domingo, janeiro 22, 2012

'Vada a bordo, #&%@!' - SÉRGIO AUGUSTO


O ESTADÃO - 22/01/12


Em certas situações, nada supera a arrebatada língua italiana e seus termos que parecem já vir com ponto de exclamação



Novo meme na praça. Sai "Menos a Luiza, que está no Canadá" (até porque ela está de volta) e entra "Vada a bordo, cazzo!". O resto do mundo não tomou conhecimento do bordão paraibano, febre na internet de fala portuguesa, mas a curta e grossa ordem do comandante da Capitania dos Portos de Livorno ao capitão do Costa Concordia já estampa até camisetas ucranianas. Sempre na versão original, eufonicamente insuperável. Experimente: "Volte já pro navio, cacete!" Não tem o mesmo efeito.

Em determinadas situações, nada compete com a arrebatada língua italiana. Palavras como "disgraziato" já vêm com um ponto de exclamação embutido. Operístico e tragicômico, quase tudo em italiano parece subir pelas paredes e descambar para a galhofa. "Disgraziati!" foi o que Fabiola Russo, mulher de Francesco Schettino, o capitão do sinistrado navio, berrou para os repórteres e paparazzi que se acotovelavam à porta da casa do casal, em Meta di Sorrento, na província de Nápoles. Já vimos a cena um sem-número de vezes no cinema.

Nem a xingação de Fabiola nem a solidariedade de parentes, vizinhos e amigos ("é um grande sujeito", disseram uns, "sempre pronto a ajudar o próximo", afiançaram outros, "o que estão fazendo com ele é uma infâmia, uma crueldade, um linchamento midiático", protestou dom Genaro Starita, pároco da cidade, "ele ajudou a salvar milhares de passageiros", socorreu-lhe uma amiga moldávia, testemunha ocular da colisão) conseguiram aliviar a barra do capitão, que antes mesmo de admitir sua barbeiragem já fora arrastado pela mídia ao Gólgota da difamação.

Um canal de televisão atribui-lhe "traços lombrosianos"; outro comparou-o maliciosamente ao comandante da antiga telessérie O Barco do Amor; um colunista de província, pegando carona na invectiva de um procurador, tachou Schettino de "scellerato". Estava armada a catarse de um povo que o atual arrocho econômico tornou ainda mais propenso à histeria.

O desastre em si, simbolicamente enriquecido pela evocativa imagem do navio a soçobrar (que nem a Itália, que nem o euro, que nem a União Europeia), foi relativamente modesto em número de vítimas: 11 mortos e 21 desaparecidos. Só o transatlântico italiano Andrea Doria, naufragado a caminho de Nova York em 1956, levou para o fundo do Atlântico 51 pessoas, estatisticamente irrisório se comparado ao naufrágio do Titanic (1.517 desaparecidos), para não mencionar os campeões da categoria: Doña Paz (1987, Filipinas, 4.375 mortos), MV Le Joola (2002, Costa de Gambia, 1.863) e o vapor Sultana (1865, Rio Mississippi, 1.800).

Uma catarse com direito a vilão e herói claramente definidos: Schettino, o bode expiatório para desafogar uma raiva coletiva recalcada há não sei quantos anos, e Gregorio De Falco, comandante da Capitania dos Portos de Livorno, o oficial imaculado para aplacar a honra ferida da coletividade - o italiano mau, "vigliacco", e o italiano bom, eficiente.

"Io sono De Falco" (Eu sou De Falco) virou brado na blogosfera, a propagar um equívoco que o próprio comandante apressou-se em desfazer. "Só cumpri com meu dever", reiterou várias vezes o autor de "Vada a bordo, cazzo!". Como De Falco não arriscou sua vida, o sine qua non do heroísmo, o único herói do resgate aos passageiros do Concordia acabou sendo aquele comissário de bordo que, mesmo ferido na perna, continuou salvando gente.

Segundo o jornal La Stampa, de Turim, Schettino e De Falco nunca se toparam. Temperamentos conflitantes. O primeiro é extrovertido, bon vivant, gozador; o segundo, tímido, arredio, certinho. Dionísio e Apolo. Eis um contraste na medida para o fino olhar de Umberto Eco, que ainda não se manifestou a respeito do desastre, mas é provável que o faça em sua próxima coluna na revista L'Espresso, comparando Schettino, suponho, não a Berlusconi mas ao desertor Henry Fleming de O Emblema Vermelho da Coragem, de Stephen Crane, e a Lord Jim, o conflituoso homem do mar criado por Joseph Conrad.

Fleming e Jim são os dois mais notórios paradigmas da covardia que o imaginário criou nos últimos 120 anos, com ligeira vantagem para o personagem de Conrad: Jim, afinal, também abandonou os passageiros de um navio à própria sorte no meio de uma viagem. Todos se salvavam, menos Jim, que, transformado em bode expiatório de um delito com vários culpados, passava o resto da vida tentando purgar sua culpa nos cafundós da Malásia.

Um segundo vilão veio à tona na tragédia anunciada do Concordia: o prefeito da Ilha Giglio, Sergio Ortelli. É o maior incentivador dos shows de exibicionismo que os colossais cruzeiros turísticos costumam fazer a uma distância temerária da costa, com todas as luzes acesas e sirenes a mil decibéis, para ele, "um espetáculo inigualável" e "uma tradição indispensável", disse-o por e-mail ao comandante do Concordia, em agosto. A revista alemã Der Spiegel revelou o e-mail; o diário italiano Corriere della Sera pespegou-lhe o apelido de "magnetizador de cruzeiros" (que, obviamente, soa melhor no original, "sindaco acchiapa navi da crociere").

Há fortes interesses eleitoreiros em jogo nas relações entre os políticos italianos, sobretudo dos prefeitos, e as empresas de navegação turística. Se Schettino tem partes com Lord Jim, Ortelli lembra o prefeito do filme O Tubarão, que se recusava a suspender o banho de mar em suas praias para não afetar o afluxo de turistas.

Depois do desastre do dia 13, Ortelli não falou mais em "tradição", que não é uma exclusividade da Ilha de Giglio nem do Tirreno, mas uma praga de toda a costa italiana, tema, aliás, de um recente dossiê da L'Espresso, pautado pelo estrago ambiental que mastodontes do porte do Concordia (59 m de altura, 294 m de comprimento, 3.800 passageiros) e até maiores vêm causando à Lagoa de Veneza. Ano passado, 800 navios dessa envergadura despejaram 2 milhões de turistas em Veneza, provocando o mesmo impacto que 11 milhões de automóveis causariam ao meio ambiente. De que adianta proibir a circulação de veículos dentro de Veneza se os seus maiores danos vêm pelo Adriático?

Dura Lex - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 22/01/12


A conclusão a que se chega é que, na visão dos donos do país, as leis só valem para o cidadão comum


O ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, teve sua carteira de habilitação suspensa, tantas foram as infrações que cometera ao volante, e agora faz um curso de reciclagem para reaver a carteira e voltar a dirigir.

Ele apareceu na televisão e admitiu que havia sido multado muitas vezes por estar permanentemente falando ao celular enquanto dirigia. E, no final da entrevista, admitiu que todo cidadão deve agir dentro da lei.

Muito simpático, mas não me convenceu, porque logo me perguntei: e esse cara, que é ministro das Comunicações e já foi ministro do Planejamento, além de ser marido da ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República, não sabia que é obrigação de todo cidadão obedecer às normas sociais?

Durante todo o tempo dirigia falando ao celular, pondo em risco a vida das pessoas, e não se dava conta de que infringia a lei? Não dá para acreditar.

O que está evidente neste episódio é que o ministro sabia muito bem que infringia a lei e o fazia porque se supunha acima dela, uma vez que, no Brasil, lei só vale para o cidadão comum, não para os ministros de Estado.

Se me detenho nesse episódio é que ele me parece instrutivo. Neste país, onde quase nenhum político é punido -ministro, então, nem se fala- nos deparamos com o ministro das Comunicações sendo obrigado a mostrar que agora conhece as leis do trânsito para só assim reaver a carteira de habilitação.

É comovedor. Pode ser que um marciano, ao vê-lo na televisão admitindo humildemente que mereceu ser punido, volte para seu planeta convencido de que o Brasil é o país da Justiça, onde a lei vale para todos, seja um porteiro de edifício ou uma alta figura do governo.

Nós, porém, que não somos marcianos, não embarcamos nessa. Quando a punição é ter que fazer um cursinho do Detran, o ministro se submete e até, com isso, garante ser eleito no próximo pleito, se for o caso. Quero ver é quando se trata de responder pelo desvio de verbas públicas, que pode levar o bacana à cadeia ou à perda de mandato.

Aí, não; nesses casos, a lei não vale. Pode até ser aberto um processo -se a imprensa puser à mostra o "malfeito"- mas ficará nisso. Veja o processo do mensalão, que já vai para sete anos sem julgamento, e corre-se o risco de que as penas relativas a ele prescrevam.

Se o cara é parlamentar, tem o direito de renunciar ao mandato para não ser cassado e, assim, poder candidatar-se de novo e voltar como representante do povo.

É assim ou não é? Alguém pode levar a sério o Congresso de um

país que permite coisas como essas? Provado que o parlamentar usou do mandato para obter vantagens ilícitas, atentar contra a ética, em vez de ter seu mandato cassado e ser considerado indigno de representar o povo, pode ele escapar à punição renunciando ao mandato.

E assim estará habilitado a candidatar-se de novo e voltar ao Congresso. Não dá para acreditar. O Congresso Nacional criou uma norma que favorece a impunidade de quem atenta contra os valores do próprio Congresso.

A conclusão a que se chega, inevitavelmente, é de que, na visão dos donos do país, as leis só valem para o cidadão comum, já que ministro, deputado, senador, governador, prefeito... esses estão acima da lei, fora de seu alcance.

É como se tivéssemos voltado a época remota das primeiras monarquias. Se é verdade que nenhum deles exibe uma coroa na cabeça, nem por isso deixam de constituir uma casta que se apossou da máquina do Estado e faz dela o uso que lhe convém. Nosso país foi apropriado por uma casta, que o governa em seu próprio benefício.

O diabo é que, diferentemente da época monárquica, agora existem jornais e televisão, que, inconvenientes como são, vivem fuçando aqui e ali, até descobrirem o "malfeito" e transformá-lo em notícia.

Aí, então, alguma coisa terá que ser feita em respeito à moral e aos bons costumes, mesmo que só para fazer de conta.

Como é do interesse geral do poder que não se torne hábito condenar ministros ou parlamentares, sempre haverá um jeito de conciliar as coisas: abafar o escândalo e não punir o culpado.

Mas, se o delito praticado foi falar ao celular enquanto dirigia, aí não tem perdão, "dura lex sed lex".

Que rei sou eu? - MÍRIAM LEITÃO


O GLOBO  - 22/01/12



Um dos grandes empresários alemães, Wolfgang Reitzle, presidente da Linde, fornecedora de gases especiais e de equipamentos, disse numa entrevista à Der Spiegel que a saída da Alemanha do euro não deve ser um tema tabu. Numa resposta que surpreendeu até o repórter, disse que a Alemanha exportaria menos, o desemprego aumentaria um pouco, mas em cinco anos o país estaria mais forte.

“O que eu não concordo é que uma grande parte dos meus impostos terminem indo para países que não controlam suas economias responsavelmente.” O jornalista quis saber se ele tinha um plano B para a empresa dele, caso houvesse um desastre na Zona do Euro, e ele respondeu que a estagnação europeia afetaria apenas 30% do faturamento. “Seremos uma empresa que, em vez de 13 bilhões de euros, fatura 9 bilhões de euros e que opera principalmente na Ásia.”

Ele resumiu dois pontos que podem conquistar as mentes alemãs. A ideia de que eles pagam a conta de países que não têm controle fiscal e a de que basta apostar no modelo que tem dado certo, que é ser grande processador de produtos que importa da Ásia e exporta para outros países com mais valor agregado.

A Alemanha cresceu no ano passado 3% e reduziu o desemprego, enquanto outros países da Europa ficaram estagnados e viram o desemprego aumentar. Exportou US$ 1 trilhão, numa região que perde competitividade. Já fez reformas, como a elevação da idade de aposentar para 67 anos, enquanto a França enfrentou batalha de rua de estudantes contra a elevação para 62 anos. Entre as três grandes economias da Zona do Euro, é a única que continua tendo a sua dívida avaliada como triplo A. É considerada em vários outros países em crise como sendo a economia que mais se beneficiou da formação da moeda comum. E mesmo lá há insatisfação e problemas.

O segundo maior banco do país, o Commerzbank, tenta captar no mercado para cumprir a exigência de capitalização de 5,3 bilhões de euros feita pela Autoridade Bancária Europeia. Isso num tempo em que o mercado interbancário está travado pelo temor de uns bancos em relação a outros. E com razão, porque os bancos alemães estão muito expostos às dívidas dos países da região. Segundo levantamento da Reuters, seus bancos carregam US$ 177 bilhões de dívida da Espanha; US$ 161 bilhões da Itália; US$ 110 bilhões da Irlanda; US$ 36 bilhões de Portugal; e US$ 21 bilhões da Grécia. Uma encrenca de US$ 500 bilhões.

A verdade é que a situação não está fácil nem para a Alemanha. As projeções para este ano são de que o país vai crescer apenas 0,7%. Sua dívida também é alta, e tem déficit público, ainda que menor do que o da maioria dos países da região.

O coordenador do Comitê de Relações Institucionais da Câmara Brasil-Alemanha, Ingo Ploger, está na Alemanha, e de lá contou que o clima entre empresários ainda é de otimismo, mas que a confiança começou a ser afetada com a postergação de investimentos. “Estive ontem em uma feira de Frankfurt que reuniu 1.500 empresários. Ao mesmo tempo que havia um clima de comemoração pelos bons resultados de 2011, muitos empresários disseram que estão adiando investimentos porque as incertezas aumentaram muito. Mas o clima geral é bom.”

O que surpreende no caso da Alemanha é a rapidez com que o país conseguiu retomar o crescimento após a crise de 2008, enquanto a Europa continuou mal. O PIB alemão encolheu 5% em 2009, mas as exportações garantiram um crescimento de 3,5% em 2010 e de 3% no ano passado. O desemprego em 2011 foi de 6,8%, o menor desde a reunificação da Alemanha em 1990. Os alemães começaram a reformar o Estado para reduzir custos desde a gestão do chanceler social-democrata Gerhard Schroeder. O que os italianos, gregos, espanhóis estão tentando fazer no meio da crise foi feito de forma preventiva.

“A Alemanha colhe hoje os frutos de reformas aprovadas há cerca de cinco anos. Houve reformas na Previdência, na saúde e nos serviços sociais, e isso reduziu gastos do governo. Houve negociação entre empresários e sindicatos para evitar aumentos salariais muito acima da inflação”, explicou Ploger.

A economia alemã é altamente dependente da China. Em 2010, a corrente de comércio entre os dois países chegou a US$ 142 bilhões, o que foi 30% de todo o comércio da União Europeia com os chineses. No ano passado, até setembro, já havia chegado a US$ 127 bilhões. Um cenário de redução do crescimento chinês é assustador para a Alemanha.

O país tem orgulho da sua capacidade de superação do passado. Superou a herança do nazismo da primeira metade do século 20 e a do comunismo da parte oriental das décadas seguintes. Reconstruiu a unidade do país após mais de 40 anos de separação com modelos econômicos totalmente diversos. Fez a aposta forte na unidade comercial, monetária e econômica com os países vizinhos, mas ainda sofre uma crise de identidade. Em artigo divulgado pelo Project Syndicate, o professor de Princeton Jan-Werner Mueller definiu o país como “pequeno demais para ser um ator global e grande demais para ser apenas o primeiro entre iguais.” A crise ressalta o centro desse dilema alemão.

GOSTOSA


E os 11 milhões? - JOSÉ DE SOUZA MARTINS


O ESTADÃO - 22/01/12


É generoso defender os desvalidos da cracolândia, mas o verdadeiro compromisso social é com os interesses da maioria da população



O pouco que se viu, nestes dias, do confronto de opiniões sobre a cracolândia, entre o PSDB e o PT, já é suficiente para indicar uma tendência. De um lado, a cidade vista, pelo primeiro, como vítima do uso impróprio de suas ruas pelos viciados. De outro, a população de rua apresentada, pelo segundo, como vítima da administração atual.

Em matéria para a TV Estadão, Bruno Paes Manso chama a atenção para as origens históricas da cracolândia. Nos anos 90, os noias eram ameaçados e mortos nos bairros por grupos de extermínio, fosse de traficantes, fosse de moradores irritados com assaltos e roubos para o dinheiro da droga. Encontraram abrigo na antiga zona do meretrício, nas proximidades da Estação Júlio Prestes. Território do ilícito, porque supostamente protegido por policiais corruptos, abrigou, também, o tráfico livre e deu aos viciados a segurança de que careciam.

Ao perderem de vista a história dos territórios deteriorados dessas repúblicas populares dos socialmente marginalizados, os partidos políticos mostram que estão desprovidos de informações decisivas para solução desse problema, quando no acaso do poder. A recíproca acusação de responsabilidade pelo grave problema social, dos partidos políticos em confronto, acoberta a respectiva omissão e não raro os equívocos que cercam o entendimento de questões como essa. Não só equívocos seus, mas também dos grupos não partidários, com distintas e até opostas motivações, que investem na questão em busca de dividendos morais próprios.

Recuar ao ontem para compreender esse tema problemático pode ser decisivo. Situar o debate partidário fora do cenário de paixões que o cercam é fundamental para o eleitor, que será, no fim das contas, o juiz das providências de governo e dos programas de partidos para solucionar a questão. A cracolândia é constituída por uma população permanente de 400 pessoas e uma população flutuante de 2 mil. Essa é a conta de resto do censo dos cidadãos de meia cidadania que a ocupam e a usam. O censo de 2010 registrou que a população da capital é de mais de 11 milhões de pessoas. Uma proporção alta dessa população ladeia ou atravessa diariamente a cracolândia, enclave num dos mais importantes cenários de equipamentos culturais da cidade, como museus históricos e de arte e sua mais importante sala de concertos, além de ser um dos mais movimentados pontos de junção de linhas de trem e de metrô. A fraqueza política do debate esboçado está na omissão desse confronto decisivo para o eleitor. Com Henri Lefebvre, um dos maiores especialistas em cidades e sociedades urbanas, pode-se defini-lo como confronto entre quem usa a cidade, o cidadão, e quem a consome e preda, o viciado.

É generoso e significativo para a democracia brasileira que exista uma vigorosa opinião pública em defesa dos desvalidos da cracolândia. Ao se tornar um problema social, ela se torna problema de todos. É em nome de todos que são traçadas as políticas públicas, também as dirigidas a essa população. Mas políticas públicas que não levam em conta as carências das maiorias correm o risco de não levarem a lugar nenhum, nem mesmo às urnas. Penso que é desse tipo a decisão do ministro da Saúde, nestes dias em que a cracolândia inscreve-se no debate eleitoral, de criar um programa para a questão das drogas sobretudo um programa para a candidatura federal. Expõe-se o PT à crítica fácil de suas responsabilidades na questão da cracolândia. Não só por improvisos como esse, mas também porque foi em duas administrações petistas, inspiradas pela ideologia da periferização do centro da cidade, que a territorialização dos viciados e da droga se confirmou.

Por seu lado, a fragilidade do PSDB está em não ter construído um vocabulário, como fez o PT, de conversação tanto com a numerosa população da periferia quanto com os setores mais sensíveis ao apelo humanitário na classe média e na elite. O PSDB está em desvantagem com esses grupos dotados de enorme capacidade de multiplicação da opinião partidária. O apenas esboçado debate partidário sobre a cracolândia, embora de conteúdo mais consistente no discurso dos pré-candidatos do PSDB e muito menos consistente na improvisada reação do PT, teve na internet um efeito multiplicador muito maior em favor do PT do que do PSDB. Num momento em que as redes sociais derrubam governos em vários países, esse cenário deveria deixar os tucanos muito preocupados. Não basta falar em nome dos 11 milhões cujos interesses se contrapõem aos interesses dos 2 mil da cracolândia. É preciso mostrar que o verdadeiro compromisso social está também e sobretudo em que os interesses dos 11 milhões estão por trás da política muito positiva de recuperação urgente de um território a que a cidade tem direito. Nessa opção, a civilidade precede o vício. Não basta optar pela cidade e pela maioria. É preciso saber dizê-lo.

Entranhas - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 22/01/12
BRASÍLIA - Como quase tudo na vida, há duas formas de olhar a dívida de cerca de R$ 3 bilhões do Tribunal de Justiça de São Paulo, o TJ-SP, com seus juízes e servidores. Dívida, diga-se, que é quase metade de todo o orçamento do órgão para 2012.

Uma ótica, a boazinha, é a dos credores, que veem o tempo passar e nada do dinheiro entrar no bolso. Alegam que merecem receber por férias não gozadas, licenças-prêmios e, consolidando tudo, as naturais atua-lizações da moeda.

Já a outra ótica, a malvadinha, é a de quem lê, sabe que vai pagar a conta e fica com a pulga atrás da orelha. Que tantos direitos são esses que chegam a praticamente 50% do orçamento de um ano inteiro para tudo?

Quem conhece as entranhas (detesto essa palavra, mas palavras feias às vezes têm lá sua função...) do Judiciário sopra aos nossos ouvidos que, se somar daqui, diminuir dali, vamos chegar à conclusão de que o maior bolo da dívida do TJ-SP vem de decisões administrativas que transformam vantagens insustentáveis em direitos -para o contribuinte pagar.

São coisas assim, exemplifica o indignado: o servidor tem direito a duas férias por ano, goza uma inteira, a outra em parte e cobra ressarcimento integral por uma das duas. Em alguns Estados, é permitido vender uma das férias, o que já é estranho. Em outros, nem isso. Dizem que a prática é comum nos dois casos.

Quando deputados e senadores votam privilégios ilegítimos em seu próprio favor, nós todos, principalmente os chatos dos jornalistas, mas também servidores de todas as áreas e 100% dos empregados da iniciativa privada ficamos indignados, gritamos, dizemos que "o Brasil não tem jeito mesmo".

E quando é em outro Poder? Não acontece nada? É melhor saber exatamente quanto desses R$ 3 bilhões corresponde a direitos e quanto surgiu de decisões corporativas. A sociedade brasileira tem o direito de saber, até porque é quem fica com o prejuízo.

A competitividade chinesa - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 22/01/12
O relatório intitulado "Tecnologia e competitividade em setores básicos da indústria chinesa", fruto de um termo de cooperação entre a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República, sob o comando do ministro Moreira Franco, do PMDB do Rio, e a Coppe (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia) da UFRJ, define a inovação tecnológica como o ponto central do desenvolvimento da China.
Segundo o estudo, a capacidade inovativa chinesa é baseada em duas convicções que se interligam: a criação de novas tecnologias, produtos e serviços, e a ideia de que a China deve imitar o modelo de inovação do Vale do Silício, na Califórnia.
Apesar das dúvidas quanto às estatísticas chinesas, e à qualidade da massa de trabalhos acadêmicos e patentes registrados, os números oficiais são impressionantes: em 2008 a China teve quase 290 mil patentes pedidas, sendo 67% solicitadas por residentes, fruto de uma taxa de 23% de crescimento entre 2004 a 2007.
Comparando com o Brasil, tivemos pouco mais de 21 mil patentes pedidas no mesmo ano, em sua maior parte por não residentes (81,6%), com taxa de crescimento de apenas 4% de 2004 a 2007.
Na China, segundo o estudo, 72% dos detentores de patentes são empresas, contra 53% no Brasil, o que demonstra a integração entre pesquisa nas universidades e desenvolvimento, sendo prioritárias pesquisas aplicadas, com foco no mercado.
As empresas chinesas estariam muito mais voltadas ao desenvolvimento e à melhoria dos produtos já existentes do que para pesquisas e invenções de novos produtos.
Capital e recursos humanos são investidos em projetos de curto prazo com retorno rápido, enquanto as universidades cuidam dos projetos de longo prazo.
A China pretende consolidar, por exemplo, sua indústria farmacêutica, que atualmente tem mais de 13 mil pequenas empresas operando, principalmente na economia paralela, produzindo remédios e produtos de higiene pessoal com o risco de os consumidores comprarem produtos de qualidade duvidosa.
A consolidação da indústria se dará em torno de uma ou duas empresas a nível nacional. A nível regional, o governo pretende criar 20 grandes empresas. A ideia é aproximar o mais possível a produção e a venda, a fim de baratear os preços dos medicamentos.
Preocupa o governo chinês, no entanto, o fato de as novas invenções terem origem, em sua maior parte, em laboratórios multinacionais, o que é percebido como uma fraqueza do país.
Em média, o investimento em Pesquisa e Desenvolvimento da China aumentou a uma taxa anual de 9% em relação ao PIB nos últimos dez anos.
O investimento vem se concentrando progressivamente nas empresas, representando em 2006 cerca de 70% do total, em detrimento dos institutos de pesquisa, que viram reduzidas as verbas de 40% para cerca de 20% do total.
Nos últimos anos houve uma preponderância do financiamento para desenvolvimento de tecnologias, que chega a cerca de 80% do total de recursos. Houve também um aumento do número de pessoas envolvidas em Pesquisa e Desenvolvimento, em particular no número de cientistas e engenheiros.
A parcela relativa às universidades e outras instituições se manteve inalterada, em torno de 10%.
O documento traz em sua contracapa um texto não assinado que pode servir de conclusão do estudo, que teve início com uma pergunta básica: o quanto a dimensão tecnológica é relevante na competitividade chinesa?
"O que se observou no campo foram empresas que, tendo começado absorvendo tecnologia licenciada, foram, ao longo do tempo, inovando "secundariamente", absorvendo mais tecnologias por acordos, engenharia reversa ou grande esforço próprio, acumulando capacitações tecnológicas de produção e de inovação, e ganhando mercado.
"Migrando de ciclo em ciclo de inovação, e se recriando organizacional e competitivamente, a cada rodada de crescimento e sofisticação empresarial.
"No processo, algumas poucas empresas já alcançaram a liderança em segmentos de sua indústria, ou acabaram por desenvolver trajetórias tecnológicas próprias que as suportam em posições competitivas singulares e sustentáveis.
"Se o vasto sistema produtivo chinês ainda não está neste patamar, isso não quer dizer que não se possa seguir caminhando nessa direção.
"Não é só o estado atual da República Popular da China que é impressionante; o que realmente fascina é a sua evidente capacidade de aprendizado, evolução e transformação coordenada, em busca de uma posição de liderança no cenário mundial.
"Se por um lado é evidente, e já notório, que o despertar e o crescer de tal gigante industrial ameaça a indústria nacional em múltiplas frentes, por outro se pode constatar que o Brasil tem imensas oportunidades de aprendizado e colaboração com a experiência chinesa.
"O ineditismo da experiência histórica recente, articulando estado forte e múltiplo, planejamento governamental coordenado e para o longo prazo, competição acirrada, empresas dinâmicas, desenvolvimento tecnológico e instituições em mutação, levando-a a mudar o mundo tal como o entendemos, nos coloca de frente à História.
"E pergunta ao Brasil: e o que vocês farão da sua?"

Ueba! Queremos Datena no "BBB"! - JOSÉ SIMÃO


FOLHA DE SP - 22/01/12
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Pichação num muro em São Paulo: "Kassab sem-vergonha, o busão tá mais caro que a maconha". Rarará!
E essa na traseira de um ônibus: "Ekos Cabeleireiro: apliques, tranças artísticas e rabos sob encomenda". E outra: "Britânica declara na TV que tem duas vaginas". Então não é britânica, é Playcenter!
E a piada pronta: "Michel Teló em primeiro lugar em PRAGA!". Como disse um amigo meu: quando o sertanejo universitário vai se formar?
E janeiro é o mês dos realities. Ops, SURREALITY shows.
Deu tanta polícia no "BBB" que a Globo vai lançar o "CSI Projac"!
Chama o Datena! Vai substituir Bial! Campanha Datena no "BBB"!
E em Portugal tem um remédio pra epilepsia chamado BIALzepam! Rarará! É verdade!
E as "Mulheres Ricas"? Ops, Mulheres Bizarras! Eu sei o que elas tomam pra ficar tão loucas. Champanhe tarja preta!
E por que rico adora gritar na janela? "Riiiooo, eu te amo!" "Vamos tacar champanhe no povo!"
Se pobre grita na janela, os vizinhos chamam a polícia! "Tá tendo barraco!". "Corintiano!" Rarará!
E tem uma que já está preparada para a luta de classes: "Eu sou uma mulher blindada". "Desculpe, mas eu adoro arma de fogo" e "adorei as minhas aulas de defesa pessoal".
É blindada, atira e dá voadora. Eu tenho medo dela. Alias, eu tenho medo de todas. Medo, não! Pânico!
E esta: "Rato morde pé de servidora, e Senado é dedetizado". Durante o recesso! Ou seja, nem todos estavam de férias! E por que o rato não mordeu o pé do Sarney? Porque, se o rato mordesse o pé do Sarney, morria de peste bubônica. Rarará!
E o que o dedetizador gritou quando viu o tamanho de um rato, ops, da Excelência? "Manda reforço!"
E adorei a charge do Coza com o rato gritando pro dedetizador: "Eu sou ficha limpa! Sou ficha limpa!". Rarará. É mole? É mole, mas sobe!
O Brasil é lúdico! Adorei a placa num caminhão bem esbagaçado: "Faço-se fretes". Adoro a colocação desse pronome. Como não serve pra nada, usam aleatoriamente.
Cartaz na balsa de Porto Seguro: "Aluga bicicleta-se". E numa estrada de Santa Catarina: "Vendo-se frango-se". Rarará!
E é dia do meu programa predileto: "Esquenta", com Regina Casé!
Porque nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Por que duvidam da evolução? - MARCELO GLEISER


FOLHA DE SP - 22/01/12

Os Mais crentes se opõem mais à teoria da evolução. Ao menos nos EUA, a evidência é indiscutível. Em uma pesquisa do grupo Gallup na véspera do aniversário de 200 anos do nascimento de Charles Darwin, no dia 12 de fevereiro de 2009, apenas 39% dos americanos responderam que "acreditam na teoria da evolução".

Não há dados semelhantes no Brasil, mas imagino que os números sejam semelhantes ou piores.

A mesma pesquisa relaciona o resultado com o nível educacional dos respondentes. Apenas 21% das pessoas com ensino médio completo ou menos acreditam na evolução. O número sobe para 53% nos graduados e 74% em quem tem pós-graduação.

Outra variável investigada foi a relação do resultado com frequência à igreja. Dos que acreditam em evolução, 24% vão a igreja semanalmente, 30% ao menos uma vez por mês e 55% nunca vão. Quanto mais crente, maior a desconfiança em relação à teoria de Darwin.
Por outro lado, a evidência em favor da evolução também é indiscutível. Ela está no registro fóssil, datado usando a emissão de partículas de núcleos atômicos radioativos. Rochas de erupções vulcânicas (ígneas) enterradas perto de um fóssil contêm material radioativo. O mais comum é o urânio-235, que decai em chumbo-207.

Analisando a razão entre o urânio-235 e o chumbo-207 numa amostra de rocha ígnea e sabendo a frequência com que o urânio emite partículas (em 704 milhões de anos, a quantidade de urânio numa amostra cai pela metade), cientistas obtêm uma medida bastante precisa da idade do fóssil. Por exemplo, os dinossauros desapareceram há 65 milhões de anos.

A evidência em favor da evolução aparece também na resistência que bactérias podem desenvolver contra antibióticos. Quanto mais se usam antibióticos, maior a chance de que mutações gerem bactérias resistentes. Esse tipo de adaptação por pressão seletiva pode ser investigado no laboratório, sujeitando populações de bactérias a certas drogas e monitorando modificações no seu código genético.

Posto isso, pergunto-me por que a evolução causa tanto problema para tanta gente. Será que é tão ofensivo assim termos tido um ancestral em comum com outros primatas, como os chimpanzés?

A nossa descendência é ainda muito mais dramática: se formos mais para o passado, todos os animais que existem descenderam de um único ancestral, o Último Ancestral Universal Comum (na sigla Luca, em inglês), que provavelmente era um ser unicelular.

Essa desconfiança do conhecimento científico é muito estranha, dada a nossa dependência dele no século 21. (De onde vêm os antibióticos e iPhones?) O problema parece estar ligado ao Deus-dos-Vãos, a noção de que quanto mais aprendemos sobre o mundo, menos Deus é necessário. Os que interpretam a Bíblia literalmente veem nisso uma perda de rumo. Se Deus não criou Adão e Eva e se não nos tornamos mortais após a "queda do Paraíso", como lidar com a morte?

Uma teologia que insiste em contrapor a fé ao conhecimento científico só leva a um maior obscurantismo. Mesmo que não acredite em Deus, imagino que existam outras formas de encontrar Deus ou outros caminhos em busca de uma espiritualidade maior na vida.

JAPA GOSTOSA


Os latinos na eleição dos EUA - MAC MARGOLIS


O Estado de S.Paulo - 22/01/11


Uma das decepções dos latino-americanos com o governo de Barack Obama foi o pouco caso de Washington com a região. Sim, facilitou as remessas para Cuba e a vida dos viajantes à ilha, mas o embargo econômico montado na Guerra Fria permanece. Levou três anos para visitar países da América do Sul e só agora, no crepúsculo do mandato, começa a falar em reformar as leis de imigração.

Após elevar as esperanças globais, ao anunciar uma nova era de diálogo e cooperação com os aliados e vizinhos, Obama se distraiu. Seu maior feito nas Américas foi convencer o Congresso a votar os tratados de livre comércio com Panamá e Colômbia, ambos iniciativa do governo de George W. Bush.

Agora, com sua reeleição em jogo, será diferente? Pode ser que consiga a reeleição, com a ajuda, quem sabe, das poucas luzes de seus rivais republicanos. Mas, com a popularidade e a economia em baixa, não é inconcebível uma reviravolta em Washington.

E como seria a relação com os latinos sob a batuta dos republicanos? Por mais que prometam resgatar os tempos de pax americana, os presidenciáveis republicanos falam muito pouco de política externa - e da América Latina, menos ainda.

Faltam propostas coerentes e, quando se esboça alguma, soa como um filme da Guerra Fria. Do Twitter ao corpo a corpo da campanha, os candidatos soltam o verbo contra os nefastos ditadores comunistas que ainda conspiram contra os Estados Unidos e a civilização ocidental. Alertam para supostas células terroristas no seio do continente sul-americano. Esquecem-se que os mesmos líderes nefastos (honras para Hugo Chávez) mal conseguem administrar suas riquezas ou abastecer suas populações de comida.

Em recente documento de campanha, Um Século Americano: uma Estratégia para Garantir os Interesses e Ideais Americanos Duradouros, de 44 páginas, o ex-governador Mitt Romney, favorito nas pesquisas, dedica quatro parágrafos à América Latina. Neles, escancara verbetes como terrorismo, gangues, traficantes e autoritarismo. Gasta tinta com Cuba, Venezuela, Irã e até com o Hezbollah, enquanto o Brasil não merece referência nenhuma.

O alarmismo dos conservadores nasce de um desastre de percurso. O Partido Republicano chocou-se com o Tea Party, o movimento ultraconservador empenhado em afundar o "socialismo" de Obama, e adernou perigosamente à direita.

Quem perde é o povo americano, que, em vez de propostas sérias - para criar empregos e incentivar os empreendedores -, ouve brados nacionalistas e intolerância tosca.

Disputa. Logo, as eleições primárias, que indicarão o rival de Obama na eleição de novembro, viraram um concurso de radicalismos. Os presidenciáveis tratam o país como uma flora rara e frágil e brigam entre si para mostrar quem endurecerá mais contra a invasão bárbara.

Romney propõe blindar a fronteira com México com uma muralha de 2 mil quilômetros. A ex-candidata Michelle Bachman, a queridinha do Tea Party, queria duplicá-la. Já o exótico Herman Cain causou escândalo ao propor uma cerca elétrica letal.

Cain e Bachman estão fora do páreo, mas imprimiram o tom da campanha. Até Newt Gingrich e Romney, até então com posições mais moderadas, apressam-se em dar a seus discursos uma meia volta para a direita.

É uma pena. Era uma vez os republicanos, os donos das propostas econômicas mais sensatas para as Américas. Defendiam o mercado livre e denunciavam os perdulários subsídios a produtores nacionais. Exageraram, talvez, na proposta da Alca, que os latinos entenderam como um contrato leonino (a favor dos gringos). No entanto, foi republicana a convicção de que o imigrante latino não era um parasita ou marginal, como queriam boa parte dos democratas.

Sabiam, sim, que o imigrante latino quer trabalho e não confusão, uma das razões pelas quais Estados como o Arizona, com muitos latinos, viram despencar a criminalidade.

Afinal, regularizar os imigrantes de trabalho braçal poderia aumentar a renda domiciliar dos EUA em US$ 180 bilhões por ano, segundo estudo do (bastante conservador) Instituto Catho. Assim pensavam republicanos como Ronald Reagan e John McCain. Mitt Romney também entendeu assim, até que a tempestade ideológica descarrilou sua campanha.

Até parece insulto - FLAVIA GUERRA CAVALCANTI


O GLOBO - 22/01/12
O governo brasileiro anunciou duas medidas para lidar com a recente imigração para o Brasil: fechamento da fronteira para haitianos e "tapete vermelho" para profissionais qualificados, sobretudo os provenientes da Europa. Para ambas as políticas, a justificativa é a de que o Brasil precisa controlar o fluxo migratório, que só deve aumentar nos próximos anos caso o país, como é previsto, mantenha-se como uma das maiores economias do mundo.
A iniciativa de tratar do tema é bem-vinda. Afinal, nosso Estatuto do Estrangeiro foi criado em 1980, durante o período militar, e é considerado por organizações de direitos humanos extremamente restritivo aos imigrantes. A entrada de haitianos pela fronteira norte do Brasil, na cidade de Brasileia, no Acre, tornou urgente para as autoridades brasileiras a revisão de nossa política migratória, mas a discussão, até o momento, tem caminhado no sentido de maior contenção da imigração.
Uma resolução do Ministério da Justiça determinou a concessão de cem vistos mensais pela embaixada em Porto Príncipe e o estabelecimento de um prazo de cinco anos para o imigrante haitiano conseguir um trabalho regular no Brasil. Os haitianos que já se encontram no Brasil serão legalizados, mas quem entrar sem visto depois da nova medida será considerado ilegal e estará sujeito à extradição.
Não há, portanto, qualquer intenção do governo de flexibilizar o Estatuto do Estrangeiro. Este continua valendo para todos, inclusive haitianos que ingressarem no Brasil após a publicação da resolução. Os cem vistos mensais são apresentados como um ato de solidariedade com o povo haitiano, quando na verdade não passam de uma forma de controle e restrição da imigração.
Paralelamente, o governo anunciou que a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência está elaborando uma política de imigração para facilitar a vinda de profissionais estrangeiros altamente qualificados. O objetivo seria promover (O GLOBO, 15/1) um "processo de imigração seletiva, que priorize a "drenagem de cérebros", mas estabeleça limites para os estrangeiros que chegam fugindo da pobreza de seus países". A inspiração para o projeto seria a política de imigração seletiva praticada no Canadá e na Austrália, países que praticam as políticas imigratórias mais cruéis e discriminatórias.
O governo afirma que "é preciso definir até onde irá a nossa generosidade". Falar em generosidade numa hora dessas parece até um insulto. Se selecionamos os mais qualificados e desprezamos os outros - que são os mais necessitados -, não estamos praticando generosidade nenhuma, mas simplesmente cuidando dos nossos interesses de forma imediatista.
Em 2009, ao sancionar a Lei de Anistia Migratória, o presidente Lula fez questão de destacar que o Brasil é um país que tem lição a dar sobre tratamento de imigrantes. Agora, em 2012, estamos prestes a praticar uma política imigratória moralmente indefensável, baseada na discriminação.

Embaixo do tapete persa - YOANI SÁNCHEZ


O ESTADÃO - 22/01/12
Num primeiro momento, ficamos desconcertados. Depois, começaram a surgir de todos os lados as perguntas sobre a visita de Mahmoud Ahmadinejad à América Latina. Até hoje, ainda não temos nenhuma certeza. Porque essa foi, sem dúvida, uma viagem inusitada, que acabava de ser anunciada e realizada numa conjuntura internacional turbulenta, na qual qualquer gesto assume conotações desproporcionais, imprevisíveis.
Atrás de si, o líder iraniano nos deixou o rastro de um conflito difícil de prognosticar, como o que se trava entre o Irã e várias potências ocidentais. Sua permanência em Havana fez com que nos déssemos conta do perigo que, embora exibido todas as noites nos noticiários, era considerado a milhares de quilômetros de distância do nosso complexo cotidiano. Com sua chegada, ele obrigou o governo cubano a tomar partido em público, a apressar - na frente das câmeras - a escolha de um lado.
No dia 11, quando Ahmadinejad desceu do avião, não havia nenhum tapete o esperando. Ao pé da escada, estava o vice-presidente Esteban Lazo. Na porta do aeroporto José Martí nem uma manifestação de boas-vindas ou de repúdio aguardava por ele. Não se viam grupos defensores dos direitos dos gays protestando pelo tratamento reservado a homossexuais no Irã, enquanto os opositores estavam mais preocupada com as operações policiais e as prisões do que com a chegada do controvertido dignitário. Tanta indiferença deve ter parecido inusitada a alguém acostumado a despertar em sua passagem as paixões mais inflamadas.
No Salão Nobre da Universidade de Havana, rodeado pelos acadêmicos mais oficiais - ou dos oficiais mais acadêmicos - recebeu um título de doutor honoris causa em ciências políticas, que acompanhou com uma conferência. Em sua voz, soaram extremamente paradoxais os apelos à busca de "uma nova ordem, de um olhar novo, que respeite todos os seres humanos", mas nenhum dos presentes levantou a mão para questioná-lo.
Tanto o aplauso final daquela tarde quanto o galardão eram destinados ao homem de olhos diminutos que poderia desencadear a próxima guerra mundial.
Recepção. Raúl Castro o recebeu uma hora mais tarde no Palácio da Revolução, para reafirmar seu apoio ao programa nuclear de Teerã. E, assim, Ahmadinejad pôde finalmente posar para a foto de família com seu par cubano, a validação pública que veio buscar na América Latina.
Entretanto, na foto da sua visita ao nosso continente há "parentes" e "parentes". Tanto Hugo Chávez quanto Rafael Correa podem oferecer-lhe não só apoio político, como também os acordos econômicos necessários para aliviar as sanções econômicas impostas ao Irã. Cuba aparece nesse retrato familiar como a criança pequena, sem voz nem voto, mas que ainda assim deve ser captada pela lente.
O prato forte da imprensa de Havana foi o encontro com Fidel Castro, narrado pelo visitante à imprensa estrangeira antes de sua partida. "Foi motivo de grande alegria para mim ver o comandante Fidel são e salvo", afirmou, querendo, com essas palavras, dirimir os boatos da morte do comandante-chefe que aparecem nas redes sociais.
Por outro lado, Ahmadinejad precisava desse contato diplomático para reduzir o isolamento internacional que o cerca nos últimos meses e Havana contribuiu para seus planos, até mesmo com o título honoris causa.
Entretanto, nos cálculos feitos sobre sua permanência entre nós não foi levado em conta o custo negativo que ela terá para Raúl Castro. A menos de três semanas do início da primeira Conferência Nacional do Partido Comunista, o general presidente precisava de um cenário de maior distensão, com menos olhares fixos sobre ele. Mas, de repente, a questão do Estreito de Ormuz começou a ser levantada no Mar do Caribe e os questionamentos contra Teerã e Havana levantaram-se em uníssono.
O líder iraniano nos colocou em foco de uma maneira que teria sido melhor evitar. Em troca dessa exposição, a imprensa oficial cubana confirmou que a visita pretendia estreitar a colaboração comercial entre as duas nações, intercâmbio consagrado em 2007 com a assinatura de acordos no valor de 525 milhões.
Somente com o passar das semanas será possível avaliar as consequências da estada de Ahmadinejad na nossa região e, particularmente, de sua presença em Cuba.
Terminados os lampejos das câmeras e as manchetes na imprensa, poderá ser percebido seu verdadeiro efeito. Comprovaremos, então, se o governo cubano - como a criança travessa da fotografia - sai devagar do enquadramento para cuidar dos próprios problemas internos, ou se, ao contrário, prefere continuar segurando a mão de Teerã, desafiando muitos com esse abraço, e afastar, desse modo, o olhar das dificuldades nacionais.

Olhando de perto... - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 22/01/12


Entre os vários problemas que Mitt Romney enfrenta está o fato de ser mórmon. Os americanos nutrem profunda desconfiança em relação a essa fé, fundada por Joseph Smith nos anos 1820.

Eles têm seus motivos, como mostra Christopher Hitchens em "God is Not Great". Uma vez que o mormonismo surgiu em tempos relativamente recentes, quando já havia jornais e uma massa crítica de gente alfabetizada, registraram-se detalhes sugestivos de manipulação e fraude na gênese da nova religião.

Ao contrário do que se dá com outros profetas, a picaretagem de Smith está documentada. Em 1826, ele foi condenado como desordeiro e impostor por um tribunal de Nova York. Admitiu em juízo ter ludibriado seus concidadãos com falsas expedições de mineração e proclamando ter poderes de necromancia.

Quatro anos depois, inspirado no sucesso de pregadores religiosos que abundavam na região, Smith reaparecia nos jornais dizendo ter descoberto "o livro de Mórmon", que restaurava a verdadeira fé cristã e é a base da religião mórmon.

Segundo Smith, um anjo chamado Moroni o visitara três vezes para informá-lo de um livro -escrito em tábuas de ouro- que explicava a existência dos índios nas Américas e reinterpretava os evangelhos.

Alegando ter encontrado as relíquias, Smith arrebanhou ajuda para passar a mensagem para o papel, já que ele próprio era semianalfabeto. Quando lhe pediam para ver as tá-buas, dizia que não poderia mostrá-las, pois qualquer outro que olhasse para elas morreria na hora.

A história do mormonismo está cheia de passagens desse quilate, além de providenciais revelações, que ajudaram a tirar a igreja de certas encrencas legais. Mas é só o mormonismo? Se tivéssemos a chance de observar o surgimento das outras religiões com a mesma riqueza de detalhes, será que elas não se tornariam todas igualmente suspeitas?

A tempestade pode não vir - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 22/01/12


Apesar das projeções sombrias divulgadas na semana que passou pelo Banco Mundial (Bird) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), há um punhado de sinais que apontam para dias mais ensolarados no cenário da economia internacional.

O primeiro deles vem dos Estados Unidos e dá conta de notável recuperação do emprego. Em dezembro, por exemplo, os níveis de desocupação recuaram dos 9,2% a que chegaram, em julho, para 8,5%. As novas projeções sobre a atividade econômica também sugerem certa reação. Em vez da quase paradeira que foi o crescimento insatisfatório de 1,7% estimado para 2011 (os números definitivos ainda não estão disponíveis), as novas previsões são de que dá para esperar para 2012 uma expansão do PIB de pelo menos 2,5%.

Outro bom indício foi passado pelo Escritório Nacional de Estatística da China: salto de 9,2% na economia chinesa no ano passado, mais alto do que as apostas que vinham sendo feitas pela maioria dos observadores internacionais - de um avanço não superior a 8,6%. Além disso, foi confirmada uma inflação sob controle, de não mais do que 5,4%. Ficou nítido, então, que também em 2012 a China pode avançar mais do que os 8,0% hoje esperados.

Dos dirigentes da área do euro - epicentro dos maiores riscos de estagnação e de turbulência - ainda não foram obtidas decisões consistentes para a saída desta crise de dívidas e fortalecimento da moeda comum. No entanto, mudou a maneira como o Banco Central Europeu (BCE) - agora sob a direção do italiano Mario Draghi - passou a atacar os grandes focos de incêndio. Além de prosseguir com suas operações de recompra de títulos soberanos dos países mais vulneráveis do bloco monetário (especialmente da Itália e da Espanha) com o objetivo de criar mercado e derrubar juros (yields), o BCE abriu uma linha, em princípio, ilimitada de crédito de mais longo prazo (3 anos) com as instituições financeiras, a juros de apenas 1% ao ano. O primeiro megaleilão realizado em 21 de dezembro alcançou a magnitude de 489,2 bilhões de euros (US$ 630 bilhões). A segunda oferta está agendada para fevereiro.

No conjunto, essas enormes operações de crédito produziram quatro efeitos de grande importância: (1) abriram canal indireto de refinanciamento das dívidas soberanas, na medida em que financiaram também o principal credor - os bancos; (2) obtiveram no mercado relevante redução dos juros cobrados no lançamento de novos títulos destinados tanto à rolagem de dívida velha como ao financiamento de novos déficits orçamentários; (3) afastaram as mais sérias ameaças de colapso geral do crédito; e (4) desarmaram as principais fontes de desconfiança e turbulência que pairavam sobre o mercado financeiro mundial.

Informações mais frescas mostram que o BCE elevou para perto de 2,7 trilhões de euros o total de ativos que, em meados de 2011, era de 1,9 trilhão de euros - como se pode ver no gráfico. Essa injeção de moeda emitida do nada começa a levantar duras críticas dos mais ortodoxos. No entanto, não há, no momento, nenhum vestígio preocupante de inflação.

As forças que apontavam para um panorama global de marasmo e depressão ainda não foram dispersadas. Mas, puxando essas novidades para o nosso chão, ficou claro que as cozinheiras do governo Dilma, que preparam a caldeirada de política econômica de 2012 (o tal do novo mix), já não podem partir do princípio de que há uma tempestade perfeita em formação no mercado internacional.

GOSTOSA


É hora de punir os corruptores - CARLOS ZARATTINI


FOLHA DE SP - 22/01/12


Por trás dos escândalos, há sempre contratos milionários, mas pouco se fala das empresas corruptoras; é preciso foco especial no sistema financeiro



O ano de 2012 começa com o Congresso Nacional diante do desafio histórico de estabelecer um marco legal para a vigência dos valores éticos nas relações entre o público e o privado no país.

Trata-se da apreciação do projeto de lei 6826/2010, encaminhado ao Congresso pelo ex-presidente Lula, para contornar a falta de uma legislação que responsabilize pessoas jurídicas em atos contra a administração pública nacional e estrangeira, em especial pelos atos relacionados à corrupção.

No noticiário, dificilmente se fala do papel das empresas corruptoras nas tramas que solapam os cofres públicos. Não há corrupção sem corruptor e, por trás de todos os escândalos, normalmente há disputas milionárias por contratos.

Há uma tendência de resumir todos os males ao setor público e aos políticos, mas a verdade é que segmentos da iniciativa privada estão ligados aos recorrentes escândalos e ao superfaturamento. Isso não acontece só no Brasil, mas também em democracias já consolidadas.

Empresas que usam artifícios que não são republicanos para obter favores arruínam os princípios morais, semeiam maus exemplos e impregnam a sociedade do sentimento de que se pode levar vantagem em tudo.

O projeto de lei dispõe sobre a responsabilidade administrativa e civil de pessoas jurídicas e dá mais um passo nas ações de combate à corrupção que estão sendo adotadas desde 2003.

Ele é mais rigoroso e abrangente que a Lei de Licitações e inclui, por exemplo, punições a atos de corrupção relacionados ao âmbito tributário, ao sistema bancário público e às agências reguladoras.

Cumpriremos obrigações assumidas perante órgãos como a ONU, a OEA e a OCDE. O projeto de lei prevê multas e sanções administrativas, como a proibição de contratos com o setor público.

Uma comissão especial na Câmara da qual sou relator tem realizado audiências públicas para ouvir empresários, juristas e órgãos de controle. Vamos colocar o Brasil no rol dos países que já contam com uma legislação que responsabiliza pessoas jurídicas por atos de corrupção, como os EUA (1977), a Espanha (1995) e mais recentemente o Reino Unido (2010).

O projeto prevê também a responsabilização objetiva das empresas, afastando a discussão sobre a culpa ou dolo da pessoa física na prática da infração.

Retira-se também a necessidade de identificação da autoria da conduta, com as dificuldades inerentes de comprovação dos elementos subjetivos envolvidos na caracterização do ilícito. Impõe-se a responsabilização da pessoa jurídica, uma vez comprovado o fato, o resultado e o nexo causal entre eles. Isso não significa, porém, eliminar eventual responsabilização da pessoa física em processo apartado.

Defendemos ênfase na responsabilização administrativa e civil porque a realidade mostra que esses processos têm se revelado muito mais rápidos e efetivos no combate à corrupção.

É preciso também um foco especial no sistema financeiro, com punições para as omissões de funcionários públicos que fiscalizam o setor e também para a ação de inescrupulosos operadores.

Na crise de 2008, nos Estados Unidos, foi possível observar que operadores do sistema financeiro estiveram na gênese dos problemas e, a despeito da existência de lei, não foram punidos.

Mas, para a transformação do projeto em lei, vencendo as naturais resistências, será fundamental a participação da sociedade e sua manifestação favorável a essa histórica medida.


Visibilidade e poder democrático - ROBERTO ROMANO


O Estado de S.Paulo 22/01/12


A luta entre o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF) define uma nova e importante etapa na democratização do Estado brasileiro. Como previsível, os intocáveis do Judiciário aliam-se aos congressistas e políticos do Executivo, ampliando a campanha contra a imprensa. Novamente o erro é atribuído a quem divulga os males institucionais. A publicidade integra a doutrina e a prática do Estado moderno. Como o Brasil só com boa vontade merece o nome de plena democracia (o nome certo do nosso regime é federação oligárquica), até hoje venceram o privilégio e a impunidade. Descobertos os seus erros, os donos dos palácios desejam aplicar viseiras novas no Ministério Público (MP) e na mídia.

"São proveitosos o ato justo e a obediência às leis, quando existem testemunhas da conduta. Mas se não corre o risco de ser descoberto, o indivíduo não precisa ser justo." A frase vem do sofista Antifonte (século 5.º a.C.), mas serve com perfeição às nossas elites. O debate sobre a visibilidade do justo ou injusto marca o Ocidente. Platão narra a fábula de Giges: pastor humilde, o herói descobre um anel que, se girado no dedo, o torna invisível. Ele usa tal privilégio para matar o governante, ganhando a rainha e o trono. O mito de Giges ilustra a razão de Estado: o poderoso busca o sigilo para seus atos, mas tenta ver o que se passa nas casas das pessoas "comuns" (sobretudo nos bolsos) e nos países estrangeiros. Nasce daí a censura unida às polícias secretas, à espionagem, ao desejo de impor aos governados normas éticas jamais seguidas pelos dirigentes.

O ideal do governo que tudo enxerga, tudo ouve, tudo alcança é a base histórica das atuais políticas autoritárias. O governante acumula segredos e deseja que os súditos sejam controlados. Desse modo se estabelece a heterogeneidade entre cidadãos e dirigentes.

Na aurora dos tempos modernos, segundo um fino analista da razão absolutista, "a verdade do Estado é mentira para o súdito. Não existe mais espaço político homogêneo da verdade, o adágio é invertido: não mais fiat veritas et pereat mundus, mas fiat mundus et pereat veritas. As artes de governar acompanham e ampliam um movimento político profundo, o da ruptura radical (...) que separa o soberano dos governados. O lugar do segredo como instituição política só é inteligível no horizonte desenhado por esta ruptura (...) à medida que se constitui o poder moderno. Segredo encontra sua origem no verbo latino secernere, que significa separar, apartar" (Jean-Pierre Chrétien-Goni).

A democracia, surgida contra o poder absoluto, instaurou a visível responsabilidade política dos governantes. Na "accountability" os operadores de cargos públicos (do rei aos juízes) tornam os seus atos visíveis para a cidadania. Mas o século 19 trouxe a contrarrevolução napoleônica e a Santa Aliança. Some a transparência no exercício do poder. Como fruto tardio do recuo político e jurídico, surgem as ditaduras que impedem as liberdades públicas, em especial a de imprensa. Ocorre, ao mesmo tempo, uma fratura na ética democrática.

A ética correta, na democracia, não se imiscui na vida coletiva com uma tábua de valores externa aos grupos sociais. Os monopólios do Estado (força física, impostos, norma jurídica) permitem-lhe controlar os interesses particulares. Mas não raro o Estado ultrapassa os seus próprios limites. As revoluções modernas ergueram barreiras contra as pretensões oficiais. Mesmo assim, na Alemanha nazista, na União Soviética (URSS), nas diversas ditaduras e até em países democráticos, o Estado arrogou-se o direito de impor valores e doutrinas sobre a ciência, as artes, a vida econômica. Como exemplos temos a eugenia contra os fracos (o caso Buck versus Bell, decidido pelo juiz Oliver Wendell Holmes) e a "genética socialista" (as teses de Trofim Denissovitch Lyssenko que arruinaram a URSS). Os dois casos mostram que o poder sem peias gera frutos malditos. A imprensa domesticada chega ao escárnio: o jornal mais mentiroso da História é o Pravda (que significa "a verdade", em russo).

Como harmonizar o Estado e a vida livre?

A resposta reside na democracia, no Estado de Direito, no qual a sociedade política segue leis interpretadas pelo Judiciário. O Executivo tem uma barreira nos demais Poderes. Os alvos sociais precisam ser examinados no Parlamento ou nas Cortes de Justiça. Para que os interesses sejam discutidos é imperativo que eles sejam visíveis - daí a necessária regulamentação do lobby - e, por sua vez, os legisladores e juízes devem ser vigiados pelo povo soberano. Quem, no poder, se imagina acima do público ("os leigos") atrai, como dizia Immanuel Kant, a desconfiança generalizada. E reabre as vias sangrentas pisadas por todos os Giges ocidentais, poluindo a fé pública, fonte de liberdade e segurança. Na República os poderes são transparentes, o que inclui togas, fardas, batinas, capelos acadêmicos. A visibilidade absoluta só existe no Paraíso, mas o Estado sem ela é tirania. Conforme Norberto Bobbio, "todo cidadão tem o direito de ser posto à altura de formar para si mesmo uma opinião sobre as decisões tomadas em seu nome" ("o poder mascarado").

Vivemos uma inusitada crise estatal. Crise bem-vinda, pois nosso Estado apresenta os estigmas do segredo e do autoritarismo, técnicas ditatoriais que arrancaram dos cidadãos o hábito de controlar os governantes, legisladores, magistrados. Cabe à cidadania assumir a sua dignidade, pondo os que se julgam onipotentes no devido lugar. "Autoridade", na ordem democrática, significa "ser autorizado" pelo povo soberano. Mas os nossos poderosos - no Executivo, no Legislativo, no Judiciário - fingem nada saber sobre o assunto.

O requisito da emancipação política é o livre pensamento, a livre imprensa, da qual fogem os tirânicos Giges brasileiros. Como o diabo da cruz.

Obama botou os consulados para trabalhar - ELIO GASPARI


O GLOBO - 22/01/12


O companheiro Obama foi à Flórida e anunciou medidas para consertar o sistema inepto e colonial de concessão de vistos para brasileiros que pretendem visitar os Estados Unidos. Houve época em que se formavam filas no fim da madrugada nas ruas próximas ao consulado americano em São Paulo. Quando Obama esteve em Pindorama, a espera para se entregar a papelada era de 134 dias em Brasília, 107 em São Paulo e 105 no Rio.

Quem reclamava era brindado com uma embromatina. Um cônsul que não sabia falar português assinou um texto de quem não sabia escrevê-lo e disse que o número de solicitações "disparou para níveis inaceitáveis". Cada freguês paga uma taxa de US$ 140, dinheiro equivalente a 10% do preço de um pacote turístico que inclui passagem, carro e quatro noites num hotel. (Noves fora, o custo de uma viagem a Brasília, Rio, São Paulo ou Recife, pois só essas cidades têm consulados.)

O companheiro Obama foi à Disney caçar os votos da Flórida, seguindo o conselho de seu antecessor Calvin Coolidge (1923-1929): "O negócio dos Estados Unidos são os negócios". Com uma taxa de desemprego de 9%, os americanos se deram conta de que aquelas filas que parecem um estorvo são um bálsamo. No ano passado, 1,2 milhão de brasileiros foram aos Estados Unidos e cada um deles gastou, na média, cerca de US$ 6 mil por dia. Deve-se aos brasileiros parte da recuperação do mercado imobiliário de Miami, devastado pela recessão.

Se o companheiro quer acelerar em 40% o tempo para "processar os vistos", sua fala foi insuficiente, pois, entre a hora em que o cidadão entrega seu passaporte para o "processamento" e o dia em que o recebe com o visto, os consulados informam que se passam entre três e sete dias úteis. Admitindo-se que ele se refira ao verdadeiro enrosco, que está na espera para marcar o dia da ida ao consulado, e se a sua base for o congestionamento de hoje, até dezembro a demora cairá para 46 dias em São Paulo, 12 em Brasília, oito no Rio e três em Recife. Se a redução for calculada em cima dos períodos de pico, continuarão pipocando esperas de 80 dias. Os consulados do Rio e de São Paulo não têm instalações capazes de atender 80% da demanda com prazos de três semanas, com jornadas de 6 horas 30 e minutos de atendimento. Basta ver que as filas se estendem pela rua, para alegria dos vendedores de guarda-chuvas.

O melhor que o companheiro tem a fazer é mandar reabrir os consulados em Belo Horizonte e Porto Alegre. O serviço exterior americano, como todos os outros, prefere trabalhar no circuito das grifes. Há apenas quatro consulados no Brasil. Na Itália, onde não se emitem vistos de turista, também. Um em Florença, num palazzo de frente para o rio Arno, a poucos passos do Harry''s Bar.

Inépcia

É falsa a informação segundo a qual o MEC não pode fazer um Enem em abril por conta dos processos judiciais.

O segundo Enem, sempre prometido e jamais realizado, não acontece porque o banco de questões armazenado no Inep não aguenta o tranco de dois exames.

Nele, há 6 mil questões. Para funcionar direito, seriam necessárias pelo menos 40 mil.

Desde a realização do Enem de 2009, o MEC sabe que, com dois exames, reduz o risco dos estudantes. O autoritarismo dos educatecas, capazes de proibir o uso de relógios durante as provas, impôs à garotada o risco de 100%.

Não sabiam que, com isso, também compravam 100% de risco de fracasso, coisa que conseguiram em dois exames sucessivos.

Farofa e picanha

Se algum dia a doutora Dilma Rousseff pensou em fazer uma reforma ministerial que tivesse relação com uma faxina, a blindagem dos ministros Fernando Pimentel e Fernando Bezerra Coelho mandou a ideia ao arquivo.

Como diria Stanislaw Ponte Preta, restabeleceu-se a moralidade enquanto lidava-se com peixes pequenos, como Orlando Silva e Carlos Lupi. Na hora da picanha, locupletaram-se todos.

Mundo real

Pelo andar da carruagem, a eleição do prefeito de São Paulo poderá criar uma aliança (tácita) surpreendente. Se o prefeito Gilberto Kassab apoiar o petista Fernando Haddad, o governador Geraldo Alckmin, em silêncio, deixará o vento soprar a favor de Gabriel Chalita, do PMDB.

Bravamente, os tucanos continuarão lutando entre si.

Reality show

A Polícia do Rio de Janeiro criou o BBB do B.

O futuro dos livros didáticos

Na quinta-feira, realizou-se a última promessa de Steve Jobs. A Apple entrou no mercado americano de livros didáticos. Associada às maiores editoras americanas, ela produzirá livros a US$ 14,99, uma verdadeira pechincha. No mesmo lance, lançou o aplicativo iBooks Author (gratuito), que transforma qualquer autor num editor.

O Author turbinará o mercado de livros feitos em casa e vendidos na rede. Ele já existe, com resultados surpreendentes. Amanda Hocking, uma jovem de 26 anos movida a Red Bull que escreveu 17 livros nas horas vagas, submeteu-os a 50 editoras de papel e foi recusada por todos. Botou nove deles na rede, vendeu 1 milhão de cópias e embolsou US$ 2 milhões. O mais barato é gratuito, o mais caro custa US$ 8,99. (Com seu viés açambarcador, a Apple quer que a freguesia só use o Author em Macs e só comercialize seus livros na sua loja.)

Já os e-books didáticos prenunciam uma revolução, com vídeos, áudios e imagens que mudam ao toque do freguês. Mais a possibilidade de criação de comunidades de jovens que estudam naquele volume. Tudo isso por menos da metade do preço de um livro de papel. Quem quiser ver o que vem por aí pode baixar a versão para iPad ou iPhone de "Our choice" ("Nossa escolha - Um Plano para Resolver a Crise Climática"), de Al Gore, por US$ 4,99.

Essa revolução está na rua. Em vez de o governo pensar num modelo Kodak, comprando 500 mil laptops ou tabuletas, derramando dinheiro da Viúva com ferragens numa rede onde faltam professores e cursos de qualificação, os ministérios da Educação e da Ciência poderiam planejar o futuro. Em 2010, o MEC gastou R$ 855 milhões no bem-sucedido Programa Nacional do Livro Didático. Desse ervanário, pelo menos R$ 500 milhões foram gastos com papel, impressão e transporte. Coisas como alfafa e cocheiros no tempo das carruagens. Os autores ficaram com menos de R$ 100 milhões.

Os dias das grandes editoras de livros didáticos penduradas em parques gráficos durarão o quanto duraram os estábulos no início do século passado. Nos próximos anos, com a disseminação e o barateamento das tabuletas, as editoras, grandes ou pequenas, diferenciarão-se pela qualidade dos seus cérebros.

Se o governo for humilde na compra de ferragens, porém ambicioso no planejamento da capacitação de professores e de técnicos capazes de estimular e organizar autores, todo mundo ganha, sobretudo a Viúva.

Saindo do faz de conta - SUELY CALDAS


O Estado de S.Paulo - 22/01/12


No auge dos escândalos de desvios de dinheiro público, o governo Lula determinou aos ministérios prioridade ao uso de pregões eletrônicos em seus contratos de compra, supostamente para dar maior transparência aos gastos do governo. Pois bem, em 2011 quase metade (de 45,2%, em 2010, passou para 47,8%) de todas as compras do governo foi efetuada sem licitação alguma, nem eletrônica, nem disfarçada, nem de cartas marcadas, simplesmente com o fornecedor escolhido. Já no governo Dilma, no auge de repasses milionários de verbas do Ministério do Esporte para o PC do B por meio de ONGs fantasmas, a presidente ordenou o fim dos convênios com essas organizações. A prática voltou e prolifera em praticamente todos os ministérios. E o Congresso não fica de fora: acaba de aprovar mais R$ 1 bilhão (a proposta inicial do Executivo era de R$ 2,4 bilhões) em repasses do Orçamento de 2012 para as ONGs. Afinal, elas não seriam "não governamentais"?

Nos últimos nove anos os governos do PT têm seguido um ritual enganador e marqueteiro para tentar abafar escândalos: faz anúncios impactantes, diz que vai cortar o mal pela raiz e proibir práticas que facilitam a corrupção. Mas pouco tempo depois tudo volta: os mesmos métodos, as mesmas práticas. De tão desmoralizado, esse ritual não serve mais, está desacreditado. Mas o governo continua a ele recorrendo. Incompetência? Falta de alternativa não é.

Esquecido na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE) desde 2010, o projeto de criação da Lei de Responsabilidade Orçamentária é um poderoso antídoto contra a corrupção ou desperdício do dinheiro público. Proposta pelo ex-senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), a lei pretende agir justamente na estrutura da elaboração dos orçamentos públicos (da União, Estados e municípios), dando a eles racionalidade e direcionando a aplicação do dinheiro para projetos tecnicamente prioritários, viáveis e de interesse da população.

A Lei de Responsabilidade Orçamentária complementa o que a bem-sucedida Lei de Responsabilidade Fiscal deixou de focar. Se a fiscal age no sentido de melhorar a qualidade da gestão dos governantes, a outra atua na estrutura dos orçamentos públicos, procurando cortar excessos e vícios a que recorrem governos e parlamentares para enquadrar os orçamentos aos seus interesses, raramente coincidentes com os da população. Se estivesse em vigor, por exemplo, o governo e o Congresso não estariam aprovando verba extra e aleatória de R$ 3,4 bilhões para as ONGs, sem cumprir uma série de justificativas especificadas na lei. Ela procura também acabar de vez com o conhecido orçamento hipócrita, de mentirinha, pelo qual o Executivo envia ao Congresso uma proposta com valores subestimados, o Legislativo inventa receitas extras para abrigar suas emendas e está formada a cadeia de negócios e chantagens entre governo e Parlamento, pela qual o primeiro libera dinheiro para atender a emendas do segundo sempre que precisa aprovar no Congresso matéria de seu interesse. É o jogo de chantagem pelo qual transita e é desperdiçada boa parte do dinheiro da população.

Nascida - como mandam os bons costumes - por iniciativa do Legislativo, e não pela imprópria, despótica e impositiva medida provisória, a proposta inicial da Lei de Responsabilidade Orçamentária recebeu acréscimos dos senadores Renato Casagrande (PSDB-ES) e Raimundo Colombo (DEM-SC), foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça, mas adormece na gaveta do senador Francisco Dornelles (PP-RJ), seu relator na CAE, que diz não ter apoio do governo para fazê-la andar.

Há informações de que a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, andou procurando a assessoria permanente do Congresso para orçamento interessada em retomar o tema, mas até agora não o incluiu na lista de prioridades do governo para tramitação no Congresso.

Seria uma boa chance para Dilma sair das inúteis e desacreditadas pirotecnias contra a corrupção e buscar instrumentos capazes de resolver o problema agindo na raiz, na estrutura, não no faz de conta, na mentirinha.

Emoções eu vivi - LUIS FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 22/01/12



De todas as histórias que estão vindo à tona depois do acidente com o Costa Concordia a minha favorita é a da moça que estava dentro de uma caixa, presumo que participando de um número de mágica, quando se deu o choque com as pedras e o navio começou a adernar. Não sei se ela era ajudante do mágico ou se tinha sido convocada da plateia para entrar na caixa. Na verdade, como não me lembro onde li a história e não ouvi mais nada a respeito, não posso garantir que não a esteja imaginando.

Mas pense no que teria passado pela cabeça da moça dentro da caixa. Era para ela desaparecer e, provavelmente, reaparecer dentro de outra caixa. E de repente sente que está sendo deslocada dentro daquele espaço apertado, que está realmente sendo transportada para outro espaço, talvez para outra dimensão, da qual pode nem voltar se a mágica não der certo. E imagine o alívio dela quando consegue sair da caixa e ver que todo o mundo está deslizando, junto com pratos e copos. Ufa. De 

volta à normalidade, pensa ela, antes de também começar a deslizar.

Muita gente que não estava lá tem histórias para contar das suas experiências em navios, e está aproveitando o desastre para contá-las. Eu, modéstia à parte, tenho várias. Minha mãe não gostava de avião, o que significa que a família tem um longo passado marinheiro. Estávamos no primeiro navio que saiu de Nova York para a América do Sul no fim da Segunda Guerra Mundial. Um pequeno cargueiro argentino que corcoveava sobre as ondas. A viagem levou um mês, no qual passei uma semana vomitando e três aproveitando a aventura. Durante anos fomos fregueses dos navios da Moore McCormick na linha Rio-Nova York-Rio, e a melhor lembrança que guardo deles é das cinco refeições por dia, não contando o caldinho quente no meio da manhã e o lanche no fim da noite. Cruzamos de Southampton para Nova York no United States, na época o maior do mundo. E – não podia deixar meus dezessete leitores sem esta informação fascinante – fiz aniversário três vezes em alto mar. Não sei qual é o recorde mundial.

O que tudo isso tem a ver com o desastre do Costa Concordia? Absolutamente nada. As maiores emoções em todas estas viagens eram os ensaios para emergências, que serviam para as pessoas se fotografarem vestindo coletes salva-vidas. E os céus estrelados, os peixes-voadores e, claro, o caldinho quente no meio da manhã. 

GOSTOSA


Miopia dominante - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 22/01/12

Relativo sucesso na área econômica tem contribuído para encurtar o alcance das medidas governamentais e anestesiar o debate político

No início do regime de metas de inflação, em 1999, a taxa básica de juros (Selic) era de 45% ao ano. No primeiro ano dos governos petistas, em 2003, era de 26,5%.

Tempos de crises internacionais recorrentes, sem dúvida. Mas a debilitada economia doméstica dispunha de baixa capacidade de resistência a contágios externos. O país crescia menos de 2% ao ano.

No Brasil de 2012, discute-se com ansiedade o destino da Selic no próximo semestre. Baixará dos atuais 10,5% para 10% ou 9,5%?

A taxa real de juros (descontada a inflação) flutua em torno de 4%, a mais baixa da história. Nos últimos oito anos, a economia cresceu ao ritmo anual de 4%. O contraste entre os dois períodos sugere um considerável progresso.

Desde meados dos anos 1990, o Brasil passou por mudanças institucionais, políticas, econômicas e sociais importantes. Houve reformas na regulação dos mercados, nas finanças, no padrão de distribuição de renda. Mas já se vai meia década em que o ritmo da mudança tende à velocidade zero.

Os debates econômicos também se apequenam, tal como a discussão sobre reduzidas variações da taxa de juros e a intensa querela sobre a inflação deste ano: 4,8%, como quer crer o governo, ou 5,3%, como estima a média do mercado?

O governo se ocupa de bagatelas que talvez façam o crescimento passar dos estimados 3,5% para 4%. Deveria baixar o imposto sobre operações financeiras de crédito ao consumidor de 2,5% para 2%?

Tais discussões têm relevância, embora circunscrita a decisões muito técnicas e de curto prazo. Que ocupem o centro do debate público é sintoma de paralisia política e intelectual.

É preciso, de fato, inflação menor, juros menores, mais crescimento. Não será, porém, se atendo a minudências preciosistas que o país vai enfrentar tais problemas. Se perdeu a perspectiva de reformas de impacto, é porque as tarefas relevantes são difíceis, demandam decisões políticas de risco que nem governo nem oposição pretendem tomar ou sugerir.

Soluções mais duradouras para a inflação e para a ainda intolerável taxa de juros brasileira, por exemplo, não dependem de medidas rotineiras de política econômica.

O mercado de trabalho aquecido pressiona custos; faltam trabalhadores qualificados, o que não se resolve num ano. Mas, na prática, educação e ciência continuam a ser assuntos marginais na agenda.

A relativa estabilidade econômica; o alívio de um crescimento ainda pequeno, mas não experimentado fazia décadas; a associação do governo com grandes empresas e sindicatos; e a maré de benefícios sociais ajudaram a anestesiar a política do país.

O governo se refestela no sucesso de curto prazo. A oposição se acovardou. E o debate público atolou-se na discussão de miudezas.

G-20 diz não à zona do euro - ALBERTO TAMER


O Estado de S.Paulo - 22-01/12

A crise na União Europeia tem agora um custo, US$ 1 trilhão nos próximos anos e, mesmo assim, ela não se livrará da recessão. Só voltará a crescer, e pouco, em 2014. Quem afirma é o FMI que está pedindo aos países do G-20 e ao mundo US$ 500 bilhões para rolar a dívida soberana nos próximos meses. Desses, US$ 100 bilhões têm que sair imediatamente porque a maior parte da dívida soberana vence até março.

Ao fazer o apelo, Christine Lagarde, foi dramática. "Há uma necessidade urgente de esforço coletivo para conter a crise da dívida da zona do euro" e, acentuou, "proteger as outras economias do seu contagio". Ao mesmo tempo, o FMI confirmou sua previsão de crescimento negativo na região, ficará entre recessão de menos 0,5% e estagnação nos próximos meses.

Até agora, só um não. Tudo muito grave, sem dúvida, mas parece que não impressionou os países do G-20.Ninguém ofereceu nada. Para eles, o desafio é ainda dos governos europeus, Alemanha, França, que têm como enfrentá-lo mobilizando recursos próprios, antes de pedir socorro.

Os Estados Unidos responderam no mesmo dia ao apelo do fundo. A porta-voz do Tesouro, Karla Alaim, chamou a imprensa para dizer que "não temos a menor intenção de oferecer recursos adicionais para o FMI. A Europa tem capacidade para resolver seus problemas. O FMI pode ter um papel de reforço, mas só complementar."

Quando muito o governo americano está tentando evitar que o Congresso cancele os US$ 100 bilhões que haviam sido aprovados para o FMI.

Japão e Coreia do Sul seguem a mesma linha. Para o Canadá "a prioridade é proteger os países que sofrerem com a crise europeia", que se arrasta há mais de um ano.

E a China? Uma ação coletiva é importante, diz ela, mas o país não se compromete com nada. Ao em vez de um socorro, pelo menos até agora, apenas um não coletivo.

Indiferença, por quê? Para os analistas do mercado, de acordo com as agências econômicas, haveriam três explicações para a reação negativa do G-20.

1 - Eles tem seus próprios problemas. Os Estados Unidos estão apenas saindo da recessão, que ainda sufoca Japão (PIB de menos 0.7%), o Canadá cresce apenas 2,4% com desemprego de 7,4% e o Japão, nem se fala. Os recursos que existirem devem ser aplicados para proteger suas economias e fortalecer o mercado e seu mercado financeiro, evitando mais exposições na Eurozona.

2 - O problema europeu, grave sim, tem origem mais na desunião e indecisão política dos governos europeus do que na crise financeira. Um sinal é que, após quase dois anos de discussões internas, os países ainda não sabem o que fazer. Ajuste fiscal ou crescimento? E o tal do fundo de socorro financeiro que ainda não foi implementado? Enquanto isso, os investidores se retraem e a economia afunda. Há meses...

3 - Finalmente, para os Estados Unidos, o Japão, o Canadá, a China, e até mesmo o Brasil, não estão usando a arma mais eficaz - talvez a única no momento - para conter a crise financeira: o Banco Central Europeu. Krugman, Stiglitz, entre outros insistem, que só se sai da crise se o BCE comprar mais títulos da dívida soberana. O próprio BCE admite isso, mas nada pode fazer porque enfrenta o veto radical da Alemanha, com medo da inflação de pouco mais de 2%...

Diversão na tribo - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 22-01/12

A recusa de José Serra em disputar SP tem implicações graves; é difícil saber se partidárias ou pessoais



A piada do "muito cacique e pouco índio" é vítima de duas precipitações. Pareceu exterminada, por esgotamento, antes do tempo, e fez sucesso antes de haver o PSDB, para o qual até parece ter surgido.

A principal disputa eleitoral do PSDB, nas eleições municipais deste ano, é, claro, a da prefeitura paulistana. Deveria ser uma oportunidade de seguro otimismo para o partido de nascimento e identidade essencialmente paulistas e paulistanos. É, no entanto, um momento dramático, desde as dificuldades para definir candidato próprio até os esboços que se fazem do final do processo de disputa, com a possibilidade de uma explosão dentro do partido.


A reafirmação da recusa "definitiva" de José Serra a candidatar-se, ainda que seja cedo para despi-la das aspas, não é como as recusas tão comuns em política, sobretudo quando há aspirações a nível mais alto. A recusa de Serra tem implicações graves, entre as quais, por ora, é difícil saber se mais partidárias ou mais pessoais. A começar de que o "fogo amigo", especialidade em que os militares americanos são insuperáveis, em sua versão política tem o PSDB como exemplo incomparável. O "fogo amigo" está na natureza do PSDB.

Se José Serra é o "candidato natural" e único capaz de levar o partido ao êxito, como argumenta uma ala de seus correligionários, entrar na disputa exigiria dele uma de duas inconveniências com toques suicidas. Ou, vencedor, sufocar sua velha obsessão de ver-se presidente da República, ou, para preservá-la, renunciar outra vez à prefeitura para concorrer à Presidência em 2014.

Logo, matar a imagem que há tanto tempo vê nos espelhos, com a faixa presidencial no peito, ou sujeitar-se à subida, a níveis inviáveis, de sua rejeição, já alta, em 2018 (como lembrou Rogério Gentile na Folha de quinta-feira, a rejeição elevou-se de 11% há oito anos para 35% entre os paulistanos, sugestão do que vai por aí afora).

Outro aspecto do "fogo amigo" é que a candidatura, agora, exporia Serra muito em cima do êxito de "Privataria Tucana", do jornalista Amaury Ribeiro Jr.. A candidatura traria para os palanques adversários a artilharia muito pesada que o livro contém contra Serra e justificou sua condição de best-seller.

Que tipo de campanha Serra poderia fazer contra os adversários que, apenas por ler em público uma ou outra página do livro, seriam demolidores ou exigiriam de Serra uma campanha de confrontos ininterruptos e muito arriscados? Não é preciso chegar a um comentário frequente hoje em dia -"esse livro acabou com José Serra"- para perceber os tantos aspectos negativos dessa candidatura, em termos pessoais.

Os outros possíveis candidatos do PSDB citados até agora (ainda) não prometem ao partido uma perspectiva eleitoral sequer tolerável. Põe-se o problema: não ter candidato próprio, e apoiar um indicado por Gilberto Kassab (Guilherme Afif Domingos, em princípio) será declaração de falência; perder a capital para o PT seria, dentro do PSDB, causa de uma conturbação a que a fisionomia do partido não resistiria. O PSDB tenderia a mudar de mãos, de fato e de direito, em pouco tempo.

A eleição em São Paulo, capital, vai assegurar a nossa diversão.

Kassab e o espírito do tempo - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 22/01/12


Prefeito paulistano cria partido prodígio da falta de identidade política e até chega a conectar PSDB e PT


É PRECISO UM tanto de suspensão da descrença ou do desencanto cínico para prestar atenção nas artes de Gilberto Kassab, prefeito paulistano e diretor-executivo do PSD, mas vale um tanto a pena.

Kassab tornou-se uma das figuras mais importantes da política brasileira, mas em si mesmo não tem importância alguma, pois não se importa com conteúdo algum.

É uma das raras novidades, mas não é novo, pois nada tem a propor de substancial para o futuro. Seu tirocínio político é funcional; é um engenheiro político, um poema concreto sem forma, digamos sarcasticamente, um oximoro.

Como se sabe, Kassab negocia uma aliança com o PT na eleição paulistana a fim de aumentar o seu cacife na aliança com o PSDB serrista -ou vice-versa, mas tanto faz.

Sim, o prefeito já declarara que seu novo partido não era de centro nem de esquerda ou de direita.

Sabíamos que o seu PSD era uma agência de travestismo político, veículo de adesão a governos ou projetos de poder viáveis. Nisso em nada difere do PMDB, que quase monopolizava esse serviço, ou do PSB "aggiornato" de Eduardo Campos, um empreendimento semelhante ao do PSD, mas que atende a clientelas mais ao Norte do país.

PSD e PSB decidiram explorar o nicho de mercado da reciclagem de ex-membros de partidos de oposição, de ocupar praças abertas pela decadência do PSDB e do DEM e, enfim, de quebrar o quase monopólio do PMDB, tendo em vista a nova configuração política do Brasil "estável", redefinida pelo Estado de Bem-Estar Tropical do PT.

Kassab porém afinou a arte da descaracterização política, é um cão sem plumas, pura forma. Dirige a barca do adesismo à deriva e, ao mesmo tempo, conecta o tucano importante com maior aversão ao petismo, José Serra, de quem é cria, a Lula, talvez ao governo Dilma e talvez ao candidato a prefeito petista de São Paulo, Fernando Haddad, mesmo contra a vontade deste.

Na sua categoria, Kassab é um prodígio. Eduardo Campos, o governador pernambucano, também parece um, embora nós do centro-sul sejamos vergonhosamente um tanto desinformados sobre o que acontece mais ao Norte do país.

Sublegendas do partido adesista brasileiro, o maior do Brasil, existem aos montes. Mas o PSD ganha musculatura fazendo exercícios tanto com o PT como com o PSDB, os partidos restantes com alguma identidade no país (afora os da microextrema-esquerda).

PSD e PSB têm algum futuro maior, além da eventual sorte de ver um candidato seu cair nas graças do eleitorado? Sem substância alguma, podem criar um programa popular, com adesão de algumas elites, que não pareça aventura?

O PSDB foi e é o partido da elite mais esclarecida, que soube aproveitar o tumulto superinflacionário para implantar um projeto que livrou o país de anacronismos econômicos e o primeiro governo democrático politicamente estável do Brasil. O PT foi a novidade, o partido da pequena classe média de operários (sic), funcionários públicos e bancários, por exemplo, que jamais tinham ido ao poder a não ser como agregados menores.

O que há ou pode haver dentro do PSD e do PSB? Serão apenas novos coadjuvantes, PMDBs mirins? Ou vão agregar algo mais?

Desperdício na UFRJ - MARGARIDA GUTIERREZ

O GLOBO - 22/01/12

O objetivo da UFRJ ao ingressar no Enem foi ampliar e democratizar o acesso ao ensino superior. No entanto, mostraremos a seguir que esse objetivo corre o risco de não ser alcançado.

Para o acesso aos cursos de graduação da UFRJ, foi publicado o edital número 106 - UFRJ 2012, que estabelece as seguintes regras: "A ocupação das vagas referentes ao 1º semestre letivo de 2012 será realizada através do SiSU/MEC 1º /2012 e a ocupação das vagas referentes ao 2º semestre será realizada através do SiSU/MEC 2º /2012. Poderá concorrer às vagas o candidato que atender aos seguintes requisitos:

I - Ter concluído ou estar regularmente matriculado na 3ª série do Ensino Médio, ou equivalente, com previsão de conclusão no ano letivo de 2011;

e II - Ter feito as provas do Exame Nacional do Ensino Médio de 2011 (Enem 2011), conforme Edital UFRJ nº 67 de 25 de maio de 2011 (...)"

No último dia 11, a UFRJ informou: "A UFRJ oferece vagas para o primeiro semestre agora; as demais vagas (para cursos começando no segundo semestre de 2012) serão ofertadas a partir do final de junho, no SiSU 2º/2012 e no processo THE/Enem."

A leitura dos editais levanta algumas dúvidas.

Tomemos um exemplo: um candidato, ao fazer as duas opções a que tem direito, escolheu, como primeira, o curso de Economia diurno e, como segunda opção, o de Economia noturno. Suponhamos, ainda, que ele prefira começar o curso diurno no segundo semestre ao noturno no primeiro.

De acordo com as regras atuais, se não for classificado para sua primeira opção, irá para o curso noturno. Mas, se fosse como nos anos anteriores, em que todas as vagas eram disponibilizadas e preenchidas no início do ano, ele teria sido classificado para o segundo semestre, deixando a vaga do noturno livre para outro candidato.

Pelas normas vigentes, tal candidato iniciará o curso noturno em março. Imaginemos que ele resolva se inscrever no processo seletivo do SISU 2º/2012 (junho de 2012), já que, pelo edital da UFRJ, tem direito a uma nova inscrição, e que escolha o segundo semestre do curso de Economia diurno.

Se essa pessoa for aprovada, a vaga até então ocupada no curso noturno não poderá ser preenchida por outro, pois o semestre já haverá transcorrido. O aluno que tenha ingressado em qualquer curso de graduação através do Enem no primeiro semestre, ao poder participar do processo seletivo do segundo semestre, necessariamente eliminará a vaga que ocupava até então. O processo descrito gera graves distorções. Uma quantidade considerável de vagas oferecidas pelas Ifes terá sido eliminada, impedindo o acesso de um maior número de pessoas ao curso superior gratuito.

Ora, a UFRJ tem realizado um esforço grande nos últimos anos no sentido de aumentar o número de vagas oferecidas, através da contratação de novos professores e da multiplicação dos seus cursos noturnos. Esses, em particular, são veículos importantes de ascensão social e de obtenção de uma qualidade de vida mais digna para o cidadão brasileiro de baixa renda, que não pode abrir mão do seu trabalho diurno para estudar. Ademais, promover-se-á uma distribuição de recursos ineficiente, na medida em que um professor, pago com recursos do contribuinte brasileiro, estará sendo alocado para dar aulas a um grupo consideravelmente menor de alunos.

O leitor poderia contra-argumentar que haverá sempre um número de vagas ociosas nas Ifes, pois é possível que um estudante desista do curso em que esteja inscrito. No entanto, nos anos anteriores, a seleção para o segundo semestre ocorria junto com a do primeiro, permitindo que o aluno fosse prévia e definitivamente alocado no curso que escolheu.

Esse critério restringia o número de vagas perdidas aos casos das desistências individuais. Mantendo-se o atual critério previsto nos editais, deverá ocorrer não apenas uma migração "natural" de alunos entre os cursos, mas principalmente dos alunos dos cursos noturnos para os diurnos oferecidos no segundo semestre (o aluno, inclusive, pode transferir os créditos para o segundo semestre).

O não preenchimento de vagas nas Ifes deve ser evitado ao máximo, porque representa um desperdício de recursos públicos. Nós, funcionários públicos, que fazemos parte da maior universidade federal deste país, temos a obrigação de garantir a melhor alocação para os recursos que são da sociedade brasileira, tendo em vista o bem comum. Se o edital (SiSU 2º/2012) fosse liberado ainda em fevereiro, e as vagas do segundo semestre fossem preenchidas antes de o ano letivo iniciar, estaríamos retornando ao modelo anterior e, consequentemente, o risco de perdas de vagas seria menor.