quinta-feira, novembro 03, 2011

JOSÉ SIMÃO - Ueba! Começou o Geme 20!


Ueba! Começou o Geme 20! 
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 03/11/11 

Século 20: Brasil quer entrar pro Primeiro Mundo. Século 21: Primeiro Mundo quer entrar pro Brasil

Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O esculhambador-geral da República!

É hoje! Aquele monte de falido reunido! Começou o G20! Aliás, Geme 20. Todo mundo gemendo. Ai, tô sem dinheiro! Acabou o euro! A situação tá grega! E presente de grego mudou de nome pra referendo grego. A Grécia vai deixar o mundo em ruínas! Rarará! E eu sei como resolver a crise na Grécia: todos os países pagam aquele monte de relíquia que eles roubaram. Aquelas estátuas sem nariz e pau de fora!

E quem nasce em Corinto é corintiano? E os ex-ricos e falidos serão recebidos pelo ex-rico Sarkozy. Em Cannes. Os que entraram pelo Cannes. Como diz o Mussum: entraram pelo Cannes! Rarará!

E Sarkozy tem cara e nome de remédio. Azia? Má digestão? Demissão? Tome um Sarkozy! Dilma no Ponto G20! Como primeira presidente mulher do Brasil mudou o nome do evento de G20 para Ponto G20!

Os presidentes têm de achar onde fica o Ponto G da mulherada! Eu sei, no shopping. O Ponto G da mulherada fica no shopping. Rarará! E uma vez uma equipe de TV perguntou pruma mulher na avenida Paulista: "A senhora sabe onde fica o Ponto G?". "Não sei, não, meu filho. Não sou daqui, sou de Belzonte!" Rarará!

E todos vão pedir dinheiro emprestado pra Dilma! Século 20: o Brasil quer entrar para o Primeiro Mundo. Século 21: o Primeiro Mundo quer entrar para o Brasil.

Diz que a Dilma desceu em Cannes com duas placas penduradas no pescoço: não me chamem de tia e não tenho trocado. A Dilma tá com cara de máquina de fazer churrasco grego. Rarará!

Mondo Cannes! É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! E adorei a charge do Nani com a agência de turismo: "Visite a Europa e conheça o nosso desemprego".

E o chargista Luke comemorou os Finados: os times de Minas. Rarará! E a Dilma comemorou os Finados: os seis ex-ministros! E um amigo meu passou o feriado na casa da sogra e disse que ela fez três tipos de comida: enlatada, congelada e queimada. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Eu sou do tempo do arroz à grega!

FLAVIO BOLSONARO - Impunidade gera violência


Impunidade gera violência
 FLAVIO BOLSONARO
O GLOBO - 03/11/11

Arma não tem vontade própria, não dispara sozinha, nem é comprada legalmente numa loja por quem quer usá-la para fins criminosos. Na CPI das Armas da Assembleia Legislativa do Rio, da qual sou membro, vários foram os depoimentos de autoridades, reconhecendo a extrema facilidade de se adquirir armas e munição em países como Paraguai, Uruguai e Bolívia, e a enorme dificuldade de fiscalizar a entrada desse material pelas fronteiras terrestres, aéreas, pluviais e marítimas brasileiras.
Exportadas legalmente, armas e munição de fabricação brasileira estão à venda para quem quiser comprá-las, clandestinamente, nas lojas desses países, na mesma estante das estrangeiras, como americanas e austríacas, com a diferença de serem mais baratas que estas.
Ou seja, na hipotética e absurda situação de se fecharem todas as fábricas de armas e munição brasileiras hoje, como pregam alguns setores organizados, governamentais ou não, de nada adiantaria, pois, amanhã, os marginais continuariam cometendo crimes, mas usando armas estrangeiras.
É oportunismo defender nova consulta popular sobre o comércio de armas e munição no Brasil, pois, em 2005, 64% da população decidiram preservar seu direito à legítima defesa, podendo optar por ter, ou não, uma arma em casa.
Já em 1794, Cesare Beccaria alertava que "as leis que proíbem o porte de armas desarmam somente aqueles que não estão dispostos nem determinados a cometer crimes". Muito atual, pois, como todos sabem, bandido não compra arma em lojas, assim como o psicopata Wellington não comprou a que usou para cometer a abominável covardia na escola em Realengo.
O marginal só respeita o que teme! Henrique Nogueira, em pesquisa realizada com criminosos encarcerados, em seu livro "O direito de ter e portar armas - Recuse ser uma vítima", mostrou que 88% dos marginais obtiveram armas de fogo, apesar de toda e qualquer restrição legal; 74% afirmaram evitar entrar em residências onde sabiam haver alguém armado; e 56% declararam não abordar vítimas que eles suspeitem portar alguma arma.
Marcante a frase num pequeno quadro na parede do quartel do Bope, no Rio de Janeiro, que diz: "Quando a arma que mata defende a liberdade e o direito de viver, os santos choram... mas não acusam!" Que o digam alguns políticos, que defendem o desarmamento da população, mas usam seguranças - bem armados - para garantir sua integridade física e a de sua família.
O Estatuto do Desarmamento já é uma lei rigorosíssima, só precisa ser exercido! As instituições responsáveis por seu cumprimento e fiscalização devem ser providas pelo governo federal de mais recursos humanos, tecnologia e logística para realizar suas atribuições, inclusive nas fronteiras. E os governos estaduais deveriam investir mais e melhor nas forças policiais, especialmente as de investigação, pois a impunidade é o grande combustível da violência.
Sobre armas, o Brasil já se posicionou, mas sobre redução da maioridade penal e prisão perpétua ainda não. Vamos consultar a população, "democratas"?
FLAVIO BOLSONARO é deputado estadual (PP).

CARLOS ALBERTO SARDENBERG - O jerico não é nosso


O jerico não é nosso
CARLOS ALBERTO SARDENBERG 
O GLOBO - 03/11/11

Registro-me no hotel em Punta Del Este, Uruguai, e logo peço um adaptador de voltagem e de tomadas. A recepcionista se desculpa por não ter nenhum disponível. Explica: "Emprestamos todos. Aqui praticamente só temos hóspedes estrangeiros e o governo acaba de trocar nossas tomadas. Assim, todos precisam de adaptador."
Ocorre-me uma ponta de esperança. Se a mudança uruguaia é relativamente recente e se pertencemos todos ao Mercosul, há uma boa chance de as novas tomadas brasileira e uruguaia serem do mesmo tipo. Pergunto, e a moça confirma que são três buraquinhos redondos.
Tudo resolvido, instalo-me no apartamento, trato de ligar as tranqueiras todas, computador, celular, iPad. Não funciona. A tomada uruguaia recebe plugues de três pinos, mas alinhados numa reta. Na nossa, o pino do meio está abaixo (ou acima, claro) dos outros dois, formando um V suave. Os plugues brasileiros não encaixam na tomada deles.
Deveria ter imaginado. A maior parte dos hóspedes era de brasileiros, de modo que estariam sobrando adaptadores se o sistema deles fosse igual ao nosso.
Por outro lado, convenhamos: são países vizinhos, pertencem à mesma zona comercial, há cidades nas fronteiras que se misturam, o fluxo de viajantes é intenso - e nem assim conseguem padronizar as medidas?
É verdade que o Brasil não dá muita atenção ao Uruguai. Recentemente, quando aumentou o IPI de carros importados, o governo brasileiro isentou os veículos produzidos na Argentina e no México, mas se esqueceu dos montados no Uruguai, também beneficiados por acordo automotivo. São tão poucos automóveis, desculparam-se autoridades brasileiras. A falha foi corrigida, mas o governo uruguaio acrescentou mais essa à sua lista de queixas com o Mercosul e o Brasil em especial.
Mas, broncas à parte, considerando o tamanho de seu país e a integração com o Brasil, não seria razoável que as autoridades uruguaias copiassem as tomadas brasileiras, que haviam sido instaladas antes?
Fizeram, entretanto, como as autoridades de Brasília quando deram as costas para o mundo e resolveram implantar a tomada verde-amarela.
Quem vocês estão pensando que manda aqui? - alardeiam também os governos vizinhos, aliás da mesma linha nacionalista. Eis o ponto: ideias de jerico não são exclusividade brasileira.

TOLERÂNCIA OU INCOMPETÊNCIA?
Uma coisa a gente precisa admitir: a presidente Dilma tem conseguido um prodígio de marketing. Cinco ministros e dezenas de assessores caíram em meio a denúncias de corrupção e mau uso de dinheiro público, alguns foram presos, e a presidente aparece como a comandante de uma faxina ética.
Reparem mais: nenhum funcionário foi apanhado numa investigação primária dos órgãos oficiais. Todos foram afastados depois de denúncias na imprensa e todos ganharam um tempo para que tentassem se explicar.
A própria presidente justificou esse procedimento. Disse que os acusados tinham esse direito e que não poderiam ser condenados (demitidos) antes de investigação criteriosa.
O pessoal mais próximo da presidente acrescenta que a chefe do governo não pode saber de todos esses malfeitos. Mas quando a denúncia aparece, ela age.
Ou seja, está tudo funcionando corretamente.
Está?
Há dúvidas pertinentes. A presidente, ou melhor, o seu sistema de apoio não deveria ao menos checar os nomes dos escalões superiores?
A Presidência da Republica tem instrumentos para isso. Além de contar com órgãos de controle administrativo e uma comissão de ética, tem ainda a Polícia Federal e mais os serviços de informações e inteligência. Há funcionários pagos para manter a presidente bem antenada.
Todo esse aparelho deve ou deveria ter mais acesso às informações críticas do que, digamos, um punhado de jornalistas. Mas quando estes descobrem as histórias e as publicam, a primeira reação do governo é dizer que não vai tomar providências antes de ouvir as explicações dos denunciados.
Quer dizer que os órgãos de controle, a polícia e os serviços não sabiam de nada e só ficaram sabendo por meio da imprensa?
Há três questões aí. Primeira, se esses órgãos não sabiam de nada, para que serve todo aquele aparato, aliás, muito caro? Segunda: se a polícia e os serviços sabiam de tudo, inclusive da ficha de ministros, por que essa informação não chegou à presidente? Terceira: se a informação existe e chegou à Presidência, como aqueles caras puderam ser nomeados e continuar gastando até que a imprensa divulgasse as denúncias?
Numa hipótese, trata-se de incompetência. Na outra, de tolerância com o mau uso do dinheiro público. Ou, pior, as duas coisas.

CONTARDO CALLIGARIS - Visita a Berlim


Visita a Berlim
CONTARDO CALLIGARIS 
FOLHA DE SP - 03/11/11

1) A Stasi (Staatssicherheit, polícia de Segurança de Estado da Alemanha Oriental) era terrível, absurda e inventiva (cf. o maravilhoso filme "A Vida dos Outros", de F. H. Von Donnersmarck). Em Berlim, professores de escola média eram encorajados a pedir que os alunos desenhassem sua família ao redor da mesa do jantar.
Esse dever de casa não servia para afirmar o valor da coesão vespertina do lar. De fato, pedia-se que o televisor ligado fizesse parte da cena representada: por mais que o desenho das crianças fosse primário, ele revelaria qual era o telejornal ao qual os pais assistiam.
Podia ser "Aktuelle Kamera" (câmera atual), instrumento de propaganda do regime comunista da Alemanha Oriental, ou "Tagesschau", (visão do dia), produzido para um consórcio de televisões públicas da Alemanha Ocidental. Ambos os programas eram de transmissão aberta, por antena, e não havia como saber quem assistia ao quê. Achou-se o jeito: transformar as criancinhas em espiões de seus próprios pais.
2) A melhor salada de batatas de Berlim talvez se encontre na cantina frequentada por técnicos e atores do Berliner Ensemble, o teatro onde Bertolt Brecht se instalou depois da Segunda Guerra.
A própria costeleta empanada e frita, aWiener Schnitzel, não é nada má (uma Wiener Schnitzel é diferente de uma milanesa: a milanesa é sempre com osso e é fritada na manteiga, nunca na banha).
À força de frequentar a cantina do Berliner Ensemble, dei-me conta de que o teatro surge a poucas centenas de metros da estação deFriedrichstrasse -basta atravessar o rioSpree.
Na época do Muro, a estação deFriedrichstrasse era a única pela qual era possível transitar de trem entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental -por lá, solicitando e obtendo (coisas distintas) as necessárias autorizações, comprando moeda oriental a um câmbio extorsivo, pagando o visto etc., alguém do Oeste podia entrar em Berlim Leste, de trem, e permanecer por um período muito limitado.
O edifício onde esse trânsito acontecia, e, por extensão, a estação de Friedrichstrasseinteira, era chamado de Tränenpalast, palácio das lágrimas, por causa do choro de parentes, amigos e amantes que lá se separavam, por causa da angustiante espera (horas, às vezes) de quem parecesse não ter todos os seus papéis em regra ou tivesse permanecido mais do que o permitido e também pelo choro dos cidadãos de Berlim Leste que, despedindo-se de seus queridos, lembravam-se de que eles viviam numa prisão.
Isso, Brecht, na época em que dirigia oBerliner Ensemble, não tinha como não ver. Certo, não se sabe o que ele realmente pensou sobre a revolta antistalinista de junho 1953 na Alemanha Oriental, embora sua posição oficial tenha sido a que o regime esperava. De qualquer modo, Brecht entrou no novo edifício do Berliner Ensemble, perto da estação de Friedrichstrasse, em 1954 e morreu dois anos mais tarde.
Mas a mulher dele, Helene Weigel, grande atriz, que dirigiu o Berliner Ensemble desde a morte do marido até a dela, em 1971, será que ela não via nada?
É fácil não ver nada. Também é fácil ver e se calar.
3) Berlim é uma cidade tocante pelo desejo manifesto de não tapar os olhos e de não esquecer. Fiquei, nestes dias, no apartamento de uma amiga querida, emSchöneberg, perto de Bayerischer Platz: pelas ruas, a cada poucos metros, há placas que lembram coisas que aconteceram, justamente, enquanto os vizinhos não viam, ou preferiam não ver.
15/4/37: "Formaturas proibidas para judeus"; 21/2/39: "Os judeus devem entregar joias e objetos de ouro, prata, platina e pérolas"; 4/7/40: "Os judeus só podem comprar alimentos em Berlim das 4 às 5 da tarde".
A existência dessas placas traduz um estado de espírito que faz de Berlim, hoje uma sociedade extraordinariamente livre, como só são livres as coletividades em que cada um é mais preocupado com a liberdade do vizinho do que com a sua própria.
E faz todo sentido: a liberdade do vizinho (sobretudo se ele for muito diferente de mim) é sempre a melhor garantia de minha própria liberdade.
Viveremos livres (mesmo) quando houver religiosos fundamentalistas desfilando para o direito de prostitutas trabalharem na esquina de sua igreja. Ou quando houver praticantes de SM ou de swing defendendo o direito de um templo abrir suas portas ao lado dos clubes nos quais eles se reúnem.

REGINA ALVAREZ - Missão impossível


Missão impossível
REGINA ALVAREZ
O GLOBO - 03/10/11

Cada dia que passa até o fim de dezembro, quando o Orçamento de 2012 será votado pelo Congresso, é um dia importante para o futuro das contas públicas. Nesses dois meses estarão a pleno vapor as discussões e o rateio das verbas públicas. Os parlamentares fazendo de tudo para emplacar suas emendas. E as corporações, como o Judiciário, por exemplo, marcando homem a homem, como se fala no futebol, para ver suas demandas atendidas. 

Tudo isso faz parte do processo democrático. E deve ser encarado com naturalidade. Acontece que o Orçamento é uma peça-chave na definição dos rumos da economia e do jeito que sair do Congresso ficará mais fácil, ou mais difícil, para o governo cumprir suas promessas de trazer a inflação para os trilhos, ou seja, para o centro da meta em dezembro de 2012. 

O Banco Central tem um plano de voo para atingir esse objetivo que inclui um esforço fiscal equivalente a 3,1% do PIB. É o tamanho da economia para o pagamento de juros e equivale a R$ 139,8 bilhões. Mas não será fácil. Olhando as contas hoje é praticamente impossível, a não ser que o governo lá na frente utilize algum pulo do gato, como já fez no passado, para acomodar as contas. 

O primeiro entrave para cumprir a meta de superávit de 3,1% em 2012 foi colocado pela própria equipe econômica, que encaminhou ao Congresso um projeto de Orçamento descontando da meta R$ 25,6 bilhões em despesas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Assim, comprometeu-se em fazer uma economia de R$ 71,3 bilhões, quando o esforço necessário seria de R$ 96,9 bilhões. 

Depois que o Orçamento chegou ao Congresso, cumprir a meta de 3,1% do PIB ficou ainda mais difícil. As receitas foram revistas para cima em R$ 26 bilhões, para acomodar novas despesas, e mesmo que o governo já esteja com a tesoura afiada para cortar as emendas dos parlamentares, alguns gastos que o Congresso incluirá no Orçamento são despesas obrigatórias e não poderão ser cortadas. Os recursos para estados e municípios compensarem a desoneração de exportações, a chamada Lei Kandir, é um exemplo que custa R$ 3,9 bilhões. Algum aumento para o Judiciário deve sair depois de tanta pressão sobre o Congresso, e essa conta, na melhor das hipóteses, será de R$ 1 bilhão. 

Além disso, o governo subestimou as despesas com a Previdência em cerca de R$ 5 bilhões, e isso terá que ser corrigido. Tem ainda a correção do salário mínimo, que, com inflação maior, custará mais caro, e uma forte pressão para reajustar as aposentadorias acima do mínimo. Para completar, pelo lado da receita, o governo perderá pelo menos R$ 2 bilhões com a redução da Cide. 

Pelos cálculos de consultores que acompanham essas contas no Congresso, seria necessário um corte de R$ 65 bilhões nas despesas do Orçamento para cumprir a meta cheia de superávit no ano que vem, o que, na prática, não é viável. Paralisaria a máquina pública e azedaria de vez com as relações do governo Dilma com o Congresso. 

Assim, não é por acaso que a política fiscal em 2012 ainda é um grande ponto de interrogação para analistas e o mercado. 

Dilema grego
O clima de alta temperatura e pressão provocado pela decisão do governo grego de submeter o pacote de austeridade ao referendo da população dá o tom do dilema que vive a Grécia. A reação dos líderes da zona do euro e dos mercados à decisão foi a pior possível, com ameaça de suspender a ajuda aos gregos. Mas, ao contrário do que pensam muitos analistas, o economista Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor do Banco Central, acredita que o referendo pode ser uma saída para o dilema grego. A consulta popular é uma tentativa desesperada do governo local de ganhar legitimidade para colocar em prática medidas que são muito duras, avalia: — A consulta popular pode ajudar, sim. A palavra chave é legitimidade. O governo grego vai ter de conquistar isso com argumentos, não com a polícia na rua. À força, não iria conseguir. 

QUE CRISE? De janeiro a setembro deste ano, a venda de computadores cresceu 27,8% em relação ao mesmo período do ano passado, com a comercialização de 6,6 milhões de máquinas. É o que mostra pesquisa inédita da GfK, consultoria que mede a venda de bens duráveis nos pontos de comercialização. Os notebooks, cujos preços caíram mais de 18% em relação ao ano passado, são os mais vendidos da categoria. As vendas desse produto cresceram 48,4%. 

BOM NATAL: Alex Ivanov, diretor da unidade de negócios de TI da Gfk, espera que este dezembro seja ainda melhor que o de 2010, quando foram comercializados 780 mil computadores no Brasil. Também há boas expectativas em relação a janeiro, porque muitos consumidores adiam as compras desse equipamento à espera das promoções do varejo pós-Natal, explica.

LUIZ FERNANDO VERISSIMO - “Pas nique”

“Pas nique”
LUIZ FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 03/11/11

Era inevitável que as trapalhadas do Dominique Strauss-Kahn em Nova York virassem peça de teatro em Paris. Em Paris há uma oferta permanente de teatro para todos os gostos, do clássico ao escrachado, e era na tradição francesa da comédia de ocasião que anunciavam a estreia, dali a dias, de uma peça intitulada Pas Nique au Sofitel.
Sofitel, sabem todos, é o nome do hotel em que Strauss-Kahn teria tido relações sexuais, consentidas ou não, com a camareira da Guiné, que o denunciou à polícia, deflagrando a confusão que manteve o então chefe do FMI em Nova York até decidirem que a moça não era confiável. “Pas nique”, pronunciado como uma palavra só, significava “pânico”. Separadas, as duas palavras queriam dizer “nada de nique”. E “nique”, segundo o dicionário, é um gesto ou manifestação de desprezo, mas segundo alguns amigos franceses é uma gíria para o ato sexual. A tradução do título seria, então, “Nada de nique no Sofitel”. “Nique”, além dos seus outros significados, também aludia ao nome
do próprio e priápico monsieur Dominique.
No anúncio da peça que saiu dias depois o título estava modificado, obviamente devido a protestos da organização Sofitel, uma respeitada rede mundial de hotéis de luxo que preferia não ser lembrada do episódio e muito menos ser o cenário, noite após noite, de uma farsa nada respeitosa.
De acordo com o novo anúncio, o título da peça agora era “Pas Nique au Showfitel”.
Pode-se imaginar a reação do pessoal do Sofitel. “Showfitel” era pior do que o original. Mexia com o próprio nome, além da reputação, da cadeia. Era um trocadilho baixo e ofensivo, e inaceitável. A data da estreia se aproximava e o Sofitel, presume-se, ameaçava processar os produtores, para evitar o uso do seu nome, com ou sem trocadilhos, na publicidade da peça.
O curioso é que nada dessa luta de, literalmente, bastidores saiu na imprensa francesa. Quem acompanhou as sucessivas alterações no título deduziu o que estava acontecendo, mas nada vazou para o público. As discussões, as ameaças, etc. foram acompanhadas em segunda mão, cada novo título anunciado servindo como um breve boletim de uma guerra longínqua. A peça estreou, finalmente. Não sei como está indo.
Ah, o título ficou Pas Nique au FMI. Supostamente porque o FMI está tão acostumado a ser criticado e gozado que nem se importa mais.

KENNETH MAXWELL - Proximidade


Proximidade
KENNETH MAXWELL
FOLHA DE SP - 03/11/11

Os manifestantes anticapitalistas em Londres tomaram por alvo a Bolsa de Valores da capital britânica. Mas, em lugar disso, terminaram por causar problemas para a Igreja Anglicana. Foi um estranho resultado causado por um acidente de proximidade.
Em Londres, os manifestantes tentaram imitar o ocorrido em Nova York e protestar diante da sede da Bolsa de Valores. Entretanto a polícia impediu seu ingresso.
Desviados de seu objetivo original, eles montaram seu acampamento de protesto na praça adjacente, que fica diante da catedral de St. Paul.
No começo, foram recebidos cordialmente. O reverendo Giles Fraser, cônego da catedral, persuadiu a polícia a não expulsá-los. Por isso, os manifestantes montaram suas barracas em terrenos que são, em parte, propriedade da igreja.
A catedral de St. Paul é uma igreja de forte simbolismo. Sua grande cúpula domina o panorama de Londres há muito tempo. Suas portas nunca se fecharam. Nem mesmo durante os bombardeios aéreos nazistas da Segunda Guerra Mundial (1939-45).
A grande igreja foi projetada por sir Christopher Wren depois do grande incêndio de Londres em 1666, e construída entre 1675 e 1710.
A catedral serviu de cenário a muitas ocasiões de Estado. O funeral de lorde Nelson, o heroico almirante inglês, aconteceu lá. Como o de sir Winston Churchill. A catedral foi também o cenário do glamouroso, mas malfadado, casamento entre o príncipe Charles e lady Diana Spencer.
Mas a hospitalidade do cônego Fraser durou pouco. Enquanto os manifestantes expandiam seu acampamento, o reverendo Graeme Knowles, deão de St. Paul, anunciou que as portas da catedral seriam fechadas por motivos de "saúde e segurança".
A Igreja Anglicana solicitou uma liminar para expulsar os manifestantes, seguindo o exemplo da City de Londres, também proprietária de parte do terreno.
O reverendo Fraser renunciou. O bispo de Buckingham classificou o fechamento das portas da catedral como "reação histericamente exagerada". Na terça-feira, a Igreja Anglicana voltou atrás. As portas da catedral foram abertas de novo. O deão se demitiu.
O cabido da catedral revogou "unanimemente" a tentativa de obter uma liminar de expulsão. A City de Londres fez o mesmo.
Até mesmo o arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, primaz da Igreja Anglicana, escreveu uma coluna para o jornal britânico "Financial Times" declarando que era hora de "desafiarmos os ídolos das finanças".
Os manifestantes acampados diante da catedral mal conseguiam acreditar em sua sorte. A proximidade, evidentemente, tem suas vantagens.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Brasil será terceiro mercado de genérico em 2015
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 03/11/11

O Brasil é o país que mais cresce no mundo no mercado de genéricos, segundo a Pró Genéricos, associação das indústrias do setor. Com uma taxa de crescimento de 35% ao ano, o país supera os índices europeus, que variam de 5% a 6%, de acordo com Odnir Finotti, presidente da entidade.

O elevado crescimento não está ligado apenas ao fato de o mercado brasileiro ser ainda relativamente jovem, segundo Finotti. "É verdade que os outros já têm mais de 20 anos e, naturalmente, menos espaço para crescer. Mas também conta o fato de o Brasil ainda ter uma população com dificuldade de acesso a medicamentos. E esse acesso está aumentando", afirma. As projeções indicam que em 2015 o Brasil deve se tornar o terceiro maior mercado de genéricos do mundo, segundo a Pró Genéricos. "Serão Estados Unidos, China e Brasil."

Nos próximos anos, o país deve ultrapassar mercados como Alemanha, Itália, França e Inglaterra. O processo de internacionalização do setor de genéricos brasileiros deve avançar nos próximos anos apoiado no mercado interno. "Como o mercado brasileiro está cada vez maior, as empresas se consolidaram. Só 10% dos genéricos que temos no país são importados e 90% são produzidos e desenvolvidos por empresas instaladas no Brasil", diz. "Nos Estados Unidos, 40% do consumo é importado", afirma Finotti.

Aurora investirá cerca de R$ 50 milhões no próximo ano
A Aurora Alimentos irá concluir na próxima semana seu planejamento estratégico para 2012. Nele, deverá constar um volume de investimentos entre R$ 40 milhões e R$ 50 milhões, que será destinado para melhorias dos frigoríficos da cooperativa. A empresa também pretende construir um novo centro de distribuição no ano que vem. Um terreno de R$ 9 milhões em Arujá (no interior de SP) já foi adquirido para isso. A construção deve consumir outros R$ 45 milhões, mas depende da venda da atual unidade em Guarulhos.

"Esperamos iniciar as obras do centro até abril", diz o presidente da cooperativa, Mário Lanznaster. Com a mudança, o espaço de armazenagem passará de mil toneladas para 4.000 toneladas. A Aurora ainda tem planos de começar a vender suíno ao Oriente e dobrar as exportações do produto. Japão, China e Coreia do Sul estão entre os possíveis clientes.

Medida... A Abrabe (Associação Brasileira de Bebidas) acaba de lançar um portal voltado para orientar jovens, pais e educadores sobre o consumo de bebidas alcoólicas.

...certa O site "Sem Excesso" foi criado após estudo encomendado pela entidade indicar a ausência de um canal que conte com especialistas sobre o assunto na internet.

Reserva... A Cielo e a Bematech CMNet fecharam uma parceria para a implantação de um novo sistema de pagamento on-line por cartões de crédito para hotéis.

...garantida O projeto começou no mês passado, em fase de testes, com 50 unidades. Em quatro anos, as duas companhias esperam ter mais de 1.200 hotéis com o sistema.

CONDOMÍNIO MISTO
O número de empreendimentos mistos em São Paulo vai crescer 260% até 2015, segundo estudo da consultoria Cushman & Wakefield. Hoje, os projetos que oferecem unidades residenciais e comerciais ou shopping center na capital paulista e em Barueri representam 243,6 mil metros quadrados. Até 2015, serão 877,1 mil m2.

"O aumento está relacionado com o problema da mobilidade. As pessoas querem morar e trabalhar no mesmo núcleo", diz Mariana Hanania, gerente da consultoria. Nos próximos quatro anos, serão construídas 26 torres de empreendimentos mistos, sendo que 212 mil m2 serão entregues até o final de 2011. A maior parte dos lançamentos estarão na avenida Berrini, que já concentra 25% da área útil desse segmento. Serão 327,5 mil m2.

NÃO TRIPULADO
O grupo brasileiro resultante da fusão entre AGX e XMobots, que fabrica Vants (Veículos Aéreos Não Tripulados), vai lançar um modelo com radar para filmar debaixo das copas das árvores. "Pode ser usado em florestas, para monitoramento com baixo custo. A maioria dos radares não consegue atravessar a copa", diz Giovani Amianti, sócio da empresa. O VSX Sarvant foi desenvolvido com as empresas Orbisat e Aeroálcool. O grupo se prepara para atender pedidos de clientes de setores como agronegócio e defesa. Empresas de mineração também demonstram interesse para realizar monitoramento em jazidas de minérios. Os primeiros voos serão feitos em janeiro e o lançamento, em março.

Dinheiro... O faturamento do setor de cartões de crédito deverá aumentar cerca de 22,8% em 2011, segundo estudo da consultoria Lafis.

...de plástico... Com a liberação dos contratos de exclusividade, novas marcas deverão entrar no mercado e elevar as emissões e transações por esse meio de pagamento.

Rede... A Oi ampliou a cobertura de sua rede móvel para o Estado de São Paulo, com investimento de R$ 400 milhões nos últimos dois anos. No período, a empresa afirma que instalou mais de 3.000 antenas, com 533 municípios cobertos.

...móvel A companhia iniciou sua operação em São Paulo em 2008. Entre janeiro e setembro desse ano, informa que obteve expansão de 13% em sua base de clientes de telefonia móvel na região.

NEGÓCIOS CRIATIVOS
Quatro empresários ingleses estarão no Brasil a partir do dia 7 para fomentar negócios na área de design e indústria criativa. Eles foram eleitos pelo governo britânico para representar o país. "Os representantes vêm buscando parcerias, principalmente em virtude do crescimento econômico do Brasil. Eles possuem potencial para exportar seus produtos e serviços", afirma John Doddrell, cônsul geral britânico em São Paulo e diretor de comércio e investimento do UK Trade & Investment no Brasil. Entre os empresários que participarão dos encontros de negócios estão Jonathan Marland, ministro britânico de Energia e Mudança Climática, e Tamara Mellon, fundadora da marca de sapatos Jimmy Choo. A comitiva visitará o Rio de Janeiro e São Paulo.

Navalha... Em 2012, o preço médio da carne bovina deve aumentar 4,2% e o do frango, 6,2%, segundo a Tendências. A suína deve cair 2,6%. ...na carne Em 2011, os preços médios devem aumentar 15,7% para a carne bovina e 8,4% para o frango.

Inauguração Em outubro de 2012, a cidade de Taubaté (SP) terá um novo centro comercial com lojas como Le Lis Blanc, Centauro e Siberian

Inglês nordestino A rede de idiomas Fisk abrirá dez unidades no Nordeste nos próximos 12 meses.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

ALBERTO TAMER - G-20 e PIB exigem cautela


G-20 e PIB exigem cautela
ALBERTO TAMER 
 O Estado de S.Paulo - 03/11/11

O Basil entra nesta reunião do G-20 em Cannes menos tenso, uma espécie de tranquilidade relutante diante do agravamento da crise do euro e dos riscos de recessão aqui e lá fora. Não deve se esperar muito desse encontro, que foi esvaziado pela decisão do governo grego de convocar um referendo sobre a ajuda de 130 bilhões. E, nessa expectativa, o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira adiou também a captação de 3 bilhões até que a reunião do G-20 acalme as tensões no mercado. Talvez não saia nada até o próximo mês. A tragédia grega pode ser adiada. A expectativa é que o novo presidente do Banco Central Europeu reverta a decisão do seu antecessor e aumente a compra de títulos dos governos mais endividadas da zona do euro. Quando fechávamos a coluna, Nicolas Sarkozy, Angela Merkel e Christine Lagarde estavam reunidos com o premiê Papandreou para ouvir suas explicações e cobrar o cumprimento do acordo que havia sido aprovado. Também no fim da noite já se admitia em Cannes que a Grécia faça um referendo, sim, desde que seja rápido. "Não podemos esperar até janeiro", afirmou uma fonte do FM I. O mercado acalmou, se recuperou das perdas ontem na expectativa de um acordo.

Brasil que se acautele. Mesmo que haja acordo no G-20, que todos prometam comprar títulos do fundo europeu, que tudo seja adiado para dezembro e depois janeiro, a única certeza é que a economia europeia não vai reagir e dificilmente poderá evitar a recessão na qual já está entrando neste trimestre. E, como os EUA também vacilam, não devem crescer mais de 2% este ano. A economia mundial voltará a recuar para menos de 3%.

Brasil também. E aqui vamos nós. Nesse cenário sombrio, imprevisível, o PIB do Brasil também está recuando. Mais, pode até ser negativo neste trimestre, ou ficar em torno de zero, admitem economistas e consultorias. Para os otimistas, mais 0,2%. Uma "recessão técnica", já sinalizada pela queda da produção industrial de 2% em setembro depois de permanecer estagnada nos meses anteriores. E não vai ser fácil reverter esse quadro nos dois primeiros meses de férias, no início do ano, quando a demanda se retrai.

O dilema que não existe. É esse o cenário para as economias mundial e brasileira nos próximos meses. Eles afundam lá fora e as repercussões já são sentidas aqui. Esta é a nova realidade que o governo não pode evitar. Não deve aceitar o dilema que ainda domina a Europa e os Estados Unidos - incentivo ao crescimento, apesar da dívida e inflação. Dilma adiantou em reunião com empresários, antes de viajar para Cannes, que pretende propor na reunião do G-20 "crescimento, investimentos, mais empregos, não mais guerra cambial". Esse é o principal caminho para sair da crise. O Brasil será afetado se a crise se agravar, mas está preparado para enfrentá-la com uma política monetária e fiscal equilibrada.

Mas não chegou? Essa é a pergunta ainda não respondida depois de sinais de recuo no PIB neste trimestre. Os sinais já não estão aqui? Não está na hora de o governo apresentar mais estímulo ao crescimento mesmo porque os anteriores deste ano não deram o resultado que se esperava? Para os economistas menos ortodoxos, juro menor até ajuda, mas será preciso mais para evitar um recuo ainda maior do PIB, algo se aproximando de 2,5%.

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, lembrou esta semana que o governo adotou nos primeiros meses do ano uma política de "desaceleração programada". Foi seguida pelo BNDES, que liberou menos recursos até agora. Mas essa política se defronta agora com uma retração da economia mundial mais forte do que prevista. Ele não afirmou, mas deixou claro que é hora de se adaptar a esse novo cenário mundial (e nacional) recessivo, que exige mais investimentos do governo, do setor privado e mais demanda interna. E isso simplesmente porque não há outra alternativa diante da incerteza financeira e a estagnação externa que se agrava lá fora e já está sendo sentida aqui.

Afinal, não é isso que o Brasil vai propor aos países em crise na reunião do G-20? E a i inflação? Ora, diria o Nobel de Economista Paul Krugman, se voltasse ao Brasil, ela estaria sendo administrada pelas medidas provisórias, sim, mas efetivas do governo. Dá para deixar para cuidar dela depois. Agora, a prioridade é voltar a crescer e afastar o risco de recessão que se aproxima.

EDITORIAL FOLHA DE SP - Sai Marta, entra Haddad


Sai Marta, entra Haddad
 EDITORIAL 
FOLHA DE SP - 03/11/11

Ao confirmar, como parece inevitável, a vontade de seu cacique na escolha do candidato à Prefeitura de São Paulo, o PT fará uma aposta que ultrapassa o pleito de 2012.

Pressionada por Lula e pela presidente Dilma Rousseff, a senadora Marta Suplicy deve anunciar hoje sua desistência da prévia partidária que definiria o postulante da legenda na cidade.

Uma protocolar consulta interna, se necessária, apenas oficializará a candidatura do ministro da Educação, Fernando Haddad, há meses ungido pelo ex-presidente.

Marta enfrenta no PT dificuldades semelhantes às que criou para si mesma entre os eleitores de São Paulo. Apesar de contar com o apoio de parte da militância partidária e de ter respaldo nas camadas mais pobres da população, a ex-prefeita comporta-se muitas vezes de forma conflituosa, cria desafetos e alimenta resistências.

Na última pesquisa Datafolha sobre a sucessão municipal, a petista liderava a disputa com cerca de 30% das intenções de voto. Contava, em contrapartida, com a rejeição de fatia equivalente do eleitorado. A soma dos números a levaria, provavelmente, ao segundo turno -e à derrota.

Numa cidade e num Estado menos permeáveis ao apelo do lulismo, a ideia é mostrar uma nova face, um candidato com ares de moderado e "técnico", com potencial para conquistar simpatias.

Não faltam prestígio e qualidades intelectuais a Haddad. Mas, se sua passagem pela administração federal tem sido marcada por algumas iniciativas louváveis, saltam aos olhos os sucessivos fiascos operacionais na organização das provas do Enem. A cada aplicação do teste aparecem falhas, contestações e disputas judiciais.

Com esse passivo e desprovido de experiência eleitoral, Haddad deve ser alvo fácil para ataques de adversários. A seu favor, tem a idade, uma vez que, com 48 anos, pode usar a campanha como plataforma para futuras investidas.

A tentativa de reciclagem faz sentido, mas a forma como está sendo conduzida evidencia a acomodação burocrática e conservadora da máquina petista. O partido, que em outra época valorizou a participação de seus filiados nas escolhas programáticas e eleitorais, comporta-se atualmente como um rebanho, a seguir os desígnios de seu todo-poderoso pastor.

CLAUDIO HUMBERTO

“É preciso criar um estímulo para a comunicação dos crimes”
SENADOR WALTER PINHEIRO (PT-BA), DEFENDENDO DAR 10% A QUEM DENUNCIAR A CORRUPÇÃO

MINISTÉRIO DOS TRANSPORTES OMITE NOVO ESCÂNDALO 
A consultoria jurídica do Ministério dos Transportes se fingiu de morta diante de uma suspeita de conflito de interesses. O subsecretário de Assuntos Administrativos, Moacyr Roberto de Lima, contratou em 20 de janeiro a empresa Confere Comércio e Serviços para prestar serviços à pasta. Ele se desligou em fevereiro e virou consultor da Confere em 21 de março, onde ficou até 16 de agosto, atuando dentro do ministério.

VOLTA DE QUEM NÃO FOI 
Em 17 de agosto, Moacyr Roberto de Lima foi oficializado de volta no cargo que ocupava no ministério. Na cara lavada.

CONFERIDO NA JUSTIÇA 
A Confere é considerada “inidônea” desde 2007, após condenação por improbidade administrativa na Justiça do DF. Não podia fechar contrato. 

BENS BLOQUEADOS 
A Confere teve R$ 3 milhões em bens bloqueados pela 7ª Vara do Trabalho de Brasília, que apurou irregularidades em junho e julho.

BOM CURRÍCULO 
A assessoria do ministério dos Transportes informa que Moacyr Roberto de Lima foi contratado pela Confere pelo “bom currículo”, como assistente.

OIT DENUNCIA TRABALHO ESCRAVO DE ESTRANGEIROS 
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) pressionou o inepto Ministério do Trabalho a investigar o crescente trabalho escravo nas metrópoles brasileiras, onde se usa a força de imigrantes ilegais. A entidade apurou que a maioria é de bolivianos, paraguaios e peruanos. Atuam principalmente em São Paulo e região Centro-Oeste, em confecções clandestinas e em obras de grandes empreiteiras.

FALTA FISCAL 
A OIT começou investigação junto com o Grupo Especial Tático Móvel, do Ministério do Trabalho, que tem equipes insuficientes.

DEVASSA 
A meta da OIT é concluir a pesquisa no tripé Rotas, Setores e Cadeia Produtiva, para que a Polícia Federal faça uma devassa.

GOL DE MÃO 
Sócios do Fluminense, no Rio, ameaçam até virar Flamengo: sem aviso, o clube dobrou a mensalidade de R$ 45 para R$ 90.

SALÁRIOS ILEGAIS 
Antes de um advogado, a Associação dos Delegados de Polícia foi ao MPF contra o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, pelo acúmulo salarial de mais de R$ 50 mil ao mês, o dobro do teto de R$ 26,7 mil de ministros do STF. Esta coluna revelou o caso em julho.

O BONDE DO CABRAL 
O governador do Rio, Sérgio Cabral, aproveitou o escândalo do exílio forçado do deputado Marcelo Freixo (PSOL), ameaçado por milícias, e se “exilou” em Lisboa, de onde virão novos bondinhos de Santa Tereza.

OS INSACIÁVEIS 
Empreiteiras brasileiras na Líbia, como a Odebrecht, fazem grande esforço para se livrar da fama de manter relações especiais com o filho mais velho de 
Kadhaffi, Seif al-Islan, autêntica hidra insaciável. 

OSTENTAÇÃO 
Quando esteve em Salvador, recepcionado pela famosa empreiteira baiana, que colocou à disposição barcos e aviões, Seif al-Islan se esforçou para entrar no livro dos recordes em matéria de ostentação.

CASA COR 
O Gabinete de Segurança Institucional, comandado pelo general José Elito, vai gastar R$ 1,1 milhão em móveis nos próximos meses. A vencedora da licitação, de Brasília, tem assento permanente na parada: o último contrato com o Exército lhe rendeu R$ 4,2 milhões, em 2010.

MORREU DE VELHO 
A desconfiança dos políticos no SUS é tão velha quanto a lenda da “maldição do cocar”: Tancredo Neves foi o último a se internar no Hospital de Base de Brasília, e o Brasil inteiro sabe no que deu.

JUSTIÇA SEJA FEITA 
A Advocacia Geral da União obteve na Justiça R$ 1,6 milhão a ser pago pela Energisa Sergipe às famílias de 4 operários eletrocutados na montagem da “maior árvore de Natal do mundo”, em Aracaju.

A CONSULTORA 
Ana Claudia Albuquerque, que defende Cândido Vaccarezza (SP) em processos no TSE, garante que recebeu R$ 26 mil do líder do PT na Câmara por serviços de “consultoria”, e não de advocacia. Ah, bom...

PENSANDO BEM... 
Occupy SUS. 

PODER SEM PUDOR
QUESTÃO DE MEMÓRIA 
Na campanha presidencial de 1960, Jânio Quadros, dono de memória prodigiosa, seguia com rigor uma espécie de script, que incluía os gestos teatrais. Repetia o mesmo discurso em cada cidade. Milton Campos, o vice, ao contrário, abordava temas diferentes. Certa noite, Jânio observou:
– Dr. Milton, que maravilha. Um discurso para cada comício! Que cultura!
– Não é cultura, Jânio – respondeu Campos, gentil – é incapacidade de memorizar.

QUINTA NOS JORNAIS


Globo: Renda sobe mas desigualdade ainda impede avanço do Brasil

Folha: Contra referendo, Europa ameaça sufocar a Grécia

Estadão: Grécia deve aceitar plano ou deixar euro, determina UE
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 Correio: Passagens de avião sobem até 41% neste fim de ano

Valor: Europa ameaça Grécia e G-20 quer mais rigor fiscal

Estado de Minas: Mais uma semana de agonia no Buritis

Jornal do Commercio: Barco com turistas assaltado na praia
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 Zero Hora: Efeito ONGs - Pente-fino afeta 121 entidades no Estado

quarta-feira, novembro 02, 2011

IVAN MARTINS - Elas amam demais?


Elas amam demais?
IVAN MARTINS
REVISTA ÉPOCA

Não. Elas (e eles) apenas sofrem demais

Todo mundo conhece mulheres que amam demais - são aquelas que desabam quando os homens vão embora.

Ainda que elas vivam reclamando do sujeito, desmoronam no momento em que ele as deixa: não conseguem trabalhar, não conseguem dormir, não conseguem viver. Os amigos acorrem, a família se alarma, médicos são acionados. Mas nada é capaz de ajudá-las, nem ninguém. O desejo de viver parece ter sido levado pelo cara que foi embora. Tudo o que elas conseguem fazer é pensar nele. Mulheres que amam demais são obcecadas.

Conheci um rapaz que se envolveu num enredo desses.

Depois de um ano de namoro disfuncional – muita briga, um monte de sexo e nenhum plano em que coubessem os dois – o cara resolveu que era hora de terminar. Achou que a moça, que vivia reclamando dele, receberia a notícia sem surpresa, até com alívio. Qual nada. Assim que ele anunciou que não queria mais, ela sucumbiu. Não ali, na frente dele. Começou no dia seguinte, ao telefone: parecia outra pessoa, de tão abatida. Disse que não estava conseguindo sem ele. Depois começaram os torpedos no celular, num tom entre choroso e desesperado. Vários deles ao dia, que ele respondia meio sem jeito, tentando animá-la. Então as amigas dela começaram a ligar, deixando saber que a moça estava “praticamente suicida”. Sugeriam que ele fizesse algo. Mas fazer o quê, voltar? Ele não queria, muito menos com tanta confusão. Da última vez que eu soube do caso, ela continuava atrás dele, que tinha decidido bancar o doutor House: “Eu fico firme, mantenho a distância e digo a ela está fazendo papel de louca. Uma hora ela vai entender.”

Será?

Algo me diz que há muito mais a entender na vida dessas mulheres do que um pé na bunda. Mulheres e homens, aliás. Não são poucos os barbados que fazem esse papel desesperado. Rejeitados, preteridos ou abandonados, eles também abraçam o desespero como se não houvesse alternativa. Estão convencidos de que a vida sem aquela mulher não vale a pena. Desistem, ou quase isso – até que a próxima paixão os salve, e, tempos depois, os atire de volta ao fundo do buraco amoroso.

Eu tenho a impressão, porém, de que há menos homens assim do que mulheres, e não por razões biológicas. É que a cultura masculina, ao contrário da feminina, desestimula esse tipo de atitude. Quando o sujeito abandonado começa a enlouquecer, é mais provável que as pessoas digam, “Pô, rapaz, para com isso!” do que “Ai, amigo, eu te entendo tanto...” Faz diferença. Esse tipo de dor é uma questão íntima, claro. Pertence mais ao terreno da psicologia do que da sociologia. Mas a maneira como o mundo recebe certos comportamentos pode incentivar que eles ocorram. E o mundo, decididamente, está acostumado ao sofrimento amoroso das mulheres.

Há também o drama da cronologia. Homens com 30 anos acham que a vida está começando. Algumas mulheres com 30 anos sentem que já estão perdendo o bonde da própria vida. Dois relógios quebrados, mas cada um deles produz seu tipo de maluquice...

Seja ele feminino ou masculino, por trás desse bolero agonizante há um tipo de personalidade cuja principal característica, me parece, não é amar demais – é sofrer demais. Arrisco dizer que essa explosão de sentimentos não tem sequer relação verdadeira com o amor. Penso nos milhões de pessoas que amam de forma tranquila e profunda os seus parceiros. Penso em muitos que são deixados a cada dia e atravessam com dignidade o seu percalço. Penso naqueles que acordam de manhã, encaram o vazio e se levantam. Minha conclusão, diante do exemplo deles, é que não há correspondência entre a dor que se exibe e o amor que se sente. A dor dos sofredores é real. O amor eu não sei.

Minha impressão, nada científica, é que há um tipo de personalidade comum a essas grandes histórias de sofrimento, sejam de homens ou de mulheres.

O traço mais marcante dessa personalidade sofredora é a dificuldade em estar só. Gente que passa em paz um domingo de chuva não entra em pânico porque o namorado foi embora. Quem sabe o prazer de ir sozinho ao cinema não desespera com a perspectiva de ficar sem namorada. Uma pessoa que já tenha viajado sozinha sabe que as férias – ou o feriado de Ano Novo – podem ser uma ótima ocasião para conhecer gente legal. Não estou dizendo que a solidão é gostosa ou desejável, muito menos no longo prazo. Só estou sublinhando que há pessoas para quem a simples perspectiva da solidão é totalmente intolerável – e são elas que se desesperaram quando um relacionamento chega ao fim. Qualquer relacionamento.

Outra marca registrada das mulheres (e homens) que sofrem demais é a dificuldade em enfrentar rupturas. São os patologicamente apegados, a qualquer coisa e a qualquer um. Uma vez que você tenha entrado no círculo de intimidade dessa mulher ou desse homem, sair será um problema. A maioria de nós cultiva a mesma dificuldade em algum grau. Acertada uma situação – namoro, casamento, trabalho, endereço – a gente deseja que ela permaneça. Deve ser preguiça, escrita nos nossos genes. Mas pode ser também medo do que é novo e desconhecido. Quando alguém vai embora, por pior que seja, abre um vazio – que é preenchido, instantaneamente, pela mais intensa ansiedade. O que virá depois? Quem virá depois? Para alguns, esse doloroso período de dúvidas deve ser insuportável.

O terceiro elemento da alma desesperada é a dificuldade em arrumar companhia. Há pessoas para quem isso é fácil e outras para quem não é. Não se trata apenas de aparência ou de charme. Conheço mulher chata que não é bonita e nunca está sozinha. E outras bonitas e legais que penam para achar um par. Vale o mesmo para os homens, imagino. O tipo de gente que tem facilidade para achar parceiros reage com mais calma diante das perdas afetivas. Elas sabem, mesmo na dor, que daqui a pouco vai pintar outra pessoa. Quem não tem essa segurança pode facilmente cair no desespero. E muitas vezes cai.

O que se faz com tudo isso? Pouco. Saber não adianta muito quando uma amiga está descendo ao fundo do poço ou quando nós mesmos nos sentimos arrastados a ele. Mas ajuda, eu acho, dizer a quem sofre além dos limites que isso não é bom e nem é natural. É bom dizer a quem está assim que ela ou ele precisa de ajuda. O luto por um grande amor é normal, o desespero por uma relação meia boca não é. Há que entender a diferença. Nada pior do que uma pessoa mergulhada em depressão com gente em volta achando sublime, cena de romance. “Ai, eu te entendo tanto, amiga. Amar demais é difícil!” Nada disso. Amar demais é bom. Não poder amar é que é ruim (e sobre isso eu escrevo na próxima semana). Mas esse sofrimento aí não tem a ver com amor. A dor de quem sofre demais precisa ser tratada para que uma paixão de verdade possa aparecer.

ANCELMO GOIS - Centro de transplantes


Centro de transplantes
ANCELMO GOIS
O GLOBO - 02/11/11

O ministro Alexandre Padilha costura a cessão do Hospital de Ipanema, no Rio, para a Secretaria de Saúde de Cabral.

A ideia é reformá-lo para fazer dele um centro de excelência de transplantes. O projeto seria gerido pelo Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, em parceria com a Rede D’Or, mas 100% público. Vamos torcer, vamos cobrar.

Agenda de visitas
Dona Marisa assumiu a agenda de visitas a Lula.
Não se chega a ele sem passar por ela. Alguns amigos só conseguiram vaga na agenda para domingo.

Caro Lula...
Curado de um câncer linfático (o mesmo de Dilma) há oito anos, o ex-senador Saturnino Braga, 80, enviou mensagem a Lula com dicas para os meses de quimioterapia e radioterapia:

— Lula, querido, pare com o cigarro, mas beba de vez em quando vinho ou uma dose de uísque. Você não é de ferro. Não ligue se ficar enjoado e sonolento. Só passei mal uns seis meses. Depois, vida normal. Hoje, corro todo dia e bebo meu uisquinho.

Caro sr. Inácio...
Martinho da Vila, que chama Lula de “sr. Inácio” e é chamado por ele de “Zé Ferreira”, também escreveu ao ex-presidente:

— Ainda faremos aquela pescaria que nos prometemos desde o primeiro mandato!

Ficou para depois...
Lula, antes de saber da doença, tinha marcado com Cabral e Paes de vir ao Rio sexta para conhecer as obras da Transoeste e almoçar na Gávea Pequena.

Fim de linha
Sandra de Sá e Adriana Milagres puseram o ponto final num relacionamento de 12 anos.
A Nega Produções, de Adriana, que cuidava da carreira da cantora, também não a representa mais. O desfecho evoluiu para uma ação na Justiça.

Brasil solidário
Já foram tantas as doações do Brasil a países pobres, sobretudo da África, que o Programa Mundial de Alimentos da ONU decidiu dar a Dilma o título simbólico de “Campeã Mundial na Luta contra a Fome”.
Josette Sheeran, diretora-executiva da entidade, vem ao Brasil segunda agora para isso.

Segue...
Será em Salvador, na inauguração do Centro de Excelência de Combate à Fome da ONU.
Jacques Wagner, governador da Bahia, prepara a festa para a presidente.

Lei Seca
O STF decidiu que não é preciso causar acidente ou morte para um motorista responder pelo crime de dirigir bêbado.

A decisão, relativa ao processo de um bebum de Minas parado numa blitz, cria jurisprudência para casos iguais no país todo. Eu apoio.

Beth tá na rua
Beth Carvalho, nossa cantora, assinou com a EMI (veja na foto com o diretor da gravadora, Jorge Lopes).
Vai lançar pela multinacional seu novo CD, “Nosso samba tá na rua”. O disco trará uma dedicatória à Dona Ivone Lara, que fez 90 anos em abril.

Loura nordestina
A cerveja Proibida, da cearense CBBP, contratou a Artplan para apresentar a marca ao Rio.
A loura premium chega às gôndolas cariocas este mês.

Corações partidos
A 6a- Câmara Cível do Rio condenou um carioca a indenizar a ex-noiva em R$ 11.553,03.
Segundo a sentença, o rapaz rompeu o noivado numa conversa, não com a moça, mas com os pais dela, aos quais teria contado detalhes do relacionamento. Além disso, teria ignorado despesas já feitas para o casamento.

Boletim médico
Dicró, o sambista, está internado desde sexta no Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, em Saracuruna, RJ, onde passou por uma cirurgia na vesícula.
Ontem, já estava num quarto, estável.

Inflação de Deus
O valor da missa encomendada na Paróquia de N. S. de Copacabana subiu 100%, de R$ 5 para R$ 10, com a proximidade do Dia de Finados.

ROLF KUNTZ - A enrolação como política


A enrolação como política
 ROLF KUNTZ
O ESTADÃO - 02/11/11

Pelas contas do Planalto, até a crise internacional deve ajudar nas eleições de 2012 e na preparação da campanha de 2014. Mas o plano, um tanto ousado, pode sair caro a médio prazo. O governo aposta no esfriamento da economia para frear a inflação com os juros em queda e sem contenção de gastos. Ao mesmo tempo, e um tanto estranhamente, conta com o crescimento da receita para alcançar sem esforço a meta fiscal neste ano e no próximo. A disposição de evitar qualquer política séria foi duas vezes confirmada em menos de uma semana. O Ministério da Fazenda cortou um tributo e adiou a elevação de outro para conter temporariamente os preços. Isso foi chamado de política "heterodoxa". Mas é só um truque de ocasião.

O primeiro lance foi para amortecer o efeito de um aumento de preços da gasolina e do diesel. Para isso foi cortada a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) paga sobre combustíveis. O segundo foi o adiamento, até maio, da cobrança do aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) recolhido sobre cigarros.

Ao mexer nos tributos, o governo evitou o impacto imediato em alguns preços e, é claro, nos índices de inflação. Mas isso não é política anti-inflacionária. A inflação não é causada por aumentos de impostos nem pelo encarecimento de alguns produtos. O processo inflacionário sempre envolve mudanças de preços relativos, mas a recíproca não é verdadeira. No caso brasileiro, cortes de impostos podem conter os preços a curtíssimo prazo, mas novos aumentos voltarão a ocorrer, se a demanda for suficiente para absorvê-los.

Apesar de alguma piora no ambiente econômico, não há sinal, por enquanto, de redução significativa da procura. Pesquisa da Federação do Comércio do Estado de São Paulo mostrou uma redução das perspectivas de consumo das famílias, mas o indicador ficou em 135,3 pontos, ainda muito elevado e praticamente igual ao de um ano atrás. Esse índice varia de zero a 200 pontos e é considerado positivo acima de 100.

Em agosto, segundo o IBGE, o volume de vendas no varejo foi 0,4% menor que em agosto e 6,2% superior ao de agosto de 2010. Os indicadores mensais diminuíram em oito dos dez segmentos cobertos pela pesquisa, mas, apesar disso, a demanda se manteve elevada. De janeiro a agosto, ficou 7,2% acima da registrada no ano anterior.

Em setembro, a desocupação observada nas seis maiores áreas metropolitanas ficou em 6%, o menor número para o mês desde 2002. A massa de rendimentos foi 1,9% menor que a de agosto - efeito evidente da inflação - e 1,4% maior que a de um ano antes. Com o emprego elevado e o crédito ainda em expansão (aumento de 1,7% no saldo de operações com recursos livres, em setembro), a própria inflação, por enquanto, é o principal fator de susto para os consumidores.

Como vem sendo observado há meses, há um descompasso entre a atividade industrial e a demanda interna. A produção caiu 2% em setembro, segundo informou o IBGE nesta terça-feira, mas a procura continua sendo suprida pelo fornecedor estrangeiro. Em outubro, o valor exportado, US$ 22,1 bilhões, foi um recorde para o mês, mas o bom resultado se deveu, novamente, às cotações dos produtos básicos. Em contrapartida, o valor importado, US$ 19,8 bilhões, também foi recorde, mas sem efeito especial de preços.

O valor gasto com bens de capital estrangeiros, US$ 3,9 bilhões, foi 10,3% maior que o de 12 meses antes. A produção interna de bens de capital, no entanto, diminuiu 5,5% de agosto para setembro e foi 0,2% maior que a de igual mês de 2010. As importações de bens de consumo, US$ 3,5 bilhões, ficaram 17,2% acima das de um ano antes. As de matérias-primas e bens intermediários, US$ 8,7 bilhões, custaram 11,8% mais que em outubro de 2010.

Muito mais que um esfriamento conjuntural da economia, há um claro problema de competitividade, mas o governo insiste em enfrentá-lo com medidas de alcance mínimo, como as do Plano Brasil Maior. A própria inflação torna o Brasil menos competitivo, ao ampliar de forma continuada o descompasso entre custos internos e externos, mas o governo despreza esse dado. A mesma indisposição para agir com seriedade se manifesta na política fiscal. O superávit primário tem dependido basicamente da arrecadação. Em setembro, as contas ainda foram ajudadas pela valorização efêmera do dólar, graças ao volume de reservas e à posição credora em moeda estrangeira.

Para manter os cortes de juros e obter o superávit primário programado para 2012, sem desconto de investimentos, o governo precisará cortar gastos estimados entre R$ 60 bilhões e R$ 67 bilhões, segundo consultorias citadas pelo Estado. Seria uma forma de atacar os problemas, em vez de contemporizar. Mas o governo parece ter esquecido essa cultura.

MURILO ARAGÃO - O cisne negro, o mercado e a política ante a doença de Lula


O cisne negro, o mercado e a política ante a doença de Lula
MURILO ARAGÃO
O TEMPO - 02/11/11

O mercado tende a ser míope quando se trata de política. Às vezes me pergunto se tal deficiência decorre de insuficiência intelectual - hoje mais do que comprovada com a sucessão de tolices e tragédias feitas pelo mercado financeiro e em nome dele mundo afora. Pelo menos no Brasil, a miopia do sistema não é justificada.

Entre meados dos anos 1990 e 2010, a lucratividade dos bancos foi de 196% contra 29% das empresas. O lucro extraordinário deveria ter estimulado uma visão mais reflexiva e até mesmo mais humana do mundo dos negócios. Não é o que acontece. O calote grego, que esperamos seja pedagógico, como foram os calotes russo e argentino, é a prova da "competência" e do "descortino" do sistema. Se existe o governo por trás bancando - o que não é nada "neoliberal" -, tudo funciona bem. Calotes não existem e os lucros vêm de forma avassaladora.

A capa da "The Economist" da semana passada é emblemática: "nowhere to hide". Conversando com banqueiros e investidores em Londres na semana passada, a sensação que tive foi a mesma que tenho em relação à oposição brasileira: cachorros que caíram do caminhão de mudança e não sabem para onde ir. Aqui, ainda bem, é tudo diferente. Os governos FHC e Lula estabeleceram padrões elevados de governança das instituições financeiras, mantiveram mais de 50% do sistema debaixo das asas estatais e, ainda por conta de explicações mirabolantes, mantiveram os juros muito acima do razoável.

Pois bem, confiantes de que as coisas continuam indo bem, pouco a pouco se distanciam da política. Como bem explicou uma das melhores comentaristas econômicas do país, Thais Heredia, a demissão de Orlando Silva provou a "desimportância" da política para o mercado. Infelizmente, não é assim. Quem despreza a política será punido por ela.

A política tem um imenso potencial de destruição daquilo que chamamos de "mercado". A prova está na produção monumental de estrume pelos organismos políticos da Europa e no resultado catastrófico que isso resultou. Nicolas Sarkozy, pateticamente, afirmou que a Grécia não poderia ter entrado na Comunidade Europeia porque deu informações falsas! Ora bolas, será que os mecanismos institucionais comunitários e os próprios mecanismos de análise dos gigantescos bancos europeus não foram capazes de identificar a "roubada" em que estavam se metendo? Claro que não.

No afã de obter resultados e na adesão não reflexiva aos cânones ditos neoliberais, embarcaram na canoa furada e agora o erro vai custar caro para o cidadão comum europeu. Ora, o mercado financeiro brasileiro - abençoado tanto por lucros estratosféricos quanto por agentes reguladores competentes e clientes bons pagadores - não deve se afastar do que é a análise política. Vai que aparece um "cisne negro"?

Pois bem, antes mesmo de concluir este artigo, surgiu a notícia da doença de Lula. Foi triste e irônico. Na sexta-feira fiz palestra para investidores em Londres. Ao responder à pergunta sobre o que poderia dar errado no Brasil na cena de curto e médio prazos, disse que, entre o previsível - incompetência, burocracia, ineficiência - e o imprevisível - uma doença, um atentado terrorista ou coisa que o valha -, temia o imprevisível. Um "cisne negro", algo inesperado e fora do radar.

Infelizmente, o "cisne negro" apareceu: a doença de Lula. Felizmente, as chances de cura são razoáveis: acima de 60%. A feliz coincidência da ida ao hospital para examinar o mal-estar de dona Marisa fez com que o tumor fosse descoberto. Considerando o fato e o histórico de lutas e de sorte que acompanham Lula, tudo vai ficar bem. Porém, não devemos, jamais, deixar de pensar em como o processo político vai funcionar.

MARTHA MEDEIROS - Quarto



Quarto
MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 02/11/11 

Estamos em plena vigência da Feira do Livro e aproveito para fazer uma recomendação de leitura, já que ainda estou sob o efeito do prazer de tê-lo tido em mãos. Chama-se Quarto, da irlandesa (hoje residente no Canadá) Emma Donoghue.

Vou contar do que se trata, e vai parecer que estou estragando o prazer da descoberta, mas não é nada que já não esteja revelado na contracapa: a história é narrada por um garotinho de cinco anos que vive enclausurado com a mãe num quarto. Ele nasceu lá dentro e nunca saiu pra fora. Nunca.

Seu universo está concentrado entre as quatro paredes daquele cubículo, que a mãe se esforça para transformar num espaço lúdico e estimulante – o que, espantosamente, consegue, apesar da tragédia de estar sequestrada há sete anos.

Quando eu soube do enredo, vi algumas semelhanças com o filme A Vida é Bela, em que o personagem do ator Roberto Benigni faz o possível para que seu filho não perceba que estão trancafiados num campo de concentração.

Mas Quarto vai muito além dessa atitude de amor extremo que faz com que queiramos proteger nossos filhos da violência emocional, nem que para isso seja preciso ocultar-lhes a verdade. O livro confirma a tese de que nada é mais universal que o nosso umbigo e que uma história confinada em si mesma (e põe confinada nisso) traduz a humanidade toda.

Em geral, acho chato ler obras narradas por crianças, salvo algumas exceções. Essa é uma exceção com honra ao mérito. Jack, o garoto preso com a mãe, tem uma inocência que não é apenas terna, mas também inteligente. Através de seu olhar absolutamente inédito para tudo que conhece (e esse tudo é tão pouco), passamos a enxergar as coisas como elas de fato são, sem os condicionamentos a que nos acostumamos.

Não deixa de ser uma narrativa de horror e suspense, mas com profundo teor psicológico – felizmente, sem didatismo ou qualquer pretensão. Inclusive, a certa altura do livro, há um trecho em que a autora debocha das tentativas de se intelectualizar tudo o que acontece e de interpretações pseudofilosóficas que mais complicam do que explicam. Diante de um sabe-tudo exibicionista, um dos personagens resmunga: “Esses sujeitos passam tempo demais na faculdade”.

Quarto é um livro simples, com diálogos espertos e verossímeis. Não requer nota de rodapé. De forma comovente sem ser piegas, apenas utiliza uma história original – beirando o surreal – para lembrar o que todos intimamente sabem: que o cativeiro (ou o útero, a ignorância, os costumes, as convenções, os preconceitos – escolha sua própria metáfora para confinamento) é, no fundo, estabilizante, e que nada é mais assustador do que a liberdade.

GOSTOSA


ALON FEURWERKER - Será diferente?


Será diferente?
ALON FEURWERKER 
CORREIO BRAZILIENSE - 02/11/11

E agora vem o G-20. Mais uma reunião do G-20. Aquele grupo de países que iriam — lembram-se? — concretizar a multipolaridade planetária na esfera econômica e provar que a coordenação supranacional é o caminho da salvação

A reunião do G-20 vai trazer fortes emoções, com a corrosão do apoio político interno na Grécia a um ajuste capaz de reequilibrar a economia daquele país. A Europa vem tentando fazer sua parte, mas arrisca perder o controle da situação.

A Europa obrigou os bancos a engolirem o deságio de metade do valor de face da dívida grega. A União Europeia mostrou que tem líderes e que os contratos não são religião, cumpri-los não é dogma.

Mas o cenário político grego parece frágil demais para ajudar na estabilização. Como quando alguém está se afogando e quem vai salvar corre o risco de ir junto para o fundo. É um jogo perigosíssimo.

A Europa não pode deixar a Grécia sucumbir, e talvez os gregos acreditem que podem conseguir mais. Pois mesmo com metade da dívida perdoada o serviço do resto vai pesar sobre os ombros helênicos.

Fartaram-se no banquete e esperam ficar fora do rateio da conta.

Esse é um problema prático imediato. Outro detalhe preocupante são os vasos que propagam a desaceleração global. O economista Nouriel Roubini apitou ontem no Twitter: os emergentes não estão imunizados contra a crise e sentem o breque na economia.

No nosso caso, nem precisava advertir. Os últimos números da indústria brasileira, por exemplo, são muito ruins. Uma parada generalizada. Uma estagnação que se propaga pelos diversos ramos.

No acumulado, até agora o chamado setor secundário não se recuperou da “marolinha”. E que “marolinha”, hein?

O governo brasileiro tinha uma estratégia esperta para lidar com a crise de 2008/09. Atacar e culpar os países ricos, e esperar quietinho que as providências deles resolvessem nossos problemas por tabela. O melhor dos mundos.

O raciocínio na Esplanada era reto: uma hora os Estados Unidos e a Europa vão ter que descobrir o caminho de saída do buraco, e quando saírem, nós saímos junto. O ufanismo de boca acoplado ao reboquismo na vida prática.

Tanto que maiores providências só foram tomadas mais de dois anos depois, com medidas protecionistas e afrouxamento da política monetária.

Ao ilusório livrecomercismo (quem ainda se lembra da Rodada Doha?) e ao irracional aperto monetário bancados por Luiz Inácio Lula da Silva naquele momento decisivo, Dilma precisa, com atraso, contrapor o protecionismo e a queda forçada dos juros em cenário inflacionário não tão bom.

Precisa lidar com uma herança maldita.
E agora vem o G-20. Mais uma reunião do G-20. Aquele grupo de países que iriam — lembram-se? — concretizar a multipolaridade planetária na esfera econômica e provar que a coordenação supranacional é o caminho da salvação.

Até o momento, não aconteceu nada, mas não custa ter fé. Talvez ela remova essa montanha.

Como de hábito, haverá discursos em profusão e recriminações professorais. Com o Brasil certamente em posição de destaque no plano retórico e na função de palmatória do mundo, uma especialidade recente nossa.

Mas, em termos práticos, o que fazer? Ou, em miúdos, quem vai pagar essa conta? Que contribuintes? Que acionistas? Que consumidores? É disso que se trata.

O melhor cenário seria uma saída em ordem, mas é difícil. Pois é improvável que o balanço das perdas possa ser decidido na mesa de negociações. A humanidade costuma resolver esses impasses de um modo mais cruento. Será diferente desta vez?

Boa parte da prosperidade mundial era fictícia e chegou a hora de cair na real.

Fora os que sempre dão um jeito de sair ganhando, para a maioria da humanidade a vida reserva a destruição maciça da riqueza imaginária. E bem quando os governos já esticam a língua para tentar capturar um restinho de oxigênio.

Não está fácil para ninguém.
A História conta que encrencas assim costumam ser resolvidas na base da força, dentro de cada país e entre as nações. Em geral, os colóquios apenas chancelam esse balanço de vetores objetivos.

Repito a pergunta. Será diferente desta vez?