega um smartphone. Clica em cima do ícone do GPS. Aparecem logo o mapinha e o alfinete virtual que mostram onde você está. Com precisão de centímetros. Por trás desse pequeno milagre da tecnologia, está, entre outras coisas, uma das teorias mais abstratas da ciência moderna". Ele se refere à Teoria da Relatividade, que Einstein anunciou e publicou em 1915. Quando foi anunciada, ensina Doria, era "tão pesadamente matemática, tão complexa, tão fora do senso comum, que, dizia-se, apenas meia dúzia de pessoas a compreendiam naquele tempo".
A matemática manda em nossas vidas, hoje em dia, e nós mal nos tocamos a respeito, comenta Doria, que passa a relacionar: as taxas de juros que o Banco Central fixa surgem de uma técnica chamada teoria das metas de inflação, fortemente matemática; computadores funcionam com algoritmos, "e os primeiros exemplos de algoritmos aparecem numa outra área rarefeita, hiperabstrata, da ciência do século XX, a lógica matemática".
Doria é autor, com Greg Chaitin e Newton da Costa, do livro "Gödel"s way", sobre a história "divertida" de Kurt Gödel, matemático vienense, "notório por seu brilho, suas conversas nos cafés e porque nos seminários aos quais comparecia sempre havia uma moça bonitinha atrás dele". Em 1931, anunciou um resultado "tão obscuro e complicado, que dizia de uma espécie de impossibilidade de se esgotarem as verdades matemáticas, o teorema da incompletude de Gödel".
Entre as técnicas usadas para demonstrar seu resultado estão algoritmos - como os que fazem funcionar smartphones e computadores.
"Mistura de abstrato e concreto que só a matemática possui", define Doria.
Para ele, "vivemos num mundo imerso em uma matemática, pesada, obscura, difícil - e mal o percebemos. E muito menos no Brasil, onde tem gente que ainda acha que computador é maquininha de jogar games". Doria não tem dúvidas: "Talento e habilidade matemáticas são essenciais para se fazer capitalismo, para o crescimento econômico - e disso o Brasil tem muito pouco".
Ainda estamos, diz ele, "à margem do que movimenta, empurra, o mundo contemporâneo".
Têm sido mais comuns do que desejaríamos os sinais de que o ensino de matemática entre nós está abaixo das necessidades do país, de que são exemplos os dados disponíveis, que mostram uma aprovação de apenas 42,8% dos alunos do 3 ano do ensino fundamental com os conhecimentos básicos de matemática.
Em apenas 35 cidades do país, mais da metade dos alunos do 9 ano do ensino fundamental sabe matemática, teria nota superior a 5.
Apenas 11% dos jovens que alcançam a 3 série do ensino médio têm aprendizado suficiente na matéria.
Roberto Boclin, doutor em Educação e chefe de gabinete da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio, considera que a questão da educação, complexa por si só, "envolve pensamentos políticos que tangenciam o absurdo, como currículo único obrigatório na educação básica brasileira.
Por outro lado, destaca que "um currículo com 12 disciplinas, nem na Ásia".
Para ele, os currículos deveriam oferecer "oportunidades de interesse diversificado, variando entre eles pelo menos de 30% a 60% dos conteúdos, com no máximo cinco disciplinas, de modo a atraírem candidatos com propostas mais adequadas às suas realidades e vocações, e assim não abandonarem o curso no meio por absoluta falta de interesse".
Como o ensino médio é prioridade, pois do seu êxito dependem os caminhos do ensino superior ou do emprego futuro dos candidatos, "são completamente inaceitáveis evasões de 50 a 60% dos alunos ingressantes, muitos ainda no 1 ano".
Boclin diz que "basta olhar para outros, como os países asiáticos, a Finlândia e historicamente a Alemanha, que encontraremos inúmeros modelos que poderão transformar a educação brasileira".
Quando acabar a maré favorável dos preços na exportação das commodities, e for preciso competir na indústria da transformação, "a formação profissional será essencial", destaca Boclin.
Para além dos vexames internacionais em exames como o do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), em que nossos representantes ficaram na 57 colocação, à frente apenas de alunos de outros oito países, o professor Arnaldo Niskier, da Academia Brasileira de Letras e ex-secretário de Educação do Rio, que selecionou os exemplos da abertura da coluna, vê uma indicação de que perdemos competitividade num mundo cada vez mais dominado pela alta tecnologia, onde a matemática tem importância fundamental.
"Não resta dúvida sobre a utilidade de seu aprendizado, mesmo para aqueles que não se destinam às carreiras técnicas. Conhecer seus pormenores faz bem até quando o estudante deseja, por exemplo, escolher um curso de filosofia. Platão não foi filósofo e matemático", analisa Niskier.
Ele ressalta que o cérebro humano, com seus reconhecidos cem bilhões de neurônios, "evoluiu para lidar com o mundo físico e se utiliza da linguagem matemática para cumprir a sua finalidade, nas questões do pensamento".
Niskier destaca o papel da lógica em todo esse processo, citando o cientista da computação dos Estados Unidos Jeff Raskin: "A lógica humana nos foi trazida pelo mundo físico e é, portanto, concordante com ele. A matemática deriva da lógica. É por isso que a matemática é concordante com o mundo físico."
Arnaldo Niskier ressalta que, "mesmo trabalhando com incertezas, a ciência dos números tem verdades inabaláveis, como é o caso da geometria euclidiana, hoje tão acreditada como há 300 anos a.C.
Também Francisco Antonio Doria, professor da COPPE/UFRJ, matemático e filósofo, membro da Academia Brasileira de Filosofia, toma exemplo do dia a dia para falar do nosso déficit de matemática: "Pega um smartphone. Clica em cima do ícone do GPS. Aparecem logo o mapinha e o alfinete virtual que mostram onde você está. Com precisão de centímetros. Por trás desse pequeno milagre da tecnologia, está, entre outras coisas, uma das teorias mais abstratas da ciência moderna". Ele se refere à Teoria da Relatividade, que Einstein anunciou e publicou em 1915. Quando foi anunciada, ensina Doria, era "tão pesadamente matemática, tão complexa, tão fora do senso comum, que, dizia-se, apenas meia dúzia de pessoas a compreendiam naquele tempo".
A matemática manda em nossas vidas, hoje em dia, e nós mal nos tocamos a respeito, comenta Doria, que passa a relacionar: as taxas de juros que o Banco Central fixa surgem de uma técnica chamada teoria das metas de inflação, fortemente matemática; computadores funcionam com algoritmos, "e os primeiros exemplos de algoritmos aparecem numa outra área rarefeita, hiperabstrata, da ciência do século XX, a lógica matemática".
Doria é autor, com Greg Chaitin e Newton da Costa, do livro "Gödel"s way", sobre a história "divertida" de Kurt Gödel, matemático vienense, "notório por seu brilho, suas conversas nos cafés e porque nos seminários aos quais comparecia sempre havia uma moça bonitinha atrás dele". Em 1931, anunciou um resultado "tão obscuro e complicado, que dizia de uma espécie de impossibilidade de se esgotarem as verdades matemáticas, o teorema da incompletude de Gödel".
Entre as técnicas usadas para demonstrar seu resultado estão algoritmos - como os que fazem funcionar smartphones e computadores.
"Mistura de abstrato e concreto que só a matemática possui", define Doria.
Para ele, "vivemos num mundo imerso em uma matemática, pesada, obscura, difícil - e mal o percebemos. E muito menos no Brasil, onde tem gente que ainda acha que computador é maquininha de jogar games". Doria não tem dúvidas: "Talento e habilidade matemáticas são essenciais para se fazer capitalismo, para o crescimento econômico - e disso o Brasil tem muito pouco".
Ainda estamos, diz ele, "à margem do que movimenta, empurra, o mundo contemporâneo".
Lula na linha - VERA MAGALHÃES
FOLHA DE SP - 15/03/12
Depois de assistir ao vivo na TV Brasil ao lançamento do plano federal contra o crack em Pernambuco, Lula, que se recupera de uma infecção pulmonar que o deixou seis dias internado, telefonou ontem para o governador Eduardo Campos (PSB). Tratou de informar que está voltando à atividade política e gostaria de marcar a conversa de ambos -adiada por conta da pneumonia- sobre o apoio do PSB à candidatura de Fernando Haddad (PT) em São Paulo para a semana que vem.
A volta do ex-presidente ao front eleitoral se dá antes do esperado pelos petistas, num sinal de que a situação de Haddad é considerada delicada por seu padrinho.
Peça-chave Diante das dificuldades de acerto com o PR, amplificadas ontem, o apoio do PSB ganhou importância ainda maior para que Haddad conquiste tempo de TV necessário para decolar. O núcleo paulista do partido prefere fechar com José Serra.
No atacado A direção nacional do PR autorizou ontem a seção paulistana da sigla a abrir negociações com as campanhas de Serra e de Gabriel Chalita (PMDB).
Que fase Haddad esteve segunda-feira no CEU Parque Anhanguera. Na sala dos professores, se apresentou e ouviu sugestões. Um deles pediu a palavra e disse que gostaria que, caso eleito, o petista mantivesse a política de valorização do magistério da gestão de Gilberto Kassab.
Bom te ver Aécio Neves estará em São Paulo no dia 26 em evento de lançamento do núcleo sindical do PSDB. Na ocasião, deve encontrar Serra, cuja participação na eleição municipal terá sido decidida oficialmente um dia antes, nas prévias do partido.
Acerto... Grupo de 12 expoentes da advocacia eleitoral encaminhou ao TSE abaixo-assinado contra a resolução que torna inelegíveis políticos cujas contas de campanhas anteriores tenham sido rejeitadas. No documento, os advogados sustentam que a norma fere a Constituição.
...de contas Subprocuradora-geral eleitoral, Sandra Cureau afirma que não há motivo concreto para questionamentos. "Se as contas foram desaprovadas, presume-se um vício insanável. O que esperar de um candidato que tenha agido assim?".
Canetada Na conversa que teve ontem com Blairo Maggi (PR-MT), Ideli Salvatti riscou nome por nome de uma relação de candidatos a ministro dos Transportes. Disse que Dilma Rousseff manterá Paulo Passos no posto e ofereceu duas diretorias de estatais ao partido. Maggi levantou-se e saiu.
Comida fria Diante das queixas sobre a qualidade da comida da residência de Michel Temer, peemedebistas lembram que os cozinheiros do Jaburu eram ótimos, mas foram requisitados pelo Planalto. "Até isso tiraram do PMDB'', brinca um comensal.
Ação... O PMDB dissidente, que emplacou Eduardo Braga (AM) na liderança do governo, reage à tentativa do Planalto de estimular a candidatura de Edison Lobão (Minas e Energia) à presidência do Senado em 2013.
... e reação Integrantes da ala pregam, ironicamente, a manutenção de José Sarney (AP), apesar de o regimento impedir a recondução. "Se é para colocar o genérico, melhor deixar o original".
Turno extra Brizola Neto (RJ) estava com um pé no Ministério do Trabalho, mas a divulgação prévia revoltou a bancada do PDT. Deputados dizem não ter sido consultados por Paulinho da Força (SP) e voltaram a defender Vieira da Cunha (RS).
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
tiroteio
Que beleza! Agora quem não pode ser votado, como diz a Lei da Ficha Limpa, vai poder votar? Decididamente, esse critério não faz o menor sentido.
DO DEPUTADO ESTADUAL CAMPOS MACHADO, presidente do PTB-SP, que prepara uma campanha nacional para mudar a Lei da Ficha Limpa e impedir que o eleitor ficha suja possa escolher seus representantes.
contraponto
Cabo eleitoral
Em seminário ontem na Assembleia paulista, o empresário Oded Grajew, da ONG Nossa São Paulo, cumprimentava os componentes da mesa que abordava práticas administrativas bem-sucedidas de planejamento urbano. Ao mencionar o prefeito de São Bernardo do Campo, disse:
-Queria saudar o governador Luiz Marinho...
O petista, que faz campanha pela reeleição e se queixa de ser citado nas listas de pré-candidatos ao governo paulista em 2014, interrompeu, em tom de brincadeira:
-Corrija isso. Você quer me criar problema?
Depois de assistir ao vivo na TV Brasil ao lançamento do plano federal contra o crack em Pernambuco, Lula, que se recupera de uma infecção pulmonar que o deixou seis dias internado, telefonou ontem para o governador Eduardo Campos (PSB). Tratou de informar que está voltando à atividade política e gostaria de marcar a conversa de ambos -adiada por conta da pneumonia- sobre o apoio do PSB à candidatura de Fernando Haddad (PT) em São Paulo para a semana que vem.
A volta do ex-presidente ao front eleitoral se dá antes do esperado pelos petistas, num sinal de que a situação de Haddad é considerada delicada por seu padrinho.
Peça-chave Diante das dificuldades de acerto com o PR, amplificadas ontem, o apoio do PSB ganhou importância ainda maior para que Haddad conquiste tempo de TV necessário para decolar. O núcleo paulista do partido prefere fechar com José Serra.
No atacado A direção nacional do PR autorizou ontem a seção paulistana da sigla a abrir negociações com as campanhas de Serra e de Gabriel Chalita (PMDB).
Que fase Haddad esteve segunda-feira no CEU Parque Anhanguera. Na sala dos professores, se apresentou e ouviu sugestões. Um deles pediu a palavra e disse que gostaria que, caso eleito, o petista mantivesse a política de valorização do magistério da gestão de Gilberto Kassab.
Bom te ver Aécio Neves estará em São Paulo no dia 26 em evento de lançamento do núcleo sindical do PSDB. Na ocasião, deve encontrar Serra, cuja participação na eleição municipal terá sido decidida oficialmente um dia antes, nas prévias do partido.
Acerto... Grupo de 12 expoentes da advocacia eleitoral encaminhou ao TSE abaixo-assinado contra a resolução que torna inelegíveis políticos cujas contas de campanhas anteriores tenham sido rejeitadas. No documento, os advogados sustentam que a norma fere a Constituição.
...de contas Subprocuradora-geral eleitoral, Sandra Cureau afirma que não há motivo concreto para questionamentos. "Se as contas foram desaprovadas, presume-se um vício insanável. O que esperar de um candidato que tenha agido assim?".
Canetada Na conversa que teve ontem com Blairo Maggi (PR-MT), Ideli Salvatti riscou nome por nome de uma relação de candidatos a ministro dos Transportes. Disse que Dilma Rousseff manterá Paulo Passos no posto e ofereceu duas diretorias de estatais ao partido. Maggi levantou-se e saiu.
Comida fria Diante das queixas sobre a qualidade da comida da residência de Michel Temer, peemedebistas lembram que os cozinheiros do Jaburu eram ótimos, mas foram requisitados pelo Planalto. "Até isso tiraram do PMDB'', brinca um comensal.
Ação... O PMDB dissidente, que emplacou Eduardo Braga (AM) na liderança do governo, reage à tentativa do Planalto de estimular a candidatura de Edison Lobão (Minas e Energia) à presidência do Senado em 2013.
... e reação Integrantes da ala pregam, ironicamente, a manutenção de José Sarney (AP), apesar de o regimento impedir a recondução. "Se é para colocar o genérico, melhor deixar o original".
Turno extra Brizola Neto (RJ) estava com um pé no Ministério do Trabalho, mas a divulgação prévia revoltou a bancada do PDT. Deputados dizem não ter sido consultados por Paulinho da Força (SP) e voltaram a defender Vieira da Cunha (RS).
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
tiroteio
Que beleza! Agora quem não pode ser votado, como diz a Lei da Ficha Limpa, vai poder votar? Decididamente, esse critério não faz o menor sentido.
DO DEPUTADO ESTADUAL CAMPOS MACHADO, presidente do PTB-SP, que prepara uma campanha nacional para mudar a Lei da Ficha Limpa e impedir que o eleitor ficha suja possa escolher seus representantes.
contraponto
Cabo eleitoral
Em seminário ontem na Assembleia paulista, o empresário Oded Grajew, da ONG Nossa São Paulo, cumprimentava os componentes da mesa que abordava práticas administrativas bem-sucedidas de planejamento urbano. Ao mencionar o prefeito de São Bernardo do Campo, disse:
-Queria saudar o governador Luiz Marinho...
O petista, que faz campanha pela reeleição e se queixa de ser citado nas listas de pré-candidatos ao governo paulista em 2014, interrompeu, em tom de brincadeira:
-Corrija isso. Você quer me criar problema?
O mundo paralelo da crise política - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 15/03/12
Parece haver uma crise na República de Brasília; há o risco de que o tumulto político chegue ao Brasil?
ENTENDIDOS EM política dizem que há uma crise política. O que seria tal crise? Qual a consequência?
Grupos vários no Congresso provocam e azucrinam Dilma Rousseff.
Bloqueiam votações, ameaçam derrubar leis e nomeações de interesse da presidente, boicotam e fritam a ministra encarregada de relações políticas (Ideli Salvatti), reclamam da "insensibilidade" da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffman.
Enfim, os povos do Congresso, nominalmente todos governistas, dizem que o modus operandi político de Dilma é "autoritário", "tecnocrático", "inábil" e "amador". A linha dura teria sido reforçada pelos novos líderes que Dilma indicou.
Vindas de onde vêm, as críticas são suspeitas ou desprezíveis, se tomadas pelo seu valor de face. Grosso modo, a "crise" e os ataques a Dilma não passam do rescaldo de ano e meio de disputas e demandas por cargos e verbas, que jamais pareceram tão desavergonhadas e audaciosas, até onde vai a memória dessas coisas, faz quase 30 anos.
O PMDB está ouriçado desde que foi meio chutado para escanteio, ainda na formação do ministério, no fim de 2010. O PT, no fim de sua decadência, encarna o peemedebismo, não reconhece em Dilma uma dos seus e dividiu-se em apenas facções de rapina de cargos.
O conflito interno criou rachaduras de onde vazam muitos dos escândalos que balançaram o governo -derrubada de ministros e de altos diretores de estatais.
Parece óbvio, mas convém ressaltar que tal "crise" se desenrola num ambiente em que o prestígio popular da presidente é alto e que as condições materiais de vida do povo comum jamais foram tão boas. Nem mesmo o PIBinho de 2011 tem efeito relevante, pois o consumo do cidadão continuou a crescer rápido.
Difícil imaginar, pois, como a "crise" possa transbordar para fora de Brasília (a não ser que atinja diretamente Dilma). A gente pode lembrar de "crises políticas" (ou "institucionais", como se exagerava) mais tensas e que deram em nada, mesmo num governo abalado por choques econômicos como o de FHC 2.
Os mais idosos lembrarão do duelo entre PMDB e PFL (então governistas, aliados dos tucanos), Jader Barbalho e ACM, no início do século, duelo de titanics que tumultuou a política por quase dois anos e lançou muita denúncia no ventilador.
ACM, para azucrinar FHC, começou até a fazer campanha por programas sociais e aumentos do salário mínimo, quanto então passou a ter a simpatia de petistas graúdos no Congresso, um vexame. Um ano depois, nada sobrara da "crise institucional", decerto atropelada pelas mui reais crises do apagão, da Argentina, da recessão nos EUA etc.
Pode-se dizer que o tumulto impede a aprovação de coisas importantes como o Código Florestal, o fundo de pensão dos servidores ou a lei do petróleo; que um Congresso assim pode escolher aventureiros para presidir suas Casas e aprovar rombos no Orçamento. Pode-se.
No fim das contas, o Congresso não costuma fazê-lo, até porque governo e o Parlamento enfim se arranjam favores. Além do mais, nem há muito mais projeto dilmiano importante no Congresso. Talvez deixar como está para ver como fica, deixar o fogo queimar, possa ser perigoso. Talvez, apenas. O assunto não chega a ser irrelevante, mas de qual crise se trata, mesmo?
Parece haver uma crise na República de Brasília; há o risco de que o tumulto político chegue ao Brasil?
ENTENDIDOS EM política dizem que há uma crise política. O que seria tal crise? Qual a consequência?
Grupos vários no Congresso provocam e azucrinam Dilma Rousseff.
Bloqueiam votações, ameaçam derrubar leis e nomeações de interesse da presidente, boicotam e fritam a ministra encarregada de relações políticas (Ideli Salvatti), reclamam da "insensibilidade" da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffman.
Enfim, os povos do Congresso, nominalmente todos governistas, dizem que o modus operandi político de Dilma é "autoritário", "tecnocrático", "inábil" e "amador". A linha dura teria sido reforçada pelos novos líderes que Dilma indicou.
Vindas de onde vêm, as críticas são suspeitas ou desprezíveis, se tomadas pelo seu valor de face. Grosso modo, a "crise" e os ataques a Dilma não passam do rescaldo de ano e meio de disputas e demandas por cargos e verbas, que jamais pareceram tão desavergonhadas e audaciosas, até onde vai a memória dessas coisas, faz quase 30 anos.
O PMDB está ouriçado desde que foi meio chutado para escanteio, ainda na formação do ministério, no fim de 2010. O PT, no fim de sua decadência, encarna o peemedebismo, não reconhece em Dilma uma dos seus e dividiu-se em apenas facções de rapina de cargos.
O conflito interno criou rachaduras de onde vazam muitos dos escândalos que balançaram o governo -derrubada de ministros e de altos diretores de estatais.
Parece óbvio, mas convém ressaltar que tal "crise" se desenrola num ambiente em que o prestígio popular da presidente é alto e que as condições materiais de vida do povo comum jamais foram tão boas. Nem mesmo o PIBinho de 2011 tem efeito relevante, pois o consumo do cidadão continuou a crescer rápido.
Difícil imaginar, pois, como a "crise" possa transbordar para fora de Brasília (a não ser que atinja diretamente Dilma). A gente pode lembrar de "crises políticas" (ou "institucionais", como se exagerava) mais tensas e que deram em nada, mesmo num governo abalado por choques econômicos como o de FHC 2.
Os mais idosos lembrarão do duelo entre PMDB e PFL (então governistas, aliados dos tucanos), Jader Barbalho e ACM, no início do século, duelo de titanics que tumultuou a política por quase dois anos e lançou muita denúncia no ventilador.
ACM, para azucrinar FHC, começou até a fazer campanha por programas sociais e aumentos do salário mínimo, quanto então passou a ter a simpatia de petistas graúdos no Congresso, um vexame. Um ano depois, nada sobrara da "crise institucional", decerto atropelada pelas mui reais crises do apagão, da Argentina, da recessão nos EUA etc.
Pode-se dizer que o tumulto impede a aprovação de coisas importantes como o Código Florestal, o fundo de pensão dos servidores ou a lei do petróleo; que um Congresso assim pode escolher aventureiros para presidir suas Casas e aprovar rombos no Orçamento. Pode-se.
No fim das contas, o Congresso não costuma fazê-lo, até porque governo e o Parlamento enfim se arranjam favores. Além do mais, nem há muito mais projeto dilmiano importante no Congresso. Talvez deixar como está para ver como fica, deixar o fogo queimar, possa ser perigoso. Talvez, apenas. O assunto não chega a ser irrelevante, mas de qual crise se trata, mesmo?
Presidencialismo de colisão - CRISTIAN KLEIN
VALOR ECONÔMICO - 15/03/12
Numa das cenas mais reveladoras do estilo exigente e autoritário de Margaret Thatcher, o filme "A Dama de Ferro", que concorreu ao Oscar deste ano, reproduz a reunião na qual a líder conservadora britânica dá um verdadeiro show e humilha seu mais antigo ministro, o de Relações Exteriores, Geoffrey Howe, que renuncia em seguida. O episódio ficou marcado como a gota d"água na quebra de confiança entre Thatcher e seus correligionários. Três semanas depois, sem sustentação, a Dama de Ferro sucumbiria e seria a sua vez de renunciar, pondo fim ao governo que representou o renascimento do liberalismo no mundo.
A presidente Dilma Rousseff não é de direita. Não é neoliberal. Mas parece insistir em se encaixar no perfil da Dama de Ferro. O pulso firme está no lugar do jogo de cintura. O triunfo da vontade supera a negociação. O mundo de raposas ao redor é ao mesmo tempo subestimado e desafiado. Seja pela necessidade de se impor ou pela certeza ilusória de que basta ter a caneta. Dilma parece não admitir ser contrariada.
A destituição dos líderes de governo, na Câmara e no Senado, é sua mais nova demonstração de força - embora não de liderança. Desde a posse, a presidente fez do medo praticamente a única estratégia para exercer autoridade. Em 14 meses, exonerou 12 ministros. Tem assustado e irritado os partidos e semeado o ressentimento. Em menos de 15 dias, demitiu o ministro da Pesca, Luiz Sérgio (PT-RJ), enquanto ele estava de férias; mandou embora o titular do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence (PT-BA), sem qualquer cerimônia; e livrou-se dos líderes do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), e no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), que foram pegos de surpresa.
Dilma vai para o enfrentamento. Mas abre a guarda
Dilma conseguiu demitir Jucá, cuja façanha é a de ter sobrevivido na mesma função desde Fernando Henrique Cardoso. Pôs fim à fama do "eterno líder do governo no Senado". Às turras com os caciques do PMDB, Dilma dá a impressão de que só não exonera o líder do partido, o vice-presidente da República, Michel Temer, porque não pode. Mas talvez não seja coincidência o fato de que, depois de longos 23 anos, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, tenha finalmente caído nesta semana. O cartola, protegido pelo ex-presidente Lula, não agradava a Dilma, ciosa dos rumos da organização da Copa de 2014, que pode afetar sua reeleição - caso queira ou tenha condições de disputá-la.
A presidente tem uma capacidade muito grande de dispensar. Por outro lado, não exibe a mesma para admitir. Até hoje ainda não encontrou os substitutos dos ministros dos Transportes (ejetado em julho) e do Trabalho (em dezembro). Só demora tanto a nomear os integrantes da polêmica Comissão da Verdade porque o cuidado exige. Não poderá demiti-los.
Dilma criou o que se poderia chamar, na falta de melhor expressão, de "presidencialismo de colisão" ou de demissão. Vai para o enfrentamento. E sua arma é a caneta. É o método preferido, uma vez que é notória a escassez de vocação ou gosto para a barganha política e o jogo parlamentar.
Lula armou a maior base aliada desde a redemocratização com lábia. Gastou saliva para construir a ampla coalizão. Dilma começa a desmanchá-la com a tinta que carrega. Lula era relativista. Sua socialização política deu-se nas negociações dos tempos de sindicato. Dilma é dogmática e formou-se na luta armada, na cartilha de uma vanguarda que acredita saber qual é a verdade.
A certeza pressupõe declaração de primazia. Foi intolerável para a presidente ver seu indicado, Bernardo Figueiredo, impedido de permanecer à frente da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e ser defenestrado pelos senadores. Afinal, é o método que Dilma considera seu. O Congresso - insatisfeito com uma relação penosa e o tratamento distante que lhe é conferido - mostrou que vai resistir.
A reação da presidente, ao trocar os líderes de governo, especialmente Jucá, um dos manda-chuvas do PMDB, significou um dos atos mais arriscados feitos por Dilma até agora. Resolveu falar mais alto e jogar no campo dos adversários, numa atitude que já vem sendo comparada a uma declaração de guerra.
É um movimento político, enquanto sua especialidade é a técnica, a gestão. Com Lula doente, Dilma precisa agir. Não pode consultar o antecessor a todo momento que uma crise se instala. Foi o que ocorreu no ano passado, com o mesmo PMDB, quando o ex-presidente precisou acudi-la e ir a Brasília para apagar o incêndio.
O fato de ter sido derrotada numa indicação de caráter pessoal - Dilma tem em Figueiredo um homem de confiança - provavelmente facilitou a tomada de decisão, com o fígado. Resta saber se a presidente se dará bem ao entrar em terreno desconhecido e enfrentar as artimanhas de políticos muito mais experientes do que ela. Dilma partiu para o ataque, mas abre sua guarda. A indicação de Jucá, pelo PMDB, para a Comissão Mista de Orçamento, com potencial de lhe atrapalhar, é só uma pequena amostra do que pode vir por aí.
Nada indica que as mudanças de Dilma farão sua relação com a base melhorar. Entre os 12 ministros que caíram, a "faxina ética" foi responsável pela derrubada de sete denunciados em escândalos de corrupção. A limpeza - necessária - criou um ambiente de desconfiança, temor e mágoa nos partidos, pela falta de tato da presidente. Mas diante da aceitação da opinião pública, o benefício foi maior que o custo. Não é o que acontece agora, numa sequência de demissões e nomeações desastradas. A escolha do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) para a Pesca foi entendida pela base como uso explícito da máquina para favorecer o PT na eleição em São Paulo. Por outro lado, as trocas em curso incomodam inclusive os petistas. Até para usar a caneta é preciso habilidade política. Sem ela, Dilma corre o risco de desintegrar a base para 2014. Ou os aliados toparão mais quatro anos de relação com uma Dama de Ferro?
Numa das cenas mais reveladoras do estilo exigente e autoritário de Margaret Thatcher, o filme "A Dama de Ferro", que concorreu ao Oscar deste ano, reproduz a reunião na qual a líder conservadora britânica dá um verdadeiro show e humilha seu mais antigo ministro, o de Relações Exteriores, Geoffrey Howe, que renuncia em seguida. O episódio ficou marcado como a gota d"água na quebra de confiança entre Thatcher e seus correligionários. Três semanas depois, sem sustentação, a Dama de Ferro sucumbiria e seria a sua vez de renunciar, pondo fim ao governo que representou o renascimento do liberalismo no mundo.
A presidente Dilma Rousseff não é de direita. Não é neoliberal. Mas parece insistir em se encaixar no perfil da Dama de Ferro. O pulso firme está no lugar do jogo de cintura. O triunfo da vontade supera a negociação. O mundo de raposas ao redor é ao mesmo tempo subestimado e desafiado. Seja pela necessidade de se impor ou pela certeza ilusória de que basta ter a caneta. Dilma parece não admitir ser contrariada.
A destituição dos líderes de governo, na Câmara e no Senado, é sua mais nova demonstração de força - embora não de liderança. Desde a posse, a presidente fez do medo praticamente a única estratégia para exercer autoridade. Em 14 meses, exonerou 12 ministros. Tem assustado e irritado os partidos e semeado o ressentimento. Em menos de 15 dias, demitiu o ministro da Pesca, Luiz Sérgio (PT-RJ), enquanto ele estava de férias; mandou embora o titular do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence (PT-BA), sem qualquer cerimônia; e livrou-se dos líderes do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), e no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), que foram pegos de surpresa.
Dilma vai para o enfrentamento. Mas abre a guarda
Dilma conseguiu demitir Jucá, cuja façanha é a de ter sobrevivido na mesma função desde Fernando Henrique Cardoso. Pôs fim à fama do "eterno líder do governo no Senado". Às turras com os caciques do PMDB, Dilma dá a impressão de que só não exonera o líder do partido, o vice-presidente da República, Michel Temer, porque não pode. Mas talvez não seja coincidência o fato de que, depois de longos 23 anos, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, tenha finalmente caído nesta semana. O cartola, protegido pelo ex-presidente Lula, não agradava a Dilma, ciosa dos rumos da organização da Copa de 2014, que pode afetar sua reeleição - caso queira ou tenha condições de disputá-la.
A presidente tem uma capacidade muito grande de dispensar. Por outro lado, não exibe a mesma para admitir. Até hoje ainda não encontrou os substitutos dos ministros dos Transportes (ejetado em julho) e do Trabalho (em dezembro). Só demora tanto a nomear os integrantes da polêmica Comissão da Verdade porque o cuidado exige. Não poderá demiti-los.
Dilma criou o que se poderia chamar, na falta de melhor expressão, de "presidencialismo de colisão" ou de demissão. Vai para o enfrentamento. E sua arma é a caneta. É o método preferido, uma vez que é notória a escassez de vocação ou gosto para a barganha política e o jogo parlamentar.
Lula armou a maior base aliada desde a redemocratização com lábia. Gastou saliva para construir a ampla coalizão. Dilma começa a desmanchá-la com a tinta que carrega. Lula era relativista. Sua socialização política deu-se nas negociações dos tempos de sindicato. Dilma é dogmática e formou-se na luta armada, na cartilha de uma vanguarda que acredita saber qual é a verdade.
A certeza pressupõe declaração de primazia. Foi intolerável para a presidente ver seu indicado, Bernardo Figueiredo, impedido de permanecer à frente da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e ser defenestrado pelos senadores. Afinal, é o método que Dilma considera seu. O Congresso - insatisfeito com uma relação penosa e o tratamento distante que lhe é conferido - mostrou que vai resistir.
A reação da presidente, ao trocar os líderes de governo, especialmente Jucá, um dos manda-chuvas do PMDB, significou um dos atos mais arriscados feitos por Dilma até agora. Resolveu falar mais alto e jogar no campo dos adversários, numa atitude que já vem sendo comparada a uma declaração de guerra.
É um movimento político, enquanto sua especialidade é a técnica, a gestão. Com Lula doente, Dilma precisa agir. Não pode consultar o antecessor a todo momento que uma crise se instala. Foi o que ocorreu no ano passado, com o mesmo PMDB, quando o ex-presidente precisou acudi-la e ir a Brasília para apagar o incêndio.
O fato de ter sido derrotada numa indicação de caráter pessoal - Dilma tem em Figueiredo um homem de confiança - provavelmente facilitou a tomada de decisão, com o fígado. Resta saber se a presidente se dará bem ao entrar em terreno desconhecido e enfrentar as artimanhas de políticos muito mais experientes do que ela. Dilma partiu para o ataque, mas abre sua guarda. A indicação de Jucá, pelo PMDB, para a Comissão Mista de Orçamento, com potencial de lhe atrapalhar, é só uma pequena amostra do que pode vir por aí.
Nada indica que as mudanças de Dilma farão sua relação com a base melhorar. Entre os 12 ministros que caíram, a "faxina ética" foi responsável pela derrubada de sete denunciados em escândalos de corrupção. A limpeza - necessária - criou um ambiente de desconfiança, temor e mágoa nos partidos, pela falta de tato da presidente. Mas diante da aceitação da opinião pública, o benefício foi maior que o custo. Não é o que acontece agora, numa sequência de demissões e nomeações desastradas. A escolha do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) para a Pesca foi entendida pela base como uso explícito da máquina para favorecer o PT na eleição em São Paulo. Por outro lado, as trocas em curso incomodam inclusive os petistas. Até para usar a caneta é preciso habilidade política. Sem ela, Dilma corre o risco de desintegrar a base para 2014. Ou os aliados toparão mais quatro anos de relação com uma Dama de Ferro?
Sobrou para o gavião - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 15/03/12
Algumas metáforas dizem mais do que os tratados. Uma dessas foi criada pelo ministro Guido Mantega, terça-feira, em depoimento na Comissão de Economia e Finanças do Senado.
Ele afirmou que às vezes atira no urubu e atinge também o gavião, querendo explicar com isso que certas decisões produzem consequência não prevista quando do seu planejamento.
Uma das verdades apontadas por essa metáfora parece ter escapado ao crivo do ministro: ele deve ser um dos poucos que gastam chumbo com urubu. Ou seja, algumas dessas medidas de política econômica são de utilidade duvidosa. Outra verdade - e não é preciso ser farmacólogo para saber disso - é que certos efeitos colaterais das medidas corretivas deste governo tendem a gerar mais estragos do que a cura pretendida.
O governo Dilma se queixa de ser vítima de efeitos colaterais. O mais notório deles foi denunciado há duas semanas por ela própria quando reclamou dos tsunamis de moeda estrangeira sobre o câmbio interno, provocados pelas políticas de farta emissão de moeda pelos grandes bancos centrais.
Mas a maioria dos desdobramentos de que lamenta o governo federal são fruto de suas próprias políticas. Um deles é o enfraquecimento da indústria nacional justamente quando mais se amplia o consumo de massas. Para impedir a disparada da inflação de demanda, o governo vem tolerando a rápida expansão das importações de manufaturados, em detrimento da indústria. E, depois, tenta remendar tudo com compensações de resultado cosmético, como as que tem tomado e voltou a prometer.
Outra consequência ruim da política de expansão do consumo de massas é seu impacto sobre os preços dos serviços, que sobem quase o dobro da inflação que, por sua vez, tende a enfraquecer a política monetária - porque reduz demais o juro real (o juro descontado da inflação).
A expansão acelerada do consumo provoca alargamento do rombo das contas externas (déficit em Conta Corrente), estimado em US$ 68 bilhões neste ano, o que precisa ser coberto com crescente entrada de capitais. No entanto, a forte taxação da entrada de moeda estrangeira, colocada em prática com objetivo de ajudar a desvalorização do real, pode dificultar a cobertura desse rombo.
Afora isso, essa mesma taxação, cuja intenção final é favorecer as exportações, acaba prejudicando o exportador ("acerta no gavião") - como o ministro admitiu - porque o empurra para a tomada de financiamentos de curto prazo, bem mais caros. Também quando exige ou mais conteúdo local da indústria ou que a Petrobrás contrate sondas e navios a estaleiros inexistentes, o governo aumenta ou os custos industriais ou da Petrobrás e lhes tira competitividade.
Aí está uma pequena lista de efeitos colaterais com os quais o governo vai se deparando. Há muitos outros. Mas o mais preocupante não é nem sequer o aparecimento dessas anomalias, mas a maneira como o governo lida com elas, sempre com novos remendos (as tais compensações). Assim, a política econômica se transforma em barafunda de artificialidades, cuja consequência é gerar novas distorções que, depois, complicam ainda mais a administração da economia.
Lula quis mudar a correção do piso - RIBAMAR OLIVEIRA
VALOR ECONÔMICO - 15/03/12
Por alguma razão, o ex-presidente preferiu não vetar a norma de reajuste previsto na lei 11.738, segundo a qual o piso deve ser atualizado utilizando-se o mesmo percentual de crescimento do valor anual mínimo a ser gasto por aluno da 1ª à 4ª série do ensino fundamental. Em vez de vetar, ele encaminhou o projeto de lei com a proposta de correção do piso pela variação do INPC e pediu urgência constitucional para a sua votação.
Quem acompanha o debate atual em torno do reajuste de 22,2% do piso salarial dos professores neste ano, precisa ler a exposição de motivos número 032, que acompanhou o Projeto de Lei 3.776. Nela, os então ministros interinos da Educação, José Henrique Paim Fernandes, e da Fazenda, Nelson Machado, advertiram Lula sobre o que aconteceria, no médio e longo prazo, se a regra de reajuste do piso prevista na lei 11.738 fosse mantida.
Governo avaliou que regra atual criaria sérios problemas
"O efeito da regra em vigor poderá acarretar uma elevação contínua da parcela correspondente aos gastos com a remuneração dos profissionais do magistério público nas despesas totais com educação básica, comprometendo no médio e longo prazo o financiamento de outros não menos importantes itens para a melhoria da qualidade da educação básica pública, tais como os dispêndios na manutenção e melhoria das instalações físicas das escolas, na aquisição de material de ensino, na universalização do uso da informática e do próprio aperfeiçoamento profissional dos professores", disseram os ministros na exposição de motivos.
Dito de uma forma mais direta: como os recursos para a educação não limitados, se as despesas com professores aumentarem muito, de forma continuada, faltará dinheiro para os demais investimentos na área, no médio e longo prazo. Lula concordou com essa argumentação e, tão logo sancionou a lei que criou o piso, encaminhou o projeto 3.776 à Câmara dos Deputados, alterando a forma de reajuste.
O projeto de Lula foi aprovado pelos deputados e enviado ao Senado, que alterou o texto e reintroduziu o critério de correção previsto na lei 11.738. O substitutivo aprovado no Senado retornou à Câmara em julho de 2010. No fim de novembro do ano passado, a Comissão de Finanças e Tributação aprovou, em caráter terminativo, o parecer do deputado José Guimarães (PT-CE), que rejeitou o substitutivo do Senado e preservou a proposta original de Lula.
O projeto original iria seguir para sanção da presidente Dilma Rousseff. Mas, no início de dezembro, a deputada Fátima Bezerra (PT-RN) apresentou recurso, subscrito por outros deputados, para que o parecer aprovado na Comissão de Finanças e Tributação fosse submetido ao plenário da Câmara. Com isso, o critério de correção previsto na lei 11.738 foi usado em 2012 e, agora, falta definir o destino da proposta de Lula.
O presidente da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski, diz que já está ocorrendo aquilo que os dois ministros do ex-presidente Lula previram. "A maioria das prefeituras já está gastando apenas com professores os recursos que são obrigadas a investir em educação", afirmou. "Não está sobrando nada para os outros investimentos na área." Ziulkoski lembrou que o piso é estendido aos professores inativos.
O piso de R$ 1.451 a ser pago este ano aos professores criou um outro problema aos prefeitos, segundo Ziulkoski. "Se eles pagarem o piso, irão descumprir o limite de 54% da receita corrente líquida para gastos com pessoal na área do executivo municipal, definido na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF)", disse. Os prefeitos estariam, portanto, no dilema de cumprir a lei 11.738 ou a LRF. Mantida a atual regra de correção, o presidente da CNM disse que o reajuste previsto para 2013 será de 21,8%.
O Supremo Tribunal Federal decidiu que o piso é apenas a remuneração básica e que as gratificações incidem sobre ele. Antes, o entendimento era de que o piso abrangia toda a remuneração do professor. O presidente da CNM explicou que essa decisão do Supremo criou um passivo a ser pago pelos municípios de cerca de R$ 15 bilhões, pois ela terá ser aplicada de forma retroativa.
Mas não é só o problema do reajuste do piso que preocupa os prefeitos. A lei 11.738 estabeleceu que 1/3 da carga horária do professor será para atividades fora da sala de aula. Esse dispositivo, segundo Ziulkoski, implicará a necessidade de contratação de cerca de 300 mil novos professores pelas prefeituras.
Não há dúvida de que a valorização da atividade do magistério deve ser uma prioridade nacional. Mas é preciso que ela seja compatível com o equilíbrio das contas públicas e não crie dificuldades insuperáveis para as administrações estaduais e municipais.
Caso deveria soar como ultimato para as lojas - MARIA INÊS DOLCI
FOLHA DE SP - 15/03/12
Mesmo depois de ações na Justiça, setor mantém práticas consideradas abusivas e pouco-caso com direito do cliente
Comprar pela internet deveria ser fácil, rápido, econômico e desburocratizado. Muitas vezes, contudo, falta o principal: a entrega do produto ou serviço adquirido, nas datas combinadas.
O Submarino, as Americanas.com e o Shoptime tomaram "um gancho" de três dias do Procon-SP por desrespeitar consumidores -depois suspenso pela Justiça.
O caso deveria soar como advertência à B2W, dona dessas lojas virtuais. Mas é pouco diante da prática abusiva reiterada por parte da empresa de comércio eletrônico.
Em 2011, o Ministério Público do Rio já havia pedido na Justiça a suspensão das vendas desses sites, até que fosse entregue tudo o que estava atrasado. Continuaram os abusos reiterados, com problemas na entrega e defeitos nos produtos.
Isso evidencia que a B2W pouco se importa com com a sua reputação, as suas marcas e os direitos dos clientes.
Uma ação civil pública da Promotoria do Rio contra a B2W foi ajuizada no mês passado em razão da empresa se recusar a recolher, consertar e trocar produtos defeituosos no prazo legal. A ação veio após três anos de negociações sem sucesso para assinatura de um acordo extrajudicial.
Qual a mensagem subliminar de um grupo que já havia sido suspenso no fim de 2011 e que volta a receber essa punição, pelas mesmas falhas? A de que não quer ou não pode atender as demandas de quem compra seus produtos.
Se houvesse bom-senso, a resposta deveria ser "reconhecemos e nos desculpamos pelos transtornos e informamos que tomaremos providências para que não se repitam". Seria o mínimo.
Em uma situação como essa, de persistência no erro, temos que fazer campanha para que os consumidores rejeitem tais fornecedores.
Três marcas tão conhecidas e que estão entre as pioneiras do ramo não deveriam estragar, em menos de dois anos, suas histórias de relacionamento com os clientes.
Reparar danos a uma marca poderia ser o 13º trabalho de Hércules, se o mítico herói grego vivesse nos dias atuais. Multiplicar tal tarefa por três parece ainda mais difícil, pois demoramos para confiar numa marca e deixamos de acreditar rapidamente em quem não faça jus ao nosso apreço e consideração.
Esse é um alerta que também vale para os sites de compras coletivas, que entopem as caixas de mensagens dos brasileiros, oferecem promoções fora do comum e decepções em massa.
Nada contra o comércio virtual, se funcionar bem. Sem enganações.
Mesmo depois de ações na Justiça, setor mantém práticas consideradas abusivas e pouco-caso com direito do cliente
Comprar pela internet deveria ser fácil, rápido, econômico e desburocratizado. Muitas vezes, contudo, falta o principal: a entrega do produto ou serviço adquirido, nas datas combinadas.
O Submarino, as Americanas.com e o Shoptime tomaram "um gancho" de três dias do Procon-SP por desrespeitar consumidores -depois suspenso pela Justiça.
O caso deveria soar como advertência à B2W, dona dessas lojas virtuais. Mas é pouco diante da prática abusiva reiterada por parte da empresa de comércio eletrônico.
Em 2011, o Ministério Público do Rio já havia pedido na Justiça a suspensão das vendas desses sites, até que fosse entregue tudo o que estava atrasado. Continuaram os abusos reiterados, com problemas na entrega e defeitos nos produtos.
Isso evidencia que a B2W pouco se importa com com a sua reputação, as suas marcas e os direitos dos clientes.
Uma ação civil pública da Promotoria do Rio contra a B2W foi ajuizada no mês passado em razão da empresa se recusar a recolher, consertar e trocar produtos defeituosos no prazo legal. A ação veio após três anos de negociações sem sucesso para assinatura de um acordo extrajudicial.
Qual a mensagem subliminar de um grupo que já havia sido suspenso no fim de 2011 e que volta a receber essa punição, pelas mesmas falhas? A de que não quer ou não pode atender as demandas de quem compra seus produtos.
Se houvesse bom-senso, a resposta deveria ser "reconhecemos e nos desculpamos pelos transtornos e informamos que tomaremos providências para que não se repitam". Seria o mínimo.
Em uma situação como essa, de persistência no erro, temos que fazer campanha para que os consumidores rejeitem tais fornecedores.
Três marcas tão conhecidas e que estão entre as pioneiras do ramo não deveriam estragar, em menos de dois anos, suas histórias de relacionamento com os clientes.
Reparar danos a uma marca poderia ser o 13º trabalho de Hércules, se o mítico herói grego vivesse nos dias atuais. Multiplicar tal tarefa por três parece ainda mais difícil, pois demoramos para confiar numa marca e deixamos de acreditar rapidamente em quem não faça jus ao nosso apreço e consideração.
Esse é um alerta que também vale para os sites de compras coletivas, que entopem as caixas de mensagens dos brasileiros, oferecem promoções fora do comum e decepções em massa.
Nada contra o comércio virtual, se funcionar bem. Sem enganações.
Poupança em xeque - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 15/03/12
Queda da taxa Selic pressiona governo a rever remuneração da caderneta, mas mudança precisa ser bem explicada e feita de forma paulatina
O tabelamento da taxa que remunera aplicações na caderneta de poupança foi até bem pouco tempo uma extravagância tolerada. Distorções maiores, como juros básicos exorbitantes, o relegavam à condição de problema menor.
Quanto mais progresso houver na economia brasileira, porém, mais saliente será o empecilho representado pela regra atual da poupança. Os juros da caderneta em breve podem prejudicar os efeitos benéficos da queda da taxa de juros básica da economia (Selic).
A fim de realizar seus negócios, as instituições financeiras captam recursos no mercado. Caso a remuneração da poupança permaneça tabelada, não teriam como tomar recursos a uma taxa inferior à da caderneta, ainda que os juros básicos da economia fossem baixos.
Portanto, o custo dos empréstimos para os clientes dos bancos permaneceria alto. A remuneração da caderneta tornar-se-ia, assim, um piso para os juros no país.
Um outro problema seria a distorção do emprego dos fundos levantados pelos bancos. As instituições financeiras devem aplicar 65% dos depósitos da poupança em crédito imobiliário. A canalização excessiva de investimentos para a poupança, com o atrativo de juros altos demais, tornaria escassos os fundos para outros fins.
Distorção adicional: a rentabilidade da poupança tenderia a desviar recursos dos fundos de investimento oferecidos pelos bancos.
Em sua maioria, os recursos dos fundos são aplicados em títulos da dívida pública. Ou seja, bancos e seus fundos são só intermediários de empréstimos do público para o governo. Fundos com alto custo de administração já rendem menos que os 7,1% anuais da caderneta, isenta de tributos e taxas, e com isso perdem investidores.
Na hipótese ainda distante de uma migração maciça dos fundos para a poupança, haveria menos recursos para financiar a dívida pública. Isso poderia criar instabilidades que acabariam por ameaçar a própria queda dos juros básicos.
O governo argumenta que a mudança na poupança não é urgente -argumento em parte aceitável, de outra parte derivado do desejo de evitar comoção popular em ano eleitoral. A taxa de referência Selic, diz o governo, ainda não seria baixa o suficiente para tornar indigesta a maioria dos fundos que investem em títulos públicos. Além disso, o perfil do investidor da poupança seria "popular" (com poucos recursos e mal informado).
Em suma, a tese do governo deixa de lado o problema de fundo: a remuneração tabelada da poupança tende a se tornar um piso para as taxas de juros, ainda que a tendência da Selic seja de queda.
O governo ainda tem tempo para fazer uma mudança que respeite contratos e seja bem explicada e paulatina. Trata-se de remunerar a caderneta por uma taxa atrelada à variação da Selic, regra que valeria só para os novos depósitos. Uma proposta razoável, mas que o Planalto hesita em lançar na praça.
Queda da taxa Selic pressiona governo a rever remuneração da caderneta, mas mudança precisa ser bem explicada e feita de forma paulatina
O tabelamento da taxa que remunera aplicações na caderneta de poupança foi até bem pouco tempo uma extravagância tolerada. Distorções maiores, como juros básicos exorbitantes, o relegavam à condição de problema menor.
Quanto mais progresso houver na economia brasileira, porém, mais saliente será o empecilho representado pela regra atual da poupança. Os juros da caderneta em breve podem prejudicar os efeitos benéficos da queda da taxa de juros básica da economia (Selic).
A fim de realizar seus negócios, as instituições financeiras captam recursos no mercado. Caso a remuneração da poupança permaneça tabelada, não teriam como tomar recursos a uma taxa inferior à da caderneta, ainda que os juros básicos da economia fossem baixos.
Portanto, o custo dos empréstimos para os clientes dos bancos permaneceria alto. A remuneração da caderneta tornar-se-ia, assim, um piso para os juros no país.
Um outro problema seria a distorção do emprego dos fundos levantados pelos bancos. As instituições financeiras devem aplicar 65% dos depósitos da poupança em crédito imobiliário. A canalização excessiva de investimentos para a poupança, com o atrativo de juros altos demais, tornaria escassos os fundos para outros fins.
Distorção adicional: a rentabilidade da poupança tenderia a desviar recursos dos fundos de investimento oferecidos pelos bancos.
Em sua maioria, os recursos dos fundos são aplicados em títulos da dívida pública. Ou seja, bancos e seus fundos são só intermediários de empréstimos do público para o governo. Fundos com alto custo de administração já rendem menos que os 7,1% anuais da caderneta, isenta de tributos e taxas, e com isso perdem investidores.
Na hipótese ainda distante de uma migração maciça dos fundos para a poupança, haveria menos recursos para financiar a dívida pública. Isso poderia criar instabilidades que acabariam por ameaçar a própria queda dos juros básicos.
O governo argumenta que a mudança na poupança não é urgente -argumento em parte aceitável, de outra parte derivado do desejo de evitar comoção popular em ano eleitoral. A taxa de referência Selic, diz o governo, ainda não seria baixa o suficiente para tornar indigesta a maioria dos fundos que investem em títulos públicos. Além disso, o perfil do investidor da poupança seria "popular" (com poucos recursos e mal informado).
Em suma, a tese do governo deixa de lado o problema de fundo: a remuneração tabelada da poupança tende a se tornar um piso para as taxas de juros, ainda que a tendência da Selic seja de queda.
O governo ainda tem tempo para fazer uma mudança que respeite contratos e seja bem explicada e paulatina. Trata-se de remunerar a caderneta por uma taxa atrelada à variação da Selic, regra que valeria só para os novos depósitos. Uma proposta razoável, mas que o Planalto hesita em lançar na praça.
CLAUDIO HUMBERTO
“No nosso governo, não há criminalização das causas sociais”
Novo ministro Pepe Vargas (Desenvolvimento Agrário), petista que é aliado do MST
DILMA QUER DEFINIR O PRESIDENTE DO SENADO
Como se não bastasse a troca atabalhoada dos líderes do governo, a presidente Dilma resolveu tomar decisões da política interna do Legislativo, influindo na eleição do presidente do Senado. Ela disse ao novo líder, Eduardo Braga, que prefere o ministro e senador Edison Lobão (PMDB-AM) substituindo José Sarney na presidência. Em tom de fofoca, Braga logo contou a novidade aos principais interessados, causando estupefação: Renan Calheiros é pré-candidato do PMDB.
DE VOLTA AO ESTADO
Dilma disse ao líder do governo, segundo ele relatou a senadores, que Renan Calheiros seria “um ótimo candidato a governador de Alagoas”.
BOLAS TROCADAS
A presidente trocou as bolas, porque o projeto de Edison Lobão é disputar o governo do Maranhão, e o de Calheiros é presidir o Senado.
BATENDO CHAPA
O líder de um partido governista fez as contas e concluiu: “Renan tem votos para vencer qualquer candidato preferido por Dilma”.
É MORCEGO
Um senador do PMDB definiu a troca de líder do governo na Casa: “Dilma quis fazer um beija-flor, mas acabou produzindo um morcego”.
DILMA REJEITOU CINCO INDICAÇÕES E PR ROMPEU
O novo líder do governo no Senado, Eduardo Braga, experimentou o primeiro fracasso: sete senadores do PR romperam com o governo. O PR decidiu isso após Dilma recusar os cinco nomes sugeridos para o cargo de ministro dos Transportes: o presidente do PR-BA, Cezar Borges, e os deputados Wellington Fagundes (MT), Luciano Castro (RR) e Milton Monti (SP) e o vereador paulistano Antonio Carlos Rodrigues.
GOTA D’ÁGUA
Líder do governo, Eduardo Braga é inimigo do ex-ministro Alfredo Nascimento (PR-AM), e sua escolha foi decisiva no rompimento.
NO BALCÃO
O líder do PR, Lincoln Portela (MG), diz que o partido continuará “independente” na Câmara: “O diálogo está aberto com o governo”.
CABRA DE FÉ
Eleito ontem presidente, o ministro Carlos Ayres Britto é o único nordestino no Supremo Tribunal Federal. Assumirá em 19 de abril.
CHUMBO TROCADO
O Brasil começou antes do prazo a reciprocidade com espanhóis. Um deles contou ao jornal La Vanguardia que foi “mal tratado” e barrado em São Paulo: exigiram visto de trabalho para participar de uma feira. O jornal teme uma “barreira” contra jovens buscando emprego no País.
TRAPALHONA IRADA
Dilma ficou uma arara com as críticas à sua inabilidade na troca de líderes. Preocupada com a trapalhada, ficou de cara amarrada durante a posse de Pepe Vargas (Desenvolvimento Agrário).
AGORA É TARDE
Dilma só soube ontem que, à exceção de Renan Calheiros e Romero Jucá, um único senador poderia pacificar a base aliada: Waldemir Moka (MS). Tem bom trânsito nas duas alas do PMDB, no PT e na oposição.
REPETECO
O governo do DF soube que a Polícia Civil do governo tucano de MG tenta envolver o governador petista Agnelo Queiroz em favorecimento de laboratório farmacêutico, quando foi diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A Anvisa já investigou e descartou a acusação.
SACRIFÍCIO FAMILIAR
Após a posse, caiu a ficha e Pepe Vargas confessou a tristeza: agora não poderá visitar toda semana a sua cidade, Caxias do Sul (RS), onde permanecerão mulher e filha.
ELE TEM A FORÇA
O voo 6225 Salvador-Brasília, das 9h de ontem, atrasou quase 1 hora, com a Avianca procurando passageiro para trocar com o governador Jaques Wagner (PT-BA), que precisava embarcar. Wagner entrou no avião debaixo de uma grande vaia e desembarcou correndo no DF.
JUSTIÇA DE PIJAMA
Punido com aposentadoria compulsória pelo Conselho Nacional de Justiça, o ex-desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro Roberto Wider desistiu de recorrer. Vai curtir a aposentadoria em paz.
MÃO AMIGA
O Brasil doou US$ 50 mil para reconstruir a cidade de Biser, na Bulgária, assolada por uma enchente que matou dez pessoas, mês passado. O pai de Dilma era búlgaro, e ela visitou o país, em 2011.
PERGUNTA PROIBIDA
Depois dos cigarros “com sabor”, a Anvisa também vai proibir parlamentares de viajar em jatinhos dos planos de saúde?
PODER SEM PUDOR
O LOBBY DOS ENFORCADOS
Em 1988, uma comitiva do Ministério da Indústria e Comércio tentava com o governo Saddam Hussein quitar dívidas de US$ 2 bilhões com empresas brasileiras, entre elas a Mendes Júnior. Ressabiado, o deputado da extinta Arena Israel Pinheiro avisou ao ministro Roberto Cardoso Alves:
– O pessoal do Saddam quer saber mais do “contrato dos enforcados”.
Pergunta daqui, pergunta dali, “Robertão” matou a charada: Saddam mandou enforcar funcionários iraquianos subornados pelos brasileiros.
Novo ministro Pepe Vargas (Desenvolvimento Agrário), petista que é aliado do MST
DILMA QUER DEFINIR O PRESIDENTE DO SENADO
Como se não bastasse a troca atabalhoada dos líderes do governo, a presidente Dilma resolveu tomar decisões da política interna do Legislativo, influindo na eleição do presidente do Senado. Ela disse ao novo líder, Eduardo Braga, que prefere o ministro e senador Edison Lobão (PMDB-AM) substituindo José Sarney na presidência. Em tom de fofoca, Braga logo contou a novidade aos principais interessados, causando estupefação: Renan Calheiros é pré-candidato do PMDB.
DE VOLTA AO ESTADO
Dilma disse ao líder do governo, segundo ele relatou a senadores, que Renan Calheiros seria “um ótimo candidato a governador de Alagoas”.
BOLAS TROCADAS
A presidente trocou as bolas, porque o projeto de Edison Lobão é disputar o governo do Maranhão, e o de Calheiros é presidir o Senado.
BATENDO CHAPA
O líder de um partido governista fez as contas e concluiu: “Renan tem votos para vencer qualquer candidato preferido por Dilma”.
É MORCEGO
Um senador do PMDB definiu a troca de líder do governo na Casa: “Dilma quis fazer um beija-flor, mas acabou produzindo um morcego”.
DILMA REJEITOU CINCO INDICAÇÕES E PR ROMPEU
O novo líder do governo no Senado, Eduardo Braga, experimentou o primeiro fracasso: sete senadores do PR romperam com o governo. O PR decidiu isso após Dilma recusar os cinco nomes sugeridos para o cargo de ministro dos Transportes: o presidente do PR-BA, Cezar Borges, e os deputados Wellington Fagundes (MT), Luciano Castro (RR) e Milton Monti (SP) e o vereador paulistano Antonio Carlos Rodrigues.
GOTA D’ÁGUA
Líder do governo, Eduardo Braga é inimigo do ex-ministro Alfredo Nascimento (PR-AM), e sua escolha foi decisiva no rompimento.
NO BALCÃO
O líder do PR, Lincoln Portela (MG), diz que o partido continuará “independente” na Câmara: “O diálogo está aberto com o governo”.
CABRA DE FÉ
Eleito ontem presidente, o ministro Carlos Ayres Britto é o único nordestino no Supremo Tribunal Federal. Assumirá em 19 de abril.
CHUMBO TROCADO
O Brasil começou antes do prazo a reciprocidade com espanhóis. Um deles contou ao jornal La Vanguardia que foi “mal tratado” e barrado em São Paulo: exigiram visto de trabalho para participar de uma feira. O jornal teme uma “barreira” contra jovens buscando emprego no País.
TRAPALHONA IRADA
Dilma ficou uma arara com as críticas à sua inabilidade na troca de líderes. Preocupada com a trapalhada, ficou de cara amarrada durante a posse de Pepe Vargas (Desenvolvimento Agrário).
AGORA É TARDE
Dilma só soube ontem que, à exceção de Renan Calheiros e Romero Jucá, um único senador poderia pacificar a base aliada: Waldemir Moka (MS). Tem bom trânsito nas duas alas do PMDB, no PT e na oposição.
REPETECO
O governo do DF soube que a Polícia Civil do governo tucano de MG tenta envolver o governador petista Agnelo Queiroz em favorecimento de laboratório farmacêutico, quando foi diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A Anvisa já investigou e descartou a acusação.
SACRIFÍCIO FAMILIAR
Após a posse, caiu a ficha e Pepe Vargas confessou a tristeza: agora não poderá visitar toda semana a sua cidade, Caxias do Sul (RS), onde permanecerão mulher e filha.
ELE TEM A FORÇA
O voo 6225 Salvador-Brasília, das 9h de ontem, atrasou quase 1 hora, com a Avianca procurando passageiro para trocar com o governador Jaques Wagner (PT-BA), que precisava embarcar. Wagner entrou no avião debaixo de uma grande vaia e desembarcou correndo no DF.
JUSTIÇA DE PIJAMA
Punido com aposentadoria compulsória pelo Conselho Nacional de Justiça, o ex-desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro Roberto Wider desistiu de recorrer. Vai curtir a aposentadoria em paz.
MÃO AMIGA
O Brasil doou US$ 50 mil para reconstruir a cidade de Biser, na Bulgária, assolada por uma enchente que matou dez pessoas, mês passado. O pai de Dilma era búlgaro, e ela visitou o país, em 2011.
PERGUNTA PROIBIDA
Depois dos cigarros “com sabor”, a Anvisa também vai proibir parlamentares de viajar em jatinhos dos planos de saúde?
PODER SEM PUDOR
O LOBBY DOS ENFORCADOS
Em 1988, uma comitiva do Ministério da Indústria e Comércio tentava com o governo Saddam Hussein quitar dívidas de US$ 2 bilhões com empresas brasileiras, entre elas a Mendes Júnior. Ressabiado, o deputado da extinta Arena Israel Pinheiro avisou ao ministro Roberto Cardoso Alves:
– O pessoal do Saddam quer saber mais do “contrato dos enforcados”.
Pergunta daqui, pergunta dali, “Robertão” matou a charada: Saddam mandou enforcar funcionários iraquianos subornados pelos brasileiros.
QUINTA NOS JORNAIS
- Globo: Partidos se unem para liberar candidatos com ‘conta suja’
- Folha: Governo cede à base e aceita veto a bebida na Copa-2014
- Estadão: Após troca de líderes, Dilma perde apoio do PR no Senado
- Correio: Carta aberta à Unesco
- Valor: IOF já afeta fluxo cambial e custo de exportador sobe
- Jornal do Commercio: Luta contra o crack terá nova ofensiva
- Zero Hora: Porto Alegre, 14 de março: 66 mm
quarta-feira, março 14, 2012
Dilma em campo - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 14/03/12
Dilma já esperava a renúncia de Ricardo Teixeira desde outubro, quando esteve na Bélgica com Jerome Valcke, secretário-geral da Fifa.
Valcke contou que as investigações na Fifa contra Teixeira deixariam a situação do então presidente da CBF “insustentável”, e pediu à presidente que indicasse o sucessor.
Mas...
Segundo o relato de uma testemunha, Dilma sentiu cheiro de armadilha no ar e respondeu:
— Este é um problema privado, não público. Vocês se resolvam entre vocês.
Aliás...
Como se sabe, sexta agora, Dilma recebe Joseph Blatter, presidente da Fifa.
Samba do Paes
Noca da Portela compõe um jingle para a campanha de Eduardo Paes à reeleição.
A vida na planície
Segunda à noite, por volta de 20h30m, enquanto a jiripoca piava em Brasília, com o afastamento de Romero Jucá da liderança do governo, o ex-ministro Luiz Sérgio caminhava só pela orla do Leblon, com camisa da seleção.
No mais
Alguma coisa se move quando Dilma dispensa os serviços de Romero Jucá.
Jucá ocupava o posto desde FH. Nos tempos bíblicos, poderia ter sido servil tanto a Davi como a Golias. É um político típico do Brasil: sem ideias, assexuado ideologicamente e vive do toma lá dá cá.
Crise de melancolia
De Hugo Chávez, ontem, no Twitter, filosofando sobre sua doença e a de Lula:
— Um dia, eu caminhava com Lula, e ele me perguntou por Fidel. Eu disse que estava bem. Lula, então, disse, desviando o olhar: “É o último gigante...”
O PALÁCIO TIRADENTES, sede da Assembleia do Rio, deve perder sua função atual para abrigar o Museu da Democracia. A imponente construção de estilo eclético — erguida em 1922 no lugar do velho Parlamento Imperial, de 1640 — passaria a receber sessões só nas posses e em recepções solenes. No mais, ficaria aberta à visitação. O projeto é parte da demolição do prédio anexo, onde ficam os gabinetes dos deputados. Segundo Paulo Mello, presidente da Casa, com o fim do anexo, o plenário e os gabinetes devem ir mesmo para a Bolsa de Valores, ali perto, como saiu aqui ontem. Mello conta que já foi até iniciado um “processo de desapropriação da Bolsa pelo valor de mercado”. A ideia é recuperar o palácio original. “Inclusive o subsolo, para deixá-lo como era no tempo da Cadeia Velha, que ocupava o primeiro piso do Parlamento Imperial e onde ficou preso Tiradentes”, diz Mello. Vamos torcer, vamos cobrar
Jorge e Zélia
Salvador vai ganhar uma estátua em tamanho natural de Jorge Amado e Zélia Gattai, juntos, sentados no banco onde namoravam, com o cachorro do casal ao lado.
É esculpida pelo artista plástico Tatti Moreno.
Sabe o Mário?
O Arquivo Nacional, no Rio, vai montar uma exposição sobre Mário Lago.
A festa de abertura, dia 26, será com... roda de samba comandada pelo curador, Mariozinho Lago, filho do grande brasileiro (1911-2002). A mostra só será aberta ao público no dia seguinte, às 10h. Vai até 24 de maio.
Novo ramo
Carlos Alberto Parreira, o técnico boa-praça, abriu com três sócios uma importadora e exportadora de mercadorias de todos os tamanhos.
Alô, Padilha!
O Hospital Mário Kröeff, no Rio, que cuida de gente pobre com câncer, corre risco de suspender algumas atividades, caso o SUS não pague sua dívida, hoje em uns R$ 2,4 milhões.
O último pagamento foi dia 16 de dezembro de 2011.
A defesa de Bruno
No processo em que foi condenado no Rio por “agressão e sequestro” de Eliza Samúdio, o ex-goleiro Bruno deixou de indicar um advogado e passou a ser representado por um defensor público, recurso usado por quem não pode pagar.
Pequeno príncipe
O Miss T Brasil, concurso de beleza com 28 travestis e transexuais brasileiras, ganhou patrocínio do governo fluminense.
A disputa, que começa em julho, no Rio, classificará a vencedora para o Miss Internacional Queen, na Tailândia.
Ponte Betinho
Domingo, com a ponte engarrafada, nossa Elba Rama-lho, para não se atrasar, chegou para cantar no Teatro Municipal de Niterói... de barca.
A volta do Paissandu
A prefeitura do Rio autorizou a produtora de Léo Feijó a captar R$ 687.750 para reabrir o cinema Paissandu.
Pobre menino rico
Veja como está a crise na Europa. No Rio, o príncipe Harry não se hospedou no inglês Copacabana Palace, que sempre recebe a corte, mas... no espanhol Windsor Atlântica, mais barato.
Poupou uns R$ 300 por dia.
Valcke contou que as investigações na Fifa contra Teixeira deixariam a situação do então presidente da CBF “insustentável”, e pediu à presidente que indicasse o sucessor.
Mas...
Segundo o relato de uma testemunha, Dilma sentiu cheiro de armadilha no ar e respondeu:
— Este é um problema privado, não público. Vocês se resolvam entre vocês.
Aliás...
Como se sabe, sexta agora, Dilma recebe Joseph Blatter, presidente da Fifa.
Samba do Paes
Noca da Portela compõe um jingle para a campanha de Eduardo Paes à reeleição.
A vida na planície
Segunda à noite, por volta de 20h30m, enquanto a jiripoca piava em Brasília, com o afastamento de Romero Jucá da liderança do governo, o ex-ministro Luiz Sérgio caminhava só pela orla do Leblon, com camisa da seleção.
No mais
Alguma coisa se move quando Dilma dispensa os serviços de Romero Jucá.
Jucá ocupava o posto desde FH. Nos tempos bíblicos, poderia ter sido servil tanto a Davi como a Golias. É um político típico do Brasil: sem ideias, assexuado ideologicamente e vive do toma lá dá cá.
Crise de melancolia
De Hugo Chávez, ontem, no Twitter, filosofando sobre sua doença e a de Lula:
— Um dia, eu caminhava com Lula, e ele me perguntou por Fidel. Eu disse que estava bem. Lula, então, disse, desviando o olhar: “É o último gigante...”
O PALÁCIO TIRADENTES, sede da Assembleia do Rio, deve perder sua função atual para abrigar o Museu da Democracia. A imponente construção de estilo eclético — erguida em 1922 no lugar do velho Parlamento Imperial, de 1640 — passaria a receber sessões só nas posses e em recepções solenes. No mais, ficaria aberta à visitação. O projeto é parte da demolição do prédio anexo, onde ficam os gabinetes dos deputados. Segundo Paulo Mello, presidente da Casa, com o fim do anexo, o plenário e os gabinetes devem ir mesmo para a Bolsa de Valores, ali perto, como saiu aqui ontem. Mello conta que já foi até iniciado um “processo de desapropriação da Bolsa pelo valor de mercado”. A ideia é recuperar o palácio original. “Inclusive o subsolo, para deixá-lo como era no tempo da Cadeia Velha, que ocupava o primeiro piso do Parlamento Imperial e onde ficou preso Tiradentes”, diz Mello. Vamos torcer, vamos cobrar
Jorge e Zélia
Salvador vai ganhar uma estátua em tamanho natural de Jorge Amado e Zélia Gattai, juntos, sentados no banco onde namoravam, com o cachorro do casal ao lado.
É esculpida pelo artista plástico Tatti Moreno.
Sabe o Mário?
O Arquivo Nacional, no Rio, vai montar uma exposição sobre Mário Lago.
A festa de abertura, dia 26, será com... roda de samba comandada pelo curador, Mariozinho Lago, filho do grande brasileiro (1911-2002). A mostra só será aberta ao público no dia seguinte, às 10h. Vai até 24 de maio.
Novo ramo
Carlos Alberto Parreira, o técnico boa-praça, abriu com três sócios uma importadora e exportadora de mercadorias de todos os tamanhos.
Alô, Padilha!
O Hospital Mário Kröeff, no Rio, que cuida de gente pobre com câncer, corre risco de suspender algumas atividades, caso o SUS não pague sua dívida, hoje em uns R$ 2,4 milhões.
O último pagamento foi dia 16 de dezembro de 2011.
A defesa de Bruno
No processo em que foi condenado no Rio por “agressão e sequestro” de Eliza Samúdio, o ex-goleiro Bruno deixou de indicar um advogado e passou a ser representado por um defensor público, recurso usado por quem não pode pagar.
Pequeno príncipe
O Miss T Brasil, concurso de beleza com 28 travestis e transexuais brasileiras, ganhou patrocínio do governo fluminense.
A disputa, que começa em julho, no Rio, classificará a vencedora para o Miss Internacional Queen, na Tailândia.
Ponte Betinho
Domingo, com a ponte engarrafada, nossa Elba Rama-lho, para não se atrasar, chegou para cantar no Teatro Municipal de Niterói... de barca.
A volta do Paissandu
A prefeitura do Rio autorizou a produtora de Léo Feijó a captar R$ 687.750 para reabrir o cinema Paissandu.
Pobre menino rico
Veja como está a crise na Europa. No Rio, o príncipe Harry não se hospedou no inglês Copacabana Palace, que sempre recebe a corte, mas... no espanhol Windsor Atlântica, mais barato.
Poupou uns R$ 300 por dia.
Felizes por nada - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 14/03/12
Quando me perguntam a que atribuo o fato de minha última coletânea de crônicas estar há 32 semanas na lista dos mais vendidos, não me ocorre outra resposta: só pode ser por causa do título, já que o conteúdo é semelhante às coletâneas anteriores.
No entanto, nenhuma teve uma receptividade tão calorosa quanto Feliz por Nada, um livro que traz textos sobre as triviais situações do cotidiano, e não sobre a “Felicidade” aquela, com maiúscula e traje de gala. Como se explica?
Surgiu uma pista: foi divulgado, semana passada, o resultado de uma pesquisa que revela que o Brasil é o campeão mundial de felicidade. Mundial! As entrevistas devem ter sido feitas numa época do ano diferente da que estamos, pois quem consegue ser tão feliz prestes a entregar a declaração do imposto de renda? Pagamos os tubos para o governo, que gentilmente retribui nos dando uma banana. Os que buscam saúde de qualidade, educação de qualidade e segurança de qualidade têm que pagar por fora.
Os pedágios seguem altos. Tudo é caro: roupa, alimento, remédio, transporte. Aeroportos não dão conta do movimento, criminosos são soltos por falta de espaço nas prisões, o trânsito nas grandes cidades está estrangulado, o tráfico de drogas acontece a céu aberto. Nem precisamos perguntar para onde vão os bilhões que o governo arrecada e que deveriam ser reinvestidos no país. Vão para o mesmo lugar aonde vai nosso voto: para o bolso dos sem-escrúpulos.
Logo, somos realmente felizes por nada. Se não temos a bravura de nos mobilizarmos, ao menos nos sobra capacidade de extrairmos alegria de todo o resto: desde os gols do Neymar até uma receita nova de panqueca. Não deixa de ser um estágio existencial avançado – em vez de um povo frustrado por não ter a casa própria, o vestido de grife ou o iPad recém-lançado, as pessoas curtem a floreira embaixo da sua janela, o café da manhã com o namorado, o último capítulo da novela, o primeiro desenho que o filho fez na escola.
A notícia é boa, mas também é ruim: tudo indica que estamos valorizando as pequenas delicadezas que a rotina oferece com fartura, o que explica não nos importarmos tanto por sermos roubados e por vivermos sitiados dentro de edifícios gradeados.
Faço parte do time que acredita que ficar em casa lendo um livro ou se reunir com amigos para tomar um vinho equivale a uma festa a rigor (na verdade, considero melhor que uma festa a rigor). Individualmente, a simplicidade é uma forma saudável de levar a vida, é o que defendo. Mas quando uma nação inteira se revela satisfeita com merrecas, sem ter o básico garantido, alto lá. Consagrar o Brasil como campeão mundial de felicidade é passar atestado da nossa alienação e do nosso desinteresse pelo futuro. Seria mais decente nos emburrarmos um pouco.
Quando me perguntam a que atribuo o fato de minha última coletânea de crônicas estar há 32 semanas na lista dos mais vendidos, não me ocorre outra resposta: só pode ser por causa do título, já que o conteúdo é semelhante às coletâneas anteriores.
No entanto, nenhuma teve uma receptividade tão calorosa quanto Feliz por Nada, um livro que traz textos sobre as triviais situações do cotidiano, e não sobre a “Felicidade” aquela, com maiúscula e traje de gala. Como se explica?
Surgiu uma pista: foi divulgado, semana passada, o resultado de uma pesquisa que revela que o Brasil é o campeão mundial de felicidade. Mundial! As entrevistas devem ter sido feitas numa época do ano diferente da que estamos, pois quem consegue ser tão feliz prestes a entregar a declaração do imposto de renda? Pagamos os tubos para o governo, que gentilmente retribui nos dando uma banana. Os que buscam saúde de qualidade, educação de qualidade e segurança de qualidade têm que pagar por fora.
Os pedágios seguem altos. Tudo é caro: roupa, alimento, remédio, transporte. Aeroportos não dão conta do movimento, criminosos são soltos por falta de espaço nas prisões, o trânsito nas grandes cidades está estrangulado, o tráfico de drogas acontece a céu aberto. Nem precisamos perguntar para onde vão os bilhões que o governo arrecada e que deveriam ser reinvestidos no país. Vão para o mesmo lugar aonde vai nosso voto: para o bolso dos sem-escrúpulos.
Logo, somos realmente felizes por nada. Se não temos a bravura de nos mobilizarmos, ao menos nos sobra capacidade de extrairmos alegria de todo o resto: desde os gols do Neymar até uma receita nova de panqueca. Não deixa de ser um estágio existencial avançado – em vez de um povo frustrado por não ter a casa própria, o vestido de grife ou o iPad recém-lançado, as pessoas curtem a floreira embaixo da sua janela, o café da manhã com o namorado, o último capítulo da novela, o primeiro desenho que o filho fez na escola.
A notícia é boa, mas também é ruim: tudo indica que estamos valorizando as pequenas delicadezas que a rotina oferece com fartura, o que explica não nos importarmos tanto por sermos roubados e por vivermos sitiados dentro de edifícios gradeados.
Faço parte do time que acredita que ficar em casa lendo um livro ou se reunir com amigos para tomar um vinho equivale a uma festa a rigor (na verdade, considero melhor que uma festa a rigor). Individualmente, a simplicidade é uma forma saudável de levar a vida, é o que defendo. Mas quando uma nação inteira se revela satisfeita com merrecas, sem ter o básico garantido, alto lá. Consagrar o Brasil como campeão mundial de felicidade é passar atestado da nossa alienação e do nosso desinteresse pelo futuro. Seria mais decente nos emburrarmos um pouco.
Novo eixo - DENISE ROTHENBURG
Correio Braziliense - 14/03/12
Há uma tentativa clara do governo de mudar o rumo gravitacional da política no Senado e também na Câmara. O problema será a reação de quem detém o poder. E assim, teremos pela frente um longo período de estica e puxa. Podem apostar
Assim que Dilma Rousseff saiu do Senado, onde recebeu o prêmio Bertha Lutz, uma roda de jornalistas começou a se formar em torno de Romero Jucá (PMDB-RR). Não deu tempo nem de o ex-líder do governo arrumar a gravata para as imagens da TV. Isso porque surgiu o sucessor, Eduardo Braga (PMDB-AM), atraindo a parafernália de microfones, focos de luz e câmeras. Da turma de TV, não sobrou ninguém em torno do antigo líder. A cena é emblemática para demonstrar a mudança do eixo gravitacional que a presidente Dilma Rousseff deseja empreender no parlamento.
Ao trocar os dois líderes — o do Senado e o da Câmara —, Dilma demonstra que deseja não só ampliar a interlocução no Legislativo, como cansaram de cobrar os próprios parlamentares. Ela quer ainda mudar o eixo gravitacional de seu governo. Algo como mudar o eixo de rotação do planeta da política. E isso, como na geologia, não é fácil.
Em qualquer artigo sobre o eixo de rotação da Terra, o leitor verá que esse movimento requer muita energia. Além disso, como o leitor pode pesquisar em vários sites, como silvestre.eng.br, "uma força realizada diretamente sobre o eixo não o inclina do modo esperado. O eixo forçado a se inclinar reage de uma forma surpreendente, tentando preservar sua orientação espacial anterior".
Por falar em preservar...
A indicação do senador Romero Jucá para relator do Orçamento de 2013, anunciada ontem por Renan Calheiros (PMDB-AL), é prova dessa reação, no sentido de tentar preservar a orientação espacial anterior. Prova de que teremos pela frente um período de turbulências: Dilma tentando levar o eixo de poder para outra banda e o grupo dominante da política nos últimos 20 anos querendo mantê-lo onde está. No meio dessa mudança na órbita dos planetas estão a montagem dos palanques para a eleição municipal, o Código Florestal, a votação dos royalties e dezenas de pedidos de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) congelados. Quanto ao Código Florestal, já há quem defenda junto ao Planalto deixar a votação para depois da Rio+20, de forma a evitar um confronto com os ambientalistas nesse clima pré-conferência sobre Desenvolvimento Sustentável.
Por falar em votações...
O Código Florestal será o primeiro grande teste de Arlindo Chinaglia (PT-SP) na Câmara, da mesma forma que a Fundação de Previdência do Servidor Público será o maior desafio de Eduardo Braga no Senado. Ele terá que mostrar que tem energia suficiente no partido e entre os aliados para segurar a força gravitacional onde a presidente Dilma deseja.
Da mesma forma que a presidente trabalha uma relação direta com o G-8 do PMDB no Senado, Dilma também dá demonstrações de que deseja ver o poder mais diluído na Câmara. Foi essa a primeira impressão de quem observou atentamente a forma como ela prestava atenção no discurso da vice-presidente da Casa, Rose de Freitas (PMDB-ES). De vez em quando, o presidente da Câmara, Marco Maia, puxava assunto e Dilma, com cara de poucos amigos, respondia de forma curta e, com o corpo virado na direção da tribuna do Senado, seguia olhando para a oradora. Depois, levantou-se e ficou esperando que Rose viesse abraçá-la. Foi o único discurso em que Dilma prestou atenção quase que o tempo todo. Para muitos, sinal de que não está descartada uma interlocução direta com a deputada. Se isso, entretanto, vai resultar em algum desdobramento na eleição para presidente da Câmara é outra história. Mas vale lembrar que Dilma jamais escondeu a sua preferência em trabalhar com as mulheres, consideradas mais sensíveis quando o assunto é políticas públicas.
Por falar em eleições...
Enquanto Dilma, PMDB e PT travam suas guerras por mudança de eixo, os reflexos dos poucos pontos que Fernando Haddad desfruta nas pesquisas de intenções de voto é uma mudança do eixo gravitacional do PT. Se antes o partido de Lula pressionava o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP) a sair da disputa para apoiar Haddad, hoje essa conversa mudou. Os petistas hoje trabalham no sentido inverso, para que Chalita se mantenha no jogo. Isso porque passaram a ter medo de que o ex-governador José Serra (PSDB) possa vencer no primeiro turno, caso não haja um candidato de centro para tirar alguns votos dos tucanos. É bom lembrar que foi assim em 2010 no estado de São Paulo. O governador Geraldo Alckmin venceu Aloizio Mercadante na primeira rodada.
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