terça-feira, novembro 29, 2011

Euforia e fato - MIRIAM LEITÃO



O GLOBO - 29/11/11



Fatos e boatos se misturaram ontem para dar gás ao mercado. As bolsas da Europa dispararam com a notícia de um jornal italiano de que o FMI daria um aporte de C 600 bilhões ao país. O que é um volume fantasioso. França e Alemanha teriam chegado a um acordo sobre como lidar com a crise. As vendas do Black Friday nos EUA surpreenderam — isso é verdade.

No Brasil, houve um fato a mais: o IBGE mudou a ponderação do índice IPCA e isso fez cair as projeções de inflação e juros para o ano que vem. Alguns preços terão peso menor. Pela nova base, a inflação do ano que vem pode ser menor.

Na Europa, as bolsas tiveram o maior ganho diário desde outubro. Paris subiu 5,46%. Frankfurt e Milão subiram 4,6% e Madrid avançou 4,59%. Londres ganhou 2,87%. Nos EUA, o índice Nasdaq fechou em alta de 2,94%; o S&P subiu 2,39% e o Dow Jones, 2,16%. No Brasil, o dólar recuou 1,74% e o índice Ibovespa fechou em alta de 2,04%. Um dia de altas generalizadas, como se os problemas tivessem desaparecido. No fim do pregão, a agência de risco Fitch colocou a dívida americana em perspectiva negativa.

O jornal "La Stampa" afirmou no domingo que o governo italiano está em negociação com o FMI para receber um aporte de C 600 bilhões. Tanto o Fundo quanto dirigentes europeus negaram a notícia, mas os investidores queriam uma notícia boa e preferiram acreditar no rumor. No seu twitter, o economista Nouriel Roubini disse que pelas cotas de cada país no Fundo, a Itália poderia receber um aporte de até C 40 bi, que não seria suficiente para tirar o país da berlinda. O mercado também se agitou com a notícia, ainda não confirmada, de que Alemanha e França teriam finalmente chegado a um acordo sobre como lidar com os gastos públicos na região. É esperado para hoje, na reunião dos ministros das Finanças da Zona do Euro, o anúncio de algum tipo de unificação das políticas fiscais.

Nos EUA, o otimismo veio pelo aumento das vendas da tradicional Black Friday, o dia das mega-promoções nas lojas, que cresceram 16% este ano. Pelo lado político, o presidente Barack Obama recebeu o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, o Presidente da Comissão Europeia, Jose Manuel Durão Barroso, e outras autoridades europeias para um almoço na Casa Branca. Em declaração conjunta, os líderes disseram que tomariam todas as medidas necessárias para combater a crise.

Dos boatos aos fatos, no mesmo dia a Moody’s emitiu relatório alertando sobre a escalada de riscos na Europa. Disse que os países da Zona do Euro podem ter as notas de crédito rebaixadas. Afirmou que a probabilidade de um calote múltiplo na região não é mais irrelevante. A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), por sua vez, afirmou que a Europa já está em recessão e que o desemprego espanhol continuará subindo em 2012, e ficará acima de 20%.

Em entrevista coletiva no Brasil, o economista-chefe para América Latina do banco francês BNP Paribas, Marcelo Carvalho, afirmou que o banco revisou para baixo as projeções de crescimento mundial de 2012, de 3,4% para 3,1%. A Europa deve ficar estagnada, com retrações de 4,7% em Portugal; 3,7% na Grécia; 0,9% na Espanha e 0,8% na Itália. Carvalho não acredita em solução na Europa que não passe pelas compras de títulos por parte do Banco Central Europeu (BCE).

— Temos um quadro binário de projeção para economia mundial, com risco razoável de irmos para o cenário pior. Não enxergamos nenhuma solução de curto prazo para a Europa que não leve o BCE a comprar os títulos das dívidas dos países. Mas é preciso que a Europa avance na integração fiscal. O BCE quer, antes, que aumentem os instrumentos de controle sobre os gastos dos governos — disse.

O economista acredita que o Brasil está mais resistente mas não imune à crise, que estaria nos atingindo por quatro canais: balança comercial, balança de pagamentos, restrição do crédito e queda das expectativas. O banco francês prevê que isso fará o PIB brasileiro terminar o ano de 2011 com crescimento de 2,8% e em 2012 deve crescer apenas 2,5%, mesmo com a redução dos juros. A inflação, ainda assim não deve atingir o centro da meta de 4,5% no final do ano que vem.

— A inflação já bateu no pico e começou a recuar, mas dificilmente cairá a ponto de atingir o centro da meta de 4,5% no final de 2012. O mais provável é que fique mais perto do topo, de 6,5%, do que do centro — explicou Marcelo, citando a inflação de serviços como a principal causa para a resistência nos preços.

Mas isso foi antes da nota do IBGE informando sobre a nova ponderação dos índices do IPCA. Isso fez alguns economistas reduzirem a projeção da inflação do ano em 0,2 a 0,4 ponto percentual. O economista Luis Otávio Leal, do Banco ABC Brasil, explica que as principais mudanças foram justamente nos serviços:

— O item educação perdeu peso no índice, assim como gastos com empregadas domésticas. Isso fez diminuir peso dos serviços. O cigarro, que teve o aumento de preço adiado pelo governo deste ano para o ano que vem, também ficou com peso menor.

Há muita incerteza no ar na economia internacional. A euforia de ontem foi mais baseada nos boatos que nos fatos.

A divisão do Pará e a Federação - RAYMUNDO COSTA



Valor Econômico - 29/11/2011


Pouco mais de dez pessoas atenderam ontem convite do Ipea para debater a divisão do Pará, metade das quais jornalistas que compareceram atrás de informações para a cobertura do plebiscito, marcado para o dia 11 de dezembro. Não bastassem as interdições da Justiça Eleitoral ao debate, o desinteresse fora do eixo amazônico é injustificável. Atualmente, tramitam no Congresso 23 projetos de criação de Estados, seis propostas a mais que as apresentadas na Assembleia Nacional Constituinte de 1988, quando afloraram com intensidade movimentos de emancipação represados Brasil afora durante os anos de regime militar.

Um cálculo apresentado no debate do Ipea dá conta de que a criação dos 23 novos Estados significaria algo em torno de R$ 14 bilhões de gasto público. A criação de três Estados nas atuais coordenadas do Pará significa trocar um Estado com um superávit de R$ 277 milhões por unidades deficitárias. Se o plebiscito aprovar a divisão, Carajás nasce com um déficit de R$ 1,9 bilhão; a relação receitas menos despesas em Tapajós não fecha - falta R$ 1 bilhão - o remanescente Pará passa a contabilizar um déficit de R$ 718 milhões, de acordo com o consenso a que vão chegando os pesquisadores. No total, R$ 3,6 bilhões. Há outros números referentes à manutenção dos dois novos Estados virtualmente impossíveis de serem calculados com segurança, como os gastos com a construção de Assembleias Legislativas e outros prédios para a prestação de serviços públicos.

Esses números que surgiram em pesquisas dos técnicos do Ipea, da UFPA e do Instituto do Desenvolvimento Econômico e Sócio Ambiental do Pará (Idesp), parceiros no seminário de ontem. Mas antes de assustar, eles servem para chamar a atenção sobre um problema que não é só dos paraenses. O plebiscito já não se trata de uma discussão sobre a separação de Carajás e Tapajós, os dois Estados que seriam criados a partir do Pará, como bem chamou a atenção o professor Gilberto Rocha, coordenador do núcleo de meio ambiente da UFPA. A discussão, na realidade, pauta uma agenda em nível de Estado nacional. É preciso estudar as novas dinâmicas de divisão territorial do país decorrentes da modernização da economia e da sociedade.

O debate começou pelo Pará, palco de uma política de ocupação territorial e econômica, nos últimos 40 anos, comandada pelo governo federal, da qual o Estado foi um espectador, na maioria das vezes, cúmplice. Mas a exemplo do que ocorreu no Pará, no decorrer da conquista da fronteira amazônica, outros polos dinâmicos surgiram no país, especialmente na esteira do avanço do agronegócio. Há polos dinâmicos como o Oeste da Bahia, no rio Araguaia ou o Vale do Gurgueia, no Piauí (todas regiões com manifestações de emancipação). "Um novo Brasil está sendo produzido e nós ainda trabalhamos tendo como referência as estruturas administrativas tradicionais", disse Gilberto Rocha.

O governo do Pará não foi ao menos coadjuvante nesse processo, conduzido com mão de ferro por Brasília. Até os anos 1970 era um Estado cujo povoamento margeava os grandes rios, o uso territorial se baseava no extrativismo e a estrutura fundiária no sistema oligárquico. Hoje, 66% do território é comandado pelo governo federal e há superposição de gerência de órgãos como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Fundação Nacional do Índio (Funai) e o Ibama, para citar apenas as mais conhecidas de uma dúzia ou mais de siglas federais. O Pará, também, segundo os pesquisadores, é o Estado de maior acolhimento dos clientes da reforma agrária de todo o país - são mais de 1 mil assentamentos.

Uma política que colocou a Amazônia no centro das preocupações do planeta, mas que de fato criou um polo altamente dinâmico, sobretudo na região de Carajás. Se for criado, o novo Estado ficará com 85% das reservas minerais do atual Pará, que perderia a pouca voz que dispõe na formulação da política mineral. O mesmo ocorrerá em relação ao potencial para a geração de energia elétrica - 61% está concentrado em Carajás e Tapajós. De Estado exportador de energia, o Pará passará a importador. Os rebanhos de Carajás representam 64% do gado criado no Pará. Todo esse potencial, por outro lado, não tem correspondência em influência política, segundo entende a elite política da região. Mas é certo que tanto Tapajós como Carajás, separado, continuariam imobilizados pela presença sufocante do governo federal. E novos problemas certamente serão criados. Feitos com bases nos municípios atuais, os novos mapas rasgam ao meio alguma reservas indígenas e unidades de conservação ambiental.

Uma coisa é certa: a divisão aumenta o peso político da região que constitui o Estado do Pará. O técnico de planejamento e pesquisa do Ipea Paulo de Tarso Linhares fez simulações sobre representação dos três Estados, se a divisão for aprovada no plebiscito do dia 11 de dezembro. Com base na eleição de 2010, ele chegou aos seguintes números: Carajás detém 34% do PIB paraense, e sua representação na Assembleia Legislativa do Estado do Pará é de 33%; o PIB do Pará remanescente é de 56% do total, e sua representação política de 45%; Tapajós, com 11% do PIB teria uma representação de 59% dos deputados estaduais - a explicação é que se trata de uma região histórica, mais estável cuja elite política foi há anos desenhada.

De acordo com os cálculos de Linhares, a representação federal das três regiões seria mais equilibrada, cada qual com algo em torno dos 74%. Mas o território que hoje constitui o Pará passaria a enviar para Brasília 31 deputados federais, contra os 17 atuais. Isso sem falar que essa região passaria eleger mais seis senadores. Ou seja, contribuiria para aumentar o desequilíbrio existente, onde o Pará tem uma representação proporcionalmente maior que a de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.

O plebiscito do Pará é um assunto que deve entrar na agenda do país. Pena que nem os políticos paraenses parecem interessados. O seminário do Ipea (que levará mais três anos estudando o assunto, em todo o país) foi realizado a pedido da bancada do Pará. Mas nenhum deputado ou senador paraense apareceu por lá.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília.

Parem de matar cachorros! (ou a memória é um retrovisor que não tem como arrancar) - FABRÍCIO CARPINEJAR



ZERO HORA - 29/11/11


Na BR-116, é certo que encontrarei engarrafamento e cachorro morto. A cada animalzinho estirado na mureta, tapo os olhos de meu filho Vicente – não é uma boa recordação para se levar à escola logo de manhã.

Mas fui notando que teria que deixá-lo vendado o trajeto inteiro. No intervalo de 10 quilômetros, avistava um novo corpo já despossuído de alma e Deus, inchado e anônimo, sem a gentileza de cruz e o amparo da coleira.

Cachorro atropelado na Grande Porto Alegre é tão frequente quanto as capivaras abatidas na BR-471.

Procurava desvendar como o cão atingiu o miolo da estrada. Na minha idealização, o bicho esquecera o caminho de volta e não contara com sorte ao cruzar a mão dupla. Por uma série de tristes casualidades, fora jogado na loucura assassina de um autorama.

Não me passava maldade pela cabeça. Sei o quanto um cachorro costuma cheirar caminhos e se distrair com facilidade.

Até que descobri que existe um nazismo canino. Cachorros são abandonados na rodovia pelos próprios donos. Aquilo que vejo todo o dia não representa acidentes, é, sim, resultado de uma matança deliberada.

Famílias compram ou recebem de presente um cãozinho, acham que é barbada cuidar, enfrentam uma semana de experiência, gastam demais com ração e higiene, e decidem sacrificar o hóspede. Sem tempo a perder, desaparecem com as provas de uma existência. E ainda raciocinam que não é um assassinato, que Palmira Gobbi é apenas o nome de uma avenida. Fingem acreditar que não cometeram mal nenhum, largaram o pequeno à mera provação do destino.

O motivo é sempre gratuito. Matam o cão para prevenir incômodos. Ou porque ele adoeceu ou envelheceu. Ou porque o remédio e o veterinário são caros ou porque o abrigo é longe e não podem se atrasar para o trabalho.

Que mundo é este? Pela janela, eliminam uma vida com a leviandade de alguém que arremessa longe uma bagana de cigarro, uma embalagem de picolé, um saco de salgadinho. Absolutamente crentes na impunidade.

Quem faz isso não merece perdão. Não merece explicação. Não merece defesa. É um crime premeditado. A mais implacável execução que conheço, antecedida de lenta tortura emocional.

Repare na insensibilidade: o dono mente ao seu cachorro que irão passear, para desová-lo no corredor da morte. Calcule o terror do bichinho quando não entende o castigo, e corre uivando, desesperado, atrás de um carro que nunca será mais o seu.

Cansei de esconder os olhos de meu filho.

GOSTOSA


Ueba! Corinthians campeão Miojo! - JOSÉ SIMÃO



FOLHA DE SP - 29/11/11


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E a prefeitura de Contagem quer incentivar o ciclismo, confunde "pedala" com "pelada" e estende a faixa no parque: "A prefeitura pelada com você". Rará! Já imaginou o Kassab pelado com você?

E adoro essa seção de jornal: "Confira dicas de como usar o seu 13º salário". 1) Investir em gado, comprar um quilo de alcatra. 2) Comprar um picolé da Yopa e cortar o cabelo na rodoviária. 3) Se atirar do décimo terceiro! Rarará.

Recebeu o décimo terceiro e se atirou do décimo terceiro. O Péssimo Terceiro! Ou como diz um amigo meu: "Que adianta receber 13 salários se a minha mulher gasta 14?!"

E o Timão? O Corínthia? Campeão MIOJO: durou três minutos. Vai entrar pro "Guinness": campeão por três minutos. Um cara na padaria gritou "caaaam" e o Vasco: "goool"! Isso é o que eu chamo de coito interrompido! Rarará!

Corinthians rumo ao penta. Se não der, tenta. Tenta de novo. Eu acho que o Timão vai ser tenta. Tentacampeão! Rarará. Ou então senta. Sentacampeão! Ou como disse aquele corintiano na padaria: "Segura no meu penta!" Rarará!

E quem vai ser campeão? Vasco ou Corinthians? Gambá Paulista ou Bacalhau Carioca? O Vasco vai jogar com um time imbatível: Manuel, Joaquim, Manuel Joaquim e Joaquim Manuel. Bacalhau, Roberto Leal e Ovos Moles! E sabe como se chama e-mail em Portugal? Carta voadora! Rarará!

Corinthians rumo ao penta, e o Adriano rumo à pança! E a comemoração do Corinthians foi tão rápida que só deu tempo de estourar um rojão aqui no Jardim Paulista. E um outro na casa duma amiga minha em Perdizes. Foi o mesmo, com eco! Rarará!!

E humor negro no programa do Datena: "Torcedor são-paulino é morto com tiro à queima rosca". É verdade. Eu tenho a foto!

E eu pedi pro Rubinho fazer uma coisa engraçada na F-1. E ele deu ré logo na largada. Largou dando ré. Entrou em 12º e passou pra 20º. Ele usa o capacete ao contrário. Turma da largada: larga dessa vida!

Eu acho que o Rubinho não consegue dirigir nem carrinho de supermercado! E o Galvão? O Galvão Urubueno seca até chuva! Diz que o Galvão ficaria melhor transmitindo avalanche na Sibéria, briga de cachorro e atentado terrorista! Rarará. Nóis sofre, mas nóis goza!

O fundamental - ANTONIO DELFIM NETO



Valor Econômico - 29/11/2011


Grupos não pequenos de estudiosos insistem em atribuir a crise a uma organização social misteriosa à qual dão o nome genérico de "capitalismo", codinome da organização da atividade econômica em torno dos "mercados", instituição que os homens "descobriram" para coordenar a atividade de consumir bens e serviços e, ao mesmo tempo, estimulá-los a produzir de forma relativamente eficiente e com maior liberdade individual.

É preciso reconhecer que: 1) os mercados são meros instrumentos alocativos que tentam compatibilizar os interesses dos indivíduos no seu duplo papel; 2) obviamente, não há simetria de poder entre esses papéis; e 3) eles (os mercados) não podem funcionar (ou mesmo existir!) sem um Estado para regulá-los.

Essa economia de mercado não foi inventada. Há claras evidências de que os mercados existem desde a velha Mesopotâmia (500 anos antes de Cristo). Foi sendo "descoberta" pelos próprios homens na sua atividade prática de buscar instituições que lhes permitissem facilitar a sobrevivência material e a possibilidade de combiná-la com sua eterna busca de liberdade de iniciativa. Ela não é nem perfeita nem imortal. A grande esperança é que a ação do Estado que garante a sua funcionalidade, possa minorar seus defeitos com as políticas econômica (a flutuação) e social (a desigualdade).

A ideia que os mercados têm a capacidade de autocorrigir-se e que os resultados da distribuição de seus benefícios são "justos" ou "merecidos" - e que, portanto, dispensam a ação do Estado - é absurda. Tão absurda quanto a ideia que os problemas que estamos vivendo se devem apenas a eles, sem nenhuma cumplicidade do Estado.

Já passou da hora de os economistas livrarem-se de umas ingenuidades. A primeira é que Deus foi bom com eles deixando-lhes como objeto de estudo um mundo, cuja ordem poderia ser descoberta, como, por exemplo, o movimento dos astros. A segunda é o reconhecimento que, por mais importante que seja o papel do Estado, o poder incumbente está longe de ser onisciente e, logo, não precisa ser onipresente e, muito menos, pretender a onipotência!

A história nos ensinou, e a experiência atual confirma, que o Estado precisa ser fiscalmente responsável! Não é preciso ser economista para entender tal "conta de padaria". A receita pública não pode ser, permanentemente, maior do que a despesa pública, não importa a "qualidade" ou a "necessidade" do gasto.

Se ele é imperioso e permanente, só há três formas de atendê-lo: 1) aumentando a eficiência do governo; 2) cortando despesa menos prioritária; ou 3) aumentando os impostos. É uma maldição aritmética desagradável que a relação dívida pública/PIB só possa ser estabilizada num nível cujo financiamento possa ser feito, permanentemente, com uma taxa de juros real menor do que a taxa de crescimento real do PIB.

Parece razoável concluir, portanto, que o que precisa ser superado é a irresponsabilidade fiscal dos Estados e a sua incompetência regulatória. Vivemos, basicamente, uma manifestação de Estados pouco cuidadosos fiscalmente e impotentes diante do poder econômico dos interesses financeiros. A crise de 2007/09, que se recusa a terminar, é a testemunha da tendência do setor financeiro de servir-se do setor real e de sua capacidade de apropriar-se do poder incumbente.

Os "indignados" sugerem trazer de volta ideias de cérebros peregrinos, que "inventaram" outros mecanismos de organização social. Os mesmos que rechearam de tragédias o século XX. É preciso insistir que, até agora, o mercado como instrumento alocativo relativamente eficiente não encontrou nenhum substituto, como mostram o fracasso soviético e o sucesso chinês.

A crise americana é menos grave do que a da Eurolândia, mas tem pouca probabilidade de terminar antes da eleição de novembro de 2012. E depois? Depois, valha-nos Deus se os intelectuais republicanos vencerem a batalha eleitoral! É uma pena. Os EUA têm tudo para sair mais depressa da crise. Faltam-lhes apenas uma liderança que reconstrua a confiança da sociedade.

Na Eurolândia, a questão é mais complicada. Ela tem, na verdade, quatro problemas: 1) um desalinhamento das moedas dentro do euro, que causa resultados assimétricos nos balanços de pagamentos; 2) um descontrole dos déficits públicos; 3) uma perspectiva de crise bancária; e 4) falta-lhe um Banco Central autônomo, que seja, de fato, o emprestador de última instância e possa organizar as dívidas dos países.

O jogo dialético civilizatório (apoiado no sufrágio universal) entre o mercado e a urna não é uma linha reta: pode sofrer graves e custosos desvios. O fato fundamental é que ele não resiste à irresponsabilidade fiscal. Quando essa leva as lideranças políticas à completa predominância do curto prazo sobre o longo, aproveitando-se de situações econômicas passageiras favoráveis para permanecer no poder, o mercado (isso é, a realidade fática) acaba cobrando o seu preço.

O Brasil pagou tal preço no passado. A presidente deve ser fortemente apoiada quando corta na carne o Executivo e pede moderação ao Legislativo, ao Judiciário e aos sindicatos. Nunca a solidez fiscal foi tão necessária para proteger-nos da crise mundial, que está longe de terminar. É por isso que a DRU deve ser aprovada.

Primavera ou inverno? - MERVAL PEREIRA



O Globo - 29/11/2011


Pode-se ter uma visão pessimista da Primavera Árabe diante do que está ocorrendo na Síria, onde o ditador Bachar Al-Assad, quanto mais isolado fica, mais aumenta a violência da repressão. Pela primeira vez, a Liga Árabe adota sanções econômicas contra um de seus membros nessa dimensão, depois que a Síria se recusou a colocar em prática o plano para conter a violência no país e não aceitou a presença de observadores internacionais: suspensão dos voos entre os países árabes e a Síria, proibição de viagens aos países árabes para certas autoridades, congelamento de negócios comerciais com o governo sírio e das contas bancárias do governo nos países árabes.

Ou mesmo no Iêmen, onde o outro ditador longevo, Ali Abdullah Saleh, apesar de ter concordado em renunciar, continua a reprimir os protestos.

Mas, praticamente um ano após iniciadas as manifestações populares na Tunísia, que desencadearam movimentos em vários países da região, as eleições parlamentares no Marrocos ocorreram domingo, depois da aprovação da nova Constituição, e as do Egito começaram ontem, embora cercadas de sinais contraditórios: ao mesmo tempo em que o grande comparecimento mostra esperança de mudanças, há denúncias de corrupção, fortalecendo temores de que a turbulência política que domina o país não permitirá que elas se completem, em janeiro.

O favoritismo do partido islâmico Irmandade Muçulmana pode não se concretizar nas urnas, ou pelo menos sua vitória pode ser menor do que se prevê, pois nos últimos dias os mais jovens e os mais radicalmente empenhados em uma saída democrática para o Egito, que permanecem acampados na Praça Tahir exigindo a saída do poder dos militares, manifestaram sua rejeição ao apoio do Partido da Liberdade e da Justiça aos militares.

De qualquer maneira, nas duas eleições que já aconteceram na região em decorrência da Primavera Árabe, os partidos islâmicos moderados venceram na Tunísia e no Marrocos, marcando uma tendência que pode se repetir no Egito, onde até o momento a Irmandade Muçulmana tem participado do jogo político de maneira a garantir a realização das eleições.

Sua direção é acusada não de radicalismos islâmicos, mas, ao contrário, de estar fornecendo fôlego político para que os militares continuem dando as cartas.

O escritor Alaa Al-Aswani, considerado pelo Centro de Estudos Estratégicos Islâmicos da Jordânia um dos muçulmanos mais influentes, diz que a Irmandade repete com os militares os mesmos erros que tem cometido com todos os regimes que se sucederam no Egito, do rei Farouk a Sadat, passando por Nasser. Todos, segundo ele, utilizam-na para dividir as forças de oposição e depois a banem da política, prendendo seus membros.

Apesar de toda a aparência de moderação, há quem tema que a Irmandade Muçulmana, uma vez vencedora das eleições, passe a assumir um papel mais radical, o que poria mais uma vez os militares como a única alternativa ao "caos islâmico", como argumentava o antigo regime de Mubarak.

Há nada menos que 42 partidos concorrendo às eleições parlamentares, sendo que 31 foram criados depois da queda de Mubarak.

Os partidos Wafd, o mais antigo do país, de tendência liberal-nacionalista, e o recém-criado Al-Ad, de centro, são os principais concorrentes independentes, enquanto quatro coligações dominam o pleito, sendo que a favorita é a Aliança Democrática, unindo a Irmandade Muçulmana e vários partidos de esquerda.

Os poderes do Congresso a ser eleito dependerão da força que o Conselho Supremo das Forças Armadas conseguir manter, sob pressão da Praça Tahir e, também, dos eleitos ao final do processo.

Essa disputa já começou na base da retórica, com o general Mamdouh Chahine, responsável pelas questões jurídicas do conselho, avisando que o futuro Congresso não terá qualquer autoridade sobre o governo, enquanto o porta-voz da Irmandade Muçulmana, na esperança de que um representante do partido venha a ser indicado como primeiro-ministro, disse que, se o governo não representar as forças políticas do Congresso, todas as suas decisões serão bloqueadas.

As manifestações na Tunísia começaram em dezembro, como consequência do suicídio de Mohamed Bouazizi, de 26 anos, vendedor ambulante de frutas e verduras que pôs fogo às roupas em protesto após ter sua mercadoria confiscada por fiscais que pediam, como sempre, suborno para deixá-lo trabalhar na rua sem licença.

O que acontece na região vem sendo acompanhado atentamente pelo mundo e em especial por Israel, que mantinha um acordo de convivência pacífica com o Egito de Mubarak, que não foi totalmente revogado, e tem interesse vital pelo desenrolar dos fatos políticos na região.

"Eleição não mata a fome. O que mata a fome é emprego". A frase, atribuída ao presidente de Israel, Shimon Perez, numa análise sobre os desdobramentos da Primavera Árabe, retrata os temores do Estado de Israel com relação ao desenrolar da situação política, bem como o ceticismo sobre os resultados das mudanças na região.

A região do Magreb - Argélia, Marrocos e Tunísia - não preocupa Israel, que considera que o resultado das eleições na Tunísia e no Marrocos confirma a tendência de um islamismo moderado prevalecer ali. Mas nos países onde a presença do radicalismo islâmico pode ser reforçada pela mudança de situação política, em especial no Egito, Israel teme que o quadro político conturbado pela disputa entre várias facções não permita que se instalem governos eficientes que promovam o desenvolvimento dos respectivos países, favorecendo o fortalecimento de regimes islâmicos radicais.

Até mesmo na Tunísia, onde venceu um partido islâmico moderado, o projeto da nova Constituição inclui cláusula que condena as relações com Israel e tem apoio político relevante. Israel teme que iniciativa semelhante possa ser adotada por outros países do Oriente Médio.

O apoio de Iraque e Irã à Síria, depois das sanções da Liga Árabe, seria um sinal do que pode acontecer na região, trazendo o "inverno" em lugar da Primavera Árabe.

"Desculpe, é engano..." - ARNALDO JABOR



O ESTADÃO 29/11/11

Há dez anos, eu estava em um hospital para ser operado e, à espera da faca, talvez por medo, escrevi um texto sobre minha mãe, no secreto desejo de ela me proteger. Voltei nesses dias ao hospital para exames (nada grave, espero) e me lembrei de minha lembrança, da memória de uma memória. E, em minha viagem de recordações, repito trechos desse artigo sobre ela que foi, afinal, a personagem central de tudo que me aconteceu.

Ando com vontade de telefonar para ela. Mas minha mãe já morreu. Mesmo assim, quis ligar, pois, talvez, no telefone, houvesse um milagre e ela atendesse: "Alô? 284858? Mamãe?".


Na época desse número remoto do Meier, sua voz era jovem e feliz. Depois, foi enfraquecendo por outros números, até o tempo em que, já velhinha, atendia triste e doente ao 478378: "E aí, meu filho... tudo bem?". Como seria bom o telefone me salvar e alguém me chamar de "meu filho". Seria bom ser teletransportado ao passado e fugir das dores do país, do mundo e de mim mesmo.

Confesso que, em alguns momentos de desespero, eu já liguei escondido para números antigos de casas em que morei. Ouvia a voz anônima e falava "Desculpe, é engano..." com a sensação de, por instantes, ter visitado minha velha casa.

Minha mãe era linda. Parecia a Greta Garbo. Um dia, meu avô bateu nuns vagabundos que mexeram com ela, ainda mocinha, na base do "Tem garbo, mas não tem greta" e outras sacanagens de época... Meu avô, malandro e macho, pegou a bengala e cobriu-os de porrada.


A vida de minha mãe foi a tentativa de uma alegria. Sorria muito, trêmula, insegura e, nela, eu vi a história de tantas mulheres de seu tempo, buscando uma felicidade sufocada pelas leis do casamento, pela loucura repressiva dos maridos. Meu pai era um árabe alto, de bigode, pilotando aviões de guerra; era um homem bom e amava-a, mas nunca conseguiu sair do espírito autoritário da época e, inconscientemente, se enrolou numa infelicidade que oprimia os dois.


Na classe média carioca dos anos 1950, cercados de preconceitos, medos e ciúmes nas casas sombrias, os casais estavam programados para tristezas indecifráveis. Eram cenários estreitos para o amor: a casa do subúrbio, o apartamento micha de Copacabana, onde vi minha mãe enlouquecer pouco a pouco, tentando manter um sonho de família, tentando manter a cortina de veludo, a poltrona coberta de plástico para não gastar, os quadros de rosas e marinhas e a eterna desculpa para os raros visitantes: "Não reparem, que a casa não está pronta ainda..." (isso com 50 anos de casada). A casa nunca ficou pronta, como ela, Greta Garbo do subúrbio, sonhou: a casa feliz, com bolos decorativos nas festas, seu orgulho, a única coisa que ela sabia fazer: bolos em forma de avião, para homenagear meu pai piloto, em forma de livro, para me fazer estudar, ou em forma de piano, para minha irmã tocar naqueles aniversários em que os sofás de cetim marrom e branco eram descobertos com vaidade.


Na juventude, minha mãe era infeliz e não sabia, pois todas as suas forças eram convocadas para esquecer isso. Cantava "foxes" para desgosto de meu pai e ria com medo - se bem que ninguém era muito feliz naquele tempo. Não havia essa infelicidade esquizofrênica de hoje, mas era uma infelicidade tristinha, com lâmpada fraca, uma infelicidade de novela de rádio, de lágrimas furtivas, de incompreensões, de conceitos pobres para a liberdade. Eu via as famílias; sempre havia uma ponta de silêncio, olhos sem luz depois dos casamentos esperançosos com buquês arrojados para o futuro que ia morrendo aos poucos. Não era a tristeza da pobreza; dava para viver com o Ford 48 sendo consertado permanentemente por meu pai, sujo de graxa, aos domingos, com o rádio narrando o futebol; dava para viver com uma empregadinha malpaga, dava, mas a tristeza era quase uma "virtude" que as famílias cultivavam, sem horizontes.


Toda minha vida consistiu em fugir daquela depressão e em tentar salvá-los. Eu queria dizer: "saiam dessa, há outras vidas, outras coisas!" - logo eu, que achava que ia descobrir mundos luminosos feitos de revoluções e de prazeres, eu que achava que viveria na vertigem do sexo que se libertava, na bossa nova, na arte, ilusões que foram logo apagadas pelo golpe de 1964, que, com apoio de meu pai, restaurou a luz mortiça das famílias, das esposas conformadas em seus cativeiros.


Minha geração se achava o "sal da terra", tocada pela luz da modernidade. Mal sabíamos do outro desamparo que viria; não a melancolia do rádio aceso no escuro, não a televisão Tupi ainda trêmula em preto e branco, não as esquinas cheias de mistério, não o apito do guarda-noturno, mas a nossa impotência diante do excesso de acontecimentos.


Hoje, vivemos essa liberdade desagregadora, vivemos o medo das ruas, das balas perdidas, que não haviam quando mamãe ia visitar a médium de "linha branca" que lhe prometia felicidade com voz grossa de "caboclo". Antes, minha mãe e meu pai tinham a ilusão de uma "normalidade". Hoje, todos nos sentimos sem pai nem mãe, perdidos no espaço virtual, dos e-mails, dos contatos breves, da vida rasa sem calma. Que vai nos acontecer neste mundo, neste país de crimes e de riscos-Brasil, onde nada se soluciona, onde tudo é impasse e encrenca? Será que nunca mais teremos sossego?
Sinto imensa saudade da linearidade, do princípio, do meio e do fim das vidas e tenho medo de ter morrido e de não perceber. Por isso, me dá essa vontade profunda de pegar o telefone e discar, não num celular volúvel, mas num aparelho preto, velho, de ebonite, discar, ouvir a voz de minha mãe e voltar para a salinha de móveis Chippendale e vê-la sempre querendo ser feliz, mas com vergonha das visitas: "Não reparem, que a casa não está pronta...".


Na verdade, tenho vontade de discar, mas é para saber quem sou eu. E quando disserem "Quem fala?", pensarei: "É o que me pergunto sempre...". Mas sei que vou desligar, dizendo: "Desculpe, é engano..."

PORTA DA RUA - MÔNICA BERGAMO



FOLHA DE SP - 29/11/11


O número de ações por falta de pagamento de aluguel deu um salto de 17,03% em outubro, em comparação com o mesmo mês do ano passado: passou de 1.051 para 1.230. Em relação a setembro, houve alta de 4%.

PORTA DA RUA 2
O aumento ocorre num ano em que esse tipo de ação vinha diminuindo. De janeiro a outubro, as ações locatícias registraram queda de 12% em relação ao mesmo período de 2010. Caíram de 14.330 para 12.610. O Secovi-SP (Sindicato da Habitação), responsável pelo levantamento, acredita que os inquilinos têm se esforçado para manter o pagamento em dia num ano de forte demanda por locação, em que fica mais difícil encontrar um novo imóvel para morar.

PORTA FECHADA
Jaques Bushatsky, diretor do Secovi, diz também que a alta mostra que os proprietários tentam negociar. Mas que, "quando se aproxima o final do ano, passam a temer o encerramento das atividades forenses", o que retarda o andamento das ações.

CHAMA O MESTRE
Alunos da USP procuraram o escritório de um professor da universidade, Pierpaolo Bottini, para defendê-los no caso da invasão da reitoria da USP. Eles são acusados de depredar o patrimônio público. O advogado deve argumentar que a polícia não consegue indicar responsabilidades individuais (quem danificou o quê). Um eventual processo, portanto, estaria prejudicado.

FACE A FACE
O deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP), pré-candidato à Prefeitura de SP, foi saudado como "prefeito" por vários convidados da feijoada pós-Fórmula 1 que a socialite Ana Paula Junqueira e o empresário Henrique Pinto (Água de Cheiro) ofereceram anteontem.

ROMANCE
E um novo casal circulou pela festa: a empresária Erika dos Mares Guia e o arquiteto Sergio D'Avila.

TAPETE VERMELHO
Um representante do libanês Elie Saab esteve em SP. O estilista, queridinho de estrelas como Angelina Jolie, Beyoncé e Halle Berry, estuda abrir loja na cidade.

MERCADO NEGRO
Uma gangue com sotaque espanhol aparentemente voltou a atacar na Casa Santa Luzia, nos Jardins, um dos mais caros empórios da cidade. Um homem e duas mulheres, bem vestidos, abriram a bolsa de uma publicitária e levaram seu iPhone. Depois, ela ouviu dos funcionários da casa que o grupo já havia feito a "rapa" por ali em outras ocasiões.

PONTO CEGO
Carlos Gonçalves, gerente do Santa Luzia, diz que câmeras de segurança, instaladas há um mês, mostram parte do furto. E confirma que já houve problema semelhante "há um ano". Mas diz não poder afirmar que os criminosos sejam os mesmos.

ACEITO
A designer de joias Mariana Vital Brazil e o empresário Pedro Tepedino se casaram no sábado, na igreja Nossa Senhora do Brasil. A apresentadora Glenda Kozlowski, a empresária Anna Cláudia Rocha e a estilista Renata Sarti foram à cerimônia. A noiva usou um vestido assinado por Elie Saab.

ATIROU NO QUE VIU
Fiscais da Lei Antiálcool foram à paisana às baladas Sonique e Eazy, na capital paulista. Não encontraram menores consumindo bebidas, mas flagraram infrações à lei antifumo e multaram os locais em R$ 872,50 cada um. Na Eazy, as portas que separavam o espaço para fumantes estavam abertas. A balada pretende recorrer e promete criar novos bloqueios ou instalar "cortinas de ar" para evitar novas multas.

VIZINHANÇA
O Sonique diz que a autuação ocorreu na tabacaria da casa, no mezanino, espaço com entrada independente. E informa que busca orientação jurídica para solucionar a questão. Após a blitz, a tabacaria foi fechada.

ACELERA
A cantora Macy Gray foi uma das DJs da festa F1 Rocks Afterparty, no Terraço Daslu, anteontem. A modelo Daniella Sarahyba estava entre as convidadas.

CURTO-CIRCUITO
O encontro E-merging Markets, de comércio eletrônico, acontece hoje e amanhã, das 9h às 18h, no World Trade Center de SP.

Jorge Kalil, diretor do Instituto Butantan, foi um dos vencedores do Prêmio Conrado Wessel.

A champanhe Moët Ice Impérial será lançada no sábado com festa na casa de Cristiana Arcangeli e Álvaro Garnero.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

GOSTOSA


Em pedra dura - DORA KRAMER




O Estado de S.Paulo - 29/11/11


O PT anda um pouquinho, recua um pouquinho, disfarça e volta a um assunto que lhe é especialmente caro: o poder do Estado de estabelecer algum tipo de controle sobre a imprensa.

Sexta-feira passada aconteceu mais uma reunião para o partido discutir a questão que tenta introduzir na agenda do País desde o início do primeiro mandato de Lula.

De lá para cá a abordagem do tema foi sendo adaptada, a fim de driblar resistências.

Hoje esse debate acontece sob a justificativa de que é necessário estabelecer "um novo marco regulatório para a mídia", mas em 2004 a mesma proposta foi apresentada ao País com sinceridade e nitidez.

Era preciso, na visão do partido que chegava ao poder, criar um órgão - o Conselho Federal de Jornalismo - para "orientar, disciplinar e fiscalizar" o trabalho dos meios de comunicação.

Na época, o PT ainda era estreante nas lides governamentais, não havia se iniciado com afinco na produção de escândalos em série e estava acostumado a ser paparicado por quase toda a grande imprensa da qual reclama, mas que até o caso Waldomiro Diniz dava ao partido e ao presidente Lula uma cobertura extremamente favorável.

Ao "presidente operário" tudo era permitido. Inclusive renegar o próprio discurso sem ser confrontado com rigor diante da contradição-mãe de chamar de herança maldita o legado do antecessor e, ao mesmo tempo, tirar dela o melhor proveito.

A partir dos tropeços do governo é que o cenário mudou. Mas não mudou no partido a ideia de exercer domínio sobre a grande imprensa, o único setor que lhe foge completamente ao controle. E é isso o que incomoda.

Por mais disfarçados que sejam os argumentos. Em artigo no jornal O Globo de ontem, o presidente do PT, Rui Falcão, lista alguns pontos que seriam alcançados pelo "marco regulatório".

Fala em "ferramentas eficazes de inclusão social e defesa da comunicação e cultura nacionais", na garantia do acesso universal à internet em banda larga, em mecanismos para "evitar que o poderio econômico dos grandes grupos de telefonia sufoque setores da mídia tradicional" e na ampliação de recursos para "grandes redes de radiodifusão pública e de telecomunicações".

Tudo muito decente. E vago. De substantivo mesmo, resta o resumo das intenções feito no seminário de sexta-feira pelo deputado cassado, réu do mensalão e dirigente do PT, José Dirceu: "Os proprietários de veículos de comunicação são contra nós, fazem campanha dia e noite contra nós. Só lamento que não haja um jornal de esquerda, que seja a favor do governo".

Há de todos os matizes no País todo: de esquerda, de direita, sem orientação, nos blogs, nos sites. Não falta espaço de comunicação em defesa do governo.

Mas há também os que exercem a crítica, e ao PT e sua pretensão à hegemonia desconforta essa convivência com o contraditório. Daí a insistência.

Vai levando. Crua e resumidamente, prevalece a seguinte visão no governo sobre o efeito das denúncias de corrupção na popularidade da presidente: enquanto a interpretação geral for a de que as demissões significam que Dilma é implacável, não há necessidade de bancar o risco de confrontação com a base mudando os critérios de ocupação de espaços.

E prossegue o raciocínio: como o noticiário de rádio e televisão favorece a essa conclusão, pois não se aprofunda na análise de que a presidente só demitiu por impossibilidade de não demitir, há margem para esticar a corda e evitar novas demissões.

Até que a reforma ministerial renove a imagem de uma Dilma ativa - e não reativa - face às deformações de origem nos critérios de composição da equipe de governo.

Resumo da ópera: quanto menos as pessoas alimentarem o hábito da leitura e quanto mais continuarem a se informar por meios cuja própria natureza remete à informação menos elaborada e desprovida de interpretação, melhor para o governo.

Embora seja bem pior para o desenvolvimento da massa crítica, sem a qual não se faz uma sociedade capaz de dialogar de igual para igual com o poder público.

Abafa o caso - RENATA LO PRETE



FOLHA DE SP - 29/11/11



Por orientação de Dilma Rousseff, o governo decidiu não fazer a divulgação dos dados do desmatamento da Amazônia coincidir com a conferência da ONU sobre o clima, que começou ontem na África do Sul. A medida contraria a tradição dos últimos anos e está relacionada à expectativa de piora do quadro em comparação com 2010. Relatório de agosto já indicava que a tendência de queda do desmate seria revertida este ano.

A semana também é decisiva para o Código Florestal, que deve ir ao plenário do Senado depois de a base governista ter acolhido as novas exigências da bancada ruralista na Comissão de Meio Ambiente.

Personagem Lideranças ruralistas no Congresso tentam emplacar Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) na relatoria do projeto do código quando o texto voltar para a análise dos deputados. Afinado com os produtores, Alves entrou em choque com o Planalto na primeira votação da proposta na Câmara.

Cota verde Mesmo com o veto de Dilma à convocação de concursados, o Ministério do Planejamento autorizou a contratação de cem analistas que trabalharão no cadastramento ambiental rural com o objetivo de legalizar propriedades em todo o país. O pedido de urgência veio da ministra Izabella Teixeira.

Todos por um Apesar do novo constrangimento envolvendo Carlos Lupi, o governo seguirá tentando não mexer no Ministério do Trabalho até janeiro. Em defesa do ministro, há quem diga nos bastidores que a prática de empregar "fantasmas" na Câmara não se restringiria ao PDT.

Horário nobre A autora de novelas Glória Perez foi recebida ontem pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Sua próxima obra abordará o tráfico de pessoas, o que a fez buscar subsídios técnicos no governo para fundamentar a trama.

Asfalto selvagem Está em gestação no governo um plano nacional de redução de acidentes. A ideia é reunir um pacote de iniciativas legislativas e do Executivo para conter a escalada de mortes nas estradas. O Planalto quer adotar o plano na esteira da proposta que torna a Lei Seca mais rígida, já aprovada no Senado e agora sob análise na Câmara.

Outro lado Dráusio Barreto afirma que, quando membro do Conselho Superior do Ministério Público, não atuou para trancar investigação sobre a Controlar, operadora da inspeção veicular paulistana, e sim pediu diligências -daí o caso ter ficado em suspenso. Ele descarta ligação entre essa providência e sua indicação à Secretaria de Serviços, o que atribui a uma relação de longa data com Gilberto Kassab.

Dois pesos Enquanto dirigentes pregam cautela com Kassab, de olho em 2012, o PT paulistano não dará trégua ao prefeito. Vereadores buscam apoio para CPI e planejam levar o secretário Eduardo Jorge (Verde) à Câmara.

À flor da pele Em debate, ontem, com pré-candidatos a prefeito sobre a Copa, o presidente da SPTuris, Caio Luiz de Carvalho, irritou-se com pergunta sobre o caso Controlar: "Isso não é campanha política. Vai virar palhaçada", disse, impedindo que José Aníbal (PSDB), Andrea Matarazzo (PSDB) e Soninha (PPS) respondessem.

O aprendiz Em fase de coleta de dados, pesquisa do PSDB paulistano testa cenários com seis nomes do partido: além dos quatro pré-candidatos oficiais, estão na consulta estimulada José Serra e o empresário e apresentador de TV João Dória Júnior, recém-filiado à sigla.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio
"Não bastassem todas as irregularidades já reveladas pela imprensa e sob investigação na pasta, descobre-se agora que o ministro do Trabalho não trabalha."

DO SENADOR FLEXA RIBEIRO (PSDB-PA), sobre reportagem da Folha dando conta de que Carlos Lupi foi, durante seis anos, um funcionário-fantasma da Câmara dos Deputados, lotado na liderança do PDT na Casa.

contraponto
Páreo de risco

Inquieto com as recorrentes negativas de Luiz Marinho sobre a eventual candidatura ao governo paulista em 2014, um morador de São Bernardo do Campo perguntou ao prefeito durante evento público:

-E se o cavalo passar encilhado, você monta?

O petista, natural de Cosmorama, noroeste paulista, respondeu, em tom de brincadeira:

-No interior a gente aprende que montar em cavalo encilhado pode ser perigoso. Vai que a barrigueira, de propósito, não está fechada... A queda pode ser feia!

Os limites do crescimento - JOSÉ MÁRCIO CAMARGO


O Estado de S.Paulo - 29/11/11


Entre o início dos anos 90 e 2005, o Brasil viveu um intenso processo de reformas estruturais. Abertura da economia, fim da reserva de mercado para informática, privatizações, reformas do Estado, da previdência social, do crédito, Lei de Responsabilidade Fiscal, programas de transferência de renda condicionados à frequência das crianças às escolas, etc. Os resultados foram uma forte queda da relação dívida pública/PIB, melhoria do nível educacional da população, universalização do ensino fundamental e expressivos aumentos de produtividade e da taxa de investimento da economia.

Uma revolução dessa dimensão não é feita sem custos. Setores que sobreviviam em razão dos elevados níveis de tarifas e de restrições não tarifárias às importações desapareceram. Ao mesmo tempo, houve forte queda dos preços dos bens de capital e aumento dos investimentos. Inovações tecnológicas que normalmente vêm incorporadas aos bens de capital foram introduzidas na economia e setores que tinham vantagens comparativas claras, como a agroindústria e setores intensivos em recursos naturais, tiveram desempenho espetacular.

O ajuste do mercado de trabalho a essa nova realidade não foi fácil. As inovações tecnológicas e mudanças da estrutura produtiva transformaram drasticamente a estrutura da demanda por ocupações. Como é difícil mudar a qualificação da mão de obra no curto prazo, os resultados foram um descompasso entre oferta e demanda por trabalho durante um longo período e a persistência de elevados níveis de desemprego, que passou de 5% da força de trabalho, no final dos anos 80, para 13%, no final dos anos 90. Com o passar dos anos, a estrutura de oferta de qualificação se adaptou à da demanda, em razão da universalização do ensino fundamental, dos programas de treinamento e qualificação e da entrada de uma nova geração, mais educada, no mercado de trabalho, o que fez com que a taxa de desemprego retornasse a 6% da força de trabalho.

Com os ganhos de produtividade e a lenta, mas persistente, adaptação da estrutura da qualificação da força de trabalho, foi possível ao País crescer a taxas próximas a 4,5% ao ano nos últimos dez anos, sem gerar pressões inflacionárias insustentáveis. Ante esse desempenho relativamente favorável, o processo de reformas - que deveria prosseguir na direção do aumento da qualidade do sistema educacional público, do reforço das condicionalidades dos programas de transferência de renda, do aprofundamento das reformas do mercado de trabalho e da previdência social e da a criação de instituições para incentivar os investimentos privados em infraestrutura (PPPs, por exemplo) - foi interrompido. Concentraram-se esforços em políticas que privilegiaram o aumento do consumo, como os programas assistencialistas (não condicionados) de transferência de renda (o governo federal gasta hoje três vezes mais com esses programas que com investimentos, 16,7% ante 6,85% do gasto total, respectivamente), aumentos do salário mínimo e dos gastos correntes do governo, deixando de lado as preocupações com ganhos de produtividade e aumento dos investimentos.

Essa mudança foi, provavelmente, um dos fatores que fizeram com que a redução da desigualdade e da pobreza, que já vinha ocorrendo desde o início dos anos 90, tenha se intensificado, constituindo-se num importante fator positivo dessa estratégia. Mas, ao abandonar as reformas, não foram criados incentivos adequados ao contínuo aumento do investimento (em capital físico e humano - educação e saúde) e da poupança (recursos financeiros e tempo dos jovens dedicado à educação), reduzindo a taxa de crescimento de longo prazo. Com os baixos níveis de poupança e investimento e o fim da capacidade ociosa, a economia atingiu seu limite de crescimento, dado por uma taxa de investimento de 17,5% do PIB e crescimento de 2,2% da força de trabalho. Como para gerar 1 ponto de porcentagem (p.p.) de crescimento do PIB são necessários 4,5 p.p. de crescimento do estoque de capital (aproximadamente a média internacional da relação entre investimento e aumento do PIB para países como o Brasil), ou 0,6 p.p. de aumento do emprego, sem ganhos de produtividade a taxa de crescimento sustentável está um pouco abaixo de 4% ao ano. Usar as políticas monetária, creditícia e fiscal para forçar essas restrições apenas gera mais inflação.

Devagar com a louça - JOSÉ PAULO KUPFER


O Estado de S.Paulo - 29/11/11


Em menos de três meses, a crítica agressiva ao início de um ciclo de cortes na taxa básica de juros pelo Banco Central (BC) deu lugar a argumentos em linha com a ideia de que o Comitê de Política Monetária (Copom) poderia até acelerar o ritmo de queda. Essa hipótese passou a frequentar as análises mais recentes dos departamentos de pesquisa de bancos e consultorias de mercado, embora não como a mais provável.

Como não parece ser esta a disposição da autoridade monetária, seria irônico, mas não descabido, imaginar que, dependendo do andar da carruagem, o BC possa agora vir a ser criticado por excessiva cautela no afrouxamento monetário. Depois da tempestade de críticas, vem a ironia.

O tempo mostrou que, na volta do parafuso, o BC não errou ao "antecipar" o início do corte nos juros. Mas, por todos os motivos, poderia errar se acelerasse agora. Não só as incertezas na economia global ou as possibilidades de contágio da economia doméstica recomendam ação ativa, mas cautelosa. Os desequilíbrios econômicos tipicamente brasileiros exigem sintonia muito fina na política econômica. Tudo sugere que o acertado é ir devagar com a louça.

O ambiente em que a economia brasileira navega, apesar de todas as incertezas, está razoavelmente circunscrito a um intervalo não muito aberto. Crescimento entre 3,5% e 4%, com uma inflação na casa dos 5,5%, eis o que se pode esperar, em cenários sem rupturas, para 2012. Não chega a ser o sonho macroeconômico de um país que almeja e precisa incluir mais gente - e, antes disso, manter incluídos os que ascenderam recentemente -, mas, sobretudo diante das circunstâncias adversas da economia global, dá para o gasto.

Tentar trazer a inflação para os 4,5% do centro da meta, no fim de 2012, como insiste em anunciar o BC, e levar a economia a crescer 5%, como passou a declarar a Fazenda, exigiria esticar a corda provavelmente além dos benefícios que o movimento poderia proporcionar. Com a peculiaridade de que cada ponta da corda teria de puxar para o lado oposto, num caso de inviabilidade física.

Nem sempre as combinações de política macroeconômica com o objetivo duplo de manter a inflação sob controle e estimular o crescimento são fadadas ao fracasso, como alguns podem imaginar. Mas, sem dúvida, os limites para essa ação combinada são estreitos e dependentes do quadro vigente. Na economia brasileira do momento, há espaço para esses movimentos combinados, mas as margens, tanto do lado monetário quanto do lado fiscal, são apertadas.

No lado monetário, esses limites são dados pela perspectiva de que a inflação não desande, mas também não despreocupe. A permanência do emprego e da massa salarial ainda em níveis altos, se bem que em ponto menor, contribui para manter pressão de demanda, principalmente no setor de serviços. Além disso, mesmo com tendência à moderação nesse segmento e de alguma redução na contaminação dos preços internos pelo vaivém das commodities internacionais, uma provável, ainda que não agressiva, desvalorização mais contínua do real pode contribuir para neutralizar o rumo baixista da trajetória dos preços.

Diante desses limites e com a certeza de que o risco de que a crise global promova turbulências no mercado interno de crédito já é mais do que uma hipótese, a fórmula da política monetária parece dispor de apenas um roteiro: a necessária moderação nos cortes da taxa Selic - até 9% ou 10% ao ano, na metade de 2012 - obrigará a uma reversão gradual e de acordo com as necessidades, das medidas macroprudenciais vigentes. Como, aliás, começou a ser feito em meados de novembro e há espaço para prosseguir.

No lado fiscal, o limite deve vir de uma dupla restrição: uma esperada redução no ritmo da arrecadação, amplificada pela intensificação nas isenções para setores específicos e pelos impactos do aumento do salário mínimo nos gastos correntes do governo. O estreitamento do canal fiscal leva as projeções para 2012 a convergirem para um superávit primário de 2,5%, abaixo da meta de 3,1%, que, diga-se, será alcançada em 2011.

A chave da política econômica em 2012 se chama investimento. Infelizmente, mais do que empurrá-lo ladeira acima, o esforço será recuperar o terreno perdido em 2011. Difícil acreditar, contudo, que o governo conseguirá, em ano eleitoral, conter seu consumo corrente, para justamente alargar o espaço do investimento, pelo menos nos níveis requeridos. O resumo da história é que a tentação de nadar na direção de um afrouxamento mais rápido no lado fiscal pode levar a economia a morrer na praia.

Música e sociedade - VLADIMIR SAFATLE



FOLHA DE SP - 29/11/11

Alguém interessado no desenvolvimento das artes no Brasil certamente se espantará com o fato de não existir um grande compositor nacional.

Por mais que nossa ideologia cultural diga que somos um povo naturalmente musical, que, para nós, a música brota do solo, acolhida pelo ritmo manso de um gozo solar, é difícil esconder o fato de nunca termos produzido um compositor fundamental para a história da música.
Nosso maior compositor do século 20, Heitor Villa-Lobos não era capaz de esconder seu autodidatismo diletante. Se algumas de suas peças de câmara, como os quartetos de corda, são de inegável qualidade, suas peças orquestrais são deficientes.
Não é difícil identificar limitações nos usos de timbres, jogos de intensidade não muito felizes e problemas de orquestração. Uma comparação com Béla Bartok, outro compositor de sua época também marcado por pesquisas folclóricas e nacionais, demonstra, inclusive, seu conservadorismo formal.
Alguns podem julgar despropositado o uso de expressões como "compositor fundamental para a história da música", como se toda tentativa de descrever a racionalidade do desenvolvimento histórico da linguagem musical fosse uma maneira totalitária de impor um cânone tão útil quanto qualquer lista de compras.
Dificilmente, porém, acharemos alguém capaz de afirmar que, por exemplo, Glinka ou Elgar são tão fundamentais para o desenvolvimento da música quanto Wagner ou Debussy.
Se não se pode falar qualquer coisa sobre a história da música, é porque a avaliação do desenvolvimento formal das obras e de sua força crítica em relação às limitações de convenções que se naturalizaram não é simplesmente arbitrária. Ela é fruto da lógica imanente à linguagem musical e suas figuras.
Neste sentido, pode-se dizer que a música brasileira talvez seja vítima da incapacidade em produzir rupturas formais inovadoras por não saber como superar os limites de uma ideologia cultural que vê, na música, a expressão de uma sensibilidade marcada pela proximidade privilegiada com o originário. Ideologia da promessa de uma reconciliação em que tensões e conflitos formais sempre serão anulados por uma harmonia redentora que ignora os problemas postos pelo passado.
Não deixa de ser interessante notar que, ao falarmos de música, tudo se passa como se fôssemos obrigados a descrever as limitações de autocompreensão da própria sociedade brasileira, como se a produção cultural andasse no descompasso da vida social.
E como se estivéssemos à espera do momento no qual, ao contrário, nossa música forneça a imagem avançada daquilo que a sociedade teima em não querer pensar.

O prazer de tirar o pão da boca do rival - LUIZ ZANIN


O Estado de S.Paulo - 29/11/11


Amigos, também no futebol existe o pensamento politicamente correto, que, como vocês sabem, é composto de pequenas (e às vezes grandes) hipocrisias. Agora ele se manifesta quando alguns palmeirenses dizem pouco se importar em impedir o título do Corinthians. "Queremos apenas jogar bem e ganhar", diz Felipão.

No outro lado da história, a mesma coisa. Luxemburgo também declarou que deixava para a torcida a possível satisfação de tirar o título do Vasco. Queria apenas jogar bem, etc. No caso do Flamengo, com a motivação adicional: está em jogo uma vaga na Libertadores. No Palmeiras, nem isso: a única recompensa é mesmo botar água no chope do principal adversário.

Todo mundo sabe disso. Mas não se diz. Não fica bem a profissionais dar mostras de tamanha passionalidade. Deixa-se essa manifestação emotiva para a torcida que, esta sim, é amadora e, como amadora, pode se deixar levar por arroubos da paixão, tanto positiva quanto negativa.

Os técnicos deram essas declarações diplomáticas e dificilmente os jogadores falarão de modo diferente. Dirão que manda a ética do esporte que se jogue a sério e assim por diante. Eu ficaria surpreso se algum deles confessasse o prazer que seria tirar o pão da boca de um rival próximo. Mesmo porque gente capaz de fazer isso, como Vampeta, Romário ou Edmundo já não está mais em atividade. Hoje predominam os bons moços, com suas frases sensatas e sem sal ditadas pelos profissionais do media training. Não declaram nada que possa comprometê-los no futuro que, como costumam dizer, a Deus pertence.

Diplomacias e pequenas hipocrisias à parte, o que não se pode deixar de reconhecer é o acerto de colocar os clássicos regionais na última rodada do campeonato. Se não, é possível que tivéssemos em 2011 um repeteco de outras edições, com times desmotivados e - pior - interessados em entregar o jogo para prejudicar o rival direto.

A sábia decisão de deixar os dérbis para o fim aquece o desfecho do campeonato à temperatura máxima. Isso por obra e graça da matéria-prima da qual são feitas todas as disputas: a rivalidade. Sem ela, todo futebol vira um casados x solteiros. Aliás, a comparação é injusta. Já vi muita gente sair estropiada depois desses rachas de fim de semana, regados a cerveja e churrasco. O bicho homem não gosta de perder. Quando o assunto é futebol, menos ainda. E só há uma coisa pior do que perder: é ver o seu rival ganhar. Curioso como uma atividade tão bela como o futebol se nutra (também) de instintos tão baixos.

Mas assim é a vida. Complexa e contraditória é a natureza humana. Porque se existe baixeza em desejar o pior para o seu rival, também há grandeza em reconhecê-lo em seus feitos legítimos. Assim como o torcedor já viu (e pode ter praticado) cenas de sadismo com o sofrimento alheio, também já testemunhou a generosidade. Por exemplo, quando nos compadecemos de um time rebaixado para a segunda divisão e nos sentimos solidários com a torcida machucada. Ou, quando aplaudimos uma bela jogada do adversário, reconhecendo-lhe a arte, mesmo quando é contra o nosso time. Vi Pelé ser aplaudido várias vezes por rivais derrotados. Vi a torcida santista homenagear Marcelino Carioca quando ele marcou um gol maravilhoso na Vila Belmiro, contra o Santos. Somos assim. Cheios de contradições e nuances. Por isso o futebol nos representa tão bem.

E, por isso mesmo, que me desculpem os corintianos, teria sido uma pena para um campeonato tão bom se tivesse terminado já no domingo. Seríamos privados da emoção maior da última rodada. Se o título vier para o Corinthians, que seja da maneira como eles parecem gostar, com o máximo de sofrimento. E se for para o Vasco, quer merecimento maior?

A difícil vida do PSDB - JANIO DE FREITAS


FOLHA DE SP - 29/11/11


A ideia de apropriação indébita do que seria a agenda dos tucanos pelo PT é cômoda, mas equivocada


O DIAGNÓSTICO feito pelo ex-senador Tasso Jereissati para a perda de expressão do PSDB sintetiza, com crueza, as opiniões predominantes na cúpula partidária: "O PT roubou a nossa agenda".

Apesar da concordância de fundo, os encontros partidários que buscam possíveis soluções não tornam mais convincente aquela conclusão. E ainda agravam o impasse entre correntes na cúpula partidária.

Daí, a rigor, a estranhada ausência de uma exposição de fins jornalísticos, por breve que fosse, do que se passou na reunião feita para análises e propostas inovadoras.

O constatável, por transbordamento, foi a oposição ainda mais explícita da corrente de José Serra à presença do deputado pernambucano Sérgio Guerra na presidência do partido. Sérgio Guerra, por sinal, muito qualificado para o posto.

A situação do PSDB não é simples. Já a partir da ideia generalizada de que o governo Lula se apropriou, e o de Dilma mantém, "a agenda" dos peessedebistas.

Só os petistas obcecados contestam que Lula, enquanto Antonio Palocci e Henrique Meirelles foram as figuras centrais do governo, continuasse a política econômica de Fernando Henrique.

Essa continuidade foi a opção estratégica que neutralizou a engatilhada reação do sistema financeiro privado e, em geral, do poder econômico a Lula e ao ilusório "governo do PT". Mas não foi daí que emergiu a onda lulista. São inseparáveis, na ascensão, três fatores.

Com a substituição de Palocci por Guido Mantega e a entrada de Dilma Rousseff no círculo da Presidência, aos componentes conservadores da política econômica foram acrescentadas a pregação de Lula pelo crescimento e medidas objetivas nesse sentido. A neutralidade do poder econômico privado deslizou assim para adesão, difícil de disfarçar, ao governo e a Lula.

O terceiro fator nesta série foi a projeção do Brasil no mundo, com significação especial nos países importantes e nos organismos por eles dominados. Obra da política externa, com seus lances inéditos de soberania e com a contribuição pessoal do íntimo metalúrgico nas cortes e nos tapetes aristocráticos. Quase nada considerado até agora, este fator, suponho, teve influência muito grande também na projeção interna de Lula, em todas as classes sociais.

Em outro plano, o assistencialismo de grande escala, sem precedente no Brasil, e a persistente presença pessoal de Lula no país todo, com farta propagação pela mesma mídia que o repudiava, conjugaram-se como engrenagens relojoeiras. Com efeitos não só nas classes beneficiadas, mas até para a projeção internacional, sob o rótulo de distribuição de renda.

Todos esses traços do período de Lula estariam muito bem em um governo social-democrata, como deveria ser o do PSDB ao menos para justificar seu nome. Mas ficou muito longe disso. Exceto a identificação das políticas econômicas na primeira parte da administração Lula, houve divergência em tudo o mais que foi determinante para a caracterização dos dois governos.

A ideia de apropriação indébita do que seria a agenda dos peessedebistas é cômoda, mas equivocada. Seu governo de oito anos não fez o que não quis. O sucessor, a par dos seus defeitos e deficiências, quis e fez o que o governo do PSDB não fez porque não quis. O que também pode ser dito assim: não fez porque fazê-lo não era sua agenda.

O problema que o PSDB encontra, e não reconhece, é de identidade. Pensou representar a social-democracia e quem a praticou, nos seus próprios termos, foi outro. Sem olhar-se no espelho, o PSDB não poderá sair para vida nova.

CLAUDIO HUMBERTO

“Antes que ele seja demitido, é melhor que peça para sair”

Senador Cristovam Buarque (PDT-DF) sobre Carlos Lupi, ministro pego na mentira

AMEAÇA DE FIASCO LEVA O GOVERNO A CULPAR TCU

O governo se prepara para culpar o Tribunal de Contas da União pelo vexame anunciado na concessão dos aeroportos de Brasília, Campinas e Guarulhos para a iniciativa privada, com vistas à Copa das Confederações, em julho de 2013, e à Copa do Mundo de 2014. O problema é que o próprio governo demorou a definir o modelo e agora cobra celeridade no exame dos editais, mas o TCU não tem pressa, nem prazo. Estima-se que a definição sairá apenas em março de 2012.

ATRASO DECISIVO

Pela praxe, o governo terá mais 45 dias para receber propostas e o leilão, antes previsto para 2011, deve ser feito em maio ou junho.

PUXADINHO VEM AÍ 

Na melhor previsão, as obras de reformas dos aeroportos só começam no fim do segundo semestre de 2012. Se o TCU liberar o leilão.

NEM AÍ

O TCU não parece se impressionar com a pressão do governo e das companhias aéreas interessadas no leilão dos aeroportos.

JÚRI POPULAR

Será hoje, em Brasília, o julgamento de dois policiais acusados, em 2000, de assassinar o sindicalista Gildo da Silva Rocha, durante uma greve.

BISPO ‘IMPORTA’ ÍNDIOS PARA RAPOSA SERRA DO SOL

Em ação incentivada pelo bispo Aldo Mogiano, índios de diversos países sul-americanos estão sendo levados para a reserva Raposa Serra do Sol, no Estado de Roraima, para fazer número e dar ideia de “ocupação”. A região, grande produtora de arroz, foi transformada em nova fronteira de fome, desemprego e alcoolismo, depois que os agricultores foram expulsos por decisão do Supremo Tribunal Federal.

ESPERTEZA ANTIGA

Índios estrangeiros sempre foram levados a ocupar áreas reivindicadas para demarcação, mas eles eram arregimentados apenas na Guiana.

BYE, BYE, BRASIL

O tal bispo Mogiano criou, no passado, uma “Aldeia da Demarcação”. Os índios importados se articulam em novas “nações independentes”.

VIDA BOA

Protegidos pela Funai, índios estrangeiros usufruem de assistência de dentistas, médicos, remédios e até avião para emergências médicas.

BAHIA: O NOVO CORREGEDOR...

Antes de assumir a corregedoria do TJ da Bahia, o desembargador Sinésio Cabral Filho decidirá se a disputa entre as famílias Odebrecht e Gradin continua no Estado ou vai para o Superior Tribunal de Justiça.

...E UM DILEMA BILIONÁRIO

Mantendo a disputa Odebrecht x Gradin na Bahia, o desembargador Sinésio Cabral Filho confirmará as decisões do plenário da corte. Se mandar o caso para o STJ, atenderá aos desejos da Odebrecht.

VERGONHA

Panos, baldes e rodos no ginásio Nilson Nelson, em Brasília, em razão das muitas goteiras, inauguraram uma nova modalidade no Campeonato Mundial de Patinação Artística: patinação com obstáculos.

BRASÍLIA 2016

Exatos 28 delegados decidirão nesta terça-feira, em Bruxelas (Bélgica), a cidade que terá a Universíades 2016, o terceiro maior evento esportivo do planeta (só perde para as Olimpíadas e a Copa do Mundo). A China ajuda Brasília na disputa contra Tai-wan, a “província rebelde”.

CADA VEZ PIOR

A GOL agora oferece sauna à clientela: passageiros do voo 1336, que embarcaram em Congonhas (SP) para Brasília, nesta segunda, ficaram meia hora a bordo sem ar condicionado. Calor sufocante, insuportável.

TARTARUGA CEGA

Caminha para o Guiness o processo de 1996, que apura na 15ª Vara Federal do Rio de Janeiro o “cano” de US$ 62 milhões de um empréstimo de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil à falida multinacional Nuexco.

REPETENTE

Não é novo o projeto do deputado Marcos Montes (DEM-MG) tornando obrigatório o orientador educacional nos ensinos médio e técnico: está no artigo 10, da lei 5952 de Atualização e Expansão.

SINTONIZADOS 

Deve entrar hoje na pauta da Câmara a proposta de emenda constitucional do deputado Otávio Leite (PSDB-RJ) que desonera o setor fonográfico, por meio de renúncia fiscal, a fim de baratear CDs.

PENSANDO BEM...

...Não é de hoje que Carlos Lupi dá trabalho ao erário: em seis anos, recebeu quase R$ 900 mil como assessor-fantasma da Câmara. 


PODER SEM PUDOR

UÍSQUE DO SANTO

Prefeito de São Simão (SP), Padre Plínio Toldo (PFL) agradava autoridades às quais pedia recursos. Certa vez, ao receber dele uma garrafa de uísque, secretário paulista brincou: “O sr. está querendo me comprar, padre?”.

– Nada disso, meu filho – respondeu Toldo – Esse uísque é feito lá mesmo em São Simão. E eu vou lhe contar um segredo: se Jesus soubesse que a gente produz esse uísque, tinha feito a Santa Ceia lá na minha cidade.

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: Aids ainda mata 12 mil por ano e só não sobe no Sudeste

Folha: Servidor em função de risco vai poder se aposentar antes

Estadão: ONU acusa ditador sírio de crime contra humanidade

Correio: Arapongas do Senado rastreiam até e-mails

Valor: Operação Usiminas frustra os acionistas minoritários

Estado de Minas: Tarifas nas nuvens

Zero Hora: Exclusivo: secretário-geral da Fifa - "Porto Alegre não pode perder mais nenhum dia"