sábado, janeiro 28, 2012

1BRAZIU ÇEGURO


Gambiarras para a Copa - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 28/01/12


Reportagem do jornal Valor (25/1) não deixa dúvidas de que, das 46 obras de transporte urbano projetadas para atender o público que assistirá aos jogos da Copa do Mundo, poucas estarão prontas a tempo. O problema vem preocupando os dirigentes esportivos internacionais, que fazem seguidas cobranças públicas às autoridades brasileiras - sem resultados aparentes. Principal agente financeiro desses empreendimentos, a Caixa Econômica Federal reservou R$ 5,3 bilhões para emprestar aos Estados e municípios que sediarão jogos da Copa. Mas, como mostrou o Valor, a menos de 30 meses do início da competição, a Caixa liberou apenas R$ 194 milhões, ou 3,7% do que já poderia ter liberado. Das dezenas de projetos, poucos saíram do papel.

Definidas pelo governo como ações de mobilidade urbana nas 12 cidades que sediarão jogos da Copa, essas obras envolvem melhoria do sistema viário e construção e operação de novos sistemas de transporte de passageiros, como veículos leves sobre trilhos (VLT) e transporte rápido por ônibus, ao custo estimado de R$ 13,5 bilhões. Elas se destinam também a facilitar a movimentação da população dessas cidades.

Há dois anos, preocupado com o atraso dos preparativos para a competição, o governo federal, em parceria com os governos dos Estados e as prefeituras dos municípios onde haverá jogos, montou o que ficou conhecido como matriz de responsabilidades, com a definição das atribuições de cada instância de governo e cronogramas. Em setembro do ano passado, como persistiam atrasos e indecisões, a matriz foi revisada, com novos prazos e atribuições. De lá para cá, porém, muito pouca coisa avançou. Pelo menos 19 obras que deveriam ter avançado de setembro para cá continuam sem cumprir o cronograma, como mostrou o Valor.

Pedidos de financiamento feitos à CEF vêm acompanhados de projetos de má qualidade, o que impede a aprovação. Em alguns casos, as autoridades locais ou regionais alteraram os projetos iniciais, optando por outros mais complexos e mais caros, o que comprometeu prazos e a obtenção da indispensável aprovação das autoridades da área ambiental. Em outros casos, os governos nada têm feito.

"O tempo está passando e não vai dar tempo para fazer muita coisa", admitiu o presidente do Sindicato da Arquitetura e da Engenharia em São Paulo, José Roberto Bernasconi. "Podemos acelerar obras absolutamente cruciais e realizar operações especiais, mas isso não é muito mais do que gambiarra, diante do que deveríamos ter."

Eis aí um resumo de como o poder público está preparando o País para a Copa: com gambiarras, com medidas improvisadas, com soluções provisórias.

Casos descritos na reportagem citada do jornal Valor não deixam dúvidas quanto à ineficiência da ação das autoridades. Caso exemplar é o do contrato para a construção do VLT de Brasília, com 22,6 quilômetros de extensão e 25 estações, assinado há três anos. O projeto foi dividido em três etapas, a primeira das quais talvez - não é certo - seja concluída até 2014. Por interferir na estrutura urbana de Brasília, o projeto vem sendo questionado na Justiça. Além disso, o contrato assinado em 2009, de R$ 1,5 bilhão, foi anulado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal, por suspeita de fraude. Do pouco que se conseguiu realizar - menos de 3% das obras -, boa parte está enferrujando.

Outro exemplo apontado pelo Valor é o das obras do monotrilho de Manaus, com 20,2 quilômetros de extensão, que deveriam ter começado em novembro passado, para estarem prontas até a Copa. Irregularidades identificadas pela Controladoria-Geral da União e pelo Ministério Público Federal, no entanto, impediram a aprovação do financiamento, sem o qual não haverá interessados na execução da obra. Em Salvador e Cuiabá, o projeto inicial de BRT, que já tinha financiamento contratado, foi substituído por outros pelas autoridades locais.

Dos demais projetos de mobilidade urbana inscritos na matriz de responsabilidade, 6 cumprem parcialmente o cronograma, 14 estão dentro do prazo e 7 já estão com as obras em andamento.

EU SOU LINDA - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 28/01/12


Gaby Amarantos, chamada de Beyoncé do Pará, foi clicada para a "Vogue", no Rio. A cantora de tecnobrega será a mestre de cerimônias do baile de Carnaval da revista, no dia 10, no hotel Unique. "Na periferia nenhuma menina está preocupada se vai caber num jeans 36. Me acho gostosa, linda e tenho a autoestima elevada ao exagero. Tenho um biótipo robusto e não vou passar fome por isso."

OPEN BAR
Um mês depois de desistir de colocar no texto da Lei Geral da Copa a liberação permanente -ou seja, não apenas no Mundial- da venda de bebidas alcoólicas nos estádios por pressão do Ministério da Saúde, o relator do projeto, Vicente Cândido (PT-SP), trabalha para permitir a comercialização em todas as arenas do país. O deputado se reuniu anteontem com o ministro Alexandre Padilha e com o ex-presidente do Corinthians Andrés Sanchez, diretor de seleções da CBF. E diz que Padilha não vai se opor à liberação.

COM MODERAÇÃO
Cândido propõe permitir a venda em bares, restaurantes e camarotes nas arenas e vetar a oferta de álcool nas arquibancadas depois da Copa. Os clubes seriam responsabilizados por eventuais excessos dos torcedores. "O ministro concorda que não se deve penalizar só um setor, que são os bares e restaurantes dos estádios. Não vai se opor à regulamentação e deixará o Congresso decidir."

É COM ELES
Na reunião, Sanchez disse que haverá 18 pontos de venda de alimentos no Itaquerão. O ministro Padilha, por meio de sua assessoria, diz que o debate para liberar bebida nos estádios depois da Copa "está no Congresso". E que ele não vai interferir por não ser de sua alçada.

MANCHADO
A Mancha Alviverde, torcida do Palmeiras, pode ser multada em até R$ 55 mil por ter exibido uma faixa com os dizeres "A homofobia veste verde" no início do mês. Era um protesto contra a eventual contratação do volante Richarlyson pela equipe. A Secretaria Estadual da Justiça abriu processo contra a uniformizada, para apurar crime de discriminação.

TATAME
O vereador Antonio Carlos Rodrigues, líder do PR em SP, diz que seu preferido, caso o partido indique o vice de Fernando Haddad (PT-SP), é o colega de Câmara e ex-judoca Aurélio Miguel. "Se depender de mim é ele, mas o Aurélio está fora do país. Quero conversar com ele quando voltar."

FAMÍLIA VENDE TUDO
Geladeiras, fogões industriais, mesas, cadeiras e louças do restaurante Leopolldina estão à venda na Villa Daslu até hoje. O espaço, que era comandado pelo chef Giancarlo Bolla no prédio da butique, fechou as portas.

CASA NA TRIBUNA
A Casa Cor passará a ocupar neste ano os dois prédios principais do Jockey Club de SP, a Tribuna 1 e a Tribuna 2.

ESTILO CARIOCA
A grife Maria Filó assinará uma coleção para a C&A. As peças começam a ser vendidas em março.

CÃO SEDOSO
A nova oferta em petshops é um hidratante para patas e cotovelos de cachorros. Custa em torno de R$ 14.

PARA VER E SER VISTO
A atriz Camila Pitanga, a modelo Luciana Curtis, a cantora Fafá de Belém, o ex-jogador Raí e Dimitri Mussard, herdeiro da grife Hermès, foram algumas das personalidades que sentaram na primeira fila dos desfiles da São Paulo Fashion Week.

DIÁRIO DE BORDO
O velejador David Schürmann lançou o livro "Ao Vento", anteontem, na Livraria da Vila dos Jardins. A fotógrafa Giovanna Nucci, entre outros convidados, compareceu ao evento.

CURTO-CIRCUITO

Bailarinos da SP Companhia de Dança farão improvisação hoje, às 17h, na estação Brás do metrô.

Sean Kingston se apresenta no clube Royal na quinta. 18 anos.

O cantor Siba lança o disco "Avante" com shows nos dias 9 e 10, às 21h, no Sesc Vila Mariana. 12 anos.

Pedro Mariano canta no dia 4, às 22h, no Citibank Hall, em Moema. 14 anos. Felipe Candiota lança hoje, às 16h, o livro "Brazil Hotels", na Livraria da Vila dos Jardins.

A galeria Deco abre no dia 4 a exposição coletiva "Soma das Formas".

com DIÓGENES CAMPANHA (interino), LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

Dilma em Cuba - EDITORIAL FOLHA DE SP


FOLHA DE SP - 28/01/12

A acolhida do Itamaraty ao pedido de visto da jornalista cubana Yoani Sánchez para visitar o Brasil nas próximas semanas coaduna-se com a recente inflexão do governo brasileiro no tratamento dado ao tema dos direitos humanos em sua política externa.
Embora protocolar, a concessão do visto de turista a uma notória crítica do regime castrista ganha simbolismo político, por ter ocorrido dias antes da visita à ilha que a presidente Dilma Rousseff inicia na terça-feira. Não chega, contudo, a configurar uma afronta a Havana.
Sánchez registrou, em sua página na internet, que ainda falta "o mais difícil": uma autorização de saída do país, que já lhe foi negada em tentativas anteriores. Não se devem esperar do governo brasileiro novos gestos em seu favor.
Tampouco parece realista a demanda de exilados e críticos do regime castrista para que Dilma se manifeste, em Cuba, sobre o tema dos direitos humanos. Pressões nesse sentido se seguiram à morte do preso político Wilman Villar, na semana passada. O dissidente, em greve de fome havia mais de 50 dias, sofria de pneumonia.
Assessores do Planalto procuram ressaltar o caráter comercial da visita, durante a qual a presidente deve discutir investimentos em Cuba e a oferta de crédito para que agricultores locais adquiram maquinário de colheita e irrigação. Além disso pesa o princípio, corretamente seguido pelo Itamaraty, de não ingerência em assuntos internos de outros países.
Seria todavia possível conciliar tais objetivos com uma manifestação mais explícita, ainda que não estridente, em relação ao regime castrista. Uma declaração do Brasil acerca de direitos humanos e liberdades democráticas, feita antes do embarque, seria conveniente e teria sem dúvida peso para o governo daquele país.
Trata-se, ademais, de uma oportunidade para a diplomacia brasileira ganhar credibilidade nas discussões multilaterais sobre o tema. O país obteve pontos quando a presidente condenou uma sentença de morte por apedrejamento no Irã, retificando a posição tolerante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o regime dos aiatolás.
É improvável, no entanto, que a mandatária faça um novo e mais explícito gesto nessa direção. Contra ele pesam os laços sentimentais e a manifesta admiração, por parte de dirigentes do PT, pela esclerosada ditadura cubana.

A vazão no guichê - ANTONIO MACHADO

ESTADO DE MINAS - 28/01/12


O mapa das operações de crédito em dezembro, divulgado pelo Banco Central, acumula-se a outras evidências - já vistas no déficit das contas externas e na redução da Selic em meio à taxa de desemprego em recorde de baixa, representando 4,7% da população economicamente ativa (PEA) -, de que a economia, em linhas gerais, vai muito bem. O problema que preocupa é como tais dados interagem entre si.

O estoque do crédito total, que o BC previa no início de 2011 que crescesse entre 12% e 15%, pressionando menos a demanda e, assim, a inflação, avançou 19%, pouco abaixo do aumento de 20,6% em 2010.

Pode-se dizer é que, na falta das medidas acionadas em dezembro de 2010 para conter a expansão do multiplicador bancário, sobretudo do crédito ao consumo, e já parcialmente revogadas, além de instruir o BNDES a se conter, a inflação teria terminado 2011 bem acima de seu resultado no ano, 6,5%, superando o teto do intervalo de variação.

Mais certo é inferir que o governo jamais desejou que o BC mirasse a convergência da inflação para o centro da meta, 4,5%, conforme já havíamos dito, nesta coluna, em janeiro de 2011. A desinflação mais suave, vê-se agora pelo retrovisor, foi providencial para preservar o ritmo de crescimento da economia, sem leva-la a capotar.

A passagem de 2010 (quando o Produto Interno Bruto, PIB, progrediu desestabilizadores 7,5%) para 2011 ensejava duas rotas: a típica do governo passado, em que o BC de Henrique Meirelles nunca deu margem a laxismos antes de relaxar em 2010 para dar o tal Pibão a Lula, ou um caminho inovador. O BC de Alexandre Tombini orientou-se pelo GPS da presidente Dilma Rousseff e do ministro Guido Mantega - e não se pode dizer que levou a economia a um mato sem cachorro.

O resultado do PIB em 2011 será divulgado pelo IBGE em 6 de março, mas já se sabe por indicadores antecedentes que a redução do ritmo de crescimento foi significativa. O consenso é que o PIB cresceu em torno de 3%. Provavelmente teria entrado em recessão, se a política monetária fosse operada conforme os padrões anteriores.

Ainda assim, era o que se delineava ao fim de agosto, quando o BC intuiu que pisara demais no freio e começou a desinchar a Selic, então a 12,50%, além de afrouxar as amarras do crédito ao consumo.


A origem e o destino

A redução seriada da taxa básica de juro já a trouxe, desde então, a 10,50%, e o BC seguirá desinflando-a, como explicitou na ata do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada na quinta-feira. O próximo piso está estimado pelo mercado entre 9% e 9,5% até maio.

Já o crédito - embora vá de vento em popa, em termos de estoque, tendo chegado a 49,1% do PIB, contra 45,2% em 2010 e 43,7% em 2009 - evolui de modo distinto, conforme a sua origem e o seu destino.


Propensão à cautela

O crédito direcionado (normalmente subsidiado) cresceu 2,9% sobre novembro e 23,2% sobre dezembro de 2010. E o crédito livre, 1,9% no mês e 16,8% no ano. No estoque, portanto, não houve retração.

As coisas se invertem no fluxo, a medida relevante para acelerar a produção e consumo. Em dezembro, os novos créditos a pessoas caíram 3,4% em relação a novembro e subiram 8,9% sobre igual mês de 2010. E às empresas, recuaram 0,3% no mês e cresceram 7,8% sobre dezembro de 2010. A menor propensão a dividas segurou a inadimplência, após cinco meses em alta. Para pessoa física, está em 7,3%, maior nível desde janeiro de 2010. Para empresas, em 3,9%.


Sempre o velho dilema

Em geral, detectam-se dois vieses: rigor maior da banca no exame de novos créditos, e interesse menor da clientela em ampliar o seu grau de endividamento, mesmo com a redução dos juros efetivos. Tal comportamento contraria a expectativa do governo, que quer agitar a demanda, temendo outro ano de PIB girando a 3%. E, para tal fim, o jeito mais fácil é induzir o consumidor a se endividar.

Na condição atual, a projeção é que o aumento do saldo do crédito em 2012 repita a taxa de 2011. Não é ruim, se a banca, sobretudo a privada, servir mais a produção que o consumo, aliviando a pressão sobre o BNDES, que será intensa devido ao maior comprometimento do governo com o investimento, especialmente em infraestrutura. O mix entre o curto e o longo prazo é o dilema de sempre da economia.

Prazeres da "melhor idade" - RUY CASTRO


Folha de SP - 28/01/12

RIO DE JANEIRO - A voz em Congonhas anunciou: "Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.". Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a "melhor idade" -algo entre os 60 anos e a morte.

Para os que ainda não chegaram a ela, "melhor idade" é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica.

Privilégios da "melhor idade" são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão lembrando placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais. Ou seja, nós, da "melhor idade", estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão.

Outra característica da "melhor idade" é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de Rivotril, Lexotan e Frontal que seus médicos lhes receitam e depois não conseguem retirar.

Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boemia carioca, o rapaz perguntou: "Voltando da farra, Ruy?". Respondi, eufórico: "Que nada! Estou voltando da farmácia!". E esta, de fato, é uma grande vantagem da "melhor idade": você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir.

Oposição sem rumo - MARCO ANTONIO VILLA


O Estado de S.Paulo - 28/01/12


Nesta semana fomos surpreendidos por uma entrevista de Fernando Henrique Cardoso. Não pela entrevista, claro, mas pela análise absolutamente equivocada da conjuntura brasileira. Esse tipo de reflexão nunca foi seu forte. Basta recordar alguns fatos.

Em 1985 iniciou a campanha para a Prefeitura paulistana tendo como aliados o governador Franco Montoro e o governo central, que era controlado pelo PMDB, além da própria Prefeitura, sob o comando de Mário Covas. Enfrentava Jânio Quadros, um candidato sem estrutura partidária, sem programa e que entrou na campanha como livre atirador. Fernando Henrique achou que ganharia fácil. Perdeu.

No ano seguinte, três meses após a eleição municipal, propôs, em entrevista, que o PMDB abandonasse o governo, dias antes da implementação do Plano Cruzado, que permitiu aos candidatos da Aliança Democrática vencer as eleições em todos os Estados. Ele, aliás, só foi eleito senador graças ao Cruzado.

Passados seis anos, lutou para que o PSDB fizesse parte do governo Fernando Collor. Ele seria o ministro das Relações Exteriores (e o PSDB receberia mais duas pastas). Graças à intransigência de Covas, o partido não aderiu. Meses depois, foi aprovado o impeachment de Collor.

Em 1993, contra a sua vontade, foi nomeado ministro da Fazenda por Itamar Franco. Não queria, de forma alguma, aceitar o cargo. Só concordou quando soube que a nomeação havia sido publicada no Diário Oficial (estava no exterior quando da designação). E chegou à Presidência justamente por esse fato - e por causa do Plano Real, claro.

Em 2005, no auge da crise do mensalão, capitaneou o movimento que impediu a abertura de processo de impeachment contra o então presidente Lula. Espalhou aos quatro ventos que Lula já era página virada na nossa História e que o PSDB deveria levá-lo, sangrando, às cordas, para vencê-lo facilmente no ano seguinte. Deu no que deu, como sabemos.

Agora resolveu defender a tese de que a oposição tenha um candidato presidencial, com uma antecedência de dois anos e meio do início efetivo do processo eleitoral. É caso único na nossa História. Nem sequer na República Velha alguém chegou a propor tal antecipação. É uma espécie de dedazo, como ocorria no México sob o domínio do PRI. Apontou o dedo e determinou que o candidato tem de ser Aécio Neves. Não apresentou nenhuma ideia, uma proposta de governo, nada. Disse, singelamente, que Aécio estaria mais de acordo com a tradição política brasileira. Convenhamos que é um argumento pobre. Ao menos deveria ter apresentado alguma proposta defendida por Aécio para poder justificar a escolha.

A ação intempestiva e equivocada de Fernando Henrique demonstra que o principal partido da oposição, o PSDB, está perdido, sem direção, não sabendo para onde ir. O partido está órfão de um ideário, de ao menos um conjunto de propostas sobre questões fundamentais do País. Projeto para o País? Bem, aí seria exigir demais. Em suma, o partido não é um partido, na acepção do termo.

Fernando Henrique falou da necessidade de alianças políticas. Está correto. Nenhum partido sobrevive sem elas. O PSDB é um bom exemplo. Está nacionalmente isolado. Por ser o maior partido oposicionista e não ter definido um rumo para a oposição, acabou estimulando um movimento de adesão ao governo. Para qualquer político fica sempre a pergunta: ser oposição para quê? Oposição precisa ter programa e perspectiva real de poder. Caso contrário, não passa de um ajuntamento de vozes proclamando críticas, como um agrupamento milenarista.

Sem apresentar nenhuma proposta ideológica, a "estratégia" apresentada por Fernando Henrique é de buscar alianças. Presume-se que seja ao estilo petista, tendo a máquina estatal como prêmio. Pois se não são apresentadas ideias, ainda que vagas, sobre o País, a aliança vai se dar com base em qual programa? E com quais partidos? Diz que pretende dividir a base parlamentar oficialista. Como? Quem pretende sair do governo? Não será mais uma das suas análises de conjuntura fadadas ao fracasso?

O medo de assumir uma postura oposicionista tem levado o partido à paralisia. É uma oposição medrosa, envergonhada. Como se a presidente Dilma Rousseff tivesse sido eleita com uma votação consagradora. E no primeiro turno. Ou porque a administração petista estivesse realizando um governo eficiente e moralizador. Nem uma coisa nem outra. As realizações administrativas são pífias e não passa uma semana sem uma acusação de corrupção nos altos escalões.

O silêncio, a incompetência política e a falta de combatividade estão levando à petrificação de um bloco que vai perpetuar-se no poder. É uma cruel associação do grande capital - apoiado pelo governo e dependente dele - com os setores miseráveis sustentados pelos programas assistencialistas. Ou seja, o grande capital se fortalece com o apoio financeiro do Estado, que o brinda com generosos empréstimos, concessões e obras públicas. É a privatização em larga escala dos recursos e bens públicos. Já na base da pirâmide a estratégia é manter milhões de famílias como dependentes de programas que eternizam a disparidade social. Deixam de ser miseráveis. Passam para a categoria da extrema pobreza, para gáudio de alguns pesquisadores. E tudo temperado pelo sufrágio universal sem política.

Em meio a este triste panorama, não temos o contradiscurso, que existe em qualquer democracia. Ao contrário, a omissão e a falta de rumo caracterizam o PSDB. Para romper este impasse é necessário discutir abertamente uma proposta para o País, não temer o debate, o questionamento interno, a polêmica, além de buscar alianças programáticas. É preciso saber o que pensam as principais lideranças. Numa democracia ninguém é líder por imposição superior. Tem de apresentar suas ideias.

Manter o sonho - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 28/01/12



O Fórum Econômico Mundial chega ao fim aqui em Davos com um saldo bastante favorável. Pela primeira vez nos últimos anos, desde que a crise econômica se acentuou no final de 2008, não se viam debates tão objetivos e resultados tão eloquentes quanto os desta edição.

O pessimismo com que está sendo visto o futuro da Europa se transformou em esperança de que passos concretos serão dados nos próximos dias e meses, como a assinatura do acordo de convergência fiscal que deve ser assinado no final do mês.

O presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, classificou esse acordo como fundamental para restaurar a credibilidade da União Europeia, e acentuou que até meses atrás nenhum país se dispunha a abrir mão de sua soberania para aceitar regras fiscais comuns.

O acordo a ser assinado seria o primeiro passo para um programa fiscal único na União Europeia, com uma supervisão acima dos estados nacionais.

O presidente do BCE fez esse diagnóstico momentos depois de uma sessão que reuniu ministros da área econômica da zona do euro, que também passaram uma mensagem esperançosa com o futuro que está sendo negociado.

O acordo de convergência fiscal foi considerado por eles como um passo essencial para restaurar a confiança em suas economias em apuros.

"Estamos reconstruindo a estrutura econômica da Europa", comemorou o Comissário Europeu para Assuntos Econômicos e Monetários, Olli Rehn, acrescentando que para tal há a necessidade de um acordo fiscal comum.

Já o ministro dos Negócios Econômicos e Competitividade da Espanha, Luis de Guindos Jurado, ressaltou que a palavra chave a esta altura é "prevenção", e todos estão empenhados em prevenir uma crise fiscal e desequilíbrios externos que aconteceram no passado, com um tremendo custo humano, salientou, referindo-se ao desemprego em taxas alarmantes, especialmente entre os jovens, e sobretudo na Espanha.

Para o ministro espanhol, o passo vital para restituir a confiança na Europa é o quadro institucional que vier a ser adotado, e o compromisso dos países de cumpri-lo.

O ministro Guindos Jurado garantiu que já há um consenso na Europa de que é preciso evitar os erros cometidos no passado.

Mas ficou claro durante o debate que ainda existem muitas divergências em medidas importantes que teriam que ser tomadas, como, por exemplo, a adoção da proteção (firewall) para países como Itália e Espanha, para prevenir a disseminação do pânico no caso de uma situação sair do controle.

Com relação ao lançamento de Eurobonds, a dificuldade é que a Europa precisa criar primeiro uma estrutura fiscal comum, como salientou o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble.

Os ministros econômicos concordaram que a reestruturação da dívida da Grécia, o grande problema atual, está bem encaminhada, e todos se manifestaram otimistas quanto a um resultado positivo.

Schäuble chegou mesmo a dizer que não acreditava que a Grécia pudesse quebrar, sendo apoiado pelo Comissário Rehn, que concordou que o acordo grego com seus credores está perto de ser fechado.

François Baroin, ministro da Economia, Finanças e Indústria da França, ressaltou que a decisão do Banco Central Europeu de garantir fundos ilimitados para os empréstimos foi um esforço muito bem-vindo para ajudar a combater a crise.

Como o BCE é percebido como um órgão independente, ressaltou Baroin, a garantia por três anos reduziu consideravelmente as tensões no sistema bancário europeu, e ajudará na recuperação da confiança.

Já tratando o assunto como resolvido, o ministro francês disse que agora a Europa tem que pensar em como voltar a crescer. O ministro espanhol Guindos concordou, lembrando que a liquidez não é a cura final dos problemas, mas apenas uma ajuda importante.

A cura final virá com crescimento e mais empregos, ressaltou, refletindo a preocupação com a taxa altíssima de desemprego em seu país.

Vários painéis foram realizados para discutir o futuro da Europa, tanto do lado prático quanto do lado psicológico.

A necessidade de um forte corte nos gastos é ponto pacífico entre os debatedores, mas também há o consenso sobre o papel desse aperto fiscal: ele não ajudará os países da zona do euro a crescer.

Uma proposta surgida num dos painéis foi a de diminuir o tamanho do Estado, que pode chegar em alguns países a 50% do PIB.

Um corte em subsídios, especialmente na agricultura, poderia fornecer dinheiro para investimentos na infraestrutura, que além de modernizar os países geraria empregos imediatos.

Outra preocupação é com a inclusão da juventude no mercado de trabalho, e a educação técnica na França, ligada a grandes projetos, é um exemplo a ser seguido.

Mesmo com todas as dificuldades, não há consenso sobre a necessidade de reduzir o estado de bem-estar social.

É majoritária a ideia de que tudo pode continuar como está, com pequenos ajustes, inclusive porque as reformas do mercado de trabalho, ou ajustes no sistema de previdência, são temas politicamente delicados que devem ser tratados como metas de longo prazo.

No painel onde os aspectos subjetivos da crise europeia foram discutidos, houve um acordo sobre as consequências na identidade da região, questionando-se especialmente até que ponto sua história comum, valores compartilhados e conquistas recentes serão suficientes para manter a unidade do grupo.

Apesar de existir o receio de que a crise possa favorecer o surgimento de populismos divisionistas, o anseio maior é de que a Europa continue sendo um exemplo de democracia, capaz de oferecer um modelo social alternativo.

Energia cara demais - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 28/01/12


A maioria dos países produz energia elétrica a partir de matéria-prima cada vez mais cara: petróleo, gás, urânio enriquecido ou carvão mineral. No Brasil, 75% da geração provém de recursos obtidos a custo operacional próximo de zero: água de rios ou vento.

Seria o suficiente para garantir a tarifa mais barata do mundo. Mas, desgraçadamente, acontece o contrário: a energia elétrica tupiniquim para a indústria já é a quarta mais cara (veja tabela). É um dos itens que mais derrubam a competitividade da produção nacional.

Na média, a indústria brasileira paga R$ 329,00 por megawatt/hora (MWh), 35% acima da média mundial, de R$ 215,50 por MWh - aponta a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro.

Tomando-se apenas países da sigla Bric, a tarifa do Brasil é 43% superior à da Índia; 57%, à da China; e 72%, à da Rússia. (Cálculos feitos a partir de dados da Aneel e da Agência Internacional de Energia).

Além da China, Estados Unidos e Alemanha são os maiores concorrentes comerciais do Brasil. Lá o produtor paga, respectivamente, 35% e 62% a menos.

Quase um terço do custo do quilowatt/hora consumido pela indústria do Brasil é imposto - sobretudo ICMS e PIS-Cofins. Na Alemanha, no Chile, no México e em Portugal, o tributo embutido na energia é zero - seus governos entendem que não se pode prejudicar a competitividade da produção interna. Por aqui, a voracidade tributária dos Estados e do governo federal prevalece sobre a necessidade de criar empregos e de reduzir o custo Brasil.

(Atenção: a comparação de todos esses custos está sujeita a variações cambiais e pode mudar todos os dias.)

Outros 17,5% do custo no Brasil são formados por encargos setoriais pagos ao governo para desenvolvimento do setor e pelo uso do sistema de transmissão.

Levando-se em conta apenas geração, transmissão e distribuição (média estimada em R$165,50), o custo do MWh no País ainda ultrapassa as tarifas cheias (incluídos aí os impostos) de China, Estados Unidos, Argentina e Rússia. É gol contra do Brasil especialmente agora quando a crise global - de desfecho ainda imprevisível - acirra a luta pela conquista dos mercados.

Carlos Eduardo Spalding, vice-presidente do Conselho Diretor da Associação Brasileira de Consumidores Industriais de Energia e conselheiro da Confederação Nacional da Indústria, lembra que, em 2015, vencem concessões equivalentes a 20% da capacidade de geração de energia. "Grande oportunidade para baixar tarifas." Mas nada indica que o governo pense assim.

Para Spalding, o preço da geração da energia teria de cair no mínimo 35% para, ao menos nesse ponto, o produto brasileiro voltar a conferir competitividade.

A questão tributária envolve complicadas negociações, congeladas sempre que a reforma volta à pauta. Se prevalecer a visão de que o ICMS seja cobrado pelo Estado do destino da mercadoria (ou do insumo) e não pelo da origem, alguns perderão enorme fonte de renda, como o Paraná - onde está Itaipu, a maior hidrelétrica do País.

Berço esplêndido até quando? - ROBERTO RODRIGUES


FOLHA DE SP - 28/01/12

Nós aqui, sem estratégia, ainda criamos dificuldades para atrair investidores; sem falar no custo Brasil

Alguns dos principais líderes mundiais públicos e privados estão reunidos na gelada Davos, na Suíça, debatendo acaloradamente o futuro. A crise financeira da Europa -com seus reflexos na economia global- está por trás das discussões todas.

Como sempre, analistas farão as mais variadas previsões, das quais muitas jamais se confirmarão.

É o World Economic Forum (WEF), onde os dirigentes têm uma excelente oportunidade de trocar ideias e experiências, além de entabular negócios.

E, finalmente, a agricultura ganhou importância no temário geral, empurrada pelas questões ligadas ao combate à fome e ao aquecimento global, entre outros fatores.

Um competente grupo de trabalho foi constituído para estudar o assunto, e construiu o documento "Uma nova visão para a agricultura", alicerçado em três pilares (segurança alimentar, sustentabilidade e oportunidade econômica).

Ele estabelece o Compromisso 20/20/20, propondo que a cada década o planeta aumente a produção agrícola em 20%, reduza as emissões de gases de efeito estufa em 20% e diminua a pobreza rural em outros 20%.

Naturalmente, cada um desses pilares tem uma variada receita de propostas e projetos que passam pelo uso de novas tecnologias, minimização de desperdício, melhoria de hábitos alimentares, redução do impacto no ambiente, gestão de bacias hidrográficas, sequestro de carbono, preservação da biodiversidade, aumento da renda dos mais pobres etc.

E também assinala a necessidade de esforços coordenados e concentrados no sentido de investimentos em inovação, infraestrutura e logística e mecanismos de mercado acessíveis a todos.

O interessante desse trabalho de fôlego é a premissa principal: mobilizar o setor privado internacional para tornar a agricultura o motor central do crescimento social e da estabilidade do futuro.

Não há nenhuma garantia de que isso gere ações concretas, até porque a receita é extremamente variada e rica, dependendo do país em que seja aplicada.

Mas é a primeira vez que um fórum da qualidade do WEF, com a assistência de tantos líderes poderosos, trata do agro de forma objetiva e propositiva.

A compreensão de que a fome é ameaça à paz pode estar determinando essa novidade.

E, é claro, o Brasil emerge como um potencial grande produtor mundial. Mas, surpreendentemente, com importância relativa menor.

A propósito, nesta semana estive em Berlim para um encontro de grandes empresas mundiais ligadas ao agro para discutir investimentos em agricultura na África.

Os números mostrados lá foram impressionantes. Somente a África subsaariana teria mais de 200 milhões de hectares agricultáveis, três vezes a área atualmente cultivada no Brasil. Nós temos mais 100 milhões de hectares para incorporar à área produtiva. E temos tecnologia, gente e competência para crescer rapidamente, mas não temos estratégia, política coordenada, regras.

Já os países africanos não têm isso, nem infraestrutura, nem gente preparada e ainda lhes falta institucionalidade, como a propriedade da terra, por exemplo.

Mas os governos africanos estão chamando os investidores e pedindo para dizerem o que querem, propondo-se a fazer o que for necessário para que venham investir.

E esses, percebendo o potencial de altíssimos lucros em razão de custos baixos e de um gigantesco mercado demandante, querem ir logo, com pressa.

E nós aqui, sem estratégia, ainda criamos dificuldades de toda ordem para atrair investidores. Sem falar no nosso conhecido custo Brasil.

Será possível que ficaremos deitados eternamente em berço esplêndido? Está na hora de nos levantarmos do berço, trabalhar com vigor para depois dormirmos tranquilos na grande cama que estão querendo levar para outros continentes.

Basta ver os pesados investimentos agrícolas que estão sendo feitos por empresários estrangeiros na Rússia, na Ucrânia e em outros países da Europa Central. E agora é a vez da África...

CLAUDIO HUMBERTO

“Desonerações sempre podem acontecer”
Secretário da Receita Federal, Carlos Barreto, sobre medidas em caso de crise

ALVES SE DISTANCIA DA PRESIDÊNCIA DA CÂMARA

Está por um fio a candidatura à presidência da Câmara do líder do PMDB, Henrique Alves (RN), com a metralhadora giratória que ele acionou na tentativa de manter o aliado Elias Fernandes diretor-geral do Dnocs, órgão de combate à seca. Ele desafiou a presidente Dilma a “brigar com o PMDB”, apesar do caráter pessoal da causa inglória, e ainda queimou pontes com outros partidos, ao defender a demissão de ministros do PT e do PSB antes que seu protegido fosse defenestrado.

EU SOZINHO

Henrique Alves falou em nome de todo o partido, no desafio a Dilma, mas nem mesmo a bancada que ele lidera apoiou suas palavras.

TIROS A ESMO

No Twitter, Henrique Alves apontou ministros na fila das demissões: Fernando Bezerra (PSB), Fernando Pimentel e Paulo Bernardo (PT).

BRIGA DESIGUAL

Henrique Alves mirou no PT do ministro das Comunicações e alvejou também uma adversária poderosa: a mulher dele, Gleisi Hoffmann.

PT NÃO QUER

A jornalistas, em dezembro, o atual presidente da Câmara, Marco Maia, afirmou que o apoio à eleição de Alves era questão “em aberto” no PT.

INTEGRAÇÃO: SECRETÁRIO QUE FEZ EDITAL DEVE CAIR

Após o cancelamento do edital de licitação para o Trecho 5 da transposição do Rio São Francisco, cujo valor é estimado em R$ 750 milhões, o secretário de Infraestrutura Hídrica do Ministério da Integração, Augusto Wagner Padilha, deve mesmo ser demitido. A ele são atribuídos “jabutis” no edital que favoreceria empresas do Paraná e do DF. O cancelamento foi ordenado pelo Tribunal de Contas da União.

ALTERAÇÕES

Por ordem da Casa Civil do Planalto, o novo edital sofrerá alterações para desfazer suspeitas de direcionamento.

BILHETE AZUL

Augusto Wagner Padilha está em férias, por isso ainda não caiu. Volta na próxima semana, início de fevereiro, e deve receber o “bilhete azul”.

LOROTA NO FORNO

O secretário Padilha vai para casa “voluntariamente”, assim como o diretor-geral do Dnocs deixou o cargo “em função da reestruturação”.

TENTANDO SALVAR O PESCOÇO

O presidente da Transpetro, Sergio Machado, com a corda no pescoço, aproveitou o acidente de vazamento do óleo em Tramandaí (RS) para mostrar serviço. Até se mandou para a cidade gaúcha. Mas o TCU está de olho na contratação de serviços de emergência a preços abusivos.

MINISTRO NO BATENTE

Até alguns amigos de Edison Lobão (Minas e Energia) o imaginavam no exterior, talvez porque sabem que ele merece uma pausa, mas o ministro continua no batente, em seu gabinete de Brasília.

GOVERNADOR VIRTUAL

O medo de vaia, igual a Lula no Maracanã, em 2007, afasta Sérgio Cabral das ruas do Rio, desde a enchente do ano passado. Até sexta, ele acompanhava pelo telefone o resgate das vítimas do desabamento.

FISIOLOGISMO

Do deputado Osmar Terra (PMDB-RS), sobre a briga de Henrique Alves para manter o diretor do Dnocs: “O PMDB não pode só ficar disputando carguinhos. Cargos têm de estar vinculados a uma política nacional”.

O PORTA-VOZ

Se Dilma quiser saber o que pensam militares da ativa e da reserva, deve perguntar ao general Augusto Heleno. Mesmo na reserva, é ele quem lidera. É mais admirado pela tropa que os comandantes militares.

QUESTÃO DE ESTILO

Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa recusou de novo a presidência do Instituto Cervantes, porque precisa escrever. Lula, que não escreve nem lê, não recusaria um honoris causa do Instituto.

CALADO!

EUA e União Europeia reúnem a turma mais implicante do planeta, segundo o ditadorsauro de Cuba, Fidel Castro, por condenarem a morte do preso político Vilmar 

Villar. Bonzinho mesmo é o Brasil...

HERANÇA MALDITA

O Ministério do Esporte terá de colocar de molho projeto para comprar camisetas e bermudas aos estudantes do Programa Segundo Tempo. A licitação para adquirir os uniformes, feita pelo ex-ministro Orlando Silva, continua suspensa pelo TCU por indícios de irregularidade.

PERGUNTA NO MALECÓN

Se a Luiza já voltou do Canadá, quando a Yoani sai de Cuba? 

PODER SEM PUDOR

QUEM TEM VOTOS

De Dinarte Mariz aos jornalistas Carlos Castello Branco e Murilo Melo Filho:

– Eu vetara a candidatura de Aluízio Alves ao governo do Rio Grande do Norte, quando ouvi do marechal Castelo Branco, no Planalto, a advertência:

– Lá no seu Estado, segundo estou informado, quem tem votos é o dr. Aluízio.

– Não seja por isto, presidente. Se fosse só por ter voto, quem devia estar sentado aí era Juscelino (Kubitscheck), que tem muitos votos, e não o senhor, que não os tem.

SÁBADO NOS JORNAIS



Globo: Responsabilidade pela obra suspeita vira jogo de empurra
Folha: Bens de vítimas da queda de prédios são desviados
Estadão: Banco público amplia oferta e crédito supera R$ 2 trilhões
Correio: Procuram-se os culpados
Estado de Minas: Rotina de risco
Zero Hora: Mutirão limpa orla mas restrições prosseguem

sexta-feira, janeiro 27, 2012

Por que alguns malfeitos tornam-se escândalos? - MARCUS ANDRÉ MELO

VALOR ECONÔMICO - 27/01/12

As afinidades eletivas entre corrupção e política não são novidade. Após deparar-se com notícias sobre corrupção, um personagem de Lima Barreto, em "O Único assassinato de Cazuza" (1911) conclui: "Penso, de mim para mim, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente que está na Câmara, no Senado, nos Ministérios, até na Presidência da República se alicerça no crime... Que acha você"?

Embora a corrupção pareça ubíqua para muitos, como Cazuza, a questão instigante é por que alguns delitos e malfeitos tornam-se escândalos e outros não. A visão corrente é que estes últimos são construções midiáticas. Decerto a mídia cumpre papel fundamental neste processo, mas a competição política, ao fim e ao cabo, é que será o fator determinante. Em contextos caracterizados por forte hegemonia ou "monopólio político", o padrão mais comum é muita corrupção e pouco escândalo. E isto por três razões. Uma oposição débil não consegue mobilizar recursos políticos efetivamente para converter denúncia em escândalo. Por outro lado, as instituições de controle não são independentes e são manipuladas pelo Executivo. O mesmo acontece com a mídia. A estrutura de incentivos também milita contra "a oferta" de denúncias uma vez que a probabilidade destas surtirem efeito em ambientes pouco competitivos é pequena.

Por outro lado, em ambientes competitivos em que forças políticas equiparam-se, a geração de escândalos torna-se um imperativo de sobrevivência eleitoral. Afinal um escândalo pode "tip the balance" em uma eleição. E assim os incentivos para a geração de escândalos são fortes. Além do mais a probabilidade da denúncia gerar efeitos e serem publicizadas é alta. Como nestes contextos a mídia é mais pluralista e as instituições de controle são mais independentes, estes incentivos tornam-se ainda mais robustos.

É a competição política e não a mídia que explica os escândalos

A competição política influencia não só os incentivos para a denúncia mas também para o acobertamento dos escândalos. Onde existe acirrada competição política, os incentivos para a "oferta" de denúncias são grandes. A probabilidade de defecção estratégica de membros da base de sustentação do governo é grande e por isso mesmo as denúncias costumam ter desdobramentos (processos investigativos, CPIs). Da mesma forma, há mais incentivos por parte das instituições de "checks and balances" e auditorias para ir a fundo nas suas diligências e auditorias porque os custos políticos de interferência do executivo sobre as mesmas são altos. Os membros destas instituições têm também maior probabilidade de terem sido indicados por forças políticas distintas devido a alternância no poder. Mas por outro lado, os partidos e grupos políticos que dão sustentação à coalizão de governo tendem a unir forças para acobertar malfeitos já que estes podem por em risco suas chances políticas.

Em contextos de ampla dominância política por uma coalizão ou partido, o padrão muda radicalmente. Diminuem os incentivos e escopo dos controles sobre o Executivo por parte da oposição. Mas em compensação crescem os incentivos para as denúncias intracoalizão - o "fogo amigo". Isto porque a própria coalizão de governo ou partido já não teme que ele possa resultar em derrota eleitoral. A expectativa para seus membros é que o "fogo amigo" resulte em mera reacomodação na alocação de ministérios e cargos no Executivo.

Nos países parlamentaristas, onde há fusão dos Poderes Executivo e Legislativo, o Legislativo vê sua capacidade de fiscalizar e controlar o Poder Executivo diminuir. No caso de investigação pelo Legislativo de denúncia de corrupção este estaria dando um tiro no pé. O contrário ocorre sob o presidencialismo, porque os incentivos de sobrevivência eleitoral do Poder Executivo e dos parlamentares são distintos. Por isso, como conclui Kaare Strom, há mais "accountability" e responsabilização no regime presidencialista do que no parlamentarista. Incentivos institucionais para o "acobertamento" e padrão de competição política explicam assim a efetividade dos controles sobre governos, e o saldo é indeterminado. No chamado presidencialismo multipartidário, o modelo constitucional adotado no Brasil, a lógica potencial que prevalece é semelhante à existente no parlamentarismo, a do conluio institucional. Mas quando os "custos reputacionais" dos escândalos tornam-se proibitivamente altos para o Executivo, o conluio se debilita.

Atualmente a base de sustentação parlamentar do governo é avassaladora e não é à toa que o padrão de denúncias tem sido marcado mais pelo "fogo amigo" do que pela artilharia da oposição. (modelo que poderia ser chamado de "argentino": os escândalos são produzidos internamente pela disputa entre facções peronistas rivais).

A despeito do protagonismo da mídia nas denúncias, a fritura de ocupantes de ministérios no governo Dilma foi alimentada pelos partidos da base. Mas o padrão competitivo recente do sistema político brasileiro engendrou instituições robustas. A mídia é bastante autônoma e as instituições de controle mantêm-se relativamente independentes, embora crescentemente sob ameaça. Mas a dominância governista já começou a fazer mal. E o padrão argentino de "fogo amigo" é indicador de uma certa degeneração institucional.

O inimigo do controle sobre governos é a falta de competição política (e o consequente enfraquecimento das instituições de "checks and balances"). No limite, o "efeito-competição" tende a superar o "efeito-acobertamento", e mais episódios de corrupção se converterão em escândalo. Há um limiar quando o controle externo passa a andar sozinho. Mas ainda falta muito para ele ser alcançado.

Marcus André Melo é professor da UFPE, foi professor visitante da Yale University, é "Fellow" da John Simon Guggenheim Foundation

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 27/01/12
Bancos de desenvolvimento criam clube com o BNDES

Único representante de peso da equipe econômica do governo presente no Fórum Econômico Mundial, Luciano Coutinho, presidente do BNDES, disse ontem que foi criado um clube internacional de bancos de desenvolvimento de diversos países.

A associação, denominada IDFC, reunirá 19 instituições financeiras de países em desenvolvimento, como China e Rússia, e desenvolvidos, entre os quais Alemanha e Japão.

"Nos fóruns internacionais, há sempre canais de manifestação da banca privada, de organismos multilaterais, mas bancos em desenvolvimento não tinham esse canal", disse Coutinho.

O clube pretende ter algumas definições antes da Rio + 20, marcada para junho.

Até lá, terá reuniões preparatórias para discutir apoio ao desenvolvimento sustentável e adoção de políticas, não só contábeis como também de informação.

Com a agenda bem apertada, Coutinho foi com alguma frequência abordado por estrangeiros interessados no BNDES. "O interesse no Brasil está até maior neste ano. Não é só para pedir crédito. Alguns querem apenas conhecer, fazer contato ou parcerias. Grandes empresas estrangeiras não precisam do crédito do BNDES."

Coutinho disse que investimentos em infraestrutura, incluindo saneamento, portos, ferrovias, transporte urbano, telecom, devem crescer pelo menos de 10% a 15% neste ano. Com relação a aeroportos, disse apenas que "eles vão bombar".

DA 'MONTANHA MÁGICA'

Banqueiros... Outro banqueiro brasileiro chegou ontem a Davos, na Suíça. André Esteves (BTG Pactual) veio com seu sócio, responsável pelo escritório de Londres. Comentou que o problema da Grécia está mais do que precificado. "Mas nunca se sabe como o mercado reagiria se ocorresse uma saída do bloco."

...nos Alpes Luis Carlos Trabuco Cappi, presidente do Bradesco, por sua vez, já partiu de volta para o Brasil.

Insegurança... A América Latina nunca atraiu tanto interesse, mas alguns latinos estão exagerando. Chamou atenção certa arrogância do presidente do México, Felipe Calderón.

...professoral Fez severas observações aos europeus, como se fosse um mestre. Descontentou principalmente brasileiros ao afirmar que o México é muito mais seguro que o Brasil. Uma deselegância vinda do país que presidirá o G20 neste ano.

BMW espera definição de novo regime automotivo para fevereiro

A indefinição do governo sobre o novo regime automotivo brasileiro, que se arrasta há meses, deve acabar no mês que vem.

A data foi um sinal dado por diversas autoridades, entre elas, o Ministério do Desenvolvimento, após conversas com o setor, de acordo com o presidente da BMW no Brasil, Henning Dornbusch.

"Esperamos uma resolução em fevereiro. Assim nos foi dito pelo ministério", diz.

A BMW faz parte de um grupo de montadoras que têm a intenção de construir fábrica de veículos no Brasil e, com isso, conseguir redução no IPI (Imposto sobre Produtos Importados) sobre seus carros.

Dornbusch diz que os planos de se instalar aqui são firmes, mas que ainda "há muitas dúvidas no ar". A empresa já estuda a localização da fábrica e tem definidos os modelos que seriam produzidos.

"Temos o plano efetivo, mas queremos que o governo resolva logo. A política para os novos entrantes está indefinida", afirma.

Para atingir a meta de conteúdo nacional acima de 65%, que daria direito ao desconto no IPI, a BMW levaria três anos, a partir do início da operação de sua planta no Brasil, segundo o executivo.

A elevação do tributo para importados deve ter um impacto negativo de 30% sobre as vendas da empresa no país neste ano, na comparação com o ano passado.

CHAMADA PARA RECALL

A BMW do Brasil anunciou ontem o recall de cinco modelos do Mini por problemas em uma bomba de água.

Segundo a empresa, há possibilidade de superaquecimento na placa de circuitos da peça, que pode derreter os conectores e, nos casos mais extremos, provocar incêndio.

O recall afeta as unidades fabricadas entre março de 2006 e janeiro de 2011. Os proprietários devem procurar, a partir de 6 de fevereiro, uma concessionária autorizada para fazer o reparo.

ESTALEIRO PARA ASIÁTICOS

O grupo carioca Oxcorp, de consultoria e gestão empresarial, que atua principalmente no setor de saúde, vai entrar em um novo mercado e construir um estaleiro em Pelotas (RS).

O investimento será de R$ 35 milhões e o empreendimento atenderá embarcações de pequeno e médio porte.

"Nossa principal atividade será a manutenção dos barcos pesqueiros asiáticos que costumam operar na região das Ilhas Malvinas", afirma Giuseppe Miraglia, sócio da empresa.

O grupo já negocia com a companhia coreana Insung. Empresas japonesas, chinesas e espanholas também operam na região. "São cerca de 2.000 embarcações que precisam de manutenção anual", diz Miraglia.

A empresa irá criar uma unidade para cuidar da nova área de atuação. "Mas acho que não teremos muita dificuldade. Nós já fazemos gestão empresarial para diferentes setores."

As obras começaram neste mês e os trabalhos de manutenção de barcos devem ser iniciados em junho. Em dois anos, o grupo passará também a construir embarcações, segundo o empresário.

IMÓVEL CARIOCA

O escritório EJJB fechou contrato com três executivos brasileiros para estruturar um investimento de R$ 800 milhões no mercado imobiliário do Rio de Janeiro.

Os dois primeiros projetos que receberão aportes do grupo serão definidos até fevereiro, de acordo com Jardson Bezerra, sócio do escritório.

"A ideia é investir em construtoras e incorporadoras que já tenham projetos aprovados para a Copa de 2014, a Olimpíada de 2016, na exploração do pré-sal ou do programa Minha Casa, Minha Vida."

Em alguns casos, os três investidores estudam a possibilidade de não atuar em conjunto, segundo o advogado.

Folia... Os preços dos pacotes de hospedagem para o carnaval carioca estão em média 17,6% mais caros do que em 2011, segundo o SindRio (Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro). As altas são justificadas pelos investimentos em modernização e ampliação.

...inflacionada De acordo com o SindRio, a ocupação média atual para o carnaval na zona sul da cidade está em 71%, com expectativa de alcançar 98%, dois pontos percentuais acima de 2011. A pesquisa também registra alta na proporção de hóspedes brasileiros no período.

CAMA, MESA E BANHO

A Teka, fabricante de artigos de cama, mesa e banho, que só vendia seus produtos em multimarcas, vai se lançar no varejo, com uma loja própria.

A primeira unidade no modelo será inaugurada em Blumenau (SC).

A localização foi escolhida com base em critérios logísticos, devido à proximidade às instalações da fábrica da companhia.

A investida no varejo deverá ser, neste ano, um dos novos focos da empresa.

A companhia contratou recentemente uma consultoria para definir novo plano de negócios, que será divulgado em março.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

Colesterol e desigualdade - MOISÉS NAÍM

FOLHA DE SP - 27/01/12

Existe "desigualdade boa" e "ruim", e o truque consiste em conter a segunda no nível mais baixo possível

O principal tema político de 2012 será a desigualdade. Neste ano, haverá eleições em países que concentram 50% da economia mundial. E, em todos eles, os protestos contra a desigualdade e as promessas de reduzi-la fizeram parte do debate.

A desigualdade não é nova. O que é novo é a intolerância em relação a ela. As grandes maiorias nos países mais ricos, alquebradas por desemprego e austeridade, começaram a interessar-se pela distribuição de renda e pela riqueza. E o interesse pelo tema se globalizou. Por muito tempo o mundo viveu em coexistência pacífica com a desigualdade (com ocasionais revoluções que interromperam a coexistência).

Isso está mudando. Em todo lugar, a ideia de que a luta contra a desigualdade é inútil ou desnecessária tornou-se indefensável. Aceita-se que será certamente difícil alterar a distribuição desigual da riqueza, mas já não está tão fácil quanto antes ignorar o assunto ou defender a ideia de que não é preciso fazer nada a respeito disso.

A atenção voltada aos "1%" mais ricos tornou-se obsessiva. Manchetes como a do "Los Angeles Times", "os seis herdeiros da Wal-Mart são mais ricos que a soma dos 30% dos americanos com renda mais baixa", são bom exemplo dessa tendência, assim como o fato de os mais acirrados expoentes da direita radical dos EUA atacarem Mitt Romney por ser rico e pagar poucos impostos.

Nem todos criticam a riqueza. Jamie Dimon, presidente do JPMorgan Chase, declarou exasperado: "Não entendo nem aceito essa coisa de criticar o sucesso ou agir como se todos os bem-sucedidos fossem maus". A perplexidade de Dimon é baseada na suposição de que riqueza é o modo como a sociedade estimula e premia inovação, talento e esforço. Quem é rico merece sê-lo.

Mas nem sempre. Grandes riquezas também podem ser fruto de corrupção, discriminação ou monopólios. Na lista dos mais ricos do mundo, há muitos milhares de milionários que chegaram a isso mais graças ao Estado do que ao mercado.

Por isso os estudiosos da desigualdade costumam compará-la ao colesterol: existe desigualdade boa e ruim, e o truque consiste em incentivar a boa enquanto a ruim é contida no nível mais baixo possível.

E aí está o risco: como reduzir a desigualdade sem desestimular outros objetivos (investimento, inovação, tomada de riscos, esforços, produtividade). Sabemos que alcançar uma sociedade mais igualitária foi o objetivo de inúmeros experimentos que causaram mais desigualdade, pobreza, atraso, perda de liberdades e até mesmo genocídios.

Mas a desigualdade econômica em alto grau é prejudicial à saúde de um país: acarreta instabilidade política maior, mais violência e também prejudica a competitividade e, no longo prazo, o crescimento.

Neste ano veremos inúmeras propostas para corrigir as disparidades econômicas. Algumas serão velhas -e provavelmente más- ideias apresentadas como novas. Mas com certeza aparecerão algumas novas e muito boas. Para os eleitores e outros que possam influir sobre quais são adotadas e quais são rejeitadas, o desafio será aprender com a história. E, como sabemos, não repetir os erros do passado costuma ser mais difícil do que parece.

Tão perto, tão longe - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 27/01/12


SÃO PAULO - O sujeito passa mal na rua diante de um pronto-socorro, mas não consegue atendimento porque não está nem perto o bastante para ser carregado pelos enfermeiros nem longe o suficiente para que se acione o serviço de ambulância.

Se fosse no cinema, o roteirista seria tachado de mirabolante e inverossímil, mas, na vida real, o fenômeno não só acontece como se repete com alguma frequência.

A porta de um hospital é terra de ninguém. As rotinas de atendimento não antecipam que se apanhe o paciente na rua, e algumas chefias interpretam a ausência de previsão como proibição, que pode ser implementada a ferro e fogo, em especial se o paciente é um mendigo.

Dizem, não sem uma pontinha de fundamento, que, se algo acontecer no trajeto entre a rua e o pronto-socorro, o funcionário que faz o transporte é que seria responsabilizado.

Pelo manual, caberia ao Samu

realizar a transferência do paciente, mas este serviço muitas vezes alega -e com razão- que tem coisas mais importantes para fazer do que carregar para as dependências do hospital alguém que já está à sua porta.

No fundo, temos aqui o dilema essencial da burocracia. Se, de um lado, sistemas dependem de rotinas e padronizações para funcionar bem, de outro, a aplicação mecânica e

irrefletida de regras (ainda que ra-

zoáveis) pode engendrar verdadeiros absurdos, como deixar um paciente grave sem atendimento.

O problema não se limita a hospitais. Uma boa receita para produzir o pior dos mundos é aplicar com máximo zelo todas as leis vigentes.

A solução para evitar esses paradoxos, além de rever e aprimorar continuamente os protocolos, é deixar que as pessoas usem o seu bom-senso. Na média, ele mais acerta do que erra.

Essa ao menos foi a aposta da natureza, ao dotar os humanos de cérebros capazes de comportamento flexível, isto é, de responder de forma diferente a diferentes situações.

República pela metade - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 27/01/12

No furor da disputa por cargos, líder peemedebista eleva o tom com a presidente Dilma Rousseff e perde a parada -mas não a vaga

A classe política vai aprendendo que desafios públicos à autoridade da presidente Dilma Rousseff não costumam ter bom desfecho. A mandatária ganhou aprovação com a fama de inflexível e parece determinada a mantê-la.

Em novembro do ano passado, o então ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT), negou com audácia sua iminente demissão: "Para me tirar, só abatido a bala". Pouco depois, saiu do ministério, sem que se registrassem estampidos na base governista do Congresso. É a vez do líder da bancada peemedebista na Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (RN), elevar o tom diante das denúncias contra o ocupante de um dos postos cedidos pelo PT ao seu partido.

Segundo a Controladoria-Geral da União, R$ 192 milhões foram desviados do Departamento Nacional de Obras contra as Secas. Legendário ponto de encontro entre coronelismo, ineficiência e corrupção, o Dnocs estava sob a direção de um afilhado de Alves.

O líder peemedebista toma, então, a defesa do feudo que lhe querem arrebatar. "O governo vai brigar com metade da República, com o maior partido do Brasil?"

A declaração de Alves revela o cerne da mentalidade dominante nos partidos brasileiros. "Metade da República", disse ele, referindo-se aos peemedebistas enquistados nos centros do poder.

Se algo merece ser chamado de República, não é a colcha de retalhos que, por indicações personalistas e fidelidades clandestinas, recobre a máquina federal. Excluí-das as raras nomeações que se fazem por critérios técnicos, sobe a bem mais da metade a extensão daquilo que valeria chamar de "setor antirrepublicano", ou "banda podre", dos governos que se sucedem em Brasília.

"Por que", pergunta o líder da bancada peemedebista, a presidente iria "brigar com isso?"

É certo que parte da popularidade da presidente pode ser atribuí-da à mística da "faxina" que, esporadicamente, tem sido compelida pelas evidências a empreender. Uma visão menos providencialista e ingênua apontaria que a relação entre governo e PMDB, apesar dos atritos ocasionais com o PT, é marcada pela acomodação.

Ungida no cargo por seu antecessor, Dilma procura afirmar sua autoridade própria. Para cada assessor acusado de corrupção que venha a demitir, como o recém-defenestrado do Dnocs, novos aspirantes ao cargo, e às benesses correlatas, estão prontos a jurar-lhe fidelidade. Dentro de partidos como o PMDB e o PT, lutas internas constantes dão margem ampla para as escolhas presidenciais.

A verdadeira República, que não é composta de metades peemedebistas ou petistas, acompanha não sem algum prazer a ronda de ciúmes e amuos entre um e outro dia de faxina. Satisfação completa, no entanto, virá no dia em que a presidente confrontar também os padrinhos, não só a legião de apadrinhados sob suspeita.

Darth Vaders de toga - NELSON MOTTA


O Globo - 27/01/12


Formar-se em Direito, passar nos exames da OAB em que menos de 10% são aprovados, disputar os concursos para a magistratura em que apenas 1% passa, é duríssima a carreira de um juiz, pelas responsabilidades da função pública que exerce. Mas nada justifica que tantos juízes do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro ganhem mais de 50 mil reais por mês, mais que o dobro do salário da presidente de República e do teto legal, e alguns recebam até quatro vezes mais. Sim, os benefícios não são ilegais - ninguém conhece as leis melhor do que os juízes -, e vigoram por decisões judiciais e administrativas dos próprios beneficiários.

Todos os juízes sabem que nem tudo que não é proibido pela lei é permitido pela ética, e a grande maioria, principalmente das novas gerações, não aceita mais a cultura de privilégios das velhas elites judiciárias encasteladas no poder. Sim, a carreira é muito difícil para todos, e alguns, às vezes entre os mais brilhantes, acabam se desviando pelo caminho, corrompidos pela vaidade, a ambição e a onipotência, como Darth Vaders de toga que passam para o lado escuro da Força. Raros são denunciados ou punidos e continuam reagindo indignados contra qualquer investigação, denunciando as críticas na imprensa como conspiração para desmoralizar toda a corporação, quando querem apenas impedir que se faça ? justiça.

É verdade que não há justiça na natureza, muito pelo contrário, nem no cosmos, nem nas religiões (pelo menos na vida terrena ), nem nos deuses que permitem injustos e cruéis sofrimentos, a morte de inocentes e a salvação de assassinos. A ideia de justiça é uma invenção humana, baseada na ética e na moral, como parte fundamental do processo civilizatório, mas existe apenas como tentativa de fazer justiça, nem sempre realizada, pelas precariedades da condição humana.

O que não é justo é a imensa maioria de juízes honestos, que cumprem todos os deveres que sua nobre função exige, ser usada como escudo por elites corporativas que não querem justiça, mas privilégios abusivos pagos pelo trabalho e os impostos de todos nós, inclusive os juízes honestos.

Dutra na Petrobras - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 27/01/12


O ex-presidente do PT José Eduardo Dutra está voltando para o governo federal. Em processo final de recuperação de um câncer de pele, Dutra vai ocupar uma nova diretoria da Petrobras, a Corporativa, que será criada pela nova presidente, Graça Foster. Na década de 80, Dutra trabalhou como geólogo numa subsidiária da estatal. No governo Lula, ele presidiu a Petrobras (2003 a 2005) e também a BR Distribuidora (2007 a 2009).

A presidente surfa na popularidade
O PT e o PMDB estão irritados com as recentes atitudes da presidente Dilma. Ela ignorou os petistas ao indicar o novo ministro de Ciência e Tecnologia. Passou por cima do PMDB na queda do diretor-geral do Dnocs. Até no PSB há ressentimento pelo fato de o ministro Fernando Bezerra Coelho (Integração) ter ido se explicar no Congresso, enquanto o Planalto fez uma operação para blindar o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento). A impressão dos políticos é que ela mira a opinião pública e não dá satisfação aos partidos. É grande o ressentimento e alguns aliados dizem que um dia chegará a hora do troco.

"O que aconteceu em Pinheirinho foi uma barbárie” — Dilma Rousseff, presidente da República, ontem, em reunião com os movimentos sociais, no Fórum Social Mundial Temático de Porto Alegre (RS)

SANGRIA ESTANCADA. O vice-presidente Michel Temer, na foto com a presidente Dilma, teve participação decisiva na demissão do diretor-geral do Dnocs, Elias Fernandes Neto. Ele aconselhou o líder do PMDB, deputado Henrique Alves (RN), a baixar a bola e recuar. A presidente Dilma não gostou de ser desafiada por Alves, e este ficou com medo de comprometer seu projeto prioritário, que é o de se eleger presidente da Câmara.

Direitos humanos
O Itamaraty, por recomendação da presidente Dilma, avisou ao governo de Cuba que daria o visto pedido pela blogueira Yoani Sánchez, e recebeu a sinalização da administração Raúl Castro de que ela será autorizada a deixar a ilha.

Abusados
O governo brasileiro não vai assumir qualquer risco na Copa do Mundo relativo a catástrofes naturais, como quer a Fifa. O Brasil não fará concessões como as aceitas pela África do Sul. O nosso parâmetro é igual ao que a Alemanha ofereceu.

Geddel diz que não lutará pela Sudene
Vice-presidente da CEF, Geddel Vieira Lima diz que não pretende fazer qualquer movimento para tentar manter no cargo o atual presidente da Sudene, Paulo Sérgio Fontana. Ele nega uma eventual crise, como a ocorrida no Dnocs. "Afilhados, só os da pia batismal. Eu era ministro e nomeei quadros qualificados. Já não sou mais ministro, podem substituir todos que quiserem. Nunca pedi a permanência de ninguém no governo", afirma.

Vai que é tua
Egresso de uma turbulência em sua pasta, o ministro Fernando Bezerra Coelho (Integração) conseguiu não se contaminar com a crise no Dnocs. Ele a jogou no colo do líder do PMDB, Henrique Alves (RN), que a abraçou com vontade.

Na arquibancada
Promovido a virtual candidato a presidente em 2014 pelo ex-presidente Fernando Henrique, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) está parado, esperando para colher os frutos políticos provocados pelo desarranjo do governo Dilma.

O LÍDER do PSOL, Chico Alencar (RJ), vai a São José dos Campos (SP), dia 2, para discursar contra a violência e pelo direito à moradia. "Será a abertura "solene" do ano legislativo do Brasil real", diz ele.

O MINISTRO Gastão Vieira (Turismo) apresentou anteontem para a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) o sistema de monitoramento online de sua pasta, em funcionamento desde o dia 12.

OS SERVIDORES da Presidência da República estão revoltados. Os dois restaurantes self-service do Palácio do Planalto aumentaram 25% o preço do quilo. Muito acima da inflação, que em 2011 foi 6,5%.