terça-feira, março 13, 2012
Para reduzir juro, Selic precisa acabar - YOSHIAKI NAKANO
Valor Econômico - 13/03/12
A mudança na condução da política monetária que o Banco Central (BC) vem promovendo está criando as condições para reduzir a taxa de juros no Brasil, equalizando-a ao nível internacional. Se isto acontecer, sairemos de uma armadilha que trava o crescimento acelerado da economia brasileira há quase duas décadas.
A mudança promovida pelo Banco Central, particularmente com a histórica decisão de agosto do ano passado, já está formando a expectativa de redução na taxa Selic de forma que os agentes do mercado financeiro começam a considerar alternativas de investimento financeiro. Entretanto, a utilização pelo Banco Central como juro básico na condução da política monetária, a taxa Selic, a mesma taxa de juros que o Tesouro Nacional oferece para vender seus títulos, impedirá o surgimento destas alternativas de investimento. E, com isso, a taxa de juros não convergirá para o nível internacional. Há problemas conceituais que precisam ser corrigidos para que a taxa básica da economia brasileira seja reduzida. Para promover uma verdadeira revolução na economia brasileira basta mudar algumas regras operacionais do Banco Central e do Tesouro Nacional.
A taxa Selic é a taxa de juros que o Tesouro Nacional paga por seus títulos de dívida pública. Estes títulos devem remunerar um investimento financeiro de longo prazo e embutem algum risco e prêmio de liquidez. O Banco Central ao utilizar a taxa Selic para fazer política monetária, operações de mercado aberto ("overnight" e compromissadas), está pagando indevidamente este prêmio de risco e de liquidez que o Tesouro paga por seus títulos de longo prazo. O Banco Central, por ser emissor de moeda, não tem risco e também garante liquidez.
É loucura pagar taxa Selic de título de longo prazo no "overnight". Mais importante, em todo o mundo os bancos centrais operam no mercado de moeda (reservas bancárias), onde se transacionam as sobras de caixa. Sobras de caixa não são investimentos e a taxa de juros deve ser muito baixa. Hoje 1% ou menos nos países desenvolvidos e a política monetária depende muito mais da variação da taxa do que do nível em si.
Além disso, em regra, o Banco Central não deve operar no mercado de poupança, ou seja, de títulos de longo prazo, nem impor compulsórios elevados, pois não é banco de investimento nem deve financiar o Tesouro Nacional. No Brasil, o Banco Central, ao utilizar a taxa Selic, não permite que o mercado de títulos de longo prazo se desenvolva, pois captura a poupança nacional no "overnight" e funde os dois mercados onde opera, desloca a curva de juros para cima indevidamente, fazendo com que o nível da estrutura de taxa seja absurdamente elevada.
Os bancos para poderem operar têm que captar depósitos atrelados ao DI (igual à Selic) e pagar uma margem significativa. O mesmo com o mercado de capitais. Como poucos investimentos produtivos têm taxa de retorno maior do que estas taxas de juros, poucos no setor privado estão dispostos a emitir ativos financeiros e enfrentar um competidor como o BC.
Por que então o Banco Central do Brasil é o único no mundo que paga indevidamente estes prêmios e opera como monopsionista no mercado aberto, capturando a poupança nacional? As razões são históricas e herdadas do período de alta inflação.
No regime militar um Ato Institucional removia o limite de endividamento do governo e delegava a gestão da dívida pública para o Banco Central, o que era funcional para a execução do orçamento monetário. Assim, o Sistema Eletrônico de Liquidação e Custódia (Selic) ficava e fica ainda no Banco Central, mesmo depois da gestão da dívida pública voltar para o Tesouro Nacional em 1987. Quando a inflação disparou e toda a dívida pública era refinanciada diariamente no "overnight", a taxa do "overnight" era também a taxa de juros do título público. E nestas circunstâncias era funcional e reduzia o risco para os investidores e o custo da financiamento da dívida pública.
O problema é que o Plano Real interrompeu a inflação, utilizando da âncora cambial, mas manteve intacto todo o regime monetário do período de hiperinflação até hoje. E aquilo que era funcional no período de hiperinflação tornou-se extremamente danosa para a economia brasileira. Aquilo que reduzia o risco e o custo utilizando a taxa de juros do "overnight" para refinanciar a dívida pública se inverteu e a taxa de juros de longo prazo do título público que deve ser mais elevado passou a ser a taxa de juros do "overnight", contaminando todo o sistema bancário e mercado de capitais, tornando-se uma alavanca e elevando a estrutura de taxas de juros da economia brasileira.
A taxa Selic é taxa diária de juros de títulos que pagam esta taxa (Letras do Tesouro Nacional ou Letras do BC). Seus preços correspondem à capitalização desta taxa diária. Assim sendo, a variação da taxa não afeta seus preços. Isto tem duas consequências. Primeiro, o Banco Central opera com títulos que não têm risco de taxa de juros, contaminando todo o sistema financeiro. Segundo, a variação da taxa de juros neste caso perde a sua eficácia enquanto instrumento de política monetária, pois não afeta o preço dos ativos financeiros. Enquanto nos demais países os bancos e o sistema financeiro operam basicamente com taxas prefixadas, e qualquer elevação da taxa de juros impõe perdas aos detentores de ativos financeiros afetando o comportamento da oferta e demanda de crédito e da economia. No Brasil, precisamos de nível extremamente elevado para que o risco de crédito se torne muito elevado e os bancos racionem a oferta de crédito e daí ter efeitos sobre o comportamento da economia. Daí os juros estratosféricos.
Com a mudança no comportamento do Banco Central, tornando-se mais independente do setor financeiro, o firme comprometimento do governo Dilma em reduzir a taxa de juros, num quadro em que a produção industrial e a taxa de inflação está em queda, tornou-se crível. É o momento de iniciar a remoção destes entulhos do período de hiperinflação que tem condenado a economia brasileira a um crescimento medíocre. É preciso coragem e decisão, mas as resistências são muito menores pois os agentes do mercado financeiro já buscam ativos financeiros alternativos a Selic.
Força e dúvida - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 13/03/12
A economia do Japão retomou o crescimento, mas as sequelas do tsunami e do desastre nuclear de um ano atrás permanecerão por muito tempo. No mínimo, uma década. Eles despejaram US$ 300 bilhões na reconstrução e contaram com a capacidade japonesa de superação. No entanto, ainda há áreas que permanecerão contaminadas por décadas, 350 mil pessoas estão desalojadas, quebrou-se a confiança na energia nuclear e no fornecimento japonês.
Havia uma concentração excessiva do Japão no fornecimento de determinados equipamentos eletrônicos de alta tecnologia para toda a indústria, principalmente para a automobilística. São pequenas peças com poder de parar a produção. Foi o que aconteceu com as fábricas de automóveis no mundo inteiro. Hoje, qualquer produtor pensa duas vezes antes de concentrar todas as suas compras num único fornecedor japonês.
A Renesas Eletronics, em Nake, conseguiu um milagre de em três meses, com o trabalho incessante dos seus funcionários e voluntários, reerguer uma fábrica destruída. Mas até analistas japoneses admitem que há uma tendência à diversificação de compras de determinados clientes que antes dependiam unicamente do Japão.
Nesse ambiente de superação e desconfiança é que a economia japonesa se encontra um ano depois do pior terremoto da história recente e de um grave desastre nuclear. O terremoto, tsunami e desastre nuclear abalaram duas certezas que eram sempre proclamadas: de que o Japão é um dos fornecedores mais confiáveis do mundo e de que a indústria nuclear havia atingido um nível de desenvolvimento que a tornara segura e limpa.
O Japão continua com a melhor das reputações, claro, mas o fato de estar em área de terremotos e tsunamis aumenta seu nível de risco de não entregar o que promete. Não por culpa do país, mas por forças que nem sempre ele poderá controlar. A diversificação do fornecimento reduz o risco para quem compra, mas diminui as encomendas feitas ao Japão. Em relação à energia nuclear ficou claro que mesmo o país que tinha tudo para ter montado a maior proteção às usinas - por ter enfrentado uma tragédia nuclear no século XX - tinha falhas inaceitáveis na segurança. Por isso agora volta a ter vítimas de contaminação nuclear, 66 anos depois de Hiroshima.
Os japoneses se mobilizaram e em manifestações por todo o país deixaram claro que não querem um terceiro desastre como este, e por isso 52 das 54 usinas tiveram seu funcionamento suspenso. A capa da última revista "Economist" traz o seguinte título: "energia nuclear: o sonho que falhou." Eles fazem autocrítica: há 26 anos disseram que a energia nuclear era "tão segura quanto uma fábrica de chocolate" e um mês depois ocorreu Chernobyl, desastre do qual até agora não se sabe a dimensão das vítimas. Era numa ditadura, um país sem pressão da opinião pública, com controle burocrático opaco. Mas agora acontece um desastre num país desenvolvido, democrático e aberto. Há uma natural desconfiança.
Alguns ambientalistas tinham passado a defender a energia nuclear pela não emissão de gases de efeito estufa. Parte deles já mudou de ideia. É uma energia Limpa até o dia em que acontece uma grande tragédia. Certos países continuam defendendo essa fonte como confiável. Alguns por falta de opção, como a França, muito dependente dela. Outros duvidam mais uma vez, como a Alemanha. O efeito econômico de Fukushima continua presente em toda a indústria ligada à implantação de usinas nucleares.
A região de Fukushima recebeu muito socorro governamental, mas terá que continuar recebendo bilhões de dólares, segundo o jornal "Asahi Shimbum", para coisas como remover todo o solo contaminado do distrito. O jornal japonês diz que o Centro de Pesquisas de Física Nuclear da Universidade de Osaka trabalha com vários cenários sobre a descontaminação da área, mas "nenhum deles é bom". Segundo o jornal, "o que parece claro é que o nível de radiação continuará sendo um problema daqui a 30 anos".
Nesse tempo de lembrança de um ano da tragédia, os jornais estão ocupados com casos de pessoas, empresas e áreas do Japão que lutaram para superar o primeiro impacto. Mas há também muita queixa quanto ao ritmo mais lento do que se esperava de providências governamentais. Há muita tensão entre o Banco do Japão e o governo japonês sobre a política fiscal e monetária para reverter a situação. A produção de alimentos de áreas próximas ao desastre são rejeitadas por medo de contaminação. Ainda há muito efeito na economia. Os gastos do governo com a reconstrução pressionaram o já alto déficit público. Em 2010, as contas do governo fecharam no vermelho em 9,2% do PIB, reduzindo o percentual em relação a 2009. Mas em 2011 o déficit voltou a subir para 10,3%. A dívida japonesa é de 238% do PIB e as projeções do FMI apontam para uma alta a 253% até 2016.
Os números do PIB do Japão mostram um país resiliente. Depois do choque, fez da reconstrução a força propulsora para retomar o crescimento. O Japão tinha entrado em 2011 com chances de crescer mais forte, com a tragédia afundou na recessão, recomeçou a crescer milagrosamente no terceiro trimestre e tem boas perspectivas para 2012. O indicador do PIB é frio e não mostra todas as outras perdas mais sutis e permanentes, como a quebra da confiança do cliente, os efeitos da radiação, o medo, as dores familiares, a área que terá que ficar deserta por décadas num país de alta densidade demográfica. Do terremoto e tsunami eles se recuperariam rapidamente, porque são um povo forte e combativo. Da tragédia nuclear e seus desdobramentos, o processo é mais difícil e longo.
Compra de tempo - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 13/03/12
O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, tem dito que as operações de empréstimo de longo prazo (LTRO, na sigla em inglês) para bancos europeus a juros de 1% ao ano têm amplo e inequívoco sucesso.
Não é o que crê a presidente Dilma Rousseff, crítica dessa emissão de US$ 1 trilhão de euros em duas partes (em 27 de dezembro e 29 de fevereiro) e do "tsunami de liquidez" gerado no mundo, sobretudo nos países emergentes.
Draghi diz que o tsunami é só efeito colateral de importância secundária. Mede o sucesso dos megaempréstimos por dois critérios que se reforçam: (1) pela forte queda dos juros cobrados pelo mercado na rolagem das dívidas antigas dos países-membros do euro ou na colocação de dívida nova (veja gráfico); e (2) pelo desarme geral do ambiente de contágio. Ninguém mais teme pela quebra sistêmica dos bancos e não há mais o clima crônico de pânico de 2011, que deu espaço para relação de mais confiança.
Mas já espocam as primeiras críticas técnicas às operações LTRO. A primeira é que o BCE deu a bancos desiguais tratamento equivalente de crédito. Ou seja, deu aos praticamente quebrados as mesmas condições de empréstimo dadas aos sólidos. A segunda é ter aceitado colaterais (garantias) de baixa qualidade. E a terceira, a de desestimular bancos a se alimentarem da liquidez do próprio mercado e, portanto, de se tornarem dependentes do BCE. Em síntese, a principal crítica é que o BCE assumiu riscos demais. Assim, antes de conceder o Prêmio Nobel da Paz para Draghi, como sugeriu a revista Forbes, convém dar mais tempo para conferir os verdadeiros resultados dessas operações.
O que se pode dizer é que Draghi foi muito bem-sucedido em seu objetivo de comprar tempo. Deu às autoridades do euro ao menos três anos, mesmo prazo dos empréstimos, para botar a casa em ordem. O problema aí é que os políticos europeus são como carro velho e só pegam no tranco. Sem pressão, tendem a adiar indefinidamente decisões, sobretudo mais dolorosas, que dariam fim à crise.
Um dos problemas centrais da questão bancária europeia é que organismos encarregados da supervisão das instituições financeiras são nacionais, o que já não faz sentido numa união monetária. Autoridades ainda mencionam corriqueiramente os "bancos franceses", "bancos espanhóis", "bancos alemães" ou "bancos austríacos"... E cada governo tende a proteger excessivamente os "seus bancos" e a esconder as "suas" fragilidades.
Essas práticas de camuflagem foram a principal razão pela qual os testes de estresse a que foi submetida centena de bancos europeus não tiveram credibilidade.
Isso sugere que a rede bancária europeia não se fortalecerá nem será reconhecida como saudável enquanto os políticos continuarem a esconder mazelas. Para isso, parece inevitável que o BCE assuma a regulação e a supervisão de toda a rede de bancos do bloco.
Moralismo ou monetarismo? - ANTONIO DELFIM NETTO
Valor Econômico - 13/03/12
Talvez seja hora de recordar por que alguns países europeus decidiram construir uma Comunidade Econômica (a CEE) com o objetivo principal de induzir Estados soberanos a resolverem seus problemas usando a negociação e não a guerra.
Levando ao limite a simplificação histórica, esses Estados foram produzidos pelo próprio comportamento do homem: um animal gregário (quem não é meu é inimigo) e territorial (o que é meu é só meu), limitado pela finitude dos recursos do território que conseguiu ocupar e assegurar para si. Cada um se contrapõe a todos os outros.
Felizmente, nesse mundo selvagem parece que há um processo que vai suavizando essa barbárie. Os próprios Estados soberanos vão apreendendo suas vantagens. A mobilização de sua cooperação interna (produto da evolução genética e cultural), quando estendida aos "vizinhos" por meio da negociação e não da guerra para o uso dos recursos naturais finitos de ambos, é mais eficiente e menos custosa. A grande lição que restou da construção de um continente com mil anos de guerra é que os próprios recursos para realizá-la são finitos e a arbitragem militar nunca leva à paz perpétua...
Decisões da CEE devem ser compatíveis com as Constituições
No fim da Segunda Guerra Mundial (a terceira de proporções catastróficas em um século, se incluirmos a franco-alemã de 1870), vencedores e vencidos começaram a entender que esse movimento sem fim, alimentado pelo desejo de vingança dos últimos e pela arrogância dos primeiros, só terminaria se fosse, de fato, construída uma Europa comum a todos.
Seu principal articulador foi o francês Jean Monet, com o apoio decisivo de dois grandes estadistas, Konrad Adenauer e Alcide De Gaspari, a partir de uma ideia que já está em Adam Smith: o comércio e as trocas dispensam as guerras, pois os recursos raros podem ser trocados em benefício de todos.
É óbvio que essa construção implica a cessão de parte da soberania de cada Estado em benefício do conjunto, uma ideia difícil de ser digerida. A teoria então vigente - "a soberania não se partilha, não se negocia. Ela se afirma" - implicava o eterno retorno da arbitragem pela força. Diante desse impasse, a sugestão implícita no pensamento de seus construtores seria dividir a soberania. Uma parte "nobre e sagrada", que diz respeito à defesa nacional, às relações internacionais etc. permaneceria intocável. Não havia razão, porém, para incluir entre elas questões puramente técnicas, como, por exemplo, a produção coordenada de carvão e de aço.
Nasceu, assim, por iniciativa de Robert Schuman, a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (Ceca) em 1957, que estabeleceu a cooperação franco-alemã. No mesmo ano, foi assinado o Tratado de Roma, onde se lançaram, de fato, as bases iniciais da Comunidade Econômica Europeia (CEE), que incluía a República Federal da Alemanha, a França, a Itália e o Benelux.
A partir daí, a CEE começou a se expandir. Em 1973, entram o Reino Unido, a Irlanda e a Dinamarca; em 1981, a Espanha; em 1986, Portugal. Neste mesmo ano, assinou-se o chamado "Ato Único", que estabeleceu a criação de um mercado comum que entraria em vigor em 1º de janeiro de 1993, juntamente com o Tratado de Maastricht, assinado em 1992.
Esse estabeleceu uma certa ordem fiscal que deveria ser obedecida por todos os membros: um déficit fiscal estrutural máximo de 0,5%, administrativa e perigosamente transformado num déficit fiscal inferior a 3% e o compromisso de reduzir a relação dívida bruta/PIB para 60%.
Em 1994, criou-se o Instituto Monetário Europeu, mencionado no Tratado de Maastricht, que preparou a introdução da moeda única, o euro, que entrou em vigor no dia 1º de janeiro de 1999. Com relação a ele foram fixadas de forma definitiva e irretratável todas as taxas de câmbio das antigas moedas nacionais.
Hoje, 17 países têm o euro como moeda. Com todos os seus problemas e dificuldades pontuais, a CEE é um espaço onde vigem os mesmos procedimentos: a livre circulação de bens e serviços, dos capitais e dos homens, políticas aduaneiras e tarifárias comuns, o que seguramente não é tudo, mas não é pouco.
Um aspecto pouco mencionado na construção da CEE é que cada decisão importante, que leva à maior cooperação entre os países, deve ser compatível com suas Constituições e deve ser aprovada pelos seus Parlamentos. A lamentável sugestão do ministro de Finanças da Alemanha, que pediu o adiamento das eleições gregas e a entrega do poder a burocratas gregos controlados pelos burocratas da "troika" de Bruxelas (CCE), de Frankfurt (Banco Central Europeu) e Washington (FMI), mostra a distância entre a visão política medíocre da atual administração alemã e a grandeza de um Helmut Kohl...
Mais triste, ainda, é a falta de reconhecimento que a estúpida punição germânica, que se tenta impor aos gregos para "purificá-los de suas extravagâncias dionísicas", é ditada por um cínico moralismo apoiado numa falsa teoria econômica. O problema é que ela está pondo em risco a mais brilhante construção política e civilizatória do século XX.
Janelas que se abrem - JOSÉ PAULO KUPFER
O Estado de S.Paulo - 13/03/12
Os cortes promovidos pelo Banco Central na taxa básica de juros, que a estão levando para um inédito nível nominal de 9% ou 8,5% ao ano, começam a causar impactos variados na economia. Não é só nas cadernetas de poupança que a redução da taxa de referência brasileira (taxa Selic) faz emergir a necessidade de rearranjos. Essa é apenas a parte mais visível da questão.
Além das cadernetas, a eventual chegada da Selic a terrenos próximos daqueles mais baixos em que se acomodam os juros em outras economias tende a afetar um amplo leque de sistemas e áreas em cujo DNA é fácil localizar resistentes cromossomos dos tempos de hiperinflação. Se for possível conter os juros básicos por um período mais longo, abrem-se, portanto, janelas de oportunidade para livrar a economia de entulhos inflacionários, que estão na origem de diversas barreiras ao crescimento.
É variada a lista dos problemas alimentados por esses entulhos. A administração da dívida pública e as linhas de crédito direcionadas - públicas e privadas -, operadas a taxas diferenciadas e/ou subsidiadas, são dois dos melhores exemplos do que, com juros mais baixos, poderá ser mais facilmente revisto, para melhorar a administração da economia.
Juros mais baixos devem afetar também a composição dos portfólios de aplicação financeira, com estímulos ao deslocamento de parte dos recursos da renda fixa para renda variável - o que pode ampliar os espaços para o financiamento a custos menores, pela via da oferta de ações, de investimentos privados. Uma Selic menor obrigará ainda, por exemplo, a uma renegociação - com alívio fiscal para os devedores e, portanto, dando margem a sobras para investimentos - nos termos do acordo de refinanciamento pela União das dívidas estaduais e municipais, firmado há 15 anos, como parte do processo de regularização fiscal que culminou com a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Dentre as distorções que uma taxa de juros mais baixa pode ajudar a dissolver, uma das mais emblemáticas é a elevada participação da Letra Financeira do Tesouro (LFT) na composição da dívida pública. Criadas em 1987 pelos futuros pais do Plano Real, na saída do Plano Cruzado II, as LFTs são atreladas à taxa Selic e conectam o mercado monetário com o mercado da dívida pública - esta conexão é um caso único no mundo.
O título, que nasceu em ambiente de hiperinflação, resiste bravamente à estabilização monetária, já tendo chegado a representar dois terços do total da dívida mobiliária, na passagem do segundo governo FHC para o primeiro de Lula. Ainda hoje responde por um alentado terço da composição da dívida pública. Com rendimento diário e riscos limitados, as LFTs são acusadas de serem elemento central no desestímulo à estruturação de linhas de financiamento de longo prazo pelo setor privado.
Agora, aproveitando o espaço que se abre com a queda dos juros, o governo decidiu acelerar o passo para reduzir o volume de LFTs a 10% do total da dívida mobiliária pública interna até 2015. No Plano Anual de Financiamento (PAF), divulgado pelo Tesouro na quinta-feira, a meta é reduzir o estoque de LFTs, em 2012, de 30% para um mínimo de 22% ou um máximo de 26%. Para isso, o governo proibiu que fundos públicos e estatais adquirissem LFTs, reduzirá a oferta do papel e tentará acelerar a sua troca por títulos prefixados ou atrelados a índices de preços, uma vez que três quartos do estoque de LFTs vencem nos próximos quatro anos.
O caso da reforma nos termos do refinanciamento de dívidas estaduais e municipais, já em discussão no Congresso e no governo, como mostra o jornal Valor Econômico, é um exemplo de como as sombras do passado inflacionário estão vivas - e, infelizmente, ativas. Além da correção pelo Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI), calculado pela Fundação Getúlio Vargas -, Estados e municípios pagam à União de 6% a 9% de juros anuais nas parcelas refinanciadas de suas dívidas. Um contrato com indexação e juros reais acima daqueles que o próprio mercado considera como a "taxa neutra" do momento (5,5% ao ano, segundo a mediana das estimativas) parece coisa de um passado distante - e, sem dúvida, é mesmo.
A caderneta de poupança, no resumo da história, é só a ponta de um iceberg de estruturas corroídas pelo tempo, mas não inteiramente demolidas, que ainda atravancam o desempenho da economia brasileira. Será decepcionante se a oportunidade que agora surge para limpar de vez o terreno for desperdiçada.
Ueba! PMDB ganha pasta Colgate! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 13/03/12
Inglês é assim: primeiro jardinagem, depois cavalo e depois a mulher. Com cara de cavalo, de preferência!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E sabe por que o PSDB adiou as prévias pra 25 de março? Porque o Serra entrou de contrabando! Rarará.
E diz que a primeira eleição do Serra foi pra conde Drácula. E perdeu pro Vlad, o empalador! Rarará!
E de que ano é essa manchete: "Empresa ligada a neto de Sarney recebe verba da Câmara"? De todo ano. E isso se chama NETISMO.
Já temos várias versões de nepotismo. Neto do Sarney é NETISMO. Filho do Cesar Maia com a filha do Garotinho é NEPAITISMO. E o Sarney é HIPERNEPOTISMO!
E essas são as manchetes de qualquer ano desde Pedro Álvares Cabral: "Serra sai candidato", "Neto de Sarney recebe verba" e "PMDB se rebela".
PMDB se rebela e exige 300 toalhas brancas, frigobar lotado, dez caixas de Moët & Chandon e uma cesta de frutas exóticas. Camarim da Madonna.
E, se eu fosse a Dilma Rouchefona, eu daria mais três pastas pro PMDB: Close-Up, Colgate e Sensitive! Rarará!
E o príncipe Harry? Como todo inglês, gosta mais de cavalo do que de mulher. Inglês é assim: primeiro jardinagem, depois cavalo e depois a mulher. Com cara de cavalo, de preferência! Rarará!
Ele parece um boto-cor-de-rosa de terno. E a manchete do Piauí Herald: "Príncipe Harry vem ao Rio e se casa com uma periguete borralheira". Adorei a periguete borralheira!
E uma amiga estava preenchendo o Imposto de Renda quando botou em estado civil: mais acumulada do que a Mega-Sena! Rarará!
E essa que corre no Facebook: "Imposto de Renda! Eu te Odeio! Pronto, já fiz a minha declaração". E eu posso fazer a minha declaração: Imposto de Renda! Eu te Amo! É mole? É mole, mas sobe!
O Brasil é Lúdico. Olha a faixa na favela de Jaguaré: "Aluga Ce Cuartos Para Rapases Sem Atraveçador". Rarará. E essa pichação num salão de beleza em Ribeirão Preto: "Diva, você depilou o meu coração". A melhor declaração de amor para uma depiladora!
E corre na internet a foto de um candidato perfeito pra ereções 2012: Meriswaldo Cabeleireiro Só Mente aos Domingos. Rarará. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
O que a Grécia significa - PAUL KRUGMAN
O Globo - 13/03/12
Então a Grécia deu oficialmente o calote nos credores privados. Foi um calote "ordeiro", negociado ao invés de simplesmente anunciado, o que suponho seja bom. Ainda assim, a história está longe de acabar. Mesmo com esse alívio em sua dívida, a Grécia - como outras nações europeias forçadas a impor austeridade numa economia deprimida - parece condenada a muitos anos mais de sofrimento.
Esta é uma fábula digna de ser contada. Nos últimos dois anos, a história da Grécia tem sido, segundo um recente texto sobre economia política, "interpretada como uma parábola sobre os riscos de irresponsabilidade fiscal". Não passa um dia sem que, nos EUA, algum político ou comentarista entoe, com um ar de grande sabedoria, que é preciso cortar gastos do governo imediatamente, ou vamos acabar como a Grécia, Grécia eu lhes digo.
Apenas para usar um exemplo recente, quando Mitch Daniels, governador de Indiana, apresentou a resposta republicana ao discurso do presidente Obama sobre o Estado da União, insistiu que "estamos a uma pequena distância de Grécia, Espanha e outros países europeus que hoje enfrentam a catástrofe econômica". Ninguém aparentemente lhe disse que a Espanha tinha baixo déficit governamental e superávit orçamentário às vésperas da crise; o país está em apuros devido aos excessos do setor privado, não do setor público.
Mas o que a experiência da Grécia de fato mostra é que se incorrer em déficits em tempos de fartura pode criar problemas - o que é o caso da Grécia, embora não o da Espanha - tentar eliminar déficits quando você já está em apuros é uma receita para depressão.
Hoje em dia, depressões econômicas induzidas por políticas de austeridade são visíveis em toda a periferia europeia. A Grécia é o pior caso, com o desemprego escalando para 20% e os serviços públicos, incluindo o setor de saúde, entrando em colapso. Mas a Irlanda, que fez tudo o que queria o pessoal da austeridade, também está em terrível estado, com o desemprego perto dos 15% e o PIB em queda de dois dígitos. Portugal e Espanha estão em situação crítica também.
Impor austeridade numa crise não inflige apenas grande sofrimento. Há evidência crescente de que é autodestrutivo mesmo em termos puramente fiscais, pois a combinação de receitas em queda devido à economia deprimida e perspectivas de longo prazo piores reduz a confiança do mercado e torna a carga da dívida futura mais difícil de carregar. Deve-se perguntar como países que estão sistematicamente negando um futuro a sua juventude - o desemprego entre jovens na Irlanda, que costumava ser menor do que nos EUA, é agora de quase 30%, chegando perto dos 50% na Grécia - conseguirão crescimento suficiente para pagar o serviço da dívida.
Não é isso o que devia ter acontecido. Há dois anos, quando muitos começaram a pedir um giro do estímulo para a austeridade, prometeram grandes vantagens em troca do sofrimento. "A ideia que medidas de austeridade possam trazer estagnação é incorreta", declarou, em junho de 2010, Jean-Claude Trichet, então presidente do Banco Central Europeu. Ele insistiu que, ao invés disso, a disciplina fiscal inspiraria confiança, e isso levaria ao crescimento econômico.
Cada ligeira melhora de um indicador de uma economia em austeridade era aclamada como prova de que essa política funciona. A austeridade irlandesa foi proclamada uma história de sucesso, não uma vez, mas duas - a primeira no verão de 2020 e de novo no último outono; em cada vez a suposta boa notícia rapidamente se evaporou.
Pode-se perguntar que alternativa países como Grécia e Irlanda tinham, e a resposta é que não tinham e não têm boas alternativas a não ser deixar o euro, um passo extremo que, realisticamente, seus líderes não podem dar até que todas as outras opções tenham falhado - um estado de coisas tal que, se me perguntarem, diria que a Grécia dele se aproxima rapidamente.
A Alemanha e o Banco Central Europeu poderiam ter agido para tornar esse passo extremo menos necessário, tanto ao exigir menos austeridade quanto ao fazer mais para impulsionar a economia europeia como um todo. Mas o principal ponto é que os EUA de fato têm uma alternativa: temos nossa própria moeda e podemos tomar empréstimos a prazos longos e a juros historicamente baixos; então, não necessitamos entrar numa espiral descendente de austeridade e contração econômica.
Então, é tempo de parar de invocar a Grécia como um exemplo de cautela diante do perigo dos déficits; de um ponto de vista americano, a Grécia deveria, ao contrário, ser vista como exemplo dos perigos de tentar reduzir o déficit rapidamente demais, enquanto a economia ainda está profundamente deprimida. (E sim, a despeito de algumas boas notícias ultimamente, nossa economia ainda está profundamente deprimida.)
Se você quer saber quem está realmente tentando transformar os EUA em Grécia, não são os que defendem mais estímulos à economia; são os partidários de que imitemos a austeridade ao estilo grego, embora não enfrentemos constrangimentos de crédito ao estilo grego, e assim mergulhemos numa depressão ao estilo grego.
A negociação no setor público - JOSÉ PASTORE
O ESTADÃO - 13/03/12
A presidente Dilma Rousseff reservou para 2012 apenas R$ 1,6 bilhão para reajustes de salários dos servidores - diante de um pedido de mais de R$ 40 bilhões.
Ela deve ter problemas com greves de servidores, ainda não regulamentadas.
As centrais sindicais sempre combateram os projetos de lei que visavam a regulamentar as greves de funcionários públicos, alegando a necessidade de o Brasil ratificar a Convenção 151 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que garante a livre negociação para os servidores do governo, o que ocorreuem16 de junho de 2010.
A simples ratificação, porém, não afastou a complexidade do problema.A própria Convenção 151 diz que cabe às nações regularem a negociação do setor público, especialmente das atividades essenciais e que põem em risco a população. Esse é o primeiro desafio.
Há também a questão dos limites dos orçamentos e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Os governantes não podem conceder mais do que os orçamentos permitem para gastar com pessoal. Esse é o segundo desafio.
Esses desafios vêm sendo enfrentados por vários países. Na América, leis recentemente aprovadas nos Estados de Arizona, Idaho, Indiana, Michigan, New Hampshire, Oklahoma, South Carolina, Tennesse, Utah, Wisconsin e Wyoming endureceram as negociações no setor público. Isso provocou forte reação dos sindicatos laborais. A razão do endurecimento foi o estouro dos orçamentos governamentais.No caso de Wisconsin, o déficit chegou a 25%! Em Nova York, 16%, e, em Ohio, 11%.
Em Ohio, os sindicatos conseguiram convocar um referendo e, com isso, derrubaram a lei aprovada.
Em contra partida, o governador veio a público para explicar aos contribuintes que terão de pagar mais impostos. Eles não gostaram.
Os governadores estão num dilema: para atender às demandas crescentes dos funcionários, eles teriam de cortar os recursos para educação, saúde, segurança, etc. Eles preferiram enfrentar os servidores e adotaram novas regras: 1) os salários não podem subir mais do que a inflação, a menos que autorizados pela população mediante referendo; 2) os funcionários contribuirão em partes iguais (50%) para a previdência social; 3) é eliminada a dedução de contribuição (feita pelo governo) destinada aos sindicatos; e 4) estes têm de obter os votos da maioria da categoria para continuar representando os funcionários.
O governador de Wisconsin, Scott Walker, foi muito claro ao dizer que "a negociação coletiva no setor público não é um direito, mas, sim, uma concessão dispendiosa".
Naquele Estado, a primeira avaliação das novas leis constatou que, depois de 12 meses de vigência, o quadro fiscal ficou sustentável, sem aumento de impostos. As escolas e os postos de saúde passaram a oferecer melhores serviços.
O assunto continua em debate e despertou o mundo acadêmico.
Daniel Di- Salvo, cientista político de Nova York, mostrou que os dirigentes sindicais do setor público exercem uma pressão muito mais forte do que ocorre no setor privado porque a grande maioria desfruta de uma segurança no emprego que não ocorre nas empresas. Além do mais, os movimentos sindicais se misturam aos movimentos políticos e, para garantir a sua reeleição, forçam os governantes a conceder o que o Estado não aguenta pagar. "Nada é mais perigoso para o bem-estar da comunidade do que ter servidores públicos ditando a jornada, o salário e as demais condições de trabalho. Ou seja, nada mais perigoso do que um governo sindicalizado" (Daniel DiSalvo, The trouble with public sector unions, revista Public Affairs, outono de 2010).
No Brasil, as peculiaridades apontadas se mantêm.
A maioria dos funcionários goza de estabilidade e as campanhas sindicais se misturam com a política partidária.
Por isso, convém meditar muito bem sobre uma regulação racional da negociação coletiva e a urgente aprovação de uma lei de greve específica para o setor público.
A presidente Dilma Rousseff reservou para 2012 apenas R$ 1,6 bilhão para reajustes de salários dos servidores - diante de um pedido de mais de R$ 40 bilhões.
Ela deve ter problemas com greves de servidores, ainda não regulamentadas.
As centrais sindicais sempre combateram os projetos de lei que visavam a regulamentar as greves de funcionários públicos, alegando a necessidade de o Brasil ratificar a Convenção 151 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que garante a livre negociação para os servidores do governo, o que ocorreuem16 de junho de 2010.
A simples ratificação, porém, não afastou a complexidade do problema.A própria Convenção 151 diz que cabe às nações regularem a negociação do setor público, especialmente das atividades essenciais e que põem em risco a população. Esse é o primeiro desafio.
Há também a questão dos limites dos orçamentos e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Os governantes não podem conceder mais do que os orçamentos permitem para gastar com pessoal. Esse é o segundo desafio.
Esses desafios vêm sendo enfrentados por vários países. Na América, leis recentemente aprovadas nos Estados de Arizona, Idaho, Indiana, Michigan, New Hampshire, Oklahoma, South Carolina, Tennesse, Utah, Wisconsin e Wyoming endureceram as negociações no setor público. Isso provocou forte reação dos sindicatos laborais. A razão do endurecimento foi o estouro dos orçamentos governamentais.No caso de Wisconsin, o déficit chegou a 25%! Em Nova York, 16%, e, em Ohio, 11%.
Em Ohio, os sindicatos conseguiram convocar um referendo e, com isso, derrubaram a lei aprovada.
Em contra partida, o governador veio a público para explicar aos contribuintes que terão de pagar mais impostos. Eles não gostaram.
Os governadores estão num dilema: para atender às demandas crescentes dos funcionários, eles teriam de cortar os recursos para educação, saúde, segurança, etc. Eles preferiram enfrentar os servidores e adotaram novas regras: 1) os salários não podem subir mais do que a inflação, a menos que autorizados pela população mediante referendo; 2) os funcionários contribuirão em partes iguais (50%) para a previdência social; 3) é eliminada a dedução de contribuição (feita pelo governo) destinada aos sindicatos; e 4) estes têm de obter os votos da maioria da categoria para continuar representando os funcionários.
O governador de Wisconsin, Scott Walker, foi muito claro ao dizer que "a negociação coletiva no setor público não é um direito, mas, sim, uma concessão dispendiosa".
Naquele Estado, a primeira avaliação das novas leis constatou que, depois de 12 meses de vigência, o quadro fiscal ficou sustentável, sem aumento de impostos. As escolas e os postos de saúde passaram a oferecer melhores serviços.
O assunto continua em debate e despertou o mundo acadêmico.
Daniel Di- Salvo, cientista político de Nova York, mostrou que os dirigentes sindicais do setor público exercem uma pressão muito mais forte do que ocorre no setor privado porque a grande maioria desfruta de uma segurança no emprego que não ocorre nas empresas. Além do mais, os movimentos sindicais se misturam aos movimentos políticos e, para garantir a sua reeleição, forçam os governantes a conceder o que o Estado não aguenta pagar. "Nada é mais perigoso para o bem-estar da comunidade do que ter servidores públicos ditando a jornada, o salário e as demais condições de trabalho. Ou seja, nada mais perigoso do que um governo sindicalizado" (Daniel DiSalvo, The trouble with public sector unions, revista Public Affairs, outono de 2010).
No Brasil, as peculiaridades apontadas se mantêm.
A maioria dos funcionários goza de estabilidade e as campanhas sindicais se misturam com a política partidária.
Por isso, convém meditar muito bem sobre uma regulação racional da negociação coletiva e a urgente aprovação de uma lei de greve específica para o setor público.
CLAUDIO HUMBERTO
“Exterminamos um câncer do futebol brasileiro”
Deputado Romário (PSB-RJ) comemorando a renúncia de Ricardo Teixeira da CBF
DILMA USA BRAGA PARA ‘PUNIR’ CÚPULA DO PMDB
A substituição de Romero Jucá (RR) por Eduardo Braga (AM), na liderança do governo, foi decidida por Dilma à revelia dos principais aliados no Senado, José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL). Irritada com a derrota da recondução do diretor-geral da Agência de Transportes Terrestres (ANTT), ela liberou senadores do PT como Lindbergh Farias (RJ), para criticar a atuação de Jucá, fragilizando-o, e convidou um político que se opõe à liderança de Calheiros no PMDB.
DESDE SEXTA
Eduardo Braga ouviu o convite de Dilma, por intermédio de Ideli Salvatti, numa reunião para a qual foi convocado às 9h30 de sexta.
FATO CONSUMADO
Nesta segunda, a presidente Dilma chamou o senador Renan Calheiros para uma conversa de 1h40 de duração, e o informou da mudança.
ÚLTIMOS A SABER
Jucá e Sarney ficaram sabendo da novidade nesta segunda pelo próprio Eduardo Braga, que já não aguentava esconder a novidade.
PROVIDENCIAL
Renan nem pode se queixar muito. Deslocando Braga para a liderança do governo, Dilma reduziu a bancada dos que o contestam no PMDB.
DILMA PODE AJUDAR SEU EX-PDT A SE REENCONTRAR
Com a escolha do novo ministro do Trabalho, que é da cota do PDT, a ex-pedetista Dilma Rousseff poderá ajudar o partido a reencontrar as origens após o longo domínio de sua banda podre. Ela recusou as indicações do ex-ministro Carlos Lupi, que chefia o partido, e queria no cargo o deputado Vieira da Cunha (RS), mas ele foi vetado. Com isso, Dilma se fixou no deputado Brizola Neto, que se opõe a Lupi, no PDT.
UMA BOA IDEIA...
Repercute bem no Congresso o projeto da Lei de Responsabilidade Funcional, concebido pelo senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB). É inspirado na Lei de Responsabilidade Fiscal, que pôs fim ao saque dos cofres públicos para pagar salários.
...DEFININDO PAPÉIS
A Lei de Responsabilidade Funcional definirá o papel de cada servidor, incluindo o governante, em eventuais malfeitorias com dinheiro público.
CARGOS QUE ‘FURAM POÇO’
A imparável ganância petista por cargos, que provocou a rebeldia dos partidos da base aliada, é traduzida em números: o PT-SP controla os treze principais ministérios e fundos de pensão bilionários, como Petros (Petrobras), Previ (Bando do Brasil) e Centrus (Banco Central).
MUITO A EXPLICAR
A oposição promete colocar Guido Mantega contra a parede. Querem explicações sobre as denúncias de corrupção do seu amigo Luiz Felipe Denucci na Casa da Moeda.
FICHA INÓCUA
Presidente da Frente contra a Corrupção, Francisco Praciano (PT) convidou a ministra Eliana Calmon para reunião na Câmara. Vai propor que o CNJ obrigue juízes a disponibilizar, na internet, os processos contra políticos. “Do jeito que está, a Ficha Limpa acaba inócua”.
NA TORCIDA
Se depender do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, o candidato do PT à Prefeitura do Recife será o senador Humberto Costa. Em caso de vitória, assumiria seu suplente Joaquim Francisco, do PSB.
PAI DO KIT GAY
A guerra dos evangélicos não acabou. O deputado e pastor Marco Feliciano (PSC) acha até que Fernando Haddad (PT) “poderia ser eleito prefeito de São Paulo se não tivesse se tornado pai do kit gay”.
VAI DAR TRABALHO
Para o tucano Vanderlei Macris, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, terá dificuldade de levar o PSB a apoiar Fernando Haddad (PT) em São Paulo: “O PSDB abriu mão da prefeitura de Campinas para o PSB, que até ocupa secretaria no governo tucano”.
VIROU BANDEIRA
A bancada do PCdoB vai discutir se transforma em bandeira a proposta de Protógenes Queiroz (SP) de criar uma CPI para investigar o bicheiro Carlinhos Cachoeira. A proposta tem apoio do PT.
BIENAL DE BRASÍLIA
Brasília terá a 1ª Bienal do Livro e da Leitura, de 14 a 23 de abril, com escritores consagrados como o nigeriano Wole Soyinka. Gentis, os organizadores convidaram a Câmara Brasileira do Livro ao evento, sem ônus e sem trabalho. Recusou. Não admira a situação do livro no País.
PERGUNTA NA ESPLANADA
Após Eduardo Braga, qual o senador da bancada de descontentes do PMDB que vai trocar sua ”independência” por uma boquinha?
PODER SEM PUDOR
SÓ POR TELEFONE
Benedito Valadares estava no final do último mandato de senador, nos anos 70, e evitava jornalistas. Certo dia, acabou encurralado em um corredor do Senado. Atônito, pegou o telefone mais próximo e fingiu que falava com alguém. Conversa demorada. Os jornalistas se impacientaram e ele reagiu:
– Não têm respeito? Não veem que estou falando com o Carvalho Pinto?
– Mas o Carvalho Pinto está ali do lado! – apontou um jornalista.
Valadares deu uma olhada, viu o colega, mas insistiu na desculpa:
– É que eu só falo com ele por telefone.
Deputado Romário (PSB-RJ) comemorando a renúncia de Ricardo Teixeira da CBF
DILMA USA BRAGA PARA ‘PUNIR’ CÚPULA DO PMDB
A substituição de Romero Jucá (RR) por Eduardo Braga (AM), na liderança do governo, foi decidida por Dilma à revelia dos principais aliados no Senado, José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL). Irritada com a derrota da recondução do diretor-geral da Agência de Transportes Terrestres (ANTT), ela liberou senadores do PT como Lindbergh Farias (RJ), para criticar a atuação de Jucá, fragilizando-o, e convidou um político que se opõe à liderança de Calheiros no PMDB.
DESDE SEXTA
Eduardo Braga ouviu o convite de Dilma, por intermédio de Ideli Salvatti, numa reunião para a qual foi convocado às 9h30 de sexta.
FATO CONSUMADO
Nesta segunda, a presidente Dilma chamou o senador Renan Calheiros para uma conversa de 1h40 de duração, e o informou da mudança.
ÚLTIMOS A SABER
Jucá e Sarney ficaram sabendo da novidade nesta segunda pelo próprio Eduardo Braga, que já não aguentava esconder a novidade.
PROVIDENCIAL
Renan nem pode se queixar muito. Deslocando Braga para a liderança do governo, Dilma reduziu a bancada dos que o contestam no PMDB.
DILMA PODE AJUDAR SEU EX-PDT A SE REENCONTRAR
Com a escolha do novo ministro do Trabalho, que é da cota do PDT, a ex-pedetista Dilma Rousseff poderá ajudar o partido a reencontrar as origens após o longo domínio de sua banda podre. Ela recusou as indicações do ex-ministro Carlos Lupi, que chefia o partido, e queria no cargo o deputado Vieira da Cunha (RS), mas ele foi vetado. Com isso, Dilma se fixou no deputado Brizola Neto, que se opõe a Lupi, no PDT.
UMA BOA IDEIA...
Repercute bem no Congresso o projeto da Lei de Responsabilidade Funcional, concebido pelo senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB). É inspirado na Lei de Responsabilidade Fiscal, que pôs fim ao saque dos cofres públicos para pagar salários.
...DEFININDO PAPÉIS
A Lei de Responsabilidade Funcional definirá o papel de cada servidor, incluindo o governante, em eventuais malfeitorias com dinheiro público.
CARGOS QUE ‘FURAM POÇO’
A imparável ganância petista por cargos, que provocou a rebeldia dos partidos da base aliada, é traduzida em números: o PT-SP controla os treze principais ministérios e fundos de pensão bilionários, como Petros (Petrobras), Previ (Bando do Brasil) e Centrus (Banco Central).
MUITO A EXPLICAR
A oposição promete colocar Guido Mantega contra a parede. Querem explicações sobre as denúncias de corrupção do seu amigo Luiz Felipe Denucci na Casa da Moeda.
FICHA INÓCUA
Presidente da Frente contra a Corrupção, Francisco Praciano (PT) convidou a ministra Eliana Calmon para reunião na Câmara. Vai propor que o CNJ obrigue juízes a disponibilizar, na internet, os processos contra políticos. “Do jeito que está, a Ficha Limpa acaba inócua”.
NA TORCIDA
Se depender do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, o candidato do PT à Prefeitura do Recife será o senador Humberto Costa. Em caso de vitória, assumiria seu suplente Joaquim Francisco, do PSB.
PAI DO KIT GAY
A guerra dos evangélicos não acabou. O deputado e pastor Marco Feliciano (PSC) acha até que Fernando Haddad (PT) “poderia ser eleito prefeito de São Paulo se não tivesse se tornado pai do kit gay”.
VAI DAR TRABALHO
Para o tucano Vanderlei Macris, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, terá dificuldade de levar o PSB a apoiar Fernando Haddad (PT) em São Paulo: “O PSDB abriu mão da prefeitura de Campinas para o PSB, que até ocupa secretaria no governo tucano”.
VIROU BANDEIRA
A bancada do PCdoB vai discutir se transforma em bandeira a proposta de Protógenes Queiroz (SP) de criar uma CPI para investigar o bicheiro Carlinhos Cachoeira. A proposta tem apoio do PT.
BIENAL DE BRASÍLIA
Brasília terá a 1ª Bienal do Livro e da Leitura, de 14 a 23 de abril, com escritores consagrados como o nigeriano Wole Soyinka. Gentis, os organizadores convidaram a Câmara Brasileira do Livro ao evento, sem ônus e sem trabalho. Recusou. Não admira a situação do livro no País.
PERGUNTA NA ESPLANADA
Após Eduardo Braga, qual o senador da bancada de descontentes do PMDB que vai trocar sua ”independência” por uma boquinha?
PODER SEM PUDOR
SÓ POR TELEFONE
Benedito Valadares estava no final do último mandato de senador, nos anos 70, e evitava jornalistas. Certo dia, acabou encurralado em um corredor do Senado. Atônito, pegou o telefone mais próximo e fingiu que falava com alguém. Conversa demorada. Os jornalistas se impacientaram e ele reagiu:
– Não têm respeito? Não veem que estou falando com o Carvalho Pinto?
– Mas o Carvalho Pinto está ali do lado! – apontou um jornalista.
Valadares deu uma olhada, viu o colega, mas insistiu na desculpa:
– É que eu só falo com ele por telefone.
TERÇA NOS JORNAIS
- Globo: Senado corre para legalizar a multiplicação de cargos
- Folha: Após 23 anos, Teixeira sai da CBF e divide poder
- Estadão: Ricardo Teixeira renuncia à direção da CBF após 23 anos
- Valor: BNDES prepara empréstimo de R$ 15 bilhões para sondas
- Jornal do Commercio: Renúncia de Teixeira não muda a CBF
- Zero Hora: A última jogada
- Estado de Minas: O dia em que todos perderam
segunda-feira, março 12, 2012
Chore por nós, presidente - CARTA AO LEITOR - REVISTA VEJA
REVISTA VEJA
Uma reportagem desta edição de VEJA mostra que os dois governos do PT, o de Lula e o de Dilma Rousseff, serão lembrados como aqueles em que nunca antes neste país tantas lágrimas foram derramadas, tantos sapos engolidos e tantos rapapés feitos aos piores personagens da política nacional em nome da manutenção da maioria parlamentar e seu corolário, a governabilidade.
As lágrimas públicas de Dilma ao tirar um petista, Luiz Sérgio, do Ministério da Pesca, para, em troca de apoio, entregar a pasta ao evangélico Marcelo Crivella, no início do mês, ilustram esse calvário.
Os governos petistas serão lembrados também por terem sido pragmáticos e eficientes conquistadores de folgadas maiorias de sustentação na Câmara dos Deputados e no Senado. Mas será também difícil esquecer o fato de que, uma vez no controle quase absoluto do Congresso, ficaram sovinamente em palácio contando votos a favor em vez de usar o poder amargamente amealhado para fazer as reformas pelas quais o Brasil clama para atingir todo o seu magnífico potencial de progresso. É de chorar.
Com picos de mais de 70% de parlamentares alinhados, o governo poderia facilmente aprovar modificações na Constituição capazes de tomar o Brasil um país menos hostil a quem trabalha, empreende e investe. Quem poderia se opor a um Executivo com maioria tão sólida que arregaçasse as mangas e fosse à luta enfrentar interesses corporativos para reformar as leis trabalhistas brasileiras dos tempos do fascismo e, assim, baratear o custo da mão de obra, incluindo na economia real dezenas de milhões de pessoas que hoje ganham seu sustento na ilegalidade tolerada sob o eufemismo de informalidade? Que resultados extraordinários e rápidos obteria um governo com tanto poder se decidisse acabar com a injustiça tributária, cuja voracidade e complexidade castigam com igual ímpeto o prato do pobre e o consumo de alta tecnologia. Quanta diferença faria ter ao lado da sociedade um governo disposto a reduzir o gigantismo do estado ou a fazer a reforma política, apoiando a implantação do voto distrital nas capitais e, assim, diminuindo as oportunidades que hoje se escancaram aos corruptos. Mas não temos. Isso é de chorar.
Caça às bruxas - WALCYR CARRASCO
REVISTA ÉPOCA
Eu me solidarizo com os ciganos – mas o papel de um dicionário é mostrar todos os sentidos das palavras
É possível mudar o modo de pensar de um povo suprimindo palavras? Proibindo livros e comemorações? Essa tentativa, que se assemelha às proibições das ditaduras, está em curso aqui, no Brasil. É um assunto que me toca muito, pois vivo de escrever. Quando alguém determina o que pode ou não ser escrito, mexe com o mais íntimo de mim. O Ministério Público Federal de Uberlândia, Minas Gerais, entrou com uma ação para retirar de circulação o Dicionário Houaiss, um dos mais conceituados do país. O órgão alega que a obra contém referências preconceituosas e racistas aos ciganos. Entre os significados para a palavra “cigano” o Houaiss se refere ao uso “pejorativo” do termo: “que, ou aquele que trapaceia, velhaco, burlador”. Estranha interpretação do Ministério Público. Ao explicar que se trata do uso pejorativo, o dicionário deixa claro que não é a favor. Mas que também se usa o termo nesse sentido. O caso teve início em 2009, quando uma pessoa de origem cigana fez uma representação contra os dicionários brasileiros. Segundo o Ministério Público, outras editoras fizeram a mudança. A Objetiva, que publica o Houaiss, não o fez, por ter apenas o direito de publicação. O dicionário pertence, de fato, ao Instituto Houaiss.
Eu me solidarizo com os ciganos, que não querem ser chamados de velhacos. Nenhum povo deve ser definido por um adjetivo sórdido. Mas o papel de um dicionário é mostrar como as pessoas falam, qual o significado das palavras. E, no caso do Houaiss, que é bem completo, tanto no sentido coloquial como no erudito. Não diz o que é certo ou errado. Espelha o modo de falar do país. Retirar um dicionário de publicação para mim é inacreditável.
Há algum tempo, o Conselho Nacional de Educação publicou um parecer sugerindo a exclusão do livro Caçadas de Pedrinho das escolas públicas, sob a alegação de que levava à discriminação racial, pela maneira como o autor se referia à personagem Tia Nastácia. Criou uma celeuma entre educadores e ases da literatura. Foi uma gritaria. O Conselho voltou atrás. Mas ficaram as sequelas. Há algum tempo dei uma palestra numa feira de livros do ABC paulista. Uma contadora de histórias me perguntou o que eu achava da proibição de muitas escolas, onde não podia narrar os livros de Lobato. Admirei-me. Mesmo não oficialmente, nosso maior autor infantil já é boicotado. Junto a ele, uma leva acima de qualquer suspeita, como Santo Antonio, São João e São Pedro. Ééééé... Muitas escolas evitam comemorar as festas juninas porque seria discriminação contra as crianças não católicas! Fui criado na Igreja Presbiteriana. Na minha infância, participei das festas e me diverti muito. Nunca me senti discriminado. Que moda é essa agora?
Eu me solidarizo com os ciganos – mas o papel de um dicionário é mostrar todos os sentidos das palavras
É a mesma moda que me faz ouvir, sempre, que estou na “melhor idade”. Isso sim me faz sentir discriminado. É uma tentativa de maquiar a entrada nos 1960 anos e o que vem depois. Melhor idade pode ser qualquer uma, aos 7, aos 20, aos 40, aos 80. Depende da vida que se leva. Mudar as palavras muda a velhice?
Muita gente já pensou dessa maneira, e as primeiras vítimas dos autoritários costumam ser os livros. A Igreja já teve seu índex de títulos proibidos. Entre eles, A origem das espécies, de Charles Darwin. O mundo deixou de respeitar a teoria da evolução das espécies? Os editores de Ulisses, do irlandês James Joyce, sofreram um processo nos Estados Unidos, onde cópias do livro chegaram a ser confiscadas e destruídas, devido a seu conteúdo erótico. Ninguém nega que ele tenha revolucionado a literatura mundial. Durante o governo militar no Brasil, a posse de livros considerados “de esquerda” dava até cadeia. E foram proibidos. Nem por isso os militares se mantiveram no poder. Não se muda o modo de pensar de um povo proibindo palavras e livros. O termo que evitei usar até agora é “censura”, porque muito desgastado. Nunca se soube de um povo que tenha evoluído cultural, social e politicamente com a censura. Mas por meio da educação, da discussão de valores, dos direitos do cidadão. Essa é a questão. Onde vamos parar se até Santo Antônio já está sendo exonerado?
E os ciganos? Machado de Assis, em Dom Casmurro, possivelmente o melhor romance da literatura brasileira, descreve Capitu como de “olhos de cigana, oblíqua e dissimulada”. E aí? Alguém vai proibir Machado de Assis? Vão retirar nosso maior romance de circulação? Vamos agir como palhaços diante de todo o mundo?
Estou esperando para assistir ao escândalo.
Eu me solidarizo com os ciganos – mas o papel de um dicionário é mostrar todos os sentidos das palavras
É possível mudar o modo de pensar de um povo suprimindo palavras? Proibindo livros e comemorações? Essa tentativa, que se assemelha às proibições das ditaduras, está em curso aqui, no Brasil. É um assunto que me toca muito, pois vivo de escrever. Quando alguém determina o que pode ou não ser escrito, mexe com o mais íntimo de mim. O Ministério Público Federal de Uberlândia, Minas Gerais, entrou com uma ação para retirar de circulação o Dicionário Houaiss, um dos mais conceituados do país. O órgão alega que a obra contém referências preconceituosas e racistas aos ciganos. Entre os significados para a palavra “cigano” o Houaiss se refere ao uso “pejorativo” do termo: “que, ou aquele que trapaceia, velhaco, burlador”. Estranha interpretação do Ministério Público. Ao explicar que se trata do uso pejorativo, o dicionário deixa claro que não é a favor. Mas que também se usa o termo nesse sentido. O caso teve início em 2009, quando uma pessoa de origem cigana fez uma representação contra os dicionários brasileiros. Segundo o Ministério Público, outras editoras fizeram a mudança. A Objetiva, que publica o Houaiss, não o fez, por ter apenas o direito de publicação. O dicionário pertence, de fato, ao Instituto Houaiss.
Eu me solidarizo com os ciganos, que não querem ser chamados de velhacos. Nenhum povo deve ser definido por um adjetivo sórdido. Mas o papel de um dicionário é mostrar como as pessoas falam, qual o significado das palavras. E, no caso do Houaiss, que é bem completo, tanto no sentido coloquial como no erudito. Não diz o que é certo ou errado. Espelha o modo de falar do país. Retirar um dicionário de publicação para mim é inacreditável.
Há algum tempo, o Conselho Nacional de Educação publicou um parecer sugerindo a exclusão do livro Caçadas de Pedrinho das escolas públicas, sob a alegação de que levava à discriminação racial, pela maneira como o autor se referia à personagem Tia Nastácia. Criou uma celeuma entre educadores e ases da literatura. Foi uma gritaria. O Conselho voltou atrás. Mas ficaram as sequelas. Há algum tempo dei uma palestra numa feira de livros do ABC paulista. Uma contadora de histórias me perguntou o que eu achava da proibição de muitas escolas, onde não podia narrar os livros de Lobato. Admirei-me. Mesmo não oficialmente, nosso maior autor infantil já é boicotado. Junto a ele, uma leva acima de qualquer suspeita, como Santo Antonio, São João e São Pedro. Ééééé... Muitas escolas evitam comemorar as festas juninas porque seria discriminação contra as crianças não católicas! Fui criado na Igreja Presbiteriana. Na minha infância, participei das festas e me diverti muito. Nunca me senti discriminado. Que moda é essa agora?
Eu me solidarizo com os ciganos – mas o papel de um dicionário é mostrar todos os sentidos das palavras
É a mesma moda que me faz ouvir, sempre, que estou na “melhor idade”. Isso sim me faz sentir discriminado. É uma tentativa de maquiar a entrada nos 1960 anos e o que vem depois. Melhor idade pode ser qualquer uma, aos 7, aos 20, aos 40, aos 80. Depende da vida que se leva. Mudar as palavras muda a velhice?
Muita gente já pensou dessa maneira, e as primeiras vítimas dos autoritários costumam ser os livros. A Igreja já teve seu índex de títulos proibidos. Entre eles, A origem das espécies, de Charles Darwin. O mundo deixou de respeitar a teoria da evolução das espécies? Os editores de Ulisses, do irlandês James Joyce, sofreram um processo nos Estados Unidos, onde cópias do livro chegaram a ser confiscadas e destruídas, devido a seu conteúdo erótico. Ninguém nega que ele tenha revolucionado a literatura mundial. Durante o governo militar no Brasil, a posse de livros considerados “de esquerda” dava até cadeia. E foram proibidos. Nem por isso os militares se mantiveram no poder. Não se muda o modo de pensar de um povo proibindo palavras e livros. O termo que evitei usar até agora é “censura”, porque muito desgastado. Nunca se soube de um povo que tenha evoluído cultural, social e politicamente com a censura. Mas por meio da educação, da discussão de valores, dos direitos do cidadão. Essa é a questão. Onde vamos parar se até Santo Antônio já está sendo exonerado?
E os ciganos? Machado de Assis, em Dom Casmurro, possivelmente o melhor romance da literatura brasileira, descreve Capitu como de “olhos de cigana, oblíqua e dissimulada”. E aí? Alguém vai proibir Machado de Assis? Vão retirar nosso maior romance de circulação? Vamos agir como palhaços diante de todo o mundo?
Estou esperando para assistir ao escândalo.
Tomara que o problema seja só de pouca prática - MARCO ANTONIO ROCHA
A irritabilidade não é boa conselheira de ninguém. Os artistas, os cantores, os jogadores de futebol e atletas profissionais em geral, os escritores e os jornalistas famosos - todos têm acessos de irritabilidade. Mas por motivo de marketing - é bom para a divulgação.
Políticos, em geral, e governantes, em particular, é bom que se poupem dessa síndrome. Além de não lhes servir para nada, ainda cria problemas desnecessários ou, no mínimo, uma imagem negativa do governante diante do público, pois quem se irrita com um problema que enfrenta é porque não consegue resolvê-lo. E, se um alto dirigente não consegue resolver os problemas que enfrenta, a ponto de se irritar, não deveria ser um alto dirigente. É um fato bem sabido nas empresas mais bem dirigidas.
Diz o noticiário que a presidente Dilma se irrita com frequência. Pode não ser verdade, ou não ser exatamente verdade, pois um simples muxoxo de aborrecimento às vezes é confundido com irritação. De qualquer forma, não é invenção da imprensa. A informação de que a presidente "está irritada...", ou "furiosa", ou "se irritou" é fornecida aos jornalistas por pessoas que trabalham com ela, têm acesso a ela ou convivência próxima.
O fato é que, ultimamente, temos lido que a presidente está irritada com o manifesto do PMDB; que está irritada com o manifesto dos militares; que ficou irritada com as manobras descoordenadas do próprio PT; que se irritou - mais recentemente - com a rebelião das "bases" do governo, no caso da renovação do mandato do presidente da Agência Nacional de Transportes Terrestres. Sem falar da sua visível irritação, na visita que fez à Alemanha, perante a anfitriã, a chanceler Angela Merkel, com o que chama de "tsunami" de liquidez mundial provocado pelos países ricos, que produz, ou ameaça produzir, uma supervalorização das moedas dos países emergentes, com consequências funestas para suas contas de comércio externo e para o controle dos índices de inflação internos.
É muita irritação para uma só presidente.
Digamos, caros leitores, em benefício da presidente, que um país do tamanho do Brasil, com os problemas do tamanho dos que o Brasil apresenta, pode ser fonte de alimentação permanente da irritabilidade e da neurastenia de qualquer cristão, mesmo de quem tenha passado anos sendo treinado contra isso no alto de um mosteiro do Tibet.
Mas a questão que se apresenta é que as situações que irritam a presidente parecem estar se acumulando de maneira um tanto quanto preocupante já no início, apenas, do seu segundo ano de mandato. E como, à medida que o mandato for levado adiante e se aproxime do seu fim, as pedras no caminho e os quebra-cabeças tenderão a crescer, gerando mais situações de irritação, cabe perguntar se ela realmente terá tutano suficiente e um mínimo de serenidade para essa escalada.
Além disso, cabe perguntar se a personalidade da presidente, seu temperamento, seu modo de agir e as circunstâncias que a levaram ao pódio político brasileiro não estariam contribuindo também para criar situações de irritação, tanto quanto a problemática objetiva do país que ela governa.
Por exemplo: ela foi guindada ao mais alto cargo político da Nação sem ter tido vida política normal, ou seja, sem ter passado sequer pelo jardim da infância da política, que é ganhar liderança num partido qualquer para, depois, ganhar um primeiro mandato eleitoral, ao qual se sucedam outros mais elevados e durante os quais se vai formando a têmpera necessária para negociações torturantes com companheiros e adversários. É verdade que teve uma iniciação política de esquerda, numa organização clandestina. Mas ali o preparo, se havia, era para destruir o regime democrático de partidos políticos, e não para aprender a militar nele.
Outra circunstância recebida foi essa "base" governista, que não foi criada por ela. Os membros dessa base estão mais atentos aos sinais emanados de quem a criou do que à obediência à chefe do governo. E cada qual trata de expandir o seu espaço dentro da base, à custa do espaço do vizinho - como nessa trombada do PMDB com o PT. Que não deveria estar acontecendo, se a chefe da Casa Civil cuidasse de fato da articulação política, que é a sua função, e não só enfeitar as fotos das solenidades oficiais.
Isso nos leva ao time da presidente, decididamente fraco. Um ministro da Defesa que não apazigua os militares nem é ouvido por eles. Um ministro da Pesca que não entende de minhocas. Um, novo, da Educação, que diz que o problema é que o Brasil é grande demais - como se o Brasil tivesse aumentado depois que ele chegou ao Ministério. Um ministro da Fazenda que mais parece o Mestre Pangloss proclamando que tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis.
Todos em volta da barra da saia presidencial, como aios, em vez de estarem conduzindo de fato os programas de suas respectivas áreas. Dá saudade do modelo dos Grupos Executivos, do tempo de JK, que faziam o Brasil funcionar.
Políticos, em geral, e governantes, em particular, é bom que se poupem dessa síndrome. Além de não lhes servir para nada, ainda cria problemas desnecessários ou, no mínimo, uma imagem negativa do governante diante do público, pois quem se irrita com um problema que enfrenta é porque não consegue resolvê-lo. E, se um alto dirigente não consegue resolver os problemas que enfrenta, a ponto de se irritar, não deveria ser um alto dirigente. É um fato bem sabido nas empresas mais bem dirigidas.
Diz o noticiário que a presidente Dilma se irrita com frequência. Pode não ser verdade, ou não ser exatamente verdade, pois um simples muxoxo de aborrecimento às vezes é confundido com irritação. De qualquer forma, não é invenção da imprensa. A informação de que a presidente "está irritada...", ou "furiosa", ou "se irritou" é fornecida aos jornalistas por pessoas que trabalham com ela, têm acesso a ela ou convivência próxima.
O fato é que, ultimamente, temos lido que a presidente está irritada com o manifesto do PMDB; que está irritada com o manifesto dos militares; que ficou irritada com as manobras descoordenadas do próprio PT; que se irritou - mais recentemente - com a rebelião das "bases" do governo, no caso da renovação do mandato do presidente da Agência Nacional de Transportes Terrestres. Sem falar da sua visível irritação, na visita que fez à Alemanha, perante a anfitriã, a chanceler Angela Merkel, com o que chama de "tsunami" de liquidez mundial provocado pelos países ricos, que produz, ou ameaça produzir, uma supervalorização das moedas dos países emergentes, com consequências funestas para suas contas de comércio externo e para o controle dos índices de inflação internos.
É muita irritação para uma só presidente.
Digamos, caros leitores, em benefício da presidente, que um país do tamanho do Brasil, com os problemas do tamanho dos que o Brasil apresenta, pode ser fonte de alimentação permanente da irritabilidade e da neurastenia de qualquer cristão, mesmo de quem tenha passado anos sendo treinado contra isso no alto de um mosteiro do Tibet.
Mas a questão que se apresenta é que as situações que irritam a presidente parecem estar se acumulando de maneira um tanto quanto preocupante já no início, apenas, do seu segundo ano de mandato. E como, à medida que o mandato for levado adiante e se aproxime do seu fim, as pedras no caminho e os quebra-cabeças tenderão a crescer, gerando mais situações de irritação, cabe perguntar se ela realmente terá tutano suficiente e um mínimo de serenidade para essa escalada.
Além disso, cabe perguntar se a personalidade da presidente, seu temperamento, seu modo de agir e as circunstâncias que a levaram ao pódio político brasileiro não estariam contribuindo também para criar situações de irritação, tanto quanto a problemática objetiva do país que ela governa.
Por exemplo: ela foi guindada ao mais alto cargo político da Nação sem ter tido vida política normal, ou seja, sem ter passado sequer pelo jardim da infância da política, que é ganhar liderança num partido qualquer para, depois, ganhar um primeiro mandato eleitoral, ao qual se sucedam outros mais elevados e durante os quais se vai formando a têmpera necessária para negociações torturantes com companheiros e adversários. É verdade que teve uma iniciação política de esquerda, numa organização clandestina. Mas ali o preparo, se havia, era para destruir o regime democrático de partidos políticos, e não para aprender a militar nele.
Outra circunstância recebida foi essa "base" governista, que não foi criada por ela. Os membros dessa base estão mais atentos aos sinais emanados de quem a criou do que à obediência à chefe do governo. E cada qual trata de expandir o seu espaço dentro da base, à custa do espaço do vizinho - como nessa trombada do PMDB com o PT. Que não deveria estar acontecendo, se a chefe da Casa Civil cuidasse de fato da articulação política, que é a sua função, e não só enfeitar as fotos das solenidades oficiais.
Isso nos leva ao time da presidente, decididamente fraco. Um ministro da Defesa que não apazigua os militares nem é ouvido por eles. Um ministro da Pesca que não entende de minhocas. Um, novo, da Educação, que diz que o problema é que o Brasil é grande demais - como se o Brasil tivesse aumentado depois que ele chegou ao Ministério. Um ministro da Fazenda que mais parece o Mestre Pangloss proclamando que tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis.
Todos em volta da barra da saia presidencial, como aios, em vez de estarem conduzindo de fato os programas de suas respectivas áreas. Dá saudade do modelo dos Grupos Executivos, do tempo de JK, que faziam o Brasil funcionar.
Brizola Neto - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 12/03/12
O novo ministro do Trabalho será o deputado Brizola Neto (PDT-RJ). A presidente Dilma só aguarda uma conversa com o presidente do PDT, Carlos Lupi, para fazer o anúncio, mas a bancada do partido na Câmara já foi consultada. Brizola Neto tem o apoio dos sindicalistas do PDT. O nome preferido de Dilma era o deputado Vieira da Cunha (PDT-RS), mas ele não tem apoio do partido e enfrenta resistências entre os petistas.
PSB arrepia e PSD sugere vice
O governador Eduardo Campos (PE) está sendo duro nas conversas com a direção do PSB paulista sobre as eleições para a prefeitura de São Paulo. Quando fala em público, ele diz que o partido tem autonomia, mas nos bastidores é taxativo: “O tempo de TV do PSB não será colocado à disposição dos tucanos, pa-
"Estou confiante na Justiça. A decisão é jurídica, não é política” — Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, sobre o julgamento no TSE do tempo de TV para o PSD ra que eles ataquem o ex-presidente Lula e a presidente Dilma”. Já o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, encaminhou ontem, de Madri, o nome do PSD para ser o vice na chapa de José Serra para a prefeitura: Alfredo Cotait, secretário de Relações Internacionais da prefeitura. O PSDB realiza prévias no dia 25.
NÃO BASTA SER MINISTRO. O recém-empossado ministro Marcelo Crivella (Pesca) ficou inconformado ao chegar ao Rio para agenda oficial, semana passada, e descobrir que sua pasta não tem carro com chapa branca nem batedores no estado. Seu secretário-executivo, o brigadeiro da reserva Átila Maia, providenciou os dois imediatamente. Crivella teve agenda no Rio, sua base eleitoral, com direito a escolta, quinta e sexta-feira.
Risco
Há um movimento das bancadas religiosas para derrubar, no plenário da Câmara, a permissão para venda de bebida alcoólica nos estádios durante a Copa. Argumentam que, para os patrocinadores, basta a publicidade nos jogos.
Lamber feridas
Depois do tiroteio, na semana passada, por causa da derrota do governo no Senado, na votação da ANTT, as direções do PMDB e do PT voltam a se reunir na noite de amanhã. Vão buscar uma forma de amarrar os seus radicais.
Tráfico de pessoas
Relatório parcial da CPI do Tráfico de Pessoas propôs a inclusão, no Código Penal, do reconhecimento desse crime para exploração de trabalho forçado e remoção de órgãos. A legislação brasileira só trata do tráfico de pessoas com fim de exploração sexual. O documento, assinado pela então senadora Marinor Brito (PSOL-PA), cita casos de tráfico envolvendo brasileiros em garimpos do Suriname, em uma rota que passaria por Macapá.
Águas de março
O PT atravessou o mês sendo alvo de reclamação dos aliados, principalmente PMDB e PCdoB. A insatisfação vai desde a resistência dos petistas em apoiar aliados nas eleições municipais até tratamento privilegiado no governo federal.
Vai ou racha
Com sua administração mal avaliada e enfrentando altos índices de rejeição, a prefeita de Natal, Micarla de Sousa (PV), fez um choque de gestão, trocando vários secretários, para tentar viabilizar sua candidatura à reeleição.
RESUMO. Grosso modo, a reclamação de deputados e senadores da base aliada é que está faltando política no Palácio do Planalto.
PRIORIDADE. Apesar da troca do ministro do Desenvolvimento Agrário, o ritmo de assentamentos não deve ser substancialmente alterado. A reforma agrária não é uma prioridade da presidente Dilma.
COM OS PROGRAMAS de TV do partido suspensos pela Justiça Eleitoral, o PT de São Paulo já se conformou que Fernando Haddad só subirá nas pesquisas quando começar o horário eleitoral.
PSB arrepia e PSD sugere vice
O governador Eduardo Campos (PE) está sendo duro nas conversas com a direção do PSB paulista sobre as eleições para a prefeitura de São Paulo. Quando fala em público, ele diz que o partido tem autonomia, mas nos bastidores é taxativo: “O tempo de TV do PSB não será colocado à disposição dos tucanos, pa-
"Estou confiante na Justiça. A decisão é jurídica, não é política” — Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, sobre o julgamento no TSE do tempo de TV para o PSD ra que eles ataquem o ex-presidente Lula e a presidente Dilma”. Já o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, encaminhou ontem, de Madri, o nome do PSD para ser o vice na chapa de José Serra para a prefeitura: Alfredo Cotait, secretário de Relações Internacionais da prefeitura. O PSDB realiza prévias no dia 25.
NÃO BASTA SER MINISTRO. O recém-empossado ministro Marcelo Crivella (Pesca) ficou inconformado ao chegar ao Rio para agenda oficial, semana passada, e descobrir que sua pasta não tem carro com chapa branca nem batedores no estado. Seu secretário-executivo, o brigadeiro da reserva Átila Maia, providenciou os dois imediatamente. Crivella teve agenda no Rio, sua base eleitoral, com direito a escolta, quinta e sexta-feira.
Risco
Há um movimento das bancadas religiosas para derrubar, no plenário da Câmara, a permissão para venda de bebida alcoólica nos estádios durante a Copa. Argumentam que, para os patrocinadores, basta a publicidade nos jogos.
Lamber feridas
Depois do tiroteio, na semana passada, por causa da derrota do governo no Senado, na votação da ANTT, as direções do PMDB e do PT voltam a se reunir na noite de amanhã. Vão buscar uma forma de amarrar os seus radicais.
Tráfico de pessoas
Relatório parcial da CPI do Tráfico de Pessoas propôs a inclusão, no Código Penal, do reconhecimento desse crime para exploração de trabalho forçado e remoção de órgãos. A legislação brasileira só trata do tráfico de pessoas com fim de exploração sexual. O documento, assinado pela então senadora Marinor Brito (PSOL-PA), cita casos de tráfico envolvendo brasileiros em garimpos do Suriname, em uma rota que passaria por Macapá.
Águas de março
O PT atravessou o mês sendo alvo de reclamação dos aliados, principalmente PMDB e PCdoB. A insatisfação vai desde a resistência dos petistas em apoiar aliados nas eleições municipais até tratamento privilegiado no governo federal.
Vai ou racha
Com sua administração mal avaliada e enfrentando altos índices de rejeição, a prefeita de Natal, Micarla de Sousa (PV), fez um choque de gestão, trocando vários secretários, para tentar viabilizar sua candidatura à reeleição.
RESUMO. Grosso modo, a reclamação de deputados e senadores da base aliada é que está faltando política no Palácio do Planalto.
PRIORIDADE. Apesar da troca do ministro do Desenvolvimento Agrário, o ritmo de assentamentos não deve ser substancialmente alterado. A reforma agrária não é uma prioridade da presidente Dilma.
COM OS PROGRAMAS de TV do partido suspensos pela Justiça Eleitoral, o PT de São Paulo já se conformou que Fernando Haddad só subirá nas pesquisas quando começar o horário eleitoral.
O PIB de 2011 e depois - DAVID KUPFER
Valor Econômico - 12/03/12
Já se disse que toda unanimidade é burra mas no caso do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2011, dez entre dez analistas econômicos concordaram que a taxa de 2,7%, recém-divulgada pelo IBGE, embora muito abaixo das previsões vigentes ao final de 2010, foi satisfatória para um ano que, ao fim e ao cabo, revelou-se bastante conturbado, cheio de nuvens negras no cenário internacional e de reviravoltas na política econômica interna. Em comparação com os trimestres anteriores na série com ajuste sazonal, após apresentar uma evolução negativa de 0,1% no terceiro trimestre do ano passado, a informação de que o crescimento do PIB no quarto trimestre foi ligeiramente positivo, nada mais do que 0,3%, serviu para afastar o temor de que a economia brasileira pudesse estar entrando em rota de recessão.
Ao contrário, a sensação dominante é de que o país superou um miniciclo contracionista e que nos próximos trimestres os números deverão exibir comportamento melhor, levando a economia a sua marcha habitual, como expresso na manutenção pela maioria de expectativas de crescimento para este ano em torno dos 3,5%.
A observação do PIB pela ótica da demanda ajuda a dar substância a esse quadro. O crescimento de 4,1% apresentado pelo consumo das famílias em 2011, em parte devido ao crescimento da massa salarial (4,8% em termos reais, segundo o IBGE), em parte devido a evolução favorável do crédito, sugere que o polo dinâmico da economia brasileira na última década está preservado. Em paralelo, embora a taxa de investimento como proporção do PIB não tenha conseguido avançar em relação a 2010 (19,3% ante 19,5%), a formação bruta de capital expandiu-se em 4,7%, um resultado positivo, em particular, quando se observa a expansão do uso de máquinas e equipamentos, que foi de 6% no ano.
No entanto, se visível, e mesmo justificável, para o conjunto da economia, essa sensação de relativo conforto não se aplica igualmente a todos os setores componentes do PIB. Passando-se para a ótica da oferta, especialmente a evolução da indústria tem provocado preocupações generalizadas. O recuo da indústria geral, que foi de 0,5% em relação ao terceiro trimestre de 2011 e, especialmente, a forte retração da indústria de transformação, cujo desempenho foi de -2,5% em relação ao trimestre anterior e de -3,1% em relação ao quarto trimestre de 2010, indicam tendências negativas de evolução do produto industrial que não podem ser compreendidas nem muito menos atribuídas somente às questões de conjuntura.
Esse desbalanceamento entre demanda e oferta é revelado pela evolução das importações de bens e serviços, que cresceram 9,7% em 2011. Levando-se em conta a variação total do PIB, está-se diante de uma elasticidade-renda na qual para cada ponto percentual de crescimento do PIB, as importações crescem 3,6%. A partir dessa relação estrutural, pode-se imaginar qual seria a taxa de expansão das importações se a economia estivesse em franco crescimento: mantida essa elasticidade, um hipotético crescimento de 5% do PIB implicaria expansão de 18% das importações. Trata-se de um montante que evidentemente exerceria pesado impacto sobre a conta corrente que já vem se mostrando deficitária há alguns anos.
Esse aumento na propensão a importar da economia, que vem se verificando de forma contínua nos anos recentes, sinaliza que é inegável que a indústria brasileira vem percorrendo uma trajetória de perda de competitividade. Parte desse fato está realmente na questão cambial. Como está claro desde que a poeira da grande crise financeira de 2008 assentou e tornou possível enxergar a nova arquitetura da economia mundial, a taxa de câmbio competitiva de hoje é mais desvalorizada do que a de antes. Quer dizer, mantidas as demais condições de formação de custos, diante de moedas de referência mais desvalorizadas, preservar a competitividade efetiva da moeda exigiria desvalorizá-la em alguma proporção, exatamente o contrário do que ocorreu com o real.
No entanto, outra parte igualmente importante do problema não está no mundo dos preços e custos e sim no mundo das quantidades. Com a redução do ritmo de crescimento das economias líderes, e o consequente aumento da capacidade ociosa da indústria mundial, ocorreu inegável acirramento na disputa pelos mercados nacionais em expansão e o Brasil, positivamente, está nesse grupo. Metaforicamente, nesse novo quadro a produção made in Brazil teria que correr mais rápido para conseguir permanecer no mesmo lugar.
A economia brasileira enfrentou 2011 dando sinais de que o mix macroeconômico que, ao longo de quase 20 anos, vem propiciando alguma estabilidade às custas de algum crescimento, pode ser reformulado e que o país pode enfim começar a se beneficiar de juros consistentemente menores e de taxas de câmbio senão competitivas, pelo menos não tão nocivas à atividade industrial.
Mas o novo quadro competitivo internacional sugere que o sucesso na mudança do mix macroeconômico não será suficiente. Políticas competentes de desenvolvimento industrial que defendam a produção nacional - o que não necessariamente significa defender os produtores nacionais - e assegurem o crescente conteúdo tecnológico dessa produção - o que não necessariamente se resume a garantir qualquer conteúdo local - são imprescindíveis.
A história se repete, pior - CARLOS ALBERTO SARDENBERG
O Estado de S. Paulo - 12/03/12
Em setembro de 2009, o Banco Central (BC) colocou a taxa básica de juros em 8,75% ao ano. Até aqui, é o recorde de baixa desde a introdução do regime de metas de inflação no Brasil, a partir de janeiro de 1999, no governo Fernando Henrique Cardoso. Pois parece que o atual Banco Central caminha para pelo menos igualar esse recorde. Na semana passada, reduziu a taxa para 9,75% e indicou que está preparando novas quedas.
No atacado, os argumentos - e a aposta - são parecidos. Crise mundial, crescimento baixo no Brasil, inflação desacelerando.
Neste quadro, a redução dos juros locais fez parte de uma ampla política de estímulo a investimentos e consumo, mais este último, com base em mais gasto do governo, crédito público subsidiado ou não e facilidades para a tomada de crédito - a receita clássica.
Para 2009, não deu para salvar. O Brasil enfrentou uma recessão. E a inflação se comportou um pouco abaixo da meta de 4,5%. Mas 2010, por sinal um ano eleitoral, saiu muito bem: o País cresceu 7,5%, nisso replicando o movimento de forte recuperação na economia mundial. Só que a inflação brasileira foi lá para cima. Terminou 2010 com 5,9%, mas entrou acelerada no ano passado.
Ou seja, o País não comportou, mais uma vez, uma forte aceleração do crescimento. Tanto que, em abril de 2010, o Banco Central já começava a subir os juros, e foi numa escalada até os 12,5%.
É muito provável que a história se repita nesta nova tentativa de colocar os juros lá embaixo. E deve ser um problema maior ainda. Reparem: a crise mundial hoje é muito mais leve que a de 2009, quando se estava no auge dos efeitos recessivos do colapso do crédito. O crescimento brasileiro, hoje, embora tenha desacelerado, é muito mais forte do que o de três anos atrás. E a inflação corrente e as expectativas são mais altas hoje do que naquela época.
O governo pode dizer que os estímulos totais ao crescimento são menos intensos. Verdade. Mas o ambiente econômico geral responde mais rápido hoje.
Como em 2009, o governo está muito assustado com a possibilidade de enfrentar um período de baixa num ano eleitoral. Assim, acaba entrando num vale tudo.
O que se pode concluir disso tudo, para além do dia a dia? Eis uma sugestão: os últimos anos mostraram que a capacidade de crescimento do Brasil melhorou, basicamente a partir da estabilidade macroeconômica e da onda global provocada pela fortíssima expansão chinesa. Mas também tivemos vários momentos para mostrar que o Brasil não cresce mais que 4,5% sem gerar mais inflação. Reparem de novo: em 2009, com uma recessão, queda do produto de 0,6%, ainda tivemos inflação de 4,3%, muito alta para tão pouca atividade.
Já na sequência do forte crescimento de 2010, a inflação em 12 meses simplesmente ultrapassou os 7%. E no ano passado, com a expansão pífia de 2,7%, a inflação bateu nos 6,5%, o teto da margem de tolerância.
Como o governo e o Banco Central dizem hoje, direta ou indiretamente, que privilegiam o crescimento, então vai dar inflação mais alta. Até um certo nível, leva-se, mas logo fica pesado e o Banco Central tem de voltar a subir os juros e cortar estímulos.
Ou seja, nos anos recentes, não se fez mais nada de importante para elevar a capacidade de crescimento do País. Nada que elevasse o nível geral de investimentos e reduzisse o pesado custo Brasil.
O governo Dilma - até aqui, ao menos - indica não ter plano de voo de longo prazo. Vai lidando com o dia a dia. A questão, hoje, é saber quanto de inflação vai topar.
Quanto vale? O vilarejo Nicolas - Courbefy fica a 280 km de Paris, tem apenas 19 casas, todas datadas do século 16, assim como o entorno urbano. Está à venda. Sim, todo o vilarejo.
Ocorre que as famílias foram se mudando para a cidade e não ficou ninguém por lá. Conseguiram, porém, se colocar de acordo para vender a coisa toda. A ideia parece clara. O conjunto pode dar um ótimo resort, um parque ou mesmo a sede de uma grande empresa que funcione por ali. A propósito, tem um aeroporto próximo, o de Limoges, a apenas 32 km.
Quanto vale? Exatos US$ 400 mil. Quer dizer, esse foi o preço pedido no primeiro leilão, por meio de um endereço eletrônico encontrado pela colaboradora desta coluna, Karen Iscafh (*).
E querem saber? Não teve lance, pelo menos até a sexta-feira passada.
Até dá para entender. A França está em recessão, como toda a zona do euro. Houve perda de renda e desemprego alto - não é um bom momento para iniciar um investimento que certamente seria pesado.
Mas, gente, vamos reparar no preço. Dá uns R$ 700 mil, valor que estão pedindo, por exemplo, por um apartamento razoável, usado, de três quartos, em Pinheiros. E sai negócio.
Não tem algo errado aí? Pelo preço de um apartamento médio em São Paulo, compra-se uma vila com 19 casas na França.
Na verdade, são duas coisas erradas. Lá, barato e sem mercado. Aqui, um absurdo com venda.
A França pode estar barata, mas o Brasil está certamente muito caro.
Tem outro exemplo recente: um amigo vendeu um quarto - e sala em Copacabana, mas daqueles apartamentos que só têm vista para as paredes do prédio ao lado, e comprou um dois quartos - sala - cozinha ampla - vaga na garagem, com magnífica vista para o mar.
E ainda colocou um troco no bolso.
Pode?
No atacado, os argumentos - e a aposta - são parecidos. Crise mundial, crescimento baixo no Brasil, inflação desacelerando.
Neste quadro, a redução dos juros locais fez parte de uma ampla política de estímulo a investimentos e consumo, mais este último, com base em mais gasto do governo, crédito público subsidiado ou não e facilidades para a tomada de crédito - a receita clássica.
Para 2009, não deu para salvar. O Brasil enfrentou uma recessão. E a inflação se comportou um pouco abaixo da meta de 4,5%. Mas 2010, por sinal um ano eleitoral, saiu muito bem: o País cresceu 7,5%, nisso replicando o movimento de forte recuperação na economia mundial. Só que a inflação brasileira foi lá para cima. Terminou 2010 com 5,9%, mas entrou acelerada no ano passado.
Ou seja, o País não comportou, mais uma vez, uma forte aceleração do crescimento. Tanto que, em abril de 2010, o Banco Central já começava a subir os juros, e foi numa escalada até os 12,5%.
É muito provável que a história se repita nesta nova tentativa de colocar os juros lá embaixo. E deve ser um problema maior ainda. Reparem: a crise mundial hoje é muito mais leve que a de 2009, quando se estava no auge dos efeitos recessivos do colapso do crédito. O crescimento brasileiro, hoje, embora tenha desacelerado, é muito mais forte do que o de três anos atrás. E a inflação corrente e as expectativas são mais altas hoje do que naquela época.
O governo pode dizer que os estímulos totais ao crescimento são menos intensos. Verdade. Mas o ambiente econômico geral responde mais rápido hoje.
Como em 2009, o governo está muito assustado com a possibilidade de enfrentar um período de baixa num ano eleitoral. Assim, acaba entrando num vale tudo.
O que se pode concluir disso tudo, para além do dia a dia? Eis uma sugestão: os últimos anos mostraram que a capacidade de crescimento do Brasil melhorou, basicamente a partir da estabilidade macroeconômica e da onda global provocada pela fortíssima expansão chinesa. Mas também tivemos vários momentos para mostrar que o Brasil não cresce mais que 4,5% sem gerar mais inflação. Reparem de novo: em 2009, com uma recessão, queda do produto de 0,6%, ainda tivemos inflação de 4,3%, muito alta para tão pouca atividade.
Já na sequência do forte crescimento de 2010, a inflação em 12 meses simplesmente ultrapassou os 7%. E no ano passado, com a expansão pífia de 2,7%, a inflação bateu nos 6,5%, o teto da margem de tolerância.
Como o governo e o Banco Central dizem hoje, direta ou indiretamente, que privilegiam o crescimento, então vai dar inflação mais alta. Até um certo nível, leva-se, mas logo fica pesado e o Banco Central tem de voltar a subir os juros e cortar estímulos.
Ou seja, nos anos recentes, não se fez mais nada de importante para elevar a capacidade de crescimento do País. Nada que elevasse o nível geral de investimentos e reduzisse o pesado custo Brasil.
O governo Dilma - até aqui, ao menos - indica não ter plano de voo de longo prazo. Vai lidando com o dia a dia. A questão, hoje, é saber quanto de inflação vai topar.
Quanto vale? O vilarejo Nicolas - Courbefy fica a 280 km de Paris, tem apenas 19 casas, todas datadas do século 16, assim como o entorno urbano. Está à venda. Sim, todo o vilarejo.
Ocorre que as famílias foram se mudando para a cidade e não ficou ninguém por lá. Conseguiram, porém, se colocar de acordo para vender a coisa toda. A ideia parece clara. O conjunto pode dar um ótimo resort, um parque ou mesmo a sede de uma grande empresa que funcione por ali. A propósito, tem um aeroporto próximo, o de Limoges, a apenas 32 km.
Quanto vale? Exatos US$ 400 mil. Quer dizer, esse foi o preço pedido no primeiro leilão, por meio de um endereço eletrônico encontrado pela colaboradora desta coluna, Karen Iscafh (*).
E querem saber? Não teve lance, pelo menos até a sexta-feira passada.
Até dá para entender. A França está em recessão, como toda a zona do euro. Houve perda de renda e desemprego alto - não é um bom momento para iniciar um investimento que certamente seria pesado.
Mas, gente, vamos reparar no preço. Dá uns R$ 700 mil, valor que estão pedindo, por exemplo, por um apartamento razoável, usado, de três quartos, em Pinheiros. E sai negócio.
Não tem algo errado aí? Pelo preço de um apartamento médio em São Paulo, compra-se uma vila com 19 casas na França.
Na verdade, são duas coisas erradas. Lá, barato e sem mercado. Aqui, um absurdo com venda.
A França pode estar barata, mas o Brasil está certamente muito caro.
Tem outro exemplo recente: um amigo vendeu um quarto - e sala em Copacabana, mas daqueles apartamentos que só têm vista para as paredes do prédio ao lado, e comprou um dois quartos - sala - cozinha ampla - vaga na garagem, com magnífica vista para o mar.
E ainda colocou um troco no bolso.
Pode?
A China e nós - PAULO GUEDES
O GLOBO - 12/03/12
A percepção é a mesma nos dois lados do Atlântico. Os países avançados se excederam, e agora o conserto vai levar alguns anos.
Os países emergentes são as novas fronteiras de crescimento da economia mundial. Assim, permanece enorme o interesse pelo Brasil, como pude constatar em rápido giro pelo exterior neste início de 2012.
Uma pergunta que me fora feita com insistência em Londres, Zurique e Genebra foi também a mais frequente em Nova York, Boston, Chicago, São Francisco e Los Angeles: "A desaceleração econômica da China pode derrubar a dinâmica do crescimento brasileiro?" Ou seja, em que medida a economia brasileira tem uma dinâmica própria de crescimento, com base em seu mercado interno de consumo de massas? Ou teria sido apenas "rebocada" pelas exportações de produtos primários e pelas altas de preços agrícolas na esteira do avanço chinês? É simples descartar os piores receios quanto aos efeitos desfavoráveis da desaceleração econômica chinesa. Foi a entrada dos eurasianos nos mercados globais que empurrou para cima os preços relativos da energia e da comida. A taxa de crescimento dos chineses afeta apenas o ritmo dessa entrada, calibrando sua migração interna de uma economia de subsistência rumo aos grandes centros urbanos. Mesmo que se abrande o ritmo de aumento das compras, a demanda por comida continuará em alta.
Por uma aplicação da Lei de Walras, as condições de equilíbrio geral nesta economia globalizada indicam preços de energia e de alimentação subindo em relação aos salários por muitos anos.
Ademais, as políticas de reflação dos bancos centrais avançados indicam também que devem continuar em alta os níveis absolutos dos preços da comida e dos produtos primários, e não apenas seus preços em relação aos salários. A atuação particularmente pirotécnica do Federal Reserve, o banco central americano, ao desvalorizar continuamente sua moeda, contribui para a aceleração da alta de preços expressos em dólar.
Ainda que caíssem esses preços com a desaceleração chinesa, subiria nosso câmbio flexível, aumentando as exportações e reduzindo as importações de móveis, calçados, têxteis, automóveis, agroindústria — e freando a desindustrialização em curso.
Foi mais fácil desmontar a sinodependência do que falar das reformas de modernização, que, assegurando aumentos de produtividade, sustentariam a dinâmica de crescimento baseada no mercado interno.
Quem fica parado é poste - MELCHIADES FILHO
Folha de S. Paulo - 12/03/12
BRASÍLIA - Uma série de contratempos ameaça o plano de reeditar com Fernando Haddad o sucesso de Dilma Rousseff, que surgiu do nada e ganhou uma eleição dura.
O ex-ministro da Educação tem atributos semelhantes aos da novata de 2010: experiência no serviço público, reputação de gestor e o fato de não ter passado pelo teste das urnas -algo que, se o faz desconhecido do eleitor e até do militante, dá à candidatura um lustro de novidade. A fina estampa fecha o pacote dos sonhos da marquetagem.
A campanha em São Paulo, porém, não largou bem. Por ora, o tratamento do câncer impede que Lula comande as operações.
A construção de Dilma, vale lembrar, começou com quatro anos de dianteira. Foi em 2007 que Lula apresentou a "mãe do PAC".
Sem o ex-presidente do lado, Haddad tem dificuldade em aparecer. Daí seus números esquálidos nas pesquisas. No Datafolha, são 3% de intenção de voto. Em fevereiro de 2010, Dilma já cravava 28%.
A ausência de Lula ajuda a explicar também o bate-cabeças dentro do PT, que se engalfinha por nacos de poder na campanha, e a dificuldade em reproduzir a coalizão federal em São Paulo. O PMDB, que em 2009 já engatava com Dilma, agora insiste no voo solo. Até aqui, Haddad não amarrou nem o PC do B.
Ao candidato conviria uma aliança ampla, pois o antipetismo na cidade é maior que no Brasil. O PT paulista foi o QG dos grandes escândalos da era Lula. Sua passagem pela prefeitura deixou pouca saudade -a boa avaliação de Marta Suplicy na reta final do mandato acabou corroída pela propaganda adversária.
Dilma, que goza de alta popularidade em São Paulo, poderia ajudar. Mas correrá ela o risco de derrota em um tira-teima contra José Serra?
A sorte petista numa eleição tão "nacionalizada" parece depender de outro fator: os eventuais erros do tucano, numerosos em 2010.
O ex-ministro da Educação tem atributos semelhantes aos da novata de 2010: experiência no serviço público, reputação de gestor e o fato de não ter passado pelo teste das urnas -algo que, se o faz desconhecido do eleitor e até do militante, dá à candidatura um lustro de novidade. A fina estampa fecha o pacote dos sonhos da marquetagem.
A campanha em São Paulo, porém, não largou bem. Por ora, o tratamento do câncer impede que Lula comande as operações.
A construção de Dilma, vale lembrar, começou com quatro anos de dianteira. Foi em 2007 que Lula apresentou a "mãe do PAC".
Sem o ex-presidente do lado, Haddad tem dificuldade em aparecer. Daí seus números esquálidos nas pesquisas. No Datafolha, são 3% de intenção de voto. Em fevereiro de 2010, Dilma já cravava 28%.
A ausência de Lula ajuda a explicar também o bate-cabeças dentro do PT, que se engalfinha por nacos de poder na campanha, e a dificuldade em reproduzir a coalizão federal em São Paulo. O PMDB, que em 2009 já engatava com Dilma, agora insiste no voo solo. Até aqui, Haddad não amarrou nem o PC do B.
Ao candidato conviria uma aliança ampla, pois o antipetismo na cidade é maior que no Brasil. O PT paulista foi o QG dos grandes escândalos da era Lula. Sua passagem pela prefeitura deixou pouca saudade -a boa avaliação de Marta Suplicy na reta final do mandato acabou corroída pela propaganda adversária.
Dilma, que goza de alta popularidade em São Paulo, poderia ajudar. Mas correrá ela o risco de derrota em um tira-teima contra José Serra?
A sorte petista numa eleição tão "nacionalizada" parece depender de outro fator: os eventuais erros do tucano, numerosos em 2010.
Bailes e bailes - FÁBIO SEIXAS
FOLHA DE SP - 12/03/12
As três favelas estão no coração do Rio, foram pacificadas há pouco mais de um ano e são peças-chave para a inteligente estratégia de fechar o maciço da Tijuca -o anel de favelas que tem o Maracanã, e a Copa de 2014, no centro.
Sim, ainda há problemas por lá, como as confusões no morro de São Carlos na noite do domingo de Carnaval.
Mas não há como negar que o domínio hoje é do Estado, e não mais do tráfico. O baile de debutantes, experiência já vivida em outras áreas com UPPs, é emblemático.
Essa é a parte bonita da história, o lado que funciona.
O lado B está na periferia.
Os arrastões deixaram as praias e ganharam novos ares. Ontem de manhã, foi na Dutra, na altura de Belford Roxo, Baixada Fluminense. Já Niterói vive noites de terror, com invasões de apartamentos, explosões de caixas eletrônicos e sequestros. Ali perto, no Jardim Catarina, em São Gonçalo, um homem foi morto no sábado.
Em Duque de Caxias, um grupo de milicianos mantinha um clube com palco para shows, caixas-d'água cheias de latas de cerveja e uma central clandestina de TV a cabo com mais de 3.000 assinantes.
Caíram na semana passada. Mas quantos não continuam em pé, lá mesmo e em outros cantos sem UPPs?
A fórmula para resolver, com direito até a momentos de ternura, já se conhece. A questão agora é aritmética. Haverá orçamento para expandir o modelo que está dando certo no centro do Rio? Se não houver, o cenário que se pinta é feio, muito feio.
Longe das UPPs, quem está dando um baile é o crime.
Crescimento? - AÉCIO NEVES
FOLHA DE SP - 12/03/12
O recado, no campo das relações entre o governo e a sociedade, é o de que não é mais possível vender fantasias. Depois de passar boa parte de 2011 prevendo um crescimento acima de 5%, mesmo sabendo que essa era uma meta inatingível em função de distorções na condução da política econômica e da crise mundial, as autoridades se vêm forçadas a encarar a realidade: um crescimento pífio, perto de um terço do registrado em 2010, 50% menor que as previsões oficiais para o ano passado e aquém dos países emergentes.
Constata-se que, além da crise mundial que tem impacto no Brasil, os equívocos da política econômica funcionaram como freios ao setor produtivo, pondo em risco um dos mais relevantes patrimônios da sociedade brasileira: a indústria nacional, que perde competitividade global de forma contínua e crescente. Ao evoluir apenas 1,6% em 2011, o setor puxou para baixo o crescimento da economia como um todo.
O mais grave é que a indústria de transformação, que tem maior intensidade tecnológica, portanto maior valor agregado e estratégico, cresceu menos ainda -ínfimos 0,1%. Ou seja, nada. Abrir mão de avanços na indústria de transformação equivale a abdicar de inovar e desenvolver tecnologia, configurando um ciclo perverso que nos torna reféns de países que fazem exatamente o contrário.
Por fim, as lições. É preciso esquecer o retrovisor e olhar para o futuro, que, no curto prazo, nos cobra ações que neutralizem os efeitos nocivos da sobrevalorização do real e, no médio e longo prazos, nos exige as reformas estruturais (tributária, previdenciária e de relações trabalhista), cuja postergação mina a competitividade da economia brasileira e, sobretudo, turbina o processo de desindustrialização.
A indústria de transformação, que por longas décadas manteve participação superior a 30% na formação do PIB, hoje oscila ao redor de 15% e com tendência de continuar caindo diante da inação oficial.
É ainda mais grave constatar que 2012 começa como terminou 2011: um dia após o anúncio do "pibinho", confirmou-se a queda de 2,1% na produção industrial em janeiro, comparada a dezembro. A CNI aponta queda de 1,4% no faturamento no período.
Esse cenário afeta a todos e, em especial, setores mais expostos à concorrência externa, bem como economias
regionais voltadas ao comércio internacional. Igualmente preocupante é ver, na contramão do sentido de urgência que a crise exige, que o governo toma medidas anacrônicas e ufanistas, que conduzem à perpetuação das ineficiências, ao encarecimento do custo de vida e ao afastamento dos investimentos.
Será Putin tão "mau" assim? - LUIZ CARLOS BRESSER PEREIRA
FOLHA DE SP - 12/03/12
Ele liderou a retomada econômica do país e fez os cidadãos voltarem a ter orgulho de serem russos
O Ocidente tem uma opinião sobre quais são os bons e os maus governantes nos países em desenvolvimento. São "bons" os dirigentes que abrem as portas de seus países para suas empresas multinacionais, para suas exportações e para as operações de suas instituições financeiras. São "maus" os que são nacionalistas e pensam em termos do interesse nacional de seus países; que buscam construir ou consolidar sua nação e garantir seu desenvolvimento industrial.
Vladimir Putin, que acaba de ser eleito presidente da Rússia com enorme maioria, está entre os maus. Não se chega a dizer que é um "ditador" -adjetivo de eleição para os governantes nacionalistas, mas geralmente esquecido quando se trata de um ditador "aliado"-, mas é qualificado de autoritário, de corrupto e de perseguidor de empresários por definição. Será o líder russo tão "mau" assim?
De tanto o Ocidente repetir suas críticas, elas parecem verdadeiras. E certamente há algo de verdade nelas. Mas é preciso considerar os resultados alcançados, o que podemos fazer, primeiro, comparando os oito anos do governo que o antecedeu -de Boris Ieltsin- com os primeiros oito anos do seu governo. E, em seguida, comparar os dois períodos com o Brasil. O crescimento do PIB nesses quatro períodos está no quadro ao lado.
Nos anos 90, Boris Ieltsin era um dos "heróis reformistas" do Ocidente. O único outro governante que com ele podia ser comparado era Carlos Menem, na Argentina, embora fosse sabidamente corrupto e estivesse frequentemente alcoolizado. Durante seu governo, o PIB da Rússia, naquela época inteiramente subserviente ao Ocidente, caiu 24,8%. Foi um desastre nacional.
Nesses anos, o número de suicídios no país aumentou exponencialmente. Já nos oito anos seguintes, sob Putin, o PIB cresceu 83%, e os padrões de vida melhoraram.
Não é difícil, portanto, compreender por que o povo russo tem lhe dado um apoio tão forte. Ele não só liderou a retomada do desenvolvimento econômico; também fez os russos voltarem a se orgulhar de serem russos. E isso não é pouco.
Mas não era de se esperar para a Rússia esse crescimento extraordinário? Se fosse, seria também de se esperar para o Brasil. Afinal, os dois países são Brics. Entretanto, enquanto entre 2000 e 2008 o PIB brasileiro cresceu 38,8%, o russo cresceu mais que o dobro. Parte do crescimento russo foi para recuperar a perda. Deixemos dois anos de lado e comparemos o período de 2002 a 2010. O resultado é ainda favorável aos russos: 36,6% para o Brasil contra 44,8% para a Rússia, não obstante esta tenha sido atingida mais duramente pela crise de 2008.
Logo, considerando-se os dados apresentados, fica difícil considerar Vladimir Putin "mau", e o povo russo, incompetente por elegê-lo. Não poderíamos, então, recorrer ao critério ético? Esse não é o critério do Ocidente, mas pode ser o nosso.
Mas é preciso considerar que os grandes políticos raramente são santos. São sempre ambiciosos, implacáveis com seus adversários e nem sempre muito honestos, mas muitos combinam esses defeitos com competência e espírito público. Logo, se julgarmos os políticos apenas de acordo com critérios éticos, teremos que rejeitar muitos que sempre consideramos estadistas.
Ao avaliarmos os governantes, é mais razoável ver aquilo que eles realmente fazem por seus países.
Dados grávidos - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
O Estado de S. Paulo - 12/03/12
Nos EUA, um pai ficou indignado ao encontrar, na sua caixa de correio, cupons de desconto para roupas de bebê enviados por uma cadeia de varejo em nome de sua filha menor de idade. Acusou a loja de tentar induzir a garota a ser mãe precocemente. Mas, após confrontar a adolescente, descobriu que a filha já estava grávida. Só ele não sabia.
Os estatísticos da loja de departamentos Target não tiveram acesso a nenhum teste de gravidez. Apenas inferiram que aquela consumidora iria dar à luz cruzando informações de compras: a mudança no seu padrão de consumo era consistente com o de outras grávidas. Foram tão precisos quanto um exame de ultrassom.
A história - quase boa demais para ser verdade - ilustra reportagem do The New York Times intitulada Como companhias aprendem os seus segredos. A rigor, não é dos segredos de uma pessoa, mas dos hábitos da multidão, que as empresas estão atrás. Juntando os seus aos meus, descobrem os nossos. Tudo para determinar padrões e prever comportamentos. No conjunto, somos muito mais parecidos uns com os outros do que gostamos de admitir.
Na reportagem, analistas da Target revelaram, orgulhosos, como são capazes de prever, com pequena margem de erro, a data do parto ou o sexo da criança. Tudo com base no consumo de loção de pele, na quantidade de tufos de algodão comprados e na cor do tapete encomendado para o quarto do bebê. Esses itens fazem parte de uma cesta de 25 produtos que compõem o "índice de predição de gravidez" criado pela loja. Não é piada, é dinheiro.
Você pode achar que ninguém está prestando muita atenção em como usa seu cartão de crédito, no que faz com seu mouse e com seu celular ou por onde você anda com seu carro, mas isso não muda o fato de que há gente cuja missão profissional é colecionar, organizar e analisar dados sobre você. É íntimo, mas não é pessoal: é universal.
Código numérico. No mundo do chamado "Big Data", o nome importa menos que o CPF, que o endereço eletrônico ou que o número do cartão de crédito. Importante é juntar dados sobre a maior massa possível de consumidores, contribuintes, motoristas e internautas. Não para espioná-los - em princípio -, mas para transformar cada um deles num código numérico unificado. Afinal, há menos algarismos do que letras, o que agiliza a computação.
Há cada vez melhores aplicativos para reconciliar bilhões de dados de diferentes origens com o objetivo de determinar que o dono do CPF "tal" é também a pessoa por trás daquele e-mail, deste cartão de crédito, de certo endereço I.P. e - por que não? - de um determinado título de eleitor.
Na caça ao seu voto, políticos fazem "microtargeting". O site Pro Publica relatou como um casal norte-americano recebeu ao mesmo tempo, enquanto ambos assistiam à TV no sofá, duas mensagens diferentes do comitê de campanha de Barack Obama em seus celulares. Com palavras e argumentos diversos, elas pediam a mesma coisa: dinheiro. O site descobriu pelo menos seis versões diferentes da mesma mensagem disparadas para os celulares de possíveis apoiadores do presidente dos EUA.
A diferenciação da forma se deve a diferentes estratégias elaboradas pelos marqueteiros de Obama para diferentes perfis de eleitor. A meta é evocar o tema que mais interessa a cada um, no momento certo e do jeito que, imaginam, tornará o apelo mais sedutor - do mesmo jeito que a Target manda cupons de desconto de roupas de bebê para adolescentes grávidas.
Enquanto isso, a Casa Branca tenta regular a fome de dados das empresas. Propôs a lei de direitos de privacidade do consumidor. O texto prevê transparência por parte das empresas, controle individual dos consumidores sobre suas informações e limites ao uso dos dados. Mas, como os e-mails de campanha demonstram, o próprio Obama pratica microtargeting.
No Brasil, a técnica foi usada em campanhas de presidente e governador, em 2010. Apesar da carência de dados - quando comparadas às bases de dados dos EUA, onde o marqueteiro conhece centenas de características de cada eleitor -, estrategistas de Marina Silva e Sergio Cabral, por exemplo, conseguiram "fatiar" o eleitorado e desenvolver um tipo de campanha para cada segmento, de acordo com seus interesses e prioridades.
É algo que está fazendo falta ao governo federal. Não só para avaliar políticas públicas com eficiência, mas para mirar com precisão os interesses de cada parlamentar da chamada base aliada. Sem esse controle fino, o Planalto corre o risco de, como o pai daquela adolescente grávida, ser o último a saber das estripulias de seus afilhados no Congresso.
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