terça-feira, junho 07, 2011

DORA KRAMER - Sem mais delongas


Sem mais delongas 
DORA KRAMER

 O Estado de S.Paulo - 07/06/2011

Na primeira semana cobraram-se explicações, na segunda discutiu-se a demissão e agora, na terceira semana desde a descoberta de que o ministro da Casa Civil enriqueceu ao ponto de pagar R$ 6,5 milhões por um apartamento só "para investir", o que se tem é uma presidente à frente de um governo refém das circunstâncias e das pressões.

Ora espera a chegada de Lula a Brasília, ora aguarda a manifestação do procurador-geral, ora tenta pesar e medir se há alguma chance de o caso esfriar. Fato é que a presidente Dilma Rousseff vai perdendo a chance de chamar a si a decisão sobre o destino de Palocci e, com isso, prolonga a crise.

Daqui em diante a cada dia aumenta o risco de o caso deixar de ser uma questão pessoal para dar margem a questionamentos mais gerais.

Até agora a boa-fé geral tomou como verdadeira a justificativa de que o enriquecimento, notadamente o faturamento de R$ 10 milhões nos dois meses que antecederam ao encerramento das atividades de consultoria da empresa Projeto, deveu-se à prestação de serviços de aconselhamento empresarial.

Não demora essa hesitação toda dará margem à dúvida sobre a origem do dinheiro: terá sido mesmo de consultorias? Antonio Palocci não quer revelar a lista de clientes. Prefere cair a fazê-lo.

Considerando a incompatibilidade existente entre a confidencialidade de contratos privados e a transparência exigida ao agente público, Palocci deveria ter tomado a iniciativa de sair no momento em que escolheu preservar a clientela.

A menos que essa clientela simplesmente não exista, que esse argumento da confidencialidade esteja escondendo uma impossibilidade de explicação maior ainda e que o dinheiro tenha outra origem. Sobras de campanha, por exemplo, como registram algumas suspeitas vocalizadas por oposicionistas.

Aí o problema não seria mais de natureza pessoal. Diria respeito à coletividade envolvida no projeto político que propiciou a arrecadação. É só uma hipótese, como várias outras que proliferam no pantanoso terreno das incertezas.

Primeiro foi Palocci quem alimentou as dúvidas ao demorar a se manifestar e agora é a própria presidente quem dá ensejo a toda sorte de versões ao titubear na tomada de uma decisão que, em tese, é intransferível.

Sua autoridade já havia sido seriamente abalada quando o ex-presidente Lula desembarcou em Brasília para tentar organizar a confusão resultante do silêncio do ministro-chefe da Casa Civil somada à desordem nas relações do Planalto com o Congresso.

Ao se deixar pautar pela volta de Lula à capital e pelo parecer do Ministério Público, Dilma Rousseff torna um pouco mais inconsistente o capital de credibilidade que vinha conseguindo amealhar nesses meses desde a posse.

Abre mão da chance de retomar o comando de seu governo, justamente no momento em que perde seu principal anteparo. Não cabe, ou pelo menos não deveria caber, a Lula essa decisão.

Tampouco uma resolução que diz respeito ao funcionamento do governo pode ser transferida ao procurador-geral, Roberto Gurgel. Ele decidirá sobre a abertura ou não de investigações no âmbito do Ministério Público.

Quem está apta a deliberar sobre a permanência ou não de um ministro é a presidente, baseada em critérios próprios de julgamento a respeito das condições que esse mesmo ministro reúne para prosseguir na posse de suas atribuições.

Ela é o árbitro dessa questão. Com todos os ônus e bônus daí decorrentes. Se não é capaz de pesar e medir levando em conta as balizas da lógica, da política, da ética e daquilo que espera dela a sociedade, não será capaz de levar a bom termo a Presidência da República.

O segundo desembarque de Lula em Brasília só confirmará as piores expectativas de que Dilma seria uma presidente de direito tutelada pelo ex-presidente que exerceria por intermédio dela um terceiro mandato de fato.

Aos navegantes. Margareth Palocci manda avisar a quem interessa: seu marido espera do PT e do governo o mesmo tratamento que tiveram José Dirceu, Delúbio e companhia.

JOÃO PEREIRA COUTINHO - Regressar para casa


Regressar para casa
JOÃO PEREIRA COUTINHO
FOLHA DE SÃO PAULO - 07/06/11

Quando o português chora, não espera só compaixão; espera que alguém tenha pena dele e o adote


NÃO SE iluda, leitor: tudo aquilo que você pensa saber sobre Portugal e os portugueses está errado.
Verdade que são os próprios lusos a cultivar a imagem enganadora: um povo triste, melancólico, com pouca "autoestima". Cantam o fado, não matam o touro, esperam por el-rei d. Sebastião, perdido nas batalhas de África -e suspiram pela grandeza do Império passado.
Basta visitar uma livraria de Lisboa para encontrar a indústria profícua da lamentação nacional. José Gil, filósofo, escreveu em 2004 "Portugal, Hoje - O Medo de Existir".
Dizia Gil que os portugueses não afirmam nada, não se afirmam em nada; não "inscrevem" na existência pessoal ou coletiva nenhum gesto ou acontecimento que transforme as suas pobres vidas. Esse "nevoeiro" ontológico, essa "doença", seria herança da ditadura de Salazar.
O livro virou best-seller. Nenhum espanto. Os portugueses gostam de consumir o culto da sua própria infelicidade. Às vezes penso que as livrarias portuguesas deveriam ter uma seção de "Autoflagelação", tal como os brasileiros têm prateleiras de "Autoajuda".
Há quem veja nisso falta de autoestima. Eu vejo o contrário: excesso de autoestima, narcisismo infantil, negação terminal da realidade.
Quando um português chora a sua sorte, ele não espera apenas compaixão; espera, como os órfãos de Charles Dickens, que alguém tenha pena dele e o adote.
O problema não é psicológico; muito menos um produto do salazarismo. O problema é estruturalmente histórico e resume-se numa frase: a história de Portugal é uma história de adoções contínuas.
Não poderia ser de outra forma: com um território pequeno e periférico e um solo pouco promissor para a sua própria subsistência, a história portuguesa fez-se para fora. Em busca de salvações instantâneas.
África, Índia, Brasil: é possível escrever páginas notáveis sobre os descobrimentos. O heroísmo dos portugueses e o sacrifício celebrado por Camões ou Fernando Pessoa merecem admiração poética.
Mas essas páginas não devem esconder a fome e a pobreza que as precipitaram.
E não devem esconder que por cada navio de ouro e especiarias que chegava do Atlântico ou do Índico havia um reino que se despovoava; uma indústria que não se desenvolvia; uma agricultura rudimentar; e uma máquina do Estado gigantesca e perdulária que, ao contrário dos países do Norte, foi devorando os recursos dessas aventuras marítimas -e esmagando as expressões de independência e livre iniciativa fora da alçada do Estado.
Os vícios dos portugueses não são um produto do salazarismo; desde logo porque o salazarismo apenas prolongou, com os recursos típicos de uma ditadura, uma tradição patrimonialista que é indissociável da identidade do país.
É por isso que o português se confronta hoje com um dos momentos mais dramáticos da sua história. E dramático pela originalidade da situação: não existe mais África; não existe mais Índia; não existe mais Brasil. Não existem, no fundo, os balões de oxigênio que insuflaram vida nos pulmões dos lusitanos.
E se é verdade que a União Europeia foi o último balão de oxigênio, não é menos verdade que ele dá sinais de esgotamento.
Culpa de quem? Se ouvirmos os sábios habituais da tristeza lusitana, a culpa é da Alemanha e dos países ricos da União, que deixaram de ser "solidários" com os países pobres da periferia.
É uma tese apropriada para crianças, não para adultos.
Um povo adulto deveria saber que esse último balão de oxigênio se esgotou da mesma forma que se esgotaram todos os outros: pelo desperdício dos recursos que chegaram de Bruxelas; pelas dívidas ruinosas que a entrada no euro permitiu; pelo não investimento no desenvolvimento e na competitividade da economia interna. "Déjà-vu".
E agora, quem nos adota?
Essa pergunta daria um bom fado. E é provável que, nos próximos meses, ou anos, com um país em recessão, desemprego recorde, conflitualidade social nas ruas e uma eventual expulsão do euro, se multiplique o número de livros em melancólica masturbação.
Não tenciono lê-los. Prefiro acreditar, nas horas de otimismo, que existem vantagens na crise corrente: um povo que viveu sempre do exterior está hoje condenado a regressar para casa. Não é grave.
Regressar para casa talvez seja a única forma de, por uma vez na vida, simplesmente arrumá-la.

MÍRIAM LEITÃO - Ocaso de Palocci


Ocaso de Palocci
 MIRIAM LEITÃO

 O Globo - 07/06/2011

O governo Dilma ficou mais fraco desde o começo da crise de Antonio Palocci. O que ficou claro é que a presidente Dilma perdeu uma peça importante que não só era o melhor interlocutor para a economia, como também uma pessoa com experiência de articulação política. Aos cinco meses de vida o governo parece sem rumo, ao sabor das pressões e tutelado pelo ex-presidente.

A ideia de que a solução é ter uma Dilma da Dilma é evidentemente falta de entendimento da complexidade dos riscos a que o governo está exposto neste momento. De um lado, a capacidade gerencial da presidente na Casa Civil foi mais produto de marketing eleitoral do que comprovação dos fatos, como se vê hoje pelas várias descobertas de que, passada a maquiagem eleitoral, os projetos estão emperrados por falta de capacidade de execução dos empreendimentos. Por outro, porque até Palocci, que era mais experiente, foi encurralado pelo excesso de demandas de um voraz PMDB e pelos interesses fragmentados de uma base difícil de administrar.

O que cai por terra nessa crise é a análise superficial que sustentava, no início da administração, que Dilma seria ainda mais forte do que Lula porque tinha uma coalizão mais ampla. Contavamse números de parlamentares como se fossem comprovações de unidade. Mas cada partido do país é um aglomerado de interesses muitas vezes paroquiais. Os mais de 75% de deputados que são da base governistas vão se organizar de maneira diferente a cada votação ou dependendo do contexto das nomeações feitas por seus indicados.

O sistema político brasileiro é intrincado e exige a liderança presidencial. Os expresidentes Fernando Henrique e Lula puderam ter chefes da Casa Civil com perfil técnico, como Clóvis Carvalho e Pedro Parente ou a própria Dilma, porque tinham capacidade de negociação com as suas disformes bases políticas. Mas, no cotidiano, o governo tem que enfrentar coalizões em torno de interesses que podem derrotá-lo, como no Código Florestal, ou em torno de demandas pessoais ou de grupos, como nas nomeações para cargos.

Palocci nos últimos dias se tornou o centro de toda a discussão em torno do governo, e quando isso acontece, ao contrário do que disse na entrevista à TV Globo, a crise não é pessoal, mas do próprio governo. Ele passou de ponto forte a calcanhar de aquiles; de ministro poderoso a ponto de chantagem política. A cada aborrecimento uma parte da base reagia ameaçando convocar Palocci para depor, como forma de pressionar para o atendimento de demandas, em geral, descabidas. Uma pessoa com esse grau de fragilidade não pode comandar a Casa Civil.

Palocci não é um outro caso Erenice Guerra. A exchefe da Casa Civil do presidente Lula foi indicação direta da então candidata Dilma Rousseff, que, ao indicá-la, mostrou falta de capacidade de avaliar uma pessoa com a qual trabalhou com total proximidade. Palocci é quadro do PT. Os dois haviam se desentendido antes e ele foi conquistando espaço durante a campanha eleitoral.

Palocci tem serviços prestados ao PT, ao ex-presidente Lula e à presidente Dilma. Ele foi o primeiro a entender, no entorno do então candidato Lula em 2002, a importância de se fazer uma transmutação do discurso do “contra tudo o que está aí” para a “Carta aos brasileiros”. Foi ele que lutou internamente para que a carta não fosse uma promessa vazia, mas um esforço de fato para manter a estabilidade da moeda. Se ele não tivesse sido firme — inclusive enfrentando brigas intestinas no PT — a história do governo Lula seria bem outra. O país não queria a inflação de volta e ele entendeu isso antes do grupo dos economistas do PT.

No início da campanha eleitoral de Dilma Rousseff, Palocci foi de empresa a empresa, de banco a banco, sustentando que a candidata manteria as bases da política econômica anterior. A grande desconfiança vinha do fato de que as teses que ela tinha defendido — inclusive na briga com Palocci em 2005 — mostravam tendência à ampliação do gasto público e da estatização. A partir das garantias dadas por Palocci aumentaram as contribuições à campanha da candidata.

Mas os erros de Palocci sempre são devastadores. Ainda que o Supremo Tribunal Federal o tenha excluído da ação sobre a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, as suspeitas continuaram. Até porque a ele é que interessava a informação que se buscou indevidamente naquela ação ilegal. Era de Palocci que Francenildo falava quando dizia que confirmaria até a morte a frequência na casa do lobby de Brasília. Foi o que levou à queda do ministro em 2006.

Agora, o crescimento rápido do patrimônio era um indício de algo estranho. Seu silêncio longo demais só aumentou a desconfiança em relação ao salto patrimonial. Suas explicações quando vieram nada explicaram. Qualquer pessoa com mediana informação sobre como funciona o mercado de consultoria não se convence com aquelas explicações de que no último mês de funcionamento da empresa ela faturou muito mais porque rompeu os contratos. Mal preparada e atrasada, a defesa não convenceu. E a crise é sim do governo.

MERVAL PEREIRA - Sair ou sair


Sair ou sair 
MERVAL PEREIRA

O Globo - 07/06/2011 

Para se ter uma ideia de como a situação do chefe do Casa Civil, Antonio Palocci, está se deteriorando, basta ouvir as especulações políticas que se fazem em torno de seu destino, mesmo depois de o procurador-geral da República ter decidido arquivar o pedido de inquérito contra ele, por considerar que não há indícios suficientes.

Continua sendo majoritária a sensação de que Palocci tem que sair, pois as acusações de que a decisão oficial foi tomada a seu favor através de conchavos de bastidores não deixarão que a sombra da suspeição o abandone.

Principalmente porque a recondução de Roberto Gurgel ao cargo de procuradorgeral da República está para ser decidida pela presidente Dilma e desafortunadamente deve ser anunciada nos próximos dias, uma coincidência no mínimo desagradável politicamente.

Ainda mais depois que a Caixa Econômica Federal apontou oficialmente o Ministério da Fazenda como o mandante da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, anulando moralmente a decisão do Supremo de livrá- lo dessa acusação.

No entanto, no despacho do procurador-geral há o registro de que, “não competindo ao Supremo Tribunal Federal processar e julgar atos de improbidade administrativa atribuídos a autoridades com prerrogativa de foro, não detém o procurador-geral da República atribuição para a análise das representações sob tal perspectiva, incumbindolhe o seu exame exclusivamente no aspecto penal”.

Com isso, o procurador retirou sua responsabilidade sobre uma eventual improbidade administrativa cometida pelo ministro Palocci, lembrando que “tramita na Procuradoria da República no Distrito Federal inquérito civil instaurado para apurar, sob a ótica da improbidade administrativa, os mesmos fatos”.

Palocci começou tendo o apoio velado até da oposição, e seu silêncio nos primeiros dias era sinal de que considerava que a questão seria superada com o tempo, caindo no esquecimento.

Hoje, o próprio PT já puxou o tapete sob os pés de Palocci — negando-lhe apoio formal —, o PCdoB pede uma solução rápida que fortaleça a autoridade da presidente, e a Força Sindical pediu seu afastamento.

Vários companheiros seus já dão declarações contra a permanência no cargo, e ele mesmo, na entrevista que concedeu à Rede Globo, colocou- se à disposição da presidente Dilma para ser afastado, afirmando que a crise política não tem nada a ver com o governo, mas apenas com ele mesmo.

Parece disposto a se sacrificar para não contaminar o governo da presidente Dilma. Tenho a forte impressão de que Palocci se afastará do governo, mesmo com a decisão do procurador-geral da República.

Sairá respaldado pela decisão do procurador-geral, mas poderá permanecer afastado até que o inquérito civil termine. Haverá uma razão concreta para a atitude, e a possibilidade de reeditar nesse caso a emblemática decisão do então presidente Itamar Franco, que afastou seu chefe do Gabinete Civil Henrique Hargreaves, diante de acusações menos graves até, e reconduziu- o tempos depois, quando o inquérito concluiu por sua inocência.

Sem contar com a possibilidade de fatos novos surgirem, no campo político, com a assinatura de membros da base aliada para a abertura de uma CPI, como já fez ontem a senadora Ana Amélia e prometem fazer outros, que só esperam a palavra do procurador. Na falta de inquérito, pelo menos o senador Pedro Simon já anunciou que assinará o pedido de CPI.

No campo pessoal, fatos novos surgem todos os dias, como essa estranha empresa laranja que é dona do apartamento onde a família Palocci reside de aluguel, apesar de ter outro belo apartamento fechado na mesma cidade de São Paulo.

Para complicar ainda mais a situação política, a presidente Dilma deixa escapar que se aconselhará com o expresidente Lula antes de tomar uma decisão.

Não poderia dar maior demonstração de que é tutelada, como a oposição acusava durante a campanha presidencial.

A presença de Lula no centro das negociações políticas na semana anterior, reunindo- se com os senadores da base aliada na casa do presidente do Senado, José Sarney, e dando orientações sobre como superar a crise, já havia corroído a credibilidade da presidente.

Os registros de que ela havia ficado aborrecida com o tamanho da intromissão e a falta de cuidado de preservar sua autoridade por parte de Lula pareciam demonstrar que, afinal, a presidente reagiria para recuperar o lugar que é só seu no posto de comando das ações políticas do país. Qual o quê. Na primeira decisão grave que tem que tomar, foi se aconselhar com o padrinho, que havia indicado Palocci para o cargo mais importante do governo.

Dilma não apenas ficou impossibilitada de nomear uma pessoa de sua confiança pessoal para a Casa Civil como agora, quando pode ter essa chance, rifando quem fora nomeada para tutelá- la, não tem segurança política para fazê-lo e vai buscar apoio naquele que parece ser a última instância em todas as tomadas de decisão dos governos petistas.

A presidente Dilma, desta vez por escolha própria, está se apresentando ao eleitorado como um fantoche de Lula, confirmando o que a oposição dizia na campanha eleitoral. A situação é mais grave politicamente porque tanto o PT quanto o próprio Palocci trataram de tentar isolar o caso da atuação do governo.

Se não é uma crise partidária, a consulta a Lula tem um caráter totalmente privado, entre criatura e criador, com a presidente tendo cautelas excessivas para demitir Palocci sem melindrar Lula.

As mesmas cautelas que Lula não teve quando interveio na crise política para tentar salvar seu protegido.

Ou a mesma prudência que Palocci não teve quando preferiu proteger o sigilo das empresas que o contrataram em vez de preservar o governo a que está servindo.

Preferiu proteger os interesses privados, que lhe renderam grossa remuneração, ao interesse público.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Vale tudo
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 07/06/11

Para derrubar, hoje, a ida de Antonio Palocci à Comissão de Agricultura, governistas identificaram no regimento da Câmara um item segundo o qual a documentação da sessão tem de ser distribuída com ao menos 24 horas de antecedência -prazo que não teria sido respeitado quando da convocação do ministro.
Descobriu-se até um precedente. Em 2009, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), agora autor do pedido para obrigar Palocci a depor, fez um questionamento formal ao então presidente da Casa, Michel Temer (PMDB-SP), e obteve como resposta a anuência quanto à necessidade das 24 horas. O deputado ainda perguntou se isso valia para convocações. E Temer: "É evidente".
DDD Embora tenha conversado com Lula ao telefone sobre o caso Palocci, Dilma Rousseff pediu ao ex-presidente que não viesse a Brasília nesta semana. Quer evitar a interpretação de que o antecessor decidirá o futuro do ministro da Casa Civil.

Podendo 
Apesar da precaução, os envolvidos acreditam que Lula terá duplo poder de veto: em relação ao nome do substituto e à própria saída de Palocci.

Pra quê? 
Peemedebistas reagem com gargalhadas à especulação de que o partido poderia a herdar a Secretaria de Relações Institucionais, hoje ocupada pelo petista Luiz Sérgio. "Para resolver o problema de articulação política é preciso ter trânsito no governo. E nós não temos", resume um cardeal.

Lipo 1 
Ao receber, há cerca de um mês, a relação de pessoas que seriam agraciadas com a medalha da Ordem de Rio Branco, a principal da diplomacia brasileira, Dilma não teve dúvida: cortou a lista quase à metade.

Lipo 2 

Quem viu a relação original notou que foram limados vários políticos e integrantes do governo federal, primeiro escalão incluído. A presidente teria comentado que não era, ainda, o momento de homenageá-los.

Lipo 3 
Comentário de um aliado sobre a atenção dada pela presidente aos mínimos detalhes, enquanto assuntos importantes seguem represados na gaveta: "Quando ministro não pode demitir nem a secretária sem aval da presidente, as coisas não andam. Esse grau de centralismo nunca deu certo".

Entulho 1 
Para evitar a descontinuidade nas obras de desassoreamento do Tietê, o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) planeja ceder à iniciativa privada os serviços de limpeza da calha do rio e manutenção dos piscinões na Grande SP. O modelo previsto é uma PPP com duração de até 30 anos.

Entulho 2 
Na visão dos técnicos do governo, a terceirização daria regularidade ao combate às enchentes. Neste ano, o TCE-SP paralisou licitações por duas vezes consecutivas sob alegação de falhas nos pregões, o que atrasou em um mês o início da retirada de material para dar mais vazão às águas.

Maria-fumaça 
O Ministério Público Federal entrará nesta semana com representação no TCU para que o tribunal tome providências sobre o que os procuradores classificam como "dilapidação do patrimônio da extinta Rede Ferroviária Federal". Eles afirmam haver abandono de mais de 50% da malha privatizada e falta de fiscalização pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres ), com prejuízo estimado em R$ 40 bilhões.

Linha cruzada 1 
Grampos telefônicos feitos durante as investigações em Campinas mostram assessoras de Aline Corrêa (PP-SP) tratando da nomeação, para o gabinete da deputada, de Ricardo Candia, ex-funcionário da prefeitura preso sob acusação de integrar o esquema de corrupção.

Linha cruzada 2 

Segundo a assessoria de Aline, Candia havia pedido "uma colocação", mas sua contratação "não foi aprovada".
com LETÍCIA SANDER e RANIER BRAGON

tiroteio
"As dúvidas ficarão mais esclarecidas se o ministro completar as entrevistas que deu com uma vinda ao Congresso Nacional."
DO SENADOR EDUARDO SUPLICY (PT-SP), defendendo que Antonio Palocci vá espontaneamente explicar sua evolução patrimonial a deputados e senadores.

contraponto

Máquina zero

Em almoço de Dilma com representantes do PMDB, o senador Waldemir Moka (MS) fez defesa enfática do novo Código Florestal tal como aprovado na Câmara. E acrescentou:
-Quero dizer que não sou produtor rural. Sou médico e professor!
Na saída, um colega brincou:
-Imagine se ele fosse ruralista. Cortaria o cabelo do Requião pensando que era floresta!

SÉRGIO CARRARA - Ou o sal não salga ou...


Ou o sal não salga ou...
SÉRGIO CARRARA
O GLOBO - 07/06/11

Frente a pânicos morais todo cuidado é pouco. Qualquer movimento para sair deles pode nos empurrar mais ao fundo. Para escapar, é crucial agarrar-se aos fatos e à razão, colocando questões diferentes das que são formuladas pelos interessados em produzi-lo ou pelos que, nele, permanecem presos.

Frente ao pânico moral que cercou o kit anti-homofobia do Ministério da Educação, a ação do governo foi errática e confusa. Intempestivamente, Dilma mandou "suspendê-lo", em vez de dizer simplesmente que confiava no discernimento da equipe do ministério quanto ao seu teor e à sua utilização. Baseada no que viu na tevê, afirmou que o material "fazia propaganda de opções sexuais" e que isso seria inaceitável. Parece que se referia a uma frase em que um adolescente chegava à conclusão de que teria maiores chances de envolver-se com alguém, pois se sentia atraído igualmente por rapazes e moças. Colocando bissexuais em posição privilegiada em relação a homossexuais e a heterossexuais, mais limitados em suas "opções" (para usar a expressão da presidente), a ideia pode até ser considerada infeliz. Mas o que haveria de tão escandaloso nessa quase risível fabulação de um adolescente?

Se "ou o sal não salga ou a terra não se deixa salgar...", podemos dizer que ou todo esse imbróglio esconde "tenebrosas transações" (como muitos acreditam), ou revela certa concepção sobre os considerados sexualmente diferentes que urge submeter à crítica. O kit que o ministério desenvolveu aborda a homofobia sem vitimizar pessoas LGBT, apresentando sua diferença como algo positivo. Quando afirma que o governo "combate a homofobia, mas não propagandeia opções sexuais", a presidente parece dizer que, ao não tratar a homossexualidade como um "problema", o material a incentiva. Não estaríamos frente à tradução laica do mantra esquizofrenizante repetido ad nauseam por pastores e padres, segundo o qual se deve "amar o pecador, mas não o pecado"? Ou "acolher homossexuais, mas não a homossexualidade"?

Caso não seja isso, seria aconselhável Dilma vir a público dizer que os que afirmam ser a homossexualidade pecado e negam os direitos de cidadania a homens e mulheres homossexuais estão "propagandeando" a heterossexualidade e que isso é também inaceitável. Deve esclarecer que seu governo não combate apenas a barbárie homofóbica, mas defende a completa igualdade de direitos, fazendo suas as palavras dos juízes do STF sobre o estatuto das uniões homoafetivas. Sob pena de se misturar aos que consideram a homossexualidade inferior e deram início a toda essa confusão, deve deixar claro que os motivos que a fazem condenar o material produzido pelo ministério não são iguais aos de bolsonaros e garotinhos.

SÉRGIO CARRARA é antropólogo.

ELIANE CANTANHÊDE - Solidão


Solidão
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SÃO PAULO - 07/06/11
BRASÍLIA - A crise e o enriquecimento súbito de Antonio Palocci não atingem a imagem do próprio Palocci, que não é primário desde a história das malas de dinheiro e da quebra do sigilo do Francenildo.
Também não pioram a corrosão da imagem do PT desde a chegada ao poder, com mensalão, aloprados, dossiês, cuecões.
E, enfim, também não agravam a deterioração da Casa Civil da Presidência depois de Waldomiro Diniz achacando bicheiro; seu chefe Zé Dirceu despencando sob o peso do mensalão; Erenice Guerra abrindo as portas para a família.
Quem mais perde com o escândalo, pois, é Dilma Rousseff. Na campanha, houve um acordo velado para descolá-la de Erenice, seu braço direito tanto no Minas e Energia como na Casa Civil. Já no governo, tentam afastá-la das labaredas que consomem Palocci. Mas como não sair chamuscada?
A crise remete às fragilidades de Dilma que Lula tratou de minimizar e a oposição não soube explorar na eleição: inexperiência, falta de gosto político, de intimidade com o PT e de autoridade sobre o PMDB. Afinal, nunca fora eleita para nada. Mas a principal fragilidade da presidente é outra: solidão.
Dilma engoliu uma equipe de campanha com a qual não tinha proximidade, convivência, confiança. Ficou na mão dela, particularmente de Palocci, e montou um governo que não é seu. Está só.
PT e PMDB esfregam as mãos. Ela vai ter de reconstruir sua coordenação política, peça por peça, a partir das mesmas deficiências: a falta de equipe técnica, que fez emergir Erenice, e de liderança política, que desembocou na força de Palocci. Ou escolhe Miriam Belchior e Maria da Graça Foster, que entendem de política tanto quanto ela própria, ou cai novamente nas mãos de um espertalhão.
Força Sindical, PC do B e senadora do PP pulam do barco, enquanto a PGR joga uma boia furada para Palocci, e Chávez sopra: "Fuerza, fuerza". Glub, glub, glub.

FERNANDO DE BARROS E SILVA - A crise e a sombra


A crise e a sombra
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SÃO PAULO - 07/06/11
SÃO PAULO - O procurador-geral arquivou o caso Palocci. É uma decisão que diz mais sobre Roberto Gurgel do que sobre os negócios do ministro. Ou alguém acredita que agora está tudo explicado?
Não se sabe que uso Dilma fará dessa decisão, de resto previsível. Não parece que ela altere o ambiente polítco. É possível que Dilma ainda não tenha demitido Palocci porque não sabe quem pôr no lugar nem como redesenhar o governo.
Uma figura como o ministro das Relações Institucionais, Luiz Sérgio, o leva e traz, não chega a ser nem mesmo decorativa. Alguém assim só pode funcionar (ou deixar de fazê-lo sem causar problemas) ao lado de um ministro como Palocci, que ocupava os espaços.
Entre as opções disponíveis para a Casa Civil, Paulo Bernardo é o que, em tese, teria mais chances de ser um "Palocci cover", uma versão em aquarela do nosso consultor número 1. Petista convertido ao mercado, tarefeiro, tipão pragmático e responsável, Paulo Bernardo, no entanto, dificilmente faria a função de elo entre Lula e Dilma, desempenhada por Palocci. Ele não é da cota de "confiança pessoal" do ex.
Gilberto Carvalho, pelo contrário, é uma espécie de fantoche de Lula. Sua eventual ida para a Casa Civil seria uma renúncia branca.
Restariam, ainda, as apostas um tanto improváveis em Miriam Belchior (Planejamento) ou Maria da Graça Foster, a técnica da Petrobras amiga da presidente. Nos dois casos, Dilma estaria moldando a Casa Civil à sua imagem, esvaziando-a de sua dimensão política e transferindo o problema hoje mal resolvido para outra esfera do governo.
Com Palocci morto-vivo e nenhuma opção óbvia para substitui-lo, há uma grande interrogação sobre a capacidade de operação política deste governo. Dilma parecia ter afastado de si a imagem de que era tutelada por Lula. No último mês, as evidências de que isso não era verdade foram muito fortes. Veremos como a "presidenta" vai se virar com a crise e com a sombra.

Demóstenes: Gurgel ‘se acovardou’ de olho no cargo


Demóstenes: Gurgel ‘se acovardou’ de olho no cargo
JOSIAS DE SOUZA
FOLHA ONLINE

Líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO) atribuiu o arquivamento das representações contra Antônio Palocci ao desejo do procurador-geral Roberto Gurgel de ser reconduzido ao cargo.

“Isso ficou, na minha opinião, evidente. É uma pena. Muitas vezes, é mais honroso perder um cargo pela coragem do que ser reconduzido por uma aparente conivência. O procurador-geral, na minha opinião, se acovardou”.

O mandato de Gurgel expira em 22 de julho. Pela Constituição, cabe a Dilma Rousseff a decisão de reconduzi-lo ao posto para um novo período de dois anos.

Egresso do Ministério Público, Demóstenes é um dos signatários das representações levadas ao arquivo. Em entrevista ao blog, ele disse que Gurgel desconsiderou “indícios eloquentes”.

“É como se o Palocci tivesse escrito a decisão para ele”, declarou. Para o senador, a decisão “enfraquece o Ministério Público”, comprometendo-lhe a “automia” e conferindo-lhe a aparência de “órgão do governo”. Abaixo, a entrevista:

- O que achou da decisão do procurador-geral? Ele usou os mesmos argumentos do Palocci para, praticamente, absolver o ministro. É como se o Palocci tivesse escrito a decisão para ele. Todos os indícios, todo o contraditório que consta das representações foi desconsiderado. Os indícios são eloquentes. Há elementos de sobra para iniciar uma investigação. A decisão enfraquece o Ministério Público.

- Por quê? Em 1988, eu era um jovem promotor. Pegava ônibus em Arraias [ex-município de Goiás, hoje incorporado a Tocantins] e vinha a Brasília para defender a autonomia do Ministério Público. Vinha brigar na Constituinte para que o Ministério Público conquistasse sua autonomia. Conquistamos o que tanto queríamos. E agora o Ministério Público continua se comportando como se fosse um órgão do governo! Fico me questionando se valeu a pena toda aquela luta que tivemos no passado. A decisão do procurador-geral foi muito arriscada para a estabilidade política e para a própria democracia.

- Como assim? Ao agir como instituição de governo, o Ministério Público compromete a sobriedade que se espera dele. Submete-se a juízos políticos. Os indícios existem e a investigação não foi aberta. Amanhã, o que o procurador-geral não viu hoje no caso do Palocci, ele pode enxergar numa representação contra um senador ou um deputado de oposição acusado de enriquecimento ilícito. Essas coisas não podem ser subjetivas.

- Por que o procurador-geral fragilizaria a instituição que ele próprio chefia? A decisão tem aparente relação com o desejo de recondução do procurador-geral ao cargo.

- Está convencido de que há ligação entre o arquivamento e a iminência do término do mandato do procurador-geral? Isso ficou, na minha opinião, evidente. É uma pena. Muitas vezes, é mais honroso perder um cargo pela coragem do que ser reconduzido por uma aparente conivência. O procurador-geral, na minha opinião, se acovardou.

- De onde vem sua convicção? Sou do Ministério Público. Sei que, com muito menos, se abre uma investigação. Investigação não é condenação de ninguém. É um dever de quem tem atribuições para isso abrir a apuração quando há elementos. E os elementos, no caso do Palocci, são abundantes. O país inteiro viu, a imprensa apresentou, nós formulamos as representações. Só o procurador-geral não viu.

- Há algo a ser feito? O triste disso tudo é que, como a autoridade [Palocci] tem foro privilegiado, o despacho do procurador-geral é irrecorrível. Se fosse decisão de qualquer procurador da República relacionada a pessoas que não dispõem da prerrogativa de foro, caberia recurso ao próprio Gurgel. Mas no caso desse despacho, a decisão é irrecorrível. A única hipótese de provocarmos uma reanálise seria o surgimento de um fato novo.

- Teve a oportunidade de ler a decisão de Roberto Gurgel? Li tudo, na íntegra.

- Num trecho, está escrito que `a lei penal não tipifica como crime a incompatibilidade entre o patrimônio e a renda declarada’. Mais adiantre, afirma-se que Palocci pode ser investigado, em tese, por ato de improbidade administrativa. Algo que um procurador da República lotado em Brasília já está fazendo. Tem nexo? Não tem nexo.

- Por quê? De fato, estamos falando de esferas estanques. O que caracteriza improbidade nem sempre leva ao delito penal. Por exemplo: deixar de cumprir um procedimento exigido em lei, como dar publicidade a um ato de governo, é improbidade administrativa, mas não é crime punível na esfera penal. Porém, quando há enriquecimento ilícito, praticamente em todos os casos, onde há improbidade também há crime. Peculato, concussão, tráfico de influência. Infelizmente, o procurador de primeiro grau enxergou elementos suficientes para agir e o procurador-geral não viu o que todo mundo vê.

- Se avançar a investigação por improbidade aberta pelo procurador de Brasília, Gurgel pode ser chamado a rever sua posição? Sem dúvida. Na medida em que as provas eventualmente colhidas pelo procurador de primeiro grau forem enviadas ao procurador-geral, que se recusou a buscá-las, ele pode ser forçado a rever a posição. Mas há um problema relacionado ao tempo.

- Tempo? Exatamente. O procurador-geral deu uma grande força para o Palocci. E o procurador de primeiro grau terá enorme dificuldade para começar a obter as provas. Isso pode levar seis meses, um ano. Ou mais. Aí, o Gurgel já salvou a pele do Palocci. Em parte, a investigação aberta no primeiro grau depende da boa vontade de um juiz e da colaboração de órgãos como a Receita Federal. Se já tivemos a Caixa Econômica dando uma mão ao Palocci no caso do caseiro [Francenildo Costa], agora os órgão públicos podem funcionar para dar uma nova mão ao ministro.

- Acha que o arquivamento dificulta a coleta de assinaturas para a CPI? Não tenho ainda condições de avaliar como os meus colegas vão agir. Do ponto de vista moral, o Congresso tem a obrigação de fazer a investigação que o procurador-geral se recusou a fazer. Agora, só resta o Congresso, já que o Supremo não foi nem provocado para autorizar a abertura da investigação.

CLÁUDIO HUMBERTO



“Cada um é livre para assinar o que quiser”
SENADOR ROMERO JUCÁ (PMDB-RR), LÍDER DO GOVERNO, SOBRE A CRIAÇÃO DA CPI DO PALOCCI

DETECTOR REVELA QUE PALOCCI MENTIU NATELEVISÃO 
O ministro Antonio Palocci (Casa Civil) mentiu nos trechos mais importantes nos “esclarecimentos” à Rede Globo, sexta (3), segundo atestou o perito em veracidade Mauro Nadvorny, da Truster Brasil, que analisou entrevista a pedido da coluna. O equipamento israelense detectou ser falsa a afirmação da “regularidade” do faturamento da empresa de consultoria Projeto através de notas fiscais e pagamento de impostos. Mas Palocci negou “tráfico de influência” com convicção.

PAGAMENTO ADIANTADO 
Palocci mentiu ao relacionar o encerramento da empresa ao maior faturamento, no final de 2010. E que, fechada, “não arrecada mais”. 

CONTA DE CHEGAR 
Ele não mentiu ao garantir que declarou o faturamento aos “órgãos competentes”, mas os “valores aproximados” são lorota. Pode ser mais. 

EU E EU MESMO 
Palocci mostra firmeza ao negar implicação com órgãos públicos, mas “pessoalmente pode ter feito consultoria”, analisa o perito Nadvorny. 

EUFEMISMO 
Verdade: “nem um centavo referente à política”. Mentira: papel só “político” na campanha e que entregará “o que falta” à Procuradoria. 

JUSTIÇA DEFINE CRITÉRIOS PARA PAGAR PRECATÓRIOS
O Supremo Tribunal Federal decidirá ainda em junho como municípios, Estados e União devem pagar precatórios, que totalizam cerca de R$ 100 bilhões. Os valores são quitados dando preferência a quem desiste de parte do que tem direito, parcelado em até 15 anos. A OAB chamou de “calote” as regras atuais, de 2009, e as questiona no STF. O relator, ministro Ayres Britto, já pediu a inclusão da matéria na pauta do STF.

LALÔ, QUE CALOR 
O ministro das Finanças emprestou carros confiscados e usou dinheiro público em campanha. Foi condenado a 30 anos. No Egito. 

PERGUNTA NO CONSULTÓRIO
Se o dentista do senador Antônio Carlos Valadares (PSB-PE) nos custou R$ 25 mil, quanto custarão dentes novos em Top-Top Garcia? 

SEGREDO DO INSUCESSO 
Ignorar mensalão, aloprados e o rolo Palocci não justificam, até março, gastos secretas de R$ 3 milhões da Agência Brasileira de Inteligência. 

VEM AÍ EIKE, CARRO POPULAR 
O bilionário Eike Batista vai anunciar para setembro o lançamento de uma fábrica de carros populares, com a sua marca – ele pensa em seu próprio nome. De início, vai gerar 3 mil empregos diretos. A planta da montadora será no Norte fluminense, onde ele constroi um porto. 

CALOTEIRO PRESTIGIADO 
Apos o “beiço” de R$ 3,6 bilhões na refinaria Abreu e Lima (PE), Hugo Chávez ainda terá US$ 4 bilhões do BNDES para obras da Odebrecht e Andrade Gutierrez, empreiteiras favoritas dos governos petistas. 

CULTURA NA UTI 
A ministra Ana de Holanda (Cultura) anda na UTI da Esplanada. Os próprios irmãos exigem sua saída do ministério, com medo de a crise interna respingar na imagem da família. A situação dela é tão incerta que Dilma ainda não preencheu vários cargos no ministério.

CONEXÃO PSB-PSDB 
Presidente do PSB-MG, o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia discutiu com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, a eleição de 2012 em BH. A aliança PSB-PSDB deve continuar. E o PT vai dançar.

BAD TRIP 
Marcelo D2, que se destaca mais pela defesa da maconha do que por sua música, ainda não percebeu o que se passa e procura os próprios neurônios no Twitter: “É tanta passeata que estou meio confuso...”

MISSÃO PASSEIO 
Ontem, às 11h, um Ômega preto do Senado deixou a mãe e a irmã do senador Geovane Borges (PMDB-AP), irmão e suplente de Gilvan Borges, no shopping Jardim Botânico no Lago Sul, de Brasília. Ficou estacionado em vaga de deficiente por 50 minutos. 

DE VOLTA 
O ex-governador do DF José Roberto Arruda viajou de São Paulo a Brasília, ontem à tarde, no vôo 1338 da Gol, com a mulher a filha bebê, sem importunação. Foi até cumprimentado por alguns passageiros.

CORRENDO ATRÁS 
Em vez de “correr atrás” de quem sobrevive com R$ 70, como afirmou no Café com a Presidenta desta semana, Dilma deveria mandar a polícia correr atrás de ministro que fica rico e não explica como.

PENSANDO BEM... 
...além do cultivo de abobrinhas, o médico, ministro e consultor Palocci agora também atua no ramo de laranjas. 


PORDER SEM PUDOR
LUTA INGLÓRIA 
Numa solenidade da Associação Brasileira de Jornais do Interior, certa vez, o senador Pedro Simon discursava elogiando os pequenos jornais e a luta inglória pela sobrevivência quando citou a Bíblia:
– É uma luta desigual ! É como, na Bíblia, a luta do gigante Golias contra o pequeno José...
O lapso de tempo e de personagens foi cochichado ao seu ouvido, recorda Luciano de Souza Abreu, que assistiu a solenidade. Simon emendou:
– ...mas que foi injusta, ela foi!
O riso estourou na plateia.

TERÇA NOS JORNAIS

Globo: Procurador arquiva caso e Lula tenta manter Palocci

Folha: Procurador-geral poupa Palocci de investigação

Estadão: Procurador manda arquivar denúncias contra Palocci

Correio: Nova droga dá sobrevida a pacientes com câncer

Valor: UE tenta garantir oferta de matérias-primas do Brasil

Zero Hora: Procurador-geral poupa Palocci de investigação

segunda-feira, junho 06, 2011

ANCELMO GÓIS - Senhorzinho


Senhorzinho
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 06/06/11

Quinta passada, FH estava no Waldorf Astoria, em Nova York, apresentando à imprensa o relatório da Comissão Global de Políticas sobre Drogas, que ele preside e que reúne gente como Kofi Annan e Mario Vargas Llosa. Ontem, foi à favela de Vigário Geral, no Rio, participar, ao lado do AfroReggae, de uma sessão do documentário “Quebrando o tabu”, também sobre drogas, no qual ele é uma espécie de galã. 

Aniversário
Hoje, um grupo de amigos cariocas celebra os 80 anos de FH com almoço na casa do neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho. 

Nova imagem política
O senador sergipano Antonio Carlos Valadares e os deputados gaúchos Onyx Lorenzoni e Pompeo de Mattos fizeram transplante capilar com o cirurgião Miguel Sorrentino. Não é fofo ? 

Calma, gente
Hélio De La Peña, ex-aluno do São Bento, mesmo sem minimizar o incidente envolvendo alunos do tradicional colégio, acha que é hora de baixar a bola. Aliás, o humorista aponta uma solução para o problema: 
— É testosterona demais. O colégio devia aceitar meninas. Daí os meninos, em vez de brigar entre si, ocupariam o tempo azarando as colegas. 

No mais
Lula foi visitar os camaradas Fidel Castro e Hugo Chavez, dirigentes de países onde a Odebrecht tem contratos, a bordo de um jatinho da empreiteira. É como diria um velho bolchevique de Frei Paulo: alguém está enganando alguém.

Batismo de sangue
Será exibido em Paris, dia 17 de junho, o filme “Batismo de sangue” de Helvécio Ratton. Em seguida, o psicanalista francês Jean-Claude Rolland fala sobre o caso de Frei Tito, frade brasileiro torturado na ditadura e que se suicidou na França.

Jandira e o Código
A deputada Jandira Feghali reconhece a dificuldade do PCdoB junto a ambientalistas por causa do apoio de deputados do partido ao novo Código Florestal: 
-— Vamos procurar conversar mais com eles. Acho que o texto preserva o meio ambiente e não estimula o desmatamento ou anistia. Mas não sou dona da verdade. 

Jandira e Ana 
A deputada também nega que esteja de olho no cargo de ministra da Cultura: 
— Presido a frente parlamentar de cultura. Não tenho qualquer interesse em desestabilizar o governo Dilma e muito menos preciso de emprego. Ana de Hollanda foi vítima do fogo amigo do próprio PT. 

Brasil na moda
A American Airlines pediu autorização para um sétimo destino no Brasil: Manaus-Miami. 

Escola olímpica
No lugar do antigo colégio japonês, em Santa Teresa, comprado pela prefeitura do Rio, surgirá a escola Juan Antonio Samaranch, falecido presidente do COI. A escola será destinada a estimular os esportes olímpicos. 

Mais sexy do mundo
Hollywood caiu mesmo de amores pelo Rio. Veja essa: “Transformers: o lado oculto da Lua”, continuação da franquia de sucesso dos robôs alienígenas gigantes, tem sua pré-estreia mundial marcada para Moscou. Mas Michael Bay, diretor do filme (e de outros campeões de bilheteria, como “A Rocha”, “Armageddon” e “Pearl Harbor”), resolveu fazer uma sessão antes, aqui, no final do mês.

Segue
Com ele, vem a estrela do filme, Rosie Huntington-Whiteley, eleita, em maio, a mais sexy do mundo pela revista “Maxim”. 

Copacabana
A Microservice, empresa que fabrica e distribui CDs no país, inicia mês que vem um processo de revitalização do catálogo da velha gravadora Copacabana, a finada brasileira dos discos que atuou entre 1940 e 1990. O arquivo da Copacabana, que tem Dolores Duran, Luiz Gonzaga e João Gilberto, foi licenciado para a Microservice. 

Acertou no milhar 
A primeira tiragem de mil unidades do CD duplo “O samba carioca de Wilson Batista”, lançado há duas semanas pela Biscoito Fino, esgotou. O resultado, por se tratar de compositor antigo e já falecido, surpreendeu.

DILMA NA VERDAEIRA PROFISSÃO


VAI ARRANCAR UM BIFINHO

JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO - Insepultos



Insepultos 
JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

O ESTADÃO - 06/06/11

O ministro Antonio Palocci se transformou em um cadáver político ambulante. Perdeu aliados à esquerda e à direita. Virou a antítese de Midas, a pessoa menos indicada para coordenar qualquer coisa além de sua defesa. O governo já saiu de Palocci; falta Palocci sair do governo.

Pode-se argumentar que Palocci foi alvo de injustiça pois não há provas contra ele, apenas indícios. Mas o ministro fez a própria cama ao mostrar ser mais leal e preocupado com seus ex-clientes empresariais do que com a atual chefe. Entre o público e o privado, não restam dúvidas quanto à sua preferência.

Virou lugar-comum comparar a atitude de Palocci com a de seu antecessor Henrique Hargreaves, que, sob suspeita em 1993, afastou-se da Casa Civil para não contaminar o governo do seu amigo Itamar Franco. Ele acabou voltando ao cargo meses depois. As diferenças são grandes, porém.

Hargreaves não só voltou ao ministério. Continuou sendo o braço direito do ex-presidente quando este foi eleito governador de Minas Gerais em 1998. Foi seu principal secretário. Hoje, representa o governo mineiro em Brasília. Hargreaves nunca saiu do governo e o governo nunca saiu dele.

Caso Palocci deixe o governo Dilma, o comportamento do ministro durante a crise indica que ele voltará a ser consultor de empresas. Com o sucesso financeiro que Palocci obteve nos últimos anos, quem poderá recriminá-lo se fizer essa opção?

Um inconveniente é que as idas e vindas entre o setor público e o privado provocam incompatibilidades e conflitos de interesse. Palocci foi ingênuo (atendendo a seu apelo por boa-fé) ao dizer que setores atendidos por ele, como o financeiro e de mercado de capitais, não têm interesses diretos no governo, que seus negócios são estritamente privados.

Impostos, taxas, licenças, licitações, normas, regulamentações, leis, julgamentos, contas, publicidade oficial são apenas algumas das muitas interfaces entre empresas de quaisquer setores econômicos e o governo. Sempre há relações entre o público e o privado, e quem tem o pé em ambas as canoas é valorizado por facilitar o tráfego de um lado a outro.

Outra inconveniência é a contaminação. Sobram indícios de que a crise pessoal de Palocci está prejudicando o governo. O melhor indicador são as incontáveis declarações de apoio de próceres do PMDB à permanência do ministro no cargo.

Pode parecer incongruente que a pessoa com quem Palocci discutiu asperamente ao telefone, o vice-presidente Michel Temer (PMDB), seja quem mais repete que o ministro deve ficar no governo. Não é: quanto mais tempo Palocci permanecer, mais Dilma terá de ceder aos peemedebistas. O tal diamante vale muito mais do que R$ 20 milhões, e é pago a prestações.

Se Palocci não é capaz de reconhecer isso, quão hábil ele ainda pode ser como articulador político? É insubstituível para Dilma? A se tomar como exemplo a votação do Código Florestal, não. Numa democracia, os ocupantes de cargos públicos não devem importar mais do que suas funções.

Ceder anéis brilhantes aos aliados não foi a única consequência dos problemas causados pelo principal auxiliar da presidente. Mesmo que o governo não fique paralisado, a crise de Palocci ofusca qualquer outra iniciativa governamental. Mesmo que não haja crise de fato, a aparência é de que há.

Mal comparando com uma tragédia real, enquanto não forem descobertos e punidos os assassinos de líderes extrativistas na Amazônia, os fantasmas dessas mortes assombrarão governo e sociedade com a lembrança indelével de que vastas áreas do Brasil estão além do alcance da lei. Casos assim precisam de investigação profunda, até uma conclusão inconteste.

Dilma demonstrou lealdade a Palocci. A contrapartida é discutível. Se demiti-lo por pressão externa parece sinal de fraqueza, mantê-lo insepulto é ainda mais desgastante. O velório interminável atrapalha o governo e enfraquece a imagem da presidente. Falta a pá de cal.

GUSTAVO CERBASI - Para um feliz Dia dos Namorados


Para um feliz Dia dos Namorados

GUSTAVO CERBASI 

FOLHA DE SÃO PAULO - 06/05/11

Seja menos consumidor e mais romântico; como será um domingo, tire o dia para simbolizar seu amor


DAQUI A exatamente uma semana, muitos relacionamentos de namorados, casados e afins estarão fortalecidos pelo romantismo do Dia dos Namorados, que cairá no próximo domingo.
Pelo mesmo motivo, muitos orçamentos estarão arruinados.
Por mais que saibamos com antecedência da data, é hábito comum deixar para pensar na celebração em cima da hora.
Na pressa, paga-se mais caro, pois, além do presente, estamos adquirindo também a conveniência da pronta entrega.
O roteiro é conhecido. No próximo sábado, muitos pombinhos se darão conta da necessidade de celebrar, e correrão atrás de algo romântico, fortemente simbólico e, obviamente, com "cara" de Dia dos Namorados.
Restaurantes serão uma boa sugestão, mas, além de estarem lotados (como em todos os domingos), ainda terão um sobrepreço pelos tradicionais pacotes especiais de datas festivas.
Flores serão outra boa pedida.
Quer algo mais romântico do que um buquê de rosas colombianas -lindo, cheiroso e custando três vezes o que custaria em qualquer outra data? E o que dizer de uma caixa de bombons em forma de coração?
Não é caro gastar algumas dezenas de reais em um presente assim, certo? Faça as contas do preço que você estará pagando pelo quilo do chocolate e você perceberá o tamanho da armadilha.
É curioso notar como que, para muitas pessoas, a data deixou de ser a oportunidade de demonstrar o amor e passou a ser uma obrigação de demonstrar sua capacidade de pagamento.
A arapuca está armada para prender a caça. O caçador, ao contrário do que se pensa, não é o comerciante, mas sim a falta de planejamento dos consumidores.
Pagamos caro porque não pensamos em um presente criativo com antecedência. Não culpo os lojistas por praticarem preços maiores; afinal, esses preços são necessários.
Para atender à insana correria dos consumidores às compras de última hora, o comércio é obrigado a adotar uma verdadeira operação de guerra.
Entregas urgentes, aluguel de espaço extra para estoques, turnos extras de vendedores e perdas decorrentes dessa correria saem caro -e o consumidor paga por isso.
Deve-se considerar também que o mau hábito de comprar convenientemente e pagando caro em poucas datas arruína a vida financeira dos consumidores, que, endividados, não conseguem manter hábitos regulares de compras ao longo do ano.
Como os comerciantes só vendem nessas raras datas, veem-se obrigados a embutir todo o lucro do ano nas vendas desses poucos dias. É questão de sobrevivência!
Reforço a sugestão que já fiz em outras datas festivas: neste Dia dos Namorados, mude o roteiro.
Seja menos consumidor e mais romântico. Aproveite que a data cai em um domingo, e tire o dia para simbolizar seu amor. Café da manhã na cama, rever álbuns da história do casal, fazer um álbum virtual do último ano, preparar um almoço saudável a dois, em casa, e depois mergulhar em uma sessão de filme romântico sob o edredom não custam caro e significam algo bem claro: tiramos o dia para dedicarmos um ao outro.
Quer um presente para guardar? Tirem fotos do que fizeram no dia, e façam disso uma tradição.
É apenas uma sugestão, algo que costumo fazer. Invente o seu roteiro, mas procure fazer do Dia dos Namorados uma celebração do relacionamento, não de suas dívidas.
Fugir das arapucas comerciais é um presente a mais que o casal se dá.
Creio que os comerciantes não devem admirar muito minha sugestão, mas até eles saem ganhando com celebrações verdadeiramente simbólicas.
Elas reforçam relacionamentos, intensificam a paixão.
Com os casais gastando menos, sobra orçamento para presentear com flores, com chocolates, com jantares e afins mais vezes por ano.
Qual lojista não gostaria de ter clientes fiéis no lugar da bagunça das compras sazonais?

PAULO GUEDES - A descentralização do poder


A descentralização do poder
PAULO GUEDES 
O GLOBO - 06/06/11

As acusações de tráfico de influência que derrubaram Erenice Guerra da Casa Civil em 2010 ameaçam agora o superministro Antonio Palocci. A importância de Palocci como peça de articulação do lulo-petismo com o establishment econômico e financeiro não pode ser subestimada. Foi um dos principais responsáveis pela bem-sucedida continuidade econômica durante uma complexa transição política. Palocci foi fundamental para a boa aterrissagem de Lula na dimensão econômica, da mesma forma como seria mais tarde o ex-presidente Sarney o responsável por sua blindagem na política convencional após o episódio do mensalão.

Palocci já fora alvejado por denúncias e derrubado da Fazenda. Seria um candidato natural à sucessão de Lula. Teria sido derrubado então pelas forças autofágicas de seu próprio partido, como estaria agora ocorrendo novamente? Seria o alvo de políticos situacionistas insatisfeitos por indicações não atendidas pela Casa Civil? Ou seria o alvo de oposicionistas insistindo em um terceiro turno? Houve no governo quem atribuísse o vazamento das informações sobre o súbito enriquecimento de Palocci ao PSD, partido em formação que seria força auxiliar da ala serrista do PSDB em São Paulo. Mas o próprio prefeito Gilberto Kassab, que não desperdiça palavras, segundo seu entrevistador Jorge Bastos Moreno no GLOBO, alegou que, pela natureza dos dados, o vazamento poderia ter vindo do Ministério da Fazenda.

Na superfície, essa é claramente uma crise de Palocci, não uma crise política. Como antes houve a crise da Erenice e também a outra crise de Palocci com seu caseiro. Mas abaixo da superfície temos as águas turvas e turbulentas de uma transição incompleta do Antigo Regime para a Grande Sociedade Aberta. Pois é mesmo extraordinária a concentração de poder econômico e influência política na chefia da Casa Civil. Dos últimos quatro ocupantes, apenas Dilma Rousseff não foi vítima de um balaço, o que lhe permitiu escalar, como prêmio por seu desempenho, uma bem-sucedida indicação presidencial sob as asas da popularidade de Lula.

"Grande parte das crises que estamos vivendo deve-se exatamente à concentração de poder financeiro e político no governo federal. Nós precisamos resgatar a Federação", ensaia o senador Aécio Neves. Descentralizar recursos e atribuições é exigência de uma democracia emergente. Pelo menos descentraliza o tráfico de influência.