sábado, abril 02, 2011

WALTER CENEVIVA

A Ficha Limpa é nossa 
WALTER CENEVIVA

FOLHA DE SÃO PAULO - 02/04/11

O direito contra a ficha suja é dos cidadãos brasileiros, não só dos que lutaram para obter a lei, mas de todos


NÃO ESTRANHE o título: destina-se a chamar a atenção do leitor para uma circunstância talvez despercebida nas discussões sobre a vigência da chamada Lei da Ficha Limpa.
O Congresso tem competência exclusiva para, em outro lance de esperteza política, aprovar emenda constitucional que impeça novamente o STF (Supremo Tribunal Federal) de proibir a participação de culpados de condutas condenáveis, assim permitindo sua reapresentação como candidatos.
Esse é o motivo para reexaminar decisões do STF na questão dos antecedentes do candidato. Penso que o direito à ficha limpa não é dos políticos. É deles o dever da ficha limpa. O direito contra a ficha suja é dos cidadãos brasileiros, não só dos que se mobilizaram para conseguir a lei, mas de todos. Todos os que cometeram crimes para o escândalo de votos distorcidos hão de ser punidos.
Entre os argumentos alinhados nas discussões do STF, um foi enfocado reiteradamente, o da necessária anterioridade no tempo de lei que mude o processo eleitoral. Outra razão, menos técnica, disse respeito ao fato de que, depois de muito se esperar pelo undécimo ministro para o STF, o resultado final, na sessão recente, teve diferença de um voto. Foram reincluídos candidatos com crimes em seu histórico.
O resultado, porém, se vinculou à mesma e fundamental origem: a atribuição ao STF para decidir, em último grau, todas as questões constitucionais por maioria. Plena ou restrita.
São claras a letra e a intenção no art. 102 da Carta: "Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição". O dispositivo alinha longa lista de competências da Suprema Corte, no seu caput e nos três incisos e três parágrafos. Desde 1988, há milhares de votos dos ministros ao examinarem o art. 102.
A essência da interpretação da norma pode ser encontrada especialmente em acórdãos do ministro Celso de Mello. Tomo duas frases essenciais e exemplares do pensamento desse julgador, em anos diversos. Diz a primeira que "a autoridade hierárquico-normativa da Constituição da República impõe-se a todos os Poderes do Estado".
Está na segunda: "A competência do STF -cujos fundamentos repousam na Constituição da República- submete-se a regime de direito estrito". Impossível maior clareza.
O advérbio de modo "precipuamente", no art. 102, vem do adjetivo "precípuo", isto é, principal.
O substantivo "guarda" e o verbo "guardar" chegaram às línguas latinas há muitos séculos. Sempre a dizer que guardar tem em vista do objeto guardado (a Constituição). De origem remota, no francônio germânico (na parte hoje ocupada pela Baviera) surgia com "wardon" ou "warten", no sentido de preservar.
Tudo a afirmar a aplicação do art. 16 da Carta Magna, com a redação da EC nº 4/ 2003, para a antecedência da lei.
Há sempre a possibilidade de opiniões eruditas em sentido contrário, mas, visto o retrospecto da Corte, a orientação predominante impõe um ano de espera para vigência de nova regra eleitoral.
O STF certamente estará prevenido contra a "esperteza legislativa" referida segunda-feira por Janio de Freitas ao tratar de "artimanhas pela corrupção". A Ficha Limpa é nossa. De todos. Devemos defendê-la para reforçar nossa democracia.

CELSO MING

Confisco sobre o minério
CELSO MING

O ESTADO DE SÃO PAULO - 02/04/11

Por enquanto, são apenas estudos, dizem. Mas grandes erros também começam dessa maneira, com estudos.
A proposta é impor um confisco (Imposto de Exportação) sobre as vendas externas de minério de ferro. Ontem, o Ministério da Fazenda desmentiu iniciativas desse tipo. Mas não foi jornalista que inventou a notícia.
Afora a manobra intimidatória sobre a Vale, maior exportador de minério de ferro do mundo, a suposta estratégia por trás dessa ideia é desestimular exportações de um produto com baixo valor agregado. O pressuposto é o de que é preciso vendê-lo já transformado para garantir empregos locais; é ampliar a siderurgia e exportar placas e laminados, e não apenas o minério.
O governo Lula pretendia algo semelhante com a Petrobrás. Em vez de limitar-se a produzir petróleo e gás, deveria investir em refinarias e exportar derivados: gasolina, óleo diesel, querosene, nafta. Não foi considerado que, diante da ociosidade mundial do setor de refino, pode ser melhor concentrar investimentos na produção de petróleo e gás.
Tende a ser grave erro obrigar um setor a desviar-se do seu foco de negócio. Uma mineradora eficiente pode tornar-se medíocre produtora de aço. E não é tão certo que se garantam mais empregos ampliando o parque siderúrgico. Em janeiro, em seu discurso sobre o Estado da Nação, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, observava que siderúrgicas, que antes (não explicitou datas) tinham mil trabalhadores, hoje não empregam mais do que cem.
Haverá enormes riscos envolvidos se eventualmente prevalecer essa proposta de taxar exportações de bens primários. O primeiro será a interferência política nos negócios das empresas brasileiras do setor privado. Isso tende a injetar irracionalidades difíceis de reverter. O segundo, o de arcar depois com encalhes. Em 2010, por exemplo, a indústria siderúrgica mundial operou com uma capacidade ociosa de 33%. E, em terceiro lugar, não é nem um pouco evidente que o investimento na produção de bens mais elaborados tenha mais retorno e liquidez do que o proporcionado pela produção de matérias-primas. Hoje, o produto escasso (e estratégico) deixou de ser o industrializado e passaram a ser as commodities. Quase nenhum produto industrializado pode ser considerado ativo financeiro. As commodities todas são. E isso conta muito na ordem das coisas.
O maior risco de impor um confisco sobre as exportações de minérios seria o de que, mais à frente, fosse estendido para todas as matérias-primas. O argumento poderia ser a necessidade de agregar valor, mas o verdadeiro objetivo poderia ser apenas arrecadar mais. Esse é, aliás, o sistema argentino, que funciona à base de confiscos (retenciones) sobre as exportações tanto de produtos primários como de acabados. Importante resultado é o desestímulo aos investimentos.
Enfim, não está claro se esses estudos e essa tentativa do governo fazem parte do mesmo projeto de intimidação da diretoria da Vale; se integram um jogo mais amplo cujo objetivo é aumentar a receita; se configuram mais um passo na direção do aparelhamento também do setor privado por grupos que estão no poder; ou se são um pouco de tudo isso

CULPA DE QUEM? DO ELEITOR!

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Ozzy traça morcego diet! 
JOSÉ SIMÃO 

FOLHA DE SÃO PAULO - 02/04/11

Senhor das Trevas é o Bolsonaro, o Ozzy é um anjo! E ele tá a cara da Rita Lee! Rarará!
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Últimas Notícias! Breaking News! "Cientistas descobrem que Saturno tem um anel enrugado." Rarará! "Polícia Rodoviária apreende R$ 190 mil em veículo na Fernão Dias." Era pra pagar o pedágio!
E o Dentinho está namorando a Mulher Samambaia. Virou vegetariano? E a Mulher Samambaia namora o Dentinho, mas diz que não é maria-chuteira, então é Mulher Dentifrício! Rarará!
E este adesivo no carro: "Jesus me ama, mas eu prefiro a Mulher Samambaia!". Rarará. E o Bolsonaro acaba de entrar para o "Guinness". Pro "Guinness" do Preconceito! Diz que o Bolsonaro vai proibir o quadro negro nas escolas. E não admite humor negro! E nesta semana o golpe militar fez 47 anos e o único que comemorou foi o Bolsonaro. Rarará!
E o Berlusconi, o Maluf pornô? Olha a manchete: "Berlusconi arrolou Cristiano Ronaldo". Arrolou o Cristiano Ronaldo? Até o Cristiano Ronaldo? Não poupa ninguém. É que o Berluscome Todas arrolou como testemunhas de defesa George Clooney e Cristiano Ronaldo.
Não perco esse julgamento. Já imaginou? "A senhora é a arrolada?" "Não, a arrolada é aquela de oncinha na primeira fila." E o Berlusconi vai chamar a juíza de meretríssima? E diz que ele vai ganhar a medalha de honra ao meretrício. Por ter transformado a Itália numa zona! Rarará!
E hoje, em Sampa, show do Ozzy Osbourne, o Senhor da Trevas. Senhor das Trevas é o Bolsonaro, o Ozzy é um anjo! Vocês viram as exigências do camarim? Água, produtos diet e pêssegos! Mas ele não comia morcego? Você sabe que está ficando velho quando o Osbourne troca morcego por pêssego! Morcego diet. E tá a cara da Rita Lee!
E ele diz que se masturba antes do show. Antes não vale. Tem que se masturbar durante o show. Ué, ele não é o Ozzy Osbourne? E faça sua boa ação do dia: ajude o Ozzy a atravessar a rua! Rarará!
E o chargista Sponholz revela que o Sarney estava no velório do Zé Alencar quando tropeçou, caiu e o Lula gritou: "Você ainda não, Sarney". Rarará! E a charge do dia: "Pai, quando eu crescer, quero me casar com outro homem". "Tudo bem, meu filho, quero que você seja feliz." "Pai, quando eu crescer, quero ser igual ao Bolsonaro." "Nããããããão." Rarará.
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

MÔNICA BERGAMO

FORA DO QUADRO
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SÃO PAULO - 02/04/11

O arquiteto Jorge Wilheim colheu nova derrota ontem na Justiça na disputa que trava com os herdeiros da coleção Nemirovsky: o TJ (Tribunal de Justiça) negou recurso apresentado por seus advogados e manteve a liminar que determinou seu afastamento do conselho da fundação responsável pela coleção de obras de arte da família. O acervo é um dos mais importantes do país, com preciosidades como o quadro "Antropofagia", de Tarsila do Amaral, e obras de Di Cavalcanti, Portinari, Volpi, Lasar Segall e Lygia Clark.

LETRA DA LEI
Jorge Wilheim admite que a decisão de manter a liminar é irreversível, mas "a ação vai continuar". "Não sabemos quem vai ganhar. No momento, os três conselheiros estão afastados, a meu ver, injustamente."

SÃO OS RAIOS DE MARÇO
São Paulo ficou menos elétrica em março. A cidade foi atingida por 869 raios, contra 11.854 de fevereiro. Em março do ano passado, foram 6.800 descargas. Estudos serão realizados para saber se a queda drástica é uma tendência anormal ou só esperada diminuição de tempestades, diz Osmar Pinto Junior, coordenador do Elat (Grupo de Eletricidade Atmosférica), que realiza a medição.

JOGA FORA NO LIXO
Os jogadores do Santos entrarão em campo amanhã contra o Palmeiras, na Vila Belmiro, com faixas anunciando o início da coleta seletiva no estádio. Haverá 11 lixeiras de 240 litros cada e os torcedores serão orientados a separar os resíduos.

PAI E FILHA
Toninho Cerezo viaja para a Itália. Ele dará uma entrevista ao lado da filha transexual, Lea T., para um canal de TV daquele país.

QUEM CASA 
As noivas Victoria Ravioli e Bianca Comolatti passaram uma tarde de preparativos no salão do cabeleireiro Rodrigo Salles. Fizeram provas de grinalda, vestidos, penteados e maquiagem. O resultado será postado no site Yes Wedding.

QUER CASA
O designer Attilio Baschera e o colecionador de arte Waldick Jatobá foram, anteontem, à entrega do Prêmio Casa Claudia Design de Interiores no Museu da Casa Brasileira. A artista Beatriz Milhazes foi homenageada.

VIRADA NA AUGUSTA
A balada Studio SP aproveitará o fim de semana da Virada Cultural para também oferecer shows gratuitos.

No sábado, 16, se apresentarão no Baixo Augusta Macaco Bong, Kamau, Miranda Kassin, André Frateschi, Fóssil e Pública.

CONCLAVE

O PSDB da capital paulista marcou para este fim de semana a definição do nome que indicará para presidir o diretório municipal. O secretário Julio Semeghini (Gestão Pública) disputa a vaga com um nome da bancada de vereadores. Carlos Bezerra, que deixou recentemente a Câmara Municipal para ser deputado estadual, acredita ter vantagem porque não será candidato em 2012.

PIANO NA CELA
O pianista brasileiro Álvaro Siviero apresenta hoje um recital com obras de Chopin (1810-1849), na Cartuja de Valldemossa, um monastério em Palma de Mallorca, na Espanha. O evento marcará a abertura da cela de número quatro do local, onde o compositor morou de 1838 a 1839. Ela foi reconhecida, no início do ano, como o verdadeiro cubículo que o abrigou. Até então, a cela número dois era visitada como tal.

CURTO-CIRCUITO

Paulo Lofreta assume a presidência da Central Brasileira do Setor de Serviços. Ao meio-dia de segunda, no Iate Clube de Santos, em SP.

O Dr. Hollywood, Robert Rey, participa hoje do lançamento do portal Polishop, que monta estúdio de venda pela TV no hotel Unique.

Marcelo Jeneci e Fernando Catatau fazem ao vivo a trilha da peça "Cearábia", hoje, às 21h30, e amanhã, às 18h30, no Sesc Belenzinho. 12 anos.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA, THAIS BILENKY e CHICO FELITTI

GOSTOSA

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Longo prazo
RENATA LO PRETE 
FOLHA DE SÃO PAULO - 02/04/11

O governo paulista já sabe que a duplicação da rodovia dos Tamoios, promessa de campanha de Geraldo Alckmin, não será concluída no atual mandato do tucano, mesmo se eliminados todos os entraves em tempo recorde. Examinado pela primeira vez, nesta semana, pelo conselho diretor do PED (Programa Estadual de Desestatização), o projeto estima 42 meses para entrega da obra e custo total de R$ 4,39 bilhões.
Dois modelos de financiamento da nova Tamoios, principal acesso ao litoral norte, foram à mesa: concessão com obras públicas, em que há maior desembolso do Tesouro, e PPP (Parceria Público-Privada), cujo desenho teria de ser atraente para investidores.

Traçado 1 
O trecho de planalto da duplicação da Tamoios exigirá menos intervenção, pois a área vizinha à pista é quase toda do Estado. Na serra, serão construídos túneis em faixas auxiliares às já existentes, como foi feito na Nova Imigrantes.

Traçado 2 
O obstáculo maior está nos contornos viários de Caraguatatuba, onde há dúvida sobre o ponto exato de interseção, e São Sebastião, em que favelas podem ser cruzadas ou circundadas -opção mais dispendiosa- pelas novas pistas.

Cronograma 

Técnicos da Secretaria de Planejamento se debruçam sobre os estudos antes de submetê-los à aprovação do PED, o que deverá ocorrer nas próximas semanas. Uma vez definido o modelo, sairá do papel o projeto executivo, acompanhado da extensa lista de licenciamentos ambientais.

Processados 1 
A Justiça de SP acolheu duas queixas-crime apresentadas por Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, contra Eduardo Jorge, vice-presidente nacional do PSDB, Evandro Losacco, tesoureiro-adjunto do partido no Estado, e os jornalistas Sérgio Pardellas e Cláudio Dantas Sequeira. Os quatro responderão por crime de calúnia.

Processados 2 

Reportagem publicada pela revista "IstoÉ" durante a campanha eleitoral de 2010 atribuiu a EJ e a Losacco a acusação de que Paulo Preto, quando diretor da estatal Dersa, teria desviado dinheiro arrecadado para candidatos tucanos. Ambos vieram posteriormente a público negar que tivessem feito tal afirmação.

Até... 
O DEM está montando uma equipe para auditar as assinaturas que forem apresentadas aos tribunais regionais eleitorais no rito fundador do PSD. Tudo para tentar protelar a criação da legenda de Gilberto Kassab.

...a última gota 
O partido também se movimenta para conseguir adeptos do fim das coligações proporcionais. O DEM avalia que, se tal mudança passar no Congresso, em 2014 os candidatos a deputado do PSD não terão tempo de TV nem sequer para dizer seus nomes.

Gesto 
Em meio à tensa negociação para votar o Código Florestal, relatado por Aldo Rebelo, o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), quer ter o deputado do PC do B-SP como um de seus vice-líderes. O nome será submetido à presidente Dilma Rousseff.

Fôlego 

Lindbergh Farias participará amanhã da Travessia dos Fortes, no Rio. A maratona aquática -3.500 m de Copacabana ao Leme- faz parte do treinamento do senador petista para disputar o Ironman Brasil no final de maio em Florianópolis.

Visita à Folha 
Henrique Meirelles, indicado para ocupar a presidência da APO (Autoridade Pública Olímpica), visitou ontem a Folha, onde foi recebido em almoço.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio


"Considero excelente a ideia de um conselho político forte. Do mesmo modo, acho indispensável uma Executiva unida, voltada para o trabalho neste próximo mandato."
DO DEPUTADO SÉRGIO GUERRA, candidato a permanecer na presidência do PSDB, sobre as discussões em torno de mudanças na estrutura do partido, cujos governadores se encontram hoje em Belo Horizonte.

contraponto

Pré-história

Ao abrir ontem seminário da Associação Brasileira de Agências de Publicidade, o governador Jaques Wagner (PT-BA) discorreu sobre o cenário macroeconômico, enfatizando o crescimento acima da média nacional registrado pelo Nordeste em anos recentes.
-Isso é mérito não apenas do governo Lula, mas também do que fizeram Itamar, Sarney e FHC.
Palestrante seguinte, Maílson da Nóbrega, ministro da Fazenda sob a inflação galopante de Sarney, notou:
-Fiquei feliz pelo fato de o Jaques ter reconhecido que existia vida no Brasil antes do Lula!

MIGUEL REALE JÚNIOR

Cuidado com a reforma política
MIGUEL REALE JÚNIOR
O Estado de S.Paulo - 02/04/11

Excluída a criação da medida provisória e a reeleição, em nada se modificou o cerne do sistema político brasileiro instituído na Constituição de 1946.

Durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte prevaleceram as ideias de implantação do regime parlamentarista e do voto distrital misto. Apenas na votação em plenário, em março de 1988, venceram a proposta presidencialista e o voto proporcional para a Câmara dos Deputados. Foi Sarney, agora arauto da reforma política, que, no afã de obter cinco anos de mandato presidencial, promoveu a derrota do parlamentarismo e do voto distrital misto, acoplada à concessão de um quinto ano de exercício da Presidência da República.

Interesses de assunção ao poder presidencial levaram a que o PT se unisse a Quércia e a Maluf na vitoriosa campanha pelo presidencialismo em 1993, ao que se somou a total inoperância da revisão constitucional no plano político, cujo único resultado foi a redução do mandato do presidente da República para quatro anos, sem reeleição, introduzida depois por Fernando Henrique e cuja supressão agora é proposta pela Comissão da Reforma Política.

Há muitos temas em debate, mas a grande questão diz respeito ao sistema eleitoral para a eleição de deputados e vereadores: proporcional, lista fechada, distritão, distrital puro, distrital misto, proporcional por distritos.

No sistema proporcional atual, o partido elege tantos deputados quantos resultam do número de votos recebidos pelo partido dividido pelo quociente eleitoral, que, por sua vez, é alcançado mediante a divisão dos votos válidos na eleição pelo número de deputados do Estado. Se São Paulo tiver 21 milhões de votos válidos, sendo 70 as cadeiras do Estado na Câmara, o quociente é de 300 mil votos. Se o partido teve 3 milhões de votos, cabe-lhe ter dez deputados.

A tentativa de alterar o sistema proporcional é contínua, mesmo porque consabidos seus vícios: milhares de candidatos a disputar, em lista aberta, por todo o Estado, encarecendo a eleição; distância entre eleitor e candidato; prevalência de celebridade, cantor, palhaço ou ex-BBB; vota-se na pessoa, mas sem perceber se está a votar também no partido, pois o milhão de votos em Tiririca elevou, pelo sistema proporcional, o número de vagas do seu partido e dos coligados. Vota-se em A, elege-se B; compra de apoio de líderes de redutos eleitorais consagrando quem tem dinheiro, mas não tem laços com a comunidade; fragilização dos partidos políticos, pois candidatos de um mesmo partido digladiam entre si.

Pelo sistema da lista fechada ou preordenada, busca-se fortalecer os partidos, pois não mais se vota em candidatos, mas em partidos políticos que terão número de vagas correspondentes aos votos recebidos na forma proporcional acima descrita. O partido indica em convenção a ordem da lista dos deputados. Se o partido ganha direito a dez cadeiras, os primeiros dez da lista estão eleitos. Não se afastam males do sistema proporcional, pois se votará no partido, por exemplo, do Tiririca, mas por causa do Tiririca, que constará do cimo da lista, sem dúvida, pois do contrário não se candidataria. Ganha muita força a oligarquia partidária e afasta-se o eleitor do candidato.

Pelo sistema apelidado de distritão, elimina-se o quociente eleitoral, a forma proporcional. Os candidatos disputam em todo o Estado e serão eleitos os mais votados, independentemente dos votos recebidos por seu partido. Dá-se total preferência à pessoa do candidato, com menosprezo ao partido. O conjunto da votação partidária será ignorado, além de ser mantido o mal da lista aberta do sistema proporcional.

No sistema distrital puro, aproxima-se o candidato do eleitor, reduz-se o campo geográfico da disputa, com barateamento da eleição, impede-se o surgimento de candidatos paraquedistas, porém é prejudicial a eliminação de qualquer proporcionalidade, com supressão de representação das minorias, por vezes bem votadas, como sucedeu com o Partido Liberal na Inglaterra. Conduz ao fim da multiplicidade de vertentes no Parlamento.

O sistema distrital misto adotado na Alemanha seria o ideal, com o eleitor tendo dois votos, um no candidato do distrito e outro no partido, que apresenta lista fechada. Ganham, pelo sistema majoritário, os candidatos eleitos nos distritos e, pelo sistema proporcional, os candidatos da lista partidária, em número para completar as cadeiras a que faz jus o partido, em vista dos votos recebidos, mas não preenchidas pelos resultados dos distritos. Combinam-se as virtudes de ambos os sistemas, mas as dificuldades estão na necessidade de emenda constitucional e na compreensão do sistema pela população.

Por fim, há a proposta de votação em distritos, mas proporcional, razão pela qual poderá ser estatuída por projeto de lei. A disputa, em vez de ser em todo o Estado, dar-se-á em distritos nos quais é dividido o Estado, em número três vezes superior ao número de deputados do Estado, para se ter distritos menores. O cálculo dos eleitos, todavia, deve ser feito pelo sistema proporcional. Por esta proposta, sugerida pelo professor José Afonso da Silva, os candidatos não são eleitos nos distritos, mas votados no distrito em que concorrem. O número de cadeiras será determinado pelo sistema proporcional, em vista do conjunto de votos do partido no Estado. O partido com direito a dez deputados terá os dez mais votados do partido em todo o Estado como eleitos. As vantagens estão na proximidade entre eleitor e candidato, no barateamento da disputa, na ausência de luta entre candidatos do mesmo partido.

Interesses subalternos, muitas vezes, ditam as preferências dos partidos. A sociedade deve estar atenta em face de mudanças que visem apenas ao aumento de bancadas, e não à melhoria de nosso sistema político.

BRAZIU: O PUTEIRO

ANNA RAMALHO

Sem chances
ANNA RAMALHO
CORREIO BRAZILIENSE - 02/04/11

Esta semana, deu uma chuva de candidatos "nanicos" à vaga de Moacyr Scliar, na ABL. Além de Merval Pereira e Antonio Torres, oito escritores do interior do país pediram inscrição e entraram na disputa. A Rádio Corredor da ABL diz que esses concorrentes só querem mesmo é fazer currículo, sem a menor chance! 

Até porque...Em que pese enorme talento do romancista Antonio Torres, dificilmente ele ganhará do colunista de O Globo, Merval Pereira. 

Lá e cá
O astro argentino Diego Torres se prepara para lançar aqui o CD Distinto. O cantor, que já faz sucesso em outros países latinos, chega ao Brasil sob a bênção de Ivete Sangalo. Ele já faz participação em shows e também está no DVD da baiana gravada em Nova Yorque. Em troca , Diego está abrindo portas para Ivete em solo argentino. 

É o amor
Embalado pelo romance com Malu Magalhães, o cantor Marcelo Camelo – ex Los Hermanos – lança, dia 5, seu segundo CD solo: Toque dela. O disco tem dez canções composta por ele e num ritmo totalmente pra cima, tal qual o romance do rapaz que vai de vento em popa na ponte aérea Rio – São Paulo. 

Mundo da luaO senador Eduardo Suplicy foi visitar e assistir a uma reunião da Comissão de Direitos Humanos, do Senado. Depois de discursar, foi informado de que é membro da Comissão. Sua Excelência não sabia. Alegou que ninguém o avisou. Este Suplicy é hilário, né, não?

Um strike
A socialite Marina Sauer foi bombardeada na última reunião do conselho do Country Club, quarta-feira: ganhou todas as bolas pretas a que tinha direito.

Que coisa, hein, Jacira?!

Weekend prolongado

Com os trabalhos suspensos em virtude do velório de José Alencar, nossos parlamentares fizeram as malas e picaram a mula. Mesmo os que não seguiram o féretro até Belo Horizonte se mandaram e só retornam ao batente na próxima semana.

Vamos cantar?
Isso aqui, ioiô, é um pouquinho de Brasil, iaiá...

Novela da novelaO povo do Jardim Botânico está em pé de guerra com a sua vizinha Rede Globo – proprietária, aliás, de dezenas de imóveis no bairro. 

O Jardim Botânico e o Horto estão para Insensato coração como o Leblon para as novelas de Manoel Carlos. 

Vai daí...
A pacata Rua Nina Rodrigues virou quase o camelódromo da Sete de Setembro esta semana: caminhões de externa, CET-Rio no apoio desde cedo, e os pobres moradores com o ir e vir completamente prejudicado.

O preço da fúria

O desembargador Guaraci Vianna, da 19ª Câmara Cível do TJ-RJ, bateu o martelo, e Haroldo Barbosa vai receber da Viação Galo Branco R$ 15 mil de indenização, por dano moral, depois de ter sido agredido com socos por um trocador. Após pagar a passagem do ônibus com uma nota de R$ 5, ele percebeu que o troco estava errado, questionou o trocador e foi atacado pelo ensandecido sujeito.

Bem feitoComo cantava aquele antigo samba do Paulo Vanzolini, R$ 15 mil, “francamente, foi de graça”.

Violão ecológico

Durante show realizado no Espaço Tom Jobim, na inauguração da exposição 'Cerrado, Sertão das Águas' que marcou o início do Ano Internacional das Florestas, Milton Nascimento recebeu, da ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, um violão feito com madeira de reflorestamento, produzido por um grupo de artesãos da Escola de Lutheria da Amazônia.

Bunga, bunga

Por incrível que pareça, o Silvio Berlusconi não é coisa nossa.

Ele volta, e ela apoia!

Carla Bruni decidiu dar um tempo na sua carreira de cantora-atriz, ou vice-versa. Ela anunciou ontem que seu novo disco não mais será lançado no início do ano que vem, como era previsto. Na França, este break da madame foi interpretado como a confirmação de que o marido, Nicolas Sarkozy, vai tentar a reeleição, apesar das pesquisas que não lhe são favoráveis.

***

Mas os fãs de Carla podem aguardar a estreia, em maio, do novo filme de Woody Allen, Midnight in Paris, que tem a primeira-dama no elenco.

Raspadinhas


A ONG Reviverde está atuando no Colégio Faria Brito, desenvolvendo ações que integram educação e respeito ao meio ambiente.

A Essencial, de Mary Zaide, lança sua coleção de inverno inspirada nos anos 50. 

Ed Motta faz, terça-feira, o pocket show de lançamento da coleção outono/inverno do Shopping Leblon.

CESAR MAIA

Crises de 97/98 e política
CESAR MAIA

FOLHA DE SÃO PAULO - 02/04/11

Em julho de 1997, a crise asiática abalou as finanças mundiais, ampliada em agosto de 1998 pela crise russa. As consequências econômicas são bem lembradas, mas as consequências políticas, não.
Na América Latina, Venezuela, Argentina e Brasil produziram uma reversão do quadro político. Na Venezuela, o ministro Teodoro Petkoff (Planejamento), que geria o país dada a idade do presidente Rafael Caldera, criou uma forte expansão econômica no início de 1997, preparando a sucessão do presidente.
Hugo Chávez vinha lá atrás, com uns 5%. Veio a crise asiática e a economia venezuelana naufragou. O barril do petróleo chegou a US$ 11. Da expansão estimulada por Petkoff à queda do PIB após as crises, a economia variou 20% do PIB.
Chávez criou, em 97, o Movimento V República (MVR) e depois surfou na onda das crises. Venceu a eleição. Os desdobramentos são conhecidos.
Na Argentina, as crises levaram a uma tranquila vitória da oposição, somando centro à esquerda. Fernando de la Rúa foi eleito em 1999. O nó dado pela conversibilidade radical de Carlos Menem produziu o paraíso, e depois o inferno.
Em dezembro de 2001, De la Rúa renuncia e foge do palácio de helicóptero. Três presidentes assumem e renunciam. Eduardo Duhalde, que perdeu a eleição, assume até a vitória de Néstor Kirchner.
Kirchner trouxe como antecedente a mudança da legislação da Província de Santa Cruz, que, em 1998, autorizou reeleições ilimitadas. Eleito em abril de 2003, ele refunda um populismo peronista e cria o artifício da sucessão da esposa para sua futura reeleição. Mas, em 2010, morre antes disso. Deixa Cristina como herdeira e favorita para a eleição deste ano.
No mar manso do Plano Real, e no início do governo, FHC aprova a reeleição, mudando as regras do jogo no meio do campeonato. Em 1997, responde à crise com o pífio pacote 51, apelido dado pela mídia. Em meio à turbulência, acentuada em 1998, faz a campanha exaltando os riscos que viriam se Lula vencesse. Deu certo. Venceu no primeiro turno.
As repercussões da crise foram multiplicadas pelo populismo cambial e fiscal, aplicado na eleição. Governou sob agitação econômica.
A seriedade das medidas resgatou a condução da política econômica, mas afundou a sua popularidade. O risco Lula, em 2002, agravou os problemas, com os preços e os juros explodindo.
Lula venceu e jogou a carga dos problemas para trás. Manteve as políticas de FHC, flutuou num quadro internacional favorável e abriu um ciclo de pelo menos 12 anos, algo inimaginável antes das crises de 1997 e 1998. Crises que explicam o quadro latino-americano atual e os erros de gestão política e econômica de países, fulcrais para o continente.

GOSTOSA

DOM EUGENIO SALES

Sem armas, sem poder 
DOM  EUGENIO SALES

O GLOBO - 02/04/11

Apropósito da beatificação do Papa João Paulo II, a ser realizada no próximo dia 1º de maio, gostaria de recordar este homem de Deus que durante 27 anos esteve à frente da Igreja de Cristo.
Sem armas, sem poder temporal, obediente somente ao mandato do Senhor - "Confirma teus irmãos na fé" (Lc 22,30) -, João Paulo II conquistou o amor do mundo.
Quem não se lembra de seus ensinamentos? A dignidade intocável do homem, eis o grande tema básico! Em sua encíclica "Dives in Misericordia", de 30 de novembro de 1980, com voz poderosa, parece querer acordar um "gigantesco remorso" na consciência dos povos: "Enquanto uns, abastados e fartos, vivem na abundância, dominados pelo consumismo e pelo prazer, não faltam, na mesma família humana, indivíduos e grupos sociais que passam fome. Não faltam crianças que morrem de fome sob o olhar de suas mães" (VI, 11.4).
João Paulo II compreendeu profundamente os arcanos, os abismos do coração. Descreveu, numa visão genial, as aspirações da época moderna. Diante do mistério da iniquidade, capaz de transformar em rancor, ódio e crueldade a promoção do direito, exclama: "A experiência do passado e do nosso tempo demonstra que a justiça, por si só, não é suficiente" (Idem VI, 12.3). Se o indivíduo não "recorrer a forças mais profundas do espírito, forças que condicionam a própria ordem da justiça", será ameaçado o fundamento jurídico.
Quando falamos em João Paulo II, naturalmente, vêm à lembrança suas viagens ao Brasil. Particularmente, as duas vindas ao Rio de Janeiro. Em 1980, preparamos detalhadamente a primeira visita, que teve a participação de uma multidão de fiéis, mas o que assisti em 1997, por ocasião do II Encontro Mundial do Papa com as Famílias, ultrapassou tudo o que já havia presenciado em outras ocasiões. Na verdade, convivi com um homem marcado pelo sofrimento, as angústias da humanidade. Ao mesmo tempo, percebia a leveza de espírito que anunciava a alegria do Evangelho autêntico.
Sem se cansar, ele conquistou o afeto do povo brasileiro, que carinhosamente o chamava de "João de Deus". Os homens de cultura receberam suas sábias e exigentes orientações. Os doentes, os mais pobres, os leprosos, não só viram suas lágrimas, mas dele ouviram a palavra da Fé, da fraternidade, da esperança e do amor que já não morre. Os políticos e as crianças, índios, os agricultores, operários e presidiários, os sacerdotes, os religiosos, os bispos, todos acolhemos filialmente suas diretrizes, novo ânimo e segurança.
Nosso "João de Deus" fez renascer a confiança e esse estado de espírito jamais será estéril. Seu exemplo, ainda hoje, deve acordar nossas consciências para os ensinamentos de quem recebeu de Cristo a missão de encaminhar os homens para Deus.
D. EUGENIO SALES é cardeal-arcebispo emérito da Arquidiocese do Rio. 

MÍRIAM LEITÃO

Notas e ruídos 
MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 02/04/11

A presidente está com alto grau de aceitação porque é normal em todo início de governo e porque ela está surpreendendo favoravelmente com um estilo próprio. Nas suas aparições públicas, Dilma sempre tem propósito definido. Ela eliminou o viés espetáculo. Quando apareceu, foi para passar mensagens de interesse público, como a luta pela saúde da mulher. Mas seu balanço de três meses tem vários pontos desfavoráveis. Foram tomadas decisões controversas, como a solução dada à Caixa Econômica Federal (CEF).
Em vez de ter que se explicar pela decisão da sua gestão de pagar caro por metade de um banco podre, a ex-presidente da CEF Maria Fernanda Coelho foi indicada para uma diretoria do BID. O governo premiou quem tinha explicações a dar e aprofundou o processo de mais politização da Caixa. Geddel Vieira Lima foi para a vice-presidência do banco.
A operação Vale foi lamentável pela maneira desastrada como foi conduzida. Ela é uma das empresas com grande valor de mercado do Brasil, tem ações no mundo inteiro, é uma multinacional na qual os mercados mundiais prestam atenção. Vejam abaixo o gráfico da valorização das ações da empresa em comparação com o que aconteceu com a Petrobras, em 2010. Parte da alta da Vale é a disparada dos preços do minério de ferro, não deve ser totalmente creditada à administração da empresa.
A presidente Dilma deu uma entrevista ao "Valor" dizendo que nada sabia da mudança na presidência da Vale. Ela foi enfática: "você pode ficar estarrecida, mas não sei". O ministro da Fazenda, soube-se depois, foi a São Paulo para a primeira de duas conversas com o presidente do Bradesco, Lázaro Brandão, para pedir a cabeça de Roger Agnelli. O banco, como era de se esperar, entregou a cabeça, na bandeja de prata dos muitos interesses que ele tem com o governo. A segunda das duas reuniões foi com a presença do maior fundo de pensão do Brasil, a Previ. Quem quer ficar contra a Previ? O problema é que o fundo de pensão não é estatal. É uma entidade privada, e não um braço governamental.
Para tirar Roger do cargo, havia um caminho empresarial e um bom motivo: ele está há 11 anos no posto. A coisa certa seria, na reunião de 19 de abril, o BNDES propor como acionista da Valepar a não renovação do mandato. A Previ seguiria porque já demonstrou desacordo com decisões da empresa. A Mitsui é indiferente, seria convencida com argumentos empresariais, e o Bradesco não iria querer ficar isolado, bloqueando uma solução. Seria decidido normalmente, seguindo regras de contratação de uma empresa de headhunter. Mas o governo se comportou mal, a governança da empresa foi desrespeitada. Independentemente da capacidade gerencial de quem vier a ser escolhido, mesmo sendo técnico, ele sabe que segue ordens do implacável Planalto. A Vale agora passa a ser uma empresa governamental. Ninguém mais na Vale ousará desagradar ao governo. Não existe meia intervenção. A empresa agora é tutelada.
Notícias espantosas saíram dos canteiros de obras das hidrelétricas do Rio Madeira. Trabalhadores em fúria nas obras de Jirau e paralisações em várias outras obras do PAC indicam que houve uma tensão acumulada que os consórcios - nos quais há empresas estatais - não souberam enfrentar a tempo. Agora, centrais sindicais que são braços do governo disputam para saber quem representa esses trabalhadores. Eles viraram capital político do sindicalismo governamental.
Em Belo Monte, houve no governo Dilma outro atropelamento do Ibama. Demissão e a concessão de uma controversa licença parcial do canteiro de obras. Segundo cálculos do Imazon, que constam do consórcio Norte Energia, o desmatamento indireto da obra pode variar de 800 quilômetros quadrados a 5,2 mil quilômetros quadrados. Os fatos até agora fazem temer pelo pior.
Na economia, mensagens conflitantes enchem de ruído uma conjuntura já complicada por uma série de eventos internacionais, e a sensação de que o governo aceitará um pouco mais de inflação no país que passou pelo tormento hiperinflacionário.
Há várias notas agradáveis no governo Dilma, mas há dissonâncias assustadoras.
Notas e ruídos
O governo de Dilma Rousseff nem fez 100 dias, só fará daqui a uma semana, e já houve uma explosão de revolta nos canteiros de obras do PAC, interferência explícita na Vale, concessão de uma estranha licença "parcial" para Belo Monte. No lado bom, o governo fechou o palanque ambulante, valorizou a mulher e cobrou resultados dos ministérios. 

SEMPRE PODE FICAR PIOR

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Segredo família
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 02/04/03

Documento da briga da família Gradin com a Odebrecht, obtido pela coluna, mostra que Bernardo Gradin, mentor do confronto, entrou na Justiça para questionar avaliação de ações que seu pai, Victor Gradin, e um dos seus irmãos, Miguel Gradin, aprovaram.

Quando? Em assembleia de acionistas dia 5 de agosto do ano passado. Segundo a avaliação, feita pelo CSFB, os Gradin têm direito a US$ 1,5 bilhão para deixar a Odebrecht.

Bernardo reivindica o dobro do valor na Justiça.

Uma vez pirata
Cerca de 30 empresas suspeitas de sonegação na comercialização de etanol estão na mira da ANP.

A agência cruzou informações com a Receita Federal, Ministério da Agricultura e secretarias de fazendas estaduais e se prepara para apertar o cerco.

New pedreiros
Daniel e David Feffer, do Grupo Suzano, criaram empresa no setor... imobiliário: a Alden, em sociedade meio a meio com a Helbor.

Ela já nasce com quatro grandes projetos, usando, inclusive, terrenos de propriedade da Suzano.

Home, sweet

Depois de tempos de fartura pós-Lehman Brothers, volta a escassez de "mão de obra" qualificada no mercado financeiro.

Ontem, só se falava de uma suposta perda do BTG, de André Esteves para a Flow, corretora do filho de Jorge Paulo Lemann: oito traderes teriam trocado de casa.

Plantão
Kassab faz a linha "bandeirante" para seu partido, o PSD.

Viaja hoje para o Centro-Oeste, e no outro fim de semana, para o Norte.

Raridade

Entre os destaques do Leilão de Livros Raros e Papéis Antigos, da Folio Livraria, que acontece hoje, um item do lote promete fazer sucesso.

Trata-se de publicação que reúne poesias traduzidas por D. Pedro II, com direito à dedicatória escrita poucos dias antes da sua morte.

Tipo exportação

O modelo de atuação da Ame Jardins despertou interesse em moradores de outras regiões. A entidade, segundo Marcos Arbaitman, tem recebido pedidos para ampliar sua área de atuação.

Em reunião realizada nesta semana, residentes do Alto de Pinheiros solicitaram atendimento. Recentemente, grupos de Cerqueira César, Itaim Bibi, Pompeia, Perdizes e Pinheiros entraram em contato com a Ame querendo se associar.

O presidente da entidade avisa que ela está de portas abertas para replicar o modelo. "Já demos consultoria à Viva Paraíso e a uma turma de moradores de Itaquera. Por que não estender isto a outros que também precisam?".

O que faz a Ame? Tenta cuidar do verde, da segurança, da zeladoria urbana, trânsito, uso e ocupação do solo. Coisas, cá entre nós, da responsabilidade pública.

Do além
Julinho do Carmo, que considerava Dercy Gonçalves sua mãe, prepara festa póstuma da comediante no dia 23 de junho, quando a atriz faria 104 anos.

Onde? No mausoléu da atriz, em Madalena, Rio de Janeiro.

O tempo

Assim como Roberto Carlos, que faz 70 anos em abril, Betty Faria também chegou lá.

Completa sete décadas no mesmo dia em que encerra a temporada de Shirley Valentine no CCBB do Rio: 8 de maio.[ ][/ ]

Best-seller

A editora Record bateu o martelo. Comprou os direitos de publicação de A Estrela do Diabo, novo romance do Jo Nesbo.

Seu último thriller, The Leopard, publicado na Inglaterra em janeiro, foi direto para o primeiro lugar na lista de mais vendidos.

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Taxar os carros
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SÃO PAULO - 02/04/11


SÃO PAULO - Pego o carro em casa e em 10, no máximo 15 minutos estaciono na garagem da Folha. Eventualmente faço o percurso a pé -uma caminhada de menos de 40 minutos. Ônibus? Metrô? Jamais.
Sou mais um paulistano acomodado a esbravejar contra o trânsito infernal da cidade. "Mas o transporte público não nos dá alternativa, é precário, de péssima qualidade" -é muito comum ouvir isso na classe média motorizada. Uma meia verdade que serve como álibi.
Público, para nós, não designa aquilo que é comum, a que todos têm direito, mas aquilo a que estão condenados os que não podem pagar pelo serviço privado. Vale para a escola particular, vale para o plano de saúde, vale para o carro...
É óbvio que os 70 km de metrô existentes na cidade são insuficientes (o dobro disso seria razoável). É sabido que o transporte público é deficiente. Mas isso vale sobretudo para a periferia. É o ônibus do morador do Grajaú que passa sempre atrasado e vive superlotado.
Em termos de conforto, é claro que nada substitui o carrinho -horários flexíveis, som à la carte, privacidade. Mais do que um meio de transporte, ele é um modo de vida. Encapsulados ali, travamos nas ruas uma espécie de guerra hobbesiana, de todos contra todos.
Mas veja que coisa: na liberal Inglaterra, 93% dos londrinos fazem uso do transporte público. Os estacionamentos foram proibidos nas regiões centrais da cidade e quem circula por ali paga um pedágio. Foi o arquiteto Richard Rogers, criador do Beaubourg, de Paris, quem lembrou isso à Folha nesta semana.
Por que não taxar a circulação de carros nas regiões mais saturadas da cidade? Que prefeito bancaria isso? Logo desconfiamos que o dinheiro não seria usado para financiar a melhoria do transporte coletivo e ainda lembramos que muitos políticos são só larápios de gravata.
Essa talvez seja uma verdade e meia. Mas é também um álibi para que tudo fique como está. Ou piore.