domingo, maio 29, 2011
JOSÉ SIMÃO - Ueba! Datena levou uma voadora!
Ueba! Datena levou uma voadora!
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 29/05/11
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Deu a louca nos supermercados! Olha a placa da gôndola de azeites e torradinhas do Pão de Açúcar: "Uma entradinha caprichada faz você feliz?". FAZ! Rarará! Então não é Pão de Açúcar! É Pau de Açúcar! E essa oferta no Extra: "Mesa de ferro fudido". E ainda parcelam em cinco vezes. E essa: "Todos os produtos dessa mesa contém glúteos". Pão com bunda! E a manchete do Sensacionalista: "Corintianos desolados com a perda de Dentinho: "Era o último que a gente tinha'". Corintiano agora só vai de sopa e truta. E o presidente do Corinthians garante que as obras do estádio começam na próxima semana. SANTA! E diz que o estádio vai se chamar Fielzão. Mas como ninguém acredita, muda pra Ateuzão!
E essa do G1: "Mulher flagra marido transando com uma pata". E fica com cara de pata! A pata é ela! E essa da Folha: "Sexo oral dá câncer na boca". E uma amiga minha: "Por que não me avisaram ontem?". Rarará! Sexo oral dá cãibra na boca! No máximo, pode dar LER. Lesão por esforço repetitivo.
E o babado da TV: comandante Hamilton vai pra Record. E deixa o Datena a pé! Sem helicóptero! Isso é a pior coisa da separação: quando um dos dois vai embora e leva o carro! O comandante Hamilton deu uma voadora no Datena! Rarará! E o bom do comandante Hamilton é que ele entrega pizza em dia de enchente! E o Datena vai chamar o Marrone. No lugar do comandante Hamilton. Datena chama o Marrone pra pilotar o "Águia"!
Bullying no Palofi! Diz que a Dilma perguntou pro Palofi: ""Você sabe multiplicar por 20?". "Sei, mas demora quatro anos".
E uma amiga me disse que o marido tá igual o Palofi: em quatro anos, a barriga aumentou 20 vezes. E as quatro operações matemáticas: somar, diminuir, dividir e Palocci! E a manchete do Twiteiro: "Palocci explica o fenômeno do crescimento: "Meu patrimônio sofre de hipotireoidismo'". Efeito Ronaldo! Rarará!
E avisa pros tucanos e demolidos que CPI não serve pra nada. A não ser pra aparecer em telejornal. CPI é Coma a Pizza Inteira. CPI é a Comissão de Perguntas Imbecis! Rarará! Nóis sofre mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO
Medidas do BC e classe C aquecem consórcio de moto
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 29/05/11
Além da venda de carros, que tem aquecido o mercado de consórcios no país, a comercialização de cotas para motos atinge recorde e amplia a participação entre as modalidades.
Após as medidas do Banco Central, de restrição ao financiamento de veículos no fim de 2010, o consórcio cresceu como alternativa.
Março foi o melhor mês em vendas para motocicletas em toda a história dos consórcios do produto no Brasil, que tem cerca de 40 anos.
O volume vendido alcançou 119,5 mil no mês.
No primeiro trimestre, a Abac (associação de administradoras de consórcios) registrou 336 mil vendas de novas cotas -20% acima de igual período de 2010.
A compra de motos entre jovens, como iniciação ao consumo de veículos, e a nova classe média contribuem para a alta. A presença da classe C no setor de motos cresceu 154% de 2006 a 2010, segundo a entidade.
A base de consorciados de motos já tem o maior peso no volume total do setor.
"Entre potenciais compradores não consorciados, 68,6% apontaram, em resposta múltipla, desejo de adesão a grupos para motocicletas, 67,4% para automóveis e 65%, imóveis, segundo pesquisa da Quorum Brasil", diz Paulo Roberto Rossi, presidente-executivo da Abac.
A VOLTA DO PAI PRÓDIGO
No Palácio do Planalto diz-se que não foi a presidente Dilma Rousseff quem pediu socorro e a intervenção do ex-presidente Lula para apaziguar ânimos na crise Palocci. O padrinho foi à Brasília porque se sentiu chamado.
COMUNICAÇÃO EM MANDARIM
Uma agência chinesa especializada na comunicação de empresas que se lançam em IPOs, as ofertas públicas iniciais de ações, na Bolsa de Hong Kong.
Esse é o escopo da SPRG, que assessorou em Hong Kong o lançamento da Vale, a primeira brasileira a abrir capital na Bolsa asiática, em dezembro de 2010.
O diretor-presidente da agência, Richard Tsang, diz que a SPRG busca fazer as operações mais especiais.
"Além do IPO da brasileira, fizemos, a primeira canadense, a primeira russa e a primeira malaia."
A companhia ajuda na elaboração de prospectos, organiza "road shows" e faz o contato com a mídia.
Entre as próximas a abrir capital por lá estão a grife italiana Prada, a trading suíça Glencore e a norte-americana Samsonite, nenhuma brasileira. "Virão outras, depois da Vale, mas recomendamos que a empresa tenha investimentos na China."
Tsang recomenda aos entrantes no mercado criar uma marca forte em mandarim: um nome parecido com o ocidental e com mensagem positiva. Exemplos: Coca-Cola passou a significar "deliciosa e felicidade"; Revlon, "orvalho nas flores da manhã". Outro cuidado é com costumes chineses: não presentear com relógio (exceto o de pulso) nem usar o número quatro. Ambos remetem a mau agouro.
IMEDIATO
A Ovomaltine acaba de entrar no mercado de bebidas prontas. A marca, pertencente a britânica ABF, quer faturar R$ 57 milhões com o produto em um ano.
Nos primeiros seis meses, as vendas serão restritas a São Paulo, devido às diferenças entre a nova bebida e o achocolatado.
"É um produto que precisa ter maior presença em lojas menores", diz Danilo Nogueira, gerente-geral para a América Latina.
Os principais concorrentes da empresa no setor são Nescau e Toddynho.
O QUE ESTOU LENDO
Cosette Alves, empresária
A empresária Cosette Alves, membro dos conselhos da Jovem Orquestra das Américas e do MIS (Museu da Imagem e do Som) de SP, acabou de ler "O Jornalista e o Assassino", de Janet Malcolm, e dedica-se agora a "Prisoner's Dilemma", de William Poundstone, e à releitura de "Bellle du Seigneur", de Albert Cohen. "Capital Ideas Evolving", de Peter Bernstein, não sai da cabeceira.
com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK e VITOR SION
PAULO COELHO - Pirateiem meus livros
Pirateiem meus livros
PAULO COELHO
FOLHA DE SÃO PAULO - 29/05/11
A "pirataria" é o seu primeiro contato com o trabalho do artista: se essa ideia for boa, você gostará de tê-la; uma ideia consistente dispensa proteção
Em meados do século 20, começaram a circular na antiga União Soviética vários livros mimeografados questionando o sistema político. Seus autores jamais ganharam um centavo de direitos autorais.
Pelo contrário: foram perseguidos, desmoralizados na imprensa oficial, exilados para os famosos gulags na Sibéria. Mesmo assim, continuaram escrevendo.
Por quê? Porque precisavam dividir o que sentiam. Dos Evangelhos aos manifestos políticos, a literatura permitiu que ideias pudessem viajar e, eventualmente, transformar o mundo.
Nada contra ganhar dinheiro com livros: eu vivo disso. Mas o que ocorre no presente? A indústria se mobiliza para aprovar leis contra a "pirataria intelectual". Dependendo do país, o "pirata" -ou seja, aquele que está propagando arte na rede- poderá terminar na cadeia.
E eu com isso? Como autor, deveria estar defendendo a "propriedade intelectual". Mas não estou. Piratas do mundo, uni-vos e pirateiem tudo que escrevi!
A época jurássica, em que uma ideia tinha dono, desapareceu para sempre. Primeiro, porque tudo que o mundo faz é reciclar os mesmos quatro temas: uma história de amor a dois, um triângulo amoroso, a luta pelo poder e a narração de uma viagem. Segundo, porque quem escreve deseja ser lido -em um jornal, em um blog, em um panfleto, em um muro.
Quanto mais escutamos uma canção no rádio, mais temos vontade de comprar o CD. Isso funciona também para a literatura: quanto mais gente "piratear" um livro, melhor. Se gostou do começo, irá comprá-lo no dia seguinte -já que não há nada mais cansativo que ler longos textos em tela de computador.
1 - Algumas pessoas dirão: você é rico o bastante para permitir que seus textos sejam divulgados livremente. É verdade: sou rico. Mas foi a vontade de ganhar dinheiro que me levou a escrever?
Não. Minha família, meus professores, todos diziam que a profissão de escritor não tinha futuro. Comecei a escrever -e continuo escrevendo- porque me dá prazer e porque justifica minha existência. Se dinheiro fosse o motivo, já podia ter parado de escrever e de aturar as invariáveis críticas negativas.
2 - A indústria dirá: artistas não podem sobreviver se não forem pagos. A vantagem da internet é a divulgação gratuita do seu trabalho.
Em 1999, quando fui publicado pela primeira vez na Rússia (tiragem de 3.000 exemplares), o país logo enfrentou uma crise de fornecimento de papel. Por acaso, descobri uma edição "pirata" de "O Alquimista" e postei na minha página. Um ano depois, a crise já solucionada, eu vendia 10 mil cópias.
Chegamos a 2002 com 1 milhão de cópias; hoje, tenho mais de 12 milhões de livros naquele país.
Quando cruzei a Rússia de trem, encontrei várias pessoas que diziam ter tido o primeiro contato com meu trabalho por meio daquela cópia "pirata" na minha página.
Hoje, mantenho o "Pirate Coelho", colocando endereços (URLs) de livros meus que estão em sites de compartilhamento de arquivos. E minhas vendagens só fazem crescer -cerca de 140 milhões de exemplares no mundo.
Quando você come uma laranja, precisa voltar para comprar outra.
Nesse caso, faz sentido cobrar no momento da venda do produto.
No caso da arte, você não está comprando papel, tinta, pincel, tela ou notas musicais, mas, sim, a ideia que nasce da combinação desses produtos.
A "pirataria" é o seu primeiro contato com o trabalho do artista.
Se a ideia for boa, você gostará de tê-la em sua casa; uma ideia consistente não precisa de proteção.
O resto é ganância ou ignorância.
JANIO DE FREITAS - O criador contra a criatura
O criador contra a criatura
JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 29/05/11
Brasília emitiu uma demonstração de quanto é extensa a insatisfação com Dilma no Congresso
O CASO PALOCCI toma rumo apropriado, com os dois pedidos de explicação e de documentação que a Procuradoria da República enviou ao ministro, mas o conceito e a natureza da Presidência de Dilma Rousseff foram levados, não diretamente por seu multimilionário auxiliar, ao risco de perder o seu rumo.
Pior: os riscos da ação presidencial, já parcialmente atingida, incidem sobre a sua reformadora contribuição para reduzir as práticas de estilo mafioso que proliferam entre congressistas, ocupam o espaço das funções parlamentares e vão inviabilizando a democracia política.
Durante toda a semana que passou, Brasília emitiu uma demonstração eloquente de quanto é extensa a insatisfação com Dilma Rousseff na Câmara e no Senado. Por palavras e por atos, nem o PT a poupou de queixas irritadas e de represálias, ou ameaças de, em votações. Não sem motivo, considerada a maneira atual de conduzir-se como parlamentar -com as exceções realmente honrosas.
Se por uma face eram positivas, por outra as adesões feitas ou ameaçadas de "aliados" do governo à convocação de Palocci, senão mesmo de CPI, foram apresentadas com toda a clareza. São formas de exigir atendimento da Casa Civil às pretensões de parlamentares e de abertura do gabinete presidencial à frequência dos deputados e senadores da "base aliada".
Vários líderes de bancada, a começar do PMDB, comunicaram que "votariam o projeto do Código Florestal e depois mais nada", até que atendidos. Para demonstrar sua disposição, aprovaram a emenda, chamada por Dilma de "uma vergonha", que premia os grandes proprietários de terra onde se fizeram e se fazem os desmatamentos gigantescos.
A ampliação da revolta e das represálias e ameaças deve-se a um motivo simples: as nomeações e outros favorecimentos pretendidos pela voracidade dos parlamentares. Dilma, de fato, fechou as portas do Planalto tanto quanto possível.
As nomeações, se saem, tardam. Só uma ou outra é para o cargo pretendido pelo patrocinador do nomeado, e a troca nunca é para melhor. Como complemento, Dilma recusa-se a nomeações políticas para funções cuja eficiência requer formação específica -uma providência fundamental para recuperar alguns nacos da eficácia do Estado.
Acesso restrito: palácio do Executivo não é lugar de deputado e senador. Cujas obrigações estão no Legislativo ao qual pouco comparecem, e cada vez menos (os dois dias e meio de presença razoável na Câmara e no Senado já foram reduzidos, pelos empossados neste ano, a dois, no máximo).
Para questões próprias do parlamentar, há os ofícios e outros modos formais de comunicação com o Executivo. Deputado e senador sérios vão a palácio do Executivo quando solicitados. Afora isso, começa o motivo para suspeitas. Infalíveis, com maior probabilidade.
Senadores e deputados bem que podiam notar a equivalência da troca de apoio por favorecimentos, que são ganhos, à venda de segurança do governo nas votações parlamentares. E tal venda de segurança à que fazem as milícias e bandos nas comunidades. Ou à venda de segurança consagrada em Chicago-1920, Nova York e Miami. As modalidades variam com as circunstâncias, mas a prática e sua finalidade são equivalentes: o atendimento à exigência ou a represália.
Se o deputado ou senador vota em tal ou em qual sentido conforme o que recebe do governo, está traindo a representatividade que os eleitores lhe entregaram. O interesse do seu eleitorado está em um ou está em outro voto, e não em qualquer deles conforme a vantagem para o próprio parlamentar.
Mais grave: acima do interesse da parcela de eleitores, está o interesse do país. Única razão legítima, honesta e justificadora da existência do Congresso, de cada deputado e cada senador. Aquele que, por qualquer motivo, não se enquadra nesse princípio, está fazendo ao país o mesmo que faz ao seu eleitorado.
Lula foi a Brasília "para a defesa de Palocci". Fez um almoço político com os líderes de bancadas no Senado. Ouviu as acusações a Dilma. E explicou: "Ela não tem experiência nisso [convívio com os parlamentares], vou dar uns conselhos a ela". A narrativa é de um dos presentes.
Deu os conselhos, sim. E Dilma recebeu os primeiros parlamentares, já tem encontros coletivos marcados para os próximos dias, já sabe o que vai ser tratado e a resposta que lhe foi aconselhada. Produto daquela experiência de que fomos testemunhas por 8 anos. Ou, mais correto, por 16.
Dilma Rousseff põe na mesa, não se sabe se como trunfo ou como pagamento, o conceito e a natureza do governo Dilma Rousseff.
SERGIO FAUSTO - Educação para o debate
Educação para o debate
SERGIO FAUSTO
O Estado de S.Paulo - 29/05/11
Disseram que o livro Por uma Vida Melhor estaria autorizando o desrespeito generalizado às regras da concordância e abolindo a diferença entre o certo e o errado no emprego da língua portuguesa. Tudo isso com o beneplácito do MEC.
A celeuma ganhou os jornais nas últimas semanas. Foi motivada por um trecho no qual se afirma que o aluno pode dizer "os livro". Parece a senha para um vale-tudo na utilização da língua. Não é, mas assim foi lido.
Não conheço a autora nem sou educador, embora vínculos de família me tenham feito conviver com educadoras desde sempre. Escolhi comentar o caso não apenas porque se refere a um tema importante, mas também porque exemplifica um fenômeno frequente no debate público. Tão frequente quanto perigoso.
O procedimento consiste na desqualificação de ideias sem o mínimo esforço prévio de compreendê-las. Funciona assim: diante de mero indício de convicções contrárias às minhas, detectados em leitura de viés ou simples ouvir dizer, passo ao ataque para desmoralizar o argumento em questão e os seus autores. É a técnica de atirar primeiro e perguntar depois. A vítima é a qualidade do debate público.
Existem expressões, e mesmo palavras, que têm o condão de desencadear essa reação de ataque reflexo. Há setores da opinião pública para os quais a simples menção à privatização é motivo para levar a mão ao coldre. No caso em pauta, o gatilho da celeuma foi a expressão "preconceito linguístico" para qualificar a atitude de quem estigmatiza o "falar errado" da linguagem popular. Houve quem aventasse a hipótese de que o livro visasse à justificação oficial dos erros gramaticais do ex-presidente Lula. Um despropósito.
Dei-me ao trabalho de ler o capítulo de onde foram extraídas as "provas" do suposto crime contra a língua portuguesa. Chama-se Escrever é diferente de falar, título que já antecipa uma preocupação com o bom emprego da língua no registro formal, típico da escrita. São algumas páginas. Nada que um leitor treinado não possa enfrentar em cerca de 10 ou 15 minutos de leitura atenta. Se a fizer sem prevenção, constatará que o livro não aceita a sobreposição da linguagem oral sobre a linguagem escrita em qualquer circunstância, como chegou a ser escrito.
Ao contrário, no capítulo em questão, a autora busca justamente marcar a diferença entre a norma culta, indispensável na escrita formal, e as variantes populares da língua, admissíveis na linguagem oral. Não se exime ela do ensino das regras. Mas, em vez de recitá-las, vale-se da técnica da reescrita. Há uma seção particularmente interessante sobre o uso da pontuação. Vale a pena citar uma passagem: "(...) uma cuidadosa divisão em períodos é decisiva para a clareza dos textos escritos. A língua oral conta com gestos, expressões, entonação de voz, enquanto a língua escrita precisa contar com outros elementos. A pontuação é um deles".
Noves fora um certo ranço ideológico, aqui e ali, o livro é de bom nível. Trabalho de gente séria, que merece crédito. E um pouco mais de respeito. Fica o testemunho: a ONG responsável pela obra tem entre seus dirigentes, se a memória não me trai, profissionais responsáveis, no passado, por um dos melhores cursos de Educação para Jovens e Adultos da cidade de São Paulo, o supletivo do Colégio Santa Cruz.
É justamente a esse público que o livro se dirige. Ele é formado por alunos que estão travando contato com a norma culta da língua mais tarde em sua vida. Nesse contato tardio, frequentemente se envergonham do seu falar. Emudecem. Reconhecer a legitimidade do repertório linguístico que carregam é condição para que possam aprender. Não se trata de proteger esse repertório das convenções da norma culta, para supostamente preservar a autenticidade da linguagem popular. Isso, sim, seria celebração da ignorância. E populismo. O livro não ingressa nesse terreno pantanoso.
O que está dito acima se aplica também às crianças quando iniciam o processo de alfabetização. Sabe-se que o primeiro contato com a norma culta da língua é crucial para o desempenho futuro do aluno como leitor e escritor. Sabe-se igualmente que a absorção da norma culta é um longo processo. O maior risco é o de bloqueá-lo logo ao início, marcando com o estigma do fracasso escolar os primeiros passos do aprendizado. No início dos anos 1980, mais de 60% dos alunos eram reprovados na primeira série do ensino fundamental, o que se refletia em altas taxas de evasão escolar. Embatucavam no contato com as primeiras letras (e as primeiras operações aritméticas). Melhoramos desde então? Sim, as taxas de repetência, defasagem idade/série e evasão escolar diminuíram. Parte da melhora se deve à adoção da progressão continuada, outra presa fácil da distorção deliberada, pois passível de ser confundida com a aprovação automática.
Não aprendemos, ainda, porém, como assegurar a qualidade desejada no aprendizado da língua. Mas há sinais de vida. O desempenho dos alunos em Português vem melhorando, em especial no primeiro ciclo do ensino fundamental, conforme indicam avaliações nacionais e internacionais, ainda que mais lentamente do que seria desejável e necessário. A verdade é que o desafio é enorme: não faz muitos anos que as portas da educação fundamental se abriram para todos e a escola passou a ter de ensinar ao "filho do pobre" - dezenas de milhões de crianças - a norma culta da língua, que seus pais não dominam.
Há muita discussão e aprendizado a serem feitos para vencer esse desafio. É ótimo que todos queiram participar. Mas é preciso educar-se para o debate. Isso implica desde logo dar-se ao trabalho de conhecer o tema em pauta e ter a disposição de entender o ponto de vista alheio antes de desqualificá-lo. Sem querer ser pedante, é o que dizia Voltaire, séculos atrás: "Aprendi a respeitar as ideias alheias, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar". Todo mundo ganha com isso.
CLÓVIS ROSSI - Esse Palocci é um gênio
Esse Palocci é um gênio
CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SÃO PAULO - 29/05/11
SÃO PAULO - Uma noite de abril de 2003 jantei com o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, em Washington. Foi aliás a convite dele.
Mas aproveitei para tentar mostrar ao leitor como era a vida de um ex-trotskista, daqueles de gritar "abaixo o FMI", como ele próprio me contou, convertido, então como agora, à ortodoxia do Fundo.
Perguntei se Palocci entendia de economia. Respondeu que sabia apenas o macro. Aprendera, como prefeito de Ribeirão Preto, que "é preciso pagar as contas".
Vê-se agora que Palocci é um aluno excepcional: mesmo sem entender muito de economia, deu consultorias, que lhe permitem pagar todas as contas e ainda sobrar renda, que "chamam a atenção", como diz um raro petista não contaminado pelo total cinismo, caso do governador Jaques Wagner.
Chama mais a atenção porque, apenas três anos antes de dar início à exuberante carreira de consultor, Palocci recebia consultoria, em vez de prestá-la.
Está lá, no texto publicado em 2003, uma lista parcial de economistas nacionais e estrangeiros que o ministro dizia consultar: de Delfim Netto a Maria da Conceição Tavares, de Joseph Stiglitz a Jeffrey Sachs, todos grifes de porte no ramo, embora de etiquetas diferentes, até opostas.
Tudo somado, acho que só cabem duas linhas de investigação para apurar a evolução patrimonial que tanto chamou a atenção de Jaques Wagner (e das torcidas do Corinthians e do Flamengo em peso):
1 - A neurociência ou qualquer outra ciência prova que o cérebro de Palocci é uma esponja extraordinária, capaz de absorver conhecimentos em quantidade, qualidade e velocidade inéditas no planeta.
2 - É tráfico de influência mesmo, tentado pelas empresas contratantes ou efetivamente levado a cabo.
Jaques Wagner, colega que foi de Palocci no Ministério Lula, não parece acreditar na hipótese 1.
SONIA RACY - DIRETO DA FONTE
Olho no lance
SONIA RACY
O ESTADÃO - 29/05/11
Juvenal Juvêncio provou a legalidade de seu terceiro mandato à frente do SPFC no TJ-SP. Mas a oposição não se deu por satisfeita e entrou com reclamação no Supremo Tribunal Federal, semana passada.
Carlos Miguel Aidar, do Aidar SBZ, que cuida do time no caso, diz estar confiante na autonomia dos clubes para decidir questões como essa no âmbito do conselho deliberativo. E não de assembleias gerais, como sugerem os opositores a Juvêncio.
De zero a dez
Decresce a confiança dos empresários brasileiros na Justiça. Os 178 executivos que participaram do almoço do Lide, em torno de José Eduardo Cardozo, segunda-feira, deram nota média de 3,3 para a atuação do Judiciário.
No último levantamento, também feito pela Direito FGV, a avaliação foi melhor: 4,2.
Baú
Nem Strauss-Kahn nem Julian Assange. Assédios sexuais praticados por... padres são o tema da próxima edição da Revista de História da Biblioteca Nacional.
O artigo revela que no Brasil, entre 1610 e 1810, 503 mulheres denunciaram 425 padres por solicitação - como eram chamados esses delitos à época.
Aliança
Willian, ex-jogador do Corinthians, atualmente no Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, vai se casar dia 17, em Sampa. A noiva? Vanessa Martins, advogada, com quem vive há três anos em Kiev.
Cantará para os noivos, a banda Parangolé. Léo Santana, vocalista, é amigo do casal.
Responsabilidade social
O Baby Smile Show, feira sobre o universo da gestante, acontece terça no Terraço Daslu. Toda a renda dos ingressos será revertida para a ONG Operação Sorriso do Brasil. Convites a R$ 220. Ainda na Daslu, a grife Sawary Jeans arma coquetel e leilão beneficente em prol do Hospital do Câncer de Barretos. Dia 9, no Kiss & Fly.
A Fundação Dorina Nowill homenageia, terça-feira, os seus patrocinadores de 2010. No Teatro CIEE.
Ponto para a ArcelorMittal Tubarão. Doou todos os seus equipamentos de cozinha para curso de culinária da Apae Vitória, no Espírito Santo.
O torneio Help Bem Embrase de Golfe rendeu R$ 160 mil em doações para sete entidades beneficentes. Mais de cem empresários participaram do torneio e do leilão, semana passada no Guarapiranga Golf Club.
A Arcos Dorados, operadora da marca McDonald"s na América Latina, avisa: promove fórum sobre sustentabilidade para franqueados e fornecedores. Quarta e quinta, no espaço Villa Noah.
O espetáculo Emoções que o Tempo Não Apaga, no Maksoud Plaza, terá parte da renda destinada às obras do Credipaz e do Movimento de Vida Cristã. Convite a R$ 150. Dia 8.
O GBC Brasil arma jantar na Casa Cor para cem líderes da construção civil. No cardápio, os benefícios das construções sustentáveis para o meio ambiente. Quarta-feira.
A unidade Jabaquara do CVV promove curso para formação de voluntários. Dia 5, na Subprefeitura da Vila Mariana.
Detalhes nem tão pequenos...
1. Onde a borboleta para, enfeita. Pousou em noite de moda no Shopping Cidade Jardim.
2. O punhado de rolhas indica que o jantar foi pra lá de bem servido no La Brasserie Erick Jacquin.
3. Na parede, exemplos para recorrer, caso falte inspiração.
4. No inverno, polainas peludas roubaram a cena no desfile.
5. Nem o principal evento de decoração da cidade abre mão da beleza das flores.
6.Em tempos de frio, linha descolada foi lançada com direito a cinza cintilante.
CARLOS HEITOR CONY - A coisa
A coisa
CARLOS HEITOR CONY
FOLHA DE SÃO PAULO - 29/05/11
RIO DE JANEIRO - Que está complicado, está. Com poucos meses no poder, o atual governo dá a impressão de que não sabe o que está fazendo em Brasília. Justamente neste arranco inicial, quando é habitual a lua de mel dos novos mandatários, a coisa parece embananada, e pior do que embananada, suspeita de complicações maiores.
Os leitores deste jornal estão suficientemente abastecidos com os textos aqui publicados sobre o assunto; tirante os meus, são dos melhores e mais oportunos que eu tenho lido recentemente.
Não dá para entender que a turma do Planalto, com o reforço substancial de Lula, culpe a oposição e a imprensa pela crise. Até agora ninguém falou seriamente em CPI, ou em renúncia.
Para sanar (ou sanear) a crise, bastaria um ato elementar do ministro Palocci ou da própria presidente Dilma.
Já foi lembrado o exemplo de Itamar Franco, cujo braço direito teve problemas e foi afastado do cargo. Tão logo o problema recebeu os esclarecimentos de praxe, Henrique Hargreaves reassumiu seu posto.
Bem verdade que a crise atual, se tem em Antonio Palocci seu núcleo principal, transcende de muito a questão da conta bancária do chefe da Casa Civil.
Dona Dilma apresentou-se ao eleitorado como uma estupenda gerente das coisas públicas, embora nunca tenha exercido um cargo essencialmente político, como é a chefia de um posto executivo federal, estadual ou municipal.
Sua face gerencial ainda não foi suficientemente testada, mas a Presidência da República, em regime presidencialista, como é o nosso, gravita e opera no setor político, incluindo não apenas os grandes lances da sociedade como um todo, mas até as questiúnculas menores que vão surgindo no dia a dia da administração. E a súbita conta bancária de um ministro não chega a ser uma questiúncula menor.
ELIO GASPARI - Apareceu a reserva de mercado eletrônica
Apareceu a reserva de mercado eletrônica
ELIO GASPARI
O GLOBO - 29/05/11
A livraria da Amazon bloqueia a venda de e-books em inglês para títulos que foram editados em português
O MERCADO editorial brasileiro tropeçou numa lombada do atraso. Apareceu um misterioso bloqueio que impede a clientes da Amazon a compra de títulos em inglês de e-books que foram editados em português. É a reserva de mercado eletrônica.
Há mais de um século, os livros em português são mais caros que as edições estrangeiras. Jogo jogado, pois não se pode comparar a escala do mercado nacional com a do americano ou do francês. Com o surgimento de livrarias globais, e das tabuletas, a patuleia passou a dispor de fornecedores ágeis e pode comprar os livros (sempre em inglês) no dia do lançamento em Nova York, por metade do preço.
Um curioso achou três livros traduzidos para o português cujas edições eletrônicas estão bloqueadas na Amazon para clientes da América Latina e do Caribe. São os seguintes: "Fordlândia", "Caçadores de Obras-Primas - Salvando a Arte Ocidental da Pilhagem Nazista" (ambos da Rocco) e "Caçando Eichmann" (Objetiva).
Nenhuma das duas editoras lançou esses títulos em português no formato eletrônico. Só em papel. Disso resulta que o freguês brasileiro precisa pagar entre R$ 48 e R$ 57 por livros que na Amazon custam entre R$ 22 e R$ 24, no original, para a clientela livre do bloqueio.
Nem todos os títulos editados em português estão bloqueados nessas editoras. Podem ser baixados da Amazon, sempre em inglês, o monumental "Pós-Guerra", de Tony Judt, bem como "Conversas que tive comigo", de Nelson Mandela.
Quando os fabricantes de carroças viram a chegada do automóvel, disseram que aquelas máquinas provocariam surtos neurastênicos em mulheres. Depois, os fabricantes tentaram bloquear a produção de um sujeito chamado Henry Ford. Assim como os carros, os livros eletrônicos vieram para ficar. Eles já superaram a venda dos volumes em papel na Amazon.
A editora Objetiva assegura que não tem nada a ver com o bloqueio de "Caçando Eichmann". A Amazon quer se instalar no Brasil a partir de 2012. Tomara que não queira fazê-lo criando um mercado de segunda classe, formado por consumidores impedidos de comprar títulos na sua loja americana. Se o livro em inglês não pode ser vendido em Pindorama, basta que ela diga que isso acontece por determinação contratual do editor americano e de seu agente, com os nomes dos dois.
MESTRE TALLEYRAND
Uma lição do genial chanceler francês Talleyrand (1754-1838), para quem já ouviu falar em confidencialidade.
Diplomata, sedutor e amigo do alheio, recebeu uma oferta de propina de um empresário russo: "Darei 3.000 rublos a Vossa Excelência e ninguém saberá".
Talleyrand respondeu: "Dê-me 5.000 e conte a quem quiser".
OS TRÊS PS
O consultor Antonio Palocci sabia o risco que corria ao prestar serviços ao Banco Santander. As cláusulas de confidencialidade impedem que o banco conte quanto pagou e quem presenciou as palestras do doutor.
Em 2009, o Santander foi autuado pela Delegacia de Assuntos Internacionais da Delegacia da Receita Federal de São Paulo. Coisa de R$ 4 bilhões. À época, o banco recorreu e informou que tinha "plena confiança nas instituições brasileiras".
A então secretária da Receita Lina Vieira foi defenestrada meses depois. Com ela, saíram o superintendente de São Paulo e a delegada de instituições financeiras.
A banca brasileira gosta de transgredir uma regra das casas tradicionais inglesas e americanas, segundo a qual não se deve fazer negócios com os três Ps: Politicians, Press e Priests (Políticos, Imprensa e Padres).
EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo está convencido de que toda a questão do patrimônio de Antonio Palocci resume-se a dois vazamentos, um para dentro da Projeto e outro para fora, coisa dos tucanos, segundo o doutor.
O idiota solidariza-se com o ministro e com o tucanato, à espera de que vazem alguma coisa em cima dele.
SIGA O DINHEIRO
De um escorpião:
"A consultoria Projeto, de Antonio Palocci, faturou R$ 20 milhões em 2010. Talvez se deva fazer uma nova pergunta: Para onde foi o dinheiro?"
Em 2005, viu-se que Delúbio Soares, ao contrário de Palocci, arrecadara "quantias não contabilizadas", mas boa parte dos maganos que estão denunciados no Supremo Tribunal Federal nada deram ao comissário. Apenas receberam.
13 ANOS
É dura a vida do cidadão. Em 1995, Jorge Nelson Ribeiro, analista de câmbio do Banco Central, foi responsabilizado por um vazamento de informações.
Retiraram-no do cargo, mandando-o para o serviço de atendimento de balcão.
Satanizado, ele foi à Justiça. Dois anos depois, ganhou direito a uma indenização de R$ 20 mil e à recondução ao posto que ocupava. No seu direito, o BC recorreu.
Passaram-se 13 anos, o caso já passou pela mesa de sete desembargadores federais e nada.
Enquanto isso, surgiram o Google, o iPod e o iPhone, Bin Laden detonou as torres gêmeas e foi passado nas armas, mas o processo do servidor continua à espera de quem faça o seu serviço.
PROMESSAS
Para a série de promessas da doutora Dilma:
O Planalto diz que, em quatro anos, oferecerá 8 milhões de vagas no ensino profissionalizante.
Quem entende do assunto informa que, com algum esforço conseguem-se 1,6 milhão de vagas. Com muito trabalho, 3,4 milhões.
A menos que se redefina o significado da expressão "ensino técnico profissionalizante" essa meta não tem pé, muito menos cabeça.
A AGENDA VELHA CAPTUROU O GOVERNO
Primeiro a má notícia: o governo Dilma Rousseff está sem agenda nova. Em 2003, logo depois da posse, Lula lançou-se num audacioso projeto de reforma da Previdência e prevaleceu. Dilma entrou na batalha do Código Florestal e ralou uma derrota na Câmara. Afora isso, perdeu-se num varejão de pechinchas, como um parágrafo de livro que discutia a norma culta do português e um kit anti-homofobia.
Agora uma notícia boa: o programa Brasil Sem Miséria está parado, mas não repetiu o fiasco do lançamento, no primeiro de mandato de Lula, de um Fome Zero megalomaníaco e burocrático. Por enquanto, continua na geladeira a obsessão do trem-bala. Não ter agenda pode ser mau sinal, mas nesses dois casos, é melhor do que ter agenda ruim.
Finalmente, a péssima notícia: a doutora e seu partido caíram numa agenda velha. Na primeira semana de janeiro de 2003, o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, teve o aniversário festejado pelos convidados do publicitário Duda Mendonça, numa fazenda de Buritis (MG).
Pelo menos 18 comensais chegaram em seus jatinhos. Pouca gente sabia quem era ele. A palavra "mensalão" só apareceu em setembro de 2004 e Lula logo anunciou que, do ponto de vista do governo, "o assunto está superado". Meses depois, o deputado Roberto Jefferson chutou o pau da barraca.
ELIANE CANTANHÊDE - Nota vermelha
Nota vermelha
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SÃO PAULO - 29/05/11
BRASÍLIA - A melhor declaração da semana passada foi a do presidente americano, Barack Obama, para quem a China, a Índia e o Brasil são emergentes até bem bacanas, mas estão muito longe de fazer frente à hegemonia dos Estados Unidos e do Reino Unido. Alguém há de questionar?
Os Brics (excluídas a Rússia, que não se vê como "emergente", e a África do Sul, que acaba de chegar) de fato vêm fazendo bonito na economia, e as projeções indicam que o furacão China deve ultrapassar os EUA até 2020. Mas hegemonias não se fazem apenas com PIB.
O que a China tem na economia não tem na política e está muito longe de ser uma democracia. Já a Índia é craque em tecnologia, especialmente em informática, mas abriga milhões de miseráveis famintos. E o Brasil caminha com a rapidez de uma lebre para ser a quarta maior economia do mundo e com a morosidade de um cágado para se tornar um país moderno.
Nada poderia ilustrar melhor o estágio brasileiro do que a própria semana em que Obama fez a comparação dos Brics com os EUA: o principal ministro atolado em mais um escândalo; os órgãos do governo se esquivando de apurar; a presidente da República tutelada pelo antecessor; o vice-presidente aos gritos com o chefe da Casa Civil; o Código Florestal em chamas; as idas e vindas do kit anti-homofobia para as escolas.
Na área urbana, um assassino confesso, mas poderoso, foi preso depois de 11 anos de recursos e só deve ficar dois na cadeia. No campo, o assassinato de três líderes rurais: José Cláudio Ribeiro da Silva e sua mulher, Maria do Espírito Santo da Silva, no Pará, e Adelino Ramos, em Rondônia.
Ou seja: há crises e falhas graves no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Não é assim que o Brasil vai conseguir um lugar ao sol e um assento no Conselho Permanente da ONU para ensinar ao mundo o que é paz, justiça e dignidade. Primeiro, precisa fazer a lição de casa.
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - Estragos e soluções
Estragos e soluções
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
O GLOBO - 29/05/11
CLÁUDIO HUMBERTO
“Há um momento de certa ebulição no governo por conta dos fatos”
MINISTRO EDISON LOBÃO (MINAS), LEMBRANDO QUE HOUVE O MESMO EM OUTROS GOVERNOS
KASSAB DÁ PSD-DF A RORIZISTAS E SE ARREPENDE
RUIM DE SERVIÇO
Além do vínculo a Joaquim Roriz, Rogério Rosso chefiou um desastroso governo de oito meses no DF. Não deixou saudades.
FORA DO AR
A agenda de Dilma na sexta (28) tinha só encontro às 10 horas com o ministro da Saúde. A do ministro Palocci estava desativada na internet.
OBRA DE IGREJA
O ilustre contribuinte paga aluguel de outro espaço há três anos, enquanto não acaba a reforma da nossa embaixada em Washington.
DILMA KIT
Sai o kit gay, entra o kit anti-Lula, o maior pé-frio dos trópicos: meia de lã, galho de arruda e mordaça.
PALOCCI LIGA PARA BÊBADO ACHANDO QUE ERA ITAMAR
O clima caótico na Casa Civil da Presidência da República, em razão das denúncias contra o ministro Antonio Palocci, provocou tensão, e também momentos bizarros. O ministro pediu ligação para o senador Itamar Franco (PMDB-MG), assim que soube, há dias, do diagnóstico de leucemia. Telefonaram à pessoa errada, um bêbado, e Palocci conversou com ele longamente achando que era o ex-presidente.
BOM SAMARITANO
O Brasil doará US$ 50 mil para alojamentos de refugiados da Armênia no Azerbaijão. Foi o primeiro a coçar o bolso, a pedido da ONU.
CIRCOS SEM ANIMAIS
O Senado aprovou projeto da ex-senadora Ada Mello (PTB-AL) que proíbe a exibição, em circos, de animais da fauna silvestre ou exótica.
SOB FOGO CRUZADO
Dois prefeitos de capitais – João Pessoa (Luciano Agra) e Porto Velho (Roberto Sobrinho) – lutam para evitar o impeachment.
PALOCCI CAI, DIZEM OS ASTROS
Palocci está com os dias contados no governo, diz o jornalista Antonio “Bola” Harres, um dos mais acreditados astrólogos do País. Aliás, Dilma deveria perguntar a ele o que os astros dizem da sua saúde.
DF: MP AGORA GOVERNA
O Ministério Público já governa várias áreas do DF, sem precisar ir às urnas. O Instituto Brasília Ambiental, o Ibama do governo do DF, que atuava sob a demanda dos cidadãos, agora apenas cumpre ordens dos promotores. No governo passado, o MP indicou a secretária de Saúde.
SÍNDROME
SENSATEZ
Até a senadora Marta Suplicy (PT-SP), musa da causa gay, apoiou a atitude da presidente Dilma, vetando o manual de instruções do MEC para o homossexualismo. Para ela, o kit deve ser melhor discutido.
SARADOS
Depois das massagens, a Infraero vai oferecer ginástica laboral, aeróbica e musculação para os estressados funcionários do aeroporto internacional Pinto Martins, em Fortaleza (CE). Já os passageiros, ó...
ALIADOS SOB FOGO
O presidente do Senado, José Sarney, e o líder do PMDB, Renan Calheiros, foram informados de verdadeiros comícios contra eles feitos por um consultor, Rodrigo Zerbone, no 9º andar do Ministério das Comunicações. O ministro Paulo Bernardo prometeu tomar as devidas providências.
BEM-VINDOS
O novo estatuto dos Correios, com 20 mil cargos para “companheiros”, estreou com a nomeação com um técnico de nível médio do MEC para Analista XII, a maior para um concursado. Não vale escrever “os selo”.
CONVENÇÃO DE HAIA
APAGUE A LUZ
PODER SEM PUDOR
CONVITE IRRECUSÁVEL
Os anos como interventor em Minas deixaram Benedito Valadares mal acostumado. Ao anunciar que deixaria a vida pública, respondeu assim ao convite para ocupar cargo de direção em uma empresa privada:
– Vou ter gabinete? Secretárias? Telefones?...
O presidente da companhia respondeu afirmativamente, ele continuou:
– ...caro preto com motorista? Vou ter carro preto?...
– Isso não estava nos planos, governador, mas a gente dá um jeito.
– Então eu aceito, uai... - respondeu Valadares, com um sorriso maroto.
DOMINGO NOS JORNAIS
- Globo: Beltrame adverte que UPPs estão numa encruzilhada
- Folha: Cadastro revela políticos donos de rádio e TV no país
- Estadão: Após ação de Lula, Dilma chama PMDB e turbina agenda
- Correio: Como se aposentar recebendo R$ 10 mil
- Estado de Minas: Velho Chico Novos Rumos
- Jornal do Commercio: Emprego e bons lucros no São João
- Zero Hora: Descobertas tendem a dobrar petróleo no país
sábado, maio 28, 2011
No reino encantado de Thor - REVISTA VEJA - RIO
No reino encantado de Thor
Sofia Cerqueira
REVISTA VEJA RIO
Não bastam os jatinhos, carros espetaculares, roupas de grife, barcos e mansões que fazem parte da rotina vivida pelo filho do homem mais rico do Brasil. Ele agora quer ser também um grande empresário da noite
| Fernando Lemos |
| Thor e seu novo Aston Martin, de 1,3 milhão de reais: paixão por automóveis e pela forma física |
Com nome de divindade nórdica e herdeiro de uma fortuna estimada em 30 bilhões de dólares, Thor de Oliveira Fuhrken Batista não é um jovem comum. Primogênito do oitavo homem mais rico do mundo e da eterna rainha do Carnaval, o ex-casal Eike Batista e Luma de Oliveira, o garotão de 19 anos vive em um mundo mais próximo do fantástico reino de Asgard, das lendas escandinavas, do que da planície carioca. Amante da velocidade, tem na garagem um Aston Martin DBS, comprado há um mês por 1,3 milhão de reais. Quando quer badalar nas boates descoladas de São Paulo, embarca em um dos três aviões da frota familiar, entre eles um Gulfstream, capaz de ir até a Europa sem ser reabastecido. Gasta alguns milhares de reais numa noitada e volta para dormir no conforto da mansão onde mora, no Jardim Botânico. Ali, dispõe de facilidades como quadra de tênis oficial, sala de cinema e academia de ginástica. Assim como o deus do trovão, o Thor de carne, osso e músculos cultua a força física e exibe bíceps com 45 centímetros de diâmetro, esculpidos em uma hora e meia diária de malhação. Tal silhueta — e o patrimônio do pai — lhe garante a simpatia das mulheres. Com tantos prazeres ao alcance de um celular, o rapaz poderia simplesmente circular pelo planeta, frequentando os melhores hotéis, restaurantes e festas. Mas ele quer mais.
Quando repousa a cabeça em seus travesseiros de pena de ganso, Thor sonha em repetir o sucesso paterno no mundo dos negócios. A partir deste sábado (28), ele começa a dar forma a tal desejo. Nesse dia, foi agendada uma recepção para 4 000 pessoas no Museu de Arte Moderna, no Centro. Numa espécie de rito de passagem, a celebração marca o início das atividades da empresa BBX, uma sociedade com Mário Bulhões Pedreira, de 27 anos e herdeiro de uma das mais tradicionais famílias de advogados do país. Juntos, eles querem transformar a companhia em um conglomerado no ramo do entretenimento. O primeiro empreendimento, uma filial da franquia espanhola de boates Pacha, terá as portas abertas em outubro, na Gávea. Ao todo, o negócio vai consumir 11,5 milhões de reais em investimentos — metade do valor foi emprestada por Eike. “Eu cresci ouvindo meu pai dizer que o maior orgulho de um homem é ver o filho superá-lo”, conta. “Sempre engolia em seco quando ele dizia isso. Fazer mais do que ele é quase impossível.”
| Fábio Guimarães/Extra/Ag. O Globo (luma), WILTON JUNIOR/AG. ESTADO (Thor com eike), (camarote), Arquivo pessoal (restante) |
| Na piscina com o pai, quando este era conhecido apenas por ser marido de Luma (à dir.); ainda menino com a mãe famosa e ao lado do irmão Olin. Abaixo, no Carnaval de 2007 e, acima, ao lado de Eike, depois de uma reunião de trabalho |
Onipresente nas conversas, o pai é, indiscutivelmente, uma grande referência para Thor. Desde menino, ele o acompanha em reuniões e compromissos profissionais para um dia suceder-lhe no comando do império familiar. Quase toda semana, passa pelo menos um dia na sede da EBX, a holding do grupo, na Praia do Flamengo. O rapaz gosta de contar que seu primeiro compromisso de trabalho, digamos, foi em 2000, quando tinha apenas 9 anos. Na ocasião, viajou para o Chile com Eike, que foi vender uma mina de ouro. Recentemente esteve em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, para uma conversa com um xeque que seria dono de uma fortuna de 1 trilhão de dólares, a bordo de um iate de 400 pés. “O que mais me fascina no desejo de Thor de conquistar sua independência financeira é que ele está repetindo a minha história. Mas por vontade própria”, afirma Eike, orgulhoso.
Além da figura paterna, outro ídolo no panteão de Thor é o atualmente encrencado ator Arnold Schwarzenegger, ex-governador da Califórnia. A reverência não é fruto do desempenho do austríaco em filmes como Conan, o Bárbaro ou Exterminador do Futuro, na política ou nas notórias puladas de cerca, mas sim de seu passado como fisiculturista. O moço é totalmente obcecado pela forma física. Com 1,89 metro de altura e 88 quilos, exibe um índice de gordura corporal de atleta olímpico, ínfimos 4% (para a sua idade, o normal é 14%). No casarão onde mora com Luma e o irmão Olin, de 15 anos, sua maior diversão é se exercitar sob a supervisão de um personal trainer. À mesa, disciplina total. Adepto de um regime um tanto quanto peculiar, ele se alimenta de três em três horas com refeições ricas em proteína. No café da manhã, por exemplo, come frango grelhado com arroz e purê de batata. Suplementos alimentares e medicamentos complementam a dieta. Para monitorar os efeitos de tantas substâncias em seu organismo, realiza exames de sangue a cada dez dias. “Se não estou satisfeito com meu corpo, nem consigo pensar direito.”
Não raro, sua obsessão pelos exercícios e a preocupação excessiva com a estética dão origem a falatórios e fofocas. No fim do ano passado, Thor decidiu mostrar o resultado de tanta malhação a um grupo de colegas e teve a ideia de divulgar no YouTube um vídeo no qual aparecia de sunga fazendo ginástica ao lado de um amigo na academia particular. “Não imaginei que isso fosse repercutir tanto. Só porque tinha uma cena em que eu dava um abraço no meu amigo passaram a insinuar que eu era homossexual”, comenta, ao mesmo tempo em que desdenha dos comentários. “Tenho autoconfiança suficiente.”
Bem resolvido, ele realmente não se preocupa com o que falam de sua notória vaidade. Thor não só cuida da aparência de forma sistemática como conversa com desenvoltura sobre o tema. Diariamente, passa no rosto quatro tipos de sabonete e um creme antienvelhecimento. Tingidos por luzes no passado, os cabelos recebem hidratante e, uma vez por ano, queratina, para ficar mais macios. Tem um equipamento de bronzeamento artificial em casa, mas garante só ter entrado ali uma vez. “Meu dermatologista achou que podia ser perigoso. Uso então um spray autobronzeador”, revela. As roupas de grife são trazidas do exterior, à exceção das peças Armani, que compra na loja do Fashion Mall. A cada visita costuma gastar entre 12 000 e 15 000 reais. “Da mesma forma que herdou o espírito de liderança do pai, ele é muito parecido comigo em outros aspectos, como fisicamente. A boca e os olhos são meus”, diz Luma.
O universo por onde Thor gravita é, de fato, um mundo paralelo, onde a lógica tradicional se encontra em suspenso. Sua estreia à frente dos negócios acontece antes mesmo de ele ter concluído o curso superior — a matrícula no 1º ano de economia do Ibmec foi trancada porque ele achou o ritmo muito puxado. Apesar de ser fluente em inglês e alemão e ter estudado em uma das escolas mais tradicionais do Rio, valeu-se de um supletivo para concluir o ensino médio. Ler, definitivamente, não está entre suas preferências. Gosta apenas de textos sobre carros e fisiculturismo. Costuma se informar sobre negócios em um caríssimo serviço on-line fornecido pela agência americana Bloomberg, ao custo de 5 000 dólares mensais. Algo além disso, nem pensar. “Nunca li um livro inteiro”, admite. “Na época da escola, copiava os resumos da internet para fazer as provas.” No entanto, geralmente diz que a falta de aplicação nos estudos é compensada por um aguçado tino para investimentos. “Comprei o Aston Martin com o dinheiro que ganhei na bolsa”, afirma.
| Phillipe Lima/Ag. News |
| A ex-namorada Nicole |
| Cristina Granato |
| Tamara, atual namorada (de azul, ao lado de Thor): as mulheres na vida do solteiro mais cobiçado do país |
Rico, bonito e jovem, ele gosta de badalar. Além das escapadas de jatinho para São Paulo, usa os dois helicópteros da família para passar o fim de semana em Angra dos Reis. Lá, dois maravilhosos barcos, um com 68 pés (23 metros) e outro com 115 pés (36 metros), ficam à disposição dos hóspedes. Mão-aberta, muitas vezes banca as despesas dos amigos. “A gente tem uma vida de luxo, sim, mas não esbanjo dinheiro. Conheço gente que torra 60 000 reais numa noite. Eu gasto no máximo 6 000”, declara. Aos companheiros mais próximos e apaixonados por carros como ele, chega a dar presentes como um kit de peças cujo valor ultrapassa 20 000 reais. Mas aprendeu desde pequeno a se manter alerta contra aproveitadores. “Costumo dizer que já nasci com detector de gente interesseira. Sei que, com a fortuna do meu pai, muita gente finge ser minha amiga”, afirma. Por motivo de segurança, não dá um passo fora de casa sem que esteja acompanhado por seus seis guarda-costas.
| Fernando Lemos |
| O sócio Mário Bulhões na empresa BBX |
No Brasil, o filho de Eike Batista é a personalidade que mais se aproxima da figura de um príncipe herdeiro. Alguns de seus namoros do passado, como o que manteve com a paranaense Nicole Bahls, uma das apresentadoras do programa Pânico na TV, fizeram a festa dos paparazzi. Hoje mantém um relacionamento discretíssimo com a estudante de relações internacionais Tamara Lobo, de 20 anos. “Ela é a mulher com quem eu quero me casar”, avisa. No início do romance, Thor chegou a se preocupar em não ser mal interpretado. “No dia em que começamos a namorar, dei de presente uma aliança modesta da H.Stern, de 7 000 reais, para ela não achar que eu estava ostentando”, lembra. Em compensação, quando o namoro engrenou de vez, ele trocou a joia por outra, comprada na filial paulistana da Tiffany & Co por 30 000 reais. Tamara, também filha de família abastada, deu-lhe de presente um relógio Breitling, que acabou substituindo o antigo Rolex que nunca saía de seu pulso. Como o amor não tem preço, já reservou uma semana numa suíte de 160 metros quadrados do Hotel Ritz de Londres para comemorar o aniversário dela, em julho. Faz parte do pacote um Rolls-Royce para o casal passear por lá.
| Divulgação |
| projeção gráfica da Pacha que será aberta em outubro na Gávea: investimentos de 11,5 milhões de reais |
Sucessor direto de uma estirpe iniciada por seu avô, o engenheiro Eliezer Batista, ex-presidente da Vale e responsável pela transformação da empresa no colosso que é hoje, Thor tem um longo caminho pela frente. Aos que duvidam de sua capacidade ou destreza em gerir negócios, é bom lembrar que Eliezer e Eike também foram considerados aventureiros e até mesmo sonhadores. Os dois criaram empresas sem paralelo no país. Nada impede que o representante da terceira geração, com seu nome de herói escandinavo, seus músculos, sua obstinação e o capital da família, venha a realizar seus próprios feitos. Mas, se malhasse menos e lesse mais, mesmo que fossem apenas biografias de grandes empreendedores, suas chances — e seus poderes — seriam ainda maiores.
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