quarta-feira, dezembro 01, 2010

O ABILOLADO

VINICIUS TORRES FREIRE

A reforma ministerial de Dilma
VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/12/10

Presidente eleita empurra PMDB para um cercadinho e reserva para si e para o PT pastas mais importantes


O gabinete de Dilma Rousseff é uma espécie de reforma ministerial do governo Lula. Nenhum demérito nisso. Aliás, em países politicamente mais estáveis, no bom sentido, quadros de governo vão e vem com a sucessão de administrações e partidos no poder. Em países mais conturbados e/ou vítimas de governos catastróficos, é mais comum que conjuntos quase inteiros de integrantes da alta administração caiam em desgraça. É verdade que algumas constâncias são repelentes. Por exemplo, o PMDB oferece costumeiramente os mesmos trastes e ameaças para assumir feudos em Brasília, não importa o partido no poder.
Mais interessante até agora é que a presidente eleita estende a influência do petismo-governismo para ministérios problemáticos tanto por negociarem interesses econômicos pesados como por terem sido ocupados pelos hunos do PMDB.
Dilma colocou sua gente, ou gente do lulismo, na Fazenda, no Planejamento, no BNDES, um nome amigável no Banco Central. Obviamente vai nomear os "ministros da casa", como talvez Antonio Palocci na Casa Civil (ou similar) e Gilberto Carvalho numa espécie de secretaria da Presidência. Parece que vai colocar Paulo Bernardo, ora no Planejamento, no Ministério das Comunicações. A Justiça ficaria com outro petista, talvez com o suave José Eduardo Martins Cardozo. Pode ser que o senador Aloizio Mercadante pare na Ciência & Tecnologia. Nesse aspecto, de "reserva de mercado" de nomeações, Dilma se parece mais com FHC do que com Lula.
O Ministério das Comunicações é um Cavalo de Troia, um carro-bomba e uma terra arrasada pelo PMDB. De lá saíram os girinos da saparia do mensalão. Há vergonheiras em série nos Correios. Há o Plano Nacional de Banda Larga, o "internet para todos", que pode ser desde boa coisa até uma tolice estatista. Dilma terá decidido lavar essa roupa suja em casa se confirmar a nomeação de Bernardo.
A presidente eleita também quer dar um jeito na Funasa, a Fundação Nacional da Saúde, com suas verbas facilmente dispersáveis e suas nomeações em penca, de alcance nacional. Quer tirar os aeroportos da Defesa. Já que pretende mexer nesses patrimônios históricos da bandalheira e da incompetência, poderia mexer também no Dnit, o departamento nacional dos descaminhos, ou melhor, da rodovias.
Embora a luta de facas no escuro não tenha terminado, Dilma parece além do mais encurralar o PMDB num cercadinho muito mais modesto que o imaginado pelo partido. Os peemedebistas ficariam com Minas e Energia, sempre com "infiltrados" de Dilma. Ficariam com a Saúde, mas o partido não se reconhece muito no possível ministro, o secretário da Saúde do Estado Rio de Janeiro, Sérgio Côrtes. Sobraria Cidades para Moreira Franco. Para tanto alarde e risco, até que ficou barato.
Dos ministérios mais importantes, resta saber o que será feito da Infraestrutura.
O mais importante, porém, está por aparecer, se é que vai aparecer. Não sabemos dos planos de Dilma para reduzir a mistura de burocracia com fisiologismo no serviço público. Não sabemos o que fará das agências reguladoras -pode não gostar delas tais como eram nos anos FHC, mas não é possível largá-las como o fez Lula, que as utilizou como depósito de nomeações.

MARCOS SAWAYA JANK

Código Florestal, da aberração à inovação
Marcos Sawaya Jank 


O Estado de S.Paulo - 01/12/10
Todo mundo reconhece que o Brasil tem as melhores credenciais do planeta para a proteção do meio ambiente e o desenvolvimento da agropecuária. Basta dizer que nas duas últimas décadas nossas áreas protegidas mais do que duplicaram, chegando hoje a 175 milhões de hectares. Nesse mesmo período, a produtividade total na agricultura brasileira cresceu 5% ao ano, ante menos de 2% ao ano na maioria dos grandes produtores agrícolas, incluindo os EUA.
Só que, infelizmente, em vez de buscar a plena conciliação entre o desenvolvimento agrícola e a proteção ambiental, estamos contrapondo esses dois gigantes de forma absurda. O maior exemplo é a interpretação que vem sendo dada ao Código Florestal Brasileiro, fruto de dezenas de alterações desde a publicação da lei em 1965, até por medida provisória que foi reeditada nada menos que 67 vezes! Essa interpretação vem gerando inacreditável insegurança no campo sem conseguir induzir a preservação ambiental.
Exemplos dos problemas que se somam neste momento são: 1) Risco de perda de enormes áreas de terras férteis, com grande aptidão agrícola, cultivadas há mais de um século nas Regiões Sul, Sudeste e Nordeste, o que pode levar ao aumento dos custos de produção e dos preços da terra; 2) impedimentos ao licenciamento e à regularização ambiental e limitação ao acesso a linhas de crédito com bancos; 3) gigantesco passivo judicial e a criminalização em massa de produtores rurais; 4) imensa confusão jurídica, falta de clareza nas regras de aplicação e cumprimento do código e continuidade do desmatamento descontrolado.
Desde 2005 diversas tentativas para solucionar as imperfeições mais nefastas do Código Florestal foram conduzidas por ministros da Agricultura e do Meio Ambiente, parlamentares e representantes da sociedade civil. Por inúmeras vezes quase se chegou a um acordo mínimo aceitável, fracassado pela falta de coordenação das partes envolvidas e pelo foguetório de factoides midiáticos que apenas causaram mais fumaça, radicalizando o debate.
Olhando para o que está sobre a mesa e para o conceito de sustentabilidade no século 21 - traduzido na difícil combinação entre eficiência econômica, responsabilidade ambiental e equidade social -, um Código Florestal moderno para o Brasil seria aquele que incorporasse as seguintes premissas:
Compensação das reservas legais no bioma - Reservas florestais legais referem-se à obrigação de recompor a vegetação nativa em 20% da área de cada propriedade agrícola na maioria do território nacional, 35% nos cerrados da Amazônia Legal e 80% na floresta amazônica, uma exigência que não encontra paralelo em nenhum país. Sem entrar nesse mérito, que torna o Brasil a nação mais preservacionista do planeta, a questão que se coloca é se não faz mais sentido formar grandes aglomerações florestais no bioma, em vez de se buscar a tarefa irracional de recompor "ilhotas desconectadas" de vegetação em cada propriedade. Essa alternativa criaria incentivos econômicos que trariam ganhos efetivos ao meio ambiente, gerando renda para a floresta "em pé", desenvolvendo um mercado eficiente de compensações ambientais e reduzindo o custo para os produtores rurais. É o caso da Cota de Reserva Ambiental e dos mecanismos de servidão florestal, ambos negociáveis no mercado, que poderiam gerar uma verdadeira revolução ambiental no País, especialmente após a indicação das áreas prioritárias de conservação pelo poder público.
Restauração das áreas de preservação permanente (APPs) nas propriedades - Trata-se do princípio da restauração plena das matas ciliares e outras APPs, definidas pela geografia de cada propriedade (nascentes, cursos d"água, áreas com alto declive, etc.). Essa restauração seria incentivada pela possibilidade do cômputo das APPs na área da reserva legal e pela remuneração dos serviços ambientais, desde que elas fossem devidamente recuperadas e que isso não permitisse novos desmatamentos. Claro que essa solução também deveria respeitar casos clássicos de ocupação sustentável, como o café e a maçã no topo e encostas de morros, o arroz irrigado de várzea, o boi pantaneiro e outros.
Respeito à lei vigente no tempo - Parece desnecessário, mas sempre é preciso reafirmar o princípio constitucional de que a lei não pode retroagir no tempo, ou seja, não se pode obrigar alguém a recuperar algo que foi removido quando era permitido ou mesmo estimulado pela lei. Essa interpretação do Código Florestal pode ser comparada a uma norma absurda que obrigasse todos os prédios urbanos já construídos na cidade de São Paulo a terem, no máximo, cinco andares, cabendo unicamente aos proprietários atingidos adequar-se à lei, sem nenhuma indenização.
Essas premissas foram incorporadas pelo relatório do deputado Aldo Rebelo, que deveria estar sendo analisado pelo Congresso neste momento. Entendo que a existência de pontos polêmicos no relatório não desmerece o trabalho realizado e não justifica a recusa de uma negociação no curso de sua votação, momento legítimo para a participação dos representantes eleitos pela sociedade. O fato é que soluções simples podem ser encontradas para melhorar o Código Florestal, desde que as pessoas efetivamente leiam os documentos em pauta despidas de preconceitos e posições apriorísticas, buscando soluções concretas e adotando a racionalidade e o bom senso como norte.
Deixar de votar o relatório este ano significa um novo retorno à estaca zero com a nova legislatura, agravando a confusão e os conflitos no campo e nas florestas brasileiras em 2011, com insegurança jurídica, disputas judiciais e desmatamento descontrolado.
Poderíamos já ter entrado no século 21 nessa matéria e estar neste momento efetivamente concentrados em produção e exportação agrícola combinadas com conservação e restauração de florestas, seguindo a vocação óbvia ululante do Brasil.
PRESIDENTE DA UNIÃO DA INDÚSTRIA DA CANA-DE-AÇÚCAR (UNICA) 

GOSTOSA

RICARDO VÉLEZ RODRÍGUEZ

Lições da guerra carioca
Ricardo Vélez Rodríguez 


O Estado de S.Paulo - 01/12/10
Passada a intervenção policial e militar que pôs fim ao império do tráfico no Complexo do Alemão e nas favelas que integram a comunidade de Vila Cruzeiro, na Penha, vale a pena refletir acerca do que do episódio se pode tirar a limpo, em termos de políticas de segurança pública, a fim de que, em outras oportunidades, não se repitam erros do passado e a população se beneficie com ações mais bem planejadas no combate à criminalidade.
A primeira lição que se depreende é a de que não existe, verdadeiramente, crime organizado, mas Estado desorganizado. A imagem da fuga atordoada dos meliantes pela mata que separa os dois conjuntos de favelas, repassada por duas cadeias de TV para o mundo todo, está a provar essa assertiva. Um "exército" medianamente treinado não debanda dessa forma. Os bandidos, fortemente armados, não tinham um "plano B" para a eventualidade de a Vila Cruzeiro ser invadida. Ponto positivo para a cidade do Rio de Janeiro, cujo pior inimigo não constitui propriamente um "exército", mas um bando de meliantes que fogem quando as autoridades decidem pôr a polícia no seu encalço, com o apoio das Forças Armadas.
Diferente foi a situação enfrentada pelo Exército e pelas forças policiais colombianas, no início desta década, em Bogotá e em Medellín, quando da invasão aos santuários do crime: defrontaram-se com forças fortemente treinadas em táticas de guerrilha urbana, que, consequentemente, trouxeram sérias baixas à população e aos soldados.
A segunda lição é que o apoio das Forças Armadas no combate ao narcotráfico é importante. O elemento diferenciador das duas intervenções da semana passada em relação às anteriores está justamente aí: quando se dá o apoio das Forças Armadas, no cerco aos bandidos e na logística militar, a ação repressiva é dissuasória e eficaz.
Muitas pessoas criticam o fato de a aviação militar não ter aproveitado a fuga desordenada dos meliantes para metralhá-los a partir dos helicópteros. Imaginam os leitores a grita que estaria sendo feita neste momento, pelos defensores dos direitos humanos, caso isso tivesse sido realizado? O uso dos equipamentos das Forças Armadas restringiu-se ao cerco e à tática intimidatória que os tanques, os veículos blindados da Marinha e do Exército e os soldados das duas corporações exerceram, em apoio ao Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e à Polícia Civil. Claro que houve falhas no que tange a impedir a fuga de meliantes do Complexo do Alemão "disfarçados" de operários do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), como foi alegado. Falha que vai dar dores de cabeça à polícia e à cidadania nos próximos meses, pois esses bandidos, livres, voltarão a se aglutinar em algum outro conjunto de favelas, possivelmente na Baixada Fluminense. O cordão de isolamento ao redor do Complexo do Alemão teve esse furo. É importante que os responsáveis analisem essa falha para que não se repita em episódios futuros.
A terceira lição consiste na constatação de que é perfeitamente possível uma ação de grande envergadura, que abarque Polícia Civil, Polícia Militar e Forças Armadas, sem que seja quebrada a unidade de comando e garantindo a eficiência e rapidez das decisões. O acompanhamento dos fatos pelas autoridades ocorreu em tempo real e utilizando modernos aparelhos de videocomunicação para contato com as diversas unidades envolvidas na ação. O comando da operação ficou por conta da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, sem que isso significasse atrito com os quadros das Forças Armadas. Ponto positivo.
Vale a pena lembrar que nas cidades colombianas já se havia posto em prática mecanismo semelhante. O comando das ações policiais de combate ao narcotráfico é do prefeito metropolitano. Para que isso se tornasse possível foi feita, em 1993, uma reforma no texto da Constituição de 1991.
Quarta lição: foi muito eficaz a mobilização de funcionários públicos civis da área da saúde para garantir o apoio logístico às duas operações, pondo à disposição da Secretaria de Segurança do Estado os leitos hospitalares necessários, bem como o serviço de ambulâncias. Felizmente, não foi necessário fazer uso de tais dispositivos, em decorrência da rapidez e da eficácia da ação repressiva.
Quinta lição: o apoio decidido da cidadania às duas ações desenvolvidas pela Secretaria de Segurança Pública, que se manifestou notadamente na utilização, por parte dos cidadãos, do Disque-Denúncia para identificar os meliantes. Causou emoção aos telespectadores assistir aos testemunhos de humildes cidadãos e donas de casa, que expressavam a sua alegria por se verem livres do jugo do narcotráfico, imposto a ferro e fogo às populações, à margem da vida cidadã. A conquista da liberdade foi, certamente, o fator mais importante, do ângulo humano, para essas populações da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão. E nessa conquista a rápida ação dos policiais e dos soldados das Forças Armadas foi decisiva.
A sexta lição fica por conta do importante papel desempenhado pela imprensa em todos esses episódios, informando, passo a passo, os cidadãos a respeito do que se estava passando e ajudando a orientar os habitantes das comunidades envolvidas acerca do que deveriam fazer para entrar e sair com segurança.
A democracia ganhou com esse triunfo das autoridades. O efeito positivo certamente será potencializado com a efetivação das políticas de inclusão social que os governos estadual e municipal desenvolverão no decorrer das próximas semanas, elevando a autoestima dos cidadãos outrora reféns do narcotráfico. Esse efeito positivo já se observa nas comunidades onde foram instaladas as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).
COORDENADOR DO CENTRO DE PESQUISAS ESTRATÉGICAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA (UFJF)

CLÁUDIO HUMBERTO

“Não vejo o DEM nesse rumo”
GILBERTO KASSAB, PREFEITO DE SÃO PAULO, PARA QUEM O PAIS PRECISA DE PARTIDOS FORTES

INVESTIGADOS DESVIOS DE EMENDAS NO TURISMO 
A utilização de emendas parlamentares para financiar eventos supostamente “turísticos” continua sob investigação de órgãos como Polícia Federal, Controladoria Geral da União e Tribunal de Contas da União. As irregularidades – superfaturamento, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, etc – foram reveladas nesta coluna dezembro de 2009, envolvendo mais de R$ 250 milhões que podem ter sido simplesmente embolsados ou financiado campanhas eleitorais.

TUDO A VER 
A irregularidades foram verificadas na gestão do ministro do Turismo, Luiz Barreto, e do ex-secretário de Políticas de Turismo Airton Pereira.

CRIATIVIDADE 
A ideia de destinar emendas para financiar o Turismo foi do ex-ministro Walfrido Mares Guia, para compensar o reduzido orçamento do setor.

EMENDAS COM ÁGIO 
No Nordeste, um empresário de shows de forró teria comprado R$ 5 milhões em emendas parlamentares pagando ágio de apenas 30%.

FINO, IMPERCEPTÍVEL 
Há um ano a CGU prometeu pente fino em 1500 eventos pagos pelo Ministério do Turismo com emendas. Tão fino que não se vê.

CÂMARA: PETISTAS REAGEM À HEGEMONIA PAULISTA 
Deputados do PT de várias regiões se articulam para barrar a influência da bancada de São Paulo, que, além de indicar o futuro presidente da Câmara, ainda deseja impor o líder, ameaçando uma hegemonia ainda maior que na era Lula. Esse grupo quer um nordestino na liderança da bancada. O mais cotado é o irmão de José Genoínio, deputado José Guimarães (CE), cujo assessor foi preso com dólares na cueca.

CABEÇA QUENTE 
O deputado Ciro Gomes está enfurecido por ter sido preterido para o BNDES. Foi esfriar a cabeça, por 30 dias, no gelado hemisfério norte.

AGORA É TARDE 
Sem vaga no ministério, Patrus Ananias sinalizou que aceitaria o STF. Era tarde. Lá atrás, sondado por Lula, ele esnobou a indicação.

INSUBSTITUÍVEL 
O vice Michel Temer enfrenta dificuldade para substituir Julio Bono, o assessor e que morreu afogado recentemente. Continua perdido.

ANAC BOAZINHA 
Se o passageiro compra e não viaja, paga multa e “taxa de emissão” de um novo bilhete. Mas quando as empresas aéreas cancelam um voo, não pagam multas nem indenizam o passageiro otário.

PREOCUPAÇÃO 
Preocupa a presidente Dilma a reunião da bancada do PT, prevista para o dia 6, que escolherá entre Arlindo Chinaglia e Candido Vacarezza para presidir a Câmara. Ela e Lula preferem Vacarezza.

FILHA PREOCUPADA 
Roseana Sarney tem resistido à pregação do senador Renan Calheiros e da presidente Dilma para que o pai dela dispute novamente a presidência do Senado. José Sarney permanece calado. Ela, não.

GLOBALIZAÇÃO 
A gigante de alimentos americana Sara Lee vai adquirir a empresa curitibana Café Damasco, dona do Café do Ponto. A operação vai custar R$ 100 milhões, valor da produção da Damasco em 2009.

ARAPONGAGEM ERRA... 
A agência de inteligência americana CIA diz em seu “World Factbook”, um almanaque mundial, que a população brasileira em mais de 201 milhões, há um ano. O IBGE contou um a um: somos 190,7 milhões.

... MAS NEM TANTO 
Também segundo o World Factbook da CIA, o Brasil tem mais de mil estações de rádio e mais de 100 canais de TV, “a maioria da iniciativa privada”. E adiciona: “o controle da mídia é altamente concentrado”.

RECRUTA ZERO 
Nem precisa ser o finado polvo Paul para adivinhar: se o tráfico abandonar o complexo do Alemão e Lula subir, como prometeu, o fará num tanque, diante da imprensa, proclamando o “nunca antes...”. 

QUEBRA-CABEÇA 
Louvável a tentativa de estabelecer a ordem no Rio, mas manter a paz é desafio de cubo mágico, encaixando peças das Farc, da corrupção, do terrorismo internacional, do contrabando. Perde uma, perdeu todas.

EM CAMPANHA 
E assim como não quer nada, Lula vai montando o ministério Dilma, ou melhor, limpando o caminho para entronizar o Lulalá 2014. 

PODER SEM PUDOR
PIRATARIA VIETNAMITA 
Os deputados Aldo Rebelo (PCdoB-SP), Professor Luizinho (PT-SP) e Eduardo Campos (PSB-PE) faziam compras na visita ao Vietnã, em 2003, quando o atual governador de Pernambuco se interessou por um par de tênis de marca, que custava espantosos 8 dólares (21 reais, na época). Mas hesitou, temendo que fosse uma cópia pirata. Rebelo deu uma gargalhada:
– Meu amigo, o tênis custa 8 dólares e você ainda quer que seja autêntico?!

BAR ZIL

QUARTA NOS JORNAIS

Globo: Tráfico usou serviços públicos para sair com armas do Alemão

Folha: Polícia investiga desvios de drogas e facilitação de fugas

Estadão: Exército pode ficar no Rio até a Copa e atuar em outras capitais

JB: Tranquilidade no Alemão e medo na Baixada

Correio: Previdência do servidor vira desafio para Dilma

Valor: Comissão cobiça receita incerta de R$ 27 bi do pré-sal

Estado de Minas: Armas, drogas, mas...cadê os bandidos?

Jornal do Commercio: Crescem os golpes ao consumidor

Zero Hora: Vazamento WikiLeaks - Visão do Itamaraty sobre EUA constrange Planalto

terça-feira, novembro 30, 2010

JANIO DE FREITAS

Insegurança pública
JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 30/11/10

A presença de militares no Rio criou mais nós no velho problema de participação, ou não, das Forças Armadas


A PRESENÇA de militares na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão não resolveu e ainda criou mais nós no velho problema da participação, ou não, das Forças Armadas em ações contra a bandidagem armada. Ou seja, contra a insegurança interna: da população, de atividades industriais e imobiliárias em determinadas áreas, e de presença de serviços do Estado sem licença dos chefes locais, caso de obras do próprio governo, como o PAC.
Foi por força desse problema que coube à PM e à Polícia Civil do Rio serem a força avançada na invasão da Vila Cruzeiro, conduzida sua primeira leva por blindados dos Fuzileiros Navais. À Marinha foi pedido, e prontamente atendido, o auxílio de alguns blindados de transporte dos fuzileiros. Ao Exército foi pedido auxílio de tropa, que não foi mandada à operação na Vila Cruzeiro.
Há duas versões para a omissão. Por uma, o comandante do Exército participava de solenidade quando a participação era considerada; então teve que ir, depois, a Brasília para conversar com o ministro da Defesa sobre o assunto; e disso resultou o atraso de um dia e meio para a inclusão do Exército no conjunto de forças.
Ainda bem que não se tratava de acontecimento grave e urgente. Na era das comunicações, Marinha, Nelson Jobim e o secretário José Mariano Beltrame tomaram as decisões preliminares por telefone. Em dez horas os blindados e seus fuzileiros estavam prontos na Vila Cruzeiro, e logo se tornaram um sucesso de público e de eficácia.
Mais simples, a outra versão, vítima de súbito sumiço depois de sucinta publicação, coincide com vários precedentes: o Exército só participaria de operação se o comando fosse seu -o que nem cabia considerar, com o planejamento pronto e tantas providências já efetivadas. Beltrame teve o mérito de não se curvar na situação e registrou para os atentos que só a Marinha estava na operação por ser a que aceitou participar, na definição consagrada, da "recuperação da Vila Cruzeiro para o Estado".
O problema do papel impreciso das Forças Armadas no Brasil em democratização projeta distorções variadas. A operação no Cruzeiro e no Alemão era propriamente policial, em conformidade com a concepção de polícia e de sua função?
Armas pesadas, de combate, não são próprias do equipamento policial. Polícias estaduais e a Polícia Federal têm, há tempos, grupos constituídos como comandos de ações de guerra, imitação iniciada pela PF por adoção dos terríveis ensinamentos difundidos, na TV, pela série "Swat". Até um uniforme sinistro (e irregular), os agentes da PF se deram e estimularam nos comandos bélicos das polícias estaduais: vestem-se de preto, botas militares, tocas ou capacetes, diversas armas militares, cartucheiras por toda parte e signos expressivos.
Tais comandos têm prestado serviços, a par de agressões aos direitos humanos e a todos os outros direitos, mas, em geral, não estão no papel de polícias. No mínimo, ocupam funções atribuídas, por lei, às PMs. E, como operações nas fronteiras exemplificam, nem das PMs, mas do Exército.
"Recuperação do território para o Estado": a frase é o centro das narrativas e considerações em todos os meios de comunicação, a respeito da operação no Cruzeiro, no Alemão e em futuros objetivos. Se, porém, um território brasileiro não está sob controle do Estado brasileiro, trata-se de anormalidade posta pela Constituição sob responsabilidade das Forças Armadas, incumbidas da segurança física nacional. E, portanto, da unidade territorial maculada se uma fração sua se põe à margem do Estado.
Essa barafunda toda vai muito bem com o Brasil, mas não tardará a fazer com que o Brasil vá mal por um novo motivo. Será o de forças armadas demais, cada vez maiores por necessidade, cada vez mais capazes de autonomia e, não por predicado seu, tão mais sujeitas à corrupção quanto mais poderosa a sua presença. Se a Força Nacional deve ser nacional mesmo, se conviria criar a Guarda Nacional, que explicitude deve ser dada à função das Forças Armadas -seja o que for, precisa de atenção, a começar dos olhares dos meios de comunicação.
A insegurança pública criada pela criminalidade explícita tem um outro lado, que é o meio de combatê-la sem criar outras formas de insegurança.

JOSÉ SIMÃO

 Ueba! O Bope vira Ibope!
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 30/11/10

E um cartaz num poste do Rio: "Pai Nascimento do Bope: traz a pessoa armada em dois dias". Rarará!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Não aguento mais narcotráfico! Tô ficando com complexo de alemão! E o Bope vira Ibope. Adorei a cobertura da mídia: "E atenção, direto do morro do Alemão, um tiroteio com exclusividade pra Globonews". É a primeira vez que vejo tiroteio com exclusividade. Assinaram contrato? E o tiroteio tem vale transporte? Rarará!
E aquela casa, na subida do morro, que pendurou um cartaz: "EU AMO A RECORD!". E a Record ama Jesus! Rarará!
E cartaz num poste do Rio: "Pai Nascimento do Bope: traz a pessoa armada em dois dias". Rarará! E como disse uma amiga minha: "Eu quero ser invadida pelo Bope! Tô trocando complexo de cinderela por complexo de alemão: ser invadida sábado a noite por um monte de homem musculoso e cara pintada!".
E eu vi duas fotos hilárias. Os bopes subindo o morro e, atrás, a placa "Serviços Funerários". Outra, os bopes subindo o morro e um cartaz no poste: "Pensão do Bilau. Alberto Todos os Dias". Esse Alberto Todos os Dias é traficante também?
Aliás, adorei os nomes dos traficantes: Mr. M (faz sumir pó, fumo, lança, cliente, amigo), Sandra Sapatão e Chupetinha do Juramento. Esse vai fazer chupetinha em outro lugar. Rarará!
E a polêmica da bandeira? Que bandeira teria que ser hasteada no alto do Alemão? Brasileira, bandeira do Rio, da Polícia Civil? O povo do Twitter resolveu: tinha que hastear o símbolo do Biscoito Globo!
E uma socialite vendo a invasão: "Chega de pobreza! Daria pra eles invadirem o Country Clube pra eu copiar uns modelos de Réveillon, que eu tô sem ideia?".
E aí apareceu escrito na tela: "Morador cruza com traficante". O quê? Morador cruza com traficante? E nasce o quê? Uma metralhadora? Rarará! E traficante quando morre vira pó?!
E adorei a casa do trafica. A piscina, adorei o golfinho soltando água pela boca. E todo mundo: "Casa cafona, brega pra cacete!". Ué, mas é estética de trafica! Queriam o quê? Sofá da artefato com "chaise longue" do Niemeyer?
E mais um predestinado: sabe como se chama um dos seguranças do Cristo Redentor? JESUS! Rarará! E, quando ele nasceu, a mãe disse: "Meu filho, você vai se chamar Jesus e vai tomar conta da estátua do teu irmão". Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

GOSTOSA

ILIMAR FRANCO

O ministro do Rio 
Ilimar Franco 

O Globo - 30/11/2010

A presidente eleita, Dilma Rousseff, já fez sua escolha para o Ministério da Saúde. Ela quer que o secretário de Saúde do Rio, Sérgio Côrtes, assuma a pasta. Sua transferência para o governo federal foi discutida ontem, na Granja do Torto, no encontro de Dilma com o governador Sérgio Cabral. O PMDB manteria assim, em suas mãos, o maior orçamento. Mas não se sabe, ainda, qual a reação de seus líderes e dirigentes com essa escolha.

Os três curingas de Dilma Rousseff
A presidente eleita, Dilma Rousseff, considera curingas, na montagem do ministério, os petistas José Eduardo Cardozo, Paulo Bernardo e Fernando Pimentel. Os três serão ministros. Cardozo vai, provavelmente, para a Justiça; Paulo Bernardo está indo para Comunicações; e Pimentel pode ir para o Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Mas os três sabem que podem acabar sendo escalados para outras áreas, dependendo das necessidades criadas na composição com os partidos aliados. O que melhor ilustra essa indefinição é o caso de José Eduardo Cardozo. Até ontem, ele não tinha procurado ninguém do Ministério da Justiça.

Desejos
O PT de Pernambuco quer ficar com o Ministério do Desenvolvimento Social, o da Cultura ou o de Ciência e Tecnologia. Os petistas pernambucanos argumentam que seu desempenho nas urnas justifica um cargo no primeiro escalão.

Diferença
Os políticos já perceberam que há uma diferença enorme de estilo entre o atual vice-presidente, José Alencar, e o futuro vice, Michel Temer. Eles dizem que Temer atua com desenvoltura e visibilidade. Alencar é mais discreto.

Jogando contra
O PT trabalha contra a indicação de Fernando Bezerra Coelho, apadrinhado do presidente do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para o Ministério da Integração Nacional. Os petistas elogiam seu trabalho na Secretaria estadual de Desenvolvimento Econômico e na presidência do porto de Suape, mas reclamam que, politicamente, ele seria um “trator”. Ou seja, o PT teme perder espaço, caso Coelho ocupe a pasta.

Primeiro o PMDB, depois os demais

A presidente eleita, Dilma Rousseff, inicia a semana tratando da participação do PMDB em seu governo. Além da Saúde, decidida ontem, já está certo que o senador Edison Lobão (MA) voltará para o Ministério de Minas e Energia. O partido terá ainda mais duas ou três pastas. O ministro Nelson Jobim (Defesa) não entra na cota do PMDB. Depois disso, Dilma começará a decidir o espaço dos demais partidos da aliança. O PSB vai levar Integração, e o PP pode manter Cidades.

DORA KRAMER

Antes tarde Dora Kramer 
O Estado de S.Paulo - 30/11/2010


Entusiasmo é material perecível, assim como senso crítico é matéria prima indispensável ao desenvolvimento da humanidade. Agora, desqualificar o trabalho das forças estadual e federal no combate ao poder do tráfico no Rio de Janeiro na última semana é, além de uma atitude retrógrada, um exercício de crítica à deriva. Um equívoco, sobretudo.

São poucos, mas ainda há focos de resistência ao reconhecimento de que o que houve no Rio significou um avanço incontestável em relação ao que estávamos acostumados a ver. Principalmente nos últimos 20 anos, quando o crime já havia consolidado suas posições e as autoridades ainda resistiam - por incompetência, compadrio ou indiferença - ao enfrentamento.

Embora seja pertinente o questionamento sobre as razões pelas quais não houve antes uma atuação semelhante às retomadas dos territórios de Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, na região da Penha, zona norte da cidade, a mera repetição dessa pergunta não leva a lugar algum.

Melhor que perguntar por que o Estado não agiu antes é cobrar das autoridades a continuidade desse tipo de ação. No País todo. Já ficou demonstrado que o poder público, quando quer e se empenha, ganha sempre.

É mais forte que o crime. Detém a legitimidade da força e, a despeito de enfrentar a "desvantagem" da obrigação de atuar dentro da lei frente a um inimigo livre dos ditames legais, é infinitamente superior a ele.

Portanto, não há mais daqui em diante nenhuma justificativa para que não se prossiga nesse combate. Muito menos existem quaisquer explicações para que o governo federal em conjunto com os governadores não elabore e institua uma política de segurança pública de caráter nacional e com sentido prioritário.

Essa é uma tarefa que se impõe ao governo de Dilma Rousseff. Depois de 16 anos consecutivos de fracassos na área, nos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio da Silva, é hora de a sociedade aplicar o critério da tolerância zero em relação à responsabilidade dos governantes no cumprimento do dever constitucional de garantir o direito à vida aos cidadãos.

Isso abrange a inclusão de diferentes áreas: legislativa, judicial, trabalho de fronteiras, posição do Brasil em relação aos países que exportam drogas e não fazem o combate necessário à exportação de armas, combate duro aos barões da criminalidade, o expurgo da corrupção (da polícia, da política, do Judiciário), sem prejuízo também de se revelar responsabilidades sobre décadas de omissão.

A população que não sofre na pele a escravidão pelos traficantes no cotidiano parou de considerar o bandido um herói e, de um modo geral, a mentalidade em relação à defesa dos direitos humanos está se alterando: há o viés social, mas não há que se desprezar o poder da repressão.

A cultura do protesto vão - passeatas da elegantzia e da intelligentzia que o ex-chefe de polícia Hélio Luz denunciava por "protestar de dia e cheirar à noite" - deu lugar à participação objetiva e mais que efetiva por intermédio do Disque-Denúncia.

A polícia, por sua vez, começou a atuar como aliada do cidadão, substituindo a arbitrariedade pela inteligência e o planejamento estratégico, sob um comando sério e integrado.

Nada está resolvido, mas está provado que o Estado sabe o caminho. Se não enveredou por essa trilha até hoje, a hora é agora. Sem recuos, pois as condições estão postas e o rumo da recuperação da soberania do Estado está dado. Sem margem para ambiguidades.

Dona da casa. De Lula a FH, muitos se arvoram o direito de dar conselhos públicos à presidente eleita. Não fica bem.

Mais não seja no que tange ao ex-presidente, porque ele pertence à oposição. Derrotada e "eleita" para se opor.

No Twitter. @DECUBITO: "Que a polícia tire os bandidos das ruas e o povo tire os bandidos da política."

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Otimismo no setor de material de construção cai, diz estudo 
Maria Cristina Frias 

Folha de S.Paulo - 30/11/2010

O anúncio feito ontem pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, da prorrogação das desonerações para material de construção civil por mais um ano deve animar o setor em um momento de desaceleração do otimismo.
As perspectivas dos empresários da indústria para o mês de dezembro apontaram queda em sondagem que será divulgada hoje pela Abramat (Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção).
A pesquisa mostra que houve uma diminuição no otimismo para 75%, um aumento da expectativa regular para 20% e aumento de pessimismo para 5%.
Os últimos levantamentos do nível de emprego na construção civil realizados pelo SindusCon-SP também já apresentavam arrefecimento no ritmo de crescimento.
O fôlego dado ontem ao setor, que inclui redução de IPI, deve voltar a aparecer na próxima sondagem, segundo Melvyn Fox, presidente da Abramat.
"A alta da demanda se mostrou um pouco menor que a estimada. Mas a pesquisa pega um período de mudança e insegurança. Não sabíamos se haveria continuidade do IPI nem como seria o ministério. O governo começa a mostrar que o diálogo continua", diz Fox.
A sondagem entre os associados da entidade foi feita nos últimos 20 dias.
Com relação ao mercado externo, a pesquisa aponta aumento da expectativa pessimista de 38% em outubro para 50% em dezembro.

MÁQUINA PARA ENFRENTAR O CÂMBIO

A Villares Metals tem novo diretor-presidente. Harry Peter Grandberg assumiu o comando da empresa no início deste mês com planos de investir R$ 30 milhões na modernização do parque fabril em 2011.
O valor é superior ao deste ano, que teve orçamento feito em período ainda de crise, segundo Grandberg.
A empresa projeta faturamento de cerca de R$ 700 milhões, também maior em relação a 2009.
As exportações, porém, caíram de 40% para 30% do resultado deste ano .
"O câmbio tem impedido que sejamos competitivos nas exportações", diz Grandberg. "A modernização do maquinário será um diferencial para que continuemos a exportar para os principais mercados, a Europa e os EUA."

i-PAD PARA O CORAÇÃO

A Transform, detentora da marca "i-PAD" no Brasil desde 2007, avalia tomar uma decisão em razão do anúncio da Apple de começar a vender o seu iPad no Brasil.
A Transform fabrica equipamentos médicos e de informática. O seu i-PAD é um desfibrilador. Uma abreviação de Intelligent Public Access Defibrillator.
"Vamos atrás do que a lei nos garante. Esse nome é de nossa propriedade", diz Mario Antonio Michelletti, presidente da Transform.
"A Apple nunca nos procurou", completa ele.
Michelletti diz que a empresa tem planos de, no futuro, fabricar o próprio tablet.
No início deste mês, a Apple entrou com um pedido de cancelamento do registro do desfibrilador da Transform no Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial).

Investimento e câmbio travam competitividade no Brasil, diz CNI

O atual ambiente macroeconômico brasileiro é desfavorável à competitividade das empresas quando comparado ao de países como China, Índia e Argentina.
Estudo elaborado pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), com 14 países, com base em cinco variáveis macroeconômicas, revela que o Brasil aparece em último lugar na média geral.
"As empresas brasileiras enfrentam maior adversidade em relação aos seus competidores diretos", diz Rafael Lucchesi, diretor de operações da CNI.
O país ocupa a pior posição nos casos de taxa de investimento e de câmbio real.
"A baixa taxa de investimento desfavorece um ambiente de negócios. Revela que o país tem de recorrer à poupança internacional. O câmbio tira a competitividade", afirma ele.
Nos quesitos dívida bruta do governo, taxa de inflação, e investimento estrangeiro direto, o país ocupa posições intermediárias: 8ª, 9ª e 10ª, respectivamente.
Na avaliação de Lucchesi, para um ambiente mais favorável, "o governo deveria trabalhar melhor a questão do câmbio, além de criar estímulos para aumentar os investimentos". O estudo será tema do 5º Encontro Nacional da Indústria, que será realizado amanhã, em SP.

USIMINAS COM GÁS EM IPATINGA

A Usiminas começa a usar, a partir desta semana, o gás natural na área de produção da Usina de Ipatinga (MG).
O objetivo é economizar R$ 40 milhões por ano.
O combustível, fornecido pela Gasmig (Companhia de Gás de Minas Gerais), será utilizado no Alto-Forno 3 e na Aciaria inicialmente.
No Alto-Forno 3, o gás substituirá o coque.
A partir de 2011, o gás natural será levado a outras áreas da usina, em substituição total ao óleo combustível e para cobrir o deficit dos gases gerados no processo siderúrgico. Até meados de 2013 serão concluídas obras para uso do gás em áreas de recozimento e caldeiras, linhas de galvanização e outros.

Aquisição de... A brasileira TCI, de terceirização de processos, anuncia a aquisição de 91,25% da Build Up, empresa do Grupo Edenred, antiga Accor Services. A Build Up atua na área de soluções de RH, como processamento de folha de pagamento, e conta com 280 colaboradores e carteira de 80 clientes.

...tecnologia A aquisição deve impulsionar a TCI a alcançar faturamento de R$ 230 milhões neste ano. Como parte da estratégia de expansão, a empresa tem ainda mais quatro aquisições em vista para o próximo semestre.

Manutenção... A Eletrobras Furnas modernizou o sistema de administração de pagamentos e contratos. A nova plataforma de gerenciamento de informações financeiras permitirá centralizar os dados.

...econômica A expectativa é que a mudança de sistema gere economia mensal em torno de R$ 1 milhão, montante que deixará de ser gasto com a manutenção do antigo sistema de informação.

Tragos... O novo presidente do Sindicato da Indústria do Fumo do Estado de SP, Sérgio Vilas Bôas, defende um regime tributário diferenciado para pequenos e grandes fabricantes de cigarro.

...de tributos A batalha do sindicato tabagista começa amanhã, na Comissão de Desenvolvimento Industrial, que a entidade passou a integrar recentemente. O novo presidente foi eleito para o triênio de 2011 a 2013.

GRANDE COMO SÃO PAULO

A iluminação da ponte Octavio Frias de Oliveira, na zona sul, para este Natal formará um pinheiro de 138 metros de altura por 70 metros de largura. As luzes serão acessas amanhã à noite. Serão 40 mil clusters de luz que além de simular uma árvore de Natal também terão cinco animações diferentes inspiradas na cidade.

JAPA GOSTOSA

CELSO MING

Cláusula de calote 
Celso Ming 

O Estado de S.Paulo - 30/11/2010

Por mais paradoxal que pareça, esquerda e direita ou, rotulando de outra forma, populistas ou durões, dos Estados Unidos e da Europa, convergem na proposta de tratamento a ser dado aos credores.

As esquerdas e os populistas avisam que o povo sofrido não pode ser chamado a pagar com perda de salários, desemprego e mais impostos pelas lambanças dos bancos. E os durões e conservadores, tanto nos Estados Unidos como na Alemanha, entendem que os bancos têm de ser chamados a pagar uma boa parte da conta do ajuste.

Nesse fim de semana foi aprovado o socorro de ? 85 bilhões à Irlanda. A contrapartida foi a distribuição do pão que o diabo amassou à população do país: redução de salários, adiamento da aposentadoria e aumento de impostos.

O Prêmio Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, vem escrevendo que o povo da Irlanda não pode ser convocado a pagar pelos desmandos do setor financeiro. A chanceler da Alemanha, a durona Angela Merkel, sugeriu que a dívida dos países quebrados devesse ser submetida a uma reestruturação (renegociação) pela qual os bancos assumiriam um pedaço da conta. O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, foi contra. Avisou que essa proposta acentuaria a rejeição dos títulos da dívida dos países a perigo e puxaria para cima os juros, aumentando o tamanho do rombo futuro.

Ficou definido que, apenas a partir de 2013, a utilização do Mecanismo de Estabilidade Financeira, o sistema que vai herdar regras e recursos do Fundo de Estabilidade criado em maio para resgatar países em dificuldades da área do euro, só pode ocorrer depois que a dívida já tiver sido reestruturada com os bancos, sob monitoramento do Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas o presidente da França, Nicolas Sarkozy, conseguiu barrar outra exigência da chanceler Merkel, a de que a reestruturação fosse automática.

O problema de base não foi eliminado. A partir do momento em que os títulos de dívida incluírem cláusulas de calote será inevitável uma mais forte diferenciação entre os juros a serem pagos pelos membros da área do euro. E essa diferença, por sua vez, será a nova razão para ampliação das disparidades entre índices de competitividade dos países do centro (especialmente Alemanha, Holanda e França) e os da periferia (hoje, Grécia, Portugal e Espanha). A derrubada das bolsas europeias ocorrida ontem é reflexo disso.

A longo prazo, ou a área do euro tratará de montar um sistema de governança que unifique a política fiscal e tudo o que a ela está ligado (impostos, despesas públicas, administração da dívida, etc.) ou, então, o próprio euro será refém de forças desintegradoras.

Afora isso, por mais abutres que pareçam os credores diante do sofrimento do povo, não faz sentido culpá-los pelas agruras pelas quais vêm passando tantos países europeus. Quem se atirou ao endividamento até além do admissível foram os governos, seja para gastar mais (caso da Grécia e Portugal), seja para socorrer os bancos (caso da Irlanda). Foram eles que fabricaram a arapuca em que estão metidos. Não podem agora responsabilizar os credores pelos males dos quais os governantes são responsáveis.

Isso não é nem jogo da direita nem da esquerda. É consequência das decisões tomadas ou das omissões cometidas.

O gráfico mostra como cresce o crédito dos bancos em relação ao PIB.

Armínio no FMI?
O New York Times de sábado avisa que o próximo gerente-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) poderá vir de um país emergente. Aponta como candidato forte o atual presidente da Bolsa, Armínio Fraga.

Questão de qualidade
Em entrevista ao diário Buenos Aires Económico, o ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira disse que a economia da Argentina é mais sólida do que a brasileira.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

O dia seguinte 
Renata Lo Prete 

 Folha de S.Paulo - 30/11/2010

Mais do que sugerir seus nomes para o ministério, o governador Sérgio Cabral (PMDB) veio a Brasília ontem repetir à presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), o que tem dito a aliados: para a operação contra o tráfico no Rio ser bem sucedida no longo prazo, ele precisará de cobertura federal. Sua preocupação mais imediata é garantir efetivos e recursos para manter a ocupação dos morros e avançar com o modelo das UPPs.
O peemedebista está, por ora, fortalecido. E sabe que, se prevalecer a avaliação positiva da operação, ele recolherá os dividendos políticos. O PMDB está de olho na movimentação do governador.

Monitor A Câmara constitui hoje uma comissão parlamentar de acompanhamento da crise no Rio. Proposta pelos deputados Chico Alencar (PSOL-RJ) e Luiz Couto (PT-PB), terá como escopo avaliar a ação continuada e preventiva do poder público no combate ao crime.

Eu, heim? Diante da profusão de comentários sobre a influência de Lula na escolha dos futuros ministros, Dilma observou a um integrante do atual governo: "Engraçado. A imprensa gostaria que eu conversasse com o DEM, por acaso?".

De mudança Paulo Okamotto, amigo do peito de Lula e presidente do Sebrae desde 2005, deve deixar a agência para trabalhar no futuro instituto do petista.

Mãozinha A eventual indicação de Lídice da Mata (PSB-BA) para o Ministério da Integração Nacional conta com o apoio entusiasmado do presidente do PDT, Carlos Lupi. Motivo: o suplente de Lídice é o pedetista Nestor Duarte, que dessa forma assumiria cadeira no Senado.

Continuidade Não apenas o presidente José Sergio Gabrielli tende a permanecer no posto na Petrobras. Diretores como Guilherme Estrella (Exploração e Produção) também devem manter suas funções mais tempo.

Só pensa naquilo Em telegrama a Washington divulgado pela organização Wikileaks, o então embaixador Clifford Sobel credita a presença brasileira no Haiti à "obsessão" de Celso Amorim em ampliar as chances de o Brasil obter assento no Conselho de Segurança da ONU.

Curto... O PT espalha o que seria um recado de Dilma: ela estaria determinada a retirar do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) a ascendência sobre Furnas.

...circuito São esperadas mudanças na Eletronorte, presidida por Josias Matos de Araújo. Já na Eletrosul, o comando poderá permanecer nas mãos de Eurides Luiz Mescolotto, ex-marido da senadora Ideli Salvatti (PT-SC).

A pedido Lula tinha programado se despedir de viagens internacionais em Georgetown, na Guiana, para onde foi na semana passada. Mas, atendendo a um apelo de Cristina Kircher, presidente da Argentina, decidiu desembarcar em Mar del Plata nesta sexta para a 10ª Conferência Ibero-americana.

Alicerce Não parte apenas de Geraldo Alckmin a tentativa de estreitar laços com o meio sindical. O PSDB-SP também decidiu criar um núcleo voltado à interlocução com os sindicatos de trabalhadores, que será comandado a partir de hoje por Antonio de Sousa Ramalho, ligado à construção civil.

Panetone Em campanha por novo mandato na presidência da Assembleia, Barros Munhoz (PSDB) promoveu evento de boas-vindas aos deputados eleitos, que têm como primeiro ato a eleição da mesa, em março.

tiroteio

"O 'NYT' estampa que a ação no Alemão visa a segurança para a... Olimpíada! Nós queremos segurança aqui e agora, não para 2016 nem só para estrangeiro desfrutar."

DO DEPUTADO CHICO ALENCAR (PSOL-RJ), sobre a cobertura realizada pela imprensa internacional da ofensiva contra o tráfico no Rio.

contraponto

Melhor dizendo

Aos 18 anos, José Alencar tomou um empréstimo de 15 contos de réis com o irmão Geraldo para abrir seu primeiro negócio, uma loja de tecidos na cidade mineira de Caratinga. Os juros eram de 1,5% ao mês.
Quando um gerente de banco lhe ofereceu 1%, Alencar procurou o irmão, que prontamente explicou:
-Não te cobro juros. Aquilo é aluguel do dinheiro...
Esta e muitas outras histórias do vice-presidente da República são relatadas na biografia "José Alencar -Amor à Vida", da colunista da Folha Eliane Cantanhêde, a ser lançada amanhã em São Paulo.

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Rio 40 graus
Sonia Racy 

O Estado de S.Paulo - 30/11/2010

Empresas de ônibus que tiveram veículos incendiados durante os nove dias de ataques no Rio esperam finalização do diagnóstico de prejuízos realizado pelo advogado Juarez Bonelli. Com os números em mãos, ele decidirá, junto aos empresários do setor, se entra com ação indenizatória contra o Estado.
Bonelli calcula R$ 200 mil por cada um dos 32 coletivos destruídos, em média. "O governo carioca faz pressão para colocar ônibus na rua em dia de violência. Depois, quer retirar os escombros rapidamente por causa da comoção social. Isso tudo sem garantir segurança", lamentou Bonelli, ontem, à coluna.

Rio 2
Adriano, atacante do Roma, afirmou não ter acompanhado a invasão militar na Vila Cruzeiro, favela onde nasceu.
O jogador, aliás, já depôs sobre supostos envolvimentos com o tráfico da região.

Rio 3
Celso Athayde, da principal ONG do Complexo do Alemão, a Cufa, fez uma sugestão à polícia via Twitter. O produtor musical recomendou ao comando instalar uma ouvidoria para moradores da favela.

Rio 4
Denis Mizne, do Instituto Sou da Paz - que briga pelo desarmamento - falou à coluna sobre a invasão da Vila Cruzeiro. Para ele, a solução seria uma política consistente "que desarme e tire o controle territorial, não apenas do tráfico, mas também das milícias".

RSVP
Mais atenção às caixas de correspondências: a partir de sexta, a Presidência começa a postar os convites para a posse de Dilma. É Gilberto Carvalho quem está à frente da comissão que organiza a festa.

Crista da onda
A Praia do Tombo, no Guarujá, será a segunda no Brasil a receber certificação internacional de qualidade ambiental, concedida pela Fundação para o Desenvolvimento da Educação. A Bandeira Azul, que tremula em 521 praias espanholas, referência para o exigente turista europeu, será fincada no balneário em dezembro.

Merci
Na plateia da Jazz Sinfônica, sábado, no Auditório Ibirapuera, Dominguinhos chamou a atenção. A presença do sanfoneiro foi lembrada pelo acordeonista Richard Galliano, que se apresentou no concerto: fez uma pequena pausa e o saudou. Em francês.

Caso Sean, ainda
O padrasto de Sean Goldman, João Paulo Lins e Silva, não desiste. Pedirá a Dilma que interceda junto à Justiça americana. A família brasileira quer o direito de, ao menos, visitar o menino de dez anos que vive com o pai biológico em New Jersey, nos EUA.

Sean 2
Diante da absoluta falta de notícias, a família que mora no Rio pediu aos advogados americanos que mandassem prova confirmando que o garoto estava vivo. A avó, Silvana Bianchi, recebeu, então, um recado no celular: "Oi, vó, tudo bem? Me manda um... (palavra não compreendida). Depois eu te ligo, beijos".
Tudo em inglês.

Um milhão de amigos
Roberto Carlos colocará toda sua obra na internet nos próximos meses. Estão avançadas as negociações entre o empresário do cantor, Dody Sirena, e o grupo que viabiliza na rede canções de Bob Dylan, Barbra Streisand e Elvis Presley.

Saravá
É melhor a Faap se benzer. Francis Coppola, que aterrissaria ontem para première de Tetro, adiou a visita por problemas técnicos no avião que o traria dos EUA. É a segunda vez que a universidade passa algo do gênero.
Oliver Stone veio em maio e ficou preso na alfândega por falta de visto. E quase não chegou para a pré-estreia de Ao Sul da Fronteira.


Na frente

Mesmo com todo tumulto no Rio, o livro Jorge Hue, Vetores de Uma Vocação, com fotos de José de Paula Machado, será lançado hoje. Onde? No Palácio das Laranjeiras.

Quem venceu o Citigold Masters Tour anteontem, foi Ricardo Barbara, da Apple Brasil, e Arnaldo Curvello, da Mira Capital. Este ano, o tenista Ronaldo Barsotti ficou de fora.

Francismar Lamenza lança Os Direitos Fundamentais da Criança e do Adolescente e a Discricionariedade do Estado. Sexta, na Livraria da Vila da Lorena.
Beto Ribeiro autografa Eu Odeio Meu Chefe. Hoje, na Saraiva do Shopping Higienópolis.

Paulo Miklos canta sucessos de Noel Rosa. Hoje, no CCBB.
O Centro da Cultura Judaica abre, a partir de amanhã, o Ciclo Multicultural.
Otávio Piva de Albuquerque, da Expand Wine Bar, abre hoje unidade na Daslu, de sua irmã Eliana Tranchesi.

A Fundação BNP Paribas Brasil convida para retrospectiva de Raymundo Colares. Hoje, no MAM.

Dura é a vida de transição. Com a agenda lotada de pedidos de audiência, Alckmin tem almoçado em bandejões populares do centro de SP e encomendado McDonald"s.

ILUSÃO DE ÓTICA

MERVAL PEREIRA

A polícia e o estado de direito 
Merval Pereira 

O Globo - 30/11/2010

Os relatos que começam a surgir de abusos de poder por parte de policiais na ocupação do Complexo do Alemão têm que ser investigados e reparados o mais rapidamente possível pelas autoridades responsáveis pela segurança pública no Rio, para que não se quebre o clima de solidariedade entre a população e as forças da lei, a principal razão do sucesso da operação.

Houve uma mudança fundamental na atuação das forças de segurança nesse episódio, com os limites da lei sendo respeitados e os direitos dos cidadãos, até mesmo dos traficantes, norteando a ação de repressão. Desvios eventuais têm que ser reparados.

No domingo, a Globo News colocou no ar diversos depoimentos de estudiosos que destacaram em uníssono o que fez a diferença desta ação policial das anteriores.

O psicanalista Joel Birman, professor da Uerj e da UFRJ, considera que a população sentiu que a polícia deixou de ser ambígua, o que a motivou a sair da inércia.

“A polícia se firmou como sujeito de um estado de direito. O imaginário das pessoas faz com que elas se sintam protegidas por uma autoridade e saiam do medo paralisante que até então os dominava”, comenta Birman.

O recorde de telefonemas para o Disque-Denúncia demonstra, segundo ele, que, quando os cidadãos passam a acreditar na ação das autoridades, no momento em que fazem a denúncia, acham que estão trabalhando para ajudar a limpar a comunidade de elementos nefastos.

“Foi a maneira decidida de agir que deu à população a sensação de segurança”, diz Birman, ressaltando que não só a polícia não se deixou intimidar pelos traficantes como se apresentou com uma força muito maior, e não negociou para entrar na favela.

O recado dado aos traficantes e à própria população foi: “Nós vamos entrar e prender vocês. Nós estamos do lado do bem e vocês, do lado do mal. Nós estamos do lado da lei e vocês, do lado do crime. O Estado vai recuperar esse território”. Para Joel Birman, a imagem da fuga dos bandidos “foi como se a gente sentisse a reconstituição da sociedade do Rio”.

Uma sociedade é uma associação de pessoas, lembra Birman, e com a operação “surgiu a possibilidade de uma população fragmentada, assustada, cada um tratando de sobreviver no seu canto, de repente reconstituir os laços sociais e participar com solidariedade através do Disque- Denúncia, através das redes sociais, do Twitter”.

Para Joel Birman, o fato de a TV Globo ter transmitido ao vivo os primeiros momentos da ocupação deu maior transparência à operação e evitou que qualquer excesso eventual fosse cometido.

O sociólogo Ignácio Cano, da Uerj, preocupa-se com o reforço da lógica da guerra, e ficou aliviado por não ter havido um banho de sangue.

Ele temeu que tivéssemos um retrocesso com a ação da polícia meramente reativa às ações dos bandidos, deixando de lado o planejamento estratégico que rege a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

“Há centenas de comunidades no Rio de Janeiro ainda dominadas pelo tráfico e pela milícia, e não há sentido em cantarmos vitória”, ressalta.

Para ele, o mais importante é a retomada do território, e, para isso, as forças de segurança terão que continuar no Complexo do Alemão até que se instale uma UPP.

Diante de um comentário meu, Cano ressalvou que não é possível punir as comunidades que estão sob o domínio do tráfico com a falta de obras públicas.

Eu me referia às bandeiras hasteadas no teleférico do Complexo do Alemão que, se por um lado sinalizam uma vitória das forças legais, também relembram que as obras do PAC estavam sendo feitas com a favela dominada pelo tráfico, o que demonstra que havia um acordo com os traficantes.

A própria rota de fuga pelas tubulações subterrâneas e os túneis que os operários teriam sido obrigados a construir mostram que não há possibilidade de fazer acordo com bandidos sem se envolver com algum tipo de desvio.

Francisco Carlos Teixeira, professor de história contemporânea da UFRJ, classifica de “uma vitória” não ter acontecido a grande explosão de violência, o banho de sangue que se temia.

A operação, destaca, mostrou que as forças policiais e militares tiveram uma boa atuação dentro do estado de direito. “Vimos que é possível ser duro, manter a ordem, sem violação dos direitos civis, do direito da população. Também vimos que há eficiência, há competência”.

Ele destaca, no entanto, a importância de o governo federal agir. “Não se trata de colocar à disposição do estado carros blindados e tropas, porque isso é uma exceção. Tem que agir é no cotidiano: a Receita Federal tem que controlar a lavagem de dinheiro, a Polícia Federal tem que tomar para si a missão constante de controle de fronteira, não apenas na crise, e a Polícia Rodoviária Federal não pode deixar chegar cocaína, maconha e armas ao Rio de Janeiro”.

Ele acha que houve nitidamente uma diferenciação na ação, destacando que “infelizmente nos lembramos claramente que as incursões da polícia nas comunidades populares no Rio eram movidas pela vingança e culminava em coisas lamentáveis como Vigário Geral e outras tantas até recentemente”.

Jacqueline Muniz, antropóloga, professora da Ucam e da UFRJ, diz que a diferença desta vez “foi a qualidade da ação do governo. Diante da incerteza, da imprevisibilidade, do temor, responderam com superioridade de método, regularidade”.

Também demonstraram, ressalta, uma capacidade de ação coordenada, integrada, e, portanto, “uma ação de natureza federativa”.

Jacqueline Muniz também acha que foi importante a prestação de contas regular que foi feita à população. “Na normalidade democrática, as forças da lei dependem da cooperação da população. Como fazer busca e rastreamento sem mandado de busca e apreensão? As próprias casas são geminadas, umas se ligam às outras. É preciso fazer isso com a cooperação da população. Quanto menor o nível de resistência da população à polícia, menor é o risco em operações especiais”, destaca.

Ela destacou dois aspectos importantes na operação do fim de semana: o centro de triagem e identificação, para minimizar a possibilidade de erro nas detenções, e a montagem de centros de socorros.

MÍRIAM LEITÃO

O dia seguinte 
Miriam Leitão 

O Globo - 30/11/2010

É emblemático que o símbolo da conquista seja uma bandeira brasileira numa obra do governo. O teleférico é do PAC, o PAC é do governo. A bandeira ser o retrato da reconquista exibe a ambiguidade da situação. Mas nunca tivemos tanta chance de enfrentar nossas contradições e vencer uma forma de organização da economia do crime no Rio que incluía o controle territorial.

O Rio sonhou muito com este momento. Foi um avanço quando todos passaram a entender que os bandidos tiranizam as populações locais. Parece simples agora que o conceito se firmou, mas por muito tempo havia desvios na forma de pensar o problema das áreas do Rio onde o crime se instalou. Os governos sempre pediram licença às “autoridades” locais para entrar, o que significava legitimá-las. Por isso a palavra “libertação” se justifica. Depois da euforia, é hora de pensar com racionalidade os passos seguintes, os dias seguintes.

O que apareceu até agora foram os frutos do crime: um enorme volume de drogas e de armas apreendidas. Sabese pouco do paradeiro dos chefes. A Polícia e as Forças Armadas ocuparam o terreno para estrangular fisicamente o tráfico, mas os canais financeiros que alimentam o negócio continuam abertos. É uma atividade que gera muito dinheiro e muito desses recursos acaba circulando pelo sistema bancário.

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e o Banco Central foram importantes quando se combateu o PCC em São Paulo. As pessoas ligadas direta ou indiretamente ao crime precisam ter suas movimentações financeiras analisadas cuidadosamente pelo Coaf, cuja função é esta mesma. O órgão não faz trabalho de campo. Ele analisa informações de movimentações financeiras suspeitas para evitar que dinheiro ilegal vire legal. Oficialmente, o Coaf tem que ser informado apenas de movimentações acima de R$ 100 mil. No caso do tráfico, há milhares de depósitos de pequeno porte numa mesma conta. É mais difícil de flagrar. O órgão já está atento.

O tráfico é uma atividade econômica. Criminosa, bandida, mas que tem os mesmos elementos de qualquer outra: emprega, gera renda, tem uma logística de distribuição dos seus produtos, tem financiamento e mercado. Mesmo se por milagre todos os chefes do tráfico forem presos, outros tomarão seus lugares e a atividade econômica continuará. O economista Sérgio Besserman avalia que a vitória foi contra um dos absurdos, o maior deles:

— Os Estados Unidos gastam US$ 15 bilhões por ano lutando contra as drogas e estão perdendo. O que houve neste fim de semana foi uma vitória contra a lógica de controle territorial do crime que existe no Rio. Mesmo que em Los Angeles ou São Francisco circule mais droga do que aqui, os criminosos não são donos de partes da cidade. Quando o Estado aceita não entrar em uma área, ele passa a admitir tudo. Esse foi o sentido dessa vitória.

Como o Estado organizou as obras do PAC? Como as empreiteiras fazem seu trabalho? Que poder têm os bandidos sobre os trabalhadores contratados? Obviamente tudo foi feito com negociação ou anuência do tráfico, do contrário a Polícia não instalaria uma bandeira no teleférico como símbolo da libertação.

Nós vivemos agora a agradável sensação de alívio. Uma fortaleza que parecia inexpugnável foi conquistada com vários ineditismos, como a cooperação entre as forças do Estado. Foi um dia realmente histórico, mas para não perder a vitória é preciso dar os outros passos.

O secretário de Assistência Social, Ricardo Henriques, já tem pensado esse futuro. O PAC social tem projetos em andamento. Já beneficiou 2.700 famílias com novas casas e apartamentos, instalou uma escola de ensino médio de qualidade, fez uma UPA. Aquele morro que foi visto por todo mundo com os bandidos fugindo da Vila Cruzeiro para o Alemão será reflorestado para ser área de preservação ambiental. Com a UPP, chegará também a UPP Social, que vai olhar antes a realidade local.

— Cada comunidade tem uma realidade diferente. Pavão- Pavãozinho, Chapéu Mangueira são diferentes do Alemão — diz Ricardo Henriques.

O economista André Urani confirma essa ideia, lembrando que em algumas favelas da Zona Sul há uma economia no entorno. No Alemão, não.

— Em volta do Alemão é um cemitério industrial. E não adianta pensar em novas indústrias, porque as grandes cidades estão se desindustrializando. Lá, moram pequenos prestadores de serviços, pintor, a mulher que faz o sacolé (picolé em saco), o serralheiro. É um mundaréu de pequenas atividades órfãs. Não adianta querer formalizar tudo. Se a mulher do sacolé tiver que pagar pela luz do freezer — e o governo estadual ainda cobrar 40% de imposto sobre a luz — ela vai preferir a informalidade — diz Urani.

É preciso não esquecer que todas as favelas da Zona Oeste ainda estão sob o domínio das milícias, e que das 13 comunidades onde há UPP, só uma, a do Batan, foi tirada da milícia.

Os dados sobre o Alemão são pouco confiáveis, segundo Besserman, porque há uma subdeclaração. Moradores preferiam não dizer que são de lá pelo estigma do local. Agora, o Complexo será mais bem estudado.

Enfim, o desafio da vitória se multiplica e se bifurca como as ruelas do Alemão. Há muito a fazer no dia seguinte a uma vitória como essa. Mas que bom que chegou o dia seguinte.

ARNALDO JABOR



A segunda entrevista do bandido

Arnaldo Jabor 

O Estado de S.Paulo
-Em maio de 2006, tu me entrevistou... Estou lembrado da tua cara... Saiu até no Harper"s Magazine... em inglês...
Agora estão me mudando de Catanduvas, acho que para Roraima, sei lá. Mas, creia que eu não ordenei ataque nenhum, que não sou burro. Você acha que eu ia queimar ônibus e jogar a população contra nós? Isso é coisa de traficas idiotas... Na época, você me perguntou como entrei no crime e eu te disse que eu era invisível desde menino... Vocês nunca me olharam durante décadas... E olha que era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias... A solução é que nunca vinha... O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos de barracos ou nas músicas românticas sobre a "beleza dos morros ao amanhecer", essas coisas... Os policiais eram considerados bandidos e nos éramos heróis, lembra? "Vítimas da miséria." É; mas quem fez o crime crescer não foi a miséria; foi o capitalismo, cara. Com a multinacional do pó, ficamos ricos e as armas chegaram... Aí começou o "que horror!", "que medo!" entre vocês do asfalto. Nós fomos o início tardio de vossa consciência social...
- Como assim?
- Nós somos filhos tortos do crescimento econômico; e vocês também. Nosso enriquecimento e virulência obrigaram vocês a se modernizarem na repressão. De certa forma, vocês aprenderam conosco, numa espécie de "formação reativa dialética". Viu, como sou culto? ...Li centenas de livros em Catanduvas.
- Sim, mas você que viveu na barra-pesada, me diga, qual é a solução?
- Vocês só chegam a algum sucesso se desistirem de defender a "normalidade". Olha aqui, mano, não há mais solução! A própria ideia de "solução" já é um equívoco pequeno-burguês... há há ...é filosoficamente uma esperança vã!
Mas, vou ser franco contigo, na boa, na moral: estamos todos no centro do "Insolúvel". Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira.
Só que nós sabemos que não há saída. Só a morte ou a merda. E nós já trabalhamos dentro delas. A morte para vocês é um drama cristão numa cama. A morte para nós é o "presunto" diário, desovado na vala... Vocês, intelectuais, não falavam em "luta de classes", em "seja marginal seja herói"? Pois é: somos nós! Há há...
Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivada na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro "Alien" escondido nas brechas da cidade. Você não ouve as gravações feitas "com autorização da Justiça"? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de Pós-Miséria. Isso. Há uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação social, são fungos de um grande erro sujo.
- O que mudou nas periferias?
- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$ 40 milhões, como o Beira Mar, não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel. Quem vai queimar essa mina de ouro, tá ligado?
Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes.
Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produtos vêm de fora; somos globais.
- Você acha que o caminho é esse?
- Vocês estão fazendo uma crítica da própria incompetência. Esse negócio das UPPs é muito bom. É a primeira coisa imaginosa que apareceu. Mas, se não houver uma reforma geral das instituições, as UPPs podem morrer na praia. Elas mantêm o paciente vivo, mas não combatem a doença original.
Tem de haver uma reforma radical do processo penal do País, tem de haver comunicação e inteligência entre policias municipais, estaduais e federais, programas sociais e educação. Tudo bem... agora melhorou muito; aumentou o pragmatismo e a eficiência. Nós sempre estivemos no ataque; vocês na defesa. Agora tudo se inverteu. Parabéns.
A repressão aprendeu muito conosco. A polícia e a política aprenderam com o excesso de horrores que já produzimos nos últimos 30 anos, aprenderam com os tremores da população, com os ônibus pegando fogo, com as cabeças cortadas, com os micro-ondas torrando os X-9s , aprenderam que não há mais solução e sim "processo" e por isso vocês estão ganhando terreno. Parabéns. Mas, agora como se diz no Exército, está na hora do "aproveitamento do êxito". Não adianta tomar o morro e depois sair, não adianta matar, celebrar vitórias, não adianta nada se...
- Sim, o que devem fazer as forças policiais?
- Vou dar um toque, mesmo contra mim. Escreve aí: peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas.
Isso não é assunto para polícia, não. Isso é uma questão de Estado, é tão importante quanto impedir o desmatamento. Está havendo uma mudança psicológica na população. Faz parte do crescimento econômico. Não é bom para o mercado uma zorra como a nossa. A produção no mundo está nos obrigando à modernização e à democracia. Eu estou falando como um cientista político porque sou um cientista sobre mim mesmo - há, há... Meu destino está traçado, o sangue está grudado em mim, mas o destino de vocês também está. Eu vejo hoje muito mais do que via, mas vocês também têm de mudar. Estou lendo o Klausewitz - Sobre a Guerra - e digo que vocês não podem esperar uma vitória total, solução, a paz em Ipanema e o mundo voltando atrás. Nunca mais.
É com no Oriente Médio, com os homens-bomba. Nunca haverá uma vitória clássica. Dá para melhorar, urbanizar, civilizar, mas o mundo de hoje tem um preço trágico que todos terão de pagar. Todos vamos conviver com a própria miséria.
De qualquer forma, parabéns... por linhas tortas chegaram lá. A história não é uma linha reta. É um ziguezague.
Vocês nunca terão uma solução completa, mas, ao menos, já conhecem o problema...
Vamos lá... Vou vazar para Roraima... mas, olha, cara: não há mais segurança máxima na vida...
Bye bye, Catanduvas...