quarta-feira, abril 20, 2011
MERVAL PEREIRA - O alvo comum
O alvo comum
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 20/04/11
O ex-presidente Lula deu ontem mais uma das inúmeras demonstrações que tem dado nos últimos anos de que não se preocupa em ser coerente nas suas opiniões desde que possa tirar algum proveito da palavra dita no momento político certo. Nisso, no timing político, ele parece imbatível, desde que não se levem em consideração valores republicanos como seriedade no debate, nem nos incomode a prática de distorcer as palavras do adversário para ganhar a discussão no tapetão ideológico.
Depois de tentar ridicularizar a preocupação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com a nova classe média brasileira, transformando-a em abandono das classes populares, em reunião ontem com prefeitos do PT no estado de São Paulo o ex-presidente Lula defendeu que o partido busque alianças para as eleições municipais de 2012, incluindo nas suas chapas candidatos que atinjam setores da sociedade com os quais o PT tem dificuldades, como as classes médias e os empresários.
O exemplo de Lula foi seu ex-vice-presidente, José Alencar, a quem atribuiu importância capital na sua vitória de 2002 para a Presidência da República.
O diagnóstico de Lula está correto e corrobora a análise de Fernando Henrique. Os dois indicam o mesmo caminho para os partidos que lideram: a classe média ampliada deve decidir as próximas eleições municipais, especialmente diante de um quadro econômico adverso em que a inflação em alta e restrições de crédito podem afetar o sentimento de bem-estar que ela vem experimentando.
Na eleição municipal de 2004, o melhor ano em termos econômicos da administração Lula até aquele momento, isso não foi o suficiente. O governo perdeu as principais prefeituras do país, especialmente a de São Paulo, pois perdera o apoio da classe média de todo o país, atemorizada com o autoritarismo revelado por setores do governo e com o aparelhamento do Estado.
Além de todos esses problemas, há a questão da corrupção, que surgiu em meados de 2005 com o escândalo do mensalão.
De lá para cá, o desempenho sofrível do PT nas regiões Sul-Sudeste vem se mantendo inalterado, mostrando que ele continua a ter dificuldades na região mais rica e esclarecida do país.
Nada mais natural, portanto, que sua votação majoritária tenha migrado para o Nordeste.
O cientista político e ex-porta-voz de Lula André Singer, professor da USP, fez um trabalho acadêmico que se tornou imprescindível na análise do fenômeno do lulismo, em que o define como um grupo conservador, composto pelos beneficiários dos programas assistencialistas do governo e pelo aumento do salário mínimo.
Esse grupo identifica o governo como o fiador da estabilidade econômica e vê nele a garantia de sua nova situação financeira, que teme perder se houver alguma mudança inesperada.
Esse conservadorismo pode favorecer o governo, mas pode também afastá-los do governo se pressentir guinadas para a esquerda, por exemplo.
Essa análise do eleitorado brasileiro, e a necessidade de buscar uma conexão com esse grupo de cidadãos que hoje representa a maioria da população brasileira, é a mesma feita pelo ex-presidente Fernando Henrique, e fazer a ilação de que os tucanos são elitistas enquanto os petistas são os defensores do "povão" é apenas mais um embate político em que, por sinal, os petistas se saíram melhor até o momento porque os tucanos temem a imagem de elitistas.
Na análise petista, a nova classe média ainda está formando sua identidade sociocultural e por isso precisa ser acompanhada de perto. Entre 2003 e 2008, segundo dados do Centro de Pesquisas Sociais do Ibre, da Fundação Getulio Vargas do Rio, 31,9 milhões de pessoas ascenderam às classes ABC.
Essa "nova classe média", suas aspirações e, sobretudo, sua capacidade de ser um "agente fundamental" em uma revisão de valores da sociedade brasileira são analisadas pelos cientistas políticos Amaury de Souza e Bolívar Lamounier, no livro "A classe média brasileira: ambições, valores e projetos de sociedade", da editora Campus com o apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI), de que já tratei aqui na coluna. Vale a pena voltar a suas análises.
O fato de a mobilidade social dessas classes ter dependido amplamente do consumo, e não de novos padrões de organização ou desempenho na produção, demonstra a fragilidade dessa ascensão e justifica a incerteza que esses novos eleitores têm diante do quadro político.
Eles valorizam especialmente a educação, e os autores identificaram "um sentimento surpreendentemente generalizado" de insatisfação com a qualidade da educação.
A nova classe média, no entanto, considera a violência, a corrupção e as drogas como problemas mais graves que as carências referentes à saúde, ao desemprego, à habitação e à qualidade da educação.
Os cientistas políticos Amaury de Souza e Bolívar Lamounier constatam no livro que a classe média inclina-se pela democracia como a melhor forma de governo, "mas partilha com os demais segmentos da sociedade um sentimento de aversão à política".
Em grande parte, esse sentimento deriva da percepção de que a corrupção campeia no mundo da política, mas as pesquisas mostram que é também amplamente disseminada a sensação de que "os políticos e os partidos não se importam com a opinião dos eleitores".
É esse o eleitor do qual PT e PSDB estão atrás, assim como os partidos que disputam a centro-direita política, como o DEM e o futuro PSD.
MIRIAM LEITÃO - O nó da gasolina
O nó da gasolina
MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 20/04/11
O governo está numa armadilha em relação ao preço da gasolina, por culpa única e exclusiva dele mesmo. O pior é que a conta do erro será socializada. O contribuinte vai pagar o subsídio à gasolina; o que significa mais ou menos dizer que aquela pessoa que está no ônibus, apertada e sem conforto, pagará para aquela outra que está sozinha no seu automóvel usá-lo mais.
A comparação acima é de David Zylbersztajn, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo. A cena descrita define bem o que pode acontecer se o governo decidir reduzir a Cide, Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, ou seja, imposto dos combustíveis, só para a gasolina não subir. A Cide tributa os combustíveis e o dinheiro teria de financiar investimentos em melhoria da infraestrutura de transportes.
Uma das fórmulas que o governo está estudando para aumentar o que a Petrobras recebe pela gasolina é reduzir o imposto. A empresa aumenta o preço cobrado das distribuidoras, e o impacto é neutralizado pela queda da Cide; por isso, a distribuidora não tem de passar a alta para o preço na bomba. Parece uma mágica perfeita. Todo mundo ganha. A empresa recebe mais; o consumidor não pagaria mais.
Não existe mágica na economia. Alguém sempre paga a conta. Como o preço pago pelas distribuidoras pela gasolina não sobe há muito tempo - e o petróleo subiu, veja o gráfico - quem está subsidiando o preço é o acionista da Petrobras. O preço do combustível é resultado da cotação da matéria-prima e do valor dólar, que tem caído, neutralizando em parte a alta do petróleo. Mas outros derivados como nafta, querosene de aviação e óleo combustível têm sido reajustados.
Se o governo optar por reduzir o imposto para não subir o produto na bomba, quem pagará o preço será o contribuinte. Em 2008, quando este mesmo truque foi usado, o governo deixou de arrecadar R$3 bilhões.
Isso significa que a sociedade entregou aos donos de carros R$3 bilhões para incentivar o consumo de um combustível que, além de tudo, é fóssil. Esse não é um assunto fácil de tratar, porque em geral, provoca reações raivosas como se fosse a defesa do aumento do combustível. Mas é um tema incontornável. Não faz sentido econômico, social e ambiental incentivar o consumo de um combustível fóssil, tirando dinheiro de um imposto cuja destinação é investimento em infraestrutura em um país cheio de gargalos. No mundo, o que se discute é como taxar ainda mais o petróleo e seus derivados.
Esse subsídio cria distorções econômicas. Quanto mais se incentiva a gasolina, mais fica antieconômico usar o álcool nos carros flex. Quanto mais o consumidor prefere a gasolina nos carros flex, mais o país tem de importar gasolina e maior é o consumo de álcool anidro. Neste ambiente de forte demanda acontece o absurdo contado ontem, aqui neste jornal, pela repórter Ramona Ordoñez: em plena safra, os usineiros estão subindo o preço do álcool anidro para as distribuidoras.
A explicação da Unica, entidade que reúne produtores, para o fato é a seguinte: ontem, 125 unidades das 335 já estavam processando a cana-de-açúcar. Isso se soma à importação de 138 milhões de litros de etanol. Mesmo assim, o aumento da oferta não tem sido suficiente para regularizar o mercado, segundo Marcos Jank, da entidade.
- A elevada demanda de gasolina nas bombas provocou uma procura adicional de álcool anidro, que produziu o ajuste de preços dos últimos dias. A tendência é que a partir da semana que vem mais unidades entrem em operação e a queda de preços vá acontecendo e se acentuando no mês de maio.
Já a Petrobras culpa não a demanda por gasolina, mas o preço do álcool por uma possível escassez do produto nos postos. Mesmo que tenha havido aumento de demanda, é difícil entender que na safra o preço aumente, em vez de cair. Ainda mais pelo fato de ter havido importação de etanol.
O quadro do combustível é um dos vários que os diretores do BC terão de analisar para tomar a decisão de hoje sobre a taxa de juros. Se a Petrobras reajustar o preço da gasolina para a distribuidora, o produto que já está subindo por causa do álcool subirá ainda mais na bomba, elevando a inflação. Só não subirá se o governo usar dinheiro de impostos para subsidiar o consumo da gasolina. Outra complicação da análise de conjuntura são os sinais contraditórios dados pelo governo: o presidente da Petrobras informa que a gasolina vai subir e o ministro da Fazenda garante que não vai.
FERNANDO RODRIGUES - Propaganda estatal
Propaganda estatal
FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SÃO PAULO - 20/04/11
BRASÍLIA - Por volta do início de março, os brasileiros assistimos a uma propaganda estatal na TV sobre a ascensão do sexo feminino. Era para comemorar o Dia Internacional da Mulher. "No Brasil de hoje, ela tem a oportunidade de ser o que quiser", dizia o comercial de 30 segundos, ainda disponível em //bit.ly/video-mulher.
Nada contra, tudo a favor de enaltecer a mulher. Mas tudo muda quando há dinheiro público. Uma campanha de vacinação ou de prevenção da dengue é sempre bem-vinda. Só que falar sobre como o mundo está mais amigável para o sexo feminino não tem nada a ver com interesse público.
Aliás, a ideia-força da edulcorada propaganda contém um erro de concepção. Induz ao autoengano. Machismo e sexismo estão longe de acabar na sociedade brasileira.
Esse tipo de peça publicitária sem nexo é exemplo do descontrole da publicidade estatal. O governo nem sequer revela quais são os milhares de veículos receptores dos recursos para transmitir ou publicar os comerciais. No Brasil, a publicidade chapa-branca imita o universo: está em expansão. Lula bateu recorde atrás de recorde. Em 2010, seu gasto atingiu R$ 1,629 bilhão. Em oito anos, R$ 10,3 bilhões.
Em nível local, a situação é pior. Ficam em segredo até os valores globais investidos em propaganda em todas as mais de 5.000 prefeituras e nos Estados. Somados, devem resultar no maior gasto publicitário estatal do planeta Terra.
Dilma Rousseff assumiu o Planalto neste ano. Com reputação de boa administradora, terá a oportunidade de analisar a qualidade dos investimentos realizados pelo governo federal em publicidade.
Gastar dinheiro para dizer que a mulher "tem a oportunidade de ser o que quiser" não parece ser a prioridade de um país que anunciou cortes de R$ 50 bilhões em seu Orçamento. Dilma ainda tem algum tempo para refletir sobre a política de seu governo nessa área.
FERNANDO DE BARROS E SILVA - Tucanos fritos
Tucanos fritos
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SÃO PAULO - 20/04/11
SÃO PAULO - A debandada de pelo menos seis dos 13 vereadores tucanos em São Paulo explicita o racha das forças antipetistas na capital.
Os dissidentes do PSDB ligados a Serra e a Kassab saíram cuspindo fogo contra as brigadas alckmistas. "A facção do PSDB que odeia os vereadores tomou o diretório municipal", disse o vereador Gilberto Natalini, a caminho do PV.
Facção. Ódio. A ruptura de agora é o desfecho da guerra de 2008, quando Alckmin, candidato de si mesmo, foi boicotado pelo seu próprio partido e saiu humilhado da disputa municipal. É também o primeiro movimento da batalha a ser travada na sucessão de Kassab.
Está mais claro agora que ele e Alckmin não têm como apoiar um único candidato. A não ser -vale sempre a ressalva- que este candidato seja José Serra. Ocorre que Serra, mesmo que queira, o que é improvável, talvez não tenha mais força para cicatrizar as feridas abertas e apaziguar as "facções" em litígio.
O PSDB se fragilizou em São Paulo, isso está claro. Mas esse é um preço que Alckmin parece disposto a pagar para eliminar a influência de Serra sobre o partido. No que depender do governador, o kassabo-serrismo deve morrer por asfixia. A debandada dos tucanos é, em parte, um expurgo patrocinado por Alckmin. Ele segue a divisa de Bento 16: menos e melhores fiéis. Estratégia arriscada, sem dúvida.
Pelo visto, podemos ter uma candidatura de perfil mais provinciano e direitoso entre os tucanos, enquanto Kassab, herdeiro da direita e egresso do malufismo, corre atrás de um candidato furta-cor, transideológico, alguém de aparência modernosa e alternativa -como o secretário verde Eduardo Jorge.
Com os rivais divididos, o PT vê crescerem as suas chances de reconquistar a cidade. Lula, ontem, orientou o partido a buscar alianças à direita para atrair os setores médios conservadores e os órfãos do malufismo e do quercismo. Parece até só uma gincana para ver quem ilude melhor o eleitor.
ANNA RAMALHO - Até quando, Senhor?
Até quando, Senhor?
ANNA RAMALHO
JORNAL DO BRASIL- 20/04/11
O culto da Igreja Mundial do Poder de Deus, do pastor Valdemiro Santiago, agendado para amanhã, às 9h, no Aterro do Flamengo, já está tirando o sono dos moradores da região.
Com a palavra
Segundo a presidente da Associação dos Condomínios do Morro da Viúva (Amov), Maria Thereza Sombra, a principal preocupação é com a segurança e organização da festa:
– Esse tipo de evento trará uma multidão para o Aterro e ocasionará danos ambientais na região, já que será realizado em frente ao monumento dos pracinhas. Região essa que é tombada e está tendo o seu gramado reconstituído.
Pró-memória
A presidente lembra ainda que no ano passado o mesmo evento trouxe sérios problemas para o trânsito local, já que pelo menos 3 mil ônibus foram utilizados para transportar os religiosos e estacionaram nas ruas próximas ao Aterro. Um ano atrás, o prefeito Eduardo Paes disse que esse seria o último evento com esse perfil.
No Leste Europeu
Em visita ao Senado, a vice-ministra dos Negócios Estrangeiros da República da Lituânia, Astra Skaisgiryte, revelou que em junho vai haver naquele país um encontro de mulheres chefes de governo e que gostaria que a presidente Dilma estivesse presente.
– Gostaria muito que a presidente de um país grande como o Brasil participasse do encontro.
Baião de dois
Em junho, o Ministério das Relações Exteriores vai abrir, em Beirute, o Centro Cultural Brasil-Líbano, que oferecerá aulas de português, culinária brasileira, cinema e café.
Encontro marcado
José Luiz Alquéres prepara sua saída da presidência da Associação Comercial com uma grande reunião no dia 25 para a diretoria e conselheiros, em que apresentará o documento Continuidade e renovação.
Tudo azul
Nos dois anos à frente da ACRJ, Alquéres conseguiu cumprir todas as metas que estabeleceu para seu mandato e vai deixar as contas no azul para seu sucessor, Antenor Barros Leal.
Números
Nos últimos cinco anos, o número de brasileiros que fumam caiu de 16 para 15%. Os homens lideram o abandono do hábito. Ao mesmo tempo, as mulheres brasileiras aumentaram o consumo excessivo de álcool. Esses dados fazem parte da pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel).
Raspadinhas
O Hospital Adventista Silvestre, realiza hoje, a partir das 14h, a palestra Infecção após transplantes de órgãos, riscos e medidas de prevenção. O objetivo é disseminar informações gerais sobre o tema, incluindo depoimentos de pacientes transplantados.
A Casa e Bebê vende, só até hoje, enfeites, cestas de Páscoa e chocolates artesanais feitos por alunos da ONG Ser Alzira de Aleluia, do Vidigal.
A Via Mia inaugura loja, no Park Shopping Brasília, sua 14ª filial. Até o final de maio chega a Aracaju, no shopping Rio Mar.
ELIO GASPARI - O ocaso do sindicalismo emergente
O ocaso do sindicalismo emergente
ELIO GASPARI
O GLOBO - 20/04/11
Alguém fez papel de bobo em Jirau. Na segunda-feira, milhares de trabalhadores aceitaram um acordo coletivo negociado pela empreiteira Camargo Corrêa com a CUT e o sindicato dos operários na construção civil de Rondônia. Horas depois, a empreiteira anunciou que demitirá quatro mil empregados. Fez papel de bobo quem achou que essas demissões não ocorreriam.
Na semana passada, o ministro Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, antecipara a degola, argumentando que a construtora contratara gente demais. Aquilo que durante a campanha eleitoral era crescimento do emprego, virou "contratação desenfreada".
Há um mês, os peões do PAC fizeram na Amazônia o maior movimento de trabalhadores das últimas décadas. Parados, mais de 30 mil operários das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio conseguiram um acordo emergencial que lhes deu 5% de aumento real e pagamento regular de horas extras. Poucos dias depois, receberam a maior demissão em massa ocorrida desde o massacre da Embraer, em 2009.
É direito da Camargo Corrêa dispensar quantos funcionários queira. Não é razoável, contudo, que o Ministério do Trabalho e a nobiliarquia sindical façam de conta que nada aconteceu. Na noite de segunda-feira, o portal da Força Sindical dedicou 74 palavras ao assunto, contra 838 para uma greve grega. A CUT, nem isso. Destaque, só na página da "Conlutas", ligada ao minúsculo PSTU, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado.
A justificativa da mudança de ritmo na obra pode ser sincera de parte da empreiteira, mas é capciosa quando vem do governo. Uma semana antes do quebra-quebra de Jirau, a presidente Dilma Rousseff pediu pressa nas obras das hidrelétricas da Amazônia.
Nenhum baronete das centrais sindicais perderia uma perna se pusesse a cara na vitrine, como fez Gilberto Carvalho (um petista histórico, formado na Pastoral Operária), sustentando que há lógica nas dispensas. O assunto foi tratado com o silêncio da floresta porque as obras estão no mato e os trabalhadores são peões. Se as demissões acontecessem numa grande cidade, degolando numa categoria com melhores salários e algum ativismo político, o barulho seria enorme.
Os baronetes do novo sindicalismo pregarão uma peça nos empresários que há anos veem neles exemplos de moderação. Ela poderá vir da mesma farinha que surpreendeu o andar de cima nos anos 70 com o surgimento dos metalúrgicos do ABC e de um barbudo chamado Lula. Até então, federações, confederações e sindicatos de empregados variavam apenas na medida da docilidade. O peleguismo da ditadura ajudou a criar o PT. A nobiliarquia emergente começou a servir de tablado para a Conlutas e o PSTU. Para se ter uma ideia do que é essa novidade, seu programa defende o "rompimento com o FMI", a suspensão do pagamento da dívida pública, a expropriação de grandes empresas, reestatização daquelas que foram privatizadas, monopólio estatal do comércio exterior, bem como o congelamento de preços, tarifas e mensalidades escolares. Tudo isso e mais reajuste mensal de salários.
Em 1980, quando o PT foi fundado, defendia coisa muito parecida. ELIO GASPARI é jornalista.
RUY CASTRO - Nheco-nheco em ayapaneco
Nheco-nheco em ayapaneco
RUY CASTRO
FOLHA DE SÃO PAULO - 20/04/11
RIO DE JANEIRO - Leio no "Globo" que, no México, a língua de uma aldeia está condenada a desaparecer por falta de fluentes -só restam dois homens capazes de falá-la. Mas, embora sejam vizinhos, eles não se dão e não têm nada a dizer um ao outro. Além disso, já estão com certa idade -75 e 69 anos- e não transmitiram a língua a seus descendentes. Bastará que um dos dois morra para que ela seja declarada oficialmente extinta.
O desaparecimento de uma língua não é um fenômeno incomum. Acontece o tempo todo e em toda parte -em arquipélagos, grotões, montanhas, na selva e até nos guetos das megalópoles. Os motivos são vários: migrações, urbanização, a televisão, a ditadura da língua dominante e até mesmo a proibição de usar a língua nativa. Mas, sempre que uma língua emudece, a humanidade fica mais pobre.
A língua em questão é o ayapaneco, da vila de Ayapa, no sul do México. Nos últimos 500 anos, o ayapaneco sobreviveu ao conquistador Hernán Cortés, aos massacres étnicos, às incontáveis revoluções, ao peso esmagador dos EUA no cangote dos mexicanos e até à supremacia por decreto do espanhol (de uso obrigatório). Mas não sobreviverá ao desinteresse de seus jovens em continuar falando-o.
Quando uma língua deixa de existir, tudo que ela designava vai para o limbo -objetos, costumes, gírias, cheiros, sensações. Junto com o código, o entorno inteiro se evapora. E é possível que, na cultura de Ayapa, haja coisas que só fazem sentido em ayapaneco.
Uma receita exclusiva de panqueca, por exemplo, talvez nunca mais seja executada. Ou um jeito de cantar para ninar, de pedir uma informação, de reagir a uma martelada no dedo. E quem saberá reproduzir o que um homem e uma mulher ayapanequenses sussurravam um para o outro ao fazer nheco-nheco e que só podia ser dito em ayapaneco?
CLAUDIO HUMBERTO
“O Exército é fonte permanente de orgulho ao nosso País”
PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF, EM MENSAGEM SOBRE AS CELEBRAÇÕES DO DIA DO EXÉRCITO
PLANALTO ISOLA DEPUTADO DEFENSOR DA MACONHA
O deputado Paulo Teixeira (SP) já não é, de fato, o líder do PT na Câmara. O líder “informal” da bancada, reconhecido pelo Palácio do Planalto, é agora o ex-presidente da Câmara Arlindo Chinaglia (SP). A decisão de isolar Teixeira ocorre depois que ele passou a defender plantações de maconha, enquanto ataca os plantadores de feijão e produtores que apoiam o Código Florestal, em debate no Congresso.
PERVERSIDADE
Durante palestra, em fevereiro, somente agora revelada, Paulo Teixeira chamou de “perversa” a política de combate às drogas.
MACONHABRÁS
O líder petista Paulo Teixeira também causou espanto ao defender, em sites pró-drogas, plantações de maconha por cooperativas de viciados.
BARRADO NO BAILE
Paulo Teixeira foi até mesmo desconvidado a participar da reunião de líderes governistas para discutir a votação do novo Código Florestal.
VOTAÇÃO EM MAIO
Após reunião com Antonio Palocci (Casa Civil), o presidente da Câmara, Marco Maia, definiu: o Código Florestal será votado em maio.
DF: SECRETÁRIO REAGE A APARELHAMENTO E SE DEMITE
BROCHE NOVO
Tetraneta de Tiradentes, Lúcia Menezes, 62, ganhou novo mimo, além da pensão de R$ 760, contestada pelo INSS: a ordem do mérito militar.
MÉRITO
Âncora do Jornal da Record, Ana Paula Padrão esteve entre as personalidades agraciadas ontem com a medalha do Mérito Militar.
ABRAÇO TUCANO
A caminho da extinção, o DEM já discute, reservadamente, sua fusão do PSDB de FHC e Aécio Neves.
DEBANDADA
Tesoureiro do DEM, o ex-deputado Saulo Queiroz vai se mudar para o PSD de “Jilberto” Kassab, empurrado pelo ex-presidente do partido Jorge Bornhausen, que perdeu disputas internas no DEM.
VEXAME CANCELADO
O Tribunal de Justiça do DF decidiu anular a prova objetiva do concurso para juiz substituto, domingo (17): 19 das 100 questões foram copiadas de um concurso realizado em 2007, pelo mesmo tribunal.
A FÁBULA DE ELIFAS
MUY AMIGA
O Tribunal de Contas da União deu quinze dias para que a Fundação Humanidade Amiga, de Camaçari (BA), revele o destino de quase R$ 1 milhão do Fundo Nacional de Educação. Floresceu no governo Lula.
A LICITAÇÃO VOOU
É mais fácil tartaruga voar que aeroporto ficar pronto: por ordem judicial, a Infraero suspendeu a concorrência internacional de terça (26), para reforma do aeroporto internacional Tancredo Neves (MG). O TCU apontou irregularidades em subcontratações.
SAUDADES DE ERENICE
Há no TCU estudos que deixam mal os Correios. A qualidade dos serviços caiu tão vertiginosamente que provoca saudades da gestão monitorada pela ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra.
ELE, DE NOVO
Dilma pode se preparar para a canseira: um dos assuntos do porralouca venezuelano Hugo Chávez, terça (10), é “apoio moral” para a volta do presidente deposto Manuel Zelaya a Tegucigalpa, em maio.
PÕE NA CONTA
O Brasil, que mal sabe o que fazer com usina nuclear, foi convidado a contribuir na obra do sarcófago que lacrará a central de Chernobyl, que explodiu na Ucrânia, em 1986. A “sepultura” custará € 740 milhões.
FRASES INESQUECÍVEIS
PODER SEM PUDOR
FILÓSOFO COMUNISTA
– Como diria o filósofo alemão Kierkegärd...
– Dr. Pessoa – interrompeu o oficial, exausto – o senhor está dispensado..
QUARTA NOS JORNAIS
- Globo: País tem mais 100 empresas notificadas por biopirataria
- Folha: Como FHC, Lula quer atrair nova classe média
- Estadão: Governo quer mais capital estrangeiro em aéreas
- Correio: Condomínio nas alturas
- Valor: Arrecadação amplia superávit fiscal
- Estado de Minas: Vai doer no seu bolso
- Zero Hora: Ministra promete para o campo incentivos ao adotar Código Florestal
terça-feira, abril 19, 2011
GILLES LAPOUGE - A estranha boa saúde da moeda europeia
A estranha boa saúde da moeda europeia
GILLES LAPOUGE
O Estado de S. Paulo - 19/04/2011
O euro, a moeda comum europeia, é uma moeda animada. Ela sobe, sobe.
Todos os países da Europa, com exceção da Alemanha, estão ofegantes.
Eles tossem, cospem sangue e, de vez em quando, sofrem uma síncope (Grécia, Portugal, Irlanda). Com esse quadro clínico, o euro devia degringolar. Mas não degringola. Ele está cada vez mais alegre, forte e animado. Melhor: ele ganha da maioria das outras moedas. Eis que ele vale US$ 1,44 ou até US$ 1,45. O fato é que, de janeiro para cá, ele se valorizou 8,5% ante o dólar.
Os europeus estão orgulhosos dessas façanhas. Ao mesmo tempo, eles sabem que esse triunfo é duvidoso. A saúde do euro é uma catástrofe para as exportações. Todos os produtos europeus são penalizados na exportação por essa moeda gloriosa. Somente a Alemanha não sofre, mas a Alemanha, ora, a Alemanha.
Pode-se ao menos dizer que essa desvantagem na exportação é compensada por uma baixa no custo dos produtos importados? Sim. Nestes tempos em que o petróleo chega às alturas, o euro forte reduz o custo do petróleo para a Europa.
Mas os especialistas são unânimes: os inconvenientes do euro forte estão longe de ser compensados pela redução na conta dos hidrocarbonetos.
Eis por que os teóricos da economia estão arrancando os cabelos. Eles já não compreendem mais nada. Este continente é cada vez mais um Velho Continente. Ele se esfalfa para subir uma ladeira. Mas sua moeda galopa à frente. Mais extraordinário ainda: esse embelezamento monetário ocorre no momento em que a União Europeia dá, a cada dia, novos sinais de esgotamento.
Primeiramente, no campo econômico. Mal a Europa decidiu salvar Portugal, que caminhava para o abismo, eis que lhe trazem um novo paciente de urgência: a Grécia, que no ano passado estaria morta se a Europa não a tivesse revivido, sofreu uma recaída. Ela poderá entrar em default. A menos que a Europa a entube novamente para ajudá-la a respirar.
E não é só a economia. Quando França e Inglaterra quiseram organizar uma coalizão para uma missão de socorro na Líbia, a maioria dos outros europeus permaneceu sentada, aplaudindo com sorriso amarelo e dizendo: "Mais tarde veremos". Quando a Itália ficou ensandecida com a chegada à ilha de Lampedusa de milhares de imigrantes tunisianos, o restante da Europa virou a cabeça. A França, ensandecida com a ideia de que esses imigrantes pudessem vir para a França, fechou a fronteira com a Itália no último domingo. Felizmente, o presidente francês Nicolas Sarkozy, que já engajou o país em duas guerras em dois meses (Líbia e Costa do Marfim) estava ocupado demais no domingo. Ele não encontrou um minuto do dia para bombardear Roma.
Dois outros sinais: a Finlândia, que pertence à União Europeia, votou no domingo e deu maioria a um partido "populista extremista", que viola de A a Z todos os princípios da União Europeia.
Pior ainda: a Hungria acaba de se dotar, sob o comando de seu primeiro-ministro, Viktor Orban, de uma nova Constituição que espezinha todas as regras do estado de direito: censura, xenofobia, fim da previdência social, etc, o que é teoricamente incompatível com a própria União Europeia. E o que Bruxelas vai fazer? Nada. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK
Todos os países da Europa, com exceção da Alemanha, estão ofegantes.
Eles tossem, cospem sangue e, de vez em quando, sofrem uma síncope (Grécia, Portugal, Irlanda). Com esse quadro clínico, o euro devia degringolar. Mas não degringola. Ele está cada vez mais alegre, forte e animado. Melhor: ele ganha da maioria das outras moedas. Eis que ele vale US$ 1,44 ou até US$ 1,45. O fato é que, de janeiro para cá, ele se valorizou 8,5% ante o dólar.
Os europeus estão orgulhosos dessas façanhas. Ao mesmo tempo, eles sabem que esse triunfo é duvidoso. A saúde do euro é uma catástrofe para as exportações. Todos os produtos europeus são penalizados na exportação por essa moeda gloriosa. Somente a Alemanha não sofre, mas a Alemanha, ora, a Alemanha.
Pode-se ao menos dizer que essa desvantagem na exportação é compensada por uma baixa no custo dos produtos importados? Sim. Nestes tempos em que o petróleo chega às alturas, o euro forte reduz o custo do petróleo para a Europa.
Mas os especialistas são unânimes: os inconvenientes do euro forte estão longe de ser compensados pela redução na conta dos hidrocarbonetos.
Eis por que os teóricos da economia estão arrancando os cabelos. Eles já não compreendem mais nada. Este continente é cada vez mais um Velho Continente. Ele se esfalfa para subir uma ladeira. Mas sua moeda galopa à frente. Mais extraordinário ainda: esse embelezamento monetário ocorre no momento em que a União Europeia dá, a cada dia, novos sinais de esgotamento.
Primeiramente, no campo econômico. Mal a Europa decidiu salvar Portugal, que caminhava para o abismo, eis que lhe trazem um novo paciente de urgência: a Grécia, que no ano passado estaria morta se a Europa não a tivesse revivido, sofreu uma recaída. Ela poderá entrar em default. A menos que a Europa a entube novamente para ajudá-la a respirar.
E não é só a economia. Quando França e Inglaterra quiseram organizar uma coalizão para uma missão de socorro na Líbia, a maioria dos outros europeus permaneceu sentada, aplaudindo com sorriso amarelo e dizendo: "Mais tarde veremos". Quando a Itália ficou ensandecida com a chegada à ilha de Lampedusa de milhares de imigrantes tunisianos, o restante da Europa virou a cabeça. A França, ensandecida com a ideia de que esses imigrantes pudessem vir para a França, fechou a fronteira com a Itália no último domingo. Felizmente, o presidente francês Nicolas Sarkozy, que já engajou o país em duas guerras em dois meses (Líbia e Costa do Marfim) estava ocupado demais no domingo. Ele não encontrou um minuto do dia para bombardear Roma.
Dois outros sinais: a Finlândia, que pertence à União Europeia, votou no domingo e deu maioria a um partido "populista extremista", que viola de A a Z todos os princípios da União Europeia.
Pior ainda: a Hungria acaba de se dotar, sob o comando de seu primeiro-ministro, Viktor Orban, de uma nova Constituição que espezinha todas as regras do estado de direito: censura, xenofobia, fim da previdência social, etc, o que é teoricamente incompatível com a própria União Europeia. E o que Bruxelas vai fazer? Nada. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK
RODRIGO CONSTANTINO - Como se faz oposição
Como se faz oposição
RODRIGO CONSTANTINO
O Globo - 19/04/2011
A oposição brasileira finalmente esboça alguma reação, ainda que bastante atrasada. O senador Aécio Neves fez um discurso mais duro no Senado, atacando os abusos do governo atual. E o ex-presidente FHC escreveu um artigo propondo mais foco da oposição, que deveria, segundo ele, aproximar-se da classe média, hoje abandonada pelo governo. Ainda que iniciativas louváveis, estas são reações muito tímidas.
Os políticos que discordam dos rumos atuais do país deveriam aprender com o jovem americano Paul Ryan, do Partido Republicano. Responsável por apresentar um orçamento alternativo ao Congresso, Ryan teve a coragem de enfrentar os verdadeiros problemas do país e colocar o dedo na ferida. Seu plano fiscal, chamado "O caminho para a prosperidade", apresenta uma visão bastante diferente do futuro da nação americana e do papel do governo.
Deixando o excessivo pragmatismo de lado, Paul Ryan pretendeu resgatar valores hoje perdidos naquela que já foi a "terra da liberdade". Seu objetivo é limitar novamente as funções do governo àquilo prescrito na Constituição. A igualdade perante as leis, por exemplo, voltaria a ser um princípio básico respeitado pelo governo, que atualmente vem concentrando poder arbitrário e exagerado. Ryan compartilha do ideal dos "pais fundadores" dos Estados Unidos, que defendiam um país com ampla liberdade individual, meritocracia e governo limitado.
Além disso, ele apresentou propostas concretas para a redução drástica do déficit público. O governo americano tem sido irresponsável há anos, gastando mais do que arrecada. As guerras mundo afora, os resgates bilionários de empresas e bancos falidos, estímulos keynesianos e um estado de bem-estar social cada vez mais inchado comprometeram as finanças públicas do país. O déficit fiscal este ano será novamente superior a US$1 trilhão.
Não obstante, o presidente Obama, com tom extremamente populista, defende um governo ainda mais ativo. O governo pretende criar uma espécie de SUS no país, como se isso fosse realmente desejável para os mais pobres. A grande bandeira política de Obama foi sua reforma do sistema de saúde pública. Os crescentes rombos fiscais, cujos maiores drenos são justamente os gastos com saúde e previdência, parecem não incomodar os democratas no poder. Sua visão de nação reflete uma fé inabalável na capacidade de o governo prover bons serviços a preços baixos, o que a história sempre demonstrou ser uma grande ingenuidade.
Paul Ryan apresentou uma visão alternativa, onde indivíduos decidem como gastar seu próprio dinheiro, sem a tutela ineficiente do governo. Seu plano prevê um código tributário mais simples e menores impostos em relação ao que os democratas desejam. Com o foco no longo prazo, Ryan mostrou que há a necessidade de escolha entre dois futuros muito diferentes. De um lado, Washington continua decidindo onde gastar os recursos criados pela iniciativa privada, com seus projetos corruptos e incompetentes. Do outro, o governo adota uma política de forte redução dos gastos, deixando o caminho livre para que indivíduos e empresas possam novamente colocar a economia na trilha da prosperidade.
Sem apelar para discurso demagógico, Ryan reconhece que os ajustes necessários seriam também dolorosos no primeiro momento. Afinal, trata-se de corrigir o rumo atual, que tem sido de total irresponsabilidade. Não dá mais para viver além dos meios existentes, e, quanto mais tempo levar para os americanos aceitarem este fato da realidade, maior será o sofrimento. A complacência de hoje será paga com o suor dobrado de amanhã. E Ryan teve a coragem de não ignorar o enorme elefante na sala, que todos fingem não existir.
Se sua iniciativa vai ou não surtir efeito prático, ainda parece cedo para dizer. A escolha, em última instância, caberá aos eleitores americanos. Mas o presidente Obama já teve de vir a público reagir, e anunciou um projeto de corte de US$4 trilhões nos gastos públicos nos próximos 12 anos. Muitas incertezas ainda pairam no ar, e seu discurso foi carregado de demagogia. Obama atacou os mais ricos, como se mais impostos para ricos não prejudicassem justamente os mais pobres. Mas o pêndulo pode ter começado a virar. Os americanos agora contam com uma liderança que tem a coragem de defender uma opção diferente para o país.
Voltando ao Brasil, vemos que a reação da oposição é bem-vinda, mas que ainda é muito tímida. Falta uma liderança que conteste o modelo atual de estado, que concentra poder demais e arrecada impostos demais. Onde está o Paul Ryan brasileiro?
Os políticos que discordam dos rumos atuais do país deveriam aprender com o jovem americano Paul Ryan, do Partido Republicano. Responsável por apresentar um orçamento alternativo ao Congresso, Ryan teve a coragem de enfrentar os verdadeiros problemas do país e colocar o dedo na ferida. Seu plano fiscal, chamado "O caminho para a prosperidade", apresenta uma visão bastante diferente do futuro da nação americana e do papel do governo.
Deixando o excessivo pragmatismo de lado, Paul Ryan pretendeu resgatar valores hoje perdidos naquela que já foi a "terra da liberdade". Seu objetivo é limitar novamente as funções do governo àquilo prescrito na Constituição. A igualdade perante as leis, por exemplo, voltaria a ser um princípio básico respeitado pelo governo, que atualmente vem concentrando poder arbitrário e exagerado. Ryan compartilha do ideal dos "pais fundadores" dos Estados Unidos, que defendiam um país com ampla liberdade individual, meritocracia e governo limitado.
Além disso, ele apresentou propostas concretas para a redução drástica do déficit público. O governo americano tem sido irresponsável há anos, gastando mais do que arrecada. As guerras mundo afora, os resgates bilionários de empresas e bancos falidos, estímulos keynesianos e um estado de bem-estar social cada vez mais inchado comprometeram as finanças públicas do país. O déficit fiscal este ano será novamente superior a US$1 trilhão.
Não obstante, o presidente Obama, com tom extremamente populista, defende um governo ainda mais ativo. O governo pretende criar uma espécie de SUS no país, como se isso fosse realmente desejável para os mais pobres. A grande bandeira política de Obama foi sua reforma do sistema de saúde pública. Os crescentes rombos fiscais, cujos maiores drenos são justamente os gastos com saúde e previdência, parecem não incomodar os democratas no poder. Sua visão de nação reflete uma fé inabalável na capacidade de o governo prover bons serviços a preços baixos, o que a história sempre demonstrou ser uma grande ingenuidade.
Paul Ryan apresentou uma visão alternativa, onde indivíduos decidem como gastar seu próprio dinheiro, sem a tutela ineficiente do governo. Seu plano prevê um código tributário mais simples e menores impostos em relação ao que os democratas desejam. Com o foco no longo prazo, Ryan mostrou que há a necessidade de escolha entre dois futuros muito diferentes. De um lado, Washington continua decidindo onde gastar os recursos criados pela iniciativa privada, com seus projetos corruptos e incompetentes. Do outro, o governo adota uma política de forte redução dos gastos, deixando o caminho livre para que indivíduos e empresas possam novamente colocar a economia na trilha da prosperidade.
Sem apelar para discurso demagógico, Ryan reconhece que os ajustes necessários seriam também dolorosos no primeiro momento. Afinal, trata-se de corrigir o rumo atual, que tem sido de total irresponsabilidade. Não dá mais para viver além dos meios existentes, e, quanto mais tempo levar para os americanos aceitarem este fato da realidade, maior será o sofrimento. A complacência de hoje será paga com o suor dobrado de amanhã. E Ryan teve a coragem de não ignorar o enorme elefante na sala, que todos fingem não existir.
Se sua iniciativa vai ou não surtir efeito prático, ainda parece cedo para dizer. A escolha, em última instância, caberá aos eleitores americanos. Mas o presidente Obama já teve de vir a público reagir, e anunciou um projeto de corte de US$4 trilhões nos gastos públicos nos próximos 12 anos. Muitas incertezas ainda pairam no ar, e seu discurso foi carregado de demagogia. Obama atacou os mais ricos, como se mais impostos para ricos não prejudicassem justamente os mais pobres. Mas o pêndulo pode ter começado a virar. Os americanos agora contam com uma liderança que tem a coragem de defender uma opção diferente para o país.
Voltando ao Brasil, vemos que a reação da oposição é bem-vinda, mas que ainda é muito tímida. Falta uma liderança que conteste o modelo atual de estado, que concentra poder demais e arrecada impostos demais. Onde está o Paul Ryan brasileiro?
ILIMAR FRANCO - Dias de agonia
Dias de agonia
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 19/04/11
O DEM continua sangrando. Ontem, o tesoureiro do partido, Saulo Queiroz, deixou a sigla. O próximo pode ser o governador Raimundo Colombo (SC). Ele sofre intensa pressão de Jorge Bornhausen, prefeitos, vereadores e deputados estaduais para entrar no PSD de Gilberto Kassab. Eles alegam que o DEM não tem futuro e que o PSD, que “não é de direita, nem de esquerda, nem de centro”, cria a perspectiva de um projeto novo e viável.
Duas táticas II: Marco Maia e o PT
O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), está sendo pressionado a romper acordo com os ruralistas e agricultores. Parte da bancada do PT quer jogar a votação do Código Florestal para o segundo semestre. Mas, em março, na feira agrícola Expodireta, em Não-Me-Toque (RS), Maia disse: “Fiz um acordo com os agricultores e mantenho minha proposta. Se depender da presidência da Câmara, até o início de abril, teremos a votação”. Os petistas que querem que ele não cumpra sua promessa são os mesmos que o apoiaram na eleição para a presidência da Câmara, contra o candidato do governo, Cândido Vaccarezza (PT-SP).
"Acho baixaria vocês ficarem falando do Aécio. Podia acontecer com qualquer um. Façam críticas políticas” — Lindberg Farias, senador (PT-RJ), rebatendo piadas feitas por petistas sobre o episódio da blitz
NO BAGAÇO. Eleito recentemente para a presidência do DEM, o senador José Agripino (RN) não esconde de ninguém que está cansado. Acossado pelo PSD de Gilberto Kassab, Agripino não faz outra coisa que viajar e participar de reuniões para tentar administrar as divergências regionais do partido, que têm sido a fonte dos descontentamentos que têm feito muitos quadros do partido se mudarem para o partido do prefeito de São Paulo.
Maconha
A defesa do plantio de maconha e da criação de cooperativas pelo líder do PT, Paulo Teixeira (SP), foi motivo de piada ontem em reunião com o ex-presidente Lula. Os petistas brincaram que ele queria fortalecer a agricultura familiar.
Recadinho
A presidente Dilma Rousseff chamou o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, quando estava na China, e ponderou que ele já tinha se manifestado, mas que agora devia deixar o tema juros com o ministro Guido Mantega (Fazenda).
STJ: a presidente bate o martelo
No seu primeiro dia de trabalho, no retorno da China, a presidente Dilma Rousseff reuniu-se com a coordenação de governo para tratar das indicações para as três vagas que estão abertas no STJ. Os nomes devem ser publicados esta semana no DO. Um assessor do ministro José Eduardo Cardoso (Justiça) revelou que os juristas escolhidos são: Antonio Carlos Ferreira, Sebastião Alves dos Reis Jr. e Ricardo Villas Bôas Cueva.
Cadê? Uai!
O governo Dilma está para completar quatro meses e até agora não fez nenhum balanço do PAC. No ano passado, quando tinha eleições, era balanço para lá e para cá. A última prestação de contas ocorreu em dezembro de 2010.
Fadigas
Sobre a fadiga de material do Pinheiro (PT-BA) pergunta a Aécio Neves (PSDB-MG): “Ela também se aplica aos governos tucanos de Minas Gerais (12 anos no poder) e de São Paulo (20 anos no poder)?”
RESSENTIMENTOS. Tucanos e demistas acusam o ministro Antonio Palocci (Casa Civil) de estar ligando pessoalmente para deputados da oposição e incentivando-os a migrar para o PSD.
REELEIÇÃO. Em reunião sobre reforma política ontem, o ex-presidente Lula defendeu o instituto da reeleição, derrubado em comissão do Senado. O PT está dividido sobre esse assunto.
● EM FORMA. Na viagem à China, os secretáriosexecutivos Alessandro Teixeira (Desenvolvimento) e Nelson Barbosa (Fazenda) levantavam mais cedo todos os dias para fazer ginástica.
LUIZ GARCIA - Armas, de novo
Armas, de novo
LUIZ GARCIA
O GLOBO - 19/04/11
Há uma praxe, na opinião pública e na mídia: todo episódio altamente traumático ou comovente é seguido de intenso debate sobre o assunto. O que costuma produzir uma quantidade considerável de ideias e promessas - e, de vez em quando, providências concretas.
Doze dias atrás, um doente mental matou a tiros 12 alunos de uma escola carioca. Abriu-se um debate óbvio e indispensável: o episódio revela ou não uma falha na aplicação do Estatuto do Desarmamento, em vigor há oito anos?
Quem entende do assunto garante que o estatuto é uma boa lei: graças a ele, a venda legal de armas diminuiu em 90%. Mesmo assim, no entanto, os especialistas no assunto afirmam que isso não basta: há 16 milhões de armas de fogo em circulação - e quase metade são ilegais.
Depois da tragédia na escola, a Polícia Federal suspendeu o registro de armas de fogo no Estado do Rio e apertou o controle sobre elas. Até agora, as lojas eram intermediárias no licenciamento das armas que vendiam; pelas novas normas, os compradores têm de se entender diretamente com a PF. Por enquanto, isso significou praticamente a suspensão da compra de armas por cidadãos comuns. O que já não era simples: os interessados têm de passar por um teste psicológico e uma prova de tiro.
Aparentemente, é um sistema eficiente. Tem, no entanto, uma limitação óbvia: não há qualquer garantia de que as armas permaneçam no armário ou na cintura dos cidadãos confiáveis. Podem ser vendidas, perdidas, furtadas. Na verdade, pode-se dizer que temos uma boa política de armamento; está faltando uma eficiente política de desarmamento.
Uma prova disso é uma estatística paulistana: no ano passado, a taxa de homicídios na cidade foi de 10,6 mortes por cem mil habitantes, um pouco acima do limite considerado "não epidêmico" pela Organização Mundial de Saúde. Mas o dado importante é o fato de que a maioria das mortes (65,8%) foi causada por arma de fogo.
Neste momento, em que o massacre na escola ainda não foi esquecido pela opinião pública, uma campanha de desarmamento da população pode ter algum resultado positivo. As exigências para a venda de armas parecem ser razoáveis, mesmo que seja um tanto duvidosa a eficiência do teste psicológico exigido por lei. E certamente caberia, também, punir o cidadão que não protege o seu trabuco de roubo ou furto.
Tenho de confessar uma experiência bastante limitada nessa história de armas de fogo. Até hoje, só disparei meia dúzia de tiros, durante um ano de serviço militar no Forte de Copacabana. A arma era um mosquetão mais velho do que meu bisavô. E o alvo era o Oceano Atlântico. Sem querer me gabar, não errei um só disparo.
ANCELMO GÓIS - Junta militar
Junta militar
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 19/04/11
Uma reunião hoje da Congregação do Colégio Pedro II, no Rio, vai discutir a retirada do nome do almirante Augusto Rademaker, integrante da Junta Militar de 1969, do prédio da direção geral da escola. Um abaixo-assinado lembra que ex-alunos foram presos, torturados e mortos pela ditadura.
Vale para homem
A Lei Maria da Penha existe para proteger a mulher, certo? Não é bem assim. O juiz Alcides da Fonseca Neto a aplicou na 11a-
Vara Criminal do Rio para pôr fim às brigas de um casal gay. Renan Fernandes Silva deverá manter distância de 250m de seu ex-companheiro, o cabeleireiro Adriano Cruz de Oliveira.
Melhor que Obama
Para Dilma, a viagem à China rendeu mais que a visita de Obama. A presidente disse a um ministro que o americano é mais simpático, “mas os chineses são mais pragmáticos”.
Ai, que sono...
Dilma passou o dia, ontem, descansando no Alvorada, por causa da readaptação ao fuso.
Aliás... Dilma voltou cobrando para maio o Plano de Combate à Miséria, que considera o mais importante de seu governo.
Brasil anda de avião
A Anac divulga hoje que o mercado doméstico de aviação cresceu em março 25% em relação ao mesmo mês de de 2010. Já o mercado internacional, com o dólar a preço de banana, saltou 30% no período.
Flip romanceada
A festa literária de Paraty virou cenário de romance do jornalista e escritor Paulo Roberto Pires. Sai em junho pela Alfaguara. “Se um de nós dois morrer” se passa na Flip de 2005 e aborda bastidores do mundo literário.
Mãe negra
Veja só. De 1986 a 2008, caiu em 48,8% a taxa de fecundidade entre mulheres negras no país. Uma queda mais acelerada do que entre as brancas (36,7%) no mesmo período.
Mas... As negras se sujeitam com mais intensidade às laqueaduras: quase 30% em idade fértil estão esterilizadas. Entre as brancas, este percentual é menor: 21,7%.
Outra coisa...
Mulheres negras têm menos preventivos: 37,5% nunca fizeram exame de mamas. No universo das brancas, só 22,9% nunca fizeram.
Dados...
Os números constam do Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil, coordenado pelo professor Marcelo Paixão, que será divulgado hoje.
Shopping Rocinha
As Casas Bahia compraram o Nosso Shopping, na Rocinha, no Rio. São 60, 70 lojas num imóvel de dois andares e uma laje. Negócio de uns R$ 2 milhões.
Grande hotel
Eike Sempre Ele Batista, dono do Hotel Glória, no Rio, negocia agora a compra do Othon da Avenida Atlântica. Aliás, Eike já andou abordando também o grupo Windsor, dono do ex-Meridien e de outro hotel na Barra.
Viva Britto!
Ativistas culturais e amigos de Sérgio Britto, 87 anos, o grande ator, estão à procura de um imóvel em Santa Teresa, no Rio. É para abrigar o acervo do artista, que vive ali há 30 anos.
Uma ilha
“Era uma vez... uma Ilha” é o título do enredo da União da Ilha para o carnaval de 2012. A escola vai falar de Londres e dos Jogos do ano que vem.
Fla x Flu, o filme
A produtora G7 Cinema vai fazer um filme sobre a história do Fla x Flu, o mais charmoso clássico do futebol brasileiro.
Calma, madame
Sexta, Cristine Paes, primeira-dama do Rio, foi a um salão no Leblon e, ao entrar, foi logo reconhecida por uma cliente, que começou a se queixar do trânsito. “Levei três horas da Barra até aqui. Um absurdo essas obras nas ruas”, bradava madame, que se referia a Eduardo Paes como “o seu marido”. O mulherio no salão ficou sem graça.
JANIO DE FREITAS - Os lucros do atraso
Os lucros do atraso
JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 19/04/11
A FACILITAÇÃO DAS licitações para as obras públicas da Copa, a que o governo e os interessados dão o nome menos ácido de flexibilização, ainda nem está formulada e já é um fator de aumento dos custos de tais obras para os cofres públicos. E da conveniência, para as empresas e para determinado tipo de contratante, de maior atraso das providências para as obras.
Por se tratar de alterações na lei que rege (ou aparentar reger) as licitações, a facilitação precisará ser aprovada por Câmara e Senado, seja formulada por medida provisória ou por projeto.
Já é uma garantia de demora a mais. E toda demora resulta em aumento do custo a ser bancado pelos cofres públicos, a pretexto dos maiores gastos das empreitadas forçados pela redução do prazo para a obra. Cada acréscimo, é da praxe conhecida, leva ainda ao que um tecnocrata chamaria, com o cuidado verbal da classe, de "um plus". E tome de subir preços.
O bom negócio é atrasar.
As obras públicas para a Copa proporcionam uma graciosidade especial. Já está à disposição de Estados e municípios a inclusão, no Projeto Copa, de obras que, a rigor, nada têm com isso.
Incluídas, passam a oferecer as condições facilitadas de licitação. Ou seja, menos riscos de escândalos e problemas com tribunais de contas e com a Controladoria-Geral da União. Mas com as mesmas possibilidades consagradas na relação entre empreiteiras e poder público.
As facilidades são particulares, as dificuldades são públicas -de quem paga os impostos.
A VER
O assédio de Nicolas Sarkozy aos muçulmanos da França proíbe-os de orar nas ruas e praças, com o argumento de que o Estado é laico. Seria interessante vê-lo reprimir os franceses em procissões, missas campais ou na manifestação religiosa e pública do sinal da cruz usuais na passagem de católicos diante de igrejas.
PENEIRAS
A redução da vigilância nas fronteiras por decorrência do corte de verbas da Polícia Federal, conforme informado à Folha, é uma boa alegação para as entradas de armas, cigarros falsificados e outros contrabandos. As atuais e as do ano.
Mas continua faltando a alegação para o mesmo e incessante contrabando enquanto as verbas estavam por inteiro.
A FONTE
As bombas e os foguetes de fragmentação são de uso proibido, por não limitarem seus efeitos a alvos determinados. Seu uso é criminoso. E Gaddafi está acusado de usá-los contra a cidade de Misrata.
A origem dos foguetes não está esclarecida, e as fotos e os vídeos que mostram alguns deles permitem ver pedaços de inscrições. Talvez sejam interpretáveis por entendidos, o que seria proveitoso em qualquer caso.
O Brasil incluiu-se nos países que estiveram exportando esses petardos.
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