quarta-feira, junho 01, 2011
CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ e RENATO HYUDA DE LUNA PEDROSA - Sobre desistência em boas universidades
Sobre desistência em boas universidades
CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ e RENATO HYUDA DE LUNA PEDROSA
FOLHA DE SÃO PAULO - 01/06/11
O aumento no número de boas universidades não implica a piora daquelas que existem: implica mais opções para os melhores candidatosA Folha noticiou em 10 de março que 25% dos convocados em 1ª chamada na USP em 2011 não se matricularam, e buscou razões para tal. O jornal considerou esse dado tão fora do comum que mereceu a principal manchete da Primeira Página.
Em resposta, a Fuvest, organizadora do vestibular da USP, mostrou que uma parte dos desistentes não poderia se matricular por não ter concluído o ensino médio. Efetuadas essas correções, os 25% se tornam 16%. Por que uma fração dos alunos desiste de cursar a USP? Que fração seria "grande demais"?
Algumas comparações auxiliam o entendimento da questão.
Tome-se o exemplo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que, situada em polo urbano e bem qualificada, tem semelhanças com a USP. Em 2010, 28% dos aprovados no vestibular não atenderam à primeira chamada.
Para as universidades federais que participaram do Sistema Unificado do MEC em 2011, a ausência na primeira chamada foi maior do que 50%. Na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), a maior federal em São Paulo e considerada uma excelente universidade, a ausência foi de 39%.
Já no sistema da Universidade da Califórnia, que inclui Berkeley, Los Angeles, San Diego e outros campi, a taxa de desistência entre os alunos aceitos no processo seletivo é de 55%. Em Berkeley, dos 48 mil inscritos, 10,5 mil são convocados e apenas 4,4 mil se matriculam - ou seja, desistência de 59%.
Berkeley seria por isso uma universidade ruim? Não. Berkeley é, em todas as avaliações internacionais, a melhor universidade pública dos EUA e figura entre as dez melhores do mundo.
O que revela então o percentual de 59%, quase quatro vezes o da USP? Revela que um estudante de Illinois inscrito e aceito em Berkeley e também na Universidade de Illinois provavelmente prefere ficar em seu Estado -e por isso desiste de estudar em Berkeley.
De forma similar, alunos aprovados na USP e na Unicamp e moradores da região de Campinas podem preferir estudar onde moram.
Um levantamento bem-feito provavelmente poderá mostrar que a USP tem um dos menores índices de desistência entre as universidades brasileiras. O fato de oferecer vestibular em 49 cidades no Estado de São Paulo e também em Curitiba, Brasília e Belo Horizonte é um dos fatores que afetam essa taxa.
Como esperado, os cursos com maiores índices de desistências estão no interior -nos campi de Bauru, Ribeirão Preto e São Carlos-, pois esses centros oferecem programas competitivos, de alta reputação, que atraem interesse de candidatos de outras regiões.
Os jovens paulistas precisam de mais vagas em boas universidades.
No caso de vagas em universidades federais, mesmo com o aumento recente, permanece a discriminação da União contra São Paulo.
Dados da Pnad/IBGE e do Censo do Ensino Superior de 2008 combinados mostram que, no Estado, apenas 0,7% das pessoas com ensino médio completo e idade entre 16 e 24 anos estão matriculadas em universidades federais -a menor taxa do país. Na Bahia, a chance é dez vezes maior -7,3%. Em Pernambuco, 20 vezes maior: 15%.
É possível e desejável que a ampliação da oferta de vagas em boas universidades em São Paulo venha a causar mudanças na maneira como candidatos escolhem seus cursos para todo o sistema.
O aumento no número de boas universidades não implica a piora das já existentes: implica mais opções para os melhores candidatos.
O desafio para as melhores universidades é o de ter uma atitude fortemente proativa na busca dos melhores estudantes -em qualquer lugar do mundo em que estejam.
CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ, membro da Academia Brasileira de Ciências, é diretor científico da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi reitor da Unicamp e presidente da Fapesp.
RENATO HYUDA DE LUNA PEDROSA é coordenador do vestibular da Unicamp. Os dois autores são engenheiros de eletrônica pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica).
CLÁUDIO HUMBERTO
REPETECO DO FOME ZERO TENTA ABAFAR CASO PALOCCI
OLHA QUEM MANDOU
Foi o próprio Palocci quem encomendou ao marqueteiro João Santana uma campanha massiva para lançar o programa “Brasil Sem Miséria”.
MEGALANÇAMENTO
A campanha milionária do “Brasil Sem Miséria” prevê inserções em telejornais, dois minutos no Fantástico, páginas duplas em jornais etc.
CAMPANHA ELEITORAL
Ao custo de R$ 31 milhões, o lançamento do “Brasil Sem Miséria” não será visto pelos 800 mil miseráveis que se pretende retirar das ruas.
BOM E BARATO
MULHER DE CITADO EM ‘MENSALINHO’ TEM AGÊNCIA
A Quê Comunicação, de Eduardo Godoy, o Dudu, que segundo o Ministério Público teria emprestado seu escritório a lobistas do “mensalinho”, não tem sede em Campinas (SP), mas sim a PG Comunicação, da mulher dele, Patrícia Bergamo. Um dos clientes da PG é a Senasa, de água e saneamento, fonte do escândalo envolvendo o prefeito dr. Hélio (PDT) e o vice petista Demétrio Vilagra.
EX DO ZECA
Dudu Godoy, que fez as campanhas de Lula e Marta Suplicy em 1998, dirigia a PG em 2002, acumulando contratos com prefeituras petistas.
UMA FORÇA
Patrícia atende a prefeitura petista de Sebastião Almeida, em SP. Em 2006, ela doou R$ 1 mil à campanha dele a deputado estadual.
ALOPRADOS
A empresa de Dudu detém milionária fatia da publicidade da Petrobras. Em 2006, ele apareceu numa “ponta” no suposto dossiê anti-Serra.
CRAQUE NO ‘BANCO’
O governador do Amazonas, Omar Aziz (PMN), afirmou ontem a Dilma, em conversa reservada, o que havia dito aos senadores José Sarney e Renan Calheiros: o governo comete o erro de não escalar seu maior craque em articulação política: o vice-presidente Michel Temer.
BARRA-PESADA
Controlador da empresa M Brasil, generosa financiadora de campanhas petistas, o ex-deputado estadual carioca Jair Marchesini foi acusado em ação, no Tribunal Regional Federal da 2ª Região, por falsidade ideológica e supressão fraudulenta de documentos.
DEMISSÃO
O governador do DF, Agnelo Queiroz (PT), decidiu demitir Luiz Antônio Moretti do cargo de secretário-adjunto de Publicidade, mas a saída será oficializada “a pedido”, claro. O PT concluiu que Moretti é um trapalhão.
CEGO EM TIROTEIO
Os petistas andam tão menosprezados pelo Planalto que ontem o ex-líder do PT na Câmara Fernando Ferro (PE), que já foi mais próximo do poder petista, entrou no Planalto e perguntou a um funcionário: “O ministro Luiz Sérgio (Relações Institucionais) é aqui? Em que andar?”
QUEDA ANUNCIADA
O PT já discute a oficialização de um substituto do líder na Câmara, Paulo Teixeira (SP), que caiu em desgraça junto a Dilma após advogar plantações de maconha mantidas por cooperativas de viciados.
DINHEIRO FÁCIL
A incansável indústria de multas do Detran-DF viu no “Dia Mundial sem Tabaco”, ontem, uma oportunidade para faturar mais: multou quem foi visto dirigindo com cigarro no bico, supondo o uso de apenas uma das mãos. Três pontos na carteira e mais R$ 85,13 na caixa registradora.
VOLARE
Dilma, que evita avião com medo de pneumonia, deve ficar de fora da festa em Roma, amanhã, do 150º aniversário da república italiana. De quebra, não terá de dar explicações sobre o terrorista Cesare Battisti.
NO AR
O Brasil vai espernear, mas a Embraer deverá ficar fora do páreo para fornecer à Força Aérea dos EUA novos caças de combate, reconhecimento e treinamento, apesar do preço “camarada”.
PERGUNTA NA ARQUIBANCADA
Será que Pelé gostou de ser comparado por Lula a Palocci?
PODER SEM PUDOR
BARÃO NA CPI
O empresário Antônio Velasco prestava depoimento à célebre CPI dos Correios, quando o então deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), atual ministro da Justiça, descontraiu o ambiente sisudo ao lembrar a célebre frase do Barão de Itararé:
– Negociata é aquele bom negócio para o qual não fomos convidados...
QUARTA NOS JORNAIS
- O Globo: Governo não protegerá nem 30 de 165 ameaçados de morte
- Folha de S. Paulo: Dilma privatiza Cumbica e mais dois aeroportos
- Estadão: Dilma privatizará aeroportos e quer abrir capital da Infraero
- Correio: Bonde da alegria para atender a deputados
- Valor: Agrava-se conflito entre Casino e Pão de Açúcar
- Zero Hora: Piratini avalia projeto do PT de Canoas para premiar professores
- Brasil Econômico: Governo assume o controle do Banco Postal por meio do BB
terça-feira, maio 31, 2011
ADRIANO PIRES e ABEL HOLTZ - Contrapartidas ao bom-mocismo
Contrapartidas ao bom-mocismo
ADRIANO PIRES e ABEL HOLTZ
O Estado de S. Paulo - 31/05/2011
O governo reafirmou o desejo de ampliar a participação de algumas empresas estatais no cenário de ações internacionais, a exemplo da Petrobrás e de muitas outras empresas brasileiras privadas. O mérito da iniciativa é romper o imobilismo que essas empresas têm, dada a sua cultura de pouco risco, posto que o erário sempre as socorreria à custa do contribuinte. Se bem o entendemos, o repto do governo é correto, mas é necessário preparar os quadros dessas empresas para a percepção e a ação consequente dos riscos como aos que a Petrobrás e as empresas privadas têm sido expostas, pois, a despeito da vontade, não existe a cultura do risco nessas empresas. E a ausência dessa característica, aliada às indicações políticas de profissionais sem o devido preparo para o preenchimento dos cargos de direção, cria problemas e pode levar a enormes prejuízos.
Nesses dias tivemos a aprovação pelo governo, após chancela do Legislativo, do incremento dos valores a serem pagos pelo Brasil ao Paraguai a título de indenização pelo uso da parcela da energia produzida em Itaipu. O processo de aprovação foi lento e despertou reações em vários setores da sociedade, tendo em vista que o governo afirmou que quem pagará a conta será o contribuinte brasileiro, via Tesouro. A pauta de discussões com o Paraguai ainda incluiu o direito de vender a sua parcela de energia a qualquer consumidor, inclusive os brasileiros - os outros são argentinos e chilenos. Esse direito continuará sendo discutido nos próximos anos e, dada a abrangência de suas consequências, assumimos que o tema deveria ser tratado com maior seriedade e competência.
Para assegurar o pagamento da dívida da Eletrobrás com a Banca Internacional, foi elaborada uma lei que obrigou as distribuidoras brasileiras do mercado Sudeste a comprarem energia e potência de Itaipu. Pode haver questionamentos quanto ao valor, mas não a recusa do pagamento - valor que está atrelado ao montante necessário ao repagamento da dívida da Eletrobrás para com a Banca Internacional, independentemente de modicidade tarifária ou qualquer outra condicionante.
Se a energia de Itaipu viesse a ser comercializada diretamente para o mercado brasileiro, como seria feita a substituição da energia hoje suprida pela parcela do Paraguai? Considerando que essa energia é produzida em 50 ciclos /seg e tem de ser transformada para consumo no Brasil em 60 ciclos/seg, quem seria responsável por esses custos e como seria precificada a transmissão da energia da parcela paraguaia entre Itaipu e os pontos de consumo - ao mesmo preço de hoje? Seriam adicionados impostos de importação ao custo?
Passando o direito de venda da parcela da energia paraguaia para a Administración Nacional de Electricidad (Ande) comercializar, qual seria o valor da dívida remanescente a ser também passada para a Ande e não mais da Eletrobrás? Como mensurar a dívida assumida quando da construção da usina, que é contestada pelo governo paraguaio, para definir esse valor remanescente?
Por fim, a usina é hoje operada em consonância com os procedimentos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Como ficariam a operação de Itaipu a partir do exercício desse direito pelo Paraguai e os compromissos de entrega da energia que a Ande viesse a assumir com consumidores brasileiros, paraguaios, argentinos e/ou chilenos?
Assim, quando o governo lança a Eletrobrás como líder desse processo de integração com os vizinhos, complementando o suprimento de energia ao mercado brasileiro, tem de avaliar os aspectos desse imbróglio e a experiência já tida com a Bolívia - investimentos em refinarias e instalações de exploração de gás natural -, os contratos de compra e venda de gás natural com a Argentina para uma termoelétrica brasileira no Rio Grande do Sul e as interrupções de fornecimento de energia em Roraima pela Venezuela, para que nós, consumidores e contribuintes, tenhamos benefícios a custos aceitáveis.
MARCO ANTONIO VILLA - Ele voltou
Ele voltou
MARCO ANTONIO VILLA
O Globo - 31/05/2011
Em 1928, no México, foi assassinado o presidente eleito Álvaro Obregón. O assassinato gerou grave turbulência política. Obregón já tinha exercido a Presidência nos anos 1920-1924. A Constituição de 1917 proibia a reeleição mas não o retorno ao poder após um interregno. O presidente em exercício, Plutarco Elias Calles, administrou a crise, elegeu outro sucessor e se transformou no dirigente de fato nos anos 1928-1935. Esse período da história mexicana ficou conhecido como "maximato", ou seja, Calles, considerado o "chefe máximo da revolução", era o dirigente de fato do governo. Este domínio terminou quando Lázaro Cárdenas, seu afilhado político, eleito presidente em 1934, no ano seguinte rompeu com seu mentor.
A crise do governo Dilma Rousseff e o retorno de Lula ao primeiro plano da cena política nacional é o nosso maximato. Lula teve de assumir o posto de presidente de fato, pois a presidente perdeu o controle da situação. Era esperado que isto fosse acontecer mas não tão cedo, com menos de cinco meses de governo. A inexperiência política da presidente era sabidamente conhecida. Antes de 2003, nunca tinha exercido qualquer cargo de importância nacional. Desconhecia os meandros de Brasília, além de não saber negociar, conviver com a diferença e com opiniões contrárias. Foi formada em outro mundo e outra época. Para ela, ainda deve valer o centralismo democrático, a forma stalinista de administrar, que trata qualquer opinião contrária como crime ou traição.
Quando foi ministra das Minas e Energia, ou mesmo na Casa Civil, pouco fez política. Outros ministros exerceram esse papel ou o próprio presidente Lula foi o articulador do governo. Sabedor desta dificuldade, Lula escolheu a dedo o chefe da Casa Civil. Antonio Palocci seria uma espécie de primeiro-ministro e encarregado dos contatos políticos com o Congresso Nacional e com os representantes do grande capital. Contudo, Palocci se encastelou no governo e pouco apareceu. De início foi considerado que era uma atitude de esperteza política, que estava articulando nas sombras. É a velha prática brasileira de encontrar qualidade onde há nulidade. O silêncio de Palocci foi entendido como estratégia e não como a mais perfeita tradução de alguém que não tem a mínima capacidade para o exercício do cargo. E para piorar surgiram as denúncias das consultorias pagas a peso de ouro.
A confusão ficou maior quando a articulação no Congresso Nacional demonstrou sua fragilidade. O pesado líder do governo deixou de realizar o papel de elo entre a base e o Planalto. Ficou cuidando dos seus interesses partidários. O ministro da Articulação Política é absolutamente inexpressivo (a maioria dos parlamentares sequer sabe o seu nome). Dada a sua fragilidade, estranho é que tenha demorado tanto tempo para que ruísse o esquema político organizado por Lula no final do ano passado.
O mais curioso é que a crise nasceu no interior do próprio governo. Ou seja, não foi provocada em nenhum instante pela ação oposicionista. A oposição continua desarticulada, politicamente dividida e omissa. A divisão ficou mais uma vez demonstrada na convenção do PSDB. O governo até recebeu um alento, pois a reeleição de Sérgio Guerra à presidência do partido indica que a oposição peessedebista continuará tímida, quase envergonhada, sem representar perigo. O Brasil desafia a teoria política: para o governo, o problema não é a oposição mas o próprio governo.
Como contentar o PMDB? Cedendo espaço na máquina governamental que possibilite bons negócios. Rentáveis para efeito privado e péssimos para o interesse público. O governo postergou, até o momento, a partilha do butim, não pela defesa da moralidade pública. Longe disso. Está testando o partido para ver até que ponto é possível negociar. Outra dificuldade é o relacionamento com o grande capital. Aí é briga para gente grande. Não é meramente para controlar alguma licitação de compra de remédios ou de alguma estrada. Representa desenhar o futuro econômico do país, estabelecer o relacionamento dos fundos de pensão com as grandes empresas e bancos, apontar para onde deve seguir o processo de acumulação capitalista. É uma disputa dentro do PT. O antigo partido socialista hoje é o partido das grandes corporações. Daí o número de consultores petistas. De uma hora para outra, todos viraram especialistas em capitalismo.
O mais estranho é que o país segue seu ritmo normal. Como se voasse com piloto automático. Até certo ponto, a economia vai bem. Segue no vácuo do que já foi feito. Isto tem um limite. Já está no momento de traçar novo rumo. Mas como iniciar esta discussão se o governo mal consegue administrar suas contradições?
Dilma vai precisar demonstrar que comanda. Pura encenação. Coisa de ópera bufa. Nos próximos dias assistiremos à presidente em várias reuniões. Veremos também (ah, a importância das imagens...) ela, séria, numa reunião ministerial; sorrindo, quando encontrar a liderança do PMDB. Mas a crise vai continuar. Palavras não substituem as ações.
E Lula? Depois que reassumiu informalmente o governo, vai permanecer como o poder atrás do trono. Não vai se imiscuir nas questões do varejo político. Vai atuar no atacado, valorizando (como gostaria de dizer nas suas célebres metáforas futebolísticas) o seu passe. E preparando calmamente o seu retorno ao Palácio do Planalto. Já deve ter jornal preparando a edição especial do dia 1º de janeiro de 2015. A manchete? Também já está pronta. Em letras garrafais, no alto página, estará escrito: "Ele voltou."
XICO GRAZIANO - Bichos antiecológicos
Bichos antiecológicos
XICO GRAZIANO
O Estado de S.Paulo - 31/05/11
Insólita notícia. Manadas de javalis andam destruindo plantações em várias localidades agrícolas do País. Os bravios invasores europeus atacam pessoas e ameaçam a saúde ambiental. Ninguém sabe como enfrentá-los.
Trazidos há décadas para a Patagônia argentina, onde foram introduzidos para servirem à caça esportiva, os javalis passaram também a ser criados em cativeiro no Uruguai e, depois, no Brasil, visto apresentarem saborosa carne. Mas fugiram, ou foram soltos, dos criatórios, reproduzindo-se por aí com velocidade alarmante. Dizem que sua população dobra a cada seis meses. Apavorante.
Há uma agravante. O javali verdadeiro se cruza fácil com o porco do mato brasileiro - cateto ou queixada -, resultando num animal híbrido, apelidado de javaporco. Em cativeiro, o javaporco se oriunda do cruzamento com raças domésticas, gerando um animal amansado de boa carne. Algumas churrascarias a servem no rodízio.
Os suídeos selvagens, puros ou hibridados, assustam a turma do interior em 13 Estados brasileiros, onde já foram observados comendo roça de mandioca e milho, atacando galinheiros e devorando hortas. Chegando a pesar 150 quilos, inexiste cerca que os contenha. Sem predadores naturais, viraram uma violenta espécie invasora.
O problema envolve a agricultura, o meio ambiente e a saúde pública. Hospedeiro de doenças como a aftosa e a peste suína clássica, pode pôr em risco a suinocultura nacional. Predador voraz, afeta a biodiversidade local. Por isso preocupa os ambientalistas, como na Área de Proteção Ambiental (APA) de Macaé de Cima (Nova Friburgo, RJ).
O bicho invasor configura um animal nocivo e, como praga, precisa ser controlado. Mas aí surge o problema. Abater um javali, ou um javaporco, pode configurar crime ambiental. O inusitado assunto carece de regulamentação do Ibama, junto com os órgãos estaduais. Mas os órgãos públicos batem cabeça entre si.
No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina o abate e a captura dos javalis e porcos asselvajados estiveram liberados por um tempo. Agora foram suspensos para "mais estudos". Enquanto isso o problema se agrava. Rafael Salerno, agrônomo e estudioso da matéria, teme que as manadas de javalis cheguem à Amazônia. Seria um desastre. Duas pessoas, uma em Ibiá (MG), outra em Pedregulho (SP), foram mortas por mordida dos dentuços.
Sejam animais ou vegetais, a invasão de ambientes naturais por espécies exóticas já é considerada a segunda causa da perda de diversidade no mundo. Segundo o WWF, entidade ambientalista que mais se destaca no tema, as espécies invasoras configuram um verdadeiro desastre ambiental.
O problema vem de longe. Na colonização da Austrália, há 200 anos, os ingleses introduziram coelhos e raposas tentando reproduzir na nova terra seus ambientes familiares de origem. Tais espécies, porém, acabaram se tornando terríveis pragas, competindo por alimentos com os mamíferos nativos.
Há décadas os fazendeiros australianos, com o apoio do governo, lutam contra a epidemia de coelhos e raposas. Estímulo à caça, práticas de envenenamento, armadilhas, destruição de tocas com dinamite e, mais recentemente, introdução de doenças letais, como a mixomatose nos coelhos, nada tem funcionado a contento.
No Brasil se conhece o exemplo nocivo da introdução, na década de 1950, do lagarto teiú em Fernando de Noronha. O suposto combatente de ratos encontrou nos ovos das tartarugas e de pássaros marinhos das ilhas uma fonte maravilhosa de proteína, reproduzindo-se de forma incontrolável. Ande nas belas praias do arquipélago e os verá tomando sol.
Lebres europeias, bem maiores do que as nativas, atacam as lavouras paulistas e paranaenses há mais tempo que os javalis. Advindo das planícies paraguaias e argentinas, onde foi introduzido, o bicho orelhudo ataca os brotos das lavouras que encontra pela frente. Adora os de melancia.
Os agricultores nacionais andam sofrendo na agenda ambiental. Basta ver a polêmica criada sobre o novo Código Florestal. Volta e meia os carimbam contra a natureza. Agora, escaldados, solicitam ajuda para controlar a ameaça dos animais invasores, como os javalis e os lebrões. Bichos antiecológicos.
Na maioria dos Estados da Federação, como em São Paulo, a caça é constitucionalmente proibida. Certamente os legisladores imaginaram eliminar a matança de espécies silvestres - a paca, o tatu, a codorna. Mas criaram, sem o querer, um obstáculo ao controle da fauna exótica. Sorte do javali.
Os defensores da caça controlada, permitida na maioria dos países, argumentam seu valor na defesa ambiental dos territórios. Pode-se comprovar tal preservação ecológica na França, nos EUA ou no Quênia. Também funciona no Parque Nahuel Huapi, que circunda a linda Bariloche, no sul da Argentina. Lá os javalis podem ser abatidos a tiro sob a supervisão dos indígenas locais. A caça restrita gera renda e empregos no turismo de aventura patagônico.
Há décadas se compreende que a conservação ambiental difere do puro preservacionismo. Neste a natureza é intocável e o valor da biodiversidade tudo supera. Naquela se permite o uso sustentado dos recursos naturais e a biodiversidade se maneja em favor do homem. Aqui cabe a caça.
Uma saída vernacular deve resolver a parada. Basta os órgãos ambientais, ao regulamentar o controle dos javalis, permitirem o uso de armadilhas e técnicas que descaracterizem tal atividade como uma caçada de animais. Com a palavra o Ibama.
Lembrei-me do Obelix, gordo amigo do Asterix, o Gaulês. Louco por comer javalis assados, inteiros, o personagem da engraçada história em quadrinhos os abatia no muque. Será esse o desiderato dos agricultores, pegar javalis à unha?
TUTTY VASQUES - Fifa: que país é esse?
Fifa: que país é esse?
TUTTY VASQUES
O ESTADÃO -31/05/11
A gente reclama do Brasil, mas, em matéria de lambança política, convenhamos, a Fifa é insuperável. Nas eleições presidenciais de amanhã, a entidade comemora sua maior crise moral consagrando o quarto mandato de Joseph Blatter, absolvido sumariamente no último domingo da acusação de conivência com esquema de propina. O mesmo tribunal afastou do futebol o candidato da oposição, Mohamed bin Hamman, por compra de votos.
A gente reclama do Conselho de Ética do Senado, mas seus critérios de julgamento são extremamente rigorosos perto dos métodos do comitê responsável por impor limites ao vale-tudo na Fifa. O Sarney deles é, sem exageros, muito mais senhor da situação que o nosso.
A gente - ô, raça! - reclama da figura patética de nossos políticos em geral, mas só estando agora em Zurique pra ver o desfile de presidentes de federações de futebol dos quatro cantos do mundo. Muitos levaram toda a família para participar do circo eleitoral anunciado em manchete pelos jornais europeus. Nenhum deles está nem aí pra isso!
Enfim, a gente reclama da falta de seriedade do Brasil, mas a Fifa é o verdadeiro país do futebol.
Ou não?
Meu garoto
"ADORO QUANDO O MICHEL FALA GROSSO ASSIM!"
Marcela Temer, vice primeira-dama da República, sobre a conversa dura que o marido teve dia
desses ao telefone com Palocci.
Preconceito bobo
Como se não bastasse trancar todos seus ternos no armário, Vanderlei Luxemburgo está usando óculos de hastes vermelhas, iguais aos de seu preparador físico. Só se fala disso na torcida do Flamengo - ô, raça!
Menos ele
Lewis Hamilton anda se sentindo perseguido na Fórmula 1. Rubinho Barrichello não tem, evidentemente, nada a ver com isso!
Sem gols
Tasso Jereissati está convencido de que não houve um derrotado no último embate interno do PSDB. Isso quer dizer o seguinte: terminou 0 x 0 a convenção nacional do partido.
O cara de sempre
Lula vai aproveitar sua estada nas Bahamas, onde faz palestra hoje, para visitar os amigos Fidel Castro e Hugo Chávez. Não quer que pensem que ele sumiu só porque ficou rico.
Experimenta só!
Deu no Diário Oficial da Cidade de São Paulo: quando quiser atravessar na faixa, o pedestre deve fazer sinal com o braço esticado para solicitar a parada de veículos. Na pior das hipóteses, ele pega um táxi até o outro lado da rua.
Agora vai!
A oposição resolveu mudar a tática do cerco a Palocci. Ficou combinado que alguém vai gritar "pega ladrão" pra ver se o ministro corre!
Cidade maravilhosa
Piracicaba já tem um caveirão igualzinho ao da tropa de elite do Rio. É sonho do prefeito, agora, levar o mar até o município.
ILIMAR FRANCO - Entrando em cena
Entrando em cena
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 31/05/11
Esnobado pela articulação política petista do governo Dilma, o vice Michel Temer está tirando todo o proveito da crise Palocci e da votação do Código Florestal. Ontem, Temer promoveu jantar, no Jaburu, de aproximação com a bancada independente do partido, simpática às teses ruralistas. Hoje à noite, ao lado do líder do PMDB na Câmara, Henrique Alves (RN), conversa sobre o futuro com o governador Eduardo Campos (PSB-PE).
Barganha internacional
O governo brasileiro fará suspense sobre o nome que pretende apoiar para ser o próximo diretor-gerente do FMI. Apesar do assédio dos candidatos, a orientação é ver quem dá mais. A demanda vai de mais cargos para emergentes no segundo escalão até garantir que o próximo nome já não será de um europeu. A ministra da Economia francesa, Christine Lagarde, deve engrossar a lista de seus conterrâneos no cargo. Dos dez comandantes do FMI até hoje, quatro eram franceses. O prazo para a escolha é 30 de junho. O presidente do México, Carlos Salinas, quer o apoio de Dilma para o presidente do BC mexicano, Agustín Carstens.
“Ela é de inteira responsabilidade de Palocci, que já deveria ter fornecido as informações sobre o seu rápido enriquecimento” — Walter Pinheiro, senador (PTBA), ao negar que a crise seja do governo ou do PT
ESTAMPA! O sucesso da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), uma das mais tenazes defensoras do governo Dilma, mexeu com os brios do marido, o ministro Paulo Bernardo (Comunicações). Ele trocou sua foto no Twitter, colocando uma de quando ele tinha 20 e poucos anos. Ontem, a presidente Dilma Rousseff e o ministro tiveram uma longa conversa, no avião retornando de Montevidéu, sobre as mudanças na Telebrás e novas missões.
Se mexendo
Desde que assumiu, a ministra Izabella Teixeira (Meio Ambiente) está indo pela primeira vez acompanhar de perto uma operação de fiscalização na Amazônia. Foi preciso o governo perder, na Câmara, a votação do Código Florestal.
Nó em pingo d’água
Os articuladores políticos do governo se defendem das críticas após a derrota do Código Florestal. Alegam que o governo não tinha como ganhar, a exemplo das votações da distribuição dos royalties e do reajuste dos aposentados.
Na alça de mira
Os petistas estão espumando com o vazamento do bateboca entre o ministro Antonio Palocci (Casa Civil) e o vice Michel Temer. O alvo da ira é o secretário Moreira Franco (Assuntos Estratégicos), que, segundo os petistas, teria criado uma versão dramatizada do episódio. Eles só não vão para cima do peemedebista porque não se sentem confortáveis nem encorajados pela militância para, nas
atuais circunstâncias, sair em defesa de Palocci.
No limite
O governador Antônio Anastasia (MG) pedirá à presidente Dilma, na reunião da Copa, urgência na licitação das obras do terminal 1 de
Confins, cujo custo é de R$ 295,2 milhões. Com capacidade para 5 milhões de passageiros, já opera com oito.
Abrindo o cofre
O governo está antecipando o pagamento de US$ 3,1 bilhões ao Bird. A dívida do país junto ao banco está próxima do teto de US$ 16,5 bilhões. Se chegar ao topo, estados e municípios, principais tomadores, perdem acesso ao crédito.
DECIDIDO. A presidente Dilma vai vetar qualquer tipo de anistia a desmatadores que venha a ser aprovado pelo Congresso na votação do Código Florestal.
PREFEITOS do Norte Fluminense, que serão afetados pela redistribuição dos royalties do petróleo, preparam proposta alternativa para o relator do projeto do présal, Fernando Jordão (PMDB-RJ).
● O GOVERNADOR Sérgio Cabral não participa hoje de reunião com a presidente Dilma sobre a Copa. Ele está em Paris. O vice Luiz Fernando Pezão, presente.
JOSÉ SIMÃO - Socuerro! Matamento no Pará!
Socuerro! Matamento no Pará!
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 31/05/11
Estão matando tanto líder ambiental no Pará que já não é mais desmatamento, é matamento. Rarará!
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
E mais uma pra minha série os predestinados. É que tem uma funcionária da TIM que se chama Anália ALÔ! É verdade! Anália Alô Brito! "Anália, alô, é da Tim?" Rarará! E estão matando tanto líder ambiental no Pará que já não é mais desmatamento, é matamento. Matamento no Pará!
Então o Brasil tá com dois problemas na Amazônia: desmatamento e matamento! E querem dividir o Pará em dois Estados. Eu sugiro: Para Cima e Para Baixo! Rarará!
E o Silvio Santos é o único ser vivo que ainda fala: "Que rufem os tambores!". Agora vamos sortear dois carros! "Que rufem os tambores!". Rarará!
E esta: "Com a presença de Raí, São Paulo lança o Navio Tricolor". Vai ter cruzeiro comemorativo: Navio Tricolor. Mas já estão sugerindo outro nome pro navio do São Paulo: Priscila, a Rainha do Oceano! Rarará! Priscilão!
E pra que o São Paulo vai lançar navio? Pra torcida continuar a ver navio! E os corintianos precisam de um estádio. Pra pixar!
E o Palofi? Bullying no Palofi! O Palofi está ampliando os negócios. Vai lançar o fermento Palofi: aumenta seu bolo em 20 vezes.
E lançou o Budalocci: traz sorte nos negócios. Um Buda com a cara do Palocci. A pança é a mesma! Se o Palofi soltar a barriga, explode o zíper! E um Viagra super potente; o Paulocci. Aumenta 20 vezes!
E o Palofi é a alegria dos chargistas. Como tudo ele multiplica por 20, olha a charge do Sponholz com o Palofi no médico: "Diga 33!" E o Palofi: "660." Feisfentos e fefenta!
E o Alpino mostra o Palofi se recusando a ir pra CPI: "Vou não, quero não, posso não, a mulher não deixa não". Rarará!
E a convenção do Partido dos Socialiates do Brasil? Partido Sem Direção do Brasil: uma penca de héteros brancos de camisa social azul. Convenção da Camisa Social Azul. E a faixa etária? Festa Baile da Pintopausa! É mole? É mole, mas sobe!
O brasileiro é cordial! Placa do Gervásio na empresa em São Bernardo: "Se eu ouvir alguém aqui blasfemando em nome do Rabi da Galileia, vou fazer esse Inri Cristo charlatão ter hérnia de hiato de tanto que eu vou fazer ele beber óleo de pastel usado". E aí um funcionário escreveu: "Aleluia". Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
ELIANE CANTANHÊDE - Caem a foto e a máscara
Caem a foto e a máscara
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SÃO PAULO - 31/05/11
BRASÍLIA - Sarney mandou tirar as fotos do impeachment de Collor do "túnel do tempo", corredor do Senado que resume a história brasileira em textos e imagens. Já não era sem tempo. Collor, que já foi o inimigo número um, agora é só mais um na paisagem.
Como disse Lula, com uma risada marota, o vale-tudo contra Collor é coisa do passado e foi jogo político. A garotada que foi às ruas? Cresceu, endureceu e há os que defendem piamente que não tem nada demais petista palaciano multiplicar patrimônio por 20 em quatro anos e comprar apartamento de R$ 6,6 milhões. Sem dizer como...
O Brasil reescreve a história, apaga vestígios de moralismo, recria pessoas e maquia ou apaga fotos ao velho jeitão stalinista. Os que acham tudo isso bacana dirão que o país está "amadurecendo". Outros, que se trata de um deslavado cinismo. Impera o que mais se temia desde a redemocratização: a sensação de que são todos iguais.
Além dos políticos, até seus governos parecem iguais. Vejamos agora. Com Dilma, como foi com Collor, a(o) presidente não tem traquejo político e parece engolida(o) pelos aliados, antes que pelos adversários. Com Dilma, como foi com Sarney, tudo corre solto e a(o) presidente parece à sombra de quem de fato manda. Com todo o respeito ao dr. Ulysses, Palocci é o Ulysses de Dilma. Enquanto isso, ministros e líderes fazem o que bem entendem -e batem cabeça.
Ao excluir Collor do "túnel do tempo", Sarney vai receber uma crítica daqui, outra dali, mas finalmente fez justiça. O impeachment não foi por um país melhor e mais ético, mas por pura falha técnica: a falta de sustentação política.
Collor era um autoritário autossuficiente; PC Farias não passava de um jeca deslumbrado; o Fiat Elba foi pretexto; nós, os jornalistas, caímos no conto da ética; os caras-pintadas eram só massa de manobra. Nada disso se repetirá. Os novos Collor podem ficar sossegados.
ANCELMO GÓIS - Dom Juan
Dom Juan
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 31/05/11
Nessa sua recente visita ao Rio, o ator Antonio Banderas retomou a conversa com o diretor Bruno Barreto sobre um antigo projeto. Os dois pretendem filmar, ano que vem, uma versão irreverente do mulherengo “Don Juan”.
Leão nas escolas
Chamou a atenção do economista José Roberto Afonso, especialista em contas públicas, um dado sobre esse recorde da arrecadação federal no primeiro quadrimestre. Em comparação com o mesmo período de 2010, o item educação recolheu 88% a mais de impostos.
De mulher pra mulher
Dilma fez, digamos, um dengo em Ana de Hollanda ao levar a ministra em sua comitiva para o Uruguai.
Melhor assim
Aécio Neves tem circulado pela noite de Brasília com... motorista a tiracolo.
Boa forma
O senador Lindberg Farias, 41 anos, participou, domingo, em Florianópolis, da edição 2011 do Ironman Brasil. Lindinho fez em 11h50m a prova que inclui 3,8km de natação, 180km de bicicleta e 42km de corrida.
Contra os gays
O telepastor Silas Malafaia promete levar umas 30 mil pessoas para o protesto de amanhã, em Brasília, contra o projeto de lei 122, que transforma em crime discriminar homossexuais.
Homens de barro
A Editora José Olympio manda em breve para as livrarias “Os homens de barro”, de Ariano Suassuna. Trata-se de uma peça de apenas um ato, inédita em livro. O cenário é Lajeados da Pedra do Reino.
‘Vivir bien’
No Rio, o aluguel de imóveis anda pela hora da morte. Mas veja como a crise corroeu o mercado argentino. Em Buenos Aires, o m² de
escritórios de luxo em locais nobres, como Puerto Madero, vale uns R$ 45 por mês, segundo estudo do grupo Binswanger, feito em maio.
Já aqui...
O mesmo estudo aponta que o m² de escritório em local vip no Rio custa quase o dobro. Na média, sai por R$ 100, no Centro, e R$ 80, na Barra.
Ivete canta Noel
Ivete Sangalo, que faz turnê por Portugal, trocará seu trio elétrico pelo palco do Teatro Municipal do Rio e, pela primeira vez, interpretará Noel Rosa. Será no Prêmio da Música Brasileira, dia 6 de julho. Depois de cantar “Palpite infeliz”, irá em
seu jatinho para Santa Catarina fazer show na mesma noite.
Mestre Zu, 80 anos
Amanhã, a ABI entrega ao jornalista Zuenir Ventura uma placa que celebra seus 80 anos e sua “dedicação à imprensa e ao interesse público”. Eu apoio.
Obras na serra
Dilma e Cabral anunciam sexta agora, no Palácio Guanabara, um pacote de obras para a Região Serrana do Rio. Coisa de mais de R$ 500 milhões. Antes, vão a Angra lançar uma plataforma ao mar e almoçam juntos.
Revitalizando o Porto
Veja como rende frutos o projeto de Eduardo Paes de revitalização do Centro do Rio, incluindo a região do Porto. De janeiro a abril, cresceu 45 vezes o número de licenças para novas construções na área, em relação ao mesmo período do ano passado.
Orquestra jovem
O VI RioHarpFestival acaba hoje, na Antiga Sé, no Rio, com o lançamento da Orquestra Jovem Música no Museu, regida pelo maestro Anderson Alves. A harpista Dharana Marun vai solar.
Apaga isso
Ontem, véspera do Dia Mundial contra o Fumo, por volta de 9h, no ponto final da linha 463 (São Cristóvão-Copacabana), no Rio, a trocadora estava impaciente. É que ninguém conseguia embarcar: uma moça, a primeira da fila, não queria entrar antes de... cof, cof... acabar seu cigarrinho.
VLADIMIR SAFATLE - Correndo no ar
Correndo no ar
VLADIMIR SAFATLE
FOLHA DE SÃO PAULO - 31/05/11
É possível que, em algum momento na história do Exército brasileiro, ter senso de humor tenha sido condição para integrar suas fileiras.
Era bom ter um tipo de humor típico dos desenhos animados em que a raposa persegue sua presa e acaba não percebendo que o chão acabou.
Ela continua correndo, mas no ar. Todos veem que seus movimentos são irreais, menos a raposa. Até o momento em que a farsa não tem como continuar e a raposa cai.
Alguns militares responsáveis por crimes contra a humanidade, como tortura e terrorismo de Estado, agem até hoje da mesma forma. Eles continuam correndo no ar, como se o que todos enxergam não devesse ser levado a sério.
Vez por outra, eles nos escarnecem ao irem à imprensa e falar que nunca torturaram, sequestraram e ocultaram cadáveres, até porque, segundo os próprios, nem sequer houve tortura como prática sistemática de Estado. Operação Condor foi delírio de documentarista desempregado.
Em breve, eles nos convencerão que nem sequer houve ditadura militar. Tudo teria sido só um conjunto de medidas preventivas para impedir o "grande golpe comunista", inexoravelmente em marcha.
Há alguns meses, o antigo ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, nos mostrou um pouco dessa arte cômica ao afirmar que Vladimir Herzog se suicidou, já que era uma "pessoa assustada e não preparada".
Dias atrás, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-Codi entre 1970 e 1974 (ou seja, no momento mais negro e brutal da história brasileira), nos mostrou a mesma habilidade ao dizer, nesta Folha, que nunca torturou ninguém, que a história contada por Persio Arida a respeito de sua tortura era uma farsa.
Da mesma forma, teria sido uma farsa a acusação da então deputada federal Bete Mendes ao identificá-lo, no começo da década de 80, como aquele que a tinha torturado. Ao ser réu em uma ação declaratória de tortura e sequestro impetrada pela família Teles, o coronel mais uma vez não titubeou e simplesmente negou tudo, mesmo que o juiz da 23ª Vara Cível de São Paulo tenha julgado a ação procedente.
Em qualquer outro país, torturadores como o coronel Ustra estariam na cadeia, tal como foram presos militares que fizeram o mesmo -como Manuel Contreras e responsáveis por crimes contra a humanidade, como Jorge Videla, Ernesto Galtieri e companhia.
Aqui, eles podem continuar a correr no ar. Assim, convivemos com responsáveis por crimes hediondos que acreditam poder apagar a história, insultar a memória, deixando a ameaça velada de quem diz: nunca fiz isso e, como nunca fiz, ninguém pode me impedir de não fazer novamente. Enquanto isso, ficamos esperando as raposas caírem.
MÍRIAM LEITÃO - O Fundo, no fundo
O Fundo, no fundo
MIRIAM LEITÃO
O Globo - 31/05/2011
O FMI virou não se sabe muito bem o que depois do terremoto de 2008 e seus after-shocks. Tão duro e exigente com os emergentes, tão condescendente com os países que o controlam! É uma contradição insanável. Ontem, Christine Lagarde disse que ser europeia não é benefício nem falta. É benefício sim. É o que a mantém na frente da disputa.
Lagarde tem vários méritos, mas sua certidão de nascimento é o fator determinante de estar na frente da disputa pelo cargo mais importante do Fundo Monetário Internacional (FMI). Fosse tudo o que é, boa gerente, boa ministra das Finanças, advogada reconhecida, boa comunicadora, boa negociadora, com inglês perfeito, mas tivesse nascido em qualquer país não europeu, não seria a candidata do G-8. Portanto, não é uma falha ser europeia, mas é um benefício.
Lagarde será a nova diretora- gerente do FMI porque os ricos se uniram em torno dela e porque os emergentes não se uniram em torno de ninguém. A China está de olho em um lugar para si, o segundo posto. Os candidatos avulsos que aparecem são mais lembranças de analistas que qualquer movimento de articulação. Só o México lançou Agustín Carsten, presidente do Banco Central do país.
A imprensa inglesa tem criticado mais que os países emergentes esse monopólio do cargo mais importante do Fundo pela Europa. Segundo a “Economist”, o monopólio é há muito tempo uma anomalia.“ É tempo de acabar com isso.” Ainda de acordo com a revista, “dadas as circunstâncias da saída do Sr. Strauss-Kahn, o fato de ela ser mulher é um bônus.”
Na reunião de ontem no Ministério da Fazenda, Lagarde e o ministro Mantega conversaram a sós por 20 minutos. Depois foram para um almoço em que havia assessores. Na segunda parte da conversa os assuntos foram mais a situação da economia mundial, crise da Europa, do que propriamente a sucessão no FMI. O Brasil não tem intenção de lançar candidatura para marcar posição, mas gostaria que tivesse sido diferente a substituição de Strauss-Kahn. Inclusive quando o francês esteve no Brasil pedindo voto, o país tinha pedido que o critério de ser sempre um europeu a dirigir o Fundo fosse quebrado. Ele prometeu. Mas sua saída intempestiva e traumática invalidou o combinado.
Mais do que um critério ultrapassado, o que a “Economist” diz é que é inapropriado que seja um europeu porque é lá que ocorre a principal crise financeira do mundo hoje. “O Fundo teria que ser um árbitro imparcial da política econômica. É a única organização que pode forçar a repensar a estratégia falha para a solução dos problemas da Grécia, Portugal e Irlanda.” Segundo a revista, as pretensões presidenciais do ex-diretor-gerente Dominique Strauss-Kahn o levou a ser muito suave nas exigências à região. Diz ainda que Lagarde fez parte desse movimento de “defender o indefensável.”
O mais influente colunista inglês, Martin Wolf, do “Financial Times”, também não acha que ela é a melhor pessoa. Argumenta que apesar de seu bom currículo, seu forte é assuntos jurídicos e que em economia seu conhecimento é limitado, o que a fará depender mais dos seus assessores. Portanto, se ela assumir será fundamental saber quem vai substituir o vicediretor- gerente, John Lipsky.
Mas ela será a nova diretora- gerente porque como ela mesma disse: manda quem paga. O Fundo é uma soma de contribuição dos seus sócios, vota mais quem depositou mais. A Europa tem 32% dos votos. Tem uma representação acima do seu tamanho no PIB mundial, que está caindo de 25% em 2000 para 18% em 2015; os Estados Unidos têm 16,7% dos votos. Juntos, eles têm quase metade dos votos. Para os Estados Unidos é conveniente o acordo feito com a Europa em que é seu o controle do Banco Mundial. Então fica tudo como dantes apesar das profundas alterações na distribuição do poder global. Segundo Wolf, é compreensível que para a Europa seja tão vital controlar o FMI neste momento: 79,5% dos créditos do Fundo foram concedidos para países europeus.
Para a “Economist”, é exatamente essa concentração de recursos para a Europa que deveria impedir que o FMI continuasse sendo controlado pela região. A revista compara: seria como entregar para a Argentina o controle do Fundo nos anos 1980, ou para a Tailândia, em 1997.
Argumentos bons, mas os próprios articulistas sabem que nada disso será levado em conta. O momento poderia ser bem mais interessante se houvesse um candidato só dos países emergentes, mas os nomes que surgem são mais lembranças dos analistas do que candidaturas do grupo. Cartens, do México, foi lançado por seu governo. Os outros citados pela “Economist” aparecem pelas qualidades que têm, como Tharman Shanmugaratnam, de Cingapura, ministro das Finanças e chefe do conselho do Fundo; Mark Carney, presidente do Banco do Canadá; e Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central brasileiro e que integrou o grupo de reforma do FMI.
A Europa não está toda mal. Pelo contrário, os países fortes estão se recuperando. O problema é a exposição do Banco Central Europeu às dívidas dos países mais encrencados da região. Foi por isso que ontem a Alemanha decidiu abandonar as exigências que fazia para dar novo empréstimo à Grécia.
ARNALDO JABOR - O ataque do ''vírus da irrelevância''
O ataque do ''vírus da irrelevância''
ARNALDO JABOR
O GLOBO - 31/05/11
Um amigo meu, muito culto, tem um filho muito "conectado" na internet. E o menino disse a ele: "Pai, você sabe tudo que já aconteceu, mas não sabe nada do que está acontecendo". O pai, como todos nós, embatucou. A mutação cultural dos últimos anos foi tão forte, a turbulência no mundo pós-industrial dissolveu tantas certezas, que caímos num vácuo de rotas.
Não só no Brasil, mas no mundo inteiro, artistas e pensadores vivem perplexos - não sabem o que filmar, escrever, formular. Em geral, recorrem às atitudes mais comuns nas turbulências: desqualificar os fatos novos e reinventar um "absoluto" qualquer. Sinto em mim mesmo como é difícil criar sem esperança ou finalidade. Como era gostoso nosso modernismo, os cinemas novos, os movimentos literários, as cozinhas ideológicas. Os criadores se sentiam demiurgos falando para muitos. Agora, na falta das "grandes narrativas" do passado, estamos a idealizar irrelevâncias, como se ali estivessem pistas para novas "verdades" a desvelar - a aura deslizou da obra para o próprio autor.
Hoje, as palavras que eram nosso muro de arrimo foram esvaziadas de sentido e ficamos à deriva. Por exemplo, "futuro". Que quer dizer? Antes, era visto como um lugar a que chegaríamos, um lugar no espaço-tempo, solucionado, harmônico, que nos redimiria da angústia da falta de "Sentido". Agora, no lugar de "futuro", temos um presente incessante, sem ponto de chegada. Pela influência insopitável do avanço tecnológico da informação, turbinado pelo mercado global, foram se afastando do grande público as criações artísticas e literárias, as ideias filosóficas, os valores. Em suma, toda aquela dimensão espiritual chamada antigamente de cultura que, ainda que confinada nas elites, transbordava sobre o conjunto da sociedade e nela influía, dando um sentido à vida e uma razão de ser para a existência. Mais ou menos isso Vargas Llosa escreveu outro dia no El País, num ensaio chamado A Civilização do Espetáculo.
A verdade é que passamos da ilusão para o desencanto.
Temos hoje uma "horrenda liberdade" sem fins, porque (vamos combinar) os criadores querem mesmo é ser eternos, inesquecíveis, mesmo os mais radicais "instaladores" contemporâneos.
Nunca tivemos tantos criadores, tanta produção cultural enchendo nossos olhos e ouvidos com uma euforia medíocre, mas autêntica. Há uma grande vitalidade neste cafajestismo poético, enchendo a web de grafites delirantes. Não sei em que isso vai dar, mas o tal "futuro" chegou; grosso, mas chegou.
Talvez este excesso de "irrelevâncias" esteja produzindo um acervo de conceitos "relevantes", ainda despercebidos. Podemos nos dedicar ao micro, ao parcial, podemos nos arriscar ao erro com mais alegria; mas, isso não pode justificar um desprezo pela excelência. E o pior é que as tentativas de "grande arte" são vistas com desconfiança, como atitudes conservadoras, diante da cachoeira de produções que navegam no ar. Isso me lembra o tempo em que achávamos que o "fluxo da consciência", "the stream of consciousness" ou até o discurso psicótico encerravam uma sabedoria insuspeitada. Será que houve a morte da "importância"? Ou ela seria justamente esta explosão de conteúdos e autores? O "importante" seria agora o quantitativo? Não sei; mas, se tudo é "importante", nada o é. A importância de uma obra reside no grau de decifração da vida de seu tempo e para onde ela aponta, mesmo no túnel sem luz.
Se olharmos as obras-primas de, digamos, Jan Van Eyck, o gênio holandês, vemos ali todo o espírito da Idade Média, revelada nos detalhes mais banais, mesmo nas encomendas de príncipes ou cardeais.
Escrevo estas coisas porque meu artigo de hoje é a propósito de um "importante" ensaio de Alcyr Pécora de 23 de abril, no Prosa e Verso de O Globo, sobre a crise de nossa literatura. Alcyr acha que fomos atacados por "um vírus de irrelevância".
Ele escreveu:
"É como se o presente se absolutizasse e não mais admitisse um legado cultural como patamar exigente de rigor para sua produção(...) é como se alguma coisa se introduzisse na cultura e a tornasse inofensiva, doméstica. (...) A ação já se apresenta como narrativa, como ocorre nos reality shows, em que as pessoas, antes de agir, representam ou narram a ação que lhes cabe, como se todo mundo fosse interessante o bastante para ser visto/lido (...) Não basta haver conhecimento; tem de se produzir o que não é e o que não há (...) Na arte, não há nenhum valor simbólico que substitua o objeto (...) não há atitude ou opção ideológica que permita saltar sobre os mecanismos da composição (...) Perdida a noção de herança cultural, perde-se a de crítica, de autocrítica, e naturalmente a de criação (...) Escrever literatura é um gesto simbólico que traz uma exigência: a de ser de qualidade (...) A recusa de muitos escritores de sequer considerar o impasse atual tem qualquer coisa de cegueira deliberada (...) Atitude resolve problemas do roqueiro, mas não resolve a questão da literatura".
No entanto, as questões levantadas pelo professor não tiveram repercussão teórica maior, além de reclamações mal-humoradas de que ele seria um crítico "estraga-prazer, um intrometido".
Contudo, é preciso que esses tópicos sejam discutidos, com ou sem polêmicas, pois, na tal conversa do pai erudito com o filho conectado, a resposta do pai poderia ser: "Você acha que sabe tudo que está acontecendo e nada sabe sobre o que já aconteceu".
Por isso, dou uma pequena contribuição ao assunto: tenho um filho de 11 anos, João Pedro. Eu, zeloso pai, botei o Quarteto de Cordas op. 133 de Beethoven para que ele ouvisse um momento máximo da história da música. Ouviu tudo atentamente enquanto, no ritmo exato do quarteto, jogava um game, o Hell Kid no iPad.
Beethoven e o game se uniram em harmonia. Talvez haja futuro.
JOÃO PEREIRA COUTINHO - Os fantasmas de Clint Eastwood
Os fantasmas de Clint Eastwood
JOÃO PEREIRA COUTINHO
FOLHA DE SÃO PAULO - 31/05/11
Se "Além da Vida", que a crítica desprezou, não é uma obra-prima do cinema atual, chore por mim, leitor
VALERÁ A pena ler críticas de cinema? Falo das críticas conceituadas de jornais conceituados. Tenho dúvidas.
Um exemplo: meses atrás, assisti a "Invictus", de Clint Eastwood. Não gostei.
Nelson Mandela pode ser figura importante na história sul-africana, mas, para santos, prefiro visitar a língua de santo Antônio, conservada numa redoma de vidro, na belíssima cidade de Pádua.
Quando Clint Eastwood dirigiu o filme seguinte, "Além da Vida", auscultei opiniões: antes de marchar para a sala, queria precaver-me de desilusões terminais.
Não há nada mais triste do que assistirmos à decadência de um diretor que admiramos. David Lynch, Francis Ford Coppola, Gus Van Sant -o meu cemitério é longo.
As críticas a "Além da Vida" eram piores do que imaginava. Nos Estados Unidos, havia uma mistura de compaixão e desânimo com Clint Eastwood. Na Inglaterra, o tom piorava: desprezo e mesmo sarcasmo.
Clint sucumbira a meditações espíritas e estava, numa palavra, acabado. Só os franceses salvavam a honra do convento. E, mesmo eles, com reservas.
Desisti de "Além da Vida" -como, admito, desisto de grande parte do cinema comercial em exibição nas salas.
Mas uma noite, em casa, alguém passou o filme em DVD. Abreviando: se "Além da Vida" não é uma obra-prima do cinema moderno, chore por mim, leitor. Sou eu quem está acabado.
Antes do enterro, porém, permita-me uma defesa.
"Além da Vida" centra-se na história de George, um operário americano que possui poderes mediúnicos que o permitem contatar com os mortos. Um fardo, um pesado fardo que ele transporta como Sísifo transportava a sua pedra -e que Matt Damon personifica com uma desolação magistral.
Ironia: a capacidade de se ligar com os mortos é o impedimento principal para que George se ligue com os vivos.
E uma sequência do filme resume essa maldição de forma só acessível aos criadores de gênio: quando George conhece Melanie (Bryce Dallas Howard), a convida para sua casa e, por insistência dela, toma as suas mãos e espreita para o seu passado. Se o leitor não desabar emocionalmente com a sequência, acredite, o melhor é legar o seu corpo à ciência ainda durante a vida.
Paralelamente à história de George, duas outras histórias: a de Marie (Cécile de France), jornalista francesa que sobrevive a um tsunami mas não à experiência aterradora de ter visitado, por breves momentos, o que existe do outro lado; e a de Marcus (Frankie McLaren), cuja perda do irmão será o início de uma busca desesperada para contatar com ele.
Resumido assim, pode parecer que "Além da Vida" é um filme sobre mortos. Nada mais errado. "Além da Vida" é tanto sobre mortos como as fábulas de Charles Dickens são sobre fantasmas.
E não é por acaso que o George do filme tem um gosto especial pela literatura de Dickens. Os bons espíritos sempre se encontram: a literatura fantástica de Dickens, e em especial o seu "Christmas Carol" que o filme evoca na visita final à casa-museu do escritor, apenas permite que os fantasmas corrijam o rumo perdido dos vivos.
Corrigir o rumo: não há tema mais caro no cinema de Clint Eastwood. Essa busca de uma ordem existencial ameaçada que leva o pistoleiro Bill Munny a vingar as prostitutas desfiguradas em "Os Imperdoáveis"; que leva o pequeno Phillip a sacrificar o seu amigo (e sequestrador) Butch em "Um Mundo Perfeito"; que leva Walt Kowalski ao supremo sacrifício em "Gran Torino".
E que levará George, através do seu desgraçado dom, a devolver a graça a Marie e a Marcus. E, devolvendo-lhes a eles a possibilidade de uma vida, a redimir-se por eles e com eles.
Como no citado conto de Charles Dickens, o fantasma do futuro só aparece no fim -quando o passado e o presente já assombraram o avarento Ebenezer Scrooge.
O mesmo acontece em "Além da Vida". Só que esse futuro não é feito de solidão e terror; mas de reconciliação e esperança.
É o único momento em todo o filme em que George abandona as grilhetas passadas e presentes que o visitam e atormentam. E se permite a imaginar um futuro para si também.
Assinar:
Postagens (Atom)

