quinta-feira, novembro 24, 2011
Alerta Brasil, tudo piorou... - ALBERTO TAMER
O Estado de S.Paulo - 24/11/11
Está tudo piorando lá fora. Eles não se entendem sobre quem vai pagar a conta e o Brasil tem que se preparar ainda mais para enfrentar esse cenário que se agravou ontem quando a Alemanha não conseguiu colocar no mercado 6 bilhões dos seus títulos tao seguros. "É uma recaída da crise de 2008", afirmou o ministro Guido Mantega, na Câmara. Não exagerou, foi apenas realista. Enquanto a Alemanha testava o mercado e recebia um "não" - mal e mal vendeu 3 bilhões - os investidores continuavam ontem se desfazendo de papéis da eurozona. E não eram só da Itália ou Espanha. Também hesitam em comprar da França.
Mas Que saída? É a monetização da dívida, lembra Luis Carlos Mendonça de Barros em artigo no Valor, refletindo o que todos afirmavam ontem no mercado. Se necessário, é emitir euros como os Estados Unidos emitiram dólares e acenam que vão emitir mais para reanimar a economia. E, olhem, o PIB americano cresceu 2%, enquanto o europeu 0,2%! Mas isso é um "crime" inominável para a Alemanha porque pode levar a inflação para mais de 3%... Não, não, não, reafirmava várias vezes Angela quase a beira de uma crise nervosa. Ufa! Não estamos de Weimar, em 1919, quando a hiperinflação passou de 10.000%, dizia esta semana outro analista em Berlim. Bom senso, senhores, pedia ele!
Insensatez lá fora. Se os Estados Unidos emitiram quase US$ 2 trilhões e o Fed admite que vai precisar emitir mais para animar um PIB que definha, por que seria tão trágico emitir euros? Como temer uma "pressão inflacionária" inadmissível quando a economia entra em recessão, o desemprego aumenta, os países não conseguem rolar suas dividas a não ser a taxas perigosas porque ninguém confia neles, como ficou provado na reunião dos G20?
Um bom senso que há no Brasil que aceita conviver com uma inflação próxima de 6% desde que isso evite a recessão. Nesse cenário externo que só não preocupa os pouco responsáveis, o ministro Guido Mantega fez ontem um alerta na Câmara dos Deputados para a recaída na recessão de 2008 para a qual estamos preparados. "Lá o Estado se paralisa; aqui não." Está agindo para conter a desaceleração da atividade econômica, que estagnou no último trimestre e pode levar à tal 'recessão técnica, "que comentamos na última coluna, na qual crescer 0,3% não é recessão. Cai na área do "erro estatístico."
O que o ministro não disse mas admite, é que é preciso fazer mais. Confirmou isso ao vir a São Paulo para reunir-se com empresários e saber o que é preciso para que se produza e venda mais. Não prometeu nada, dizem os que participaram do encontro, mas deixou claro que o novo objetivo do governo é incentivar as vendas, o consumo interno que ainda cresce 6%, mas era 10%. Mais renda, mais consumo, menos impostos, exatamente o oposto do que eles estão fazendo lá. Na Eurozona, Sarkozy e Merkel brigam como duas comadres ranzinzas, nos EUA, o Partido Republicano e o Tea Party (sai pra lá!), recusam medidas que criam mais demanda e empregos. Aqui, o Congresso mostra bom senso ao admitir que na democracia, é preciso ouvir a voz do povo, mesmo porque há eleições municipais por aí...
Ordem na casa - RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 24/11/11
Contrariada com sinais de desentrosamento na equipe econômica, Dilma Rousseff censurou ontem o secretário-executivo da Fazenda, Nelson Barbosa, por ter admitido publicamente que em 2011 os investimentos do PAC não contribuíram para o crescimento. No entender da presidente, Barbosa enterrou o esforço de Miriam Belchior (Planejamento) em vender a imagem de sucesso de uma das principais vitrines do governo.
No Planalto, há quem defenda que os balanços do programa sejam feitos a intervalos maiores, para acumular avanços mais expressivos. A primeira parcial do PAC 2 foi apresentada em julho. A segunda, na terça.
Tem... O Planalto esperava que, tão logo concluída a votação da DRU na Câmara, na terça, o texto fosse lido no plenário do Senado, abrindo assim a tramitação na Casa.
...mas acabou Porém, cinco minutos antes do término da votação, Romero Jucá (PMDB-RR) permitiu o fim da sessão no Senado, desperdiçando mais um dia do já apertado cronograma. O Planalto desconfia de que seu líder, defensor de um acordo com a oposição que vincule as votações da DRU e da emenda 29, tenha feito corpo mole.
Ah, é? Peemedebistas rebatem: a sessão, àquela hora, era presidida por Marta Suplicy (PT-SP), que nada fez.
Em todas A pressão de Aloizio Mercadante para que as emendas da Comissão de Ciência e Tecnologia sejam dirigidas à sua pasta fez Walter Pinheiro (PT-BA) brincar: "Está corretíssimo, mas, se deixar, ele preside a sessão!"
É festa! A AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros) escolheu a cidade de Puerto Iguazu, do lado argentino da Tríplice Fronteira, para realizar seu congresso, que começou ontem e vai até domingo. Os juízes estão nesse cenário, dotado de comércio vibrante e de um grande hotel-cassino, às vésperas da greve nacional da categoria, marcada para o dia 30.
Síndico Pressionado a colocar alguma ordem no bagunçado condomínio tucano, Geraldo Alckmin chamou os quatro pré-candidatos do PSDB à prefeitura paulistana para uma conversa domingo no Palácio dos Bandeirantes. É esperado que o governador se comprometa com alguma data para a realização de prévias, desde que em março.
Canal aberto Em meio à estridência de alguns correligionários contra a possibilidade de acordo com Gilberto Kassab (PSD) para 2012, Alckmin pediu a emissários que transmitissem ontem ao prefeito, em viagem a Paris, que o propósito de entendimento na capital está mantido.
Tucanocídio José Aníbal, secretário estadual de Energia e um dos postulantes tucanos, é pai e mãe da nota distribuída anteontem pela direção do PSDB paulista para reafirmar as prévias e a candidatura própria.
Colateral 1 A liminar que afastou Sérgio Avelleda da presidência do Metrô deixou em pânico outros dirigentes de estatais paulistas. A ordem é aumentar a blindagem jurídica a qualquer procedimento licitatório ou ordenação de despesa.
Colateral 2 Na avaliação de tucanos, os desdobramentos do episódio decorrente das suspeitas de irregularidades na licitação da linha 5 evidenciam escassa interlocução do governo Alckmin com o Judiciário. Durante a gestão Serra, os então secretários Aloysio Nunes (Casa Civil) e Luiz Antonio Marrey (Justiça) mantinham intensa agenda institucional com representantes do Ministério Público e do TJ.
com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI
tiroteio
"Ao colocar um réu do Carandiru à frente da Rota, o governo tucano assume a política de resistência seguida de morte para justificar assassinatos praticados por PMs."
DO DEPUTADO PETISTA ADRIANO DIOGO, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia de SP, sobre a nomeação de Salvador Madia, um dos acusados pelo massacre de 1992, para comandar a tropa de elite da polícia.
Contraponto
O Líbano é aqui
Durante viagem recém-realizada ao Líbano como representante de Dilma Rousseff, que por dificuldades de agenda não teve condições de prestigiar a chegada, àquele país, de uma força marítima brasileira de paz, Michel Temer conversava com o presidente Michel Suleiman, que resolveu brincar com o xará:
-O senhor na verdade é tão representante do Líbano quanto eu. Isso porque, como vice-presidente do Brasil, o senhor governa dez milhões de libaneses ou seus descendentes. Eu, aqui, tenho só quatro milhões!
A Batalha da França - DEMÉTRIO MAGNOLI
O Estado de S.Paulo - 24/11/11
"Não é hora para vender euros", alertou o financista George Soros, um homem que sabe ganhar dinheiro. Ingênuos interpretaram a frase como um voto de confiança na capacidade dos estadistas europeus de evitar a ruína do grandioso edifício da zona do euro. Contudo a interpretação correta é o exato oposto: Soros aposta no encolhimento da zona do euro, única alternativa consistente com a apreciação da moeda europeia. Nesse aparente paradoxo reside a chave para a compreensão do dilema que paralisa a Alemanha.
No congresso da Democracia Cristã em Leipzig, Angela Merkel entrou em confronto com seu partido. A chanceler enfrentou a proposta de formulação de critérios para a exclusão de países da zona do euro enfatizando o interesse alemão na preservação do projeto europeu. Chegou-se a um compromisso, que reafirma a desastrosa linha de conduta deflacionária em curso. A Europa marcha de olhos vendados rumo à recessão, um desfiladeiro do qual emergiria sem a coleção de nações endividadas que se debatem nas garras dos mercados em pânico. Soros olha para o lado de lá do desfiladeiro - e, por isso, não pretende vender euros.
Na Alemanha sedimentou-se o conto infantil segundo o qual a devassidão de gregos, portugueses, irlandeses, espanhóis e italianos ameaça sorver a riqueza produzida pelo árduo trabalho germânico. A força persuasiva dessa narrativa ameaça destruir o projeto europeu e lançar o mundo na perigosa aventura de uma depressão. Sob o seu signo, Berlim rejeita destinar os recursos necessários ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira e impede que o Banco Central Europeu (BCE) avalize os títulos das dívidas nacionais.
A meticulosa, mas involuntária, demolição da Europa progride nas esferas conectadas da economia e da política. Os planos recessivos de austeridade só podem ser impostos aos países endividados por meio da degradação das instituições democráticas. Na Grécia, um governo foi derrubado pela vontade de Berlim e Paris quando ousou mencionar a hipótese de um referendo popular. No lugar de eleições surgiu um Gabinete tecnocrático de salvação nacional que cumpre ordens emanadas da zona do euro. O modelo grego, aplicado à Itália, gerou o primeiro Gabinete não eleito no país desde o fim da Guerra Mundial. O euro ou a democracia - essa parece ser a encruzilhada a que chegaram as nações acossadas pelo deus das finanças.
A democracia pulsa na razão inversa dos juros cobrados pelos títulos da dívida. Se os gregos não têm voz, os italianos perderam o direito de voto e os espanhóis sufragam um governo sem poder, o Parlamento alemão continua a dar sinais de vitalidade. Ironicamente, esse é o motivo por que Angela Merkel se dobra às percepções disseminadas entre os eleitores, prolongando a agonia da Europa. Porém a inércia só perdurará até o momento da queda do triplo A que ainda ostentam os títulos da dívida francesa. No instante em que ocorrer o evento desastroso, mas inevitável, a chanceler será obrigada a falar a verdade a seus concidadãos.
Desde a união monetária alargou-se o diferencial de produtividade entre a Alemanha e os países da periferia da zona do euro. Os níveis de renda e consumo nos países periféricos cresceram à custa da elevação acelerada do endividamento público e privado. Durante uma década a integração assimétrica serviu aos interesses de todos os participantes do sistema. A máquina exportadora da economia alemã, vergada sob o peso da incorporação da RDA na paridade cambial artificial decidida por Helmut Kohl, retomou seu dinamismo graças aos mercados quase cativos da zona do euro. A conta chegou agora, evidenciando o esgotamento de um modelo que ocultou as assimetrias reais sob as máscaras financeiras do crédito e da dívida.
Não há solução estrutural sem a restauração da verdade econômica. Na moldura da união monetária há dois caminhos teóricos para restaurá-la: uma deflação impiedosa nos países endividados, com cortes nominais de salários, ou uma inflação de rendas e preços na Alemanha. O primeiro, escolhido por Berlim, revela-se politicamente inviável e conduz os mercados a um estado de pânico destrutivo. O segundo colide com o veto de Berlim, que decorre tanto de uma ortodoxia nutrida pela traumática memória da hiperinflação dos anos 1920 quanto da resistência dos exportadores alemães.
O terceiro caminho é a ruptura da zona do euro. Nessa hipótese, base da aposta de Soros, restaria um núcleo duro da união monetária, rodeado por países onde voltariam a circular as antigas moedas nacionais. O "euro nuclear" conheceria forte apreciação, enquanto os países periféricos enfrentariam anos de tormenta econômica e social. A demolição completa da União Europeia seria um resultado provável, se não fatal, da ruína da moeda única.
Lucas Papademos e Mario Monti são interventores europeus na Grécia e na Itália. Mariano Rajoy converter-se-á em quase isso quando assumir a chefia do Gabinete espanhol. Nas ruas de Atenas, Roma e Madri os pilares da Europa sofrem golpes poderosos. Mas o destino do edifício europeu será decidido em Paris. O projeto da Europa nasceu, em 1951, como um intercâmbio geopolítico franco-alemão de acomodação à guerra fria. E foi reinventado pelos dois parceiros, em 1991, sob a forma da união monetária, como uma acomodação à reunificação alemã. A Europa não pode prescindir da sintonia estratégica entre Berlim e Paris.
Dias atrás, enquanto o triplo A francês oscilava à beira do abismo, Nicolas Sarkozy ergueu a voz para pedir que o BCE seja transformado em credor de última instância das dívidas nacionais europeias. A resposta negativa de Angela Merkel zuniu como um míssil sobre a capital francesa. Os alemães, hipnotizados por um trauma do passado, esticam a corda até o limiar da ruptura. Eles agirão na hora em que a borrasca financeira engolfar a França. Mas então poderá ser tarde demais.
Desencanto - LUIS FERNANDO VERISSIMO
O Estado de S.Paulo - 24/11/11
Um dos primeiros livros para gente grande que li foi um chamado The Disenchanted, do Bud Schulberg. Li com mais admiração por mim mesmo por estar enfrentando um livro adulto do que pelo próprio livro. Só anos mais tarde descobri que se tratava de um relato romanceado dos últimos dias do Scott Fitzgerald. Bud Schulberg era um escritor de segundo time que ficara conhecido nos anos 40 por um romance curto, What Makes Sammy Run? (Por Que Corre Samuelzinho?). Filho de um produtor de cinema, trabalhou como roteirista e foi nesta condição que acompanhou o também roteirista Fitzgerald numa locação em que Fitzgerald bebeu tanto que acabou sendo demitido, e morreu pouco depois. Foi este episódio que Schulberg contou, com nomes trocados, em The Disenchanted.
Chamado a depor diante da comissão do Congresso que investigava "atividades antiamericanas" em Hollywood depois de ser acusado de comunista, Schulberg se penitenciou dando o nome de vários colegas que entraram na lista negra dos incontratáveis na indústria cinematográfica. Muitos dos dedados se exilaram, outros conseguiram trabalho com pseudônimos ou como escritor fantasma e houve alguns suicídios.
Schulberg escreveu o roteiro de Sindicato de Ladrões, dirigido por Elia Kazan, outro que também tinha entregado colegas, e os dois fizeram o que é considerado uma apologia da delação - além de um dos melhores filmes de todos os tempos.
Marlon Brando denuncia a corrupção num sindicato portuário para o bem da nação e a raiva dos seus ex-companheiros. O paralelo com o comportamento de Schulberg e Kazan na inquisição do Congresso não é claro, o filme não funciona como justificativa. Mas triunfa como cinema. Que importância, afinal, deve ter a política, ou mesmo o caráter, do artista na apreciação da sua arte?
Numa viagem de volta às minhas leituras e entusiasmos de garoto eu acabaria fatalmente desencantado, como no título de The Disenchanted, que era um livro bem menos importante do que eu pensava. Por exemplo: no filme Gunga Din, que vi umas dez vezes, o certo era torcer pelos nativos, não pelos imperialistas ingleses. Mas ninguém ainda tinha me dito!
República - de volta para o futuro - JOSÉ SERRA
O Estado de S.Paulo - 24/11/11
A Proclamação da República, comemorada na semana passada, foi a culminância de um processo de grandes mudanças no Brasil do século 19. Basta lembrar o fim do tráfico de escravos, as primeiras tentativas de utilização da mão de obra livre, a expansão da economia cafeeira, o crescimento da população urbana e as campanhas abolicionistas.
Na esfera política, o republicanismo rompeu o imobilismo institucional do Império. É preciso reconhecer que a formação do Estado monárquico teve um papel dinâmico do ponto de vista da formação do País. Permitiu a manutenção da integridade territorial, estruturou a máquina do Estado e lançou os fundamentos da organização nacional. Não foram tarefas fáceis. Algumas delas levaram até a guerras com os países platinos. O Império, no entanto, mostrou-se pouco virtuoso no que diz respeito ao desenvolvimento econômico: foi anti-industrializante, criou barreiras à formação de um sistema de média e pequena propriedades no campo e foi tímido na modernização da infraestrutura.
As bases do subdesenvolvimento brasileiro nos séculos 20 e 21 encontram-se no século 19, ao qual chegamos com uma economia que se equiparava à dos Estados Unidos. Entre 1800 e 1913, no entanto, o produto interno bruto (PIB) por habitante do Brasil estagnou. A economia americana, cujo PIB era próximo do brasileiro por volta de 1800, aumentou seis vezes no mesmo período. Nossa grande regressão ocorreu durante o Império. A partir do fim do século 19 começamos a crescer mais rapidamente. E desde esse tempo até 1980 a economia brasileira foi a que mais se expandiu no mundo. Mesmo descontando o crescimento populacional, continuamos na linha de frente, só perdendo para o Japão. Bons tempos, ao menos no dinamismo econômico.
Do ponto de vista da economia, a estrutura monárquica não conseguiu dar conta nem mesmo dos desafios oriundos do impulso gerado, em grande parte, pela atividade cafeeira. Foram o republicanismo e uma nova geração política a encarar esses desafios. Desde os anos 1880 - o Manifesto Republicano é de dezembro de 1870 - o movimento foi crescendo, em parte ligado à causa abolicionista. Nas duas Faculdades de Direito existentes então do País - no Recife e em São Paulo - a tese republicana dominava corações e mentes dos estudantes. Na literatura e no jornalismo a batalha era travada sempre tendo como principal referência a Terceira República francesa. A influência chegava até os símbolos republicanos: a figura da Marianne, A Marselhesa, a bandeira tricolor, o barrete frígio. E, grande coincidência, a República foi proclamada justamente no primeiro centenário da Revolução Francesa.
O novo regime, surgido em 1889, reorganizou profundamente a estrutura do Estado. O federalismo, mesmo de cima para baixo, deu outra cara ao País. A Constituição de 1891 foi um avanço. Separou a Igreja do Estado, eliminou o Poder Moderador e criou o Supremo Tribunal Federal, entre outras medidas. Melhorou muito a gestão pública, apesar da forte presença do poder local, dos coronéis - um obstáculo à plena constituição da democracia entre nós. O Brasil foi, apesar dos percalços, o único país da América do Sul com eleições regulares presidenciais a cada quatro anos, entre 1894 e 1930. Se, como é sabido, ocorriam fraudes, a mera existência de um processo eleitoral permitia a discussão dos grandes problemas nacionais. E foi justamente numa delas - a de 1930 - que ocorreu uma ruptura do sistema que levou à formação do moderno Estado brasileiro.
Esses tempos ecoam na História presente do País. Dos 80 anos pós-República Velha, foram quase 30 de autoritarismo. Parte dos problemas que temos hoje é reflexo da pérfida relação sociedade civil-Estado que herdamos. O fortalecimento crescente do aparelho estatal foi mantendo ou empurrando a sociedade civil para fora da arena política. O Estado ocupou sozinho a esfera pública. Quem nele está tudo pode. Quem está fora, contudo, passou a ser tratado, primeiro, como alienígena, depois, como adversário e, dentro dessa lógica perversa, como alguém a ser destruído - como foi o figurino do último decênio.
O regime republicano teve enorme dificuldade de conciliar crescimento econômico e a manutenção das liberdades fundamentais do cidadão. E isso acabou marcando a nossa História desde 1930. Só na segunda metade dos anos 1950 e, mais especificamente, nas últimas duas décadas, é que conseguimos compatibilizar economia e política, com a estabilização advinda do Plano Real, a construção de uma rede de proteção social e a defesa permanente do Estado Democrático de Direito.
Mas o espírito da res publica, que começara a reativar-se nos anos 1990, foi desaparecendo. O sonho dos primeiros republicanos, de um governo do povo e para o povo, acabou sendo substituído, numa curiosa metamorfose, por um governo dos, e para os, setores organizados e simpáticos aos poderosos do momento.
Nos anos recentes, o patrimonialismo refez-se em duas vertentes: na formação de uma burguesia do capital estatal e na ocupação pura e simples da máquina do Estado. Ocupação voltada para o sistemático desvio de recursos públicos para partidos, pessoas e manipulação eleitoral. E, desde logo, de uma ineficiência wagneriana na organização e no funcionamento do serviço público e, pior ainda, na formulação e execução de um projeto de desenvolvimento nacional.
Isso significa que algumas das características essenciais de um regime republicano se foram perdendo ao longo do tempo, em nome de um suposto pragmatismo que mal esconde arranjos para proteger interesses patrimonialistas e corporativistas que se estabelecem ao arrepio da maioria do povo brasileiro. Precisamos recuperar o espírito da República para que o Brasil possa avançar. Precisamos caminhar de volta para o futuro.
Sonho adiado - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 24/11/11
O governo adiou para o próximo ano o projeto de manter o PIB potencial do país em torno de 5%, dando por inviabilizado o objetivo para este ano, quando retornaremos a uma média que tem caracterizado nosso crescimento nos últimos anos, em torno de 3%. Estamos vivendo um ano pós-eleitoral, que, após um crescimento forte, tradicionalmente é marcado por inflação em alta, em consequência do aumento do gasto público, que leva o desemprego a diminuir e o PIB a crescer nesses períodos.
São os chamados Ciclos Políticos de Negócios, objeto de estudos na ciência política, gerados pela utilização de políticas monetárias, fiscais e cambiais com objetivos político-eleitorais de garantir ambiente positivo capaz de influenciar o resultado das urnas.
Foi o que aconteceu em 2010, quando o país voltou a crescer fortemente a 7,5% ao ano, após uma estagnação em 2009, decorrente da crise econômica internacional que estourou nos EUA no fim de 2008.
O então presidente Lula repetiu o receituário econômico tradicional, mas com a desculpa do momento de crise para dar uma roupagem de gastos anticíclicos ao que já estava contratado para turbinar a candidatura da presidente Dilma.
Este ano, como em todos os que se seguem a eleições, seria hora de ajustar as contas públicas e de debelar, por meio da elevação da taxa de juros, a inflação gerada pelo crescimento acima do normal do ano anterior, o que levaria à queda da taxa de crescimento do PIB.
Mas a retomada da crise internacional, que começa a se agravar neste final de ano, está dando à presidente Dilma a chance de repetir a estratégia anticíclica de fortalecimento do mercado interno como paliativo à crise. Uma estratégia arriscada.
Com a inflação em alta, e altos gastos de conta corrente já contratados para o próximo ano - como o aumento de 14% do salário-mínimo já incluído no orçamento -, os efeitos da crise econômica começam a dar sinal de que, mais uma vez, provocarão não "uma marolinha" na economia nacional, mas uma verdadeira tsunami pode estar a caminho.
A estratégia do Banco Central de cortar os juros para fazer frente aos efeitos da crise no mercado interno parece que continuará, mesmo que os indícios sejam de que a inflação já está refluindo em direção à meta em 2012.
O governo mantém o objetivo de ter um PIB potencial em torno de 5% para 2012, uma antiga batalha do ministro da Fazenda, Guido Mantega, quando ainda estava no governo, mas não controlava a equipe econômica como agora.
O Banco Central de Henrique Meirelles e a Fazenda de Antonio Palocci trabalhavam com um PIB potencial em torno de 3,5%, um limite psicológico nunca explicitado, mas, acreditavam, a partir do qual começaria a haver o que tecnicamente é designado como "hiato de produção", falta de capacidade de atender às demandas de consumo e, consequentemente, inflação, com o risco até mesmo de "apagão" de energia.
Os estímulos ao mercado interno equilibrariam os efeitos negativos de uma provável recessão internacional, e o governo aposta que assim poderá manter o crescimento do PIB em torno de 5%.
Os efeitos da crise externa na balança comercial, especialmente devido à redução do preço das commodities e também do apetite comprador da China, que já sente os efeitos da crise, seriam compensados pelo crescimento dos investimentos estrangeiros, enquanto o mercado doméstico teria o estímulo de crédito, podendo até mesmo o governo anunciar novas medidas protecionistas.
Como em 2009, os bancos públicos, em especial o BNDES, terão papel fundamental nesse "capitalismo de Estado" à brasileira, muito ao gosto de Dilma, Mantega e Luciano Coutinho.
A confirmar que historicamente nosso PIB médio está mais próximo de 5% do que de 3,5% está o fato de que essa foi a taxa média de crescimento brasileiro dos últimos 50 anos.
Mas a História recente reduz tal expectativa: de 1990 a 2003 o crescimento médio foi de 1,8%; de 80 a 2003, 2%. Essa média cresceu um pouco com o resultado dos últimos anos, chegando a 4% nos oito anos de Lula.
A ampliação do "PIB potencial" está relacionada com o aumento da taxa de investimento, que, embora crescente, não chega a 20% do PIB, ficando em torno de 18%.
Comparado com a China, que investe cerca de 40% do PIB, estamos ainda em patamares muito baixos para querer crescimento sustentável próximo dos demais emergentes.
Na época do "milagre brasileiro", nos anos 70, em que crescíamos a taxas asiáticas, o investimento no país chegou próximo a 30% do PIB, taxa que hoje é investida pela Índia, que cresce a uma média de 6% ao ano nos últimos 15 anos.
Para crescer de modo sustentado, o mínimo necessário seria investimento público e privado de 25% do PIB.
Ao mesmo tempo, a poupança brasileira está na faixa de 20% do PIB, enquanto na China ela pode chegar a 50%, o que explica a diferença dos investimentos nos dois países.
Nosso sistema de Previdência faz com que o cidadão comum não poupe, certo de que terá garantido um mínimo no futuro, e obriga o governo a manter a alta carga tributária e os gastos correntes crescentes, reduzindo a capacidade do setor privado.
O governo está fazendo uma tentativa de pôr em vigor a reforma previdenciária do serviço público aprovada ainda no primeiro governo Lula e nunca regulamentada por pressão dos sindicatos.
É o próprio PT que cria problemas para a aprovação dos fundos de previdência complementar dos servidores públicos, exigindo contribuição maior por parte do governo.
Se conseguirmos avançar na contenção do nosso modelo previdenciário assistencialista, que custa 12% do PIB, estaremos dando passos que os países europeus estão sendo obrigados a dar em meio à crise.
FUNDAMENTALISMO ATEU - IVES GANDRA DA SILVA MARTINS
FOLHA DE SP - 24/11/11
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Além dos avanços na ciência feitos por sacerdotes, a Igreja ofereceu ao mundo moderno o seu maior instrumento de cultura, ou seja, a universidade
Voltávamos, Francisco Rezek e eu, de uma posse acadêmica em Belo Horizonte quando ele utilizou a expressão "fundamentalismo ateu" para se referir ao ataque orquestrado aos valores das grandes religiões que vivemos na atualidade.
Lembro-me de conversa telefônica que tive com meu saudoso e querido amigo Octavio Frias, quando discutíamos um editorial que estava para ser publicado sobre encíclica do papa João Paulo 2º, do qual discordava quanto a alguns temas.
Argumentei que a encíclica era destinada aos católicos e que quem não o era não deveria se preocupar. Com inteligência, perspicácia e bom senso, Frias manteve o editorial, mas acrescentou a observação de que o papa, embora cuidando de temas universais, dirigia-se fundamentalmente aos de fé cristã.
Quando fui sustentar, pela CNBB, perante o STF, a inconstitucionalidade da destruição de embriões para fins de pesquisa científica -pois são seres humanos, já que a vida começa na concepção-, antes da sustentação fui hostilizado, a pretexto de que a Igreja Católica seria contrária à ciência e que iria falar de religião, não de ciência e direito.
Fui obrigado a começar a sustentação informando que a Academia de Ciências do Vaticano tinha, na ocasião, 29 Prêmios Nobel, enquanto o Brasil até hoje não tem nenhum, razão pela qual só falaria de ciência e direito. Mostrei todo o apoio emprestado pela Academia às experiências com células-tronco adultas, que estavam sendo bem-sucedidas, enquanto havia um fracasso absoluto nas experiências com células-tronco embrionárias.
De lá para cá, o sucesso com as experiências utilizando células tronco adultas continuam cada vez mais espetaculares. Já as pesquisas com células embrionárias permanecem em estágio "embrionário".
Trago essas reminiscências, de velho advogado provinciano, para demonstrar minha permanente surpresa com todos aqueles que, sem acreditar em Deus, sentem necessidade de atacar permanentemente os que acreditam nos valores próprios das grandes religiões, que, como diz Toynbee em seu "Estudo da História", terminaram por conformar as grandes civilizações.
Por outro lado, Thomas E. Woods Jr., em seu livro "Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental", demonstra que, além dos fantásticos avanços na ciência feitos por sacerdotes cientistas, a Igreja ofereceu ao mundo moderno o seu maior instrumento de cultura e educação, ou seja, a universidade.
Aos que direcionam essa guerra ateia contra aqueles que vivenciam a fé cristã e cumprem seu papel, nas mais variadas atividades, buscando a construção de um mundo melhor, creio que a expressão do ex-juiz da Corte de Haia é adequada.
Só não se assemelham aos "fundamentalistas" do Oriente Médio porque não há terroristas entre eles.
Num Estado, o respeito às crenças e aos valores de todos os segmentos da sociedade é a prova de maturidade democrática, como, aliás, o constituinte colocou no artigo 3º, inciso IV, da nossa Constituição Federal, ao proibir qualquer espécie de discriminação.
Além dos avanços na ciência feitos por sacerdotes, a Igreja ofereceu ao mundo moderno o seu maior instrumento de cultura, ou seja, a universidade
Voltávamos, Francisco Rezek e eu, de uma posse acadêmica em Belo Horizonte quando ele utilizou a expressão "fundamentalismo ateu" para se referir ao ataque orquestrado aos valores das grandes religiões que vivemos na atualidade.
Lembro-me de conversa telefônica que tive com meu saudoso e querido amigo Octavio Frias, quando discutíamos um editorial que estava para ser publicado sobre encíclica do papa João Paulo 2º, do qual discordava quanto a alguns temas.
Argumentei que a encíclica era destinada aos católicos e que quem não o era não deveria se preocupar. Com inteligência, perspicácia e bom senso, Frias manteve o editorial, mas acrescentou a observação de que o papa, embora cuidando de temas universais, dirigia-se fundamentalmente aos de fé cristã.
Quando fui sustentar, pela CNBB, perante o STF, a inconstitucionalidade da destruição de embriões para fins de pesquisa científica -pois são seres humanos, já que a vida começa na concepção-, antes da sustentação fui hostilizado, a pretexto de que a Igreja Católica seria contrária à ciência e que iria falar de religião, não de ciência e direito.
Fui obrigado a começar a sustentação informando que a Academia de Ciências do Vaticano tinha, na ocasião, 29 Prêmios Nobel, enquanto o Brasil até hoje não tem nenhum, razão pela qual só falaria de ciência e direito. Mostrei todo o apoio emprestado pela Academia às experiências com células-tronco adultas, que estavam sendo bem-sucedidas, enquanto havia um fracasso absoluto nas experiências com células-tronco embrionárias.
De lá para cá, o sucesso com as experiências utilizando células tronco adultas continuam cada vez mais espetaculares. Já as pesquisas com células embrionárias permanecem em estágio "embrionário".
Trago essas reminiscências, de velho advogado provinciano, para demonstrar minha permanente surpresa com todos aqueles que, sem acreditar em Deus, sentem necessidade de atacar permanentemente os que acreditam nos valores próprios das grandes religiões, que, como diz Toynbee em seu "Estudo da História", terminaram por conformar as grandes civilizações.
Por outro lado, Thomas E. Woods Jr., em seu livro "Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental", demonstra que, além dos fantásticos avanços na ciência feitos por sacerdotes cientistas, a Igreja ofereceu ao mundo moderno o seu maior instrumento de cultura e educação, ou seja, a universidade.
Aos que direcionam essa guerra ateia contra aqueles que vivenciam a fé cristã e cumprem seu papel, nas mais variadas atividades, buscando a construção de um mundo melhor, creio que a expressão do ex-juiz da Corte de Haia é adequada.
Só não se assemelham aos "fundamentalistas" do Oriente Médio porque não há terroristas entre eles.
Num Estado, o respeito às crenças e aos valores de todos os segmentos da sociedade é a prova de maturidade democrática, como, aliás, o constituinte colocou no artigo 3º, inciso IV, da nossa Constituição Federal, ao proibir qualquer espécie de discriminação.
Além da dose - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 24/11/11
Uma pesquisa recente encomendada pelo governo do Estado de São Paulo mostrou que um em cada cinco adolescentes entre 12 e 17 anos bebe regularmente, e quatro em cada dez conseguem comprar álcool sem restrições.
Diante desse quadro, é salutar a nova lei estadual que busca endurecer as regras contra o consumo de álcool por adolescentes.
Em vigor desde o fim de semana passado, a legislação impõe multas de R$ 1.745 a R$ 87.250 a estabelecimentos que vendam bebida alcoólica a menores de idade.
Assim como ocorreu com a bem-sucedida lei antifumo, a expectativa de punição deve reforçar os controles de bares e supermercados e tornar mais difícil o acesso de adolescentes ao álcool.
Idealizada segundo as regras da "tolerância zero", a nova Lei Antiálcool erra, porém, ao transferir para os estabelecimentos comerciais a total responsabilidade pelo consumo de bebida por menores, mesmo em situações que não estão sob seu controle.
O ponto mais contestável é o enquadramento do comerciante ainda que a bebida seja comprada legalmente por um maior e repassada a um menor. Não é razoável imaginar que os bares tenham bedéis para verificar e proibir, por exemplo, um pai de oferecer um copo de cerveja a seu filho. A pena, se coubesse, deveria recair sobre o adulto irresponsável, não sobre o comerciante.
O Sindicato de Bares e Restaurantes também reclama, com razão, da multa a quem vender bebida para jovem com documento de identidade falsificado. A não ser que se trate de uma montagem grosseira, é exigir demais que os vendedores se transformem em peritos a detectar fraudes em carteiras.
O terceiro aspecto sob contestação, a obrigatoriedade de geladeiras separadas para bebidas alcoólicas e outras, também é controverso. Além de gerar custo extra para os comerciantes -que pode ser expressivo em alguns casos-, sua utilidade é duvidosa.
A nova lei acerta ao reforçar restrições e impor multas mais pesadas, mas exagera na dose nos pontos acima mencionados -que deveriam ser revistos.
O Brasil e a longa crise - MÁRCIO G. P. GARCIA
Abro a página na internet de um influente jornal estrangeiro e a principal manchete começa por "Colapso iminente de...". Em tempos normais, seria fácil adivinhar do que se tratava antes de completar a leitura. Mas, nos tempos atuais, há muitas coisas grandes que podem dar muito errado. Imagino que a matéria possa tratar do colapso do euro, da Grécia declarando o default de sua dívida, ampliando assim o contágio sobre os demais países. Ou do colapso de grandes bancos europeus (ou até dos EUA), que podem quebrar sob o peso da dívida dos Piigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha). Mas a matéria era sobre o colapso das negociações do supercomitê bipartidário encarregado de encontrar formas de reduzir o déficit fiscal nos EUA nos próximos anos, o que deve deflagrar novo rebaixamento do grau da dívida americana e contribuir para jogar o país de volta à recessão.
Definitivamente, não vivemos tempos normais. Não só a crise já se alonga bastante, como os cenários "otimistas" envolvem um longo período futuro de baixo crescimento das economias centrais, enquanto os cenários pessimistas contemplam diferentes combinações dos possíveis "colapsos iminentes" anteriormente citados, com consequente recaída em recessão e agravamento das restrições de crédito. Para nós, a questão central é qual a melhor estratégia de resposta à longa crise.
Em que pesem as diferenças entre os períodos, vale o paralelo histórico com nossa reação à 1ª crise do petróleo (1973). Como se sabe, o governo Geisel (74-79) oscilou inicialmente entre o combate à inflação e a promoção do aumento da demanda agregada, acabando por optar pela segunda via. A propaganda oficial vendia o Brasil como uma ilha de tranquilidade em meio a um mar revolto. O embate entre os ministros da Fazenda e do Planejamento foi vencido por este último, que implantou, tacitamente, uma estratégia que envolvia mais inflação e maior endividamento externo. Segundo o próprio Ministro da Seplan, o governo "... deliberadamente evitou fazer sintonia com a recessão mundial... para sair da crise de petróleo pelo aumento das exportações e [pela busca à] autossuficiência em insumos básicos" (A Ordem do Progresso, Ed. Campus, página 307).
A estratégia de evitar a sintonia com a recessão mundial, baseada em planos governamentais mirabolantes e muito financiamento público, no médio prazo acabou dando com os burros n"água, abrindo caminho para um longo período no qual a economia brasileira permaneceu mergulhada em seus próprios problemas "estagmegainflacionários", enquanto o mundo crescia.
Ainda que o Brasil de hoje esteja em muito melhor posição do que na década de 70, convém não desdenhar do paralelo histórico. Afinal, é natural o desejo de não pagarmos por uma crise essencialmente gerada pelas economias mais ricas do planeta. Não obstante, o mero voluntarismo não é bom conselheiro para implementar estratégia bem sucedida de minimização dos danos associados à longa crise.
Quando da quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008, ocorreu rápida e muito intensa contração do crédito internacional, que deu lugar à grande depreciação do real. As reações de política econômica envolveram moderada dose de relaxamento monetário, aliada à farta expansão fiscal e parafiscal, via expansão de crédito dos bancos públicos. O resultado foi que a redução de juros teve que ser interrompida quando a taxa Selic ainda era bastante elevada, e a expansão fiscal e creditícia, cujo timing teve muito mais a ver com a eleição do que com o combate à recessão, contribuiu significativamente para a alta da inflação, que persiste até hoje.
No estágio atual da longa crise, o sistema internacional de crédito não sofreu contração abrupta, ainda que o crédito internacional venha diminuindo paulatinamente. Mesmo sem contração repentina similar à ocorrida em 2008, nossos indicadores econômicos, inclusive as perspectivas dos agentes econômicos para o futuro da economia brasileira, mostram-se estreitamente correlacionados aos desenvolvimentos externos. Embora não se entenda perfeitamente os canais por meio dos quais a transmissão da crise vem operando, o fato é que não parece ser fácil interromper tal contágio.
O discurso oficial é, hoje, bastante distinto daquele do segundo governo Lula, não obstante o ministro da Fazenda ser o mesmo. Reconhece-se, aparentemente, a importância fundamental da contenção fiscal e parafiscal para que o Banco Central possa empreender maior relaxamento monetário sem deixar a inflação sair de controle. Os resultados fiscais de 2011, até agora, tem sido bastante bons, ainda que baseados em aumentos de receitas, que não devem se repetir, e contenção dos investimentos públicos, que se pretende aumentar bastante.
Os próximos meses serão decisivos para que o governo mostre se a mudança de discurso vai se materializar em ações. Tanto no cenário "otimista" de crise prolongada nas economias centrais, quanto no cenário pessimista de aprofundamento da recessão mundial com "credit crunch", é fundamental que não se reverta ao caminho aparentemente fácil de ainda maiores gastos fiscais e crédito ainda mais farto de bancos públicos.
Se fizermos isso, na esperança de estimular o crescimento econômico, poderemos perder grande parte do que conquistamos a duras penas para consertar erros anteriores similares. Como dizia Bertrand Russel, nunca se deve cometer duas vezes o mesmo erro, uma vez que há tantos erros novos para serem cometidos.
Márcio G. P. Garcia é PhD por Stanford e professor do departamento de economia da PUC-Rio
ProJovem para quem? - PAULO MATHIAS
"A população jovem nunca foi tão grande na América Latina e no Brasil, fenômeno considerado um "bônus demográfico" fundamental para a construção de projetos de desenvolvimento e para nossa estratégia de modelo econômico alternativo."
A frase acima, extraída de um documento do PT, ilustra de forma bastante clara a forma como o governo e o Partido dos Trabalhadores encaram as necessidades e a importância da juventude. Se para o partido os jovens fazem parte fundamental da estratégia para perpetuação de poder, na prática não parecem estar tão certos da importância que têm para o país.
Mostra disso é o desacerto na principal política do governo para a juventude, o Programa ProJovem. Criado em 2005 pelo Governo Federal, o programa tem como proposta resgatar jovens entre 15 e 29 anos que deixaram os estudos e levá-los de volta aos bancos escolares por meio de incentivo financeiro. Ajudar os jovens a concluir o ensino fundamental e profissionalizante é obrigação.
O programa, que já consumiu mais de R$3 bilhões desde então, passou por reformulações e foi divido em diferentes frentes: ProJovem Campo, Trabalhador, Adolescente e Urbano. O último e mais importante é comandado pela Secretaria Geral da Presidência e custou aos cofres públicos R$1,6 bilhão em seis anos.
Todos estes investimentos seriam uma grande conquista para o país se tivessem sido bem aplicados. Em seis anos, o programa acumula uma série de fracassos e enorme descontrole financeiro. No seu braço urbano, o ProJovem diplomou apenas 209 mil estudantes, ou seja, menos de 38% dos mais de 500 mil participantes.
A situação é ainda mais grave no ProJovem Campo, onde apenas 795 dos cerca de 59 mil alunos inscritos foram diplomados. Segundo o MEC, 16% dos alunos desistiram enquanto outros 40% ainda aguardam a formação de turmas. O curioso é que já foram consumidos R$138,5 milhões, quantia suficiente para ter diplomado todos os 59 mil inscritos, mas quase a metade deles ainda nem começou o curso!.
Não apenas a ineficiência do programa é patente do ponto de vista de seu objetivo maior (manter os jovens na escola e na formação técnica), quanto o descontrole financeiro e o de gestão são grosseiramente apontados e demonstram, com clareza, a falta de preparo do governo petista em lidar com a questão. Neste ano, depois de o Tribunal de Contas da União advertir o governo sobre irregularidades no programa, ele foi congelado.
Pouco se sabe do destino de milhões de reais repassados a estados e municípios uma vez que, das 246 prestações de contas apresentadas entre 2008 e 2009, mais de 200 nem chegaram a ser analisadas pelo Governo, segundo levantamento feito pelo GLOBO no Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).
Auditorias realizadas no programa apontam, entre outras coisas, o desrespeito a uma das premissas básicas para o recebimento do benefício: o controle de presença dos alunos. Em São Gonçalo (RJ), por exemplo, diversas folhas de frequência repetiam 100% de comparecimento. Em Olinda (PE), os dados do sistema eram alterados.
É preciso criar políticas sérias e comprometidas com a formação de jovens. É preciso que iniciativas como o ProJovem venham acompanhadas de instrumentos eficientes de controle de qualidade e frequência para que não se tornem apenas mais um jogo de números e propaganda que somente joga pelo ralo milhões de reais. Ou, como diz o documento da Juventude petista, uma questão de estratégia para manter a "hegemonia social".
PAULO MATHIAS é vice-presidente do Centro Acadêmico XXII de Agosto da PUC de São Paulo e presidente da Juventude do PSDB de São Paulo
Serra e o PT - JANIO DE FREITAS
Recusar prévias é negar aos que terão representantes o direito de escolhê-los de acordo com critérios seus
A recusa a prévias nos seus partidos, para escolha de candidatos a prefeitos nas eleições do ano que vem, tira do desprezo mútuo para a fraternidade de ideias o declarado social-democrata José Serra e o presidente do PT, Rui Falcão.
É bastante óbvio que a recusa de Serra a prévias no PSDB não pode convencer com a alegada "falta de candidato viável" no partido.
A alegação começa por não ficar bem para o próprio Serra. Prefeito da capital e em seguida governador de São Paulo até o ano passado, foi muito tempo de poder político e comando local do partido para que Serra, em vez de fortalecer o PSDB, deixasse-o desprovido até de um único correligionário em condições "viáveis" de disputar a prefeitura da capital. É o que está dito pelo próprio Serra.
Não só, porém. Sua proposta é a de que o PSDB, dispensada a prévia, atrele-se ao PSD de Kassab e à candidatura de Guilherme Afif Domingues. Aí, sim, está a origem da recusa à prévia no PSDB.
A opinião de Serra sobre seus companheiros de partido não é suficiente para retirar de vários deles a intenção de candidatar-se, e a muitos mais a disposição de apoiar um pretendente. Nestas condições, a improbabilidade de que a prévia do PSDB adotasse Afif é maior que a criatividade de Serra. Logo, se a prévia se opõe a Serra-Kassab-Afif, Serra se opõe à prévia.
Quem queira ir adiante nesta senda tem à disposição fatos e hipóteses bastantes para possível ligação entre a atitude de Serra e a eleição presidencial de 2014. Para a qual o PSDB de hoje olha com os olhos de Aécio Neves e Serra poderá ver, amanhã, com um olhar de PSD. Quando se diz "o PSD de Kassab", talvez se devesse dizer, e alguns querem mesmo dizer, "o PSD de Serra-Kassab".
Por seu lado, Rui Falcão tinha jantar marcado ontem com a prefeita de Fortaleza, Luiziane Lins, levado por objetivo bem definido: tentar demovê-la das prévias para indicar a candidatura petista à sua sucessão na prefeitura. O argumento da cúpula petista não brilha mais que o de Serra. É que, havendo mais de um pretendente, "a disputa em prévia divide o partido".
Nos dois casos simbólicos, é o espírito do autoritarismo fugindo do seu casulo. Prévias partidárias são eleições diretas, não mais do que isso. Recusá-las é negar aos que terão representantes, dirigentes ou governantes o direito de escolhê-los em conformidade com critérios seus.
E em lugar desse direito impingir, por qualquer tipo de força, o domínio autoritário de alguém ou de um grupo. É um golpe branco aplicado por pequena minoria contra a maioria.
Em suas origens, o PSDB e o PT propunham-se a ser democracias partidárias. Os peessedebistas chegaram a adotar o rodízio dos presidentes em prazos curtos, três meses no início.
O PT definiria decisões sempre em assembleias e por maioria. Não tardou a que, das origens, só restassem palavras. Algumas.
As convicções democráticas são mais falsificáveis do que os interesses e os oportunismos, ambos nos seus sentidos mais deploráveis.
Sempre pode piorar - ELIANE CANTANHÊDE
BRASÍLIA - Apesar do esforço hercúleo de PMDB, PR, PSB, PC do B e PDT para se agarrar aos "seus" ministérios, o Brasil está dividido, de fato, é entre PT e PSDB.
Em Brasília, porém, o PSDB praticamente evaporou, o DEM explodiu junto com o ex-governador José Roberto Arruda e as demais siglas são meros satélites. A política gira em torno do grupo de Joaquim Roriz e do PT do atual governador, Agnelo Queiroz. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
A pilha de acusações contra Roriz não deve nada à do recordista Paulo Maluf. Arruda foi filmado recebendo uma bolada de dinheiro vivo, encerrou a carreira preso e humilhado. Agnelo está enrolado com contratos estranhos de suas passagens pela Anvisa e pelo Ministério do Esporte.
São pessoas, graus e circunstâncias diferentes, mas a percepção da população é a mesma: não se salva um, meu irmão. Ou seja, há cansaço, desânimo. E não há perspectiva.
Com Agnelo no alvo, tendo de dar explicações que possivelmente não tenha, Brasília parece estar sendo governada por piloto automático, com o vácuo de poder se multiplicando pelas várias instâncias. O chefe ausente, o primeiro escalão constrangido, funcionários dando de ombros. E tome greve!
Entre categorias que fizeram, fazem e ameaçam fazer greve, de certa forma surfando na crise, estão eletricitários, enfermeiros, policiais civis, a CEB (companhia de energia) e o Caje (centro de jovens infratores).
Há um contexto de greves em todo o país, mas há uma especificidade no DF: com o governador petista enfraquecido, as hordas "rorizistas" enraizadas em todo o setor público estão se rearticulando.
Ainda faltam três anos de mandato para Agnelo e não há perspectivas, novas lideranças expressivas e rearticulação partidária real para a eleição de 2014. Parece inacreditável, mas o que está ruim sempre pode piorar. O "rorizismo" arma o bote.
CLAUDIO HUMBERTO
“O PSDB não tem candidato viável para disputar a prefeitura”
José Serra, ao defender o apoio tucano a Guilherme Afif (PSD) para prefeito paulistano.
LUPI USA AÉCIO PARA EVITAR QUE DILMA O DEMITA
Carlos Lupi mentiu até para a presidente Dilma Rousseff, mas ela o mantém no cargo para evitar que o atual ministro do Trabalho conduza o PDT a apoiar a candidatura do senador Aécio Neves (PSDB-MG) a presidente, em 2014. Por esse motivo, ela resolveu fazer um exercício de paciência enquanto costura com o PDT a substituição de Lupi “sem traumas”. Na pré-campanha de 2010, Lupi chegou a dizer ao então presidente Lula que não poderia apoiar Dilma, caso Aécio disputasse a presidência.
TORNOZELEIRA NELE
Dilma ordenou “severa vigilância” dos passos de Lupi e transferiu suas atribuições ao secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho.
AMEAÇA EXPLÍCITA
O fanfarrão Carlos Lupi já havia feito provocação com holofotes ao PT, em 2010, ao visitar e elogiar o então governador Aécio Neves.
ALIADOS, POR ORA
O PDT tem cinco senadores e 28 deputados, parte controlada por Carlos Lupi, e poderia prejudicar as votações de interesse do Planalto.
NA CONTA
A capilaridade do PDT, Brasil afora, não é lá essas coisas, mas tem sua força: são 351 prefeitos e 3.524 vereadores.
RIO-SÃO PAULO É O VOO MAIS CARO DO MUNDO
Um estudo do Capa Centre for Aviation com a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) revela que a tarifa no voo entre os aeroportos de Santos Dumont (Rio de Janeiro) e Congonhas (São Paulo) é a mais cara entre as dez rotas domésticas mais requisitadas no planeta. Entre as 50 rotas com “pico” de manhã cedo e volta às 18h, viajar Rio-São Paulo pode custar até 400 euros, quase R$ 1 mil.
VAPT-VUPT
O estudo aponta ainda que é mais barato voar Dubai-Doha, no Oriente Médio, Tóquio-Saporo, na Ásia, e Los Angeles-San Francisco (Estados Unidos).
DONAS DO AR
O preço elevado, diz o estudo, deve-se ao duopólio TAM-Gol, com 90% das vagas no saturado aeroporto de Congonhas (SP). E teremos Copa do Mundo.
QUEM SE TRUMBICA...
O “irrevogável” ministro Alozio Mercadante (Ciência e Tecnologia) contratou uma empresa de comunicação para reforçar a equipe.
REAÇÃO INDIGNADA
Presidente da OAB-DF, Francisco Caputo reagiu indignado à exclusão, pelo Conselho Nacional de Justiça, de nomes e até iniciais de juízes investigados. Para ele, isso compromete a reputação da maioria digna, insulta o direito à informação e estimula a leniência à corrupção.
DESPERDÍCIO
O Senado gastou uma fortuna imprimindo um livro de 440 páginas com a biografia dos senadores, já disponível no site de Casa. Cada gabinete, além da área administrativa inteira da Casa, recebeu três exemplares.
INEFICIÊNCIA
Deputados eleitos senadores sentem falta do serviço de informática da Câmara. O Prodasen, do Senado, foi transformado em um paquiderme que não se mexe para não chamar a atenção para a própria inutilidade.
CARA NOVA
O Tribunal de Justiça do Rio tem, desde segunda (21) nova desembargadora pelo quinto constitucional, um cargo vitalício: a advogada Flávia Rezende, 42, cunhada de Bernardinho, técnico da seleção de vôlei.
TRATOR ALEMÃO
A chanceler alemã Angela Merkel, que segura o euro, também quer segurar o planeta: deu pito no Brasil, China e Índia pelo excesso de emissões. É só pretexto para boicotar outra vez o protocolo de Kyoto.
IDENTIFICAÇÃO
Ex-dirigente da OAB-PI, o advogado Cajubá Neto assistiu emocionando à palestra da ministra Eliana Calmon, na 21ª Conferência Nacional dos Advogados, em Curitiba. Como ela, Cajubá enfrentou problemas em 2006, ao afirmar que o Judiciário estava “carcomido pela corrupção”.
DOR DE CABEÇA
A rede de TV ARD faz documentário sobre os problemas ambientais da Cia Siderúrgica do Atlântico (Thyssenkrupp), que diz ter solucionado o lançamento de chuva tóxica na Costa Verde do Rio. A licença não foi do Ibama, mas do próprio governador Sérgio Cabral.
TRABALHÃO
Trabalho não falta para o ministro Lupi. A agenda ontem (23) registrava palestra dele às 9h30 sobre o FGTS, encontro com senador do PR-TO e sindicalistas às 18h. Ufa!
PENSANDO BEM...
...como tentou dizer o ministro Gilberto Carvalho, Lupi não é ministro, está ministro.
PODER SEM PUDOR
SANTA INSPIRAÇÃO
Deus não ajudou o governador catarinense Luiz Henrique (PMDB), certa vez, em 2004. Ao lado do autor da iniciativa, o ex-ministro borbulhante Rafael Grecca, Luiz Henrique exibia orgulhoso às freiras de Nova Trento o projeto de construção do santuário de Madre Paulina. Uma das freiras achou-o “carnavalesco” e outra sacramentou:
– É incompatível com os ensinamentos da fundadora da Ordem do Sagrado Coração de Jesus...
Construíram um mais simples, sem dinheiro dos contribuintes.
José Serra, ao defender o apoio tucano a Guilherme Afif (PSD) para prefeito paulistano.
LUPI USA AÉCIO PARA EVITAR QUE DILMA O DEMITA
Carlos Lupi mentiu até para a presidente Dilma Rousseff, mas ela o mantém no cargo para evitar que o atual ministro do Trabalho conduza o PDT a apoiar a candidatura do senador Aécio Neves (PSDB-MG) a presidente, em 2014. Por esse motivo, ela resolveu fazer um exercício de paciência enquanto costura com o PDT a substituição de Lupi “sem traumas”. Na pré-campanha de 2010, Lupi chegou a dizer ao então presidente Lula que não poderia apoiar Dilma, caso Aécio disputasse a presidência.
TORNOZELEIRA NELE
Dilma ordenou “severa vigilância” dos passos de Lupi e transferiu suas atribuições ao secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho.
AMEAÇA EXPLÍCITA
O fanfarrão Carlos Lupi já havia feito provocação com holofotes ao PT, em 2010, ao visitar e elogiar o então governador Aécio Neves.
ALIADOS, POR ORA
O PDT tem cinco senadores e 28 deputados, parte controlada por Carlos Lupi, e poderia prejudicar as votações de interesse do Planalto.
NA CONTA
A capilaridade do PDT, Brasil afora, não é lá essas coisas, mas tem sua força: são 351 prefeitos e 3.524 vereadores.
RIO-SÃO PAULO É O VOO MAIS CARO DO MUNDO
Um estudo do Capa Centre for Aviation com a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) revela que a tarifa no voo entre os aeroportos de Santos Dumont (Rio de Janeiro) e Congonhas (São Paulo) é a mais cara entre as dez rotas domésticas mais requisitadas no planeta. Entre as 50 rotas com “pico” de manhã cedo e volta às 18h, viajar Rio-São Paulo pode custar até 400 euros, quase R$ 1 mil.
VAPT-VUPT
O estudo aponta ainda que é mais barato voar Dubai-Doha, no Oriente Médio, Tóquio-Saporo, na Ásia, e Los Angeles-San Francisco (Estados Unidos).
DONAS DO AR
O preço elevado, diz o estudo, deve-se ao duopólio TAM-Gol, com 90% das vagas no saturado aeroporto de Congonhas (SP). E teremos Copa do Mundo.
QUEM SE TRUMBICA...
O “irrevogável” ministro Alozio Mercadante (Ciência e Tecnologia) contratou uma empresa de comunicação para reforçar a equipe.
REAÇÃO INDIGNADA
Presidente da OAB-DF, Francisco Caputo reagiu indignado à exclusão, pelo Conselho Nacional de Justiça, de nomes e até iniciais de juízes investigados. Para ele, isso compromete a reputação da maioria digna, insulta o direito à informação e estimula a leniência à corrupção.
DESPERDÍCIO
O Senado gastou uma fortuna imprimindo um livro de 440 páginas com a biografia dos senadores, já disponível no site de Casa. Cada gabinete, além da área administrativa inteira da Casa, recebeu três exemplares.
INEFICIÊNCIA
Deputados eleitos senadores sentem falta do serviço de informática da Câmara. O Prodasen, do Senado, foi transformado em um paquiderme que não se mexe para não chamar a atenção para a própria inutilidade.
CARA NOVA
O Tribunal de Justiça do Rio tem, desde segunda (21) nova desembargadora pelo quinto constitucional, um cargo vitalício: a advogada Flávia Rezende, 42, cunhada de Bernardinho, técnico da seleção de vôlei.
TRATOR ALEMÃO
A chanceler alemã Angela Merkel, que segura o euro, também quer segurar o planeta: deu pito no Brasil, China e Índia pelo excesso de emissões. É só pretexto para boicotar outra vez o protocolo de Kyoto.
IDENTIFICAÇÃO
Ex-dirigente da OAB-PI, o advogado Cajubá Neto assistiu emocionando à palestra da ministra Eliana Calmon, na 21ª Conferência Nacional dos Advogados, em Curitiba. Como ela, Cajubá enfrentou problemas em 2006, ao afirmar que o Judiciário estava “carcomido pela corrupção”.
DOR DE CABEÇA
A rede de TV ARD faz documentário sobre os problemas ambientais da Cia Siderúrgica do Atlântico (Thyssenkrupp), que diz ter solucionado o lançamento de chuva tóxica na Costa Verde do Rio. A licença não foi do Ibama, mas do próprio governador Sérgio Cabral.
TRABALHÃO
Trabalho não falta para o ministro Lupi. A agenda ontem (23) registrava palestra dele às 9h30 sobre o FGTS, encontro com senador do PR-TO e sindicalistas às 18h. Ufa!
PENSANDO BEM...
...como tentou dizer o ministro Gilberto Carvalho, Lupi não é ministro, está ministro.
PODER SEM PUDOR
SANTA INSPIRAÇÃO
Deus não ajudou o governador catarinense Luiz Henrique (PMDB), certa vez, em 2004. Ao lado do autor da iniciativa, o ex-ministro borbulhante Rafael Grecca, Luiz Henrique exibia orgulhoso às freiras de Nova Trento o projeto de construção do santuário de Madre Paulina. Uma das freiras achou-o “carnavalesco” e outra sacramentou:
– É incompatível com os ensinamentos da fundadora da Ordem do Sagrado Coração de Jesus...
Construíram um mais simples, sem dinheiro dos contribuintes.
QUINTA NOS JORNAIS
- Globo: Depois do óleo derramado - Chevron está proibida de furar poço no país
- Folha: Lei antifumo valerá em todo o país
- Estadão: Fraude no Ministério das Cidades encarece obra da Copa
- Correio: Brasiliense tem um PIB de dar inveja...
- Valor: FGC assume novo papel e passa a prevenir crises
- Estado de Minas: Cobrança de propina - Justiça afasta e quebra sigilo de vereadores
- Jornal do Commercio: Conta d’água sobe 6,97%
- Zero Hora: Aliança com governos petistas racha o MST
quarta-feira, novembro 23, 2011
Cronistas são os outros! - TUTTY VASQUES
O ESTADÃO - 23/11/11
Chamado a palpitar como "cronista" em três debates nos últimos 20 dias, tenho exposto nessas ocasiões o mais profundo constrangimento por me incluir em uma categoria que, quando comecei a escrever, reunia gênios como Rubem Braga, Otto Lara Resende, Antônio Maria, Sérgio Porto, Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos e, para não ficar só nos mortos, Ivan Lessa, Verissimo e Millôr.
Caras iluminados, cujo talento incomum conquistou o direito de ser o que Drummond definia como "o mais livre dos redatores de um jornal". Só o cronista podia escrever com humor, espírito crítico ou pura poesia o que lhe desse na telha e coubesse em seu espaço de alto de página. A arte de olhar o mundo pelo próprio umbigo não era pra qualquer um no tempo em que não havia internet.
Hoje em dia, como se sabe, somos milhares escrevendo pelos cotovelos sem nenhuma cerimônia com o leitor - ô, raça! -, sempre disposto a interagir com o autor que dê voz à sua indignação crônica contra tudo-isso-que-aí-está.
Sou, nesse espectro da conversa fiada, apenas um gaiato desenturmado em qualquer debate que se proponha. Mil desculpas a quem foi me ver ontem no CCBB de São Paulo esperando coisa melhor.
Todos iguais Tem uma coisa estranha nessas fotografias de chineses nus postadas na internet em solidariedade ao artista dissidente Ai Weiwei: tente identificar quem é homem na foto abaixo!
Deixa solto! Tem torcedor do Corinthians preocupado com a dieta severa do Adriano: "Se ele emagrecer mais, estraga!"
Campeão de audiência Já tem candidato a galã da Globo saindo no tapa atrás de convite para a festa de 60 anos de Walcyr Carrasco na cobertura do autor de novelas. Vai acontecer em dezembro se a vizinhança de Higienópolis não encrencar antes com a gente diferenciada que promete aparecer de surpresa.
Melhor falando Quem já ouviu Il Vero Amores, CD de Silvio Berlusconi que chega nesta semana às lojas de disco, garante: a Itália ainda vai sentir saudades dos pronunciamentos do ex-premiê!
Só o que faltava! Tomara que não vire moda no verão a anunciada tendência de "depilação artística na virilha" das moças com desenhos de estrelas, corações, letras, luas, coelhinhos, maçãs...
É da 3ª via? Que diabos o presidente do PMDB, senador Valdir Raupp, quis dizer com "Gabriel Chalita será o candidato da terceira via"? Por muito menos, o Kassab ficou chateado com a Marta nas últimas eleições em SP.
Querido, cheguei! Quando, afinal, Ideli Salvatti vai quebrar o silêncio que a presidente Dilma lhe impôs? O marido da ministra não aguenta mais o tanto que ela fala quando chega em casa!
‘Bye, bye, Brazil’ - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 23/11/11
A americana Kinder Morgan, que engoliu a gigante El Paso por US$ 21 bi, em outubro, procura interessados nos campos de petróleo que, com a compra, passou a ter aqui. Quer vendê-los.
Pode ser o fim das atividades da El Paso no Brasil.
Mulheres no poder
A carioca Magda Chambriard, engenheira civil com pós em engenharia química pela UFRJ, deve ser nomeada diretora-geral da ANP até o fim do ano. O mandato de Haroldo Lima, do PCdoB, acaba dia 11. Magda já é da diretoria da agência.
Ministro Saci
Aldo Rebelo, nacionalista radical, proibiu estrangeirismos no Ministério do Esporte. Autor na Câmara do Dia do Saci, por ser contra o Dia das Bruxas, mandou abolir “internet”, “site” e “release”. No lugar, serão usadas “rede mundial de computadores”, “portal ou sítio” e “informações para imprensa”.
Calma, gente
Uma estudante italiana não pôde renovar seu visto de permanência em Belo Horizonte. O agente da Polícia Federal explicou que era represália, porque brasileiros estariam tendo dificuldades na Itália ainda por causa do caso Cesare Battisti.
Mãe é mãe
De dona Mercedes Jimenes, 85 anos, ao encontrar outro dia Miguel Falabella, autor de “Aquele beijo”, a novela da TV Globo na qual sua filha Cláudia Jimenes faz a mãe de santo Iara:
— Você precisa escrever mais para minha filha! Ela está aparecendo muito pouco na novela!
Não me deixe
Paulo Coelho dará uma festa hoje, em Madri, pelos 60 anos de sua mulher, a artista plástica Christina Oiticica. O mago vai cantar “Ne me quittes pas” (“Não me deixe”), de Jacques Brel. A canção, diz, marcou dias tumultuados do casal. Não é fofo?
‘Lampião era gay’
Será lançado amanhã o livro “Lampião, o mata sete”, do juiz e pesquisador sergipano Pedro de Morais. Polêmico, diz que Lampião era gay, e Maria Bonita só entrou no bando para afastar sua “má fama”. Há controvérsias.
Retratos da vida
Marcos Paulo, o diretor da TV Globo que se recupera do câncer, vai cair no samba em 2012. Sairá na bateria da Mocidade, da qual sua mulher, Antônia Fontenelle, é rainha. Tocará tamborim ou reco-reco.
Não quer festa
Dilma, preocupada com a saúde de Lula, sinalizou a amigos que, este ano, vai preferir comemorar seu aniversário, dia 14 de dezembro, de modo discreto. Não quer, de jeito nenhum, um repeteco daquele grande bolo do PT do ano passado.
MMA, sou contra
O MMA Jungle Fight marcado para sábado na Mangueira corre risco de não acontecer. É que os organizadores do evento, planejado antes da pacificação, não pediram o “nada a opor” à polícia. A delegada Monique Vidal afirma que, sem a autorização, ninguém sobe no tatame. Está certa.
Verão sem Noite
O projeto Noites Cariocas não será realizado em 2012.
Serra Sons
O MP do Rio pediu à Justiça o bloqueio de bens da empresa Cartão Postal Editora e Publicidade e de seus sócios-administradores, responsáveis pelo festival Serra Sons, em Lumiar, RJ. É que o festival, não realizado, lesou umas 5 mil pessoas. A ação, da promotoria de Nova Friburgo, estimou uma indenização de R$ 300 por pessoa.
Bola Preta
O carnaval de 2012 do Cordão da Bola Preta está nas mãos da 15a- Câmara Cível do Rio. Os desembargadores julgarão recurso contra decisão que, por pendências judiciais, proibiu o Bola de receber verba públicas.
Miaaaauuuu
O gato flagrado por uma senhorinha na sala de exibição do Estação Sesc Botafogo, sábado, motivo de nota aqui ontem, é... velho morador do cinema, acredite. Aliás, moradora. É fêmea. A bichana é uma mascote. Segundo a administração, o cinema tem um gato desde 1985: “Pedimos desculpas, a gata tem o canto dela, não pode circular pelas salas. Por isso, já está de castigo!” Tadinha, gente.
ESTA CORUJA
simpática, que surgiu no quintal da leitora Sílvia Meszaros, no Jardim Botânico, desafia a canção de São Vinicius de Moraes (1913- 1980), lembra? — aquela que dizia “Uorujinha, coitadinha/Que feinha que é você.” A formosa, repare, parece de pelúcia. É um filhote de murucututu-debarriga-amarela (Pulsatrix koeniswaldiana). Segundo o veterinário André Sena Maia, a penosa faz ninho em troncos ocos, como este aí, e se reproduz entre a primavera e o verão. Que Deus a proteja, e a nós não desampare
Férias frustradas - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 23/11/11
Em janeiro, sem pressão dos congressistas, será a hora de a presidente mostrar quem manda. Se for Dilma a comandante, ela deve aproveitar para trocar as peças que apresentaram defeito ao longo deste ano. Se deixar quase tudo como está, o sinal de que se rendeu ao rame-rame da política estará dado.
Quem esperava sair de férias em janeiro, pode começar a mudar de ideia. Pelo menos para os que trabalham na Esplanada dos Ministérios. A intenção da presidente Dilma Rousseff é aproveitar o período para fazer mudanças na equipe. E isso não tem nada a ver com a pressão do PT para que ela libere logo o ministro da Educação, Fernando Haddad. Tampouco tem relação direta com o fato de ser, tradicionalmente, o mês em que muita gente aproveita para reorganizar a casa.
Os motivos de Dilma para mudar o ministério apenas em janeiro são outros. Têm relação direta com o fato da calmaria de Brasília nesse período, leia-se o recesso do Legislativo e do Judiciário. Sem o barulho do Congresso, fica mais fácil mexer no ministério. Dilma poderá escolher sem ter, na porta do gabinete presidencial, a pressão dos partidos aliados e do próprio PT, que, vez por outra, espeta a presidente da República.
Aquela história de criar um Ministério de Direitos Humanos, que iria reunir as secretarias de Políticas para as Mulheres e de Igualdade Racial está praticamente descartada. Afinal, onde Dilma iria colocar as correntes petistas?
Embora as mudanças na equipe sejam mais pontuais do que as esperadas, na mesma época, Dilma pretende fazer as mudanças nas agências reguladoras. São seis cargos vagos, além da direção-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), de onde Haroldo Lima sai em dezembro deste ano. Tem cadeira nas agências da Saúde, na de Transportes Terrestres e até na Ancine.
Se Dilma cumprir o que tem dito a alguns amigos, é melhor a turma da Esplanada se preparar, porque janeiro será de muito trabalho. Diz-se nos gabinetes de Brasília que, quando há mudança de chefia, no caso, de ministros, ninguém sai de férias, aquela turma que só chega atrasada no trabalho começa a aparecer na hora certa, ficar até mais tarde e por aí vai. Neste janeiro, será uma boa hora para verificar se é assim mesmo.
Os deputados é que detestam ter que passar por Brasília nessa época do ano. Afinal, é quando muitos aproveitam para desovar as milhas acumuladas nos programas das companhias aéreas e levar a família para um bom período à beira-mar, nas estações de esqui da Europa ou mesmo na Disney, sem as filas de julho. Eles não costumam sucumbir aos chamados, a não ser quando há eleição para presidente da Câmara e do Senado, o que não é o caso deste ano.
Portanto, reza a tradição, não tem mesmo época melhor para Dilma empreender uma reforma ministerial. Vai testar funcionários e parlamentares. Os políticos talvez não se animem muito a passar pela capital da República. Afinal, eles não têm tido muito sucesso na hora de promover indicações para a presidente Dilma. Há alguns meses, o PT tentou emplacar ex-parlamentares em agências reguladoras. Apresentou, por exemplo, o nome de Cida Diogo, do Rio de Janeiro, para uma das agências da Saúde. Dilma não aceitou.
A presidente não se incomoda com indicações feitas por políticos, mas quer que os indicados sejam técnicos e do setor em que pretendem trabalhar. Até agora, ela se deu muito bem perante a opinião pública por ter a imagem de quem não compactua com malfeitos dos outros e que não se rende ao rame-rame da política. Ainda é cedo para dizer, mas, apesar da manutenção do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, nada indica que essa visão que o eleitor tem da presidente tenha sofrido alguma alteração.
Em janeiro, sem pressão dos congressistas, será a hora de a presidente mostrar quem manda. Se for Dilma a comandante, ela deve aproveitar para trocar as peças que apresentaram defeito ao longo deste ano. Se deixar quase tudo como está, o sinal de que se rendeu ao rame-rame da política estará dado. O fato de ter praticamente desistido de enxugar a máquina pública para abrigar as tendências do PT é preocupante. Afinal, o número de ministérios não pode ser medido em função das acomodações partidárias e sim em razão da disponibilidade de recursos e das necessidades do país. Mas a ideia de fazer em janeiro para fugir das pressões políticas é um alento. Vamos ver quem vai vencer no fim, se o interesse partidário ou o público. Se for o segundo, o contribuinte agradece.
O FGC virou o mico da banca - ELIO GASPARI
O GLOBO - 23/11/11
Em abril, Murilo Portugal, presidente da Federação Brasileira de Bancos, poderá assumir a direção do Fundo Garantidor de Créditos. Tomara que dê certo, com resultados melhores do que a tentativa da Febraban de azucrinar a vida de quem recebia nota pintada de vermelho em caixa eletrônico.
O FGC é uma instituição que, em tese, preserva a vitalidade do sistema bancário. Criado durante o tucanato, é alimentado pelos bancos, sem dinheiro da Viúva, e se destina a garantir depósitos dos correntistas de instituição que venha a quebrar. Nos cofres do FGC há hoje algo como R$20 bilhões, colocados lá pela patuleia que toma empréstimos e, neles, paga taxas bancárias.
Na prática, o FGC virou uma ação entre amigos na qual a má qualidade da fiscalização do Banco Central juntou-se à má administração de bancos com diretores bem relacionados.
Durante a crise de 2008, o Fundo Garantidor foi um colchão eficiente para evitar uma crise de crédito. Socorreu 24 pequenos bancos emprestando-lhes R$4 bilhões. Nessa época, elevou-se a garantia dos depositantes de R$20 mil para R$70 mil. Como havia perigo de incêndio, criou-se uma proteção especial, que vai até R$20 milhões para papéis denominados DPGEs. Ela está aí até hoje. Há assim uma garantia para os cavalgados e outra para os cavalcantis.
No fim do ano passado, o FGC socorreu com R$2,5 bilhões o Banco PanAmericano, do empresário Silvio Santos. Foi a maior operação de sua história, concluída com a compra da instituição pelo BTG Pactual. O buraco era maior do que se pensava e o Fundo perderá alguns bilhões de reais. Até setembro passado, as arcas do FGC puseram R$8,5 bilhões em 26 bancos. Há mais gente na fila e, como sempre, há na fila interesses que nela já estiveram e a ela pretendem voltar.
Passados 16 anos da criação do FGC, a grande banca coabita com um mico. Aquilo que seria a privatização do risco bancário transformou-se numa terceirização de funções do Banco Central e numa modalidade de almoço grátis. Enquanto a alta finança inventou o conceito de "grande demais para quebrar", a baixa finança nacional criou os "pequenos demais". Pequenos no tamanho, não nos vínculos. No caso do PanAmericano, felizmente rastreou-se a generosidade com que seus diretores aspergiam dinheiro para candidatos petistas (legalmente) e para o tucanato alagoano, pagando contas que não eram suas.
Pode-se entender que bancos quebrem na Europa. No Brasil, se uma instituição financeira vai à garra, de duas uma: ou foi saqueada (o que ocorre na maioria dos casos) ou foi administrada por irresponsáveis. Do Banco Santos, que estava nas duas condições, o FGC só conseguiu recuperar 25% do que lá pôs.
Se os administradores do Fundo blindarem seu cofre, inclusive recusando tratativas verbais com o Banco Central, é possível que ele passe a garantir apenas os depositantes. Não se pode tirar dinheiro do FGC sem que a autoridade monetária sugira e justifique a operação, por escrito, documentando o processo. As negociações ocorridas em Wall Street na crise de 2008, bem como os nomes dos negociadores, são mais ou menos conhecidos. As conversas que levaram metade do PanAmericano para a Caixa, seu rombo para o FGC e o que sobrou para o Pactual ainda estão numa caixa de surpresas. O caso está na Polícia Federal.
Lobistas - ANTONIO DELFIM NETO
FOLHA DE SP - 23/11/11
Em relação ao mercado financeiro, há pelo menos dois fatos sobre os quais cabem muito poucas dúvidas:
1º) Do ponto de vista internacional, as "inovações" produzidas pelos "econofísicos" (os famosos "quants") acabaram sendo causa eficiente da crise bancária. Esta mostrou a fraqueza e a vulnerabilidade da "rede" de relações do sistema financeiro internacional, que até agora continua na UTI (o Fed, o BCE e o Banco da Inglaterra).
2º) Do ponto de vista nacional, a crise de 1997 e a enérgica ação do Banco Central do Brasil ajudaram a construir um sistema financeiro hígido, ágil e seguro, com um amplo espectro de fiscalização. Custou cerca de 4% do PIB, mas dispomos hoje de sofisticados mecanismos de intermediação financeira a altura dos melhores e mais seguros do mundo.
Nos EUA, após longa batalha, o governo acabou promulgando, há mais de um ano, a lei Dodd-Frank, que estabeleceu novos controles sob o mercado financeiro.
A lei (com mais de 2.000 páginas, devido à forte ação dos lobbies para torná-la inexequível) fixou "regras gerais" que estão sendo detalhadas e serão executadas por uma centena de mecanismos. Isso mostra a confusão cuidadosamente construída no Congresso americano pela ação política dos influentes lobbies de que dispõe o armipotente sistema financeiro.
O cabo de guerra entre o Executivo e o sistema financeiro (sob os olhares furtivos de parte importante do Legislativo) continua a crescer.
James Dimon, o cínico e competente presidente do JP Morgan, não tem pudor em afirmar que o controle sugerido pela lei "reduzirá o crescimento econômico" e deve ser considerado "antiamericano porque coloca os EUA numa situação competitiva desvantajosa". Só se for em relação aos "predadores europeus" que, ele sugere, continuarão com as mãos livres!
A American Bankers Association e o Institute of International Finance dão suporte pretensamente "científico" a tal proposição. Em 2009, o sistema financeiro gastou mais de US$ 90 milhões com "lobbiyng"; em 2010, mais do que US$ 100 milhões e, em 2011, até hoje, US$ 50 milhões.
Felizmente, o BIS (o banco central dos bancos centrais) acaba de publicar um estudo tranquilizador produzido por representantes de bancos centrais de 15 países -o do BC foi feito pelo competente Marcos Ribeiro de Castro, que desmonta completamente os argumentos do custoso "lobby".
O efeito da regulação será modestíssimo na taxa de crescimento (menos de 0,01% por ano durante os anos de sua implantação), mas produzirá substancial redução dos riscos de destruidoras crises financeiras.
New Miami - MARTHA MEDEIROS
É um senhor com diversos serviços prestados à cultura brasileira, além de ter um refinamento como já não se vê. Foi ele que me contou que encontrou um casal de amigos no aeroporto e perguntou para onde estavam embarcando. Responderam que para Paris. “E você?”. Meu amigo respondeu meio constrangido: “Para Miami”. Incredulidade. “Miami? Você, Ricardo?”
Para esse casal, Miami não passa de um shopping center atrativo para sacoleiros, e não para pessoas de bom gosto habituadas a ir a concertos de música erudita e exposições de arte. Eu tinha essa mesma impressão, e o elegante Ricardo Cravo Albin, de quem falo, idem. Nosso preconceito foi confidenciado um ao outro num bate-papo que tivemos durante uma das mais expressivas Feiras do Livro dos Estados Unidos. Pois é, a de Miami.
Admito que aceitei o convite da feira pela chance de conhecer essa cidade mítica. Não fosse a trabalho, quando iria? Jamais. Depois de fazer um passeio transcendental pelo Peru, imaginei que a Flórida seria o anticlímax. E quebrei a cara, como sempre quebram os que resolvem dar uma olhada por trás das cortinas de suas ideias prontas.
Conversando com moradores e circulando pela cidade, descobri uma Miami disposta a provar que é mais do que uma devoradora de cartões de crédito. De 10 anos para cá, foram feitos investimentos em modernas casas de espetáculos e centros culturais, que hoje recebem musicais e peças de teatro que antes só eram vistas em Nova York.
O orgulho atual é o New World Center, concebido por Frank Gehry (arquiteto do Gugenheim Bilbao) e que possui um megatelão instalado de frente para um jardim público, para que os concertos possam ser assistidos por transeuntes. Outra experiência democratizante: jovens escutam ópera e música clássica por 30 minutos, como aperitivo antes de shows de hip hop e festas techno. Educação cultural, com resultados que o futuro mostrará.
Além disso, os prédios art déco em Miami Beach são um museu a céu aberto. A Art Basel, que começa semana que vem, é a maior mostra de arte da América. E é animador caminhar pelas ruas do centro e encontrar esculturas permanentes de Botero e Henry Moore. Basta de Romero Britto.
E há o de sempre: belas praias, temperatura amena e espírito alegre. Lojas? Cheguei e saí com a mala do mesmo tamanho. Fora os outlets, que dizem ser uma oportunidade econômica imperdível, não entendo a compulsão por compras. O check in no aeroporto, na hora de embarcar de volta ao Brasil, parece um filme de terror, com pessoas tentando passar volumes enormes e suspeitíssimos: o que trazem de lá que não tem aqui?
Enfim, há vida inteligente em Miami para quem consegue desviar os olhos das vitrines. Agora, é torcer para que não construam o descomunal resort-cassino patrocinado por um grupo da Malásia, que promete ser a principal fonte de renda da cidade, já que jogo atrai mais que cultura. É a vulgaridade lutando para não ceder à – eca! – sofisticação. Resista, Miami.
Mão estendida - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 23/11/11
A oposição está disposta a acelerar a votação da DRU no Senado. Os líderes do DEM, Demóstenes Torres (GO), e do PSDB, Álvaro Dias (PR), querem em troca tirar o orçamento da Saúde do alcance da DRU. Sugerem também votar a emenda 29, com o texto do governador Tião Viana (AC) que aumenta a receita da Saúde em R$ 35 bilhões em 2012. “Se o governo não topar dar mais dinheiro para a Saúde vamos para o pau”, avisa Demóstenes.
O lobby dos financiadores de campanhas
Uma mudança no texto da emenda que deu R$ 2 milhões a mais para cada deputado no Orçamento da União, atribuída a um erro de redação, provocou um rebuliço ontem no Congresso. Foi como se alguém acendesse um rastilho de pólvora. Originalmente, o combinado era que esse dinheiro estaria vinculado a gastos com saúde em geral, incluindo-se aí a reforma de hospitais públicos e postos de saúde, por exemplo. Mas a redação falava somente em gastos com “atenção básica à saúde”. O lobby das empresas da construção civil, grandes financiadores das campanhas para o Parlamento, entrou em campo para acertar o texto.
"O secretário estadual Carlos Minc (RJ) quer descredenciar a Chevron. Afinal, quem é mesmo o ministro do Meio Ambiente do Brasil?” — Sérgio Guerra, deputado federal (PE) e presidente do PSDB
ATAQUE ESPECULATIVO. Em reunião com a bancada do PT da Câmara, a ministra Luiza Bairros (Igualdade Racial) disse ontem que há um movimento de fora do governo para derrubá-la. Parte do movimento negro acusa Luiza de ter abandonado o Estatuto da Igualdade Racial, que estabelece políticas afirmativas. A situação da ministra tende a ficar ainda mais difícil com as novas regras baixadas pelo governo, que dificultam os convênios com ONGs. A maioria de suas ações é feita com o terceiro setor.
Contra o Rio
A Confederação Nacional dos Municípios está fazendo mobilização para levar milhares de prefeitos dia 30 a Brasília. O objetivo é tentar convencer os deputados a votar, ainda este ano, a nova lei de distribuição dos royalties do petroleo.
Sozinho
Por causa da redistribuição dos recursos do Fundo Partidário, o DEM está irritado com os demais partidos. Com a criação do PSD todos vão perder dinheiro, mas nenhum partido quer se unir ao DEM e contestar a redivisão na Justiça.
Código tumultua votação da DRU
O relator do Código Florestal no Senado, Jorge Viana (PT-AC), fez mudanças em relação ao texto aprovado na Câmara. Os ruralistas reagiram. A senadora Kátia Abreu (PSD-TO), que preside a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), pregou ontem de manhã, reunida com 30 deputados ruralistas, que eles obstruíssem a votação da DRU. A turma do deixa-disso argumentou que era cedo para radicalizar e vai agora insistir nas negociações com o relator.
Contra o tempo
Assim que a Câmara aprovou ontem a DRU, a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais), que acompanhava a votação, atravessou para o Senado. Ela se reuniu no cafezinho do plenário com o líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR).
Mantido
O ministro Alexandre Padilha (Saúde) garantiu ontem ao presidente da Frente Parlamentar HIV-Aids, deputado Chico D’Angelo (PT-RJ), que não vai reduzir recursos para o programa em 2012. A prioridade da pasta é a parceria com a Frente.
O PRESIDENTE da Câmara, Marco Maia (PT-RS), pediu aos líderes dos partidos que o ajudem, pois ele quer aprovar a PEC da Música ainda antes do recesso.
O MAIS FIEL. Todos os deputados do PT e do PMDB presentes ontem na Câmara votaram a favor da prorrogação da DRU. No recém-criado PSD, o terceiro partido da Câmara, 85% da bancada votaram “sim”.
DEPOIS de comprar uma briga com o Planalto no debate dos royalties, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) lança, no dia 5, o livro “Royalties do petróleo: as regras do jogo para discutir sabendo”.
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