sábado, março 12, 2011

DOM ODILO P. SCHERER

Quanta violência! Por quê?
DOM ODILO P. SCHERER
O Estado de S.Paulo - 12/03/11


Notícias chocantes sobre atos violentos se multiplicaram nas últimas semanas: é filho que degola os pais, jovem que chega ao bar, ferindo e matando porque alguém mexeu com a namorada, mulher que mata a filhinha do amante, motorista que lança o carro sobre ciclistas em passeata pela rua; são adolescentes que matam a coleguinha rival no primeiro amor... E os casos poderiam continuar, é só seguir o noticiário de cada dia.

Não se trata da violência da guerra, de grupos de extermínio ou do crime organizado: é violência comum, da vida privada, por motivos fúteis. E nem é por que há muita arma de fogo na mão do povo: um veículo, uma faca de cozinha e até um cadarço podem virar armas letais, quando a vontade é assassina!

A ação das autoridades de segurança e os rigores da lei não assustam nem impedem os crimes. Muita tensão nas relações sociais e motivos banais levam a perder a cabeça, a fazer justiça com as próprias mãos e a cometer as maiores violências contra o próximo. E corremos todos o risco de nos habituarmos com notícias e imagens brutais, com a mesma indiferença sonolenta com que assistimos a cenas de um filme. A realidade se funde com a ficção e mal caímos na conta de que, nesses casos, a morte e a dor são reais. Como explicar tanta violência no convívio social?

Deixemos aos estudiosos do comportamento humano a análise do fenômeno. Desejo refletir sobre algo que me parece estar na base desses fenômenos.

Os fatos denotam uma radical desconsideração pela dignidade da pessoa humana, pelos seus mais elementares direitos e pelos valores éticos que devem orientar as decisões na vida. O violento, ferindo ou matando uma pessoa, também legitima a violência, de modo implícito, também contra si próprio, pois ela pode voltar-se contra o autor dessa ação. E, se isso não lhe importa, significa que ele não tem consideração pela sua dignidade pessoal nem amor pela própria vida. Ou tem a presunção de levar sempre a melhor, e aí estaríamos diante do estágio mais primitivo do desenvolvimento humano, em plena lei da selva.

A violência é dos brutos e denota uma lamentável inconsciência diante da dignidade da pessoa, dos seus direitos fundamentais. É ausência de sensibilidade, ou desprezo pelos valores básicos da conduta.

Alguém logo apontará para a urgência de um rigor maior da lei e para a ação mais eficaz das autoridades que a representam e aplicam.

Todos esperam, certamente, que os responsáveis cumpram o seu dever e as leis sejam mais conhecidas e respeitadas, porém não é por falta de leis que os crimes acontecem. E, se a grande garantia para a inibição do crime fosse a autoridade que representa a lei, estaríamos muito mal e não haveria policiais em número suficiente para vigiar todos os potenciais criminosos. A ausência da autoridade encarregada da aplicação lei não legitima o crime.

O alastrar-se da violência está sinalizando para uma desorientação cultural, em que há pouca adesão a referenciais éticos compartilhados, ou mesmo a falta deles. Valores altamente apreciáveis, como a vida humana, a dignidade da pessoa, o bem comum, a justiça, a liberdade e a honestidade caem por terra quando outros "valores" lhes são sobrepostos, como a vantagem individual a qualquer custo, a satisfação das paixões cegas, como o ódio, a avareza, a luxúria, a vaidade egocêntrica...

Princípios éticos tão elementares quanto essenciais, como "não faças aos outros o que não queres que te façam", ou os da inviolabilidade da vida humana, do respeito pela pessoa, do senso da justiça e da responsabilidade compartilhada perdem cada vez mais seu espaço para algo que se poderia qualificar como "pragmatismo individualista sem princípios".

Se cada um elabora os referenciais para seu agir de acordo com os impulsos das paixões, as conveniências ou ganhos do momento, perdemos os referenciais comuns da conduta no convívio social.

Chegamos a isso por muitos fatores, mas alguns me parecem importantes. A conduta reta, ou o seu contrário, depende da educação; virtude e vício têm mestres e currículos próprios. Valores e princípios são ensinados e apreendidos; e a inteligência humana é capaz de reconhecê-los, de distinguir entre o que é bom e o que é mau. Por sua vez, a consciência pessoal e a vontade, quando bem esclarecidas e motivadas, inclinam-se para o bem e rejeitam o mal.

A lei exterior, por si, é constritiva, porque vem acompanhada pela ameaça, não muito eficaz, do castigo e da pena. Eficácia maior da lei é garantida pela adesão interna e livre ao valor protegido por ela. É a lei moral inscrita no coração, da qual fala o filósofo Immanuel Kant. E já falava a Bíblia (cf Sl 37,31; Jr 31,33).

Creio que aqui há muito para se fazer. Sabemos que, atualmente, os tradicionais agentes de educação, como a família, a escola e as organizações religiosas, estão conseguindo fazer isso de maneira muito limitada e seu papel na educação é até dificultado, quando se dedicam a fazê-lo.

Por outro lado, há uma progressiva desconstrução dos referenciais éticos da conduta pessoal e coletiva. E contribuem para a erosão dos valores e para a desorientação da ética no convívio social a exaltação dos "heróis bandidos" e do "valentão mau caráter"; a espetacularização da violência; o mau exemplo que vem do alto; a impunidade, que leva a crer que o crime compensa; e também a exploração econômica da corrupção dos costumes e a capitulação do poder constituído diante do crime organizado, que ganha muito dinheiro com o comércio letal da droga.

O alastrar-se da violência gratuita é uma consequência natural.

CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

GOSTOSA

ÉDISON CARLOS

Nossa tragédia ambiental silenciosa de todos os dias
ÉDISON CARLOS
O Estado de S.Paulo - 12/03/11

Outro dia estava lendo uma matéria de um jornal da Paraíba que dizia que 17% dos domicílios do Estado nem sequer tinham um banheiro para que as pessoas pudessem "fazer suas necessidades". Segundo a nota, são quase 180 mil paraibanos, brasileiros, despejando suas fezes e urina a céu aberto. Uma situação que, apesar de grotesca, é realidade comum para outros 13 milhões de cidadãos deste país.

Isso me lembrou do texto do escritor Mario Vargas Llosa que afirmava que a privada deveria ser eleita como ícone da civilização e do progresso, em vez do telefone ou da internet. Junto-me ao time do escritor de que ter ou não banheiro, por mais absurdo que pareça, ainda significa um divisor no mundo, uma autêntica parede desumana dividindo a dignidade entre mundo e submundo, os com e os sem acesso a esse "luxo".

Vivemos um desastre ambiental diário e silencioso. Como menos de 44% da população está ligada a uma rede de esgotos e menos de 30% desse esgoto é tratado, segundo dados do Ministério das Cidades - Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis) 2008 -, são bilhões e bilhões de litros de resíduos jogados in natura todos os dias nos nossos rios, lagos, bacias e mar. Um poderosíssimo veículo transmissor de doenças, como mostrado pelo Instituto Trata Brasil em seu último estudo Esgotamento Sanitário Inadequado e Impactos na Saúde da População, realizado com dados das 81 maiores cidades do País (acima de 300 mil habitantes). Pelos números levantados, as diarreias respondem atualmente por mais de 50% das doenças relacionadas ao saneamento básico inadequado, e em 2008 as dez piores cidades em taxas de internação por diarreias responderam por 38% das hospitalizações por esse tipo de doença, mesmo sua população respondendo por apenas 9% do público pesquisado. E o pior de tudo, os resultados comprovam que o grupo mais vulnerável dessa tragédia são as crianças de até 5 anos de idade. Em 2008, foram 67,3 mil crianças dessa faixa etária internadas por diarreias, número que representou 61% de todas essas hospitalizações.

E, para mostrar que isso não é exclusivo daqueles que moram em áreas menos favorecidas, vale lembrar que, somente em janeiro deste este ano, na Baixada Santista, em São Paulo, foram mais de 8.700 casos de diarreia, muito disso fruto das fortes chuvas que alagam as redes de esgoto, "democratizando" a doença pelas cidades e praias.

Por essas e outras tragédias silenciosas que convivem conosco, o último Ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) divulgado em novembro pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) mostrou o Brasil apenas na posição 73, entre os 169 países avaliados. Como o novo cálculo do IDH considera, entre outras coisas, os "anos esperados de escolaridade" e a "renda nacional bruta", os especialistas são unânimes em dizer que um país só avançará no IDH se progredir simultaneamente nas três dimensões avaliadas - saúde, educação e renda. Como não poderia deixar de ser, a falta de coleta e tratamento dos esgotos afeta negativamente todos os três fatores, portanto ajudam a manter o Brasil longe dos melhores países em desenvolvimento humano.

O lançamento dos esgotos sem tratamento na natureza é um atentado ao cidadão, que ocorre 24 horas por dia, 365 dias por ano. Os esgotos representam hoje o maior impacto ambiental às águas do País, principalmente nas grandes regiões metropolitanas. Não temos como falar em cidades sustentáveis ou "sustentabilidade", enquanto nossos cursos d"água forem vítimas da falta dos serviços de coleta e tratamento dos esgotos, legítimo fruto do descaso e falta de prioridade política das autoridades nas últimas décadas.

A solução para este desastre sem charme passa por todos os elos do governo, mas, sobretudo pela vontade dos prefeitos, responsáveis pela solução do problema, segundo a lei que rege o saneamento. Ele pode constituir sua própria empresa municipal ou conceder o serviço a uma empresa estadual ou privada, fazer uma parceria público-privada ou um sistema misto - solução existe. Mas sua responsabilidade não para por aí... Ele deve, por força da lei do saneamento, priorizar também a formulação do Plano Municipal de Saneamento Básico de seu município, sem o qual não poderá mais acessar os recursos federais. Cabe à autoridade local, portanto, vários desafios, mas principalmente o de olhar cuidadosamente a gestão dos serviços prestados à sua cidade, garantindo que se persiga a redução das perdas de água, a transparência da informação à população, o cumprimento das metas e a aplicação de tarifas adequadas à realidade local.

Tanto quanto aos prefeitos, cabe ao governo federal - que acertou na criação do Ministério das Cidades e na Secretaria Nacional de Saneamento Básico - e aos governadores zelar pela melhoria urgente da gestão das empresas que operam o saneamento no País. Não é suficiente, portanto, o governo federal acenar com os vultosos recursos do PAC, porque está mais do que provado que, com os gargalos e as burocracias que enfrenta o setor, esses recursos chegam em doses homeopáticas e, a continuar assim, serão incapazes de cobrir o gigante déficit que atinge o setor nas próximas décadas.

Cabe a todos nós o papel de reivindicadores ferozes da solução deste quadro incompatível com o Brasil que se apresenta hoje no mundo. Cabe aqui, também, um chamado urgente às entidades ambientalistas e aos profissionais da saúde de todo o Brasil, para que discutam urgentemente essa tragédia nacional em seus círculos de contato, porque, diferentemente dos temas que afetarão nosso futuro, os esgotos estão nos contaminando hoje, agora... poluindo nossas águas e adoecendo nossas crianças.

PRESIDENTE EXECUTIVO DO INSTITUTO TRATA BRASIL

WALTER CENEVIVA

Teófilo Cavalcanti: o antecessor
WALTER CENEVIVA
FOLHA DE SÃO PAULO - 12/03/11

No campo do direito, os anos de Teófilo no jornalismo foram marcados por muitas mudanças


ESCREVO PARA a Folha desde meados dos anos 70, mas comecei a redigir esta coluna, originalmente chamada de "Letras Jurídicas", em 1978, sobre a vida do direito em nosso país e de muitos de seus personagens. Dado o tempo decorrido, pode acontecer que o leitor -e muitos dos que acompanharam os longos anos percorridos- suponha que fui o criador da coluna. Não fui.
Quem começou a dar forma a ela, no comentário dos temas do direito, foi Teófilo Cavalcanti Filho, jornalista, livre-docente em "Introdução à Ciência do Direito" e professor-adjunto no Departamento de Filosofia na velha Academia do largo São Francisco. Ele mesclou dois caminhos na vida, contraditórios na aparência. Foi, simultaneamente, autoridade sobre a teoria jurídica -com as dificuldades de sua aplicação- e qualificado repórter e redator da Folha.
Em ambos os segmentos, mostrou-se expositor claro e sintético. Agora, que a Folha tem seus 90 anos de vida digitalizados, abrem-se ao alcance de todos que queiram ler suas colunas, desde o começo delas. Assim se viabilizou, na prática, a velha ideia de rememorar aspectos da integração de Teófilo a São Paulo (ele nasceu em Crato, no Ceará) e à vida do direito, em períodos conturbados da vida brasileira.
Teófilo começou em 1960, noticiando, em seu primeiro trabalho, o novo sistema de indulto a condenados a penas iguais ou inferiores a três anos, além de breve comentário sobre a efetiva aplicação da Justiça e os esforços das entidades da advocacia para o mesmo fim.
Os anos da ligação de Teófilo com o jornalismo foram marcados, no campo do direito, por muitas mudanças. Somaram-se as variáveis da intranquilidade social nos anos subsequentes. Interferiram diretamente sobre a elaboração das leis - impostas pelo Poder Executivo- depois de 1964, seguindo-se por mais de 20 anos, restrições à liberdade de informação e ao sacrifício dos direitos individuais. Para o leitor que queira ter a visão completa sobre os fatos diários ou da história jurídica do país, na perspectiva de meu antecessor, basta entrar em acervo. folha.com.br, clicar em "Busca detalhada" e, finalmente, no campo "Com a frase exata", digitar Teófilo Cavalcanti Filho.
Além do contato com Teófilo por alguns anos, tive o prazer de advogar para pessoas de sua família, o que me permitiu que melhor conhecesse sua qualidade de cidadão interessado pelos fatos e pela compreensão do direito, na área da filosofia e do direito público. Seu trabalho sobre assuntos forenses foi mais ligado, no dia a dia, ao direito penal e enquanto comentarista de fatos e temas em várias áreas do direito.
Foi traço marcante de sua orientação transmitir o direito aos leitores, mesmo aos não ligados às profissões jurídicas, em termos acessíveis, quando necessário para sua compreensão integral.
É o que se percebe claramente, por exemplo, em texto de 1976 no qual perguntava "Pode analfabeto prestar fiança?". Sua resposta, incluindo questão do direito de família, traz solução cujo alcance prático se destacou ao delinear a mescla precisa entre o conhecedor do direito e o jornalista capaz de transmitir a clara avaliação final.
Completaria 90 anos no próximo dia 22, mas faleceu em 13 de abril de 1978, deixando obra expressiva que merece ser lembrada.

GOSTOSA

FERNANDO RODRIGUES

Peleguismo em debate
 FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SÃO PAULO - 12/03/11

País da boquinha estatal, o Brasil tem um acerto histórico a fazer com a herança getulista. Aqui, goste ou não do seu sindicato, o trabalhador formal está obrigado a contribuir com uma taxa anual – descontada de seu salário de forma compulsória.

Ontem, uma novidade. Numa reunião com sindicalistas, Dilma Rousseff ouviu uma proposta da CUT: acabar com o imposto sindical e criar uma “taxa negocial”. Nesse novo modelo, o dinheiro só seria recolhido depois de a contribuição ter sido aprovada em assembleias de trabalhadores.
Não há como saber se a CUT fala para valer, se a proposta vingará nem se Dilma Rousseff vai colocar a mão nessa cumbuca. Também está claro que a CUT e seus sindicatos filiados serão os maiores beneficiados da mudança. Ligada historicamente ao PT, as fontes de financiamento dessa central são mais azeitadas do que as de agremiações concorrentes.

O fim do imposto sindical seria uma catástrofe para grande parte das centrais. Acostumadas a mamar na verba automática, teriam de disputar o apoio voluntário dos trabalhadores da noite para o dia. Mesmo com todas essas ressalvas e quase impossibilidades práticas para que seja enterrado o imposto sindical, é bom o tema ter sido abordado numa reunião com a presidente da República.

Hoje, milhões de trabalhadores experimentam um pouco de raiva no dia em que o desconto do imposto sindical surge em seus contracheques. Passa algum tempo, todos se esquecem. Menos os dirigentes pelegos de boa parte dos sindicatos, viciados no dinheiro fácil. Ontem, teve sindicalista deslumbrado porque Dilma Rousseff mandou servir suco aos presentes na reunião. Se o Brasil tivesse um modelo trabalhista independente, essa turma não iria mendigar migalhas no Planalto. O fim do imposto sindical é o primeiro passo para um sistema sindical mais digno.

MERVAL PEREIRA

Sem proteção
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 12/03/11
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, enviou-me a íntegra do voto em separado que proferiu em 2007 na Comissão de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados para demonstrar que, ao contrário do que se afirma, inclusive eu na coluna de ontem, ele não pode servir de base para evitar uma punição para a deputada federal do PMN do Distrito Federal Jaqueline Roriz. Eleita ano passado, ela aparece em um vídeo de 2006, quando era deputada distrital, recebendo propina no escândalo que derrubou o governo José Roberto Arruda.

Pelo contrário, seu voto, que foi aprovado, pode até fundamentar o procedimento para sua eventual cassação.

Independentemente do fato de que a decisão da Comissão de Ética naquela ocasião evitou que políticos envolvidos no mensalão, e posteriormente reeleitos, fossem alvo do julgamento de seus pares, com base no insólito entendimento de que as urnas anistiam os erros cometidos amplamente divulgados, o adendo proposto pelo então deputado petista José Eduardo Cardozo permitiu que houvesse exceções nessa suposta anistia.

Uma consulta dos líderes de PMDB, PT, PP e PR, que tinham deputados envolvidos no mensalão, sobre a "admissibilidade de instauração de procedimento disciplinar contra parlamentar quando o fundamento da representação tiver por base ato ou procedimento supostamente ocorrido em momento anterior a processo eleitoral que confirma novo mandato" recebeu do relator, deputado Dagoberto, do PDT, um parecer que defendia a tese de que a abertura de processos de cassação de mandatos não poderia ocorrer diante de fatos acontecidos em legislatura anterior. Eventual abertura de processo só poderia ocorrer diante de fatos revelados na legislatura presente.

O então deputado José Eduardo Cardozo também defendeu a tese de que, no momento em que o povo vai às urnas proceder à escolha dos seus futuros representantes, se a sociedade já tiver tido conhecimento pleno dos fatos desabonadores que podem pesar contra o candidato que postula a sua recondução a um novo mandato, e mesmo assim "parcela significativa dos cidadãos o escolhe para ser o seu representante, será descabido, pelo próprio princípio democrático, ignorar incondicionalmente este "julgamento popular direto"".

Mas, num texto de 49 páginas, ele considera que deverá ser aberta exceção para os casos em que "novos elementos de convicção apropriados surjam após a eleição, de modo a poderem sugerir, em tese, que o resultado das urnas não teria sido o mesmo se tivessem sido de anterior conhecimento público".

Na sua sustentação, Cardozo alega que "é possível a abertura de processos de cassação de mandatos por procedimentos incompatíveis com o decoro parlamentar por fatos verificados ao longo do exercício de mandato anterior já extinto, desde que:

a) não tenham sido eles amplamente divulgados para toda a sociedade, de modo que um eleitor médio pudesse deles não ter conhecimento no momento da eleição; b) surjam elementos de convicção supervenientes (fatos ou provas novos), ou seja, verificados ou conhecidos publicamente apenas após as eleições e em condição em que pudessem modificar, em tese, o juízo dos eleitores em relação ao parlamentar acusado.

No caso de sentença criminal condenatória transitada em julgado por fatos praticados ao longo de mandato anterior, mesmo que já conhecidos publicamente esses fatos à época da eleição, Cardozo também admitia que pudesse haver a abertura de processo de cassação, com fundamento no artigo 55, VI, da Constituição Federal.

Diz o voto de Cardozo, textualmente: "Donde ser forçosa a conclusão de que a eleição para um mandato subsequente, por si só considerada, não elimina a possibilidade jurídica da aplicação da sanção política a um parlamentar reeleito, pela prática de ato incompatível com o decoro ao longo do mandato antecedente. A reeleição não pode ser vista como uma anistia política incondicional dada pelas urnas. Caso assim fosse, todo e qualquer ato ilícito ou imoral praticado ao longo de um mandato, mesmo que apenas revelado a posteriori do momento eleitoral, estaria resguardado pelo manto da impunidade política."

Em seu voto em separado, que acabou sendo aprovado como adendo ao voto do relator, o então deputado José Eduardo Cardozo dizia que, "havendo fatos novos, elementos probatórios novos, circunstâncias novas, reveladas a posteriori do momento eleitoral, em condições que, em tese, poderiam alterar o juízo político do eleitor, o Parlamento, por meio de seus representantes, terá total liberdade jurídica para formar a sua convicção política sobre a necessidade de cassação ou não do mandato".

Nesse caso, "o representante estará agindo em nome do povo que o elegeu para apreciar circunstâncias novas, publicamente inexistentes no momento em que se expressou o juízo eleitoral dos cidadãos. Aqui terá legitimidade democrática para fazê-lo. Estará agora agindo legitimamente, no exercício da representação popular, apreciando fatos novos, examinando elementos probatórios novos, formando, em nome daqueles que representa, uma nova convicção política de conveniência e de oportunidade quanto à necessidade de manutenção ou não de um mandato, a partir de uma nova realidade desenhada após as eleições. Agora o princípio democrático não estará ofendido, mas atendido na sua plenitude".

É justamente o caso da deputado federal Jaqueline Roriz, cuja participação no escândalo do mensalão de Brasília só foi revelada agora, depois que fora eleita. O parecer de Eduardo Cardozo, na verdade, é um antídoto contra o "estelionato eleitoral", embora preserve a imunidade de políticos que supostamente foram "anistiados" pelas urnas, em uma interpretação ampliada e algo "esperta" do sentido do voto.

Seria ótimo que um dia o eleitor médio brasileiro tivesse acesso a todas as informações e as entendesse.

SOLUÇÃO

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Culpa do Kassab
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 12/03/11

Em reunião com as centrais, Dilma Rousseff manifestou incômodo diante das explicações correntes sobre a pressão inflacionária no início de seu governo. Primeiro, queixou-se de que "ninguém reconhece" o peso do "aumento do ônibus do Kassab" e dos materiais escolares, este um "fator sazonal". Depois, a presidente reclamou do modo como Guido Mantega fala a respeito do tema. Segundo ela, o ministro da Fazenda "fica dando explicação para porteiro de prédio".
Um dos participantes criticou o ex-presidente Lula por tê-los chamado de "oportunistas" na discussão sobre o aumento do salário mínimo. Dilma contemporizou: "Ah, mas briga de amor não dói...".
TIbrás No encontro com Dilma, o presidente da CGTB, Antonio Neto, sugeriu a criação de uma estatal para a área de tecnologia da informação, que reuniria Cobra, Serpro e Dataprev. A presidente "ficou de estudar".

Como está fica 

O Planalto não quer ouvir falar de alteração das competências da Autoridade Pública Olímpica, entre elas a de determinar quais obras terão regras mais flexíveis de licitação, item ainda pendente de aprovação pelo Congresso.

Em aberto 

Para diminuir o atrito em torno desta mudança na Lei de Licitações, o governo busca saída que tenha aval da oposição e do TCU. Entre os itens passíveis de negociação estão a inversão de fases no processo licitatório e a ampliação do uso de pregão eletrônico. Se aprovadas, as regras valeriam para obras dos Jogos de 2016 e nos aeroportos das cidades-sede da Copa de 2014.

Fui eu 1 
Nelson Jobim tomou a iniciativa de dizer a Dilma que costuma viajar na companhia do fazendeiro Jonas Barcellos. No Carnaval, o ministro da Defesa e sua mulher estiveram na casa do empresário em Angra dos Reis (RJ). Jobim também contou ter acompanhado Barcellos em visita à estação de esqui de Gstaad, na Suíça. O amigo do ministro foi dono de todos os freeshops de aeroportos brasileiros, mas vendeu o negócio em 2006.

Fui eu 2 
No relato à presidente, Jobim procurou caracterizar a veiculação de informações sobre seu relacionamento com Barcellos como parte de um movimento para desestabilizá-lo.

Psiu 
A Fundação Mario Covas vetou discursos de políticos hoje na missa por dez anos da morte do governador, que deve atrair tucanos de todas as correntes ao Mosteiro de São Bento, às 11h. Outra celebração está marcada para terça, em Santos.

Vide bula 1 
Tarso Genro distribuiu um guia aos integrantes do "Conselhão" gaúcho, a ser instalado na terça. Participar desse foro, ensina o governador, é "exercício de tolerância e de síntese".

Vide bula 2 
O petista sugere que os participantes preparem resumo de suas intervenções "com no máximo uma lauda". "A própria redação garante a correta compreensão, o que nem sempre ocorre quando o resumo é feito por outra pessoa."

Visitas à Folha 
Ali Akbar Javanfekr, chefe de Comunicação da Presidência do Irã e diretor da agência Irna, e Mohsen Shaterzadeh, embaixador do Irã, visitaram ontem a Folha. Estavam com Touraj Shiralilou, diretor de Relações Internacionais da Irna, e Mehdi Zanjani, conselheiro da embaixada.

Edemir Pinto, diretor-presidente da BM&F Bovespa, visitou ontem a Folha, onde foi recebido em almoço. Estava com Cícero Vieira, diretor-executivo, e Alcides Ferreira, diretor de Comunicação.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI
Tiroteio

"Do jeito que vai o governo, injetando bilhões do Tesouro no BNDES, o pré-sal acabará sendo o 'passaporte dos sem futuro'."
DO DEPUTADO RUBENS BUENO (PPS-PR), sobre o anúncio de que, neste ano, serão repassados mais R$ 55 bilhões ao banco.

Contraponto

Cena de sangue

Durante visita a obras em Cunha, na terça-feira de Carnaval, Geraldo Alckmin reconheceu na plateia o ex-prefeito da vizinha Cachoeira Paulista, Jair Mendes, contemporâneo do governador no período em que este administrou Pindamonhangaba, entre 1976 e 1982.
O tucano aproveitou para filosofar:
-Dizem que agora nós vamos viver cem anos. E a meta do Jair é a seguinte: cem anos. Um dia ele me falou que já sabia como ia morrer: com um tiro pelas costas de um jovem ciumento. Esse é otimista, não é?

MÍRIAM LEITÃO

Megaeventos
MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 12/03/11
O gigantesco terremoto de ontem no Japão e os tsunamis que devastaram uma área do país e ameaçam tantos outros países do Pacífico vão também afetar a economia mundial. O Japão estava começando a se recuperar, agora será de novo engolfada por mais incerteza. Há muito tempo o Japão não puxa a atividade do mundo, mas ainda é o terceiro maior PIB global.

O mundo está vivendo uma sucessão de megaeventos desde 2008. A economia americana levou dois anos para começar a mostrar sinais de recuperação, depois das crises imobiliária e bancária. A economia europeia ainda não se recuperou porque vive agora sob o risco de calote das dívidas públicas. Países produtores de petróleo, ou importantes para a logística do produto, estão sendo sacudidos por movimentos exigindo democracia. Em alguns casos, trazendo novas esperanças, como no Egito. Em outros, infelizmente, mais sofrimento para a população. A Líbia, pela reação do seu ditador, está virando um banho de sangue. A incerteza aumentou nos últimos dias quando na Arábia Saudita o governo reagiu com violência a uma manifestação. Tudo isso produz incertezas e choques na economia mundial.

Nas últimas horas, todos os olhos estiveram voltados para as assustadoras e grandiosas imagens da natureza em fúria. Um terremoto não é fenômeno climático, é geológico. Não é decorrente de emissão de gases de efeito estufa, como alguns dos desastres que temos visto no mundo. Mas as cenas de ontem mostravam refinarias em chamas, o risco rondando quatro centrais nucleares. O país mais preparado do mundo para desastres naturais viu sua população ser dolorosamente atingida, teve que fechar as centrais nucleares, decretar emergência nuclear. No fim do dia, saíram notícias de vazamento. As usinas foram construídas com segurança, mas para um terremoto de 7,5 graus. O de ontem foi além disso, o maior em um século e meio.

Os impactos na produção japonesa são difíceis de serem dimensionados nestas primeiras horas, mas são diretos. A maior siderúrgica do país também foi atingida por outro dos 80 grandes incêndios. A Sony fechou temporariamente seis fábricas. Inúmeras outras suspenderam produção, como a Nissan. A Volvo e a Nestlé foram atingidas. O centro dos eventos foi uma área de produção agrícola e de pesca. As bolsas caíram e os preços dos seguros subiram. O petróleo caiu, mas há risco de os derivados subirem porque o Japão é produtor de derivados. Há vários canais pelos quais essa tragédia humanitária atinge também a economia.

Na agricultura, o Japão é fraco. Falta terra, mas cada pedacinho é aproveitado em produção altamente subsidiada que o faz autosuficiente em arroz, mas importador de 60% dos alimentos que consome. Na pesca, eles são o maior produtor do mundo, fornecendo 15% da oferta global de peixes, com métodos de efeitos danosos para o equilíbrio natural.

O Japão foi o grande milagre econômico do pós-guerra, por apostar em alta qualificação do seu pessoal e produção de alta tecnologia. Cresceu 10% ao ano nos anos 1960; 5% ao ano, nos anos 1970; 4%, nos anos 1980. Daí, entrou numa grave crise provocada pelo estouro de uma bolha imobiliária, contra a qual não reagiu em tempo e nem da forma adequada. De lá para cá, o país tem tido períodos de recuperação logos abortados por alguma grande crise. Foi assim em 2008. No último quadrimestre de 2010, o país estava começando a mostrar resultados positivos no crescimento. A tragédia das últimas horas deve de novo colocar a economia em compasso de espera. Em 19 de janeiro, o instituto Daiwa de pesquisas disse que uma contração adicional da economia japonesa seria improvável. No seu cenário principal, a economia continuaria com baixa atividade, mas escaparia da recessão, com crescimento de 1%: "Nós vemos cinco causas para otimismo em relação à economia japonesa: sinais do fim do declínio das exportações; melhora nas estimativas de produção; avanço no ajuste do estoque de capital; um piso para a renda domiciliar e para o emprego; aumento dos aluguéis e da ocupação dos imóveis comerciais." A análise coincidia com a de outro centro de estudos e consultoria, o JRI, Japan Research Institute.

Em fevereiro, diante dos últimos dados, a Daiwa reviu para cima suas expectativas de crescimento para o ano. Reafirmou que era improvável uma reversão desse quadro, e disse que sua preocupação era a instabilidade de alguns países desenvolvidos, o risco de bolhas nos emergentes, a especulação com as commodities. Os analistas do instituto olharam todos os fatores de risco, menos o imprevisto que estava abaixo das águas do seu mar. Terremotos são fenômenos complexos e difíceis de prever. E o tsunami que se seguiu veio rápido demais, antes que a população pudesse executar os planos sempre bem ensaiados de evacuação.

Como consequência do baixo crescimento, o Japão vive sob a síndrome das crises políticas. O primeiro-ministro, Naoto Kan, foi o quinto a assumir o cargo em quatro anos e estava sob ataque por acusação de corrupção quando, ontem, a oposição se uniu ao governo na luta contra o flagelo que se abateu sobre o país. Mas a crise que se seguirá a esses trágicos terremoto e tsunami obrigará o governo a gastar mais. E o país tem uma dívida de mais de 200% do PIB e déficit de 10%, indicadores péssimos que só são mantidos graças aos juros baixíssimos que tornam mais fácil pagar o serviço da dívida. A expectativa, com a melhora do quadro econômico, era de que o país fosse começar a fazer ajuste nas contas públicas. De novo, o Japão terá que lidar com a tragédia imprevista.

GOSTOSA

CORA RÓNAI

Solidariedade, pássaros, 3D
CORA RÓNAI
O GLOBO - 12/03/11
De todas as comunidades sociais, as mais diversificadas geograficamente são, sem dúvida, as desenvolvidas em torno de fotos, como o velho Fotolog, o Flickr e a comunidade da hora, o Instagram. Explica-se: imagens são uma linguagem universal. Enquanto no Facebook e no Twitter a linguagem é uma barreira que mantém as conversas basicamente entre conterrâneos, no planeta foto fazem-se amigos nos quatro cantos do mundo.

O terremoto e a tsunami que atingiram o Japão ontem foram mais uma prova disso. Enquanto no Twitter e no Facebook o assunto era tratado de forma genérica, quase noticiosa, no Instagram a tragédia adquiriu um cunho pessoal. É que todos nós que usamos o sistema temos, a esta altura, os nossos "amigos" japoneses, usuários cujas fotos curtimos e com quem até trocamos uma meia dúzia de palavras, no inglês arrevesado que costuma ser a língua universal da Net.

Os tributos foram variados e comoventes, a transcrição visual de "Estamos com vocês!". Em muitos casos, as imagens até deram vez a palavras, escritas no Notes e capturadas em tela. Poucas horas depois da notícia da catástrofe se espalhar pelo mundo, a página que mostra o que está bombando na rede já refletia a preocupação geral do grupo.

Muito bonito de se ver!

Não tem para mais ninguém. Os "Angry Birds" são os reis dos games, e começam a ultrapassar as fronteiras dos smartphones onde fazem tanto sucesso. Já podem ser encontrados em forma de bichos de pelúcia e estampados em camisetas, e vão fazer dobradinha com filme de sucesso garantido, a animação "Rio", de Carlos Saldanha.

O jogo parceiro do filme chega a um celular perto de você no dia 22 de março, com 60 níveis diferentes e muitas surpresas prometidas pelos desenvolvedores (que também garantem mais níveis num update futuro). Como vem ligado ao filme, "Angry Birds Rio" terá mais de enredo do que tem habitualmente. Dessa vez, os passarinhos furiosos vão brigar contra contrabandistas de aves raras.

E, por falar neles, ontem chegou à Appstore e ao Android Market a nova versão de "Angry Birds Seasons", um update grátis para quem já comprou o ABS. A ocasião é o Saint Patrick"s Day, dia do santo protetor da Irlanda, comemorada com pompa, circunstância e muita cerveja (verde!) pelo mundo angloparlante.

Se 2011 está sendo o ano dos tablets, 2012 promete ser o ano do 3D. De acordo com uma pesquisa da Consumer Electronics Association (CEA), praticamente um em cada quatro usuários de câmeras digitais manifestou interesse em comprar uma câmera 3D no ano que vem.

Os principais motivos mencionados pelos entrevistados foram interesse na tecnologia (61%), gosto por uma nova alternativa fotográfica (55%), vontade de estar na vanguarda da tecnologia (23%) e a crença de que o 3D os tornará mais criativos (22%).

Segundo a CEA, os consumidores pretendem usar as câmeras 3D de forma diferente do que usam as suas câmeras tradicionais: saem as fotos da família e dos animais de estimação, e entram as de paisagens, edifícios, monumentos e locais históricos.

Cerca de 10% dos usuários também pretendem comprar filmadoras 3D e, como seus colegas que querem partir para fotos 3D, também eles têm intenção de filmar paisagens e monumentos, embora 45% deles vejam também muito futuro na tecnologia para a filmagem de eventos esportivos.

Taí: tem gosto para tudo, mesmo.

CLÁUDIO HUMBERTO

“E aí eu encerro dizendo: falta ele nessa cerimônia”
PRESIDENTE DILMA LAMENTANDO AUSÊNCIA DE LULA, EM ENCONTRO COM SINDICALISTAS

ALCKMIN TEME QUE, DEMITIDO, AUXILIAR ABRA O BICO 
O governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) cogitava demitir o secretário de Segurança, Antonio Ferreira Pinto, pelo vazamento de documentos que derrubaram seu assessor Tulio Kahn, mas recuou.Amigos de Alckmin acham que ele teme a retomada de denúncias contra seu cunhado lobista, Paulo César Ribeiro, cujas atividades estariam fartamente documentadas na Secretaria de Segurança.

PEGOU MAL 
Além de não demitir o secretário de Segurança, Geraldo Alckmin cumpriu o constrangedor script de defendê-lo publicamente.

BRIGA PELO CARGO 
Ligado a José Serra, Antonio Ferreira Pinto temia sua substituição pelo antecessor Saulo Queiroz, homem da confiança de Geraldo Alckmin.

ALVO PRINCIPAL 
A denúncia vazada por Antonio Ferreira Pinto detonou o sociólogo Túlio Kahn, mas o alvo seria desgastar seu padrinho: Saulo
Queiroz.

ESPELHO MEU 
Esta coluna revelou a crise no governo Alckmin e a existência do vídeo do encontro de Antonio Ferreira Pinto com o repórter que acusou Túlio Kahn.

MAL-ESTAR: PALOCCI AGORA FAZ ‘SOMBRA’ A MANTEGA 
Chamado a se envolver cada vez mais nas decisões econômicas, o ministro Antonio Palocci (Casa Civil) vem causando mal-estar em Guido Mantega. No primeiro governo Lula, Mantega tinha papel secundário, como ministro do Planejamento, enquanto Palocci reinava absoluto. Após o escândalo do caseiro Francenildo, Mantega assumiu papel de protagonista. Agora, aos poucos, ele “volta ao seu lugar”. 

SANTANDER? CUIDADO 
Nem mesmo os próprios funcionários do Santander conseguem contato com a central de atendimento. E o Banco Central se mantém distante. 

OLHO GORDO 
O Senado renovou até 2012 por “notória especialização” contrato com o Hospital Oftalmológico de Brasília. Leia os zeros: R$1,6 milhão. 

BAGUNÇA 
Está quebrada há duas semanas, na agência do Banco do Brasil no Senado, a máquina de tirar senha. Uma funcionária faz senha a mão. 

PÉ-FRIO FOR EXPORT 
Lula viaja neste sábado a Doha para uma palestra em fórum da rede de TV Al Jazeera. Após confirmar sua presença, a região entrou em convulsão e apareceu até tsunami. Imagina depois da passagem dele.

FOLGA NO TRABALHO 
Usando um pretinho básico, a ministra Ellen Gracie, do Supremo Tribunal Federal, comprou às 17h35 de ontem um guarda-chuva de R$ 15 num camelô, em frente ao nº 559 da Rua Visconde de Pirajá, Rio.

A FILA ANDA 
Faltam UTIs na rede pública brasileira, mas o Brasil já adiantou dois empréstimos de US$ 800 milhões à ditadura cubana para construir o porto de Mariel. O aspone top-top Marco Aurélio Garcia anunciou na imprensa cubana um
terceiro, mas não disse quanto. E na cara dura. 

EXEMPLO CEARENSE 
A prefeita de Fortaleza, Luzianne Lins (PT), está “insuportável”: soube que o Palácio do Planalto tem citado sua administração como modelo a ser seguido em matéria de desocupação de áreas de risco.

MAIS ESPECIAIS 
A causa é justa num cenário devastado, mas cínica: o Brasil financia no Haiti um projeto de US$ 8,5 milhões para a inserção de pessoas com necessidades especiais, como os cadeirantes, diz o site haitilibre.com. A Anac sequer fiscaliza aéreas que tratam cadeirantes como animais.

NOBLESSE OBLIGE 
Até o prefeito de Lyon, Gérard Collomb, do Partido Socialista francês, acreditou e registrou no Twitter a visita do “neosocialista” Gilberto Kassab e 15 assessores: “convergência com o prefeito de São Paulo”. 

MUY AMIGOS 
O jornalista britânico Hugh Milesen, especialista em Oriente Médio na Universidade Americana do Cairo, garante que militares cubanos e da Europa Oriental tripulam aviões líbios na repressão aos rebeldes. 

SEM PERDÃO 
O STJ negou habeas corpus ao empresário Víctor Carvalho, do Rio de Janeiro, que deve R$ 3 milhões de pensão alimentícia. Dono de uma rede de academias, alegou dificuldades financeiras e ofereceu um apê de R$ 5 milhões. 

‘PÉ-FLIO’ 
Não, Lula não tinha nenhuma conferência agendada no Japão ontem. 

PODER SEM PUDOR
SÓ JAPONÊS DÁ JEITO 
O ex-presidente Jânio Quadros não botava muita fé na força de trabalho dos agricultores brasileiros. Certa vez, num encontro com o ex-presidente Juscelino Kubitscheck, promovido no Rio pelo amigo Augusto Marzagão, ele interrompeu assim o discurso do interlocutor sobre a “reforma agrária ideal”:
– ...E o Instituto de Imigração proporcionaria a cada beneficiado uma família de japoneses para trabalhar!

CARNE

SÁBADO NOS JORNAIS

Globo: Terremoto deixa o Japão sob ameaça de acidente nuclear
Folha: Tsunami arrasa nordeste do Japão e leva a alerta nuclear
Estadão: Tremor e tsunami castigam Japão e geram alerta nuclear
Correio: Tsunami arrasa Japão e provoca risco nuclear
Estado de Minas: Tsunami arrasa Japão e assombra o mundo
Jornal do Commercio: Devastação
Zero Hora: Catástrofe no Japão

sexta-feira, março 11, 2011

ANCELMO GÓIS

Paul no Rio
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 11/03/11

Ainda não foi batido o martelo. Mas as conversas caminham para que Paul McCartney faça dois show no Engenhão, no Rio, em maio. Provavelmente, dias 24 e 25, entre o fim do Campeonato Carioca e o início do Brasileiro. 

Segue...

Quem está à frente da empreitada é o empresário Luiz Oscar Niemeyer, o mesmo que trouxe o grande astro pop a São Paulo, em novembro. 

Tropa de Miami 
Na seção de iPods da lojona Best Buy, em Miami, a música que toca no novo modelo Nano, da Apple, disponível para testes da clientela, é “Rap das armas”, do filme “Tropa de elite”, com a imagem de MC Doca na telinha. O vendedor diz que a música “faz o maior sucesso”.

País da caipivodca
O Brasil é o país da cachaça. Mas seu prestígio, notadamente nas classes A e B, é pequeno. Dezoito mil pessoas foram aos seis bailes de carnaval Devassa, no Píer Mauá, no Rio. Foram consumidas 14.400 doses de vodca, 7.200 de uísque e apenas 2.100 de cachaça. 

País da feijoada...

Por falar em carnaval no Píer Mauá, Ricardo Amaral renovou por cinco anos o contrato com Alexandre Accioly e Luiz Calainho para fazer sua feijoada ali. 

Cadê o segurança?
Dois quiosques do shopping Rio Sul foram assaltados na madrugada da Quarta de Cinzas.

A família David
A Delírio da Zona Oeste, escola miudinha do Acesso D no Rio, desfilou em 2011 com o enredo “Viajando na cidade de Nilópolis, delirando com a Beija-Flor. Um tributo à família David”. Ficou em décimo e... caiu para o Acesso E, a última divisão.

Micróbio do samba
Adriana Calcanhotto pôs em seu site (adrianacalcanhotto. com.br) uma palhinha de seu novo CD, “Micróbio do samba”. Os internautas podem ouvir de graça “Tá na minha hora”, em que Adriana fala de sua paixão pela Mangueira. 

Segue... 
O nome do CD é inspirado em Lupicínio Rodrigues, compositor gaúcho, como Adriana. É que Lupicínio disse, certa vez, que foi expulso da escola porque passava o dia batucando: “Desde pequeno, eu trazia no sangue o micróbio do samba, que cresceu comigo e não quer me abandonar. Quanto mais velho fico, mais se apega a mim.” 

Cegonha
O ator Marcello Antony será pai biológico pela primeira vez. Sua namorada, Carolina Hollinger Villar, está grávida. Ele foi casado 11 anos com a atriz Mônica Torres, com quem adotou os filhos Stephanie e Francisco.

Doação de acervo
Os filhos de Dorival Caymmi doaram o acervo do pai para o Museu da Imagem e do Som. Há, entre as preciosidades, partituras, letras, cartas, textos diversos e até um violão.

Aliás...
Hermínio Bello de Carvalho, o compositor e estudioso da MPB, decidiu também doar todo o seu acervo, em vida, para o MIS.
Além de 4 mil discos, há raridades como uma gravação inédita de Elizeth Cardoso.

Filme desconhecido
Quarta , na sessão de 19h10m do desenho animado “Rango”, no Lagoon, no Estádio de Remo da Lagoa, no Rio, começou a passar na tela... “O desconhecido”, filme adulto, com Lian Neeson. Foi preciso os pais reclamarem para a sessão ser interrompida,
até começar o filme certo. 

O soldo da tropa
No QG da PM do Rio, um cartaz anuncia um curso de gestão financeira para policiais. Até aí morreu Neves. Interessante é o texto do anúncio: “Como administrar seus parcos recursos”, numa alusão ao salário baixo da tropa. 

Parem as máquinas!

Incrível, fantástico, extraordinário! Ontem, no primeiro dia útil depois do carnaval, houve... sessão na Assembleia do Rio! Mais: com 44 deputados presentes, um quórum de mais de 50%! Segundo a Mesa Diretora, não havia sessão na Casa no pós-carnaval há pelo menos dez anos.

ZONA FRANCA
 O bloco Galinha do Meio-dia, da Confraria do Garoto, sai domingo, às 16h, do Posto 11, no Leblon.
 Hermann Baeta foi homenageado por amigos de Alagoas, pelo lançamento do livro “Os fantasmas da cidade”.
 A Beija-Flor anima feijoada no Hotel Caesar Park Ipanema, sábado.
 Edson Scorcelli e Cristina Vaz de Carvalho colhem depoimentos de publicitários para um livro sobre a profissão antes e depois do computador.
 O artista plástico Sérgio Cezar dá palestras na Escola de Design da UVA dias 16, na Barra, e 22, na Tijuca.
 O Azurra acaba de adotar o sistema de vendas pela internet do portal www.comernaweb.com.br
 O advogado Cacau de Brito foi nomeado coordenador do Procon-RJ.

IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

Scliar se foi numa madrugada 
IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
O ESTADO DE SÃO PAULO - 11/03/11

Eles partem. Vão embora confirmando a sensação de que a vida é uma coleção de perdas. Está certo que permanecem, pois deixam seus livros, portanto estaremos com eles até o dia em que também iremos. Mas gostamos deles nesta vida. Dos encontros, conversas, telefonemas, e-mails, viagens, jantares, visitas, feiras de livros, com suas graças e manias, ambições e sonhos, sucessos e fracassos, amores e desilusões, brigas e dissensões.
Escritores de minha geração, ou mais velhos, ou mais novos, todos próximos, a quem nos ligamos pela amizade e pelos livros. Partem. Um dia chega a notícia do carro de Osvaldo França Júnior despencando num despenhadeiro nas estradas de Minas. Outro foi João Antonio, tendo seu corpo descoberto em decomposição, morto há muitos dias em total isolamento. Vivia sozinho, nunca vi solidão maior. Hilda Hilst morreu aos poucos em sua chácara de Campinas, onde seguia ansiosa o relógio esperando chegar a hora em que o médico a tinha autorizado a beber um copo e sonhando com seus livros sendo vendidos, bem vendidos. Roberto Drummond estava tão apavorado com o coração que se recusava a ir ao cardiologista. Morreu na véspera do jogo do Brasil com a Inglaterra. Juarez Barroso, cearense, que esteve ao meu lado na famosa noite de 1975 no Teatro Casa Grande, Rio de Janeiro, quando se enfrentou a censura militar, partiu muito novo, devido a um aneurisma. Wander Pirolli, um dos mais modernos autores infantis, revolucionário com seu O Menino e o Pinto do Menino, teve um ataque cardíaco. Dorian Jorge Freire, rio-grandense do norte, de poucos livros e muitas crônicas, sujeito importante em minha vida, ao me orientar no jornalismo, nos últimos momentos, lá em Mossoró, escreveu seus textos com um único dedo, o indicador, o resto paralisado. O mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke, fantástico, isolado em Corumbá, nunca teve a glória alta que merecia, melhor, muito melhor que dezenas de autores midiáticos. Também se foram Josué Guimarães, Ganymedes José, Torquato Neto, Maura Lopes Cançado, Osman Lins, Mora Fuentes, Julieta Godoy Ladeira, Marcos Rey, Fausto Wolf, Carlinhos de Oliveira, Elias José, Caio Fernando Abreu, Roberto Piva, Massao Ono. Sem esquecer Ricardo Ramos, dos melhores companheiro de viagens, cheio de humor, um aglutinador cuja obra precisa ser recuperada, contista que honrava o pai, Graciliano. E Ray-Gude Mertin, tradutora e agente, doce figura, brava mulher.
Saíram, muitos nem tiveram tempo de dizer adeus, até já, até breve. Então, chegou a vez de Moacyr Scliar, o gaúcho. Poucas vezes vi a morte de um escritor repercutir tanto, tão intensamente. Já se passaram duas semanas e continuo a ler na imprensa de todo o Brasil artigos dizendo adeus. Raras vezes vi um carinho e uma tristeza tão grandes em relação a um autor, num meio em que há (veladamente) exclusões, ciúme, alguma inveja, fofocas. Parece loucura, mas nunca vi ninguém alfinetar Moacyr. E olhem que foi autor sempre elogiado pela crítica, membro da ABL, para a qual foi eleito por unanimidade, viajando mundo, traduzido, vendido, dominando auditórios, um médico culto e informado. Meu Deus, que prato!
Moacyr não bebia; um espanto. Nada, de nada. Por não gostar conseguia escrever, limpo, clean, como se diz nos filmes americanos. Não que nós todos somos borrachos, longe disso! Moacyr escreveu, porque tinha o que escrever, sempre foi cheio de histórias, trouxe para a sua literatura os temas e o humor judaicos, recolhia o País em torno dele, em alguns momentos aproximou-se de Jorge Luis Borges. Foi cronista de jornal, da revista Seleções, redigia ensaios, escrevia livros, viajava. Há quem diga que ele não dormia. Judith, sua mulher de toda uma vida, ri, nega, conta que ele escrevia o tempo inteiro, até no avião. Homem disciplinado, controlava o tempo. Foi o que Judith revelou a Guiomar de Grammont, organizadora do Fórum das Letras de Ouro Preto, que escreveu neste jornal, domingo passado, belíssima crônica, dizendo o que todos gostaríamos de ter dito. Emocionante memorabilia. Ali está o jeito simples de Scliar, sua não afetação, o homem tranquilo, preocupado com os outros, sua maneira gaúcha de falar, o tu sempre presente, seus encontros com leitores, estudantes e iniciantes.
O homem que nunca contava sobre o que estava escrevendo. A não ser talvez para os íntimos. Não me lembro de ter lido notícias sobre no que estava trabalhando. Quando a notícia chegava, ele já tinha terminado. Era dos poucos escritores brasileiros que lia livros de outros companheiros, sabia o que estava se passando, citava nomes em entrevistas (coisa rara). Participei dos entrevistadores do Roda Viva da TV Cultura, ano passado, quando ele estava no centro da conversa. Depois nos encontramos no Palácio do Governo, quando recebemos a Comenda da Ordem do Ipiranga. Não podia saber que estávamos nos despedindo. No coquetel, quando levantei a taça de Prosecco e ele ergueu o copo de suco, brindamos pela última vez na vida.
Quando fui a Porto Alegre no dia 20 de janeiro, ele já estava na UTI e tinha sofrido uma cirurgia seguida de um AVC. Estava sedado, assim permaneceu. Num sábado, final do dia, falei com Judith e ela se abriu, dolorida: "Moacyr deve partir entre agora e amanhã". Na madrugada, Scliar se foi. Fará falta!

NELSON MOTTA

Carnaval bem-comportado 
NELSON MOTTA
O ESTADO DE SÃO PAULO - 11/03/11

Pode ser um sinal dos tempos, ou uma tendência conservadora de comportamento, mas no desfile das escolas de samba, um ambiente de pouca roupa e muita sensualidade, contavam-se nos dedos as mulheres com os seios nus. Saudosistas lembravam de Luma de Oliveira e sua comissão de frente sambando diante da bateria como cena de velhos carnavais.
É verdade que a preferencia nacional, ao contrário da americana, nunca foi por seios. E tanto as feministas americanas como as brasileiras odeiam esse assunto. Mas o interesse é antropológico: este ano nem as madrinhas de bateria mostraram seus troféus de silicone. Além de Waleska Popozuda, só algumas raras figurantes se exibiam de peito aberto. E a devassa dos camarotes era a Sandy.
Parece mentira, mas há 20 anos, nos áureos tempos de Joãosinho Trinta, as escolas estavam saindo tão peladas que provocaram a célebre polêmica sobre "genitálias desnudadas" na transmissão do desfile pela televisão. O que mostrar ? De que ângulo ?
Há 15 anos fez grande sucesso - como um quadro do familiar Fantástico - uma série de programas de 10 minutos com histórias baseadas em A vida como ela é, de Nelson Rodrigues. Escrita por Euclydes Marinho e dirigida por Daniel Filho, a série desnudou quase todas as jovens estrelas da Globo na época.
Hoje é algo inconcebível na TV aberta, em qualquer seriado ou novela. Como a abertura de Tieta, de 1989, protagonizada por uma morenaça nua em pelo dançando sob o coqueiral. Nudez agora só por assinatura.
Em compensação, nas últimas novelas, notei que alguns personagens, quando furiosos, já são autorizados a dizer "merda", e já se ouve "babaca" com alguma frequência. Há 20 anos, novela não tinha palavrão, seria um escândalo, um desacato às famílias que assistiam pela televisão ao desfile de seios e genitálias desnudadas.
A TV aberta é o melhor termômetro popular, é um raro espaço em que o povo está de fato no poder: as emissoras fazem todas as suas vontades para garantir a audiência e a publicidade. Entre velhos palavrões e novos pudores, a moral familiar nacional revela os seus valores na Era Lula/Dilma.

LUIZ GARCIA

Pagando o quê?
LUIZ GARCIA
O GLOBO - 11/03/11

Um velho ditado ensina: quem sai aos seus não degenera. Na política nacional, uma variante desse provérbio genético talvez tivesse mais pertinência e oportunidade: quem sai aos seus não se regenera.

Poderia ser esse o caso da deputada Jaqueline Roriz, filha do famoso - o adjetivo mais apropriado talvez seja "notório", muito usado no noticiário policial - Joaquim Roriz, ex-governador de Brasília. Ela tem sobre o pai a visível vantagem de ser muito loura e muito bonita. No mais, parece autêntica portadora dos genes paternos. Outro dia, caiu numa variação do já notório conto do pacote de dinheiro. As vítimas dessa peculiar armadilha são políticos que recebem doações ilícitas - sempre em erva viva - sem desconfiarem que estão sendo filmados. No caso de Jaqueline, um vídeo registra a entrega de um pacote com R$50 mil.

Para o seu partido, o PMN, ela é quase inocente - como se existisse alguma forma de honestidade parcial - e se deixou envolver "ingênua e desnecessariamente" numa "prática nefasta". A escolha dos advérbios é curiosa: parece difícil entender que um político que se preza possa ser ingênuo a ponto de aceitar doações supostamente anônimas em dinheiro vivo. Não é um tipo de presente que costume aparecer na declaração de renda de ninguém: dinheiro em pacote é, quase por definição, dinheiro sujo. É impossível conceber circunstâncias em que seria "necessário" para a deputada botar a bolada na bolsa.

A sua reação à divulgação do vídeo em que aparece recebendo o presente foi desligar-se da Comissão de Reforma Política da Câmara, com o argumento de que "os interesses da sociedade, de um grupo político, devem prevalecer acima de qualquer interesse individual". Devem mesmo, mas certamente não era isso que estava em questão - e sim o fato óbvio de que dinheiro vivo em pacote é, invariavelmente, dinheiro sem explicação de origem ou destino, e costuma atender a interesses difíceis de explicar.

Pois é precisamente isso que precisa ser explicado. Jaqueline pode até renunciar ao seu mandato - espontaneamente, como deveria ser, ou por exigência de seu partido - mas nem isso vai poupá-la da obrigação de revelar a origem do presente e o que ela teria de fazer, ou já teria feito, para merecê-lo.

Por enquanto, o PMN teve reação tímida. Anunciou, em nota, que vai esperar "o desenrolar dos acontecimentos" - que realmente estão bastante enrolados - e afirmou que a deputada foi "envolvida". Ou seja, apressou-se a declará-la vítima ingênua. É aceitável acreditar que quem lhe deu o presente estava investindo, por assim dizer, na sua desmoralização. E isso realmente deve ser investigado.

Ainda que Jaqueline tenha sido vítima de um golpe sujo, ela continua devendo resposta a uma pergunta óbvia e indispensável: o que é mesmo que os R$50 mil estavam pagando?